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BUHÉON: A INFERIOMDADE
DAS ESPECIES ANIMAIS NA AMÉRICA
INEXISTÊNCIA DE GRANDES ANIMAIS SELVAGENS
Atese da “debilidade” ou “imaturidade” das Américas - quando se _
dispensa qualquer imagem poética elisabetana, como aquela de Donne, que
fala de “aquele lado imaturo da terra”,¡ e a de Samuel Daniel, que acena
com o “Ocidente ainda informe" -2. nasce com Buffon por volta de mea-
dos do século XVHL
Uma das mais importantes descobertas de Buffon, das que maior orgu-
lho despertava nele, é que as espécies animais do Velho Mundo e as da Amé-
rica meridional são'díƒerè`n`tes'. Diferentes e em muitos casos inferiores, ou
mais débei s, as do Novo Mundo. Ao descrever o leão da América, ou puma,
num lampejo pondera que-o referido leão não é um leão, mas outra alimá-
ria~, peculiarà América e não identificável ao rei dos animais do Velho Mun-
do. Além de não possuir juba, “também é muito menor, mais fraco e mais
covarde que o verdadeiro leão” .3 Porém, a fulminante intuição do confron-
to entre o puma e o' leão subitamente se estende a toda a série dos grandes
mamíferos. Os animais desfilam ante seus olhos como se descessem em fila
da arca de Noé; Ofnaturalista os perscruta um a um e a todos recusa a cida-
dania americana, jure sanguinis et jure soli.
“Os elefantes pertencem ao Antigo Continente';'€'|íãn'existem no Novo
[...] não se encontra ali nenhum animal que se compare a eles, seja pela di-
mensão, seja pelo talhe.”* Ó único animal que se pode cotejar longinqua-
mente ao elefante é¡a anta brasileira, mas a anta, maior mamífero da Amé-
rica, “este elefante do Novo Mundo" - escreve Buffon, com forte acento
_irônico, como se díssesse'"esse elefantusc
' ' ulo americano” - “tem a dimen
são de um _nov1lh`0 de seis
' meses _ou de uma pequenissima
` mula* .5 É um be-
zerrinho, um jumento, um paquiderme de bolso. ' ' 4
` Rinocerontes não Nem muito menos hipopótamos. Camelos, dro-
medários, girafas, são rigorosamentedesconhecidos. “Inexistem de todo ver-
dadeiros slmios na América.” Aquela espécie-¿e~ä¡unele'qne›den'0i_¡1ír1°asn
_ lhama é ainda mais rnirrada que a anta. Parecelrande “pela dilatação do
pescoço e altura das pernas”. Mas, ainda que caminhe sobre p ernas
' »d`e pau
e espiche o pescoço, permanece um animal pequeno. “A alpaca- é bem me-
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2° 0 Novo MUNDO aurronz A iNFEiuoiuDADe nas ssracir-.s ANnvi›.is NA .~.MÉiucA" 21
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nor.“7 Os confrontos ' .
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malores I. , _ poderiam
_ continuar. Porém
_ , _todos confirmam que as obstáculos ao desenvolvimento e talvez à formação dos grandes gq-mzs; 05 ma.
_ árias da América são “quatro,.seis, oito ou dez vezes” meno- mos que-, sob a doce influência de um outroclirna. receberam sua pizua fm-mz
TCS que as do Antigo Continente. e sua completa extensão, se restringem, se amesquiriham sob este oeu avaro e
rosaSA:OU§âü›0;/empio, as espécies de quadrúpedes são muito-menos nume- sobre esta terra desolada, onde o homem, em pequeno numero, era esparsoí”
setent un o que no Velho: Buffon conta 130 neste e menos de errante; onde, longe de usar- este território como um mestre a seu domínio, ele g
-É naquele- Existe, portanto, um estoque mais escasso de espécies, e as não possuia qualquer império; onde, não tendo jamais submetido nem os ani- *`
mais nem os elementos, não tendo domado os mares» nem direcionado os rios, l W
Que exlstem SÂO em geral mais mirradas. Uma primeira conclusão se impõe:
a natureza
‹ - bem menos variada,
viva é, portanto, bem menos ativa, . e pode- nem trabalhado a terra, ele era, em si, somente um animal de primeira classe 5
mos até- dizer bem menos forte”.3 e existia para a natureza apenas como um ser sem conseqüência, uma espécie
de autõniato impotente, incapaz de reforma-la ou- auxilia'-la: ela o tinha tratado Ê
menos como mãe que como madrasta, recusando-lhe o sentimento do amor e É
DEGENERESCÉNCIA Dos ANIMAIS DoMÉsT1c0s l o vivo desejo de multiplicar-se; pois, aindaque o selvagem do Novo Mundo
possua aproximadamente a mesma estatura do homem de nosso mundo, isso
não é suficiente para que ele constitua uma exceção 'ao fato geral do apequena-
lšssa. debilidade da natureza é confirmada pela sorte dos animais do- mento da natureza viva em todo este continente. O selvagem é débil ea pequeno _
mésticos mtroduzidos pelos europeus na América. Foi um desastre em toda nos órgãos da reprodução; não tem pêlos nem barba, nem qualquer ardor por z
lmha. Todos' se atrofíaram, se apequenaram, foram reduzidos a anões ou sua fêmea: embora mais ligeiro que o europeu, pois possui o hábito de correr, _._.ø_
ascaricaturas em miniatura de seus protótipos: é muito menos forte de corpo; é igualmente bem menos sensível e, no entanto,
mais crédulo e covarde; não demonstra qualquer vivacidade, qualquer ativida- I
Os cavalos, os asnos, os bois, os carneiros, as cabras, os porcos, os cãa etc., de d'a1ma; quanto à do corpo, é menos um exercício, um movimento voluntá- '_
todos esses animais, digo,`tornaram-se menores; e [...] os que não foram rio, que uma necessidade de ação imposta pela necessidade: prive-o da fome `
transportados, mas lá chegaram por si mesmos, numa palavra aqueles que são e da sede e terá destruído simultaneamente o principio ativo de todos os seus ¡
. comuns aos dois mundos, tais como os lobos, as raposas, os cervos, osvcabritos movimentos; ele permanecerá num estúpido repouso sobre suas pernas ou dei- ¡
.
, monteses, -os alces, são também consideravelmente menores na América que na tado durante dias inteiros.” '
:_ _ Europa, e' isto sem' exceção alguma:9
As ovelhas e cabras puderam aclimatar-se na Ainéric`a,_ mas “habitual-
mente são mais magras”. Os cameiros “geralmente possuem a came menos IMPOIÊNCJA Do SEL VAGEM
suculenta e tenra que na Europa". E definitivamente - mas sempre “em
geral” - pode-se dizer que “de todos os animais domésticos que foram trans- A passagem éimportante sobretudo pelas funções que indica ao homem.
portados da Europa para a América, o porco é o que-melhor e mais univer- Poucos e débeis, os seres humanos do Novo. Mundo não puderam dominar
salmente se adaptou' '. 1° . . a natureza hostil, não souberam vencer e submeter as. forças virgens e revertê-
lasem seu benefício. Ao invés de colaborar para o desenvolvimento das es-
pécies animais e 0 aperfeiçoamento das raças domésticas, o próprio homem
NA TUREZA. HOSTIL . perinaneceu submisso ao controle da natureza, manteve-se como um elemento
-\.¡ passivo da natureza, um animal como os outros - apenas primus inter -pa-
Pode-se agora dar um passo adiante no raciocínio, Os_ animais indige- res. Insensivelinente, arrastado pelo fio do raciocínio, Buffon estende ao sel-
nas são poucos e pequenos, Os importados tornaram-se pequenos ou menos vagem americano o juizo negativo pronunciado sobre os qquafdrúpedes. O
apetitosos (exceto o porco). Portanto, o ambiente, a_nati1_r`eza americana é homem não é uma exceção. Pelo contrário, encontra-se pior ainda que os
hostil ao desenvolvimento dos animais. Ao paralelo puramente, geográfico outros animais devido àquela sua frigidez: “a natureza, ao recusar-lhe as
sobrepõe-se um critério genético. E Buffon avança- impávido nessa direção, potências do amor, maltratou-o e. apequenou-o mais que a qualquer um dos
estendendo a toda a “natureza viva' '* as observações feitas a propósito. dos animais”.'2 A
quadrúpedes: _ _ ~. _ ~ O nexo singular entre a impotência do selvagem e a ausência de grandes
' Efiste, portanto, na combinação dos elementos e demais causas fisicas, qualquer animais ferozes - nexo de um erotismo setecentista sutilmente escabroso
coisa oposta ao engrandecimento da natureza viva neste novo mundo: há - parece sugerir a Buffon outro grande passo adiante. Frio é o selvagem.
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0 Novo MuNi>o
riui‹1=oN_z A iNi=EiuoiunAnE nas especies AunziArs NA âdisaicà 23
Fria é a serpente F . __ -z
- 13111 répteis e insetonoã Sao os ammaífi d¢ Sangue frio. E na América pulu- devido a ser, 'por seu turno, inertenoamor e assemelhado aos animais de
S› fedüentemente com dimens` “
nhuma Parte do mundo os inset " " ces glgamescas' Em ne- sangue frio, mais próximo da natureza aquática-e putrefara do Comil;ente.
sapog, 1-53 e outras bestas °s 530 M0 grandes como na América “Os _
. ›› ia Metade do reino dzÍ)sÊÊó3°,n°f°
¡-¡¢a_ ~ - -
5a0_l8Ualmente . grandes na 'Amé-
muito Neste círculo vicioso gravita a explicação erótico-hidráulica da singular na-
de se atrofia É necessári 31°° 5° aglgaflífl. ao passo que a outra meta- tureza americana: .
coma dos dom '_ fenômenos? 0 portanto . encontraru ma explicaçao
' * que preste
É, portanto, sobretudo por existirem poucos homens na América e por levarem
l em sua maioria uma vida- de animais, deixando a natureza em bruto e
Vejamos
_
tao então por que se en
pequenos quadrú d con 1ram tao
- grandes repteis.
z - tao
_ avultados insetos,
. negligenciando a terra, que ela pennaneceu fria, incapaz de produái' os princípios
ativos, de desenvolver os gernies de quadnipedes maiores, os quais precisam,
da qualidade da tar P6d cs e homens_ _ .tão frios neste Novo M un d o. Isto denva '
Situação da elevaçãi- das COUÓIÇOCS do CÉU, do grau de calor, de umidade, da para crescerem e se multiplicarem, todo o calor, toda a atividade que o sol pode
estagnadflas da _ as montanhas, da quantidade . de águas correntes ou I
conceder à terra amorosa; e é pela razão inversa que os insetos, os répteis e todas
encontra a , natureza'
extensao
N das florestas
_ ¢ . S0 b rcludo, do estado bruto no qual se as espécies de animais que se arrastam no lodo, cujo sangue éiágua, e que pululam
em meio à podridão, são mais numerosos e maiores em todas as terras baixas,
úmidas e pantanosas deste Novo Continente.”
Ef V.01`1ä Pvufquviv vorrefille err múerre.
Aquela “terra amorosa”_e, em contraste, aqueles animais que ao invés
de sangue possuem água nas veias resumem, em duas imagens vivas, a idéia
FRIA UMIDADE DO AMBIENTE nuclear de Buffon.
b.ünhTãdavia, o elenco sumário e desordenado apresenta dois traços bem su-
. a os. o estado bruto da natureza e o aspecto pantanoso da paisagem. ? A PODRIDAO E A GERAÇAO, A ÁGUA E A VIDA
Já. Oviedo repetira à saciedade que “umidissima terra são estas Índias”,
que “esta terra é assaz umidíssima” etc.,'5 e o padre Acosta notara (1590) Entretanto, deonde se origina a teoria do nexo entre umidade do am-
que em definitivo “a maior parte da América, por esta demasia de Êiguas, biente e abundância de insetos e serpentes? Tudo leva a pensar que seja um
não se pode habita.r”.¡5 A razão? A grande força do sol, que atrai os vapo- resíduo das longas polêmicas setecentistas a respeito da geração espontânea
i
res do Oceano e, ao refrescar-se à tarde, faz com que 'estes seprecipitem em de vermes e víboras a partir de corpos em putrefação e terras encharcadas.
chuva - 17 explicação meteorológica incompleta, porém mais racional do O padre Kircher fora ridicularizado por Redi devido à sua pretensa expe-'
que a de um dilúvio ou de uma drenagem imperfeita. riência com serpentes assadas, trituradas, semeadas num terreno irrigado por
Buffon, por sua vez, representa o continente encharcado com toda a água da chuva e germinando oito dias depois em “pequenos'vermes“, que,
magia de seu estilo descritivo e fornece uma antecipação prolixa daquela terra ,l
nutridos com leite e água, convertiarn-se em “serpentes perfeitamente con-
poética de Victor Hugo, “ainda molhada e lânguida do dilúvio”, sobre a figuradas”.22 Os frios animais de Buffon, “que puliilarn em meio àpodri- -
qual o homem descobre inquieto as pegadas dos gigantes (Boaz endorrr`ii),"* dão”, são descendentes dessas “gerações de serpentes [_ . .] por apodrecimen-
e que compreende, podemos acrescentar, aquele Brasil amorfo onde--“a ter- to” contra a qual polemizava Redi.
ra guarda a maciez das primeiras eras”.19 O naturalista pinta .com tons vi- Porém, a tese da geração espontânea a partir da matéria putrefata -
vidíssimos aquele clima quente e lãnguido, com suas estações úmidas e mal- aplicada já por Aristóteles às moscas e mosquitos (em harmonia com sua
sãs, que estimulam o espessamento de uma vegetação sufocante, e concluí: _._,__. __ teoria geral dos quatro elementos, em que a degeneração de um é a geração
Neste estado de abandono, tudo se enlanguesce, tudo-se corrompe, tudo sufoca: do próximo), reafirmada por Plinio no que diz respeito especificamente 'às
o ar e a terra, sobrecarregados de vapores úmidos e nocivos, não conseguem serpentes e retomada nos tempos modernos, em função. antiascética porl..e
se depurar nem aproveitar-se das influências do astro da vida; o sol daiídeja Roy (1579) e Vanini (l6l6),7-3 e-num sentido apologético e católico por Tas-
inutilmente seus mais vivos raios sobre a massa fria; esta não tem condições so (1607) - 14 só seria batida e rechaçada pelos famosos experimentos de
de responder a seu ardor;,produn`rá apenas seres úmidos,_plantas, répteis,.insetos, i. Pasteur sobre a fermentação. E ainda assimmão definitivamente: em seuúl-
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e somente poderá nutrir homens frios c animais débers;2° _ timo tratado, Claude Bernard discute, e não descarta, a tese, tão preexisten-
Retornainos assim ao ponto de partida, segundo o qual a natureza ame- cialista em seu sabor verbal, de que “a vida é putrefação [...] a vida não
rícana é débil porque o homem não a dorninou e o homem não a dominou passa de uma podridão”.”
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o Novo iviimno Bui='i=oNz_ A rirmsniokin Ann nas
- meiácrns ANuviAiS NA AMEMCA 25-
Buffon; para evjt
C°m ° Passa'-' d° t°mP°› 3 ÉCSC da prolificidade como defesa passiva
. mação, adotam um sâíëãs dügmas do criacionismo e dasteorias da pré-for- das espécies inferiores - reivindicada desde o inicio ¿ , -_
-É nas °'-'wflrvações
(1745_8) míría faiâzes
_ _ ~ uma amPh.“d°
e seu amigo, id” Íg°““'9ã° °SI×›fl¢ân=a",
o microscopista Needham, baseado
ue vira .dade de Jonathan Edwards (1714), que mantinha emo;eé:fl;li?opee:L\ii›1:›(ä)<Íxa
. des de ciliados ulular 9 multiplicação das aranhas voadoras e sua suposta destruição no mar, fi., for-
isoladas.” Permanecia assüg b -em 11° Gildo quente de suas ampolas mal ma (111% 1110 &PÓS 8110, haveria sempre um número constante delas” - era
germinadas d a unudade
. ' e da › 5° _'3 Sllgestao de formas inferiores de vida
dud- sustentada inclusive por Bonnet (l=764);3" retomada por De Pauw;33 justifi-
nascmo deviam ser para ele elp° 3°- 0 P°d1'¢. 0 encharcado e o recém- I cada por Herder, como instrumento providencial para a evolução das espé-
O que ajuda a compreender co ementos conexos de uma mesma realidade _
navoscüava entre a “imatuñdgioyseu Pfiisamentosobre a natureza america- cies maisr nobres e menos numerosas, com o~ homem no-vértice da “pirâmide
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das cri‹`aturas”;'39' rejeitada por Brissot (1782) em favor' do extermínio pro-
brionario e outro em putrefaçãã C a decadencla”' entre um mundø em' videncial e contínuo das espécies excessivamente fecundas, fossem elas úteis
Talvez também t' ' ¡ ou nocivas;4° acolhida pelo padre Moliria;'“ redescoberta com cãndida sur-
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crenças populares soãíeteâäfll P1'eíenäes na mente de lšuffon as difundidas presa por Leopardi;.42 para em seguida tornar-se quase proverbialfi Em nos-
¡ enchm_cada_ Já Santo Agosfinh¢11oD<:11e<;lcio;:gos da água ou da terra
sos dias, por fim, ela foi- retomada quase pelo extremo oposto, por assim
fãs nascem d t H 27 '~ a_i o e exemplo que “as dizer, a partir de recentíssirnos biólogos e ecologistas, com. a idéia da “pirâ-
` ~‹»-._ «Sapinhos [ al cam - h NO ÍEIIIIJO de sao Francisco acreditava-se naqueles mide dos números”: “cada animal que se nutre de outra espécie que está
'j' q °_a C "Vai -no verao, faz nascer do pó das estradas”.28 O
padre Bartoli repetia no século XVII que as rãs “ao cair pelo verão na árida ' abaixo na escala aliinentar precisa selecionaruma espécie que seiamiuto
mais
¡..
516%'jlma gmícula d'á81la das nuvens incontinentes se formam'”.7-9 E o ex- mais numerosa e, em geral, nienor”',“ teoria que se avizínha tanto da ba-
e so ~ico rec_orda como um fato 'sabido que “da terra nascem, ao chover nalidade sobre o grande que devora o pequeno quanto se distancia das vi-
sões comovidas e vivazes de Buffon e Bonnet.
n° vem°› as manhas”-3° Da Própria Puerto Cabello americana não haviam Buffon se “aplicava” com excessiva facilidade ao Novo Mundo e suas
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"-'mu-. . ` escnm Juan ° UUÕH que “a gran'de`qua.ntidade que háfdeles [sapos], e o fato Í
i espécies. Porém, já um século e 'meio antes, Goodman (E616), em seu afã
` df: 31731'ecefem ÊOCÍOS, 1030 que cai um Aguaceiro, fizeram com que alguns
É concebessem que cada gota de Água se converte em um Sapo”?31 de demonstrar a decadência e' corrupção universais do cosmos, atribuíra a
A No pensamento de Buffon, essas embriologias copiosas e pluviosas de- mesma maternidade frouxa e infeliz. à Terra. inteira: “incapaz de produzir
leões corajosos, bravos unicórnios, tigres ferozes, elefantes robustos, ela as-
aparecer como casos particulares, ou felizes confirmações, daquela -sua
sume a tarefa e az ocupação de ser a mãe e a parteira de vermes, mosquitos
intuiçao.tao grandiosamente pessimista, digamos até trágica, segundo a-qual
e borboletas” ."5 E no século seguinte um poeta, que havia lido Buffon (ver
as espécies mais vis, mais abjetas, mais minúsculas são ao mesmo tempo as quem, p. 284), devia retomar, entre bi-*incalhão e desesperado, a teoria da
que se multiplicam com mais medonha fertilidade. A fecundidade lânguida multiplicação dos insetos como sinal- do iminente fim do mundo: i
das formas inferiores assegura sua sobrevivência, enquanto as espécies su- _ iI
Periores i os animais grandes, belos e robustos, sabem defender-se com sua Os naturalistas dizem que nosso planeta está eiivelhecendo, _de modo que a
nobre coragem, com sua força serena.” O elefante e o leão dominam co- multiplicação dos insetos dauinhos, cada vez mais perceptível ano após ano,
mo s enhores a plebe confusa dos incontáveis insetos. Balidos e rugidos troam talvez constitua um fervilhante sintoma da morte que se aproxima. Ó", trágico
fim para o mundo: ser devorado por piolhos; phthiriasils universalis, uma
sobre o coaxar covarde de miríades de baträquios. 'A América, úmida e pro- gigantesca pragaƒde piolhos! Anel*
li-fica mãe de animaizinhos minúsculos e malvados, privada- de feras magnâ- -_if-.-
nimas, .devia apresentar aos olhos de Buffon todos os sintomas de uma re- A angústia de Lenau se renova naqueles sábios de hoje que temem as
pugnante debilidade orgânica. . - conseqüências ruinosas do uso indiscriminado de inseticidas e pesticidas. Os
Poucos anos mais -tarde, Goidsmith aceitava prontamente a tese buffo- insetos, prolíferos e dotados- de inn rápido ciclo reprodutivo, mitridatizam-
É se e tornam-se imunes aos venenos químicos. O mesmo não ocorre com os_
niana '("°os menores reproduzem-se com mais -r'apidez'_'.),33 que na
realidade remontava a Plínio (“Mai'or o corpo do animal, 'menor' suafecun- animais superiores, aves e mamíferos, -cuiasz espécies são muito menos nu-
didade”)~,3" mas naquele momento histórico servia às mil maravilhas para merosas e de ciclo reprodutivo lento. Um uso desenfreado de inseticidas em
derrubar as apologéticas idéias dos teólogos, prontos a sustentar a utilidade vastas zonas do globo “poderiamuito bem» resultar na final deinuitas
dos insetos, sua dignidade jurídica, seu valor como instrumentos dajustiça espécies de aves canoras e inumeráveis outros tipos de vida= que apreciamos,
divina e até a fecundidade relativamente escassa de suas espécies mais no- deixando uma população de insetos- que é completamente resístente”."
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26 o Novo MUNDO

BUFFON: A INFERIORIDADE DAS ESPÉCIES AN! Mais NA AM1'-:iucA 27
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1 Desde o século xvm d
~ 2 e Í. . I '
É populaçao haviam indicado di; 3;, os pnÍn°“°S estudiosos do problema da servam”.55 Mas um naturalista sagaz _ e curioso como B u ffon certamente co-
i ¡-flidade das aristocm _ › _ _m °5°flfldfl10. ora com satisfação a este- Ji nhecia as conjecturas audazes de Maillet (1735, 1748), que fazia a vida nas-
gemes; C a tese da extrílaâae Í-iogefmlildaide desenfreada das classes mais indi- cer do oceano, e todos os animais e o homem descenderem das espéciBS [113-
l
mada, depois de Malth P ici a e dos inñmos seres humanos era reto- | rinhas correspondentes, na medida em que o mar se retirara dos cumes dos
,
fflásofos e, de Ó usede
_ Humboldt“porum
_ , a d'"
uzia d e sociólogos
' e montes -e fizera emergir os vales e planicies;5° e sobretudo devia ter fami-
crédito as espíâuíâäflš rflästas. Estiveram em moda e possuem ainda algum liaridade com o fato “bem conhecido" de que sem água os grandes orga-
l
mano segundo as Quaifdsliaii uma t fecuniiidade diferencial" do gênero hu- st nismos morrem efetiva e definitivamente, enquanto “para os pequenos or-
res" __ ' os .pobres do M _emen o s soci e antropologicamente
' ‹‹-infeno-
- ganismos inferiores a ausência de água resulta apenas na suspensão da vi-
ezzogiom
os rústicos plebeus da Índia , pro1 etários dos slums metropolitanos,
e da Êhãis -
da”, bastando, portanto, borrifar com novos soros os tecidos esturricados
i
.
mem _ mais ra _d
muito na“-teriam_ a faculda de de se reprodu _ dos rotiferos, dos tardígrados, dos verinículos do grão para se ver aqueles
› _ Pi amente que os su eriores” Desde Mont ' _ animaizinhos minúsculos e geralmente nocivos reviverem e se agitarem.”
que anuncia solenemente'- “as pessoas queP nao
d _ " possuem absolutamenteesqmeuna-
a, como A vida latente nestes desperta assim com o estímulo de qualquer orvalho.
éc 1 os mendig os, tem^ muitos filhos” -, ao longo de pouco mais de
1 A umidade do Novo Mundo devia predispô-lo, predestiná-lo até, a um infi-
flm 5 É °~ até 0 81'0tesco escândalo de fra Melitone: “Porém, esses andra- nito pulular de insetos, ofídios e batráquios. Na realidade, era mais fácil
Josos sao de uma fecundidade/ Verdadeiramente apavorante " 49 De uma
-.._. .-,¬
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potética consequência do Pecado Original, estatísticos ignaros deduzir-am
ii' . i
l para Redi, 'no século XVII, mofar daquelas “benditas cobrinhasƒeitas a
um corolári0 Para asseverar a necessidade ' ~ mão” pelo padre Kircher, que para Buffon, um século depois, libertar-se
cientifica da.miséria.5° da antiquíssirna enova associação mental do liquido com o vivente.
i
Porém, Buffon, distinguindo e comparando, já havia transportado aque-
le 'argu mento , de uma teologia ' cansada e inerme,
' para um plano pelo menos
iF
embrionariamente científico. Não ob`etiva1 va a contnçao
' ' dos crentes, mas I ORIGHVALIDADE -HISTÓRICA DAS AMÉRICAS
i
a melhor compreensão de como era de fato este nossomundo.
Mais tarde, Hegel, polemizando sobre a concepção de que a natureza Na última passagem citada de Buffon reaflora ainda uma explicação
viva se desenvolve no tempo,/através dos séculos e dos milênios (e abando- genética, primeiro no plano fisico e em seguida no humano, o qual exami-
nando assim os princípios de historicismos já existentes em Buffon), namos há pouco. Fisicamente, a América é um mundo novo, ou pelo menos
arfiemeteráfl contra a “nebulosa” suposição de que os animais e_ plantas vie- muito mais novo que o-antigo, um mundo que ficou mais tempo sob as águas
t
i ram da água. Mas, se projetamos aquelas crenças sobre o profundo passado do mar, que mal acaba de emergir e ainda não secou direito. Humanamen-
ao qual pertencem, seremos forçados a reconhecer que a visão da Vida co- te, a América é um continente ainda intocado, do qual o homem ainda não
mo derivada da Água é talvez a mais antiga das explicações científicas e um tomou posse, insalubre portanto para gente civilizada e superiores.
dos mais remotos mitos da humanidade. Nos tempos históricos podemos re- Depois de haver recordado como são recentes as memórias históricas das
montar pelo menos ao primeiro filósofo grego, Tales de Mileto, que - es- dinastias mexicanas e peruanas, como as crônicas das Américas mal pene-
'‹~ ~.- _-,_.~¢.¬- r›,v =*~" crevia satiricamente Vico - “começou por um princípio demasiadamente tram no passado, Buffon salta da história à pré-história:
insosso, a água; talvez porque tivesse observado as abóboras crescerem com
a `água”.52 Frazer evoca os temporais de primavera na pré-história, cujo es- Tudo parece indicar, portanto, que os americanos eram homens novos, ou, \
z ., .-¬.
Y melhor dizendo, homens tão remotamente expatriados que haviam'perdido toda ¡
.z trépito desperta a vida vegetal e animal, e os reis feiticeiros que abrem num noção, toda idéia do mundo de onde haviam saido.” Tudo parece coincidir em 1
passe de mágica as cataratas do céu. A Bíblia ensina desde as primeiras li- provar igiialmente que a maior parte dos continentes da era terra nova, 3
.¿-
..:..: nhas que Deus criou a água antes da terra e dos animais e plantas.” E a ainda fora do alcance da mão humana e na qual a natureza não' teve tempo i
ardente fantasia da Idade Média conecta a vida e a água nas lendas da Fon- de estabelecer todos os seus planos, nem de se desenvolver ein toda asua extensão; ¡ Ú
taine de Jouvence e- das imortais “filhas do Reno”. ' que oshoniens são frios e os animais pequenos. porque o ardor de uns e aestatura i
A água sugere mesmo à mais lerda imaginação o fluir incessante da vi- 4.-z._4.__
deoutros depende da salubridade e.do calor do ar; e que dentro defalgunsseculos,
da, fresca, ágil, ambígua. “A água é a vida iniciada.”“ Inclusive aqueles quando se tiverem arroteado as terras, abatido as florestas, regularizado os fios
r
literatos florentinosque se reuniram numa academia em 1540 se denorriina- e contido as águas, esta mesma terra passará a ser a-mais fecunda, a mais sã, (
1-am "05 Úmidos” para “augurarern-se vigor e substância, daquele modo i a mais rica de todas. como já parece sê-lo em todas as partes onde -o homem / W
em que as coisas criadas mercê da umidade sempre mais se acrescem e con- a trabalhou.” ' q,.vz ff
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,i 3° o Novo MUNDQ
nurrouz A iNFsiuoiun›.ni=. ms iâsmácm ›.i~‹iMAis NA Amiáizrca 3*
P0. Galileu Galile' z - . ,
com magnífica elol, Lig difendef seu ‹peq"°'_1°" satéhw de Jflvlter. exaltara
minúsculos dos óq ncia as virtudes das coisas pequemssimas, dos animais acarihada operária [...] Sua potência explode igualmente tanto na pr0<1\19ã°
Zír “as opegaçõcs Ilšíitšs pouc%volu[m‹;sos_, louvando a natureza pg; pmdu- É do mais vil inseto como na do homem mais soberbo".°°
.4_. .amu- - _ 11138111 1035 pe os meios mais tênues”-71 uzmdg Tudo inútil. Nem a atenção universal, reverente, do antigo Plínio. 116111
G¡ann°n° (C depois del C e onstantino) havia sustentado, na inédft q ' -_ os entusiasmos físicos do médico contemporâneo, nem 35 l¢D_\`»¢.5 3-°PP¡ada5
geg"°sa›
nugamn
. "a Perfeição
quando Md! dos animais peque nís simos ' como a abelha I aApe m_
e a ,for aos novissimos dispositivos óticos assistiam Buffon em suas investi8flÇÕ°§~
' °V3-fldi, Seguindo um ensaísta de pinturade 1564 O desprezo pelos animais pequenissimos era reforçado por Outra Clflah'
i exaltara a beleza dos insetos “a b
_ _ 1 sa edoria de Deus 'resplandece nesses arii-J _i dade fisiológica, mais precisamente sua miopia, que nem ao_inenos lhe per-
I
maizinhos mínimos” 73
_ _ __ ; quando Torquato Tasso enaltecera “do alto Senhor mitia empregar o microscópio; e por uma qualidade DSÍQUC?-› fgfmlmeme
v
a uam
alta potencia , que “nas negativa, ou seja, a impaciência em entrar nos detalhes e rninucias. ES'¢3›
í é . _ pe q uenas coisas ' se descobre";7'* e quando fazia
reflexo da fé de Buffon em seu próprio gênio (ainda que de PYÓPPÊ tenha
É biolougf? 5 01110 Cllle os microscopistas da Holanda tinham revolucionado
a.
~¬-_,-N.- cunhado o dito de que “o gênio não é mais que uma grande apfldaq Para
a paciência”), aparece em mil facetas: no tom com que ele fala da ¢01'f1' _
, Um dos primeiros microscopistas ingleses ,-Henry Power (1623-68 , di' - gem” necessária “para se ocupar continuamente de D°€l\1°fl°5 °bJet°S,c“]°
_.-_.,-u.-
Ccipulo
nh de _ Thomas Brown _ e, eserevera em 1663 que os antigos, por não )terem S
exame exige a mais fria paciência e nada permite ao EÊUÍO" ›m em sua °Ê1°br_e
1 0 _ eeldo aquele admirável mstrumento, descreviam “perfunctorily” os ani- réplica ao quimico que desejava corroborar experimentalmente certa intui-

E m.a_12~1£1h0S ma1S mlnusculos “como peças descuidadas e obras apressadas da ção: “O melhor cadinho é o esplrito”;82 I10 CÍCSPYCZO CXPWSSO Ffelas milha'
z
1 Criaçao.
__ Nesses _ _ammais ' as *cabeças mais ° rudesficam espantadas diante res e milhares de espécies de aves: “Desejo não trabalhar mais com_P¡\1'
de Peças prodigiosas e colossais da Natureza, mas nesses Engenhos estreitos mas”;83 na afirmação singular, motivo de pilhérias da parte de estudiosos
5 há uma Matemática mais curiosa".75 O estilo é florido, mas a acusação aos do jogo e do cálculo das probabilidades, de que uma “peq\!el13›" Df°bab11{'

z
antigos nao é de todo justificada. Encontram-se quase as mesmas palavras i1 dade, inferior a l/ 10.000, é uma “quantité ne'gIigeable” que se P056 Pfifffl'
no maior naturalista da Antiguidade. Plínio, ao iniciar sua descrição dos iri- tamente ignorar;*"'* no queixume de que, para classificar uma planta 56919'
setos (a mosca incl usive), ` " advertira
nao ' que em nenhuma outra obra a natu- do o sistema de Lineu, “é preciso ir, de microscópio em punho", OUSCY*/af
i
E reza empregou maior artifício? e que erra o vulgo (e Buffon!) ao admirar não o tronco, o aspecto, as folhas, mas exclusivamente “os estames e,-caso
os elefantes, os touros, os leões e tigres, “quando a natureza não se mostra não se possam ver os estames, nada se sabe, nada se viu”;85 na frflffl alfa-
i
por inteiro exceto nas menores criatura`s”?"° 's neira que se segue a um dado sobre os intestinos das aves de rapma: 'Deixo
i aos anatomistas a tarefa de verificar mais exatamente este fato";°° em Sua
O jesuíta Daniello Bartoli, em _
sua, Ricreazione del savio (1659) _ :J
'á retO'
mara.de_Tertuliano e de Agostinho a tese de que Deus é “máximo mesmo aristocrática recusa em ser chamado “natura.lista”, ou mesmo “grande na-
em seus mínimos feitos'_', e se alongara prazenteiro a mostrar a magriificên- turalista”: “Naturalis_ta, dentista etc. etc,.. gente que vive de seu trabalho,
cia de animaizinhos tão f'desprezíveis" como o caracol, dos quais observara coisa que fica mal para um gentil-homem", ao passo que ele se aferrava à.
«».«-_» z.-. .z- »-J-z-1
qualidade congênita e inalienável de aristocrata: “sou um gentil-homem que
s milhares ao microscópio." . _ _ _ _
L se diverte com a história natura.1”.*" _
6
. Poucos anos mais tardetambém o. norte-americano e ponderado Cot-
Buffon diz sempre: “fiz abrir uma lebre”, ou “uma cadela”; jamais
.s ton Mather, de resto, após ter. visto ao microscópio vermiculos pequeníssi- “abri”, o que se atribuiu, talvez com demasiada superficialida_de, à resis-
mos, Derorara em um de seus sermões (fl_689):~ “Quão~Re'qiiint_ada, quão Es- '‹
tência do nobre a emporcalhar as mãos nessa ociipação de carmce1ro."_Na
tupenda deve ser a Estnitura del_es'.'.› As imensas baleias, ilhas nadadoras ver de, erainuito diferente o plebeu e sistemático Lineu quando pedia a
com cem pés de comprimentoou mais, são menos dignas de admiração que 'rsepäorrespondentes que tentassem qualquer dissecação (de branquiostegi-
esses pequenissimos peixes." 2 . _ ' . ~ _ _. _ l deos)'j mas posteriormente ao menos fornecia de boa vontade dadospreci-
Por. sua vez o pregador norte-americano Emersorirepetirá: f'O microsco-
pio não pode achar os animálculos menos perfeitos ~por_~ser_er_n pequ'ei_ios”."9 F sos doswanatoinistas e dos copiosos particulares (sobre os ciliados) contidos
n s “livros dos micrógrafos"'I°9 E não havia o cardealde Retz sentenciado
Chegiiemos, entretanto, aos contemporâneos de Buffon: umfpar de anos bre o' -fiítu-ro Alexandre VII: “era homem de minúcias, o que é 'sempre si-
-'›.i1nr antes que tivesse-início a publicação da Histoire, naturelle,-fora lançado (1747) ão apenas de um gênio pequeno mas também de uma alma baixa"?_9°
u-'__ " _ , _ _g,¬ ,. ._ -.‹
o Homme machine, de La Mettrie, com seu elogio da matéria proteiforme Ê* \"co, outro grande homem excessivamente confiante em gêriiomdis-
e da Natureza onipotente: “Não [..~.] a riatiirezadecididarriente não é uma 1
z Íivel, não havia escrito na abertura da Scienza nuova: “a diligencia.[...]
fi, .
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32

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' O NOVO MUNDO
deVC perd
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pois
er ` se [X o
1 ab°f2lr em tomo de argumgmos
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UFFON-. ^ WPERIORIDADE ms mreciss ANIMAIS NA AMÉMCA 33
Não que estaVol
estaria 6 umfl minuta
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e, por ser minuta, ainda que tenhamv¡m¡de›-79i
que tai-da_ grandeza
“Malditos
. lâlre en gy e os primeiros
- - impacientes,
- _ quando imprecavaz 2;tä`2::5oa:a¡Z:r3äi¡:;d¢uÊ¢US escritos exprimem o entusiasmo e a fácil veifl
r t os detalhes; são um verme que mata as 31-and b .,., cura lançar luz sobre q › cm Qualquer espécie amorosamente descrita pro-
qualquer excelência inusitada, afaga e nobilita sua ima-
,,O › eln Llzn ese .
rito de inspiração buffo ' ~ CS 0 r
. I '
' E Dlde'
o_bs¢¡-va¡ a tudo mdístimameme é ¡1{a113._nao advertia aos cientistas que $°m_› Wmfllfilfl Sw reações izminfivzz. A wnseqúêneiz quase inzviràvzi dem
tendad ereclama queosgrandzzs negligenciar o genero humanon? A P 0s_
homensem r C Ih ¡1_1°hflflÇã0 S50 00mPfll'flÇões quanto ao mais e o menos, o superior e o infe-
pensaria rlor, e a partir dai o anseio de descobrir-lhes a causa profunda. Os animais
[ogia co ela 1 de nós se não tivessemos
. , mais_ Da 5811 mme or seu
_tra.nsmitir-lhe quetempo: “Que
uma inseto- l nao são mais considerados em si, mas uns em relação com outros: o puma
mp Cla, uma imensa hlstóna de ammais microscópicos? _ Para o l como mais débil que o leão, 0 elefante como maior que a anta. O bom senso
des gênios, grandes obzzz _
to que se _ J os, os pequenos objetos, aos pequenos s gran-
g¿n¿°S.._ Tam de madame d'Epinay descobrira desde 1770 esta debilidade do naturalista:
D . naoseocuass __ servn-iam
__
e m_ _ _ P em de minucias, estes nao para nada.” “POI Que apoquentar-se com fazer o elogio ou a oração fúnebre de cada
mmus "O" °`""Uf Pffietor. ¢SPÉCi€ da qual ele fala? Os seres são como são. Parece-me que o necessário
L O '
maior ' 1
drscipulo _
e contmuador de Buffon, o quasg ¢¢- seria mostrar o encadeamento dos seres e não fazer com que uns se impo-
80 âmarck
briava . .
com ;;sr`elsu;;raiaesmldfc:)saelSnâsimo observatório de onde se inc- nham aos outros”.99
Naquela mesma época, a teoria da cadeia dos seres era renovada e de-
relata um inopinafio es or _ “mosqls seres Vlvos: e em suas hções _ l senvolvida por Robinet (1761-8) e sobretudo por Bonnet (1770). Porém, Buf-
químicos; aos experimenpfdfadores e _ ava:se mortalmente oposto aos
fon, crítico conseqüente de qualquer rigidez sistemática, permaneceu inva-
E Lucien Febvre confirma'- “ Lamarck nao
~ ml-adm'
disseca. como os dissecou”.94
Jamais deslgnava”'93 riavelmente surdo aos atrativos daquela grandiosa estrutura metafísica. Nem
as sugestões evolucionistas, que vinham sendo feitas segundo aquela cadeia,
ou escala, ou coluna de espécies e protótipos, causaram qualquer impressão'
CRITÉRIOS QUANHTA rn/os E ESCRÚPULOS L17BRÁRIos ao naturalista que, após ter duvidado (1749) da validade do conceito de es-
pécie, aceitava a espécie como entidade independente do tempo, unidade in-
/` -
,f,
, _
Nao teriamos enveredado por tais pormenores anedóticos se estes não
,- variável, ou seja, “constante", da criação.1°° Para Buffon, rcpetiinos, ser
fixo e não sujeito a variações é o privilégio do “grande”.
'ifevelassem em Buffon um comportamento psicológico similar ao de Hegel,
_~ impaciente e sarcastico em relação ao senhor Krug,95 e não pereon-essem dg l
I
« forma seus supremos arbítrios quanto aos fatos e dados do mundo, O ESTÁVEL SUPERIOR AO MUTÁVEL: ARISTÓTELES '
l inclusive a América. Buffon não deseja que o cientista perca demasiado tempo
com a mosca. Hegel escreverá que a ciência tem mais o que- fazer do que Nesta subtese basilar, o que mais cljama atenção nãoé ó nexo lógico
. extrair deduções de uma rosa, um gato, ou quem sabe da pena do-.senhor entre grande e estável, mas a adoção tácita do conceito de que o estável, o
Krug. Em uma célebre passagem da Filosofia da história, voltará as costas fixo, o ínvariável possui qualquer prerrogativa sobre owariáve_l;»de que as
para a discussão sobre o futuro da América, que, dirá, “não interessa”, pois espécies que não mudam são por natureza superiores às que mudam; Alterar-
não diz respeito nem à história nem à. filosofia, “comas quais já temosmui- na se equivale a decair. As variantes de uma espécie se explicam como degene-
tp o que fazer”.95 Esta mesma impaciência irá se exprimir de forma mais l rações de um protótipo. Salvo algumas espécies maiores, como o homem,
universal e clamorosa na teoria de Hegel segundo a qual a históríadeveria- o elefante, o rinoceronte, o hipopótamo, 0 tigre e o leão, que permanecem
` se ocupar apenas dos “grandes” acontecimentos e ignorar, ou deixar aos orgulhosamente sós - “vincula-se menos à forma que à grandeza eo privilé-
romancistas, a “nricrología” das ninharias miúdas, das insigmficâncias m- gio da espécie isolada” -, as demais se rnesclam com seus próximos e for-
dividnais.97 A introdução dos conceitos de grande e pequeno ébastante pe- mam “grupos de similitudes degradadas", gêneros degenerados ab imme-
L morabi7i_ 101 .
ri asa para a compreensão da realidade. Quem começa a medir, começa a
“ g - - ' n Esta adoção do conceito de que o invariável é superior ao mutável bas-
errar. Diderot o sabia tão bem que projetava argutamenteuma grand ou-
ta para frear e esterilizar os motivos históricos de Buffon. Sua origem.ées-
' vragfdestinadaacontestaros ' ": o Traíte'de1'abemztiondes
sn colástica, 'até aristotélica. Buffon relata com freqüência que um dia, ,após
Ilãlfâí
Emlmzffon, no entanto, a quanto aos elementos quantitati- longa fadiga, acreditava ter descoberto “um sistema muito engenhoso sobre
' literá- 3 geração" mas (acresceritava) “abro Aristóteles e não é que encontro to-
vos não tem apenas aquela raiz psicológica; nem possui mesmo uma
_ ;_ _ _ ,mw Í ___, É -- --" ` r ' f 7 f - _
' ~*°*'"
" '. f¬-~-

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34 o Novo MUNDO
BuF1=oNz A n~1i=Eiuomr››.DE nas i=_si›Ecms ›.NiMA1s NA AMERICA 35
Odasque
as Aristóteles
minhas idéias
feznesse des a ado Aristót e l es '7. Também, por Deusl, foi`
de melhgšflçyjoz
D0ft¢¡1Í0 de ¢8IáSÍ1'0fcS - “arautos medonhos”, espanta-se Casca, “para -
1) e fato, sabe-se que para o estaginta
. . - que desta forma traduz em ter- nos assombra.r".l°3 E, ainda nos primórdios da Idade Moderna, “cada mu-
2 dança era para pior”.l°9
É a§ä'18orosa lógica e enquadra em um sistema aquela superioridade das É verdade que já Basnage - em aberta polêmica com Bousset e a sua
á' ema-S_, lncorruptíveis mtuidas por Platao, e até por alguns pré-so- típica denúncia das “variações” deletérias das Igrejas protestantes - havia
cr ticos f a invariabilidade é atributo da perfeição, a imobilidade atributo
objetado (l690): “seria necessário ao menos saber o quetorna uma varia-
do Primeiro Motor. A matéria, mera Potência, é aquilo que é movido e alte-
ção criminosa”,“° e Leibniz frisava (1692): “o que diriamos nós caso acon-
rado sem mover ou alterar. Entre Deus, Ato Puro, e a Natureza, mera Po- tecesse de acreditarmos em outra coisa anteontem'1”.l“ Porém, no século
tência, encontra-se toda a série dos fenômenos naturais, descendendo desde zl›
de Buffon, a perigosa mutabilidade era apenas um despojo profundo de in-
as estrelas fixas, etéreas, imutáveis e próximas de Deus, até as mutações de- digesto escolasticismo, do qual, de resto, encontramos outros traços carac-
sordenadas do mundo terrestre.'°3 Quanto mais estável é.uma coisa, mais terísticos na veneração alquimística da fixidez ou inalterabilidade do ouro,
se torna divina e jubilosa por permanecer semelhante a si mesma (lxíõiov), como atributo de excelência incorruptível, e no desconcerto provocado pela
l
quanto mais variável, mais distante de Deus e sujeita à corrupção. No mun- ‹‹ revolução copernicana e por certas descobertas astronôrnicas, como a de no-
V
do da natureza, toda substância natural é corruptível (‹pôozp'róv), mas as es- vos corpos celestes, de cometas efêmeros e das manchas solares, que não

l - pécies são eternas (bziõiov). A espécie não muda, para Aristóteles, e faz mal isentavam nem sequer as estrelas fixas da transformação e da corrupção.“2
K em mudar, para Buffon. E não só para Buffon: “entre os grandes naturalis- Vale recordar particularmente as teorias do “pessimista” Goodman so-
tas do século XVIII, a estabilidade é superior ao movimento”.1°“ bre a “privação” como agente, quase direi amidialético, das alterações e por-
Em tempos bem mais próximos de nós, Lovejoy caracteriza o ponto de tanto “da corrupção da natureza";“3 e, em contraste, a réplica do “pro-
vista “clássico”_como anseio de uniformidade em relação a certos cânones gressista” Hakewill, o qual adverte que não se confunda “mutabilidade”
de excelência tidos como invariáveis e conformes a uma pretensa constância 'i com “decadência” ,U4 e se apóia ainda, desesperadamente, na imutabilida-
estática da Natureza,¡°5 e John Dewey indica o erro fundamental da ética de do céu, garantia da constância da natureza.U5 '
Êí
dos filósofos e sociedades modernas ao transferirem para o mundo moral A tese “decadentista” foi retomada por Pierre du Moulin e por Wil-
a suposta superioridade do eterno, do idêntico e do invariável, que era da liam Drummond de I-Iawthornden,“° mas a outra o foi desde Tasso, que
5 ciência antiga mas já foi completamente abandonada pela ciência moderna: ›à, reafirma a perpetuidade e a constância das espécies: nenhuma destas, nem
“Mudanças de variedade ou espécie em plantas e animais eram observáveis `i sequer por catástrofes, pestilências ou camificinas, “resta extinta ou mes-
somente quando apareciam monstruosidades” (portanto, toda alteração apa- mo reduzida”,“7 desde John Donne, em seu elogio juvenil da inconstân-
cia;“8 desde os cientistas em geral que por volta de 1635 ensinaram a ver .`\` '_
recia como degeneração). “A _crença”, continua Dewey, “na eterna unifor-
na mutabilidade “antes uma flutuação dp que uma degeneração; e natural- ¬ l
midade da natureza humana é assim um vestígio sobrevivente de uma cren-
mente os “modenies” , em sua batalha contra os “anciens” .U9 A polêniica{(×y$N¡/
ça outrora mais universal sobre o céu e sobre todas as criaturas vivas.”_¡°5
W. - ¬-Tv. _ _ sd.-‹. v sobre a decadência da natureza terminava assim por confluir para as .1 s c
Dever-se-ia observar que os valores éticos. são por definição categorias
1' disputas em que se processava a elaboração do novo conceito de Progresso. \Ó9 _
universais, ao passo que os conceitos de espécie' ou de leis da natureza sao
típicas abstrações. A justa critica da Pfeteflsa Validade aÍ?$°1“Í9: d°5t3$ alfs'
E a ênfase se deslocava visivelmente do mundo físico para o humano e his-Ç `\ .‹~*
tórico. ' _/`
trações não pode se estender, como em um caso DaIfi€\111f› 305 PYÓPHÚS \ Analogamente ambigua tinha sido a posição do grande Newton (1706),
211
\›r‹\
o-›‹c-4
princípios do conhecimento ou aos critérios básicos de qualquer julganiento segundo o qual 0 cosmos é uma máquina que consome sua corda como um
possível. A constância da natureza humana, na 9›°°PÇã° d° t¢1'm0. é PICSSU' relógio e torna-se cada vez menos perfeito e preciso em seus movimentos,
Ji-maul posto, não objeto da ciência. -, ` _» __ , , tendendo numa palavra para a dissolução; desta forma, são necessários ajus-
Aquela antiga crença, U8 b0I1dfld¢ 110 que Ê °5ÍaV°1 e na-__ffa31h_*_1_ad° Pef' tamentos periódicos da parte do Criador, que intervém de vez em quando
_._›;.~. fida do que é mutável, influía necessariamente sobre a consideração das vi- por meio dos cometas, até que o salvamento e a regeneração domundo se-

z' cissitudes humanas: nenhum historiador grego ou romano jamais' recomen- jam realizados pelo segundo advento do Cristo na Terra: assim decadentis-
Z io'r . . . ._
mo e inilenarismo se dão as mãos.“° -
:
dou ãçêdade e na Idade Média, portanto, qualquer alteração no curso Porém, Buffon permanece no plano da natureza e, através da tese de
6
natm-5435 zíëas, desde os monstruosos até as nômades estrelas ca- que o “grande” é estável enquanto o “pequeno” é variável, chega a fixar
dentes (“todas essas coisas mudam de sua ordem"). Clllalflflef Pf°dÍ810 É um
-›=~~

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36 o Novo MuNr›o
_..
BUFi=oNz A iirraiuoitrnaniz nas esrúcms Animais NA Amiänicâ 37
::_ao:¡::;§f`1ãÍ`1dí objetiva do grande sobre o pequeno, e, no limite, a orde_
Sob Ínfluêncn eâ conforme sâinvolume. _ ' . l
s lor do corpo. E de fato os animais “pequenos” não conseguem viver nos
Idade Média insístlií osbmesmos .ones e pnncípios, a ciência natural da climas mais frios, nem nas estações mais frias dos climas temperados.12" Fi-
ca claro, portanto, que havia e há algum fundamento para o pressuposto
mio que com f na S0_ re as dctefmlflâçoes quantitativas; acompanhara Plí-
› requência descreve os animais em ordem de grandeza; e se de Buffon: que pelo menos um vinculo sutil existe entre o volume QI-1° 05
expfcssara poeticarnente no verso Sintetizador de Daiite: “Maggior salute animais ocupam no espaço e a inalterabilidade de sua espécie I10 €¢mP0-
í“_388101' COIDO ¢íÍt;;!",¡2' e na mitificação de animais enormes como a Ba-
cia e o Elefante. Porém, o mesmo Dante expressara horror em relação
3 giga-Iltfrs, alcgrando-se por ter a Natureza esquecido “a arte/De animais --f .-›¬. . ¡~. -asi z. JNSTABILIDADE E DECADENCIA DAS ESPÉCIES DOMÉSTICAS
3551111 ffiltff" l"l'&l'te/Di sl fatti animali”], e acrescentara que, se a mesma
Natureza. de elefantes e baleias/.Não se arrepende" [“d'elefanti e di bale- A Natureza, para Buffon, não está. sujeita as leis do Progresso. É 110
ne/NOH Sl P€I1lc"], é porque essas grandes alimárias são estúpidas, e por- 'Í mellior dos casos imobiiidade, no pior degeneração. O próprio homem, 30
“_mt° 11161105 Perigosas que os gigantes, que-uniam “ao mau desígiiio e ao intervir na Natureza, criando seu Progresso a despeito desta, é causa de sua
W801” ' “o argumento da mente" [' “al mal volere ed alla possa” “Pargomento degeneração. Tanto é verdade que os animais ferozes, não submetidos à. ação
l
della mente”].m _ . ~ humana, mais próximos danatureza, são ainda menos sujeitos a variações
Neste sutil mal-estar diante dos monstros desmedidos, reafirma-se o gos- degenerativas: “suanatureza parece variar conforrne os diferentes climas.
- to clássico de Dante pelas proporções justas, pelo senso de medida e a su- mas em parte alguma se degrada”.m
bordinação da natureza ao homem. Aquele “maior corpo” capaz de maior Uma tese deste gênero deveria agradar em grande medida aos apologis-
saúde se refere ao céu e além disso sofre imediato condicionamento: “Se iP tas da natureza pura e não corrompida pela ação do homem. Retomava o
possui as partes por igual modeladas” [“S'elli-ha le parti ugualmente com- motivo, já caro a Montaigne, -da superioridade da fruta selvagem em rela-
_ pinte' '] . . . ção à cultivada: “são estes [frutos] que alterarnos por meio de nosso artifi-
. 0 cio e desencarninhamos da ordem comum, que deveriamos com maior razão
I
\ chamar de selvagens. Naqueles estão vivas e vigorosas as verdadeiras e mais
LVOLUME E PERFEIÇÃO NA ZOOLOGIA MODERNA úteis e naturais virtudes e propriedades, as quais abastardamos nestes”
i
etc.” E repetia,'dando-lhe uma demonstração científica, as intuições apai-
Somente alguns séculos mais tarde, no entanto, o critério dimensional xonadas de Rousseau: “A natureza trata todos os animais abandonados a
seria decididamente descartado. Bonnet ainda sustentava (1764) que os gran- seus cuidados com [...] predileção”. O cavalo, o gato, o touro e por fim
des animais são mais inteligentes e dotados de maior “perfeição corpórea” o asno selvagens são mais fortes, vigorosos e corajosos nas florestas que nas
l
que os i'nsews . U4 Mas , no alvorecer da zoologia moderna,_ a _consideraçao 'r casas: “perdem a metade de suas vantagens ao se tornarem domésticos, se-
métrica dos animais era recordada por Cuvier como o primeiro dos erros ria possível dizer que todos os nossos cuidados [...] apenas os abatem”.“°
- ~ - izs _ Em suma, as espécies animais são tanto mais perfeitas quanto menos
aos quais se opunha sua nova e fimdamental classficaçao zoológica. .To-
davia, antes de refutar in totum e para sempre aquele antigo e ingênuo cri- variaram, quanto mais se conservaram semelhantes a seus protótipos ideais.
i
tén'o dever-se-ia examinar e aceitar aquilo que ele continha de verdadeiro. Ao mudarem, debilitam-se. E, ao perderem força, se expõem a- outras -mu-
Claude Bernard nota que “o talhe dos animais traz [...] importantes modi- danças, perdem sua estabilidade racial. O pequeno, o mutável e o degenera-
ficações do são atributos alternativos e gêmeos de uma mesma cadeia maléfica.
, _ na. inteiisidade
. dos fenômenos- vitais.
- Em geral, os fenômenos
izõ vi-_
tais sao mais mtensos nos pequenos animais que nos grandes”. E um na
tiiralista. contemporâneo, Haldane, lamenta que os zoólogos em geral tenham
prestado pouca atenção nas diferenças de dimensão entreos animais. Reto- 1uz¬1~¬LE}roS N_o Novo MUNDO
mando, sem recordá-las, as investigações de Buffon, 'I-Ialdane chegaa es-
tabelecer uma superioridade da estrutura dos animais grandes sobre os. pe- Retoriiemos agora às Américas. Com as solitãrias exceções do gamo e
quenos: 'os animais mais avançados não são maiores que os mais atrasados do cabrito, que são maiorese mais fortes na Virgínia e na América tempeza_
porque são mais complicados. Eles são mais complicados porque são maio- da que na Europa,¡31 todos os outros animais são ali menores e mais dé-
res”, A vantagem mais evidente do volume é a capacidade de manter o ca- beis que no Antigo Continente: “esta grande redução da estatura, qualquer
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as o Novo MuNi>o
BUFFON: A iNi=EiuoRiDAna r›As asvscis .\NiM›.is NA AMaaic›. 39
que Sëja su a causa, é uma primeira
. . espécie
. _ de degeneração ue não pôde ¬
SC Proce ' . consideravelrnente
Massälšfëâlrlšnfluenciar . . q
as forma5'›_i32 "úmem °a5° se desse alguma atenção à diferença entre os climas; caso se
C . estudasse a história dos animais para se reconhecer, como fomos os primei-
.› ¢ã°"- A existência gelanamscmeaislã? Quan? às causas C tipos desta "d°8€D¢l'fl- ros a fazer, que os das partes meridionais de cada continente não se encon-
sem “não pode _ picos o Novo Mundo prova que sua ori- tram simultanearnente em um e outro”.“°
§g .
muodlmdos _ Ser atribuída
a título d hj Ó à simples
É _degeneração”. Outros fatores sao ` De um ponto de vista léxico, portanto, a tese buffoniana nasce da ne-
e P 168€. preciso pensar em uma antiga conexão cessidade de eliminar a insatisfação provocada pela aplicabilidade evidente-
, entre os dois continentes e em uma sucessiva separação ambie tal d é
É cies que haviam encont rado '
abrigo ' ~
mais comodo na - endas estabele_
América as esp _ mente irnperfeita de conceitos e tipos zoológicas do Mundo Antigo à reali-
I cidas na EuroP a › .Q uarid o o Oceano irrompeu
- e submergiu. as terras que liga- dade natural do Novo Mundo. Dois longos séculos antes de Buffon, Oviedo
,i.
vam os dois hemisfé ` f105. '
hipótese que remonta na ~
realidade aos _ .
primeiros tinha, possivelmente pela primeira vez, denunciado os erros onomástícos co-
~i
¡ natural t d - _ _ metidos por analogia pelos cronistas e relatores precedentes (erros cuja raiz
'S as ° NOVO M“11d0, a Oviedo e ao padre Acosta, e é ainda hoje
uma dÉ ' lífâamflnte usadas pelos cientistas
¡:ir':j1:-às - . ,
contemporaneos.
B que o homem parece desobngado da condenação geral que
Zi
f
psicológica reside em que se percebem mais prontamente as semelhanças que
as diferençi-is);137 e ainda no fim do século XVI o padre Acosta lamentara
-~. .`_, pesa sobre os animais americanos: a Natureza serviu-se no Novo Mundo de que “a muitas destas coisas das Índias os primeiros espanhóis puseram no-
mes da Espanha, tomados de outras coisas com as quais têm alguma seme-
uma °“tra escala de šfflfldfllã. porém “o homem é o único que ela mediu
l
pelo mesmo módulo".133 É fato que Buffon sublinha a diferença radical lliança, como pinhas, pepinos e cenouras, que são na verdade frutas diver-
.fentre ele e os animais: “o homem é em tudo obra do céu' os animais sob
.-
..l síssimas, vencendo sem termos 'de comparação os aspectos em que diferem
` .muitos aspectos, são apenas produtos da terra: os de um continente nao se das que em Castela se chamam por tais nomes".¡”
¡encontram em o_utro; os que se encontram são alterados, apequenados, mu- O ilustre filólogo Giusto Lipsio, contemporâneo de Acosta, denuncia-
í
i
A ‹ dados a ponto de frequentemente ficarem irreconheciveis”.“'* Mas em ou-
i. tra passagem, como se viu, o selvagem, pelo menos, é sujeito a penosas linii-

v

va também ele o tenaz erro lexicográfico. Lipsio tem como ponto pacífico
que toda terra possui seus animais próprios, característicos e imutáveis.“9
.f tações, como os outros animais e pior que os outros. ¡ Portanto, não é lícito aplicar aos animais de uma região os nomes dos ani-
mais de outra. Na África não existem ursos: “scilicet”, repete Lipsio, “a
.-\'~ f‹__~_ .~ 5 Pode-se afirmar em definitivo que nesta fase de seu pensamento Buf-
`\~ ¿fon considerava o continente americano irnaturo, muitas espécies animais 'Bi
cada animal seu lugar, segimdo seu engenho e caráter". Mas os romanos
ill
de sua parte meridional imperfeitas por degeneradas, e o homem afeto a de- chamaram de “ursos” os. leões africanos, que não conheciam, tal como cha-
i maram de “boi Lucano” o-elefante, “pássaro” o avestruz etc.“°.
_ ñciências que, sem obstruir-lhe a adaptação ao ambiente, tornam irifinita- É
Depois de Buffon, o padre Molina e Jeffersonm retomam com vigor
; mente dificil que ele adapte o ambiente a si, domine-o e modifique-o; que i esta crítica. Porém, a mesma assimilação atabalhoada acontece, e se perpe-
5 desta forma 0 torna até certo ponto participe da triste sorte dos outros arii- H
i ii
tua, na geografia física, que faz referência a “nós” montanhosos que ine-
'- mais superiores.
\
li xistem nos Andes, a espigões que não espigam e a “passos” que são vastas
planícies onduladas a perder de vista. Estendendo a mesma critica do cam-
'Ê-‹
Í
É i po da natureza ao da sociedade, Alfonso Reyes, por fim, lamentou com ra-
“OS NOMES HA VIAM CONFLHVDIDO AS COISAS” r
r
4.
zão a confusão criada pela aplicação de conceitos politicos ,europeus à. reali-
Í dade política arnerica.na.1^2
Indagamos agora: qual o significado histórico e qual o verdadeiro al- .l
cance da teon`a buffoniana? ' -
Ao mesmo tempo que nega ao puma o augusto titulo de '_'leão"', e as-
sim por diante, o naturalista critica a antiga confusao nascida da aphcaçao
I
coNqLUsóas
dos familiares nomes europeus a espécies novas,-nunca vistas antes, de cha- |
-\
Buffon e__Morue'squieu ' '_
mar-se sem mais o jaguar de “tigre” e a alpaca de “ovelha". “Os nomes
. Conƒundiram as coisas”, diz o mesiníssimo Buffonf” ql1¢.'¢m OUÍTO °°11¬ i Caso, depois de decompô-la em suas partes e .defiriir-lheio aspecto for-
texto após ter reunido vários exemplos» flagrantes de etiquetas zoológicas mal desejarmos agora considerar a teoria de Buffon em seu núcleo- ideal,
' . z
eqiiivbcadas conclui: “não pretendi aqui indicar todos os erros na nomen-
1 encontraremos um jogo de forças em equilibrio instável.
clatura dos quadrúpedes; quero apenas provar que eles existiriam em menor i
i _ š
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40 o Novo Muuno BUFFON: A ÍNFERIORIDADE DAS'ESPÉCfP.§ ANIMAIS NA AMÉRICA 41
,,,::;f:::,::â:::“-*âs d° <*° se a
_ te e O natural a cñaär 3' news;_ 'a› Cauã › ° U'-*X0 °f8amco entre o viven-
nantes de fé na Bíblia, estimulava: “Da mesma forma que nos reinos animal
e vegetal um individuo começa, por assim dizer, cresce, resiste, perece e paS-
sa, não aconteceria o mesmo com Espécies inteiras'I”."" E claro que a_ cria-
1 ção aparecia como que imersa no tempo e, se não pr0DfÍam°11t° l“5'~°“°*Z”" l
_Í tre “natureza do terreno': e-“leis polítidas” MontesÍ1i1iiê›iÍcc?r:itumeS, Ên-
› da, privada dos atributos de uma perfeição imóvel.
Ç sublinhava a dificuldade de estabelecer ou manter ` t`t ' ', ' O se sa Ê,
/'mas quentes e lascivos
. ' mse vil.
, que tornam o povo indolente 1 lçoes hvresmais
Buffon, gn hu-
ch-
manoñque o Presidente neste ponto, excetuava até certo ponto o homem da A geografia zoológica: Europa e América
il
-›| Ora, os exemplos destes diferentes graus de desenvolvimento estava-111
SUJ¢1Çflo causal à natureza, estabelecendo assim sua prerrogativa mais im-
Í;
POYÍÂUÍC- Mas, Quanto às outras variedades animais, não hesitava em “deduzi- _;~\ presentes nas diversas partes do mundo. A reflexão e a dedução faziam d¢1¢S
las" de fatores adversos do solo, da umidade ou da temperatura. “Apresen- um processo sucessivo, todos fases de um mesmo processo. Porem, 3 0_b5°f'
tei os principios e vi os casos particulares se curvarem como por si sós”; a vação revelava sua existência simultânea nesta ou naquela r_¢81=10 df) 81f3b°-
famosa frase do prefácio ao Espírito das leis poderia ser tomada como epi- A “geografia zoológica” nascia assim como uma formulaÇa0 PYOVÍSÔÍW df*
grafe por Buffon. - .
-Q naturalista comprazia-se mesmo em colocar quase num único plano
fl

teoria evolutiva - como uma primeira cristalização do pensamento histori-


cizaiite aplicado à natureza; , _ _
'i
_ a análise das leis políticas e civis feita por Montesquieu e sua ordenada rese- Se em seu início ela foi afetada por uma prevenção antiameri<:a!ia_1S€0
riha das especies ammais (o mesmo Montesquieu, de _resto, não se vira for- ›1
se deveu, além dos motivos intrínsecos supracitados, à atmosfera espiritual
çado certa vez a dar às leis positivas uma dignidade científica semelhante da época. Mesmo em Buffon se nota essa instíntiva predileção pelo V¢lh0
à das leis natura.is?); recordava de bom grado 'que seus primeiros volumes Mundo e por seu fulcro, a Europa: há nele, que adrriira temeroso os grandes
-e o Espirito das leis saíram simultaneamente e que ele e Montesquieu foram carnívoros, um orgulho instintivo de europeu, avesso a observar com curio-
. conjimtamente atormentados pela Sorbonne e atacados pelos críticos - po- .vç
¿,. ›,u. ¿. sidade mas também com um leve ar de proteção as estranhas criaturas de
rém, que ele soubera fazer frente a todos esses ataques com muito maior .fl outros climas. Julgar a fauna americana imatura ou degenerada equivalia
_-sangue-frio que o Presidente.” De resto, não era Montesquieu um dos cin- a proclamar a do Velho Mundo madura, perfeita, idônea, capaz de servir
1-'co maiores autores reconhecidos e reverenciados por Buffon? “Não há mais de cãnone e ponto de referência a qualquer outra fauna de outro recanto 6.,1\:;f~1›‹*=
que cinco [...]”, dizia: “Newton, Bacon, Leibniz, Montesquieu e eu”.144 4 do globo. Coin_Buffon,Q eurocentrismo s nova ciência da,na.z.fii=if^' M/
f¢É- um fato, porém, que a aplicação dos métodos de Montesquieu ao rei- i _t__u_re}_a_viva. Piper certo não é 'mera coincidência que isso acontecesse exa- _5^~”* '-
~no da natureza implicava uma verdadeira revoluçãocientífica. Exigia antes jainciite guand0¿i<_1_Éíä_§1g_Em91¿a§e_tornai/a_inais_pl¢ii=ëi-§9111l2l°1*â_*?.Sê:-.-_
lide mais nada, como pressuposto, uma ampla liberdade de ciitica à obra do .l _1_harda,'“_cornb tampouco é gra'tuito~q_ue_, corno- a Europa pollt_i_ç_a__;_çiv_il_se.._
' Senhor, que agora já não parecia mais perfeita em todas as suas partes, apre- t
.ly .iãflflíí°I1*ã° °E.<¿llQ¶<¿ã9ÍšQ-ísia_e.à“_Â!f1`_¢_aâ,,êš?iir__Qi2ë=i. ííãíãã.Sf§9_1i_d31Ií5맧9_
sentava criaturas mais ou menos.bem-sucedidas, mais ou m'enos"bem mode- çoriips outros continentes§l_€__›_YÇLh_9,Í!Í.\£flJ19.;ê.ê§L0n£a$S§Â_m_pji!Ldao_mundo _
ladas e algumas, por fim, deterioradas eamolecidas. A extrema\cautelae\;¿:¡_;_-,_ airieriçaziíó. Corno os filósofos e publicistas reivindicavam para a Europa o ir'
1 bal__de Buffon não impede que seu.posicionamento seja radicalirieñtídivérso \ primado das artes civis, a origem das invenções`técnicas,~dos organismos f *P _,
ëdaquele dos antigos naturalistas, que resuniiam sua missão em cantar loas
-
sociais superiores, e como datava da própna descoberta da América o prin- /\š1 /‹' _
'as magnificências do criado e, portanto, tal como o padre Acosta, ameaça- 4 cípio de sua nova e jamais *vista potência e riqueza,“9 Buffon sentencia L\
então (1766) que indubitavelmente todos os animais foram criados nest *_
vam com o castigo do Céu a quem pretendesse “emendar as obras que o
Criador com sumo acerto e providência ordenou na fábrica deste univer- Velho Mundo, de onde haviam ernigrado para o Novo para em geral dege- il* sf
so”."5 Já Maupertuis solicitara (1745-52)' das ciências naturais não uma me- nerarem.l5° , sis E ‹f
\*`
ra descrição ou classiñcacão, mas a explicação dosprocessos por meio dos Com taldistribuição geográfica e a hierarquia que se vinculava a ela,
quais as espécies se alteram e os animais mudame se diversificam; A_ Natu- ¡
,-
¡
,..¡__¬ 'Buffon fugiardas rigorosas exigências dos “sistemáticos” à moda de Lineu,
reza, tal qual aparece a nossos olhos, não passa de uma ruína", um edificio em relação aos quais manifestou sempre uma hostil desconfiança, porém sa-
de nobres proporções atingido por um ra'io.*“6 E Diderot repetia (1754): “O tisfazia à exigência, que-na época partilhava com os seguidores de Lineu,
que nós tomamos por história da' natureza não é mais que a' história suma- *l- de ordenar, comparar, classificar e “sistematizar”.,m É verdade que para
5l
mente incompleta de um instante"; e, sob o abrigo de declarações' altisso- alcançar a unidade formal valia-se de antíteses abstratas, coordenava con-
-i -z _,
.
I -›-- - _'
` ` >
I 43

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42 o Novo MUNDO BUFFON: A INFERIORIDADE DAS ESPÉCIES ANIMAIS NA AMÉRICA
äfiagfiâäâgšããfaqäalidades totalmente distintas e ¢0,¡¡¡apunha, polui- assim que se tenta responder - ainda que implicitameiite, “caminhaiid0" ›
ou seja, classificando e definindo - a esta indagação.
vous: Todávía punhãbsësa :al peqluenosd , 0 Mundo Antigo e o Mundo NQ- A esta árdua questão sobrepunlia-se outra não menos complexa, sobre
aos gemles de á _ V0 3» 1181 ez mortal de tais esquemas graças
a existência de “espécies” ' mais ou menos perfeitas, com as sugestõešimplá-
ca - . _ ÊsÊm'°lV1mem° Í°mP01`a1 que estavam impllcitos na classifi- citas de forças teleo ló gicas
` e de fatores evolutivos e degerierativos. _ ma `
Çao e distribuiçao g¢0g¡¿fica_ _
losofia causal da natureza, como aquela à qual Buffon sempre . adflml,
us :SP ._
1'
O novo conceito de "esp颡e" cad a com . entusiasmo a. fenômenos
. .
estranhos
.
ao- ‹mecanismo das
'
Ca t
-.i1.i\z.›,¿L¡ i. ‹. \:.
aos conceitos das espécies animais, de sua instabilidade geogfáficaz d°c:"“ m __.°
_ AS espécies variam de um continente para outro. Variam do Mundo An- ` d as 'geraço'es , da história pleno sensu_ do mundo e 'seus orgams
variar _ d alta?
g1E:ç§:fâeÊt:4£1ndoiNovo_. .E são menores ou mais débeis neste último. Em Í
imputando-lhe uma debilidade quantitativa e mensuravel, ¢*lÊè°a_:e ma_
as teorias da ¢Se badebilidade dos _ammais_ da América, Buffon percorre nadamente por conceitos historicizantes e qualitativos, de deca I1<>\
_ I vana ilidade das especies - nao as teorias sobre 0 progresso á turidade. *S5
.,__._._'. L*
:Ê 1:p°ffÊ_“° 3° Pfirfeito, do inferior ao superior, mas as que tratam de uma
..._~. anfbie::š:° :as CSDGCIÊS, deseu possivel debilitamento em circunstâncias
do namr _ 9* Vtffsasl (')¡Ii>fÓPr_1o beiii_ advertiu o mérito e a fraqueza
ä 3
_ alista. rances. o primeiro autor que nos tempos modernos tratou
-':‹,-_â. _. ,._
ÊISÍO Í°5PÉCl§S] 00111 espirito científico foi Buffon. Mas [...] sua opinião i
u uava muito em diferentes momentos [cf. aqui, p. 130-1] e [...] ele não
entrainas causas ou meios da transformação das espécies” .153 Não pode ha-
Vef dulfldasf POYÍÉIDÍO, de que aquelas intuições embrionárias de uma verda- o
d_eira_ história da natureza, claramente conectada em Buffon com sua cons- I
ciencia dos de qualquer classlficação esquemática, constituem o maior
resultado cientifico de suas atormentadas investigações sobre os animais da
i
" '<›-,-'v-.¬,n._¡w-q. -América. .
_ Porém, se examinarmos ainda mais fimdo, divisaremos na teoria buf- li
fomana 0 reflexo de um problema lógico ainda não resolvido. Buffon não
1‹
o formula com plena clareza, mas-luta com ele às cegas, com iniprudente
e mfortunado valor. Qual era a questão básica latente na surpresa e na “ 'des- i
J
-i
coberta” de Buffon? É claro: era a existência e a possibilidade de espécies ›
1
naturais semelhantes mas diferentes, o enigma de conceitos naturalistas vin-
culados entre si por analogias indiscutíveis e, no entanto, separados por tra-`
v_W" z‹w\~aø.-¬.~‹v.»ui¬-\~w.om,.¡,_ ..-
ços individuais inquestionáveis e irredutíveis. “Nenhum dos animais da Amé- ‹. z‹\ _L_rJ
rica meridional se assemelha o suficiente -aos animais da parte sul 'de nosso
3 continente a ponto de se poder encara.-los como uma mesma-espécie."15“ O
-'¡i- i
v
E
1
Puma não é um leão; _ contudo, entre leão e puma existemafinidades Que
«
, ,_ ›
não se verificam entre a mosca e o elefante.
/` Qual é .o limite do conceito de “espécie”? Qual é ograu e o número i
das afmidades que devem existir para agrupar dois animais.em umafamília,
' x/ duas fainíliaszem uma espécie, duas espécies em um gênero? Onde fixar a
\“ r -
‹:\ / linha divisória entreios atributos que fazem com que dois indivíduos sejam
abrangidos -por um mesmo conceito e os atributos que designam a' eles con-
ceitos diferentes? Toda a lógica das ciências naturais é posta em discussão
í1
nñl.b›_d\ ›l1v-u‹fl-ønv i 7 _
‹-‹

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DE PAUwz A rNi=Ei‹roiunAne Do HOMEM Amizizicniso ' 57
sociedade e os obstáculos da educação”, vivem cada um por si, -sem se aju-
Í darem reciprocarnente, em um estado de indolência, de inércia, de completo
-.
3 g . aviltamento. O selvagem não sabe que é preciso sacrificar uma parte de sua
liberdade para cultivar seu gênio: “e sem tal cultura ele não é nada”.5
DE PA UW? A IÀLFERIORIDADE DO ¬
Está claro que De Pauw é muito mais radical que Buffon, o qual HPC'
HOMEM AJWERICANO nas publicara, havia precisamente um par de anos, no tomo XIV da Histoi-
zi
re naturelle D aquela sua escandalosa dissertação, “De la dégénération (168
animaux", percebendo tão bem seu potencial explosivo que escrevera a De

Brosses: “pode-se fazer deslizar por um volume in-quarto opinioes “ que fa'
FÉ NO PROGRESSO E NA soc1EDADE riam escândalo em uma brochura”.° De fato, Buffon tratara de deixar o ho-
i
av.-zw¿. - ainda,
mem de fora de sua tese; e fizera dele, pior ~ '
um ammalao" frio' e me
' rte,
De fat 0 , ap 6S Buffon, a difamaçao
-' - de toda a natureza americana
_ che- recente e inexperto. Porém, para De Pauw o americano nem_ sequer chega
,; '
// {. f
1 gata rapidamente
'
a um insuperável extremo com
.
as Recherches philoso hi. '
a ser um animal imaturo, ` '
não é um crianção, ' degenerado. A natiireza
é um
I .I
, Q-. 'À qua; Su' [95 Amé/'¡¢`l1ÍI1-S', 011 Mémoires intéressants pour servir à 1'h¿çzãire do hemisfério ocidental não é imperfeita: é decalda e decadente. Buffon eg/`
` .gãaltíâíèâí Ê:Z¡i:nñ'7g§_mI-,de P- (0 abade Corneille de Pauw).¡ A obra o único naturalista, escreve De Pauw, “que chegou a sustentar que a ii atu- _ š (_.
reza apenas vem de se organizar no Novo Mundo, e que a orgaruzaçao am-),
clopedismo.
_ _ _ O conteúdo
__ n.§o)ldt;niiti(éri:t‹Ênó(fd0 ça? 'glorioso
rontispicio. e tmfnfante
De Pauw engi-
e um enciclo_ da não se concluiu em nossos dias”.7
. - 1 ~ 1
Pedšsfi UPICO, .nao tanto por seus freqüentes ataques à religião e aos jesuí- C aso B u ffon tivesse estendido sua “estranha hipótese' nao só às P 311'
tasc;l I naoíšantopela, completa ausência de pudor_e o pedantismo, que. hoje tas e animais mas também ao homem Çque ele sustenta não ser autóctone
Se lI'la~ reudiano , de suas copiosas observaçoes sobre peculiaridades e ›f‹
e portanto tampouco imaturo), o minúsculo doutor Matthieu Maty - ob-
aberraçoes sexuais; mas porque reúne de forma exemplar e típica a mais fir- ' alguma razao
serva ironicamente De Pauw -- teria " para atacá-l o, como fez
_'me e candida crença no Progresso e uma ausência completa de fé na bonda- 1
baseando-se na alegada existência de gigantes patagônios (“já se viu e ma- ,
'Í _:-_de natural do homem. . nejou muitas centenas deles”) e concluindo com uma alusão: “a terra da '
1 ` Caso acreditasse na bondade da Natureza, seria um rousseauniano, e i
América pode, portanto, produzir colossos, e sua potência geradora absolu- 1_ 1
more marmonteliano poderia facilmente adaptar a tese de`Buffon aos ame- .I
tamente não está na infâ.ncia”.8 _ ~
ricanos, também eles, tais como seus animais, imperfeitos e relativamente Na realidade, ambos incorrem em erro. Nmguém disse Jamais que os
débeis, porém amáveis e “íriteressantes”.justamente por esta sua debilida-
»
homens da América eram menores que os da douta -Europa. Porém, .tam-
de. No entanto, contrariamente a~Rousseau (que recorda apenas uma vez, 24 pouco são gigantes. Assim como tantas outras espécies animais indigenas,
incidentalmente e para criticá-lo),3 De Pauw julga que o homem se aperfei- de8 enerararn em um clima tão hostil à sociedade e ao gênero humano: “a
çoa somente na sociedade, que o homem só, em estado natural, é um bruto totalidade da- espéciehumana encontra-se indubitavelmente debilitada e de-
incapaz de progresso. A propósito do protótipo setecentista do homem só, › gener ada no Novo Continente” - -Buffon é um naturalista muito engenhoso
de Alexander Selkirk, inspirador do Robínson.C'rusoe, De Pauw sentencía: .n , -V Í“e algumas vezes mais engenhoso que a própna Natureza”.9 Como se-
gui-lo quando desejapersuadir-nos.
“O homem não é, portanto, nada por si só; deve aquilo que é à sociedade: _ de que nós na Europa somos_ ., velhos, ao,
o maior metafísico, o maior filósofo, abandonado durante seis anos na ilha passo que na América a humanidade é fresca, recente, rude.
de Fernandez, se tomaria embrutecido, mudo, imbecil e' nada conheceria em Sim, a diferença entre os dois hernisférios é “total, tao grande quantoá
toda, a iiatureza”.'* - poss a ser, ou quanto se possa imaginar”. E é fato, ainda,
A que é difícil-
_ , expli-
,
._,,›
:il
,i car “uma tão assombrosa disparidade entre as duas partes constituintes de
_. f.
,-51 um mesmo 'g1 obo” . “Nada é mais surpreendente.”_ Porém, *pretender
‹ que
_

OS AÀIERICANOS SÃO DEGEÀTRADOS - a raÇ a humana no Novo' Mundo também seia “modema” é 'uma suposi-
.‹ ção insustentável”. Por que a América teria permariecido deserta desde o
já 5¢ emfrevê qual será o posicionamento de De Pauw diante dos selva- instante da criação ..até poucos. séculos 92110
atrás? “Teria a natureza sido impo-
tente a ponto de nao 'acabar sua obra.
gens americanos: animais, ou pouco mais que isso, que “odeiam as leis da
` . _ f f ' f f - f - --¬« -- "DT í_
*gi
:E .
›. S9

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*_' 58 O NOVO MUNDO 'fil ` DE imuwz A iurenioninnpn no HOMEM AMERICANO
~ _ y . - 'ca-
demƒmtizpooteáiciââa Natureza" é manejada aqui çpmg um argmnemo diz-z -, mas concorriam em De Pauw para depreciar 8. C0B€l19ã0 ÚOÊ afsigña.
yƒyneme He el 0 a_ rdum, em oposiçao à tese da miaturidade do Conti- nos, impotentes e batidos, sob a maldição ‹:_<:I1JU_flffi Óíäaâfigãêaãw O méfl_
\: Ezm togd ternunará por .acolhë-la. como uma exphcação valida. ~
to deTodavia' há de se mconhecer a nosso' mo vú:ipÍ1n`
a cu És ›osérias 7 profundas
V; . fitos dos _ _° 0 11Y1'0, implícita e exphcitamente polêmico em face dos rela- haver tentado compreender as razoes ver S mblemas das,Amé_
J~ Í 1¡115S10ná.rios e dos admiradores do bom selvagem, De Pauw repete šäíäw'>'. dos desmandos cometidos pelos europeus e de encarar 0 D _
z _ d te e ofuscante. O clamor secular SUS
l , ii.1,'J Y. a té a sat"fa9a0 `
que a natureza é fraca e .
corrompida na .
América, fraca por- ` ricas
_ sob uma nova luz, surpreen
. . en. . b __ o revolucio. _
vg.> Ufii ' ' q ue c °"0U1Dldêl, ' ' - porque degenerada. Apenas os insetos,
inferior - as serpen- citado pe1as»Recherches é mdlcio suficiente de sua contfl 111913
ifL
C
]Í::.q<:lSe8;:rI€,2;iÊ12o(ÊivotÊ prosperaram e são maiores, mais fortes e apavoran- 1 nária. 1° \
alí se encontram sšin nente. Porém, todos os quadrúpedes, os poucos que
res que seus análz) 60 glëllíšlres - mais exatamente uma sextaparte meno- \
elegame” e tãd ui; of tigc(›1C,ontinerite _-,possuem um talhe pouco t
EXA GEROS ANTIAMERICANOS
vemm dificuldades âoanfgíniila o que os primeiros que os desenharanitr-
quando O modelo é Iiãnfeüz a- cštgassim como ocorre aum pintor retratista Em seu furor antiameriwno, De Pauw_não só se confut1.d6.Y¢P¢f1f¡,a;nt::
i
tardar _ “ _ _ . os grandes répteis murcharam e seabas- _/
e (como se viu pouco acima) fala dos ainencanos como (le Cfllhanšasrecoces).
am. os Caimas e Crocodilos Amencanos nao possuem nem a impe- bém cpmo de “velhos” (crianças incorrigíveis, contudo, e ve O Iiráño O;
tuosidade nem o furor dos da África”.“ também exagera e delira, como haviam delirado, em sentidciconam oS.ad_
.=`;¬ |
1- Caso existisse nessa visão de decadência senil uma melancolia mais so- cronistas e narradores del prgdígiosle maravilhas, e como de 1IflV
lene emenos gosto pelo polêmico e o escandalizantej haveria boas razoes .i miradores enternecidos o om se vagem. _ _ f. _
para citar Lucrecio: “Nossa época já está enfraquecida, e a terra; que gerou Não se deve esquecer, em verdade, que em Defauw a zombflrffl 1532:; ,¿×¡__(¿^ 15/ L
todos os seculos e_ pariu os corpos enormes das feras, agora, exausta, pro- tuosa era em grande parte-uma-legíüflla l'éP11¢-"1 P°l°¡1f1°a às fantásugaas do \`
duz com esforço até os pequenos animais”.” ` A V -'r à'-". ‹5‹¿ a5_ crições e argumentações dos antigos e recentes apologistas do NOV? .d \1;1_eš l
--;
_ Porém, De Pauw não se abala. Contempla os míseros animais' da Amé- I
4 Apenas um exemplo: o' inglês John Hawkins asseverara a existência e °_°,
rica com a altivez de um grande domador, com a rematada presunção de ..ú na Flórida com o seguintebelo' raciocínio, entre initológico e heráldico. OS
\'.,/_, abade filósofo prussigng. A 'atônita surpresa de Buffon já não serve' de habitantes da Flóiidausam colares de chifres de unicórmo; d0Éd€_°X15Íem
« -eštímulo a investigação científica, converte-se em assunto de diatribesque muitos unicórnios na Flórida; e dondedeverhaver leões e tigres, - leo¢S 6§P€-
«zazea.×~.r,›'‹~í*.*. cialmente, se é verdade' o que dizem da inimizade entre eles e os umcórmos,
envolvem e revolvem toda a humanidade americana. - -
ÂAqueles homens na realidade estão pior ainda que osanimais. -Sao tao
Í-(Ii:-11'
pois não há besta sem o seu inimigo [...] de tal modo que onde se encontra li
' esforço os deitaria por ter-` um, o outro não deve estar`ausente”¿” C0II1Ó`S¢ fluem* d°m°n5tfÊ“"
/Â.'
»,
/débeis que “O menos vigoroso dos europeus sem
Í, ra numa 'Luta”°¡3
, possuem menos sensibilidade, menos humanidade, me- 3 Porém, De Pauw, arrebatado 'pelo ímpeto de sua contra-ofensiva, 84?-
~ í K nos -gosto e menos instinto, menos coração e menos inteligência, numa pala- neraliza impávido e afirma seriamente que no clima americano mtntos am-
Ívra, menos tudo. São como bebês raqui'ticos,' nreparavelmente indolentes
›v‹'èL~ mais perdem a cauda, os cães já não sabem ladrar, a came de boi toma-se
V ~¡e incapazes de qualquer progresso mental. '
' 14
= - ' ' . -i - fibrosa e os genitais do camelo deixam de funcionar.” Exphca que os pe-
Entretanto, os europeus nem por isso tinhamo direito de maltratá-los l~afã.
!'À:'.
ruaiios são como os camelos, e por isso_i_mpubereS. (ZÉ 038-rátçl' dfi S\1_¶¿58¢',.
como fizeram e continuam afazer. Sua superioridade estáflfora-de discus- neração, comocom os Eunucos”).'9 Refere-se a selvagens com crânio pira-
`¿‹. midal ou cônico eainericanos do Maraón com a testa “cúbica ou quadrada”
são. Porém, abusaram dela: “Os povos longinquos. Játêm demasiados mo- ==.
tivos
' de queixas da Europa" . Portanto, que os europeus
_ desistam de- medi- .'? -2° o que será, sim, “o cúmulo da extravagãncia humana” ,"e, no entanto,
tar novas conquistas., de organizar expedições científicas a-'terras que, para »`:Í-. encontra-se em certa pintura muito parisiense do século XX e é, de resto, Ã
nossa fortuna, ainda são incógnitas: “não massacremos os_ a'P nas um liso bastante difundido e bem conhecido entre os antropólogos.” E, em cod»
' isara co- polêmica com Garcilaso, negagzqo z¿giii_l9_que.est¢ relatasobre 95 incas, des"-
nliecer, pelo Termômetro de Réaumur, o climada Nova_ G ` é” 1'(=Í
-1.
53
1,/ Conflui assim, na polêmica do enciclope&m cfegggg pg;/sqayezaquela faniosa cidad_e_i._n_ca¿de como_Í*Q¿._rnc¿1; VGN'
/ e hostil aos primítivos, . a polêmica
. . _ do . humanista
. que tem horror à A guerra.

3. `t_Í_iado ¿l§_pgqu_enas_caba_n_a§_, sem luÇarn8S_Q ,5eg§]Íã_11Çe1as", naturalmente de- ,W
V.-5-of
/ ,' e desvenda seus pretextos hipócritas. As duas teses não se harmonizavarn c-. molida por completo pelos espanhóis, de forma que “subsiste dela apenas
u i' - nem poderiam se conciliar dentro dos liniites da históna dos luminares um lanço de muralha”.22 Naqueles “casebres” de Cuzco havia uma espé-

,... ` . -, ___..--.--.. z - _ __
*ví
~` im' oNovoMUND_o j.

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i' U fi) ~ -,».QuJ/0/` » . DE imuwz A iNifniuoiui>Ar›iz -no iiiounm Aivinnicaiso 51
4 s/cie . de. universidade
' “onde ignorantes diplomados i cw t z
- ibflfll
« ler 'nem escrev - ' ._ [os am t ' P ' ' - ~ . , _ _ . , _
.~fa¡¿¡››_z3 Por- fim. Oerfé ensmam filosofia a outros ignorantes
- an~ asi' z sabem
- sa - .
qucnão
qnenão, -' ma-1013 L Armquite' dévoilée (1766), que reconhece>na'recordação e` nolter- _
/ - . s _ - › U0. 0 pouco ferro que se encontra, amolece na 'Ame-" ` ror do- Dilúvio a origem- das crenças religiosas .da humanidade.” Boulangef
“Cai-.:;~ 6.-z“infinitaniente
f . inferi d ' _ qualifica grandiosamente aquela catástrofe como uma “revöluçãä dafnatu-
` Í V11713-.Para 'fabricar .Dre3os”.°2§ ao e nossa col.1tmçn'Êc7` deispnç guçsna-O ser* reza' ', uma comoção completa do céu, do mar e da terra, uma erifennidade:
i ;.Í; '- portanto,
com um certo humor, incompatível coma-c nsti K K."i 4
assombrosa de tudo o que foi criado. E nos selvagens em geral reconhece
7-E , quescria de desejar, que 'concluímos com ele' “é se d ' O emaçao os descendentes das hordas que escaparam do dilúvio, perturbados a ponto
fi
.'
¿ terrível espetáculo ver a metade deste globo a tal ponrtro duvl au ul: gralnde e
3,tureza que - tiido .é ou degenerado ou monstruos0›,.,_, .p esgraça
. a Ptia na_
de caírem em uma melancolia atônita, incapazes de qualquer progrèSS0;_0_S__
americanos, em particular, parecem-lhe esmagados pela mis_é_rja_Ç_a S11P°l'5'
-: tÊã_o-,”€i`i'‹:"eTrÍa'dos em tuna insípida ¡.¡i`cladë_cl‹:c›¶í)WÍ3¡_Í dm
..J
I
1
= SI¬ u ` ""`Mas _o seu dilífi/io é aqueleuniversal, do Gênesis: submergiu ' o mun o .
«. _
i.
' CA c/SAS DA CA TÁSTROFE . _ inteiro, nao apenas a América. A possibilidade de qualquer sugestao. (talvez
'
da parte de Buffon, acusado de ter plagiado '
Boulanger) 35 CBrtamente
, _ sub-
. Porém, _ ,
F _ como aconteceuioda essa desgraça-?, De Pauw mQ5¢¡a-5¢ amu. si'st e, porém de qualqner forma permanece em um plano secundário. .Vale
guo. ala às vezes do clima, ou seja, de fatores naturais g¿¡;5tz_m¢5;mas> Ç i mais a pena observar que esta tentativa de explicar -a degradação físicadas
Pmdenífi f¢S¢1'V&,25 e com muito maior freqüênciafecorre-~aA-Êaiáistrofesoiã Américas por meio deum (segundo?)` dilúvio atingindo apena-S 21 el_ 85, Se_ de 'V
1
inund '* e o_utros flagelos insólitos.
_. açoes - - -
A hipótese " um '.`,-.
de diluvio parece-lhe r
sz
um lado se vincula às investigações dos Pais -da Igreja e comentaristas mais
explicar amaior parte das causas que [na Arnérica]5viciaram'e~`deprav'a¡-am ›
tardios às voltas com as dificuldades apresentadas pela histó ria ` bíblica' de '
oztemperamento- dos habitantes”,,m_¢1h0¡ que ‹.‹.¿. h¡p¢¡¿ese;¿¿_ ~B¡¡¡fOn, um di]uvio ' ' “universal”
_ , 35 substancialmente não passa de um exeinplocons-
pícuo da tendênciageral dos “detratores” do Mundo Novo para fazercon-
0›i.C1U¿l¡' 5UP°¢ QUE; a. natureza. ainda adolescente .-na Am;éric`a;._ m¿z11.¿¡¡¡¿¡,¿=d¿
organizar e dar vida aos seres”,27 Por outro, lado, acena obscuramentzficámi vergiremsobre aquelas terras as maldiçoes e mitos catastróficos primi va-
.ll 79
mente cogitados para o universo (tanto isso éverdade que os defensores
“catástrofes físicas”, com “medonhos tremores de terra” '~-'inundações‹cor`i- r
I 37»;A infe-
" -zs -00111. fuma combustaoggeneralizada
-` - ""_:.' ° , da América. muitas vezes sustentaram que o dilúvio a poupara.)'.
5JfÍ_fifë:'%§”.. e_. de a5s0mb_;g;a5___y¡¢_1s$¡~._ I
rioridade telúrica da América surge justificada pelos mesmos argunientos
tudes , que constituem “as maiores' dificuldades e, ,ao mesmo ¢¢f¡¡pQ¿ 1°; . e colorida com as mesmas pinceladas que tinham servido para ilustrar a tris-
o'ntos mais interessantes da física do 'globo e da'históriai-dos seres”-;3°" - ' te condição de toda a'-Teira após a Queda e em seguida aoznovo.flagelo do
1-
-«Parece que colhemos aquium ecodas conjectu_ras:.>filosófiça$¿ç10,_¢9¿¡; * .- Dilúvio: com adegeneração da fauna (cf., aqui, p. 25, 33-6), com-a-perda
X temporâneo Bonnet3' e ao. mesmo tempo, uma sugestão,¶anteçipada-'_dç.h¡pó_- ~ do vigor da Natureza, que naqueles remotissimos tempos “em sua,pode_r'os,a*
_ teses mais tardias- corno' as “catástrof_es'.?_de`.Cuv"ier,,. ouÊ`quein`-_sabef-as _ verve/ Concebia a.cada dia monstruosos filhos” [en sa verve -puissantel Cofn-
“bruscasvariações” de De Vries - que resguarda- o `apaiiio_nado*ÍD'ez1?au'w » cevait chaque jour des enfants monstrueux],38 com a instabilidade orienta-
do ridículo e o recobre com agrave' autoridade ,-_
_.‹ da para a decadência inclusive do gênero humano, com vários -sinais1premo.-
aquela' sua teoria de um dilúvio aniericano, 'que.`liistoriciza”,Eponassmidizer,~ rzi _.-;:°.¬:-_--Y: -
nitórios do fim do mundo, 'e por fim com o próprio Dilúvio; provocador
a visão buffoniana do continente encharcado, podem-se..encontra.r%a¿lgu11s.' *- de efeitos entre os quais Lutero já enumerava a erradicação de todasas ár-
ilustres predecessores. á . ir' - ; A . fi vores boas, a formação de desertos de areias estéreis e a multiplicação dos
Em- fins do século XVII, no clima científico, ein- que;iam sefeIabo'r_ando . V , .¬ _ animais e plantas nocivas” - estigmas típicos da América buffon/depauw-
os primeiros e incertos princípios da geologia, a;;teoiia;.de,-Burne=rimediata- niana. Ainda em 1625-9 havia quem acusasse o Dilúvio Universal de haver
--
mente seguiu a escola dos chamados di1uvians`(John_»W'oodvvard,_ ~l~702;;='Wil-' , estropiado para sempre a Terra, abreviado a vida humana, corroído: as mon-
vv
liam Whiston, 1708), que atribui'am.;aoi dilúvio i1niversa1¿-um-.,dèbilit_a,m.ento [1
›'- tanhas, destruído as florestas e despedaçado em ilhas o mundo antes *inteiro
de toda a Terra, uma longevidade menor.. dos h.om_'ens.e~ dosia.`nimais,'a,ëste- '- f
. -.
e p‹=rfziz‹›.‹° i i t e r . - ' .ff-. -_
rilização do solo --3,2*em` surna,_t_,0‹i8S ›as;¢.0nseqiiências_q1ie Quu'os,;d;eduziam ' .'¡
-:
i
‹›~= ..~- Num movimento recíproco, com o advento do Messias, a terra.-'se tor-.
do..Pecador Original, fornecendo assim ii1na_expli‹§açãc›_¿natiir_aJ-,¬Í_‹;¡n¿ãoLi1iais. ~. - -,-' ›
‹ _¿
Ç» ›:.:-'-*._L'..`-' .'._..› --
-.
nará mais fértil, os pastos serão mais abundantes ea Luaresplandecerá-eo-~
zwiógizz;.zzmz -izicfzzçâo. ‹=,.uma~ ettzâaâçâzizbffiiizziff¬~; \. moo Sol (Isaías, XXX, 23-6). Este motivo milenaresco foi reto`mado‹pélos
predicantes calvinist-as. E um destes, John Edwards, insiste (1699) p`a_rticu'-'
_fI'gdavi'a, deixemos de lado -Bo.ulangcr.«É~verdade- q`ue`De_{P_au'wzlera¿_~aten-~
Í3.II1€l1Í€ SU asRecherches' sur Ie daspotilsme orierità1f(176l')›e›tamb_ém ,siiä obra
.-
'¡ , larmente na maior abundância e generosidade da came dos comes-
1
'¬~ f 'ã
›.
---ízwí-=-_... . ›.-- -"\v;.`.,_.¿~
I ` 62 r 0 Novo MUNDO ¬›
1
DE Pzxuwz A u~u=ruuoRrm_.ps no HQMEM' AMERICANO 53

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tíveis no rnijëm' _4¡ . _ _
d ¢ b 01- na America
_ 9 (ver“Hifi tlrada
. antltétrca à pretensa
, fi brosidade da carne 'I
z.
pelos voos infinitos das aves, que subiram para os terrenos altos, enquanto
Pauw parece quase um Éiãêli, p. 59)._A fauna Rabougrie e coriácea de De 215 ágllflã fiC&V3.m abaixo”-. Com esta fantasia pitorescaje grandiosa, Bawn _ '
bl-stecas_ xo invertido daquela ap¢m0sa.escato¡Og¡a das
explica conjuntamente a juventude do Continente, o escasso ntiinero e o' atra- ,
so de seus habitantes, a catástrofe de um mundo e a.pena na cabeça do' sel- _
J l
vagem. - - . _ '' ,
- BA coN.- A AMÉRICA, CONTINENTE ENc1=L4RcADO _ z No ensaio Lvlll, Of vicissitudes of things, a mesma história é narrada
.1 mais sucintamente: -' f '
Sem que se Pf0¢Urem outros recôndid
' i -
__,
É
dilúvio,
_ Baconou_melhor de mero
' drluvio
' ' - os
' precedentes» 11 hlpótese
' fršra avançada - Porde um
- Fran-›
Se exarninardes bem o povo das Índias Ocidentais, é muito provávelfi-lu? ele
as precíšameme aquele liãlol:.:r1e1;:1hcano, ljiá \
\ seja mais novo ou mais jovem que o do Velho Mundo e 6 muito mais provável

~ e çnnca
cita . . 3 - re ance er acon" › 1 Q'-16 e D que a destruição que lá aconteceu não ,tenha sido provocada por terremotos [-,- -l
Pf0Pós1to da on. e ' ' - - . - e_Pauw . mas antes por um dilúvio próprio; pois os terremotos são raros naquelas regiões.
ponto mais ¢1¢va¿O42 _ anão égmnâsâlísfllllrií cuJa famâ atingia. entao seu ›
ITIEJS' Ç0nheCldas
- na NOVHA .. . . n › mas em Has 'de suas O b ras 1 que, por outro lado,_possuern rios que eirtravasamutanto, que os da ÁSia›
› tlantrda e no ultimo
' dos Ensaios - clvzs - - emorazs. . e Europa não passam de córregos diante deles¿ Seus Andes, ou montanhas, sã:-_0 _
O reverendo govemador da A _ igualmente rniiito mais altas que`as nossas; portanto, que'os rema._ncSC€nii€_S
Aflâlm-da que chamajs Aniéríc Casa
43 d0S
_ -ESÍFÉ-U8elfos narra como as. -a grande _'v
* 3, foi totalment d' - . - de *gerações de 'h-o'mens`§álvaÍra1n'-se 'desse detemiiriado dilúvio.”-'6 '
g Forum grande terremoto' [...] pois toda' aquela'e›Ítle?r:ãod`‹ÍsÉáq¡ÍÊt§¡l;í,da`.não _._>-,
a.-terremotos, m « d ' - ~ - _ ou i-mundaçao:
- aqueles paises, Sum Também aqui Bacon, que parece recordar as Leis (livro nl, 677_-9), de
35 POr etermmado drluvro zen-a
do, atualmente , rios muito` maiores
' ¬t Platão, mas sobretudozdesenvolver. uma antiga lenda americana, referida por
emontanhas muito. ` ' ' `.
_:
travasar á d0 Que qualquer parte dovelho
. Gómara (1584) e' parafraseadaz por Montaignef' põe-em evidência a ,umi-
mundo?mms algm' para ex' ›.{
‹'J
. (superioridade da dade-e,a juventude do Continente (duas características cuja eficácia acumu-
natureza mammad ' ' - .. . _ « _ . _ . _ i
lativa irá seexprirnir, quando se dizí que ele ainda não está bem» seco e fenítue
íâàíãiííáë'-Ptáífât ãërfifsâfläíÇ:;;:::;°;:í:;:í::íar to), a imensidão de '-seus rios e a altitude-deëseilis montes, traços- sintéticos
V
- ‹.‹ - - _ . . f |
v

de uma natureza-primitiva er ameaçadora. -Para os habitantes- há aqui apenas
r um' a'cen'o;' enia primeira passagem-citada Baconconsidera-os quase irnpof
'ii H°m°n5'e 3-flímaís P°f¢¢¢rarr1; portanto, ou afogados.ou,por.:carência* J
tentesj certo;--” ao-f`*‹iii1or`^
masculino; não' 'têm traço -d'ele'? e-"šeii
de aJÍmeflÍ°- Mas 05 PáSS&l'0S c “alguns poucos- habitantes .selvagensda tlo- 1 povo `“E- of virgern' do *iiii`1i'1d`o” porém muito- mais liässemelliadosf-ao
, 1'esta" fUBÍI'2111 Para as -altas e frigidíssimas 1nontanhas'(explicação embrio- ›¬
znária das civilizações andinas). Esta esa razão de haver tãopouca gente na s simples e`b`om Vselvag_erri*, não aostamericanos degeneradose covárdeš de
América, e de aquela pouca existente ser 'bárbara'-efinculta: f"'Porta'nto não z Páfiw- Dê'Päflif›*`í1Õf¢%iëfi*<i}"§fi¢°×ii#ä*$ë, mãíë,i>f§×ífi19'<Í¢'Í3ãë¢rf?§°išíSÊi¢ä .-
se espante com a população magra da Américaltarnbém oágovernadorre-e a causa física`fcla_cói1d_í¢âf;o':atual da 'AI!1`ër_i_Cài_ também ele-'se
corda-a 'grande Atlântida' e fala como nós da 'A`1nérica'],"riein-corri a rúde- »
so ao dilrfrvio, 'embora não 'exlcluirrd7‹ƒt_1'uase`nenl,1urn outro*Íflagelo.f '
za e ignorância do.povo; pois .deveis considerar seus habitantes. da.América
' n
1 . Pôr fun; Zé b`š›Ii_iI.×í.ëIiÇ5Í¿?-ÍS.¿1\fš9¢1f °°fi›9 ä§1ͧ§fië$`.fifi'=,1§í'flÍ!Í.`š¡VflÍ¡í ëhivëtéf
como um povo jovem” (o~Mundo^Novo é= o- Mundo Jovem), ‹-_:om.nu`l'anos se,de,un'1a rnu1ti15|licid_ade'de'di1üvios, correspondem _(e'äs veies'___atëjY'são'_cofin-
a menos que o restante do mundo, porque mil anos decorreram entre oz “di- Cídfifliesl á¿111=1flS'<i1í¢"Sñ1âíii4híP°.°fiá¢õsš fiiú1iivTs§l_,§'¢ít=rë€ä§S“I-'
, 'lúvío universal e seu- diluviozinho particirlar”-.'“~ 'V 'L-'fz 3 . . I
f‹›rçó`pzuz›;1¿1ó de fiàfzfióàizär 'ó Gênesis'éózfia cigiiéjà mõazírzrêií _rš'z,r__z§r,r*r'z`Xérzz`r-j;§\‹_;
` Assim, com a lenta passagem do tempo, -aquele .“pobre. resto de. semen- É - o Fator causal .divino,'n_1as clespedaçando-`o, repetindo-o, déconfpbndo-o,_
te humana [...] povoou. de novo \o território lentameñ`te,.- pouco a"poucö.”. 'z-'fe postergando-o e _adaptando-o-às-circunstâncias, conforme a necessidade.
i
Porém, “sendo um povo simples' e selvagem, nãocomo Noé e'-Íseus filhos, , -:U da por volta de 1830, os geólogory-¿z_2_\Il1t_‹=¿ z§\,¢,\{idèrrci_a dos _estratos;fó$§ši§7§de-_
1
,viam postu1_3-lf Wšaiclllãllltidade de Criações isoladas, no lugar daquelafiíriica
que foi a principal familia da terra, não.-~¢ons¢g11i;am;q¢¡;¿¿¡z1¢';¡a§¿›a¡›¡¿s, ~ -1,. .
-e civilidade para suaposteridade"~'.45 E, '-ao. descerem~dos-montessfgëfidos -para - afirmada p=1.a,12›í!›1i=izf”z.f.\,.t=Sr'.=. 9fi9¢¢2e›..fi<l°i¢¢sm¢Iêtâ§1iss@ifífaëiësiíis em
os vales sufocantes, - forçosamente .adquiriram-. aq'u`el'cfseu costume .ignohmi-_ 'V u seú íiiíiaciiloso
_ FU., , A,._ sentido
_ ..,.,.. ..., perde.
_ f‹;šSi1n,toda-°0¿°fšn.ci_ãze
. .. .. _. quä1tiuç_r.Ípláu¬
L \,
_.
.\... ..v›«_r
z ~
nioso de andarem nus; Seadornam oƒcorpo.-com plumas de aves ézparaffazei-
' Íz _
.¿ sibƒrndaqe, ,ai1_1'da_qu°..-»Lirnimda-zz ¢merwhë1›.d9.-se
i
como “aqueles seus ancestrais das montanhas, que foram convidados-a elas 4 .‹›
r. '|
cáveis.. '- ' w L. ..
J
4
1 ¬ \
Í
64 o Novo MvNr›o

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De imuwz A rwesronroana no HOMEM AMERICANO 55
D - ~-
bmscaflšlgäilväšgztšgizggší _ ao “Filósofo prussiano" uma reação
cââditar  .
' Os jesuítas; -ridicularizados por De Pauw, defatoflcontribuíram maiS i ' / k
:Ê Primitivos; -uma ou outra observaëäfwaudem-Ç rós'^Êa§ de selvageris e povos que qualquer outra ordem - com suas Relações anuais (1632-74)›ecom 63- 5 'U_,)¡\¡'
b e sobretudo haver colocado o problem?-ill a-ifgéafhvmhaçao sçmlcleilfiflca;
critos resumidos (Lafrtau, Charlevoix etc.) igualmente destinados 'ao grande
1 mas também mais explícitos e provoc tas B f1;1Cas nos termos mais crus, público - para dar do indígena norte-americano um retrato falado, sirn`pá` `
i a dxscutira como um segmento da faunâudesíodu on hmitara-se à fauna, e
e tico e humano - seja porque tal era seu sincero posicionamento"pâral:;¢;Ê
«f
`¬*!:

05 *UI1¢I'í¢8.n0s no çeml-O de sua ínvesfi a Ê- 3 o m1mdo.V_De P_auw coloca


teses e sobre si as atenções púbücas asgr e esta forma atrai sobre suas
mente inferior ao naturalista em gêáio èiepfictfs 6 HS 1,-93Ç0°$ Ufadas. bunda-
catecúmenos, se1a para estimular a generosidade dos subvenciona or
ropeus e persuadi-los de que seu dinheiro era bem empregado. de Que 05 °°n'
vertidos efetivamenteassim o eram e mereciam sê-lo. Mesmo os_asP€CÍ°_5
b literário, obtém, no emantd com seus dn rico, _ser1ed§Ç1€_m0ral e talent0
negativos trazidos à luz pelos jesuítas eram de tal ordem que serviam malâ
ches, um resultado ao qual a Histoire n;ils_p;qVenos_volumes de `Re_ch_er. para ressaltar a firmeza, a paciência, o espírito de sacrifício dosbbns Pa-_
meme não teria alcançadmo de desencàdè e nao^asp1r_ava evque certa-
dres: certa tendência deplorável para o canibalísmo, as ferozes mut1laÇ0¢5›
.i nar em torno da questão da natureza e do äzsutäâ E-,jolenmfa-V-Ç-Çme¬n.'Ê»e" fi-et? a sodomia, a voracidade e a_embriaguez. ._ _. _ _
ras de argumentos seculares toda uma série d 'dio ?bAmenÊa cëdelas-1in.3l` Porém, fisicamente, que pedaços de homens! O pintor Bflfllamlfl West I
1 nais e preconceitos ultrapassados todo ašenzjltg' 'eSi;'P_°l9g.'.3s Í'Êad1Çl0- comparava sem rodeios (1760) um guerreiro mohawk ao Apolo d_0,_,B¢1V¢¬
I
ccme§ punidos políticos. ,_ z . _. _ _, , b egve as fórmulas; nas-
dere!52 Um missionário não encontrava neles “nada de aferrunado ¢¡flÕ-
À ; As vedleesalãšllíeaeërëlaãscritor
tema b ~ e baixo
de - escalao_ dessacrallzal'
~ _ 'e. reavivar
_ , _ mirava pelas suascostas as frontes de imperadores roman0S›_-Í-11110 C_¢54f.›
â
rL

' 0.. Quem. eraBeverland? -Um holandês=libertin0 Pompeu, Augusto, Oto, frontes de tal majestade que não havia acreditado
fi (como De Pauw). sem possuir uma sombra do*g'ênio do t ól “ t pudessem jamais ser verdadeiras quando as vira esculpidas nas InÇda1hfl_S ¡in-
viammortificado ao longo de ro ' fólii ` S ie ogos Que- se-ha` tigas ou gravadas em chapas de cobre! Reunidos em assembléia, reafirma
li
¡.
!

original escrevera um 1 .
›~ _ '
sms ln: ~ os sabre O d°›gm-aid°*p°°ad°
mais herética e popularr ol:il:li`:;1l05'..Flo"qua1':t.lava a gs-tie a `i~m.crpr°t?çã°
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1

outro, os peles-vermelhas ostentavam uma sabedoria e eloqüência Cll~1°~h°n'


rariam o Areópago de›Atenas e o Senado de Roma em seus mais belos tem-
pos. Seus discursospareciam tomados de Tito Lívio.53, _
Q. ÍaÇ°°§› e 90111 fl'.€Ql_1¢l1C1a ev1tavam~citá-lo~(como devia acontezer cgfn D¿
'_p ._ V . . _ ¿'~¬;~_--“-_-_--›¡ O Ponhamos de lado a fraseologia classicizante, própria do repertt'>ri0
Ê; a-"W)› ma-5 5°_“ b_f1° II1_a1l8-110.6 ÇSÇ5-F!11.D1_10 gllfundla a- zhipó_tese_¿'saçrjílegz
É Êkevand-°`a 3 ag” $°bf¢ melzm-?$ §IflH1bÍ¢l11I¢S‹-fechados. às -disqúisiçõesdos pa-
ÊͧÊÊš“§Ê““°°' d°s ?aq“°'” “=sm-.asaâdtfidazaêfaêâëuflzâêâ-f°rasfifi› ez;
colástico dos jesuítas; e sua técnica propagandisticabde adulação iI1_S14!1l-\<f1,{l_Í.¢~~ =
e adocicada. Resta o bastante parase compreender a reação de um' De Paiivv., ~
Este, por' sua vez, poderia encontrar algum remoto precursor da tese (JK g 5:9
_ ' i %l.1Wr°°° °°.ar'eI-n It-›°1~z1-1-11-°r¡1_?1¡z*$l¡1Fš9_p;Q¡?1°mi'$‹fll“ë£l§Sde Colombo ' da 'inferioridade dos indígenas da América entre certos teologds, ‹`:oni‹_›_ O es-_ .
_ Ç__Qv1edo.ate Buffon nnham_sido,exa1i1inados um plano ecientificó 'elcom t
reverência quase Definiüvamentef;os;prÕr›nosÍamericanos ^1¡ã¿;}§fgfi1
1
éoéês John Major (em como de 151o),,ã^*,e a1gun§_dor'nimcanoS.._c_0m9 0 lí: o5 ~
cenciado Gregório (1512), frei Tomás Ortiz (1525) e Domingo de Betanzos \(\
.'_‹ t§~¡.;>~i.f':
›'
._,l
<fid‹›S ‹='f111f11i1_1=-z1_‹1‹i›_s_z›‹›_r ‹=1e,_.â¢véúàài1íâé;àiíz;ó¿›é_'n¢' íáàúä¿*`ú;âz'¿§¿ààä0í¿¿_ ‹
›.
(1528-38), seguidos pelo jurista Gregorio López de Tovar, que negaram 'aos 0» èú~°“"
4
Infante e enrubescida. Mesmo. o cr'i¿›ji_1öÍp`ód¢ñà{_iperáóài-ihé 'a`inj"us£i§à`.fé- ›
nativos todos os atributos tomistas da humanidade: “jamais Deus criou gente
_..
mz de multës de SUÊS,¢0l1CÍ¢l1áÇÕ€$,._šlÍÍ_f11n¿Étí§`ÉÍ?Í Pr_ofeEi'aque os- \×à^
»
mais vezeira em vícios e bestialidades, sem mistura depbonclade [.. .] ou poli-
¢`°l0,r1_0S ¢1111`<i11s=¢i_‹i0S um dia se `ä¿Sla¢fáiiátfiͧÓjíigÓ'ëé¡5'an1i`6iÊ; Í°`¡è1'éšÍÊ1zé¿ja- ciamento”.55 Nem os calvinistas, na segunda metade do século, foram me-'
rã0`fvsir à mtelae, qufliádv ¿›'‹iÍ1íis'éf¢iíi,_s,égiârãfííëi1%é térâd'á'é*iiiëiöšfäë`í*à- _,

nos severos que os frades e sacerdotes católicos: “pouco diferentes dos brué
1,. c.ó._:`~_
z iê-lo e de ëflrmar s_ua_lib¢Írdade'_'Ã5Í'i " ii-"'Í"': "i`' :fi
_ . › z ›»~--'\_~ I'_`_-.-
, .7
aa
tos” e a sua não é “simplicidade [...] mas bestialidade”-.55 ` -` "
_' ^ _ ". ,-f.~.'.- _.-¬ Na famosa polêmica que precedera as Nuevas Ieyes, Se`púÍlveda'apre`-
_ __. ¡ 17€'
0zM_:f‹› Bam E
_ . _- _ .:-_›_:.~. ;r,z§~_
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sentaracomo segunda razão da licitude da guerra contra os indígenas '“a


rudeza 'de seu gênio ,* pois que são por natureza gente servil- e bárbalra'e,' por-'
_ como sãofos espanhóis?? _ f
._. _ _.. ~ =' ' " " ` ~- "\" .. _ ,./2"
13'
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tanto, devendo 'obrigação aos de gênio mais elegante \'_V°"°:
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e aindalitgädizia que são “por natureza medrosos e ademais 'imbee'is'e" 1 ir 0
_r_›ara c‹_›'gn `‹>'r›1!b_11'‹; §t¢_=' des‹§çm‹›¡xyzzfizzõ;çàäaó'*_qúäõ=1ófi¿â;~j¿i=ëfâ›éàêâ‹› '. f ‹
'Fr'
amentes”.5" V -' ' “ -- r ;.~ _
«msfónz das saques
_ zóaízefiéâàõ; =sê'évzfõàaê qúemuitós miés'fõfiài=i*
_-«os~ _ ;.
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Pode surpreender um juizo tão radicalmente negativo daqueles indíge-“
tendiamaidealizaroindígena ,4 o`tr '
u os o descreveram com ~ -^ '
cruel severidade. .z É
r nas, que a partir de Colombo haviam sido com tanta» freqüência representa-i
V:
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sz ,J _ _ ,-_.¬_.___
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Gê o Novo MUNDO

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~ ` DE P^UW= ^ lNT"ERI0runADn Do HOMEM Amaaiczmo ` 67
i l"¡1Í.\i'¡C bi dos como gente de bo .
. a in d ole e aberta à. ca tequ ese. Na realidade, excll-1!,- l05 ' z ¿ ropeus que, no século
` de Colombo, se recusaram a-_ reconhecer
. seus seme-- ._.
.`~,u _Í_:_l1l;1;ÍJm(t'dade comum, em violento contraste com a_letra do Genesis, era
í J- í
lhantes nos homens degradados que povoavam o Novo Mund_c__›_”_.°? , '~. \
têncâ sugeâ_d<;ÔI11Ê>Cl0 pa_ra_ exercitar sobre eles toda violência, toda prepo- E eram contemporâneos de De Maistre aqueles norte-americanos-'quer
Sempre nem aopãla ammçao de conquista ou pela cobiça. E, como acontece - tão persuadidos da necessidade de que ospeles-vermelhas desapare‹;¢_SSe_mâ
_ lógico gaia a vomãiâgsb oi demasiado difícil encontrar um ponto de apoio diantezda Civilização e do Progresso, quanto privados da unção reli8¡05*1
_ _ ruta de supremacia e dominio. i . e dos escrúpulos jurídicos do conde legitimista, falavam sem retoques dos
tada Íâãgäesqfä§Iê1sSÊÊSd_l1aviain__referido, freqüentemente em tons de admi- indígeiiasteomo-bestas:_ “os animais,_vi_i_l_gar¿nen'oe charn_adg§Ê_iI¿<1í0S'-"-'ÕÍ
Estad __ › _ genas a América nao se achavam or_ganiza_dos em Não menos interessante que a história da ideologia do “nobre selva-
_ os, nao reconheciam chefes nem senhores, nao conheciam leis, nem gem”, que já possui toda uma bibliografia, seria a história da ideologia, ou
magistrados, nem constituições. Em uma palavra, não eram “animais por caricatura, do “ignóbil selvagem”, do selvagem indigrio e malvadofi* ES'lfl
flatu-'ela P0]-ÍÍÍCOS”, segundo a definição aristotélica do homem. _ - ideologia, por sua vez, está estreitamente vinculada à tese, também ela reto-
E¡1fa°› 0 QUÊ Cfflm? Animais, sim, mas não politicos. Assirniláveis, por- mada por De Pauw, como se viu, sobre a fraqueza dos indígenas. Porém.
__£¶1_Í_<›¿_aos animais selvaãns,as_bes_tas.eàs-feras:que-a todos é lícito captu- enquanto a inferioridade espiritual ou moral do índio, seu _“s`el'vagismo”~,
rar, reduzir_ã escravidão, matar; objeto de caça legítima e de guerra justí, 4 é uma tese típica dos inimigos do americano desnudo, a inferioridade fisica
ambas rc_ meios~ -
naturaisde . . __
aqu1siçao“.53 _
Quem nao -sabe. viver
_ ._
em socieda- deste, sua debilidade corporal, é um dos argumentos clássicos de-seus ami-
de, nao sentindo sua falta ou necessidade, é ou fera ou Deus.59 E, já que gos e protetores,`uma das provas_mais freqüentemente adotadas em* favor
nao eram divmos, aqueles' míseros selvagens, e Deus, para os cristãos, há de sua qualidade plena de humano e de seu direito à. liberdade. _impeti_1o`so `
,¡t_/C» /- apjenasóoum, que está no Céu, é claro: eram feras, e como tal seriarn tra- De Pauw revolve as distinções sutis de doutores e juristas e-condena os mdí- f`
` ,ta os. , s › Y genas
- ›
cQ'mo"i'morais e__c_omo
É ---'~---fe' _
fracos, como ociosos_e_poijt§.}i§_o_§šl>Çʧ§£l§_SÃl;
\ *_-.-~_-z----.‹-.rs-› _ ,_ _ . . _
Qgjfauw, para retomar a nosso tema, cita Sepfilvcda, não (creio)-Vito-- bra'dos.65 Nfas essa sua carência de forças fora um dos pontos mais pisados K
zn,
ria. Tampouco recorda Bayle, que no faníos'o”Di2ttionnaire (sub_“Çieza' de _ _ Íriepisadãpelo grande protetor dos selvagens, 'o Apóstolo das Índias, _Bá1"-
,' León") já sintetizara as informações do cronista sobre a espontânea “de- ~ tolomeu de Las Casas: “São [...]*as gentesmais delicadas, fracas e' temas \_0,3
_ pravação” e “corrupção” da -gente da 'costa do Peru, em polêmicaaberta J
` - em compleição, e que menos podem suportar trabalhos, e que mais facil-
_' com os que “pretendem que os cristãos ensinaram os povosda América_ a » ~ C mente morrem de qualquer enfermidade”. Las 'Casas embelezava aquela de
tserem'maus”.- _ _. , _ bilidade, assegurando “que entre nós nem' filhos de príncipes e sei1_horÇS, cr_'1_a¡
fã (Ji ›Nem poderia conhecer um escrito de _Montesq_uiei_i (ante _l742, porém
'l
dos em regalos e vida delicada, são mais delicados que eles, ainda que
\¬. sejam dos que pertencem à linhagem de lavradores”.“ . › ` ' _
É-\-
fm \.'\ «Q 7 inédito até 1892), em_que “os selvagens daAméri‹_:a'f_são declarados incor- Os rústicos, misérriinos trabalhadores índios possuem a"rnesma¿cor'n- À,
¡“ rigíveis, indisciplinados, incapazes deentender-e`aprend`er: “_a 'grosseria po-
'pleição delicada dos nobres mais afeminados da Espanha. _A “debilidade”
\, de chegar a tal ponto entre essas naçõesfque os homens pouco diferem dos _ §¢
_serve_ em Las Casas para enaltecer vertiginosamente, não para humilhar os * ~
Qanimais ›› si _ _ . . < 'r-
g Nos primeiros tempos após a conquísta,_a maldade C,¢0I_lf11PÇã0 Ilatural Q ' i _ pobres índios. um título de privilégio, que quase, podemos dizer, deveri_ai`3l\¿§
. . fazer com que fossem disp_ensad_os__dos “ofícios manuais” , como se fossem
dos americanos era, portanto,_argum_ento corrente dos.defensores, verda- `-~ \
‹ igualmente hidalgos. É iní`quo,'em verdade, acentua o bispo na oitava de
' _deiros_ e_ fmgidos, da religião _(pa_ra_a_qu_al.todohomemegdão decaído), ao s suas vinte razões contra as encomiendas, é iniquo todo acúmulo de serviços

mpassotque šuaboñdadeee" moralidade instintiva era argumento. dosracionalis-
' . ,e__Íobri'gaç'ões._ imposto “aos homens, e a tão fracos e delicados edespidos
tas (para os quais o homem aparece comodotado deuma bondade própria, _. ¡i_orr1,e{is'Ê_i ,é “vio1ento, antinatural, tirânico e contra toda razão e.n_a_tu_re-_
e portanto Deus sibi ipsi, dos anticlericais e_ deseus aliadosinvoluritários, 1
' i .za_f'; .portanto ffcontra toda justiça e caridade e razão de homens'_'.§Í›.1_5's`_íÍI1Í-Í "_
como certos missionários e seguidores de Las. Casas. De-Bauyv, racionalista . ff D da em seu último escrito conhecido, a petição a Pio v, Las, .Casas evoca os
quese pretende contrário ao racionalismo ,e› à niitit_“1_c_a‹,:ã_o»,d_o-selvagem,in; ,_ Z-.ff __.¿__ _ ¿ __ _. “naturais
Ídebeis. . V › _ __ das lndias,
_ _ os quais, oprimidos
_ _ _ _ . _ _ _
por sumos_trab_alho_s__e
v¢SÍ¢í¢m sua iwlëmica .çofltra ,Os n1isSiQ11ári9ê.hurnanit.-mos;=«.êissim.pr¢i›ara_ . . '-:¿_.f' ` ~ .. _ _ (mais do que sepossa crer), levam-sobre seus fracos ombros; ,contra
oterrenopara os reacionários católicos do romantismo., De _Maistr_e, que em ` ‹ -' -todo direito divino e natural, umpesadíssimo jugo e umacarga insupor-
certo sentido (como veremos) continua e sistematiza teologicamente_De Pauw, ‹
.tável"_6.8_ _ ' I- . . __ .. Í -_
suspira e escreve:_“Havia muita verdade nesse primeiro movimento 'dos .eu-
.›
7
, ,
› ~ . ' A ' 69

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DE Pauw: A iNi=E1uoRn›.›.ma'i>o HOMEM AMERICANO
63 o Novo MUNDO `
-z* _ _ , . `
çjg 'u¡f,ifieat'a servidão dos' índios, 'adoiflfa
O ÍNDIO SER VO POR NA TUR.EZA.'*_ O Junsta Sepulvçqa, U9 frffgliãg da :servidão natural; c tinha; traiiisfieridüä (115
ARISTÕTELES, LAS CASAS E SEPUL VEDA plenamente a ttãdlaínaâlpüado a reiflfiãfl Sf€8°5'bá1bafÓ5'e.°spanfiói5;{ndi°$'
i.tëndid0›
_ ¢XP3~n O lírico e teológico-' *com toda' a'crue2'a'fd<i_I ãfíš
H
›'»-« tratando
,. o árduo
,. Dmblema 9° 1 o.Saspalavrassoain
, ,. ‹ ‹ às vela ¢_lúasc
_ -eo-
_
Tanta insistência bastaria para despertar a suspeita de que avffaqueza
dos índios não é para Las Casas um “fato” empiricainente verificado, uma totehsmotgänscfigšdtfëdâíIlšilšsloioz `:'Aq1-16163 Que 3°bf°ssa°m~p°1a"pm'
~..¡-no-uma
«Á .JN
noção' etnográfica, mas antes um artigo de fé, um axiomade teólogo apai- . . I or as do cort¡0› 655€* 5ã°'°'eÍ'h_°_¡es
` | xonado. Na realidade, a pobreza de músculos dos americanos serve a Las dêncla e O engeälgnãnolfâdégsilërãiíe idiotas, mas fisicamente

Casas não só para ressaltar, em contraste, a-vilezae prepotência dos ¡robus-
por natureza;
_ p › - eza. -. ..habilita
Vemos
l tos conquistadores, mas sobretudo como argumento primordial para a P Ó-
i
d°S 3 exefutax és tarefas neãÊssár:â,1iÍ?1¡:s¡Í1rÊx?'âIš‹ä›liil\:da~nãg discute se
que isso e confirmado _Smnpas ao dec_a__á_1Os escravos por natümza-im_
i lêrriica de toda a sua vida, contra a tese da servidão natural ou da escravizaf v
ção justa dos indígenas. os-mamã sao fortes ou el almente robustos. Sepfilvëfifl Í115Í5Í°› Ôfltiëífin”
l.
Mais uma vez, como já fizemos quanto a Buffon e aos selvagens fora- Ph°1tam°ntÊ°%§;i:;:§,Trsua çgndição de sub-homens (homuricuIi);' sua
da-lei, devemos. retomar ao “mestre ,daqueles que-_sabem". No inicio mes- ¬ Im? ~e'm<1Êua'L eua; vícios- irnundos e superstições"tenebrosas-, às ICIUÂÍS '°
mo de sua Política, .Aristóteles se esforça.pa.rfl,._d€ID0nstrar_aexistência de_ cova!-~ a, S dê cia a sagacidade e a -piedade dos espanhóis; `` 'f '
escravos, por natureza. O texto-e seus argiiinentos eram ,e são 'coriliecidíssi-`
valmlyifs ärsasnque num Primeiro IÉCFÍOÕO -:Quando 0 padre GrB8ÓÍ'.Í0.* E11-
mos. A alma sujeita naturalmente o corpo e ohómem a fera: .'_'Po'rtanto, mz os prímeirissimos, invocara (1512) as teorias de Aristóteles e são Tomás
stodos aqueles que são distantes deseus semelhantes como o corpo da .alma
para justificar a' férrea servidão daquelas “bestas falantes" que eram 'osna
V e a.fera do homem -(nesta condição-se encontram todos aqueles que valem
apenas para o uso de suas forças ƒzísicas, _e, esta ésua maior vantagem), são
tivos' das Antilhas” - simplesmente refutara 'e
escravos por n'atureza”.§9 Desta primeira_tes_e,_.deduzida_logicameiite__e~quase toridade de Aristóteles, qualificando-o de pfl85° Pá' m“1f° I'nf°r"
defiriidora - escravos por natureza são os h'omens_ que são apjenriqsrobustos
no,-mais tarde admite a possível, ainda que raríssima, existência de escravos
i. -, o Filósofo passa a uma segunda, ainda menos aceitável, mas_iia`qual z
por natureza: porém, com ainda maior energia nega que possa S¢f=`0~' 0339
busca como que umaconfirmação exp_eñmental,_da_prinieira ass_erção:« “Ai
i dos-indígenas americanos, entreos quais-se-descobriramíentão iiaçõešcivili-
natureza parece desejar fazer diversos os c,orpos`dos _homens`livre_s `e dos esf
A.
zadas e- organiz' ' adas como asdos-'mexicanos e peruanos". “Í ff *Y ~". f**¡^
Contudo, uma vez que não. lheera- fácil exaltar-lhes *os dotes"1iiteIec
.icravosz estes últimos vigorosos para os*tfrabalhos›_ grosseiros, aqueles, ao
*.¬ ou*-asvirtudes políticas acima das de seus compatriotas cristãos'(së-bem
vés, destros e elegantes, inaptos para_aqii`eles`traball_1o_s_ _t.i^c_1`os`p'orÍi'i'tÍeispara '‹
a vida ci`vil”.7° A robustez tornasse _de.predisposiÇão 'pag' É
que 'tente -'inclusive isso, com muito boa' vontade, na Apalogéficd hrlštõfià
,G - .1527-.-50), renuncia ao ataque frontal e~inx¿este contra o racioeííiiõ de-
ra a escravidão, a constituição débi_l_'um'ifiidicio_lde liberdade de
His fretus - e podemos efetivamente _tra_duzir, como _Mä_nz_oni_, ‹ i -.vé‹i1~“'i
a pe os a' '- negando por
ois extremos, ou seja. ' um ' lado que os indiossejam
'
“sobre estes belos fundamentos” -' Las demonstra,`o_ii Ôrê demons'-
‹fo'rtesc'omo escravos e, por outro, que os espanhóis sejam pios ëínstosèöl
,_ ¬ __ _ mo 'senhores - d esagregando
_ _, assim todo, o _sistema d`e-`ai'”gum'entos.do¿
, . Filó:
trar, a liberdade dos índios contra todó`arguiiiento teológico e ij"i1`i'idic`Zo_'pos"-_
sivel, mostrando-os débeis, fracos, incapazes de qüaltí1uer:'esfor'ço',Icíafeifics, so o, renovado pelo apologista daeguerra justa contra os índios. -' Í
numa palavra, dos requisitos físicos para serei!! escravos. ' ` ' ' ' _ 1 Seu alvo poleiruco é evidente em toda a Apologética hist'oría,"5 e _'me`-
Tanto mais firme e rígido- deveria fazer-se 0 bom -t`rade'nestã*pošição,` _ lhorainda em uma passagem da Historia
` ' de las Indias Las 'Casasfrecorda
l
quando seu velho inimigo, Oviedo ,7l resumindo em uma iÍinica"e="alegfe ima;-' afd_i_stinça`o do estagirita e, também ele quase traduzindo, iiidica'f“-`ds_'sinais
gem as qualidades positivas (físicas) e negativas' (mentá.is)_`qiie: definemro' es- quepossuem os servos por natureza” , ou seja, “que-a. natureza-déu-1lieš,=co_r-'
cravo, dissera que os- indígenas possuíam ae cabeça tfãodura que os espanhóis _
r _ posrobustos
_ _, _ ,_ e grossos'
_ e feios”
._ e ' *os sinais' para-reconhecer-os._qudsão=1Ãse-
precisavam permanecer bem atentos quando os guerreavam `gõlp`eâ-' - Vnhoresfç; isto é, terem recebido da natureza “os corpos' delicados efosgestos-
,_ .f -_
__
ormosos ~_››_7s¡
_ . Pode -
provocar -
sorrisos '
entre- nós,_ de -
um ~ secul'ozmaisí-“espor-“
los no crânio, pois suas espadas em pedaços; quando eminente
teólogo John Major fora talvez o primeiro (1 509)" a justiñcara*(ÍÕii‹:1tiísta* X.› . _ ;t1vQ_'jÍ_,._esta-_ teoria da graciosidade como atribuiçaossenhorial-,
' ” ' ° ‹ao.~~passo:que
' '
alegando a natureza bestial, -sobretudo ferín-a dos iiidígenas;Í`~'*põrque'sãd os .músculos sólidos seriam estigma de servidão, mas encontraímse ecos pre-
escravos por naturma" %recisamentc'_co'r_no “diz” 0 FilósofÓ“[~Áris'tóteÍes} nos É
cisos; ¡:lela~em- Maiideville (“a robustez é a'-coisa menos exígida`1dë_u"ri`iÍ6fi-
livros 1 e lv da Polmca; porém, mais ainda, quando seu grande adversário ›‹ cial¡'),77 e, antes que fosse” retomada- pelos apologistas dos rriiserávèis;1`dé-
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- Ê? |
Í
7° o Novo Munno
beis negros reduzidos à 7 na imuwz A iNmiuonm›.br‹1 no HOMEM A 'li
tava com çandura 5Obmncc¡ra_ escravidão, 3 tamb
“vá aos .lém 0 Nobre de Parini - - a susten- z
1.
4.1 Cncontrarás essa tnvial robustez -‹ d Vl 5.08" ' intimava
~ o Poeta ' “e ali imaginava que Voltaire, por exemplo, ao retomar himmzitá-i
. do que pensas a egraciosamembros
_ que dizes . A ,meus pares con- ria, houvesse entendido tão mal suas . bases
. lógicas ,a.ponto›_de_esc¡_-gygf gq;
í Vém UJUIIO mais e d l`
o frade filantropo apresenta os americanos “como homens doces
Ora tal como os “vilãos” do Nobre ' 'e icada
` compleição".79 e tímidos,
'1
. '
de_ Aristóteles
Dflrima no , també m os " escravos "
eram ho mens. E, para o cristão,itodos
de um temperamento fraco que os torna naturalmente esemv93'._';l§,_¢
1 _ os homens são livres inversamente, o novo defensor dos americanos, padre Clavigero, in.
e iguais, todos são filhos de Deus . A fi m d e justificar
_ _ ' ' a servidão do lndio sistido, com orgulhosa satisfação, sobre suarobustez de carregadores (ver,
i 0 cristão devia, portanto recu l ' ' - aqui, p. 164-S). Tanto é verdade que, nas mãos de seus apologistas, o índio
› SM- he preliminarmente a qualidade de ho:
mcm- Dai °5 °5f_°fÇ°5 Para considera-lo menos que homem, ou quase besta (como qualquer outro objeto de defesa ou exaltação apaixonada)“ varia de
(Acosta ainda dirá de certos mexicanos que “viviam bestialmente" e “é ne- qualidades física, muda de naturaa, perde e renova suas forças, conforme
cessário ensiná-los p rim eiro ' a serem homens e depois a serem cristãos”).°° as exigências da polêmica. ' ` '
Porém, ao raciocinar
_ assim abandonava o t erreno de Aristóteles, para quem Não por acaso se esquece de que a própria e simples palavra selvagem
os escravos ajudam como b'estas, mas são indubitavelmente homens. Se os não era, em princípios do século xvi, uma etiqueta neutra. Já vinha carre-
índios fossem verdadeiramente bestas parao t ' ' gada de atributos espirituais negativos e dotes fisicos positivos. Os “homens
_ ,- es_ agirita não seriam homens, selvagens", ou Naturmenschen, que tão freqüentemente figuravain nas len-
nem, portanto, servos. Caso seiam ` homens, nenhuma argúcia ' de teólogo po-
derá proclamá-los escravos por natureza das, no teatro e na literatura da Idade Média, especialmente na' Europa
tentrional, e cuja imagem reaparece 'em' miniaturas äs ma.rgens`dos manus-
f A rançosa tese seria, no entanto, retomada pouco depois (1600), devi-
i' I critos, esculpida em capitéis, flanqueando e sustentando -brasões, entàlhada
do a óbvias razões -econômicas, por um porta-.voz dos proprietários de mi-
em cofres e recamada de mil cores naglória dos tapetes, eram bravias cria-
nas da Nova Espanha,,segundo o qual “os índios podem ser ditos escravos turas, musculosas e cabeludas, faunescamente Iúbricas, vivendo na profun-
dos espanhóis [. ..] segundo a doutrina da Política de Aristóteles, de que aque- deza dos bosques e em antros cavemosos, subumanos, certo, mas bem dis-
,.i . les que devem ser comandados e governados por - outros p,od em ser chama- tantes dos monos e outros - - `" *
t.__L dos escravos [...] E por esta razão a natureza formou seus corpos, para que
t. . . Várias de suas características se encontram no retrato convencional d os
_
ivessem a força para o serviço pessoal [= servidãol". -De _seu lado, os espa- "selvagens" descobertos no Novo Mundo. Em tomo da metade do século
fXVI , muitas vezes_ autênticos
' '
aborfgines `
das selvas amencanas figuravam em
. '_.`z.
' ¬
I. i
nhóis possuem constituição delicada e foram criados prudentes e sagazes,
li para que pudessem “trata.r a polícia e a ur_banidade”.*?' ` z estas, cortes, bailes de máscaras e representações solenes tal com sécu
- i
lo anterior era de praxe que figurassem personagens travestidas› de°“homens
.U0 '_
,.|
N-
E, todavia, a despeito de todas as capciosidades mais especiosas, a an-
11
.ig títese de Aristóteles “livre/escravo” n_ão coincidia com _a 'antítese cristã _ geus" . 85 E a mais
selva ' elevada figuração poética` de um daqueles brutos lu-
.:'J^
“homem/besta”. O esforço-para fazê-las coincidir, para aplicar a teoria de xuriosos, Caliban, acumula em si traços do "selvagem" medieval e do indi-
,›
¿.
Aristóteles a um problema radicalmente novo, a uma- situação e a termos
gena arnericano~.“Estais pregando peças em nós", pergunta Stephan, “com
selvagens e homens da Índia?"“ ' ^ .
radicalmente transformados pelo cristianismo, produziu também nesse ter- Pode-se ainda indagar se a tipica tortura-castigo norte-americana de tar-
reno singulares e confusas complicações. ` ` ` -.Í _ , ~ ríng andfeathering a vítima, ou seja, de despi-la, untá-la com piche e recobri-
.- _ . _- ,.-_ Aquela rápida pincelada antropológica de Aristóteles, limi_tada.a um “pa- la de penas, em moda em tomo de 1770," não teria um significado ritual
rece” e à imediata menção de possiveis exceções (mas indiretamente refor- de zombaria, não representaria uma vestidura simbólica do homem selvati-
Ç
. A~:`¿':`;'_:~;.».;› çada pelo desprezo com que o Filósofo trata sempre-os povos primitivos. e co.” O certo -ë que no Hop-frog, de Poe (1846) - inspirado no Bal
.›'¿
i=“¡ os selvagens),” converte-se para Las Casas em um criterio peremptório de des ardents (1392), que foi uma mascarada de homens selvagens e que inspi-
Wir, z discriminação. Las Casas, ao vê,-la empunhada,como_ arma por seus adversá- rará por seu turno a delirante obra-prima gráfica de James Ensor (1898) -4,
rios, toma-a como sua e põe-se a brandi-la, sem observa'-la de perto, tentari- depois que o rei e os ministros foram "saturados com piche",- houve ime-
do obstinadamente torce-la contra os outros. Com a imprudência impetuo- diatamente aiguém que “sugeriu penas”.°° E 88 "P¢118S” Pfiflfla-lfeflfifflm P0-
. 1.i. sa que lhe é própria, para salvar a liberdade legal dos indlgena§¿8l?2iStfl_!'_<1,fl `! ra sempre como um atn`buto proverbial do selvagem seminu amencano. “Tal
e vilipendia sua capacidade física. › -- I . .j. . _ .~ _ ^ .¬ z como o fixadó/ Colombo encontrou o americano, dngido/ de penas na cin-
e O ¡-'esto nu g 5glVfige1n".”' AÍÉ fiflã dO 3éCulO XDÍ, dC PQDÊS IIIIIIÍIOO-
.i:* O Ótimo Las Casas não imaginava que suas cândidas apologias d_0‹m_i-
' ;
,.,.{
¬l¡. serável, débil, lânguido e inocente índio se converteriam, doisvséculos mais
mi-de, em “provas” da natureza corruptae degenerada dos americanos. Não (') Such of late/ Columbus found th' American, so girt/ With featliered cincture, naked
i else and Wilde. ` V
~›r-`‹
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íf ‹ - -V -`-F:-_.~›---“
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_-- __ _-_-___". 'e sr""_ ' "-T.:.._ ¬='-°-=*tä-t=.-1'--=“""'
.-.._.. * J.. za-.-..:;~ *- `*›""5 ` ~
. _ , 1.

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z Uwz A INFERIORIDADE Do HOMEM AMERICANO 7,3
73 o Novo Muwno â DE PA - -
:¬'. , . . _ _ ` ” “los er ortanto umparadoxovivo' tanto mais
1.1*
.~ _ Iorcs e coberto o mais docemente canoro dos primitivos, o tímido, inocente, _ _ Um “selvagem sem Pe _ a, p _ _ › N , `
__' ' glutão e galhai-do Papageno (Die Zauberflöre, 1-791).” E ainda em nossos quando as selvagens, ao contrário, _exib1am_no _ ovo _Mun_do__a,quela mesma
. . _ . - ' 1 d › ' L-
" dias, nas tapeçarías neogóticas de Jean Lurçat, o homme sauvage é vestido ^ lascivia agressiva qlše caractenzara mlflherçf) se vagens a Eumpa med-1°
de luzidias plumas assirn como de pêlos hirsutos.” val.” . _ _ ' . ' 5 _ 'L ' ' * ` '
' Diante de tantos indícios de convergência e contaminação das duas fi- , A dificuldade de definir É QU3-l1'fi°Ê:' °_a¡;_1b¿3';:_t1nd_í_3__Í_¡::rac¡;:_:s¡°3n-
ugšš'
guras simbólicas, outras dúvidas sutis se apresentam à mente. I f na-se manifesta nas constmçoes concei uals a 3 CS Q
Talvez os escritores que consideraram “degenerados" os habitantes das. “ carnos. ^` ` i ' ' `
Américas recordassem que também aquelas feras míticasda Idade Média , '
haviam “caído” em seu estado miserável e não se elevado de uma condição ' _
ainda mais animalesca. 'E talvez o sempre renovado estupor com a impuber- ^ O CLIÀL/1 E A- SER VIDAO NA TURAL -
dade dos americanos nascesse também do contraste entre o aspecto real da- › _ ' _ _ i _ - ' »_ _ . -
queles selvagens transatlânticos e a imagem corpulenta, peludíssima e ursina , Para além daquelas díatnbes 5°m¡t°°lóg_l°as 5°bre Ê seívldao °u-hbel-`
Í das criaturas fantásticas tomadas familiares em tantas representações figu- __ dade natural dos índios entrelaÇaVa1I1-Se lÍ°0F13S P5°Ud°°1°nÍ1fi@5 *caca 'ia
rativas e literárias.” _ ` I H ¬~ influência do' clima, um fator que por s1~ só, segundo _certos aut0r=S, ƒflffa
A partir da carência absoluta ou relativa de pêlos, era, portanto, mais '_ sido suficiente para predisporos indígenas amer1can_o_s_a escravidão. A-1_dé1a
que fácil, era obrigatório o corolário de que os glabros americanos deve- 'š de usar o termômetro e o higrômetro como cânones mterpretatwos da histó-
riam ser também débeis e impotentes. Desde o bíblico Sansão em diante, ria foi cultivada, como vimos, até o inicio d_o século XIX, com modulaçoes
associou-se aos cabelos e pêlos a idéia de vigor fisico e' daquela potência es- ` ¡ argutas sobre Optoma DOI' parte dê M0I1Í¢Sq111°\1¡ Que 3<1UUÊ_19- uma QWÕISPO'
pecíñca que falta aos lisos eunucos e não deveria se manifestar nos tonsu- sição natural Dafa 3 6361'al/atllfa 1105 DaíSeS Cá-11d0S C adlfllfava- a llbefdflfk
r
T
rado_s,9“ prosperar no frio e no gelo (Espírito das leis, XV,_7-8; XV_II_, 2); porém, até
Não é o caso de se fazer aqui uma história da barba, de Juliano, o Após- o século xvl setentara-reforçar com aquele concerto empmco os argumen- _
tata a Fidel Castro, porém é mn fato que o` pelame no queixo teve de longa tosde quem negava a priori aos americanosoprivilégio de serem O_-
data, ao menos nas civilizações européias, uma estreita associação com a ga- clima do Novo~Mundo.era› em geral-maisquente que o europeu. Osmdros,
_ lhardia corpórea e em especial com a potência viril (talvez-porque esta se _ _ __
inicia com a puberdade?). No século Xvn Salmasio o discute prolixamente, portanto,_~deviam ser -de
como os servos natos duplamente escravos
Aristóteles, pornaturçzaz
e por habitarem porde
lugares serem
climafortes,
debr-
Y negando que ataviar ou aparar a cabeleira seja exnatura, mas reconhecendo
_ que todos os povos guerreiros e agressivos são cabeludos.” ' litante:
poltrões.em ' suma, porque eram robustos e ferozes e porque eram débeis e
- Contudo, também um epígono tardio, ignaro de De Pauw, o professor _ -_ A justificativa físico-climática da"§scravidão, que remonta ao mesmo
. Corrado Gini, a título de comentário de sua tese de que “a América foi em Aristóteles e a Ptolomeu, foi retomada na Idade Média por santo Tomás”
certo sentido desafortunada”, pois “por_1_nuit_o tempo” suas estirpes “fo- e mais decididamente no De regimineprincinum atribuido ao próprio5Dou-
ram, do ponto de vista biológico, retardadas em relaçâofàs dos outros conti- tor Angélico.” Não causa surpresa, portanto, vê-la exumada e aplicada aos
‹ nentes", nega à pilosidade qualquer valor de indício:
___ indígenas
(p. 65), ouamericanos por frades
como Bemardo dominicanos,
de Mesa, .como
que legitimava os já recordados
a semi-servidão natu-
conservou-se a idéia de que o homem piloso seja-inn homem forte. Isto se en- _`
K _; _ _ contra nos provérbios latinos e se encontra ainda impresso na mentalidade dos
3' __ ' Os chineses - relatava um médico missionário que' esteve muito tem- ral dos jantilhanos com sua condição: de ~habitantes«de_ um arquipélago, sujei-
F . _'¿ -_ _ po entre eles e ocupou-se dessas questões _ sentem um complexo de inferiori- ê
tos portanto às.-influências _volúveis da Lua,-senhora das águas; e pelos
É _ dade em relação aos europeus devido ao fato de que seu sistema piloso se de- ` totélicos, como Sep1ílveda,~tradutor da fPoI1'tica,^ segundo o qualflbastavaster
senvolve mais tarde. Efetivamente não existe nenhuma' razão para se_acredita.r É l nascido em certas
CI11jávèl.l°°__ _ ' regiões-
. - ~ _doI 5globo
1 ' para
-‹ sofrer
_ = ~ de
- escravidão
- ' ~ congênita
' '~ z e1.'in-'Í
_ g_*_°n°:s*:f¿1_1;_§d¡;;>f:_1;:Ssg:_11âd<;_S Stšiârn mais fortes; os atletas a que assistimos tríun- ' ' _ _.Nascia dessa forma aprimeira acusação. radical contra-eo clima- das Amé-
_c um _ _ _ oènda do :e___=_*______ _:>__1:1<_=_I_1_S__P__1:Ê_‹:S- Esta impressão é possivelmeir '
hmanosmdoumsfim do homem das neves ue am 08 Seres humanos ou _proto- ,
ncas,_seu arnbientefísico e-geosraficoç As terras -_mcém-descobertas apare-
eram como afetadas' Por uma infenond-ade essencial,-. por uma mcapacidade df
- dotados, ao que parece, de uma força
sao, ' q eram' ° °nd° s°b'°V“'°m
extraordinária.” H _ “nda ° ' 'intrínseca de gerar homens livres- Para justificar a-_ servidãoz dos indígenas,
os escolásticos europeus 'não.hesitavam em condenar aterra que osviranasz
_ r 5'
. ' , `
, 'it
"*£=‹;°
s ' _ s -A
hxj
É
De i›Auwz A iuraruoiunsiaia Do HOMEM AMERICANO 75

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74 O NOVO MUNDO \_ _ . _
É
tal e mgral, que mais os prejudicou o conceito que os beneficiou a medida'
É cer, o clima em que haviam crescido e até as estrelas inclementes que brilha-
vam em suas noites. Já o franciscano Sahagún atribuía (em torno de 1565)
m0m›z_io4 As melhores intenções para com os mdigenas terminavam por
vícios e deficiências dos indígenas a uma influência nefasta do clima e das pm lhes a inferioridade e o avassalamento. « .,
L
constelações americanas, que se estendia também aos espanhóis e mais ain- conñ'i`:iiaiÉoém este argumento, tão repleto de amarga Cl¢SÍ1\1Sã0› P0SS11_i-uma
da aos crioulos.*°1 Precisamente um século após Bernardo de Mesa, um ou- história curiosa. Esta remonta em essência àqueles deu'atores.dos índios, como
tro dominicano, Juan de la Puente, sustentava (1612) que os índios recaem Dgmirigo de Betanzos, os quais previram, com 1'180f°5° P°5S11§l15m°› <1“¢ 0150
freqüentemente na idolatria porque o céu da América “influi inconstância, uanto se ordenasse ou se fizesse em favor dos des81'aÇad0S 1I1<1Í8¢113S. resul-
K5
i lascívia e me n ti r a" tanto nos indigenas
` ' " nascidos
quanto nos espanhois ` sob Ílaria* em prejuízo destes. “Não há coisa que-para eles se ordene que não
constelações tão funestas - exemplo singular de calúnia , que asia»-inn inéúnvezúenizs. De tai maneira que, ainda que 0 que se °r_‹1¢na seia
suscitou (1755) o justo desdém de um douto crioulo mexicano e valeu ao bom em si e com santa intenção previsto, quando se vai a citada ina-
frade a merecida pecha de haver desfigurado com um só golpe os homens téria sai danoso e desordenado e redunda em dano e dimmiuçao daqueles
H 105
e o céu da Ainéricalm _
A debilidade ou inferioridade do Continente possui, portanto, uma de a qušm TšÍtr9mo0Í'aÊ›aÍÊÍlo tâínšanüago (Guatemala) escrevia à. Coroa que os
suas primeiras raizes nas .especulações legais e nos sofismas dos defensores índios Êiibtraídos ao domíriio de seus patrões “estavam piores que arifes”Ã:¡
de um direito natural de domínio dos forasteiros europeus sobre os aborígi- Portanto, não valia a pena afanar-se tanto em a1uda-los ou' melhora-os. ,-.
_ ,iam Os dominjçanos da Hispaniola, “muito melhor é que so eles
nes das Novas Índias. É uma tentativa de sobrepujar a liberdade dos nativos
com pretensas leis geográficas, a cândida realidade com citações e silogis- slfn, tape ' o antes” W No Peru, o severo vice-rei Garcia Hur-
mos. É um simulacro de má ciência natural, para aprisionar a liberdade vir- vac para O mçllemoyrrígrmuês de Cacte (1589-96), observava sardonicamente
gem daquele mundo inesperado na mordaça histórica da Política e da Auto- tadofe Men oimtê tão ouca sorte que tudo quanto se faz e Ordenfl Em
ridade. . ' que os natmaââi uläse vtiita contra eles”.*°8 T9-!I1P0\1°° 5° deve acredita!
Compreende-se, portanto, o desdém e a amargura irada de Las .Casas. Íiiia i:ilri)aÊni)iÍ›I:Jessilmismo fosse apenas dos católicos. Os protestantes deviam
E capta-se melhor a contribuição polivalente de sua reivindicação da debili- mostrar'-se ainda menos esperançosos de salvar aquelas almas tão P0l1°°
ir-Y* dade do indígena: no plano aristotélico, ela lhedefendia a liberdade nativa; postasfà graça. E, de fato, as mesmas observaçoes desconsoladas foram fei-
no plano cristão assegurava-lhe a benevolência divina; e no mundano e prá- tas pelos puritanos sobre os peles-vermelhas da América setentrional.¡°Ê' C0t- É
rÍ tico convertia o estigma da inferioridade biológica em titulo de proteção régia. ton Mather chegará a dizer que o Diabo possivelmente havia atraido aqueleä
“miseráveis selv'ag`ens”'à América, na esperança de que a_ BOB I1_0\{fl I
chegasse a tão remotas terras!“° E pouco divergindo Jonathan Edwflf '\`_,.
›.:._ A INUTILIDADE DAS LEIS PROTETORAS DOS ÍNDIOS çará a suposição de que o Diabo, apavorado com os .. progressos da verdader
_ ..Í7- Íf'
5. ra Fé no tempo de Constantino, tenha atraído hostes de sequazes seus para §
|`«
Entretanto, de pouco serviam tantas argumentações engenhosas ein- os desertos americanos de forma a subtraí-los da influência fatal do Evan-
il
vectivas fulgurar1tes_ K * gelholm ' ' - _ ' ' ' ' `
z _ Com aflita ironia diante desse desperdício de boas intenções, comentou- Mais tarde, frades e arcebispos, funcionários esantarrões repetiram que
_ ‹ se várias vezes que as leis de proteção não serviram aos índios nem sequer o caso era desesperador e o melhor que se podia fazer pelos índios era, co-
gz 't'i"
l .
como remédio para seus sofrimentos imediatos. O conceito básico. do ,índio mo de costume, “deixa-los”.“2 O próprio Solórzano, ao defender os espa-
ai L débil, que é protegido, defendido, colocado sob tutela, passou de ,Las Casas nhóis da acusação de haverem maltratado os 'índios; sustenta que 'estes em
-lp para as Nuevas Ieyes. E de outro grande apologista dos nativos, o ilustre muitos casos “foriieceram ocasiões bastantes [...] para seremfguerreados e
., 1;.

f:
H
Palafox, pode-se dizer que, “como a maior parte dos pensadores espanhóis maltratados”; que' seus vícios e a calamidade com que foram-punidos pelo
que defenderam os índios, criou de uma forma consciente a idéia de sua ín- ¡ . Céu são, mais que os maus-tratos, responsáveis porsua destruição;›.e que -
feriondade e-apoucamento, de sua menoridade, de e suasim _, plicidade e die sua
C seu triste destino parece fatal, pois ' 'nada se ordena, se estatui ou se procura
pouca aptidão para defenderem-se por si mesmos, dando motivo para que para suäsaúde, utilidade e conservação, que não redunde em maior `da.n'o,'
as Leis das Indias fossem ditadas em razão- da debilidade da”raça”.1°3 detrimento e desolação”.“3 . - - ` - › ' A ' -f ' ` “
Em resumo, como escreve com tristeza um recente indiófilo “pintavam- Até aqui, portanto, a inutilidade da legislação protetora era explicada
i se os mdios
' '
com tais
'
caracteristicas
' '
de debilidade
- -
fisica
› .
e de limitação
. , . _.
men- como um castigo celeste, sem se 'indagar como então aquela força'que.dese-
l
».

_. e-.=~-~¬~;~:»
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. . _! e 5.. `. '¡¿"¡. L
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'J-._ - - - - - "-;:-‹ -'-; __» ff .-'~- -'<'I\.w.~ _
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\
O NOVO MUNDO
" *°"*i°'. 76
1
java o bem terminava sempre por fazer o mal, exatamente ao contrario do
Mefistófeles de Goethe, '_'(Sou) parte da Energia/ Que sempre .o Mal prc-
1
4
tende e que o Bem sempre cria".“4 ' -.z «L ,
A explicação começou a aflorar ao afirmar-se um espírito mais huma- r- _ O ` _ A ' EIAS
nitário e um conceito mais elevado da dignidade própria de todo homem AS PRIMEIRAS POLEJWICAS EURÓP _
e qualquer raça. Se, como vimos, mesmo o benigno Palafox considerava os
1
EM TORNO DE -DE PAUW
índios débeis e portanto necessitados de proteção, I-lumboldt observava que
ia proteção os humilhava e enfraquecia_ Acredita-se que se faz um bem .“ao
tratá-los como menores, ao colocá-los perpetuamente sob a tutela dos bran- ~ IMEDIATA-'›`e E EFEITOS
cos”, mas assim “eles se tornam uma carga para si próprios e para 0 Estado REAÇOES _ - ' RETA1wAD0s «
em que vivem". A este propósito cítava um memorando (em torno de 1796)
al as teses de De Pauw suscitaram de imediato
do bispo de Michoacán, frei Antonio de Sari Miguel,“5 o qual recordava i
As pmadoxaiirzeriâíëíliâss e de centra-réplicas, sereis ¢ Paf°ÍaiS› dire'
umPfiQ11Cl1QV°5P « ~ ~
exatamente que Solórzano e outros juristas espanhóis se perguntavam como ~ - contrao abade prussiano_0S
- - aP010 _
entãqflos privilégios concedidos aos índios produzem efeitos constantemente tase0b1í¢1“a5-_N'Ê.Eurz°p_a levantaram se . ~ d d s de um lado Pelos
desfavoráveis a essa casta”, e concluía: “Os filantropos asseguram que é gistas do b 0111. selvagem _ . e da_ _natureza
_ _ virgflflh
~ la - 53 ° d no elos a.
_ _ . ' v¡11z oes ré-colombianas e eou P _ P
uma felicidade para os índios que ninguém se ocupe deles na Europa, pois reivindicfadores antigas ci . aÇ D _ no encalço destçs “eram
uma triste experiência provou que a maior parte das medidas adotadas para ladinos das- glórias e do humanismo da EsPa¡1h.a› °› _
,_ _ . z _ ›' ' ~b - ' - - mao,
ões de primeira cri-'
melhorar sua existência produziu' um efeito oposto”.“° ' U daqm C dah- geógros Ç min.uahstas'c(?nÍ'o ervaç ra`adora da história.
Obtida aindependência, o mexicano liberal José María Luis Mora, apai- ticose fiéis resolvidos
__ a. rejeitar uma
. visao tao desenco J
~-__, -_
xonado defensor dos indígenas, repete a acusação a Las Casas, Vasco de A Providência, a Natureza, o Progresso, a missao civihzadora do cristianis
Quiroga e outros apologistas, de serem responsáveis pelas medidas tutelares mo 'e a-fé nos milagres da técnica, do comércio e do bom govemo europeu
hurriilhantes impostas aos nativos por parte da Espanha; ao se considerar forarnfconfusarnente mobilizados, contra olibelo ácido que corroía sua páti-
os nativos fracos e tolos, temiinava-se por trata-los como menores deiidade na de prestígio. . _. ' V A _ A _ R }-“__
necessitados de proteção.” f ' ` Extinta essa Primeira reação polemica (em tomo de 1768 74), 35. ef-' .e.
Uma tese que tão comodarnente e com tão sutil hipocrisia racionalizava ches continuavam a operar em profundidade. E uma década após sua publi-
e sancionava a inferioridade em que eram mantidos os indígenas, não pode- cação - uma década durante a qual os jesuítasexpulsos (1767) da América
ria deixar de reviver em nossos tempos, em meio aos escombros do colonia- espanhola haviam. chegado à; Europa. e as colônias inglesas An_1énca'do
¬ lismo e aos transbordamentos racistas recorrentes. Enoch Powell, o político Norte tinham se. proclamado independentes (1776) - a discussão retornava
conservador, radicalizando certas constatações amargas de Gunnar Myrdal,, ' seu nível mais elevado e frutifero (Robertson, Clavigero, Carli, Herder). Che-
v
chega à conclusão, digna de Betanzos e de Solórzano, de que a primeira coi- gavam do outro hemisfério as primeiras refutações literárias, ,a Europa ia
sa a se fazer para ajudar as plebes miseráveis da Ásia “é cortar toda a ajuda “ " " arnadurecendo aquele grau mais elevado de consciência de si, paraa qual
z
1 efxterna".'l3 E o conselho é repetido para os negros da África: “Alguns teó- também a não-Europa, o resto do mundo, era ainda assim Europa, parte
\
| ricos serianiente que o melhor serviço que o Ocidente poderia pr¢s.` e prole da Europa, e_, coma preponderância das. correntes românticas, a pró-
:fria seria cair fora completamente, cortar toda a ajuda e deixar os pria apresentação da polêmica «ia se deslocando do plano naturalista-
1
N, .aízâš §.â`.šÍ..`›“iÊZÊ°§"¿,°Z.í`§.zÊZ.ÍZ°“' “““Éf° “*“°'-°'“"””
Pauw, confluíam ainda em grande me , renova a e Çxflsperada P_Qr_ De e etnográfico para o~ histórico e teológico. » - , j _
Os contestadores_ imediat_os.de_“De Pauw são' gente de horizontes muito
_ z
- i
uma dam consciência Emaspolíüiêas sem›<lue_ ele prdpno tivesse disso limitados, dehurrior. mais beligerante que reflexivo: ,são um abade benediti; _
i_ manitáriosy hipóteses èeogênicas lei › Dr¢<f0_nceitos faciais. axionias hu- no, Peijnety;~_urn obscuro soldado e engenheiro, Zaccaria de Pazzi de Bon-_
š; remotos,
vos
^ '- S mesclado
0 resíduo de três séculos d C P01<=m1cas, Z°°1°21°afi == fragmentos de _»msióúz--
a ‹ detritos
arrastados e imDelid os pela torrente impura
tempos. -
- `
especulativosÀ mais
' '
. dos no-
até as areias
e neville; e, quase_por_ acidente, Ao. douto mate_rriático__Paolo Frisi e o_c_ie1_1tista
Delisle de Sales! Depois, são réplicas indiretas-e implícitas todas_.as,apolo-
ii' _ - ` gias dos indígenas americanos, a começar pela de Marmontel, com seus .pe-"
ruanos, mexicanos e antilhanos idealizados. Aqueles pobres pelesfvennelhas
__-__.uu.¶ _,...â¡;iniiz _....~;ll¡lflu
i
l

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-v»-ma-
.i
-146 o Novo Muuuo t
' tas iusiiiuações sobre os metais úteis, por exemplo. 11 de que o ferro da Amé-
‹ rica era menos duro que o europeu: “o metal é único em toda a nature- 4-
,_
›: za”.“° Parece que Valle só não se preocupou em defender os animais e as _ _ 7 -.
:V ‹..-.A
¡' feras da América. _
~ O motivo da omissão pode ser a dificuldade em prospectar a riqueza , 'I'
HEGEL E SEUS CONTEMPORANEOS
da fauna no mesmo plano da abundância de minerais e da generosa opulên- l

cia da terra, ou seja, no plano de uma enorme fortuna potencial que está i
it disposição dos povos centro-americanos e que Valle se compraz em flPl'°'
sentar a cada passo, impelido pelo aparato de proféticas cores. -
Distintamente de tantos outros polemistas, instigados 'a denegrir a Eu- DISTANCJAMENTO Pozƒrrco DA ÀMÉRICÀHE DISSOLUÇÃÓ
ropa por irritação contra De Pauw, Valle, fiel à sua ascendência intelectual, ;".¡E . ll I
DE sEUs»PRoBLEMAs zooLÓo1cos ,
só tem palavras de entusiasmo pela civilização, a inexaurivel fertilidade de . '.':.i '
espirito e o progresso irresistível da velha Europa. Quanto tempo será ne- Depois de Herder, a polêmica-pareee_perder__em relevo e interesse dra-
cessário, pergunta-se, para que a América seja tão "ilununada" como a _mático. A Revolução Americana distancia-se no tempo-, a Revolução Fran-
-\
Europa?'" Mas a situação política européia, sob o jugo da Santa Aliança, cesa domina-e agita .toda a' -Europa, as :revoluções latino.-americanas-ainda
4 assusta o livre americano. As intervenções das potências absolutistas, repri- estão por vir e, quando vierem, nãozsuscitarão nem as paixões, nem as espe-
mindo insurreições e abolindo constituições, sugerem 'a Valle a ameaçadora ranças, nem as reações violentas das duas-primeiras. AAmérica retira-se para
. profecia:. “Se uns
. -Estados quiserem
- se imiscuir na admirustraçao de outros,iis
uma extremidade visivelapenas, do horizonte_eur_opeu.:_ Atenuia,-se, até quase
a América sera como a Europa, um caos de sangue, dernortee horror". extinguir.-se, o interesse pelos homens de além-mar. ,“Melh.or,perecei:enÍi as
` Republicano e iluminista, Valle não tem a menor simpatiapelos gran- colônias que-um_pi_:incípiol';', o grito, repetido por Dupontde Nernours .e
- des impérios nem pelas façanhas politicas. Cita Maquiavel com' aberta desa- Robespierre (l7-9l),~.t¿_-unbémquer dizer-isto: em vista .das máximas consa-
"zA.lwv/\|t,».‹iu'¡«‹`'-›tz*<-uI'-_
~ provação e com a ressalva costumeira de que talvez ele* “tenha se proposto gradas em Paris pela Revolução, _os_ interesses econômicos dos escravagistas
E4-
rw-.,,,'›¬r,~»~‹ I-rf ' tornar odiosa a tirania ao descobrir seus horrores".“9 Da RüSSi2, dll ClU¢ ea própria existência das plantações antilhanas nada contame. nada devem
“será mal administrada enquanto for colossal";'7~° do Império Britanico, contar. Poucos anos mais tarde (1803), num ato›quase_simbólico, Napolção,
i-é que um dia a Guatemala dorninará os oceanos e arrebatará “aos bretões o Drlm_eir_o cônsul, vendia aos Estados;Unidos por 15-milhões dedólaresa Loui-
. cego com que os oprimirarn",12' pouco diferindo de Gabriele Pepe, que na siana, um território quatro .oucinco vezes mais _eJ_rtenso que a~ França; no
*P
Antologia profetizava (1830) “que o antigo império de Montezuma será a qual-poderiaser r¢ta1hada.umzi,dezeria_de,Eszzdos ‹1a-.União none-aziieúzzziz,
ri :_ Tiro e a Grã-Bretanha, no futuro, do Novo Continente"..l.7-2 E.11.1¢8.m0 SHIS adversários irrejdutíveis‹.:. os'idëoIog_ues~; aplaudiam unânimes
- , Valle também é critico acérrirno do Império Romano: a-Urbe foi apá- aquelapacíñca alienação.¡' _ ,¿, ¡ _ g ~ _- __ _ ,_
¿ -Ç .¬

'
??
tria “dos tiranos que, na obscuridade da noite, em meio às tempestades, di-
vidiam tranqüilamente entre si a extensão da terra”.'23 Mas também é ca-
paz de observações agudas sobre as relações entre a geografia`de.seu país,
‹e«f=z-f-â‹«zu-‹«‹›.-M
9-¡1°› °I1<1l1311l0 ' Portugal -perdia seu Bras11.=,Uma
após °““a= as Pmências da'B\11'0Pa' eram expulsas do continente e reduzidas
sua organização politico-econômica e sua história, motivo peloqual merece- a_se emboscarem em -ilhas fl0.10f18°id3~' COSIK. ou em terras como as Guianas
'._t ria, também ele, um lugarzinho entre os precursores*da-.“geopolitica";1?'* está e_0,__.C zmadáâde
V °3.~f-áÍ9f ~5¢mÍ-ÍIISI-¡lar,-'clima.~
i V l V rigoroso e;rec_ursos,,
, na época,
T5 convencido de que a economia é a baseda política; enriquecer.-se será ome-
lhor caminho para as Repúblicas americanas setornarem realmente indepen- PF“UC”-1°11f° “1fl°S.--Aflmeaça de Monroe-(1823)«saneionava fimilmente uma
- ‹¬~
situação de fato,irreversível.›0s
_- --I ~.~
Estados Unidos
‹:-‹`‹. ._ . _. _.,
jástinham.
'_' '
declarado pela
'-*'21-"
1 dentes, livres e.soberanas.'25 Portanto, se a América obedecer à-sua vocação
~ e se fizer-sempre mais unidafe independente __ Valle defendeu' uma federa- 33:: ÊÊSÇU tJr,1me1.r0_ prÇ$i;_ler_ite,~ Çieorge Washmgton,-nao _te_re_m a intenção
› -*_ ' ção americana simultaneamente com Bolívar, eo principio daexclusão das ; ~.°“1-Em-'“,°s* a5SlU1í°5*§\.1f0P¢U$;. a$9r.a extraíam .o primeiro. corolá.
potências européias dos assuntos americanos _antes.de~Monroe¡2°-'-'-; se.souÍ "°:Íla*m3_”5¡f}3'°¡ P°lÃb°.°~°~~d°.S°U fnlinto-p_resid1‹:nte,-intimavam os europeus
gq-
W3-
f-f.z-,. . .L..»¿r«tl,›'.›¡
. ber elevar suacivilização ao nível excelso de sua naturezafentião-seu exemplo. ?- “a°»S°»“1“S¢m==_=“' f1°.S .a.SS.1›m‹.›_}=' fi_fh¿=fican‹›s.f osláóisiiiézzúsfézièzs.
ignorar-se entre si, _dar_'-_seAa_5 çggtax.. A¿1ng¡a¿¢“a,_5enhom_¿a-s,¿8úàs fentríe
será um desafio a todos os tiranos e uma ajuda a- todos os oprimidosi: f°e
a liberdade da Américafará por fim com que toda a.terra sejazlivre'_'_l2"
os dois continentes, _imediata1nent_e'aderia à. .'zfd9u`¡.'¡-¡n¿›.› ¡s°1an¡¬e e miau
.‹¡‹~›r
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250 O NOVO MUNDO i-iiaoai. E seus coN'i'EMi>onÃNi3os L”""" - 7,51 /
postas sete anos antes. por De- Pauw. Os ainericanosseriam uma sub-faça
contrariam outras espécies, talvez mais iassemelhadas àquelas das quais res- ainda não bem formada a partir do tronco dos hunos ou_¢;ii;¡iuQQ3¡_‹{¡,_ma
tarn os fósseis. Mas agora a terra já' é toda conhecida e o grande problema quer raça huna ainda não totalmente formada (ou semidegenerada)” . Tuuzu nu
permanece é o de chegar a saber “em que camadas se encontra cada espécie'-', aspecto físico como “a frigidez e insensibilidade do temperamento” ums-
assinalar a idade geológica de cada animal, não sualocalizacão atual.” - tarn uma longa permanência de seus antepassados nas zonas glaciais do se-
-. â tentrião: sua força vital está quase extinta (“eine halb erloschene Lebensk-
KANT: MUDANÇA DE OPINIÃO SOBRE O AMERICANO
» . ii raft”.
colas.”..) e mostram-se demasiadamente
- débeis para todos os trabalhos agri-
V Ainda nas anotações para suas aulas de Menschenkunde, oderphiloso-
Também o pensamento filosófico, com a reforma kantiana, encaminha- .. i. À
' _
va-se num sentido antitético às` antinomias
_ _ _entreQ conceitos_ empíricos,
I _ como
p 1. phische Anthrapologie, que em suas primeiras versões pertencem ao perío-
os de Europa e Arnerica, ou as mvestigaçoes sobre as virtudes e vicios do z.¿¡ do pré-crítico
de maneira (começaram em
absolutamente 1772.3), Kam
depaiiwniana: “Odgscrcve os iamosnão
povo americano ameficmos
absorve
selvagem. Desde o fim do século, talvez nada destoasse tanto nas Recher- fz; Y
l.‹
ches, de De Pauw, como sen epíteto de philosophiques. Embora o próprio -__ . qualquer cultura, Ele não possui uma mola propulsora, pgis fu1tam.1'1-ie afe-
Kant, algumas décadas antes, tivesse admirado nos escritos de De Pauw pre- to e paixão. Não se apaixonam ej por essa razão, tampouco são férteis. Quase
I d of tespírito “filosóf"ico”, o'esforço de repensar e sistematizar
cisamente ` um pzšàíp
_ M não falam,
alguma nãopreguiçosos”.¡"'
e são se acariciam unsi aos outros, não se preocupam'
'` com coisa
iz¡1s~¬“.r .i
_-_z_.¬-. e enco e a os. \
.~¬
Ê! Não vou transformar minha cabeça num pergaminho Íescreverao f`ilósofo\com '_ _ O c°nce_it°_nã'° S_e modificfi no enâaio de 1788' über fla" Gebmuch _Íe¡€0'
desdém] a fim de nele rabiscar velhos fatos extraídos de arquivos e se `- Iogwcher P""z¡P¡e” m der Ph¡¡0s0Ph¡e= no qual Sen?-¢n¢13Í-luealfaça amefi-
_
esquecidos. Alguns I
têm por ofício registrar, mas alguém há de, por fim _ dar N, ›,‹ *- cana, em virtude
rente demais parado0 cliiiia,
esforçof'deiiiasiado fraca parao'
cultural, incapaz trabalho pesado,cultura
de ass'imilar'qualquer iudifu-
. ' › -- - r
a tais registros um emprego racional. ,Ainda que equivocado ou omisso em no- -.
¿‹'~j1. .-¬.;__..L‹,â-z''z‹Y.¬.Z:;‹_"!z11¬L
ve entre dez casos, o mero. esforço intelectual de Pauw é digno de ser louvado “_ W V _ muito inferior ap `p_¡:¢p¡-ip ncg¡ö››_i5 O mesmo ju¡g¡¡¡¡¡e¡¡f°.¡-et0¡-na (fe fõr-
e imitado, se o que se descia e pensar. e nao apenas ler o que outros pensaram. 1 ma amda mms smtéfica quando Kant. coloca a questão de sèr a estirpe hu- _
*I
à›z~el\‹=~›:~e.'m-à=r.í›i Por certo [replica Kant nestas suas anotações para aula] não desejaremos trans- ' V¡ljf_
.-_ vas, que “toda _uma porção do mundo .(é) semi-animal e mal povoada”'.l°
;¬ formar nossa mente em uma mera galeria de quadros ou num registro no qual ' mana Jovem ou velha e Çondm que é' nova* Obscrvahdo' entre ou-nas pr°`
~:
.r
i inscmver “om” C figuras das casas dawnamrezafi 'H Q ”í:_. ças,_ A versãodefinitiva
inclusive (1798)
a americana.” Omitenão
Porém, todapor
a pa.rte_referente
arrependimento. às Ádiversas ra-
Métaphy.
De resto, se repassarnos o que Kant escreveu sobre os americanos, a influên- ' - sik der Sitten (1797) afirma sobre os indígenas americanos-que são pouco
.
‹; cia de De Pauw parece inegável. . _ › -g mdustriosos, mas › uizida que_o fossem permaneceriam es ' _
Ainda em 1764 Kant possuía um conceito altíssimo dos selvagens, pelo ¿_ . “nos desertos da América” por.faltaA de um Estado_, e pormpunígsãupiätiãs
d__d_ __ Q.- .
menos dos norte-americanos; e, sem indagar se isto se devia ao clima ou quem em Juri ica, consequentemente. de uma produção adequada de alimentos
if-z sabe ao sistema politico, descrevia-os como sensi_bil_í_ssim0_S €_Il1 QUÇSÍÕCS de _ 'f°zm 1550 flƒlflüãfl tese da escassez de comida na América é derivada não
honra, puros e honestos, altivos e apeg_ados__à Liberdade como os antigos es- zƒ Iâaisfda estenlidade do solo, mas da ausência de sociedade organizada.”
partanos. Falta-lhes apenas um Licurgo para formarem urna República exem- ci” :älfufía t3~fdâ3` Ge°_8fflfifl f159100, Kant faz esparsas referências à Améri-
plar. E o chefe Attakakullakulla só é_inferior_a Jasão.por_r_i_ao ter um nome _ -fl im 22 am a muito pouco conhecida, especialmente em-sua parte me-
grego. Ademais, no Canada as mulheres gozam de umaposiçãoe influência 1`1d1°flfl1-- Repete qi1‹=.0s patagônios não são verdadeiros gigantes-(p, 423) ao
que não possuem sequer em nosso civilizadíssimo continente. No restante
da America, entretanto, os mdigenas nao_ tem _ _ump caráter
_ _ _ bemddeñmdo e f°°°fdÊ as °ab¢ÇaS fl¢h8tflClaS.ou esféricas dos peles-veunelhas_f(p. 433.4) e
, ‹ - 1 - A - ' O

distinguem-se
_ apenas. por .uma
. “extraordinária insensibilidade".'2
. . ^ No con- _ › ~ reafirma
~‹ que
_ algumas estirpes V am°fl°fl11flS
` " lnfimdnível
r¢i>r¢Sentain_o mais " "*`.“* ' ,
junto, parece clara a influencia dos relatos e paralelos classiçizantes dos mis- da humamdade (p. 316). Nota que todos os animais domésticos-e frutas eu-
.
sionários jesuítas - assim como são de nítido timbre rousseaunianoas con- ' ropéianse açlimazafgm- bastante bem na Am¿¡.¡c¿ ,,zi . mas que não , :ões
siderações sobre.a humanidadepura e altiva dos selvagens .em geral; A (p. 336), e os pássaros, belos e coloridos não cantam bem (p ›3›.54›“43()')
An Mas em 17"I_S Kant pinta um retrato dos americanos muito diferente. Enfim, o homem dos trópicos se desenvolve precocemente sem, ho entanto; O
oram nele as idéias de decadencia, imperfeiçao e fneza teorizadas e ex- alcançar a perfeição .da zona temperada” - todos os Ioci communes agora
" 'f.:»~›:.;-" , i
zé?
V O iv .
.ihiiahà 1 HH Ãlil:
z. , -.
.raliiiiimlli
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Numa. tl sims eou rum-onANt‹‹\1 153
3`-`. ri Novo mtiwvo
Pauw sobre ti maior frieza do ambiente americano (p. xiii), nz çgngzzfiggi.
tepclitlos nu\'tnucntnenle, sent :tcento p|o¡›¡¡.t_f\ ,¡ ,~“¡“ ¡m.¡,`,¡¡.,m. _,,m¿m¡¿h, cas dos povos nordlcos (p. 63), os fatores de dcgcncrnclo inerente; gg di.
nzlo esczijizivât nem ti mente .solieiznm de inn Kant, nm. aos alimentos e aos costumes (p. S8). os belíssimos anknnsanos, os qi-
nanmrqueses da America (p. 66). as gaforinhns lanous dos negros (p. 78),
os alhinos monstrnosos (p. 231). os homens coloridos (p. 79, nota) c I difu-
li necessario di.'et que para isso colalunnvani com eliczloin os mais re stlo dos roedores de Lima por toda a America (p. 223) - justo contrapeso,
pnlzulos nntnmlistas de seu tetnpo e seu ambiente, aqueles dos quais era lo- dl-1. o professor, para tantas maldiçoes que o Novo Mundo despejou sobre
gico que esti zusse dados de fato e avaliações criticas. longe de rechaçar com o Velho (náo. parece que vemos Mickey Mouse :correr animosnmente ü
desprezo os libelos de De l'nnw, estes deluitiam gravcniente seus julgamen- vingança do contágio venéreo e à punição da America pela revoluçlo dos
tos, acolliinni suas sentenças c conclust'\es. preeow).
U ftunoso iiliiiirenlutclt. rrttigivtrr Gerntmtiuz' de memoria acadèniica, ho- De Pauw é urrolado entre os autores “fide degnissimi" (p. 74), c mui-
je reconhecido corno o fundador da antropologia física on comparada. jd tas vezcs se afirma que ninguem melhor que ele observou tal fenomeno ou
na dissertactlo de doutorado que lhe assegurou de um só golpe a fama. De resolveu mais engenhosamente tal problema. Quando Zimmermann encontra-
gerteris humu/ti vari‹*tat‹° rniriva (Liöttingen. l775). recorda De Pauw uma se no dever de contradizè-lo, ou mesmo simplesmente duvidar de uma afir-
dezena de veres” e aceita as críticas que este levanta contra Lineu sobre o mação. inicia com revereneias até o chão, date gênero: “Certamente não
‹›rung~-‹›utun_s:, embora as qnnlifique de “ácidas censuras' ' a um homem dig- me ntrevo a contradizer um homem de tanta erudiçño e tanto talento como
no por tantos outros méritos de profundíssima reverência.” E Kant lia e demonstrou se-lo De Pauw. o qual sopesou agudissimamente as coisas natu-
T . estudava lilninenhach. escrevia que suas obras lhe haviam ensinado muitas rais confonne as regras da mais depurada filosofia" (p. 39). Por outro lado,
coisas ["lhre Sehriften haben mich vielfliltig belehrt"l;*° e citava-0 com está pronto a assumir sua parte, mesmo quando ataca celebridades como
enormes elogios em uma passagem célebre da Crítica do juizo.” enquanto Boerhaave (ibidem), ou. conjuntamente, uma dupla tio imponente e veno-
Blnmenbach, por seu lado. reconhecia abertamente dever muito aos escritos randa como Buffon e Lineu - se bem que. afinal. pudusc ter um pouco
menores de Kant, partntnlurmente aquele sobre as raças humanas.” ¿ mais de respeito ao menos para com este último! De Pauw tem razão. sem
Ainda mais representativas dessa relação idealentre o antropólogo e dúvida, na questão do orang-óutang, mas por que arrcmeter contra o grun-
o filósofo. são tulvez aquelas entre Kant c Zimmermann, um dos primeirís- de sueco como se dcsejasse vilipendiá-lo e cobri-lo de ridiculo?3' Está corto
simos trmadistus de geografia zoológico, que acolhera não poucas teses, ar- não acreditar nos gigantes patagonios e apresentar argumentos extremamente
gumentos e observações das lancintuites e displiccntcs Recherches. Precisa- válidos contra tal lenda, mas por que ferrar-lhe os dentes com tanta cerimô-
mente devido ao julgamento de Zimmermann quanto a seu ensaio sobre as
\
nia (mordaee dente), “quando poderia defender a verdade sem necessidade
M-'Á›»1'.us›uh-t'.flz.r`.-,_17;" vzirias raças humanas, Kant sentira-se estimulado a reflexões ulteriores acer- de ultrajm e invectivas”?3¡ A insolència notória e a verve agressiva de De
ca do tema.” Se ele terminava por tornar suas as sentenças de De Pauw Pauw escandalizam o pacato zoogeógrafo de Braunschweig (como haviam
£"lA sobre a humanidade americana, Zimmennann, em sua obra maior, coloca- r w
escandalizado o antropólogo de Göttingen), mas nem por isso ele compac-
it. va-as respeitosamente em discussão ou apoiava abertamente as observações ¬__ _ v tua com' seus detratores. Pernety. com seu “prolixo" Emmen, é liquidado
1
3; sobre os qundrúpedes, os habitantes dos diferentes continentes e, sobretu- em urna nota.” _
do, o medium entre homem e fera. o .Homo sylvestris, o orang-outang das P.. 1-7 Defmitivamente, o ardor icouoclasta de De Pauw foi benéfico. Colo-
florestas do Congo e de Bornéu. cou fábulas. mitos e miragcns seculares sob o olhar friamente irônico da Ra-
Baseado em uma interminável documentação de viajantes, naturalistas zão. E o sapientissimo Bberhardt August Wilhelm Zimmerman condescen-
e cientistas de todos os tempos e escolas, o Specimen zoologíae geographi- de em oferecer o reforço de um argumento seu - a vileza dos peruanos diante
eae. quadrupedum domicilia el migmtiones sistens (Leiden, l'_l77) é um ver- dos espanhóis, em contraste com o valor dos cafres ao enfrentar os portu-
dadeiro monumcnto de doutrina e “filosofia natural": um belo in-quarto gueses - às muitas razões com as quais De Pauw "demonstrouque os natu-
de quase sctecentas páginas, encimado pela primeira cartageográfica da dis- rais da América eram mais débeis que todos os outros hnbitautccida Ter-
tribuição dos mamíferos pelo globo.” Neste trabalho de monge e de pionei- r&".3* A ciência mais "oficial" adotava assim. dando-se ao trabalho de
ro, não surpreende que Buffon seja citado. por assim dizer, a cada página. acrescentar-lhe novas provas, as calúnias atrevidase ferozes de-um De'Pouw.
e sim que o escandaloso livro de De Pauw seja recordado desde 0 prefácio Mas seu gosto maroto, de fazer chacota e provocar o riso da platéia
tt e por pelo menos uma quinzena de vezes, majoritariamente com adesão e à custa de pesquisadores doutos e laboriosos. repugnava aos autores sérios,
sempre com enorme reverência. Zimmermann diz estar de acordo com De :'¡
.z.ucf%-¡_'°.\z:-=zšz:~z.-zw-v.,~.-w_i,-¡'_.fl'A___
...naíilliüdil
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,S4 O Novo MUNDO maoer. E seus coi~rre~n›on.Ãmâos 255
l
r res e esplendores de rubros meteoros, como figuras gigantesca; pizmadgg
ziciina de tudo às pessoas circunspectas. Lineu errou, está bem. É um fato
i sobre a margem americana do Atlântico, eretos no desdémena fúria profe-
quanto ao qual estão todos de acordo. MZIS, na flilfiudfi D3-fa_Cf>“_' O eg:
tica, enquanto algumas divindades fabricadas de toutes pièces percorrem a
como divergem 0 piiblicista c 08 Df<fÍ¢SSl:>f€SldÍ'»9_l(<l!Ê Sabrëlnerrngitisiirriâagde
cena tempestuosa, intercalando ambíguos vaticínios em meio ao pranto dos
ri
não há ptlšoqätlgãssítriciaivá buzslcg da vcrdgde. Quem anjos e ao toque provocante de trompas apocalipticas. Mas também o canto
que seja. cr - - _ . de Blake é um sinal da nova dignidade poética adquirida pela América --
_ cmi, uem pensa, vagueia e divaga. .ii
i um ano depois Blake escreveria outra “profecia”, Europe -, já então ad-
pLSqli“lz`i‹ria um l)8Pauw, confiante na infalível Razão, o erro merece ap¢IIflS
I' mitida entre os grandes temas liricos e não apenas como objeto de descober-
-- -á ' c achincalhes. Blumenbach e Zimmermann, inversamente, mesmo
U* mms f- d» ' utores de leis e sistemas rí8Í<105› Como Í-ÍHCU C C0mPfi' ta e conquista, mas como símbolo concreto e teatro de um novo destino.
qulmdo de ul ' af blC.rtos às_vcrênC¡a
instânciaspara
libertárias Naquele mesmo período André Chénier esboçava sua Amérique, que
com os do Sturm und Drang,
I
1 nhia, mostram-se mais gênigs fa|{v¢i5 e fala- Xi
deveria ter 12 mil versos; e o visconde de Chateaubriand viajava pelo Niaga-
‹ 3.' '
com sm-ls pcd~ld0S~dc lcäpçäto c [L ndes inclusive em suas aberrações, quase 'i
i
ra e o Mississippi, turvando-lhes 0 exotismo com tons de sentimentalismo
i l í fr
àsA doentio, mas dotando as letras francesas e as tribos peles-vermelhas de uma
ms da mvcsugaçao cltmu lcaltiiroasos e super-homens deslumbrantes. . ,Y
I\r '› patética heroína comeliana e de um velho benigno orvalhado de cristianíssi-
eonloDÍccr£š):cÍu‹?mh:iídsadlrlnelga
: não_ é a primeira vez que
- 0 irreverente,'- 0 in-
ma sabedoria,3° ao passo que Goethe, ao reelaborar o Meister, introduzia
solente, o fanfarrão mostra-se mais mcdroso e submisso às converšçroes dê s
,sã ll
ali a América enquanto antítese da Europa e terra do Futuroi.”
seu tempo, mais escravo de modas e na realidade menos(irevtilucàgncoêg Cillah É claro que, mediante essas expressões e interpretações diversificadíssi-
o redator coinedido e modesto de lentos tratados, Qflflfl 0 “a°_ chamãdos mas, o conceito de América se enriquecia, se complicava, deforma que, quase
f_$5.
z› .{;nr z‹~ø‹¬- - dor de fascículos escolásticos. “Saberao OS 8Êm°5 f0fÍ°5 (1110 53° i .
..a_
¬
sem necessidade de polêmicas formais, escapava às cruas alternativas da
°"'›‹..___. -.›-f
assim por ironia'?" disputa e resistia às tentativas de definições sumárias. A afirmação politica
vigorosa dos Estados Unidos, em particular, trazia para a discussão um ele-
.' OS AMERICANOS»
mento novo e desconcertante. Era aprimeira vez que uma “"colônia'?- euro-
-‹»-.z
péia se emaneipava, gabando-se de ser em tudo tão boa como o continente
Í 1'
:
ii2{g1i!â1isS1ji:1(i2(1)il,iiÊNTEs DE UM PAIS MA GNf1~¬1co do qualdescendia, e eapazaté de superá-lo e batê-lo,_com seus recursos in-
l.i tocados e ilimitados. Como qualquer velho pai diante das proezas juvenis
Neste novo clima político e doutrinário, parecia, portanto, âsdiãlät; e insolências precoces de seu rebento, a Europa achava-se dividida entre um
~;
1 ta estava condenada a se exaurirëaadeãâlçiârüešercätârsrgivlâírllmca ob-têm O benévolo contentamento e uma impaciente, sagrada vontade de aplicar-lhe
U
liiilaiésJpli-i:§1ã:nii:eÍi%):râgciiificativo);
ao ser adotada P°f Hegflli ÊIPW' “mÊ1'b°a meia dúzia de Palmadfls * OU»-_P°l.° 11161103. 11111 Pequeno» sermão
›-.sis
.~, ¬›r cheio de afetação -sobre como um filho de boa família deve se comportar.
ai cisarriente agora que passa a ser ãorgtsâiscêaccgrtrgi;Êl;0g::le*::‹Ê*¿ëlã:,Lm::; Do outro lado do Atlântico, como vimos, as teses de Buffon e De Pauw
g;:Í::;c§_'¡¡:<Í1:Igäiíftfgisalgiii cie irritar persistentemente ;_›éstar;1¢l:;flÊ<ä; já não eram sequer discutidas, mas ridicularizadas eiradamente devolvidas
|J"Jfr›-' aos europeus, exibidas como sintoma da incapacidade dos habitantes do Ve-
como se viu - ressoa, ora. Ql1¢íX05a1 °fa °bllq“am°m° pm' . lc ' Nem um lho Mundo para conhecer as coisas e homens da América; e, portanto, por
li; z -
grupos especificos de autores.- um etas eoutro de misticos.
. - dt! P0 ' - e novos desenvolvimen- “ma_ d°S5flS`P11`11¢IaS lógicasem que o gênio acrobáticoda política brilha e
nem outro, evidentemente, Doräêiaäiëälšâpgšäfâlašcglincena, de maneira que
5 tos; e mesmo sua ongem coirsisivtg com alguma quebra da ordem cmnorógi.
sorri, como um argumento a mais para a exaltação da grandezac glória do
novo Estado. - . I __ _
- á
Errà contrapartida, na Europa, e especialmente na Inglaterra, todos 93
liÍ0l:ielI:‹;ll€:)riiiÍ:szi:?‹iIi'l;a(iiirlii(zÍ assim com fl1lg0l'¢S tardios, carnbiantes.'E, POI' que guardavam rancores ou nutriam desconfianças emzrelaçãoà soberana
7
L. 5* reflexo, as condenações ásperas, r¢P¢Uda-9 de Hifgeli Êflémdde iãtäfolâohífiô independênciados Estados Unidos, tão recente e já provocadora, estavam
\..
serto, são acompanhadas e iluminadas por alguns fflflíllfis C Pl caí; g v prontos.a'tançar mão dos argumentos geofísicos para rebater suas vaidades
Q
-; ror, por certos vituperios gen¢r0SOS. 'lfl3ëI1l_l0S 0 fl1Ó¢U°5-flP° ólâsiesh _
V Blake era ao mesmo tempo poeta e místico. Mas Em 3113 l'3P5l É T;
e esperanças. É característico, a propósito, o caso de Thorr_ia_s^Moof¢,Â0_ bar.
- rt
fica (1793) há somente uma exaltação ardente evaporosa da revo ta as
do irlandês que atravessou toda a América, das Bermudas ao Canadáfem
iômzs. washington, Frzniuân, r>zúzi¢,” Hancock, ar>ar¢¢f=m °fl"° °S “aP°' 1803-4. De um lado, Moore enche-se de entusiasmo pela majestade da pai-
|
___* sai *L
-. fiof jo ›... _.. u-. ¬ii iimizi
¡.¡¡ miiiiihtti- ,
Hacer. E seus courenroxmaos _ 3”

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3l6 ONOVO MUNDO
i clusive leva suas teses às últimas conseqüências, estendendo-as do reino ani-
europeu, que Hegel deseja fazer passar por muito superior ao vitelo arneri-
mal a toda a realidade americana. - _ _ __ ç A
cario, c gostaria de viver na vizinhança daqueles débeis e inofensivos croco-
dilos, que, desgraçadamente, têm 25 pés de comprimento”.”5 Certamente
toda a filosofia hegeliana da natureza devia parecer grotesca a Humboldt;
_ 5. ' Desta forma, sem sequer se dar conta, Hegel vai muito além do própzig
De Pauw. Contudo, não introduz em seu julgamento qualqueracrimõnia,
nem, como veremos, dá novo atrativo à pesquisa e à discussão científica.
mas nenhuma de suas partes mais que a relativa ao Novo Mundo, que Hum- Por um lado, portanto, ele está no vértice da “polêmica”; por outro,-per-
boldt conhecia tão bem e ilustrava minuciosamente em uma série de impo- manece inteiramente alheio a ela. Se bem que saiba muita coisa sobre a Amé-
nentes trabalhos científicos. Resta verificar, portanto, com qual fantasia a rica e mostre familiaridade com as teses correntes e eontzrastantes, nem ao
América se apresenta naquele baile de máscaras, ou melhor, como foi bar- menos se pode dizer que enfrente jamais em seu conjunto a questão da “dig-
rada na porta porque seu traje não era belo o bastante. nidade” ou do “valor” do Novo Mundo, ném que se utilize explicitamente
.Y __; `_¿
- ._.
-'¬\-1_ ..._ dos argumentos que encontramos atéaqui. Sua via é outra, ainda que leve
:Lili I 325' a conclusões cuja conseqüência é reforçar e agravar as mais severas conde-
HEGEL: A AÀÁÊRICA [AIA TURA E IMPOTENTE __. -‹ÍÊ›..-~
fr: 1' _-,ví
.
nações dos detratores da América. Tratemos então de segui-la, sem nos im-
.'- fz
11;.-
.‹' ze-_-1 pacientarmos com as sutilezas das passagens pseudológims, nem nos per-
Julgamento de conjunto, severo e impassível _ _, L.¬ 4_`
V . 2.-
-' ¿ - .¿‹1'¡‹-' dermos interpretarido as pequenas divergências entre uma eoutra obra. O
Ç '¿ z.,.;.
A disputa do Novo Mundo alcança na antítese entre_Humboldt e_Hegel conceito hegeliano sobre as Américas é coerente em seuconjunto e não dá
1 ;¡. ‹, '-›`:,~
seu ponto mais elevado e, ao mesmo_ tempo, a distânciagmais extremada en- .;- Í ;'*. ,_ sinais de ter se modificado entre a primeira e a última versão. Mas, para
'~-¬'“ ?'.;`*, entendê-lo, é preciso ver como ele se enquadra no sistema. "-
tre os dois pólos. Nas décadas que se seguiram,,.todos os entusiastas da Amé- :fia
2- 'r' Jr
.-- .. _'g .
rica se apóiam nas robustas afirmações do naturalista prussiano, todos os “ 3 _' -2» PF:
detratores encontram algum alento nas sentenças do filósofo suevo. Quase 'Í si
_ :;_<
53. r-"_
:-'-. 7
Restauração da fllosofia da natureza- '
*? _ .
não ocorrem mais desenvolvimentos notáveis, Humboldt, de regresso dos' ›."._'z ;' ~f
_ A- América é antes de mais nadaum fato natural. Pertence, portanto,
-'-" ef.
trópicos e dos vice-reinosmoribundos, ñxapor geraçõesa imagemde 'uma '
.'
:Y '
*
4. ~'‹
.,_ -. _
.zv ea em primeira instância, à filosofia da Natureza. Ora, Hegel, tem um' conceito
ai- 1- ~ '..'_..'
América rica em vigor físico e pródiga em visões estupendas. Hegel, tocado extternarnente vivo e. dinâmico, mas ao. mesmo tempo rigidamenteqantfi-
,- z'.~§
pelo espetáculo da rápida adolescência da Repúblicanorte-americana e das ^~'
zr *J-
fi. histórico da Natureza, o. que .o obriga a admitir que-sofreidéƒaillàncas' toda
explosões revolucionárias repetidas e vitoriosas na América espanhola, -po- -sf1,
` ':. '»`‹
c

_; -
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v¢2.q¬~1= ‹› fenômeno singular não sfe adapta ao esquemafofmado-ab aeterno;
rém incerto quanto a como incluir o continente em suas tríades dialéticas Na__ juventude, a ênfase sub_linha, como_é justo, a vitalidade iindômita
de tendência eurocêntrica, não nega aos povos da América a gloriosa crisma '¡'_
N '
~ _ '
~=' ':. da.Natureza. Hegel defende Schelliná contra Reinhold e, para demonstrar
da juventude à qual pertence o Futuro; mas reforça a condenação da Amé- z'1zgiúmiúz‹1e ‹1à filóàofià dz Natureza seus perfeita ¢ómpzn'bi1idàa¢~¢ozzi-
rica flsica por imaturidade. . _ - a religião e a ética, destaca o novo ponto de vista da ciênciamoderna da
A enorme máquina-de seu sistema não podia ignorar um '.'fenômeno" Natureza, o sentido da espiritualidade da Naturezaque faltava aos_antigos,
tão patente; porém, o esforço para racionalizá-lo e resolver suasantíteses “aquele instinto, proftmdamente impregnado no sentimento-do mundo mo-
fará suas engrenagens ranger. Hegel não reconhece nenhuma acidentalida- derno, de trazer de volta à natureza a vida perdida”. A Natureza é toda vi-
de: nem em cada.um dos continentes, nem nas diferentes zonas doi conti-. va, inclusíve coincide, no ftmdo, com aprópria vida e, portanto, éjusto e
nente americano, nem nas fases de sua história. A Razão deveresplandecer legítimo o entusiasmo “com o. qual, na condição de testemunhos' vida
em todos os elementos da realidade e redum`-la, queira ou nâo,,ao_~rigor encerrada na Natureza, os modernos acolheram' todas as vi-
cristalino, à simetria lisa e polida daquilo que é necessário, semprejo -foi vas da-`_Natureza em geral,-manifestações estas q`uaše`déscõnl1e`cidas"dos an-
e não pode sofrer mudança. Tudo, portanto, ele dialetíza=e~polariz`a: as tigos e_ por eles praticamente desconsideradas"-5337 - ' ~ ' z' '.
partes do mundo, as diferenças de clima e de fauna, asbelas plumas e as - - -Porém, na idade madura, dtstànciaúào-sé de sznzuiúz e zbofreeiàóeóm.
falsas notas dos pássaros da América, o destino 'diferente dos povos, as aâ~zzpsó‹fizs mísúezz aos românticos, Hegeieenztàzàvàrfúàmente O aéázeféz
civilizações pré-colombianaseas filiações religiosas contemporâ.neas.~ Neste dito 'em que caíra a=prete`nsa ciência? filosóñcaxda- Natureza: -“Aquzilo a=que,
anseio, possante mesmo quando mecânico, de encontrar explicação 'unitá- em tempos mais recentes, se' deu"o -nome de filosofia da Natureza-`.co`r`i'sište
ria para a infinita diversidade do mundo, uma lei. que explique anatureza em grande parte num jogo fúül com analogias e superficiais. s
dos dois hemisférios, Hegel retoma e prossegue. atentativa de-'^Buffon`; in- -
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sr HEGEL Esiaus con-rE.MPoiuiNEos 319

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318 O NOVO MUNDO
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‹ aporias da dialética hegeliana reafloram e vêm .à tona, púu-idas, em seu tra-
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.,_,
tamento da Natureza.
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não obstante, se pretende que sejam conclusões profundas. Com isso, a con- 5; Esta de fato não conhece uma verdadeira evolução, mas apenas o de-
templação filosófica da Natureza mergulhou em merecido descrédito".33” :X
_..
senvolvimento do conceito, desenvolvimento que é claramente visível no mun-
O que ele empreende é, portanto, uma verdadeira restauratio da filoso- - ° I H
fia da Natureza sobre novos fundamentos, apoiados na base inabalável da '“' do orgânico: assim, a planta desenvolve-se da semente, o inseto alado do
.. .F casulo; contudo, a crisálida e a borboleta são o mesmo individuo: no caso
lógica pura. A filosofia da Natureza será uma lógica aplicada, “eine ange- .-Ie. dos indivíduos, o desenvolvimento é, por certo, temporal, diferentemente
.ii-t
wandte Logik”. A essência do silogismo consiste em afirmar que o particular >:‹.
F;.r. . do que ocorre com a espécie”.391 O indivíduo tem um desenvolvimento, per-
_f«.
é o médio, o qual encerra em si os extremos do geral e do singular. Todas _:-~.
tence à história, a espécie não, a espécie não se move: “É inteiramente des-
as coisas são “particulares”, concertam um universal com um individual.389
Í cabido imaginarem-se as espécies desenvolvendo-se paulatinamente ao longo
O mundo inteiro, o universo e todos os seus fenômenos, todas as suas cria- «ff
..,.
do tempo; a- diferença temporal é aqui irrelevante [.. _] Do arumal- aquático
fã.
.,~,
turas, são silogismos realizados, a lógica em ação. O pensamento palpita nas não resultou um animal terrestre que, por sua vez, se tenha alçado aos ares;
coisas, e em todos os fenômenos, dos maiores aos menores, vibra a mesma `-..-.
centelha, aquela síntese de universal e individual que é o próprio ritmo do . tampouco o pássaro tornou à terra”.
As pretensas explicações da escala dos seres por meio de suas transfor-
Espirito. Nfisiš =.,.'
I
i il.
mações estão na moda, inclusive “interferem” sob o estímulo da filosofia
Uma concepção tão viv`a e vasta, cheia da vibração e sonoridade dos
ÍÉ. ° natural corrente, inas na realidade nada explicamzm “O homem não se for-
ecos plotinianos e leibnizianos, conduzia necessariamente a uma plena reab-
mou a partir do animal, tampouco o animal se fez da planta: cada um é de
sorção da Natureza no Logos, a uma generosa consagração filosófica de to- .._.
:~.: pronto o que é".393 Cada animal está irremediavelmente encerrado dentro
dos os fatos e todas as criaturas - e obstruía assim, com o rigor da razão, ",;
de seu rígido módulo: “cada animal isolado pertence a umafdeterminada
qualquer condenação, qualquer classificação, qualquer julgamento compa- ,s- ‹¬z. ¬.
-'z - e, por isso mesmo, bem delimitada - espécie cujas fronteiras ele não lo-
9,..
rativo de mérito entre este e aquele aspecto do globo, inclusive do Universo. _. gra ultrapassar” 39* - ' "
-.;.-. . _¬.|\.
Contudo, a infinita variedade e a incoercível multiforrnidade dos fenô- , z)¬. ..
*Ji
1- _, iV ¿ Nesse mesmo veio, muito mais que em polêmica com as teorias da gera-
menos naturais impedem Hegel de apegar-se àquela fórmula segura e oniva-
_; Í, ção espontânea, encontra-se a zornbaria^- quefjá recordamos ao discorrer
lente e induzem-no, de um lado, a negar à Natureza qualquer desenvolvi-
sobre Buffon (ver, aqui, p. 26) - daquelas “representações nebulosas, eno
mento, a congelá-la em uma paralisia de espécies e leis invariáveis, quase
l
i ;.` fundo de origem sensível, como.as que fazem nascerrda água os animais 'e
para poder melhor atenazá.-la, e, de outro lado, a admitir que possa às vezes t' cr'
Y ,_ ,i '_ as plantas”;”5 zombaria que impede Hegel, entre outras coisas, de extrair
errar, falhar (conseqüência lógica de sua personificação abstrata, mas ab- - deduções funestas da “umidade” do Novo Mundo, mas não o impede de
“P z.:
surdo se esta é, por definição, pensamento feito ato e silogismo vivo), e as- escrever belíssimas páginas sobre mares fervilhantes de vida, -ainda que seja
sim “produzir” seres aberrantes em relação ao tipo, anorrnais ou subnor- É, falsa a “antiquíssima representação” davidaf que surge-do ~mar.39'5 ~-
\
mais. Com o primeiro expediente Hegel nega a possibilidade de alterações '›._f.~í A mesma relutância pelas explicações genéricas retoma por fim em sua
no tempo; com o segundo remedeia a desigualdade evidente entre as mani- refutação das teorias rivais do netunismo e do vulcanismo, que tentavam
:EL
festações simultãneas daquela mesma Natureza. O primeiro leva-o a um de- reconstituir os remotissimos anais do globo e compreender o jogo 'de forças
cidido antievolucionismo, o segundo se exprime na crua acusação de “im- =z , '_ que modelarasua estrutura ao longo dos milênios. Hegel admite que ~a Ter-
._.._ _í . .¿.
potência” feita à Mãe de todos os seres vivos. 'jr ,--z . ra sofreu revoluções violentas, contudo ridiculariza os que mostram interesse
É A
ÍÍ. - - pela sucessão dos extratos geológicos, ou sustentam com doutrinas engano-
'ã Antievolucionismo radical U.
A›

sas que os mais profundos são mais antigos. traduzindo assim a contigüida-
-\ “zw '
,.._i
O antievolucionismo de Hegel é radical: as espécies são aquelas que são de (Nebefleíflflfldef) Cm uma hipotética sucessão- (Nacheinander).39."-O ba-
l e que sempre foram; toda forma, toda lei, todo fenômeno natural repete-se
no tempo sem mudança alguma, em perfeita e estática uniformidade. A Na-
tá"
\'L'.'..
¿t _"

, " 1--~.
. F-
'1
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salto 'há de ser ótimo,- de origem ígnea, como asseveram os vulcanistas, mas
isto significa-apenas. '_“que~ ele se encontravi-nculado ao princípio do fogo -
1. z-rf.
tureza não tem história.39° A Natureza é a anti-história. E retorna assim, .. ¡
... ' :vs
`¬ '
› .._..
-, não tendo, entretanto, sua origem quer no fogo, .quer na águz'=_39a os
sub-repticiamente, no sistema que mais energicarnente afirmava a unidade, I ¬'.
próprios prin‹=íi›i°s dfl.f2m0sa'p01êmí.‹=a são .incenos e se confundem entre
um dualismo insanável; no sistema que anulava as formas kantianas a priori . . _,,-
si. Tanto os netunistas como os vulcanistas têm razão e_ao mesíñoutempo
___*
,,_._.
da sensibilidade, uma antítese violenta entre espaço e tempo; no sistema que ^-*zu não têm, pois ambas as explicações são igualmente essenciais e se integram
ct;
tinha seu eixo na categoria do Devir, uma imobilidade perpétua. Todas as vi-
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I
32° o Novo MUNDO

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Í' HEGEL E sEus coN'i'EMi>0i1ÃNEos 321
f°¢1Procamente. Os vulcões são tempestades subterrâneas, acompO anliadas
entre os homens, ue sã -
pOr terremotos. Os furacoes são vulcões que explodem nas nuvens. 399
mais; e, no entantccli toddssšããsitšmlldos E H-Kiimruosoi em r°laçã° a°5 mi'
t “al _ › _ ao naturais quanto. o tipo indefinível do
fi-
A impotência da Natureza . Q constituem aberraçoes. Impotente para realizar as formas lógjças N
55; .1.ÍÍ
-.Éh _
..
étureza
mate torna- ' - e da desarticulaçao.
_al 5_¢ Presa da incoerência - _ Tudo aquilo
.' aique
3'
Uma Natureza assim carente de desenvolvimentos e dialética intema apa- .H
HJ
.
{.
a. E .n alresme a tal P°m° (so wíderspenstig) à unidade do conceitolm
`t:' rentemente deveria ser uma espécie de perfeição imóvel. O tempo não pode É! z o amm
bros `
não oaiinda ~
temcerta umdade - pois
orgânica, - suas vísceras-e seus mem-
I:'''-“-
acrescentar-lhe nada nem melhora-la. Nenhuma parte, nenhum momento é -Ei:-' 1''
¢`:'wv*fi"vmqi .:.‹!.-
. 1; _ mo isto gd em *ãflsf-:1f_5¢PflI21d0S uns dos outros; mas dos vegetais nem mes-
-*ii
preferível a outro. Hegel foge dessa conseqüência lógica, que o obrigaria a da mais fm e :ef lÍ°- 31135 Partes sao independentes. O vegetal é, pois, ain-
‹".^.
adorar a perfeição do que foi criado, caindo no pólo oposto; e, justamente :Ã-, `
3.' d ,lxšoflltfi Que o animal: essa autonorma das partes é a impotência
por não saber enxergar a Natureza enquanto liistória, atribiu-lhe uma enig- 1
\
a plarita ! Por conseguinte, impotente para Hegel quer dizer não-
i mática e intermitente “impotência”. Onde não consegue ver refletida no real 1
. ,...‹
..,_.
Of8311100, incapaz de ser deduzido, essencialmente acidental, privado de ne-
a imagem divina do racional, ele, ao invés de procurar uma racionalidade .Í ` Icâssidade ilntãrna. Quando quiser deduzir os continentes, suas espécies natu-
.z -,
‹ f mais profunda, ou uma racionalidade in fieri, a substitui supondo uma defi- f1‹_ .
e hi ° seus aa lÍ311Í¢S. Hfigel Poderá desembaraçar-se de qualquer dificuldade
ciência da força realizadora - tal como os teólogos haviam justificado com 1%' congruencia tachando de impotente" tudo o que resistir mais galhar-
iz- .. 'Iri-
z s a perda da Graça as faltas do homem, criatura de Deus. ':!. damente à sua prepotência dedutiva.
».
A “impotência da natureza” é a tradução do antigo Pecado Original .:-:fã
em termos fisiológicos. E como este estava.chamado a explicar, além da ex- .›_'.;z H Dedução dos hemisférios e dos continentes
F' ._
.›~1
.r ` '
l pulsão do homem do Paraíso, ia decadência de todo o=mundo.físico›,'*°° a ~ Perante as cinco ou seis partes do mundo, Hegel não perde sua presun-
,if
'_|
.gi

corrupção dos céus, o desaparecimento dos gigantes e a universal perda de


vigor da Natureza, também a ' “impotência” hegeliana, sem sombra de justi-
:\'I~
.›--1 s
__
5160 Uládlcar e constrói com a Europa, a Ásia e a África um sistema de re-
¡3ÇÕ€S Cösmicas, mitológicas e geofísicas bem fechado e coerente, tão per-
1
ficatíva como seria o castigo por uma culpa,qualquer,, acorre para dar conta feitamente racional :que em seu centro encontra-se, como quer a justiça, a
de tudo no Cosmos que não ande devidamente, ou não sejacomo nos pare- Alemanha! Dal deriva a prazenteira confirmação: “não são, pois, aleató-
ce que deveria ser! Simplesmente, “resulta da própria. impotência da natu- -,~ r flfls» P1'0f1Ut0 de_um_a comodidade qualquer, as partes que compõem o mun-
i il?
reza [...] que as formas lógicas não possam ser representadas 'com pure- '
'v
9.: ' do; as diferenças sao aí essenciais".4°“
iii.
za”."°¡ “Não com pureza": a impureza da representação consiste em que, À_;~_-|
7: «_-gl: . Contudo, acima e além dessa estrutura orgânica subsiste uma antítese
- )_.`_. _ na esfera da Natureza, as detemiinações do conceito vêm de fora, de manei- i l mais vasta, entre o Velho e o Novo Mundo: e esta é em parte deduzida e
-fi Q
ra abstrata e, portanto, acidental. Daí sua aparente riqueza e variedade que, .;, ; em parte negada como vazia e fictícia. Para deduzi-la, I-Iegelvolta-se para
bem examinada, é apenas arbítrio e desordem. Daí a impossibilidade de.“de-
'\.‹.-1 ,I
as teorias de Treviranus, segundo as quais qualquer fomia viva é resultado
duzir" filosoficamente (como desafiava Krllã) as ParÍÍ¢“1a1'Í.flad°5- °.a§ bf' 'If' de forças físicas sempre operantes, que, no entanto, Trevirarius aplicara ape-
¡_,i".l', fi' . nas às plantas e animais:"°9 uma explicação naturalista plausível da 'fauna
zarrias casuais da Natureza. A impotência da Natureza assinalaguin “limi- 'r-.,`
*du“."'-Y, -,_
t ' - e da flora estende-se dessa maneira às partes geográficas do mundo e logo
te” para a filosofia"°2 - 0 que significa, essencialmente, que a impotência §,. `_§-'.
não é da Natureza, mas da filosofia, a qual não consegllfl P¢I_1¢Ífaf além d° fl "_'¡ l.. Cffl Sfigflída, também às estirpes que as habitam e caracterizam. O hemisfé-
.fr
. no setentrional tem uma massa mais compacta de terra firme, ao passo que
limite."°3 , . - _ ,_
Assim como o espírito pode deixar~S¢ 1<*-*taí P0l"fa11f351a5 Vas °`m°°°' o meridional é mais recortado e nele predominam os oceanos: introduz-se
assim uma polaridade que tem infinitas conseqüências na atmosfera do globo.
rentes também a Natureza- tem seus caprichos,-.multiplicandoos .gêneros e
4°' Ela não opera- com firmeza e Df°°Í5ã° C, P0fía11¢0..'6 00111' fre- Mas como surgiu essapolaridade? E qual a relação entre a antítese'No¡-
te/Siil té-a dicotomia do mundo em dois hemisférios, ocidental e oriental?
eiiênciaimpossível encontrar empiricamente linhas seguras de deinàrcaÇä0 Hegel remonta sem dificuldades à pré-história e enumera as forças que (lc-
q iaturas ”I`oda-'classificação conserva- ml1í.l0 de ¡11'b1fifáf1°- E
terniinaram. aquele processo de formação, “processo passado" com 0 quai
eum? asšiuaâ cr Natureza aum sistema fechado, absoluto; é absolutamente
o corpo celeste constituiu seus membros. A Natureza deixou essas- forçaspam
guemrf luír 'és écíes animaisésão m'era`s~acidentalidades, ie particularmen- “além da terra”, como fatores independentes: estessãoi a posição da .Terra
lmposs ve: 'f S' pes é ` reciso' deixar à Natureza “o direito ao jogo eao aca-
tc para
so» _ ouas m mor
seja, ~ p' ' " ' externa
da determmaçao ` i e inipre`visível.4°5 Também há abortos no sistema solar, sua vida solar, lunar e comctária (o- que nãoficai pm-fi¢u,
- - z _ '¿""'__f'T"Â" _
i Í
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Ánilttufl
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HEGEL E SEUS CONTEMPORÃNEOS 4 323
322 O NOVO MUNDO
r
larmente claro, em especial caso se lembre que a terra é o elemento lunar
I
sa. A civilização carecia dos dois grandes instrumentos do progresso, o fer-
ro e o cavalo.” Enquanto nenhum continente do Velho Mundo jamais foi
e o mar é o cometário),*“° sua inclinação sobre a elipse e o eixo magnético- 0
Com estes eixos e sua polarização - não confundir com a polarização Nor- Sflbjllgfldo por outro, a América inteira tornou-se apenas uma presa da Eu-
te/Sul! - estão em estreita relação, “em estreita relação a divisão do mar 1'0Pa. Seus povos indígenas desaparecem: o Mundo Antigo volta a refazer-
se, rejuvenesce: “die alte Welt gestaltet sich in demselben neu” . Hegel passa
e da terra, seu coerente alargamento ao norte, a subdivisão e 0 afilado es-
sem meias-tintas da lamentada “novidade” geoflsica para a promissora “ju-
treitamento das partes rumo ao sul [eis aí a antítese dos hernisférios seten-
ventude” sociopolítica. A ambigüidade da palavra novo jamais fora empre-
trional e meridional - e, por fim, mas de todo surpreendente:], “a subse-
I gada com tanta destreza e desenvoltura.
1 qüente separação entre um Mundo Velho e um Mundo Novo”. l
Contudo, Hegel ainda não espremeu todo o seu sumo. Na Filosofía da
Admitindo-se esta, também fica fácil a dedução seguinte: “a subseqüente
história, a indagação sobre o verdadeiro significado da “novidade” do No-
:_
divisão daquele [Velho Mtmdo] em diversas partes, diferindo entre si e do vo Mundo dá outro passo adiante. Aquela novidade que na Enciclopédia
novo mundo por suas características fisicas, orgânicas e antropológicas, partes era não apenas acidental, mas substancial, é enriquecida por outra determi-
essas às quais vem juntar-se uma outra, ainda mais nova e imatura“:'*“ e nação, quando ele a declara “não simplesmente relativa, mas absoluta". O
._..-. ,.z,
dessa alusão à Oceânia deduz pela primeira vez que o Novo Mundo é mais Novo Mundo, no qual Hegel compreende a América e a Oceânia, recebe es-
jovem e menos maduro que o Velho! se nome, é verdade, por ter sido descoberto depois,““ porém 6 110*/O não
1
1 Mundo Novo e Mundo Antigo
somente em relação a nós, e sim na acepção mais plena e absoluta, por tudo
quanto diz respeito a suas qualidades tanto fisicas como politicas e espiri-
gl Porém, uma vez tocado o tema da antítese e da relação dialética entre 1
tuais. Com frases nas quais agora percebemos toda a substância irõnica e
polêmica, Hegel prossegue: “Não é sua antigüidade geológica que interessa.
dois mundos - diade em precário equilíbrio sobre a tríade do Mundo Anti- ›‹
go -, Hegel não o deixa fugir, pelo contrário, orquestra-o e tece a seu redor Nem desejo negar-lhe a honra de ter emergido do mar no momento preciso
31
toda uma série de variações, em muitas das quais reconheceremos os temas da criação do mundo.” Todavia, é um fato estabelecido que o arquipéla-
mais batidos da polêmica. go entre a América do Sul e a Ásia mostra uma imaturidade fisica [einephysis-
ii :fã che Unreife]”. Quase todas aquelas pequenas ilhas são fisicamente imatu-
: A Principal divisão da Terra é esta: em Mundo Velho e Mundo No-
vo “2 Estes diferem em tudo: um é curvo como uma ferradura de cavalo, ras, com fmas camadas de terra recobrindo rochas.coralinas que emergem
z
em tomo do Mediterrâneo; outro alonga-se de norte a sul. O primeiro é per- das profundidades abissais. E não menos imatura é a Nova Holanda, ou se-
feitamente separado em três partes bem articuladas, conhecidas e mtegra- I.
ja, a Australia, com seus rios enorrnes (?) que ainda não chegaram a escavar
›-
das' o último mal dividido, de modo incompleto, mostra apenas, como se
‹ seu leito.” _
"'WIn~.-¬ i-_. _ *_Jh`. r
‹\ Portanto, Hegel aplica 0 qualificativo imatura mais à Oceânia que à
\¡~‹g¡_¡_._ ¡ _ _.4
fosse um magneto, a diferença genérica entre Norte e Sul, com uma ligação
América. Buffon não conhecia a Oceânia e chamava de imatum a América.
delgada entre os dois extremos. No Mundo Antigo as cadeias de montanhas
-.¬<._¬-nWó4.~ ,.'_ ,_A ~_' \-, c Imaturo, tanto em um caso como no outro, era o ainda não sistematizado,
em geral se estendem do Ocidente para o Oriente, ou ainda do sudoeste para
z O nordeste. na América, essa contrafigura (diese Widerlage) do Mundo An- -G não perfeitamente conhecido, ou seja, o continente em que o conhecimento
figo 30 çginnrário, as cordilheiras se alongam de sul a norte (recordai Ray- era imaturo. Porém, à América pertence intato 0 privilégio da impotência:
a¡ ;He1,d&.‹,. Ver aqui p_ 52); e, para o cúmulo do arbítrio e da bizarria, “A América sempre se mostrou, e continua se mostrando, física e espiri-
tualmente impotente".4”
n rios amen'canos,e especialmente os sul-americanos correm para o Oriente! .
os Mesmo a d1Sflfl` ` ção entre “novo” e “antigo” é entendida como uma de- .-1`
-za A impotência da América na fauna . ~
¢¡¿¡da Q ição A data da descoberta é um fato acidental (se bem que a T: ‹~
Américapsíia nova inclusive desse ponto de vista, pois sua existência só é
..-.,
:Í _: Onde essa impotência se revela? Hegel nem ao menos cogita em uma
arcar» a partir de então) e, portanto, não vem ao caso. O que importa É fraqueza telúrica e reconhece na vegetação uma vigorosa exuberância. Res-
seu caráter essencial e neste senfido é preciso dizer que a América tem um ‹
tamosanimais-eo homem. Quantoàsespécies anirnais,jásabernos que
ar mais Íuvenil (“ei11.ifi¡1E¢f¢5 AU5°he¡1”) que ° ven” Mundo _ O qual possm .-1' °.'.
sua mera existência é um capricho, uma debilidade da Natureza (ver, aqui,
zambzm' uma formação histórica mais acabada. Tudo nela é novo, e Hegel < 1' p. 321-2). Querer ordena-las em um sistema orgânico é mera loucura. Uni-
Ú", :"
tende r no vo irnaturo e débil'- a fauna é mais_ débil (“die _Thierwelt ist 1
,, ‹
‹ -`-› .
camente o instinto, não a razão ou a idéia, colocou um após outro os gem.
eu po
szhwâz1›a").mas ' mm"tr3-se ali uma vegetaçao monstruo-
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if 324 O NOVO MUNDO
HEGEL E SEUS coN'i'i=.MPoRÃNEos 315

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|
ros animais: “Falar-se em cadeias é, porém, a-filosófico contrário a todo _ .r_._ zd
I
z ° Clllãlquer conceito. A natureza, afinal, não posiciona suas criaturas em
) nentes. As espécies zoológicas sã
0. portanto um reflexo ou melhor
variado 5 degrflus, uma após a outra, mas as apresenta em massas”. As 24 ralelo da dive f51fÍC_¡1Ça0
' * das partes ' ' ' um pa'
do mundo, que por sua vez resulta de ar-
classes de Lineu são o sistema de Lineu, não o da Natureza (recordemos | Canas forças cósmicas (ve ' . ‹‹
I
o anti- sistematismo
' ' -
de Buffon e sua particular aversão por Lineul). Jussieu °°mPÕem 0 mundo
natureza vegetal e a r:lsentam
ri aqui,maior
pi 322)' porfiue' no biorti'
correlaçao_entre si, alemasdepm? qiie
a propria
trabalhou melhor, mas Aristóteles já fizera qualquer coisa semelhante com mais _ ostentar maior interligaçao; contrariamente, quanto
os ariiinaisl“3 se caminha 'rumo ao sul, na África e na América, onde as partes do
E de fato Hegel volta a sublinhar a importância específica de um ani- ãlälndo se _siibdividem, verifica-se também uma subdivisão cada va maior
mal ou uma planta - corolário da tese de que a quantidade é mais impor- S animais [e dos vegetais, não?] em diferentes espécies”.m Em sua parte
tante na Natureza que no Espírito (ver, aqui, p. 633, nota 391), a qual ele setentrional a Terra tem um peito amplo, como diziam os gregos, e presta-se
procura harmonizar com a teoria de Kant e Goethe sobre a harmonia orgã- a ser cenário da história universal; na porção meridional ela se subdivide
nica e os limites internos de cada animal: “As diversas espécies de plantas e se espalha em numerosíssimos cabos e penínsulas, “tais como a América,
a Asia e a África": ora, as próprias criaturas animais, como vimos, também
e animais possuem, tanto em seu conjunto quanto em suas partes isoladas,
se diversificam e particularizam naquelas ramificações delgadas, enquanto
certa dimensão”.'"9 Mas logo em seguida observa que as criaturas inferio-
a zona nórdica, onde se encontra a maior parte das espécies animais e vege-
res, as mais próximas da Natureza inorgânica, distinguem-se das superiores
tais, permanece a mais importante do ponto de vista zoológico e botânico .47*"
por sua maior indiferença com respeito às dirnensões: os polipódios e amo-
O efeito deve-se ao clima - clima que, ao que parece, é mais eficaz
riites variam de tamanho dentro de limites muito mais amplos que os ma- no Sul do que no Norte: “porque, no Sul, o reino animal particulariza-se
miferos e os seres mais complexos.42° A grandeza perderia, porta-M0, SCH mais do que Norte, em função de diferenças climáticas e entre os paises; as-
significado, embora aumentando de importância a medida que a Natureza sim, os elefantes asiáticos são fundamentalmente diversos dos africanos, ao
HF orgânica tende a aproximar-se da inorgânica. passo que a América sequer os possui [forma singular de particularização
Esse emaranhado de contradições prova que o problema das dunensoes e individualização, este não-ser!]; diferentes são também, da mesma forma,
dos animais era tormentosamente sentido por Hegel, mas não resolvido, se- os leões, tigres etc.'Y,^25 como convém aos animais superiores submetidos
quer na forma despachada com que Buffon o solucionara. E nao estava re- àinfluência dos elementos, sem que, no entanto, se afirme, nem mesmo im-
solvido porque Hegel se preocupava, mais do que com as dimerisoes das plicitamente, uma superioridade dessa variante sobre aquela, de uma besta
1
espécies zoológicas, com sua diversidade e estabilidade e com a ei que as i
sobre outra. Mas a Filosofia da história é mais radical em tirar conseqüên-
governa. _ _ d cias. Na América, a inferioridadelque se observa nos homens tem também
-P-»-____.-P_- : Qual é essa lei? Ela é formulada em termos genericosâp e›;ltreân0,uaÍ seu paralelo nos animais:
maneira que abrange também a America, sobretudoéa.mer;›a:1H;gâ gás
a fauna ali exibe leões, tigres, crocodilos; todavia, estes possuem apenas certa
Buffon tomava seus exemplos, mas nao apenas a Am “ca- semelhança com as criaturas do Mundo Antigo, ao passo que são sob todos
›.-nr- - - - '
te apenas um tipo perfeito de animal, (1116 mf'-1123 de ffmna “za _ d
bada o con-
‹ os aspectos menores, mais débeis, menos peludos. Assegura-se que a came dos
ceito de “ani`mal”; e todas as variedades existentes sao modificaçoes es- animais é ali menos nuuitiva que no Mundo Antigo; efetivamente' foram exter-
te_42i Nos animais superiores tais modificações se adaptamAaos elemelrëtliâs minadas quantidades de bovinos, mas uma peça de carne de vaca européia é_
i nos uais- sua vida
- se desenvolve,- 05111
` feriores
__ › por sua vez, tem menos
_ . - uma guloseima.42° -
ção gom os elementos e permanecem indiferentes à sua grande diversidade.
A-
-
julgar
- -
-
justamente
'
« =d=Heimse
' 'es inferiores menos es veis,
as especl
ntos.
if-7;;.*:§: L;: ;.zf;fiâf ';zV*`..,

Aqui fica evidente a influência das teses buffon-depauwnianas, ainda que


não se possa precisar sua proveniência imediataƒm No que se refere aos ho-
mens, o problema é o mesmo, se bem que seja curioso e quase paradoxal
Ar mah-.
.-_.,~r.,'L¡-.‹_._._.*
fluenbtäa e ao Jâšgñdos ãlšrgiegeográfica interfere ncssaregra ge¡.a1_ -x que justamente o homem, o animal de mais alto escalão, seja liberado do
- 35 uma - mm - d1 e se recor- império do clima, mais desvinculado que qualquer outro do ambiente natu-
da que se caminha para otSulÉém ondese os continentes
modificam, se se a e gaçam tomamse
diferenciam, .¡.
'^`;Í
ral, sendo-lhe concedido viver bem em qualquer latitude, embora os esqui-
tam, as especies eam_ ada pane do mundo_42z As mmemidades me- . 3-
mós e os indígenas dos trópicos sejam muito diversos dos habitantes da zo-
Pecuhaieãe uplctaiiierites possuem espécies extreniamente diferenciadas, HIUÍÍO na temperadalm A
ridionais os con
_ - . t. ntrionais
. . dosmesmos c ont¡_ 'S
mais diferenciadas entre si que as das partes se e . Q .i~
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325 o Novo MuNno .à¡^1¿.›¡ u-
.›.
.l HEGEL E seus coNTaMPoRÃN1=¿os 327
O canto dos pássaros americanos

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1
A inferioridade das espécies americanas é, portanto, mais postulada que L
mitivo rousseauniano que transcorre sua existência em contato íntimo com
deduzida DOI Hegel: e postulada incidentalmente, mais como um fato evi- 3° Naturffza C nesta Percebe o espirito de Deus.433 Assim como os organis-
dente que como uma singularidade notável da Natureza. Hegel, amante fer- mos mais elementares vivem em mais estreita simbiose com o ambiente, tam-
voroso da música e do canto, só se detém em um caso particular de inferio- bém °5 POVOS maÍ5 PYÍHIÍÍÍVOS, menos evoluídos quanto à liberdade espiri-
ridade: a voz desagradável atribuida aos pássaros americanos. Ele não coloca tual, mantém-se em mais estreita comunhão com a Natureza circuudante e
o fato em dúvida,“'29 provavelmente confiando em Goldsmith (aqui, p. incumbente. Os animais dormem por instinto; os selvagens repousam à noi-
135-3)» C 3 €XP1ÍCflÇã0 que apresenta é divergente.43° te; apenas o Espírito faz da noite dia."'3“*
f O calor faz as cores das plantas resplandecer: sua individualidade r
A aplicação dessa tese aos povos “históricos” é toda calcada no esque-
z(Selbst), atraída pela luz, transborda na existência enquanto luz. Os animais ma de Rousseau. Os antigos gregos e romanos eram mais próximos e devo-
apresentam cores mais escuras; porém, entre os pássaros, os mais coloridos H. tos da Natureza que as nações modernas. E, entre estas, os italianos e espa-
e admiráveis são os dos trópicos, que são quase plantas, cuja essência pró- nhóis vivem mais a vida da Natureza que os alemães e nórdicosf”
: pria se expressa, por meio da luz e o calor de seu clima, na plumagem. Os Contudo, aqui já se percebe a superação do pressuposto primitivista:
pássaros do Norte não podem competir nesse ponto, “mas cantam melhor, não há dúvida de que para Hegel_ o alemão é um tipo humano superior ao
-Á'
' como, por exemplo, o rouxinol e a cotovia, que não existem nos trópicos”. italiano e ao espanhol; portanto, ao distanciar-se da condição natural, o ho-
O ardor dissipa a voz e volta a exprimi-la no esplendor metálico da cor. O mem se eleva e se aperfeiçoa.-O homem da natureza é um ser todo sentimen-
z
som perece no calor. E também a voz, embora sendo qualquer coisa mais to, mas, se é todoe apenas sentimento, não se distingue mais da besta. Caso
elevada que o som, sofre com essa exposição ao clima tórrido.431 toda a sua religião devesse ser reduzida ao sentimento, mais precisamente
Dever-se-ia acreditar, portanto, que a afonia dos pássaros tropicais era
_ ,I ao sentimento de sua dependência de um Poder Superior, o melhor cristão
constitucional e íncurável. Mas em uma nota Hegel faz uma conjectura curio- .,. .,
'ZZ ' seria o cão.436 Aquele selvagem que percebia tão bem a voz de Deus, aí es-
sa que, caso se verificasse, destruiria a tese. A escassa musicalidade das aves tá, percebia apenas his rriaster's voice.
americanas seria na realidade adquirida e, pois, remediável: “quando os sons O protótipo moderno do selvagem, o indígena americano, não pode es-
' quase inarticulados de homens degenerados não mais ressoarem pelas flo- àfj '- perar, portanto, unia simpatia indulgente. Porém, a condenação que lhe to-
- restas brasileiras, muitos dos cantores emplumados produzirão refnadas me- _
F, ca é particularmente severa justo por habitar o continente americano, este
lodias”.432 Deduz-se que os pássaros americanos teriam arruinado a voz por continente sem verdadeira razão de ser. As várias raças estão em estreita cor-
t.w
_; escutarem 0 estridor dos selvagens degenerados e imitá-los estupidamente f_¡- 7
.. \. relaçao e~dependência com as partes do mundo dependência: suas caracte-
-.=!
' em vez de cantarem a seu modo. Uma vez que os indígenas fossem extermi- _-'É ' _
nstrcas sao teluncamente condicionadas e necessárias, assim como as dos
, nados ou reduzidos ao silêncio, os pássaros se prestariam a entoar melodias 12.› ,; 1
jfê ' ' P1`°Pf1°5 ÊOUÍÍUCHÍÊS (VCR aquí, P- 3214)- É justo. por conseguinte, que na
'. mais doces (como o rouxinol? como a cotovia?...).
vã .É .
- › -'* '. Iiuropa, Africa e Asia existam as raças caucásica, etíope e mongólica, toda- -
.:r?¡"
.- .
L Também neste exemplo encontramos um dado de fato discutível, e até . __,
-. 5:1 alcontragosto Hegel acrescenta a estas três raças reconhecidas, autoriza-
abertamente contestado, que serve para ilustrar uma relação conceitual ar-
.".1_”
-fz-= -:
.L."`
s, egitimas, duas outras, a malaia e a amencana, “as quais, no entanto,
bitrária, a relação entre calor, som e cor. E, embora o exemplo seja classica- cz.›. »
constituem antes um agregado de particularidades infinitamente diversas do
:_-:.~.
mente americano, Hegel não extrai dele nenhuma conseqüência antiameri- -¬ .. , Qflfi uma FaÇa bem diferenciada”. Estas são muito menos bem definidas (“we-
¿
cana: não deduz daquele mutismo, como haviam feito os poetas, um sinal J.: -`
*ll-_'
mger [...] scharf ausgezeichnet”) que as três raças do Mundo Antigo. Até
de tristeza ou atonia da natureza do Novo Mundo; Apenas na menção aos 1. -'f.';..
a cor da pele e incerta: brancos, negros e amarelos, sabe-se o que sejam; .
indígenas, com os quais as aves teriam aprendido a desafinar e estrídular,
-' ‹Í›'z_¡ z. ._
zoriç mas a epiderme dos americanos é acobreada. ,
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~_zÊ?›- ^,
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pode-se discernir uma prevenção antiamericana. ."' 1-5: f _:. _
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Os aborígines americanos .
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Oselvagem como homem da Natureza ~ ~::".-z~.‹ ›
r-ú - 1!. ~'.¡ _ O que sepode esperar de gente tão mal colorida, em uma terra fraca`
:ze-»_,__.›. .
Vejamos, portanto, como Hegel chegou a esse juízo implicitamente ne- _,,¿f`f¿
.^"' ..`›
sx ‹ n.
5.": f- 1 ".!:.
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..
'Z e rmprecisa? Nada de bom, certamente: os aborigines americanos são. «uma
A gativo. O selvagem,_que estraga a voz inocente da Natureza, é de 1mc1o defi- 'I estirpe fraca e em extinção”. Suas civilizações mdimentares deviam neces-
nido pelo filósofo precisamente como o Homem da Natureza, como 0 prl- sariamente desaparecer com a chegada da incomparável civilização européia
E, assim como aquela era uma civilização de 'qualidade inferior, também os
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l 323 o Novo MUNDO HEGEL E SEUS CON`I'EMPORÃNEOS 329
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gw? P€_ftn_aneceram selvagens o são em nivel exacerbado: são os campeões

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nal do mundo": não se vê efetivamente por que o massacre dos antilhanos
a rncrvilidade. Apenas na América existem selvagens tão torpes e idiotas a tiros de arcabuz deva ser imputado à sua pretensa inferioridade orgânica
C0m0 os Pescherãh (ou seja, os fueguinos)^'37 e os esquimós. Recentemente e espiritual. Os juristas espanhóis do século XVI tinham sido mais humanos,
foram dadas a conhecer canções de iroqueses, esquimós e outras populações pois ao menos haviam se colocado o quesito da legitimidade daquela guerra
561)/aâëns; mas estas em nada alargam o cr'rculo encantado da poesia. De he- de extermínio e procurado uma justificação, fosse exaltando os bens espiri-
rorsmo, então, nem é o caso de se falar: até os cara1'bas, os valorosos carai- tuais incomparáveis levados pelos conquistadores, fosse rebaixando os indi-
bas, foram extintos sob o efeito combinado da aguardente e das armas de genas ao nivel de criaturas subumanas ou simplesmente bestiais. Hegel, ao
fogo. invés, extrai do fato histórico da conquista violenta o argumento para con-
_ No Sul os americanos são ainda menos aguerridos. Jamais os indígenas cluir que os aborigines nada valiam e, portanto, deviam desaparecer. “Ma-
“mam 5° libfmado dO l1180 ¢Spanhol (foram os crioulos que se rebelararn). taste um homem morto.”
NO Paraguai eram como crianças incapazes (unkiindige Kinder), tratados Entre as conseqüências da debilidade dos indígenas americanos, Hegel
como tais pelos jesuítas. Em suma, é evidente que americanos e europeus recorda a introdução dos negros. É curioso observar com quanta simpatia
não se aproximam: “E evidente, portanto, que os americanos não possuem relativa ele considera esses outros “primitivos” que chegam do Mundo An-
condições de se afirmar ante os europeus". Caberá aos europeus fazer florir tigo. Sua cor escura depende do clima, do calor e da luz - exatamente os
uma nova civilização nas terras conquistadas.” _ mesmos fatores, entretanto, proporcionam aos pássaros o cintilar de plu-
Hegel pinta o mesmo quadro na Filosofia da história. Logo após ter mas brilhantes e policrõmicas!4'*° Atribuem-se aos negros transportados para
afirmado a impotência fisica e espiritual, congênita e incurável da América, a América a descoberta do valor terapêutico da cortiça da China e o mérito
ilustra-a simplesmente com exemplos da impotência do americano: de terem conseguido estabelecer no Haiti “um Estado construido com base
Í em princípios cristâos”.4^“ Ainda que seu espírito tenha um caráter “infan-
de fato lescrevej, depois que os europeus desembarmram na América, os indi- til", a dignidade histórica da raça etiope está salva.
genas pereceram pouco a pouco sob o influxo da atividade européia. Nos Esta-
dos libertos da América do Norte todos os cidadãos são homens de ascendência A América atual: os “Volksgeister” e a América
européia, com os quais os antigos habitantes não puderam se mesclar, sendo
expulsos por eles. Na verdade, os indígenas aprenderam algumas artes dos eu- O julgamento sobre as formações politicas da América atual apóia-se
ropeus, entre elas a de beber aguardente, que teve efeito deletério sobre eles sobre dois conceitos: o dos Volksgeister, que dominam por turnos e desapa-
[sobre os peles-vermelhas, dessa vez, enquanto antes tratava-se dos caraíbasl. recem inevitavelmente, e o de uma antítese radical entre a América do Norte
No Sul os indígenas foram tratados com violência muito maior e empregados e a do Sul. O primeiro conceito sanciona o eclipse definitivo das civilizações
em duras tarefas, para as quais suas forças não bastavam. pré-colombianas; o segundo retoma o contraste entre regiões setentrionais
e meridionais, que, como vimos na dedução dos continentes, tem maior re-
Há aqui influência de Las Casas, talvez reforçada por outra mais recente, Í
levo que aquele entre Oriente e Ocidenteƒm As civilizações do México e do
de De Pauw ou algum seguidor deste.
Peru erarn meramente naturais: não tinham como não perecer com a apro-
Brandura e inércia, humildade e rasteira submissão diante do crioulo, e mais ximação do Espirito.'“3 Este é um caso particular da lei que designa para
ainda diante do europeu, são as caracteristicas essenciais dos americanos, e se- cada nação um momento da História e depois a rechaça para fora da realida-
rá necessário um bom tempo antes que o europeu consiga despertar neles um 1' de, para o nada: lei de uma mecânica tão rígida que causa espanto ter sido
pouco de dignidade [SeI'bstgefühI]. Vimo-los, na Europa, privados de qualquer 1
acolhida e aplicada com tamanha tenacidade por uma mente aberta como
vida espiritual [geisflos] e escassamente capazes de educação. Reconhece-se fa- i
a de Hegel, ao passo que não surpreende que fosse rejeitada por Humboldt
cilmente em tudo a inferioridade desses indivíduos, sob todos os aspectos, in- z
com “desconfiança feroz";4'“ lei que exclui qualquer convivência entre
clusive o da estatura, \
nações, qualquer assimilação de civilizações, qualquer enxerto ou renasci-
com exceção dos vermelhos, selvagens e possantes patagônios (os costumei- mento, e assim nega, essencialmente, o desenvolvimento histórico, parecen-
)< ros Patacanesl), mas não dos discípulos dos jesuítas, que “no meio da noite do desejar substitui-lo por um desfile daquelas figuras simbólicas que sobre
Í um dobre de sinos devia recordar de seus deveres conjugais”...'*59 os relógios das antigas torres saem por uma portinhola, uma após outra,
Nessas condenações sumárias ressoam matizes do realismo cru e até ci- pavoneiam-se por um instante ao sol e retomam à escuridão por outra por-
nico, e digamos até da arrogância jactanciosa, que Hegel dispensa a outros tinhola, lei, por ñrn, que corresponde no campo da Histona ao incisrvo an
povos vencidos e, enquanto vencidos, julgados e sentenciados pelo “tribu- tievolucionismo da filosofia da Natureza.
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330 o Novo iviuNi›o .
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Já em um escrito de juventude Hegel afirma a absoluta necessidade do
posto que toca a cada povo e da unicidade de seu "momento", condiciona- \.
..

iiuoui, H suus ‹:oN>ri›.Mi'‹›iv.ÃNizos


Reaparece assim o sonho gocthiano de uma poesia virgem que naseerá

33l
do de um lado pela História e de outro pela Geografia;“5 e na Propedeuti- .Í
além do Oceano, com a ulterior determinação de que aquela poesia exaltará
q ca a lei fatal é formulada em todo o seu rigor: “Não são todos os povos i I
epicamentc o triunfo da vida sobre o limite, da razão sobre a história, da
' que contam na História iiniversal. Cada um tem seu ponto, seu momento,
¡ segundo seu principio. Depois disso, sai de cena para sempre, ao que parece.
zz, América sobre a Europa, assim como a poesia épica do passado Canlou 25
lutas da Europa para impor-se ã Ásia. .
` Sua vez não chega por acaso".'“5 Ao vir, o Espírito do mundo se exprime
por completo naquele povo, sujeito àquele clima e ligado àquele período, Os Estados Unidos e a América do Sul
masitraduz-se de modo inteiramente naturalista, assim como a totalidade
da vida encontra-se contida no protozoário, no rouxinol e no leão: cada um Porém, a qual nação do Novo Mundo tocarão essa missão e esses lou
ros? Excluídos os nativos, restam as sociedades e estirpes de cepa européia.
dos quais está encerrado em si e não se desenvolve de outro ou'em outro, Çr*i.'_¿5»,.~.
Diante delas, contudo, Hegel encontra-.se embaraçado por seu repudi0 K0
é rigorosamente o mesmo, um indivíduo sem relação alguma com os demais,
continente americano. É difícil encaixar a contraposição entre imaturidade
,um escalão sobre 0 qual sobrevoa (schwebt) a idéia da totalidade.“¶}Qs po- e maturidade fisica (Novo e Velho Mundo) naquela entre civilização mera-
É
vos são, portanto, como as espécies naturais, múltiplas encaríaçõã do Lo- mcnte natural (física) e espir
' itu al . A civilização
. natural estaria para a espiri-
- Í, gos,com a única diferença, não direi vantagem, de que, enquanto as espé- tual assim como o continente imaturo está para o maduro? Hegel não chega
._:_._.~¬
' ' cies animais coexistem como podem, e não estão condenadas à extinção, as iii a dizê-Io expressis verbis, mas no julgamento que faz dos Estados Unidos
nações se alternam sem repouso na guia do gênero humano. A vinculação jfi* afirma algo muito semelhante: que estes ainda não alcançaram a maturida-
Í 8eo8ráfica e antropológica de cada nação, compreendida aqui à maneira de de politica, não formaram um Estado sólido, porque possuem enemies es-
' Montesquieu, obriga, com sua pluralidade naturalista e irreprimível, à con- .`=`i\E.
-_. paços sobre os quais lançar ondas de agricultores, colonos, imigrantes. Este
clusão de que apenas por uma vez na História um povo pode ser o portador fluxo contínuo e a ausência de vizinhos poderosos impedem que se formem
do Espírito, “o dominante”.4“ as tensões internas, os conflitos de classe, as aglomerações urbanas e indus-
Seria possível argumentar, a partir daqui, tanto que a América ainda triais que são o pressuposto de um Estado orgânico. Em suma, a América
deverá gozar seu momento de supremacia mundial, que o Futuro pertence 2"Íz"¬-
;.=»‹L. "¿ do Norte seria ainda demasiadamente natural, e portanto insuficicntemente
.‹¡,¬ “politica” e espiritual; teria espaço em excesso, e portanto carência de pro-
a ela, como que, sendo sua civilização meramente natural, jamais será in-
vestida e invadida pelo Espírito. No que toca aos indígenas, que além do 1. F.~,
.L N
blemas; "geografia" demais, e portanto “história” de menos. Se a floresta
mais considera extintos, ou em vias de extinção, Hegel atém-se à segunda
, ._‹
z.^‹:
germânica ainda existisse na Europa, a Revolução Francesa não teria acon-
alternativa. Contudo, quanto à América em geral parece inclinar-se para a ,.À. tecido.“° t
primeira. Ao discorrer sobre a poesia épica, observa que as guerras canta-
if1' fzli A verdadeira história da América ainda está por começar. Este conti-"Q
É| 1
7 nente em parte já estava ultrapassado quando entrou em contato conosco
das por esta não devem ser quaisquer guerras, mas devem possuir um signi- ..«`,,
#1-'~°~ e em parte ainda não está pronto e acabado (ƒertig). Seus indígenas pratica-
ficado histórico universal, um “universalhistonlsche Berechtigung". Assim Í,l ,|
mente desapareceram. Hegel vê com agudeza o caráter completamente -
foram as guerras dos gregos contra os troianos, narradas por Homero, e as ropeu" da nova civilização americana (“o que se passa na América tem na 2
0..
de El Cid contra os mouros, dos cristãos contra os sarracenos (Tasso e Arios- .fi «
-4 Europa seu ponto de partida”; “a América é um anexo que acolheu o exc -
to), dos portugueses contra os indianos (Camões). A Europa, a providên- 'I
_
.I
“É
_
dente europeu”)' - “Y e as possibilidades que esta oferece às energias queI:
(9
cia, a beleza individual triunfam, em tais conflitos cem tais poemas, sobre - .ÍL não encontram desafogo na Europa. i_- `_ _z-_`,"
o fausto e a grandeza amorfa da Ásia. Quais serão ainda as epopéias do ama- *Ê '.a= -Mas as Américas do Norte e do Sul estão “separadas do modo mais
nhã? Não as de guerras entre as nações européias, todas limitadas e, portan- . 1
¶'.
decidido”. Ao sul do Panamá, a faixa de terra entre as montanhas e 0 mar,
to, nenhuma delas, a rigor, “por si própria”, pode iniciar uma guerra (ll). Ífš onde se encontram o Peru e o Chile, é “mais estreita e oferece menos vanta-
As eventuais epopéías do Futuro só poderão representar “a vitória de uma z," __
','-_-
, z gens que a norte-americaiia” (entre os Apalaches e o Atlântico: cf., aqui, '
‹.
futura racionalidade viva americana sobre o encarceramento [europeu] no ~
p. 656, nota 442). Em toda a América do Sul, exceto o Brasil, surgiram re-
medir e no particularizar levados ao inf'mito [...] Se hoje é possível colocar- 'I .. públicas; todavia, se as confrontarmos com a América do Norte, encontra-
se para além da Europa, pode-se ir apenas à América". “Se se deseja, hoje, ,z ,,
:UÍ
remos “uma antítese surpreendente”. No Norte, ordem e liberdade; no Sul,
-.f'
ultrapassar as fronteiras da Europa, há que se rumar para a América.”'“9 ..
.,,.
14 › anarquia e militarismo. No Norte, a Reforma; no Sul, _o Catolicismo. O Norte
,
É foi “colonizado”; o Sul, “conquistado".
1
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332 o Novo MUNDO HEGEL E seus coNrEMPoRÃNEos 333

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madššägeëndelineia aqui uma nova polarização, não mais entre imaturo e ::"“
~".-*.._-'
dialética, revelando assim sua fragilidade, artiticialidade, a rigidez incapaz
fiança (èutr re natural e espiritualâss _sim entre as duas Arnéricas, de con- i de adaptar-se e compreender as novas realidades. A América, com sua enor-
W
dcsconfian men) 1102lri›rot:=:;*.ant_es industnosos, fiéis e liberais e violenta me e inegável presença, “ingênua e peremptória” , teria descoberto e traído
elememè) dgnãnois cat cos brrguentos e prepotentes. introduz assim um um dos pontos fracos do sistema. Para entrar no esquema das tríades, as cin-
_ a dizer que talveêo, explosivo até, no continente inerte e impotente - chega co partes do mundo deviam, querendo ou não, reduzir-se a três, assim como
.f interesse da históriessër utaienltre as duas Américas seia o ponto de maior Hegel reduzira a três os cinco sentidos e a três as cinco artes da tradição.”
revelapse nos tem 2; utura. _ a America e o pais do Futuro, onde há de O filósofo deve, conseqüentemente, ter esbarrado com verdadeira sa-
5 .z
r
_~ rica d N» D s que estao por vir, e quem sabe no corrflrto entre Ame- tisfação intelectual na tese da debilidade da América. Deve ter adotado com
o orte e do Sul, o centro de gravidade da lustórra universal [die welt- um sabor quase de represália uma teoria que lhe permitia tão bem desfazer-
.fz 8€SC¡1£C¡l1`Í1Ch8 Wlchtigkeit ],“'5“ é o país dos anseios de todos os que tomaram se do incômodo obstáculo, que chegava a rechaçá-lo para fora da realidade,
AÉ Êlgšrslag pela histórica arrnaria da velha Europa". Porém, após um início fora da história, na condição miserável de um aborto gigantesco.
deníãa :ge Parecia acenar uma revisao crítica da tese da “juventu-
É um aprofundamento mais decidido do epigrama goethia-
U0 (Cf., aqui, p. 331), Hegel abandona este rumo. Como país do Futuro,

Menos vigor da tese em Hegel que em Buffon '
Mas, precisarnente porque em Hegel essa teoria serve a uma finalidade
_‹ a Aménca não interessa nem ao historiador, que só tem o que fazer com J
_: de ordem prática, mascarar uma deficiência do sistema, ela possui a tal pon-
K
o passado e o presente, nem ao filósofo, que não se ocupa nem do que ape-
nas for nem do que apenas será, mas unicamente do que é e é eterno, e “já to menos frescor, menos força que em Buffon. No naturalista francês, a in-
ferioridade biológica da América era uma explicação, imperfeita porém pro-
tem bastante o que fazer.” com isto.455 Assim, um tanto bruscamente, He-
‹ vocante, da diversidade das espécies nos vários continentes. Era um esforço
gel se desembaraça do “Novo Mundo e dos sonhos que voltam a acometê- (
de síntese, uma tentativa de reconduzir a um princípio único a natureza viva
lo”, e retorna às águas mais familiares do Mediterrâneo.'*55 .›~sz
dos dois mundos. Era um esforço tão sincero e concreto que provava sua
fecundidade, em prirneiro lugar ao suscitar as polêmicas e as reações que
O caráter do erro de Hegel .' repassarnos; e, em seguida, ao sugerir a Humboldt e a Darwin um ponto
\ ' A soberba arbitrariedade com que Hegel dispõe do continente não é, 1
de partida para algumas das maiores construções da moderna ciência da Na-
¡.

portanto, uma excrescência inevitável de seu sistema. O sistema imprimiu :›
~‹ tureza. Em contrapartida, a exclusão levada a efeito pelo filósofo suevo era
aos erros sua forma própria e típica. A dialética, aplicada a dados empiri- tão estéril que permanecia como uma nódoa em seu sistema, como um típi-
__.-. cos, fez com que eles aparecessem como conseqüências logicamente neces- co e flagrante exemplo de erro, e ninguém mais a retomava para discuti-la
té seriamente. Alguns elementos empíricos, que lhe serviram de ponto de par-
sárias da estrutura do Universo. Mas a raiz dos erros é mais remota. Consis-
Éfs tida, serão ainda utilizados de vez em quando, para sustentar esta ou aquela
lz
¡.
3
._.`fi. . _. .
te na falsidade substancial, ainda e sobretudo no plano empírico, de muitos
dados de fato que Hegel se esforça por deduzir dialeticamen_te."57 O erro de
Hegel é, pois, um erro de segundo grau, um erro ao quadrado. É equivoca-
tese biológica ou sociológica. Contudo, a tese fundamental da “debilidade
da América”, da imaturidade de um hemisfério, morria no mesmo momen-
to em que era consagrada como aspecto necessário do Logos.
.

da a base factual de seu raciocínio; e é imprópria a forma lógica em que _L.¬.›;1:;
A tese de Buffon, tão audaciosamente sugestiva caso interpretada em
:. os fatos são apresentados e meditados. Hegel teria podido dialetizar igual- f_¬.z.-A
š-z 'Í.o tom evolucionista, de acordo com as ênfases historicizantes de seu pensa-
V.

mente bem, ou igualmente mal, a tese da perfeição insuperável da América .`,l
mento, perdiam toda vitalidade, uma vez enquadradas no rigido sistema an-
-._ e da decrepitude sórdida do Velho Mundo. - g _ TH
z tievolucionista de Hegel. Apergaminhavam-se, fossilizavam-se. E escorre-
Por que então escolheu a condenação do Novo Mundo? A escolha por ai
m-\u&~u|
La gavam, da ambigua mas fecimda altemativa de imaturidade 'e decadência,
certo não foi deliberada e consciente. Mas, aos olhos do filósofo que pensa- i. nas antíteses secas, nos confrontos estáticos dos primeiros detratores do Con-
va o desenvolvimento do espírito, ou seja, do absoluto, nos termos histori- "¡
. `Z 1
:_ _".‹ tinente. . _
camente condicionados pelo Oriente, a Grécia, Roma e o Cristianismo, o «Q
_ -.~g
z
1! I Mundo Antigo com certeza tinha mais realidade, mais consistência, mais vida ~ Historicização e destruição da tese ^

E
que as vastas e estranhas regiões que em fms do século XV vieram contur-
bar aquela linha evolutiva tão orgânica e perfeita. Para admitir a América
. Lpl'
2,?-,“.=
...Ç ~
Quando, com a chegada do século XIX, o historicismo penetrou nas ciên-
em seu sistema, Hegel teria de deixar em pedaços sua construção histórico- 3.;
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cias naturais e converteu-as, de ciências do imóvel e das leis uniformes, em
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334 o Novo MUNDO

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HEGEL E seus coNrrzMr›onÃNEos 335
`""`'-al!-.c'`s.L`'~i.à._^¡¿'
ciências do eternamente mutável e criativo,"59 também o continente arneri-
A excede, sufoca e paralisa os novos princípios. Os continentes recusam-se a
°an0› este volumoso objeto da ciência natural, devia passar a ser visto sob se ordenar como categorias ou antinomias. Os animais não se resignarn com
T
°“tm P_¢fSDectiva. Sua idade já não podia traduzir-se em termos qualitati- 3 C°UdÍÇão de meras variantes do Animal, exemplares modificados e exte-
‹ V°5¡ 5° Jovem, imaturo; se velho, decadente. Nem ele podia defrontar-se com nuados de um totem imaginário postulado por um professor de filosoña.
P o Mundo Antigo como se ambos fossem entes estáticos, duas quantidades
O fragoroso insucesso da tentativa, com suas estridentes notas destoantes
mensuráveis e portanto comparáveis, usando-se em uma as medidas da outra. - Natureza “impotente”, tríades mancas, fatos e seres privados de Espíri-
_ No fluxo do devir, cada fenômeno readquiria sua autonomia, sua dig- to -, evidencia a inadaptabilidade de uma estrutura mitológico-mística, como
nidade própria. Se a América era degenerada, era coisa que só podia ser dita
a da escala infinita dos protótipos, para receber os conceitos do pensamento
em comparação com o seu passado. Se parecia imatura, isto significava ape-
histórico que vê o uno no indivíduo, não na espécie ou idéia; e o iufiniw
nas que ainda não alcançara seu destino. Como dirá Zanella, do mundo in-
no próprio uno concreto, não em sua multiplicação ao infinito, ao longo
teiro: “Se escravos, se lágrimas/ Ainda ela encerra/ É jovem a terra” [Se
de uma escala graduada, perpétua, interminável.
schiavi, se lacrime/ Ancora rinserra/ Ê giovin la terra] (La conchigliafossile
1 De resto, toda a Filosofia da Natureza apóia-se no conceito de “ser ou-
_» [A concha fóssil]). tro”, invenção ou fórmula de sabor nitidamente escolástico, e desenvolve-se
Em suma, a antítese fictícia que opunha o Novo Mundo ao Antigo, a em termos quase ingenuamente antropocêntricos.'°6° A Terra é 0 supremo
geografia da América à da Europa, devia forçosamente agora que a geogra-
teatro do Espírito. Nesta visão pré-copernicana, ou melhor, substancialmente
fia, como todas as demais ciências naturais, era reintegrada à história, ago-
bíblica do Universoflfl é bastante compreensível que o Mundo Antigo de-
ra que as determinações espaciais, por definição extrínsecas uma à outra, 3
1
t
vesse ter um extraordinário relevo e que América, Oceânia, todo o restante
e por conseguinte dispostas a se posicionarem em díades polares, se dissol- 4 _' do globo empalidecesse e quase perdesse a razão de ser. A conexão ideal en-
.E-
viam em um conceito orgânico da realidade única e incontável, no vivido tre a descoberta da América e a descoberta copernicana, tão fortemente per-
quadro humboldtiano do Kosmos. ~ ›:'-'.~- cebida por Bruno, por exemplo, e pouco depois desenvolvida por Giober-
.,_
'-3%-L ti,"°2 confirma-se com 0 duplo desconhecimento hegeliano do Novo Mun-
.\ ~ A cadeia das criaturas e a velha metafísica do e dos mundos infinitos.
Mas, sob outro aspecto ainda, o repúdio hegeliano à América ilustra
-,--V._, I-‹¬
quanta coisa permanecia em seu pensamento de antiquado, frágil e cientifi- .-¬,\
camente morto. Descobrem-se facilmente graves resíduos de medievalismo zip
t í
1 entre os materiais que foram usados na construção do maciço sistema.
Nos reinos da Natureza, cada espécie só existe na medida em que encar-
na um momento do Logos. Mas as espécies naturais americanas mostram si,f
ser encamações deficientes, tentativas descartadas ou roucas do Logos. Não -zfš
_..¿l
`§'z~fli-‹z¿,n~a-¬-..›,in_-'.e‹°‹>,._›"*-›
. _.¡_..Q
¿X._,¬_.¿ ....._.g__›;‹¿,
.¬-~._=,_._¬ ._~_. _. é difícil descobrir, nestas explicações entre ingênuas e pedantes, o caput mor- ¬.
:ii-I
f=;1.‹-.
/tuum da velha metafísica. As formas de existência que Hegel se afana em .~ ..;£
...z
.-'‹.
) deduzir e desenvolver em cadeia necessária são a reencarnação transparente V-az
l¡ daquela espécie de idéias que, de Platão em diante, o Ocidente se obstinara Jg.-
‹' em ordenar em cadeia ininterrupta, do Deus Supremo até a mais ínfima cria-
‹-». ,Í tura. O Logos de Hegel percorre um caminho ao revés; todavia, por grande
› e significativa que seja essa inversão do movimento, não altera o típico es- *L
_.-. .
quema- multissecular. `
1 A forma “temporalizada” (Lovejoy) da cadeia das criaturas, cogitada Áf-
'
_>re_ x
no século XVIII para harmonizar o caráter estático e rígido da cadeia exter-
na com a nova fé no Progresso, serviu de ponte entre o sistema platônico “äz
r. ›,- ‹
e neoplatônico e a nova dialética historicizante. .`
×
Hegel procura dar vida e-movimento próprio à inerte cadeia natural, «Z
.'
-. ~
saturá-la de espiritualidade ativa. Mas o peso morto do esquema adotado ._ .
'sr .~
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g I › I ` v ' ‹ 9 I
xl-Iii, “ _ . . . _ , _
ESVAZIAMENTQ ii xruxtioxniâ DA oisvurx 337

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mais completo esquecimento -
povo, permanecia sempre r . Entretanto › a América . como terra e como
l _mcamava ideais ou _ p esente na mente européia ' e de vez em quando
8 humanos saídos dP ticos, técnicos, econômicos, religiosos e genericamente
ES' WIZIAMENTO E se mesmo a al ° ¢°f3_Çä0 da tradição ocidental; ocasionalmente, prestava-
_ Scr _ vo da intolerância européia quanto a modos de vida e cos-
ATUALIDADE DA DISPUTA tumes › ignoraric If! Drcsunçosa e práticas
muns - comerciais espertas, certarnente co-
ao mundo inteiro e a todos os tempos, mas que em meados do século
XIX eram
P particularmentevisiveis
' ' ' nos Estados de além-Atlântico.
DESLOCAMENTO DOS TERMOS DA POLÊMICA or sua vez as Américas, e em especial os Estados Unidos, trataram
DEPOIS' DE HEGEL de_ legitmiar
_ sua existê ncia,
' sua recente admissão
' no mundo das nações, rei-'
vindicand 0 Dflffl Sl' Hussoes
' ' particulares
' -
e destinos mariifestos, funções de asilo
de Cadinho.
' e campo experimental,
' primados
- fisicos
z . ou espirituais
. . z e auspi-.,
As C<fIlÍFaÓiÇÔcS internas e incertezas radicais das idéias hegelianas so- crosos vilé ` ' ' ' - -
bre a Amen ca provam que na época os termos ' - -
tradicionais da disputa eram PU glos de pureza ética ou virgindade literária.
insulfi‹‹j:íentes para abranger os problemas sugeridos pelo Novo Mundo. De Dessa forma a crítica européia desl
oca-se, rapidarnente, da natureza fí-
rim sica do continente para as sociedades que ali se formavam. Muda a rnira,
_ a o, as ciencias
^ ' - naturais
' haviam
' '
se emancipado dos esquemas volumé-
tricos e das rígidas teorias climáticas; de outro, o desenvolvimento social e
.,_._¡Y»

porém não mudam os métodos e argumentos. Assim, o julgarnento sobre
político dos Estados Unidos e a turbulenta vitalidade dos países latino-ame- as novas nações americanas e sua “civilização” com freqüência assume o
ricanos faziam com que se esquecesse o seu recentíssimo passado colonial tom ea cor das diatribes sobre animais e indígenas. Os novos conceitos cien-
e de fato não se errquadravam nas costumeiras caracterizações dos crioulos,
.P tíficos provam seu vigor varrendo dúzias de problemas mal colocados, e sua
sonolentos e dcsmiolados, nem dos norte-americanos, fisicamente decaídos fecundidade explicando com perspicácia imparcial fenômenos e criaturas dos
-‹ cinco continentes e outros lugares. Mas eles não eram (ou, pelo menos, ain-
e barbaramente incultos.'
da não) aplicáveis a formações históricas como as nações, a mentalidade dos
` Hegel encontra-se, pois, em meio a um dilema. E, raciocinador cons-
ciencioso, quanto mais procura formar uma imagem coerente dos dois mun- ‹ :L-¡._; ;.
z--ni povos, as instituições políticas, as ideologias e os ideais tãorapidamente sur-
dos e suas relações ideais. mais se exaspera e se confunde em suas antino- É`{Í" gidos, fermentados e fervilhantes nas Arnéricas. As coisas aconteciam de tal
:a maneira que, enquanto o solo e 0 céu do Novo Mundo já eram redimidos
mias intrínsecas e recíprocas. A América é impotente no físico e no moral, :F
'13'-`l pela Ciência, seus habitantes e Estados ainda eram medidos pelo metro de
mas é também o Futuro, ou seja, a “potência” por definição. A Europa _):
-- .¬
comparações simplistas, de concursos de mérito e confrontospolarizarites.
635.:
. ,__
é a perfeição do Absoluto, é o Ocidente insuperável por outro Ocidente ain- Entre os admiradores da América, écaracteristico o caso pouco conhe-
`Ê~¡_.;z
da mais ocidental (nem à Ásia, que é o Oriente essencial, é concedido o di- eu cido de Augustin Thierry, que, atormentado pelo problema das raças, trans-
.fiz
reito de encontrar-se com o Ocidente da Américal), contudo é também uma zu .i
figura os Estados Unidos em uma felicíssima nação que não possui conflitos
- .:i
velha armaria, uma "prisão", um cárcere aborrecido onde ninguém mais raciais, nem lingüísticos, nem religiosos; que se consagra ao culto da liber-
poderá fazer ressoar o sonoro clarim da épica! A história universal alcan- . ..zÍi dade; e é o asilo comum a toda a humanidade, pois ali “os homens só sabem
çou seu vértice no mundo germânico e reformado; todavia, seu centrode ~.›,.=
lançar uns sobre os outros olhares de fraternidade e amor”l2 A América
gravidade, atraído por uma nova polarização, entre o Norte e o Sul da Amé- -` -iii*
realizou, portanto, os sonhos mais nobres da Europa. Os Estados Unidos
rica, desloca.-se pa.-ra_o ponto onde poderá acender a-centelha de um outro '¿~'\.\
pertencem a nosso mundo espiritual; são o f`mal próximo e providencialmente
conflito fatal. _ _ ,_zzšë feliz de toda a» nossa desgraçadissirna história. '
Depois de Hegel, portanto, a disputa não poderia ter e nao teve desen- .ig
~›-.te ' Esse encurtainerito da distância focal entre os dois hemisférios era com-
. ;¿~'š
volvimentos interessantes; e este último capitulo tem 0 caráter de um apen- plicado, e ao mesmo tempo agravado, por um reexame critico paralelo da
dice. O conhecimento do continente novo, sobretudo dos Estados Umdos M . civilização européia, inclusive do próprio conceito de civilização. Nascidas
c das civilizações pré-colombianas, fazia contínuos progressos, e o nome de z-vg
flw - simultaneamente com a consciência que a Europa adquirira de si própria,
Michel Chevalier, de Tocqueville, de Prescott e de 120 viajatiites edarqältälg: .‹`í
.. «_ a idéia de civilisation e a própria palavra ingressavam no léxico e no pensa-
gos ilustres de aquém e além-Atlantico; mas osternas esplecbicc; uafipcai no ~,^
mento do Ocidente durante a segunda metade do século Xvin, justamente
ca suscitada por Buffon se perdem e o próprio nome e e a ,J

quando se tornava mais crua e evidente a antítese entre a “sociedade” e a
5-
* a, _ -'.-
* ›~ ;_~.f
›._f,_Í. z _. , _ -_ `
... .
338 O NOVO MUNDO

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ÊSVAZIAMENTO E ATUALIDADE DA DISPUTA 339
“natureza”, entre a Europa (civilizada por definição) e a América (S¢¡Va'
8"" POr antonomásia), entre o dogma otimista do Progresso e 0 FCCOFTÕHW Velho Mundo". Est ' ' ~ -
com a Amé _ f ° UÍUITIO, nao obstante sua variedade, em compa,-açãg
terror da Queda. Já vimos mediante quantos fios as polêmicas sobre o Novo rica 0_ma
distingêmc dos or _ em particular,
uma unidade fisica, embora a Africa, _
Mundo uniram-se aos esforços para definir melhor e aprofundar a nature- de rios” (Sid is outros continentes do Mundo Antigo por sua “carência
za, a história e o destino do Mundo Antigo, e quão freqüentemente a oposi- ). OU 56121, precisamente aquele dominio em que a Ainerica tem
ção entre os dois hernisférios coincidiu fatalmente com as alternativas entre uma exuberancia estupendafi Quanto aos homens, é possivel que haja es-
Futuro e Passado, entre Espaço e Tempo, que encerravam e encerram em tirpcs asiat ' - . ‹z › .
_ mas na Ameflfifl. C, tambem sob o aspecto orgânico, parecem
si os mais extenuantes enigmas do destino humano. ser
_ os mais debeis
' ' dos homens”. Os selvagens, os canibais,
. . eis
_ os unicos
. . ame-
O reexame desses conceitos era uma imposição da crise revolucionária, ricanos autoctones.7
sentida como uma fratura com o passado, como um perigo de ruína total I 1:Ofelfl, ãssas referências permanecem desconexas, mesmo porque Schle-
da civilização, como expiação e palingênese, como liberação de forças ainda E e nao acre ita na igualdade fundamental entre os povos e conseqüente-
mal conhecidas e obscuramente tempestuosas:3 completavã-S6 aSSim, 00m EWUÍC ffilfilla as teorias climáticas que tanto haviam influenciado seus pre-
resultados não menos revolucionários, tanto no plano das ciências naturais €¢Ê_55f>f¢S, Inclusive Herder.3 Para ele os alemães são o povo portador das
(ver, aqui, p. 343 ss.) como no da especulação, a antiga “filosofia da histó- tra tiçães mais puras e elevadas, podendo desenvolver sua missão educativa
ria”, dissolvendo-se, precisamente por meio dos conceitos de processo civi- em 0 os os climas, a começar naturalmente pela Europa _ e aqui seu olhar
lizatório, cultura, progresso, evolução, primitivismo, de um lado na socio- i
Selrestringe a medida que procede a suas lições de história universal? A ci-
logia e de outro no historicisino integral. v i i zaçao italiana floresceu principalmente na Toscana, na Lombardia na-
Mas todo esse processo foge de nosso tema, se bem que seja do maior quelas regioes'~
onde o dominiof .
alemao
_
durou mais tempo e a influência' ger-
interesse para a história ideal dos dois mundos, e ainda que alguma das dia- mânica foi mais forte!1°
tribes ou apologias que exarninarnos freqüentemente repercutam nele. Bas- . A descoberta da América é caracterizada com eficiência, inserida no mo-
tará recordar aqui, muito sumariamente,os testemunhos e as teses que, até Vlmenšo europeu de progresso científico e expansão comercial, mostrando
depois da metade do século XIX, trazem clara a marca das condenações e sua in iiencia sobre o espirito humano em geral e sobre as inquietações dos
calúnias nascidas em meados do século XVIII.
i
|
povos, Ja que estes foram distraídos das crises e perturbações da Reforma
: D
esgraçadamente, o . . .
cristianismo não ,_
pode permear a América de forma
q ue “ a existencia
' “ ' dos europeus nao ~ se encontra. assegurada em parte
, alguma
FRIEDRICH scH1.EG1:L.- MISÉRIA z00L0'G1cA gâinljítláo MUI1d0'", nema civilização européia conseguiu efetivamente
r-se por la. A America do Norte foi menos mal colonizada mas es-
EANTROPOLÓGICA DA AMÉRICA tacolon`a`
f iz çao, que mais' tarde levou a~-_ _ .. e teve influencia
cisao da Mae-Patria _' . _
ne asta na Europa, deve ser considerada “um efeito secundário d ` h
Contemporâneo de Hegel, mas convertido à reação, ainda menos sensi- daquele grande acontecimento" .“ Se ao menos os jesuítas . ainda anin o
estivessem
vel que ele ao prestígio mesmo que apenas verbal do Novo Mundo e das jo-
vens nações, Friedrich Schlegel, a despeito de ainda em 1810 ter definido Ê1.1 I a cenfelha da R¢V01\1Çfl0
_ Americana
' nao
" teria
` feito
' explodir
' a Revoluçao-
rancesa
quia' H , co ntudo, a ordem fora suprimida e abrira-se
- -
caniinho para a anar_
a América do Norte como um “viveiro” (Pflanzschule) de humanidade _e
de liberdade européia, terminava (1828) por considera-la um autêntico “vi-.- Todavia, o problema das relações entre a civilização européia e as na-
veiro” de todos os principios destrutivos, umaescola de revolucionarismo ções de além-mar continuava a fermentar na mente de Schlegel e logicarnen
para a França e o restante da Europaf' A transmutação é uma conseqüên- te se apresentava com maior' vigor
' quando, uma vez desmoronado' o im ' '
cia óbvia das crescentes simpatias de Schlegel por perucas setecentistas e rea- ¬_. . `»‹ rio napoleôiiico, todos se perguntavam sobre quais bases e sob quais fonii;
cionarismos. E de fato, em paralelo perfeito e sincronizado, transmutava-se _l seria possivel reconstruir a Europa e salvar a herança do Ocidente De fato
seu julgamento sobre o destino futuro dos dois hemisférios. 22? segundo um fragmento recentemente descob rt 181 i i
. Nas aulas de história universal, Schlegel ainda enxerga as Américas com _'~Ízf ¿i. a colocam d , _d C 0, Cm 6 Schlegel voltava
se a uvi a augural de Berkeley e l-Ierder: devastada e destruída
olhos “kantianos”. Os americanos ainda não são suficientemente conheci- f,-sil a Europa, uma nova era não poderia surgir na América?
dos.5 Mas sabemos que a América distingue-se do Mundo Antigo em tudo, Por que não? Os alemães também poderiam tomar parte nessa palingè.
radicalmente, desde a natureza física, os produtos vegetais e os animais, “sem .í .
«¡'_`7‹.
#- nese, não com uma das costumeiras colônias, mas com uma migração seleta
falar dos produtos orgânicos, já que faltam ali muitos animais existentes no de sábios e cientistas. O sonho acadêmico (e um pouquinho grotesco caso
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340 O NOVO MUNDO u i3svAzlAMeNTo E ATu».i.ir›Aois DA r›isPu'rA 34;
se chegue a imaginar 0 desembarque solene de todos aqueles Herren Univer- or bom ' - . . _
foológ¡c§;¡í;a?:$¡)Êfc:*iQbl::;la¿1IeFlaltam-lhe muitas das espécies
-5'¡fäÍ~5`Pf0fessaren em missão apostólica) subitamente torna-se preciso e Pfe-
memeí Quantas transformações incalculáveis não poderiam produzir na Amé- mas degeneradas e de aspecto dzsagradável Êgfiflãuoššras 'existem sob for-
rica trinta ou quarenta filósofos alemães da natureza, daqueles bons (von do Novo Mundo oferecem “escassa com - D H animais autóctones
der guten Art!)... Talvez assim se consiga matar dois gordos coelhos com Os homens e tã ` ' ' pensação ' . _ _
uma só cajadada: a reconstrução da Europa após a catástrofe e o ama d ure- São menos mbufstgs fgâfioflfšlgldos por uma dupla maldiçao: fisicamente,
cundos que os asiáticos' mosalgeis que os afncanos, menos longevos e fe-
cimento de uma civilização humanista na Américalfi l qualquer outro selvagerâ Uínamente, são tao ou mais degenerados quanto
C°mUd0› por aquela época Schlegel ainda cnxergava a América como decadência do homem Pêde cailfäéwf lda a Oraça, nao há' limites para a
asilo de uma élite da cultura européia, que teria podido imprimir-lhe singu- ricanos são os homens-que mais se a a mera animalidade. Os indígenas ame-
lar florescimento. Poucos anos depois, a questão mudava radicalmente: a l recordando as informações ob_et_ Prâxiäaram dos brutos. E aqui, embora
Europa não precisava renascer na América, já que podia ser rejuvenescida vidameme e V _ . ' J ivas _e umboldt, Schlegel procede impa-
pela supremacia eslava personificada pela Rússia.” Nas aulas posteriores de fil muito alem de De Maistre e Leopardi, designando o ultimo
Viena sobre a Filosofia da história (1828), Schlegel repetia que a Polinésia grau da escala da humanidade para os “monstruosos” patagõnios, os semi-
5.- “não conta nada” na história e que a América possui uma história somente idiotas Percheräh e os horrendos canibais neozelandeses.
a partir da descoberta, e uma história meramente passiva, de “dependên- l ao idtíaãfšggflovíšlãioëisleau é delniolido. Jean-'Jacques errou por completo
-~. .,.`_
i
cia” ou “anexo” da Europa, até os últimos cinqüenta anos. natural é viver civflizašamecom o omem natural. A verdade e ocontrário:
Em termos fisicos, a Terra pode ser dividida horizontalmente, por as- nte, ao passo que os selvagens sao as vitimas exem-
i-_. _, ~< sim dizer, em um hemisfério setentrional e outro meridional, ou verticalmente, Dlflfëã de uma segunda queda, talvez não repentina e total como a primeira,
em um hemisfério ocidental e outro oriental. Na primeira divisão, constata- r)r:'êii;elr‹I:ln‹tja;i1sen¡;;1:}‹šgarSe:I::,i/íšizrgtzis tribos que chamamos selvagens têm a mesma
4
tz se que 0 hemisfério meridional é nitidamente inferior ao setentrional: é úmi- ram à sua atual condi ão d res ebcivi izadas, e apenas gradativâltänente desce-
J -'äu
!.
¬x d o e .deserto , em seu céu brilham menos estrelas e estas poucas sao menos do americano E a vid: histâ em rutecšmento e degeneração . A perfeição
cintilantes (sua “inferioridade” projeta-se assim pelos espaços etéreos). O no mais longínquo Futuro šiã corlnp eta da América, que Hegel proietava
setentrional, inversamente, rico em terra e gente, morada legendária dos fe- i mais uma vez a verdadei › C tlflgfi re_pele para um irriperscrutável passado:
lizes e venturosos hiperbóreos, é o pólo positivo do globo.” L.
l
em dois dogmas O este ra atá itclzase nao está na realidade da América, está
Reorientemos agora a linha divisória, transformando-a de horizontal
l em vertical, e concluiremos, em perfeita, orbitante e evidente simetria de va-
lores, que o hemisfério ocidental mostra-se inferior ao oriental: este é pre-
dominantemente formado por terras (exceto, é verdade, em sua extremidade

Todavia restap arasa (Ami 'mgl-csso'e O do Pecado Ongmal'


luxuriante. E,SchlegIé1 não hes't nca um plnmado atual: O dia sua vegetaçao
vidosa
Novo anem exagerada-
vegemuls Ma; que
isto ndueVéilil
el opt:/(im :mar enquanto
0 prevalece lu geral”.
a força ammal

i-
nemedu'
no
l
meridional, porém aqui uma cadeia de ilhas estende-se até o quinto conti- 1 como um parado-xo da namrgza e e anungälãgmo uma descoberta e quase
nente, a Oceânia, e faz dela uma “dependência” da América - um suple- reminiscência dos cronistas mais a red N C umflug'ar.comum C ate-um?
›.-_;
mento de terra de bom tamanhol); naquele, predomina a água, e não ape- ros tempos espanto
após a descoberta a exugli?
nas no Sul, mas também no centro, de maneira que a área da América, admiração, 8 quase estâpor oviièdocäa Êivas umas.
a flora Ditsde ossuscitara
americana pnineb
por grande que seja, não pode se comparar com a dos outros continentes É-il
11€. , tons pré-românticos 19 O padre Acosta Fscmvera 8 florestadnrgelp cçm
(sicl) e a população é ali escassíssima: iguala, no máximo, a de um único
_ ei!! s_'
.uãlät das Índias nã Ó -á _Pf¢¢1§fl1'a que, no ambiente urnido
'.?*f§i , o s as rvores selvagens sao muito mais numerosas e variadas
Estado europeu, como a França ou a Alemanha." Não se chega E C081Íflf ._` Êl
QUC 110 Mlmdfl AHÍÍBO, como até as raizes e tubérculos são mais viçosos que
quão “imperfeita" há de ser a parte meridional do hemisfério ocidental. Í? na Europa, onde, contudo, vêem-se mais árvores frutíferas e pastagens 2°
Schlegel não o diz, mas haveria de ser a lacuna mais íntima do universo. . L
_..t,_, _ A Surpresa se renovará de geração em geração. E um contemporâneo de Schle-
Portanto, toda a América é um continente imperfeito, mais simples e _.: .
_¿, gel, o naturalista William John Burchell, alguns anos mais tm-de 1-elatava
rudimentar na forma que o Mundo Antigo. Talvez isto a assemelhasse uni ., ›
«az a Darwin que nada o impressionara tanto no Brasil (onde estivera entre 1825
pouquinho à Europa quando esta era separada da Ásia por uma “fossa ._'::
“_ Iii), ' . e 1829) quanto a niagnificência da vegetação, em contraste com a da África
que se estendia do mar Branco ao Cáspio, ao passo que se ligava à África L' zig - do Sul (visitada em 1810-5), e simultaneamente a ausência de grandes qua.
por um istmo em Gibraltar (_Sclilegel não hesita em fatiar e costurar conti- -.›~'*~l.
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drúpedes - 2' o que levava Darwin a qualificar de preconceito antiquado
nentes e hemisférios). De qualquer maneira, a América continua habitada ui
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342 O NOVO MUNDO

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1' ESVAZIAMENFQ E A TUALIDADE DA DISPUTA
~ a id ' de que ' 1 animais grandes requerem uma vegetação luxuriaiite”.22 Na
i eia 343
111801103
Á antitese
' entre fauna mais
` robusta no Velho Mundo e flora mais vi- Deus_vos abençoe, ó p,_-¡5_‹,‹a,0_, magnfflcosj
çosa no Novo havia ortanto o germe de uma verdade profunda e fecunda I A
M distante _ costa do guqnz; _ _
_ .p .
da E€0gi'afia zoológica. - dfspeito de meu conterrâneo, Hegel,
1"'Odllll-S' O mais
` genuíno esterco!2 6:
Schdeouíoílëlãlíufíítiàlamente
ca? os ff l ' .
à tesehegeliana . . da Améri-
da impotência
ZOÓLoG0s E ANTROPÓLOGOS; comexto e alguns mdf; ores des sua linea nao elucidam a dúvida.” Mas o
0 Gl/ANO E os SEL VA GENS terpretaçãa os ace S5 fl°S
' permitem
' -
que mantenhamos nossa in-
Ainda havia em Schlegel uma pretensão sistemática que justifica alguns samsAsšo¡::â):|Í{iflÍâSC2Ê
é l' -
6 rtlalcheirosa .
dos passarinhos .
ao filósofo - “os pás-
momentos de atenção. Mas certamente não vale a pena colecionar todas as aquela ue 5° <fS_ . diz um verso antenor da mesma poesia - repete
repetições, acidentais ou mecânicas, de teses mais ou menos abertamente maltratgdo. na Cmâiposiçao imediatamente anterior, o Cometa, melindroso,
buffon-depauwnianas que_se encontram em escritores, viajantes e publicis- _ . _ pf” ff) °5 05 aSÍf0S, faz a Humboldt, “o velho dotado de ener-
tas de todas as classes, despidas de qualquer significado ou conteúdo con- í1:›;f1V:*ÍlBaÍlVa , 901: também ele ter sido pouco gentil ao escrever no Kos-
ceitual. Portanto, não perderemos tempo nem com a irrequieta Fl ora Tns ` - q ° um °°'f*°_ta ° mas Ífimle Que a espuma e preenche o máximo de
tan, que considera duros os frangos de Arequipa (Peru) e explica aquela carne espaço com o inimmo de massa; mas esses astrônomos malvados não per-
coriácea por meio da influência do vulcão Misti;23 nem com o prudente Cat- fí<§H1 DOI ¢SiJ¢rar: nao sabem do que é capaz um cometa; se apanha-los de
taneo, que registra a ausência na América dos animais “grandes e fortes da 16110. descarregara sobre as lentes de seus telescópios uma rajada de meteo-
` l
“tos-_P°1'¡f'-la '
VCZ, Os passaros f -
do Pacifico, . ._ abençoada ` e digestao
em sohdao . ._
Ásia e da África": “O leao, o tigre, o crocodilo estão representados na Amé-
rica por espécies menos possantes, o puma, o jaguar, o aligátor. Em lugar perfma (` abenwada é VOSSH digestão/ E fluida feito um poema?'), termi-
do camelo, do cavalo, da ovelha, a América teve o lhama, a alpaca e a vi- nafflfë POI' aterrar o Oceano com imponentes montanhas de guano.
1 om a mesma irreverencia goharda, Scheffel enfrenta as disputas entre
cunha”.24 E nem ao menos com Cesare Correnti, embora seja ainda,tnais
vu e netumstas (sobre as quais ver, aqui, p. 274-5), fazendo falar
nítida a proveniência de suas idéias quando escreve sobre a América: “as
o ranito, que, enfastiado com a corrosão promovida pelas águas, torna-se
formas inferiores do organismo pareciam crescer com vigor excessivamente
°fUDtiv0, e o Basalto, que se enamora como “um Romeu geológico” pela
ousado e impedir com sua profusão inexaurível o desenvolvimento das for- jovenzinha Arenária, sacode os estratos terrestres, irrompe furioso e destrói
mas superiores", de modo que os insetos, os répteis e os símios (também tudo - inclusive sua doce Arenária.”
eles formas ínferiores?) haviam' “ocupado previamente o campo da vida”, _ oãšiuhecena Scheffel 0 posicionamento peculiar de Hegel perante a Amé-
e os europeus encontraram ar;-:nas “leões calvos e bastardos, gatos-tigres rica. mais que provável que conhecesse, porque no verão de 1845 (justa-
mirrados, camelos pigmeus' . 9
_ mente a epoca a qual seatnbui o Guano)29 seguia em Heidelberg um curso
Tampouco daremos excessiva importância a um divertido defensor da do professor Eduard Roth sobre “exposição crítica do sistema de Hegel”;
América contra Hegel, ainda que sua composição pflr€Çfl Ífldícfif (1116 21-1105- nã verao seguštnte, acompanhava um curso do hegeliano Karl Werder sobre
tura antiamericana do filósofo tomara-se proverbial e falava-se dela .C0m0 S akespeare; e porque, tendo perdido na juventude a fé religiosa, buscou
das “calúnias” de Buffon e De-Pauw' meioséculo antes. ' -J. :-2 um sucedaneo na filosofia hegeliana,” embora jamais chegando - porseu
Pouco depois de 1840 começaram a chegfll d°_Pa°1fi°9 °5 P"m°“°S car' temperamento pouquíssimo especulativo, inclinado à leveza e ao humor -
regamentos de guano peruaI10, 0 Pf0dÍ8Í0S0 feffifizallä uglgâdšuggcâcëflf a sondar-lhe~as profundidades maiores.” Entao, se pensarmos que seu mes-
suas virtudes naturais, restaurava os exaustos a à/em memo? tre, Roth, nao pertencia a escola hegeliana” esuas tendências liberalizan-
nalmente vinha do continente imperfeito e imaturo' uilnlprfll 1;cabia em 1)lena tes, antiprussianas e filo-austríacas eram a antítese das idéias politicas de He-
eficiente, mais poderoso que qualquer CQPCOUCHÊC- 08€ 1' h ff 1 _ gel, estaremos .próximos de compreendermos como *Scheffel podia ser um
to um desmentido dos pássaros do Pacifico. O J0¢QS0 P0¢Ía SC C ° › sue' homem ao mesmoitempo familiarizado com as teorias do filósofo e nada
ms omo Hegel imediatamente captava 0 humor da situação- e compunha simpático à sua pessoa. _ _
vo, cuarteto Guono (em tomo de 1845), comas palavras inverossímeis mas
sw q
pungentes do -
rústico '
cultivador de couves d B"blingen (perto de Stuttgart,
e o
(ú) Gott segii' euch, ihr treffliclien Vögel,{ An der fernen Guaníoküst' -,/Trotz meinem
Landsmann, dem Hegel/ Schafft ihr den gediegciisten Mist! _ ‹ ›
onde nasceu o filosof0)r _

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344 o Novo MUNDQ ESVAZIAMENTO E ATIJALIDADE DA DISPUTA 345

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C°mUd0, entre os riachos em que se perde a torrente da disputa após cessivos e demasiad
vergonhosa - - de atraso incurável
É vcrd0â'lagrantes e visíveis _ ou dgcadënma_
Hegel, ao menos um é lembrado por ter desembocado afinal em uma das - a e que este, referindo-se a todos os povos primitivos
maiores correntes do pensamento científico do século XIX. Zoólogos e an- Cm 861211, nada conserva de especificamente americano (ou digamos de an
UOPÕÍOSOS recolocaram o problema das espécies animais e dos indígenas tiame `
nhamflffâ-110). ' se deve esquecer que os indígenas
nao _ ' das Américas
'. Í
ti-
fzlmericarios à luz dos novos conceitos de evolução, de seleção natural e, sob si o precisamente os primeiros que a Europa conhecera e estudara en-
mfluência do historicismo dominante, e em parte mal compreendido, com quanto tais; e que, ao longo de todo o seculo' Xviii, primitivo,
` ' ` amerx`can0
freqüência confundiram o “primitivo” no sentido cronológico com o “pri- l
e selvagem tinham sido quase sinônimos.
flllflvo” lógico: conferiram o caráter de uma antigüidade extrema às espé- As teorias do século XIX representam, pois, ` a orquestração, em um pla-
z
cies mais rudirnentares e às tribos mais incultas, e, vice-versa, atribuíram no antropológico e universal, de temas e problemas “americanos” , propos-
30 Passado mais remoto usos idealmente anteriores aos de nossa civilização tos, sobretudo na esfera sociológica e politica, pelo século precedente. Mas
e formas zoológicas diversas das sobreviventes.” a este enriquecimento da sonoridade, para obedecer à. metáfora, correspon-
Esta confusão permitiu que se enxergassem nos mamíferos sul-amenl de um atenuamento e diluição da linha melódica. O progresso rumo à civili-
canos da época terciária o_s últimos exemplares de uma evolução prolonga- zação,_tema condutor do Iluminismo, converte-se e perde-se na evolução bio-
díssima, ao fim da qual achavam-se munidos de couraças forniidáveis, mile- lógica. O problema do selvagem, problema histórico e filosófico, torna-se
nares, que, entretanto, não os tinharn salvado da extinção, tendo-a talvez do homem, compreendido no sentido naturalista, enquanto espécie ou raça.
mesmo tornado mais acelerada e completa;35 c, o que é ainda mais curioso,
permitiu a um sutil “biogeógrafo”, citado mas não nomeado por Ortega
y Gasset, sustentar que a debilidade e imaturidade das espécies característi-
DAR WIN; A FA UNA SUL-AMERICANA
cas da América do Sul deve-se precisamente ao fato de serem “as primigê-
E A EVOL UÇAO DAS ESPÉCIES
I
niasi' e as mais arcaicas: “A espécie mais antiga é, como espécie e enquanto
Todavia, quando as condenações físicas e metafisicas da América calam
sobrevive, infantil em comparação com as mais novas e complexas” - 3° no terreno fecundo de uma mente crítica, original e construtiva, ainda pro-
engenhosa inversão que oferecia à vaidade do sul-americano um consolo para duziam frutos científicos. de frescor surpreendente.
a inferioridade biológica de sua fauna ao louvar-lhe a antigüidade da linha- _ .af;
_~;| Tomemos a descoberta buffoniana da inferioridade das espécies ameri-
gem: justificativa típica de hidalgo viejo. . :il canas. Quando se encontraram na América meridional restos fósseis de qua-
Quanto aos indígenas, a discussão ampliava-se naquela sobre o caráter if'
drúpedes gigantescos - de espécies bem mais numerosas do que as sobrevi-
dos povos primitivos, especialmente sobre a ql-1¢SÍã° de Sefem d¢3°n°f_*“_i°5' ventes - mas claramente aparentados com os animais pequenos e escassos
como sustentavam tantos autores, teologizanteS ou Ilã0,37 0U_dC Pflfilclpa- 1 existentes no mesmo continente, Charles Darwin, talvez ainda sob influên-
rem do movimento ascendente e progressivo de toda a humamdade. Os aii- v cia de sua leitura entusiástica de Humboldt” e de um entusiasmo humbold-
tropólogos da época vitoriana (Lubbock, Tylor, Pitt-Rivers) consuinnaninag \ tiario pela. natureza exuberante dos.trópicos,43 submetia (1833-4) as teses de
poucas páginas de seus tratados para refutar a Suspeita de d¢g°“°faça°› Buffon a uma aguda revisão: “Ele poderia ter dito' ' , anotava em seu diário
e inclusive o meditativo Droysen, diante do material acumulado POI Íflemlfl de viagem, “com uma maior aproximação da verdade, que a força criativa
- >
(1343) sobre povos primitivos, recolocava-se a questao de devfit 0 §0 l/agem ft na América perdera seu poder, em vez de afirmar que ela jamais possuíra
ser considerado imaturo ou degenerado.” Na AII161'1¢fl› 0 °V°1“°¡°â“5t:Oh:;; ti
.. .v um grande vigor”.“ Incontáveis mastodontes, megatérios, elefantes povoa-
1
gan opunha-se abertamente à teona dos .selvagens coino dcgenera os. t ram as imensas`‹-:xtensões da América antediluviana: suas ossadas “contam
'-'Í-".Â.'
a tese da “decadência” voltou a assunur uma funçao bastante; 1inp0rt€H_1 E ' uma história de tempos passados quase que de viva voz” .^5 Como se deduz
d Ellí t S ' th, segundo 0 GU al a civilização teria nascido no Egito if,
` _?-- ›
das cartas e dos diários de sua viagem, a curiosidade de Darwin era constanf
eno
sesistema C perdido
"diluído", O 'ml ou degenerfld 0 à medida que se distanciava do 111831 ‹'_';_!n, ›
`..
temente atraída na América meridional pelos restos de grandes' animais
' 'Ê':.'¡ fósseis.“-- _
' também se es força_ vam para conciliar com Ei" . 5 -
de Ófigemƒl
Evidentemente tais' teorias. _ __ Porém, como desapareceram tantas espécies e até gêneros inteiros?
ft.-".
d` Pr esso Unive
' rsal os desvios ou interrupçoes dema- ._4.. 1 `- .`
`
o dogma donnnante 0 Oãf mlado como uniforme; e _
reflenam, ^ _'z,`›`Í,§-^.'Í‹§.'
Pensa-se primeiro em uma catástrofe. Mas que catástrofe horrenda! . teria
_ '- 1 de pôr todo o mundo de pernas para o ar. E a geologia não permite que
iado evidentes d aquele movimento
, pos
_ , _ 4
Ê;, ,_-51
S
portanto, o mal-estar ' alismo evohndo diante dos exemplos ex- A
* de um racion _,_.
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i A .¡ A A Í dz ø z . . LÁ'i ti -¡¡¡e¡-~»v
1  i' ` i ¬¡¡,.¡¡¡¡¡