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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS

Faculdade de Direito
Curso de Direito

Direito Processual Penal II

Professor Jose Fernando Gonzalez

6º Ano - Turma 2 – Noturno

OS EFEITOS CIVIS DA SENTEÇA PENAL CONDENATÓRIA

ANA MORALES DE PAIVA

Pelotas, 2019
OS EFETITOS CIVIS DA SENTEÇA PENAL CONDENATÓRIA

INTRODUÇÃO

O direito brasileiro, se estruturou e se sistematizou através da divisão das matérias


por áreas de estudo. Neste sentido, dentro da estrutura jurídica, temos os códigos e os
ritos processuais que se aplicam a cada um dos ramos do direito brasileiro. A estrutura
judiciária enquanto poder, é a mesma para toda a nação, “a divisão em diversos órgãos,
ou mesmo estruturas orgânicas especializadas, é meramente técnica e tem por fim dar a
melhor solução às diferentes espécies de lides”. (GRECO FILHO 2012, P. 200)

Para tanto, muito embora as áreas do direito sejam estudadas e organizadas de


forma separada, é inegável, que vários fatos, acabam por obrigar a sistematização das
normas e o relacionamento entre as esferas processuais existente. Seguindo essa mesma
ideia, Gonçalves (2017, p.389) complementa que “a jurisdição, como função soberana
atribuída ao Judiciário, é uma só. A divisão que se estabelece entre jurisdição civil e
jurisdição penal é apenas de ordem prática, ou seja, para facilitar o seu exercício”. Neste
sentido, é inegável a relação entre o reparo civil nos casos em que decorrem de uma
conduta penalmente típica. Esta relação, será o objeto de estudo deste trabalho.

ILÍCITO CIVIL X ILÍCITO PENAL

Muito embora, como será visto no decorrer deste trabalho, se possa confundir a
conceituação de ilícito civil e ilícito penal, em virtude da correlação que ambos acabam
tendo, há de se admitir que se tratam de conceitos distintos.

O Código Civil de 2002, no art. 186, determina, para fins civis, em quais situações
se identifica um ato ilícito na esfera Civil:

Art. 186. Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou


imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que
exclusivamente moral, comete ato ilícito. (grifo nosso)
Desta maneira, conforme a letra fria da lei, o agente que viola direito alheio e tem,
como resultado, a causa de um dano, é agente de um ato ilícito. Nesta mesma linha
Gonçalves (2017, p. 27) dispõe que tem-se um ato ilícito, quando é “praticado com
infração ao dever legal de não violar direito e não lesar a outrem”.

“Ato ilícito é, portanto, fonte de obrigação: a de indenizar ou ressarcir


prejuízo causado (CC art. 927). É praticado com infração a um dever de
conduta, por meio de ações ou omissões culposas ou dolosas do agente,
das quais, resulta dano para outrem”.
A conceituação do ilícito penal, diferentemente, do que ocorre no direito civil, não
está disposta no Código Penal. Desta maneira, tocou a doutrina a construção de um
conceito genérico, que atribua o que se constitui ato ilícito em matéria penal.

Neste sentido, compilando o entendimento de Lima (2013), Nucci (2014) e Greco


Filho (2014), concebe-se que o ato ilícito, é aquele que cumpriu a ação a fim de realizar
um tipo atribuído na lei penal, como criminoso.

INDEPENDÊNCIA DAS AÇÕES

Como disposto anterior, muito embora os conceitos de ilícito civil e ilícito penal
possam se confundir, são efetivamente conceitos distintos. Igualmente, deve-se
reconhecer que o sistema jurídico brasileiro adota “a separação da jurisdição, fazendo
com que a ação penal destine-se à condenação do agente pela prática da infração penal e
a ação civil tenha por finalidade a reparação do dano, quando houver” (Nucci, 2014 p.
173). Assim, muito embora as ações civis possam se lastrear na sentença provinda de uma
ação penal, não há como se negar a independência das ações nessas duas esferas (LOPES
JUNIOR 2016).

Corroborando na defesa dessa independência entre as ações, segue-se os


entendimentos de Lima (2013 p. 333), o qual afirma que o sistema brasileiro adotado no
relacionamento entre a ação civil de reparação de danos e a ação penal para punir o autor
é o sistema da independência. Segundo o autor:

“Por força deste sistema, as duas ações podem ser propostas de maneira
independente, uma no juízo civil, outra no âmbito penal. Isso porque,
enquanto a ação civil versa sobre questão de direito privado, de natureza
patrimonial, a outra versa sobre o interesse do Estado em sujeitar o
suposto autor de uma infração ao cumprimento da pena cominada em

Independente de se afirmar que há ou não independência em relação a jurisdição


penal e civil, o que é reconhecido é que as duas áreas, no que se atenham a reparação de
danos materiais, oriundos de ação delituosa, definitivamente revelada pelos ditames do
Direito Penal, acabam se interligando. Tal relação entre os dois ramos do direito é
perfeitamente descrita no Código de Processo Penal, o qual guarda um Título inteiro para
tratar da ação civil. No referido título, em seis artigos, nota-se claramente a interferência
do direito penal, na esfera civil:

Art. 63. Transitada em julgado a sentença condenatória, poderão


promover-lhe a execução, no juízo cível, para o efeito da reparação do
dano, o ofendido, seu representante legal ou seus herdeiros.
Parágrafo único. Transitada em julgado a sentença condenatória, a
execução poderá ser efetuada pelo valor fixado nos termos do inciso iv
do caput do art. 387 deste Código sem prejuízo da liquidação para a
apuração do dano efetivamente sofrido.
Art. 64. Sem prejuízo do disposto no artigo anterior, a ação para
ressarcimento do dano poderá ser proposta no juízo cível, contra o
autor do crime e, se for caso, contra o responsável civil.
Parágrafo único. Intentada a ação penal, o juiz da ação civil poderá
suspender o curso desta, até o julgamento definitivo daquela.
Art. 65. Faz coisa julgada no cível a sentença penal que reconhecer
ter sido o ato praticado em estado de necessidade, em legítima defesa,
em estrito cumprimento de dever legal ou no exercício regular de
direito.
Art. 66. Não obstante a sentença absolutória no juízo criminal, a
ação civil poderá ser proposta quando não tiver sido, categoricamente,
reconhecida a inexistência material do fato.
Art. 67. Não impedirão igualmente a propositura da ação civil:
I - o despacho de arquivamento do inquérito ou das peças de
informação;
II - a decisão que julgar extinta a punibilidade;
III - a sentença absolutória que decidir que o fato imputado não
constitui crime.
Art. 68. Quando o titular do direito à reparação do dano for pobre (art.
32, §§ 1o e 2o), a execução da sentença condenatória (art. 63) ou a ação
civil (art. 64) será promovida, a seu requerimento, pelo Ministério
Público.

Da mesma maneira, o direito civil, acaba vinculando suas relações, ao código e ao


direito penal, conforme ocorre no art. 935 do Código Civil, o qual reconhece a
independência da ação na esfera civil, no entanto, afirma, que em decidido o pleito sobre
a seara penal, posto estará, definitivamente, a autoria e materialidade do ato danoso.
Art. 935. A responsabilidade civil é independente da criminal, não se
podendo questionar mais sobre a existência do fato, ou sobre quem seja
o seu autor, quando estas questões se acharem decididas no juízo
criminal.

É baseado no que dita o art. 935, supracitado, que Gonçalves (2017, p.390) se
posiciona, em relação a relatividade da independência das jurisdições penal e civil.

O Código Civil estabeleceu, assim, na primeira parte, a independência


da responsabilidade civil da responsabilidade criminal, pois diversos
são os campos de ação da lei penal e da lei civil. Mas a segunda parte
do dispositivo mostra que tal separação não é absoluta e que o sistema
adotado é o da independência relativa.
Em sendo assim, independente se relativa ou absoluta a independência, posto está
a influência da sentença penal, em matéria de reparação de danos na esfera civil da vítima.
Diante disto, há de se observar os efeitos e as implicações destas sentenças penal e relação
a reparação do dano patrimonial.

EFEITOS NA ESFERA CÍVIL DECORRENTE DA SENTENÇA


CONDENATÓRIA NA ESFERA PENAL

A reparação na esfera civil, por danos ou prejuízos causados a terceiros,


independente de decorrer de dolo ou culpa, são devidamente regulados pelos artigos 927
e seguintes do Código Civil Brasileiro.

O artigo 935, que se encontra dentro do título que disciplina a Responsabilização


civil, na sua primeira parte distancia o pleito civil, da decisão penal. Neste sentido, não
sendo favorável patrimonialmente a vítima a sentença transitada em julgado, o agente que
se sente lesado, na esfera civil, poderá pleitear sua indenização, naquela jurisdição. “O
advento de arquivamento do inquérito policial, de decisão que julga extinta a
punibilidade, ou de sentença penal absolutória que reconheça que o fato imputado não
constitui crime, não impede nem prejudica a ação civil de conhecimento” (GRECO
FILHO 2012, p. 195).

Neste sentido, não sendo a autoria lá comprovada, em regras gerais, é possível o ,


início de um processo de conhecimento dentro da esfera civil para a apuração de possíveis
danos. Para tanto, há de se observar as situações as quais não se tem a possibilidade de
pleito independente na esfera civil, após uma decisão que não concluiu pela condenação.

Impede, porém, a ação civil, produz a sua extinção pela coisa julgada
ou impedirá a sua execução a sentença absolutória que: 1) reconhecer
categoricamente a inexistência material do fato; 2) reconhecer a
legítima defesa real entre agente e vítima; 3) reconhecer a ocorrência
de exercício regular de direito; 4) reconhecer situação de estrito
cumprimento de dever legal. Neste último caso a exclusão de
indenização se refere ao agente, mas não contra o Estado, nos termos
do art. 37, § 6o, da Constituição da República. (GRECO FILHO 2012,
p. 195).

A segunda parte do mesmo artigo 935 do Código Civil, o legislador admite que
em, decidida a matéria na esfera penal, superada estará os quesitos de materialidade e
autoria. Ou seja, na segunda parte da redação do artigo, o agente se vale da confirmação
nos tribunais penais, para partir direto para execução do valor devido para a reparação do
dano na esfera civil.

O indivíduo que não cumpre uma obrigação pratica um ato ilícito, por
isso é possível a imposição de uma sanção para o adimplemento da
prestação não cumprida, sujeitando-o à execução forçada. (LIMA,
2013, p. 632)

A sentença condenatória na esfera criminal, com trânsito em julgado, sempre faz,


assim, coisa julgada no cível, visto que estariam comprovados a autoria, a materialidade
do fato ou dano, o nexo etiológico e a culpa (dolo ou culpa stricto sensu) do agente.
(GONÇALVES, 2017, p. 397)

Esta correlação justifica-se na circunstância de que, se na esfera penal


foi reconhecida a prática de um ato ilícito e restou apurada a autoria
deste fato ilícito, não há razão para que se pretenda reabrir a discussão
na órbita civil. (AVENA, 2014, P. 302)

Uma alteração legislativa, promovida pela lei 11.719 de 2008, institui no art. 387,
IV do Código de Processo Penal, que a sentença condenatória, além de servir de título
executivo em matéria civil, deveria, no mesmo ato, atribuir o valor mínimo a ser
adimplido para a reparação do dano:

Art. 387. O juiz, ao proferir sentença condenatória: (Vide Lei nº


11.719, de 2008)
IV - fixará valor mínimo para reparação dos danos causados pela
infração, considerando os prejuízos sofridos pelo
ofendido; (Redação dada pela Lei nº 11.719, de 2008).
No mesmo sentido que dispôs o inciso IV do art. 387 do CPP, existem outras leis
esparsas que tratam de direito penal que também, em seu texto, reconhecem em sentença
penal, a existência de título executivo dentro da esfera civil. Dentre elas pode-se destacar
a sentença penal, julgada no âmbito da Lei Maria da Penha, onde pode, além de atribuir
a medida protetiva, promover a separação de corpos, a fixação de alimentos e a regulação
das visitas, em caso de o casal ter filhos. Outro exemplo, são as indenizações fixadas em
sentença homologatória, referente a infrações julgados no rito da 9.099/95. (NUCCI,
2014)

Que a sentença penal condenatória gera título executável na esfera civil, está
posto, pela legislação e toda doutrina exposta. Para tanto, o que se precisa observar é, se
as pessoas que serão rés na esfera civil, serão as mesmas que foram rés na esfera penal.

A eficácia civil da responsabilidade penal só atinge a pessoa do


condenado na justiça criminal, sem alcançar os corresponsáveis pela
reparação do ato ilícito, como é o caso de preponentes, patrões, pais etc.
Contra estes, a vítima do delito não dispõe de título executivo. Terá de
demonstrar a corresponsabilidade em processo civil de conhecimento
e obter a sentença condenatória para servir de título executivo”
(GONÇALVES, 2017 p. 392 e 393
Por ter natureza personalíssima, a sentença penal só terá os seus efeitos na esfera
civil, atribuído àquele que foi condenado na esfera penal. Não se admite o uso de uma
sentença penal, para executar outra pessoa, por extensão ou correlação, no âmbito civil,
de reparação do dano. “A sentença condenatória transita em julgado apenas se constitui
m título executivo em relação ao réu condenado” (AVENA 2014, P.305)

Para que um terceiro responsável seja afetado é necessário que se reconheça,


dentro do processo do conhecimento, essa responsabilidade civil atribuída a este terceiro.
Neste sentido, a sentença penal condenatória não gera a obrigação de indenizar a este
terceiro, mas servirá como “fundamento da ação de conhecimento contra o terceiro”, mas
não será o título executivo, propriamente dito. (GRECO FILHO, 2012 P. 196). Isto posto,
toda vez que se tiver a necessidade de se cobrar a reparação do dano civil de um terceiro,
será necessário o pleito do processo de conhecimento na esfera civil.
CONCLUSÃO

Pelo todo apresentado, é possível reconhecer a interligação da esfera do penal com


a esfera civil para os casos de Responsabilidade Civil, reafirmando a concepção de que a
aplicação do direito, a fim de minimizar a insegurança jurídica, deve ser analisada sob a
ótica dos mais variados ramos do direito, de maneira una.

Neste sentido, o reconhecimento do título executivo na esfera penal, para fins de


reparação de um dano civil, de matéria penal, surge como facilitador, proporcionando
agilidade ao procedimento para o repara dos danos patrimoniais gerados à vítima. Isto se
dá, com a o advento que a sentença penal condenatória transitada em julgado gera, desde
então, título passível de execução em matéria de Responsabilização Civil.

Para tanto, com o intuito de garantir a segurança jurídica no processo de execução,


é importante ressaltar que os efeitos da Sentença penal condenatória apenas o réu,
imputando a este o dever de indenizar. Em outras palavras, a sentença não pode se
estender a terceiros, devendo, nestes casos, o título executivo se constituir através de um
processo de conhecimento litigado na esfera civil.

Da mesma maneira, a fim de assegurar todos os direitos patrimoniais atribuídos


à vítima é necessário ressaltar, que esta execução não necessariamente é vinculante,
cabendo ao autor da esfera penal, o pedido de revisão na esfera civil, nos casos de não a
sentença não atender à sua expectativa de reparação patrimonial. Este rito, apenas, busca
celeridade na reparação daquele que sofre o dano.
REFERÊNCIAS

AVENA, Norberto Cláudio Pâncaro. Processo penal: esquematizado – 6.ª ed. – Rio de
Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2014.

BRASIL. Decreto lei nº 3.689, de 03 de outubro de 1941, que instituiu o Código de


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lei/del3689.htm> Acesso em: 16 de mai. 2019.

_________. Lei n. 10.406, 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Diário Oficial
da União, Brasília, DF, 11 jan. 2002. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/2002/L10406compilada.htm> Acesso em:
15 mai. 2019.

_________. Lei nº. 13.105/15, de 16 de março de 2015, que instituiu o Código de


Processo Civil. In: Palácio do Planalto. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13105.htm>. Acesso
em: 17 mai. 2019.

GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro, volume 4: responsabilidade civil


– 12. ed. – São Paulo : Saraiva, 2017.

GRECO FILHO, Vicente. Manual de processo penal – 9. ed. rev. e atual. – São Paulo:
Saraiva, 2012.

LIMA, Renato Brasileiro de. Manual de Processo Penal. – Niterói: Impetus, 2013.

LOPES JUNIOR, Aury. Direito Processual Penal. 13. Ed. São Paulo: Saraiva. 2016

NUCCI, Guilherme de Souza. Manual de processo penal e execução penal – 11. ed.
rev. e atual. – Rio de Janeiro: Forense, 2014.