Você está na página 1de 6

XV ENCONTRO DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA

Universidade de Fortaleza
19 a 23 de outubro de 2015

Drogas e encarceramento: o reflexo do proibicionismo sobre o sistema


penitenciário brasileiro
Kilvia Mara Albuquerque de Sousa1* (IC)

1Graduação em Direito, Faculdade Luciano Feijão, Sobral-CE.

kilvia_mara@hotmail.com

Palavras-chave: Drogas. Proibicionismo. Encarceramento.

Resumo
O Brasil é o quarto país do mundo em número de pessoas sujeitas à privação da liberdade e tal posição
parece estar intimamente ligada à tendência ao recrudescimento das penas previstas para os crimes
relacionados à comercialização e à produção de substâncias psicoativas. O tráfico de drogas foi
equiparado a crime hediondo pela Constituição Federal de 1998 e teve a pena mínima de privação de
liberdade aumentada com o advento da Lei 11.343/06. Levando em conta tais fatores, dentre outros, o
presente trabalho tem por objetivo analisar os reflexos do modelo proibicionista sobre as taxas de
encarceramento brasileiras. Ao longo do estudo, restou comprovado que o delito de tráfico ilícito é o
responsável pelo maior número de condenações, quando se analisa os crimes individualmente,
respondendo por 27% da população carcerária. Afirmou-se também que o perfil de pessoas encarceradas
é de indivíduos pobres, com baixa escolaridade, ocupantes das áreas periféricas da cidade e,
principalmente, com pouca importância na cadeia do tráfico, o que demonstra a incapacidade do direito
penal, seletivo e estigmatizante, de tratar a problemática das drogas levando em conta a complexidade do
tema.

Introdução
O contingente carcerário brasileiro experimentou, entre os anos de 2000 e 2014, um
crescimento de 161%, enquanto que a população nacional apresentou um aumento de 16% no mesmo
período (BRASIL, 2015). Segundo os dados oficiais do Departamento Penitenciário Nacional, através do
Sistema Integrado de Informações Penitenciárias (INFOPEN), vinculado ao Ministério da Justiça, no ano de
2014, o número de pessoas privadas de liberdade no Brasil era de 607.731, o que equivale a 299,7 presos
por 100.000 habitantes, sendo que em 2000 este número era de 137 presos por 100.000 habitantes. Em
números absolutos, o Brasil ocupa o quarto lugar entre os países com maior população carcerária, vindo
depois dos Estados Unidos (2,2 milhões), da China (1,6 milhão) e da Rússia (673 mil).
Os números aqui expostos situam o Brasil como um dos países que mais encarceram do
mundo e esse fenômeno, na proporção em que se observa, é relativamente recente, tendo em vista que a
quantidade de presos por cem mil habitantes mais do que dobrou nos últimos quatorze anos. Se é possível
apontar uma tendência geral do ordenamento jurídico no sentido de recrudescer as penas previstas para os
crimes contemplados, no que se refere especialmente aos delitos albergados pela Lei de Drogas (Lei
11.343/06), percebe-se um aumento ainda mais expressivo da carga punitiva, cujo impacto é facilmente
identificado quando se avalia o número de condenados em função do tipo de crime cometido. A taxa de
encarceramento pelo crime de tráfico de drogas apresentou “um crescimento constante desde 2005, quando
alcançou o primeiro registro superior a todos os demais delitos” (BOITEUX, 2013, p. 24).

1
Trata-se de um panorama que atende às demandas punitivas insufladas pela política
proibicionista de alcance internacional, cujo objetivo é, basicamente, a erradicação do consumo, da
produção e da comercialização de substâncias psicoativas, utilizando-se de sanções penais para coibir tais
condutas. O reflexo dessa orientação no plano interno brasileiro pode ser observado com o aumento da
pena privativa de liberdade e com a diminuição de garantias processuais penais. Embora a Lei 11.343/06
tenha promovido alguns avanços com o movimento de descarerização da conduta de porte para uso próprio
(RIBEIRO, 2013, p. 36), a ausência de critérios objetivos diferenciadores da conduta de uso e de tráfico de
drogas cria vazios de legalidade que terão repercussões no número de pessoas ocupando as prisões
brasileiras.
O presente estudo tem por objetivo avaliar o impacto do proibicionismo sobre o cenário de
superlotação das prisões brasileiras, que exibem um deficit de 231.062 vagas. Para tanto, será levado em
conta o tratamento reservado pela Constituição de 1988 ao tráfico de drogas e as particularidades da Lei
11.343/06, tendo como pano de fundo a crise de legitimidade do sistema penal, cuja seletividade se
apresenta ainda mais acentuada nas condenações por tráfico ilícito, bem como a falência do objetivo
“ressocializador” das prisões.

Metodologia
O método de pesquisa utilizado foi a revisão bibliográfica, mediante consulta a livros, revistas,
dissertações de mestrado e teses de doutorado, elaborados por estudiosos do assunto, a fim de que se
pudesse traçar um panorama da influência da política proibicionista de drogas sobre os níveis de
encarceramento brasileiro e suas repercussões.

Resultados e Discussão
Para compreender o cenário de encarceramento massivo impulsionado pelo proibicionismo em
matéria de drogas, importante uma leitura crítica da Constituição Federal de 1988, proposta por Salo de
Carvalho, no que se convencionou chamar de “Constituição Penal” 1. Com foco no tráfico ilícito de
entorpecentes, a Constituição enquadrou este delito como equiparado a crime hediondo, o qual passou a ser
insuscetível de fiança, graça e anistia, tratamento que representa o “máximo grau de resposta punitiva no
sistema de direito e processo penal brasileiro” (CARVALHO, 2010, p. 193). O endurecimento penal trazido
pela Carta Magna tem o seu apogeu com a Lei dos Crimes Hediondos (Lei 8.072/90) 2, ocorrendo uma
ampliação das hipóteses de entrada no sistema, através de um aumento da carga punitiva, ao mesmo
tempo em que há um reforço nos mecanismos de restrição na saída deste sistema (Idem, 2005, p 125).
Mais precisamente no âmbito da Lei de Drogas (11.343/06), desde logo é possível observar
que, com a sua entrada em vigor, a pena mínima para o tráfico de drogas, que era de três anos sob a
vigência da revogada Lei 6.368/76, passa a ser de cinco anos de reclusão, representando o alto teor de
reprovabilidade atribuído à conduta de produção e de comercialização de entorpecentes. O cenário punitivo

1 O termo “Constituição Penal” foi talhado em função de uma tendência da Carta Constitucional de 1988 em apresentar
normas de caráter incriminador, “redimensionando a estrutura do direito penal, estabelecendo verdadeiros paradoxos,
notadamente o da coexistência de normas garantidoras (limitativas) e de normas incriminadoras (projetivas) em único
estatuto.” (CARVALHO, 2010, p. 192)
2 Para citar um exemplo da previsão de respostas penais mais intensas para os crime de tráfico ilícito de
entorpecentes, no que diz respeito à execução da pena, a Lei dos Crimes Hediondos introduziu no Código Pena l o
requisito para que o indivíduo condenado por tráfico de drogas pudesse ser beneficiado pelo livramento condicional.
Enquanto que o livramento se dá após o cumprimento de 1/3 da pena e de 1/2 da pena, caso o sentenciado não seja
reincidente em crime doloso ou seja reincidente em crime doloso, respectivamente, quando se trata do crime de tráfico
(equiparado a hediondo), o sentenciado deve cumprir mais de 2/3 da pena, não podendo ser reincidente específico em
crime desta natureza.
2
inaugurado com o advento da referida lei tem como consequência direta o expressivo aumento da
população carcerária brasileira, conforme aponta Luciana Boiteux:

Especificamente quanto ao Brasil [...], comprovou-se o vertiginoso crescimento dos níveis


de encarceramento de pessoas por tráfico de drogas. De forma progressiva, mas
especialmente a partir de 2006, com a Lei de Drogas brasileira que, como já visto,
aumentou a pena mínima de tal delito (art. 33), foi identificado um endurecimento marcante
e intencional da resposta penal ao comércio de drogas, o que foi considerado um dos
principais fatores para o aumento da população carcerária no país nos últimos anos.
(BOITEUX, 2013, p. 22)

Isso se deve, em grande medida, ao fato de que as normas penais que versam sobre drogas
preveem penas privativas de liberdade em média mais graves do que as previstas para crimes como o
estupro, e chegam a se aproximar do crime de homicídio (Ibidem, 2013, p. 8). O resultado de opções
legislativas pelo recrudescimento, nos moldes da “guerra às drogas”, é que, de acordo com as avaliação de
Boiteux (Ibidem, p. 24), “o número de presos por tráfico mais do que triplicou no Brasil, onde se verificou um
aumento registrado de 320,31% do número de presos por tráfico entre 2005 e 2012”, situação francamente
agravada pelo elevado número de prisões cautelares3, cuja utilização recorrente, aliada a uma deficiência na
administração da justiça, permite a superlotação do sistema carcerário com indivíduos que sequer tiveram
seus casos submetidos a julgamento (TNI; WOLA, 2010, p 94).
Outra variável dessa discussão diz respeito ao fato de que a Lei 11.343/06 contempla uma das
diferenças mais abissais em termos de severidade da punição imposta pelo ordenamento jurídico: enquanto
que os sujeitos indiciados como incursos nas sanções do art. 28 da referida lei são submetidos em geral a
penas restritivas de direitos, aqueles que o são pelo art. 33 estão sujeitos a pena privativa de liberdade que
pode ir de 05 a 15 anos (CARVALHO, 2013, p. 69). Tal panorama se apresenta, no entanto, sem que sejam
previstos, objetivamente, critérios para a diferenciação entre as duas condutas.
O artigo 28, § 2° da Lei 11.343/06 apresenta parâmetros vagos para a distinção, determinando
que o juiz atenderá “ao local e às condições em que se desenvolveu a ação, às circunstâncias sociais e
pessoais” do agente, por exemplo. Como se percebe, a ausência de critérios precisamente fixados, a
exemplo da quantidade em gramas da droga, já adotada por alguns países, deixa ao juiz um grande poder
discricionário, implicando no emprego por parte dele de juízos de valor inerentes à sua formação pessoal, o
que sem dúvida causa insegurança jurídica. Sem contar que é a polícia, e não o juiz, a agência de controle
que trava o primeiro contato com o suposto fato criminoso e se encarrega, portanto, de selecionar e
proceder ao enquadramento jurídico-penal da conduta. Dessa maneira, “o juiz e os advogados são virtuais
prisioneiros dessas provas apresentadas pela polícia [...] Essas evidências incluem a quantidade de drogas
supostamente encontrada pelo policial e o seu testemunho da apreensão” (ZALUAR, 2004, p. 75)4, fato que
permite que uma enorme quantidade de casos que seriam enquadrados como consumo recebam o rótulo de
tráfico ilícito, pela simples razão de que o indivíduo se enquadra nos moldes do estereótipo suspeito.5

3 O relatório “Informe Regional de Desarrollo Humano 2013-2014” elaborado pelo PNUD (Programa das Nações Unidas
para o Desenvolvimento), sob o título de “Seguridad Ciudadana con Rostro Humano: diagnóstico y propuestas para
América Latina”, aponta que o abuso de prisões preventivas se traduz em perda de empregos, fraturas familiares e
estigmatização, além de gastos altíssimos que poderiam ser encaminhados para o desenvolvimento social (2013, p.
11, tradução nossa).
4 Alba Zaluar (2004, p. 75), ao falar sobre a distinção entre o traficante e o usuário, enfatiza o despreparo das agências
policiais: “Nem o batalhão da Polícia Militar nem a Polícia Civil faziam uma distinção clara, com critérios racionais, entre
o traficante e o usuário. As quantidades apreendidas não eram um fato diferenciador, pois se encontraram casos
classificados como ‘posse e uso’, com 1,860 kg de maconha apreendidos, e casos classificados como ‘tráfico’ com
apenas 2,0 g.”
5“Os estereótipos do ‘elemento suspeito’ ou da ‘atitude suspeita’, por exemplo, traduzem importantes mecanismos de

interpretação que, no cotidiano do exercício do poder de polícia, criminalizam um grupo social vulnerável muito bem
representado no sistema carcerário: jovens pobres, em sua maioria são negros, que vivem nas periferias dos grandes
centros urbanos. (CARVALHO, 2013, p. 71)

3
Como se nota, o investimento em políticas criminais cujo mote é a exacerbação do rigor
punitivo gera números inimagináveis de pessoas superlotando o sistema carcerário. Trata-se de um
horizonte que preocupa e influencia negativamente a avaliação da eficácia do sistema de justiça penal,
especialmente porque é consenso entre os estudiosos do tema que a passagem pelas teias do cárcere,
longe de significar um mecanismo de reabilitação do indivíduo, reforça o locus violento, sabendo-se que as
condições em que vivem os presos protagonizam focos de graves violações de direitos humanos, além do
que representam um motor de estigmatização e de isolamento destes indivíduos. Os altos índices de
reincidência tornam patente a falência dos objetivos declarados em função da aplicação da pena privativa de
liberdade (ONU, 2013, p. 11).
Para que se tenha uma dimensão dos efeitos causados por uma passagem pelo sistema
carcerário, faz-se referência ao estudo citado pelo neurocientista Carl Hart, que se volta para o exame dos
casos de 100 mil adolescentes que tiveram o primeiro contato com o sistema judiciário nos Estados Unidos6.
De acordo com conclusão trazida pela pesquisa, “independentemente da gravidade do delito inicial, os
adolescentes encarcerados tinham três vezes mais probabilidade de voltar a ser encarcerados quando
adultos, em comparação com os que não haviam sido encarcerados por delitos semelhantes” (HART, 2014,
p. 135). Ou seja, a estadia em estabelecimentos de detenção, em vez de viabilizar um redirecionamento dos
adolescente para atividades que os distanciem dos eventos criminosos, coloca-o em contato com outros
jovens, igualmente identificados em culturas criminais, o que reforça os comportamentos delituosos, na
visão do neurocientista7.
Além dos sabidos danos ocasionados em função dos altos índices de encarceramento, merece
destaque que a população carcerária está composta, em sua maioria, por pequenos comerciantes de drogas
ilícitas, que são condenados ao cumprimento de largas penas privativas de liberdade. Um panorama que
identifca as características de um sistema penal seletivo e incapaz de direcionar sua força repressora para
os atores principais do crime organizado, negócio que atrai grande número de pessoas com sua enorme
lucratividade. Um dado interessante das particularidades do movimento de superlotação carcerária é o caso
do elevado número de mulheres condenadas pelo crime de tráfico de drogas, de modo que, em 2012,
“65,04% da população carcerária feminina foram condenadas pelo art. 33 da Lei 11.343 – em 2009
correspondia a 48,31%” (CARVALHO, 2013, p. 72).
A assustadora porcentagem de mulheres condenadas por tráfico de drogas geralmente está
associada ao comércio de pequenas quantidades dessas substâncias, que se apresenta como uma
“alternativa de subsistência contra o desemprego”, conforme avalia Salo de Carvalho (2005, p. 123). As
especificidades do público feminino do sistema carcerário denunciam, antes de tudo, o “uso do direito penal
como alternativa a crise social e, principalmente, [...] o custo que esta criminalização gera”. Luciana Boiteux,
investigando o lugar da mulher no tráfico de drogas, afirma que elas são mais facilmente arrebatadas pelo
sistema penal e não ocupam postos de comando na cadeia do tráfico. Outrossim, desempenham papeis
irrelevantes, como o mero transporte da substância, e, mesmo não oferecendo riscos consideráveis à
sociedade, são condenadas a altas penas privativas de liberdade, apartadas do convívio social e separadas
de seus filhos (BOITEUX, ibidem, p. 29).

6 Mais uma vez entra em pauta a seletividade do sistema penal e o alto potencial de detenção de adolescentes em razão do delito de
tráfico de drogas, pois o estudo aponta que, desses 100 mil adolescentes analisados entre 1990 e 2005, “cinquenta e sete por cento
[...] eram negros; a maioria esmagadora era do sexo masculino, com idade média de quinze anos; a maioria tinha sido detida por
crimes relacionados a drogas ou assalto [...]” (HART, 2014, p. 134).
7 “As políticas de mão dura – com enfoque punitivo que privilegia a repressão, o aumento na severidade das penas e o uso da força –

têm gerado repercussões negativas, muitas delas inesperadas, entre as quais se destacam o aumento dos níveis de violência letal, o
fortalecimento das redes criminais, o congestionamento dos sistemas carcerários – já sobrecarregados -, a violação dos direitos
humanos – particularmente contra os jovens e menores de idade – e o abuso de autoridade.” (ONU, 2013, p. 13, tradução nossa).
4
O abarrotamento do sistema carcerário representa um alto custo social, recebendo mais
sentenciados do que o número de vagas disponível, situação sensivelmente agravada pelas condenações
pelo crime de tráfico de drogas. Em 2014, segundo os dados do DEPEN, o tráfico de drogas é o delito
responsável pelo maior número de encarceramentos no Brasil, superando o crime de roubo. O condenados
por tráfico de drogas representam 27% da população carcerária, seguido do roubo, com 21%, e do
homicídio, com 14% (BRASIL, 2015, p. 69).

Conclusão
Como restou demonstrado ao longo do presente estudo, a já precária situação das prisões
brasileiras, que reconhecidamente não são capazes de garantir condições mínimas para uma existência
digna, experimentou agravamento como consequência da política proibicionista. Equiparado a crime
hediondo, com todas as restrições de ordem processual penal que lhe são inerentes, o crime de tráfico ilícito
recebeu do ordenamento jurídico alta carga de reprovabilidade, seguindo os comandos internacionais da
escalada da guerra às drogas.
Diante do aumento da pena mínima para a conduta de tráfico promovida pela Lei 11.343/06 e
da ausência de critérios que possibilitem a nítida diferenciação entre as condutas de consumo e de comercio
ou produção, os delitos previstos na Lei de Drogas são apontados como principais responsáveis pelo
crescimento avassalador da população prisional brasileira nos últimos dez anos. O movimento cada vez
mais intenso de encarceramento se dá, porém, sem que se observe qualquer retorno positivo da medida. Ao
contrário, as prisões são vetores de propagação de estigmas e de isolamento e os altos índices de
reincidência demonstram que a utilização prioritária do direito penal para tratar da questão das drogas é
estratégia fracassada.
No caso específico dos crimes do art. 33 da Lei de Drogas, os condenados são
preponderantemente “[...] pequenos traficantes não violentos, primários, presos em flagrante sozinhos e
desarmados” (BOITEUX, 2014, p. 84). Ou seja, as instituições encarregadas da persecução penal mantêm
sob a custódia do Estado indivíduos com pouca ou nenhuma relevância na esteira do tráfico e permanecem
longe de interferir no lucrativo funcionamento das organizações criminosas.
Desse modo, a atual política de drogas brasileira, que busca a erradicação do uso e do
comércio de substâncias psicoativas por meio da repressão policial e penal, apesar de todos os esforços,
em vez de testemunhar uma redução da demanda pelo consumo e dos investimentos no mercado ilícito
dessas substâncias, patrocina os altos níveis de encarceramento do país, insistindo numa fórmula que dá
mostras de sua falência, onde quer que tenha sido implantada.8

Referências

BOITEUX, Luciana; PÁDUA, João Pedro. A desproporcionalidade da lei de drogas: os custos humanos e
econômicos da atual política do Brasil. Colectivo de Estudios Drogas y Derechos. Rio de Janeiro, 2013.

8 A indústria ilegal de drogas, causadora de todas essas vítimas, tira enorme proveito do proibicionismo. Esta política
oferece aos grandes cartéis do crime organizado uma receita de cerca de 300 bilhões de dólares por ano. As
populações padecem. As guerras organizadas entre as próprias quadrilhas, ou entre elas e a polícia, matam milhares
de pessoas. Entre os oito países mais violentos do mundo, sete estão na rota de tráfico de cocaína. Só no México, a
chamada “guerra contra as drogas” provocou 70 mil assassinatos nos últimos 5 anos. Em Honduras, onde a população
é de 8 milhões de habitantes, 7 mil são mortos por ano. (LEITE, 2013, p. 2)

5
______. Drogas e cárcere: repressão ás drogas, aumento da população penitenciária brasileira e
alternativas, In: LEMOS, Clécio; MARONA, Cristiano Avila; Quintas, Jorge; SHECAIRA, Sérgio Salomão
(Org.). Drogas: uma nova perspectiva. São Paulo: IBCCRIM, 2014, p. 83-103.

______. El antimodelo brasileño: prohibicionismo, encarcelamiento y selectividad penal frente al tráfico de


drogas. Nueva Sociedad, Alemanha, n. 255, 2015, p. 132-144.

BRASIL. Departamento Penitenciário Nacional. Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias.


INFOPEN – Junho de 2014. Ministério da Justiça, 2015.

CARVALHO, Salo de. A Política Proibicionista e o Agigantamento do Sistema Penal nas Formações Sociais
do Capitalismo Pós-Industrial e Globalizado, In: KARAM, Maria Lúcia (Org.). Globalização, Sistema Penal e
Ameaça ao Estado Democrático de Direito. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2005.

______. A Política Criminal de Drogas no Brasil: Estudo Criminológico e Dogmático da Lei 11.343/06. 5.
ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2010.

HART, Carl. Um preço muito alto: a jornada de um neurocientista que desafia nossa visão sobre as
drogas. Rio de Janeiro: Zahar, 2014. 326 p.

LEITE, Gabriela. Os últimos anos do proibicionismo, 2013. Acesso em 27 de setembro de 2014.


Disponível em http: <: http://outraspalavras.net/blog/2013/03/19/os-ultimos-anos-do-proibicionismo/>.

ONU, Programa de las Naciones Unidas para el Desarrollo. Seguridad Ciudadana con Rostro Humano:
diagnóstico y propuestas para América Latina. Nova York, 2013.

RIBEIRO, Maurides de Melo. Drogas e Redução de Danos: Os Direitos das Pessoas que Usam Drogas.
São Paulo: Saraiva, 2013

TNI; WOLA. Sistemas sobrecargados: leyes de drogas y cárceles en América Latina.


Amsterdam/washigton: Washington Office On Latin America, 2010. 107 p. Disponível em: <
http://www.wola.org/es/informes/sistemas_sobrecargados_leyes_de_drogas_y_carceles_en_america_latina>
. Acesso em: 20 mar. 2015.

ZALUAR, Alba. Integração perversa: pobreza e tráfico de drogas. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio
Vagas, 2004.

Agradecimentos
Devo gratidão especial ao meu noivo Stênio e a minha família, que permanecem de mãos
dadas comigo durante todo o caminho a ser percorrido. Agradeço também a todos os professores que se
colocaram no meu caminho durante a graduação em Direito na Faculdade Luciano Feijão, especialmente ao
professor Robson Mata, orientador do meu trabalho de conclusão de curso, no qual se baseou o presente
artigo.