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ISSN Impresso 1414-8595

ISSN Eletrônico 2179-0655

Revista Pesquisa Naval


NÚMERO 29 – 2017

Número 29 – 2017

DIRETORIA-GERAL DE DESENVOLVIMENTO NUCLEAR


E TECNOLÓGICO DA MARINHA (DGDNTM)
Número 29 – 2017
A Revista Pesquisa Naval tem como missão proporcionar à comunidade científica um canal formal de comunicação
e de disseminação da produção técnico-científica nacional, por meio da publicação de artigos originais que sejam
resultados de pesquisas científicas e que contribuam para o avanço do conhecimento nas áreas de interesse da MB.
Os artigos aqui publicados não refletem a posição ou a doutrina da Marinha e são da responsabilidade dos seus autores.

PATROCÍNIO CONSELHO EDITORIAL


Diretoria-Geral de Desenvolvimento Nuclear e Tecnológico da CMG Antônio Capistrano de Freitas Filho
Marinha – DGDNTM CMG José Fernando De Negri
CMG (RM1) Carlos Alberto de Abreu Madeira
CF Benjamin Dante Rodrigues Duarte Lima
EDITOR-CHEFE
CC (EN) Elaine Rodino da Silva
Almirante de Esquadra Bento Costa Lima Leite de Albuquerque Junior 2º SG-OR Rogério Augusto dos Santos
Diretor-Geral de Desenvolvimento Nuclear e Tecnológico da Marinha 3º SG-ET Renato Ellyson Oliveira Cavalcante

EDITORES ADJUNTOS EDIÇÃO


V Alte (EN) Sydney dos Santos Neves Diretoria-Geral de Desenvolvimento Nuclear e Tecnológico da
Diretor do Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo - CTMSP Marinha – DGDNTM
C Alte Alfredo Martins Muradas www.marinha.mil.br/dgdntm/revista
Diretor do Centro Tecnológico da Marinha no Rio de Janeiro – CTMRJ
C Alte (RM1-EN) Humberto Moraes Ruivo PRODUÇÃO EDITORIAL
Diretor da Agência Naval de Segurança Nuclear e Qualidade – AgNSNQ Zeppelini Publishers / Instituto Filantropia
www.zeppelini.com.br

COMISSÃO EDITORIAL
Ademir Oliveira da Silva – UFRN – Natal/RN/Brasil João Carlos Damasceno Lima – UFSM – Santa Maria/RS/Brasil
Adolfo Gustavo Serra Seca Neto – UTFPR – Curitiba/PR/Brasil José Benedito Marcomini – USP – São Paulo/SP/Brasil
Alexandre Nicolaos Simos – USP – São Paulo/SP/Brasil José Manoel de Seixas – UFRJ – Rio de Janeiro/RJ/Brasil
Alexandre Queiroz Bracarense – UFMG – Belo Horizonte/MG/Brasil Leandro Carlos de Souza – UFERSA – Mossoró/RN/Brasil
André Gustavo Adami – UCS – Caxias do Sul/RS/Brasil Letivan Gonçalves de Mendonça Filho – IME – Rio de Janeiro/RJ/Brasil
André Oliveira Paggiaro – FMUSP– São Paulo/SP/Brasil Linilson Rodrigues Padovese – USP – São Paulo/SP/Brasil
Bartira Ercilia Pinheiro da Costa – PUC-RS – Porto Alegre/RS/Brasil Luiz Eduardo Moreira Carvalho de Oliveira – UNICAMP – Campinas/SP/Brasil
Bruna Lavinas Sayed Picciani – UFF – Rio de Janeiro/RJ/Brasil Marcelo de Almeida Santos Neves – UFRJ – Rio de Janeiro/RJ/Brasil
Carlos Alberto Mendes Moraes – UNISINOS – Porto Alegre/RS/Brasil Marco Antônio Roxo da Silva – UFF – Rio de Janeiro/RJ/Brasil
Carlos Dias Maciel – USP – São Paulo/SP/Brasil Miguel Afonso Sellitto – UNISINOS – Porto Alegre/RS/Brasil
Daniel Pacheco Lacerda – UNISINOS – Porto Alegre/RS/Brasil Natanael Nunes de Moura – UFRJ – Rio de Janeiro/RJ/Brasil
Daniela Ota Hisayasu Suzuki – UFSC – Florianópolis /SC/Brasil Rodrigo da Rosa Righi – UNISINOS – Porto Alegre/RS/Brasil
Eduardo Rodrigues Vale – UFF – Rio de Janeiro/RJ/Brasil Ronaldo Pinheiro da Rocha Paranhos – UENF – Campos dos Goitacazes/RJ/Brasil
Edson Noriyuki Ito – UFRN – Natal/RN/Brasil Sidnei Moura e Silva – UCS – Caxias do Sul/RS/Brasil
Fernando Cesar Coelli – CEFET – Rio de Janeiro/RJ/Brasil Simone de Lima Martins – UFF – Rio de Janeiro/RJ/Brasil
Fernando de Carvalho da Silva – UFF – Rio de Janeiro/RJ/Brasil Thomas Gabriel Rosauro Clarke – LAMEF/UFRGS – Porto Alegre/RS/Brasil
Gilson Brito Alves Lima – UFF – Rio de Janeiro/RJ/Brasil Vivian Resende – UFMG – Belo Horizonte/MG/Brasil
Gladson Silva Fontes – IME – Rio de Janeiro/RJ/Brasil Waldek Wladimir Bose Filho – USP – São Paulo/SP/Brasil

a revista pesquisa naval é patrocinada por

Revista Pesquisa Naval / Diretoria-Geral de Desenvolvimento Nuclear e Tecnológico da Marinha


v. 1, n. 1, 1988 – Brasília – DF – Brasil – Marinha do Brasil

Anual
Título abreviado: Pesq. Nav.
ISSN Impresso 1414-8595 /
ISSN Eletrônico 2179-0655

1. Marinha – Periódico – Pesquisa Cientifica. Diretoria-Geral de Desenvolvimento Nuclear e Tecnológico da Marinha.

CDU 001.891.623/.9
CDD 623.807.2
SUMÁRIO | Número 29 – 2017

1 APRESENTAÇÃO
Bento Costa Lima Leite de Albuquerque Junior

AMBIENTE OPERACIONAL
2 INFLUÊNCIA DA FALHA HUMANA NO SISTEMA DE DEFESA NBQR PARA
CENÁRIOS ACIDENTAIS NO CR-EBN
The Influence of human error on the cbrn defense system for accident scenarios in
the cr-ebn
Leonardo Amorim do Amaral

ARQUITETURA NAVAL E PLATAFORMAs


10 DESENVOLVIMENTO E ENSAIOS INICIAIS DO MODELO LIVRE DE
SUBMARINO ML01 DA MARINHA DO BRASIL
Development and initial tests of the Brazilian navy submarine free model ML01
Hélio Correa da Silva Junior, Walfrido Nivaldo Barnack Neto, Leandro Pansanato,
Ricardo Sbragio, Leonardo Pinheiro da Silva, Fernando Moya Orsatti

Desempenho Humano e Saúde


20 A ENGENHARIA CLÍNICA COMO AGENTE DE MELHORIA DA QUALIDADE
DO ATENDIMENTO MÉDICO
Clinical engineering as an agent for improving the quality of medical care
Glauco Barbosa da Silva, Nival Nunes de Almeida

30 Alta pressão hidrostática aplicada no processo de


esterilização de curativo biológico constituído por
membrana amniótica humana
High hydrostatic pressure applied in the process of sterilizing biologic dressings
made of human amniotic membranes
Shana Priscila Coutinho Barroso, Rachel Antonioli Santos, Jerson Lima da Silva,
Marcelo Leal Gregório

40 ANÁLISE SIMULTÂNEA DE TETRAHIDROCANABINOL E CARBOXI-


TETRAHIDROCANABINOL EM AMOSTRAS DE URINA
A simultaneous analysis of tetrahydrocannabinol and carboxy-tetrahydrocannabinol
in urine samples
Carla Sales Maia, Daniel Filisberto Schulz, Cláudio Cerqueira Lopes, Rosângela Sabbatini
Capella Lopes, André Luiz Mazzei Albert

Materiais Especiais
49 DESENVOLVIMENTO DE Grão propelente BASE BLEED NACIONAL
PARA APLICAÇÃO EM MUNIÇÃO DE ALCANCE ESTENDIDO
Development of national base bleed propellant grain applied for extended
range ammunition
Maurício Ferrapontoff Lemos, Priscila Simões Teixeira Amaral Paula, Arnaldo Miceli,
Laurílio José da Silva Júnior, Edson da Silva Souza
Processos Decisórios
59 SOLUÇÃO DO PROBLEMA DE ALOCAÇÃO DE ARMAS DE DEFESA
AÉREA EM MULTICAMADAS COM O MÉTODO MONTE CARLO SCANNING
Solution of the multi-layer air defense weapon allocation problem with the
Monte Carlo Scanning method
Alexandre David Caldeira, Wilson José Vieira

67 UM MODELO DE PROGRAMAÇÃO EVOLUCIONÁRIA PARA


PROGRAMAÇÃO DE ATIVIDADES EM OFICINAS DE MANUTENÇÃO
Evolutionary programming model for activity planning in maintenance
workshops
Manoel Carlos Pego Saisse, Sergio Medeiros da Nobrega, Rafael Novaes Lago,
Lianderson Giorges Leite Rodrigues, Leonardo Amorim do Amaral

SENSORES, GUERRA ELETRÔNICA E GUERRA ACÚSTICA


76 PRIMEIRA VERSÃO DE UM MODEM ACÚSTICO SUBMARINO
DEFINIDO POR SOFTWARE DA MARINHA DO BRASIL
The first version of an underwater acoustic software-defined modem for the
Brazilian navy
Alexandre Geddes Lemos Guarino, Fábio Contrera Xavier, Luis Felipe Pereira dos Santos Silva,
Jefferson Osowsky

86 RESOLUÇÃO DA AMBIGUIDADE BORESTE-BOMBORDO EM


ARRANJO DE HIDROFONES REBOCADO
Resolution of port-starboard ambiguity in a towed array of hydrophones
Stilson Veras Cardoso
APREsENTAÇÃO

APREsENTAÇÃO

A promoção da autonomia produtiva e tecnológica do pesquisadores e cientistas aplicadas ao ambiente naval.


Brasil na área de defesa está claramente expressa na Política Os artigos oferecem soluções e técnicas nos segmentos de
Nacional de Defesa e implica na concentração de esforços para processos decisórios, sensores, guerras eletrônica e acústica,
o estímulo da pesquisa e do desenvolvimento de tecnologias, desempenho humano, materiais especiais, ambiente opera-
por meio da qualificação do capital humano e do aprimora- cional, arquitetura e plataformas navais.
mento das capacidades instaladas da Base Industrial de Defesa. Enquanto alcançamos importantes marcos em nossos pro-
O alinhamento e o compromisso da Marinha do Brasil com gramas estratégicos, parabenizo os autores e as suas equipes
esse e outros princípios emanados por documentos de alto pela contribuição e pelo trabalho realizado; bem como incen-
nível refletem-se na nossa Estratégia de Ciência, Tecnologia e tivo os demais pesquisadores e leitores a perseverarem em
Inovação (CT&I), a qual norteia a contínua atuação das insti- seus empreendimentos, na incansável busca pela concretiza-
tuições científicas, tecnológicas e de inovação, contando com ção de projetos que efetivamente contribuam para a obten-
o apoio e a parceria dos principais centros universitários e ção de uma Marinha compatível com a estatura do Brasil.
da indústria na promoção e implementação das ações neces-
sárias à execução de projetos de grande relevância. Assim,
o Setor de CT&I contribui para prover novas capacidades
para que a Marinha cumpra suas atribuições constitucionais,
ao mesmo tempo que multiplica o conhecimento inovador
e de aplicação dual para as demandas do estado brasileiro.
Almirante de Esquadra
Dessa forma, nesta edição da Revista “Pesquisa Naval”, Diretor-Geral de Desenvolvimento Nuclear
voltamos a destacar as novas conquistas obtidas por nossos e Tecnológico da Marinha

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AMBIENTE OPERACIONAL

INFLUÊNCIA DA FALHA HUMANA NO


SISTEMA DE DEFESA NBQR PARA
CENÁRIOS ACIDENTAIS NO CR-EBN
The Influence of human error on the cbrn defense
system for accident scenarios in the cr-ebn

Leonardo Amorim do Amaral1

Resumo: Este artigo apresenta um estudo de análise de segurança Abstract: This paper presents a risk safety analysis study of accident
de risco para cenários acidentais postulados ocorridos em opera- scenarios postulated in operations removing radioactive liquid waste
ções de remoção de rejeito líquido radioativo do Submarino de from the Brazilian Nuclear Propulsion Submarine (Submarino de
Propulsão Nuclear Brasileiro (SN-BR) em períodos de manuten- Propulsão Nuclear Brasileiro–SN-BR), over its lifetime and when in
ção no Complexo Radiológico do Estaleiro e Base Naval de Itaguaí maintenance periods at the Radiological Shipyard Complex and the
(CR-EBN) ao longo de sua vida útil, e a influência dos efeitos Naval Base of Itaguai (Complexo Radiológico do Estaleiro e Base
dos acidentes quando o Sistema de Defesa Nuclear, Biológica, Naval de Itaguaí — CR-EBN). Furthermore, it presents the effects
Química e Radiológica (SisDefNBQR), do Batalhão de Defesa of these accidents when the CBRN Defense System of the Itaguaí
NBQR-Itaguaí, for acionado e cometer erros de procedimentos CBRN Defense Battalion operates and makes mistakes in the pro-
para controlar e mitigar as consequências desses eventos. cedures to control and mitigate the effects.
Palavras-chave: Análise de Segurança. Falha Humana. Defesa Keywords: Safety analysis. Human error. Chemical, Biological,
Nuclear, Biológica, Química e Radiológica. Matriz de Risco. Radiological, and Nuclear Defense. Risk Matrix.

1. INTRODUÇÃO do pessoal militar envolvido, de obtenção e de manutenção


dos meios empregados nas ações Nuclear, Biológica, Química
O Sistema de Defesa Nuclear, Biológica, Química e e Radiológica (NBQR) (MEDEIROS, 2014).
Radiológica (SisDefNBQR-MB) foi implantado por meio A capacitação e a especialização do pessoal que atua no
da Portaria nº 83, de 2011, do Chefe do Estado-Maior da referido sistema, as condições de operacionalidade e os aspec-
Armada, com o propósito de combater emergências de natureza tos ligados à Ciência e à Tecnologia são alguns dos requisi-
nuclear, biológica, química e radiológica, seja no contexto das tos básicos que influenciarão diretamente na resposta a um
operações navais ou nas ações de Garantia da Lei e da Ordem cenário acidental em que haja possibilidade de vazamento de
(GLO), além de poder atuar em casos de acidentes em dis- material radioativo para o meio ambiente, causando danos
tintas instalações nucleares (BRASIL, 2011). Na Marinha do às pessoas, às instalações, ao material e ao meio ambiente.
Brasil (MB), coube ao Corpo de Fuzileiros Navais (CFN) a Para atender a essa demanda, o Sistema de Defesa NBQR
tarefa de acompanhar o funcionamento do SisDefNBQR-MB, da Marinha do Brasil (SisDefNBQR-MB) foi dividido em
supervisionar as atividades de recrutamento e preparo técnico quatro níveis de atuação, dentre os quais cabe citar o nível

1. Capitão de Fragata (FN); Chefe do Departamento de Ciência, Tecnologia e Inovação do Centro Tecnológico do Corpo de Fuzileiros Navais; Mestre em Engenharia
Nuclear pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – Rio de Janeiro, RJ – Brasil. E-mail: leonardo.amaral@marinha.mil.br

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Leonardo Amorim do Amaral

em que são estudadas as questões relacionadas às instalações Em virtude desse fato, o presente trabalho se propôs a rea-
sensíveis da MB do Programa Nuclear da Marinha (PNM). lizar uma análise de segurança qualitativa de risco, a fim de
Para tal, foi criado o Batalhão de Defesa NBQR-ARAMAR, verificar a influência da falha humana nas ações ou nos proce-
que apoia o Centro Experimental de Aramar, e está prevista a dimentos gerais do pessoal envolvido no SisDefNBQR-MB
ativação do Batalhão de Defesa NBQR-ITAGUAÍ, assim que na mitigação e no controle de cenários acidentais ocorridos
suas instalações estiverem construídas, que prestará apoio ao e que haja vazamento de material radioativo no CR-EBN
Complexo Radiológico do Estaleiro e Base Naval de Itaguaí quando realizando apoio ao SN-BR .
(CR-EBN) (BRASIL, 2011).
O CR-EBN pode ser considerado um multíplice sis-
tema de apoio em terra para os submarinos convencionais 3. METODOLOGIA
e de propulsão nuclear (SN-BR) a fim de apoiar, quando
necessário, o SN-BR quando estiver atracado ou docado no Foi usada a técnica Análise Preliminar de Perigos (APP),
referido complexo naval, realizando as atividades de rotina em virtude de seu escopo abranger todos os eventos peri-
ou não, e, por também possuir um complexo radiológico, que gosos cujas causas tenham origem nas instalações analisa-
terá por objetivo tratar e armazenar materiais radiológicos. das, englobando tanto as falhas intrínsecas de componentes
O CR-EBN pode ser considerado uma instalação passível de ou sistemas quanto os eventuais erros humanos (ALVES et
ocorrências de cenários de acidentes nucleares e radiológicos al., 2013). A APP pode ser utilizada em instalações na fase
(AMARAL, 2016). Portanto, o SisDefNBQR-MB é de fun- inicial de desenvolvimento (o que justifica sua aplicação, já
damental relevância e primordial para atuar em casos de ocor- que o CR-EBN se encontra nessa fase), nas etapas de pro-
rência de algum desses cenários a fim de mitigar seus efeitos. jeto ou mesmo em unidades já em operação. Sua realização
Em casos conhecidos de acidentes nucleares, como Three é feita a partir do preenchimento de uma planilha para cada
Mile Island, nos Estados Unidos, em 1979, e Chernobyl, na módulo de análise da instalação. Um exemplo de planilha é
antiga União Soviética, em 1986, o fator humano destacou- mostrado no Quadro 1.
se como o maior contribuidor para as falhas que levaram à Para o preenchimento da planilha, determinam-se as fre-
ocorrência dos eventos que tiveram sérias proporções (U. S. quências dos cenários acidentais e estimam-se as severida-
NUCLEAR REGULATORY COMMISSION, 2000). des para cada um deles. O Quadro 2 apresenta a classificação
Portanto, eventos oriundos de falha humana têm sido incor- adotada dos cenários identificados de acordo com a categoria
porados às Análises Probabilísticas de Segurança e às Análises de sua frequência de ocorrência (MRS, 2005).
de Confiabilidade Humana. Em decorrência desses fatores, O Quadro 3 apresenta a classificação adotada dos cenários
surgiram várias técnicas para se calcular a probabilidade de identificados de acordo com a categoria de severidade (MRS,
erro humano, como THERP, OATS, TESEO, CONFUSION 2005). A classificação das categorias de severidade para cada
MATRIX, SLIM e SHARP (REASON, 2000). cenário acidental postulado foi arbitrada pela estimativa de
quantidade de material radioativo vazado, seguindo o crité-
rio mostrado no Quadro 4.
2. OBJETIVOS Com as informações das planilhas é possível qualifi-
car, utilizando uma matriz de risco, os riscos para cada um
A análise de segurança das instalações de apoio em terra dos cenários de acidentes postulados, conforme mostrado
para o SN-BR seria um estudo complementar à análise de na Figura 1, na qual a classificação nas caixas coloridas
segurança do próprio submarino (GUIMARÃES, 1999). refere-se às categorias de risco utilizadas (MRS ESTUDOS
Essas instalações foram denominadas CR-EBN. Portanto, AMBIENTAIS, 2005).
a postulação e a classificação de cenários de operação para o Para efeitos deste trabalho, consideraram-se cenários aci-
conjunto formado pelo SN-BR e pelas instalações de apoio dentais ocorridos durante a operação de remoção de rejeitos
em terra poderão auxiliar a compreensão do problema da líquidos do tanque de drenos do circuito primário do reator
segurança nuclear nesses locais. e do tanque de alívio do pressurizador do SN-BR.

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O cálculo da frequência de um cenário acidental (fc) envol- de rejeito líquido radioativo do SN-BR ao longo de sua vida
veu o emprego da frequência de algum evento (fop) que não seja útil) e as probabilidades associadas a ela (pf ), as quais se refe-
uma falha (por exemplo, a frequência anual de transferência rem à ocorrência de defeitos ou de eventos que podem levar

Quadro 1. Planilha de Análise Preliminar de Perigos a ser usada no estudo.


Análise Preliminar de Perigos
Sistema: Módulo: Data: Pág.:
Modo(s) de Categoria de Categoria de Categoria Nº do
Perigo Causa(s) Efeito(s) Recomendações
detecção frequência severidade de risco cenário

Quadro 2. Classificação das categorias de frequência para a Análise Preliminar de Perigos.


Classificação Detalhamento Frequência (a-1) Descrição
Espera-se que ocorra ao menos uma vez
A Ocasional f > 10-2
durante a vida útil da instalação.
Espera-se que ocorra até uma vez
B Provável 10-4 ≤ f ≤ 10-2
durante a vida útil da instalação.
Pouco provável que ocorra durante a
C Pouco provável 10-5 ≤ f ≤ 10-4
vida útil da instalação.
Extremamente improvável de ocorrer
D Praticamente improvável 10-7 ≤ f ≤ 10-5
durante a vida útil da instalação.
Não deve ocorrer durante
E Improvável f < 10-7
a vida útil da instalação.
Fonte: MRS Estudos Ambientais (2005).

Quadro 3. Classificação das categorias de severidade para a Análise Preliminar de Perigos.


Classificação Detalhamento Descrição
Danos irreparáveis aos equipamentos, à propriedade e/ou ao meio
ambiente, levando à parada desordenada da unidade e/ou sistema
I Catastrófica (reparação lenta ou impossível).
Provoca mortes ou lesões graves em várias pessoas
(em funcionários e/ou em pessoas extramuros).
Danos severos aos equipamentos, à propriedade e/ou meio ambiente,
levando à parada ordenada da unidade e/ou sistema.
Lesões de gravidade moderada em funcionários, terceiros e/ou pessoas
II Crítica
extramuros (probabilidade remota de morte de funcionários e/ou terceiros).
Exige ações corretivas imediatas para evitar
seu desdobramento em catástrofe.
Danos leves aos equipamentos, à propriedade e/ou ao meio ambiente
III Marginal/moderada (os danos são controláveis e/ou de baixo custo de reparo).
Lesões leves em funcionários, terceiros e/ou em pessoas extramuros.
Sem danos ou danos insignificantes aos equipamentos, à propriedade
e/ou ao meio ambiente.
Não ocorrem lesões/mortes de funcionários, de terceiros (não
IV Baixa ou insignificante
funcionários) e/ou de pessoas extramuros (indústrias e comunidade);
o máximo que pode ocorrer são casos de primeiros socorros ou
tratamento médico menor.
Fonte: MRS Estudos Ambientais (2005).

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a falhas (por exemplo, falha de equipamentos e erros de pro- empregada em Análise Preliminar de Segurança (APS) em
cedimento em determinada operação), sendo expressa por usinas de energia nuclear (BELLO; COLOMBARI, 1980),
meio da equação 1 (ALVES et al., 2013): além das limitações de informações sobre as instalações e
as atividades a serem realizadas nas futuras instalações do
fc = fop * pf (1) CR-EBN.
Foi então estabelecido o nível de risco, utilizando a matriz
Para o cálculo das frequências de cenários com falhas de da Figura 1, indicando a frequência e a severidade dos even-
equipamentos (vazamento de válvulas, flanges, gaxetas e jun- tos indesejáveis, conforme os Quadros 2 e 3.
tas), utilizou-se a equação 2 (LEWIS, 1996):

Pf = 1-e-(λ1+ λ2)t (2) 4. RESULTADOS

em que λ1 e λ 2 são as taxas de falha referentes aos vaza- Para os resultados obtidos e mostrados neste traba-
mentos dos equipamentos envolvidos na operação. lho, levou-se em consideração que o tempo de vida útil do
Para se calcular a probabilidade envolvendo erro humano SN-BR será de 30 anos (GUIMARÃES, 1999). Foi calcu-
(pEH) nos procedimentos gerais das ações do SisDefNBQR-MB, lado também o número de atividades de manutenção reali-
foi usada a técnica THERP, que tem sido amplamente zadas no SN-BR durante seu ciclo de vida útil. Esses dados
foram obtidos com informações retiradas e adaptadas de
uma proposta de rotina de manutenção para submarinos
Quadro 4. Classificação das categorias de severidade para
norte-americanos, desde os testes iniciais para o início das
a estimativa de quantidade de material radioativo vazado.
operações do mesmo no mar, até o fim de sua vida útil e sua
Tipos de cenários Severidade
consequente desativação. O Quadro 5 mostra a quantidade
Cenários com pequeno vazamento
Baixa de vezes calculadas em que o SN-BR passará por manuten-
(até 10%) do inventário total
ção por períodos. Os diversos períodos foram estipulados de
Cenários com grande vazamento,
sem vazamento de todo o conteúdo Moderada forma comparativa entre a proposta para submarinos nor-
(até 50% do inventário total) te-americanos e os períodos de manutenção adotados pela
Cenários com grande vazamento MB (BIRKLER et al., 1994).
com mais de 50% de vazamento do Crítica Para efeito dos cálculos das frequências para os cená-
inventário total rios acidentais postulados neste trabalho, foram con-
Cenários com grande vazamento, siderados os cenários em que o SN-BR estivesse em
Catastrófica
com vazamento de todo o inventário
período de manutenção. Portanto, assumiu-se, para tal:

SEVERIDADE
Baixa Moderada Crítica Catastrófica
Ocasional Insignificante* Moderado*  Crítico* Catastrófico*
FREQUÊNCIA

Provável        
Pouco provável   Marginal*     
Praticamente improvável        
Improvável        

Fonte: MRS Estudos Ambientais (2005).


*A classificação nas caixas coloridas refere-se às diferentes categorias de risco.

Figura 1. Matriz de risco usada para classificar cenários de acidentais.

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o Período de Manutenção de Rotina (PMR), o Período tempo estimado para a realização da operação de 2 horas
de Docagem de Rotina (PDR), sem troca de combustí- por vez. Com esses dados, calculou-se que a frequência
vel, o Período de Manutenção Geral (PMG) e o Período para a citada operação foi de f op = 33,56 × 10 -5. Essa fre-
de Docagem Final (PDF), o que resultou em 44 ocor- quência operacional será usada para todos os cenários
rências de manutenção. Foram considerados também acidentais postulados.
apenas cenários ocorridos em operações de remoção de Como exemplo, para calcular a probabilidade de falha
rejeito líquido radioativo, o que deverá acontecer em (Pf) para um cenário que contemplou falhas nos diversos
cada uma das 44 ocorrências de manutenção e com um equipamentos envolvidos na operação remoção de rejeito
líquido, usou-se a Equação (3). Considerando-se que durante
Quadro 5. Número de períodos de manutenção do SPN a operação serão utilizadas 4 válvulas, 10 flanges, 10 gaxe-
ao longo de sua vida útil. tas e 1 mangueira, a taxa de falha total será o somatório
Período de manutenção Quantidade das taxas de cada uma delas multiplicado pelas respecti-
PMR 35 vas quantidades, o que chegará ao valor de Pf = 6,63E-05.
PDR 4 Aplicando a Equação (1), calcula-se a frequência para o
PDR com troca de
cenário com pequeno vazamento por falha de equipamen-
4 tos no trecho de enchimento do Veículo de Remoção do
combustível
PMG 3 Rejeito Líquido, considerando um fator de líquido radioa-
PDF 1 tivo que forma a poça (ALVES et al., 2013), como 0,792,
PMR: Período de Manutenção de Rotina; PDR: Período
da seguinte maneira:
de Docagem de Rotina; PMG: Período de Manutenção
Geral; PDF: Período de Docagem Final. fc = 33,556E-05/ano × 6,63E-05 × 0,792 = 1,76E-08/ano (3)

I A B C Sequência/Frequência

1 fc(1 – pA)(1 – pB)(1 – pC)


2 fc(1 – pA)(1 – pB)(pC)
3 fc(1 – pA)(pB)(1 – pC)
4 fc(1 – pA)(pB)(pC)
5 fc(pA)(1 – pB)(1 – pC)
6 fc(pA)(1 – pB)(pC)
7 fc(pA)(pB)(1 – pC)
8 fc(pA)(pB)(pC)

I –Vazamento de rejeito líquido radioativo

A – Acionamento de SisDefNBQR-MB

B – Prontificação/deslocamento do pessoal envolvido

C – Reconhecimento/isolamento/montagem do posto de descontaminação

Figura 2. Árvore de Eventos de frequências de falhas de procedimentos gerais do pessoal do Sistema de Defesa
Nuclear, Biológica, Química e Radiológica.

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Leonardo Amorim do Amaral

Pelos Quadros 2, 3 e 4, pode-se observar que o refe- cumprimento, sendo pA, pB e pC as probabilidades de
rido cenário acidental possuirá frequência improvável insucesso para os respectivos eventos.
e severidade baixa, sendo classificado, quanto ao risco, Como exemplo, considerou-se que a falha humana se
como “insignificante”. deu por atraso de até 10 minutos em cada uma das etapas
As probabilidades básicas de falhas humanas (pEH) foram da árvore de eventos, sendo pA = 0,5, pB = 0,5 e pC = 0,05.
retiradas das tabelas do capítulo 20 da Norma NUREG/ Portanto, para o cenário calculado anteriormente, se aplicar-
CR-1278, da Nuclear Regulatory Commission (NRC) mos a falha humana, chega-se a uma nova frequência para o
(SWAIN; GUTTMANN, 1983). Para o cálculo das fre- referido cenário (Equação 4):
quências que envolvem essas probabilidades, foi utilizada
uma árvore de eventos, mostrada na Figura 2, na qual a fc = 1,76E-08 × 0,5 × 0,5 × 0,95 = 4,18E-09. (4)
preocupação foi direcionada apenas para os procedimen-
tos gerais das ações do SisDefNBQR-MB (Grupo de Foram postulados 26 cenários acidentais com vazamento
Reação do Batalhão de Defesa NBQR-Itaguaí) quando de rejeito líquido radioativo na APP que foram classificados
se concretizar um cenário postulado na APP, sendo eles: conforme mostrado na matriz de risco da Figura 3. Os cená-
o acionamento do sistema; a prontificação e o desloca- rios foram categorizados quanto ao risco antes e depois do
mento do Grupo de Reação; e as atividades de reconhe- acionamento do SisDefNBQR-MB. Os resultados mostra-
cimento, isolamento da área e montagem do posto local ram que não houve alteração nas categorias dos riscos, mesmo
de descontaminação de pessoal e material. Para efeito de com a sequência de erros humanos.
cálculos, partiu-se da premissa de que os procedimentos Considerando-se a pior hipótese de falha humana (sequên-
serão cumpridos, mas que poderão haver atrasos em seu cia 8 da Figura 2) do SisDefNBQR-MB, observou-se a

Severidade
Baixa Moderada Crítica Catastrófica
Ocasional 0–0 0–0 0–0 0–0
Frequência

Provável 0–0 0–0 0–0 0–0


Pouco provável 3–0 0–0 0–0 0–0
Praticamente improvável 5–0 3–3 0–0 0–0
Improvável 6–7 6 – 10 3–6 0–0

Sem erro Com erro


Categorias de risco humano humano

Insignificante 23 23

Marginal 3 3

Moderado 0 0

Crítico 0 0

Catastrófico 0 0

Figura 3. Classificação dos cenários acidentais de acordo com a matriz de riscos adotada.

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redução de frequência da ocorrência do cenário acidental, três cenários, que sem a falha humana foram classificados
haja vista que os eventos que não foram executados pelo pes- como moderada e em outros quatro que passaram de baixa
soal do SisDefNBQR em sequência contribuíram para essa para moderada.
redução, de sorte que os cenários com frequência classificados Com a influência da falha humana nos cenários aciden-
com pouco provável passou a ser praticamente improvável tais, os eventos mostrados no Quadro 6 tiveram a severidade
na APP. Porém, caso ocorra o cenário com falha humana, a reclassificada para crítica e devem ser objeto de análise pro-
severidade do acidente terá uma classificação mais alta, pois babilística de segurança posteriormente.
a severidade baixa passa a ser moderada, já que o atraso nas
ações para mitigar os efeitos dos cenários acidentais poderá
causar maior dano ao pessoal envolvido e ao material (ins- 5. CONCLUSÕES
talações e equipamentos), principalmente para os cenários
com grandes vazamentos. Esses resultados refletiram na Dos 26 cenários postulados, observou-se que a maior fre-
matriz de risco como está mostrado na Figura 3, na qual quência ocorreu para os casos nos quais houve falhas huma-
se pode observar o aumento da severidade crítica em mais nas por esquecimento de acionar/desligar equipamentos,
o que se deu em 2 cenários postulados cuja frequência foi
de 1,68 × 10-5/ano, porém com severidade baixa. Todos os
Quadro 6. Cenários acidentais postulados com severidade
crítica após a influência da falha humana.
cenários foram categorizados na matriz de risco da Figura 3,
sendo que 88,5% foram classificados como insignificantes,
Cenário com grande vazamento de rejeito líquido
e 11,5%, como marginais.
Causa Consequência Foram, então, calculadas as probabilidades de
falhas humanas nos procedimentos gerais das ações do
Formação de poça pelo
vazamento de rejeito SisDefNBQR-MB, quando acionado por meio da árvore
líquido pela mangueira de eventos da Figura 2, para o cenário acidental de maior
Queda de objeto sobre
e pelo VRRL sobre a frequência, utilizando-se a técnica THERP, e verificou-se
a mangueira, causando
superfície asfáltica do que não houve alteração das categorias na matriz de risco.
corte do tipo guilhotina
cais, podendo atingir
com a bomba de Entretanto, pode-se observar que houve aumento da seve-
a rede de drenagem
alimentação ligada. ridade nos efeitos dos cenários acidentais, o que exigirá,
do cais e expondo o
pessoal envolvido na posteriormente, quando as instalações estiverem em pleno
operação à radiação. funcionamento, a realização de uma APS para quantifi-
Queda de objeto sobre car esses efeitos para os cenários que foram reclassifica-
a mangueira, causando Formação de nuvem dos como de severidades críticas e moderadas com grande
corte do tipo guilhotina radioativa de fração do vazamento de rejeito líquido.
com a bomba de rejeito líquido vazado. Por fim, ressalta-se a importância do estado de prontidão
alimentação ligada.
e capacitação do pessoal do SisDefNBQR-MB, aliado a um
Formação de poça pelo forte exercício da liderança dos chefes do grupo de reação,
vazamento de rejeito para que os erros de procedimentos sejam minimizados ao
Rompimento ou corte
líquido pela mangueira
da mangueira por máximo, de modo a se evitar consequências indesejáveis na
sobre a superfície
fragmentos oriundos de ocorrência de um cenário acidental em que haja vazamento
asfáltica do cais,
explosão da tubulação
podendo atingir a rede de material radioativo.
de ar comprimido de
de drenagem do cais Este artigo visou realizar uma análise de segurança
alta pressão do cais com
e expondo o pessoal que certamente será objeto de estudo nas futuras dire-
a bomba ligada.
envolvido na operação
trizes de segurança das instalações de apoio em terra
à radiação.
do SN-BR.

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ARQUITETURA NAVAL E PLATAFORMAs

DESENVOLVIMENTO E ENSAIOS
INICIAIS DO MODELO LIVRE DE
SUBMARINO ML01 DA MARINHA DO BRASIL
Development and initial tests of the
Brazilian navy submarine free model ML01

Hélio Correa da Silva Junior1, Walfrido Nivaldo Barnack Neto2, Leandro Pansanato3,
Ricardo Sbragio4, Leonardo Pinheiro da Silva5, Fernando Moya Orsatti6

Resumo: Os ensaios hidrodinâmicos necessários ao levantamento Abstract: The hydrodynamic tests needed for data collection of
de dados de projeto de um submarino são feitos tanto com mode- a submarine project are done with both free and captive models.
los cativos quanto com modelos livres. Ambos os tipos de ensaios These tests complement each other to obtain the maneuvering
se complementam para a obtenção das características de mano- characteristics. For the free model, the development of the sys-
brabilidade. No caso do modelo livre, é necessário o desenvol- tems that make it autonomous is necessary so that it can fol-
vimento de sistemas que o tornem autônomo, de modo que ele low the specified trajectory. The development of this autono-
cumpra a trajetória especificada. O desenvolvimento desse veículo mous underwater vehicle is a multidisciplinary project that invol-
submarino autônomo tem uma dimensão multidisciplinar, envol- ves several fields of engineering. Besides its onboard systems, the
vendo diversas áreas de Engenharia. Além dos sistemas de bordo, free model demands the development of test methodologies, data
o modelo livre necessita do desenvolvimento de metodologia de collection, and analysis, so that the hydrodynamic coefficients of
ensaios, de aquisição e de análise de dados, de modo que os coe- the equations that describe its trajectory can be determined and
ficientes hidrodinâmicos das equações que descrevem a sua traje- extrapolated to the full-scale submarine. In this paper, the charac-
tória sejam obtidos e extrapolados com precisão para o submarino teristics and initial tests of the ML01 free model of the Brazilian
em escala real. Neste artigo, as características e os testes iniciais Navy are presented.
do modelo livre ML01 da Marinha do Brasil serão apresentados. Keywords: Free model. Hydrodynamic coefficients. Maneuvering.
Palavras-chave: Modelo livre. Coeficientes hidrodinâmicos.
Manobra.

1. Mestre em Engenharia Naval pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Gerente de projetos do Laboratório de Hidrodinâmica da Diretoria de
Desenvolvimento Nuclear da Marinha – São Paulo, SP – Brasil. E-mail: helio.correa@marinha.mil.br
2. Formando em Engenharia Mecânica pela Universidade Paulista. Técnico Mecânico do Laboratório de Hidrodinâmica da Diretoria de Desenvolvimento Nuclear da
Marinha – São Paulo, SP – Brasil. E-mail: barnack.neto@marinha.mil.br
3. Bacharel em Engenharia de Controle e Automação pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”. Gerente de Subprojetos em Atividades de Automação e
Controle do Laboratório de Hidrodinâmica da Diretoria de Desenvolvimento Nuclear da Marinha – São Paulo, SP – Brasil. E-mail: pansanato@marinha.mil.br
4. Doutor em Engenharia Naval pela Universidade de Michigan. Coordenador do Laboratório de Hidrodinâmica da Diretoria de Desenvolvimento Nuclear da Marinha –
São Paulo, SP – Brasil. E-mail: sbragio@marinha.mil.br
5. Doutor em Astrofísica e Técnicas Espaciais pela Universidade de Toulouse III. Diretor da empresa MODCO Engenharia. Consultor do Laboratório de Sistemas Inerciais
da Diretoria de Desenvolvimento Nuclear da Marinha – São Paulo, SP – Brasil. E-mail: leonardo@modco.com.br
6. Diretor da empresa MODCO Engenharia. Doutor em Engenharia Elétrica pela Escola Politécnica da USP. Consultor do Laboratório de Sistemas Inerciais da Diretoria de
Desenvolvimento Nuclear da Marinha – São Paulo, SP – Brasil. E-mail: fernando@modco.com.br

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1. INTRODUÇÃO Neste artigo, será abordado o desenvolvimento de uma


plataforma de ensaios de grande versatilidade: o modelo livre
O projeto de um submarino necessita de intensa valida- de submarino. Trata-se de um veículo submarino autônomo,
ção experimental para garantir que os requisitos de opera- destinado à obtenção de dados hidrodinâmicos. A construção
ção sejam atingidos de forma satisfatória. O desempenho da do modelo livre passou pelas fases de projeto, fabricação, mon-
embarcação é testado por meio de programas de análise e em tagem, integração de sistemas e testes de desempenho hidro-
laboratórios e sistemas físicos. Entre os laboratórios e siste- dinâmico. Sua prontificação e operação envolveram a atuação
mas usados na área de hidrodinâmica para levantamento de conjunta de equipes multidisciplinares da Marinha do Brasil.
dados de projeto, há os tanques de reboque e de manobras, o
túnel de cavitação e o modelo livre.
No tanque de reboque, os ensaios permitem obter as 2. OBJETIVOS DO MODELO LIVRE
características propulsivas da embarcação e alguns coefi-
cientes hidrodinâmicos, operando com um modelo cativo O modelo livre ML01 é composto por um núcleo comum
de embarcação em escala reduzida, ou seja, o modelo é aco- que é basicamente um casco resistente à pressão, no qual são
plado a um dinamômetro e rebocado por um carro de rebo- embarcados equipamentos eletrônicos, propulsão e sensores,
que. No tanque de manobras, os modelos podem ser cati- e por um casco hidrodinâmico construído conforme o tipo
vos ou livres e os ensaios visam à obtenção das característi- de embarcação que se queira ensaiar. Assim, o núcleo comum
cas hidrodinâmicas e do comportamento da embarcação no pode ser adaptado a diversos tipos de cascos, tanto de veícu-
mar. No túnel de cavitação, são levantadas as características los submersíveis como de navios de superfície.
operacionais de propulsores. Conforme a dimensão do túnel Os objetivos do desenvolvimento e dos ensaios do modelo
de cavitação, o modelo de propulsor pode ser ensaiado em livre são:
água aberta (sem um casco acoplado, gerando a esteira) ou 1. Na área de hidrodinâmica:
a ré de um modelo de embarcação que gera diretamente a • Obtenção dos coeficientes hidrodinâmicos das equa-
esteira incidente sobre o propulsor. Por fim, o modelo livre ções do movimento da embarcação;
opera sem nenhum acoplamento físico com outro sistema, • Execução e obtenção de dados de manobras típicas de
sendo completamente autônomo. Permite a obtenção de embarcações: navegação em linha reta, curva de giro, mano-
coeficientes hidrodinâmicos, podendo operar tanto em um bra de zigue-zague, espiral ou outras julgadas necessárias;
tanque de manobras como em lagos, em represas ou no mar, • Validação de metodologia de projeto e de análise de
tendo, portanto, uma grande versatilidade. Os coeficientes propulsores convencionais ou em duto;
hidrodinâmicos são os componentes das equações do movi- • Verificação de cavitação em propulsores.
mento de uma embarcação em seis graus de liberdade (essas 2. Na área de acústica:
equações estão descritas em Feldman, 1979) e são necessá- • Verificação de ruído irradiado por propulsores;
rios para se reconstruir a sua trajetória. A sua determinação • Verificação de ruído hidrodinâmico pelo casco;
é fundamental para prever, na fase de projeto, a capacidade • Desenvolvimento e testes de equipamentos especiais
de um submarino de manobrar com segurança. (por exemplo: modem acústico, hidrofones, pinger,
As instalações e os sistemas citados se complemen- sonares de pequeno porte, etc.).
tam com o objetivo de atingir o propósito de projetar uma 3. Na área de sistemas lógicos:
embarcação otimizada e segura. Certos coeficientes hidro- • Desenvolvimento de sistemas de controle de governo
dinâmicos podem ser obtidos com precisão em tanques de e de profundidade;
manobra ou em tanques de reboque operando com modelos • Desenvolvimento de sistemas inerciais;
cativos, enquanto coeficientes hidrodinâmicos cruzados são • Desenvolvimento de metodologias de análise de dados.
obtidos com ensaios de modelos livres, pois dependem de 4. Na área de mecânica estrutural:
movimentos em seis graus de liberdade, que não são possí- • Desenvolvimento de metodologia de projeto e de aná-
veis com modelos cativos. lise de vasos de pressão.

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5. Na área de simulação computacional: 3. CASCO RESISTENTE


• Capacitação no uso de softwares de CAD, CFD e
de FEM. O casco resistente do modelo livre é considerado um
6. Nas áreas de fabricação e montagem: núcleo comum que pode ser desmontado e adaptado para
• Usinagem de componentes complexos (lemes, diversos tipos de embarcações (Figura 2). É composto por
propulsor); cinco seções (Figura 3), fabricadas em alumínio naval 5052F.
• Capacitação em montagem e integração de sistemas O comprimento total do casco resistente é 4,60 m.
de bordo. A primeira seção, na proa da embarcação, pode ser livre-
mente alagada quando necessário. É onde estão instalados os
A versatilidade do projeto do modelo livre permite o seu tanques de trimagem e lastro da proa, que atuam na manu-
uso para outros tipos de missões, como, por exemplo, moni- tenção da flutuabilidade neutra e da trimagem do modelo
toração, desde que respeitadas suas características de resis- (em conjunto com os tanques de trimagem e lastro da popa).
tência estrutural do casco resistente. A segunda seção é a da eletrônica de controle. Nesta seção
Na sua configuração atual, o modelo livre possui 6,77 m de estão situados as baterias auxiliares, a unidade de medida iner-
comprimento e sua massa é de 1.200 kg, sem lastro fixo (Figura 1). cial (UMI) e o computador de guiagem. A UMI, o computador

Figura 1. Modelo livre ML01 em manobras na área do Figura 2. Casco resistente sendo preparado para teste
Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira de estanqueidade no tanque de reboque do Instituto de
(março de 2017). Pesquisas Tecnológicas.

6 5 4 3 2 1

1. Seção dos tanques de trimagem e lastro da proa 5. Seção do motor elétrico


2. Seção da eletrônica 6. Tanques de lastro da popa
3. Seção das baterias da propulsão 7. Linha de eixo
4. Seção do inversor de frequência

Figura 3. Seções do casco resistente, tanques de lastro e linha de eixo.

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e os seus sistemas de controle e interfaces foram desenvolvi- 5. SISTEMA DE


mentos autóctones para uso no modelo livre. TRIMAGEM E LASTRO
A terceira seção é a de baterias da propulsão. Foram usa-
das baterias do tipo chumbo-ácido recarregáveis comerciais. O sistema de trimagem e lastro (Figura 6) é composto por
A quarta seção é a do inversor de frequência que controla quatro tanques, dois na proa e dois na popa. Os tanques de trima-
a velocidade de rotação do motor por meio de comandos do gem e lastro da proa situam-se na seção 1, enquanto os tanques
computador de guiagem. de trimagem e lastro da popa situam-se fora do casco resistente
A quinta seção é a do motor elétrico. Tanto o inversor de a ré da seção 5, circundando a linha de eixo (Figura 3). O sistema
frequência como o motor elétrico são equipamentos indus- é controlado conforme informações da UMI e dos sensores de
triais comerciais. pressão. Os tanques possuem válvulas para entrada e saída de ar
Os tanques de trimagem e lastro da popa estão posicio- comprimido ou água do mar. Ampolas de ar comprimido pres-
nados a ré do casco resistente. surizam os tanques no caso de necessidade de remoção de água.
A vedação das seções é feita por anéis o’ring e a saída do
eixo emprega um selo mecânico.
6. SISTEMA DE GUIAGEM,
NAVEGAÇÃO E CONTROLE
4. CASCO HIDRODINÂMICO
O sistema de guiagem, navegação e controle é respon-
O casco hidrodinâmico é feito de fibra de vidro. O molde sável pela execução da rota que o modelo livre deve seguir,
para o casco foi usinado em madeira em torno CNC
(Figuras 4 e 5). O casco é aparafusado em suportes metá-
licos colados no casco resistente. Não possui requisito de
resistência estrutural à pressão quando submerso e, portanto,
permite livre circulação de água em seu interior. O casco
hidrodinâmico é dividido em casco da proa, casco da popa,
superestrutura e vela.

Figura 4. Molde do casco hidrodinâmico (popa) para Figura 5. Casco hidrodinâmico da popa, fabricado em
aplicação de fibra de vidro. fibra de vidro a partir do molde em madeira.

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pela estimativa da posição e da atitude, bem como pela defi- velocidades provenientes da UMI, para posterior extração
nição dos comandos a serem transmitidos para os atuadores. de dados para obtenção da trajetória.
É composto por uma UMI, pelo computador de bordo, pela Os sensores de pressão medem a pressão na região da
interface homem-máquina, por sensores de pressão hidros- proa e da popa, alimentando as estimativas da UMI com a
tática e pelos atuadores (lemes e motor). profundidade e a atitude do modelo.
A UMI possui acelerômetros e giroscópios. Os acelerô- A interface homem-máquina permite a comunicação
metros registram as acelerações do modelo e os giroscópios, entre o operador e o modelo livre, alimentando o software
as velocidades angulares. As informações são obtidas em seis de controle com dados de rotação do motor, rumo, ângulos
graus de liberdade, tornando possível se recuperar os movi- de leme e parâmetros de manobra. Permite também a recu-
mentos do modelo livre. peração e a análise dos dados após o término da manobra.
O computador de bordo embarca o programa de con- Tanto os comandos iniciais da manobra como a aquisição de
trole e atua sobre o sistema com os comandos programa- dados são feitos por meio de telemetria com um link rádio,
dos. Além disso, grava as informações sobre acelerações e quando na superfície.

Compartimento estanque

Tanque de Tanque de
trimagem e trimagem e
lastro BB lastro BE

Ar comprimido

BB: bombordo; BE: boreste.

Figura 6. Esquema do sistema de trimagem e lastro (proa ou popa).

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7. SISTEMA ELÉTRICO a profundidade da embarcação de modo que o sistema de


controle atue para trimar o modelo livre antes de iniciar
O sistema elétrico é dividido em auxiliar e da propulsão. o ensaio. Após o início do ensaio, os sensores de pressão
O sistema elétrico auxiliar alimenta a carga hotel do registram a profundidade de operação e obtêm dados
modelo livre com 48VDC. É composto por quatro baterias para acionar o sistema de segurança, de forma a trazer o
recarregáveis do tipo chumbo-ácido iguais às da propulsão. modelo livre para a superfície, se necessário;
O sistema de carga é independente. 2. GPS: o GPS está situado na vela. Sua função é registrar
O sistema elétrico da propulsão opera com baterias recar- a velocidade do modelo livre em manobras na superfície;
regáveis do tipo chumbo-ácido com autonomia suficiente para 3. Hidrofones: situam-se na popa e registram o ruído do
ensaios durante um dia de operação, em velocidades moderadas modelo livre, de forma a possibilitar a comparação das
(Figura 7). A tensão de saída do conjunto de baterias é 312VDC. modificações tanto do casco como do propulsor.
O modelo livre dispõe de duas chaves magnéticas, uma
na região da proa e outra na região da popa. Por segurança, O modelo livre possui os seguintes atuadores:
a remoção de qualquer uma das chaves magnéticas desliga 1. Motor elétrico controlado por inversor de frequência;
o sistema elétrico da propulsão do modelo livre. O sistema 2. Lemes verticais (superior e inferior);
elétrico auxiliar somente é desligado pela remoção da chave 3. Lemes horizontais de ré (bombordo e boreste);
magnética específica desse sistema. 4. Lemes horizontais na vela (bombordo e boreste).

Os lemes são acionados dois a dois (bombordo/boreste


8. SENSORES E ATUADORES ou superior/inferior) por sistema composto por servomotor,
redutora e correias de transmissão.
Os seguintes sensores estão instalados no modelo livre:
1. Sensores de pressão: há dois sensores de pressão situados
um a vante e um a ré. A função desses sensores é registrar 9. PROPULSÃO

A propulsão consiste de um motor elétrico comercial de


12.5 HP, controlado por um inversor de frequência.
A linha de eixo possui um acoplamento flexível logo
após o motor e selo mecânico na saída do casco resistente.
É apoiada por três mancais na região do casco hidrodinâ-
mico (Figura 8).
O propulsor foi projetado pela teoria da linha de susten-
tação e pela teoria da superfície de sustentação, ambas ope-
rando de forma interativa e integrada, de modo a se obter
uma configuração de propulsor que proporcione o empuxo
desejado e uma eficiência otimizada.
Na teoria da linha de sustentação (LERBS, 1952), a pá
do propulsor é modelada por uma linha de vórtices com
uma distribuição de circulação adequada que gera a força de
sustentação. Na esteira, os vórtices emitidos são modelados
como vórtices helicoidais igualmente espaçados, com ângulo
de passo constante. Esses vórtices da esteira geram veloci-
dades induzidas na pá, que são consideradas no cálculo do
Figura 7. Seção de baterias da propulsão. ângulo de passo da pá. Obtêm-se, assim, os ângulos de passo,

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velocidades e distribuição de circulação na pá que são usados CFD, é de 0.626. O material do propulsor é bronze naval.
como dados de entrada na teoria de superfície de sustentação. A distribuição de circulação usada foi a distribuição ótima,
Na teoria da superfície de sustentação (KERWIN, conforme definido por Lerbs (1952). O propulsor foi pro-
1973), a geometria da pá é discretizada radialmente e angu- jetado com distribuição quadrática de ângulo de skew e 20º
larmente em uma malha em que são distribuídos vórtices de skew na ponta da pá.
que geram a sustentação e fontes que simulam a espessura
da pá. As fontes, os vórtices da pá e os vórtices helicoidais
emitidos na esteira do propulsor geram as velocidades indu- 10. ENSAIOS INICIAIS
zidas na pá que são compostas vetorialmente com as velo-
cidades de rotação e de avanço para a obtenção do ângulo Para avaliar o modelo livre no mar, foram realizados,
de passo. A força de sustentação, que gera o empuxo e o no Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira
torque, é obtida pela integração das pressões na superfície (IEAPM), em Arraial do Cabo, testes de navegação em linha
da pá. Obtém-se, assim, a geometria final do propulsor que reta, de curva de giro e de imersão e emersão com lemes a
produz o empuxo necessário à embarcação. partir da superfície.
Diferentemente de propulsores projetados por séries sis- Os coeficientes adimensionais que governam a dinâmica
temáticas que são obtidas em ensaios de água aberta usando do escoamento nos ensaios do modelo livre submerso são os
uma esteira axial média, o propulsor projetado por essa meto- números de Reynolds, de Froude e de Strouhal. Além des-
dologia leva em consideração a distribuição radial de esteira ses, deve ser analisada a dependência da relação profundidade
axial gerada pelo casco. Essa esteira foi obtida por intermédio pelo diâmetro H/D.
da modelagem do casco completo do modelo livre em pro- O número de Reynolds relaciona forças de inércia
grama de dinâmica de fluidos computacional (CFD) Ansys com forças viscosas, não sendo possível a sua igualdade
Fluent. A malha utilizada teve 21.36 milhões de elementos. entre o modelo e a escala real. Governa os efeitos liga-
O modelo de turbulência usado foi o k – ω SST. Assim, o dos à viscosidade, como atrito e turbulência. O número
propulsor é projetado para operar a ré de um casco especí- de Reynolds está apresentado na Equação 1, em que U é
fico e é adaptado à esteira gerada por esse casco, melhorando a velocidade da embarcação, L é o comprimento e v é a
seu desempenho. viscosidade cinemática.
A rotação máxima do propulsor é de 1.250 rpm, deman-
dando aproximadamente 11 BHP e fornecendo um empuxo UL (1)
Re =
v
da ordem de 118 kgf, suficiente para atingir a velocidade de
12 nós. A eficiência estimada no projeto, com o propulsor O número de Froude relaciona forças de inércia com forças
operando a ré do casco na esteira obtida por simulação em gravitacionais. Assim, governa os efeitos de formação de ondas

6 5 4 3 2

1. Motor elétrico 3. Seio mecânico 5. Mancal


2. Acoplamento flexível 4. Mancal 6. Mancal

Figura 8. Motor e linha de eixo.

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e de restauração hidrostática. Mesmo com o modelo livre em Para ensaios submersos de verificação da potência pro-
profundidades em que não ocorra formação de ondas pró- pulsora em linha reta, não há necessidade de se igualar o
prias, é necessário que se iguale o número de Froude quando número de Froude. Esse adimensional compara as for-
forem analisados os efeitos de restauração, como nos ensaios ças de inércia com as forças gravitacionais, relacionadas
de curva de giro e de levantamento de coeficientes hidrodinâ- à formação de ondas. Deve-se garantir, entretanto, que
micos. O número de Froude está apresentado na Equação 2, não haja a formação de ondas nos ensaios. Assim, a rela-
em que U é a velocidade da embarcação, g é a aceleração da ção entre profundidade do ensaio e o diâmetro de casco
gravidade e L é o comprimento. deve ser tal que evite a formação de ondas para um dado
número de Froude.
Fr = U (2) Simulações em CFD mostraram que, para a relação
gL
profundidade de ensaio por diâmetro do modelo livre
O número de Strouhal relaciona forças variáveis com as superior a 4.8, não ocorre formação de ondas na faixa de
forças de inércia. Durante manobras, as velocidades angulares velocidades entre 1.5 e 3 m/s, típica dos ensaios. Para velo-
em balanço, caturro e guinada (p, q ou r) não são constantes, cidades maiores, o modelo livre deverá operar em profun-
apresentando variações no tempo t (SHEN; HESS, 2010). didades maiores.
Ocorrem, portanto, forças e momentos variáveis oriundos Em ensaios em linha reta, as velocidades angulares devem
dos movimentos oscilatórios do modelo. Esses esforços são ser nulas ou reduzidas, de forma que não é necessária a igual-
caracterizados pelo número de Strouhal, que está apresentado dade do número de Strouhal.
na Equação 3, em que ω(t) é uma velocidade de rotação em Com base nos resultados dos ensaios em linha reta,
um dos três eixos coordenados, L é o comprimento e U é a obtém-se a potência do modelo livre em função da veloci-
velocidade da embarcação. dade. Os dados obtidos permitem obter ou confirmar parâ-
metros de projeto como o fator de forma do casco (utilizado
St = ω(t)L , ω = p, q ou r (3) para o cálculo da resistência de atrito da embarcação) ou o
U
coeficiente de redução da força propulsora (que considera os
A relação profundidade pelo diâmetro determina a efeitos de operação do propulsor no aumento da resistência
velocidade máxima do ensaio em que não ocorre forma- ao avanço da embarcação), além de validar o método de pro-
ção de ondas, sendo bastante relacionada com o número jeto do propulsor.
de Froude.
10.2. ENSAIOS DE MANOBRABILIDADE
10.1. ENSAIOS EM LINHA RETA Os ensaios de manobrabilidade visam determinar carac-
Os testes de navegação em linha reta visam determinar a terísticas de estabilidade direcional, diâmetro tático e coe-
potência propulsora em função da velocidade. Para que haja ficientes hidrodinâmicos para a equação de movimento.
similaridade com a embarcação em escala real, é necessário Tal qual no ensaio em linha reta, é necessário que se tenha o
que o escoamento seja turbulento. O adimensional corres- número de Reynolds mínimo de 10 milhões, com a corres-
pondente é o número de Reynolds, relacionado à turbulência pondente velocidade.
do escoamento, sendo impossível manter a igualdade com o Nesse tipo de ensaio, o número de Froude deve ser
da escala real. A diferença entre o número de Reynolds do igualado, mesmo com o Modelo Livre submerso, devido
navio e o número de Reynolds do modelo dará origem a efei- à ocorrência de movimentos de pitch e de roll no modelo,
tos de escala nos resultados dos ensaios, que são reduzidos se que geram momentos de restauração dependentes da ace-
o número de Reynolds do modelo for acima de 10 milhões leração da gravidade.
(SHEN; HESS, 2010). Adotando o valor 10 milhões como Da mesma forma como nos ensaios em linha reta, a rela-
sendo o menor número de Reynolds em que o modelo livre ção entre profundidade de ensaio e diâmetro em função do
operará, tem-se a velocidade mínima de ensaios da ordem número de Froude deve ser respeitada, de forma que não
de 1.5 m/s. ocorra a formação de ondas.

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Hélio Correa da Silva Junior, Walfrido Nivaldo Barnack Neto, Leandro Pansanato, Ricardo Sbragio, Leonardo Pinheiro da Silva, Fernando Moya Orsatti

Por fim, a igualdade do número de Strouhal é desejável em 10.3 ENSAIOS DE IMERSÃO E EMERSÃO
ensaios de manobrabilidade, para se obter a similaridade dinâ- O ensaio de imersão e emersão com ângulo de leme
mica dos movimentos da embarcação em escala real, por causa foi realizado para testar a capacidade do modelo livre em
da emissão de vórtices que geram forças alternadas durante simular manobras de emergência. Com flutuabilidade ligei-
esse tipo de ensaio. A igualdade do número de Strouhal ocorre ramente positiva, o modelo livre submergiu com ângulo de
diretamente pela imposição dos seguintes fatores: leme horizontal máximo (início da manobra na Figura 10).
1. Igualdade de Froude; Após uma profundidade especificada, reverteu o leme, dire-
2. Posição vertical do centro de gravidade (CG) em escala; cionando-se para a superfície. A manobra foi recomposta
3. Inércia em escala. pelos dados da UMI e dos sensores de pressão, conforme a
Figura 11. Tanto a imersão como a emersão ocorreram com
É muito difícil garantir que as inércias do modelo livre e
da embarcação em tamanho real estejam em escala. Isso requer
uma distribuição de massas dos equipamentos internos que
na prática não é viável.
Para a obtenção dos coeficientes hidrodinâmicos, que são
função do formato do casco, não é estritamente necessário
que se tenha essa igualdade, devendo-se, entretanto, saber
quanto é a inércia do modelo livre para se compor as equa-
ções corretamente.
A Figura 9 apresenta o resultado de um teste de curva
de giro do Modelo Livre com 312 rpm e ângulo máximo de
leme. A trajetória foi estimada a partir dos dados de movi-
mentos registrados pela UMI.
Figura 10. Início da manobra de imersão a partir da
superfície.

Aceleração e
início da imersão

Inversão do
y ângulo de leme

Início da emersão
após profundidade
máxima

Emersão

x Modelo livre
atingindo a
Figura 9. Plotagem de ensaio de curva de giro, conforme superfície
registrado pela Unidade de Medida Inercial. Modelo livre
a 312 rpm e ângulo máximo de leme para bombordo. Figura 11. Atitude e profundidade durante manobra de
A  duração do ensaio foi 180 s, sendo a duração da imersão e emersão, recomposta a partir dos dados da
manobra a partir da atuação do leme igual a 150 s. unidade de medida inercial e dos sensores de pressão.

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Hélio Correa da Silva Junior, Walfrido Nivaldo Barnack Neto, Leandro Pansanato, Ricardo Sbragio, Leonardo Pinheiro da Silva, Fernando Moya Orsatti

ângulos de aproximadamente 45º, atingindo uma profun- de embarcações, tanto de superfície como submarinas, bem
didade máxima de 12 m. como diversos tipos de missões. Seu projeto, fabricação e ope-
A Figura 12 apresenta o término da manobra, com o ração envolvem diversas especialidades, permitindo capaci-
modelo livre atingindo a superfície. tação e desenvolvimento tecnológico necessários aos futuros
projetos da Marinha do Brasil.
Nos primeiros ensaios, destinados a verificar a opera-
11. CONCLUSÃO cionalidade do meio, o modelo livre executou manobras
de curva de giro, de navegação em linha reta e de imersão
O modelo livre é um veículo submarino autônomo de e emersão. Os resultados corresponderam plenamente aos
grande versatilidade cuja finalidade principal é a realiza- objetivos dos ensaios.
ção de testes hidrodinâmicos. É composto por um núcleo
comum que pode ser usado em vários tipos de configurações
12. AGRADECIMENTOS

Os testes e a operação segura do modelo livre reque-


rem uma infraestrutura adequada, tendo sido possíveis
graças aos esforços e ao profissionalismo das equipes do
Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo (CTMSP),
da Diretoria de Desenvolvimento Nuclear da Marinha
(DDNM), do Centro Industrial Nuclear de ARAMAR
(CINA), do Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo
Moreira (IEAPM), da Base Almirante Castro e Silva (BACS),
da Base Aérea Naval de São Pedro da Aldeia (BAeNSPA)
e do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São
Figura 12. Término da manobra de imersão e emersão. Paulo (IPT).

REFERÊNCIAS

FELDMAN, J. DTNSRDC Revised standard submarine equations of LERBS, H.W. Moderately loaded propellers with a finite number of
motion: DTNSRDC/SPD-0393-09. Bethesda: David W. Taylor Naval blades and an arbitrary distribution of circulation. Transactions of the
Ship Research and Development Center, jun. 1979. Society of Naval Architects and Marine Engineers, v. 60, p. 73-123, 1952.

KERWIN, J.E. Computer Techniques for Propeller Blade Section SHEN, Y.T.; HESS, D.E. An experimental method to satisfy dynamic
Design. International Shipbuilding Progress, p. 227-251, 1973. similarity requirements for model submarine maneuvers. Journal of
Ship Research, p. 149-160, set. 2010.

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DESEMPENHO HUMANO E SAÚDE

A ENGENHARIA CLÍNICA COMO


AGENTE DE MELHORIA DA QUALIDADE
DO ATENDIMENTO MÉDICO
Clinical engineering as an agent for
improving the quality of medical care

Glauco Barbosa da Silva1, Nival Nunes de Almeida2

Resumo: O objetivo deste trabalho foi apresentar a engenharia Abstract: This study aims to present clinical engineering as an alter-
clínica (EC) como alternativa para a melhoria da qualidade do native to support quality improvement in Medical Care at healthcare
atendimento aos pacientes em estabelecimentos assistenciais em facilities of the Brazilian Navy (EAS-MB). The evolution of health
saúde da Marinha do Brasil (EAS-MB). A evolução das tecno- technologies incorporated into medical equipment and systems
logias em saúde incorporadas aos equipamentos e sistemas médi- (ESMH) has further complicated the management of EAS-MB,
co-hospitalares (ESMH) tornou ainda mais complexa a gestão requiring experience and different skills. Based on a literature review,
dos EAS-MB, requerendo experiências e habilidades de diferen- concepts, history and tasks of clinical engineering professionals
tes áreas. A partir de uma pesquisa bibliográfica, os conceitos, o are presented, uncovering its potential and adherence to improve
histórico e as atribuições dos profissionais da EC são apresenta- patient safety and care. The structure of the Navy Health System is
dos, revelando sua potencialidade e aderência com a melhoria da analyzed, seeking to identify any gaps between the activities of con-
segurança e do atendimento aos pacientes. A estrutura do Sistema trol institutions and the technical execution that clinical engineering
de Saúde da Marinha é analisada buscando identificar eventuais procedures can reduce, contributing with an improvement in patient
lacunas entre as atividades dos órgãos de controle e técnicos de care. The Odontoclínica Central da Marinha (OCM) was a point of
execução que possam ser reduzidas por medidas de EC, concor- interest, since it acts on the specialized care axis. The analysis shows
rendo para uma melhoria no atendimento aos pacientes. Por fim, a the existence of gaps in the management of the ESMH life cycle
Odontoclínica Central da Marinha (OCM) foi analisada por atuar that can be explored with the proposed approach.
no eixo de atenção especializada. O resultado da análise aponta Keywords: Biomedical Engineering. Clinical Engineering.
a existência de gaps na gestão do ciclo de vida dos ESMH que Medical Care.
podem ser explorados com a abordagem proposta.
Palavras-chave: Engenharia Biomédica. Engenharia Clínica.
Atendimento ao Paciente.

1. Capitão de Fragata. Dsc em Engenharia de Produção. Pesquisador no Centro de Análises de Sistemas Navais (CASNAV) – Rio de Janeiro, RJ – Brasil. E-mail: glaucos@id.uff.br,
glauco@casnav.mar.mil.br
2. Dsc em Engenharia Elétrica. Professor titular na Escola de Guerra Naval (EGN) – Rio de Janeiro, RJ – Brasil. E-mail: nivalnunes@yahoo.com.br

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Glauco Barbosa da Silva, Nival Nunes de Almeida

1. INTRODUÇÃO Na pesquisa biomédica, os pesquisadores estão engajados


na expansão do conhecimento para descobrir maneiras de
Nas últimas décadas, a medicina e os cuidados em saúde prevenir problemas de saúde e desenvolver benéficos produ-
pública mudaram radicalmente. As crescentes evoluções tec- tos, medicamentos e procedimentos para tratar e curar doen-
nológicas provocaram mudanças que vão desde a inclusão de ças e condições que causam doença e morte em seres vivos
modernos equipamentos e sistemas na prevenção, diagnós- (California Biomedical Research Association — CBRA, 2015).
tico e tratamento de doenças até a reabilitação dos pacientes. A contribuição e a participação de pesquisadores com expe-
No campo do diagnóstico, as inovações tecnológicas pos- riências e habilidades diferentes (multidisciplinaridade), como
sibilitaram a detecção de doenças muito precocemente, como, médicos, veterinários, cientistas da computação, engenheiros, téc-
por exemplo: tomógrafos por emissão de pósitrons, ressonân- nicos e pesquisadores em geral, são requisitos da pesquisa biomé-
cia nuclear magnética, câmara cintilográfica, entre outros. dica, que combina diferentes campos da ciência (CBRA, 2015).
Os significativos avanços no apoio aos diversos serviços Nesse contexto, a engenharia clínica (EC) apresenta-se
presentes em estabelecimentos assistenciais de saúde (EAS) como potencial ferramenta no apoio ao uso racional das tecno-
decorrentes da utilização dos novos recursos têm relação direta logias em saúde e na melhoria do atendimento aos pacientes.
com o aumento da complexidade e da dependência desses Para a fundamentação teórica deste trabalho, uma pes-
sistemas e equipamentos. quisa bibliográfica sobre o tema “engenharia clínica” foi rea-
Por outro lado, fruto da dependência do recurso tecno- lizada nas principais bases de dados científicas (periódicos
lógico, a ocorrência de avarias ou falhas em equipamentos Capes, Scopus, Web of Science, ResearchGate). A seleção e a
e sistemas médico-hospitalares (ESMH) pode representar análise dos documentos coletados basearam-se em conceitos
um elevado custo; não só em termos materiais, mas também de bibliometria, que possibilitaram identificar as publicações
sociais, pela interrupção do atendimento aos pacientes. Em mais relevantes da literatura disponível.
casos extremos, pode ocasionar a perda de vidas. O objetivo do presente trabalho foi apresentar a EC como
Devido à preocupação com a segurança dos pacientes, a alternativa para apoiar a melhoria da qualidade do atendimento
garantia da disponibilidade operacional de ESMH torna-se em estabelecimentos assistenciais em saúde da Marinha do
prioritária, sendo indispensável uma cuidadosa elaboração de Brasil (EAS-MB). Para atingir tal meta, segue-se a seguinte
requisitos técnicos e de processos de manutenção, eficientes estrutura: na seção 2, são apresentados os conceitos de enge-
e eficazes, que tenha como base a disponibilidade e a confia- nharia biomédica e clínica e da estrutura da assistência médi-
bilidade desses ESHM. co-hospitalar aos militares e seus dependentes no âmbito da
Frente a esse cenário de incorporação de ESMH com alto valor MB; a seção 3 apresenta como esses conceitos podem ser
agregado, a gestão de EAS adquiriu maior grau de complexidade, aplicados à MB; encerrando-se com uma conclusão.
uma vez que envolve recursos financeiros e humanos escassos e
grandes demandas dos pacientes; menor custo possível sem pre-
juízo da qualidade do atendimento prestado (BRASIL, 2013). 2. CONCEITOS E DEFINIÇÕES
Além dos desafios da gestão, outro aspecto importante que
recai sobre o uso dos ESMH é o sobrediagnóstico, decorrente 2.1. ENGENHARIA BIOMÉDICA
do uso indiscriminado de novas tecnologias, que pode sugerir A engenharia biomédica tem como objetivo a aplicação de
o tratamento precoce. Fora o risco inserido, tal procedimento metodologias e tecnologias de ciências físicas e engenharias
onera o sistema de saúde (TOSCAS; TOSCAS, 2015). para sistemas com ênfase no diagnóstico, no tratamento e na
Diante de tantos aspectos conflitantes, surge uma impor- prevenção de doenças no homem (SAWHNEY, 2007), repre-
tante questão: como gerir habilidades diversas que envolvem sentando um dos ramos de mais rápido crescimento da indús-
aspectos críticos de cuidados médicos, tecnologia em saúde, tria no mundo desenvolvido (SHELLENBARGER, 2010).
procedimentos e rotinas de manutenção para ESMH, recursos A partir da revisão da literatura científica realizada por
financeiros e humanos, entre outros, na busca pela melhoria Pereira, Gonçalves e Almeida (2010), as principais áreas temá-
do atendimento aos pacientes? ticas identificadas da engenharia biomédica foram classificadas

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Glauco Barbosa da Silva, Nival Nunes de Almeida

em: processamento de sinais biológicos; ultrassom aplicado à acordos de colaboração. Entretanto, a falta de mão de obra espe-
medicina; proteômica; genômica e bioinformática; sistema ner- cializada era um problema grave a ser resolvido. Nesse período,
voso e muscular; avaliação tecnológica em saúde; engenharia estimava-se um desperdício de U$ 1 bilhão decorrente da desa-
clínica; biomecânica do movimento; engenharia de reabilitação; tivação de equipamentos médicos por falta de conserto, peças
imagens médicas; inteligência artificial e redes neurais; órgãos de reposição, suprimentos e instalação (TERRA et al., 2014),
artificiais e biomateriais; biotecnologia, entre outras. panorama que persiste em EAS de todo o país.
Em 1992, em virtude da necessidade de reequipar os hos-
2.2. ENGENHARIA CLÍNICA E A MELHORIA pitais públicos, surge a demanda por engenheiros clínicos e, a
DO ATENDIMENTO AO PACIENTE partir de 1993, as universidades brasileiras começam a formar
A EC é uma subárea da engenharia biomédica que, a par- esses profissionais. Entretanto, somente em 16 de outubro
tir de conceitos de praticamente todas as áreas da engenharia, de 2003 foi fundada a Associação Brasileira de Engenharia
cuida dos processos e dos aspectos técnicos e gerenciais que Clínica (TERRA et al., 2014; BRASIL, 2015a).
envolvem a operação segura e eficiente de sistemas e equi- O engenheiro clínico é um profissional capacitado para
pamentos médicos em ambiente hospitalar (ZAMBUTO, aplicar técnicas da engenharia no gerenciamento dos equi-
2004). A operação segura dos ESMH pode ser caracteri- pamentos de saúde, possibilitando a rastreabilidade, a usa-
zada como uma permanente atenção com a manutenção bilidade, a qualidade, a eficácia, a efetividade, a segurança e
preventiva, a calibração e a análise das instalações elétricas o desempenho desses equipamentos no intuito de garantir a
(SOUZA et al., 2014). segurança dos pacientes e usuários (BRASIL, 2015a).
O início da EC deu-se nas Forças Armadas dos Estados Terra et al. (2014, p. 49) afirmam que “a presença de enge-
Unidos da América (EUA) em 1942, com o curso de manu- nheiros clínicos não só garantiu um ambiente mais seguro,
tenção de equipamentos médicos. Nas décadas de 1960 e mas facilitou a utilização da tecnologia médica mais recente,
1970, com a evolução das tecnologias e o aumento dos cus- melhorando o atendimento ao paciente”.
tos, agravados pela notícia da morte de pacientes por choque Na Figura 1, são ilustradas as diversas interações entre a
elétrico relacionado com equipamentos médicos, os enge- EC e os atores do sistema de saúde, permitindo uma rápida
nheiros foram incentivados a entrar nos hospitais e clínicas visualização da complexidade de ações a que o setor está
para fazer a manutenção das novas tecnologias de cuidado sujeito, uma vez que requer conhecimento multidisciplinar.
à saúde (TERRA et al., 2014; RAMIREZ; CALIL, 2000). Segundo Wada (2010), em um EAS, entre outras res-
A inserção da EC no ambiente hospitalar rapidamente ponsabilidades, os engenheiros clínicos são responsáveis por:
permitiu a identificação de falhas de segurança elétrica em • dirigir, gerenciar, coordenar e orientar tecnicamente os
equipamentos eletromédicos e de que certos dispositivos ope- serviços de EC;
ravam fora das especificações dos fabricantes. Em geral, os • controlar o patrimônio dos equipamentos médico-hos-
problemas identificados decorriam da falta de manutenção pitalares e seus componentes;
adequada ou até mesmo de erros de operação dos equipa- • auxiliar na aquisição e realizar a aceitação de novas
mentos (TERRA et al., 2014). tecnologias;
Ressalta-se que um erro de calibragem, por exemplo, pode • treinar pessoal para manutenção (técnicos) e operação
induzir a diagnósticos equivocados, expondo o paciente a trata- dos equipamentos (operadores);
mentos desnecessários e, em casos extremos, levando-o a óbito. • indicar, elaborar e controlar os contratos de manuten-
Outras mudanças decorrentes da inserção da EC foram a ção preventiva/corretiva; executar no âmbito do EAS
criação de normativas e padrões, para operação segura dos equi- a manutenção preventiva e corretiva dos equipamentos
pamentos, e de novas especificações, que pressionaram o mer- médico-hospitalares;
cado para melhoria dos equipamentos (TERRA et al., 2014). • controlar e acompanhar os serviços de manutenção
No Brasil, os debates sobre o tema foram ampliados a partir terceirizados;
da década de 1980, por meio da participação de pesquisado- • estabelecer medidas de controle e segurança do ambiente
res em reuniões internacionais, intercâmbios de informações e hospitalar (ESMH);

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• elaborar projetos de novos ESMH ou modificar os existentes; O ciclo de vida de um ESMH compõe-se basicamente
• estabelecer procedimentos para aumentar a vida útil de três fases: incorporação, utilização e renovação/alienação.
dos ESMH; As principais atividades de cada fase são descritas a seguir.
• implantar e controlar a qualidade dos equipamentos de A incorporação contempla o processo de levantamento de
medição, inspeção e ensaios referentes aos ESMH; requisitos e das especificações técnicas. Nessa fase, deve ser con-
• calibrar e ajustar os ESMH; siderada a estrutura do local a receber o equipamento; também
• efetuar a avaliação de obsolescência dos ESMH; deve ser avaliada a necessidade de modificações da infraestru-
• apresentar relatórios de produtividade do gerenciamento tura predial, instalações hidráulicas, de refrigeração e elétrica.
e da manutenção dos ESMH — indicadores de qualidade Na prática, não é incomum a incorporação de ESMH incom-
e/ou produção. patíveis com o ambiente de instalação, acarretando um acréscimo
não previsto ao projeto e provocando indisponibilidade do serviço
Dentre as responsabilidades do setor de EC está a gestão e consequente prejuízo ao paciente que precisa do atendimento.
do ciclo de vida de um ESMH, que será descrito a seguir por Definidas as especificações técnicas, a fase de incorporação
ter forte impacto no tratamento/atendimento do paciente, segue com a avaliação dos ESHM disponíveis no mercado.
destacando, assim, a atuação da EC. Dentre as opões ofertadas, é importante estar atento aos cus-
Estudos da Organização Mundial da Saúde (OMS) em tos diretos e indiretos: existência de software para diagnós-
países em desenvolvimento revelam que a inoperância dos tico, custos de manutenção, suporte do fabricante, serviço de
equipamentos afeta significativamente a prestação do serviço garantia estendida, proximidade da assistência técnica, oferta
da assistência em saúde e que o gerenciamento inadequado é de treinamentos técnicos, documentação e manuais técnicos
a causa principal da inoperância, sendo o problema agravado e do usuário, peças de reposição e equipamentos de aferi-
na ausência de uma política de aquisição dos equipamentos ção. Além disso, deve-se considerar o custo operacional e de
(MORALES; ENSSLIN; GARCIA, 2007). parada, depreciação e a qualidade do serviço (BRASIL, 2002).

Vendedor Enfermeiras Médicos

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Agências de Ambiente
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fomento hospitalar

Agências Pesquisas
reguladoras clínicas

Fonte: Terra et al. (2014).


Figura 1. Interfaces da engenharia clínica.

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Glauco Barbosa da Silva, Nival Nunes de Almeida

Selecionado o ESMH mais adequado e concretizada a Segundo Moubray (2001), sete perguntas básicas nor-
aquisição, a próxima atividade é a instalação, que pode ser teiam o processo de implantação do RCM:
efetuada pelo fabricante ou por empresa credenciada, e deve • Quais são as funções e os padrões de desempenho de um
ser acompanhada pelo setor de EC para que haja garantia ativo no seu atual contexto operacional?
da correta execução. Nessa etapa, é desejável a realização de • De que forma ele pode falhar em cumprir suas missões?
treinamento técnico e operacional dos profissionais que esta- • O que causa cada falha funcional?
rão em contato com o equipamento. Os conteúdos, o tipo, a • O que acontece quando ocorre cada falha?
quantidade e a duração dos treinamentos são definidos pelo • De que forma cada falha tem importância?
setor de EC no processo de aquisição. • O que pode ser feito para prevenir cada falha?
A importância do treinamento deve-se ao fato de que • O que deve ser feito se não for encontrada uma tarefa
boa parte dos problemas de inoperância dos equipamentos preventiva apropriada?
é oriunda da operação inadequada. A fase de incorporação
encerra-se com o recebimento do equipamento/sistema. No caso de equipamentos com alto valor de manuten-
Na etapa de utilização, devem ser planejados treinamentos ção, não críticos ou em que há necessidade de manutenção
de reciclagem e aprendizado do equipamento para as equipes, preventiva/corretiva em curto prazo, a terceirização dos ser-
visto que erros de configuração ou por falta de informação viços é uma possibilidade a ser considerada. Frente à tercei-
prévia do usuário são comuns. rização dos serviços de manutenção, uma atividade impor-
O planejamento da manutenção dos equipamentos, seja tante, pertencente à fase de utilização, é a gestão dos contra-
preventiva ou corretiva, é necessário. Nessa atividade, deve tos de manutenção.
ser definido o tipo de manutenção a ser adotado. A etapa renovação ou alienação é a última fase do ciclo de
Em geral, a manutenção corretiva não é prevista e vida de um ESMH, que pode ser encerrado por: tempo de
pode ocorrer a qualquer momento durante a vida útil do uso (ou obsolescência); uso indevido e irreparável; e desuso
equipamento. Entretanto, existem modelos de manuten- da tecnologia (DAVID, 1985).
ção dotados de previsibilidade de falhas que permitem A alienação de ESMH requer uma intervenção do setor
reconhecer padrões e estimar a ocorrência de uma falha de EC, responsável por gerar laudos técnicos que justifi-
ou avaria. Dentre esses, destaca-se o modelo de manu- quem o encerramento do ciclo de vida do equipamento.
tenção centrada em confiabilidade (Reliability Centred Complementa a atividade de alienação o descarte do equi-
Maintenance — RCM) oriundo da indústria aeronáutica pamento. Finalizando o ciclo de vida, as lições aprendidas
norte-americana, que visa ao aumento da segurança e da durante o processo devem ser usadas como entrada para a
disponibilidade operacional dos equipamentos e à redução incorporação de novos ESMH.
dos custos (MOUBRAY, 2001). As principais atividades pertencentes a cada fase do ciclo
O RCM se baseia em uma ampla análise estatística de de vida de um ESMH são resumidas no Quadro 1.
falhas, visto que, em um equipamento complexo, a menos que Descritas as fases do ciclo de vida dos ESHM, Medeiros
exista um modo de falha dominante, as revisões programa- (2015) apresenta um modelo para a classificação dos equi-
das têm pouco efeito na confiabilidade. Além disso, muitos pamentos quanto a: função, risco e necessidade de manuten-
equipamentos não têm uma forma efetiva de manutenção ção. A partir da combinação desses fatores, f (funcionalidade,
programada (NEVES; GARCIA; NEVES, 2001). risco, manutenção), o indicador de gerenciamento de equi-
As vantagens da adoção do modelo dependem do acom- pamentos (GE) é obtido pela soma da pontuação atribuída
panhamento contínuo e da realimentação do modelo, pois a cada classificação dentro do fator, e serve de sugestão sobre
se baseia em informações passadas. O histórico de falhas quais equipamentos devem ou não ser de responsabilidade
constitui dado de entrada para que a análise estatística possa do setor de EC.
ser realizada. Outro ponto importante é que o RCM deve O fator função se refere à funcionalidade do equipamento
ser direcionado aos equipamentos críticos, não sendo reco- e pode ser classificado em: terapêutico, diagnóstico, analítico
mendado para todos os equipamentos e sistemas. ou diverso. O fator risco está relacionado com o risco ao qual

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o paciente ou usuário está exposto durante o uso do equipa- Quadro 2. Pontuação do fator função do equipamento.
mento, sendo máximo quando pode levar a óbito. Esse fator Categoria Descrição da função Pontuação
pode ser classificado em: possibilidade de morte, possibili-
Suporte à vida 10
dade de lesão, terapia inapropriada ou falso diagnóstico, dano
ao equipamento e não há riscos significativos. O fator cri- Cirúrgico e cuidados
9
Terapêutico intensivos
tério de manutenção está associado ao nível e à frequência de
manutenção necessária de acordo com as especificações do Terapia física e
8
tratamento
fabricante ou com a experiência do setor de EC, sendo o seu
valor máximo atribuído à alta necessidade de manutenção, e Monitoramento
7
cirúrgico ou intensivo
o mínimo, à baixa rotina. Os equipamentos que possuem GE Diagnóstico
maior ou igual a 12 devem ser inventariados e prioritaria- Monitores fisiológicos /
6
mente acompanhados pelo setor de EC. Os valores de cada diagnóstico por imagem

fator são apresentados nos Quadros 2, 3 e 4. Laboratório analítico 5

Acessórios de
4
2.3. ASSISTÊNCIA MÉDICO-HOSPITALAR laboratório
Analíticos
NO ÂMBITO DA MARINHA DO BRASIL Sistemas computacionais
Composto pelos subsistemas assistencial, médico-peri- e equipamentos 3
cial e de medicina operativa, o Sistema de Saúde da Marinha associados
(SSM) reúne os recursos humanos, materiais, financeiros, tec- Outros equipamentos
Diversos 2
nológicos e de informações destinados a prover as atividades relacionados
de saúde na MB (BRASIL, 2012).
O subsistema assistencial é o responsável pela presta-
ção da Assistência Médico-Hospitalar (AMH), segundo Quadro 3. Pontuação do fator risco.

três eixos: prevenção e promoção de saúde; atenção básica; e Descrição do risco de uso Pontuação
atenção especializada. Possibilidade de morte do paciente 5
O eixo prevenção e promoção de saúde compreende os
Possibilidade de lesão ao usuário ou
programas de saúde e as campanhas assistenciais; sendo de 4
paciente
baixo custo e, em geral, sem emprego de tecnologia. A atenção
Terapia inapropriada ou falso diagnóstico 3
básica é o primeiro nível assistencial; oferta serviços básicos
de saúde, essencialmente ambulatoriais, com o objetivo de Danos ao equipamento 2

Não há riscos significativos 1


Quadro 1. Atividades principais das fases do ciclo de
vida dos equipamentos e sistemas médico-hospitalares.
Quadro 4. Pontuação do fator necessidade de manutenção.
Alienação ou
Incorporação Utilização
renovação Necessidade de manutenção Pontuação
Levantamento Treinamentos Extensiva: calibração de rotina ou
5
de requisitos de reciclagem e substituição de peças
e das aprendizado do Gerar laudos
Acima da média 4
especificações equipamento técnicos
técnicas Planejamento Descarte Média: verificação de desempenho e
3
Avaliação das Comunicação testes de segurança
das soluções manutenções das lições
Abaixo da média 2
disponíveis no Gestão dos aprendidas
mercado contratos de Mínimo: inspeção visual 1
Aquisição manutenção
Fonte: Medeiros (2015).

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reduzir o aporte de pacientes aos hospitais. Subdividido em 2.3.1 Atribuições dos órgãos do Sistema de
média e alta complexidade, o eixo atenção especializada é o Saúde da Marinha
segundo nível de assistência à saúde, caracterizado pelo trata- Compete à DSM: planejar as visitas técnicas e as ins-
mento especializado e pela hospitalização, com atividades de peções a serem realizadas nas organizações militares (OM)
apoio diagnóstico e terapêutico e uso de tecnologia avançada. prestadoras de assistência à saúde; planejar a qualificação
Ainda em relação à atenção especializada, a de média com- técnico-profissional do pessoal de saúde; elaborar as normas
plexidade exige profissionais especializados e utiliza recursos técnicas sobre equipamentos e pessoal que opera com radia-
tecnológicos para o apoio diagnóstico e o tratamento; a de ção ionizante; supervisionar, por meio de inspeções, registros
alta complexidade difere-se por compreender o atendimento e cadastros, as atividades relacionadas com raios X e substân-
em hospitais de referência, com utilização de alta tecnologia, cias ionizantes; doutrinar a coleta, a interpretação e as ações
alto custo, e com recursos humanos qualificados e permanen- decorrentes da análise de dados estatísticos e dos indicadores
temente atualizados (BRASIL, 2012). de saúde no âmbito naval; realizar as aquisições de material
Além do caráter preventivo e curativo, os eixos diferem permanente para o SSM; analisar as solicitações para aqui-
entre si pelo emprego da tecnologia em saúde (níveis de com- sição de material permanente de saúde das Organizações
plexidade), pessoal especializado e custo associado. As princi- Militares Hospitalares (OMH) (BRASIL, 2016c).
pais características de cada eixo estão resumidas no Quadro 5. A DSM é assessorada pelo CMAM, OTE, no planeja-
Funcionalmente, a estrutura do SSM compreende: um mento, organização, coordenação e controle das atividades do
Órgão de Direção Setorial (ODS), um Órgão de Direção subsistema assistencial até o nível da atenção especializada
Especializada (ODE), Órgãos de Coordenação de Subsistemas de média complexidade (BRASIL, 2012).
e Órgãos Técnicos de Execução (OTE). Ao CMAM, entre outras atribuições, compete realizar
Subordinada à Diretoria-Geral do Pessoal da Marinha os estudos atinentes ao planejamento das ações relacionadas
(DGPM), a Diretoria de Saúde da Marinha (DSM) está aos planos e projetos gerenciais desenvolvidos na sua área;
organizada em seis departamentos: Planejamento, Técnico- planejar e controlar as ações voltadas para a capacitação pro-
Gerencial, Administração, Logística, Tecnologia da Informação fissional, visando ao aprimoramento técnico-científico da sua
e Auditoria em Saúde (BRASIL, 2016c). tripulação; supervisionar a coleta, proceder à análise e emitir
Subordinada à DSM, o Centro Médico Assistencial da pareceres periódicos sobre a evolução dos dados estatísticos
Marinha (CMAM) está organizado em cinco departamentos: e dos indicadores de saúde, atinentes às atividades realiza-
Saúde, Produção, Administração, Intendência e Assistência das na sua esfera e de OM subordinadas, com a finalidade de
Ambulatorial. Além dos departamentos mencionados, o assessorar a tomada de decisão (BRASIL, 2016b).
CMAM também tem na sua estrutura uma Assessoria de O CMAM conta com uma divisão de Engenharia, subor-
Planejamento e Controle e uma Gerência de Processos dinada ao Departamento de Administração, à qual, entre outras
(BRASIL, 2016b). atividades, compete: assessorar tecnicamente os diversos setores

Quadro 5. Eixos do subsistema assistencial.

Prevenção e
Eixo Atenção básica Atenção especializada
promoção de Saúde
Programas de Primeiro nível da
Descrição Saúde e Campanhas assistência médica Segundo nível da assistência à saúde.
Assistenciais. ambulatorial.

Média e alta complexidade, alto


Baixo custo e custo, profissionais especializados e
Baixa complexidade,
Características sem emprego de permanentemente atualizados, recursos
exames simples.
tecnologias. tecnológicos para o apoio ao diagnóstico e
ao tratamento.

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do CMAM e OM subordinadas, no tocante às obras de enge- especializada odontológica, além de participar dos pro-
nharia e demais serviços de manutenção predial; elaborar os gramas de prevenção e promoção de saúde, do desenvol-
projetos que atendam à necessidade de obras solicitadas pelos vimento de pesquisas e realizar cursos de aperfeiçoamento
diversos setores do CMAM e apoiar as OM subordinadas na (BRASIL, 2015b).
elaboração de projetos, quando solicitado; fiscalizar o anda- Dispõe de 67 consultórios, distribuídos por 10 clí-
mento do cronograma de obras civis e de infraestrutura em nicas especializadas: cirurgia e traumatologia buco-ma-
realização no CMAM e OM subordinadas, quando solici- xilo-faciais; dentística; disfunção têmporo-mandibular;
tado; supervisionar, manter e conservar as instalações prediais endodontia; estomatologia e patologia bucal; implanto-
do CMAM no que tange à sua estrutura física, instalações dontia; odontologia integrada; odontogeriatria; ortodon-
elétricas, hidráulicas e de esgoto, ar condicionado, pinturas e tia; periodontia e prótese dentária; além dos serviços de
acabamentos em geral e apoiar as OM subordinadas quanto odontologia preventiva, pronto atendimento e semiologia
à manutenção de suas estruturas prediais (BRASIL, 2016a). (BRASIL, 2015b).
Embora o CMAM disponha em sua organização de um Compatíveis com a diversificada carteira de serviços espe-
setor de engenharia, o mesmo é voltado para obras civis, não cializados oferecidos pela OCM, equipamentos de última
sendo possível identificar um braço especializado na manu- geração estão presentes em seu parque odontológico, entre
tenção de ESMH. outros: aparelhos de raios X; tomógrafo odontológico tipo
Apesar da existência de setores destinados à realização Cone Beam; microscópio óptico clínico; equipamentos a laser;
de análises estatísticas, o desempenho de tal atividade é for- aparelhos de ultrassom; e o sistema Ceramic Reconstruction,
temente correlacionado à seleção e à qualidade dos dados a que realiza restaurações indiretas em cerâmica pura com rapi-
serem coletados. Se os dados não forem bem selecionados ou dez e qualidade (BRASIL, 2015b).
coletados, a análise pode ser pouco significativa ou irrelevante. Compõem, ainda, a capacidade instalada da OCM: um
Diretamente subordinada ao CMAM, no que tange laboratório de ortodontia, um laboratório de prótese dentária,
ao atendimento odontológico, a Odontoclínica Central da salas de raios X para o Serviço de Radiologia Odontológica
Marinha (OCM) é o OTE do eixo do atendimento espe- e Imaginologia, o Serviço de Enfermagem e Esterilização e
cializado de média complexidade. uma sala equipada para o Serviço de Estabilização do Paciente
(SEP) (BRASIL, 2015b).
Diante de tantos serviços especializados e equipamen-
3. A ADERÊNCIA DA tos com diversas tecnologias de ponta, é esperado que a
ENGENHARIA CLÍNICA estrutura da OCM contemple ao menos um setor com
COM A MARINHA DO BRASIL habilidades e conhecimentos diversos capaz de manter a
máxima disponibilidade dos ESMH, possivelmente uma
Apesar da sua relevância, o tema EC ainda é pouco difun- divisão de engenharia.
dido e pouco explorado na MB. Cabe ressaltar que o sucesso Na busca por uma célula especializada, uma análise do
em qualquer projeto, programa ou iniciativa requer o engaja- organograma da OCM, não foi possível identificar um setor
mento de todos os envolvidos, não sendo a EC uma exceção. de EC. Além disso, o efetivo militar atual de pessoal da
Partindo da hipótese da pouca exploração do tema na MB, OTE não dispõe de profissionais do Corpo de Engenheiros
considerando os OTE da atenção especializada de média com- da Marinha.
plexidade, a OCM foi selecionada para estudo. Dessa forma, Considerando o porte da OCM e a quantidade de
algumas características da OCM são evidenciadas a seguir. ESHM, ainda que existam normas e procedimentos deta-
lhados, pode-se afirmar que há um gap entre o preconi-
3.1. A ODONTOCLÍNICA zado pelas boas práticas de EC e a manutenção efetiva dos
CENTRAL DA MARINHA ESMH. A seleção e a coleta dos registros (ou indicadores)
A missão da OCM é contribuir para a eficácia do podem ser prejudicadas pela ausência de uma equipe com
SSM no que concerne à assistência no eixo da atenção maturidade oriunda da utilização do equipamento, ou seja,

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o diagnóstico é facilitado quando existe uma presença em fase da vida útil em que se encontram os equipamentos e a
todo o ciclo de vida. identificação do início do processo de envelhecimento per-
Avançando na estrutura do SSM, verifica-se que o efetivo mitem a revisão e ajustes da política de manutenção, pos-
de pessoal militar do CMAM, órgão de assessoria da DSM sibilitando manter a disponibilidade dos equipamentos no
no planejamento, organização, coordenação e controle das nível mais alto durante o ciclo de vida. Para atividades como
atividades do subsistema assistencial até o nível da atenção acompanhamento, avaliação e determinação do momento
especializada de média complexidade, também não dispõe de adequado de descarte ou substituição, é desejável a existên-
oficiais do Corpo de Engenheiros da Marinha. cia de um setor de EC.
Conforme desenvolvido ao longo das seções anteriores, a O conhecimento do comportamento do material e do
característica básica da EC é a multidisciplinaridade — ela nível de obsolescência gerido pelo setor de EC, traduzido
não se limita ao quadro de engenheiros. Entretanto, não é por indicadores de manutenção, em tempo de escassez de
desejável implementar os conceitos preconizados sem a pre- recursos, serve como relevante ferramenta no apoio à decisão
sença do engenheiro clínico. para a priorização de investimentos e, consequentemente, na
melhoria do atendimento aos pacientes. A partir da redução
da subjetividade, os recursos podem ser direcionados com
4. CONCLUSÃO base em critérios quantitativos.
Em geral, a manutenção dos ESMH é delegada ou agru-
Apesar da crescente evolução da área de EC e da rele- pada em um departamento de manutenção ou engenharia,
vância do tema, suas práticas ainda são pouco difundidas no compartilhando e consumindo recursos sem a correta espe-
âmbito da MB. cialização. Além disso, ter uma equipe de manutenção que
Dentre diversos aspectos possíveis a serem tratados na conserte um equipamento não é suficiente, o que sinaliza
busca por melhoria do atendimento aos pacientes, este traba- uma desvantagem da terceirização dos serviços sem o acom-
lho apresentou as ações presentes na EC capazes de concor- panhamento de um setor interno. É preciso conhecer o nível
rer para equilibrar e/ou amenizar fatores críticos de cuidados de importância dos equipamentos para os serviços médicos, as
médicos e tecnologia em saúde, procedimentos e rotinas de dependências e os impactos que a inoperância pode ocasionar.
manutenção para ESMH da MB. Além disso, com base nos paradigmas da manutenção
A criação de normativas e padrões para a operação segura centrada em confiabilidade (RCM), programas genéricos
dos ESMH demanda evolução contínua, fazendo parte de de manutenção aplicam-se a equipamentos com o mesmo
um processo dinâmico, com realimentação a partir da matu- contexto operacional e com as mesmas funções e padrões
ridade do uso e da manutenção (fase de utilização do ciclo de desempenho. Dessa forma, o ambiente heterogêneo das
de vida dos ESMH). unidades especializadas de média/alta complexidade requer
As lições aprendidas durante o ciclo de vida dos ESMH um modelo que aumente a disponibilidade operacional e a
contribuem significativamente para novas especificações segurança com redução de custos.
alinhadas com as reais necessidades das equipes médi- Face às suas potencialidades, a EC pode em muito contri-
cas. Dessa forma, influenciam na evolução dos produtos buir para uma operação com maior disponibilidade e maior
e pressionam o mercado para a melhoria e a criação de segurança e, consequentemente, melhor atendimento (pres-
novos equipamentos. tação de serviço) ao paciente.
Ainda que a terceirização dos serviços seja uma possibi- Como pesquisas futuras, em continuidade ao presente
lidade comumente adotada, ela não exclui a necessidade de trabalho, sugere-se o desenvolvimento de uma proposta de
uma equipe qualificada no acompanhamento das rotinas de implantação de um sistema de gestão do ciclo de vida dos
manutenção e na identificação e/ou avaliação do desempe- equipamentos da OCM. Outra sugestão engloba uma ava-
nho dos ESMH em uso. liação da redução dos custos de manutenção e do aumento de
O reconhecimento de padrões, a avaliação de confia- disponibilidade dos ESMH com a incorporação de uma estru-
bilidade, a verificação da taxa de falhas para a definição da tura mínima de EC na gestão do parque de ESMH da MB.

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Glauco Barbosa da Silva, Nival Nunes de Almeida

REFERÊNCIAS

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DESEMPENHO HUMANO E SAÚDE

Alta pressão hidrostática aplicada


no processo de esterilização de
curativo biológico constituído por
membrana amniótica humana
High hydrostatic pressure applied in the process of
sterilizing biologic dressings made of human amniotic membranes

Shana Priscila Coutinho Barroso1, Rachel Antonioli Santos2,


Jerson Lima da Silva3, Marcelo Leal Gregório4

Resumo: As propriedades biológicas e mecânicas da membrana Abstract: The biological and mechanical properties of a human
amniótica humana (MAH) a tornam interessante para utilização amniotic membrane (HAM) enable for its use as a biologi-
como curativo biológico em feridas de difícil resolução, uma vez que cal dressing to heal wounds, since it minimizes opportunistic
minimiza as infecções oportunistas, reduz a dor e a inflamação do infections, reduces pain and inflammation of damaged tissue,
tecido lesado e auxilia o processo de cicatrização. Durante o proces- and assists in the healing process. All conditions are ensured
samento da MAH, são asseguradas todas as condições de esterilidade to be sterile during the processing of HAM. However, as the
do tecido. No entanto, conforme resolução da Agência Nacional de National Agency for Sanitary Surveillance recommends, addi-
Vigilância Sanitária (ANVISA), é indicado que seja realizada este- tional sterilization using physical methods is necessary when
rilização complementar por métodos físicos nos biomateriais para dealing with biomaterials in regenerative medicine. This work
enxertia. Neste trabalho, avaliamos a utilização de alta pressão hidros- evaluated the use of high hydrostatic pressure (HHP) as a com-
tática (APH) como técnica complementar de esterilização da MAH. plementary technique to HAM sterilization. HHP was able to
A APH foi capaz de descontaminar a MAH exposta a microrganis- decontaminate the HAM exposed to environmental microorga-
mos presentes no ar ambiente e a MAH exposta a Escherichia coli, mas nisms and Escherichia coli, but was unable to reduce the contami-
não de reduzir a contaminação da MAH pelo Staphylococcus aureus. nation from Staphylococcus aureus. Our results suggest that HHP
Nossos resultados sugerem que a APH é uma alternativa promissora, is a promising, efficient and low-cost possibility to complement
eficiente e de baixo custo para esterilização complementar da MAH. HAM sterilization.
Palavras-chave: Pressão Hidrostática. Inativação. Curativos Keywords: Hydrostatic Pressure. Inactivation. Biologic Dressings.
Biológicos. Âmnio. Carga Bacteriana. Amnion. Bacterial Load.

1. Primeiro-Tenente (RM2-S). Doutora em Química Biológica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Militar pesquisadora do Instituto de Pesquisas Biomédicas/
Hospital Naval Marcílio Dias – Rio de Janeiro, RJ – Brasil. E-mail: shanapriscila@gmail.com
2. Primeiro-Tenente (RM2-S). Doutora em Neurociências pela Universidade Federal Fluminense. Militar pesquisadora do Instituto de Pesquisas Biomédicas/Hospital
Naval Marcílio Dias – Rio de Janeiro, RJ – Brasil. E-mail: rachelantonioli@gmail.com
3. Doutor em Biofísica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro – Rio de Janeiro, RJ – Brasil. E-mail:
jerson@bioqmed.ufrj.br
4. Capitão de fragata. Especialista em Coloproctologia pelo Hospital Naval Marcílio Dias. Especialista em Gestão em Saúde pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Militar encarregado do Instituto de Pesquisas Biomédicas do Hospital Naval Marcílio Dias – Rio de Janeiro, RJ – Brasil. E-mail: leal@hnmd.mar.mil.br

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Shana Priscila Coutinho Barroso, Rachel Antonioli Santos, Jerson Lima da Silva, Marcelo Leal Gregório

1. INTRODUÇÃO A pressão hidrostática é definida como a pressão exercida


pelo peso de uma coluna fluida estática (líquida ou gasosa) e
A substituição de tecidos humanos é um dos principais desa- depende da densidade do fluido, da profundidade da coluna
fios da medicina regenerativa. A membrana amniótica humana fluida e da aceleração local da gravidade. É um parâmetro físico
(MAH) é a camada mais interna da placenta e suas propriedades capaz de promover inúmeras alterações morfológicas e fisioló-
biológicas e mecânicas (como a presença de fatores de cresci- gicas nos organismos. Mais especificamente, a pressão hidros-
mento, colágenos tipos I-VII, elastina, laminina e fibronectina), tática induz à redução do volume celular e, consequentemente,
além da ausência de imunogenicidade, tornam-na especialmente a alterações no citoesqueleto, na parede/membrana celular e em
interessante para uso clínico. Além disso, a MAH empregada outros componentes celulares (PALHANO et al., 2004a; 2004b).
como curativo biológico minimiza as infecções oportunistas, Além dos resultados observados na pressurização de ali-
reduz a dor e a inflamação do tecido lesado e auxilia o processo mentos, vários estudos demonstram a eficiência da APH na
de cicatrização tecidual (TALMI et al., 1991; DUA; AZUARA- redução da infecciosidade e na inativação de vírus (envelo-
BLANCO, 1999; SOLOMON et al., 2001; RIAU et al., 2010). pados e não envelopados), bactérias e fungos em diferentes
Em razão da carência de regulamentação específica, materiais biológicos ( JURKIEWICZ et al., 1995; CALCI
seguindo recomendação da Agência Nacional de Vigilância et al., 2005; KINGSLEY; CHEN, 2009; DUMARD et al.,
Sanitária (ANVISA), utilizamos a resolução da diretoria 2013). Resultados promissores são vistos com a esteriliza-
colegiada (RDC) nº 55, de 11 de dezembro de 2015, que ção de materiais biológicos, próteses ortopédicas, bolsas de
dispõe sobre as boas práticas em tecidos humanos para uso sangue e no desenvolvimento de vacinas (AERTSEN et al.,
terapêutico, e as recomendações de boas práticas da RDC 2009; BARROSO et al., 2015). Desse modo, este trabalho
nº 220, de 27 de dezembro de 2006, para processamento do tem como objetivo avaliar a utilização de APH como método
material (ANVISA, 2006; 2015). complementar de esterilização da MAH.
Apesar das vantagens, o uso da MAH foi abandonado
durante anos por causa do risco de infecção oriunda de
partos normais de mulheres não testadas sorologicamente 2. METODOLOGIA DE PESQUISA
durante a gravidez. Contudo, a normatização da utilização
de tecidos para enxertia no Brasil (regulamentada pelas leis
nº 9.434/1997 e nº 10.211/2001) e um maior rigor quanto 2.1. DECLARAÇÃO DE ÉTICA
à esterilidade durante a manipulação permitem que, atual- Este projeto de pesquisa foi aprovado pelo Conselho de Ética
mente, seja produzido um curativo livre de agentes patogê- em Pesquisa do Hospital Naval Marcílio Dias (CEP-HNMD),
nicos e, portanto, sem risco ao usuário. sob o número de protocolo do Certificado de Apresentação
Contudo, conforme resolução da ANVISA (2006), é indi- para Apreciação Ética (CAAE) 34621214.1.0000.5256.
cado que seja realizada esterilização complementar por méto-
dos físicos nos biomateriais para enxertia, sendo comumente 2.2. CRITÉRIOS DE
utilizada, em doses de radiação que variam de 15 a 25 KGy, INCLUSÃO DAS DOADORAS
a radioesterilização — uma técnica que necessita de equi- Após aprovação do termo de consentimento livre e escla-
pamentos caros, de uso controlado e pessoal altamente trei- recido (TCLE), usuárias eletivas para a cirurgia cesariana —
nado (GUPTA et al., 2013; ISLAM et al., 2016). Portanto, mulheres com idade entre 18 e 35 anos, que apresentaram
existe hoje um enorme interesse no estudo de métodos físicos gestação sem intercorrências e sorologia negativa para hepatite
alternativos, eficazes e de baixo custo, que possam ser apli- B (HBsAg e anti-HBc total), hepatite C (anti-HCV), vírus
cados como ferramenta para a esterilização de biomateriais. da imunodeficiência humana I e II (anti-HIV 1 e 2), doença
Nos últimos anos, diversos trabalhos vêm demonstrando a de chagas (anti-Trypanosoma cruzi), sífilis (teste treponêmico
eficiência da utilização da alta pressão hidrostática (APH) para ou não treponêmico), vírus linfotrópico da célula T humana
a eliminação de microrganismos patogênicos, especialmente na I e II (anti-HTLV I e II), toxoplasmose (imunoglobulina
indústria alimentícia (LOPES et al., 2010; ZHOU et al., 2010). G –IgG – e imunoglobulina M – IgM – anti-toxoplasma) e

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Shana Priscila Coutinho Barroso, Rachel Antonioli Santos, Jerson Lima da Silva, Marcelo Leal Gregório

citomegalovírus (IgG e IgM anti-CMV) — tiveram a pla- A MAH foi aderida a papel de nitrocelulose (Bio-Rad) e
centa coletada. Os mesmos testes sorológicos foram realiza- armazenada em solução de DMEM e glicerol (1:1) (Sigma-
dos novamente nas doadoras após seis meses. Aldrich e Vetec) em ultracongeladores (Indrel) a -80ºC.
Os exames laboratoriais foram realizados no setor de O material foi, então, acondicionado em embalagens primá-
análises clínicas do Hospital Naval Marcílio Dias (HNMD). ria e secundária plásticas estéreis.
As amostras foram mantidas em ultracongeladores a
2.3. CRITÉRIOS DE INCLUSÃO DA -80ºC, identificadas como “tecidos não liberados para uso”,
PLACENTA/MEMBRANA AMNIÓTICA até as sorologias das doadoras serem repetidas (4 a 6 meses).
HUMANA PARA A PESQUISA
As placentas foram coletadas no centro cirúrgico obsté- 2.5. SISTEMA DE
trico do HNMD. Seguindo as orientações da RDC nº 220 PRESSÃO HIDROSTÁTICA
da ANVISA (2006), foram realizadas investigações microbio- Os experimentos de pressão hidrostática foram realizados
lógicas de fragmentos e lavados do tecido em três momentos em um aparato constituído por dois compartimentos prin-
distintos durante o procedimento de isolamento e preparo da cipais: uma célula de alta pressão e um gerador de pressão.
MAH para utilização como curativo biológico: A célula de pressão construída pela ISS® Inc. (Champaign,
1. No momento do isolamento da MAH; IL) foi descrita pela primeira vez por Paladini e Weber (1981),
2. Após utilização de solução antimicrobiana; sendo constituída por um bloco de aço vascomax. Cubetas em
3. Antes do preparo da embalagem final para utilização clínica. forma de garrafa (com volume em torno de 1,3 mL) foram
utilizadas para a pressurização da amostra de tecido. A célula
Os exames microbiológicos investigaram a presença de de pressão foi mantida conectada a um banho ultratermos-
bactérias aeróbicas, anaeróbicas e fungos. Tecidos contami- tato (Nova Ética) para manutenção da temperatura (25ºC)
nados por bactérias e/ou fungos foram desprezados, assim durante os experimentos. Neste trabalho, as amostras de MAH
como aqueles com impregnação de mecônio. Os exames foram foram pressurizadas a 276 Mega Pascal (MPa), por 90 min.
realizados no Laboratório de Análises Clínicas do HNMD.
2.6. AVALIAÇÃO DA
2.4. PREPARO DA MEMBRANA CAPACIDADE ESTERILIZANTE
AMNIÓTICA HUMANA PELO INSTITUTO DA ALTA PRESSÃO HIDROSTÁTICA
DE PESQUISAS BIOMÉDICAS Após o isolamento e preparo da MAH para uso como curativo
Sob condições estéreis, a placenta foi lavada em solução tam- biológico, avaliamos a eficiência da utilização da APH como método
pão fosfato-salino (PBS; pH 7,4) (Sigma-Aldrich) várias vezes de esterilização complementar do tecido mantido sob condições
para retirada de fragmentos celulares, sangue e coágulos; então, não estéreis (contaminação pelo ar ambiente). Para isso, foram
a membrana amniótica foi separada manualmente do córion. semeados fragmentos e lavados da MAH em diferentes meios de
A MAH foi incubada a 4ºC, por 24 h, em caixa cirúrgica estéril cultura de microrganismos. Cada meio de cultura para bactérias
em PBS contendo 10.000 UI de penicilina, 50 µg/mL de estrep- foi mantido sob condições ideais de temperatura e avaliado 24 e
tomicina, 2,5 µg/mL de anfotericina B e 2,5 µg/mL neomicina 48 h após a semeadura. Os meios de cultura para fungos foram
(Sigma-Aldrich). Após esse período, a MAH foi incubada em mantidos sob condições ideais de temperatura e avaliados diaria-
PBS contendo antibióticos nas concentrações já descritas e gli- mente por até 40 dias, conforme descrito pela ANVISA (2004).
cerol 90%, a 37ºC, por 2 h e lavada com PBS até total remoção Foram utilizados fragmentos de MAH com área de apro-
do glicerol (Sigma-Aldrich). Foi descelularizada em solução de ximadamente 3 × 3 cm (comprimento × largura). Fragmentos
tripsina-EDTA (0,05%, 0,02%) em PBS (pH 7,40) por 20 min de quatro grupos experimentais distintos foram submetidos
a 37ºC. Com a face estromal voltada para cima, foi realizada a à pressão hidrostática:
remoção mecânica das células utilizando um cell-scraper (Corning). • Grupo 1 (controle negativo), MAH manipulada de acordo
A MAH foi lavada com meio Eagle modificado por Dulbecco com a RDC nº 55 da ANVISA (2015), que dispõe sobre
(DMEM) e posteriormente com soro fisiológico estéril. as boas práticas em tecidos humanos para uso terapêutico;

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• Grupo 2 (controle positivo), MAH manipulada sob con- 4. Ágar MacConkey (para bacilos Gram negativos — ente-
dições não estéreis (manipulada fora da cabine de segu- robactérias e bacilos não fermentadores);
rança biológica); 5. Ágar sangue (para crescimento de microrganismos não
• Grupo 3, MAH contaminada com Staphylococcus aureus fastidiosos); e
subsp. Aureus Rosenbach (ATCC® 25923); 6. Ágar chocolate (para crescimento de microrganismos exigentes).
• Grupo 4, MAH contaminada com Escherichia coli (Migula)
Castellani e Chalmers (ATCC® 25922).
3. RESULTADOS
Os fragmentos foram divididos aleatoriamente em grupo
experimental (submetido à APH) e grupo controle (não
pressurizado). 3.1. AVALIAÇÃO DA EFICIÊNCIA DA
Os fragmentos de MAH foram pressurizados a 276 MPa ESTERILIZAÇÃO POR ALTA PRESSÃO
por 90 minutos e posteriormente semeados em meios de cul- HIDROSTÁTICA DA MEMBRANA
tura para crescimento de diferentes microrganismos. Para a AMNIÓTICA HUMANA CONTAMINADA
análise microbiológica do material pressurizado e dos con- POR EXPOSIÇÃO AO AR AMBIENTE
troles experimentais foram usados os seguintes meios: A Tabela 1 demonstra a eficiência da pressurização na este-
1. Caldo tioglicolato sem indicador (meio para crescimento rilização da MAH com contaminação ambiental: em todos
de microrganismos anaeróbios exigentes); os meios de cultura avaliados neste grupo não foi observada a
2. Caldo “infusão de cérebro e coração” (brain heart infusion – presença de bactérias e/ou fungos. Na Figura 1, estão ilustra-
BHI) (meio para cultivo de estreptococcos, pneumoco- dos os meios de cultivo ágar sangue e ágar chocolate 48 h após
cos, meningococos, enterobactérias, não fermentadores, semeadura da MAH contaminada com ar ambiente (Figuras 1A
leveduras e fungos); e 1B), em que foi observado o crescimento de microrganis-
3. Ágar Sabouraud (meio para crescimento de espécies de mos; da MAH estéril (Figuras 1C e 1D), com ausência de
Candida e fungos filamentosos, particularmente associa- microrganismos; e da MAH contaminada com ambiente, mas
dos a infecções superficiais); pressurizada (Figuras 1E e 1F), descontaminada.

Tabela 1. Eficiência da esterilização complementar por alta pressão hidrostática de membrana amniótica humana
contaminada por exposição ao ar do ambiente.

Meio de crescimento Controle positivo1 Controle negativo2 Pressão hidrostática3

Leitura 24 h 48 h 24 h 48 h 24 h 48 h
Ágar sangue + + - - - -

Ágar chocolate + + - - - -

Ágar MacConkey + + - - - -

Ágar sabouraud + + - - - -

Caldo BHI + + - - - -

Caldo tioglicolato + + - - - -
BHI: caldo “infusão de cérebro e coração”; 1Controle positivo, corresponde à avaliação da contaminação da membrana
amniótica humana por exposição ao ar ambiente; 2controle negativo, corresponde à avaliação da membrana amniótica
humana comprovadamente estéril por testes microbiológicos anteriores; 3corresponde à membrana amniótica humana
contaminada por exposição ao ar ambiente e pressurizada 276 MPa por 90  min; MPa: Mega Pascoal; h: horas. Todos os
experimentos foram realizados em triplicatas. A avaliação da contaminação de ágar Sabouraud foi realizada diariamente por
40 dias; a avaliação da contaminação de caldo “infusão de cérebro e coração” foi realizada até o quinto dia após semeadura.

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(MAH contaminação ambiental) A B


Controle positivo

C D
Controle negativo
(MAH estéril)

E F
(276 Mpa — 90 min)
MAH pressurizada

MAH: membrana amniótica humana; MPa: Mega Pascoal; h: horas.

Figura 1. Descontaminação da membrana amniótica humana exposta ao ar ambiente após pressurização. Em A e


B, os meios de cultura onde foram semeados fragmentos e lavados de membrana amniótica humana manipulada
sob condições não estéreis exibem colônias de bactérias, indicando a contaminação do tecido. Em C e D, os
controles negativos, meios de cultura onde foram semeados fragmentos e lavados de membrana amniótica humana
sob condições estéreis não exibem contaminação; e em E e F, a ausência de microrganismos nas culturas revela a
descontaminação da membrana amniótica humana exposta ao ar ambiente após pressurização. Em A, C e E, o meio
de cultivo avaliado é ágar sangue; em B, D e F, ágar chocolate.

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3.2. AVALIAÇÃO DA EFICIÊNCIA DA uma espécie de bactéria frequentemente encontrada na pele


ESTERILIZAÇÃO POR ALTA PRESSÃO e nas fossas nasais de pessoas saudáveis. A Figura 3 mos-
HIDROSTÁTICA DA MEMBRANA tra que a APH aplicada não foi capaz de descontaminar a
AMNIÓTICA HUMANA CONTAMINADA MAH, uma vez que foram observadas colônias de bacté-
COM ESCHERICHIA COLI (ATCC® 25922) rias nos meios de cultivo avaliados 24 e 48 h após semea-
A MAH manipulada em ambiente estéril foi contaminada em dura (Figura 3).
seguida com Escherichia coli (E. coli), uma espécie de bactéria que
habita o trato intestinal de mamíferos. Conforme demonstrado na
Figura 2, a APH foi capaz de induzir a descontaminação da MAH 4. DISCUSSÃO
pela E. coli, uma vez que não foi observado o crescimento de bac-
térias nos meios de cultivo 24 e 48 h após semeadura (Figura 2). Nos últimos anos, inúmeros trabalhos apontam a eficiên-
cia da utilização da APH em diferentes segmentos da área
3.3. AVALIAÇÃO DA EFICIÊNCIA DA biológica, incluindo:
ESTERILIZAÇÃO POR ALTA PRESSÃO 1. A produção de preparações farmacêuticas microbiologi-
HIDROSTÁTICA DA MEMBRANA camente seguras (RIGALDIE et al., 2003);
AMNIÓTICA HUMANA CONTAMINADA COM 2. A esterilização de equipamentos médicos, biomateriais
STAPHYLOCOCCUS AUREUS (ATCC® 25923) ou compostos naturais (GOLLWITZER et al., 2009);
A MAH manipulada sob condições estéreis foi conta- 3. O desenvolvimento de vacinas (SHEARER; KNIEL,
minada em seguida com Staphylococcus aureus (S. aureus), 2009; DUMARD et al., 2013);

A B C

Meio de crescimento Controle positivo1 Controle negativo2 Pressão hidrostática3

Leitura 24 h 48 h 24 h 48 h 24 h 48 h
Ágar sangue + + - - - -

Ágar chocolate + + - - - -

MPa: Mega Pascoal; h: horas; 1controle positivo, corresponde à avaliação da contaminação da membrana amniótica
humana por exposição ao ar ambiente; 2controle negativo, corresponde à avaliação da membrana amniótica humana
comprovadamente estéril por testes microbiológicos anteriores; 3corresponde à membrana  amniótica
humana contaminada por exposição ao ar ambiente e pressurizada 276 MPa por 90 min.

Figura 2. Descontaminação da membrana amniótica humana exposta a Escherichia coli após pressurização. Em A,
controle positivo, crescimento de Escherichia coli em ágar sangue semeado com fragmentos e lavados de membrana
amniótica humana contaminada com a bactéria. Em B e C, ágar sangue e ágar chocolate, respectivamente, ilustram
a descontaminação da membrana amniótica humana exposta à Escherichia coli, mas pressurizada a 276 MPa com a
ausência de microrganismos 48 horas após semeadura. Em D, tabela resumida da avaliação da contaminação por
Escherichia coli e descontaminação da membrana amniótica humana após pressurização a 276 MPa.

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4. A extração de componentes celulares e a descelularização 2. A fase de crescimento em que se encontram os microrga-


de tecidos para enxertia (GROSS et al., 2008). nismos (células na fase estacionária são menos sensíveis
à APH) (MCCLEMENTS et al., 2001);
As particularidades da APH tornaram os processos, que 3. A associação do uso da pressão com outro tratamento físico
se baseiam nessa ferramenta, mais atraentes para aplicação ou químico (por exemplo, radiação ionizante e adição de anti-
em biociências, particularmente para o desenvolvimento de microbianos) (YUSTE et al., 2001; ANANOU et al., 2010);
métodos de inativação de patógenos para alimentos ou mate- 4. A escolha dos parâmetros do processo de utilização da pressão
riais biológicos (LEMAY, 2002; TINTCHEV et al., 2010). hidrostática (BUZRUL et al., 2008; DONSI et al., 2010).
Para o controle de microrganismos, a efetividade da APH
é influenciada por distintos fatores durante o processo de A forma mais provável de contaminação da MAH durante
pressurização, como nível de pressão, temperatura e tempo o processamento é pela exposição ao ar ambiente. Nossos resul-
de exposição (ZHOU et al., 2010). tados demonstraram que a APH utilizada neste estudo
Bactérias são, geralmente, sensíveis à pressão hidrostática (276 MPa) foi capaz de descontaminar a MAH exposta a
na faixa de 200 a 600 MPa, dependendo de diferentes fatores: microrganismos presentes no ar ambiente e a contaminada
1. A espécie (bactérias Gram-positivas são mais resistentes com E. coli, mas não foi capaz de reduzir a contaminação da
à pressão do que as Gram-negativas; e os cocos são mais MAH pela S. aureus, uma bactéria Gram-positiva descrita
resistentes do que os bacilos) (SHIGEHISA et al., 1991; com mais resistente à APH. A literatura mostra que a faixa
PILAVTEPE-CELIK et al., 2008); de pressão para inativar a E. coli varia de acordo com o meio

A B C

Meio de crescimento Controle positivo1 Controle negativo2 Pressão hidrostática3

Leitura 24 h 48 h 24 h 48 h 24 h 48 h
Ágar sangue + + - - + +

Ágar chocolate + + - - + +

MPa: Mega Pascoal; h: horas; 1controle positivo, corresponde à avaliação da contaminação da membrana amniótica
humana por exposição ao ar ambiente; 2controle negativo, corresponde à avaliação da membrana amniótica
humana comprovadamente estéril por testes microbiológicos anteriores; 3corresponde à membrana amniótica
humana contaminada por exposição ao ar ambiente e pressurizada 276 MPa por 90 min.

Figura 3. A alta pressão hidrostática (276 MPa) não descontamina a membrana amniótica humana exposta a
Staphylococcus aureus. Em A, controle positivo, crescimento de Staphylococcus aureus em ágar sangue semeado
com fragmentos e lavados de membrana amniótica humana contaminada com a bactéria. Em B e C, ágar sangue e
ágar chocolate, respectivamente, ilustram a presença da Staphylococcus aureus na membrana amniótica humana
contaminada e pressurizada a 276 MPa, 48 h após semeadura. Em D, tabela resumida da avaliação da contaminação
por Staphylococcus aureus da membrana amniótica humana após pressurização a 276 MPa.

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no qual ela está presente (FONBERG-BROCZEK et al., organização e à composição de proteínas de matriz extracelular
2005; VAN OPSTAL et al., 2005). que constituem a MAH, contudo novos experimentos ainda pre-
A APH na faixa utilizada não foi capaz de esterilizar as cisam ser realizados para confirmação e divulgação dos resultados.
amostras contaminadas com S. aureus. Yao e colaboradores, em A MAH para utilização como curativo biológico é oriunda
2015, chegaram à redução de 3 logs da carga bacteriana utili- de placentas de doadoras que exibiram sorologia negativa para
zando 350 MPa por 6 min, em associação com o tratamento uma série de patógenos, antes e seis meses após o parto cesá-
com 500 ppm de nisina (YAO et al., 2015). Wanga e colabo- reo. Além disso, todo o processamento da MAH é realizado em
radores, em 2010, observaram a redução de 8 logs utilizando ambiente estéril e, durante o processo, são realizados contro-
300 MPa associado a 1,2 NL/L CO2 e a redução de 2,2 logs les microbiológicos que confirmam a esterilidade do material.
utilizando 300 MPa sem associação (WANG et al., 2010). Desse modo, a utilização da APH como método de esterilização
Fioretto et al. (2005) demonstraram a inativação com 3 ciclos complementar corrobora a descontaminação do curativo bioló-
de 15 min a 450 MPa. Gervilla et al., em 2000, compilaram gico sem que haja comprometimento macroestrutural do tecido.
trabalhos que mostram que pressões acima de 500 MPa estão na
faixa que melhor apresenta resultados para inativação. Visto que
utilizamos 276 Mpa, precisamos aumentar a faixa de pressão 5. CONCLUSÕES
utilizada para inativar essa bactéria (GERVILLA et al., 2000).
Esporos e bactérias Gram-positivas são em média mais O grande potencial e a aplicabilidade da APH como ferra-
resistentes ao tratamento por pressão do que bactérias Gram- menta de esterilização a tornam extremamente atraente para a
negativas. A maior resistência de bactérias Gram-positivas pesquisa em diferentes áreas, como a indústria alimentícia, indús-
pode estar relacionada à rigidez dos ácidos teicoicos na camada tria farmacêutica e a bioengenharia de tecidos. Neste estudo,
de peptidoglicano da parede celular (ARROYO et al., 1999). mostramos que a APH é uma alternativa promissora para este-
Logo, o resultado que encontramos é condizente com a literatura. rilização da MAH, utilizada como eficiente curativo biológico
Os testes que avaliam a preservação da estrutura macroscópica em feridas crônicas. Embora mais estudos sejam necessários
e microscópica da MAH submetida à APH estão em andamento. para avaliar a gama de patógenos que podem estar presentes
De acordo com observações a olho nu, o material pressurizado não na MAH, os resultados aqui apresentados parecem ser o pri-
exibe alterações em relação ao material pós-processamento. Os pri- meiro registro na literatura de uma alternativa física, efetiva
meiros testes histoquímicos não apontam modificações quanto à e de baixo custo de esterilização complementar para MAH.

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DESEMPENHO HUMANO E SAÚDE

ANÁLISE SIMULTÂNEA
DE TETRAHIDROCANABINOL E
CARBOXI-TETRAHIDROCANABINOL
EM AMOSTRAS DE URINA
A simultaneous analysis of tetrahydrocannabinol
and carboxy-tetrahydrocannabinol in urine samples

Carla Sales Maia1, Daniel Filisberto Schulz2, Cláudio Cerqueira Lopes3,


Rosângela Sabbatini Capella Lopes4, André Luiz Mazzei Albert5

Resumo: A Cannabis continua sendo a droga mais utilizada no Abstract: Cannabis is the most commonly used drug in the world,
mundo, computando cerca de 183 milhões usuários em 2014. with about 183 million users in 2014. Δ9-tetrahydrocannabinol
O  Δ9-tetrahidrocanabinol (THC), principal substância ativa da (THC), its primary psychoactive constituent, is associated with
erva, está relacionado a uma variedade de efeitos adversos, incluindo a variety of adverse effects including cognitive and memory
comprometimento cognitivo e da memória, interferindo negativa- damage, which negatively interferes in the lives of users. The pur-
mente na vida dos usuários. A proposta deste trabalho foi estudar pose of this work was to study the efficiency of ion exchange
a eficiência de resinas de troca iônica na análise simultânea da pre- resins in the simultaneous analysis of the presence of THC and
sença de THC e seu principal metabólito, 11-nor-9-carboxi-Δ9-­ its main metabolite, 11-nor-9-carboxy-Δ9-tetrahydrocannabinol
tetrahidrocanabinol (THC-COOH), em urina, por meio de diver- (THC-COOH), in urine, through several solvent systems, and to
sos sistemas de solvente e avaliá-lo por cromatografia líquida de alta evaluate it using high performance liquid chromatography tan-
eficiência acoplada à espectrometria de massas em série. A melhor dem mass spectrometry. The best condition with the resin sho-
condição de trabalho com a resina apresentou uma recuperação wed a simultaneous recovery of THC and THC-COOH from
simultânea do THC e THC-COOH de 76 a 105% e 84 a 96%, res- 76 to 105% and from 84 to 96%, respectively, for urine concen-
pectivamente, para as concentrações na urina de 25 e 100 ng.mL‑1. trations of 25 and 100 ng.mL-1. The methodology developed sho-
A metodologia desenvolvida apresentou alta especificidade para a wed high specificity for the research of this chemical species in
pesquisa das espécies químicas de interesse em amostras de urina. urine samples.
Palavras-chave: Cannabis. Extração em fase sólida. Espectrometria Keywords: Cannabis. Solid-phase extraction. Tandem mass
de massas em série. spectrometry.

1. Farmacêutica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mestre pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Instituto de Pesquisas Biomédicas, Hospital Naval
Marcílio Dias – Rio de Janeiro, RJ – Brasil. E-mail: carla.maia@marinha.mil.br
2. Doutor pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Encarregado da Seção de Bioanálises no Instituto de Pesquisas Biomédicas, Hospital Naval Marcílio Dias – Rio de
Janeiro, RJ – Brasil. E-mail: daniel.schulz@marinha.mil.br
3. Doutor pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professor associado no Instituto de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro – Rio de Janeiro, RJ –
Brasil. E-mail: claudiosabbatini@uol.com.br
4. Doutora pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professora Associada IV no Instituto de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro – Rio de Janeiro,
RJ – Brasil. E-mail: claudiosabbatini@uol.com.br
5. Doutor pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Pesquisador Sênior na FIOCRUZ – Rio de Janeiro, RJ – Brasil. E-mail: mazzei@gmail.com

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1. INTRODUÇÃO originar substância entorpecente e/ou psicotrópica (BRASIL,


1998). Contudo, há um movimento do Ministério Público
Estima-se que um quarto da população mundial, com Federal (MPF) junto à Agência Nacional de Vigilância
idade entre 15 e 64 anos, tenha utilizado pelo menos um Sanitária (Anvisa) para ampliação das pesquisas com a droga
tipo de droga ilícita em 2014. Os impactos desse consumo com foco em suas propiedades terapêuticas. As ações na esfera
são devastadores para saúde, com 207.400 mortes registradas nacional têm o objetivo de investir na produção de novos
relacionadas ao abuso de drogas, além da associação com risco medicamentos para o tratamento de doenças como câncer e
aumentado de infecção pelo vírus HIV. A Cannabis destaca- mal de Parkinson (LEITE, 2017). Em modelos experimen-
se como a droga mais utilizada no mundo, computando cerca tais, a Cannabis exibe um efeito neuroprotetor com poten-
de 183 milhões usuários somente em 2014 (UNODC, 2016). cial para tratamento de doenças neurodegenerativas como
A exemplo de outras drogas, como o ópio, a Cannabis tem Huntington, Alzheimer, doenças neuromotoras, esclerose
uso medicinal bastante amplo. Um dos primeiros relatos de múltipla e acidente vascular encefálico (BAKER et al., 2003),
sua utilização como medicamento ocorreu na China, há cerca somada aos relatos de sucesso do uso ilegal e sem orientação
de 5 mil anos, quando a planta foi recomendada para o trata- médica para o tratamento de epilepsia e autismo regressivo
mento de malária, constipação, dores reumáticas e no parto, (LOPES, 2014). Essas evidências têm motivado partidos
sendo ainda misturada com vinho para atuar como anesté- políticos e grupos sociais a pleitear a liberação da droga para
sico em cirurgias primitivas. No século XIX, foi descrita a fins terapêuticos no país junto às instâncias jurídicas supe-
utilização dessa erva na Índia por sua ação como analgésico, riores (CONSULTÓRIO JURÍDICO, 2017).
anticonvulsivante, antiespasmódico, antiemético e hipnó- Norte-americanos buscam a legalização da Cannabis para
tico. Entretanto, no início do século XX, devido à potência fins medicinais por conta de seus efeitos analgésicos, pelo
variável das preparações, baixa estabilidade na armazena- aumento do apetite e pela redução da pressão intraocular.
gem, resposta imprevisível na administração oral e disponi- Contudo, a Cannabis é uma planta que exibe propriedades
bilidade de alternativas sintéticas mais eficazes, associadas a psicoativas, associadas com a distorção do tempo, diminuição
pressões comerciais quanto ao uso recreacional da Cannabis, da percepção sensorial, perda de coordenação, crises de ansie-
essas aplicações terapêuticas foram preteridas. Em 1928, a dade e de pânico. Seu uso crônico está relacionado a uma varie-
erva foi banida pela ratificação das decisões da Convenção dade de efeitos adversos, incluindo comprometimento cogni-
de Genebra, havendo sanções impeditivas de produção, venda tivo, da memória, e da capacidade de tomada de decisão, além
e transporte, considerada uma droga nociva para o consumo. do aumento do risco de desenvolvimento de transtornos psi-
A prescrição da Cannabis ainda foi possível até a proibição quiátricos (HALL; DEGENHARDT, 2009; LI et al., 2012).
em 1971 (ROBSON, 2001). Deve-se esclarecer que efeitos terapêuticos para trata-
A Cannabis sativa L. (Cannabaceae) está intimamente mento da eplepsia e outras desordens neurológicas atribuí-
relacionada à história do Brasil, e esta teve início em 1500, dos à C. sativa não estão relacionados à principal substância
quando as caravelas portuguesas, com suas velas e cordas psicoativa, o Δ9-tetrahidrocanabinol (THC), mas principal-
confeccionadas da fibra de cânhamo, chegaram à nova terra. mente ao canabidiol (CBD), um canabinoide sem atividade
Porém, a planta foi introduzida no País a partir de 1549 por psicoativa (DEVINSKY et al., 2014). Diante disso, esfor-
escravos africanos. O uso medicinal permitiu sua difusão, ços estariam sendo feitos para obtenção de uma forrmula-
sendo indicada para asma e insônia. Na década de 1930, seu ção com alto teor de CBD e baixo teor de THC para trata-
efeito hipnótico e sedativo variado já sugeria cautela por parte mento dessas doenças.
da classe médica. Foi também nessa década que a repres- Estudos epidemiológicos demonstram que o consumo
são contra maconha foi iniciada, a partir das orientações da de Cannabis e suas preparações está associado a um signi-
Convenção de Genebra (CARLINI, 2006). ficativo risco de acidentes de trânsito, e esse risco aumenta
Atualmente, a importação, a exportação, o comércio e a progressivamente com a frequência de consumo, pela dimi-
manipulação da planta são proibidos no Brasil. Salvo enten- nuição da capacidade de condução. Nos Estados Unidos, o
dimentos legais, em matéria específica, a planta é proibida por uso recreativo da droga e o acesso facilitado com finalidades

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terapêuticas, associado com álcool e outras substâncias ilíci- baixas concentrações da substância ativa e seus metabólitos
tas, são apontados como causas de acidentes automobilísti- nas matrizes biológicas (PASSAGLI, 2011).
cos (LI et al., 2012). A extração, concentração e eliminação de impurezas
Governos, instituições privadas e outras organizações têm presentes nas matrizes complexas estão entre as fases mais
implantado rigorosos programas para desencorajar a utilização importantes da marcha analítica para obtenção de resultados
da droga e acompanhar os casos de abstinência. As implica- confiáveis. Para tanto, deve-se realizar um criterioso trata-
ções incluem desde perda do emprego, licença para dirigir, mento dessas amostras nas etapas pré-analíticas, evitando que
multas e até prisão (MUSSHOFF; MADEA, 2007). A subs- a presença de interferentes comprometa as análises, gerando
tância ativa da Cannabis e suas preparações também fazem dados falsos, decorrentes de coeluição e supressão iônica,
parte da lista de substâncias proibidas pela Agência Mundial principalmente, em amostras nas quais a concentração real
Anti-doping (AMA), pelo inquestionável prejuízo à saúde das moléculas de interesse já é muito baixa.
dos atletas (BRENNEISEN et al., 2010). A extração em fase sólida (EFS) é uma técnica de extra-
Nesse contexto, a constatação do consumo de drogas ção líquido-sólido baseada nos princípios de separação da
está inserida na área forense e toxicológica, na detecção e no cromatografia líquida clássica. A amostra, na forma líquida,
acompanhamento do consumo no ambiente laboral, além contendo o analito de interesse, é colocada em um cartucho
de ganhar destaque em questões de segurança no trânsito contendo uma fase sólida, também chamada de sorbente, e
e na aviação e em assuntos envolvendo custódia de meno- as substâncias de interesse são isoladas da matriz complexa
res, e apresenta-se como uma importante ferramenta para o (LANÇAS, 2004). O procedimento de EFS é usado não
profissional de saúde, no monitoramento do tratamento do somente para extração de traços orgânicos, mas também na
dependente químico. eliminação de interferentes (GONZÁLEZ; ARRIBAS, 2000).
A detecção do uso de Cannabis depende principalmente Trocadores iônicos são materiais sólidos insolúveis que,
da dose, da sensibilidade do método de análise, mas, também, dependendo da natureza, podem realizar troca de cátions,
da preparação, via de administração, duração de uso (agudo ânions ou ambos (anfóteros). As espécies removidas da solu-
ou crônico), da matriz biológica eleita para constatação do ção são substituídas por quantidades estequiométricas equi-
consumo e das variações interindividuais do metabolismo. valentes às espécies iônicas de mesma carga. Um excesso de
O THC, principal substância responsável pelos efeitos psi- carga positiva ou negativa é compensado por um contra-íon
coativos da C. sativa, e seu metabólito ácido inativo, 11-nor- de sinal contrário e esses podem ser removidos e substituí-
9-carboxi-Δ9-tetrahidrocanabinol (THC-COOH), são excre- dos por outros de mesmo sinal, presentes em solução, garan-
tados na urina (GROTENHERMEN, 2005), sendo essa a tindo o equilíbrio do sistema. Portanto, esse é um processo de
principal matriz para detecção de THC e THC-COOH para difusão, estequiométrico, que depende da busca do equilíbrio
fins de caracterização de consumo da droga. eletrônico pela redistribuição dos contra-íons entre os poros,
A Substance Abuse & Mental Health Services Administration líquidos e solução (HELFFERICH, 1962).
(SAMSHA) recomenda um valor de corte de 15 ng.mL-1 de Uns dos materiais bastante utilizados na EFS são os tro-
THC-COOH na urina para um resultado positivo para uso cadores iônicos, que podem ser obtidos a partir de material
de canabinoides. Já a presença do THC na urina indica o sintético ou natural. As resinas produzidas a partir da poli-
consumo muito recente de Cannabis, evidenciado em estudos merização do estireno são as mais utilizadas. Nelas, os gru-
controlados com voluntários recebendo doses conhecidas de pos funcionais de troca são inseridos, conferindo caracterís-
THC, nos quais essa substância foi detectada nas cinco pri- tica de troca de cátions, ânions ou ambos (HABASHI, 1993
meiras horas após o uso (MANNO et al., 2001). apud RIANI, 2008). Tais polímeros consistem em uma estru-
São utilizadas diversas matrizes biológicas para detecção tura denominada matriz, que são formadas por uma rede
de THC e seus metabólitos, como sangue, urina, saliva, cabelo irregular de macromoléculas de cadeias de hidrocarbonetos
e mecônio. Em razão das características químicas do THC, que reúnem propriedades características em função da sua
essa substância é rapidamente biotransformada e distribuída estrutura. A matriz da resina é hidrofóbica e ligantes hidro-
para os tecidos e a determinação pode ser dificultada pelas fílicos são introduzidos pela incorporação de grupos iônicos

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como -NH3+ ou -SO3-. As resinas são insolúveis, por possuir saudáveis que declaram não ser usuários de Cannabis, fato
diversas cadeias de hidrocarbonetos organizadas em forma confirmado pela espectrometria de massas. As amostras foram
de rede, com propriedades elásticas e malha não uniforme, de preparadas em triplicata e identificadas conforme descrito a
maneira a acomodar o solvente. O comportamento da resina seguir. Branco fortificado: a 1 mL de controle negativo foram
é definido pelos grupos iônicos incorporados à matriz de adicionados 50 µL de solução MIX dos padrões 500 ng.mL-1.
hidrocarbonetos. A capacidade é determinada pelo número A adição dos padrões foi realizada antes da etapa de hidrólise.
de grupos iônicos e a natureza química dos grupos institui o Branco: 1 mL de controle negativo submetido ao processo de
equilíbrio e a seletividade da resina (HELFFERICH, 1962). extração, isento de padrão. Controle positivo: a 1 mL de con-
O uso de resinas de troca iônica pode ser aplicado na trole negativo foram adicionados 50 µL de solução do MIX
identificação de diferentes grupos moleculares e, associado à dos padrões após o procedimento de extração com a resina.
cromatografia líquida de alta eficiência (CLAE) acoplada à
espectrometria de massas, apresenta-se como uma ferramenta 2.4. Hidrólise
analítica eficaz para detecção de substâncias em matrizes com- Foram utilizados 100 µL de solução 10 N de NaOH nas
plexas. A proposta deste trabalho é apresentar o desenvolvi- amostras de urina e estas foram submetidas a aquecimento
mento de metodologia analítica para recuperação simultânea de a 60ºC por 20 minutos (HUQ et al., 2005) para promover
THC e seu principal metabólito a partir de amostras de urina a hidrólise do THC e THC-COOH conjugados ao ácido
enriquecidas com quantidade conhecida de padrão das subs- glicurônico, produto do metabolismo de biotransformação
tâncias de interesse, e assim padronizar o protocolo de análise. de fase II em animais e no homem.

2.5. Equipamentos e acessórios


2. MATERIAIS E MÉTODOS As amostras foram analisadas utilizando cromatógrafo
líquido de alta eficiência 1200 Series Agilent Technologies
2.1. Reagentes (Waldbronn, Alemanha) acoplado a espectrômetro de mas-
Os padrões certificados de THC (1,0 mg.mL-1), THC- sas sequencial API 3200, AB Sciex (Singapura), operando no
COOH (100,0 µg.mL-1) e o padrão interno THC-COOH – modo método multiple reaction monitoring (MRM) a partir
d3 (100 µg.mL-1) foram adquiridos da Cerilliant Corporation da utilização da fonte de ionização electrospray. As transi-
(EUA). Hidróxido de sódio, carbonato de sódio, ácido fórmico, ções monitoradas para as substâncias pesquisadas são apre-
formiato de amônio, resina Dowex Cl® 1×8 200-400 Mesh sentadas na Tabela 1.
e acetato de etila foram obtidos da SigmaAldrich (St. Louis, Sistema cromatografia líquida de alta eficiência acoplada
USA); bicarbonato de sódio, acetonitrila HPLC e hexano foram à espectrometria de massas em série (CLAE-EM/EM) –
adquiridos da J.T. Baker (USA); metanol HPLC foi adqui- O método contemplou dois períodos em uma única corrida
rido de J.T. Baker (México); ácido clorídrico, da MACRON cromatográfica, utilizando as polaridades negativas e positi-
(México); e STRATA X-C®, da Phenomenex USA. vas no modo MRM. Os parâmetros de fonte são descritos na
Tabela 2. No período 1, de 0 a 3,5 minutos, o detector E
­ M/­EM
2.2. Padrões operou no modo negativo para análise do THC-COOH.
MIX dos padrões de THC (1,0 mg.mL-1), THC-COOH No segundo período, de 3,5 a 10 minutos, o espectrômetro de
(100,0 µg.mL -1) e o padrão interno THC-COOH –d 3 massas operou no modo positivo para determinação do THC.
(100  ­µg.­mL-1) foram diluídos sucessivamente em metanol A separação cromatográfica foi realizada com uma
para obtenção das soluções de trabalho na concentração de coluna cromatográfica Kinetex® C18, 50 × 2,1 mm, 2,6 µm,
1,0 µg.mL-1. Phenomenex (EUA). A fase móvel utilizada foi solução aquosa
a 0,1% (v/v) de ácido fórmico, denominada fase A, e a fase
2.3. Amostras B, solução 0,1% (v/v) de ácido fórmico em acetonitrila, com
Para o controle negativo foi utilizado um conjunto equiva- fluxo de 450 µL.min-1, volume de injeção de 3 µL e tempe-
lente a cinco amostras de urina, “pool”, obtidas de voluntários ratura do forno da coluna de 20ºC.

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Tabela 1. Transições monitoradas no modo monitoramento 2.6. Extração em fase sólida


de reações múltiplas com suas respectivas energias de O trabalho foi iniciado comparando-se a eficiência de
colisão e potencial aplicado na entrada da cela de colisão.
recuperação do THC e do THC-COOH simultaneamente
Transição em amostras de urina com duas resinas de troca iônica:
Peso
Nome PEC EC (1) Strata X‑C®, com 60 mg de sorbente de troca catiônica;
molecular Massa Massa
Q1 (Da) Q3 (Da) (2) resinaDowex Cl® 1×8 200-400 Mesh, troca aniônica nas
THC- quantidades 60 mg e 200 g (Sigma Aldrich, Brasil), empaco-
245,0 -34
COOH 1 tados no próprio laboratório (experimentos 1 e 2).
THC- 343,0 O parâmetro selecionado para avaliação da performance
344 299,0* -32,4 -15,07
COOH 2 [M-H]- das resinas foi a razão entre as áreas do branco fortificado e
THC- do controle positivo.
191,0 -26,50
COOH 3 No experimento 1, foram utilizados os cartuchos comerciais
THC 1 193,0* 31 STRATA X-C® 60 mg, condicionados com 1 mL de meta-
315,0
THC 2 315 123,0 19,11 37 nol e solução 0,1 M de HCl. À amostra resfriada à tempera-
[M+H]+
THC 3 93,0 33 tura ambiente, foi acrescido 1 mL de solução de 50% de ácido
THC: Δ9-tetrahidrocanabinol; THC-COOH: 11-nor-9- fórmico e essa solução (pH 3 a 4) foi adicionada no cartucho.
carboxi-Δ9-tetrahidrocanabinol; PEC: potencial na A resina foi lavada com 1 mL de solução 0,1 M de HCl e 1 mL
entrada da célula; EC: energia de colisão; *íons produto de solução 0,1 M de HCl/acetonitrila (80:20, v/v). O cartu-
mais intensos utilizados para quantificar as substâncias. cho foi seco, sob vácuo, por 15 minutos, e eluído com 1 mL
de solução 4% de ácido acético em acetonitrila (v/v) 2 vezes.
No experimento 2, os cartuchos empacotados no laborató-
Tabela 2. Parâmetros de interface cromatografia líquida rio com 60 mg de resina de troca aniônica Dowex Cl® foram
de alta eficiência acoplada à espectrometria de massas condicionados com 1 mL de metanol e, posteriormente, com
em série para o método final no modo monitoramento de
1 mL de solução 25 mM de formiato de amônio. À amos-
reações múltiplas.
tra, foram acrescidos 3 mL de solução tampão bicarbonato
THC THC-COOH 0,1 M e adicionada lentamente no cartucho. A resina foi
Parâmetros
(modo positivo) (modo negativo)
lavada com 1 mL de solução 25 mM de formiato de amônio
CUR (psi) 12 12 e 1 mL de solução de formiato de amônio/ACN (80:20, v/v).
TEM (ºC) 700 700 Posteriormente, o cartucho foi seco, sob vácuo, por 15 minu-
GS1 (psi) 50 50 tos, e eluído com 1 mL de solução 4% de ácido de acético
GS2 (psi) 40 40 em acetonitrila (v/v) 2 vezes. Os resultados foram compara-
DAC (psi) 3 3 dos e os experimentos subsequentes foram conduzidos com
a resina de troca aniônica Dowex Cl® 1×8 200-400 Mesh,
IS (V) 5500 -4500
alterando-se as etapas do processo de extração com a finali-
PE (V) 10 -7.5
dade de obter a melhor condição de recuperação simultânea
PD (V) 61 -55
dos analitos pela resina. No experimento 3, procedeu-se da
PEC (V) 19,11 -32,14 mesma forma que no experimento 2, diferindo na quantidade
CXP (V) 3 -4 de sorbente no cartucho, alterada de 60 para 200 mg. Para os
THC: Δ9-tetrahidrocanabinol; THC-COOH: 11-nor-9- demais experimentos, padronizou-se 60 mg de resina Dowex
carboxi-Δ9-tetrahidrocanabinol; CUR: gás Curtain; Cl®. O experimento 4 consistiu dos mesmos procedimentos do
TEM:  temperatura da turbo; GS1: gás nebulizador 1;
experimento 2, acrescido à etapa de eluição, o volume de 1 mL
GS2: gás auxiliar 2; DAC: dissociação por ativação colisional;
de hexano/acetato de etila (1:1 v/v). No experimento 5, foram
IS:  ionização electrospray; PE: potencial de entrada;
PD:  potencial declustering; PEC: potencial na entrada da mantidas as condições do experimento 4, mas a água (pH 4
célula; CXP: potencial de saída da célula de colisão. a 5) foi utilizada nas etapas de condicionamento e lavagem.

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No experimento 6, foram conservados os procedimentos do do preparo da EFS, obedecendo às concentrações iniciais para
experimento 4, substituindo apenas 1 mL de hexano/acetato realizar a comparação, conforme a Equação 1:
de etila (1:1 v/v) por 1 mL de hexano/isopropanol (1:1 v/v).
Finalmente, no experimento 7, foram repetidos os mesmos Recuperação (%) = Área da amostra fortificada antes × 100
(1)
procedimentos do ensaio analítico 4, substituindo-se a solu- Amostra fortificada depois
ção de eluição de 4% (v/v) de ácido acético pela solução 5%
(v/v) de ácido fórmico em acetonitrila, mantendo-se a etapa A literatura técnica recomenda, para essa faixa de concentra-
subsequente, com 1 mL de hexano/acetato de etila (1:1 v/v). ção, valores aceitáveis de recuperação entre 70 e 120% (RIBANI
Para avaliação comparativa das variâncias entre os expe- et al., 2004). Portanto, os resultados obtidos para esse parâmetro
rimentos, foi aplicado o teste estatístico F. estão dentro dos critérios de anuência praticados. Os resultados
para os ensaios de recuperação são apresentados na Tabela 3.

3. RESULTADOS 90
80
A resina de troca aniônica Dowex Cl® 1×8 200-400 Mesh® 70
apresentou recuperações de 64,42 e 76,45% para o THC‑COOH 60
e THC, respectivamente. Na resina de troca catiônica, não foi 50
%
alcançado o objetivo de recuperar os dois analitos simultanea- 40
30
mente, com obtenção de um rendimento de THC muito baixo
20
(8,21%). Aplicado o teste estatístico F, não foram observadas
10
diferenças entre os experimentos utilizando 200 e 60 mg de 0
resina Dowex Cl (experimentos 2 e 3), por isso, os demais ensaios
1

7
to

to
to

to

to

to
to
prosseguiram utilizando 60 mg de resina de aniônica.
en

en
en

en

en

en
en
im

im
im

im

im

im
im

Observou-se que após a eluição com 4% (v/v) de ácido


er

er
er

er

er

er
er
p

p
p

p
p
ex

ex
ex

ex

ex

ex
ex

acético em acetonitrila (experimento 2), a adição de 1 mL de


11-nor-9-carboxi-Δ9-tetrahidrocanabinol
hexano:acetato de etila (1:1 v/v) ( experimento 4) melhorava (THC-COOH)
a recuperação de ambas as substâncias e, portanto, essa etapa Δ9-tetrahidrocanabinol (THC)
foi incluída ao processo. Foi testado ácido fórmico 5% em
substituição ao ácido acético e, assim, melhores rendimentos Figura 1. Perfil comparativo entre os experimentos na
recuperação de 11-nor-9-carboxi-Δ9-tetrahidrocanabinol e
foram alcançados com as condições analíticas do experimento
Δ9-tetrahidrocanabinol.
7, obtendo-se 87,57 e 76,02% de THC-COOH e THC, res-
pectivamente, na concentração de 25 ng.mL-1 dos padrões
das espécies químicas pesquisadas na amostra. Na Figura 1 Tabela 3. Resultados dos ensaios de recuperação
para 11-nor-9-carboxi-Δ9-tetrahidrocanabinol e
são ilustradas as recuperações obtidas em cada experimento
Δ9-tetrahidrocanabinol em três diferentes faixas
de otimização das resinas. de concentração.
A análise da recuperação foi realizada em amostras de
Recuperação (%)
urina de voluntários saudáveis, não usuários da droga, forti-
Analitos 25 50 100
ficadas com quantidades conhecidas dos padrões de THC e
seu metabólito, antes da etapa de hidrólise e após o procedi- ng.mL-1 ng.mL-1 ng.mL-1

mento de recuperação após clean up com a resina. 11-nor-9-carboxi-Δ9-


Os resultados foram obtidos a partir da razão entre as áreas tetrahidrocanabinol 83,68 88,86 96,15
(THC-COOH)
de seis amostras de controle negativo de urina fortificadas em
três níveis de concentração, antes do procedimento de hidrólise, Δ9-tetrahidrocanabinol
76,02 79,52 104,85
(THC)
comparada com as áreas de três amostras fortificadas depois

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4. DISCUSSÃO THC-COOH, a densidade eletrônica da carboxila estabi-


liza a carga positiva no oxigênio protonado em meio ácido,
Empregam-se cartuchos de EFS com os polímeros C18 e dificultando a abertura do anel.
C8 na etapa de clean up (ROBAND; KLETTE; SIBUM, 2009; A aplicação das resinas para separação de íons é proveniente
WEINMANN et al., 2000), mas cartuchos de EFS utilizando da diferença nas constantes de carga para várias espécies iônicas
sorbentes específicos para canabinoides são empregados para e da facilidade com que essas espécies podem ser separadas da
melhorar o rendimento das análises (ABRAHAM et al., 2007). fase líquida (TOMPKINS, 1950). Neste trabalho, com a resina
Para eleição do melhor processo de recuperação e clean up de troca aniônica, foram obtidos bons resultados nos ensaios
da amostra, foi necessário considerar o comportamento das preliminares e isso se deve às características químicas dos ana-
moléculas pesquisadas em solução, nas diferentes condições litos alvo. A presença do fenol e da carboxila na estrutura do
de pH e, com base nesses parâmetros, propor sistemas de sol- THC e do THC-COOH, respectivamente, conferem a essas
vente que atendessem ao propósito da recuperação simultâ- moléculas características de ácidos fracos. O ajuste de pH para
nea das substâncias pesquisadas na urina. obtenção do THC e THC-COOH na forma ionizada per-
As estruturas do THC e THC-COOH não apresentam mitiu que os íons fenoxilato e carboxilato ficassem retidos na
sítios trocadores nas moléculas que possam interagir com os fase fortemente aniônica da resina, um sal quaternário de amô-
trocadores catiônicos. Contudo, há uma considerável recupe- nio. Provavelmente, também há considerável interação entre o
ração do THC-COOH, que provavelmente ocorre devido às polímero de polivinilbenzeno com a cadeia alquila lateral e os
interações hidrofóbicas entre a resina de polivinilbenzeno com o anéis não aromáticos presentes nas estruturas das substâncias
metabólito. Análises realizadas por Huq et al. (2005) nas mesmas estudadas. As espécies interferentes são eliminadas por não
condições com amostras de urina para análise THC-COOH possuírem afinidade com a superfície trocadora de íons ou nas
demonstram resultados convergentes aos apresentados neste etapas de lavagem. A etapa de eluição permite a recuperação
trabalho. Esses autores defendem a hipótese de que a natureza dos analitos, na ausência de interferentes (Figura 3).
estrutural do metabólito, com dois anéis não aromáticos e uma Foram realizados ensaios em paralelo com 60 e 200 mg
cadeia alquila lateral, são capazes de interagir fortemente por da resina de troca aniônica Dowex®, que possui grande capa-
meio de dispersivas ligações tipo π-π, com o polímero divinil- cidade de troca, maior que 1,2 meq.mL-1 (especificações do
benzeno na matriz da resina, e especula-se a possibilidade de fabricante). Dessa forma, por questões ambientais e de custo,
interação entre o anel benzeno ligado ao grupo sulfônico, defi- relacionados ao gerenciamento de resíduos, optou-se pela
ciente eletronicamente, com o anel aromático do THC-COOH. padronização de 60 mg de resina de troca aniônica para dar
A recuperação THC pelo trocador catiônico foi muito prosseguimento à otimização.
pequena. As interações hidrofóbicas descritas por Huq et al. O extrato proveniente da hidrólise alcalina de 1 mL de
(2005) possivelmente ocorrem de forma similar com THC, urina com solução de 10 N de NaOH, e, nessa condição
exceto pela troca pelo H do fenol, que exibe baixa acidez extrema, as moléculas de interesse na amostra hidrolisada
(pKa=9,34). Porém, a suposição para o baixo rendimento
encontra respaldo nas condições analíticas do sistema EFS, nas
etapas de condicionamento e lavagem com soluções 0,1 N de o o

HCl, favorecendo a hidrólise ácida do THC, levando a baixas R3 Cl– R2 Cl– R2 Cl– o– o –
o
o– o–

+ + + R3 R2 R2
recuperações do analito nessa matriz (Figura 2). No caso do R1 N R2 R1 N R2 R2 N R2
o
R1
+
N R2 R1
+
N R2 R2
+
N R2


o o
–3Cl–

o–

OH OH OH *
*
HC1 o

O O
H HO
Figura 3. Esquema ilustra as interações do 11-nor-
THC CBD
9-carboxi-Δ9-tetrahidrocanabinol (THC-COOH)
Figura 2. Degradação ácida do Δ9-tetrahidrocanabinol e Δ9-tetrahidrocanabinol (THC) com a resina de
(THC). troca aniônica.

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estavam como ânions em pH 10. Contudo, de forma pre- Em usuários cujo autorrelato corresponde a um con-
ventiva, o extrato de urina foi diluído em solução tampão sumo esporádico, o último resultado positivo após abstinên-
carbonato, com o objetivo de não danificar a matriz da resina. cia ocorre na média de 4,2 dias (3,3 a 4,5) e para usuários
Segundo Collins (1997), o íon OH- possui menor afini- frequentes, de 16,6 dias (4 a 28). Na urina, o THC-COOH
dade pela resina do que o íon Cl-, portanto, a troca, mesmo não é eliminado monotonamente e sua concentração pode
que parcial do Cl- pelo OH- na etapa de condicionamento, flutuar entre resultados positivos e negativos por alguns dias,
insere os contra-íons hidroxila na resina, ativando-a e, dessa tendo já sido relatado um intervalo de 6,2 dias, entre o 28º e
forma, aumentando a afinidade pelos analitos em questão. 34º dias, após o último consumo (SMITH-KIELLANDT;
Os melhores resultados foram obtidos quando a solução SKUTERUD; BRLAND 1999). Dessa forma, o monitora-
25 mM de formiato de amônio foi utilizada nas etapas de mento seriado é necessário para avaliar a excreção da droga,
condicionamento e lavagem em vez da água. ampliando a janela de detecção. A detecção de THC na
Sout, Horn e Klette, em 2001, a partir de 3 mL de urina, urina é um indicativo de consumo muito recente da droga,
utilizando resina de troca aniônica (CerexPolicrom THC, detectável por até 5 horas na urina após o consumo da erva
50 mg de sorbente, 3 mL de capacidade) obtiveram média (MANO et al., 2001).
de recuperação de THC-COOH de 95%. Porém, o método Devido às características farmacocinéticas do THC e seu
descrito não contempla a pesquisa simultânea de THC e principal produto de biotransformação, a utilização de um
THC-COOH. método que possibilite a obtenção das duas espécies químicas
Os critérios de aceitação de uma amostra positiva, simultaneamente é importante para constatação precoce e tar-
segundo SAMSHA, para concluir um resultado de urina dia do consumo da droga a partir de um único ensaio analítico.
positivo de Cannabis em urina, têm valores iguais ou supe-
riores a 50 ng.mL-1 para ensaios de triagem e acima de
15 ng.mL-1 nos testes confirmatórios para THC-COOH, 5. CONCLUSÕES
utilizando a detecção por espectrometria de massas. O valor
de corte de 15 ng.mL-1 evita falsos resultados positivos pro- O método desenvolvido para detecção de THC e
venientes da inalação passiva da fumaça (BRENNEISEN THC‑COOH em urina, como marcadores do consumo
et al., 2010). de Cannabis sativa, utilizando a resina de troca iônica
O THC, devido às suas características lipofílicas, na Dowex Cl® no preparo das amostras apresentou ótimos
ocasião da abstinência, é liberado para a corrente sanguí- resultados, exibindo potencial para utilização imediata no
nea dos compartimentos de depósito corporal, em especial controle do uso dessa droga, além de poder ser adaptado
o tecido adiposo, e é excretado na urina como metabólito e aplicado para a detecção desses marcadores em outras
(THC-COOH), de forma intermitente, por até semanas matrizes de pesquisa de canabinoides, a exemplo do plasma,
(GOODWIN et al., 2008). leite materno e mecônio.

REFERÊNCIAS

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Materiais Especiais

DESENVOLVIMENTO DE Grão propelente


BASE BLEED NACIONAL PARA APLICAÇÃO
EM MUNIÇÃO DE ALCANCE ESTENDIDO
Development of national base bleed propellant grain
applied for extended range ammunition

Maurício Ferrapontoff Lemos1, Priscila Simões Teixeira Amaral Paula2,


Arnaldo Miceli3, Laurílio José da Silva Júnior4, Edson da Silva Souza5

Resumo: O objetivo do presente trabalho foi desenvolver e caracte- Abstract: This study aimed to develop and characterize a gas-
rizar um grão propelente gerador de gás para sistemas base bleed de generating propellant grain for base-bleed systems of 114.3 mm
munições de calibre 114,3  mm (4,5”) com alcance estendido, para (4.5”) caliber extended range ammunition for a 4.5” Mk8 cannon.
canhão 4.5” Mk8. O efeito base bleed é um dos métodos para diminuir The base-bleed effect is one of the known methods to decrease the
o arrasto total em projéteis supersônicos. Envolve o aumento da pres- total drag of supersonic projectiles. It increases the basis pressure
são na base por meio da geração de produtos de combustão na região by generating gaseous products in the recirculation region of the
de recirculação na traseira do projétil. Partindo da necessidade de projectile’s rear area. Motivated by the need to nationalize this sys-
nacionalização desse sistema, pesquisadores do Instituto de Pesquisas tem, researchers of the Brazilian Navy Research Institute (IPqM)
da Marinha (IPqM) se prontificaram a pesquisar e desenvolver um endeavored to research and develop a propellant grain for this pur-
grão propelente para esse fim. Foram analisadas suas propriedades tér- pose. Its thermal, chemical, and ballistic properties were studied.
micas, químicas e balísticas. O teste de desempenho em campo na The field performance test at Line II of the shooting range in the
Linha II de tiro do Campo de Provas da Marambaia (CPrM) mos- Marambaia (CPrM) proof field resulted in an increase of 19% in
trou aumento de 19% no alcance da munição, passando de 21,4 km, the ammunition range; conventional ammunition reached up to
de uma munição convencional, para 25,5 km em munição contendo o 21.4 km, whereas extended range projectiles with the base bleed
grão propelente base bleed desenvolvido neste trabalho. propellant grain developed in this work reached up to 25.5 km.
Palavras-chave: Materiais Energéticos. Grão Propelente Sólido. Keywords: Energetic Materials. Solid Propellant Grain. Extended
Munição de Alcance Estendido. Range Ammunition.

1. Pesquisador e mestre em Engenharia Metalúrgica e de Materiais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Grupo de Tecnologia de Materiais, Instituto de
Pesquisas da Marinha – Rio de Janeiro, RJ – Brasil. E-mails: engmlemos@gmail.com; mauricio.lemos@marinha.mil.br
2. CT (EN) Doutora em Tecnologia de Processos Químicos e Bioquímicos pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Grupo de Tecnologia de Materiais, Instituto de
Pesquisas da Marinha – Rio de Janeiro, RJ – Brasil. E-mails: pri_engqui@yahoo.com.br; priscila.simoes@marinha.mil.br
3. Tecnologista sênior, bacharel em Química pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Grupo de Tecnologia de Materiais, Instituto de Pesquisas da Marinha – Rio de
Janeiro, RJ – Brasil. E-mail: arnaldo.miceli@marinha.mil.br
4. Engenheiro mecânico pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro e pós-graduado em Computação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de
Janeiro. Coordenador de Engenharia e Desenvolvimento da Empresa Gerencial de Projetos Navais, Fábrica de Munições – Rio de Janeiro, RJ – Brasil. E-mails:
laurilio@emgepron.gov.br; laurilio.jr@gmail.com
5. CMG (FN-RM), Assessor técnico e mestre em Engenharia Mecânica e de Armamento pelo Instituto Militar de Engenharia da Empresa Gerencial de Projetos Navais,
Fábrica de Munições – Rio de Janeiro, RJ – Brasil. E-mail: ssouza@emgepron.gov.br

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Maurício Ferrapontoff Lemos, Priscila Simões Teixeira Amaral Paula, Arnaldo Miceli, Laurílio José da Silva Júnior, Edson da Silva Souza

1. INTRODUÇÃO em até 30% o alcance da munição — em comparação com


a convencional — por reduzir em até 70% o arrasto de base
Grãos propelentes, explosivos e pirotécnicos são materiais (ZHANG; TIAN; ZHANG, 2017). A Figura 1 representa
energéticos estratégicos do ponto de vista da defesa devido à um projétil com esse sistema acoplado.
sua aplicação em sistemas de armas como mísseis e foguetes e Diferentemente de motores foguete, a configuração da
em veículos lançadores de satélites. Sendo o Brasil um país de câmara de combustão do grão propelente para base bleed não
dimensões continentais, com 8 mil km de extensão de costa, possui uma tubeira, e sim um orifício de diâmetro fixo. Seu
é imperiosa a necessidade de proteção do seu território, cuja funcionamento não deve gerar empuxo adicional e, por isso, o
riqueza natural é notoriamente observada. Portanto, deve-se grão propelente queima em regimes de pressão baixos, podendo
investir em pesquisa de materiais energéticos nacionais para ser testado em pressão ambiente (ZHANG; TIAN; ZHANG,
garantir ao país independência bélica e ampliação da capa- 2017). Entretanto, grãos propelentes para sistemas base bleed
cidade de defesa e poder de dissuasão das Forças Armadas. guardam bastante semelhança com combustíveis sólidos usa-
Os materiais energéticos são diferentes composições dos em motores foguete. Ambos são compósitos produzidos
constituídas por combustível e material oxidante que ten- a partir de uma matriz poliuretana, usando o polibutadieno
dem a reagir em um curto período de tempo após ignição, líquido hidroxilado (PBLH) como poliol, reforçada com partí-
liberando grande quantidade de energia e produtos gasosos culas de um sal oxidante, tipicamente o perclorato de amônio
gerados pela reação. Os grãos propelentes geradores de gases (PA) (ZHANG; TIAN; ZHANG, 2017; DE LA FUENTE,
são materiais energéticos desenvolvidos para ampla aplica- 2009; KOMAROV, 1999). Algumas outras composições de
ção em setores civis e militares, destacando-se, assim, sua materiais energéticos também podem ser utilizadas, como
aplicação dual. Esses grãos propelentes são usados para gerar as composições pirotécnicas (FETHEROLF et al., 1988).
pressão em dispositivos hidráulicos e de controle, inflar air- Os grãos propelentes para base bleed são estratégicos para
bags em automóveis, inflar botes, boias salva-vidas e disposi- um país devido à sua aplicação em dispositivos para o aumento
tivos de emergência e também em sistemas de aterrissagem. do alcance das munições (XUE; YU, 2016). Um encontro rea-
Na área militar, uma das importantes aplicações desses grãos lizado em Atenas, na Grécia, em 1988, reuniu diversos gru-
propelentes é em munições de alcance estendido (AEst), em pos de países dedicados à tecnologia de redução do arraste
sistemas conhecidos como base bleed. por base bleed. Nos anais desse simpósio, percebe-se que paí-
A trajetória e o alcance de uma munição ao ser lançada são ses como Estados Unidos (FETHEROLF et al., 1988),
influenciados por parâmetros de desempenho aerodinâmicos. Alemanha (BÖRNGEN; HAHN, 1988), Suécia (GUNNERS;
O arrasto sofrido por uma cápsula de munição após o tiro pode ANDERSSON; NILSSON, 1988), China (PAN; ZHU;
ser dividido em três componentes: arrasto de forma ou pres- WANG, 1988), Israel (GANY, 1988), França (GAUCHOUX;
são, arrasto de atrito e arrasto de base (COSTA; BARBOZA, COUPEZ; LECOUSTRE, 1988), Noruega (HAUGEN;
2000). Esse último provém de vórtices e turbulências do ar MELBY; OPPEGÅRD, 1988), Iugoslávia ( JARAMAZ;
que produzem uma região de baixa pressão na base do pro- INJAC, 1988) e, mais recentemente, Egito (YOUSSEF et. al.,
jétil e é especialmente considerável em condições supersôni- 2017), entre tantos outros, já detêm a tecnologia de munições
cas (Belaidouni; Živković; Samardžić, 2016). Nesse regime,
o arrasto de base é responsável por pelo menos a metade do
arraste total em munições de alto calibre (ZHANG; TIAN; Grão propelente
reignitor
ZHANG, 2017; Belaidouni; Živković; Samardžić, 2016).
Portanto, o efeito base bleed consiste em um dos métodos para
diminuir o arrasto de base por meio do aumento da pres-
são na traseira do projétil com a injeção de gases quentes a
baixa velocidade na região de recirculação (ZHANG; TIAN; Câmara de combustão
ZHANG, 2017; BOURNOT; DANIEL; CAYZAC, 2006;
KLÖHN; RASSINFOSSE, 1982). Tal efeito pode aumentar Figura 1. Esquema de um projétil com sistema base bleed.

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AEst, bem como aparato de testes experimentais bem sofistica- 3. METODOLOGIA DE PESQUISA
dos para análise de desempenho das munições AEst. No Brasil, E PARTE EXPERIMENTAL
os grãos propelentes base bleed não possuem fabricação nacional.
Uma primeira iniciativa de estudo sobre o assunto foi publi-
cada em 2000. Trata-se de um projeto de conclusão de curso 3.1. PRODUÇÃO DOS Grãos propelentes
de alunos do Instituto Militar de Engenharia (IME) para o Na fabricação do grão propelente, foram utilizadas as
desenvolvimento de sistemas base bleed para granadas de obu- seguintes matérias-primas:
seiro de 155 mm (COSTA; BARBOZA, 2000). Entretanto, • PA (NH4ClO4) pureza 99%: substância oxidante, utili-
não há registro de que essa nacionalização tenha seguido para zada em granulometrias diversas;
aplicação em testes de tiro em campo de provas. • alumínio: substância redutora em pó;
Portanto, seu desenvolvimento é de grande interesse do Brasil, • PBLH, (C12H18)n(OH)2, n=50: pré-polímero na forma de um
especificamente para a Marinha. Adicionalmente, a nacionaliza- fluido viscoso que, ao reagir com um diisocianato, constituirá a
ção desse sistema poderá dotar nossa Base Industrial de Defesa matriz plástica na qual serão distribuídas as partículas sólidas;
(BID) de potencial para produção e exportação de munição AEst. • dioctilftalato (DOP), C24H38O4: plastificante utilizado
Partindo da necessidade do desenvolvimento desse sistema para adequar a viscosidade e permitir boa incorporação
pela Fábrica de Munições Almirante Jurandyr da Costa Müller de sólidos na matriz plástica;
de Campos (FAJCMC), o Instituto de Pesquisas da Marinha • tolueno diisocianato (TDI), C9H6N2O2: substância que, ao rea-
(IPqM) se prontificou a desenvolver um grão propelente gera- gir com o PBLH, resulta em uma matriz plástica poliuretana.
dor de gás para base bleed de munições de calibre 114,3 mm
(4,5”) AEst para canhão 4.5” Mk8. O trabalho cumpriu as A mistura das matérias-primas foi feita durante 6 horas
etapas necessárias para a pesquisa e o desenvolvimento de um em um misturador vertical planetário com três hastes tipo
produto. Foram feitos desde a caracterização do material e o sigma, da marca DAY, mantido em vácuo a 60ºC.
desenvolvimento de várias formulações em laboratório, até o O molde (Figura 2A) foi projetado pelo IPqM e fabri-
teste de desempenho em campo na Restinga da Marambaia. cado na FAJCMC. O material usado na inibição, como
revestimento dos grãos propelentes, é o policloreto de vinila
(PVC). Após o vazamento da massa no molde, o mesmo é
2. OBJETIVO levado para cura em estufa a 60ºC, durante 24 horas, antes
da extração. Após a extração, o grão propelente inibido é
Este trabalho teve como objetivo principal o desenvolvimento colocado novamente em estufa a 60ºC durante 7 a 10 dias.
de um grão propelente gerador de gás que proporciona efeito Após a cura completa, o grão propelente é dividido para
base bleed especificamente para munições de 114,3 mm (4,5”). fabricar três grãos base bleed. A Figura 2B mostra os grãos

A B

Figura 2. Grão propelente manufaturado no Instituto de Pesquisas da Marinha, após extração do molde e os três
grãos após a cura, prontos para uso.

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propelentes com as inibições das extremidades coladas e são importantes para determinar se uma formulação do grão
prontos para uso na munição. propelente pode ou não atender aos requisitos corresponden-
tes aos de uma unidade base bleed.
3.2. CARACTERIZAÇÃO DO MATERIAL A bancada para teste foi projetada e fabricada pela FAJCMC,
Foram extraídas amostras do grão propelente produzido e constitui-se de um recipiente metálico bipartido. A metade
para a realização de ensaios de análise térmica, cinética de inferior é fixa na bancada de teste e a metade superior é remo-
decomposição térmica, potencial calorífico e espectrosco- vível, para permitir o posicionamento do grão propelente para
pia no infravermelho por transformada de Fourier (FT-IR). teste. Na base do recipiente metálico é rosqueado um dispo-
Foram realizadas as análises térmicas de termogravime- sitivo pirotécnico ignitor para simular as condições reais da
tria (TG) e sua derivada (DTG) e análise térmica diferencial unidade, cujo esquema de montagem é mostrado na Figura 1.
(DTA) no Analisador Simultâneo Termogravimétrico Modelo O espaço vazio no eixo central do grão propelente é preen-
SDT Q600 da marca TA Instruments, em razões de aqueci- chido com pólvora negra e um iniciador é colocado na parte
mento de 5, 10 e 20ºC/min em atmosfera de nitrogênio com superior, em contato com a pólvora, para sua ignição. O teste
fluxo de 100 mL/min. A massa das amostras foi em torno de de queima é iniciado a distância e registrado por uma câmera
1,5 mg e a faixa de temperatura, de 25 a 600ºC, sendo utilizado de Alta Velocidade.
um cadinho de platina. Para a obtenção da energia de ativa-
ção de decomposição por calorimetria exploratória diferencial 3.4. TESTES BALÍSTICOS
(DSC), foi utilizado um sistema de Análise Térmica TA-50 EM CAMPO DE PROVAS
da Shimadzu, em atmosfera de N2 a um fluxo de 30 mL/min. Os testes de tiro da munição convencional e da muni-
Foram aplicadas equações previstas no modelo cinético de Flynn, ção AEst foram realizados por um canhão 4,5” MK8 na
Wall e Osawa, descrito na norma ASTM E 698-05 — usaram- Linha II do Campo de Provas da Marambaia (CPrM), no
se taxas de 5; 7,5; 10; 12,5 e 15°C/min, empregando-se cadinho Rio de Janeiro (Figura 3), angulado a 45º. A munição uti-
de alumínio parcialmente selado contendo massa de amostra de lizada foi do tipo high explosive (HE), climatizada a 15ºC.
cerca de 1 mg (MOTHÉ; AZEVEDO, 2009). Para as medi- Para visualizar a munição na saída do tubo-alma, foi utili-
ções em triplicata de calorimetria, foram extraídas amostras zada uma câmera de alta velocidade Olympus iSPEED 3 a
medindo 1,1±0,15 g. O equipamento utilizado foi o PARR 2.000 quadros/s. A velocidade foi determinada por um radar
1281 Calorimeter, em atmosfera de oxigênio ou de nitrogênio. da WEIBEL Scientific A/S (tipo SL-525P, série 8742, lote
A análise por espectroscopia no infravermelho por FT-IR 81). O alcance foi determinado por observadores utilizando
foi realizada no espectrofotômetro SPECTRUM ONE da
PerkinElmer (condições básicas: região 4.000–400 cm-1, reso-
lução 4 cm-1, ganho 1 e 20 varreduras). O grão propelente foi
analisado sob a forma de pastilha de KBr, tal como recebido
e após tratamento com solventes.
Para obter informações referentes às superfícies das amos-
tras de grãos propelentes estudados, elas foram recobertas com
platina e observadas em microscópio eletrônico de varredura
(MEV) Tabletop Microscope TM 3000 da marca HITACHI.

3.3. TESTE BALÍSTICO EM PONTO FIXO


Esse teste avalia de maneira preliminar o desempenho dos
grãos propelentes fabricados para unidade base bleed. No teste,
foram avaliados o tempo de queima e o aspecto da chama
(comprimento e largura). O empuxo gerado pelo grão pro- Figura 3. Canhão 4,5” mk8 inclinado a 45º para teste de
pelente gerador de gás é considerado nulo. Esses parâmetros tiro no Campo de Provas da Marambaia.

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goniômetros-bússola em 3 pontos de observação localizados exotérmica, usadas nas equações, são salientados no quadro
a 22, 24 e 26 km do ponto de tiro. “ZOOM A” da Figura 4B. Uma análise cinética de amostra
similar realizada em equipamento de análise termogravimé-
trica, seguindo modelo de Friedman e publicado anteriormente
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO (PAULA; MOTHÉ; MOTHÉ, 2015), mostrou três estágios
de decomposição nas faixas de 171–253°C, 253–393°C e 393–
496°C, assim como a dependência da energia de ativação (E) e
4.1. CARACTERIZAÇÃO DO MATERIAL do logaritmo do fator pré-exponencial (log A) com o grau de
Na Figura 4A, observam-se as curvas TG, DTG e DTA conversão (fração de perda de massa), onde houve aumento nos
na razão de aquecimento de 10ºC/min do grão propelente. valores de (E) de 146 a 183 kJ/mol e também nos valores de
A  curva TG exibiu três estágios de decomposição: entre 200 (log A) de 10,1 a 12s-1 para a faixa de conversão de 0,2 a 0,8.
e 300ºC; entre 300 e 390ºC (principal decomposição); e entre A medida do potencial calorífico em ambiente inerte (calor
430 e 480ºC. Praticamente não houve resíduo na temperatura de “explosão”), realizada na bomba calorimétrica, resultou no
de 600ºC. A curva DTG também demonstrou três estágios de valor de 1.155,69±1,97 cal/g. Já o potencial em calor de com-
decomposição, e na curva DTA pôde-se observar um evento bustão foi de 2.832,60±34,94 cal/g.
endotérmico em 240ºC e três eventos exotérmicos em 280, O espectro obtido por FT-IR do grão propelente como
330 e 370ºC, sendo os dois últimos sobrepostos. fabricado está ilustrado na Figura 5. As principais absorções
Os resultados de DSC do grão propelente mostraram um observadas são atribuídas ao PA: em torno de 3.130 cm-1,
evento endotérmico associado à mudança de fase cristalina do devido ao estiramento dos grupos NH4+; 1.400 cm-1, região
PA por volta de 250°C (Figura 4B). Os picos posteriores ao de deformação do grupo NH4+; e em torno de 1.087, 1.111,
principal podem estar associados à reação de subprodutos da 1.144 e 636 cm-1, referentes ao estiramento dos grupos ClO4-
decomposição principal que ocorre devido ao sistema fechado (NYQUIST; KAGEL, 1971).
empregado na análise, e não está relacionada a nenhuma perda A Figura 6 mostra o espectro FT-IR do grão propelente
de massa. Com o uso das equações previstas no modelo ciné- após remoção do PA. As principais absorções observadas foram
tico de Flynn, Wall e Ozawa (descritas na norma ASTM E (SILVERSTEIN; BASSLER; MORRIL, 1981): 3.300 cm-1
698-05), foi possível obter um valor de 122,58 kj/mol para a devido ao estiramento dos grupos NH e/ou OH de umidade;
energia de ativação da decomposição térmica do grão prope- 2.850 e 2.900 cm-1, estiramento de CH em CH2; 1.730 cm-1,
lente. Os picos referentes às temperaturas máximas da reação estiramento do grupo C=O; 1.640 cm-1, estiramento do C=C

A 120 2,0 B 20
Diferença de temperatura (°C/mg)

Termogravimetria DSC Grão propelente 114,3 mm (5°C/min.)


100 0,6 15
1,5
Deriv. massa (%/°C)

DSC Grão propelente 114,3 mm (7,5°C/min.)


Termogravimetria derivada
DSC [mW/mg]

80 0,4 DSC Grão propelente 114,3 mm (10°C/min.)


massa (%)

1,0 10 DSC Grão propelente 114,3 mm (12,5°C/min.)

60 0,2 DSC Grão propelente 114,3 mm (15°C/min.)

0,5 5
40 0,0
Análise térmica diferencial
0 0
20 -0,2 ZOOM A

0 -0,5 -5
0 100 200 300 400 500 600 0 50 100 150 200 250 300 350 400 450 500
Temperatura (°C) Temperatura (°C)

Figura 4. (A) Curvas de análises térmicas de termogravimetria, termogravimetria derivada e análise térmica diferencial
do grão propelente base bleed; (B) Curvas obtidas por calorimetria exploratória diferencial do grão propelente,
usando diferentes taxas de aquecimento (5; 7,5; 10; 12,5 e 15°C/min). Picos do processo de decomposição (reação
exotérmica) salientados no quadro ZOOM A.

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olefínico; 1.236 cm-1, estiramento do C-O; 966 cm-1, deformação Trabalhos recentemente publicados na literatura demons-
angular de grupos CH trans; 910 cm-1, deformação angular ω de tram que ingredientes básicos para a produção desses grãos
grupos CH vinil; e 718 cm-1, referente à deformação angular ω propelentes geradores de gás são, de fato, o PBLH e o PA
de CH cis. Tais absorções são características do poliuretano da (YU et al., 2014; ZHANG; TIAN; ZHANG, 2017).
matriz polimérica à base de PBLH (MATTOS et al., 2002).
A fotomicrografia realizada no MEV (Figura 7) mostra as 4.2. TESTES BALÍSTICOS EM PONTO FIXO
partículas de PA bem aderidas à matriz do poliuretano do grão Testes de velocidade de queima publicados em literatura
propelente. Salientam-se também a presença das diferentes gra- recente demonstram que experimentos realizados à pressão atmos-
nulometrias do PA utilizado na formulação do grão propelente férica podem ser aplicados no estudo de grãos propelentes para
e a relativa boa dispersão das partículas na matriz poliuretana. uso em sistema base bleed (ZHANG; TIAN; ZHANG, 2017).

T%
75

65 A
55

45 T%
35

25 B
15
5
2.0
4.000

3.600

3.200

2.800

2.400

2.000

1.800

1.600

1.400

1.200

1.000

800

600

400

4.000
3.600
3.200
2.800
2.400
2.000
1.800
1.600
1.400
1.200
1.000
800
600
400
cm-1 cm-1

Figura 5. Espectro no infravermelho por transformada de Fourier do grão propelente base bleed, analisado como recebido
(sem tratamento). À direita, comparação do espectro A do grão propelente com o perclorato de amônio (espectro B).

T%
70
68
A
66
64
62 T%
60
58
56
54 B
52
50
48
46
4.000
3.600
3.200
2.800
2.400
2.000
1.800
1.600
1.400
1.200
1.000
800
600
400
4.000

3.600

3.200

2.800

2.400

2.000

1.800

1.600

1.400

1.200

1.000

800

600

400

cm-1 cm-1

Figura 6. Espectro no infravermelho por transformada de Fourier do grão propelente base bleed após tratamento
com solventes. À direita, comparação do espectro do grão propelente (A) com o de um poliuretano (espectro B).

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A Figura 8 mostra a bancada de ponto fixo durante um Os dois grãos propelentes submetidos aos testes prelimina-
dos testes realizados. A queima dos grãos propelentes foi con- res de desempenho apresentaram tempos de queima de 23 e
tínua e apresentou aspecto uniforme, sem faíscas inesperadas. 21 segundos. Considerando que o intervalo de tempo de queima
recomendável para esse mesmo teste da unidade de base bleed
é de 20 a 24 segundos, os testes foram considerados satisfató-
rios, uma vez que foram realizados sob as mesmas condições.
Outros testes mais sofisticados que simulem as condições
reais de um tiro de munição podem ser aplicados, inclusive a
etapa de despressurização rápida que ocorre quando a muni-
ção é ejetada do canhão (YU et al., 2014). Tais experimentos
serão considerados para futuras análises do produto obtido
neste trabalho e para comparação com os testes apresentados.

4.3. TESTES EM CAMPO DE PROVA


Os testes de tiro realizados no CPrM obtiveram grande
êxito. A munição convencional obteve alcance de 21,4 km.
A munição AEst, utilizando grão propelente base bleed desen-
Prop D 2015/07/30 11:40 N D7.5 x200 500um
volvido pelo IPqM, alcançou distância de 25,5 km. Esse resul-
Figura 7. Micrografia do grão propelente, com aumento de 200x.
tado representa um incremento de 19% no alcance da muni-
ção. A Figura 9A ilustra um momento logo após o tiro, mos-
trando o projétil com grão propelente aceso. A Figura 9B,
uma imagem congelada do vídeo feito com a câmera de alta
velocidade, mostra a munição AEst logo após o tiro, com o
grão propelente base bleed ativo na base do projétil.
A Figura 10A ilustra o efeito do arrasto de base, e a
Figura 10B mostra o que ocorre quando o grão propelente
gerador de gás está aceso. Na munição convencional, ilustrada
na primeira imagem, o fluxo de ar livre que percorre o projétil
em velocidade supersônica sofre uma expansão no final da base
do projetil. Então, o fluxo de ar turbulento sofre uma separa-
ção, na qual parte do fluxo livre segue adiante e sofre recom-
pressão e realinhamento após a passagem do corpo metálico;
e outra parte forma uma região de recirculação primária, com
fluxo inverso de ar, que caracteriza uma zona de rarefação de
ar (XUE; YU, 2016). Com a ejeção de um fluxo contínuo de
massa gasosa da base da munição, longitudinal e simétrica
ao eixo da munição (como ilustrado na Figura 10B), há uma
divisão e diminuição dessa região de recirculação primária
(XUE; YU, 2016; Belaidouni; Živković; Samardžić, 2016).
Além disso, forma-se uma pequena recirculação anelar de ar
que se opõe à região de recirculação primária. Tais fenôme-
nos têm por consequência a diminuição do arraste de base.
Figura 8. Teste do grão propelente em bancada de Em função do alcance obtido, fica caracterizado que a muni-
ponto fixo. ção testada neste trabalho teve tal comportamento aerodinâmico

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A B

Figura 9. (A) Teste de tiro da munição de alcance estendido em canhão 4,5” mk8; (B) projétil após o tiro mostrando
o grão propelente base bleed, desenvolvido no Instituto de Pesquisas da Marinha, após seu acendimento.

A
Ondas de expansão

Fluxo externo
Supersônico
Recompressão
A

Base

B Realinhamento

Recirculação primária

Ondas de expansão

Fluxo externo Recompressão


Supersônico
Recirculação primária

Base

Ejeção de gases
Realinhamento
Recirculação

Figura 10. Esquemas representando a base do projétil sem (A) e com (B) ejeção de massa da base. Fonte: adaptado
de Xue e Yu (2016) e Belaidouni, Živković e Samardžić (2016).

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e apresentou boa estabilidade de vôo. O acendimento não alte- convencional, para 25,5 km da munição AEst, utilizando o
rou o valor da velocidade inicial nem o da pressão. Ou seja, o grão propelente desenvolvido neste trabalho.
grão propelente funcionou somente como gerador de gás e não A Marinha do Brasil, por meio deste trabalho realizado
como propulsão adicional, alterando, assim, o alcance da muni- pelo IPqM, destaca-se como pioneira nacional no desenvol-
ção somente pela diminuição do arraste de base. vimento desse grão propelente para munições de tal calibre.
Portanto, este desenvolvimento contribui, sobremaneira, para
a autonomia nacional e para o fomento à BID na produção
5. CONCLUSÕES desse tipo de munição.

O presente trabalho descreveu as metodologias experi-


mentais e os resultados alcançados no desenvolvimento de um 6. AGRADECIMENTOS
grão propelente para sistemas base bleed, aplicado em munições
AEst. Foram realizadas caracterizações físicas e químicas do Os autores agradecem à Divisão de Química (AQI) do
material. Os testes de campo mostraram que o objetivo de Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE) e ao Departamento
aumentar o alcance da munição de calibre 114,3 mm (4,5”) de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) da Força Aérea
foi cumprido. O alcance passou de 21,4 km, de uma munição pelas valorosas análises mecânicas e de FT-IR realizadas.

REFERÊNCIAS

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(Orgs.). Base Bleed First International Symposium on Special Topics in propellant – Properties and processability for industrial solid
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BOURNOT, H.; DANIEL, E.; CAYZAC, R. Improvements of the base
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Sciences, v. 45, n. 11, p. 1052-1065, 2006. GUNNERS, N.-E.; ANDERSSON, K.; NILSSON, Y. Testing of parts and
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DE LA FUENTE, J.L. An analysis of the thermal aging behavior
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Processos Decisórios

SOLUÇÃO DO PROBLEMA DE
ALOCAÇÃO DE ARMAS DE DEFESA
AÉREA EM MULTICAMADAS COM O
MÉTODO MONTE CARLO SCANNING
Solution of the multi-layer air defense weapon
allocation problem with the Monte Carlo Scanning method

Alexandre David Caldeira1, Wilson José Vieira2

Resumo: Neste trabalho, o Método Monte Carlo Scanning (MCS) Abstract: In this paper, the Monte Carlo Scanning Method
é aplicado à minimização de uma função contínua e à maximização (MCS) is applied to the minimization of a continuous function
de uma função discreta, característica do problema de alocação de and to the maximization of a discrete function, characteristic of the
armas de defesa aérea em multicamadas. O Método MCS utiliza problem of allocation of multilayer air defense weapons. The MCS
amostragem randômica e considera que a velocidade dos computa- Method uses random sampling and considers that the speed of
dores modernos possibilita encontrar soluções ótimas por meio da modern computers makes it possible to find optimal solutions by
varredura do domínio e da inspeção da imagem da função. A qua- scanning the domain and inspecting the function image. The qua-
lidade dos resultados alcançados indica que esse método pode for- lity of the results achieved indicates that this method can provide
necer soluções compatíveis com as produzidas por outros métodos solutions that are compatible with those produced by other opti-
de otimização. Devido à sua simplicidade e robustez, acredita-se que mization methods. Due to its simplicity and robustness, it is belie-
o Método MCS possa ser implementado como uma ferramenta de ved that the MCS Method can be implemented as a computer
simulação computacional para sistemas de apoio à decisão militar. simulation tool for military decision support systems.
Palavras-chave: Simulação Monte Carlo. Problema de Alocação Keywords: Monte Carlo Simulation. Weapon Allocation Problem.
de Armas. Sistemas de Apoio à Decisão. Decision Support Systems.

1. INTRODUÇÃO o planejamento da defesa contra ataques aéreos, dentro do


Ministério da Defesa, adquire importância crescente.
Ferramentas computacionais de apoio à decisão militar Na década de 1970, foi dada grande ênfase ao desen-
para a alocação de armas de defesa aérea em multicamadas volvimento de métodos determinísticos. Um dos motivos
estão relacionadas à necessidade de proteção de infraestru- principais foi a disponibilidade de algoritmos rápidos de
turas críticas, de instalações militares, de sistemas aeroespa- solução de sistemas de equações lineares. Tendo em vista
ciais etc. Essa situação significa, por exemplo, a proteção de a pequena velocidade de processamento dos computado-
instalações portuárias, de complexos rodoferroviários e de res à época, as aplicações de Métodos Monte Carlo eram
indústrias de produtos de defesa. Assim sendo, o desenvol- muito limitadas. Atualmente, com o aumento da velocidade
vimento de sistemas de apoio à decisão militar para auxiliar de processamento, esse método tornou-se uma poderosa

1. Engenheiro Nuclear, DSc, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados – São José dos Campos, SP – Brasil. E-mail: alexdc@ieav.cta.br
2. Engenheiro Nuclear, PhD, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados – São José dos Campos, SP – Brasil. E-mail: wjvieira@ieav.cta.br

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ferramenta de simulação computacional para solução de restrições. Outra vantagem é a facilidade de adaptação com
problemas complexos. o aumento da complexidade da simulação, pois é importante
A alocação de armas é um problema que lida com a colo- notar que, para a maioria das simulações realísticas (BOORD;
cação apropriada de armas defensivas contra uma força ata- HOFFMAN, 2016), apenas técnicas de Monte Carlo básicas
cante para minimizar o dano aos seus próprios ativos ou para são utilizadas para simulação de parâmetros de subsistemas
maximizar o dano à força de ataque. Geralmente, pode ser e de componentes utilizados no projeto.
categorizada em problema estático ou dinâmico, quando se Na Seção 2, o Método MCS é descrito. Na Seção 2.1, o
considera a interação temporal no combate. Também pode método é usado para encontrar o valor mínimo global de uma
ter um objetivo único ou ter múltiplos objetivos, que conside- função contínua (BOHACHEVSKY et al., 1986) que apre-
ram diferentes critérios de otimização e são mais consistentes senta vários mínimos locais e um mínimo global. Na Seção
com situações de combate real (LI et al., 2017). 3, o método é utilizado para resolver um problema de maxi-
De maneira geral, o problema de alocação de armas é consi- mização de uma função discreta, característico da alocação
derado temporal, polinomial e não determinístico. Isso implica de armas de defesa ou de ataque aéreo ( JAISWAL, 1997).
que o tempo de solução aumenta exponencialmente com o Finalmente, na Seção 4, são apresentados comentários finais
tamanho do problema. Dessa forma, não existem métodos exa- e recomendações para trabalhos futuros.
tos de solução para o problema geral. O estudo do problema
começou na década de 1950 e vem, desde então, incorporando
novos métodos, como Algoritmo Genético, Programação Linear 2. O MÉTODO MONTE
Inteira, Simulated Annealing (SA), Redes Neurais, Busca Tabu, CARLO SCANNING
Enxame de Partículas e outros algoritmos híbridos (LI et al.,
2017; MADNI; ANDRECUT, 2009). No entanto, na ausên- Em problemas de otimização mais simples, a utilização de
cia de algoritmos exatos, nenhuma estimativa pode ser feita métodos determinísticos é mais apropriada. Entretanto, com
sobre a qualidade das soluções produzidas por tais heurísticas. o aumento da complexidade do problema, torna-se necessária
Considerando a grande complexidade que o problema pode a utilização de métodos computacionais mais sofisticados e,
apresentar, é necessário resolver casos simples que poderão por conseguinte, com maior dificuldade de implementação,
evoluir para modelos bem mais complexos. Neste trabalho, é como, por exemplo, o Método SA.
apresentada uma nova abordagem denominada Monte Carlo De forma similar ao Método SA, o Método MCS utiliza
Scanning (MCS), desenvolvida na Divisão de Geointeligência uma amostragem randômica no domínio das variáveis inde-
(EGI) do Instituto de Estudos Avançados. Para verificação pendentes e calcula o valor da função objetivo. Entretanto, o
da metodologia, é solucionado um problema da literatura Método MCS, diferentemente do Método SA, não possui
( JAISWAL, 1997) que utiliza o Método SA. algoritmo de convergência na procura de máximo ou mínimo
O Método MCS considera a grande velocidade dos com- da função objetivo. Portanto, as amostras são geradas inde-
putadores atuais para construir rapidamente amostras que satis- pendentemente em todo o domínio, verificando se atendem
fazem as restrições impostas e encontrar as soluções ótimas às restrições. Isso implica que é bastante facilitada a imple-
apenas varrendo o domínio e inspecionando a imagem da fun- mentação de processamento paralelo. O processo de seleção
ção objetivo. Além disso, é possível visualizar ambos, o próprio do Método MCS é bastante simplificado quando compa-
domínio e a imagem, verificando se houve amostragem sufi- rado ao do Método SA, que procura uma nova amostra na
ciente no domínio e analisando o comportamento das soluções. vizinhança da amostra anterior. São realizadas amostragens
O Método MCS não tem a sofisticação matemática e aleatórias de um grande número de pontos no domínio para
computacional dos métodos supramencionados e que com- levantar a estrutura, a forma e os pontos de máximo e mínimo
põem o estado da arte. Porém, por causa da facilidade de existentes, cobrindo, assim, a imagem da função objetivo.
implementação e da ausência de complexidade computacio- O processo de varredura utiliza o princípio básico de Monte
nal, essa abordagem permite obter rapidamente soluções para Carlo, também conhecido como Técnica da Transformada
problemas de alta complexidade e com grande número de Inversa (KROESE et al., 2011), em que quantidades aleatórias

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distribuídas uniformemente no intervalo [0, 1] são utilizadas robustez do Método MCS em relação aos outros métodos.
para a obtenção de valores que obedecem a praticamente qual- Além disso, esses mesmos critérios também são geralmente
quer lei de distribuição. Considerando-se uma variável aleatória utilizados como parâmetros de parada por outros métodos.
ξ uniformemente distribuída no domínio [0, 1], a amostra- Considerando-se sua simplicidade metodológica, o Método
gem de uma função distribuição de probabilidades f (x) qual- MCS possui como características muito interessantes a faci-
quer, definida no intervalo [-∞, ∞], pode ser realizada como: lidade de implementação e a robustez de solução. O requisito
x
principal do método é uma capacidade computacional com-
F(x) = ∫ ƒ(x)dx = ξ ⇒ x = F–1(ξ)(1) patível com o grau de dificuldade do problema. O Método
–∞
MCS pode representar uma mudança de paradigma na solu-
Lembrando que: ção de problemas de otimização, em especial para problemas

de alta complexidade e com grande número de restrições.
ƒ(x) ≥ 0; ∫ ƒ(x)dx = 1(2)
–∞
2.1. EXEMPLO DE APLICAÇÃO
Essa simples formulação pode ser estendida para mais Com o objetivo de ilustrar a aplicação do método e veri-
dimensões quando as variáveis forem independentes. No caso ficar a qualidade dos resultados, é utilizada como exemplo a
de haver dependência entre as variáveis, é necessário utili- minimização de uma função contínua conhecida da literatura
zar covariâncias e outras formas de correção da amostragem. (BOHACHEVSKY et al.,1986):
Outra maneira bastante conhecida de interpretar o prin-
cípio básico de Monte Carlo é chamada Técnica da Rejeição Φ(x, y) = x2 + 2y2 – 0,3cos(3πx) – 0,4cos(4πy) + 0,7 (3)
(KROESE et al., 2011). Essa técnica é um caminho alterna-
tivo para a amostragem de uma função de distribuição quando Como as variáveis x e y são independentes e não existe
não é necessário ou conveniente o cálculo da inversa de F(x). nenhuma restrição para ambas, todos os pares (x, y) são aceitos.
O Método MCS consiste simplesmente na aplicação da O interesse está voltado para a obtenção do mínimo global,
Técnica da Rejeição ao problema de alocação de armas. Isso Φmin. = 0,0, e suas coordenadas xmin. = ymin. = 0,0. A Figura 1
significa que as amostras são geradas em cada dimensão das apresenta a visualização da função objetivo Φ(x, y) com vários
variáveis, porém somente as amostras que satisfazem todas as mínimos locais e o mínimo global em (0,0).
restrições irão fazer parte do domínio da solução. Esse pro- Para atingir esse objetivo, são utilizados valores de x∈ [-1, 1]
cedimento representa apenas uma aplicação da Técnica da e y∈ [-1, 1] amostrados de acordo com a Equação 1. Em seguida,
Rejeição, utilizada para a varredura em todas as dimensões e os valores da função são calculados e armazenados. Para garantir
variáveis com o objetivo de encontrar apenas amostras váli-
das. Essa é a principal razão para denominar a amostragem de
Monte Carlo Scanning e diferenciar de outras técnicas Monte
Carlo, como o Método SA, por exemplo. 4
Como mencionado anteriormente, nenhuma estimativa 3,5

pode ser feita sobre a qualidade das soluções heurísticas. 3


2,5
Também com o Método MCS não se pode fazer essas esti-
2
mativas. Porém, pode-se colocar como critério de qualidade
1,5
apenas a Lei dos Grandes Números (KROESE et al., 2011)
1
ou o aumento sucessivo do tamanho da amostragem. Além 0,5
disso, a identificação de picos na imagem completa do domínio 0
e a frequência de ocorrência desses picos são mais facilitadas 1
0,5 1
0 0 0,5
quando se utiliza o Método MCS. Considerando a velocidade –0,5 –0,5
Y –1 –1 X
dos computadores e a maior capacidade de geração de amos-
tras, essa verificação pode ser considerada como uma maior Figura 1. Função objetivo Φ(x, y).

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que o domínio da função seja plenamente amostrado, esse 3. MAXIMIZAÇÃO DO


procedimento é repetido um número suficiente de vezes. PROBLEMA DE ALOCAÇÃO
Finalmente, os valores calculados da função são ordenados DE ARMAS DE DEFESA AÉREA
de forma crescente. O primeiro valor da lista corresponde ao
valor mínimo da função. O problema de alocação de armas de defesa aérea considera
As Figuras 2, 3 e 4 mostram, respectivamente, o domí- conhecido o plano de ataque do inimigo e o objetivo é alocar
nio, a imagem e a imagem ordenada de forma crescente da as armas de defesa em multicamadas para maximizar a prote-
função objetivo Φ(x, y) gerada com apenas 500 pontos com ção dos alvos ( JAISWAL, 1997). Cada camada é definida por
o Método MCS. O primeiro ponto na Figura 4 representa o um tipo de arma de defesa. A função objetivo global é a pro-
valor mínimo da função correspondente às coordenadas (0,0). babilidade de sobrevivência do conjunto de alvos. Como esse
problema pode envolver o gerenciamento simultâneo de uma
grande quantidade de informações, o tempo computacional
1
para solução aumenta polinomialmente ( JAISWAL, 1997).
0,8
Por essa razão, para problemas muito complexos, métodos
0,6
heurísticos devem ser utilizados.
0,4
Na Tabela 1,são apresentadas as principais variáveis (JAISWAL,
0,2
1997) utilizadas na definição da função objetivo discreta, caracte-
0
y

rística do problema de alocação de armas de defesa aérea.


–0,2
A probabilidade de sobrevivência de um alvo s, quando
–0,4
atacado por todas as armas, de todos os tipos de armas de
–0,6
ataque a, é expressa por ( JAISWAL, 1997):
–0,8
–1 A D
HS = ∏ a=1 [1 – { ∏ d=1 (1 – kdsa)xdsa/nsa}gsa]nsa(4)
–1

–0,8

–0,6

–0,4

–0,2

0,2

0,4

0,6

0,8

x O objetivo da defesa é maximizar o valor esperado de


Figura 2. Domínio da função Φ(x,  y) gerado com o sobrevivência de todos os alvos, que é expresso pela função
Método Monte Carlo Scanning. objetivo discreta global:

3,5 3,5

3 3
PHI(x,y) crescente

2,5 2,5
PHI(x,y)

2 2

1,5 1,5

1 1

0,5 0,5

0 0
0

50

100

150

200

250

300

350

400

450

500

50

100

150

200

250

300

350

400

450

500

n n

Figura 3. Imagem da função Φ(x,  y) gerada com o Figura 4. Imagem da função Φ(x,  y) gerada com o
Método Monte Carlo Scanning. Método Monte Carlo Scanning, em ordem crescente.

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FXN = ΣSs=1 Vs * Hs(5) c) custo máximo

O processo de maximização da função objetivo discreta ∑Dd=1 ∑Ss=1 ∑Aa=1 cdxdsa ≤ Cmáx.; e (6c)
global, FXN, deve satisfazer as restrições de:
a) disponibilidade de armas: d) número máximo disponível de operadores de armas de
defesa
∑Ss=1 ∑Aa=1 xdsa ≤ Bd para d = 1, 2, ...,D(6a)
∑Ss=1 ∑Aa=1 mdxdsa ≤ Mmáx. para d = 1, 2, ...,D.(6d)
b) disponibilidade de área:
O procedimento de utilização do Método MCS con-
∑ ∑ t x ≤ Gs para s = 1, 2, ...,S (6b)
D
d=1
A
a=1 d dsa siste em amostrar aleatoriamente planos de defesa na forma:

xdsa = F –1 (ξ, Bd)(7)


Tabela 1. Descrição das variáveis utilizadas.
D Tipos de armas de defesa disponíveis.
Em que ξ é um número aleatório distribuído uniforme-
S Número de alvos. mente no intervalo [0, 1], e F–1 é uma função que fornece uma
A Tipos de armas de ataque. distribuição de valores para xdsa. Em seguida, de acordo com a
Ra Número de armas de ataque do tipo a.
Técnica da Rejeição, deve-se verificar se xdsa obedece às restri-
ções dadas pelas Equações 6a, 6b, 6c e 6d, para que seja con-
Probabilidade de sucesso na interceptação de
siderada uma amostra válida. Finalmente, calcula‑se o valor
uma arma de ataque do tipo a, por uma arma
kdsa correspondente de FXN, dado pela Equação 5. O valor máximo
de defesa do tipo d, colocada para defender o
alvo do tipo s. de FXN está associado ao melhor plano de defesa encontrado.
Probabilidade de uma única arma de ataque Nesse problema ( JAISWAL, 1997), cujo cenário é repre-
gsa do tipo a destruir o alvo s, uma vez que tenha sentado esquematicamente na Figura 5, o plano de defesa
ultrapassado as camadas de defesa.

Número de armas de ataque do tipo a


nsa
alocadas para o alvo s (plano de ataque).

Vs Valor ou importância associada ao alvo s.

Número de armas de defesa do tipo d


Bd
disponíveis.

Custo de operação de uma arma de defesa do


cd
tipo d.

Cmáx. Custo operacional máximo das armas alocadas.

Número de pessoas para operar uma arma de


md
defesa do tipo d.

Número máximo de pessoas para operar


Mmáx.
armas de defesa do tipo d.

Área necessária por uma arma de defesa do


td
tipo d.

Gs Área disponível para a defesa do alvo s.

Número de armas de defesa do tipo d alocadas


xdsa para interceptar armas de ataque do tipo a, para
Figura 5. Exemplo de cenário esquemático do problema
defender o alvo do tipo s (plano de defesa).
de alocação de armas de defesa aérea.

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considera 2 tipos de armas de defesa (d1 e d2), 100 armas do Tabela 3 as probabilidades de destruição das armas de ata-
tipo 1 (B1=100) e 50 do tipo 2 (B2=50), que estão disponí- que e o plano de ataque.
veis para proteger 3 alvos (S1, S2 e S3) contra dois tipos de Para uma amostragem de 200.000 planos de defesa
armas de ataque. Os valores das importâncias do primeiro, aleatórios, o resultado produzido com o Método MCS é
segundo e terceiro alvos são V1=400, V2=300 e V3=200, res- comparado com os resultados encontrados na literatura
pectivamente. O plano de ataque conhecido é composto por ( JAISWAL, 1997) e os obtidos com o programa compu-
50 armas do tipo 1 (R1=50) e 29 do tipo 2 (R2=29). A Tabela 2 tacional de Alocação de Armas de Defesa Aérea (AADA)
contém as probabilidades de abate das armas de defesa e a desenvolvido na EGI, que utilizam o Método SA. Os pla-
nos de defesa ótimos, a Sobrevivência Estimada do Alvo
Tabela 2. Probabilidades de abate das armas de defesa.
(SEA) e os valores máximos de FXN são apresentados
na Tabela 4.
Tipo de arma Tipo de arma
Alvo (s) kdsa Por meio de cálculos extensivos com o programa AADA,
de defesa (d) de ataque (a)
foi mostrada a ocorrência de um pequeno aumento na sobre-
1 1 1 0,20
vivência global dos alvos quando a proteção do Alvo 3 é
2 1 1 0,60
retirada. No entanto, essa pequena diferença faz com que
1 1 2 0,35
2 1 2 0,50
Tabela 3. Probabilidades de destruição e plano de ataque.
1 2 1 0,25
Tipo de arma
Alvo (s) gsa nsa
2 2 1 0,50 de ataque (a)
1 2 2 0,20 1 1 0,015 5
2 2 2 0,45 1 2 0,055 9
1 3 1 0,35 2 1 0,075 25
2 3 1 0,45 2 2 0,040 7
1 3 2 0,25 3 1 0,060 20
2 3 2 0,65 3 2 0,075 13
Fonte: Jaiswal (1997). Fonte: Jaiswal (1997).

Tabela 4. Resultados para os planos ótimos de defesa considerando conhecido o plano de ataque.

Alvo 1 (V1=400) Alvo 2 (V2=300) Alvo 3 (V3=200) SEA


a=1 a=2 a=1 a=2 a=1 a=2 Alvo
FXN
Plano
d=1 d=2 d=1 d=2 d=1 d=2 d=1 d=2 d=1 d=2 d=1 d=2 (Máx.)
s=1 s=2 s=3
111 211 112 212 121 221 122 222 131 231 132 232

Ataque* 5 9 25 7 20 13
88 36 42 61
Defesa* 0 0 47 0 39 14 0 5 11 16 3 15
Defesa** (i) 0 5 50 0 50 36 0 9 0 0 0 0 93 59 11 63

Defesa** (ii) 0 3 47 0 19 31 2 3 32 0 0 13 91 43 38 63

Defesa MCS (i) 0 2 52 0 40 45 1 2 3 0 3 0 91 56 12 62

Defesa MCS (ii) 5 2 36 1 3 26 4 0 34 3 17 18 88 32 50 61


*Jaiswal, 1997; **AADA: Alocação de Armas de Defesa Aérea; SEA: Sobrevivência Estimada do Alvo; FXN: Função
Objetivo Discreta Global; MCS: Monte Carlo Scanning.

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planos de defesa com ou sem a proteção do Alvo 3 sejam 4. COMENTÁRIOS FINAIS


encontrados como soluções máximas. Essas condições estão
representadas na Tabela 4, mostrando os resultados finais (i) A maior contribuição deste trabalho é mostrar que a velo-
e intermediários (ii), que são os mais próximos dos reporta- cidade dos computadores atuais possibilita a utilização de téc-
dos por Jaiswal (1997). nicas de Monte Carlo bastante simplificadas. O Método MCS
A seguir, considerou-se a aplicação do Método MCS no permite o planejamento da alocação de armas de defesa e ataque
problema de alocação de armas de ataque. Para tanto, foi rea- aéreo de maneira bastante facilitada e intuitiva. Além disso, os
lizada a minimização da função objetivo considerando um problemas de alocação de armas resolvidos são considerados bas-
plano de defesa conhecido. Nesse caso ( JAISWAL et al., tante grandes e complexos para situações reais (KARASAKAL,
1993), estão disponíveis 50 armas de ataque do tipo 1 e 30 do 2008). Mesmo assim, o Método MCS foi bastante acurado,
tipo 2. As probabilidades de abate e de destruição também como pode ser visto nos resultados apresentados.
são dadas pelas Tabelas 2 e 3. Tendo em vista a simplicidade, a robustez e a qualidade
A Tabela 5 apresenta os resultados publicados na lite- dos resultados alcançados com o Método MCS, tanto para
ratura ( JAISWAL et al., 1993) e os obtidos com o Método minimização de uma função contínua quanto para a maxi-
MCS (MCS1 a MCS5). Utilizando um processamento com mização de funções discretas, sua utilização em problemas de
500.000 amostras de planos de ataque, foram escolhidos todos otimização é bastante promissora. As soluções encontradas
aqueles que apresentaram valores para FXN menores ou iguais com o Método MCS para os problemas de alocação de armas
a 45%, com o objetivo de ilustrar que existem diversas com- de defesa e de ataque aéreo em multicamadas são equivalen-
binações possíveis de alocação de armas de ataque que pro- tes às obtidas por meio de outros métodos computacionais
duzem resultados similares para FXN. Essa condição tam- encontradas na literatura.
bém decorre da característica de métodos heurísticos, que A utilização frequente do Método MCS permite ao usuário
possuem o risco inerente de produzir soluções subótimas. adquirir a capacidade e a experiência necessárias para o bom
A Tabela 5 mostra a Destruição Estimada do Alvo (DEA), aproveitamento dos softwares, sem a necessidade de conhe-
que também auxilia o processo de escolha do melhor plano cer profundamente outros métodos de difícil implementação.
de ataque. Essa decisão sobre um ou outro plano com FXN Além disso, o usuário poderá ter uma visão abrangente do
similares cabe ao planejador da missão. envelope de probabilidades que governam os eventos de abate

Tabela 5. Resultados para os planos ótimos de ataque considerando conhecido o plano de defesa.

Alvo 1 (V1=400) Alvo 2 (V2=300) Alvo 3 (V3=200) DEA


a=1 a=2 a=1 a=2 a=1 a=2 Alvo
FXN
Plano
d=1 d=2 d=1 d=2 d=1 d=2 d=1 d=2 d=1 d=2 d=1 d=2 (Mín.)
s=1 s=2 s=3
111 211 112 212 121 221 122 222 131 231 132 232

Defesa* 0 0 39 8 42 12 0 10 13 13 6 7
51 64 49 45
Ataque* 1 28 28 1 21 1
Ataque MCS1 2 30 40 0 8 0 56 84 9 45

Ataque MCS2 0 30 29 0 21 0 55 67 49 43

Ataque MCS3 0 29 37 0 12 1 53 80 21 45

Ataque MCS4 0 29 38 0 12 1 53 82 21 45

Ataque MCS5 0 29 29 1 18 0 53 67 41 45
DEA: Destruição Estimada do Alvo; FXN: Função Objetivo Discreta Global; MCS: Monte Carlo Scanning. *Jaiswal et al., 1993.

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Alexandre David Caldeira, Wilson José Vieira

de aeronaves e da vulnerabilidade dos alvos. Dessa forma, ele 6. AGRADECIMENTOS


poderá colaborar para a construção de cenários mais detalhados
e propor melhorias nos softwares para a solução de novos pro- A João Camilo da Silva, da Divisão de Geointeligência
blemas. Finalmente, é importante salientar que os programas do Instituto de Estudos Avançados, pelo fornecimento
computacionais com o Método MCS utilizados neste trabalho do mapa utilizado para a confecção do cenário mostrado
foram desenvolvidos no ambiente MatLab (MATLAB, 2010). na Figura 5.

REFERÊNCIAS

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JAISWAL, N.K. Military operations research: quantitative decision Optimization Approach to Solve Biobjective Weapon-Target Assignment

making. International Series in Operations Research & Management Problem. International Journal of Aerospace Engineering, 2017.

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the Weapon–Target Assignment Problem. Journal of Aerospace
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Layer Defense. American Journal of Mathematical and Management MATLAB. MATLAB version 7.11.0. Natick, Massachusetts: The Math
Sciences, v. 13, n. 1-2, p. 53-82,1993. Works Inc., 2010.

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Processos Decisórios

UM MODELO DE PROGRAMAÇÃO
EVOLUCIONÁRIA PARA PROGRAMAÇÃO DE
ATIVIDADES EM OFICINAS DE MANUTENÇÃO
Evolutionary programming model for
activity planning in maintenance workshops

Manoel Carlos Pego Saisse1, Sergio Medeiros da Nobrega2, Rafael Novaes Lago3,
Lianderson Giorges Leite Rodrigues4, Leonardo Amorim do Amaral5

Resumo: Oficinas de manutenção que realizam reparos corretivos Abstract: Workshops that perform preventive and corrective
enfrentam frequentes mudanças nas características de suas deman- maintenance repair face frequent changes in the characteris-
das. Essa questão é ainda mais crítica quando se trata da manuten- tics of their demands. This issue is even more critical when it
ção de equipamentos militares, sujeitos a altos níveis de esforço e comes to maintaining military equipment, subject to high levels
desempenho. Como consequência, os responsáveis pela atribuição of effort and performance. Consequently, those responsible for
dos recursos disponíveis às atividades de reparo ao longo do tempo allocating available resources to repair activities over time deve-
desenvolvem um considerável repertório de conhecimentos que não lop a considerable repertoire of knowledge that cannot be pro-
conseguem ser devidamente formalizados, em razão da velocidade perly formalized due to the speed with which they are generated
com que são gerados e consumidos. Neste artigo, foi proposto um and consumed. In this paper, we proposed a model of evolutio-
modelo de programação evolucionária associado à simulação dis- nary programming associated with discrete simulation to gene-
creta para gerar soluções de programação de atividades em uma ofi- rate solutions for the programming of activities in a maintenance
cina de manutenção. O modelo proposto se utiliza do conhecimento workshop. The proposed model uses the tacit knowledge embe-
tácito embutido em planos de trabalho formulados previamente por dded in work plans previously formulated by experienced pro-
programadores de produção experientes para gerar soluções apri- duction programmers, to generate improved planning solutions,
moradas de programação de atividades, e foi formulado com base and was formulated based on the real case of the Marine Corps
no caso real do Centro Tecnológico do Corpo de Fuzileiros Navais. Technology Center.
Palavras-chave: Manutenção. Programação Evolucionária. Programa­ção Keywords: Maintenance. Evolutionary Programming. Task
de Atividades. Problemas de Escalonamento. Simulação Computacional. Programming. Scheduling. Computer Simulation.

1. Tecnologista sênior, doutor em Ciências em Engenharia de Produção pela Divisão de Engenharia de Avaliação e Produção do Instituto Nacional de Tecnologia – Rio de
Janeiro, RJ – Brasil. E-mail: manoel.saisse@int.gov.br
2. Encarregado da seção de Redes e Sistemas. Programador Java, qualificação técnica especial em Telemática, pela Marinha do Brasil, Centro Tecnológico do Corpo de
Fuzileiros Navais– Rio de Janeiro, RJ – Brasil. E-mail: nobrega@cteccfn.mar.mil.br
3. Programador/analista de sistemas. Pós-graduado lato sensu em Gestão de Tecnologia da Informação e da Comunicação pela Universidade Cândido Mendes. Segundo
Sargento Fuzileiro Naval (SG-FN-IF) do Comando do Pessoal de Fuzileiros Navais – Rio de Janeiro, RJ – Brasil. E-mail: ralago@ig.com.br
4. Encarregado da Divisão de Telemática. Bacharel em Análise de Sistemas pela Universidade Estácio de Sá. Primeiro-Tenente Reserva de 1ª Classe da Marinha (RM1-T)
do Centro Tecnológico do Corpo de Fuzileiros Navais – Rio de Janeiro, RJ – Brasil. E-mail: lglrodrigues@gmail.com
5. Capitão de Fragata. Mestre em Engenharia Nuclear. Chefe do Departamento de Ciência, Tecnologia e Inovação do Centro Tecnológico do Corpo de Fuzileiros Navais
– Rio de Janeiro, RJ – Brasil. E-mail: leonardo.amaral@marinha.mil.br

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1. INTRODUÇÃO características da manutenção preventiva, mas também nas


condições de uso do equipamento; e corretiva, realizada após
Oficinas de manutenção que realizam simultaneamente a ocorrência e identificação de uma falha, e que visa recolocar
atividades corretivas e preditivas enfrentam grande instabili- o equipamento em condições de pleno funcionamento (BEN-
dade com relação às características dos trabalhos demandados DAYA et al., 2009). Manutenções preventivas e preditivas
(PAZ; LEIGH, 1994). Essa questão é especialmente crítica podem ser planejadas com maior antecedência, uma vez que
quando se trata de equipamentos militares, que se encon- são intrinsecamente previsíveis e apresentam repetitividade.
tram sujeitos a grandes esforços e situações de uso impre- Já a manutenção corretiva traz duas fortes componentes de
vistas. Além disso, devem se manter em permanente estado complexidade que afetam diretamente a tarefa de progra-
de prontidão para realizar o trabalho de defesa e segurança mação de atividades: incertezas relacionadas aos instantes de
a que se propõem (GOH; TAY, 1995). Recursos e proces- ocorrência de danos ou defeitos nos equipamentos a serem
sos flexíveis, com largo escopo de habilidades, são essenciais reparados e consequentes flutuações inesperadas da carga tra-
para atender a esse tipo de demanda, porém não são suficien- balho e urgência de sua entrega, o que reduz o tempo dispo-
tes para garantir agilidade e confiabilidade de resposta, pois nível para a montagem do planejamento (STOOP; WIERS,
resultam em uma ampliação das alternativas de ação, o que 1996). No caso dos equipamentos de segurança, que partici-
pode aumentar a complexidade de programação dos traba- pam de exercícios e operações reais, as manutenções são fre-
lhos. Os responsáveis pela geração dos programas de traba- quentes e, muitas vezes, difíceis de serem previstas (GOH;
lho devem ser ágeis no redirecionamento de seus cursos de TAY, 1995). Amik e Deshmukh (2006) classificam as publi-
ação, identificando rapidamente as alternativas mais adequa- cações no campo do gerenciamento de manutenção em seis
das para responder às constantes mudanças nas demandas, áreas: modelos de otimização, técnicas de manutenção, pro-
dentro das possibilidades oferecidas pelos recursos de que gramação de atividades, medidas de desempenho, sistemas
dispõem. Nesses casos, boa parte do conhecimento utilizado de informação e políticas. O modelo apresentado neste artigo
para estruturar a programação é de gênero tácito, muito dinâ- está relacionado à área de programação de atividades, ou seja,
mico e, por isso, difícil de ser formalizado, porém, encontra-se à atribuição dos recursos produtivos disponíveis às atividades
embutido nos programas de atividades que os programadores de manutenção ao longo do tempo, que se caracteriza por ser
de atividades montam diariamente. a última etapa formal de planejamento que antecede à efe-
Neste artigo, apresentamos um modelo inovador de pro- tiva realização das operações de manutenção. Esse problema
gramação evolucionária que atua em conjunto com um algo- é abordado pela teoria de escalonamento. No caso específico
ritmo de simulação discreta para gerar soluções de escalona- das oficinas que realizam manutenção preventiva, os mode-
mento de atividades de manutenção. O modelo toma como los de representação de tipo job shop são os mais adequados,
ponto de partida um conjunto inicial de programas de ati- dentre os utilizados nessa área de estudo (PINEDO, 2016).
vidades gerado por um usuário que conheça o ambiente de A teoria de escalonamento tem evoluído muito nos últimos
trabalho em questão (em geral, o responsável pela programa- anos, dando origem a algoritmos e modelos de otimização
ção da oficina de manutenção), com apoio de um algoritmo com maior aplicabilidade em ambientes reais de tipo Flexible
de simulação discreta. Job Shop (PINEDO, 2016), em que cada serviço pode seguir
um roteiro distinto e, em cada etapa, pode ser processado por
grupos de recursos alternativos. Por outro lado, a aplicação de
2. CONTEXTUALIZAÇÃO TEÓRICA modelos clássicos — programação linear, matemática, branch
and bound e métodos construtivos otimizantes — em ativida-
Os trabalhos de manutenção são classificados em três gran- des de manutenção não tem sido tão ampla, porque a maior
des tipos: preventiva, realizada em intervalos predetermina- parte delas é desenvolvida para ambientes de produção, em
dos, calculados a partir de probabilidades estimadas de falha que as características da demanda e dos recursos disponíveis
levantadas no projeto e históricos de uso do equipamento; apresentam uma relativa estabilidade (AL-TURKI et al.,
preditiva, baseada não apenas nas probabilidades de quebra 2014). A instabilidade da demanda, característica da maior

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parte das oficinas de manutenção (principalmente quando genético são realizadas por meio da programação por agen-
estas realizam manutenção corretiva), necessita de capacidade tes. Amirghasemi e Zamani (2015) propuseram um modelo
de adaptação rápida às situações inesperadas, e obriga os res- de algoritmo genético assexuado em que só ocorre a mutação
ponsáveis pela programação de atividades a desenvolverem sem cruzamento. A mutação realizada não é aleatória e foi
um considerável volume de conhecimento tácito (GUINERY; construída com base em técnicas de busca tabu. Mais recen-
MACCARTHY, 2009). A velocidade e a frequência com que temente, Elgendy et al. (2017) propuseram um algoritmo
tais conhecimentos são gerados, bem como sua diversidade, genético com estruturas tradicionais e uma metodologia de
não permite que eles sejam devidamente formalizados, o que reparo — para ajustar o cromossoma formado após o cru-
dificulta sua incorporação nos modelos tradicionais propos- zamento caso ele resulte em uma solução inválida —, tendo
tos pela teoria de escalonamento. como objetivo a redução do tempo de atravessamento.
Neste trabalho, buscou-se explorar essa lacuna desen- Apesar de algumas dessas publicações proporem heurísticas
volvendo um modelo que utiliza programação evolucionária para a formação da população inicial, nenhuma menciona a
associada à simulação discreta para criar soluções que apre- participação de especialistas ou o uso do conhecimento tácito
sentem desempenho superior às geradas pelos gerentes res- sobre o problema, nem mesmo métodos probabilísticos para
ponsáveis pela programação de atividades, incorporando o direcionar a escolha de genes para cruzamento. Essas são as
conhecimento tácito embutido nos programas de atividades características mais distintivas do modelo apresentado, con-
que eles elaboram. forme veremos a seguir.
A programação evolucionária se inspira na teoria da evo-
lução proposta por Charles Darwin. Partindo de um conjunto
de soluções iniciais válidas para o problema que se pretende 3. O AMBIENTE
atacar (geração inicial), inicia-se um processo iterativo, em REAL DE REFERÊNCIA
que cada novo ciclo (geração) produz um conjunto de solu-
ções aprimoradas a partir de recombinações (cruzamentos) e O modelo apresentado neste artigo foi desenvolvido no
alterações (mutações) realizadas sobre algumas soluções cri- âmbito de um projeto para desenvolvimento de uma ferra-
teriosamente escolhidas (seleção) a partir da geração anterior menta de apoio à programação de tarefas em ambientes de
(EIBEN; SMITH, 2003). Assim como acontece na natureza, manutenção financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do
espera-se que as sucessivas seleções seguidas de cruzamen- Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) e realizado pelo Instituto
tos e mutações favoreçam a sobrevivência e replicação dos Nacional de Tecnologia (INT) em conjunto como Centro
fragmentos de solução (genes) que resultam em um melhor Tecnológico do Corpo de Fuzileiros Navais (CTecCFN),
desempenho em relação aos índices-alvo. que forneceu o ambiente real de referência para a pesquisa,
Chaudhry e Luo (2005) realizaram uma vasta revisão das além de contribuir com sua larga experiência na gestão e rea-
aplicações de algoritmos genéticos em problemas de progra- lização de trabalhos de manutenção em equipamentos com
mação da produção. Desde então, mais algumas publicações grande conteúdo tecnológico.
propondo modelos de algoritmos genéticos específicos para Criado em 1970 a partir do Núcleo do Centro de
problemas de tipo Flexible Job Shop surgiram. Pezzella et al. Suprimentos do Corpo de Fuzileiros Navais, o CTecCFN é
(2008) propuseram um algoritmo genético que utiliza méto- o principal responsável pelo pronto emprego e suprimento
dos específicos para a criação da população inicial, da sele- dos equipamentos específicos do Corpo de Fuzileiros Navais
ção e da reprodução dos indivíduos. Gao et al. (2006) apre- (CFN), realizando os serviços de manutenção preventiva e
sentaram um algoritmo genético que funciona em conjunto corretiva nas viaturas leves e pesadas sobre rodas, nas viatu-
com o método clássico de Shifting Bottleneck e uma repre- ras blindadas sobre rodas e sobre lagartas, nos equipamen-
sentação composta de dois vetores. Asadzadeh e Zamanifar tos de engenharia (tratores), nos equipamentos de comuni-
(2010) desenvolveram um modelo em que duas populações cações, nos equipamentos optrônicos, nos coletes balísticos,
de algoritmos genéticos evoluem em paralelo, e tanto a cria- nas armas leves de toda a Marinha do Brasil (MB) e, quando
ção da população inicial quanto a evolução do algoritmo determinado, nos equipamentos das Forças Auxiliares, tal

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como a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ). além dos momentos mais adequados no que se referem aos
Constitui-se em uma das Instituições de Ciência e Tecnologia calendários semanal e mensal. Esse conhecimento não é for-
da Marinhado Brasil (ICT-MB), tendo ainda como objetivo malizado, porém é intensamente utilizado na construção dos
o desenvolvimento de projetos que atendam às necessida- planos de trabalho. Cada serviço de manutenção é associado
des do ambiente operacional dos Fuzileiros Navais e pos- a uma data esperada de conclusão, que não é necessariamente
suam características duais para fomentar a Base Industrial repassada ao cliente, mas é utilizada para se estabelecer um
de Defesa (BID), atendendo ao preconizado pela Estratégia objetivo relacionado à dimensão temporal. O principal obje-
Nacional de Defesa. tivo da programação de atividades de manutenção é maximi-
O CTecCFN executa manutenção de equipamentos milita- zar a pontualidade de entrega.
res em uma gama que envolve desde armas de pequeno porte
até grandes veículos blindados, portanto, possui grande diver-
sidade de equipamentos e dispõe de pessoal especializado em 4. O MODELO DE
ampla diversidade de trabalhos. As oficinas são divididas em PROGRAMAÇÃO EVOLUCIONÁRIA
sete grandes áreas: motomecanização; usinagem; carpintaria
e fundição; armamento e tratamento superficial; capotaria; O modelo proposto neste artigo segue o ciclo iterativo
metalurgia; e ótica e eletrônica. Os serviços de manutenção semelhante ao dos modelos clássicos da programação evo-
são classificados em dois grandes grupos: lucionária. A primeira etapa consiste na formação de um
a. Programa Geral de Manutenção (Progem): serviços de conjunto de soluções válidas para o problema, denominada
manutenção preventiva realizados em equipamentos dos população inicial. Cada elemento desse conjunto é submetido
Fuzileiros Navais, que, por sua própria natureza, podem a um processo de codificação que o transforma em um vetor
ser agendados e planejados com antecedência; e finito, denominado cromossomo, que pode ter partes de sua
b. Serviços de Manutenção Corretiva (Extra-Progem – estrutura extraídas e recombinadas para formar novas solu-
Programa Geral de Manutenção Extraordinário): servi- ções. A etapa seguinte, denominada seleção, forma pares de
ços que incluem as manutenções em equipamentos que genitores entre os elementos da população com base em cri-
sofreram algum tipo de dano não planejado. térios relacionados aos índices de desempenho que se deseja
maximizar. Os pares de genitores são submetidos à etapa de
O modelo de programação evolucionária descrito neste cruzamento, em que partes de cada um dos genitores são trans-
artigo foi desenvolvido com base no problema de programa- feridas para uma nova solução-filha por meio de um processo
ção da produção da área de motomecanização, o maior setor probabilístico, até que ela se torne uma nova solução com-
do CTecCFN em termos de espaço e pessoal. Esse setor é pleta. Denominou‑se geração cada conjunto de soluções-filhas
responsável pela manutenção de viaturas, desde as viaturas formadas ao final da etapa de cruzamento. A nova geração é
administrativas até blindados sobre lagarta. Nessa oficina, os então decodificada e avaliada segundo os critérios que se pre-
recursos produtivos são classificados em três categorias: pes- tende aprimorar. Os ciclos de seleção, cruzamento e avaliação
soas, locais e equipamentos. A oficina dispõe tanto de técni- são repetidos até que se atinja um número máximo de itera-
cos especializados quanto de pessoal com diversas habilida- ções ou até que se consiga, ao menos, uma solução com um
des, capazes de executar diferentes tarefas. Portanto, algumas desempenho mínimo predeterminado. A seguir será descrito
tarefas podem ser executadas por variados grupos alternativos cada um dos componentes do modelo proposto neste artigo.
de pessoas. O mesmo raciocínio vale para os boxes das oficinas A população inicial é construída pelo programador de
do setor, locais específicos onde as viaturas são estacionadas atividades com apoio de um módulo de simulação discreta e
para receberem os reparos. Os programadores de atividades programação por capacidade finita, inspirado na estrutura pro-
se mantêm atualizados sobre quais técnicos são os mais ade- posta por Costa (1996). Esse módulo está ligado a um banco
quados para cada serviço dentre os vários disponíveis com de dados que armazena as características mais relevantes do
habilidade para realizá-lo, sobre a adequação de cada um dos ambiente de trabalho e das operações a serem processadas para
locais e equipamentos alternativos para realizarem os serviços, realizar os serviços de manutenção. O algoritmo de simulação

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discreta constrói programas de trabalho perfeitamente viáveis, categorias: indireta, em que o cromossomo é constituído de
que consideram todas as restrições e demandas presentes nas regras que orientam a construção de um programa de ati-
oficinas do CTecCFN, e que, portanto, podem ser imediata- vidades; e direta, em que o programa de produção pode ser
mente executados. O programador de atividades dispõe de entendido diretamente a partir dos símbolos, sem necessi-
três decisões gerenciais para montar programas de trabalho dade de nenhum processo de transcrição. O modelo tempo-
alternativos: priorização, mudança de horário dos recursos e ral utiliza um método de codificação de característica parti-
renegociação de entrega de material. Além disso, cada solu- cularmente direta.
ção gerada pelo simulador é acompanhada de uma série de Para codificar uma alternativa de programa de trabalho,
relatórios de análise da pontualidade de entrega, da utilização utilizou-se uma lista de tarefas ordenadas em função da data
de recursos e dos tempos de atravessamento. Dessa forma, de início para cada uma delas (Quadro 1). Cada elemento da
o programador de atividades repete o ciclo composto pela lista armazena as seguintes informações:
escolha de um conjunto de decisões gerenciais, execução da 1. Código da operação (CodOper).
simulação e avaliação da solução gerada até considerar esgo- 2. Código do serviço ao qual a operação pertence (CodSer).
tada sua capacidade de gerar melhores soluções. Durante esse 3. Instante de início de processamento da operação (IniOper).
processo, o módulo de simulação armazena no banco de dados 4. Instante de fim de processamento da operação (FimOper).
todos os programas de trabalho gerados. O programador de 5. Lista de códigos dos recursos necessários ao processa-
atividades é orientado a diversificar ao máximo suas deci- mento da operação (ListRec).
sões gerenciais, explorando as possibilidades de entrega pon- 6. Data de início mais tarde possível para entrega mais pon-
tual de todos os serviços em carteira e aumentando, assim, a tual do serviço (IniMaisTarde).
diversidade do conjunto de soluções geradas. A participação 7. Lista de antecessoras no roteiro do pedido (ListAnt).
ativa e independente do programador de atividades nessa 8. Datas previstas de entrega dos materiais externos neces-
etapa tem como objetivo capturar os conhecimentos tácitos sários à operação (caso haja algum) (ListMat).
que ele desenvolve na sua rotina de trabalho e embuti-los na
população inicial do algoritmo de programação evolucioná- Os códigos de operação, os códigos de serviços, a lista
ria. Como esse conhecimento contribui para a melhoria da de recursos e os instantes de início e fim de processamento
pontualidade de entrega, as partes da programação que geram da operação são elementos clássicos utilizados na modela-
resultados promissores — genes promissores, na linguagem gem de problemas de teoria de sequenciamento. A data mais
da programação evolucionária — tenderão a sobreviver ao tarde de início para entrega pontual do pedido é calculada de
longo do processo de evolução. forma similar à programação para trás proposta pelo Material
Cheng et al. (1996) classificam os métodos de codifi- Requirement Planning (MRP), partindo da data de entrega
cação para problemas de escalonamento em duas grandes prevista do serviço. Durante esse cálculo são consideradas as

Quadro 1. Programa de atividades codificado na forma de cromossomo.


CodOper CodOper CodOper CodOper CodOper

CodSer CodSer CodSer CodSer CodSer

IniOper IniOper IniOper IniOper IniOper

FimOper FimOper FimOper FimOper FimOper

ListRec ListRec ListRec ListRec ListRec

IniMaisTarde IniMaisTarde IniMaisTarde IniMaisTarde IniMaisTarde

ListAnt ListAnt ListAnt ListAnt ListAnt

ListMat ListMat ListMat ListMat ListMat

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datas de entrega previstas dos materiais necessários à execu- é feita de maneira aleatória. Se os indivíduos que formam um
ção das operações. Assim, se a data prevista de uma operação par possuem características muito semelhantes, o filho formado
é posterior à data de início calculada pelo processo de progra- será semelhante aos genitores e não trará variedade à população.
mação para trás, a chegada prevista do material é considerada Cruzamentos poderiam ser mais eficientes caso a “distância”
como sua data de início mais cedo para entrega mais pontual entre os indivíduos fosse considerada quando do processo de
possível do serviço. A Figura 1 ilustra o caso do cálculo da data formação de pares para cruzamento. Foi proposto um operador
mais tarde para as operações de um serviço de manutenção de seleção que busca, para cada indivíduo, um par que mais
utilizando os métodos da programação para frente e para trás. bem complemente suas características em termos de pontua-
As elipses na Figura 1 representam as operações; os núme- lidade de entrega, aumentando assim a diversidade da popu-
ros em preto, os seus tempos de processamento; e os números lação. O grau de complementaridade é medido calculando-se
em vermelho, as datas de início mais tarde calculadas para o número de tarefas que se encontram na seguinte situação:
garantir entrega minimamente pontual do serviço. 1. Iniciadas após IniMaisTarde no indivíduo para o qual
A etapa de seleção para cruzamento foi concebida com o buscamos o complementar;
intuito de formar pares de soluções que apresentassem carac- 2. Iniciadas antes de IniMaisTarde ou exatamente nesse
terísticas complementares em relação ao objetivo de pontua- instante no indivíduo candidato a complementar.
lidade que se pretende atingir. Na maior parte dos algoritmos
genéticos pesquisados, a formação dos pares para cruzamento Quanto maior for o número de operações nessa situa-
ção, maior será o grau de complementaridade do candidato
testado em relação à solução cujo complementar estamos
buscando. Esse método forma tantos pares quantos indiví-
23 24 duos houver na população, sendo que, cada par dará origem
17 1 1 25
a um único indivíduo filho a ser transmitido para a próxima
4 21 23 2
12 27 geração, conforme pode ser visto no exemplo do Quadro 2.
2 2
5 5 Caso o operador de seleção encontre mais de um indiví-
17 20 23
3 3 4 Data duo com o mesmo grau de complementaridade na popula-
prometida: ção, o desempate é feito de forma aleatória.
21 22 24 30/04
1 2 3 O processo de cruzamento entre os pares complementa-
Melhor
entrega res busca formar novas soluções a partir da combinação de
Material previsto possível: tarefas das soluções genitoras. A escolha das tarefas que for-
para o dia 22 02/05
marão a solução-filha é realizada por um processo de sorteio
Programação para frente
do qual participam apenas as tarefas que não tenham anteces-
soras no roteiro de produção do serviço ou cujas antecessoras
21 22 (todas elas) já tenham sido sorteadas. Essa regra visa prevenir
15 1 1 23 a situação em que uma operação seja inserida no horizonte de
4 19 21 2 planejamento de uma solução-filha em um instante de tempo
10 25
2 2 que requeira de sua(s) antecessora(s) uma programação que
5 5
15 18 21 preceda o início do horizonte de planejamento. Para guiar
3 3 4 Data
prometida: a ordem do sorteio, o conjunto de tarefas passíveis de serem
19 20 22 30/04 sorteadas é classificado em dois grandes grupos:
1 2 3
1. Tarefas cujo início de processamento é anterior ou coin-
Programação para trás cide exatamente com a data de início mais tarde possível
Figura 1. Data mais tarde para entrega pontual do
para entrega mais pontual do serviço;
pedido calculada pelos métodos de programação para 2. Tarefas cujo início de processamento é posterior à data de iní-
frente e para trás. cio mais tarde possível para entrega mais pontual do serviço.

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As probabilidades de sorteio dos elementos do primeiro programa de trabalho parcialmente construído. Esse proce-
grupo são sempre maiores do que as do segundo grupo. dimento não se restringe aos mesmos recursos que a tarefa
Dentro de cada um desses grupos, a probabilidade de uma ocupava no genitor da qual foi copiada, buscando também
tarefa ser sorteada é tanto maior quanto mais próxima sua os espaços livres em recursos alternativos. Isso é possível
data de início for da data de início mais tarde possível para porque o banco de dados ao qual o algoritmo de simulação
entrega mais pontual do serviço. Durante o sorteio, o meca- discreta se encontra ligado possui informações sobre todos
nismo de amostragem é constantemente ajustado para manter os possíveis conjuntos de recursos capazes de realizar cada
a distribuição de probabilidades supradescrita. uma das operações de cada serviço.
Quando uma tarefa é sorteada, o operador de cruza- O filho a ser gerado começa como um horizonte de pla-
mento tenta encaixá-la no mesmo espaço de tempo e nos nejamento em branco, que vai recebendo as tarefas de seus
mesmos recursos que ela ocupava no genitor de origem, sem genitores à medida que elas vão sendo sorteadas. Cada opera-
deslocar nenhuma tarefa que já esteja presente no filho em ção de manutenção aparece duas vezes no conjunto de tarefas
formação. Caso isso não seja possível, o mesmo algoritmo passíveis de serem repassadas à solução-filha, uma em cada um
de simulação discreta, utilizado originalmente para formar dos genitores que formam o par para o cruzamento. Em uma
as soluções iniciais, é acionado para realizar uma busca para população com grande diversidade, espera-se que a operação
frente no horizonte de planejamento, até conseguir encai- seja programada de formas distintas (instante de execução,
xá-la no espaço de tempo mais cedo possível disponível do recursos associados) em função do genitor escolhido. Durante o

Quadro 2. Exemplo de par com índice de complementaridade igual a 2.

Indivíduo principal

OperA OperB OperC OperA OperA OperB

Serv1A Serv1A Serv1A Serv1C Serv1B Serv1B

10/04 13h 13/04 10h 16/04 11h 21/04 08h 23/04 11h 24/04 10h

12/04 17h 14/04 10h 20/04 17h 23/04 10h 25/04 10h 27/04 15h

Maq1 Maq2 Maq3 Maq1 Maq1 Maq2

10/04 08h 13/04 08h 16/04 15h 20/04 09h 17/04 09h 21/04 08h

Sem Sem Sem Sem Sem Sem


material material material material material material

Candidato a complementar do indivíduo principal

OperA OperB OperC OperA OperB

Serv1A Serv1A Serv1A Serv1B Serv1B

10/04 13h 13/04 10h 19/04 10h 17/04 08h 19/04 11h

12/04 17h 14/04 10h 22/04 17h 19/04 10h 21/04 15h

Maq1 Maq2 Maq3 Maq1 Maq2

10/04 08h 13/04 08h 16/04 15h 17/04 09h 19/04 11h

Sem Sem Sem Sem Sem


material material material material material

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tratamento de cada par de genitores, quando uma tarefa é sor- h) Tarefas: programação de execução das tarefas indicando
teada, a tarefa referente à mesma operação no outro genitor é recursos utilizados e datas de início e fim.
eliminada do conjunto de tarefas passíveis de serem sorteadas.
Vale ressaltar que a ordem de escolha poderia ter sido rea- Por meio da interface, o usuário interage com o algoritmo
lizada de maneira determinística, em função desses mesmos de simulação e testa diferentes conjuntos de decisões geren-
critérios, porém testes preliminares mostraram que uma meto- ciais. Cada novo conjunto testado gera um novo programa
dologia probabilística confere maior diversidade à população e de atividades, que é armazenado para compor a população
uma exploração mais ampla do universo de possíveis soluções. inicial do algoritmo de programação evolucionária. Para tes-
tar o desempenho do modelo proposto, foram utilizados dois
conjuntos de dados:
5. IMPLEMENTAÇÕES 1. 20 serviços realizados ao longo do ano de 2014, totali-
PRELIMINARES E RESULTADOS zando 300 tarefas; e
2. 35 serviços realizados ao longo do ano de 2013, totali-
Esta seção descreve os resultados preliminares obtidos a par- zando 500 tarefas.
tir de testes realizados na primeira implementação do modelo
descrito na seção anterior. A implementação foi realizada uti- 5.1. Resultados da aplicação
lizando linguagem Visual Basic.NET 2012 e banco de dados sobre o conjunto de dados 1
PostgreSQL. O modelo é constituído de quatro módulos: O algoritmo de simulação foi acionado 25 vezes, sendo
1. Banco de dados; que o melhor índice de pontualidade obtido foi de 60%, ou
2. Algoritmo de simulação discreta com programação por seja, 12 serviços entregues até a data prevista.
capacidade finita; O algoritmo de programação evolucionária foi aplicado
3. Interface; sobre a população inicial de 25 soluções geradas com base no
4. Algoritmo de programação evolucionária. algoritmo de simulação. Na décima oitava geração, a melhor
pontualidade obtida convergiu para um valor 80%, que se
O banco de dados armazena as seguintes informações: manteve estável até a trigésima geração, quando o algoritmo
a) Recursos: meios disponíveis para a realização das ativi- foi interrompido.
dades de manutenção (local, operador ou máquina);
b) Serviços: datas de entrega previstas, cliente; 5.2. Resultados da aplicação
c) Execução: rede de atividades que deverá ser percorrida para sobre o conjunto de dados 2
a realização dos serviços, indicando ordenação e precedên- O algoritmo de simulação foi acionado 19 vezes, sendo
cias tecnológicas. São incluídos na rede os recursos e os que o melhor índice de pontualidade obtido foi de 85,7%, ou
materiais básicos necessários à execução de cada operação, seja, 25 serviços entregues até a data prevista.
além dos tempos de execução previstos para cada atividade; O algoritmo de programação evolucionária foi apli-
d) Programação de chegada de materiais: datas previstas para cado sobre a população inicial de 19 soluções geradas
a chegada dos materiais básicos necessários à realização com base no algoritmo de simulação. Na vigésima terceira
das atividades de manutenção; geração, a melhor pontualidade obtida convergiu para um
e) Andamento: informações sobre as operações que ainda valor 82,8%, ou seja, 29 serviços que se mantiveram está-
se encontram cadastradas no banco de dados, mas que já veis até a trigésima oitava geração, quando o algoritmo
foram iniciadas ou completadas; foi interrompido.
f) Decisões: decisões gerenciais tomadas pelo programador de Uma análise das dez melhores soluções geradas ao
produção durante a construção dos programas de trabalho; longo dos dois casos mostrou que elas compartilhavam
g) Relatórios: índices calculados de pontualidade, utilização de 30 a 50% das tarefas programadas exatamente como
de recursos e tempos de atravessamento para cada pro- apareciam na população inicial. Esse é um indicador de
gramação gerada pelo simulador; que o conhecimento tácito utilizado para formular essas

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tarefas foi repassado ao longo das gerações até chegar às programação evolucionária proposto traz dois conceitos ino-
soluções aprimoradas. vadores no campo da programação evolucionária aplicados a
problemas de escalonamento: a complementaridade dos genito-
res, em que os pares para cruzamento são montados buscando
6. CONCLUSÕES soluções que apresentam bom desempenho em entregas que,
na outra solução do par, encontram-se atrasadas; e seleção das
Foi apresentado um modelo de programação evolucionária partes que serão transmitidas aos filhos por meio do método
associado a um algoritmo de simulação discreta para apoiar a probabilístico, que faz com que as partes com melhores carac-
programação de atividades em uma oficina de manutenção de terísticas — em relação às partes da função-objetivo — tenham
equipamentos militares. O modelo de programação evolucio- prioridade na ordem de escolha.
nária se distingue por utilizar uma população inicial construída Os resultados preliminares mostraram que o processo foi
por um especialista em programação de atividades da oficina capaz de melhorar o desempenho de pontualidade de dois
de manutenção cujo o projeto foi desenvolvido como apoio de conjuntos de programas de atividades montados com ajuda
um algoritmo de simulação discreta. As soluções da popula- do simulador de capacidade finita. Além disso, o conheci-
ção inicial embutem o conhecimento tácito que o especialista mento tácito embutido nas soluções iniciais é aproveitado
não consegue formalizar em razão da velocidade e dinamici- pelo processo, que chega a carregar 50% das tarefas originais
dade com que esse conhecimento é criado. O algoritmo de contidas na população.

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SENSORES, GUERRA ELETRÔNICA E GUERRA ACÚSTICA

PRIMEIRA VERSÃO DE UM MODEM


ACÚSTICO SUBMARINO DEFINIDO POR
SOFTWARE DA MARINHA DO BRASIL
The first version of an underwater acoustic
software-defined modem for the Brazilian navy

Alexandre Geddes Lemos Guarino1, Fábio Contrera Xavier2,


Luis Felipe Pereira dos Santos Silva3, Jefferson Osowsky4

Resumo: Este trabalho tem o objetivo de apresentar os progressos Abstract: This work presents the progress that has been achie-
alcançados pelo Departamento de Acústica Submarina (DAS) do ved by the Department of Underwater Acoustics at the Almirante
Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira (IEAPM) no Paulo Moreira Sea Studies Institute in the development of a sim-
desenvolvimento de um modem acústico submarino simplex definido plex underwater acoustic software-defined modem. This paper
por software. São descritos neste artigo os diagramas em bloco dos apli- describes how the modem’s applications were implemented using
cativos de transmissão e recepção do modem, ambos implementados em C programming language, as well as its technical and functional
linguagem de programação C, bem como suas características técnicas e features to date. Three scenarios for testing are introduced to assess
funcionais até o presente momento. Três cenários de testes são apresen- the modem’s performance in terms of bit error rate (BER) × sig-
tados para avaliar seu desempenho em termos do levantamento de cur- nal-to-noise ratio per bit (Eb/N0) graphics.
vas taxa de erro de bit (BER) versus relação sinal-ruído por bit (Eb/N0). Keywords: Underwater Acoustic Communication. Digital
Palavras-chave: Comunicação Acústica Submarina. Comunicação Communication. Acoustic Modem. Software-Defined Modem.
Digital. Modem Acústico. Modem Definido por Software.

1. INTRODUÇÃO entre dois pontos e, mais recentemente, na comunicação entre


nós de redes acústicas submarinas (SOZER; STOJANOVIC;
Nas últimas décadas, a comunicação acústica subma- PROAKIS, 2000). Além disso, há poucos anos deu-se início
rina, tanto a curta quanto a longa distâncias, tem atraído a ao desenvolvimento de redes de sensores voltadas ao ambiente
atenção de centros de pesquisa, pesquisadores e engenheiros submarino para diferentes aplicações, tais como: monitora-
da área de telecomunicações ao redor do mundo (QUAZI; mento dos efeitos de mudança climática; pesquisas sobre os
KONRAD, 1982; STOJANOVIC; PREISIG, 2009), sendo habitats abissais; monitoramento da população de indivíduos
aplicada principalmente na transferência de dados digitais nos recifes de corais; monitoramento da qualidade da água;

1. Capitão de Corveta (EN). Engenheiro de Telecomunicação. Mestre em Engenharia Oceânica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Encarregado da Divisão de
Comunicação Submarina do Departamento de Acústica Submarina do Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira – Arraial do Cabo, RJ – Brasil. E-mail: guarino@
marinha.mil.br
2. Matemático. Mestre em Engenharia Oceânica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ajudante do Encarregado da Divisão de Bioacústica do Departamento de
Acústica Submarina do Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira – Arraial do Cabo, RJ – Brasil. E-mail: fabio.contrera@marinha.mil.br
3. Analista de Sistemas. Ajudante do Encarregado da Divisão de Processamentos de Sinais do Departamento de Acústica Submarina do Instituto de Estudos do Mar
Almirante Paulo Moreira – Arraial do Cabo, RJ – Brasil. E-mail: li.santossilva@hotmail.com
4. Engenheiro eletricista. Mestre em Engenharia Biomédica pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Ajudante do Encarregado da Divisão de Processamentos de
Sinais do Departamento de Acústica Submarina do Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira – Arraial do Cabo, RJ – Brasil. E-mail:  jefferson.osowsky@
marinha.mil.br

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monitoramento da engenharia offshore; navegação assistida; por estações de superfície fixas ou móveis. Exemplos dessa
entre outras (SENDRA et al., 2016). nova abordagem adotada nas comunicações submarinas são
Esse grande interesse em relação à comunicação acústica descritos em outros estudos (RENNER; GOLKOWSKI,
submarina está associado aos desafios que os pesquisadores 2016; STOKEY; FREITAG; GRUND, 2005).
encontram, principalmente aqueles da área de telecomunicações, Nesse contexto de comunicação acústica submarina, o
pelo fato de o meio de propagação ser extremamente dispersivo Departamento de Acústica Submarina (DAS) do Instituto de
(SENDRA et al., 2016), possuindo longos espalhamentos dos Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira (IEAPM), a par-
sinais no domínio do tempo, da ordem de milissegundos, e ate- tir de experimentos bem-sucedidos de transmissão de dados
nuações do nível do sinal recebido variantes no tempo e depen- digitais em seu tanque de testes, propôs, em 2011, o projeto
dentes da frequência (SOZER; STOJANOVIC; PROAKIS, de Comunicação Submarina (CSub) à Secretaria de Ciência,
2000). Cabe citar que o uso preferencial das ondas acústicas para Tecnologia e Inovação da Marinha do Brasil (SecCTM), hoje
comunicação submarina, em detrimento das ondas de radiofre- denominada Diretoria-Geral de Desenvolvimento Nuclear e
quência ou ópticas, é justificado pelas drásticas atenuações sofri- Tecnológico da Marinha (DGDNTM). O projeto tem dura-
das pelas ondas de rádio, aliadas às dificuldades de apontamento ção de dez anos e visa desenvolver um sistema completo de
das ondas ópticas no ambiente submarino. Cabe destacar ainda comunicação acústica submarina com tecnologia nacional e de
que a absorção das ondas acústicas com frequências comumente propriedade da Marinha do Brasil (MB). Seu objetivo princi-
usadas para comunicação submarina é de ordem de grandeza três pal é a realização de comunicações entre uma estação base de
vezes menor do que aquela sofrida pelas ondas eletromagnéticas transmissão e um submarino por meio de um modem definido
com mesmas frequências (AYAZ et al., 2011). por software do tipo simplex, desenvolvido pela equipe do DAS,
O equipamento principal para a realização de comunicações chamado Modem-CSub (OSOWSKY et al., 2014a; 2014b).
acústicas submarinas é o modem, que pode ser desenvolvido de Portanto, este artigo tem o objetivo de apresentar os dia-
diversas formas: standalone em uma placa dedicada; definido por gramas em bloco dos aplicativos de transmissão e recepção,
software em um laptop ou computador; ou definido por software em bem como as curvas de desempenho do Modem-CSub, i.e.,
uma Single-Board Computer (SBC). Diversos modems acústicos taxa de erro de bit (BER) versus relação sinal-ruído por bit
“de prateleira” estão disponíveis no mercado, tais como: Teledyne (Eb/N0), obtidas por meio de transmissões/recepções de dados
Benthos underwater acoustic modem, LinkQuest’s SoundLink under- digitais realizadas em canais de comunicação:
water acoustic modem, EvoLogics underwater acoustic communication 1. sujeito apenas à presença de ruído aditivo gaussiano branco
system, Aquatec’s AQUAmodem e DSPComm’s Aquacomm underwater (AWGN);
wireless modem. Sendra et al. (2016) fizeram um excelente traba- 2. sujeito ao desvanecimento com resposta impulsiva do
lho de compilação desses dispositivos, apresentando uma tabela canal obtida por meio de simulações do Bellhop; e
com suas características, além de introduzirem o modem desen- 3. com resposta impulsiva do canal estimada a partir de
volvido por eles, chamado ITACA, na Universitat Politècnica de transmissões no tanque de testes do DAS.
València. Entretanto, o mais conhecido na comunidade científica
é denominado WHOI Micro-Modem (FREITAG et al., 2005;
SINGH et al., 2006; GALLIMORE et al., 2010). Outros três 2. OBJETIVOS
modems de baixo custo e baixo consumo do tipo SBC são apre-
sentados em outros estudos (WILLS; YE; HEIDEMANN, O objetivo do projeto “CSub – Comunicações Submarinas”,
2006; BENSON et al., 2010; WU et al., 2012). subvenção nº TC53000/2011- 001/2011 da DGDNTM, tal
Além disso, com o avanço tecnológico no desenvolvi- como proposto inicialmente, é: o desenvolvimento de um sis-
mento de Autonomous Underwater Vehicles (AUVs) compactos tema de comunicações submarinas por métodos acústicos confiá-
e de baixo custo, comumente chamados de micro-AUVs ou vel, escalável e seguro.
(µAUVs), modems definidos por software rodando sobre plata- Cabe ressaltar que o foco deste trabalho foi o desenvol-
formas do tipo SBC estão sendo embarcados nesses veículos, vimento do protótipo de um modem acústico definido por
permitindo que os µAUVs sejam controlados remotamente software (MADS) até a sua primeira versão, bem como os

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resultados alcançados por ele. Não pertence ao escopo deste 1. configuração dos parâmetros do modem via arquivo de texto;
trabalho a apresentação detalhada das estações de transmis- 2. recepção e transmissão de sinais via Windows Audio System
são de dados utilizadas pelo Modem-CSub durante os testes (WAS) ou NI-DAQmx;
realizados, bem como outros trabalhos realizados pela equipe 3. processamento do sinal recebido pelo receptor do MADS
do projeto, tais como o desenvolvimento de um arranjo de em tempo real;
seis projetores e de um sistema móvel de calibração de trans- 4. modulação por chaveamento de frequência (M-FSK) não
dutores (GUARINO; FLORENCIO; SARAIVA, 2016). coerente com M portadoras mutuamente ortogonais;
5. diversidade em frequência para mitigar o efeito de fading
do canal;
3. METODOLOGIA 6. filtro digital passa-faixa do tipo Finite Impulse Response
(FIR) na entrada do receptor;
Ao longo do projeto, o modem acústico submarino passou de 7. interleaver matricial para mitigar o erro de burst;
uma especificação técnica, definida a partir dos requisitos opera- 8. correção antecipativa de erro de bit (FECC) via código
cionais e das conclusões tiradas em reuniões com os membros da convolucional;
equipe do DAS, à implementação concreta de dois aplicativos: 9. sistema de wake-up do receptor do tipo adaptativo;
1. cstx.exe: aplicativo executado por linha de comando via 10. equalização do pacote recebido via filtro de Wiener;
Windows Shell destinado a codificar uma mensagem digi- 11. gravação dos sinais recebidos em arquivos wave.
tada pelo usuário ou contida em algum arquivo texto ou
binário e transmiti-la como um sinal elétrico analógico 3.1. APLICATIVO DE
pela saída da placa de áudio do computador ou pela saída TRANSMISSÃO: CSTX.EXE
analógica de um dispositivo Data Acquisition (DAQ) da Nesta seção explicaremos de forma sucinta o funciona-
National Instruments (NI); mento do aplicativo cstx.exe.
2. csrx.exe: aplicativo executado por linha de comando via Seu diagrama em blocos é mostrado na Figura 1A.
Windows Shell para decodificar um sinal elétrico analógico Como citado, na etapa de transmissão não se requer, do
adquirido via entrada da placa de áudio do computador ponto de vista do processamento de sinais, alta complexidade
ou via entrada analógica de um dispositivo DAQ da NI. tanto no conceito de implementação do seu código quanto
na questão que envolve aplicações de técnicas de processa-
Inicialmente, as funções de codificação/decodificação, mento digital de sinais.
modulação/demodulação das mensagens foram implemen- Um conjunto de bits de entrada é codificado (os bits
tadas e testadas em ambiente MATLAB a partir de sinais sofrem redundância por intermédio do código convolucional
digitais gravados no formato wave. Uma vez validadas essas e são embaralhados pelo interleaver), modulado em M-FSK,
funções, partiu-se para a implementação, em linguagem de empacotado em um subconjunto de N símbolos por pacote,
programação C, das funções das etapas de captura, bufferi- ao qual um sinal do tipo chirp é adicionado para delimitar o
zação e processamento digital de sinais. início e o final de cada pacote. Enquanto esses processos são
Aqui, cabe ressaltar que grande parte da complexidade no realizados, o sinal resultante é apropriadamente enviado a um
desenvolvimento de um MADS está no subsistema de recep- buffer de memória do tipo First In, First Out (FIFO). A saída
ção, visto que o sinal elétrico recebido está contaminado por desse buffer envia os sinais para o dispositivo de áudio, que
ruído, atenuado e distorcido pelo canal de comunicação por transmitirá o sinal para o sistema de transmissão.
onde o sinal transmitido se propagou, contribuindo, assim, para
o surgimento de erros na mensagem decodificada. Esses erros 3.2. APLICATIVO DE
são reduzidos por meio da implementação de técnicas de pro- RECEPÇÃO: CSRX.EXE
cessamento digital de sinais no aplicativo receptor do modem. Nesta seção explicaremos de forma suscinta o funciona-
Resumidamente, o MADS desenvolvido até o presente mento do aplicativo csrx.exe.
momento possui as seguintes características: Seu diagrama em blocos é mostrado na Figura 1B.

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A
SW: Thread #1
HW: placa de aquisição

encoder
sinal LFM

buffer interno
(chirp)
código
convolucional DAC

bits de entrada
sinal analógico
(projetor)

mod
interleaver (M-FSK) Empacotador

buffer limitado

t=0

buffer temporal em memória


LFM#N –1

LFM#N

LFM#4

LFM#3

LFM#2

LFM#1
PACK#N ... PACK#3 PACK#2 PACK#1

B
SW: Thread #1 (SAM=0) buffer limitado

t $AM=0
$DL
10 log MAX
y[t:t–T/2]
set $AM=0, se $DL<$TH Filtro
set $AM=1, caso contrário comparador FIR
buffer temporal em memória

sinal LFM
M HW: placa de aquisição
(chirp)
set $TH=K+$NP t=T/2
buffer interno

SW: Thread #2 (SAM=0) ADC


$AM=0
y[t–T/2:t–T] sinal analógico
10 log (RMS)2 (hidrofone)
M
set $NP
$AM=1

SW: Thread #3 (SAM=1) t=T


Filtro
FIR
decoder

demod Filtro buffer ilimitado


Deinter PACK#i
(M-FSK) de spline
leaver 1<=i<=N
Wiener t=0
PACK#i identificado
buffer temporal em arquivo
LFM#–1

Sim
LFM#N
LFM#4
LFM#3
LFM#2
LFM#1

último LFM#i
Viterbi PACK#1 PACK#2 PACK#3 ... PACK#N ruído
chirp? 1<=i<=N+1
set $AM=0
Não, set i=i+1

sinal LFM
bits de saída (chirp)

Figura 1. Diagrama em blocos dos aplicativos do modem acústico definido por software: (A) cstx.exe; (B) csrx.exe.

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Uma vez inicializado, esse aplicativo passa a receber o sinal o algoritmo de Viterbi tenta corrigir bits errados por meio da
digitalizado pela placa de áudio proveniente de um hidro- redundância adicionada ao transmissor. O uso do deinterleaver
fone, armazenando-o em um buffer temporal de memória de antes do algoritmo de Viterbi aumenta sua eficiência, separando
comprimento T segundos. Esse buffer pode ser visto como uma sequência de bits errados contíguos. Tem-se, finalmente,
uma janela de largura de T segundos que se desloca ao longo uma sequência de bits de saída que deve ser igual à sequência
do “eixo temporal discreto” a uma velocidade de fs amostras/ de bits transmitidos. Com a identificação do último pacote, a
segundo, onde fs é a frequência de amostragem do disposi- variável $AM é zerada, levando o modem novamente ao modo
tivo de aquisição de sinais. de escuta do canal, i.e., execução das Thread #1 e #2 e uso do
Inicialmente, como nenhuma mensagem foi transmitida, buffer em memória.
o conteúdo do buffer será de uma sequência que representa
o ruído ambiente do canal submarino. Sua parte inferior, de
t − T/2 até t − T, é então analisada pela Thread #2 do csrx. 4. RESULTADOS
exe, que calcula, em dB, a potência média do ruído ambiente
no momento. Esse valor real positivo é armazenado na variá- Os resultados deste trabalho foram obtidos via laptop e
vel $NP. O processo é realizado em tempo real enquanto a placa de áudio USB com taxa de amostragem de 48 ksps e
variável $AM for igual a zero. quantização de 16 bits/amostra. O transmissor envia a men-
Na Thread #1, enquanto $AM for igual a zero, a parte sagem para a saída de áudio dessa placa, que é então adqui-
superior do buffer é analisada, procurando nessa subjanela da rida pelo receptor por meio da entrada de áudio da mesma
janela temporal um sinal do tipo chirp, o qual corresponderia placa. Um cabo de áudio conecta os terminais de entrada
ao início da chegada de uma mensagem. Essa busca se dá por e saída. Em relação ao canal de comunicação, três cenários
meio da função de correlação cruzada no domínio do tempo, foram avaliados para o levantamento de curvas BER × Eb/N0:
procurando-se, em seguida, seu máximo absoluto, denomi- • C1: canal sujeito apenas a ruído AWGN: y(t) = x(t) + η(t);
nado $DL, valor dado em dB. $DL é usado como valor de • C2: canal obtido pelo Bellhop e sujeito a ruído AWGN:
referência num comparador cuja segunda entrada é dada pelo y(t) = h(t) ∗ x(t) + η(t);
valor contido na variável $TH, que é a soma de $NP, potên- • C3: canal estimado a partir de um sinal chirp adqui-
cia média do ruído no canal de comunicação, e a constante K rido no tanque de testes e sujeito a ruído AWGN: y(t) =
definida pelo usuário no arquivo de configuração do modem. h(t) ∗ x(t) + η(t).
Se $DL≥$TH, atribui-se o valor unitário a $AM, ativando,
assim, a execução da Thread #3, a qual efetivamente realiza o Em que y(t), x(t), h(t) e η(t) são os sinais recebido e trans-
processo de demodulação e decodificação do sinal recebido. mitido, a resposta ao impulso do canal de comunicação e o
Uma vez que o primeiro chirp é identificado, os sinais digitais ruído AWGN de média zero e σ 2=0,001, respectivamente.
de entrada são armazenados em um buffer de arquivo. A busca O valor de Eb/N0 obtido nos cenários citados, para o
pelos outros chirps se dará nesse buffer, não mais no de memó- levantamento das curvas de desempenho do Modem-CSub,
ria. Na Thread #3, um segundo correlacionador cruzado realiza foi calculado em tempo real pelo aplicativo de recepção des-
essa busca, marcando o início e o final de cada pacote recebido. crito, a partir da equação 1 apresentada em Osowsky et al.
Primeiramente, cada pacote é interpolado por meio de uma (2014a), com a inserção do termo D, o qual define a ordem
função de spline cúbica para mitigar o efeito Doppler. Aplica-se, da diversidade em frequência (RAUT; BADJATE, 2013;
então, um filtro de Wiener em todo o pacote na intenção de RAPPAPORT, 2002) utilizada no sistema de comunicação
equalizar o sinal recebido, reduzindo-se assim os efeitos de acústica submarina proposto, i.e.,
fading causados pelo canal de comunicação. Após essas eta-
Eb Eb
pas, os símbolos são separados, demodulados e decodificados. = – 10 · log (D) (1)
N0 D N0
Na demodulação, a diversidade em frequência permite que o
símbolo seja detectado por duas frequências distintas, reduzindo Sem perda de generalidade e a fim de ter simplicidade
o erro causado pelo fading do canal. Na etapa de decodificação, na notação, daqui para frente o subescrito |D em Eb/N0 na

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equação citada será omitido, fazendo com que toda menção à de guarda entre os símbolos (234 bps) e com tempo de
relação sinal-ruído por bit esteja relacionada àquela calculada guarda igual a 12,8 ms (117 bps);
com o termo de diversidade em frequência incluso. Os testes 5. a sequência de entrada foi transmitida 300 vezes, decremen-
foram executados da seguinte forma: tando em cada step a amplitude do sinal para a placa de áudio.
1. gerou-se uma sequência de 1728 bits {0, 1}, uniformemente Assim, como o ruído AWGN inserido pelo receptor é cons-
distribuída, a ser transmitida. Note-se que o número de bits tante, o valor de Eb/N0 diminui, resultando em um BER maior.
transmitidos é o dobro dessa sequência, visto que o valor
de code rate usado no código convolucional foi de 1/2; As curvas BER × Eb/N0 do desempenho do modem para
2. o ruído AWGN em y(t) foi adicionado pelo receptor; o cenário C1 são mostradas na Figura 2. A função de resposta
3. para que o sinal x(t) sofra influência do canal h(t) nos ao impulso h(t) do cenário C2, tanto no domínio do tempo
cenários C2 e C3, o transmissor convolui x(t) com o h(t) quanto no da frequência, bem como suas curvas de desempe-
desejado antes de enviá-lo à placa de áudio; nho, são mostradas nas Figuras 3 e 4, respectivamente. Por fim,
4. o desempenho do modem foi levantado para a modulação a função h(t) e as curvas BER × Eb/N0 para o cenário C3 são
8-FSK com diversidade em frequência (D=2), sem tempo mostradas nas Figuras 5 e 6, respectivamente. Cabe ressaltar

A 8-FSK com diversidade em frequência (M08wDiv) B 8-FSK com diversidade em frequência (M08wDiv)
Canal: awgn --- Tg=0,0 ms --- FECC ativo: não Canal: awgn --- Tg=12,8 ms --- FECC ativo: não
100
100

10-1 10-1
Bit error rate

Bit error rate

10-2 10-2

10-3 10-3
0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 20 0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 20
Eb/N0 (dB) Eb/N0 (dB)

C 8-FSK com diversidade em frequência (M08wDiv) D 8-FSK com diversidade em frequência (M08wDiv)
Canal: awgn --- Tg=0,0 ms --- FECC ativo: sim Canal: awgn --- Tg=12,8 ms --- FECC ativo: sim
100 100

10-1 10-1
Bit error rate

Bit error rate

10-2 10-2

10-3 10-3
0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 20 0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 20
Eb/N0 (dB) Eb/N0 (dB)

sem equalização (NoEqu) com equalização (w/Equ) teórico (com diversidade, D=2)

Figura 2. Desempenho do modem para o cenário C1.

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A Função de resposta ao impulso B Função de resposta em frequência de h[n]


0,05 0

Ganho (dB)
0,04 –10
0,03 –20
0,02 –30
–40
0,01

0
h[n]

0
0

.0

.0
4.

5.

6.

7.

8.

9.

10

11
–0,01 Frequência (Hz)
–0,02 10

Fase (rad)
0
–0,03
–10
–0,04
–20
–0,05 –30
0, 0
0, 2

0, 4
0, 6
8

0, 1
12
14

0, 6
18
02

0
0
0

0
0

1
0

0
0

0
0
0
0,

0,
0

0
0
0

.0

.0
0,
0,

4.

5.

6.

7.

8.

9.

10

11
Tempo (s) Frequência (Hz)

Figura 3. Canal de comunicação submarino calculado a partir do Bellhop.

A 8-FSK com diversidade em frequência (M08wDiv) B 8-FSK com diversidade em frequência (M08wDiv)
Canal: sim-trac --- Tg=0,0 ms --- FECC ativo: não Canal: sim-trac --- Tg=12,8 ms --- FECC ativo: não
10 0
10 0

10-1 10-1
Bit error rate

Bit error rate

10-2 10-2

10-3 10-3
0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 20 0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 20
Eb/N0 (dB) Eb/N0 (dB)

C 8-FSK com diversidade em frequência (M08wDiv) D 8-FSK com diversidade em frequência (M08wDiv)
Canal: sim-trac --- Tg=0,0 ms --- FECC ativo: sim Canal: sim-trac --- Tg=12,8 ms --- FECC ativo: sim
100 100

10-1 10-1
Bit error rate

Bit error rate

10-2 10-2

10-3 10-3
0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 20 0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 20
Eb/N0 (dB) Eb/N0 (dB)

sem equalização (NoEqu) com equalização (w/Equ) teórico (com diversidade, D=2)

Figura 4. Desempenho do modem para o cenário C2.

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A Função de resposta ao impulso B Função de resposta em frequência de h[n]


0,05 0

Ganho (dB)
0,04 –20
0,03 –40
0,02 –60
–80
0,01

0
h[n]

0
0

.0

.0
4.

5.

6.

7.

8.

9.

10

11
–0,01 Frequência (Hz)
–0,02 0

Fase (rad)
–20
–0,03
–40
–0,04
–60
–0,05 –80
0
02

1
12

14

16

18

0
0
0
0
0

0
0

0
0
0
0,
0

0
0
0

.0

.0
0,

0,
0,
0,
0,

0,
0,
0,

4.

5.

6.

7.

8.

9.

10

11
Tempo (s) Frequência (Hz)

Figura 5. Canal de comunicação estimado a partir de um sinal chirp adquirido no tanque de testes.

A 8-FSK com diversidade em frequência (M08wDiv) B 8-FSK com diversidade em frequência (M08wDiv)
Canal: tank --- Tg=0,0 ms --- FECC ativo: não Canal: tank --- Tg=12,8 ms --- FECC ativo: não
10 0
10 0

10-1 10-1
Bit error rate

Bit error rate

10-2 10-2

10-3 10-3
0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 20 0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 20
Eb/N0 (dB) Eb/N0 (dB)

C 8-FSK com diversidade em frequência (M08wDiv) D 8-FSK com diversidade em frequência (M08wDiv)
Canal: tank --- Tg=0,0 ms --- FECC ativo: sim Canal: tank --- Tg=12,8 ms --- FECC ativo: sim
100 100

10-1 10-1
Bit error rate

Bit error rate

10-2 10-2

10-3 10-3
0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 20 0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 20
Eb/N0 (dB) Eb/N0 (dB)

sem equalização (NoEqu) com equalização (w/Equ) teórico (com diversidade, D=2)

Figura 6. Desempenho do modem para o cenário C3.

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que a resposta ao impulso do canal para o cenário C1 foi comunicações com equipamentos de prospecção de petró-
omitida, visto que h(t) = δ(t), em que δ(t) é a função delta de leo, na área de monitoramento ambiental, provendo infor-
Dirac, ou seja, resposta em frequência plana na faixa utilizada. mações em tempo real sobre qualidade de água e condições
Nos gráficos das Figuras 2, 4 e 6, os identificados como (A) e oceanográficas em regiões hostis. Além disso, o modem tem
(B) ilustram os resultados antes de a sequência de bits passar proporcionado o aumento da expertise do corpo técnico da
pelo corretor de erros (algoritmo de Viterbi). MB nessa área estratégica da Defesa Nacional, permitindo
Já aqueles identificados como (C) e (D) mostram os resul- o desenvolvimento de novas tecnologias 100% brasileiras.
tados depois de a sequência de bits passar pelo algoritmo
de Viterbi. Além disso, as curvas em azul são referentes ao
desempenho do Modem-CSub sem a aplicação do equaliza- 6. AGRADECIMENTOS
dor; as curvas em vermelho, com a aplicação do equalizador;
e as curvas em verde mostram os resultados teóricos para a Os autores deste trabalho e o DAS do IEAPM agrade-
modulação 8-FSK sujeita a ruído AWGN (Figura 2) e sujeita cem ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico
a uma distribuição Rayleigh (Figuras 4 e 6). e Tecnológico (CNPq) pela concessão de bolsas de fomento
Para o cenário C2, a simulação foi realizada a partir da tecnológico e extensão inovadora mediante as subven-
saída de amplitudes e atrasos do modelo de traçado de raios ções nº 381984/2012-5/DTI, nº 383030/2014-5/DTI e
Bellhop. Os cálculos foram efetuados para a frequência cen- nº 383094/2014-3/DTI; à Financiadora de Estudos e Projetos
tral de 7,5 kHz. (Finep) pelo suporte financeiro concedido mediante o contrato/
convênio nº 01.13.0421.02(1345/13); e à DGDNTM pelo
suporte financeiro destinado ao projeto “CSub – Comunicações
5. CONCLUSÕES Submarinas”, processo TC 53000/2011-001/2011.
Parte deste trabalho foi apresentada no XI Encontro de
Este trabalho apresentou o desenvolvimento e a avaliação Tecnologia em Acústica Submarina – XI ETAS, 2014, Rio
da primeira versão de um modem acústico submarino sim- de Janeiro (RJ), Brasil.
plex definido por software da MB. Os resultados mostram Este trabalho foi laureado com o prêmio “Soberania pela
que o desenvolvimento do modem está alinhado às fases e às Ciência”, em sua primeira edição, concedido pela DGDNTM
metas do projeto “CSub – Comunicações Submarinas” do e patrocinado pela Fundação Conrado Wessel (FCW). Por esse
IEAPM/DGDNTM. A avaliação do modem também evi- motivo, os autores deste trabalho agradecem a todos aqueles,
dencia o seu grande potencial em aplicações militares e civis. militares e civis, que direta ou indiretamente contribuíram, do
Em aplicações civis, o modem pode ser utilizado, por exemplo, passado até o presente momento, para o sucesso do projeto
no comando e controle de AUVs, em atividades offshore, nas “CSub – Comunicações Submarinas”. Bravo Zulu.

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SENSORES, GUERRA ELETRÔNICA E GUERRA ACÚSTICA

RESOLUÇÃO DA AMBIGUIDADE
BORESTE-BOMBORDO EM ARRANJO
DE HIDROFONES REBOCADO
Resolution of port-starboard ambiguity
in a towed array of hydrophones

Stilson Veras Cardoso1

Resumo: Este trabalho apresenta um método para a resolução do pro- Abstract: This work presents a method for the resolution of the
blema da ambiguidade boreste-bombordo em arranjo de hidrofones port-starboard ambiguity problem using a towed array of hydro-
rebocado: o arranjo plano em dupla linha. A partir do modelo mate- phones: the twin-line planar array. Starting from the mathemat-
mático desse arranjo foram realizadas simulações em MATLAB® ical model of this array, MATLAB simulations were carried out
(MathWorks Inc.) para avaliar seu desempenho na faixa de frequên- in order to assess its performance in the frequency range 10 to
cia de 10 a 1.000 Hz e determinar os limites de giro do diagrama de 1,000 Hz, and determine the steering limits of the beam pattern.
irradiação. Um sistema composto de um gerador de sinal e um arranjo A system composed of a signal generator and a twin-line planar
plano em dupla linha foi programado para avaliar o processamento de array was programmed to evaluate the signal processing by the
sinal pelo arranjo. O sistema simula um sinal acústico determinístico array. The system emulates a deterministic acoustical signal emit-
emitido por um alvo e um meio de transmissão. A conformação do ted by a target and a transmission medium. The beamforming
sinal recebido emprega o método de atraso-e-soma. A posição do alvo of the received signal uses the delay-and-sum method. The tar-
foi estimada de forma efetiva com base na potência média e no espec- get’s location was estimated effectively based on the time-aver-
tro de frequência-e-angular do sinal conformado. age power and the frequency-and-angular spectrum of the beam-
Palavras-chave: Sonar. Ambiguidade Boreste-Bombordo. formed signal.
Arranjo de Hidrofones Rebocado. Arranjo Plano em Dupla Linha. Keywords: Sonar. Port-Starboard Ambiguity. Towed Array of
Simulações em MATLAB. Hydrophones.Twin-Line Planar Array.Simulations in MATLAB.

1. INTRODUÇÃO 2004), que compreende o arranjo de hidrofones, o cabo de


reboque e a cauda. O arranjo é encapsulado em uma man-
Em comparação a arranjos de hidrofones montados no gueira para proteger sua eletrônica da água do mar e de cho-
casco, como o cilíndrico e o de flanco, os arranjos lineares ques físicos. Tal mangueira é flexível, de modo a evitar ruído
rebocados permitem desacoplar o ruído próprio do sinal em forma de ressonância (URICK, 1983). Além disso, a man-
recebido de alvos, propiciando o aumento da relação sinal/ gueira contém uma camada de óleo que confere flutuabilidade,
ruído. Além disso, suas dimensões físicas não ficam restritas estabilizando o arranjo na horizontal e diminuindo assim o
às dimensões do casco do navio, possibilitando o aumento arraste (LASKY et al., 2004). A cauda é acrescentada ao final
da diretividade. A Figura 1 mostra a estrutura básica de um do arranjo para evitar o efeito de chicote atuando no próprio
sonar rebocado, baseada na arquitetura Towflex (LASKY et al., arranjo (URICK, 1983).

1. Tecnologista do Instituto de Pesquisas da Marinha (IPqM) – Rio de Janeiro, RJ – Brasil – E-mail: stilson@marinha.mil.br

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Stilson Veras Cardoso

O comprimento do cabo de reboque é longo o suficiente não consegue discernir se o alvo está a bombordo ou a boreste,
para posicionar o arranjo abaixo da termoclina (vide perfil ou se há dois alvos.
de velocidade na Figura 1), no campo distante do ruído pró- O método abordado neste trabalho como solução para
prio irradiado pelo navio, de modo que parte desse ruído é o problema da ambiguidade boreste-bombordo é o arranjo
dissipada ao longo do percurso até o arranjo devido a perda plano em dupla linha, o qual é modelado como dois arran-
de propagação (LASKY et al., 2004). jos lineares em paralelo formados por N elementos pontuais,
O problema da ambiguidade boreste-bombordo decorre da omnidirecionais, idênticos e ponderados por pesos complexos
simetria do diagrama de irradiação de arranjos lineares, como (ZIOMEK, 2016). A Figura 3 ilustra um arranjo com seis
ilustrado na Figura 2, que mostra um arranjo linear sendo elementos por linha posicionado no plano XY, sendo que dx
rebocado por um submarino (visto de cima). O diagrama de e dy são os espaçamentos interelemento nos eixos X e Y, res-
irradiação horizontal no plano XY possui um lobo principal pectivamente (ZIOMEK, 2016).
(hachurado) em sua imagem, e é girado à procura de alvos. O diagrama de irradiação do arranjo plano em dupla linha
Para um alvo localizado a ψs=135º (bombordo), a resposta dupla localizado no campo distante de uma fonte acústica,
do arranjo será a mesma para ψ’ igual a 45º (alvo a boreste) em função da frequência ƒ e dos cossenos direcionais adi-
e 135º (alvo a bombordo). Dado que a saída do sonar é a mensionais nos eixos X e Y, respectivamente u e v, é dado
mesma para respostas idênticas do arranjo, o operador sonar por Ziomek (2016):

Ruído
Cabo de Reboque próprio
Invólucro Z
Campo próximo Termoclina
Y
Cauda X Perda propagação

Arranjo de hidrofones
Campo distante

Raio c(z)
Fonte: Adaptado de Lasky et al. (2004).
Figura 1. Arranjo de hidrofones rebocado.

ψs = 135°

Bombordo

Z Y

Boreste
ψ’ = 45°

X
ψs = 45°

Figura 2. Ambiguidade boreste-bombordo.

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Stilson Veras Cardoso

d X N /2 dd X = λmin / 4 (8)
D( f , u , v ) = 4 a1 ( f )S( f )cos π (u − u ') ∑
λ n=1
bn ( f )cos 2π ( v − v ')( n − 0.5) Y
λ
(1)
Essa configuração foi empregada para o estudo do com-
d N /2
d
os π (u − u ') X
λ
∑ bn ( f )cos 2π (v − v ')(n − 0.5) λY portamento do diagrama de irradiação do arranjo, bem como
n =1
nas simulações a serem discutidas na seção seguinte.
em que
S(ƒ) é a função complexa de sensibilidade do elemento,
a1( f ) = a-1( f ) são os pesos complexos em amplitude nas 2. METODOLOGIA DE PESQUISA
direções X positiva e negativa, respectivamente,
Inicialmente o arranjo foi estudado em termos do com-
bn ( f ) = b− n ( f ), n = 1, 2,..., N (2) portamento de seu diagrama de irradiação em função da fre-
quência e do ângulo de giro. Partindo-se da frequência ótima
são os pesos complexos em amplitude nas direções Y positiva empregada para dimensionar o arranjo, que teoricamente
e negativa, respectivamente, λ é o comprimento de onda do resolve a ambiguidade boreste-bombordo, foi calculado e
sinal irradiado pelo alvo, e os cossenos direcionais adimen- plotado o diagrama de irradiação para frequências sucessi-
sionais u e v, e respectivos valores de giro do diagrama de vamente menores, a fim de determinar o limite mínimo de
irradiação, u’ e v’, são dados em termos dos ângulos esféricos operação. Em seguida, investigou-se a influência do giro no
θ, ψ, θ’, e ψ’ como: diagrama de irradiação, e foi verificado o limite de operação.
Na segunda parte da pesquisa, o objetivo foi avaliar a
u = sin θ cos ψ (3) capacidade do arranjo em estimar a posição de um alvo cujas
coordenadas são conhecidas. Com essa finalidade, foi pro-
u ' = sin θ 'cos ψ ' (4) gramado em MATLAB® (MathWorks Inc.) um sistema
composto de um gerador de sinal e um arranjo plano em
v = sin θ sin ψ (5) dupla linha. Ao contrário das análises anteriores, os testes
foram realizados com um sinal de frequência única: 1.000 Hz,
v ' = sin θ 'sin ψ ' (6) aquela empregada para dimensionar o arranjo para rejeitar
a ambiguidade boreste-bombordo. Basicamente, o gerador
O arranjo pode ser dimensionado para uma dada banda de sinal emite um sinal acústico e simula um meio de trans-
de frequência de operação, em termos do limite superior missão. O sinal acústico resultante é submetido ao arranjo,
(mínimo comprimento de onda). Para tal valor de λ o dia- o qual transduz o sinal para elétrico, conforma o sinal e
grama de irradiação é livre de ambiguidade, e os espaçamentos calcula duas saídas: a potência média e o espectro de fre-
interelemento requeridos são dados por (ZIOMEK, 2016): quência-e-angular, que são empregados para determinar a
estimativa da posição do alvo. A Figura 4 apresenta o dia-
dY = λmin / 2 (7) grama de blocos do sistema.

dY
dX Y
Z 0

X
Fonte: Adaptado de Ziomek (2016).
Figura 3. Arranjo plano em dupla linha.

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O primeiro bloco do gerador de sinal é a fonte acústica, O meio de transmissão é modelado como não delimitado,
a qual gera um pulso CW (continuous wave) de 500 ms de isto é, sem interação (reflexão, refração ou absorção) com o
duração, 1.000 Hz e amostrado a 10 kHz. O modelo ado- fundo ou a superfície do mar, viscoso (absortivo) e homo-
tado é uma fonte pontual e omnidirecional, e suas coor- gêneo, ou seja, a velocidade de propagação do som c (m/s) é
denadas esféricas (r s, θ s e ψ s) são ajustáveis e defi nidas considerada constante, independente da profundidade, tem-
tendo como origem o centro do arranjo. Nas simulações, peratura ou densidade, de forma que a propagação é retilínea,
a distância radial da fonte ao centro do arranjo foi fixada sem refração. O valor de c empregado nas simulações foi de
em 500 m. Nesse modelo, a pulsação da fonte desloca um 1.500 m/s. O meio modifica o sinal acústico irradiado pela
volume de fluido uniforme em todas as direções a uma taxa atenuação por absorção, atenuação por perda de propagação
constante, e a vazão, em m3/s, confere unidade à amplitude (neste trabalho considerada a propagação esférica), e intro-
do sinal irradiado. Para fins de simulação, foi utilizado o dução de atraso de propagação. Os três fatores acima depen-
nível de ruído irradiado (radiated noise level — RNL) lido dem da distância Rm,n entre a fonte acústica e cada elemento
a 1.000 Hz e 1 m da resposta em frequência (assinatura (m, n) do arranjo plano, e o último deles depende da velo-
acústica) de um submarino diesel típico navegando a baixa cidade. O coeficiente de absorção depende da frequência,
velocidade (4 nós) — 120 dB re 1μPa (LURTON, 2002). temperatura e salinidade, mas pode ser expresso pela apro-
Dadas a frequência de operação ƒ (Hz) e a densidade do ximação abaixo, que foi utilizada para calcular a atenuação
fl uído ρ o , aproximada por 1.000 kg/m 3 para a água do na frequência de operação, 1.000 Hz (KAPOLKA, 2015):
mar, pode-se obter a amplitude da vazão (com base em
0.08 30
KINSLER et al., 2000): α '( f ) = + + 4 × 10 −4 F 2 (10)
0.9 + F 2 3000 + F 2
2
A|r =1m = Pre f × 10 RNL( f )/20 (9) Ao sinal modificado por absorção, atenuação por propa-
f ρ0
gação e atraso temporal, é ainda somado o ruído ambiente,
Em que resultando no sinal acústico de entrada do arranjo plano.
Pref , igual a 1μPa, é a amplitude de pressão de referência. Em geral, o ruído ambiente consiste preponderantemente

Gerador de sinal Arranjo plano


Em dupla linha

Meio Transdução
Não delimitado (Resposta Freq. Sensor)
Homogêneo Beamforming
Fonte acústica
Atenuação Ruído do receptor
SNR +
Z Fonte Atraso temporal Ruído ambiente
rs Y
θs Ruído ambiente Sinal resultante Espectro
XY
ψs Potência Estimativa espectro
X
média freq./angular
Giro ψ’

(θs, ψs)
Fonte: Características baseadas em Ziomek (2016).
SNR: relação sinal/ruído.
Figura 4. Sistema gerador de sinal + arranjo plano em dupla linha.

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de ruído produzido por navios mercantes e decorrente da ao sinal elétrico transduzido. Em geral, o ruído térmico é
agitação da superfície do mar por ventos e chuvas (URICK, a fonte básica de ruído no receptor; mas, no caso do sonar
1983). Na falta da aplicação de um modelo para tal ruído rebocado, o ruído de fluxo contribui para o ruído resultante
neste trabalho, foi empregado simplesmente um gerador de na recepção. As simulações foram realizadas para três casos
ruído branco Gaussiano. O ruído foi gerado com média zero, de relação sinal/ruído (SNR): + 3 dB, 0 dB e −3 dB, e com
e a variância foi calculada para diferentes valores de relação ruído aditivo Gaussiano com média zero. Para obter o ruído
sinal/ruído considerados nas simulações. Além disso, anteci- aditivo requerido para corromper um sinal elétrico amostrado
pando-se que o modelo do arranjo inclui o ruído do recep- ym,n(l ) com um dado SNR, gera-se uma sequência aleatória
tor, este também é simplificado por ruído aleatório gerado com mesma duração de pulso do sinal, variância unitária e
por uma função do MATLAB. Desta feita, ambos os ruídos média zero, e em seguida aplica-se o desvio padrão necessário
foram incluídos como um único no módulo do arranjo plano. para esse SNR, dado em termos da potência média Pavg , y ( l )
m ,n

O módulo do arranjo implementa duas funções princi- do sinal ym,n(l ):


pais: transdução do sinal acústico proveniente do meio em
sinal elétrico, e formação de feixe (beamforming), tendo como σ req = Pa vg , ym ,n (l ) × 10 −SNR/20 (13)
saídas o sinal conformado nos domínios do tempo e da fre-
quência (espectro em frequência). Tais sinais são utilizados onde a potência média da sequência de L amostras do sinal
para a estimação da posição do alvo. ym,n(l ) é definida por:
Lembrando que o sinal acústico de entrada é uma matriz
1 L −1
composta de m x n sinais defasados no tempo devido às dife- Pavg , ym ,n ( l ) = ∑| ym ,n (l )|2
L l =0
(14)
renças de percurso até cada um dos elementos do arranjo,
com coordenadas retangulares (xm, yn), a transdução deve ser A sequência aleatória de cada elemento do arranjo é gerada
efetuada para cada elemento dessa matriz. A transdução é o com uma semente diferente. Embora geradores de ruído sejam,
produto do espectro em frequência das componentes do sinal na prática, pseudoaleatórios, tal expediente reduz a indepen-
acústico e da função complexa de sensibilidade do respectivo dência estatística entre os sinais dos elementos.
elemento S(ƒ) — que é igual para todos os elementos, uma vez A formação de feixe (beamforming) é efetuada pelo
que o modelo do arranjo preconiza que eles sejam idênticos. produto da estimativa do espectro de frequência do con-
Nas simulações, a função S(ƒ) foi obtida a partir da curva de junto de (m, n) sinais corrompidos por ruído — calculada
nível de sensibilidade RSL(ƒ) de um transdutor comercial, pela transformada discreta de Fourier (DFT) — e os pesos
RSL(ƒ) em dB re RSref, vs. frequência (Hz), com RSref igual complexos cm,n, à medida que os ângulos de giro θ’ e ψ’ são
a 1V/μPa. Pela leitura de RSL(ƒ), cujo valor é aproximada- variados. Os pesos complexos são dados pela expressão
mente constante e igual a 167 dB re 1V/μPa na banda 40 a (ZIOMEK, 2016):
1000 Hz (CETACEAN RESEARCH TECHNOLOGY,
− j 2 π f τ ' m ,n
2016), obteve-se a sensibilidade do receptor, dado pela expres- cm , n ( f ) = a m , n e (15)
são abaixo, em V/μPa, por:
Em que
RS( f ) = RSref 10 RSL ( f )/20
(11) am,n são as amplitudes e τ’m,n os retardos de tempo necessários
para compensar os diferentes tempos de chegada dos sinais
Aplicando esse resultado na expressão abaixo (ZIOMEK, recebidos em cada elemento, alinhando-os, e são calculados a
2016), determinou-se a magnitude de S(ƒ): partir das coordenadas (xm, ym) dos elementos do arranjo e os
cossenos direcionais adimensionais u’ e v’ e correspondentes
| S( f )|= 2π f ρ0 RS( f ) (12) aos ângulos de giro θ’ e ψ’ (ZIOMEK, 2016):
u' v'
A corrupção do sinal pelos ruídos ambiente e do receptor τ ' m ,n = xm + yn (16)
c c
é implementada no módulo do arranjo plano, sendo aplicada

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Uma vez cofasados e convertidos para o domínio do bins de frequência espacial, a qual relaciona o comprimento
tempo, os sinais podem ser somados, resultando na primeira de onda da frequência de operação às coordenadas dos ele-
saída mencionada anteriormente: o sinal conformado, que mentos do arranjo plano.
se constitui basicamente na reconstrução do sinal emitido Inicialmente é calculada a DFT espacial de Rˆ ( q, f , x, y)
pela fonte acústica. na direção X, resultando na estimativa do espectro de fre-
O primeiro método para as estimativas (θˆs , ψˆ s ) das coor- quência-e-angular Rˆ ( q, r , n ), onde r é o bin correspondente
denadas da fonte acústica consiste em se calcular e plotar a a fX (frequência espacial na direção X). Em seguida é cal-
potência média do sinal conformado, à medida que (θ', ψ' ) são culada a DF T espacial de Rˆ ( q, r , n ) na direção Y, resul-
variados. No caso das simulações realizadas neste trabalho, os tando na estimativa do espectro de frequência-e-angular
ângulos θ' foram mantidos constantes, e somente ψ' variados. Rˆ ( q, r , s ) , onde s é o bin correspondente a f Y (frequência
O pico da curva de potência média versus ψˆ s = ψ 'Pindica
max a esti-
avg
espacial na direção Y). A estimativa Rˆ ( q, r , s ) é proporcio-
ˆ
mativaψsde= ψ ',P isto ˆ
max é, ψ s = ψ ' P max . nal ao diagrama de irradiação do arranjo plano em dupla
avg avg

O segundo método, detalhado por Ziomek (2016), emprega linha (ZIOMEK, 2016).
o espectro em frequência do sinal conformado, Rˆ ( q, f , x, y),
para calcular a estimativa do espectro de frequência-e-an-
gular, Rˆ ( q, r , s ). 3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Trata-se de uma curva de densidade u vs. v vs. magni-
tude, cujo máximo, sem conformação de feixe — isto é, com O diagrama de irradiação do arranjo plano em dupla
(θ ', ψ ')  = (0, 0) — indica os cossenos direcionais adimensio- linha, calculado para frequência de operação de 1.000
nais correspondentes a (θˆs , ψˆ s ). Hz — aquela utilizada para dimensionar os espaços inte-
O espectro de frequência-e-angular é obtido pela DFT relemento do arranjo — apresentou forte rejeição à ambi-
espacial bidimensional do espectro em frequência Rˆ ( q, f , x, y). guidade boreste-bombordo, com um único lobo principal,
Esta é calculada por expressão matemática análoga à DFT e lobos secundários muito reduzidos, como mostrado na
temporal. Entretanto, enquanto nesta o mapeamento é em Figura 5A. À medida que a frequência de operação era
termos de bins de frequência, na primeira é em termos de reduzida, uma imagem do lobo principal foi se sobressaindo

Y Y
A 90° B 90°
105° 75° 105° 75°
120° 60° 120° 60°
135° 45° 135° 45°

150° 30° 150° 30°

165° 15° 165° 15°

±180° 0° X ±180° 0° X

-165° -15° -165° ° -15°

-150° -30° -150° -30°

-135° -45° -135° -45°


-120° -60° -120° -60°
-105° -90° -75° -105° -90° -75°

Figura 5. Diagrama de irradiação do arranjo plano em dupla linha: efeito da frequência na rejeição da ambiguidade,
para as frequências de operação 1.000 Hz (A) e 500 Hz (B).

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dos demais lobos secundários, até atingir cerca de 70% da com uma imagem do lobo principal com magnitude relativa
magnitude do lobo principal, para a frequência de 500 Hz. aproximadamente de 70%. No pior cenário de relação sinal/
Os demais lobos principais também tiveram sua largura de ruído testado (isso é, SNR=− 3 dB), as estimativas obtidas
banda aumentada, e para 500 Hz agregaram-se em dois foram próximas dos valores reais para ambos os casos, como
lobos simétricos (Figura 5B). listado na Tabela 1. Diante desses resultados, uma simulação
Em seguida, foi testado o comportamento do diagrama adicional foi realizada para ψs=65º, cuja imagem do lobo prin-
de irradiação submetido a giro (relativo ao eixo positivo X), cipal no diagrama de irradiação chega quase a 80% relativa.
para a frequência de 1.000 Hz. Até 15º de giro, o diagrama
praticamente não foi alterado. Mesmo a 30º de giro, com
alguma distorção nos lobos secundários, o diagrama mostrava 4. CONCLUSÕES
forte rejeição à ambiguidade, com o lobo principal apenas
levemente mais largo. Acentuando-se o giro em direção ao O arranjo plano em dupla linha resolve o problema da
endfire, observa-se a 50º certa assimetria e aumento da lar- ambiguidade boreste-bombordo na frequência utilizada para
gura de banda do lobo principal, que começa a se unir com dimensionar seus espaçamentos interelemento, como verifi-
um grupo de lobos secundários agrupados simetricamente a cado para a frequência de operação de 1.000 Hz. Ao reduzir
ele, relativo ao eixo Y, como mostrado na Figura 6. a frequência, a rejeição da ambiguidade fica comprometida
Esses resultados serviram de referência inicial para os testes pelo paulatino aumento da simetria do diagrama de irradia-
da etapa seguinte da pesquisa, com as simulações do sistema ção. A 1.000 Hz, o limite de giro do diagrama de irradia-
gerador de sinal + arranjo plano em dupla linha. Dois casos ção é de 55º.
foram considerados nas simulações a 1.000 Hz: a fonte O sistema formado do gerador de sinal e o arranjo plano
acústica posicionada a ψs=15º, para cujo ângulo de giro ψ’ o em dupla linha foi uma ferramenta efetiva para testar as
diagrama de irradiação é praticamente livre de distorção. E funções de processamento de um sinal acústico CW exe-
em seguida posicionada a ψs=55º, um ângulo de giro para o cutadas pelo arranjo. A eficiência do arranjo foi avaliada
qual o diagrama de irradiação apresenta uma forte simetria, por dois métodos: da potência média e do espectro de fre-
quência-e-angular. Com ambos os métodos, as estimativas
da posição de um alvo a ψs igual a 15, 55 e 65º se aproxi-
Y maram dos valores conhecidos. O sistema pode ser aper-
90° feiçoado para operar com múltiplos alvos, introdução de
105° 75°
120° 60° movimento para os alvos, programação de um modelo de
135° 45°
propagação mais realístico e ser acrescido de um módulo
de detecção. A fim de avaliar de forma mais acurada e con-
150° 30° fiável os resultados das simulações, o próximo passo será
165° 15° empregar o método de Monte Carlo para testar estatisti-
camente os dois métodos de estimativa da posição do alvo.
±180° 0° X

-165° -15° Tabela 1. Estimativa da coordenada esférica ψs da


fonte acústica.
-150° -30°
Método da Método do espectro de
-135° -45° ψs
potência média frequência-e-angular
-120° -60°
-105° -90° -75° 15 ° 14,9 ° 14,9 °

55 ° 54,9 ° 55,2 °
Figura 6. Diagrama de irradiação do arranjo plano em
65 ° 65,3 ° 64,5 °
dupla linha: efeito do giro na rejeição da ambiguidade.

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5. AGRADECIMENTOS em tempo integral aos estudos de acústica submarina e proces-


samento de sinais, e espero contribuir na mesma proporção na
O presente trabalho é baseado em minha dissertação de pesquisa e no desenvolvimento de sistemas acústicos submari-
mestrado, concluída em junho de 2016 na Naval Postgraduate nos para a proteção do país. Sou muito grato a meu professor
School (NPS), em Monterey. Agradeço mais uma vez à Marinha e orientador na NPS, Prof. Lawrence J. Ziomek, a quem muito
do Brasil pela oportunidade de aperfeiçoamento, dedicando-me devo em termos de conhecimento teórico e prática de pesquisa.

REFERÊNCIAS

CETACEAN RESEARCH TECHNOLOGY. C55 Series Hydrophones. LASKY, M.; DOOLITTLE, R.D.; SIMMONS, B.D.; LEMON, S.G. Recent
Disponível em: <http://www.cetaceanresearch.com/hydrophones/ Progress in Towed Hydrophone Array Research. IEEE Journal of
c55-hydrophone/index.html>. Acesso em 14 maio 2016. Oceanic Engineering, v. 29, n. 2, p. 374-387, 2004.

KAPOLKA, D. Underwater Acoustics for Naval Applications: notas do LURTON, X. An introduction to underwater acoustics: principles and
curso PH3452-Underwater Acoustics, Naval Postgraduate School. applications. Chichester, U.K.: Springer/Praxis Publishing, 2002. p. 115-149.

Monterey, CA: Naval Postgraduate School, 2015. 90p. URICK, R.J. Principles of underwater sound. 3ª ed. Westport,
CT: Peninsula Publishing, 1983. p. 332-342.
KINSLER, L.E.; FREY, A.R.; COPPENS, A.B.; SANDERS, J.V.
Fundamentals of Acoustics, 4ª ed. Nova York: John Wiley & Sons, ZIOMEK, L.J. An introduction to sonar systems engineering. Boca
2000. 175p. Raton, FL: CRC Press, 2016.

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Normas para Submissão e Publicação de Artigos na Revista Pesquisa Naval

1 . OBJETIVO 3. NORMAS EDITORIAIS


A Revista Pesquisa Naval (RPN) é um periódico científico de
publicação anual que apresenta à comunidade científica uma cole- 3.1 – Características Gerais
tânea de estudos desenvolvidos por pesquisadores das áreas cien- 3.1.1. A submissão de artigos é aberta a pesquisadores,perten-
tífica, tecnológica e de inovação, cujos temas sejam pertinentes às centes ou não à Marinha do Brasil (MB), que apresentem trabalhos
áreas de interesse da Marinha do Brasil (MB). inéditos sobre os seus estudos, isto é, não publicados em quaisquer
O periódico é publicado pela Diretoria-Geral de Desenvolvimento revistas ou periódicos, e cujos temas sejam, prioritariamente, per-
Nuclear e Tecnológico da Marinha (DGDNTM) e avaliado pelo tinentes às áreas de interesse do Sistema de Ciência, Tecnologia e
Sistema de Classificação de Periódicos, Anais, Revistas e Jornais Inovação da Marinha (SCTMB), abaixo discriminadas:
(QUALIS) da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível (I) Área de Sistemas de Armas e Munições: Compreende a
Superior (CAPES) nas seguintes categorias: “B5”, nas áreas de avaliação capacitação para pesquisar, projetar, desenvolver protótipos e ava-
Engenharia II, Engenharia III, Geociências, Planejamento Urbano liar sistemas de armas e seus componentes (hardware), controle de
e Regional / Demografia e; “C” na área de avaliação Interdisciplinar. armas (software), armamento de pequeno e médio calibre e muni-
ções, necessários às Operações Navais.
2. CORPO EDITORIAL (II) Área do Ambiente Operacional: Compreende a capacitação
A administração da RPN será conduzida pelo Corpo Editorial para pesquisar, projetar, desenvolver e inovar modelos, métodos, sis-
composto pelo Editor-Chefe, Editores-Adjuntos, Conselho Editorial temas, equipamentos, materiais e técnicas que permitam a produção
e pela Comissão Editorial, sendo: de informações e a ampliação do conhecimento sobre os ambientes
oceânico, costeiro, fluvial e lacustre, necessários às Operações Navais.
(III) Área de Processos Decisórios: Compreende a capacitação
Editor-Chefe:
para pesquisar, projetar, desenvolver protótipos e inovar modelos, méto-
Diretor-Geral de Desenvolvimento Nuclear e Tecnológico da Marinha.
dos, sistemas e técnicas que permitam a produção de informações e a
ampliação do conhecimento sobre os processos decisórios, estratégicos,
Editores-Adjuntos:
operacionais, gerenciais e de apoio, necessários às Operações Navais.
Diretor do Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo – CTMSP;
(IV) Área de Sensores, Guerra Eletrônica e Guerra Acústica:
Diretor do Centro Tecnológico da Marinha no Rio de Janeiro –
Compreende a capacitação para estudar, pesquisar, projetar, desen-
CTMRJ; e
volver protótipos e inovar sistemas de detecção, de discrição e de
Diretor da Agência Naval de Segurança Nuclear e Qualidade –
contramedidas necessários às Operações Navais.
AgNSNQ.
(V) Área de Desempenho Humano e Saúde: Compreende a
capacitação de estudar, pesquisar, modelar, projetar e desenvolver
Conselho Editorial (com os seguintes elementos organizacionais
protótipos, ampliando o conhecimento biomédico, farmacotécnico,
da DGDNTM):
psicológico, da bioengenharia e da ergonomia, visando a aumentar
a capacidade de desempenho, de resistência a situações de pressão e
Presidente: Assessor de Relações Institucionais (DGDNTM-30). de proteção da saúde do homem quando em combate e dos recursos
de treinamento por simuladores, de interesse da Marinha.
Membros: (VI) Área de Materiais Especiais: Compreende a capacitação de
Assessor Jurídico (DGDNTM-901); estudar, pesquisar, projetar e desenvolver protótipos e experimentos
Encarregado da Divisão de Parcerias Estratégicas (DGDNTM-31); de materiais para dificultar a detecção de plataformas, para absorção
Encarregado da Divisão de Tecnologia Industrial Básica de energia e proteção e detecção NBQR, para processos especiais
(DGDNTM-32); Encarregado da Divisão de Planejamento e Controle de soldagem, para emprego na área nuclear, materiais resistentes à
de Compensação Comercial, Industrial e Tecnológica (“OFFSET”) abrasão, ao impacto balístico e de materiais energéticos, ou ainda,
(DGDNTM-33); Encarregado da Divisão de Propriedade Intelectual materiais que possuam outras características físico-químicas espe-
(DGDNTM-41); Ajudante da Divisão de Parcerias Estratégicas ciais que sejam de interesse da Marinha.
(DGDNTM-3101); e Auxiliar da Divisão de Parcerias Estratégicas (VII) Área de Energia: Compreende a capacitação de estudar,
(DGDNTM-3102). pesquisar, modelar, projetar e desenvolver protótipos e experimentos
envolvendo sistemas de geração, exceto nuclear, de acumulação e de
Comissão Editorial: distribuição de energia e sistemas de propulsão de interesse da Marinha.
Membros da comunidade científica, requisitados “ad hoc”, que (VIII) Área de Arquitetura Naval e Plataformas: Compreende
farão a avaliação dos artigos em submissão, observados os critérios a capacitação de estudar, pesquisar, projetar, simular e desenvolver
de avaliação elaborados pelo Conselho Editorial e aprovados pelo protótipos, modelos e experimentos de plataformas navais, anfíbias,
Editor-Chefe da RPN. terrestres e aéreas, visando à previsão do seu comportamento nas

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Revista Pesquisa Naval, Brasília - DF, n. 29, 2017, p. II-V
diversas condições do meio ambiente onde atuarão, da configura- que sejam preservados o critério de sigilo do autor e a isenção na
ção de seus sensores e armas e da configuração de seus sistemas de submissão para avaliação por pares.
propulsão e governo, necessários às Operações Navais. 3.1.9. O Conselho Editorial da RPN selecionará os artigos
(IX) Área de Cibernética (Tecnologia da Informação) e a serem publicados, avaliando o cumprimento das Normas para
Comunicações: Esta área compreende dois segmentos: a cibernética Submissão de Artigos Científicos à RPN, bem como os pareceres
(tecnologia da informação) e a tecnologia das comunicações, antes apresentados pela Comissão Editorial.
tratadas de forma isolada e atualmente abordadas de forma inte- 3.1.10. No caso de haver número de artigos maior do que o com-
grada, considerando a convergência de suas respectivas tecnologias. portado pela edição, os excedentes poderão ser reservados para publica-
O segmento da cibernética,com ênfase na tecnologia da informa- ção nas edições subsequentes, mediante autorização formal dos autores.
ção, compreende a capacitação de estudar,pesquisar,projetar,simular e 3.1.11. Após aprovação do artigo em submissão, os autores serão
desen- volver protótipos,modelos e experimentos,visando ao desen- comunicados formalmente e encaminharão ao Conselho Editorial a
volvimento e à qualidade do software,à topologia das redes de com- “Declaração de Responsabilidade e Cessão dos Direitos de Autor para
putadores,à cripto- logia e às medidas de apoio à guerra cibernética Publicação de artigo na RPN”, conforme anexo. No caso de autoria
de interesse da Marinha. O segmento da tecnologia da comunicação múltipla, a declaração poderá ser assinada apenas pelo autor respon-
compreende a capa- citação de estudar, pesquisar, projetar, simular e sável pela submissão do artigo, o qual se responsabilizará pelos demais.
desenvolver protó- tipos, modelos e experimentos visando à comunica- 3.1.12. A revisão gramatical e a obediência às normas de referência,
ção de dados e/ou voz e à avaliação de desempenho das comunicações. citadas no item 3.2.14, deverão ser obrigatoriamente providenciadas pelo
(X) Área de Nanotecnologia: Compreende a capacitação de autor do trabalho, antes de sua submissão. Entretanto, no intuito de zelar
estudar, pesquisar, projetar, modelar, simular e desenvolver protóti- pelo padrão culto da língua portuguesa, o Conselho Editorial da RPN
pos e experimentos envolvendo a engenharia do átomo, que leve à se reserva ao direito de efetuar, nos originais, alterações de ordem nor-
mativa, ortográfica e gramatical, respeitando, porém, o estilo dos auto-
criação de elementos, substâncias e materiais inexistentes na natureza
res. As provas finais serão enviadas aos autores para a devida ratificação.
e que atendam a necessidades específicas de interesse da Marinha.
3.1.13. A versão final do artigo será adequada ao padrão de for-
(XI) Área Nuclear: Compreende a capacitação de estudar, pes-
matação gráfico da revista. Não serão fornecidas separatas. Os arti-
quisar, projetar, modelar, simular e desenvolver protótipos e expe-
gos estarão disponíveis, no formato “pdf ”, no endereço eletrônico
rimentos envolvendo as atividades afetas ao ciclo do combustível
da revista, bem como o previsto no item 4.2.
nuclear e a geração de energia nuclear para propulsão naval de inte-
3.1.14. Os autores dos artigos publicados não perceberão qual-
resse da Marinha.
quer tipo de remuneração ou pró-labore.
3.1.2. Os artigos em submissão serão encaminhados ao Conselho
3.1.15. A RPN fica autorizada, em caráter de exclusividade, a
Editorial da RPN, por e-mail endereçado à caixa-postal dgdntm.
publicar os artigos indicados na “Declaração de Responsabilidade e
pesquisanaval@marinha.mil.br em formato, digital devidamente
Cessão dos Direitos de Autor para Publicação de artigo na Revista
assinado(s) pelo(s) autor(es), de acordo com o e nos termos das
Pesquisa Naval”, encaminhado de acordo com o item 3.1.11, pelo
presentes Normas.
prazo e nas condições ali estabelecidas.
3.1.3. Quando da submissão, será solicitado ao autor que enqua-
3.1.16. Os trabalhos publicados passam a ser propriedade da
dre o artigo em uma das áreas de interesse do SCTMB, discrimina-
RPN, sendo permitida a reprodução parcial ou total dos trabalhos,
das no item 3.1.1. O Conselho Editorial, sempre que julgar neces- desde que a fonte seja citada.
sário, poderá alterar essa indicação. 3.1.17. Os artigos publicados, bem como as opiniões emitidas
3.1.4. Os autores dos artigos em submissão deverão acompa- nesses artigos, são de exclusiva responsabilidade do(s) autor(es).
nhar o andamento do processo de seleção e efetuar as solicitações
indicadas, por e-mail endereçado à caixa-postal dgdntm.pesquisa- 3.2 – Características Técnicas
naval@marinha.mil.br. 3.2.1. Os artigos serão submetidos ao Conselho Editorial, con-
3.1.5. O Português é o idioma oficial da RPN. Em caráter forme item 3.1.2, em arquivo eletrônico gravado na extensão “RTF”
excepcional, por decisão do Conselho Editorial, poderão ser acei- (Rich Text Format) e com tamanho máximo de 2MB.
tos trabalhos em outro idioma. Formato:
3.1.6. O artigo em submissão deverá ser inédito e não poderá (I) margens: superior e esquerda 3 cm; direita e inferior de 2 cm e
ser submetido para publicação em outras revistas, simultaneamente (I) papel A4 (21cm X 29,7cm).
com a RPN, implicando em cancelamento da submissão. Em caráter
excepcional, por decisão do conselho editorial, poderão ser aceitos 3.2.2. A estrutura dos artigos conterá as seguintes seções, na
trabalhos não inéditos. sequência indicada:
3.1.7. O número de artigos para publicação, por edição, será 1. Título (português e inglês);
limitado a um por autor. 2. Identificação dos Autores;
3.1.8. Os artigos originais serão submetidos à avaliação da 3. Resumo;
Comissão Editorial, sem qualquer identificação de autoria, garantindo 4. Palavras-chave;

| III |
Revista Pesquisa Naval, Brasília - DF, n. 29, 2017, p. II-V
5. Abstract; Formato: espaçamento entre linhas de 1,5, fonte Times New
6. Keywords; Roman, tamanho 12, letras maiúsculas e minúsculas e parágrafo
7. Introdução; justificado.
8. Metodologia de Pesquisa; 3.2.12. Referências: serão apresentadas em ordem alfabética no
9. Resultados; final do artigo, de acordo com a norma da NBR-6023 da ABNT.
10. Discussão; Todas as referências deverão ser citadas no texto de acordo com o
11. Conclusões e sistema alfabético (autor-data).
12. Referências. Formato: espaçamento entre linhas simples, fonte Times New
Roman, tamanho 12 e parágrafo justificado.
Todas as seções e subseções, a partir da Introdução, serão nume- 3.2.13. Notas explicativas: deverão ser evitadas. Quando pos-
radas com algarismos arábicos. Permite-se a omissão da Seção (8) e sível, os textos com essas características serão incorporados aos ele-
a fusão das Seções (9) e (10), quando a natureza do trabalho assim mentos textuais.
o recomendar. 3.2.14. As figuras, tabelas ou ilustrações devem conter legendas,
3.2.3. Tamanho: a extensão máxima do artigo será de 20 lau- créditos ou fonte de consulta. Caso haja figuras e tabelas importa-
das, incluindo os elementos pré-textuais, texto e pós-textuais. Uma das de outros programas, como Excel e Power Point, serão enviados,
lauda é uma página com 1.250 caracteres. também, o arquivo de origem com resolução mínima de 200 DPI.
3.2.4. Título: será breve e suficientemente específico e descritivo, As legendas, créditos ou fonte de consulta estarão em fonte Times
contendo as palavras-chave que representem o conteúdo do texto, acom- New Roman - tamanho 10.
panhado de sua tradução para o idioma inglês. Formato: fonte Times 3.2.15. Com o propósito de atender ao item 3.1.5, os elemen-
New Roman, tamanho 14, em negrito, letras maiúsculas e minúscu- tos textuais do artigo não poderão conter qualquer forma de iden-
las e parágrafo centralizado, com efeito itálico para o título em inglês. tificação do(s) autor(es).
3.2.5. Identificação dos autores: deverá constar o nome com- 3.2.16. Para aspectos gerais de apresentação, referências biblio-
pleto de cada autor, seguido do título profissional e titulação aca- gráficas, citações, notas e demais detalhes, serão observadas as
dêmica, informação completa sobre a afiliação do autor (incluindo seguintes normas:
instituição de origem, vínculo funcional, cidade, estado e país) e o • ABNT – NBR-6021 – publicação periódica científica impressa;
endereço eletrônico para contato. • ABNT – NBR-6022 – artigo em publicação periódica cien-
Formato: espaçamento entre linhas simples, fonte Times New tífica impressa;
Roman, tamanho 10, letras maiúsculas e minúsculas e parágrafo • ABNT – NBR-6023 – referências;
centralizado. Aplicar o efeito negrito somente para o nome do autor. • ABNT – NBR-6024 – numeração progressiva;
3.2.6. Resumo/Abstract: o resumo elaborado será de caráter • ABNT – NBR-6027 – sumário;
informativo, de acordo com a NBR 6028 da ABNT, com o máximo • ABNT – NBR-6028 – resumo;
de 250 palavras, ressaltando o objetivo, o método, os resultados e as • ABNT – NBR-10520 – citações; e
conclusões. O abstract será a tradução integral do resumo para o inglês. • Apresentação tabular do Instituto Brasileiro de Geografia e
Formato: espaçamento entre linhas simples, fonte Times New Roman, Estatística – IBGE.
tamanho 12, com efeito itálico para o Abstract, e parágrafo justificado.
3.27. Palavras-chave/Keywords: as palavras-chave deverão ser 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
separadas por ponto. As keywords serão a tradução integral das 4.1. Os autores dos artigos em submissão ao respectivo processo
palavras-chave para o inglês. de seleção serão oportunamente informados sobre o seu andamento,
Formato: espaçamento entre linhas simples, fonte Times New por e-mail, até a publicação da RPN.
Roman, tamanho 12, com efeito itálico para as keywords, letras 4.2. Os autores o receberão dois exemplares da edição que
maiúsculas e minúsculas e parágrafo justificado. consta a publicação de seus artigos, considerando que ela também
3.2.8. Introdução: Parte inicial do artigo, onde deve constar a será disponibilizada na versão digital no sitio eletrônica da RPN.
delimitação do assunto tratado. Os objetivos da pesquisa e outros Caberá ao Conselho Editorial da RPN a responsabilidade pelo envio
elementos necessários para situar o tema do artigo. das revistas aos autores.
3.2.9. Desenvolvimento: Parte inicial do artigo, que contém a 4.3. Quaisquer solicitações de informações adicionais deverão
exposição ordenada e pormenorizada do assunto tratado. Divide-se ser encaminhadas à:
em seções e subseções, conforme a NBR-6024 da ABNT, que variam
em funções da abordagem do tema e do método. Diretoria-Geral de Desenvolvimento Nuclear e Tecnológico da Marinha
3.2.10. Conclusão: Parte Final do artigo, na qual se apresentam Conselho Editorial da Revista Pesquisa Naval Esplanada dos
as conclusões correspondentes aos objetivos e hipóteses. Ministérios, Bloco “N”, 4º andar CEP: 70055-900 – Brasília/DF
3.2.11. Agradecimentos: se for o caso, deverão ser mencionados e-mail: dgdntm.pesquisanaval@marinha.mil.br
no final do trabalho, antecedendo as referências. Tel/Fax: (61) 3429-1944.

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Revista Pesquisa Naval, Brasília - DF, n. 29, 2017, p. II-V
ANEXO

DECLARAÇÃO DE RESPONSABILIDADE E DE CESSÃO DOS DIREITOS


DE AUTOR PARA PUBLICAÇÃO DE ARTIGO NA REVISTA PESQUISA NAVAL

Ao Presidente do Conselho Editorial da Revista Pesquisa Naval


Esplanada dos Ministérios – Bloco “N” – 4º andar
70055-900 – Brasília – DF

Assunto: Declaração de Responsabilidade e de Cessão dos Direitos de Autor para publicação de artigo na
Revista Pesquisa Naval.

Declaro(amos) que o artigo intitulado “___________________________________”, enviado à Revista Pesquisa


Naval, periódico científico da Diretoria-Geral de Desenvolvimento Nuclear e Tecnológico da Marinha, é um
artigo inédito e o seu conteúdo não está sendo considerado para publicação em outras revistas, seja no
formato impresso seja no eletrônico.

Certifico(amos) que participei(amos) suficientemente da elaboração do artigo para tornar pública minha
(nossa) responsabilidade pelo seu conteúdo.

Cedo(emos), com exclusividade, a título gratuito e pelo período de dois anos, os direitos autorais patrimoniais do
artigo supracitado à Diretoria-Geral de Desenvolvimento Nuclear e Tecnológico da Marinha, para publicação na ____ª
edição da Revista Pesquisa Naval, a qual poderá ser em formato impresso ou em formato eletrônico, neste último
caso para disponibilização na página Internet da RPN.

Aceito(amos) as condições deste termo. (todos os autores)

Local, em _______de ______de 20__.

Assinatura do(s) autor(es) (nome completo, CPF, RG/Órgão Expedidor, cargo/profissão, instituição onde
trabalha, endereço funcional)

|V|
Revista Pesquisa Naval, Brasília - DF, n. 29, 2017, p. II-V
ISSN Impresso 1414-8595
ISSN Eletrônico 2179-0655

Revista Pesquisa Naval


NÚMERO 29 – 2017

Número 29 – 2017

DIRETORIA-GERAL DE DESENVOLVIMENTO NUCLEAR


E TECNOLÓGICO DA MARINHA (DGDNTM)

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