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Certeau - “Relatos de espaço”

- Relato como prática do espaço sendo geografias de ações; nossa pesquisa pertence a um
tempo “segundo” da análise, que passa das estruturas às ações – ações narrativas que
precisam as práticas de organização do espaço;

- Espaço e lugar: lugar como ordem, uma configuração instantânea de posições; espaço como
efeito produzido pelas as operações que o orientam, um lugar praticado – “a rua [lugar]
geograficamente definida por um urbanista é transformada em espaço par ao pedestre”;
diferença entre espaço e lugar remetida nos relatos;

- Relatos transformam lugares em espaços ou espaços em lugares, organizando jogos de


relações na manutenção um do outro – reconhecimento de critérios e categorias de análise;

- Percurso e mapa: operações de linguagem simbólica e antropológica do espaço – “o tecido


narrativo onde predominam os descritores de itinerários é pontuado de descritores do tipo
mapa, que tem como função indicar ou um efeito obtido pelo percurso ou um dado que
postula seu limite, etc”; mapa como prescrição de ações com articulação de práticas
espacializantes, figuras narrativas como fragmento de relatos, que junta lugares heterogêneos,
constituídos em lugares próprios para expor produtos do saber – relatos cotidianos contam
aquilo que se ai pode fabricar e fazer;

- Demarcações: operações sobre os lugares, relatos como papel do cotidiano; comportamento


de relatos, distribuição do espaço que o estrutura, onde o relato tem papel decisivo na
organização que descreve e permite jogos de espaço – papel do relato na delimitação e
fundadora de espaços; autorização do estabelecimento, sendo a fronteira como figura
narrativa essencial; relato como fundação – abre um teatro de legitimidade a ações efetivas;
uma atividade narrativa continua se desenvolvendo onde se trata de fronteiras e efetua
operações de demarcação; relatos com relação entre espaço e exterioridade; região como um
espaço criado por um interação; relato não se cansa de colocar fronteiras, construindo uma
rede de diferenciações;

- Espaço como definidor de lugares, espaço como um lugar praticado.

Comentários:

 Sob a perspectiva de Certeau, podemos entender o espaço como a prática do


lugar, ou seja, como os sujeitos o transformam a partir das suas ocupações, apro-
priações e vivências. Os sujeitos, em seus itinerários cotidianos, simbolizam o lugar
a partir das interferências, tanto corporais quanto cognitivas, nessas configurações
físicas.
 O espaço realiza-se enquanto vivenciado, ou seja, um determinado lugar só se torna
espaço na medida em que indivíduos exercem dinâmicas de movimento nele através
do uso, e assim o potencializam e o atualizam. Quando ocupado, o lugar é
imediatamente ativado e transformado, passando à condição de lugar praticado. O
autor discorre acerca de uma realização espacial do lugar, comparando o espaço à
palavra e o lugar à enunciação, ou seja, no momento em que a palavra é proferida ela
é atualizada. Ou então quando uma rua, geometricamente definida por um projeto
urbanístico, é constantemente atualizada, ativada e transformada por seus usuários.
 O lugar praticado é algo fisicamente imóvel que depende das dinâmicas de
deslocamentos de um coletivo para se re-significar e atualizar-se constantemente. O
dispositivo que transforma o espaço em lugar é efêmero, mas adquire tal condição
justamente por uma vivência temporal do indivíduo em determinado lugar, segundo o
autor. O espaço público só adquire identidade quando praticado pelos indivíduos
através do contato físico, pressupondo um tipo de enraizamento – provisório – com
tais lugares. As transições de um lugar a outro, realizadas pelo coletivo de praticantes
das cidades geram reverberações constantes nas passagens de lugar para lugar-
praticado, de anônimos para portadores de identidade.