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Herbert Spencer – O Indivíduo Contra o Estado

ÍNDICE
Prefácio
O novo conservadorismo
A escravidão futura
Os pecados dos legisladores
A grande superstição política
Post scriptum

PREFÁCIO

Na "A Revista de Westminster", publiquei um artigo intitulado: "Reforma parlamentar: os


perigos e a defesa". Nesse artigo aventurei-me a prognosticar alguns resultados das
transformações políticas propostas naquele tempo.
Eis aqui, reduzida a sua expressão mais simples, a tese que sustentava: "Se não se tomam
as precauções convenientes, o acréscimo da liberdade aparente será seguido de uma
diminuição da liberdade real". Nada aconteceu depois, que me obrigasse a mudar de
opinião. A legislação, desde aquele tempo, seguiu o curso que eu previra. Medidas
ditatoriais, rapidamente multiplicadas, têm a tendência continua, e de dois modos
diferentes, de restringir as liberdades individuais. Têm-se estabelecido, cada ano em
maior número, regulamentações que coarctam o cidadão em esferas onde, antes, se movia em
plena liberdade, e que o forçam a realizar atos que, anteriormente, tinha o direito de
executar, ou não. Ao mesmo tempo os encargos públicos, cada dia mais pesados, sobretudo
os locais, reduziram ainda mais a sua liberdade, diminuindo a porção de benefícios de que
podia dispor à vontade, e aumentando a que se lhe arrebata, para ser gasta segundo o
capricho dos funcionários públicos.
Continuam existindo as causas e os efeitos que predisse. E, provavelmente, seu poder
crescerá. Vendo, pois, que as conclusões que deduzi dessas causas e desses efeitos, se
confirmaram, decidi-me a expor conclusões análogas com referência ao porvir, a insistir
sobre o assunto, a fazer tudo quanto está ao meu alcance, para chamar a atenção sobre os
males que nos ameaçam.
Com esse fim, escrevi os capítulos que seguem.
Para responder a certas críticas e, na previsão de possíveis objecções, acrescentei um
"Post-scriptum".

O INDIVÍDUO CONTRA O ESTADO

O NOVO CONSERVADORISMO

A maior parte dos que passam atualmente por liberais, são conservadores de uma nova
espécie. Eis aqui a paradoxo que me proponho justificar. Para isso, estou obrigado,
primeiramente, a mostrar o que ambos os partidos políticos eram em sua origem; e rogo ao
leitor desculpar-me se lhe recordo fatos que lhe são familiares; não poderia, de outro
modo, fazer-lhe compreender a natureza intrínseca do verdadeiro conservadorismo e do
verdadeiro liberalismo.
Se nos remontamos a uma época anterior a existência de seus nomes, os dois partidos
políticos representam, originariamente, dois tipos opostos de organização social: o
militar e o industrial. O primeiro se caracteriza pelo regímen do Estado, quase universal
nos antigos tempos; o segundo, pelo do contrato, que se tem generalizado em nossos dias,
principalmente nas nações ocidentais, e, sobretudo, entre nós mesmos e os americanos. Se,
em vez de empregar a palavra "cooperação" em seu sentido restrito, a usarmos em seu mais
amplo significado, designando com ela as atividades combinadas dos cidadãos, sob qualquer
forma de governo, aqueles dois regimes podem ser definidos assim: o primeiro, como o
sistema da cooperação forçada; o segundo, como o da cooperação voluntária. A estrutura
típica do primeiro, vemo-la em um exército regular, onde as unidades em seus diferentes
graus, têm que obedecer sob pena de morte, e recebem o alimento, as roupas e o soldo em
proporções arbitrárias. A do outro, encontra-se em um corpo de produtores e de
distribuidores que combinam entre si receber uma recompensa especificada, em troca de
serviços também especificados e que podem, quando queiram, mediante prévio aviso, deixar
a organização se esta lhes desagradar.
Durante a evolução social, na Inglaterra, a distinção entre estas duas formas de
cooperação, radicalmente opostas, manifesta-se de maneira gradual; porém, muito tempo
antes de estarem em uso os nomes de conservadores e liberais, podia ser notada a
existência dos dois partidos, como, também, ainda que de maneira vaga, suas relações com
o militarismo e com o industrialismo. Todo o mundo sabe que, tanto em nosso país como nos
demais, foi geralmente nas cidades, formadas de artesãos e comerciantes, acostumados a
cooperar sob o regímen do contrato, onde começou a resistência a regulamentação
coercitiva que caracteriza a cooperação sob o regime do Estado. Esta cooperação, que deve
sua origem e sua constituição às guerras crônicas, mantinha-se, ao contrário, nos
distritos rurais, povoados geralmente por chefes militares e seus subordinados, nos quais
sobrevieram as ideias e as tradições primitivas. Semelhante contraste nas tendências
políticas, que se manifestava antes de que os princípios liberais e conservadores fossem
claramente definidos, mostrava-se em tudo. Na época da Revolução, "enquanto que as
aldeias e as pequenas povoações estavam nas mãos dos conservadores, as grandes cidades,
os distritos manufatureiros e os portos de comércio, eram as fortalezas dos liberais".
Inútil é dizer que, não obstante certas excepções, a mesma situação subsiste em nossos
dias.
Tal era o caráter que aos dois partidos impunha a sua origem. Vejamos agora como esse
caráter se manifesta, igualmente, em suas primeiras doutrinas e em seus primeiros atos. O
liberalismo começou com a resistência aos esforços de Carlos II e sua camarilha para
restabelecer a monarquia absoluta. Os Liberais consideravam a monarquia como uma
instituição civil estabelecida pela nação em benefício de todos os seus membros, ao passo
que, para os conservadores "o monarca era o delegado do Céu". A primeira destas doutrinas
implicava a crença de que a submissão ao rei era condicional; a segunda, a de que esta
submissão deveria ser absoluta. Falando dos liberais e dos conservadores como eram
concebidos nos fins do século XVII, isto é, uns cinquenta anos antes de escrever a sua
"Dissertação acerca dos partidos", diz Bolingbroke:
"Poder e soberania do povo, contrato original, autoridade e independência do Parlamento,
liberdade, resistência, exclusão, abdicação, deposição; estas eram as ideias que se
associavam naquela época ao conceito que se tinha de um liberal: ideias que se supunham
incompatíveis com o conceito que se formava de um conservador.
Direito divino, hereditário, incomutável, sucessão em linha direta, obediência passiva,
prerrogativa, não resistência, escravidão e, algumas vezes, também papismo: eis aí as
ideias que se associavam na maior parte dos entendimentos, ao conceito de um conservador,
as quais se consideravam igualmente incompatíveis com aquele que se tinha de um liberal".
("Dissertação acerca dos partidos", pag. 5)
Se compararmos estas descrições, vemos que em um partido existia o desejo de contrariar e
diminuir o poder coercitivo do rei sobre os súditos, e que o outro queria manter e
aumentar esse poder. Esta diferença nas aspirações, que excede em significação e
importância a todas as demais diferenças políticas, mostra-se já em seus primeiros atos.
Os princípios dos Liberais apareceram na Acta do “Habeas Corpus" e na medida que declarou
os juízes independentes da Coroa; na repulsa do "Bill" em que se pedia que os
legisladores e os funcionários fossem obrigados a prometer, sob juramento, não resistir
ao rei pelas armas em caso algum, e, finalmente, no "Bill" que tinha por objetivo
proteger os súditos contra as agressões da monarquia. Todos estes atos tinham o mesmo
caráter intrínseco. Por eles se debilitava o princípio da cooperação obrigatória na vida
social, e se fortificava o da cooperação voluntaria. Uma observação de "mister" Green,
referente ao período durante o qual os liberais exerceram o poder, depois da morte da
rainha Ana, demonstra que a política do partido seguia a mesma tendência geral em uma
época posterior.
"Antes de haverem transcorrido os cinquenta anos de seu poder - diz - os ingleses se
haviam olvidado de que se pudera perseguir a alguém por diferença de religião, ou
suprimir a liberdade da imprensa, ou intervir na administração da justiça, ou governar
sem Parlamento". ("Compendio de História"; Pag. 705).
Agora, deixando de um lado o período de guerra de fins do último século e princípios do
corrente, durante o qual a liberdade perdeu grande parte do terreno conquistado, e o
movimento retrógrado até ao tipo social do militarismo manifestou-se em toda a espécie de
medidas coercitivas, desde aquelas que autorizaram a apoderar-se das pessoas e dos bens
dos cidadãos para as necessidades da guerra, até as que suprimiram as reuniões públicas e
tentaram amordaçar a Imprensa; recordemos o caráter geral das transformações efetuadas
por iniciativa dos liberais, quando o restabelecimento da paz permitiu que renascesse o
regime industrial com a estrutura que lhe é própria. Sob a crescente influência dos
liberais, anularam-se as leis que proibiam as associações de trabalhadores e ás que
restringiam a sua liberdade de viajar. Outra das reformas dos Liberais foi a lei que
reconhecia aos dissidentes o direito de crer o que quisessem, sem se expor a determinadas
penas civis, o que permitiu aos católicos confessar sua religião sem menoscabo de sua
liberdade. Estendeu-se o campo destas com as Atas que proibiam a compra de negros e sua
manutenção como escravos. Aboliu-se o monopólio da Companhia das Índias Orientais, e foi
declarado livre para todos, o comércio com o Oriente. Graças ao "Reform Bill" e ao
"Municipal Reform Bill", diminuiu o número dos cidadãos não representados, de modo que,
assim, na nação, como no município, a massa foi, em parte, emancipada da dominação dos
privilegiados. Os dissidentes, libertos da submissão á forma eclesiástica do matrimônio,
puderam casar-se civilmente. Mais tarde veio a diminuição e a abolição das restrições à
compra e importação de mercadorias estrangeiras, e ao emprego de navios e marinheiros de
outros países; e, mais ainda, a abolição dos empecilhos à liberdade da imprensa, impostos
originariamente para impedir a difusão das opiniões. É evidente que todas estas mudanças,
devidas ou não aos Liberais, estavam de acordo com os princípios professados e
sustentados por eles.
Mas, para que enumerar fatos tão conhecidos de todos? Unicamente porque, como antes
disse, parece-me necessário recordar o que foi o liberalismo nos tempos passados, afim de
que se veja quanto difere dele o que atualmente traz o seu nome. Inútil seria haver
indicado uma a uma essas diferentes medidas, para mostrar seu caráter comum, se não fosse
porque, em nossos dias, muitos têm olvidado esse mesmo caráter comum. Não se recorda que,
de uma maneira, ou de outras, todas essas mudanças verdadeiramente "liberais", diminuíam
a cooperação obrigatória na vida social, e aumentavam a cooperação voluntária. Tem-se
olvidado que, em um sentido ou em outro, reduziam a extensão da autoridade governamental
e alargavam o campo de ação onde todo o cidadão poderia obrar livremente. Tem-se
esquecido esta verdade: que em outro tempo o liberalismo defendia, habitualmente, a
liberdade individual contra a coerção do Estado.
Perguntamos agora: Como é que os liberais olvidaram esta verdade? Como é que o partido
liberal, tendo aumentado cada vez mais seu poder, se torna cada vez mais coercitivo em
suas medidas legislativas? Como é que, já diretamente, por meio de suas próprias
maiorias, já indiretamente, prestando seu concurso, em certos casos, às maiorias de seus
adversários, o partido liberal tem adotado com demasiada frequência, a política de
dirigir as ações dos cidadãos e de diminuir, portanto, a esfera dentro da qual são livres
essas ações? Como poderemos explicar essa confusão de ideias que o tem levado, na busca
do que parece ser o bem público, a inverter o método que o ajudou, em tempos passados, a
realizar esse mesmo bem?
Embora à primeira vista pareça impossível explicar essa mudança política inconsciente, já
veremos que ela se produziu de um modo natural. Conhecido o critério concreto que,
geralmente, prevalece nas questões políticas, e, dadas as circunstâncias atuais, não se
podia esperar outra coisa. Para demonstrar a verdade desta asserção, são necessárias
algumas explicações preliminares.
Em todos os animais, desde os inferiores aos superiores, a inteligência progride por atos
de diferenciação: da mesma forma progride nos homens, desde os mais ignorantes, aos mais
instruídos. Classificar com exatidão, colocar no mesmo grupo as coisas que são
essencialmente da mesma natureza, e, em outros grupos, as que são essencialmente de
natureza diferente, é a condição fundamental para dirigir bem as ações. Começando pela
visão rudimentar que nos assinala a passagem de algum corpo opaco pelas nossas
proximidades - da mesma maneira que, voltados para a janela, com os olhos fechados,
percebemos a sombra produzida por uma mão colocada ante eles, a qual nos indica que algo
se move diante de nós - chegamos, a pouco e pouco, a visão desenvolvida que, pela
apreciação exata da combinação das formas, das cores e dos movimentos, nos permite
reconhecer de longe os objetos, a presa, ou o inimigo, e nos põe em condições de
aperfeiçoar nossa maneira de agir para assegurarmos o alimento, ou escapar a morte. Esta
percepção progressiva das diferenças, e a classificação mais exata que dela resulta,
constituem, sob um de seus principais aspectos, o desenvolvimento da inteligência, e se
observa também, quando passamos da visão física, relativamente simples, a visão
intelectual, relativamente complexa, que nos permite agrupar de uma maneira mais acertada
e mais conforme com sua estrutura, ou sua natureza intrínseca, objetos antes agrupados
segundo certas "Semelhanças exteriores, ou certas circunstancias extrínsecas. A visão
intelectual, que não se desenvolveu, discerne tão mal e se engana tanto, como a visão
física "não desenvolvida". Podemos citar, como exemplo, a classificação primitiva das
plantas em arvores, arbustos e ervas, na qual a altura, isto é, o caráter mais visível,
era o fundamento da distinção, e na qual os grupos eram formados reunindo muitas plantas
de natureza essencialmente distinta, e separando outras da mesma família. Ou, melhor,
todavia, a classificação popular que reúne sob a mesma denominação geral os peixes e as
conchas (fish and shell fish), que inclui nestas últimas os crustáceos e os moluscos, e
que chega até a contar entre os peixes, os mamíferos cetáceos. Seja por causa de sua
semelhança na maneira de viver, como habitantes da água, seja porque os acha de sabor
parecido, agruparam-se na mesma divisão e na mesma subdivisão seres os mais diferentes,
por sua natureza, que um peixe e uma ave.
A verdade geral, demonstrada por esses exemplos, manifesta-se igualmente nas esferas
superiores da visão intelectual concernente às coisas inacessíveis aos sentidos, tais
como as instituições e as medidas políticas. Também nestas questões, de uma faculdade
intelectual inadequada, ou de uma cultura intelectual incompleta, resultam classificações
errôneas, que conduzem a conclusões incertas. Certamente, a possibilidade de equivocar-se
é aqui muito maior, posto que os objetos que são do domínio da inteligência não podem ser
examinados com a mesma facilidade. Não se pode tocar nem ver uma instituirão política:
somente pode ser conhecida por um esforço da imaginação criadora. Não é possível, de modo
algum, compreender, pela percepção física, uma medida política: exige igualmente um
processo da representação mental que combine os elementos em um pensamento e nos leve a
essência da combinação. Anui, pois, mais ainda que nos casos citados, uma visão
intelectual defeituosa manifesta-se no agrupamento segundo os caráteres externos e as
circunstancias extrínsecas. A prova de que esta causa produz erros na classificação das
instituições, é a opinião geral de que a República Romana era uma forma de governo
democrático. Examinai as ideias dos velhos revolucionários franceses, e vereis que
tomavam por modelo as formas e os atos políticos dos romanos; e ainda se poderia citar um
historiador que fala das corrupções romanas, para mostrar as consequências dos governos
democráticos. Sem embargo, há menos semelhanças entre as Instituições romanas e as
verdadeiras instituições livres, do que entre um tubarão e um porco marinho: essas
instituições apresentam, ao lado de uma forma exterior semelhante, estruturas internas
muito diferentes. Uma sociedade, na qual os homens, relativamente, pouco numerosos, que
possuíam o poder público e gozavam de certa liberdade, eram outros tantos déspotas que
mantinham, não somente a seus escravos e a seus inferiores, senão mesmo aos próprios
filhos, em absoluta servidão, antes pode ser considerada como uma sociedade subjugada por
um despotismo vulgar, do que como sociedade de cidadãos politicamente iguais.
Se passarmos agora a questão especial que nos ocupa, poderemos compreender desde logo a
espécie de confusão na qual se perdeu o liberalismo, e a origem das classificações
errôneas das medidas políticas que motivaram seus erros: classificações feitas, como
veremos, segundo caráteres externos muito visíveis e não segundo a natureza interna das
coisas.
Qual era, para o povo e para os mesmos que o levavam a cabo, o fim das mudanças
realizadas pelos Liberais nos tempos passados? Acabar com os prejuízos que sofria o povo,
ou parte dele: tal era o seu caráter comum, e isso foi o que mais fortemente quedou
impresso no espirito dos homens. Tratavam de mitigar os males que direta, ou
indiretamente, afetavam a grande número de cidadãos, de diminuir as causas da miséria, de
romper os obstáculos que se opunham à felicidade. E, como para a maioria dos homens, um
mal que se evita equivale a um bem que se logra, essas medidas chegaram a ser julgadas
como outros tantos benefícios positivos, e o bem-estar da massa foi considerado como o
objetivo do liberalismo, tanto pelos seus homens de Estado, como pelos seus eleitores.
Daí proveio a confusão. Como a obtenção de um bem para o povo foi o rasgo saliente comum
nas medidas liberais dos passados tempos - se bem que consistia então, essencialmente, na
diminuição das restrições - aconteceu que os liberais encararam o bem do povo, não como
um fim que era preciso. alcançar indiretamente, com a diminuição das restrições, mas como
um fim que deveria ser alcançado diretamente. E, tratando de alcança-lo diretamente,
empregaram métodos intrinsecamente contrarias aos que foram empregados em princípio.
Tendo demonstrado já, como se têm produzido essas mudanças na política (mudanças
parciais, de todos os modos, pois que as leis recentes sobre os funerais e os esforços
feitos para abolir as desigualdades religiosas, ainda existentes, mostram a continuação
da política primitiva em certas direções) examinemos até que ponto se estenderam e até
que ponto se estenderão no futuro, se as ideias e os sentimentos reinantes continuam
prevalecendo.
Antes de continuar, será bom advertir que não temos a intenção de condenar os motivos que
têm sido louváveis, sem dúvida, na maior parte dos casos. Devemos admitir que as
restrições impostas pela lei de 1870 ao trabalho das mulheres e das crianças nas
indústrias onde se emprega o vermelho de Andrinopolis, eram, na intenção dos
legisladores, tão filantrópicas, como as de Eduardo IV prescrevendo o tempo mínimo
durante o qual se poderia contratar um operário. Indubitavelmente, a Acta do Parlamento
relativa à distribuição de sementes na Irlanda, que permitia aos administradores comunais
compra-las para os lavradores pobres e os autorizava a exigir provas de que tinham sido
devidamente semeadas, foi ditada por um desejo de bem público tão grande como o que
inspirou a Acta de 1533 prescrevendo o número de carneiros que um criador poderia ter, ou
a de 1597, que ordenava a reconstrução das propriedades rurais em ruina. Ninguém porá em
dúvida que as diferentes medidas tomadas nestes últimos anos, para restringir a venda de
bebidas alcoólicas, obedecem a considerações de moral pública, da mesma maneira que as
ditadas antigamente para atalhar os males do luxo, como, por exemplo, quando no século
XIV, foram postos entraves aos gastos com alimentação e vestidos. Todos compreenderão que
os editos publicados por Henrique VIII, para impedir às classes inferiores o jogo dos
dados, naipes, etc. eram inspirados por um desejo tão grande de contribuir para o bem
público, como as leis recentes que proíbem os jogos de azar.
Porém, eu não me proponho a pôr em dúvida a sabedoria dessas ingerências modernas que os
conservadores e os liberais multiplicam á porfia, como tampouco quero discutir a
sabedoria das ingerências antigas, ás quais as primeiras se parecem em muitos casos. Não
cuido de examinar se as precauções adotadas ultimamente para preservar a vida dos
marinheiros são, ou não mais judiciosas que a medida radical escocesa que, em meados do
século XV proibia aos capitães de navios sair dos portos durante o inverno. Por enquanto
não trataremos de averiguar se há razões mais poderosas para conceder a certos inspetores
o direito de visitar algumas casas, com o fim de ver se ali encontram alimentos
deteriorados, do que as que existiram para Eduardo III, que ordenou aos hospedeiros dos
nortes prestar juramento de que revistariam os seus hóspedes, para impedir a exportação
da moeda. Admitimos que há tanto sentido na cláusula da Acta que proíbe ao proprietário
de uma barca tomar por pupilos, gratuitamente, os filhos dos barqueiros, como havia nas
atas relativas aos "Spitafields", em virtude das quais esteve proibido os manufatureiros,
até 1824, no interesse dos artesãos, estabelecer suas manufaturas a mais de dez milhas da
Bolsa Real.
Não perguntaremos, pois, se os legisladores foram guiados pela filantropia e pela
sabedoria; admitimos que o tenham sido por uma e por outra. Do que, unicamente, nos
ternos de ocupar, é da natureza coercitiva dessas leis que boas ou más, segundo as
circunstancias, foram ditadas no período em que os liberais estavam no poder.
Para não buscar demasiadamente longe os exemplos, remontemos somente até 1860, época do
segundo ministério de lord Palmerston. Nesse ano, as restrições contidas na lei relativa
às manufaturas, estenderam-se ás indústrias de lavanderias e tinturarias: deu-se o
direito de fazer analisar os alimentos e as bebidas, sendo que os gastos com estas
analises ficavam a cargo das comunas; criaram-se inspetores para as fábricas de gás,
fixando-se a qualidade e o preço máximo deste; ditou-se uma lei reforçando o que concerne
a inspeção de minas, impondo penas para os que empregassem rapazes menores de doze anos
que não tivessem frequentado escolas e não soubessem ler e escrever. Em 1861 as
restrições impostas às manufaturas estenderam-se ás fábricas de molduras: os
administradores do patrimônio dos pobres adquiriram o direito de impor a vacina; os
conselhos locais foram autorizados a fixar o preço de aluguel dos cavalos, burros e
barcas, e a alguns deles foi concedido poder para cobrar a vizinhança um tributo
destinado à drenagem, á rega dos campos e a provisão de água para o gado. Em 1862 se
promulgou uma lei restringindo o emprego das mulheres e das crianças nas operações de
lavagens de roupas ao ar livre; outra que proibia a exploração das minas de carvão que
tivessem um só poço, ou dois, separados por uma distância menor do que a especificada; e
outra, afinal, outorgando ao Conselho de Instrução Medical o direito exclusivo de
publicar uma farmacopeia, cujos preços seriam fixados pelo ministério da Fazenda. Em 1863
se declarou obrigatória a vacina na Escócia e na Irlanda; autorizou-se certos Conselhos a
fazerem empréstimos, pagáveis por meio de contribuições locais; concederam-se direitos ás
autoridades municipais para que se apropriassem dos terrenos abandonados que pudessem
contribuir para o embelezamento da povoação, e para impor aos habitantes novos impostos
destinados a esse fim; imediatamente veio a lei relativa ás padarias, especificando a
idade mínima dos operários ocupados a certas horas, e prescrevendo a limpeza e
revestimento periódico: uma vez, pelo menos, cada seis meses, três mãos de pintura e
lavagem com agua quente e sabão; por último, outra lei autorizando aos magistrados a
decidir acerca do bom ou mal estado dos alimentos que os inspetores lhes apresentassem.
Entre as medidas coercitivas que datam de 1864 se pode citar a extensão da lei
concernente às manufaturas e certas indústrias, certos regulamentos para a limpeza e
ventilação, e a proibição imposta aos empregados das fábricas de fósforos de tornar seus
alimentos em outra parte que não nas oficinas onde cortavam a madeira. Correspondem a
este ano, ademais, uma lei sobre a limpeza de chaminés, outra sobre a venda de cerveja na
Irlanda, outra que dispõe sobre o prévio ensaio dos cabos e das ancoras, outra dando mais
extensão às obras públicas de 1863, e outra acerca das enfermidades contagiosas; esta
última, dá a polícia, em alguns lugares, poderes que anulam, para certas mulheres,
diferentes garantias da liberdade individual estabelecidas em épocas anteriores. No ano
de 1865, se tomaram novas medidas para o albergue e assistência de determinados
viajantes, às expensas dos contribuintes; uma lei para o fechamento das tabernas, e outra
regulamentando a maneira de extinguir os incêndios em Londres. Sob o ministério de lord
John Russel, em 1866, devemos citar uma lei concernente aos estábulos das propriedades
rurais na Escócia, que confere às autoridades locais o direito de inspecionar as suas
condições higiênicas e de fixar o número do gado; outra que obriga os plantadores de
lúpulo a indicar nos fardos, o ano da colheita e o peso exato, dando a polícia a
faculdade de comprovar essas exigências; outra que facilita a construção de casas de
moradia na Irlanda e regulamentando o número de inquilinos; outra sobre higiene pública,
ordenando a visita e inspeção das hospedarias, a limitação de seus habitantes e adoção de
medidas para a sua limpeza; outra, finalmente, acerca das bibliotecas públicas,
conferindo às autoridades locais poderes em virtude dos quais a maioria pode obrigar a
minoria a contribuir para a compra de seus livros.
Se passamos agora ao legislado sob o primeiro ministério de Gladstone, temos, em 1869, o
estabelecimento do telégrafo pelo Estado e a proibição de enviar despachos por outros
meios; o poder dado a um ministro para regulamentar os meios de transporte em Londres;
uma regulamentação mais estrita para evitar a propagação das epizootias; uma lei sobre as
cervejarias e outra acerca da conservação das aves marinhas, (cujo resultado será uma
mais rápida destruição dos peixes). Em 1870 temos uma lei autorizando o Conselho de Obras
Públicas a fazer adiantamentos aos proprietários, para melhorarem as suas propriedades, e
aos rendeiros, para que comprem as mesmas propriedades; outra que confere ao Departamento
de Educação o direito de organizar comités com poderes para adquirir terrenos para a
fundação de escolas, manter estas mediante contribuições locais, custear a instrução de
algumas crianças e obrigar os pais a que enviem os seus filhos ao colégio; e outra acerca
das manufaturas e oficinas, criando novas restrições, entre elas, uma, relativa ao
emprego das mulheres e menores nos trabalhos de conservas de frutas e salgamento de
pescado. Em 1871 encontramos uma lei sobre a marinha mercante que ordena aos empregados
do Conselho do Comercio inscrever o calado dos navios saídos dos portos; outra sobre
oficinas e fábricas, criando restrições; outra estabelecendo penas para os que exerçam a
venda ambulante sem licença, a qual é válida apenas para determinadas zonas, e
autorizando a polícia a revistar os artigos desses comerciantes; e novas medidas
concernentes a vacinação obrigatória. Entre as leis de 1872 podemos citar a que proibiu
às amas amamentar mais de uma criança, a não ser em estabelecimentos fiscalizados pelas
autoridades, que prescrevem o número de crianças que podem ser recebidas; a que proíbe
aos taverneiros vender bebidas alcoólicas aos menores de dezesseis anos, e a concernente
a marinha mercante que dispõe uma inspeção anual dos navios que transportem passageiros.
Em 1873 ditou-se uma lei acerca do emprego dos menores nos trabalhos agrícolas, na qual
se proíbe os lavradores tomar a seu serviço rapazes que não tenham certificado de
instrução elementar, e outra sobre a marinha mercante que exige que os navios apresentem
uma tabuleta indicando o seu calado, e concedendo aos Conselhos de Comercio o direito de
fixar o número de botes e salva-vidas que cada um deve levar.
Vejamos agora as leis promulgadas sob o atual ministério. Em 1880 temos uma lei que
proíbe fazer adiantamentos aos marinheiros por conta de seu soldo; outra que prescreve
certas medidas para o transporte dos carregamentos de trigo; e outra que permite obrigar
aos pais a enviar os seus filhos à escola. Em 1881 se dita uma proibindo a venda de
cerveja aos domingos, no país de Gales. Em 1882 autoriza-se ao Conselho de Comercio a
expedir licenças concernentes a produção e venda da eletricidade; confere-se aos
municípios o direito de estabelecer contribuições para a iluminação elétrica; autorizam-
se novas imposições para os estabelecimentos de banhos e lavadouros, e as autoridades
locais obtêm o poder de ditar leis acessórias para assegurar alojamento conveniente aos
trabalhadores encarregados da colheita de frutas e legumes. Entre as leis de 1883 que
estão nesta categoria, podemos citar as relativas aos trens econômicos, que vêm
arrebatando a nação 400.000 libras anuais, pela supressão do imposto sobre viajantes, ou
que à custa das empresas, permite aos trabalhadores viajar por menor preço; o Conselho de
Comercio deve procurar, pela intervenção dos comissários de ferro-carris, a frequente
saída dos trens e a necessária comodidade dos vagões. Ademais, a que, sob pena de dez
libras de multa, em caso de contravenção, proíbe pagar aos trabalhadores nas tabernas; a
nova lei sobre as fábricas e oficinas, ordenando a inspeção das fábricas de alvaiade -
afim de ver se nelas há trajes apropriados para o trabalho, respiradores, banhos, bebidas
aciduladas, etc. - e as padarias, regulando as horas de trabalho em umas e outras e
ditando prescrições detalhadas acerca de certas construções que se devem conservar do
modo determinado pelos inspetores.
Porém, estaremos muito longe de ter uma ideia aproximada da questão, se examinamos
somente as leis coercitivas ditadas nos últimos anos. É preciso examinar também as que
são reclamadas, que ameaçam ser ainda mais radicais e restritivas. Um ministro, que se
tem por liberal muito avançado, declarou, recentemente, que os planos do último governo,
para melhorar a vivenda dos trabalhadores eram insuficientes, sustentando que é
necessário exercer uma pressão efetiva sobre os proprietários de casas pequenas e de
terrenos, e sobre os contribuintes. Outro ministro, dirigindo-se aos seus eleitores,
falou com desdém dos esforços das sociedades filantrópicas e das corporações religiosas
para acudir em ajuda dos pobres, e disse "que o povo inteiro devia considerar esta obra
como sua", o que equivale a pedir uma grande medida governamental. Por outro lado, há um
membro radical do Parlamento que aspira, com probabilidade de êxito, que cada ano vae
aumentando, a impor a sobriedade, dando às maiorias locais o direito de impedir a
liberdade de comercio a respeito de certas mercadorias. A regulamentação das horas de
trabalho, cada vez mais geral, graças às sucessivas extensões dadas às leis sobre as
fábricas, se generalizará mais ainda, provavelmente, em nossos dias: fala-se já em ditar
uma medida que submeta os empregados de todos os armazéns e uma regulamentação desse
gênero. Reclama-se, também, o ensino gratuito para todos. Começa-se a dizer que a
retribuição escolar é uma injustiça: o Estado deve arcar com toda a responsabilidade.
Muitas pessoas propõem que o Estado, considerado como juiz competente no que concerne à
boa educação dos pobres, deve prestar também uma boa educação para as classes medias,
dando a todas as crianças a mesma instrução oficial, cuja boa qualidade lhes parece tão
evidente, como pareceu aos chineses, quando o estabeleceram, o seu sistema de educação.
Desde há algum tempo, reclamam-se energicamente "fundos para as investigações". Todos os
anos dá já o Estado, para esse fim, 4.000 libras que devem ser distribuídas pela
Sociedade Real: e na ausência dos que têm poderosos motivos para resistir à pressão dos
interessados, sustentados pelos que se deixam facilmente persuadir, se poderia
estabelecer, a pouco e pouco, esse "sacerdócio da ciência" retribuído, que há tempo foi
reclamado por "sir" David Brewster. Propõe-se, de novo, com possíveis razões, a
necessidade de ser organizado um sistema de seguro forçado, que obrigue aos homens, em
sua juventude, a fazer economias para a época em que não possam mais trabalhar.
A enumeração dessas medidas coercitivas, que poderão ser levadas a cabo mais cedo, ou
mais tarde, não é completa. Até aqui não aludimos ás que vão acompanhadas de algum
aumento de impostos gerais ou locais. Em parte, para pagar os gastos que são necessários
afim de serem postas em execução essas medidas coercitivas, cada vez mais numerosas, e
cada uma das quais requerendo um maior número de funcionários, e, em parte para cobrir os
ocasionados pelas novas instituições públicas, como escolas, bibliotecas livres, museus,
banhos e lavadouros, lugares de recreio, etc., etc., as contribuições locais vão
aumentando cada ano, ao mesmo tempo que as contribuições gerais aumentam, pelas
subvenções para a educação e para os departamentos de ciências, artes, etc. Cada um
desses impostos implica numa nova coação, numa restrição maior ainda das liberdades do
cidadão. Cada um deles implica, de fato, no seguinte discurso dirigido aos contribuintes:
"Até agora tendes sido livres de gastar essa parte de vossos ganhos como melhor o
quisésseis; de agora em diante já não tendes a liberdade de dispor dela: tomamo-la nós,
para o benefício público". Assim, direta, ou indiretamente, ou de ambos os modos, que é o
que acontece com mais frequência, o cidadão se vê, a cada passo, nesta legislação
coercitiva, privado de qualquer liberdade que gozava antes.
Esses são os atos de um partido que pretende o nome de liberal e que se intitula liberal,
porque acredita ser o defensor de uma liberdade cada vez maior.
Estou seguro de que muitos membros do partido liberal terão lido com certa impaciência as
anteriores páginas, desejosos de mostrar-me uma grave omissão que, a seu juízo, destroem
a validez do argumento. "Olvidais - desejariam dizer-me - a diferença fundamental que
existe entre o poder que no passado estabelecia as restrições abolidas pelo liberalismo,
e o que dita atualmente essas medidas que chamais antiliberais. Olvidais que o primeiro
era um poder irresponsável, e que o segundo é um poder responsável. Olvidais que se a
legislação recente tem introduzido diversas regulamentações, o corpo donde elas emanam
foi criado pelo próprio povo, tendo recebido deste os seus poderes".
Minha resposta é que não olvidei essa diferença, e que estou disposto a sustentar que não
tem importância para o proposito que nos ocupa.
Em primeiro lugar, a verdadeira questão consiste em saber se se intervém mais hoje na
vida do cidadão que antigamente, não em averiguar a natureza do agente interventor.
Estabeleçamos um exemplo muito simples. Um trabalhador se une a outros para estabelecer
uma organização de caráter puramente representativo. De acordo com esta organização, tem
que se declarar em greve se assim o decide a maioria; não pode aceitar o trabalho em
outras condições que não sejam as estabelecidas pela maioria; encontra-se impossibilitado
de obter de sua habilidade, ou maior capacidade o proveito que obteria se fosse
completamente livre; não pode desobedecer sem se privar dos benefícios pecuniários da
associação, e sem se expor a perseguição e, talvez, a violência de seus companheiros.
Estará menos sujeito por ter contribuído, ele próprio, como os outros, a formar o corpo
que o oprime?
Em segundo lugar, se se me objetar que a analogia é falsa, porque o corpo que governa uma
nação, que protege a vida e os interesses nacionais, e ao qual todos se devem submeter
sob pena da desorganização social, tem sobre os cidadãos maior autoridade que o governo
de uma organização privada sobre os membros que a constituem, responderei que, ainda
admitida a diferença, a resposta dada não é menos valiosa. Se os homens usam de sua
liberdade de maneira a chegar ao desaparecimento dela, serão, por isso, menos escravos no
que suceder? Se um povo elege, por meio de um plebiscito, a um homem que o governe
despoticamente, permanecerá livre só porque esse plebiscito foi obra sua? As medidas
coercitivas que dita esse déspota, devem ser consideradas como legitimas porque são o
fruto do voto popular? Se assim se julgasse, poder-se-ia, igualmente, sustentar que o
habitante da África, ao quebrar seu arco em presença de outro declarando-se, portanto,
seu escravo, continuaria sendo livre, por ter eleito, livremente, o seu senhor.
Por último, se alguns liberais, não sem certa irritação, como devo supor, desdenham este
raciocínio e dizem que não existe verdadeiro paralelismo entre relação de povo a governo
onde há um senhor único, irresponsável, eleito para governar de um modo permanente, e
essa mesma relação onde existe um corpo responsável, submetido de tempos a tempos a
reeleição, então, minha resposta última, certamente, heterodoxa, assombrará a muitos.
Minha resposta é que, os atos restritivos não podem ser defensíveis pela alegação de que
emanam de um corpo eleito pelo povo; porque a autoridade de um corpo eleito pelo povo não
pode ser considerada ilimitada, como tampouco o pode ser a autoridade de um monarca. Do
mesmo modo que o liberalismo lutou, nos tempos passados, contra o rei que pretendia
exercer uma autoridade ilimitada, o verdadeiro liberalismo de nossos dias lutará contra o
Parlamento que se queira arrogar semelhante autoridade. Não insistirei mais sobre isto,
esperando que esta minha resposta seja suficiente.
Tanto antigamente como em nossos dias, o verdadeiro liberalismo tem demonstrado em seus
atos uma tendência para a limitação da autoridade parlamentar. Todas as abolições das
leis que restringiam as crenças e as práticas religiosas, o comércio e os transportes, as
associações trabalhistas e a liberdade de viajar dos trabalhadores etc., etc., são
testemunhos eloquentes do desejo de uma limitação. Da mesma maneira que o abandono das
antigas leis sumptuárias, ou das que proibiam determinados passatempos, ou das que
prescreviam certa forma de cultivo, e outras muitas de igual gênero, implicava a crença
de que o Estado não devia intervir nessas questões, as medidas adotadas pelo partido
liberal, durante a última geração, para desviar os obstáculos que se opunham à atividade
individual sob seus diferentes aspectos, expressavam a opinião de que, também nessa
esfera devia restringir-se a ação governamental. Ao reconhecer a utilidade que implicava
limitar a ação governamental, preparava-se a limitação em teoria. Uma das verdades
políticas mais familiares é que, no curso da evolução social, os costumes precedem às
leis; que estas resultam daqueles, quando estão solidamente estabelecidos, sanção oficial
e forma definida. Evidentemente, pois, o liberalismo, ao praticar a limitação
antigamente, preparava a via a este princípio.
Porém, deixando estas considerações gerais e tornando a questão especial que nos ocupa,
insisto na resposta de que a liberdade que goza o cidadão deve ser medida. não com
referência a natureza do mecanismo governamental sob que viva, seja ou não,
representativo, mas, de acordo com o número relativamente escasso de restrições que se
lhe imponham, e em que o funcionamento desse mecanismo, tenha sido ou não, criado com o
concurso do povo, não terá um caráter liberal se aumentam estas restrições além do
necessário para impedir toda agressão direta ou indireta, isto é, mais além do que o
necessário para manter a liberdade de cada um contra os ataques dos demais; essas
restrições, poderão ser designadas como negativamente coercitivas, e não como
positivamente coercitivas.
É provável que ainda proteste o liberal e, sobretudo, sua subespécie, o radical, que mais
do que nenhum outro parece, em nosso tempo, estar dominado pela crença de que, se o fim
que pretende é bom, tem direito a exercer sobre os homens toda a coação possível. Sabendo
que o seu objetivo é o bem do povo, que deve ser realizado de uma maneira ou de outra, e
crendo que o conservador, ao contrário, é guiado pelo interesse de casta e pelo desejo de
manter o poder das castas, o radical considerará manifestamente absurdo que se o inclua
na mesma categoria que o seu adversário, e desdenhará o arrazoamento empregado para
provar que realmente faz parte dela.
Talvez, uma analogia o ajuda a compreender a certeza do que dizemos. Se lá, no longínquo
Oriente, onde o governo pessoal é a única forma de governo conhecida, ouvisse narrarem os
habitantes o resultado de uma luta na qual um déspota cruel e vicioso havia sido
destituído, sendo posto em seu lugar um outro, cujos atos demonstram preocupação pelo
bem-estar de todos, e, depois de os ouvir dizer isso, lhes dissesse que não haviam
modificado essencialmente a natureza de seu Governo, assombrar-se-iam grandemente e, sem
dúvida, não lhe seria coisa fácil fazer-lhes compreender que substituir um déspota
malévolo por outro afável, não impede que o governo continue sendo despótico. Este é o
caso do conservadorismo bem entendido. Quando é sinônimo de coação exercida pelo Estado
em oposição a liberdade dos indivíduos, o conservadorismo permanece sendo
conservadorismo, sejam interessados ou desinteressados os moveis da coação. Como um
déspota é sempre um déspota, quaisquer que sejam as razões, boas ou más, que o levem a
exercer o poder arbitrariamente, da mesma forma, o conservador é sempre conservador,
sejam interessados ou desinteressados os motivos que o impelem a empregar o poder do
Estado para restringir a liberdade individual além ao limite necessário para a manutenção
da liberdade dos demais. O conservador desinteressado pertence ao mesmo gênero que o
conservador egoísta, embora dentro dele, constitua uma variedade nova. Ambos formam um
contraste bem visível com o liberal, tal como se definia na época em que os liberais
mereciam realmente esse nome, isto é, como "uma pessoa que pugna pela abolição
progressiva de todas as restrições, sobretudo em matéria política".
Assim, pois, fica justificado o paradoxo que estabeleci ao começar. Como já temos visto,
o conservadorismo e o liberalismo surgiram, um do militarismo, outro do industrialismo. O
primeiro sustentava o regime do Estado, e o segundo o regime do contrato; aquele, a
cooperação forçada que acompanha a desigualdade legal das classes, e este, a cooperação
voluntaria, que acompanha a sua igualdade legal; e é indiscutível que os primeiros atos
dos dois partidos tenderam, por uma parte, a fortalecer as instituições que mantêm a
cooperação forçada, e, pela outra, a diminuir ou suprimir essas instituições. A conclusão
evidente do que antecede é que, havendo contribuído para estender o sistema coercitivo, o
que atualmente se chama liberalismo, não é mais do que uma nova espécie de
conservadorismo.
(Algumas publicações que mencionaram estas doutrinas, quando as publiquei, supuseram que
nos parágrafos anteriores tratava-se de demonstrar que os liberais e conservadores
haviam-se mutuamente se substituído. Isso é um erro, pode aparecer uma nova espécie de
conservador, sem que a espécie originaria tenha desaparecido. Quando eu digo, por
exemplo, que em nossos dias "conservadores e liberais multiplicam á porfia suas
ingerências", indico claramente a minha opinião de que, se os liberais fomentam as leis
coercitivas, os conservadores não renunciaram a fazer o mesmo. Sem embargo, é inegável
que as leis ditadas pelos liberais aumentam as coações e as restrições de tal modo, que
entre os conservadores, os quais, como os demais, sofrem as consequências, se observam
tendências a resisti-las. A prova é que a "Liga para a Defesa da Liberdade e da
Propriedade ", composta, em grande parte, de conservadores, tomou por lema
"Individualismo contra Socialismo". Se a marcha atual das coisas continua, depressa pode
ocorrer, realmente, que os conservadores se convertam em defensores das liberdades que os
liberais ferem, procurando o modo de fazer o que eles acreditam que seja a felicidade do
povo).
A certeza desta asserção será ainda mais claramente demonstrada nas páginas seguintes.

A ESCRAVIDÃO FUTURA

Uma das provas do parentesco entre o amor e a piedade, é que esta, como aquele, idealiza
seu objetivo. A simpatia para com uma pessoa que sofre, faz com que se olvidem,
momentaneamente, as faltas que haja cometido. O sentimento que revela a frase "Pobre
homem", ao se contemplar um indivíduo desgraçado, exclui a ideia de "mau homem", que nos
poderia ocorrer em outras circunstancias. Naturalmente, se os desgraçados são
desconhecidos de uma forma vaga, ignoram-se todos os seus deméritos; desse modo, quando
em uma época como a nossa, pintam-se as misérias dos pobres, o público as imagina como a
miséria dos pobres virtuosos, em lugar de imagina-las - o que seria mais justo na maior
parte dos casos - como as misérias dos pobres culpáveis. Aqueles cujas penalidades se
expõem nos folhetos, nos sermões e nos discursos que ecoam de um extremo ao outro do
país, são-nos apresentados todos como personagens muito dignos, vítimas de injustiças
cruéis: nenhum deles nos é apresentado como sofrendo a pena de suas próprias faltas.
Quando se toma um coche em Londres, é assombroso ver a abundância de pessoas que,
esperando receber alguma recompensa por seu trabalho, abrem complacentemente a
portinhola. A surpresa diminui ao se observar o grande número de desocupados que há em
redor das tavernas, e a multidão de vagabundos que atrai qualquer espetáculo de rua, ou
uma procissão. Vendo quão numerosos são em tão pequena superfície, compreende-se que
milhares de indivíduos semelhantes devem formigar em Londres. "Não têm trabalho", dir-me-
á. Diga-se melhor que, ou recusam trabalhar, ou se fazem despedir imediatamente por quem
os emprega. São, simplesmente, parasitas que, de uma forma ou de outra, vivem a extensa
dos homens que valem alguma coisa; vagabundos e imbecis, criminosos ou em via de o serem,
jovens mantidos por seus pais que trabalham duramente, maridos que se apropriam do
dinheiro ganho por suas mulheres, indivíduos que participam do rendimento das
prostitutas; e, misturada a tudo isso, encontra-se uma classe correspondente, de
mulheres, menos visível e menos numerosa.
É natural que a felicidade seja o quinhão de indivíduos dessa classe? Não é, mais certo e
lógico, que atraiam a desgraça sobre si e sobre os que o rodeiam? Não é evidente que em
nosso meio deve haver uma imensidade de misérias que são o resultado normal da má
conduta, e que deveriam estar sempre associadas a esta? Ha uma opinião, mais ou menos
espalhada em todos os tempos, e preconizada em nossos dias com grande fracasso, segundo a
qual toda a dor social pode ser remediada, sendo dever de uns e de outros faze-la
desaparecer. As duas coisas são falsas. Separar o castigo da má ação, é lutar contra a
natureza das coisas, e causar uma quantidade de dor ainda maior. Livrar os homens do
castigo natural de uma vida dissoluta, dá ocasião a que se lhes aplique castigos
artificiais nas celas e solitárias, como o da roda e o do látego. A meu juízo há um
axioma cuja verdade é igualmente admitida pela crença comum e pela ciência, e que pode
ser considerado, portanto, ele uma autoridade indiscutível. O mandamento "quem não queira
trabalhar, não deve comer", é, simplesmente, o enunciado cristão de uma lei da Natureza,
lei sob cujo Império a vida alcançou o seu atual desenvolvimento, e pela qual, toda a
criatura incapaz de se bastar a si mesma, deve perecer; a única diferença está em que a
lei, que, em um caso, deve ser imposta à força, é, em outro, uma necessidade natural. Sem
embargo, esse doma particular de sua religião, que a ciência justifica de uma maneira tão
evidente, é o que os cristãos parecem menos dispostos a aceitar. A opinião corrente é que
não deve haver sofrimentos, e que a sociedade é responsável pelos que existem.
"Indubitavelmente, - dizem - temos alguma responsabilidade, embora sejam pessoas indignas
de todo o interesse as que sofrem".
Se, com tal afirmativa, se quer referir não somente a nós mesmos, mas também a nossos
antepassados, e sobretudo aos que fizeram as leis, nada tenho que replicar. Admito que os
autores, modificadores e executores da antiga lei dos pobres são responsáveis pela
desmoralização produzida, cujos efeitos durarão muitas gerações antes de desaparecerem.
Admito também que os legisladores recentes e atuais são responsáveis, em parte, pelas
medidas que tornaram possível a existência de um exército permanente de vagabundos, que
vão de uma a outra associação, e que deles é, igualmente, a responsabilidade da presença
entre nós de um número crescente de criminosos, posto que permitem sair os licenciados
dos presídios em condições que os forçam quase á pratica de novos crimes. Admito, ainda,
que os filantropos têm também a sua parte de responsabilidade, uma vez que, para ajudar
aos filhos de gente indigna, prejudicam os pais virtuosos, impondo a estes últimos
contribuições locais cada vez mais elevadas. Admito, ademais, que esse enxame de
parasitas, alimentados e multiplicados por instituições públicas e privadas, sofreu mais
por ingerências perniciosas, do que teria sofrido sem elas. São estas as
responsabilidades de que se fala? Creio que não.
Se deixarmos de lado a questão das responsabilidades, de qualquer modo que se conceba, e
consideramos unicamente o mal em si mesmo, que diremos de seu tratamento? Começarei
referindo um fato.
Um dos meus falecidos tios, o reverendo Tomaz Spencer, titular durante vinte anos de
"Hinton-Charterhouse", próximo de Bat, desde que começou o exercício de suas funções,
afirmou sua solicitude pelo bem estar dos pobres, estabelecendo uma escola, uma
biblioteca, uma sociedade para lhes proporcionar roupas, e fazendo com que se
distribuíssem terrenos e se construíssem casinhas de campo, modelo, para eles. Até o ano
de 1833, foi o amigo dos indigentes, defendendo-os sempre contra o administrador dos
socorros aos mesmos destinados. Porém, sobrevieram os debates acerca da lei dos pobres, e
compreendeu os maus efeitos do sistema até então em vigor. Embora filantropo ardoroso,
não era um tímido sentimentalista. Assim, pois, desde que se promulgou a nova lei, tratou
de aplicar as suas disposições. Levantou-se contra ele uma oposição quase geral, não
somente por parte dos pobres, mas, também, por parte dos lavradores, sobre os quais
recaía o peso de novas contribuições destinadas ao caso. De fato, ainda que pareça
estranho, estes últimos tinham, aparentemente, interesse em manter o antigo sistema, que
lhes impunha pesados encargos. Eis aqui a explicação. Havia-se introduzido o costume de
pagar com os fundos de socorro parte do salário dos trabalhadores do campo. "Complemento
do salário" denominava-se esta soma. E, embora os lavradores houvessem subministrado a
maior parte dos fundos de onde esse "complemento do salário" era tirado, como todos os
demais contribuintes entravam com sua quota, eles pareciam sair ganhando nesse arranjo.
Meu tio, que não se deixava assustar facilmente, afrontou toda a oposição, e fez executar
a lei. O resultado foi que, em dois anos, reduziram-se as contribuições de setecentas a
duzentas libras anuais e que, ao mesmo tempo, melhorou muito a situação da paróquia. "Os
que até então perambulavam pelas esquinas das ruas, ou portas das tavernas, tiveram o que
fazer, foram obtendo trabalho uns atrás dos outros", de forma que, em uma povoação de
oitocentos habitantes, dos quais cem recebiam, antes, socorro a domicílio, quinze somente
necessitaram ser enviados à "União" de Bat, quando esta foi estabelecida. Se me dissessem
que o telescópio de vinte libras que alguns anos mais tarde foi dado de presente a meu
tio, prova unicamente a gratidão dos contribuintes, responderei que, mais tarde ainda,
quando morreu em consequência de trabalhar mais do que lhe permitiam as forças, pelo bem
estar do povo, ao ser conduzido o seu cada ver para Hinton, onde deveria ser sepultado, o
comboio fúnebre foi acompanhado não somente pelas pessoas de posição, mas também pelos
pobres.
Várias razões obrigaram-me a fazer esta curta narração. Uma delas, o desejo de provar que
a simpatia pelo povo e os esforços desinteressados tendentes ao seu bem-estar, não
implicam necessariamente a aprovação dos socorros gratuitos. Outra, a de mostrar que o
bem pode resultar, não da multiplicação dos remédios artificiais para mitigar a extrema
miséria, mas, ao contrário, da diminuição desses remédios. Meu terceiro proposito, por
último, foi preparar o caminho para uma analogia. Sob outra forma, e em uma esfera
diferente, vamos estendendo agora, de ano para ano, um sistema em todo idêntico ao antigo
do "complemento do salário". Ainda que os políticos não reconheçam o fato, é fácil
demonstrar que algumas medidas ditadas para proporcionar comodidades a classe
trabalhadora, a expensas dos contribuintes, são intrinsicamente iguais ás aplicadas em
outro tempo ao operário que era considerado como meio trabalhador e meio indigente. Em
ambos os casos, o trabalhador recebe em troca do que faz, dinheiro para comprar alguns
objetos de que necessita; para que se proveja dos demais, facilitasse-lhe meios obtidos
do fundo comum criado pelas contribuições. Nada importa que os objetos que lhe dão
gratuitamente os contribuintes, em vez do patrão, de um modo direto, em forma de salário,
sejam de tal ou qual espécie: o princípio é o mesmo. Vejamos as somas e os objetos e
gozos proporcionados e comparemos. Na época da antiga lei dos pobres, o lavrador dava em
forma de salário, o equivalente ao aluguel, ao pão, às roupas e ao aquecimento, e os
contribuintes subministravam ao indivíduo e a sua família, calçado, chá, açúcar, luz,
toucinho, etc. Naturalmente a divisão é arbitraria, porém, é indubitável que o lavrador e
os contribuintes proporcionavam esses objetos em comum. Atualmente o operário recebe de
seu patrão, em paga de seu trabalho, o equivalente aos objetos de consumo, enquanto que o
público lhe facilita a satisfação de outras necessidades e desejos. Graças aos
contribuintes tem, em alguns casos, e depressa terá em muitos mais, uma casa por preço
inferior ao devido; pois, evidentemente, quando, por exemplo, uma municipalidade como a
de Liverpool, gasta cerca de duzentas mil libras, e está a ponto de gastar outras tantas,
para demolir e reedificar as vivendas das classes inferiores, pode-se inferir que, de
certa maneira, os contribuintes facilitam aos pobres um alojamento mais cômodo do que o
que poderiam ter de outro modo, pagando o mesmo aluguel. Os mesmos contribuintes pagam,
ademais, a maior parte dos gastos ocasionados pela instrução dos filhos dos
trabalhadores, e é provável que, bem depressa, o total dessa despesa corra por conta sua.
Também lhes proporcionam livros, jornais e lugares onde os possam ler. Noutros casos,
como acontece em Manchester, estabeleceram ginásios para as crianças de ambos os sexos e
sítios de recreio. Isto é, os operários recebem, graças aos fundos criados pelos impostos
locais, benefícios superiores aos que poderiam obter com seus salários. A única
diferença, pois, entre este sistema e o antigo do "complemento do salário", é a que
existe no gênero de satisfações obtidas, diferença que não afeta em nada a natureza das
coisas.
Por outro lado, a mesma ilusão prevalece nos dois sistemas. O que em ambos se considera
como um dom gratuito, não o é, de modo algum. A soma que, sob a antiga lei dos pobres, o
trabalhador meio indigente recebia da paróquia para completar seu salário não era, na
realidade, uma doação, posto que ia acompanhada de uma diminuição correspondente do
jornal, como bem depressa se demonstrou, quando da abolição do sistema, que foi seguida
da elevação dos salários. O mesmo acontece com os benefícios aparentemente outorgados aos
trabalhadores das cidades. Não me refiro somente ao fato de que eles paguem, sem se dar
conta, parte desses benefícios, satisfazendo, por exemplo, um aluguel de casa mais caro,
(quando não são contribuintes), mas, também, ao de que os salários diminuem, à medida que
aumentam os encargos públicos que pesam sobre os patrões. Lede os ultimes ditames da
greve algodoeira no Lancashire, e tereis a prova facilitada pelos próprios obreiros, de
quanto íntima é a margem de benefícios, tanto, que os fabricantes menos hábeis e os que
não dispõem de capital, forçosamente hão de quebrar; as próprias sociedades cooperativas
que com eles competem, raramente se podem manter. Deduzi, agora, as consequências desse
fato no que respeita aos salários. Entre os gastos de produção, há que contar as
contribuições gerais e locais. Se, como acontece nas grandes cidades, os impostos locais
absorvem, pelo menos, a terça parte da renda efetiva, se essa terça parte se deve pagar,
não somente da vivenda particular, como também do escritório, da fábrica, dos armazéns,
etc., necessariamente essa soma deve ser retirada dos interesses do capital, ou da
importância dos salários, ou, mesmo, de um e de outro lado. E se a competência entre os
capitalistas da mesma indústria, ou de outras indústrias, é causa de se manter o
interesse do capital em nível tão baixo, que, se uns ganham, outros perdem e não poucos
se arruínam, e, como consequência, o capital, sem a renumeração competente, toma outros
rumos, claro é que ao trabalhador só se oferecem dois caminhos: ou menos trabalho, ou
menor salário. Ademais, por análogas razões, os encargos locais aumentam o preço dos
artigos de consumo. Os preços exigidos pelos comerciantes retalhistas, estão determinados
pelo interesse decorrente do capital empregado no comércio a retalho, e os gastos
extraordinários deste comercio, devem ser compensados por preços também extraordinários.
Deste modo, o trabalhador das cidades, hoje, como em outro tempo, o dos campos, perde por
um lado o que ganha por outro. Ha que acrescentar, ainda, os gastos ocasionados pela
Administração e os dispêndios inúteis que a acompanham. Porém, que relação tem tudo isto
com a "escravidão futura"? Perguntar-se-me-á. Nenhuma relação direta, porém, sim,
indireta, desde muitos aspectos, como mais adiante veremos.
Diz-se que, quando se estabeleceram as ferrovias na Espanha, acontecendo que alguns
camponeses fossem atropelados, foram esses acidentes atribuídos aos maquinistas, que não
detinham os trens a tempo: a pratica agrícola não permitira que se fizesse ideia alguma
do impulso adquirido por uma massa enorme que se move a grande velocidade.
Acode a minha memória esse fato, ao examinar as ideias que os políticos denominados
"práticos", os quais não suspeitam a existência de um "momento" político, e menos ainda,
de um "momento" político que, longe de diminuir, ou de permanecer estável, aumenta sem
cessar. A teoria de acordo com a qual o político procede habitualmente, é a de que as
mudanças operadas por suas medidas se deterão no ponto em que ele quer que se detenham.
Examina atentamente os resultados imediatos de seus atos, porém, sequer imagina os
efeitos longínquos do movimento por ele produzido e, menos ainda, os concomitantes.
Quando, na época da guerra, se necessitava imprescindivelmente de "carne para canhão",
estimulava-se aos pais para que tivessem muitos filhos; quando "mister" Pit dizia:
"Procuremos fazer com sue os socorros concedidos às famílias numerosas, sejam um direito
e uma honra, em lugar de ser um motivo de opróbrio e de menosprezo", não supunha que as
contribuições para os pobres se quadruplicariam em cinquenta anos, que, atendendo ao
socorro recebido das caixas dos indigentes, as mulheres com filhos ilegítimos seriam
preferidas ás honradas para contrair matrimonio, e que uma multidão de contribuintes
desceriam a extrema pobreza. Os legisladores que, em 1833, votaram vinte mil libras para
ajudar a construção de escolas, não supuseram que tal medida havia de acarretar depois
contribuições forçadas, gerais e locais, que se elevam atualmente a seis milhões de
libras; não tiveram a intenção de estabelecer o princípio de que A seria responsável pela
educação dos filhos de B; não imaginaram que as viúvas poderiam ser privadas do auxílio
de seus filhos de certa idade; e menos suspeitaram de que os seus sucessores, autorizando
aos pais indigentes a se dirigirem aos administradores do patrimônio dos pobres, para
pagar a retribuição escolar de seus filhos, criariam o costume de tudo esperarem desses
administradores, formando o pauperismo. E os que, em 1834, aprovaram a lei que
regulamentava o trabalho das mulheres e dos menores em certas manufaturas, não imaginaram
que o sistema assim iniciado, acabaria na restrição e inspeção do trabalho em todas as
classes de estabelecimentos onde se empregam mais de cinquenta pessoas, nem puderam
suspeitar que a inspeção chegaria ao extremo de exigir de "toda a pessoa jovem" que
desejasse colocação em uma fábrica um certificado médico, cujo prévio exame pessoal, (ao
qual não se estabelece nenhum limite) assegure que é valido e não padece nenhuma
enfermidade ou achaque que o incapacite para o trabalho, dependendo do referido
certificado, poder a pessoa jovem ganhar ou não seu salário. Menos ainda, como já tenho
dito, prevê o político que se gaba de conhecer as vias práticas, os resultados indiretos
que se seguirão aos efeitos de suas medidas. Assim, para citar um exemplo de ordem igual
aos anteriores, o sistema de "retribuir segundo os resultados" tinha unicamente por
objetivo estimular os professores de uma maneira eficaz, não se pensou que tal estimulo
poderia ser prejudicial para a saúde, nem que os levaria a adotar métodos de "ensinamento
indigesto" e a exercer uma pressão excessiva sobre crianças débeis, ou pouco
inteligentes, com frequência em detrimento de seu desenvolvimento, cujo resultado seria
um empobrecimento físico que, certamente, não pode ser compensado pelos conhecimentos
gramaticais ou geográficos. A proibição de abrir uma taberna sem licença, tinha por
objetivo a manutenção da ordem pública; jamais se acreditou que esta medida pudesse ter
uma influência poderosa e funesta nas eleições. Não ocorreu aos políticos "práticos" que
impuseram uma tabela de carga obrigatória aos navios mercantes, que o prestigio dos
armadores faria com que tal tabela se elevasse até ao limite extremo e que, de precedente
em precedente, se elevasse por graus nas melhores naves, o que se realizou, segundo
informações que possuo, de boas fontes. Os legisladores que há quarenta anos obrigaram às
companhias ferroviárias a facilitar passagens econômicas, ter-se-iam rido se alguém lhes
dissesse que chegaria um tempo em que seria preciso castigar os que interpretam essa
disposição em um sentido mais amplo. Sem embargo, assim aconteceu, pois, tem-se castigado
mais de uma vez as companhias que estabeleceram serviços de terceira classe nos trens
rápidos: foi-lhes imposta uma multa igual ao preço obtido de cada viajante assim
transportado. A este exemplo, tomado das ferrovias, ajuntemos um fato que resulta da
comparação entre a forma como as mesmas são administradas na França e na Inglaterra. Os
legisladores franceses que ditaram medidas para a encampação das linhas férreas pelo
Estado, não imaginaram que isso poderia redundar em prejuízo para os viajantes; não
previram que o desejo de não diminuir o valor de uma propriedade que, por fim, deve
pertencer ao Estado, impediria autorizar a abertura de novas linhas e que, faltando a
concorrência, a locomoção seria mais lenta e mais cara, e os trens menos frequentes. De
fato, o viajante inglês tem, sobre o francês, segundo demonstrou recentemente sir Tomaz
Farrer, grandes vantagens na economia, na rapidez e na frequência com que pode
transportar-se de um para outro sitio.
Porém, o político "prático" que, a despeito de tais experiencias, repetidas de geração em
geração, continua pensando somente nos resultados próximos, não suspeita sequer,
naturalmente, outros efeitos ainda mais distantes, ainda mais gerais e ainda mais
importantes que os anteriormente aduzidos como exemplos. Repetindo a metáfora já
empregada, jamais se pergunta se o "momento político" posto em ação por sua medida,
diminuindo algumas vezes, porém, aumentando fortemente em outros casos, seguirá, ou não,
a mesma direção geral que outros "momentos" análogos, e se se poderá unir a eles para
produzir rapidamente um movimento composto que origine mudanças das quais nunca se havia
pensado. Contemplando unicamente os efeitos da corrente produzida por suas próprias leis,
e não vendo outras correntes já existentes, e outras ainda devidas ao impulso dado, que
seguem a mesma direção, não nota de que todas essas correntes podem se unir para formar
uma torrente que mudará por completo a face das coisas. Ou, abandonando a metáfora, não
tem consciência de que ajuda a criar um determinado tipo de organização social, nem de
que medidas análogas, produzindo análogas mudanças de organização, tendem, com força cada
vez maior, a generalizar esse tipo, até que, em um momento dado, a tendência chegue a ser
de tal modo poderosa, que se torna irresistível. Do mesmo modo que cada sociedade aspira,
na medida do possível, a criar outras sociedades de estrutura análoga à sua própria; do
mesmo modo que na Grécia os espartanos e os atenienses se esforçaram á porfia em propagar
suas instituições políticas respectivas; do mesmo modo que na época da Revolução
Francesa, as monarquias absolutas da Europa trabalharam para restabelecer a monarquia
absoluta na França, enquanto que a república alentava a formação de outras repúblicas,
assim em cada sociedade tendem a se propagar as estruturas criadas. Do mesmo modo que o
sistema de cooperação voluntaria, estabelecido por companhias, por associações formadas
com fins industriais, comerciais, ou de outra classe, estende-se a toda uma comunidade,
assim se propaga o sistema contrário, da cooperação forçada, sob a direção do Estado. E
quanto mais se estende qualquer deles, mais ganha em força expansiva. A questão capital
para todo o político devia ser sempre: "Que tipo de estrutura social desejo produzir?".
Porém, jamais se formula esta pergunta.
Nós queremos faze-la aqui por ele. Observemos agora a tendência geral das mudanças
recentes, com a corrente de ideias que os acompanham, e vejamos onde nos leva.
Eis aqui, na forma mais simples, a pergunta que os políticos se fazem diariamente: "Já
fizemos isto, por que não faremos aquilo?". E o respeito aos precedentes, que isto
implica, impele sempre a novas regulamentações. Estendendo-se a ramos da indústria, cada
vez mais numerosos, as Atas do Parlamento que restringem as horas de trabalho e
prescrevem a maneira de tratar os trabalhadores, devem agora ser aplicadas aos armazéns.
Da inspeção das casas de moradia coletiva para limitar o número de inquilinos e impor as
devidas condições higiênicas, passamos a inspeção de todas aquelas que não rendem
determinada renda e nas quais habitam mais de uma família, e depressa passaremos a de
todas as que sejam menores. A compra e exploração dos telégrafos pelo Estado, serve de
fundamento para reclamar igual medida a respeito das ferrovias. O fato de dar instrução
gratuita ás crianças, será seguido em alguns casos, pelo de lhes facilitar da mesma forma
o alimento, e quando este uso se haja generalizado gradualmente, podemos estar seguros de
que se estenderão a outros muitos casos; esta extensão será a consequência lógica do
princípio de que tão indispensável é fortalecer o corpo como o espírito, para formar um
bom cidadão. E, em seguida, apoiando-se abertamente nos precedentes da igreja, a escola e
a sala de leitura, sustentadas às expensas do público, se diz que "o prazer, no sentido
que geralmente se dá hoje a esta palavra, necessita ser regulamentado e organizado pelas
leis, da mesma forma que o trabalho".
Estas usurpações da regulamentação devem ser atribuídas, não somente aos precedentes,
mas, também, a necessidade de suprir as medidas ineficazes e de remediar os males
artificiais que surgem continuamente. A falta de êxito não destrói a fé nos meios
empregados; porém, sugere a ideia de os usar de uma maneira mais rigorosa, ou de aplica-
los em maior número de casos. Como as leis contra a intemperança, velhas de séculos e
ainda em vigor em nossos dias, em que a necessidades de restringir a venda das bebidas
alcoólicas ocupa muitas sessões durante cada legislatura, não tem produzido o efeito
esperado, reclamam-se outras mais severas que proíbam em absoluto a venda das referidas
bebidas em algumas localidades; e aqui, como na América, pedir-se-á, sem dúvida, depois,
que a proibição seja geral. Não tendo conseguido os numerosos meios ideados para
"extirpar" as numerosas epidemias, impedir a varíola, as febres, etc. etc., solicita-se
um novo remédio, consistente em dar a polícia o direito de visitar as casas para ver se
há pessoas atacadas de alguns desses males, e em autorizar aos médicos para que possam
examinar a qualquer pessoa que suponham padecer alguma enfermidade epidêmica ou
infeciosa. Havendo favorecido a lei dos pobres, durante duas gerações, o desenvolvimento
do habito da imprevidência, e multiplicado o número de imprevidentes, propõe-se agora,
como remédio, a males causados pela caridade obrigatória, o seguro obrigatório.
O desenvolvimento desta política, originando o recrudescimento de ideias correspondentes,
sustenta em todos os lugares a opinião de que o Governo deve intervir sempre que qualquer
coisa não andar direito. "Certamente não querereis que esses males continuem!". Exclamará
alguém, se expondes qualquer objeção contra o que agora se diz, ou se faz. Notai o que
esta objecção implica. Em primeiro lugar admite como certo que todas as dores devem ser
impedidas, o que não é verdade; muitas dores são curativas e, ao impedi-las, impedir-se-
ia o efeito do remédio. Em segundo lugar, supõe que todos os males poder ser aliviados,
quando o certo é que, com os defeitos inerentes à natureza humana, muitos males somente
podem ser mudados de lugar, ou de forma, aumentando frequentemente sua intensidade com a
troca. A exclamação implica também a firme crença de que o Estado devia dar remédio aos
males de todas as espécies. Não se cogita de que existam outros meios que possam evitar
alguns deles, e se aqueles de que se trata são dos que possam ser evitados com esses
meios. E, evidentemente, quanto mais o Governo intervém, mais se firma esta maneira de
pensar, e com mais insistência se reclama a sua intervenção.
Toda a extensão da regulamentação administrativa implica a nomeação de novos agentes
reguladores, um maior desenvolvimento da burocracia e aumento de poder dos corpos de
funcionários. Tomai uma balança; colocas em um dos pratos muitos grãos de chumbo e alguns
poucos no outro; tirando chumbo do prato mais carregado e passando-o para o outro,
chegará um momento em que se restabelecerá o equilíbrio; porém, se continuais a operação,
a posição reciproca dos pratos mudará. Supondo que a haste da balança está dividida em
duas partes desiguais e que o prato menos carregado esteja do lado maior, neste caso,
produzindo um efeito mais considerável a mudança do chumbo, a mudança de posição dos
pratos se verificará mais de pressa. Emprego esta figura para mostrar o resultado que se
obteria trasladando um indivíduo depois do outro, da massa governada da comunidade, às
estruturas governamentais. A mudança debilita uma e robustece a outra muito mais do que
faria supor a troca relativa do número. Um corpo, relativamente pequeno, de funcionários
que tenha interesses comuns e aja sob a direção de uma autoridade central, tem imensa
vantagem sobre um público que não tenha regras fixas de conduta e que não possa ser
impelido a agir de acordo, senão sob o império de uma forte provocação. Isto é que torna
as organizações de funcionários, que alcançam certa fase de desenvolvimento, cada vez
mais irresistíveis, como vemos nas burocracias do continente.
Não somente diminui a força de resistência da parte governada em razão ao que aumenta na
parte governante, senão que, também, os interesses privados de muitos indivíduos,
aceleram ainda as variações da proporção. As conversações de todos os círculos demonstram
que, em nossa época, na qual os destinos públicos se provêm por oposição, educam-se os
jovens para que possam sair vitoriosos e obter um emprego. Daí resulta que muitos homens
que, de outro modo, reprovariam o aumento do funcionalismo, inclinam-se a contempla-lo,
senão com agrado, com certa tolerância, posto que lhes oferece a probabilidade de uma
carreira para seus filhos ou protegidos. Todos os que sabem quantas famílias ha, nas
classes médias e altas, desejosas de colocar os seus filhos nas repartições do Estado,
terão a prova de que a regulamentação legislativa é alentada por aqueles que, se não
tivessem em jogo os seus interesses pessoais, ser-lhe-iam hostis.
Esta predileção pelas carreiras oficiais aumenta ainda pela preferência concedida ás que
se reputam respeitáveis. "Embora o salário seja pequeno, sua ocupação será a de um
gentleman", diz para si mesmo o pai que deseja obter para seu filho um emprego do
Governo. E a dignidade relativa dos empregados do Estado, comparada com a dos do
comércio, aumenta, à medida que a organização administrativa adquire mais importância e
mais poder na sociedade, tendendo a fixar o tipo de honra. A ambição predominante de um
jovem, na França, é obter um modesto cargo oficial em sua localidade, chegar em seguida a
um posto no Governo da província e passar por último a uma Diretoria em Paris. E na
Rússia, onde esta universalidade da regulamentação administrativa, que caracteriza o tipo
militante da sociedade, está ainda mais difundida, vemos a mesma ambição levada ao limite
extremo. "Mister" Walace, citando certa passagem de uma obra dramática, diz: "Todos os
homens, inclusive os vendeiros e sapateiros, aspiram a ser funcionários públicas; e o
homem que passou toda a sua vida sem haver desempenhado um cargo oficial, parece que não
é uma criatura humana".
A estas diferentes influencias, operando de cima para baixo, correspondem esperanças e
solicitações, cada vez mais poderosas, que vêm de baixo para cima. Os homens submetidos a
rude labor e acabrunhados por pesados encargos, que formam a grande maioria, e mais
ainda, os incapazes que são continuamente socorridos e aspiram ainda socorros mais
amplos, sustentam com empenho todos os projetos que lhes prometam tais ou quais
benefícios, graças à intervenção administrativa, e acreditam facilmente a quantos lhes
dizem que esses benefícios podem e devem ser concedidos. Têm uma fé absoluta em todos os
construtores de castelos políticos no ar, desde os graduados de Oxford, até os
irreconciliáveis irlandeses; e cada novo emprego dos fundos públicos em seu proveito os
faz esperar outras medidas ulteriores do mesmo gênero. Certamente, quanto mais aumenta a
intervenção do Estado, mais se estende entre os cidadãos a crença de que tudo deve ser
feito para eles e nada por eles. A ideia de que o fim em mira deve ser realizado pela
ação individual, ou das associações particulares, é cada vez menos compreendida de
geração em geração; e a de que deve realizar-se pelo concurso do Governo, cada vez se
torna mais familiar, até que, por último, a intervenção governamental chegue a ser
considerada como o único meio prático. Este resultado se manifesta de uma maneira
evidente no último congresso das associações trabalhistas, celebrado em Paris. Nas
informações prestadas aos seus comitentes, os delegados ingleses dizem que entre eles e
seus colegas estrangeiros "o ponto em litigio consistia em saber até que ponto se devia
pedir ao Estado a proteção do trabalho". Aludem com isto ao fato, tão patente nas
resoluções das sessões, de que os delegados franceses invocavam sempre o poder
governamental como o único meio de satisfazer seus desejos.
A difusão do ensino tem atuado e atua cada dia mais no mesmo sentido. "É preciso instruir
os nossos mestres", estas são as palavras, bem conhecidas, de um liberal que votou contra
a última isenção de impostos. Certamente, se a instrução fosse digna deste nome e
contribuísse para proporcionar as noções políticas necessárias, poder-se-ia esperar muito
dela. Porém, conhecer as regras da sintaxe, somar com exatidão, possuir algumas noções
geográficas e saber de memória as datas dos adventos dos reis e das vitórias de nossos
generais, não implica a capacidade de discorrer com propriedade em política, como a
habilidade no desenho não traz consigo o conhecimento do telégrafo, ou a destreza no jogo
do "cricket", não supõe um talento de violinista. "Efetivamente - replicará alguém -
porém, sabendo ler tem-se aberta a via aos conhecimentos políticos". Sem dúvida, mas,
será percorrida essa via? As conversações de café provam que, de cada dez pessoas, nove
têm o que os entretém ou os interessa, antes do que o que os instrua, e que, o último que
lê, é um escrito que lhe diga verdades desagradáveis ou dissipe esperanças mal fundadas.
Que a educação popular propaga a leitura de publicações que alimentam gratas ilusões,
mais ao que aquelas que insistem na dura realidade, é indiscutível. Um artesão escreve na
"Pall Mall Gazete" (3 de dezembro, 1883): "Uma boa educação primaria desperta o desejo da
cultura intelectual; a cultura intelectual desperta o desejo de muitas coisas que se
acham ainda fora do alcance dos trabalhadores...: na luta terrível em que está empenhada
a geração atual, é absolutamente impossível às classes pobres obtê-las. Daí o estarem
descontentes com o presente estado de coisas, e que, quanto mais instruídas sejam, mais
descontentes se tornarão. Daí também que "mister" Ruskin e "mister" Morris sejam
considerados como verdadeiros profetas por muitos dos nossos".
A situação presente da Alemanha é a prova definitiva de quão certa é a relação entre a
causa e o efeito, afirmada neste capítulo.
Como as pessoas ás quais se faz crer que a futura organização social lhes proporcionará
imensos benefícios possuem o direito eleitoral, resulta que o candidato que deseje obter
o seu voto, deve, pelo menos, abster-se de provar a falsidade de suas crenças, se é que
não cede à tentação de afirmar a sua conformidade com elas. Todo o candidato ao
Parlamento se vê obrigado a propor ou sustentar, alguma nova lei "ad captandum". Ademais,
os próprios chefes de partido, tanto os que se esforçam para conservar o poder, como os
que querem consegui-lo, procuram, cada um por seu lado, ganhar aderentes, indo mais longe
que o adversário. Cada um procura a popularidade prometendo mais do que o outro haja
prometido, segundo temos visto recentemente. Depois, como as lutas parlamentares
demonstram, a fidelidade tradicional ao chefe impede discutir o valor intrínseco das
medidas propostas. Os representantes da nação têm suficiente falta de escrúpulos para
votar a favor de proposições cujo princípio lhes pareça mal, porque o reclamam os
interesses ao partido e o interesse de sua reeleição. Desse modo uma má política é
defendida mesmo até pelos que vêm os seus defeitos. Ao mesmo tempo, faz-se fora uma
propaganda ativa que encontra seu auxiliar em todas essas influências. As teorias
comunistas, aceitas em parte, uma atrás da outra pelo Parlamento, e aprovadas tácita,
senão abertamente, por muitos homens políticos que tratam de atrair partidários, são
sustentadas, de uma maneira mais ou menos ruidosa, sob uma ou outra forma, por chefes
populares, enquanto que são levadas para mais longe por sociedades organizadas. Assim se
produziu, por exemplo, o movimento para a aquisição da terra pelo Estado: do ponto de
vista abstrato, o sistema que.se preconiza é equitativo, porém, como todo o mundo sabe,
"mister" George e seus amigos querem estabelecer esse sistema de propriedade desdenhando
completamente os direitos dos proprietários atuais, e tomando-o como base de um projeto
que conduz diretamente ao socialismo de Estado. Ha também a federação democrática de
"mister" Hyndham e seus partidários. Estes nos dizem que "o punhado de salteadores que
detêm atualmente a terra, não têm nem podem ter outro direito que o da força bruta contra
os milhões de homens a quem prejudicam". Protestam contra os "acionistas, aos quais se
permitiu deitar a mão sobre as grandes vias de comunicação com a posse dos caminhos de
ferro". Condenam "sobretudo, a classe ativa dos capitalistas, a dos banqueiros,
lavradores, exploradores de minas, contratadores, burgueses, fabricantes; a todos esses-
modernos possuidores de escravos, que pretendem obter um benefício cada vez maior dos
assalariados que empregam". E pensam que chegou a "hora de emancipar a indústria da
avidez individual".
Resta-nos mostrar como essas diferentes tendências são ainda alentadas pela imprensa, que
cada dia as apoia mais. Os jornalistas, que evitam cuidadosamente de dizer o que poderia
desagradar a seus leitores, seguem, muitos deles, a corrente e aumentam a sua força. Nada
dizem das ingerências legislativas que haviam combatido em outro tempo, se é que não
tomam a sua defesa, e falam do "laissez faire" como de uma doutrina antiquada. "O
socialismo não assusta já aos homens, dizem-nos um dia, e no dia seguinte põem em
ridículo a cidade que não adota as bibliotecas livres, assegurando que está assustada com
uma medida tão moderadamente comunista. Os editores, por sua parte, afirmam que esta
evolução se impõe e deve ser aceita, e dão preferência aos artigos dos que a defendem. Ao
mesmo tempo, os que consideram desastrosa essa corrente criada pela legislação, e vêm que
ainda o será mais no futuro, guardam silencio, convencidos de que é inútil discutir com
pessoas em estado de embriaguez política.
Vede, pois, quantas causas concorrem para acelerar continuamente a transformação que se
opera. Ha, em primeiro lugar, a extensão da regulamentação, cuja autoridade, devida aos
precedentes, se faz tanto maior, quanto mais estes aumentam. Em segundo lugar, existe
essa necessidade incessante de coações e restrições administrativas originadas dos males
imprevistos e dos funestos resultados das coações e das restrições anteriores. Por outra
parte, cada nova ingerência do Estado robustece a opinião tácita de que é dever do
Governo remediar todos os males e assegurar todos os bens. A medida que a organização
administrativa adquire mais poder em seu desenvolvimento, tem-no menos o resto da
sociedade para resistir às suas usurpações. A multiplicação das carreiras originada pelo
desenvolvimento da burocracia, é favorecida pelas classes governantes, ás quais se lhes
oferece a possibilidade de procurar para os seus familiares posições seguras e
respeitáveis. Em geral, os cidadãos, habituados a considerar os benefícios recebidos por
mediação dos agentes públicas, como beneficias gratuitos, continuamente esperam receber
mais. A difusão do ensino, favorecendo a propaganda de erros agradáveis antes que a de
duras verdades, generaliza e aviva essas esperanças, as quais, e isto é pior ainda, são
alentadas pelos candidatos ao Parlamento, que assim aumentam as probabilidades de Seu
triunfo, e pelos homens de Estado influentes, que cortejam desse modo o favor popular no
interesse do partido.
Vendo frequentemente confirmadas as suas opiniões pelas novas leis, de acordo em tudo com
sua maneira de ver, os energúmenos políticos e os filantropos imprudentes continuam suas
agitações, com êxito e confiança cada dia maiores. O jornalismo, que é sempre o eco da
opinião pública, fortifica-a tornando-se o seu órgão; entretanto, a opinião contraria,
cada vez mais desalentada, não encontra nenhum gênero de defensores.
Desse modo, influencias de diversas classes conspiram para aumentar a ação coletiva e
diminuir a individual. Essa mudança é ajudada em todos os sentidos pelos fazedores de
projetos, os quais, pensam cada um somente no seu, sem se ocupar em nada com a
reorganização geral que prepara com ele, unido a outros do mesmo gênero. Tem-se dito que
a Revolução Francesa devorou os seus próprios filhos. Parece bastante provável, agora,
uma catástrofe análoga. As transformações realizadas pelo Parlamento, juntas a outras
muitas que estão em via de se realizarem, acarretarão bem depressa o socialismo de
Estado, e se confundirão então na imensa onda que elas mesmas levantaram insensivelmente.
Porém, por que chamar a esta mudança de "escravidão futura?" perguntarão, sem dúvida,
muitos. A resposta é simples. Todo socialismo implica escravidão.
Que é, fundamentalmente, um escravo? Todos nós o representamos, em primeiro lugar, como
um homem possuído por outro. Sem embargo, para que essa pose não seja somente nominal, é
preciso que se torne efetiva pela vigilância dos atos do escravo, vigilância exercida
habitualmente em proveito do patrão. O que, em realidade, caracteriza o escravo, é o fato
de trabalhar por coação, para satisfazer os desejos de outro. Esta relação de dependência
admite diversos graus. Se recordamos que em sua origem o escravo é um prisioneiro, cuja
vida está á mercê daquele que o possui, inútil será fazer notar aqui que há uma forma
dura de escravidão na qual o homem, tratado como uma besta, deve consagrar todos os seus
esforços ao benefício de seu amo. Sob um sistema menos duro, ainda que ocupado
essencialmente em trabalhar para seu patrão, concede-se ao escravo algum tempo para que
trabalhe em seu proveito, e um pouco de terreno em cujo cultivo possa aumentar sua
alimentação. Uma melhora ulterior concede-lhe o direito de vender os frutos do seu pedaço
de terra e de guardar o produto da venda. Em seguida vem a forma mais moderada ainda, que
aparece onde, havendo sido o homem livre, cultivando a sua própria terra, foi reduzido
por efeito de uma conquista ao estado de servidão. Neste caso o escravo deve entregar ao
seu amo, cada ano, uma quantidade determinada de trabalho, ou de produtos, ou das duas
coisas ao mesmo tempo, guardando o resto para si. Por último, em alguns casos, como
acontecia na Rússia, até uma época recente, o escravo pode abandonar a casa de seu patrão
e trabalhar em outra parte por conta própria, sob a condição de pagar uma renda anual.
Que é o que nos faz dizer, nestes diversos casos, que a escravidão é mais, ou menos dura?
Evidentemente a nossa opinião é determinada pelo grau de coação sob o qual o indivíduo
trabalha em benefício de outro, em lugar de trabalhar em seu proveito próprio. Se todo o
trabalho do escravo é para o seu dono, a escravidão é dura; se somente uma pequena parte,
é leve. Vamos agora mais longe. Suponhamos que um proprietário morre e que a sua
propriedade e escravos sejam comprados por uma companhia; teriam melhorado as condições
do escravo, se a soma de seu trabalho forçado contínua a ser a mesma? Suponhamos que a
companhia é substituída pela comunidade; constituirá isto. uma diferença para o escravo,
se o tempo que deve trabalhar para os demais é o mesmo que antes, e igual ao que pode
trabalhar para si? O tempo em que seja obrigado a trabalhar para os outros, e aquele em
que possa trabalhar para si, é o essencial da questão. O grau de sua escravidão varia em
relação com o que se vê forçado a dar e o que pode guardar; nada importa que o seu amo
seja um indivíduo ou uma sociedade. Se é obrigado a trabalhar para a sociedade, e recebe
do fundo comum a porção que esta lhe concede, será escravo da sociedade. A organização
socialista necessita uma escravidão deste gênero; a ela somos arrastados por muitas
medidas recentes, e mais o seremos ainda por outras que se propõem. Vejamos, primeiro, as
consequências próximas dessas medidas, e em seguida veremos as mais distantes.
O sistema iniciado com as leis sobre as vivendas operarias admite desenvolvimento e se
desenvolverá. Construindo casas, as corporações municipais rebaixaram inevitavelmente o
valor das já construídas e dificultaram a construção de outras. Cada prescrição referente
a maneira de construir e a forma dos prédios, diminui os benefícios do construtor e o
impele a empregar seu capital em empresas onde tal não aconteça. Por outro lado, os
proprietários, vendo que as casas pequenas impõem mais trabalho e acarretam mais perdas
que as outras, sujeitos já aos incômodos da inspeção e das ingerências administrativas, e
aos gastos que delas resultam, tratarão de vende-las, uma vez que se tornaram
propriedades desvantajosas: mas, as mesmas razões afastarão os compradores, e se verão
obrigados a perder na venda. E quando essas regulamentações, cada dia mais numerosas,
cheguem, como propõe lord Grey, a exigir do proprietário que mantenha a salubridade das
vivendas, expulsando os habitantes pouco asseados, e acrescentem às suas demais
responsabilidades a de inspecionar as sujidades e o lixo, aumentará a necessidade de
vender e afugentará ainda mais os compradores, do que resultará uma maior depreciação.
Que acontecerá então, inevitavelmente? Havendo cada vez mais dificuldades para a
construção de vivendas, das pequenas principalmente, solicitar-se-á prementemente que a
autoridade local supra essa falta. As corporações municipais, ou outras, terão que
multiplicar a construção de vivendas, ou comprar aos particulares as que, pelas razões
expostas, chegaram a se tornar invendáveis; na realidade, acharão mais vantajosas as
compras destas, dada a grande diminuição de seu valor, do que a construção de outras.
Esse processo terá uma dupla consequência, posto que toda a contribuição local tende a
depreciar a propriedade. Depois, quando as autoridades locais das cidades, como resultado
daquele processo, possuam a propriedade de muitas vivendas, haverá um bom precedente para
que se cuide de prover também de vivendas a povoação rural, como propõe o programa
radical e quer também a Federação Democrática; esta última insiste "na construção
obrigatória de vivendas sãs para os artífices e os trabalhadores do campo, em proporção a
população". Indubitavelmente, o que se tem feito, se faz, e se fará bem depressa, tende a
realizar o ideal socialista, segundo o qual a comunidade é a única proprietária das
casas.
Esta será também a consequência do sistema preconizado referente à posse e exploração da
terra. Um número maior de instituições públicas exige o aumento correspondente de agentes
públicos e de encargos públicos, diminuindo consequentemente o valor das rendas da terra,
e a tal extremo levam sua depreciação, que vencem, a resistência dos possuidores de terra
em transformar seu capital. Como todos sabemos, é já difícil em muitas partes, encontrar
arrendatários, ainda reduzindo consideravelmente o preço da renda; os terrenos de
qualidade inferior não se cultivam, em certos casos, e quando o proprietário se arrisca a
cultiva-los, perde quase sempre. Evidentemente, a renda da propriedade territorial não é
tão elevada que permita a exação de pesadas contribuições locais e gerais para sustentar
numerosas instituições públicas; os proprietários terão que vender e tirar o melhor
partido possível do capital realizado, emigrando e adquirindo terras onde os encargos
sejam mais leves. Isso é o que já têm feito alguns. O resultado seguro deste processo é
que as terras de qualidade inferior ficarão sem ser cultivadas; então se generalizará a
petição feita por "mister" Arch, o qual, falando recentemente ante a Associação radical
de Brighton, e sustentando que os proprietários atuais não fazem produzir a terra quanto
o exige o bem público, disse: "Ser-me-ia agradável que o Governo fizesse votar uma lei
acerca do cultivo obrigatório"; proposição que foi aplaudida e que o seu autor justificou
com o exemplo da vacina obrigatória (mostrando assim a influência dos precedentes). E
insistir-se-á nesta petição, não somente pela necessidade de cultivar a terra, mas
também, pela de dar trabalho à população rural. Quando o Governo haja estabelecido o
costume de tomar a jornal os trabalhadores desocupados para cultivar as terras
abandonadas, ou as adquiridas a preços insignificantes, não estará distante a organização
que, no programa da Federação democrática, deve seguir a aquisição da terra pelo Estado,
ou seja "a organização de Exércitos Agrícolas e industriais sob a direção do Estado e
segundo os princípios cooperativos".
Se alguém duvida de que se pode chegar desta maneira a semelhante revolução, bastará
citar-lhe alguns fatos que demonstram a possibilidade. Nas Gallias, durante o declínio do
império Romano, "tão excessivo era o número dos que recebiam em comparação com o dos que
pagavam, tão pesada era a carga dos impostos, que o lavrador sucumbiu, os campos foram
abandonados e os bosques cresceram nos lugares antes sulcados pelo arado".
Do mesmo modo, ao aproximar-se a Revolução Francesa, haviam-se tornado tão acabrunhadores
os encargos públicos, que muitos campos quedaram sem cultivo e outros foram abandonados;
a quarta parte do solo estava absolutamente sem cultivo e em algumas provindas a metade
das terras era verdadeiros páramos. Na Inglaterra temos sido testemunha de fatos do mesmo
gênero. Sob a antiga lei dos pobres, os impostos se elevaram em algumas paróquias ao
ponto de absorver a metade das rendas, e em muitos pontos não havia quem arrendasse as
propriedades rurais. Houve um caso em que os impostos absorveram todos os produtos do
solo.
"Em 1832, em Cholesbury (Buckinghamshire), o imposto dos pobres cessou subitamente,
porque era impossível arrecadá-lo, em consequência de haverem os proprietários renunciado
às suas terras, os colonos aos seus arrendamentos e o vigário a seus benefícios e
dízimos. Este último, "mister" Jeston, refere que em outubro de 1832, os administradores
da paróquia fecharam os seus livros e que os indigentes, agrupados em frente a suas
portas desde a madrugada, pediam-lhe conselhos e alimentos. Em parte, com seus próprios
recursos, muito escassos, em parte com os socorro dos vizinhos caritativos e em parte com
a sobrecarga imposta ás paróquias próximas, pode sustenta-los durante algum tempo".
E os comissários acrescentam que o "caritativo vigário recomenda que repartam todas as
terras entre os indigentes capazes de trabalhar", esperando que depois de ajuda-los
durante dois anos possam bastar-se a si mesmos. Estes fatos, confirmando, como se diz no
Parlamento, que se a lei dos pobres houvesse durado trinta anos teriam ficado incultas
todas as terras, demonstram claramente que o aumento dos encargos públicos pode conduzir-
nos ao cultivo obrigatório sob a direção do Estado.
Falemos agora do Estado como proprietário das ferrovias; já o é em grande parte do
continente. Entre nós esse sistema foi preconizado há alguns anos. Atualmente esta
reforma, pela qual pugnam vários políticos e publicistas, tem os seus melhores defensores
na Federação democrática, que propõe "a apropriação das ferrovias pelo Estado, com
compensação ou sem ela". Evidentemente, a pressão de cima, unida á de baixo, é provável
que produza essa mudança, conforme com a política reinante, a qual será seguida por
outras muitas; porque os proprietários das ferrovias, a princípio proprietários e
exploradores de ferrovias somente, acham-se agora a frente de numerosas indústrias, que
mantêm com aquela, uma relação mais ou menos direta. O Governo, pois, se verá obrigado a
adquirir estas indústrias, ao mesmo tempo que compre as ferrovias. Encarregado já,
exclusivamente, do serviço postal e telegráfico, e a ponto de ter o monopólio dos vapores
correios, o Estado não somente transportará os passageiros, as mercadorias e os minerais,
mas, acrescentará às suas diferentes ocupações atuais, muitas outras. Atualmente, além,
de construir estabelecimentos para a marinha, quartéis, portos, docas, diques, etc.
fabrica navios, fuzis, canhões, munições, roupas e calçados para o exército; e quando
tiver tomado as ferrovias, "com compensação ou sem ela", como dizem os membros da
Federação democrática, construirá locomotivas e vagões, fabricará alcatrão e graxa e se
converterá em proprietário de navios, minas de hulha, pedreiras, ônibus, etc. Entretanto,
os seus lugares-tenentes locais, os governos municipais, encarregados já, em muitos
lugares, da distribuição da água e do gás, possuidores e exploradores dos bondes,
proprietários dos banhos, terão usurpado, sem dúvida, novas ocupações. E, quando o Estado
se ache assim, diretamente, ou por delegação, à frente de numerosos estabelecimentos
dedicados à produção e venda por grosso, haverá muitos precedentes para que estenda as
suas funções a venda a retalho, seguindo o exemplo do Governo francês, o qual, desde há
muito tempo, é vendedor de tabaco a miúdo.
É evidente, pois, que as mudanças realizadas, as que estão em vias de se realizarem e as
que se propõem, nos levarão, não só ao Estado possuidor das terras, das casas, das vias
de comunicação, tudo administrado por funcionários públicos, mas também, á usurpação pelo
Estado de todas as indústrias e, as indústrias privadas, incapazes de lutar com a
concorrência do Estado, que de tudo pode dispor segundo sua conveniência, desaparecerão
pouco a pouco, da mesma forma que desapareceram muitas escolas livres em presença das
estabelecidas sob a vigilância oficial. E assim se realizará o ideal dos socialistas.
Depois que esse ideal se haja realizado, para o qual nos levam os políticos "práticos",
de acordo com os socialistas, ideal tão tentador pelo seu lado brilhante, único que os
socialistas gostam de contemplar, qual será o lado sombrio do qual todos desviarão o
olhar? É fácil observar, frequentemente, que os homens, ao contrair matrimonio, detêm seu
pensamento de modo prazenteiro nos gozos prometidos, olvidando por completo as dores que
o acompanham. Outro exemplo desta mesma verdade no-lo oferecem os políticos energúmenos e
os revolucionários fanáticos. Comovidos pelas misérias que existem na atual organização
da sociedade, e não querendo atribui-las aos defeitos da natureza humana imperfeitamente
adaptada ao estado social, imaginam que podem ser remediadas imediatamente com este ou
outro sistema. Sem embargo, ainda quando os seus planos tivessem êxito, este levaria
consigo a substituição de um mal por outro. Uma simples reflexão nos demonstraria que com
a reorganização proposta, ver-se-iam obrigados a ir renunciando à liberdade, á medida que
fosse aumentando o bem-estar material.
Nenhuma forma de cooperação, ampla, ou restrita, pode se estabelecer sem regulamentação,
e, por consequência, sem a submissão aos agentes reguladores. Qualquer de suas próprias
organizações, dessas organizações que estão em via de realizar mudanças sociais,
proporciona a prova: não podem existir sem conselhos, sem agentes locais e gerais e sem
chefes, aos quais é preciso obedecer sob pena de confusão e falta de êxito.
A experiencia dos que têm preconizado com mais entusiasmo uma nova ordem social, sob a
paternal direção do Governo, mostra que, mesmo nas sociedades particulares, organizadas
livremente, é grande o poder da parte reguladora, quando não irresistível, até ao extremo
da parte regulamentada murmurar com frequência e negar-se a obedecer. As organizações
trabalhadoras que sustentam uma espécie de guerra industrial para defender os interesses
dos trabalhadores contra os dos patrões, descobrem que a obediência passiva é necessária
para assegurar a eficácia de sua ação, toda a vez que a divisão de pareceres pode
malograr o êxito. Mesmo nas organizações cooperativas, formadas para a fabricação ou a
venda, nas quais não é precisa esta obediência, necessária nas outras, cujo fim é o
ataque e a defesa, vê-se os agentes adquirirem tal supremacia, a ponto de aparecerem
muitos a se queixar "da tirania da Administração". Julgai, pois, o que sucederá, quando,
em lugar de associações, relativamente de poucos membros, nas quais se pode ou não entrar
à vontade, tenhamos uma associação nacional, a qual todo o cidadão deverá pertencer, e da
qual não poderá sair sem abandonar o país. Julgai o que será, em tais condições, o
despotismo de uma burocracia graduada e centralizada, dona dos recursos da comunidade, e
tendo atrás de si toda a força que creia necessária para fazer executar os seus decretos
e manter o que ela chame de ordem. Não há nada de estranho em que o príncipe de Bismark
sinta simpatia pela socialização do Estado.
Depois de haver reconhecido o imenso poder que terá a parte reguladora do novo sistema
social, pintado com tão belas cores, reconhecimento a que estão obrigados se
reflexionarem nas consequências de seus projetos, devem se perguntar, os defensores desse
poder, de que forma será exercido. Não se limitando exclusivamente, como têm por costume,
no bem-estar material e nas satisfações intelectuais que lhes deve proporcionar uma
administração benfeitora, não consideram, por um instante, a que preço hão de paga-la. Os
funcionários não podem criar os recursos indispensáveis; somente podem distribuir entre
os indivíduos, o que os próprios indivíduos hajam produzido conjuntamente. Se a
administração pública deve atender às necessidades dos indivíduos, é preciso que reclame
deles a provisão dos meios. Não pode fazer, como no atual sistema, acordo entre o patrão
e o operário: o projeto exclui esse acordo. Haverá, em troca, ordens dadas pelas
autoridades locais aos trabalhadores, e aceitação por parte destes da tarefa que lhes
seja designada. E tal é, em realidade, a organização que se indica, clara, embora, ao que
parece, inconscientemente, pelos membros da Federação democrática. Propõem, de fato, que
se encarreguem da produção "exércitos" agrícolas e industriais, sob a direção do Estado",
olvidando, aparentemente, que os exércitos pressupõem uma hierarquia de oficiais que
exigiriam a obediência, posto que, de outro modo não se poderia assegurar nem ordem, nem
trabalho eficaz. Assim, pois, o Indivíduo quedaria, ante a parte reguladora, na mesma
situação que o escravo ante seu amo.
"Porém, o Governo será um amo que ele próprio e outros terão eleito e que estará
constantemente em cheque; um amo, por conseguinte, que não regulará os seus atos, nem os
dos outros, senão quando se tornar necessário no interesse de cada um em particular e no
de todos em geral".
Minha primeira resposta a esta réplica, é que, embora sendo assim, cada membro da
comunidade, considerado como indivíduo, será o escravo da comunidade em conjunto. Uma
relação dessa classe tem existido geralmente nas comunidades militantes, mesmo sob formas
de governo quase populares. Na Grécia antiga era reconhecido o princípio de que o cidadão
não se pertencia a si mesmo, nem pertencia à sua família, mas a cidade: a cidade era,
entre os gregos, o equivalente a comunidade. E esta doutrina, própria a um estado de
guerra permanente, a ressuscitam os socialistas, sem plena consciência disso, em um
estado que deve ser puramente industrial. Os serviços de todos pertencerão ao conjunto, e
serão pagos pela autoridade como esta o julgar conveniente. Portanto, mesmo quando a
autoridade seja tão benéfica como se supõe, a escravidão, em forma mais ou menos
mitigada, será o resultado fatal dessa organização.
Eis aqui minha segunda resposta: A administração não conservará durante muito tempo o
caráter que se lhe atribui, nem a escravidão será tão fácil de suportar como se pensa. A
especulação socialista será viciada por uma hipótese semelhante à que vicia as
especulações do político "prático". Supõe-se que o funcionalismo atuará como se deseja, o
que não acontece jamais. O mecanismo do comunismo, como o mecanismo social atual, achar-
se-á constituído pelos elementos da natureza humana existente, cujos defeitos produzirão
os mesmos males neste caso como no outro. O amor ao poder, o amor próprio, a injustiça, a
deslealdade, que, com frequência, em um espaço dê tempo relativamente curto, causam a
ruína de organizações privadas, acarretarão sem dúvida alguma, onde os seus efeitos se
acumulem de geração em geração, males muito maiores e menos fáceis de remediar, posto que
a organização administrativa, vasta, complicada e provida de todos os recursos, uma vez
que se tenha desenvolvido e consolidado, far-se-á, necessariamente, irresistível. E como
prova de que o exercício periódico do direito eleitoral não impedirá esse resultado,
citemos o exemplo do Governo francês. Popular em sua origem, e submetido ao julgamento
popular muito frequentemente, fere, sem embargo, a liberdade dos cidadãos, até ao extremo
de os delegados ingleses ao congresso recente das organizações trabalhistas dizerem: "É
uma desonra para uma nação republicana e uma anomalia para uma república".
O resultado será a ressurreição do despotismo. Um exército disciplinar de funcionários
civis, da mesma forma que um exército de funcionários militares, confere o poder supremo
ao seu chefe, poder que tem conduzido, frequentemente, á usurpação, como na Europa da
idade Média, no Japão e como entre nossos vizinhos em nossa própria época. As recentes
confissões do senhor de Maupas demonstraram quão facilmente um chefe constitucional,
eleito pelo povo inteiro e depositário da confiança geral, pode, com o concurso de alguns
militares, sem escrúpulos, paralisar o corpo representativo e tornar-se dono absoluto.
Temos excelentes motivos para crer que quem quer que fosse elevado ao poder em uma
organização socialista, não recuaria de ante de nenhum meio, para chegar aos seus fins.
Quando ouvimos dizer ao Conselho da Federação democrática, que os acionistas que criaram
a rede ferroviária e contribuíram ao grande desenvolvimento presente da prosperidade
nacional, ganhando algumas vezes, porém, frequentemente perdendo, "lançaram mãos" sobre
nossas vias de comunicação, podemos inferior como interpretariam os que estivessem à
frente de uma organização socialista, os direitos dos indivíduos e das classes colocadas
sob sua autoridade. E quando, indo mais longe, os membros do mesmo Conselho afirmam que o
Estado deve tomar posse das ferrovias "com compensação ou sem ela", podemos presumir que
nenhuma consideração de equidade impediria aos chefes da sociedade ideal, tão desejada,
seguir a política, qualquer que ela fosse, que Julgassem necessária, política que sempre
estaria de acordo com sua própria supremacia. Bastaria uma guerra com qualquer sociedade
adjacente, ou que algum descontentamento interior exigisse a repressão pela força, para
que a administração socialista se transformasse, de súbito, em uma tirania humilhante
como a do antigo Peru. Sob essa administração, a massa do povo, governada por uma
hierarquia de funcionários, e vigiada em todos os seus atos públicos e privados,
trabalharia para manter o corpo organizado que exercesse o poder, e não lhe ficariam
senão os recursos precisos para arrastar uma existência miserável. E, em seguida,
reaparecia completamente, sob forma distinta, o regime de Estado, o sistema de cooperação
obrigatória, cuja tradição debilitada representa o antigo conservadorismo, e para o qual,
o novo conservadorismo nos conduz.
"Porém, estaremos prevenidos contra todos esses males; tomaremos precauções para evitar
semelhantes desastres", dirão, sem dúvida, os energúmenos. Trate-se de políticos
"práticos", com suas novas medidas regulamentadoras, ou de comunistas, com seus projetos
de reorganização do trabalho, sua resposta e sempre a mesma: “É certo que planos de
análoga natureza fracassaram por causas imprevistas ou lamentáveis acidentes, ou, em
consequência da deslealdade dos encarregados de os executar; porém, agora, aproveitar-
nos-emos das experiencias anteriores e triunfaremos". Parece impossível fazer compreender
a muitas pessoas esta verdade evidente, sem embargo: que a prosperidade de uma sociedade,
e a equidade de sua organização, dependem, essencialmente, do caráter de seus membros; e
que nenhum progresso se pode realizar sem a modificação do caráter que resulta do
exercício de uma indústria pacifica sob as restrições impostas por uma vida social bem
ordenada. Não somente os socialistas, mas, também, os que se chamam liberais, que lhes
preparam o caminho, creem que os defeitos humanos podem ser corrigidos com habilidade por
boas instituições. Isto é uma ilusão. Qualquer que seja a estrutura social, a natureza
defeituosa dos cidadãos manifestar-se-á nos maus efeitos que produza. Não há alquimia
política com cuja ajuda se possa transformar instintos de chumbo em conduta de ouro.
(Os socialistas publicaram duas respostas ao presente artigo: Socialismo e Escravidão,
por H. M. Hyndmàn e Herbert Spencer e o Socialismo, por Frank Fairman , Devo limitar-me a
dizer aqui, que ambos os autores me atribuem, segundo o costume dos adversários, opiniões
que não professo. Do fato de não estar de acordo com o socialismo, não se segue,
necessariamente, como pretende M. Hyridman, que aprove a organização atual. Muitas coisas
que ele condena, condeno-as eu também; porém, não admito o seu remédio. A pessoa que
assigna com o pseudônimo de "Frank Fairman", censura-me por não ter as mesmas opiniões
que quando escrevi, em Estática Social, uma simpática defesa das classes trabalhadoras.
Não tenho consciência dessa mudança. A indulgencia para com os que arrastam uma vida
dura, não implica, de modo algum, na tolerância para com os folgazões)

OS PECADOS DOS LEGISLADORES

Seja, ou não, certo que o homem é composto de iniquidades e concebido no pecado, é


indubitável que o governo nasceu da agressão e pela agressão foi engendrado. Nas pequenas
sociedades primitivas, onde reinou durante séculos uma paz completa, nada existe
semelhante ao que nós chamamos de Governo; não há nelas nenhuma organização coercitiva:
somente existe, e nem, sempre, uma supremacia honorária. Nessas comunidades excepcionais,
que não são agressivas, e que, por causas sapienciais, não estão expostas a nenhuma
agressão, a veracidade, a honradez, a justiça e a generosidade são praticadas de modo tão
completo, que é bastante poder a opinião pública, de vez em quando, manifestar-se numa
assembleia de anciãos convocada a intervalos irregulares. Em troca, temos provas de que a
autoridade de alguns chefes, reconhecida em princípio temporário durante a guerra,
estabelece-se de uma forma permanente se o estado de guerra se prolonga, e se fortalece,
se qualquer agressão afortunada termina submetendo as tribos vizinhas. Mais tarde,
exemplos fornecidos por todas as raças põem fora de dúvida esta verdade: é que o poder do
chefe convertido em rei e em rei de reis (título frequente no Oriente antigo), aumenta, à
medida que estende as suas conquistas, e reúne sob seu cetro maior número de nações. As
comparações nos revelam outra verdade, que sempre deveríamos ter presente: que o poder
direto se faz tanto mais agressivo no interior de uma sociedade, quanto mais agressivo se
mostra no exterior. Da mesma forma que, para formar um bom exército, é preciso que os
soldados, nos seus diferentes graus, obedeçam ao que os comanda, assim, para formar uma
comunidade guerreira poderosa é necessário que os cidadãos obedeçam ao poder dirigente,
subministrando-lhe o número de homens que exija e entregando-lhe todas as propriedades
que reclamar.
A consequência evidente de tudo isto é que a moral governamental, originariamente
idêntica à dos costumes da guerra, deve, durante muito tempo, assemelhar-se aqueles e não
pode desviar-se senão à medida que as atividades e os preparativos guerreiros diminuem.
Temos provas constantes disso. Agora mesmo, no continente, o cidadão só é livre quando
não serve no exército, e durante o resto de sua vida não são poucas as fadigas que sofre
para manter e sustentar a organização militar. Mesmo entre nós uma guerra formal, impondo
o recrutamento necessário, suspenderia a liberdade de grande número de cidadãos e
diminuiria a dos demais, aos quais se fariam pagar em forma de contribuições, os recursos
precisos, isto é, aos que se veriam obrigados a trabalhar certo número de dias para o
Estado. Inevitavelmente, o código da conduta do Governo em suas relações com os cidadãos,
modela-se no da conduta deste entre si.
Não falarei neste artigo, nem das violações do direito, nem das represálias exercidas: a
maior parte da História é composta de relatos desses fatos. Tampouco quero recordar as
iniquidades interiores que têm acompanhado as exteriores. Não tenho a intenção de
catalogar aqui os crimes dos legisladores irresponsáveis, começando pelos do rei Khufu,
cuja vasta tumba foi construída com o suor de sangue de milhares e milhares de escravos,
que trabalharam sob o látego durante muitos anos, continuando com os dos conquistadores
egípcios, assírios, persas, romanos, macedônios, etc. e concluindo com os de Napoleão,
que, para satisfazer sua ambição de ver o mundo civilizado prosternado a seus pés, fez
perecer mais de dois milhões de homens. Não me proponho, finalmente, enumerar os pecados
dos legisladores responsáveis, inscritos na larga lista de leis ditadas nos interesses
das classes dominantes. Em nosso país essa lista começa nas leis que mantiveram longo
tempo a escravidão e o comércio de escravos, mergulhando na tortura uns quarenta mil
negros por ano, amontoando-os nos porões dos navios durante a travessia sob os trópicos,
o que dava causa a que perecessem muitos deles, e termina com as leis dos cereais, que,
segundo sir Erskine May, "para elevar o preço dos arrendamentos, ordenaram a uma multidão
inumerável que padecesse fome".
Indubitavelmente, não seria inútil a enumeração dos crimes mais importantes dos
legisladores responsáveis e irresponsáveis. Serviria para muitos fins. Mostraria
claramente como a identidade da moral governamental e os costumes da guerra, que existe
necessariamente nos tempos primitivos, quando o exército não é mais do que a sociedade
mobilizada e a sociedade o exército em repouso, se mantem durante largos períodos e
exerce atualmente grande influência em nossos procedimentos judiciais e em nossa vida
quotidiana. Depois de haver mostrado, por exemplo, que em numerosas tribos selvagens a
função judicial do chefe não existe, ou é nominal e que, geralmente, durante as primeiras
épocas da civilização europeia, o indivíduo devia defender-se a si mesmo e fazer valer os
seus direitos do melhor modo que pudesse; depois de haver mostrado que na idade Média
aboliu-se o direito à guerra privada entre os membros da ordem militante, não porque o
chefe supremo acreditasse de seu dever submeter os litígios a uma arbitragem, mas, porque
as guerras privadas diminuíam a força de seu exército nas guerras públicas; depois de
haver mostrado que, mais adiante, a administração da justiça manifestava ainda um caráter
primitivo nos combates judiciais, sustentados em presença do rei, ou de um seu
representante na qualidade de árbitro - combates mantidos até 1819 sob a forma de duelos
- poderíamos fazer ver que todavia subsiste o combate judicial sob outra forma, sendo
campeões os advogados, e as armas o dinheiro. Nos pleitos civis, o Governo não se
preocupa muito mais do que antes, com o fato de ser feita justiça a parte lesada; na
pratica o seu representante atende somente a que se observem as regras do combate, em
cujo resultado influi menos a equidade da causa, do que uma bolsa bem recheada, ou a
habilidade dum advogado. Ademais, o Governo interessa-se tão pouco pela administração da
justiça, que, se em um combate legal celebrado em presença de seu representante, as
bolsas dos combatentes se esgotam, e é reformada a sentença, em resultado da apelação
interposta por um deles, o que sucumbe é obrigado a pagar os erros do representante
atual, ou de seu predecessor. Mui frequentemente, pois, o indivíduo prejudicado, que
solicitava proteção, ou restituição, morre pecuniariamente ao terminar o pleito.
Um estudo completo dos delitos do Governo, tanto em seus atos como em suas omissões, ao
demonstrar que uma parte do código moral ainda em vigor remonta-se e se identifica com o
estado de guerra, desvaneceria, quiçá, as esperanças dos que trabalham para estender a
direção governamental. Depois de haver observado que não somente os caráteres, mas,
também os princípios da estrutura política primitiva, produzida pelo militarismo crônico,
subsistem, acaso o reformador e o filosofo contariam com menores bens da intervenção, em
tudo, do Governo, e quiçá, se inclinariam a ter mais confiança nas organizações não
governamentais.
Mas, prescindindo da maior parte das vastas questões compreendidas sob o título deste
artigo, ocupar-me-ei somente dos pecados dos legisladores, que não são frutos de sua
ambição ou do interesse de classe, mas, que provêm da negligencia em se preparar para o
cumprimento de sua missão, por estudos a que estão moralmente obrigados.
Suponhamos que um aluno de farmácia, depois de haver ouvido a descrição de certas dores,
que, equivocamente, atribui a um cólica, porém, que, na realidade, são motivadas por uma
inflamação do "cécum", prescreve um purgante enérgico e mata o enfermo; ele será
declarado culpado de homicídio por imprudência. Não se admitirá a escusa de que a sua
intenção era boa e que esperava fazer um bem. Não poderá justificar-se dizendo que tudo
foi um simples erro de diagnostico: Responder-se-lhe-á que não tinha direito de expor a
vida do enfermo, pondo-se a exercer uma profissão sem conhecimentos suficientes para
isso. Não poderá alegar que ele próprio não sabia quão grande era a sua ignorância. A
experiencia, comum a todos, deveria ter-lhe ensinado que mesmo os que estudaram medicina,
e com mais razão os que não a estudaram, cometem erros nos diagnósticos das enfermidades
e nos remédios que prescrevem: deixando de atender a advertência dada por esta
experiencia comum, tornou-se responsável pelas consequências.
As responsabilidades em que incorrem os legisladores, pelos males que podem causar, são
julgadas com demasiada indulgencia. Na maior parte dos casos, longe de imaginar que
merecem castigo pelos males que acarretam com leis ditadas por ignorância, apenas os
acreditamos dignos de censura. Admite-se que a experiencia comum deveria ter ensinado o
aluno de farmácia, pouco instruído, a não fazer ingerir um medicamento; porém, não se
admite que a mesma experiencia deveria ter ensinado ao legislador a não se pôr a legislar
sem estar convenientemente instruído. Embora grande número de fatos, tomados das leis de
seu próprio país, e das de outros, devessem ter-lhe demonstrado os imensos danos causados
pela má legislação, quase que se não o condena por ter descuidado essas advertências
contra ingerências demasiado prematuras. Ao contrário, considera-se como um ato meritório
seu, que, talvez, recém-saído do colégio, ou possuidor de uma coleção de cães que o
tornaram celebre no condado, ou recém-vindo de uma cidade provinciana, onde adquiriu
solida fortuna, ou saído da tribuna forense, onde obteve algum renome, entre no
Parlamento e comece imediatamente a facilitar, ou a impedir, com animo ligeiro, tal ou
qual intento do corpo político. Em semelhante caso não é necessário alegar por ele a
escusa "de que não sabe quão ignorante é", porque o público em geral pensa, como ele, que
é inútil saber das medidas que se discutem qualquer causa a mais do que sobre elas os
debates lhe ensinem.
Sem embargo, basta deitar um olhar a história das legislações, para ver que os males
causados pelos legisladores ignorantes são mais numerosos que os ocasionados pelos que,
sem instrução adequada, não vacilam em administrar medicamentos. O leitor me perdoará se
lhe recordar alguns exemplos familiares. Um século após outro, os homens de Estado têm
continuado a promulgar leis contra a usura, que não têm tido outra consequência que a de
piorar a situação do devedor, fazendo com que se elevasse a taxa de juros "de cinco a
seis, quando queriam reduzi-la a quatro, como sob Luiz XV", e originando indiretamente
muitos males imprevistos, ao impedir o emprego dó capital disponível e ao "impor aos
pequenos proprietários uma enormidade de encargos perpétuas". Do mesmo modo, as medidas
tomadas na Inglaterra, durante quinhentos anos, para impedir o açambarcamento, e as que
em França chegaram a proibir, segundo Artur Young, "que se comprasse no mercado mais de
duas medidas de trigo", aumentaram durante várias gerações a miséria e a mortalidade,
resultantes da carestia. Como todo o mundo sabe, a função do negociante de atacado, ao
qual se chama no estatuto "De Pistoribus" "opressor público do pobre povo", consiste
simplesmente em equilibrar o aprovisionamento do mercado, evitando um consumo demasiado
rápido. Da mesma natureza foi a medida que em 1815, para minorar a fome, prescrevia o
preço dos alimentos, a qual teve de ser revogada rapidamente, em vista de causar o
desaparecimento de certos artigos do mercado. Ao mesmo princípio obedecem às medidas
aplicadas durante maior espaço de tempo, como, por exemplo, as que autorizavam os
magistrados a marcar os "benefícios razoáveis" dos vendedores de comestíveis. As
tentativas feitas para fixar o salário, tinham o mesmo fundamento e foram seguidas dos
mesmos efeitos desastrosos. Começaram com o estatuto dos trabalhadores sob Eduardo III, e
não terminaram até há sessenta anos, quando os lords e os comuns, convencendo-se de que
seus únicos resultados eram galvanizar uma indústria em decadência, no bairro de
Spitafields, e sustentar ali uma população miserável, renunciaram a fazer marcar por um
magistrado o salário de um tecedor de seda.
Aqui, interromper-se-me-á, sem dúvida alguma, com impaciência: "Já sabemos de tudo isso;
a história é antiga: já nos foi repetido até a saciedade os males causadas pelas
ingerências na indústria e no comércio, e não é necessário que nos seja dada novamente
essa lição". Minha primeira resposta é que a lição não foi jamais devidamente estudada
pela maioria e que a esqueceram muitos dos que a aprenderam, pois, os pretextos que
atualmente se invocam, para ditar prescrições parecidas, são os mesmos que se invocavam
noutro tempo. No estatuto 35 de Eduardo III, cujo fim era impedir que subisse o preço dos
arenques - estatuto que se derrogou em seguida, porque seu resultado foi aumentar o
referido preço - queixa-se o legislador do povo, "acudindo ao mercado ... disputam o
arenque e cada comprador, por malícia ou por inveja, passa sobre o outro; se um oferece
quarenta, o outro aumenta dez, e um terceiro dá sessenta, assim, a oferta de cada um
excede a do anterior". Pois bem; a "disputa no mercado", condenada aqui e atribuída “á
malicia ou a inveja", torna-se a condenar em nossos dias. Os males da concorrência têm
sido sempre uma das queixas fundamentais dos socialistas, e o Conselho da Federação
democrática denuncia as trocas efetuadas sob "a direção da avidez e da capacidade
"individuais". Minha segunda resposta é que o Parlamento estende constantemente a novos
domínios da lei da oferta e, da procura sua intervenção, julgada desastrosa pelas
gerações precedentes, que aumenta nesses domínios os males que pretende curar, como
provarei depois, e que origina outros novos, como os originava antigamente nos domínios
em que intervinha.
Fechando este parêntesis, continuo minha demonstração de que os legisladores ignorantes
dos tempos passados aumentaram constantemente as misérias da humanidade, esforçando-se
por diminui-las, e, dirigindo-me ao leitor, dir-lhe-ei: multiplique as leis que acabo de
citar e os males que têm causado, por dez, ou outro número mais elevado, e poderá formar
uma ideia da soma de calamidades ocasionadas pela legislação feita com ignorância da
ciência social. Em um trabalho lido na Sociedade de Estatística, em maio de 1873,
"mister" Janson, vice-presidente da Sociedade de Legislação, provou que desde o estatuto
de Merton (20, Henrique III) até fins de 1872, haviam-se votado dezoito mil cento é dez
medidas legislativas, das quais se aboliram, total, ou parcialmente, as quatro quintas
partes. Também demonstrou que o número de disposições anuladas, em todo, ou em parte, ou
modificadas durante os três anos, 1870, 1871 e 1872, havia sido de três mil e quinhentas
e trinta e duas, das quais foram completamente revogadas duas mil e setecentas e
cinquenta e nove. Para ver se as derrogações continuavam na mesma proporção, consultei os
volumes que contêm os estatutos públicos gerais das três últimas legislaturas. Deixando
de parte as numerosas proposições parlamentares modificadas, vi que durante essas três
legislaturas foram derrogadas, separadamente, ou em grupo, seiscentas e cinquenta leis,
"correspondentes ao atual reinado" ou aos anteriores. Este número excede, naturalmente,
ao termo médio ordinário, pois, nestes últimos tempos, tem-se expurgado consideravelmente
a "Compilação legislativa".
Mas, tendo em conta todas essas circunstancias, forçoso é reconhecer que, em nossos dias,
as revogações sobem a vários milhares. Indubitavelmente, algumas leis foram abolidas
porque caíram em desuso; outras, em consequência da mudança de circunstancias (o número
destas não deve ser muito elevado, dada a curta data de muitas das abolidas); outras,
simplesmente, porque eram inúteis, e outras, enfim, por terem sido fundidas em uma só.
Porém, é evidente que, na maior parte dos casos, as leis foram derrogadas porque
produziam maus efeitos.
Correntemente, falamos com excessiva ligeireza de semelhantes mudanças; pensamos com
indiferença nas medidas legislativas anuladas. Olvidamos que as leis, antes de serem
abolidas, causaram, geralmente, males mais ou menos graves: umas, durante pouco tempo,
outras, durante dezenas de anos, outras, durante séculos. Trocai vossa ideia vaga de uma
lei má, por uma ideia definida; considerai-a como causa que atua sobre a vida dos povos,
e vereis que significa muitas dores, muitas enfermidades e muitos falecimentos. Uma forma
viciosa de procedimento judicial, esteja prescrita, ou se tolere, ocasiona aos
litigantes, gastos, dilações, talvez, a perda da causa por aquele que a deveria ganhar.
De tudo isto resulta inútil emprego de dinheiro que, talvez, fosse necessário para outras
coisas; grande e prolongada ansiedade, frequentemente seguida de enfermidades; a miséria
de uma família; a impossibilidade de oferecer aos filhos o alimento e os vestidos
precisos; em uma palavra, desgraças que se encadeiam umas ás outras. Pensas também no
grande número de pessoas que, carecendo de meios, ou de valor para iniciar um pleito,
resignam-se a fraude, empobrecem e sofrem, física e moralmente, em consequência do dano
experimentado. Só pelo fato de uma lei ter sido um obstáculo, compreende-se que tem
causado perdas de tempo desnecessárias, aborrecimentos e incômodos: e para as pessoas já
sobrecarregadas de aborrecimentos, esse aumento implica uma saúde debilitada, com seu
cortejo de sofrimentos diretos e indiretos. Vendo, pois, que legislação má é sinônimo de
ataque dirigido a vida dos homens, julgai que soma de angustias morais, de dores físicas,
de mortes, representam esses milhares de leis revezadas. Para demonstrar por completo que
o legislador que não possui conhecimentos suficientes ocasiona males imensos, permiti-me
citar um caso especial, trazido à minha memória por uma questão do dia.
Já disse que as tentativas para mudar a relação entre a oferta e a procura, ás quais foi
preciso renunciar em certos domínios econômicos, visto as calamidades que ocasionavam,
têm lugar agora em outros domínios. Supõe-se que a lei é certa unicamente onde sua
omissão causou males: tão fraca é a crença dos homens em sua exatidão. Não se quer
compreender, de modo nenhum, embora não pareça, que a marcha natural das coisas foi
interrompida por obstáculos artificiais. Sem embargo, no caso que vou referir - o da
construção de vivendas para os pobres - basta perguntar-se qual é, desde muito tempo, a
ação das leis, para provar que os males terríveis que se deploram, são, em sua maior
parte, produto delas,
A geração precedente sustentou uma polemica a propósito da insuficiência e salubridade
das habitações operarias, e eu tive ocasião de ocupar-me do assunto. Eis aqui um extrato
do que escrevi então:
"Um arquiteto, que é também inspetor, diz que a lei de construção produz os efeitos
seguintes: nos bairros de Londres onde há casas em ruinas, construídas do modo pouco
solido que a lei quer evitar, estas produzem a seus proprietários um termo médio de renda
suficientemente remunerativo. Este termo médio determina o aluguel que se pode exigir
nesses bairros pelas casas novas que tenham as mesmas disposições, isto é, o mesmo número
de cômodos, pois, as pessoas para as quais se constroem não apreciam a segurança que
oferecem as paredes consolidadas por barras de ferro. Pois, bem; a experiencia demonstra
que as casas construídas de acordo com os regulamentos atuais, e alugadas ao preço assim
estabelecido, não produzem renda razoável. Os construtores, pois, limitaram-se a edificar
em melhores distritos (onde a possibilidade da concorrência com as casas preexistentes
demonstra que estas eram bastante cômodas), deixando de construir para as massas, desde
que não seja nos bairros em que as condições de salubridade reclamem mudanças urgentes.
Entretanto, nos distritos pobres, aglomeraram-se os habitantes, vivendo meia dúzia de
famílias em cada casa, e mesmo vinte indivíduos em cada cômodo. Porém, ainda há mais.
Esse triste estado de ruinas ao qual se permite chegar as casas dos pobres, deve-se à
falta de concorrência, posto que não se constroem casas novas. Seus proprietários sabem
que os inquilinos não as abandonarão em busca de outras melhores. As reparações, desde
que não sejam necessárias para assegurar melhores lucros, não se fazem ...
Verdadeiramente, a maior parte dos horrores que nossos agitadores em matéria sanitária
tratam de remediar por meio das leis, devemo-los aos agitadores anteriores da mesma
escola". ("Estatística Social", pag. 384, edição de 1851).
Não são estes os únicos males causados pela legislação. A seguinte passagem demonstra que
outros existem também:
"Em um artigo do "Construtor", antes de que fosse derrogado o imposto sobre as telhas,
lemos: "Supõe-se que a quarta parte do custo de uma habitação que se aluga por dois
shilings e seis dinheiros, ou três shilings por semana, é imputável aos gastos do
contrato e ao imposto sobre a madeira e os ladrilhos empregados na construção.
Naturalmente, o proprietário quer reembolsar-se desses gastos e cobra sete "dinheiros" e
meio, ou nove, a mais.
"Mister" C. Gatliff, secretário da sociedade para o melhoramento das vivendas operarias,
diz, descrevendo os efeitos do imposto sobre as janelas: "Nossa Sociedade paga agora em
S. Pancrácio, pelo imposto sobre as janelas, cento e sessenta e duas libras e dezesseis
shilings, ou seja, um por cento do capital primitivo. O termo médio dos alugueis pagos
pelos inquilinos da Sociedade é de cinco shilings e seis dinheiros por semana; o referido
imposto absorve, pois, semanalmente, sete "dinheiros" e um quarto". ("Times", 31 de
janeiro de 1850) - "Estatística Social"; pag. 385, edição de 1851).
As publicações dessa época nos oferecem outros testemunhos. O "Times", de 7 de dezembro
de 1850, publicou uma carta datada no "Reform Club" e assinada por "Arquiteto", na qual
lemos os parágrafos seguintes:
"Lord Kinnaird recomenda, em vosso número de ontem, a construção de casas modelo, nas
quais se reúnam duas ou três em uma só.
Permiti-me sugerir- a S; S. e a seu amigo lord Ashley, em quem se apoia, que: 1º, Se o
imposto sobre as janelas fosse abolido; 2º, Se a lei de construções se derrogasse (exceto
os artigos que ordenam que as paredes, tanto exteriores, como interiores, sejam à prova
de fogo); 3º, Se os direitos sobre a madeira: empregada nos edifícios fossem igualados,
ou abolidos; e 4º, Se se votasse uma lei para facilitar o trespasse de propriedades; não
haveria razões para construir casas modelo, como não as ha para se construir navios
modelo, fiações modelo, ou maquinas a vapor modelo.
O imposto sobre as janelas limita o número das mesmas, nas casas dos pobres; a sete. A
lei de construção limita a superfície dessas mesmas casas a vinte e cinco pés por dezoito
(aproximadamente as dimensões de uma sala de jantar normal) e em tal espaço deve o
construtor colocar a escada, uma entrada, uma sala e uma cozinha, além dos muro e
paredes.
Os direitos sobre a madeira obrigam o construtor a empregar nas sobreditas casas, as de
piores qualidades, pois, o imposto sobre a boa (Riga) é quinze vezes maior que sobre a má
(Canadá). O Governo exclui esta última de todos os seus contratos.
A lei facilitando o trespasse da propriedade daria lugar a grandes modificações no
miserável estado atual das casas dos pobres. A venda de pequenos terrenos livres seria
tão fácil como o seu arrenda-
mento. Frequentemente, só se tem construído mal, porque se constroem sobre terreno que
não é próprio".
Para não incorrer em erro, nem em exageração, consultei "mister" C. Forrest, contratador
com quarenta anos de experiencias e grande construtor nos bairros pobres. Como membro do
Conselho de construções e do Comité de beneficência, reúne ao conhecimento dos assuntos
públicos locais, seus vastos conhecimentos em tudo o que concerne a construções. "Mister"
Forrest, que me autorizou a citar seu nome, confirma os assertos precedentes, à excepção
de um só, que, a seu juízo, não chega a exprimir toda a verdade. Diz que "Arquiteto"
atenua o mal causado por "uma casa de quarta classe", posto que as dimensões desta são
muito menores que as que ele explica, talvez, de conformidade com uma lei de construções
mais recente. "Mister" Forrest vai mais longe. Além de mostrar os maus efeitos do
considerável aumento das contribuições sobre a prosperidade urbana - em sessenta anos
elevaram-se de uma a oito libras e dez shilings para casas de quarta classe - o qual,
reunido a outras causas, o havia feito renunciar ao projeto que tinha de construir
vivendas para trabalhadores; ademais de estar de acordo com "Arquiteto" em que este mal
se agravou pelas dificuldades do trespasse da propriedade dos terrenos, resultantes do
sistema de fideicomissários e substituições estabelecido pelas leis, faz ressaltar que o
desenvolvimento dos encargos locais - que chama de impostos proibitivos - cria outro
obstáculo à construção de casas de pequenas dimensões. Um de seus argumentos é que, ao
preço de custo de cada casa nova, há que juntar os impostos para sustentar o calçamento e
o serviço de esgotos, contribuições reguladas pela longitude das fachadas, e que, por
conseguinte, pesam mais sobre as casas de pouco fundo, que sobre as de grande
profundidade.
Destes males produzidos pela legislação, que eram já grandes na época da geração
anterior, e que aumentaram depois, passemos aos mais recentes que derivam da mesma causa.
Havendo aumentado constantemente, em proporções escandalosas a miséria, as enfermidades e
a mortalidade nos casinholos, como consequência dos obstáculos impostos a construção de
casas de quarta classe e do amontoamento das famílias nas existentes, se reclamou do
Governo o remédio a esses males, o qual respondeu com a lei das vivendas para obreiros,
que dão às autoridades locais o direito de derrubar as casas ruinosas e construir outras
mais confortáveis. Qual foi o resultado? Um resumo das operações da Repartição
Metropolitana de Obras Públicas, datado de 21 de dezembro de 1883, mostra que, até ao mês
de setembro anterior, aquele departamento, aumentando a contribuição em um milhão e um
quarto, arrojou de suas moradas vinte mil pessoas e construiu casas para doze mil.
Futuramente se proverá ao alojamento das oito mil restantes, que, entretanto, acham-se
sem abrigo. Isto não é tudo. Outra representação local do Governo, a Comissão do serviço
de esgotos da cidade, trabalhando no mesmo sentido, derrubou, a mandado legal, em Golden
Lane e Peticoat Square, grande número de pequenas casas denunciadas, nas quais viviam mil
e setecentos e trinta e quatro infelizes; e do terreno assim despejado, há cinco anos, a
metade foi vendida como medida de ordem pública, para a construção de uma estação
ferroviária, e na outra metade começa-se a levantar agora casas para trabalhadores, nas
quais somente caberão dois quartos da população expulsa. Se às pessoas que deixou sem
abrigo a Repartição Metropolitana de Obras Públicas, juntarmos estas mil e setecentos e
trinta e quatro, teremos que ha, aproximadamente, dez mil indivíduos que foram privados
de seus alojamentos e obrigados a procurar albergue nas miseráveis construções já
repletas.
Vede, pois, o que os legisladores têm feito. Pela má disposição do imposto, ao elevar o
preço dos ladrilhos e da madeira, aumentaram os gastos de construção e obrigaram, por
razões de economia, a empregar péssimos materiais e ainda em quantidade insuficiente.
Para impedir o efeito dessas medidas sobre as vivendas; estabeleceram, á maneira da idade
Média, regulamentos que prescreviam a qualidade da mercadoria proibida, não considerando
que, exigindo uma qualidade superior, e aumentando, por conseguinte o preço de custo,
limitariam a procura e diminuiriam a oferta no futuro. Criando encargos locais, opuseram,
recentemente, novos obstáculos à construção de casas pequenas. Por último, depois de
terem obrigado mediante sucessivas medidas, a construção de casas em más condições, e
motivado a falta de outras mais confortáveis, remediaram o amontoamento das pessoas
pobres, reduzindo o espaço que já não as podia comportar.
Para que, pois, lamentar-se das misérias nos bairros pobres? Contra quem deveriam se
elevar os gritos dolorosos dos "proscritos" de Londres?
O antropólogo alemão Bastian, diz-nos que se um natural da Guiné adoece e desmente o
feiticeiro não se curando, é estrangulado; isto nos autoriza a supor que entre os
habitantes daquele país, qualquer que tenha audácia bastante para pôr em dúvida o poder
do fetiche, será imediatamente sacrificado. Na época em que a autoridade governamental
era sustentada por medidas severas, havia um perigo análogo em se falar com irreverencia
do fetiche político. Em nossos dias o perigo maior a que está exposto quem ponha em
dúvida a onipotência desse fetiche, é o de ser tratado de "reacionário", que fala do
"laissez faire". Não é possível fazer com que diminua a fé estabelecida, com a ajuda dos
fatos compilados, porque diariamente vemos que essa fé desafia todos os testemunhos
contrários. Examinemos alguns destes numerosos testemunhos, aos quais não se prestou
nenhuma atenção.
"Um departamento do Governo parece um filtro invertido; enviai-lhe as contas bem claras,
e elas ficarão embrulhadas". Tal foi a comparação feita em minha presença, há muitos
anos, pelo falecido sir Carlos Fox, que tinha grande experiencia em assuntos
administrativos. Se essa comparação pertence a ele somente, sua opinião é comum a muitas
pessoas, como todo o mundo o sabe. Os escândalos divulgados pela imprensa e as críticas
feitas no Parlamento, não permitem a ninguém ignorar os vícios da rotina oficial. Sua
lentidão, do que nos queixamos continuamente, e que chegava, no tempo de "mister" Fox
Maule, "até a resolver alguns assuntos com dois anos de atraso", manifestou-se
recentemente com a publicação do censo geral de 1881, mais de dois anos depois de ter
sido feito o recenseamento. Se procurarmos a explicação dessa lentidão, veremos que
provem de uma confusão apenas concebível. Com referência aos estados do censo, o diretor
geral do Registro diz "que a dificuldade não reside somente no grande número das diversas
circunscrições a que é preciso atender, mas, também, e de modo notável, na divisão
inextricável dos limites de cada uma". Ha, de fato, trinta e nove mil circunscrições
administrativas de vinte e duas classes diferentes, que se cruzam e entrecruzam: cantões,
paróquias, municípios, bairros, juizados de paz, províncias, distritos sanitários,
urbanos, rurais, dioceses, etc. E, como diz "mister" Ratbone, estas numerosas classes de
circunscrições superpostas, com seus limites entrecruzados, têm seus diferentes corpos
administrativos, cujos poderes se estendem aos distritos vizinhos. Alguém perguntará:
"Porque o Parlamento estabeleceu uma nova série de divisões para cada nova
administração?" A única resposta natural que ocorre, é que quis ser logico em seu método.
Esta confusão organizada corresponde por completo a confusão organizada que o Parlamento
aumenta cada ano, acrescentando ao grande número de antigas medidas legislativas certo
número de medidas novas, cujas disposições contradizem e mudam de mil maneiras as
prescrições das leis ás quais se juntam; o cuidado de determinar o que é a lei, fica a
cargo dos particulares, que perdem sua fortuna para obter uma interpretação dos juízes.
Por outro lado, este sistema de entrecruzar uma rede de distritos com outra, está de
acordo com o método segundo o qual o interessado na lei de 1872, referente à higiene
pública, desejando saber os deveres que lhe são impostos, vê-se remetido a vinte e seis
leis precedentes de distintas categorias e promulgadas em datas muito diversas. Outro
tanto demonstram a resistência do funcionalismo ao progresso: Assim é o do Almirantado
que, quando se lhe propôs o emprego do telégrafo elétrico, respondeu: "Temos um excelente
sistema de sinais semafóricos"; ou o da Administração dos Correios, que, como disse há
muitos anos o falecido sir Carlos Siemens, pôs obstáculos a adoção de métodos
aperfeiçoados de telegrafia, e entorpeceu depois o uso do telefone. Outros casos análogos
ao das casas operarias demonstram, de vez em quando, como o Estado aumenta com uma das
mãos os males que com a outra quer diminuir. Por exemplo, impõe um direito sobre os
seguros contra incêndios e estabelece, regulamentos para facilitar a extinção do fogo, ou
prescreve certas formas de construção que, como o capitão Shaw prova, produzem aumento do
perigo. Por outro lado, o absurdo da rotina oficial, que se mostra rígida onde deveria
ser flexível, e flexível onde deveria mostrar-se rígida, resulta às vezes tão claramente,
que degenera em escandalosa. Assim vemos que chega a se tornar público um documento
oficial secreto de grande importância, depois de chegar ás mãos de um escriturário mal
retribuído, que nem sequer era empregado permanente do Governo; ou que se oculta aos
nossos oficiais superiores de artilharia o modo de fundir segundo o método Morson, indo
estes aprende-lo dos russos, aos quais se havia permitido conhece-lo; ou que um diagrama
demonstrativo das distâncias em que os couraçados podem ser perfurados pelos nossos
grandes canhões, é comunicado por um "adido" atrevido ao seu próprio Governo, e conhecido
em seguida, "por todos os Governos da Europa", ao passo que os nossos oficiais nada sabem
ainda. O mesmo ocorre com a inspeção administrativa. Porém, não se aproveitam semelhantes
lições. Mesmo nos casos em que a inutilidade da inspeção salta aos olhos, passa
inadvertida, como quando ruiu a ponte de Tal, lançando ás aguas um trem cheio de
passageiros. De todas as partes elevaram-se gritos contra o engenheiro, o construtor,
etc.; porém, ninguém falou ou, se se falou, foi muito pouco, da repartição que havia dado
a ponte a aprovação oficial. Igualmente acontece com as medidas preventivas contra as
enfermidades. Não se reflete que, sob a direção e, por conseguinte, sob as prescrições
dos agentes do Estado, produzem-se grandes calamidades; recordemos, por exemplo, as
oitenta e sete mulheres e filhos de soldados que pereceram a bordo do vapor "Acrington";
ou a febre tifoide e a difteria que foram propagadas por um sistema oficial de esgotos em
Edimburgo; ou as medidas sanitárias ordenadas pelo Estado e sempre mal aplicadas, que
aumentam os males que se propõem diminuir.
Inúmeras provas desse gênero não quebrantam a confiança com que se invoca a inspeção
sanitária. Invoca-se hoje mais do que nunca, como o demonstra a sugestão recente de que
todas as escolas públicas deveriam estar sob a vigilância de médicos nomeados pelo
Governo. Ademais, mesmo quando o Estado tenha sido a causa manifesta do mal que se
lamenta, não diminui a fé em sua intervenção benfeitora, como se vê pelo fato de,
havendo, há uns oitenta anos, dado autorização, ou melhor, ordenado aos municípios o
estabelecimento de sistemas de esgotos que desaguassem nos rios, o que originou a
infecção das fontes, o grito geral se levantou contra a companhia de aguas, reclamando a
sua impureza. Os gritos não cessaram, até que os municípios se viram obrigados a
transformar completamente, à custa de despesas enormes, seu sistema de esgotos. E agora,
como único remédio, pede-se que o Estado administre todo o assunto, valendo-se de seus
mandatários locais. Neste caso, como no das casas para operários, os delitos do Estado
dão motivo a que se cometam outras mais.
Verdadeiramente, a submissão a legislatura é, de certo modo, menos escusável que a do
fetiche, a qual a tenho comparado. Os selvagens podem alegar que seu fetiche não fala,
que não confessa sua impotência. Porém, o homem civilizado persiste em atribuir ao ídolo,
obra de suas próprias mãos, poderes que o próprio ídolo, de uma maneira ou de outra,
reconhece não possuir. Não quero dizer somente que os debates parlamentares nos revelam,
cada dia, a existência de medidas legislativas que causaram males em lugar de bens, nem
que milhares de leis, derrogando outras anteriores, são, pelo menos, declaração tácita da
falta de êxito destas últimas. Tampouco me refuto ás confissões quase oficiais, como, por
exemplo, a contida nos informes dos "Comissionados para a lei dos pobres", os quais se
expressam assim: "Apenas encontramos um estatuto referente, a administração da
beneficência pública, que produziu os efeitos visados pela legislatura; pelo contrário, a
maior parte deles deram origem a novos males e agravaram os que tinham o propósito de
impedir". Refiro-me, antes de tudo, a certas confissões de homens de Estado e de
administrações públicas. Por exemplo, em um memorial dirigido a "mister" Gladstone e
adotado em uma reunião de personagens muito influentes, celebrada sob a presidência do
falecido lord Lytelton, se lê:
"Os abaixo assignados, membros da Câmara dos Lords e da Câmara dos Comuns, e vizinhos da
capital, reconhecendo plenamente a exatidão e gravidade de vossa afirmação, feita na
Câmara dos Comuns, em 1886, de que todas as nossas disposições legislativas concernentes
a obras públicas são lamentáveis, e que em todas se nota, ao mesmo tempo, indecisão,
incerteza, gastos exagerados, extravagancias, sovinices e todos os vícios imagináveis...
etc. etc." ("Times" de 31 de março de 1873).
Eis aqui um outro exemplo, facilitado por uma nota recente do Conselho de Comércio
(novembro de 1883), onde se diz que "desde a formação de um Comité com esse fim, em 1836,
não tem passado ano em que não se tenha votado uma lei, ou ditado alguma medida, seja
pelo Parlamento, ou pelo Governo, para evitar os naufrágios", e que "a multiplicidade
desses estatutos, reunidos em uma só lei em 1854, chegou a ser de novo um escândalo e um
motivo para constantes queixas", pois, cada nova medida era a prova do fracasso das
anteriores. Imediatamente confessa-se que, "desde 1876, as perdas de homens e navios
foram mais consideráveis do que nunca". Entretanto, os gastos de administração elevaram-
se de dezessete mil, a setenta e três mil libras por ano.
É surpreendente ver a força com que alguns meios artificiais, empregados de certa
maneira, atuam sobre a fantasia, a despeito da razão. A história inteira prova a certeza
deste asserto, ao registrar, desde a tatuagem com a qual os selvagens tratam de espantar
os seus adversários, até as cerimonias religiosas e as procissões reais, nas quais são
imprescindíveis o largo manto do presidente e o bastão do porteiro-mór em uniforme.
Recordo-me de um menino que podia olhar com bastante calma uma horrível careta, quando
seu pai a tinha na mão, porém, que lançava altos berros se este a punha no rosto. Mudança
análoga se opera nos sentimentos dos corpos eleitorais, quando os seus eleitos passam dos
municípios, ou províncias, ao Parlamento. Todo o tempo em que estes são candidatos, estão
expostos às burlas, ás sátiras e ás "porfias" de um ou outro partido, e são tratados, a
todos os respeitos, com muita reverencia; porém, tão depressa se reúnem em Westminster,
os que foram injuriados, vilipendiados, acusados de ignorância e de loucura pelos
jornalistas e oradores públicos, inspiram confiança sem limites. A julgar pelas petições
que lhes são dirigidas, nada há por cima de sua sabedoria e seu poder.
A todas estas observações, responder-se-á, sem dúvida: "Não se pó de encontrar nada
melhor que o Governo pela "sabedoria coletiva"; os eleitos da nação, escolhendo dentre si
um pequeno número de homens de Estado, aplicam toda sua inteligência esclarecida pela
ciência moderna, a resolver as questões que se debatem em sua presença. Que mais
quereis?", perguntará a maior parte dos leitores.
Responderei que essa ciência moderna, com a qual se prepararam os nossos legisladores,
segundo se diz, para bem cumprir os seus deveres, lhes é, em sua maior parte,
evidentemente, inútil e que são passiveis de censura por não terem sabido que ciência
lhes teria sido proveitosa. Se muitos deles são distintos filólogos, nem por isso serão
melhores juízes nas questões que se discutam, e o conhecimento da literatura, facilitado
por seus estudos filológicos, não lhes será de grande auxílio. As experiencias e as
especulações políticas fundadas na história das pequenas sociedades antigas e nos livros
dos filósofos que afirmam que a guerra é o estado normal, que a escravidão é necessária e
justa, e que as mulheres devem estar submetidas a perpetua tutela, não lhes servirão para
apreciar de antemão, os efeitos das leis nas grandes nações do tipo moderno. Podem
meditar nas ações de todos os grandes homens que, segundo a teoria de Carlyle, dão a
sociedade a sua forma, e passar anos inteiros lendo detalhes acerca de conflitos
Internacionais, traições, intrigas e tratados que enchem as obras históricas, sem chegar
a compreender as origens e as causas das estruturas e das ações sociais, e a maneira como
a lei as afeta. Os conhecimentos adquiridos nos escritórios, na Bolsa e no Foro, não
ajudam muito a preparação indispensável.
O que realmente se necessita é um estudo sistemático de encadeamento natural entre a
causa e os efeitos, tal como se manifesta nos seres humanos reunidos em sociedade. Embora
uma consciência distinta deste encadeamento seja um dos últimos resultados do progresso
intelectual; embora o selvagem não tenha nenhuma concepção de uma causa mecânica; embora
os próprios gregos tivessem pensado que o voo de uma flecha era dirigido por um deus;
embora se tenha dado ás epidemias, até quais em nossa época, uma causa sobrenatural; e
mesmo o mais complexo de todos os fenômenos sociais, a relação entre a causa e o efeito
seja, provavelmente, o que mais tempo leve a se conhecer, em nossos dias chegou a ser
bastante evidente a existência dessa relação para infundir em todos os homens que pensam
a convicção de que antes de intervir nela, é preciso estudá-la com cuidado. Os simples
fatos geralmente conhecidos hoje, a saber, que há certa conexão entre o número de
nascimentos, falecimentos, matrimônios e o preço do trigo; que na mesma sociedade,
durante a mesma geração, a proporção entre os crimes e a população varia em estreitos
limites, deveria bastar para fazer ver a todo o mundo que os desejos humanos, guiados
pela inteligência que lhes é conexa, atuam de uma forma aproximadamente uniforme. Dever-
se-ia deduzir que, entre as causas sociais, as nascidas da legislação, atuando do mesmo
modo, com uma regularidade constante, devem mudar não somente as ações dos homens, mas,
também sua natureza, e isto, de forma diversa lia que se havia previsto. Dever-se-ia
reconhecer que, na sociedade, mais do que em qualquer outra parte, as causas são fecundas
em efeitos, e ver que as consequências distantes e indiretas não são menos inevitáveis
que as imediatas. Não pretendo que se neguem estes assertos e estas conclusões. Porém, há
crenças e crenças; algumas não professadas nominalmente; outras influem apenas em nossa
conduta; outras, por último, exercem sobre ela uma influência irresistível em todas as
circunstancias; e, desgraçadamente, as crenças dos legisladores, no que se refere ao
encadeamento das causas e dos efeitos nas questões sociais, pertencem a primeira
categoria. Vejamos algumas verdades que todos admitem, e que muitos não têm em conta ao
legislar.
Indiscutivelmente, todo o ser humano é modificável até a um certo limite, tanto sob o
ponto de vista físico, como do intelectual. Todos os métodos de educação, todos os
exercícios, desde os do matemático, aos do lutador profissional; todas as recompensas
concedidas a virtude; todos os castigos infligidos ao vicio, implicam a crença, expressa
em diversos provérbios, de que o uso, ou desuso de uma faculdade física, ou mental, é
acompanhado de uma mudança na adaptação, perdendo, ou ganhando forças, segundo o caso. Ha
o fato reconhecido em toda a parte, em seus grandes traços, de que as modificações da
natureza, produzidas de uma ou de outra maneira, são hereditárias. Ninguém nega que, pela
acumulação de pequenas mudanças, durante gerações sucessivas, a constituição se adapta às
condições; de sorte "que um clima, funesto a outras raças, não causa mal algum á que a
ele se adaptou. Ninguém nega que os povos do mesmo tronco que se espalharam por regiões
diferentes e têm levado diferentes existências, adquiram, com o decorrer do tempo,
aptidões e tendências diversas. Ninguém nega que em condições novas formam-se novos
caracteres nacionais, sendo disto testemunho, o povo americano. E se ninguém nega que
existe um processo de adaptação, em todas as partes e sempre, a conclusão evidente é que,
cada mudança nas condições sociais, vai acompanhada, necessariamente, de modificações na
adaptação.
Pode-se, ainda, acrescentar, como corolário, que toda a lei que contribua para alterar a
atividade dos homens - seja impondo-lhes novas coações, seja proporcionando-lhes novos
auxílios – afeta os de tal modo, que a sua natureza se adapta a ela com o tempo. Além do
efeito imediato, existe o distante, ignorado da maioria, e que consiste em uma reforma do
caráter médio: reforma que pode, ou não, ser desejável, porém, que, em todo o caso, é o
resultado mais importante que há a considerar.
Outras verdades gerais que o cidadão e, mais ainda, o legislador deveria meditar até
assimilá-las por completo, se nos revelam quando nos perguntamos como se produzem as
atividades sociais e nos convencemos do evidente que" é a resposta de que são o resultado
coletivo dos desejos dos indivíduos, que cada qual procura satisfazer por sua parte,
seguindo o caminho que lhe parece mais fácil, segundo seus hábitos e seus pensamentos
preexistentes, isto é, seguindo a linha de menor resistência: as verdades da economia
política são, simplesmente, corolário desta lei. Não é preciso demonstrar que as
estruturas e as ações sociais são, necessariamente, de uma ou outra maneira, o produto
dos sentimentos humanos, guiados pelas ideias, já dos antepassados, já dos
contemporâneos. A consequência forçosa é que a interpretação dos fenômenos sociais se
acha na cooperação desses fatores, de geração em geração.
Tal interpretação conduz, prontamente, a conclusão de que, entre os desejos humanos que
se querem satisfazer, os que excitaram as atividades particulares e as cooperações
espontâneas, contribuíram muito mais para o desenvolvimento social, que os que foram
obrigados a atuar por efeito da intervenção governamental. Se messes abundantes cobrem
agora os campos, onde antes só se poderia colher cardos silvestres, devemo-lo a
perseguição de satisfações individuais durante numerosas gerações. Se casas confortáveis
substituíram as choças, é porque os homens desejaram aumentar o seu bem-estar; as cidades
também devem a sua existência a estímulos desse gênero. A organização comercial,
atualmente tão vasta e tão complexa, começou com as reuniões que se celebravam por
motivos de festas religiosas, e é devida por completo aos esforços dos homens para
realizar seus fins particulares. Os Governos têm entorpecido e perturbado continuamente
esse desenvolvimento, sem favorece-lo jamais, desde que deixaram de cumprir as suas
funções próprias e manter a ordem pública. O mesmo acontece com o progresso das ciências
e de suas aplicações, que tornaram possível as mudanças de estrutura e o aumento das
atividades sociais. Não é ao Estado a quem devemos os inúmeros inventos uteis, desde a
enxada ao telefone; não foi o Estado que fez os descobrimentos em física, em química e
nas demais ciências que são o fundamento da indústria moderna; não foi o Estado que
imaginou esses mecanismos que servem para fabricar objetos de todas as classes, para
transportar homens e coisas de um lugar para outro, e que contribuem de mil modos para a
nossa comodidade. As transações comerciais que se estendem pelo mundo inteiro, o tráfego
que enche as nossas ruas, a venda a retalho, que põe todas as coisas ao nosso alcance, e
distribui á porta de nossa casa os objetos necessários para a vida quotidiana, não têm
origem governamental. São resultado das atividades espontâneas dos cidadãos, isolados ou
em grupos. Os próprios Governos devem a essas atividades espontâneas os meios de cumprir
seus deveres. Tirai ao mecanismo político todos os auxílios que as ciências e artes lhes
têm facilitado; deixai o Estado sem outros recursos que os inventados pelos funcionários,
e bem depressa ficará interrompida a marcha do Governo. A própria linguagem que lhe serve
para ditar as leis e dar as ordens aos seus agentes, é um instrumento que não se deve, de
nenhum "modo, ao legislador: foi criado, sem que ele tornasse parte, nas relações dos
homens em prol de suas satisfações pessoais.
Outra verdade que se une a precedente, é que as diferentes partes desta organização
social formada espontaneamente, ligam-se entre si, de tal maneira, que não é possível
atuar sobre uma, sem atuar, mais ou menos, sobre todas. Isto se vê claramente quando uma
escassez de algodão paralisa primeiro certos distritos manufatureiros; influi, em
seguida, nas operações dos negociantes por atacado e a retalho do reino inteiro, assim
como nas de seus clientes e afeta, por último, aos fabricantes, negociantes e compradores
dos artigos de lá e linho, etc. Também o vemos quando uma alta do preço da hulha influi
em toda a parte sobre a vida doméstica, cria obstáculos a maioria dos industriais, eleva
o preço dos produtos fabricados, restringe o consumo e transforma os hábitos dos
consumidores. O que advertimos claramente nos casos citados, descobre-se em todos, de uma
forma mais ou menos perceptível. Evidentemente, os atos legislativos devem ser contados
entre os fatores que, aparte sua influência direta, produzem efeitos incomensuráveis e
muito diversos. Um professor eminente, cujos estudos lhe dão grande competência nestas
questões, me expos a seguinte observação: "Quando se começou a intervir na ordem da
Natureza, é impossível saber qual será o resultado". Se essa observação é real na ordem
sub-humana da Natureza a que se refere, mais ainda o é na natureza existente nas
organizações criadas pelos seres humanos reunidos em sociedade.
E agora, para apoiar a conclusão, segundo a qual o legislador deveria empregar no
exercício de seu mandato a mais viva consciência dessas verdades evidentes, e de outras
da mesmas espécies referentes à sociedade humana da qual tem intenção de se ocupar, me
permitirei apresentar mais detalhadamente uma dessas verdades de que ainda não falei.
Para que uma espécie superior qualquer subsista, é necessário que se conforme com dois
princípios radicalmente opostos. Seus membros devem ser tratados de maneira diversa na
infância e na idade adulta. Observemo-lo nas duas idades Um dos fatos mais familiares é
que os animais de tipo superior, relativamente mais demorados em alcançar sua maturidade,
podem, depois de alcançá-la, prestar mais auxílio aos seus filhos que os animais de tipo
inferior. Os adultos alimentam os filhos durante um período mais ou menos longo, enquanto
eles são incapazes de prover sua existência; e é evidente que a permanência da espécie
unicamente se pode assegurar, se os cuidados dos pais se conformam às necessidades dos
filhos, resultantes de sua imperfeição. Inútil é provar que o pássaro cego e sem penas,
ou o cão recém-nascido, embora vendo, pereceriam imediatamente se estivessem obrigados a
procurar calor e alimentos. O cuidado dos pais deverá ser tanto maior, quanto mais
incapazes sejam os filhos para cuidar de si e dos outros, e poderá diminuir a medida que
estes, desenvolvendo-se, conseguem valer-se a si próprios, primeiro, e ajudar depois a
pouco e pouco, os demais. Basta dizer, pois, que durante a infância, os benefícios
recebidos devem estar na razão inversa da força ou destreza de quem os recebe. Claro é
que, se na primeira parte da vida, os benefícios fossem proporcionais ao mérito, ou as
recompensas aos serviços, a espécie desapareceria no espaço de uma geração.
Deste regime do grupo familiar, passemos ao regime do grupo mais extenso formado pelos
membros adultos da espécie.
Perguntai o que sucede quando o novo indivíduo, depois de haver adquirido o uso completo
de suas forças, cessa de receber o auxílio de seus pais e fica abandonado a si mesmo;
aqui entra em jogo um princípio que é justamente contrário ao descrito antes. Durante o
resto de sua vida, cada adulto obtém benefícios proporcionais ao seu mérito, recompensas
proporcionais aos seus serviços: por mérito e por serviços entendemos, nos dois casos, a
capacidade de satisfazer as necessidades da vida, de procurar alimentos, assegurar-se um
abrigo e escapar aos inimigos. Em concorrência com os membros de sua própria espécie, em
luta com os de outras, o indivíduo debilita-se e morre, ou prospera e se multiplica,
segundo esteja dotado. Evidentemente, um regime contrário, se pudesse ser mantido, seria,
com o tempo, fatal á espécie. Se os benefícios recebidos por cada indivíduo, fossem
proporcionais à sua inferioridade; se, por conseguinte, a multiplicação dos indivíduos
inferiores fosse favorecida e obstada a dos superiores, o resultado seria uma degeneração
progressiva da espécie; e depressa a espécie degenerada não poderia subsistir ante a que
estivesse em luta e concorresse com ela.
O importante fato que se deve notar aqui, é que os procedimentos da Natureza, dentro e
fora do grupo familiar, são diametralmente opostos, e que a inversão da ordem desses
procedimentos seria fatal á espécie, imediatamente ou no futuro.
Ha alguém que pense que esta verdade não é aplicável á espécie humana? Não pode negar
que, na família humana, da mesma forma que em todas as famílias inferiores, acarretaria
funestas consequências regular os benefícios pelos méritos pode sustentar que, fora da
família, entre os adultos, não deveriam ser os benefícios proporcionais aos méritos?
Pretenderia, acaso, que não resultaria nenhum dano se os indivíduos mal dotados fossem
postos em condições de prosperar e multiplicar-se tanto, ou mais que os hem dotados? Uma
sociedade humana em luta, ou em concorrência com outras sociedades, pode ser considerada
como uma espécie, ou melhor, como uma variedade de espécie; e se pode afirmar que, da
mesma forma que outras sociedades ou variedades, sucumbirá se favorecer suas unidades
inferiores à custa das superiores. Certamente, ninguém pode negar que, se se adotasse e
se aplicasse completamente o princípio da vida familiar na vida social, se as recompensas
fossem sempre maiores que os serviços prestados, resultariam consequências funestas para
a sociedade. Se isto é assim, uma introdução do regime da família no regime do Estado,
embora seja parcial, deve produzir consequências análogas. A sociedade, considerada em
seu conjunto, não pode, sem se expor a um desastre imediato, ou futuro, intervir na seção
desses dois princípios opostos, cuja aplicação tornou todas as sociedades aptas para
alcançar seu modo de vida atual e para se manter em seu estado.
Intencionadamente disse “a sociedade considerada em seu conjunto", pois, não pretendo
suprimir nem condenar os auxílios concedidos aos homens mal dotados pelos bem-dotados, em
sua qualidade de indivíduos. Mesmo quando esses auxílios produzem dano distribuídos a
trouxe-mouxe, pondo os homens mal dotados em condições de se multiplicar, a falta de
socorros pela sociedade, a assistência individual, reclamada mais frequentemente do que
agora, e associada a uma ideia mais exata da responsabilidade, será, em geral, concedida
com o propósito de ajudar aos desgraçados merecedores de comiseração, antes que aos que
são indignos por natureza. Desta beneficência a sociedade obterá, por outra parte, as
vantagens resultantes do desenvolvimento dos sentimentos simpáticos. Mas, tudo isso não
impede sustentar que se deve manter a diferença radical entre a moral da família e a
moral do Estado, e que, se a generosidade deve ser o princípio essencial da primeira, a
justiça deve ser o princípio essencial da segunda. Não é preciso alterar as relações
normais entre os cidadãos, segundo as quais, cada um recebe em troca de seu trabalho,
hábil ou imperfeito, físico ou mental, o salário determinado, que permite prosperar e
educar os seus filhos em proporção com sua capacidade ou aptidões.
Apesar da evidencia destas verdades, que impressionam a quantos abandonam suas
preocupações burocráticas e contemplam a ordem de coisas em meio à qual vivemos e com a
qual nos devemos conformar, se continua a pedir um Governo paternal. A introdução da
moral familiar na moral do Estado, em lugar de ser encarada como nociva à sociedade, é
reclamada cada vez mais, como o único meio eficaz de assegurar o bem público. Esta ilusão
chegou atualmente a tal ponto, que viciou as crenças dos que mais isentos deveriam estar
dela. No ensaio a que o "Cobden Club" outorgou o prêmio em 1880, afirma-se que "a verdade
do livre cambismo está obscurecida pelos sofismas do "laissez-faire" e que "necessitamos
um Governo muito mais paternal, do que esse espantalho dos antigos economistas".
A verdade que acabo de expor é de uma importância tão vital, desde que, de aceitá-la, ou
não, depende a mudança de todas as nossas opiniões políticas, que me permito insistir
citando algumas passagens de uma obra que publiquei em 1851; rogo ao leitor, unicamente,
que não me considere ligado às conclusões teológicas que contêm. Depois de haver descrito
"esse estado universal de guerra em meio ao qual vivem todos os seres inferiores", e de
haver demonstrado que dele resulta certa soma de bens, continuo assim: "Notai, ademais,
que seus inimigos carnívoros, não somente fazem desaparecer, nos rebanhos dos herbívoros,
os indivíduos esgotados pela velhice, mas, também os enfermos, os mal conformados, menos
ágeis e menos vigorosos. Essa depuração acrescentada aos numerosos combates durante a
época do cio, impede a degeneração da raça que resultaria da multiplicação dos indivíduos
inferiores, e assegura a manutenção de uma constituição completamente adaptada ao meio
circulante, a mais própria, portanto, para procurar o bem-estar.
O desenvolvimento das espécies superiores é o progresso para uma forma de existência
capaz de procurar uma felicidade isenta de necessidades enfadonhas. Na raça humana é que
esta felicidade deve realizar-se. A civilização é a última etapa para seu cumprimento. E
o homem ideal, é aquele que viver nas condições próprias para que se realize. Entretanto,
o bem-estar da humanidade presente e o progresso até a perfeição final estão assegurados
pela disciplina, benfeitora embora severa, a que está sujeita toda natureza animada:
disciplina desapiedada, lei inexorável que conduz ao bem e que não se dobra jamais para
evitar dores parciais e temporárias. A pobreza dos incapazes, a angustia dos imprudentes,
a nudez dos preguiçosos, esse arrasamento dos débeis pelos fortes, que deixa tantos seres
"na miséria", são decretados por uma benevolência imensa e previsora".
"Para se acomodar ao estado social, o homem não somente tem necessidade de perder sua
natureza selvagem, como deve adquirir também as capacidades indispensáveis à vida
civilizada. É preciso que desenvolva a faculdade de aplicar-se, que modifique seu
intelecto de forma que se adapte às suas novas funções, e, sobretudo, é mister que possua
a energia suficiente para renunciar aos pequenos gozos imediatos afim de obter outros
maiores no porvir. O estado de transição será, naturalmente, um estado desgraçado. A
miséria é o resultado inevitável do desacordo entre a constituição e as condições. Todos
esses males que nos afligem e que parecem aos ignorantes consequências claras de tal ou
qual causa que se pode evitar, acompanham fatalmente a adaptação quando em via de se
cumprir. A humanidade está obrigada a submeter-se às necessidades inexoráveis de sua nova
posição, e é preciso que se conforme e suporte como melhor possa os males que dela
derivarem.
É "necessário” sofrer o processo; é "necessário" suportar as dores. Nenhum poder sobre a
terra, nenhuma lei imaginada por legisladores hábeis, nenhum projeto destinado a
retificar as coisas humanas, nenhuma panaceia comunista, nenhuma reforma que os homens
tenham realizado, ou realizem, pode diminuir essas dores em um ápice. O que se pode, é
aumentar sua intensidade, e aumenta-se; e o filosofo que queira impedir este mal, achará
sempre em sua tarefa, amplos meios de se exercitar. Porém, a mudança leva consigo uma
quantidade "normal" de dores que não pode ser reduzida sem que se alterem as próprias
leis da vida...”
"Naturalmente, se o rigor desse processo é mitigado pela simpatia espontânea de uns
homens por outros, nada há que dizer, embora essa simpatia, indubitavelmente, produza
males quando se manifesta sem exame prévio das consequências finais. Mas os
inconvenientes que resultam não significam nada em comparação com o bem realizado.
Somente quando essa simpatia impele a atos de iniquidade, quando é causa de uma confusão,
proibida pela lei, da liberdade igual para todos, quando, procedendo desse modo, suspende
em qualquer manifestação particular da vida, a relação entre a constituição e as
condições, produz, realmente, males. Porém, então, ela própria descobre seus desígnios.
Favorece a multiplicação dos homens mais ineptos, e impede, por conseguinte, a dos mais
aptos. Tende a encher o mundo de pessoas para quem a vida será uma carga, e cerra a
entrada àquelas para quem seria um prazer. Inflige uma miséria positiva e impede uma
felicidade real". ("Estatística Social", pag. 322/325 e 388/391. Edição de 1851).
Embora haja decorrido um terço de século desde que se publicaram estas passagens, não
tenho nenhum motivo para retificá-las. Pelo contrário, esse lapso de tempo trouxe
inúmeras provas que confirmam minha posição de então. Demonstrou-se que dá sobre
existência dos mais aptos resultaram consequências infinitamente mais ditosas do que as
que eu indicava.
Darwin provou que a seleção natural, unida a uma tendência a variação e á hereditariedade
das variações, é uma das causas principais - porém, não a única segundo meu parecer -
dessa evolução graças à qual todos os seres animados, começando pelos mais humildes,
alcançaram seu estado atual e a adaptação a seu modo de existência. Esta verdade chegou a
ser tão familiar, que não acredito necessário citá-la. Sem embargo, - coisa estranha! -
agora que essa verdade é admitida pela maior parte das pessoas ilustradas, que estão
convencidas da influência benfeitora da perpetuação dos mais capazes, até ao extremo de
que se deveria esperar que vacilassem antes de neutralizar seus efeitos, fazem-se mais
esforços que em qualquer época anterior, para favorecer a perpetuação dos mais incapazes.
Porém, o postulado de que os homens são seres racionais, induz-nos continuamente a
conclusões que estão muito longe da verdade.
"Sim, certamente; porém, vosso princípio foi tirado da vida dos brutos e é um princípio
brutal. Não lograreis persuadir-me de que os homens devem viver sob a mesma disciplina a
que estão submetidos os animais. Não me preocupo com os vossos argumentos de História
Natural. Minha consciência diz-me que os débeis e os desgraçados devem ser socorridos; e
se os egoístas não os querem socorrer, é preciso obriga-los a que o façam pela lei. Não
me digais que a bondade humana deve ficar adstrita às ações entre os indivíduos, e que os
Governos somente devem ser administradores de uma justiça rigorosa. Todo o homem dotado
de alguma simpatia sente que é preciso impedir a fome, a miséria e a imundice e se as
instituições privadas não bastam para tanto, o Governo deve intervir".
Esta é a resposta que me darão nove pessoas em cada dez. E algumas delas o farão levadas
por sentimentos demasiado vivos, sob cujo domínio não podem contemplar as misérias
humanas sem uma impaciência que as incapacita para pensar nas consequências distantes.
Com referência a sensibilidade das demais, poderemos ser um tanto céticos. As pessoas
que, neste ou naquele caso, irritam-se ao ver que o Governo não envia imediatamente, para
sustentar nossos supostos "interesses", ou nosso prestigio nacional, alguns milhares de
homens a países longínquos, dos quais muitos perecerão e farão perecer outros tantos, de
cujas intenções suspeitemos, ou cujas instituições pareçam oferecer-nos algum perigo, ou
cujo território seja cobiçado pelos nossos colonos, tais pessoas, repito, não podem estar
animadas de sentimentos tão delicados a ponto de julgar intolerável o espetáculo da dor
dos pobres. De nenhum modo deve admirar a simpatia dessa gente que reclama uma polícia
destruidora de sociedades em via de progresso, e que contemplam, depois, cinicamente
indiferentes, a confusão lamentável que deixa atrás de si, com o cortejo de misérias e de
mortes que arrasta em seu séquito.
Aqueles que quando os boers nos resistiam com êxito, defendendo sua independência,
estavam coléricos porque não se queria sustentar a "honra" britânica, enviando a morte e
expondo a miséria maior número de nossos soldados e de nossos adversários, não podem ser
"humanitários tão entusiastas" como nos poderiam fazer supor os protestos antes
mencionados. Certamente essa sensibilidade de que fazem alarde e que não lhes permite ser
testemunhas da dor causada pela "luta pela vida", que se processa sem ruído em torno seu,
parece associar-se neles a uma insensibilidade que, não somente tolera os combates
propriamente ditos, mas, que encontra prazer em contempla-los, como se vê pela venda que
alcançam os jornais ilustrados que contêm cenas de carnificina e pela avidez com que leem
as narrações detalhadas de lutas sangrentas. Não se nos pode censurar que duvidemos da
sinceridade de pessoas que aparentam estremecem ante as dores sofridas, principalmente
por indivíduos preguiçosos e imprevidentes, e que, ao mesmo tempo, devoram trinta e uma
edições sucessivas da obra "Cinco batalhas decisivas do mundo", para se deleitar com
narrativas de verdadeiros horrores.
O que assombra ainda mais, no contraste entre a sensibilidade aparente e a crueza dos que
desejariam torcer o curso natural das coisa, para aliviar misérias imediatas, ainda que a
custa de maiores misérias futuras, pois, em outras ocasiões ouvireis sustentar, a essas
mesmas pessoas, sem nenhuma consideração pela vida de seus semelhantes, que, no interesse
da humanidade em geral, é preciso exterminar as raças inferiores, substituindo-as pelas
superiores. Assim - coisa estranha! - não se pode pensar com calma nos males que
acompanham a luta pela vida, que se verifica sem violência entre os membros da mesma
sociedade, e se pode serenamente contemplar esses males, sob sua mais terrível forma,
quando são infligidos pelo ferro e pelo fogo a comunidades inteiras. Parece-me, pois, que
não merecem muito respeito os que afetam generosidade para com os inferiores do próprio
país, estando dispostos a sacrificar sem escrúpulos os inferiores de outras terras.
Esse interesse excessivo para com os do próprio país, acompanhado de completa indiferença
para com os dos outros, parece ainda menos respeitável quando observamos como se
manifesta. Se fosse impelido por esforços pessoais para aliviar aos desgraçados,
mereceria aprovação. Se, quantos alardeiam essa compaixão barata se parecessem aos poucos
que, sem descanso, uma semana após outra, um ano atrás do outro, consagram a maior parte
de seu tempo a socorrer, a animar, e algumas vezes a distrair seus semelhantes reduzidos
a miséria pelos infortúnios, por incapacidade, ou má conduta, não lhes regatearíamos
nossa admiração. Quantos mais homens e mulheres hajam que ajudem os pobres a auxiliar-se
a si mesmos, pondo em pratica sua solicitude diretamente e não por mandatários, tanto
mais poderemos alegrar-nos. Porém, a maior parte das pessoas que desejam ajudar por meio
das leis as misérias dos infelizes e dos imprevidentes, propõe que essa obra se realize,
não a expensas suas, mas nas dos outros, algumas vezes pedindo o seu consentimento,
porém, frequentemente, sem lhe pedir.
Ainda há mais; aqueles aos quais se quer obrigar a auxiliar os desgraçados, têm, muitas
vezes, tanta ou mais necessidades que eles. Os pobres dignos de interesse se encontram
entre os que estão acabrunhados pelos encargos para acudir aos pobres indignos de todo o
interesse. Do mesmo modo que sob a antiga lei dos nobres, o trabalhador ativo e
previdente era obrigado a trabalhar para que os folgazões não padecessem, até que
sucumbia pelo excesso de cargas e se refugiava por sua vez na "Workhouse", assim,
atualmente, vê-se que as contribuições locais alcançam cifra tão elevada nas grandes
povoações, que não é possível aumentá-las sem impor maior número de privações aos
comerciantes a retalho e aos artífices, que, dificilmente, podem livrar-se da mancha do
pauperismo". Desta maneira a política seguida em tudo, tende a aumentar o sofrimento das
pessoas mais dignas de interesse, para aliviar as que não merecem nenhuma piedade. Em
resumo; homens de tal forma compassivos, que não querem admitir que as pessoas menos
aptas, por sua incapacidade, ou má conduta, sofram os males infligidos pela luta pela
vida, são bastante insensíveis para tornar mais dura ainda essa luta às aptas, e inflige
a elas e a seus filhos males artificiais além dos naturais que têm a suportar.
Aqui, volvemos ao tema contido no título deste trabalho: aos pecados dos legisladores.
Aqui aparece-nos, claramente, a mais comum das faltas cometidas pelos governantes, falta
de tal modo comum, e de tal modo sancionada pelos costumes, que ninguém a considera como
uma falta. Aqui vemos que o Governo, nascido, como disse, da agressão, e engendrado pela
agressão, continua revelando sua natureza originária por seu caráter agressivo; embora, à
primeira vista se nos pareço sob aparências benéficas, é, em realidade, maligno, isto é,
embora se mostre bom, está em risco de ser cruel. Não é uma crueldade aumentar as dores
da melhor parte da humanidade para diminuir as da pior?
Realmente é curioso ver com que facilidade nos deixamos induzir ao erro pelas palavras e
frases que exprimem somente um aspecto dos fatos, sem nada dizer do aspecto oposto. Temos
uma prova patente no emprego das palavras "proteção" e "protecionista" pelos adversários
do livre-cambismo e na aceitação tácita dessas expressões pelos livre-cambistas. Os
primeiros olvidaram, e os outros não cuidaram de patentear que a suposta proteção implica
sempre uma agressão, e que o nome de protecionista deveria ser trocado pelo de
"agressionista", pois, se para manter os lucros de A se proíbe a B que compre de C, ou se
lhe impõe uma multa sob o nome de direitos de entrada, no caso de comprar, é evidente que
se comete uma agressão contra B para "proteger" a A. Os "protecionistas", ademais,
merecem o título de "agressionistas", posto que, para proporcionar lucros a um só
produtor, esfolam dez consumidores.
A mesma confusão de ideias, causada por não se encarar mais que um lado do problema,
observa-se em toda a legislação que arrebata pela força a propriedade a uns, para
conceder benefícios gratuitos a outros. Habitualmente, quando se começa a discutir
qualquer medida nova desse gênero, o pensamento dominante é que se deve proteger o
infeliz João contra tal ou qual mal; porém, não se pensa de modo algum que se prejudica a
Pedro, que trabalha constantemente e é, muitas vezes, mais digno de compaixão.
Arranca-se o dinheiro - já diretamente, já elevando os preços dos aluguéis - aos
revendedores que não se podem manter senão a custa de grandes sacrifícios; ao operário
que está sem trabalho em consequência de uma greve; ao artífice cujas economias foram
devoradas por uma enfermidade; á viúva que lava e cose desde a manhã até a noite para
alimentar seus filhos; e tudo isso para que não passe fome o dissoluto; para que os
filhos de vizinhos menos pobres recebam instrução por pouco dinheiro, e para que muitas
pessoas, a maior parte das quais contam com recursos, possam ler, gratuitamente, jornais
e novelas. O emprego, neste caso, de expressões falsas, tem consequências mais graves do
que no caso dos protecionistas, porque, como acabamos de ver, a proteção dos pobres
viciosos implica numa agressão aos pobres virtuosos. Sem dúvida alguma, a maior parte do
dinheiro arrancado procede dos que gozam de algum bem-estar; porém, isto não é um consolo
para os que vivem penosamente e dos quais se arranca o resto. Por outro lado, se se
comparam os encargos suportados por ambas as classes, torna-se evidente que o caso é
ainda pior do que parece à primeira vista; de fato, para o opulento, exação, significa
perda do supérfluo; para o que vive em apertos, perda do necessário.
Agora, vede a Nêmesis que ameaça seguir a este pecado crônico dos legisladores. Eles e
suas classes, assim como todos os proprietários, estão em perigo de sofrer a aplicação
radical do princípio que se afirma na pratica por cada uma das leis de confisco votadas
pelo Parlamento. Qual é, em realidade, a suposição tácita de que todas essas leis
procedem? A de que nenhum homem tem direito a sua propriedade, nem mesmo a adquirida com
o suor de seu rosto, sem permissão da comunidade, e que essa comunidade pode anular esse
direito à medida que o julgue conveniente. É impossível justificar essa usurpação dos
bens de A em proveito de B, desde que não o seja apoiando-se no postulado de que a
comunidade, em seu conjunto, tem direito absoluto sobre os bens de cada membro. Esta
doutrina, que tem sido admitida de maneira tácita, é abertamente proclamada em nossos
dias. Lord George e seus amigos, e mister Hyndmann e seus partidários, levam-na às suas
consequências logicas. Têm eles afirmado com exemplos, cujo número aumenta cada ano, que
o indivíduo não tem direito algum que a comunidade não possa anular, e agora dizem: "A
tarefa será difícil, porém, sobrepujaremos a nossos mestres", e passaremos por sobre
todos os direitos individuais de uma vez.
Os diversos delitos dos legisladores, antes mencionados, explicam-se em certa medida, e
merecem uma reprovação menos severa, se nos remontamos á sua origem. Provêm da opinião
errônea de que a sociedade é um produto fabricado, sendo, como é, produto da evolução.
Nem a educação dos tempos passados, nem a da época atual, permitiram que muita gente
formasse uma ideia cientifica da sociedade, que lhes é apresentada como uma estrutura
natural - estrutura que, em certo sentido, é orgânica - donde todas as instituições:
governamentais, religiosas, industriais, comerciais, etc., estão em dependência reciproca
- Se existe nominalmente alguma concepção desse gênero, não é de natureza capaz de
influir na conduta. Pelo contrário, crê-se geralmente que a sociedade é uma espécie de
massa, a qual o cozinheiro pode dar a forma que lhe apraze: a de uma torta" um
pastelzinho, ou uma empada. O comunista manifesta, evidentemente, que, segundo sua
opinião, o corpo político pode ser organizado à vontade, desta, ou daquela maneira; e
muitas medidas legislativas implicam a crença de que a sociedade a que se impôs tal ou
qual organização, conservará a forma que se lhe pretendeu dar.
Certamente, poder-se-ia crer que, aparte do reconhecimento do erro consistente em se
considerar a sociedade como uma massa plástica, sendo, como é, um corpo organizado, os
fatos que a toda a hora se impõem a nossa atenção, deveriam nos tornar céticos a respeito
do êxito de muitos métodos com os quais se quer mudar: a ação dos homens. A experiência
domestica demonstra, diariamente, ao cidadão, da mesma forma que ao legislador, que a
conduta do homem burla todos os cálculos. Renunciou ao pensamento de ser governado por
sua mulher, e deixa-se governar por ela. De todos os métodos de educação que ensaiou com
seus filhos - as repreensões, os castigos, a persuasão, a recompensa - nenhum lhe deu
resultados satisfatórios; nenhuma advertência impediu a mãe de os tratar de uma forma que
ele crê perniciosa. A mesma coisa acontece em suas relações com os criados: repreenda-os,
ou discuta com eles, raramente dura muito tempo o efeito produzido; a falta de atenção,
ou de pontualidade, de asseio, ou de sobriedade, acarreta constantes mudanças.
Sem embargo, apesar das dificuldades que encontra em suas relações com a sociedade em
detalhe, tem confiança em sua habilidade para ordenar os negócios da sociedade em
conjunto. O legislador não conhece a milésima parte dos cidadãos; não viu sequer a
centésima parte deles; não tem mais do que insignificantes noções dos hábitos e modos de
pensar dos mesmos; todavia, acredita firmemente que todos atuarão como ele prevê e
tenderão ao fim que deseja ver realizado. Não existe aqui um desacordo patente entre as
premissas e a conclusão?
Esses fracassos na vida doméstica, a amplitude, a variedade, a complicação da vida
social, tal como aparece em todos os jornais, tão grandes que a própria imaginação se
esforça por concebe-las, deveriam fazer crer que os homens vacilassem muito, antes de se
comprometer a ditar leis. Não obstante, nisto, mais do que em qualquer outra coisa,
mostram uma presunção surpreendente. Em nada existe um contraste semelhante entre a
dificuldade da tarefa e a falta de preparo daqueles que a empreendem. Certamente entre as
crenças monstruosas, nenhuma o é tanto como a de dizer-se que se necessita um largo
aprendizado para qualquer oficio, o de sapateiro, por exemplo, e que o único que não
exige nenhum, é o de ditar leis para uma nação!
Para resumir os resultados do exposto, não poderemos afirmar, categoricamente, que o
legislador se encontra ante muitos segredos conhecidos, tão conhecidos, que não deveriam
ser segredos para aquele que toma sobre si a grande e terrível responsabilidade de fazer,
para milhões de seres humanos, leis que, se não contribuem para sua felicidade,
aumentarão sua miséria e apressarão sua morte?
Temos, em primeiro lugar, a verdade, a verdade incontestável, evidente, e, todavia,
absolutamente ignorada, de que todos os fenômenos que se apresentam em uma sociedade têm
sua origem nos fenômenos da vida individual, os quais, por sua vez, têm suas raízes nos
fenômenos vitais em geral; do que resulta a conclusão forçosa de que, a menos que as
relações entre os fenômenos vitais físicos e intelectuais sejam um caos - suposição
excluída pela continuação da vida, - os fenômenos que delas derivam não podem estar
tampouco em estado de caos: é preciso que haja, por conseguinte, uma espécie de ordem na
sucessão dos fenômenos, quando seres humanos associados devem cooperar. Evidentemente,
pois, se um homem empreende a tarefa de organizar a sociedade, sem ter estudado estes
fenômenos consecutivos, é bastante certo que produzirá o mal.
Em segundo lugar, deixando de parte todo o raciocínio "a priori", a mesma conclusão
deveria impor-se aos legisladores pela comparação das sociedades. Deveriam saber que,
antes de se imiscuir nos detalhes da organização social, é necessário saber se esta
organização tem uma história natural própria, e que, para saber isso, há que examinar,
começando pelas sociedades mais simples, em que relações se assemelham as estruturas
sociais. Um rápido estudo da sociologia comparada, mostra-nos umas gêneses realmente
uniforme. A existência habitual de um chefe e o estabelecimento de sua autoridade pela
guerra; o ascendente em toda a parte dos medicas e dos sacerdotes; a presença de um culto
com os mesmos caráteres fundamentais em todos os lugares; as linhas de divisão do
trabalho, bem depressa visíveis, e que se fazem cada vez mais claras, e as diversas
combinações políticas, eclesiásticas e industriais que aparecem à medida que os grupos se
compõem e recompõem pela guerra, são fatos que demonstram, a quem comparar as sociedades,
que, abstração feita de suas diferenças particulares, todas apresentam semelhanças gerais
em seu modo de se originar e desenvolver-se. Todas oferecem caráteres de estrutura que
provam que a organização social tem leis superiores às vontades individuais, leis cujo
descobrimento podem causar muitos danos.
Em terceiro lugar, por último, há a massa de informações instrutivas contidas nas
colecções das leis de nosso próprio país e dos demais que, evidentemente, chamam ainda
mais a atenção. Aqui, e em todas as partes, inumeráveis tentativas feitas por homens de
Estado, não produziram o bem que prometiam e causaram males que não se esperavam.
Um século depois do outro novas medidas, semelhantes ás antigas, e outras fundadas no
mesmo princípio, contrariaram sempre as esperanças e acarretaram desastres. Sem embargo,
nem os eleitores, nem os eleitos julgam que seja mister um estudo sistemático dessas
leis, que, nos tempos passados, tornavam o povo desgraçado, tendo por objetivo faze-lo
feliz. Certamente, não pode ter competência para exercer as funções de legislador, o
homem que careça de um conhecimento profundo dessas experiências legadas pelo passado.
Volvendo a analogia estabelecida ao princípio, estamos a dizer que o legislador é
moralmente censurável, ou não, segundo tenha, ou não, estudado essas várias classes de
fatos. Um médico que, depois de muitos anos de estudo, tenha adquirido conhecimentos
suficientes em fisiologia, patologia e terapêutica, não pode ser perseguido como um
criminoso no caso de lhe morrer um enfermo: está preparado e fez tudo quanto era
possível. Da mesma forma o legislador, cujas medidas produzam males em lugar de bens,
apesar dos vastos e metódicos estudos que lhe iluminam o espírito, só pode ser acusado de
haver cometido um erro de raciocínio. Pelo contrário, o legislador que ignora, ou que
conhece muito pouco essa massa de fatos, cujo dever é examina-los, para que a sua opinião
acerca de uma lei proposta, possa ter valor, e que, sem embargo, contribui para o
estabelecimento da referida lei, não pode ser absolvido se esta aumenta a miséria e a
mortalidade, como não o pode ser, também o moço o da botica, se o remédio que prescreveu,
por ignorância, ocasiona a morte de quem o tomou.

A GRANDE SUPERSTIÇÃO POLITICA

A grande superstição política de outros tempos era o direito divino dos reis. A grande
superstição da política de hoje, é o direito divino dos Parlamentos. O óleo santo parece
haver deslizado, inadvertidamente, da cabeça de um á de muitos, consagrando estes e seus
decretos.
Por irracional que nos pareça a primeira dessas crenças, é preciso admitir que era mais
lógica do que a última. Se nos remontarmos ao tempo em que o rei era considerado como um
deus, ou aquele em que se acreditava ser ele descendente de deuses, ou ao em que era tido
como delegado de Deus, encontramos poderosas razões para que sua vontade fosse
passivamente obedecida. Quando, por exemplo, sob Luiz XIV, teólogos como Bossuet,
ensinavam que os reis eram deuses e participavam de certo modo da independência divina,
ou quando se cria, como entre nossos próprios conservadores dos tempos antigos, que a
monarquia era "o delegado do céu", claro é que, concedidas essas premissas, a conclusão
forçosa devia ser que não existia limite algum ao poder do Estado. Porém, o princípio
moderno não se pode defender assim. Um corpo legislativo, não podendo aspirar uma origem
divina, nem uma missão divina, não pode recorrer ao sobrenatural para legitimar as suas
pretensões de poder ilimitado; por outra parte, jamais intentou estabelecer assas
pretensões com provas de ordem natural. Por conseguinte, a crença de sua autoridade
ilimitada, não tem o caráter logico da antiga crença no poder ilimitado do rei.
É curioso ver como os homens, geralmente, permanecem fiéis, de fato, a doutrinas que
abandonaram de nome, conservando a substancia depois de haver relegado a forma. Em
teologia temos o exemplo de Carlyle: quando era estudante, julgou abjurar as crenças de
seus pais; porém, não abandonou mais do que o continente e conservou o conteúdo: suas
concepções do universo e do homem e sua conduta, demonstram que continuou sendo um dos
mais fervorosos calvinistas escoceses. A ciência nos oferece, da mesma maneira, o exemplo
de um homem que é naturalista em geologia e supernaturalista em biologia: sir Charler
Lyell. É ele o primeiro a expor as teorias das causas atuais em geologia, prescindindo da
cosmogonia de Moysés, porém, sustenta durante muito tempo a fé na criação especial de
cada tipo orgânico, a qual não se pode assinalar outra origem que aquela cosmogonia, e
unicamente ao fim de sua vida se rende aos argumentos de Darwin. Em política, como prova
do que temos dito, temos um caso análogo. A doutrina, tacitamente aceita, de que o poder
do Estado é ilimitado, que é comum aos conservadores, liberais e radicais, remonta-se a
época em que se supunha que os legisladores eram delegados de Deus; não desapareceu nada
mais do que a crença nesta delegação divina. "Oh! Uma ata do Parlamento pode tudo!" É o
que se responde ao cidadão que põe em dúvida a legitimidade de alguma intervenção
arbitraria do Estado. E o cidadão não sabe o que dizer. Não se lhe ocorre perguntar como,
quando e onde nasceu essa suposta onipotência, limitada somente por impossibilidades
materiais.
Aqui permitimo-nos duvidar dessa onipotência. Já que não se invoca a teoria, noutro tempo
lógica, de que sendo ele quem governa sobre a terra, representante de quem governa no
céu, é um dever obedece-lo em tudo, perguntaremos que razão ha para aceitar como um dever
essa obediência a um Governo constitucional, ou republicano, cuja supremacia não provem
do céu. Esta pergunta, evidentemente, nos leva à crítica das teorias antigas e modernas,
concernentes ao poder político. Talvez, necessitasse desculpas fazer reviver questões que
se consideram resolvidas há muito tempo; a desculpa se encontra, e suficiente, na
afirmação, já desenvolvida, que a teoria geralmente admitida está mal fundada, ou não tem
fundamento.
A noção da soberania é a que se apresenta em primeiro termo, e um exame critico dessa
noção, tal como é compreendida pelos que não admitem a origem sobrenatural da soberania,
conduzem-nos aos argumentos de Hobbes.
Aceitemos como verdadeiro o seu postulado: "Quando os homens não vivem sob uma autoridade
comum que os mantenha no temor, estão nesse estado que se chama guerra... de uns contra
os outros", o que não é certo, pois existem sociedades não civilizadas, onde, sem "uma
autoridade comum que mantenha os homens no temor", reina paz profunda e maior harmonia
que nas sociedades onde a tal autoridade existe.
Suponhamos igualmente que Hobbes tem razão quando cita o princípio de que o poder
governamental deve sua origem ao desejo de manter a ordem no seio das sociedades, ainda
que, em realidade, nasça habitualmente da necessidade de subordinar-se a um chefe durante
uma guerra ofensiva, ou defensiva, e não tenha em sua origem, nem em teoria, nem de fato,
nenhuma relação com a manutenção da ordem em uma sociedade "formada por indivíduos.
Admitamos, por último, a hipótese insustentável de que, para escapar aos males causados
por conflitos crônicos, os membros de uma comunidade fazem um "pacto ou contrato", pelo
qual se comprometem a renunciar à sua primitiva liberdade de ação, e aceitemos que os
descendentes permanecem ligados para sempre ao contrato de seus longínquos antepassados.
Não façamos, repito, nenhuma objecção a estas premissas de Hobbes, porém, vejamos as
conclusões que se deduzem delas. Eis aqui como se exprime:
"Onde não existe nenhum contrato, nenhum direito terá sido transmitido, e cada homem tem
direito a tudo; por conseguinte, nenhuma ação pode ser injusta. Porém, onde há contrato,
violá-lo é "injusto", e a definição de "injustiça" não é outra que a "não execução do
contrato". Assim, antes de que se possa qualificar um ato de justo ou injusto, é preciso
que exista um poder coercitivo que obrigue a todos os homens, pelo temor a um castigo
superior ao benefício que esperam obter de sua violação, ao cumprimento do contrato".
Seriam, realmente, bastante perversos os homens, no tempo de Hobbes, para justificar sua
hipótese de que não cumpririam seus contratos sem a existência de um poder coercitivo e o
temor ao castigo? Em nossos dias, "as qualificações de justo e injusto podem ser
aplicadas" mesmo sem se admitir nenhum poder coercitivo.
Entre meus amigos, posso citar meia dúzia que, estou convencido disso, cumpririam
fielmente os seus compromissos sem que fosse necessário ameaça-los com um castigo, e para
os quais as obrigações seriam tão imperativas na ausência de um poder coercitivo como em
sua presença. Não obstante, sem nos determos em observações de que esta hipótese não
justificada vicia o argumento de Hobbes em favor da autoridade do Estado, e aceitando ao
mesmo tempo suas premissas e conclusões, devemos chamar a atenção sobre duas
consequências importantes. A primeira é que a autoridade do Estado, baseada em tal
fundamento, é o meio de alcançar um fim, e que só é legítimo no caso de servir para a
realização desse fim: se o fim não é logrado, a autoridade, por hipótese, não existe. A
segunda, é que o fim que tem que alcançar a autoridade, consiste em impor a justiça, e
manter a equidade em todas as relações. Logicamente, pois, nenhuma coação é legitima,
contanto que não seja indispensável, já para prevenir os ataques diretos ou indiretos que
violem o contrato, já para prover a defesa contra os inimigos exteriores. E aqui temos,
integralmente, a função da autoridade soberana, tal como resulta da teoria de Hobbes.
Hobbes argumentava em favor da monarquia absoluta. Seu admirador moderno, Austin, tratou
de fazer derivar a autoridade da lei, da soberania ilimitada de um homem, ou de um grupo
de homens, pequeno ou grande, em proporção com o conjunto da comunidade. Austin serviu
primeiro no exército, e tem se observado com razão, que "a vida militar deixou rastros em
sua "Provínce of Jurisprudence". Quando, sem nos deixarmos intimidar pelo pedantismo
exasperante, pelas distinções, definições e repetições sem fim, que, unicamente, servem
para disfarçar a essência da doutrina, examinamos em que ela consiste, advertimos que
Austin assimila a autoridade civil á militar, admitindo "a priori" que ambas, tanto a
respeito de sua origem, como de sua extensão, são indiscutíveis. Para legitimar a lei
positiva, conduz-nos a soberania absoluta do poder que a impõe: monarquia, aristocracia,
ou o grupo mais considerável de eleitores de uma democracia, pois, também dá o título de
soberano a uma corporação desta natureza, por oposição ao resto da comunidade que, por
incapacidade ou outro qualquer motivo, permanece em estado de sujeição. E depois de haver
afirmado, ou, melhor, admitido como indiscutível a autoridade ilimitada da corporação,
simples, ou composta, pequena ou grande, que qualifica de soberania, deduz, naturalmente,
sem nenhuma dificuldade, o valor legal de seus decretos, aos quais chama de leis
positivas. Mas, assim, não resolve o problema: afasta-se dele. A verdadeira questão é
esta: De onde procede a soberania? Em que título se funda essa supremacia ilimitada que
se arroga um indivíduo, ou uma minoria ou uma maioria, sobre todos os outros? Um crítico
poderia dizer, com razão: "Não é necessário que vos esforceis para fazer derivar a lei
positiva da soberania ilimitada; a filiação é bastante evidente. Demonstrai a existência
dessa soberania absoluta".
Austin não responde a esta interpelação. Examinai seu ponto de partida e vereis que a
doutrina desse autor não repousa em bases mais firmes que a de Hobbes. Se não se admite
sua origem divina, ou delegação divina, nenhum Governo, resida em uma ou em muitas
cabeças, pode exibir os títulos necessários para justificar suas aspirações ao poder
absoluto.
"Porém - replicar-se-á em coro - existe o direito indiscutível da maioria, que dá um
direito indiscutível ao Parlamento que elege".
Perfeitamente, agora chegamos ao âmago da questão. Direito divino dos Parlamentos quer
dizer direito divino das maiorias. A base do raciocínio dos legisladores, da mesma forma
que o do povo, é que a maioria tem direitos ilimitados. Esta é a teoria corrente que
todos aceitam sem provas, como uma verdade evidente por si mesma. Sem embargo, a crítica
mostrará, segundo penso, que essa teoria exige uma modificação radical.
Em um ensaio dos "princípios de administração das ferrovias", publicado na "Revista de
Edimburgo", em outubro de 1854, tive oportunidade de tratar da questão dos poderes de uma
maioria como exemplo a conduta das companhias públicas, e nada melhor como introdução às
conclusões que devo assentar, que transcrever esta passagem:
"Em qualquer circunstância, ou para qualquer fim que os homens cooperem, admite-se que,
se surgir entre eles alguma divergência de opinião, a justiça exige que prevaleça a
vontade da maioria; e esta regra se supõe uniformemente aplicável, seja qual for a
questão em litigio. Tão grande é esta convicção, e tão pouco meditado tem sido o
princípio que a origina, que a indicação de uma dúvida assombrará a muitas pessoas.
Todavia, basta uma rápida análise para mostrar que esta opinião não é, em suma, mais do
que uma superstição política. Facilmente se encontram exemplos que provam, pela redução
ao absurdo, que o direito da maioria é um direito puramente condicional, valido somente
dentro de determinados limites. Suponhamos que, em assembleia geral, uma sociedade
filantrópica resolve, não somente ajudar os pobres, mas, empregar, além disso, pregadores
para combater o papismo na Inglaterra. As subscrições dos católicos, membros da sociedade
com fins caritativos, poderiam ser legitimamente aplicadas com este propósito? Suponhamos
que a maioria dos componentes do comité de uma biblioteca, acreditando que nas atuais
circunstancias é mais importante o exercício do tiro do que a leitura, decide mudar o fim
da associação e aplicar os fundos disponíveis na compra de pólvora, balas e alvos. Essa
decisão ligaria os outros membros do comité?
Suponhamos que, sob a impressão de notícias chegadas da Austrália, a maioria de uma
sociedade de proprietários de terra determina, não somente partirem todos para explorar
minas de ouro, como também dedicar os fins da sociedade ao fretamento de um vapor. Esta
usurpação da propriedade seria equitativa com referência à minoria? Estaria está obrigada
a se reunir a expedição? Talvez, não haja alguém que responda afirmativamente a primeira
destas perguntas e muito menos ás outras. Porque? Porque todo o mundo compreende que
nenhum individuo, pelo simples fato de se associar a outros, pode, sem que cometa
injustiça, ser obrigado a atos totalmente estranhos ao fim que se propunha ao associar-
se. Em cada um dos casos supostos, as minorias poderiam dizer, e com razão, aos que
pretendessem obriga-las: "Associámo-nos a vós outros com um fim determinado; demos nosso
dinheiro e nosso tempo para alcançar esse fim; em todas as questões que com ele se
relacionam, submetemo-nos tacitamente a vontade da maioria, porém, não estamos dispostos
a nos submeter com referência ás outras. Se nos propondes uma associação para determinado
fim, e depois empreendeis a execução de outro, obtereis nosso apoio com falsos pretextos;
rompereis as condições explícitas, ou tácitas celebradas conosco, e desde esse momento,
não estaremos ligados às vossas decisões". Evidentemente, esta é a única interpretação
racional da questão.
O princípio geral em que repousa o governo equitativo de toda associação, consiste em que
seus membros se obrigam reciproca e individualmente a submeter-se a vontade da maioria em
todos os assuntos concernentes a realização do fim para o qual se associaram, porém, não
nos demais. Somente é valido o contrato dentro desses limites. Como a própria natureza de
todo contrato implica no conhecimento de todas as suas obrigações pelos contratantes, e
como os que se associam para um fim especificado, não poderiam ter ciência de todos os
fins não especificados cuja obtenção, possivelmente, a associação poderia prometer,
resulta que o contrato subscrito não se pode estender a fins não determinados. E no caso
de não existirem convenções explícitas ou implícitas entre a associação e seus membros,
acerca de fins não especificados, a maioria, ao obrigar a minoria a segui-los, se fará
culpável da tirania mais irritante.
Naturalmente, se existe tal confusão de ideias acerca dos poderes da maioria, onde o
contrato de associação limita tacitamente esses poderes, maior deve ser ainda essa
confusão onde não existiu semelhante contrato. Sem embargo, o princípio em ambos os casos
é o mesmo. Insisto na proposição de que os membros de uma associação se obrigam
"individualmente a submeter-se a vontade da maioria em todos os assuntos concernentes a
realização do fim para o qual se associaram, porém, não nos demais". E sustento que a
mesma coisa é aplicável a uma nação, ou a uma companhia.
"Porém - objetar-se-á ainda - como não existe contrato em virtude do qual os homens se
hajam constituído em nação, como para o que a associação se formou não está, nem nunca
foi especificado, não pode ter limitação, e, por conseguinte, o poder da maioria é
ilimitado".
Evidentemente, é forçoso admitir que a hipótese de um contrato social, seja sob a forma
adotada por Hobbes, seja sob a concebida por Rousseau, carece de fundamento. Também é
forçoso admitir que, embora tal contrato se houvesse celebrado alguma vez, não poderia
obrigar aos descendentes dos que o celebraram. Por outra parte, se alguém diz que na
ausência das limitações de poder que poderia implicar um contrato, nada há que impeça a
maioria impor pela força sua vontade a minoria, devemos assentir, nas mesmas condições,
que, se essa força superior da maioria serve de justificação, a força superior de um
déspota, apoiado por seu exército, justificará igualmente o despotismo. Porém, apartamo-
nos de nosso problema. O que procuramos aqui é um fundamento mais sério a subordinação da
minoria a maioria, do que aquele que resulta da incapacidade de resistir a coação
material.
Austín, mesmo, apesar de seu desejo de estabelecer a autoridade indiscutível da lei
positiva, e de sustentar que se origina de uma soberania absoluta, monárquica,
aristocrática, constitucional ou popular, vê-se obrigado em última análise, a admitir um
limite moral á ação dessa soberania sobre a comunidade. Enquanto insiste, desenvolvendo
sua teoria rigorosamente, que uma corporação soberana, saída do povo, "é legalmente livre
de restringir a liberdade política do próprio povo, a vontade e a discrição", concede que
a "moral positiva" pode impedir a um Governo de mutilar a liberdade política que deixe,
ou outorgue a seus súditos". Trata-se, pois, de encontrar, não uma justificação material,
más, uma justificação moral da suposta onipotência da maioria.
Não faltará quem me faça a objecção seguinte: "Não é-preciso dizer que, na ausência de
toda convenção e das limitações que implica, o poder da maioria deve ser ilimitado, pois,
é mais justo que prevaleça a vontade da maioria, do que a da minoria". Esta objeção
parece muito razoável, antes de ser refutada. Podemos opor-lhe a proposição, não menos
defensável, de que na ausência de toda convenção, o predomínio da maioria não deve
existir de modo nenhum. A cooperação, de qualquer forma que seja, é a única fonte dos
direitos e dos deveres da maioria e da minoria, e se não houver acordo para cooperar, não
existem esses direitos e esses deveres.
Aqui a argumentação chega, ao que parece, a um beco sem saída. No estado atual de coisas,
nenhuma origem moral parece atribuível a soberania da maioria, nem a limitação dessa
soberania. Porém, se refletirmos, poderemos resolver a dificuldade. Porque se,
abandonando todo o pensamento de um acordo para cooperar, perguntamo-nos qual é o que
gozaria hoje, na pratica, do apoio dos cidadãos, obteremos uma resposta suficientemente
categórica, e com ela uma justificação suficientemente clara da preponderância da maioria
em certa esfera, porém, não além dessa esfera. Observemos, antes de tudo, algumas
limitações que aparecem imediatamente.
Perguntai a todos os ingleses se querem chegar a um entendimento para cooperar no ensino
da religião, ou dar a maioria o poder de fixar as crenças e a forma do culto: a maior
parte responderá energicamente: "Não!" Se, depois de uma proposição para restabelecer as
leis suntuárias, se fizesse uma consulta para saber se se submeteriam a vontade da
maioria no referente ao custo e a qualidade de seus vestidos, quase todos diriam que não.
Analogamente - fixando-nos em uma questão de atualidade - se os consultassem para
averiguar se aceitariam a decisão da maioria a respeito de sua bebida, a metade, ou mais
da metade, responderia negativamente. Qualquer desejo que se manifestasse de cooperar
para executar, ou regulamentar certas ações, estaria muito longe de ser um desejo
unânime. Evidentemente, pois, se nós próprios tivéssemos de dar começo a uma cooperação
social, e tivéssemos que especificar seu fim antes de poder obter que se consentisse em
cooperar, haveria vastos campos da atividade humana pelos quais se declinaria da
cooperação, nos que nenhuma autoridade poderia ser legitimamente exercida peja maioria
sobre a minoria.
Passemos agora a questão contraria. Para que fim conviriam todos em cooperar? Ninguém
negará que, para resistir a uma invasão, o acordo seria unanime. A excepção dos Quakers
que, tendo realizado, em seu tempo, uma obra útil, estão, atualmente, a ponto de
desaparecer, todos se associariam para uma guerra defensiva - não para uma guerra
ofensiva - e todos se obrigariam tacitamente a se submeter a vontade da maioria na adoção
das medidas necessárias para triunfar na empresa. Também haveria unanimidade efetiva em
um pacto de cooperação para defesa contra os inimigos exteriores. Exceção feita dos
criminosos, todos devem desejar que suas pessoas e suas propriedades sejam defendidas. Em
suma, todos os cidadãos querem preservar sua vida, preservar as coisas que ajudam a viver
e a gozar a vida, e guardar intacta sua liberdade de usar dessas coisas e aumenta-las. E
cada um vê que não pode, para isso, atuar isoladamente. Contra os inimigos exteriores, o
indivíduo seria impotente, no caso de não estar associado aos demais; e sem esta união, a
defesa contra os inimigos interiores seria uma tarefa pesada, perigosa e ineficaz. Ha
outra cooperação na qual todos estão interessados: a que tem por fim tirar proveito do
território que habitam. Se a comunidade dos bens subsistisse, como nos primeiros tempos,
a direção comum primitiva do emprego que poderiam dar a terra os Indivíduos, ou os
grupos, subsistiria da mesma forma, e as decisões da maioria prevaleceriam legitimamente
na determinação das condições em que as porções do solo serviriam para cultivo, para
criar vias de comunicação, ou para outros usos. Hoje mesmo, embora a questão seja mais
complexa, pelo acrescentamento da propriedade privada, como o Estado continua sendo o
proprietário supremo - cada proprietário é, segundo a lei, um arrendatário da Coroa -
proprietário que tem direito a recuperar a posse, ou expropriar, pagando um preço
razoável, resulta que a vontade da maioria prevalece com referenda aos modos e condições
em que se pode utilizar o solo e o subsolo, o que implica certas convenções feitas em
favor do público com particulares e companhias.
Não é necessário dar detalhes, nem discutir os limites que separam estas diversas
categorias de casos, nem dizer o que entra em uma e é exclui do noutra. Para nosso
propósito, basta reconhecer a verdade inegável de que existem muitas classes de ações que
os homens, se fossem consultados, achar-se-iam muito longe de querer, unanimemente,
realiza-las, embora essa fosse a vontade da maioria; ao passo que há outras para cuja
realização consentiriam em concorrer quase unanimemente. Aqui, pois, achamos uma razão
definida para impor a vontade da maioria em determinados limites, e uma razão definida
para negar a autoridade dessa vontade além desses limites.
Porém, evidentemente, assim analisada, a questão resolve-se nesta outra: Quais são os
direitos respectivos do grupo e de seus membros? Serão validos, em todos os casos, os
direitos da comunidade contra o indivíduo, ou possui este alguns que prevaleçam contra a
comunidade? Do juízo que se faça sobre este particular, depende todo o entrelaçamento das
opiniões políticas, e, principalmente, das que se referem a esfera particular do Governo.
Quero, portanto, ressuscitar uma controvérsia que se tem esquecido, na esperança de
chegar a uma conclusão diferente da geralmente aceita.
Em sua obra "Relações do Estado e do trabalho", o professor Jevons diz: "O que primeiro
devemos fazer é arrojar de nosso pensamento a ideia de haver nas questões sociais algo
parecido a direitos abstratos". Em seu artigo sobre a propriedade literária "mister"
Mathew Arnold expressa opinião semelhante: "Um autor - diz - não tem nenhum direito
natural a sua obra". Ninguém tem, por conseguinte, nenhum direito natural ao que possa
produzir ou adquirir. Também li, recentemente, em um semanário de grande reputação:
"Demonstrar de novo que não existe nada que se possa chamar direito natural, seria perder
o tempo e filosofar em vão". E esta opinião é enunciada, geralmente, por homens de Estado
e por legistas, de uma maneira que implica que só as massas inconscientes podem ter
outras.
Talvez, essa declaração devesse ter sido feita em um tom menos dogmático, posto que se
sabe que toda uma escola de legistas, no continente, mantém opinião diametralmente oposta
á sustentada pela escola inglesa. A ideia do direito natural é a ideia fundamental da
jurisprudência alemã. E qualquer que seja o juízo que se tenha da filosofia alemã, não se
pode dizer que não vai ao fundo das coisas. Uma doutrina corrente em um povo que se
distingue por seu espirito de investigação, e cujos pensadores não podem ser colocados
entre os superficiais, não deveria ser eliminada como se se tratasse, simplesmente, de
uma ilusão popular. Porém, não insistamos mais nisto. A proposição que se nega nas
citações feitas, une-se a afirmativa de uma contraposição. Vejamos qual é, examinando-a
de perto e procurando os seus fundamentos.
Em Bentham, encontramos esta contraposta claramente expressa. Bentham nos diz, de fato,
que o Governo cumpre sua missão "criando direitos que confere aos indivíduos; direitos de
segurança para as pessoas; direitos de proteção para sua honra; direitos de propriedade,
etc.". Se esta doutrina se afirmasse como consequência do direito divino dos reis, não
haveria nela nada manifestamente ilógico. Se procedesse do antigo Peru, onde o inca era
"fonte de onde tudo emana", ou de Shoa (Abissínia) onde "o rei é dono absoluto das
pessoas e de todos os bens terrestres", ou do Dahomey, onde "todos os homens são escravos
do rei", seria bastante lógica. Porém, Bentham, longe de ser absolutista como Hobbes
escreveu a favor do governo popular. Em seu "Código Constitucional" coloca a soberania no
povo inteiro, arguindo que o melhor é "dar o poder soberano a maior parte dos que atuam
principalmente para fazê-lo o melhor possível", porque "esta proporção é mais conveniente
que qualquer outra para alcançar aquele fim".
Observemos agora o que acontece quando comparamos estas duas doutrinas. O povo soberano,
em seu conjunto, designa seus representantes e cria o Governo. O Governo assim criado,
cria direitos e os confere, separadamente, a cada um dos membros do povo soberano pelo
qual ele foi criado. Que maravilhosa obra de escamoteação política! Mister Mathew Arnold,
sustentando, no artigo já citado, que "a propriedade é uma criação da lei", diz que há
que se precaver do "fantasma metafísico da propriedade em si". Seguramente, de todos os
fantasmas metafísicos, nenhum mais parecido a uma sombra, que o que supõe uma coisa
criada por um agente que foi também criado, e conferida em seguida por este ao seu
próprio criador.
De qualquer ponto de vista que a consideremos, a proposição de Bentham é incompreensível.
O Governo, diz, cumpre sua missão "criando direitos". A palavra "criar" pode ser
entendida de duas maneiras. Pode significar o ato de tirar algo do nada, ou o de formar e
dar estrutura a uma coisa que já existe. Muitas pessoas creem que tirar algo do nada é
impossível, mesmo para um ser onipotente; e, provavelmente, ninguém afirmará que seja da
competência de um Governo humano. No segundo caso" o Governo humano cria somente no
sentido de dar forma ao que já existe. E, então, surge esta pergunta: "O que é isso que
preexiste e que o Governo forma? Evidentemente, toda a questão gira em torno da palavra
"criar" que ilude de certo modo o leitor. Bentham era muito escrupuloso no que respeita a
propriedade das expressões, e em seu "Livro dos erros" há um capítulo sobre "os termos
que induzem a equívocos". É curioso que, ele mesmo, nos subministre exemplo tão patente
do extravio de juízo que pode produzir um termo dessa índole.
Mas, prescindamos de todas estas proposições ininteligíveis, e procuremos a interpretação
mais sustentável da opinião de Bentham.
Pode-se dizer que a totalidade de poderes e direitos existe originariamente como um todo
indivisível em um povo soberano, e que este todo se confia, como dizia Austin, a um poder
governamental designado pelo próprio povo, que realiza a distribuição. Se, como vimos, a
proposição de que se cream direitos é" simplesmente, uma figura de linguagem, o sentido
inteligível da opinião de Bentham é que uma porção de Indivíduos, que, particularmente,
querem satisfazer seus desejos, e que possuem todos os meios para satisfaze-los, como
ainda a autoridade sobre todos os atos pessoais, nomeiam um Governo, o qual declara de
que maneira e sob que condições podem agir as atividades individuais para obter aquelas
satisfações.
Observemos o que isto implica.
Em cada homem ha que distinguir dois aspectos. Como homem privado, está submetido ao
Governo: como membro da sociedade, é uma parte do povo soberano que nomeia o Governo.
Isto é, que a título de homem privado lhe são conferidos direitos, e a título de membro
da sociedade, é um dos que, por intermédio do Governo, que contribuiu para eleger,
confere esses direitos.
Passemos do abstrato ao concreto, e vejamos o que contem esta definição.
Suponhamos que a comunidade consiste em um milhão de homens que, segundo nossa hipótese,
não são somente os coproprietários do país que habitam, mas, que tem também em comum a
liberdade de agir, ou de possuir, não se reconhecendo outro direito a todas as coisas
além do na comunidade. O que se deduz disto? Cada indivíduo, mesmo não possuindo nenhum
produto de seu próprio trabalho, é dono, como unidade do corpo soberano, da milionésima
parte do produto do trabalho dos demais. Esta é uma conclusão inevitável. Como o Governo,
segundo Benthnam, não é mais do que um agente, os direitos que confere, são direitos que
lhe foram confiados pelo povo soberano. Se isto é assim, esses direitos devem ser
possuídos em comum pelo povo Soberano antes do que o Governo, para cumprir seu mandato,
os confira aos Indivíduos, e cada indivíduo terá a milionésima parte de tais direitos, a
título de membro da sociedade, ao passo que não possuirá nenhum a título de homem
privado. Estes, unicamente os adquirirá quando os outros membros do milhão se reúnam para
conceder-lhes, ao mesmo tempo que ele se reúna aos outros, para concede-los igualmente a
cada um dos demais membros do milhão.
Assim, de qualquer modo que a interpretemos, a proposição de Bentham nos deixa em um
emaranhado de absurdos.
Mesmo ignorando a opinião adversa dos juristas alemães; mesmo sem uma análise que
demonstrasse a insustentabilidade de sua própria opinião, os discípulos de Bentham
poderiam ter tratado com menor ligeireza a doutrina dos direitos naturais. Em realidade,
diferentes grupos de fenômenos sociais se unem para provar que esta doutrina está bem
fundada, ao passo que a que se lhe opõe não tem fundamento.
Várias tribos, em diversas partes do mundo, mostram-nos que antes do nascimento de um
Governo definido, a conduta se regula pelos costumes. Os bechuanas, do Sul da África,
obedecem a "costumes reconhecidos há muito tempo". Entre os hottentotes koranna que
"suportam, mais do que obedecem a seus chefes, quando os antigos usos não o proíbem, agem
segundo o que lhes parece justo a seus próprios olhos". Os araucanos guiam-se unicamente,
"por usos primitivos e convenções tácitas". Entre os kirghises (Sibéria) os julgamentos
dos anciãos baseiam-se em "costumes geralmente reconhecidos". Dos dyacks, Rajah Broocke
nos diz: “Os costumes parecem, simplesmente, converterem-se em lei, e sua violação é
punida com multas". São tão sagrados os costumes imemoriais para o homem primitivo, que
jamais pensa em discutir sua autoridade; e quando se estabelece o Governo, seu poder se
acha limitado por eles. Em Madagascar, é bastante a palavra do rei "quando não há lei,
costume ou precedente". Raffles diz que em Java "os costumes do país restringem a vontade
do chefe". Em Sumatra tampouco "se permite aos chefes alterar os antigos usos".
Algumas vezes, como aconteceu entre os ashantees, “a tentativa de mudar certos costumes"
ocasiona a deposição do rei. Entre os costumes anteriores ao Governo, e aos quais se
subordina o poder deste, depois de seu estabelecimento, figuram os que reconhecem certos
direitos individuais: direito de agir livremente e de possuir determinadas coisas. Mesmo
onde o direito de propriedade é menos admitido, reconhece-se a propriedade das armas, dos
utensílios, dos adornos pessoais e, geralmente, esse reconhecimento se estende a muitos
outros objetos. Entre alguns índios da América do Norte, como os "serpens" que não têm
Governo, existe a propriedade privada dos cavalos. Entre os "chippeways" que não possuem
governo regular, a caça apanhada em redes privadas é considerada como propriedade
particular.
Fatos análogos referentes a propriedade individual das coisas, utensílios, etc. poderiam
ser citados, recorrendo-se aos relatos sobre os ahts, os comanches, os esquimós e os
índios do Brasil. Em vários povos não civilizados, o costume estabeleceu o direito ao
fruto que cresce no terreno que se cultiva, não, porém, ao próprio terreno. E os tódas,
que estão desprovidos de qualquer organização política, estabelecem distinção semelhantes
entre a propriedade do gado e da terra. Porém, mesmo sem procurar provas entre os povos
não civilizados, bastam-nos as que encontramos nas primeiras etapas da civilização.
Bentham e seus discípulos parecem ter olvidado que nossas leis não são mais do que a
fusão, em um só corpo, dos costumes do reino. As leis, de fato, não têm feito outra coisa
que dar forma definida ao que já existia. Assim, o fato e a teoria são absolutamente
contraditórios. O fato é que a propriedade era perfeitamente reconhecida antes da
existência da lei; a teoria diz que "a propriedade é criação da lei".
Outro gênero de considerações teria bastado para detê-los, se as tivessem estudado
devidamente. Se fosse certo, como sustenta Bentham, que o Governo cumpre sua missão
"criando direitos que confere aos indivíduos", isto implicaria no fato de não poder haver
uniformidade aproximativa nos direitos conferidos por Governos diferentes. Na ausência de
uma causa determinante, reguladora das decisões de todos, poder-se-ia apostar cem por um
em que estas apenas mal concordariam. Entretanto, existe, entre tais decisões, uma
concordância muito apreciável. Para qualquer lado que nos voltemos, veremos que os
Governos proíbem as mesmas espécies de agressões e, por conseguinte, reconhecem as mesmas
espécies de direitos. "Proíbem. geralmente, o homicídio, o roubo, o adultério; afirmam
dessa forma que os cidadãos devem ser postos ao abrigo de certos ataques. E, à medida que
a sociedade progride, a proteção se estende a direitos individuais menos importantes, e
são impostas reparações por violação de contrato, por difamação, por falso testemunho,
etc. Em uma palavra, a comparação mostra que os códigos, se diferem nos detalhes; de seu
desenvolvimento. concordam em seus pontos fundamentais. O que prova isso? Um acordo
semelhante não pode ser fortuito. Se existe, é porque a suposta criação de direitos
consiste unicamente em sancionar, formulando-os, e em definir, com mais precisão, os
direitos que derivam naturalmente dos desejos individuais dos homens que vivem em
sociedade.
A sociologia comparada mostra-nos, manifestamente, outro grupo de fatos de onde se pode
tirar a mesma conclusão. Com o progresso social aumenta para o Estado a tarefa, não só de
sancionar, formulando-os, os direitos dos indivíduos, mas também de os defender contra os
ataques de terceiros. Antes de que se constitua um Governo permanente e, em muitos casos,
depois de se haver o mesmo desenvolvido consideravelmente, os direitos do indivíduo são
firmados e defendidos por ele mesmo, ou por sua família. Nas tribos selvagens de hoje,
como nos povos civilizados de outros tempos, e mesmo nas regiões incultas da Europa
atual, o castigo de um assassinato é um assunto de ordem privada: "o dever sagrado de
exigir sangue por sangue, transmite-se a uma parte do grupo familiar". Do mesmo modo, nas
sociedades primitivas, o indivíduo, ou sua família, reclamam, arbitrariamente,
compensações para as agressões contra a propriedade, ou para as ofensas de outra classe.
Mas á medida que a organização social melhora, o poder central toma a seu cargo, cada vez
em maior escala, a missão de garantir a segurança pessoal dos indivíduos, a segurança de
seus bens, e, até certo ponto, a validade de suas pretensões estabelecidas em contrato.
Em sua origem, exclusivamente ocupado em defender a sociedade inteira contra outras
sociedades, ou em dirigir seus ataques contra estas, o Governo se foi encarregando, cada
vez mais, de proteger uns indivíduos contra os outros. Basta recordar a época em que o
porte de armas era uso constante, ou mencionar a maior segurança das pessoas e dos bens
de que hoje se goza, ou notar a facilidade com que se cobram as mais pequenas dividas,
para ver que cada dia se considera o Estado mais obrigado a assegurar a cada indivíduo a
livre satisfação dos fins da vida, dentro dos limites em que cabe essa satisfação em face
dos demais. Em outros termos: simultaneamente com o progresso social, não somente vai
sendo mais completo o reconhecimento do que chamamos direitos naturais, mas, também mais
efetiva a sua garantia pelo Governo, o qual tem o dever de velar, cada vez mais, pela
realização das condições essenciais ao bem-estar individual.
Outra mudança conexa e mais significativa ainda, acompanha a precedente. Nos primeiros
tampos, não somente o Estado não intervinha para proteger o indivíduo contra as
agressões, mas, ele próprio o agredia de muitas formas. As sociedades antigas que se
aperfeiçoaram o suficiente para deixar lembranças, tendo sido conquistadoras, mostram-se
em todas as partes com os traços do regime militante. Da mesma forma que, para organizar
eficazmente um corpo de combatentes, devem os soldados obedecer passivamente e nada fazer
sem a autorização de seus chefes, também para organizar eficazmente as sociedades
militares devem os cidadãos subordinar sua vontade. Os direitos particulares desaparecem
ante os direitos públicos e o indivíduo perde grande parte de sua liberdade de ação. Um
dos resultados disso é que o sistema de arregimentação, invadindo a sociedade da mesma
forma que o exército, acarreta minuciosa regulamentação da conduta. As prescrições do
chefe, que são sagradas, posto que se reputam emanadas de um deus, seu antepassado, não
são restritas por nenhuma concepção da liberdade individual, e regula as ações humanas
até nos menores detalhes: alimentação e maneira de prepará-la, a forma da barba, os
adornos dos vestidos, a semeadura do trigo, etc.
Esta intervenção geral que aparece em quase todas as antigas nações da Europa, mostra-se
também, amplamente, entre os gregos, e foi levada a seus últimos extremos na cidade
militar por excelência: Esparta. Do mesmo modo em toda a Europa, durante a idade Média;
época em que o estado de guerra era crônico, com as formas políticas e as ideias que lhe
são próprias, apenas havia algum limite a intervenção governamental. A agricultura, a
indústria, o comércio, estavam regulamentados em todos os seus detalhes, as crenças e as
práticas religiosas eram impostas, e os chefes decidiam quem tinha direito de vestir
peles, usar vasilhas de prata, publicar livros, instalar um pombal, etc. Mas com o
progresso das atividades industriais e a implantação do regime de contrato em
substituição ao da coação governamental, e com o desenvolvimento dos sentimentos conexos
a tal mudança, produziu-se (até a recente reação para o Estado militante) uma diminuição
dessa ingerência nos atos individuais. O legislador cessou gradualmente de regulamentar o
modo de fazer a colheita e foi aos poucos abandonando outras regulamentações. Em outros
termos, o direito do cidadão de agir sem obstáculos impôs-se em muitas atividades, às
pretensões intervencionistas do Estado. O Governo restringiu sua intromissão.
Porém, ainda não citamos todas as categorias de fatos que revelam a mesma verdade. As
próprias melhorias e reformas da lei o patenteiam, assim como as confissões e declarações
de seus autores. "Já no século XV - diz o professor Polack - um juiz de direito comum
declara que, assim como em um caso não previsto pelas ordenanças escritas, os
jurisconsultos imaginam uma regra nova em harmonia com a lei natural, que é o princípio
de todas as leis, a corte de Westminster pode e quer fazer o mesmo". Por outra parte,
nosso sistema de equidade, introduzido e desenvolvido para suprir as falhas do direito
comum, e para retificar suas injustiças, é inteiramente fundado no reconhecimento dos
direitos do indivíduo, que existem mesmo na ausência de toda autoridade legal. E as
mudanças que atualmente experimenta a lei, de tempos em tempos, depois de alguma
resistência por parte dos legisladores, verificam-se igualmente de acordo com as ideias
correntes acerca da equidade necessária, ideias que, em vez de derivarem da lei, estão em
oposição a ela. Por exemplo, a ata recente, que concede a mulher casada o direito de
propriedade sobre suas aquisições pessoais, tem sua origem, evidentemente, na consciência
de que a ligação natural entre o trabalho realizado e o benefício adquirido deve ser
respeitada em todos os casos. A lei reformada não criou o direito, mas, foi o
reconhecimento desse direito que originou a reforma da lei.
Assim, de cinco categorias diferentes de provas, surge este ensinamento: as noções
populares acerca dos direitos, por confusas que sejam, e embora inaceitáveis para muitos,
projetam, sem embargo, a luz de uma verdade.
Resta-nos agora examinar a fonte primitiva desta verdade. Falei anteriormente de um
segredo conhecido, ou seja, que todos os fenômenos sociais, se os analisarmos a fundo,
nos levam às leis da vida, e que é impossível conhece-los bem, se não nos referimos a
tais leis. Transportemos, pois, esta questão dos direitos naturais, do campo político ao
domínio da ciência: da ciência da vida. Tranquilize-se o leitor: os fatos mais simples e
claros bastarão. Examinaremos, primeiro, as condições gerais da vida individual, e,
depois, as da vida social. Veremos que umas e outras conduzem a mesma conclusão.
A vida animal supõe uma perda; toda perda exige reparação; a reparação implica nutrição.
A nutrição pressupõe, por sua vez, aquisição de alimentos; os alimentos não podem ser
obtidos sem faculdades de apreensão e, geralmente, de locomoção; e para que estas
faculdades possam exercitar-se é necessário que haja liberdade de movimentos. Encerrai um
mamífero em um espaço reduzido, ou amarrai-lhe as pernas, ou, ainda, tirai-lhe o alimento
que ele tenha encontrado: causareis a sua morte persistindo em qualquer desses
procedimentos. Mais além de certos limites, a impossibilidade de satisfazer essas
necessidades é fatal. O que aqui dizemos dos animais superiores em geral, é também
aplicável aos homens.
Se adotamos o pessimismo por crença, e com ele a consequência que implica em que sendo a
vida um mal, é necessário pôr lhe fim, não há base moral para os atos mediante os quais a
vida se sustenta. Todo o edifício rui.
Porém, se adotamos a doutrina do otimismo, ou a do progresso; se dizemos que, em suma, a
vida proporciona mais prazeres do que dores, então esses atos estão justificados, e a
liberdade de realizá-los tem sua razão de ser. Estima-se a vida como um bem? Nesse caso
não se deve impedir aos indivíduos as atividades necessárias para sustentá-la. Em outros
termos: se se admite que é "justo" não opor obstáculos a essas atividades, admite-se,
reciprocamente, que existe o direito de exerce-las. Sem dúvida alguma, a "concepção dos
direitos naturais", tem sua origem no reconhecimento da verdade de que se a existência é
justificável, deve haver uma justificação para o cumprimento dos atos necessários à sua
conservação e, por conseguinte, para as liberdades e os direitos que tornam possíveis
esses atos.
Mas, esta proposição, embora seja verdadeira com referência aos outros seres, com
referência ao homem não tem caráter moral. O caráter moral nasce somente com a distinção
entre o que é permitido ao indivíduo fazer, exercendo as atividades que sustentam sua
vida, e o que "não" lhe é permitido fazer. Esta distinção resulta, evidentemente, da
presença de seus semelhantes. Se os indivíduos se acham em contato imediato, ou pouco
separados entre si, os atos de uns podem influir nos dos outros, e se é impossível
demonstrar que alguns têm o poder de fazer o que querem, enquanto que outros não têm, é
preciso admitir uma limitação natural. O direito de visar fins particulares passará da
forma "não ética", á forma ética quando se haja reconhecido a distinção entre os atos que
podem e os que não podem ser realizados sem transgredir os limites.
Esta conclusão, estabelecida "a priori", é a que se obtém "a posteriori", quando se
estudam os atos dos povos não civilizados. Em sua forma mais vaga, a limitação mutua das
esferas de ação, com as ideias e os sentimentos conexos, manifesta-se nas relações mutuas
dos grupos entre si. Habitualmente, acaba-se por estabelecer determinados limites nos
territórios em cuja extensão cada tribo encontra o que necessita para viver, e se alguém
ultrapassar tais limites, será banido. Entre os wedhas dos bosques, que não têm
organização política, as pequenas tribos possuem sua parte respectiva da selva, e estas
divisões convencionais são sempre respeitadas.
A respeito das tribos sem governo da Tasmânia, diz-se que seus terrenos de caça estão
delimitados e os que violam tais limites expõem-se a ser atacados. E, manifestamente, as
querelas originadas entre tribos por intrusões reciprocas em seus territórios, acabam por
fim, por fixar limites e dar-lhes certas sanções. O que é certo a respeito dos
territórios, o é também acerca dos respectivos grupos de habitantes. Um homicídio em um
deles, atribuído a um habitante do outro, exige o cumprimento da pena sagrada de Talião,
e embora as represálias se perpetuem assim, evitam, todavia, novas agressões. Causas
semelhantes produziram fatos análogos nas primeiras etapas das sociedades civilizadas,
durante as quais a família, ou a tribo, tinha que se defender e defender suas
propriedades contra os outros grupos. As restrições mútuas que, segundo a natureza das
coisas, impõe uma comunidade a outra, são impostas igualmente dentro de cada comunidade
entre um indivíduo e outro, e as ideias e usos peculiares ao grupo, aplicam-se mais ou
menos nas relações entre os indivíduos. Embora haja sempre, em cada grupo, certa
tendência por parte do mais forte, a atacar o mais fraco, serve de freio na maior parte
dos casos, a consciência dos males resultantes de uma conduta agressiva.
Que a limitação reciproca das atividades origina as ideias e os sentimentos entendidos na
fórmula "direitos naturais", vemo-lo muito claramente nas tribos pacificas que só têm
Governo nominal, ou não o têm absolutamente.
Certamente, acha-se tão longe da verdade a suposta criação dos direitos pelo Governo,
que, pelo contrário, os já estabelecidos antes do aparecimento do Governo, tornam-se
menos evidentes a medida que este se desenvolve, paralelamente à atividade que, pela
captura de escravos e o estabelecimento da hierarquia, produz o Estado; e o
reconhecimento dos direitos, por sua vez, não adquire precisão senão quando o regime
militante deixa de ser permanente e declina o poder do Governo.
Se passarmos da vida dos indivíduos á das sociedades, surge a mesma conclusão. Embora
tenha sido o instinto de sociabilidade o que impeliu os homens primitivos a viver em
grupos, levou-os a isso, principalmente, a experiencia das vantagens obtidas com a
cooperação. Em que condições pode nascer essa cooperação? Evidentemente só na que os que
unem os seus esforços encontrem proveito individual. Se, como nos casos mais simples,
unem-se para fazer o que nenhum deles poderia fazer sozinho, ou se o fizesse, seria muito
dificilmente, a união se realiza com esta cláusula: ou que se repartirão os benefícios
(se se dedicam à caça, por exemplo), ou que, se um recolhe os benefícios em determinado
tempo (como numa cultura de terras) cada um dos outros recolherá, por seu turno,
benefício semelhante. Quando, em lugar de unir seus esforços para fazer uma mesma coisa,
executam coisas diferentes; quando nasce a divisão do trabalho, com a mudança dos
produtos, o acordo implica que cada qual, em troca do que possui em excesso, obterá o
equivalente, pouco mais ou menos, do que lhe falta. Se dá com uma mão e não recebe com
outra, deixará de atender as futuras propostas de troca. Voltar-se-á ao estado social
inteiramente primitivo, no qual cada um faz tudo para si. A possibilidade da cooperação,
pois, depende do cumprimento do contrato tácito ou explícito.
Esses fatos que se produzem necessariamente desde que se dão os primeiros passos para a
organização industrial, pela qual se sustenta a vida de uma sociedade, devem produzir-se
necessariamente, de forma mais ou menos idêntica, durante todo o seu desenvolvimento.
Embora em uma organização, segundo o tipo militar resultante da guerra permanente, as
relações baseadas em contrato sejam muito menos visíveis, existem, todavia, em parte. São
respeitadas mesmo entre os homens livres e entre os chefes dos pequenos grupos que formam
as unidades das primeiras sociedades, e, até certo ponto, são mantidas dentro desses
mesmos pequenos grupos, posto que sua existência como tais, implica que se reconheça a
seus membros, embora escravos, o direito de obter, em troca de seu trabalho, o necessário
em alimentos, roupas e proteção. E quando a cooperação voluntaria substitui
progressivamente a cooperação forçada, de acordo com a diminuição da guerra e o
desenvolvimento do comércio, quando a vida social, baseada em trocas estipuladas,
interrompidas durante certo tempo, se restabelece gradualmente, esse restabelecimento
torna possível a extensão e aperfeiçoamento da organização industrial, pela qual se
mantem uma grande sociedade.
De fato, quanto mais livres são os contratos, e mais segura a sua execução, mais visíveis
são os progressos e mais ativa a vida social. As perniciosas consequências da violação de
um contrato, não as sofre somente uma ou outra das partes contratantes. Em uma sociedade
adiantada, alcançam as classes inteiras de produtores e vendedores, que se formaram
graças à divisão do trabalho; em certas ocasiões, ninguém se livra de seus efeitos.
Perguntai sob que condições Birminghan se dedica a manufatura de ferragens, ou uma parte
de Staffordshire a cerâmica ou, ainda, Lancashire a indústria de tecidos de algodão.
Perguntai como os habitantes dos campos, que aqui cultivam o trigo e ali apascentam o
gado, encontram a possibilidade de se consagrar a sua tarefa habitual. Estes grupos
somente podem operar separadamente porque trocam entre si o excedente de seus respectivos
produtos. Essa troca não a realizam de uma maneira direta, mas, indireta, por meio da
moeda; e se averiguarmos como cada grupo de produtores obtém a moeda de que precisa,
veremos que é pela execução dos contratos.
Se Leads fábrica telas de lã e não recebe, por meio dos contratos, os meios de obter nos
distritos agrícolas, a quantidade de alimentos que lhe são indispensáveis, morrerá de
fome e cessará de produzir. Se o país de Gales funde o ferro, sem receber o equivalente
convencionado, que lhe dê os meios de procurar tecidos para se vestir, terá paralisada a
sua indústria. E assim em toda a parte, tanto em conjunto, como em detalhe. Esta mútua
dependência das partes, que observamos na organização da sociedade, da mesma forma que na
dos indivíduos, somente é possível, uma vez que cada parte, enquanto executa a espécie de
atividades a que se adaptou, receba a quantidade de material que necessita para se
refazer e se desenvolver, material que é produzido pelas outras partes, regulando-se a
proporção da distribuição por livre acordo. Ademais, o cumprimento do contrato estabelece
o equilíbrio entre a produção e as necessidades (consumo) fazendo com que sejam
fabricados muitos canivetes e poucas lancetas, que se semeie muito trigo e pouca
mostarda.
Por último devemos assinalar o fato, mais significativo ainda, de que a única condição
mediante a qual um grupo de trabalhadores pode aumentar os produtos de sua especialidade
de trabalho, quando a comunidade necessite maior quantidade deles, é que os contratos
sejam livres e que esteja assegurada a sua execução. Se no momento em que Lancashire não
pudesse, por falta de matéria prima, produzir a quantidade necessária de tecidos de
algodão, se interviesse nos contratos para impedir que Yorkshire exigisse preço mais alto
pelas suas telas de lã, uma vez que a procura era muito maior, ninguém se sentiria com
animo de aplicar seu capital nesta indústria, não se teria aumentado o material, nem o
número de operários, nem a produção, e, como consequência, a comunidade teria sofrido os
afeitos, não podendo adquirir aqueles tecidos, para cobrir a falta dos de algodão. Os
consideráveis prejuízos que podem resultar para uma nação o fato de não permitir a seus
membros contratar livremente entre si, tem-se visto muito bem pelo contraste entre
Inglaterra e França, na parte relativa às ferrovias. Em Inglaterra a liberdade concedida
ás iniciativas particulares, permitiu que grandes valores monetários e ótimas energias
individuais se dedicassem a exploração da indústria de transportes ferroviários, dando
como resultado imensos progressos nesse particular, em benefício da coletividade; em
França, pelo contrário, a visão estreita de seus legisladores, impediu esse progresso,
fazendo com que se atrasasse de muitos anos o desenvolvimento ferroviário no país, em
prejuízo da nação.
Que significam todos esses fatos? Significam que as indústrias, as ocupações, as
profissões que fornecem o necessário à manutenção da vida de uma sociedade, para
exercitar-se de uma maneira racional, e nas proporções convenientes, exigem em primeiro
lugar que não haja restrições à liberdade dos contratos, e, em segundo, que sua execução
seja assegurada. Como temos visto, a limitação reciproca é a única fonte das restrições
que se impõem naturalmente a atividade dos homens, quando formam sociedade; não pode
haver restrições, pois, para os contratos livremente feitos. Imiscuir-se neles é usurpar
os direitos a liberdade de ação que correspondem a cada um, quando os dos demais são
completamente respeitados. Por outra parte, como também temos visto, a garantia dos
direitos individuais implica a dos contratos, posto que a violação de um contrato é um
ataque indireto. Quando um comprador, colocado do lado do balcão, pede a um comerciante,
colocado do outro lado, que lhe forneça artigos de valor determinado, aproveitando-se da
distração do vendedor, sai, sem deixar o dinheiro que, tacitamente, convencionou pagar,
seu ato não difere essencialmente de um roubo. Em qualquer caso desse gênero o indivíduo
se vê privado de um objeto que lhe pertence, sem receber a importância equivalente. Gasta
sua atividade sem proveito, e é vítima da violação de uma condição essencial a manutenção
da vida.
Resulta, pois, que reconhecer e assegurar os direitos individuais, é, ao mesmo tempo,
reconhecer e assegurar as condições de uma existência social regular. Em ambos os casos
se trata de uma necessidade vital.
Antes de passar aos corolários que têm aplicação pratica, observemos como as conclusões
especiais já assentadas, se as examinarmos em ordem inversa, convergem para a mesma
conclusão geral.
Acabamos de ver que o que é condição indispensável para a vida individual, é, de um duplo
ponto de vista, condição indispensável para a vida social. A vida de uma sociedade,
depende da salvaguarda dos direitos individuais. Não sendo mais do que a soma das vidas
de seus cidadãos, a conclusão é evidente. Se consiste na multiplicidade das atividades
variadas que os cidadãos exercem, em mutua dependência, essa vida, composta e impessoal,
tem, na proporção que os direitos dos indivíduos são assegurados, ou negados, maior ou
menor intensidade.
O estudo das ideias ou dos sentimentos político-éticos dos homens, conduz a conclusões
análogas. Os povos primitivos de tipos diferentes mostram-nos que, antes da existência
dos governos, costumes de data imemoriais reconhecem os direitos particulares e
justificam sua permanência. Os códigos que se têm desenvolvido independentemente nas
diversas nações, coincidem em proibir certas transgressões referentes às pessoas, aos
bens, e a liberdade dos cidadãos, e essas concordâncias provam que a fonte dos direitos
individuais não é artificial, mas natural. Sucessivamente, e em proporção ao
desenvolvimento social, a lei formula com mais clareza e precisão os direitos
preestabelecidos pelos costumes. Ao mesmo tempo, o Governo se encarrega, cada vez mais
amplamente, de assegura-los. A medida que se faz mais protetor, o Governo se torna menos
agressivo, restringindo progressivamente suas ingerências no domínio dos atos privados.
Por último, da mesma forma que nos tempos passados as leis eram manifestamente
modificadas para se adaptarem às ideias de equidade correntes, assim, agora os
reformadores da lei são guiados pelas ideias de equidade ás quais a lei se deve
conformar, e não, de modo nenhum, dar-lhes nascimento.
Aqui, pois, temos uma teoria ético-política, justificada pela análise e pela história.
Que se lhe opõe? Uma teoria contraria que não se pode justificar. Por um lado,
comprovando que a vida individual e a vida social implicam a manutenção da relação
natural entre o trabalho e o proveito, comprovamos também que essa relação natural,
reconhecida antes da existência do Governo, foi se reafirmando, cada vez mais, pelos
códigos e pelos sistemas de moral. Por outro lado, a teoria contraria, que consiste em
negar os direitos naturais e em afirmar que estes são criados artificialmente pela lei,
não somente está desmentida pelos fatos, mas, ainda, destrói-se a si mesma: quando se
pede a seus defensores uma prova, respondem com toda a classe de absurdos.
Ainda há mais. O restabelecimento de uma concepção popular vaga em uma forma definida e
sobre base científica, conduz-nos ao conhecimento racional da relação existente entre a
vontade da maioria e a da minoria. Faz-se evidente, de fato, que as cooperações para as
quais todos podem livremente associar-se, e para cuja direção deve prevalecer
legitimamente a vontade da maioria, são cooperações relativas a manutenção das condições
necessárias à vida individual e social. A defesa da sociedade, em seu conjunto, contra os
inimigos exteriores, tem por fim remoto manter cada cidadão na posse dos meios de que
disponha para satisfazer seus desejos e na da liberdade que tenha para aumentar esses
meios. E a defesa de cada cidadão contra os inimigos interiores, desde os criminosos, aos
que causam prejuízos aos outros, tem, evidentemente, o mesmo fim, por todos desejado,
exceto pelos malvados e pessoas desordenadas. De onde se segue que, para a defesa deste
princípio vital, trate-se do indivíduo ou da sociedade, a subordinação da minoria a
maioria é legitima, contanto que isso não implique em outras restrições da propriedade e
da liberdade de cada um, mais do que as necessárias para a maior proteção dessa
propriedade e dessa liberdade. Ao mesmo tempo, resulta que tal subordinação não é
legitima além de determinado limite: isso implicaria em menoscabo dos direitos do
indivíduo mais do que o necessário para protege-lo, e seria uma violação do princípio
vital que se trata de defender.
Voltamos assim a proposição de que o suposto direito divino dos Parlamentos e o direito
divino das maiorias que implica, não são mais do que superstições. Tem-se abandonado a
antiga teoria referente a fonte de autoridade do Estado, não, porém, a crença na
ilimitacão dessa autoridade, que era o corolário legítimo daquela teoria, e que de modo
algum está de acordo com a nova. O poder absoluto sobre os súditos, logicamente atribuído
ao homem que governava, quando era tido como representante de Deus, atribui-se agora á
corporação que governa, da qual ninguém afirma ser delegada da divindade.
Talvez, nos oponham que a discussão sobre a origem e os limites da autoridade dos
governos não passa de pedantismo. "O governo - dir-se-á - é obrigado a empregar, para
aumentar a felicidade pública, todos os meios que possua, ou possa adquirir. Seu fim deve
ser a utilidade, e está autorizado a usar de todas as medidas necessárias para realizar
fins uteis. O bem-estar do povo é a suprema lei, e os legisladores não devem desobedecer
essa lei por considerações relativas a origem e extensão de seu poder".
Será um argumento de valor, ou pode ser facilmente refutado?
A questão essencial de que se trata concerne na certeza da teoria utilitária, tal como se
professa geralmente, e a resposta que se deve dar é que essa teoria, tal como geralmente
é professada, não é verdadeira. Os tratados dos moralistas utilitários, e os atos dos
políticos que consciente, ou inconscientemente, se inspiram neles, supõem que a utilidade
deve ser determinada diretamente pela simples inspeção dos fatos presentes e a
consideração dos resultados prováveis; mas, o utilitarismo bem entendido implica que se
tomem por guia as conclusões gerais que subministra a analise experimental dos fatos já
observados. "Nem os bons, nem os maus resultados podem ser acidentais; são as
consequências necessárias da natureza das coisas; e o objetivo da ciência da moral é
deduzir das leis da vida e das condições da existência, qual classe de atos tendem
necessariamente a produzir a felicidade e quais a desgraça". As doutrinas correntes dos
utilitaristas, como a pratica corrente dos políticos, testemunham um conhecimento
insuficiente das relações materiais da causalidade. Habitualmente, se pensa que, na
ausência de obstáculos manifestos, tudo se pode fazer de uma ou de outra maneira; e
ninguém cogita de saber se ao atuar de um ou outro modo, está, ou não, de acordo com o
curso normal das coisas.
As discussões precedentes terão mostrado, segundo creio, que os editos da utilidade, e,
por conseguinte, os atos do governo, não podem ser regulados pelo exame de fatos
superficiais e pela admissão do que nestes pareça significar "prima facie", senão em
razão e por dedução de fatos fundamentais. Estes fatos, aos quais devem referir-se todos
os juízos racionais de utilidade, são que a vida consiste em certas atividades e que se
sustenta por meio delas; e que, sendo forçoso que estas atividades se limitem
reciprocamente, entre os homens reunidos em sociedade, seu exercício deve ser livre
dentro dos limites assim criados, embora nunca além deles: defender esse exercício será,
por conseguinte, a função dos agentes que dirigem a sociedade. Se cada um, tendo a
liberdade de usar de suas faculdades até ao limite fixado pela liberdade idêntica dos
demais, obtém de seus associados, em troca dos serviços que lhes presta, benefícios que
se regulam por comparação desses serviços com os dos outros; se os contratos, geralmente
executados, proporcionam a cada um a parte determinada, e todos estão protegidos em sua
pessoa e em seus bens, de maneira que possam satisfazer suas necessidades com suas
rendas, acha-se a salvo o princípio vital, tanto da existência individual, como da
social. Ademais, o princípio vital do progresso social é igualmente salvaguardado, posto
que, em tais condições, os indivíduos mais capazes prosperam e se multiplicam mais que os
ineptos. Assim, pois, a utilidade, não avaliada empiricamente, mas, determinada
racionalmente, prescreve que se respeitem os direitos individuais, e, ao mesmo tempo,
proíbe tudo o que possa contrariá-los.
Aqui chegamos ao termo supremo no qual se deve deter a intervenção legislativa. Mesmo sob
a forma mais modesta, qualquer propósito de se imiscuir no exercício das atividades dos
cidadãos, desde que não seja para assegurar suas limitações reciprocas, é um proposito
para melhorar a existência, violando as condições normais da vida. Quando se impede a
certas pessoas que comprem cerveja para que outras não se possam embriagar, os que fazem
a lei prejulgam que resultará mais bem do que mal dessa intervenção na relação normal
entre a conduta e suas consequências, da mesma maneira para a minoria de intemperantes
que para a maioria de moderados.
O Governo que tira do povo uma parte de suas rendas para enviar às colônias indivíduos
que não foram bem sucedidos na metrópole, ou para melhorar as vivendas operarias, ou
criar bibliotecas ou museus, reconhece que, não somente no presente como no porvir, o
aumento do bem estar geral resultará da violação das condições essenciais para este bem
estar: a faculdade, para cada um, de gozar do bem estar que seus atos, realizados sem
constrangimento algum, possam lhe proporcionar.
Declarando que a propriedade é sagrada contra os ataques privados, não cuidamos de
averiguar se o benefício que obtém o faminto que se apodera de um pão é maior ou menor
que o prejuízo causado ao padeiro; consideramos, não os efeitos particulares, mas o
efeito geral produzido pela insegurança da propriedade. Mas, quando o Estado impõe
encargos ao cidadão, ou estabelece novas restrições à sua liberdade, somente examinamos
os efeitos diretos e próximos, olvidando-nos dos indiretos e remotos produzidos pela
usurpação continua dos direitos individuais. Não vemos que, pela acumulação de ligeiras
infrações desses direitos, as condições vitais da existência individual ou social chegam
a ser tão imperfeitamente cumpridas, que essa própria existência declina.
Sem embargo, a decadência assim acarretada torna-se visível onde se governa com excesso.
Aquele que estudar, nas obras de Taine e Tocqueville, o estado de coisas que precedeu a
Revolução francesa, verá que aquela terrível catástrofe teve por origem uma
regulamentação tão excessiva da atividade humana, até em seus novos detalhes, e uma
absorção tão exorbitante dos produtos dessa atividade em proveito do Governo, que a vida
se tornou quase impossível. O utilitarismo empírico daquela época, como o utilitarismo
empírico da nossa, diferia do utilitarismo racional em que, em todos os casos, somente
examinava os efeitos das intervenções particulares nos atos das classes particulares de
homens, olvidando os efeitos produzidos pela multiplicidade de semelhantes intervenções
na existência dos homens em geral. Se procuramos o que tornou possível então, e o que
torna agora possível esse erro, achamos que é a superstição política, segundo a qual o
poder governamental não deve ser submetido a nenhuma limitação.
Quando o "resplendor divino" que "rodeava o rei", e que deixou um reflexo em redor da
corporação herdeira de seu poder, tenha desaparecido completamente; quando se comece a
ver com clareza que, em uma nação onde governa o povo, o Governo é, simplesmente, um
comité de administração, ver-se-á também que este comité não tem nenhuma autoridade
intrínseca. Acabar-se-á inevitavelmente por estabelecer que sua autoridade foi recebida
dos que o designaram, os quais podem limita-la como julgarem conveniente. Ao mesmo tempo
se chegará á conclusão de que as leis que dita não são sagradas por si mesmas, e que tudo
o que têm de sagradas, devem-no inteiramente à sanção moral, a qual, como temos
comprovado, deriva das leis da vida humana, contanto que esta se desenvolva em meio das
condições próprias á existência social. E eis aqui o corolário: quando estejam
desprovidas desta sanção moral, nada têm de sagradas e podem, com direito, ser recusadas.
A função do liberalismo, no passado, foi pôr limites ao poder dos reis. A função do
verdadeiro liberalismo, no futuro, será limitar o poder dos Parlamentos.

POST SCRIPTUM

Devo esperar que esta doutrina seja acolhida favoravelmente? Quereria responder que sim;
porém, infelizmente, diferentes razões me obrigam a pensar que, de momento, somente algum
cidadão isolado poderá modificar seu credo político. Destas razões, uma delas engendra
todas as demais.
Esta razão essencial é que a restrição do poder governamental nos limites assinalados,
convém somente ao tipo industrial de sociedade; e que, absolutamente, incompatível com o
tipo militar da sociedade, o é parcialmente com o tipo semimilitar, semi-industrial, que
caracteriza hoje as nações mais adiantadas. Em cada fase da evolução social deve existir
uma harmonia completa entre as práticas e as crenças - aludo às crenças reais, não às
nominais - A vida não pode seguir o seu curso mais do que pela concordância dos
pensamentos e dos atos. Ou a conduta, obrigada pelas circunstâncias, modifica as crenças,
de forma que haja conformidade entre elas, ou a transformação das crenças modifica,
finalmente, a conduta.
Portanto, se a preservação da vida social exige, sob determinado conjunto de condições, a
extrema subordinação a um chefe e a mais completa confiança nele, estabelecer-se-á a
doutrina de que a subordinação e a confiança são uteis e mesmo obrigatórias.
Inversamente, se em outras condições não é necessária a submissão dos cidadãos ao
Governo, para a preservação da existência nacional; se, ao contrário, a vida nacional
ganha em intensidade e qualidade, á medida que os cidadãos adquirem maior liberdade de
ação, operar-se-á na doutrina política uma modificação gradual, que terá como resultado
minorar a fé na ação governamental, aumentando a tendência de pôr em dúvida a autoridade
oficial, impelindo á resistência, em maior número de casos, contra o poder. Esta
modificação trará, finalmente, o estabelecimento da limitação.
Assim, pois, não se pode esperar que a opinião governamental seja, atualmente, modificada
de uma forma considerável. Porém, examinemos a questão mais de perto.
Evidentemente, o êxito de um exército depende, em grande parte, da confiança dos soldados
em seu general; sé não creem em sua habilidade, isto bastará para detê-los na batalha, ao
passo que uma absoluta confiança no chefe fará com que todos realizem sua tarefa com
energia e valor. Se, como acontece em uma sociedade que se desenvolveu normalmente
segundo o tipo militar, aquele que governa durante a paz é o mesmo que comanda durante a
guerra, a confiança em sua superioridade no campo de batalha, engendrará a confiança em
sua superioridade como homem de Estado; e a sociedade, identificada com o exército em
muitos aspectos, aceita de bom grado os seus decretos como legislador. Mesmo onde o chefe
civil, deixando de ser chefe militar, exerce seu generalato por meio de um representante,
a fé tradicional permanece depositada nele.
O mesmo acontece quanto á diligencia para obedecer. Em igualdade de condições, um
exército de soldados indisciplinados é inferior a outro de soldados disciplinados. O que
obedece prontamente e em tudo a seu chefe, tem, evidentemente, mais probabilidades de
êxito na guerra, do que aquele que mal atende as ordens recebidas. E o que é certo a
respeito dos exércitos, é, igualmente com referência às sociedades, consideradas em seu
conjunto; necessariamente o êxito na guerra depende da submissão á vontade do governante
que recruta os homens, fornece o dinheiro quando é preciso, e regula tudo segundo as
necessidades do momento.
Assim como nos combates sobrevivem os homens melhor dotados, o tipo militar tem por
caraterística uma fé profunda no poder governamental, unida a adesão ao soberano, que
deve ser obedecido em tudo. Estabelecer-se-á, pois, pelos teóricos políticos de uma
sociedade militar, uma doutrina que formule as ideias e os princípios consequentes, o que
afirme ao mesmo tempo, que o legislador, se não é de natureza divina, está, pelo menos,
inspirado por Deus, e que a obediência absoluta que se lhe deve, é ordenada pelo próprio
Deus.
Uma mudança nas ideias e sentimentos característicos do tipo militar de organização,
unicamente se pode dar onde as circunstancias favorecem o desenvolvimento do tipo
industrial. Baseada na cooperação voluntária e não na cooperação forçada, a vida
industrial, tal como a conhecemos atualmente, habitua os homens a agir com independência,
os induz a fazer respeitar os seus direitos, ao mesmo tempo que respeitam os dos outros,
fortalece neles a consciência dos direitos pessoais, e os impele a resistir os excessos
da intervenção oficial. Mas, como as circunstancias que tornam menos frequente a guerra
se produzem muito lentamente, e como as modificações de temperamento que produzem a
transição da vida militar para a industrial, apenas se operam de forma insensível,
acontece que as ideias e os sentimentos antigos somente são substituídos por outros pouco
a pouco. Ha muitas razões pelas quais a transição é e deve ser gradual. Vejamos algumas.
No homem primitivo e no pouco civilizado, não existe ainda o caráter requerido para uma
cooperação voluntaria ampla. O fato de associar os próprios esforços voluntariamente, aos
de outras pessoas, para obter uma vantagem comum, implica numa perseverança que, nem um,
nem outro possui. Ademais, quando os benefícios esperados são remotos e pouco conhecidos,
como acontece com muitos, é necessária grande força de imaginação entre os que se põem de
acordo, imaginação, esta, que falta inteiramente aos homens não civilizados. Por outro
lado, as poderosas associações particulares, cujo fim é a produção em larga escala,
exigem uma subordinação hierárquica semelhante a produzida pela vida militar. Noutros
termos, não se chega ao tipo industrial desenvolvido, tal como o conhecemos agora, senão
passando pelo militar, o qual, pela disciplina, engendra a persistência nos esforços, o
consentimento em agir sob uma direção - não imposta, mas, aceita por contrato e o habito
de se organizar para alcançar grandes resultados.
Consequentemente, durante longos períodos da evolução social, necessita-se, para
administrar todos os assuntos, um poder governamental forte e extenso, que goze da
confiança geral e que seja por todos obedecido: daqui o fato, mostrado pela lembrança das
primeiras civilizações, e também pelo Oriente atual, de que as grandes empresas não podem
ser executadas senão pelo Estado; daqui, também, o fato da cooperação voluntaria não
poder substituir a forçada, e produzir, legitimamente, a diminuição na fé e capacidade do
Governo.
Sem embargo, esta fé se mantém sobretudo pela necessidade de conservar a aptidão para a
guerra. É preciso que o Governo possa, com o auxílio dessa confiança, e da subordinação
geral, dispor a vontade de todas as forças da sociedade, segundo as necessidades do
ataque e da defesa: de onde resulta uma teoria política que justifica a fé e a
obediência. Enquanto seus sentimentos e ideias sejam de natureza a pôr a paz em constante
perigo, os homens estão obrigados a ter a suficiente confiança na autoridade do Governo
para conceder-lhe o poder de coação necessário às empresas guerreiras; e essa confiança
naquela autoridade dá ao Governo, inevitavelmente, um poder coercitivo sobre os
indivíduos nas demais empresas.
Portanto, como temos dito a princípio, a razão fundamental para crer que não contará com
muitas adesões a doutrina exposta, é que, atualmente, só em parte temos relegado o regime
militar, e só em parte, da mesma forma, temos adotado o industrial, ao qual se aplica, em
realidade, esta doutrina.
Tanto tempo quanto a religião do ódio prevaleça sobre a do amor, sobreviverá, por
necessidade, a superstição política atualmente tão espalhada. Enquanto em toda a Europa a
educação das classes dirigentes consistir em fazer com que os jovens admirem, durante
seis dias da semana, os homens que realizaram grandes façanhas guerreiras, recordando-
lhes somente ao domingo o mandamento de depor a espada; enquanto essas mesmas classes
dirigentes estejam submetidas a uma disciplina moral, na qual os exemplos tornados do
paganismo entram na proporção de seis por um, e os preceitos do cristianismo somente na
de um por seis, não será possível que as relações internacionais se tornem de natureza a
tornar exequível a diminuição do poder governamental, e a modificação correspondente da
teoria política. Enquanto que, entre nós mesmos, a administração dos assuntos coloniais
continue de tal modo que as tribos indígenas sejam castigadas por haver usado de
represálias contra os ingleses, violadores de seus direitos, não seguindo seu próprio
princípio selvagem de vida por vida, mas, de acordo com nosso princípio aperfeiçoado de
matança em massa por um só assassinato, haverá poucas probabilidades de que seja aceita
uma doutrina política fundada exclusivamente no respeito aos direitos do próximo.
Enquanto a crença que se professa for interpretada de tal modo que, aquele que na
Inglaterra pronuncia discursos nas reuniões de missionários, e tratar, no estrangeiro, de
fomentar querelas com povos vizinhos com o fim de os submeter, não é verosímil que as
relações de nossa sociedade com as outras se tornem próprias para a aplicação da doutrina
da limitação das funções governamentais. Uma nação que, ocupada em disputas eclesiásticas
referentes ás cerimonias do culto, cuida tão pouco desse culto, estará exposta a sofrer
ataques internos de uns indivíduos contra os outros e do Estado contra os direitos dos
indivíduos. É impossível obter os beneficies da justiça no próprio país, quando se
pratica injustiça no estrangeiro.
Naturalmente, perguntar-se-me-á: "Porque, pois, enunciar e sustentar uma teoria diferente
da adaptada ao nosso estado atual?
Além da resposta geral de que todo aquele que considerar uma doutrina como verdadeira e
importante tem o dever de fazer o possível para difundi-la, sem se preocupar com os
resultados, há outras muitas particulares e cada qual mais satisfatória.
Em primeiro lugar, necessita-se sempre como guia, um ideal, por longínqua que pareça sua
possível realização. Se, entre todos os compromissos que, pelas circunstancias dos
tempos, são ou parecem ser indispensáveis, não existe concepção do melhor e do pior na
organização social; se nada se vê além das exigências do momento, e adquire-se o habito
de identificar o bem imediato com o bem definitivo, não pode haver verdadeiro progresso.
Por remoto que esteja o fim, e por muitos que sejam os obstáculos interpostos que nos
possam obrigar a desviar-nos do caminho que a ele conduz, é evidentemente indispensável
saber onde ele se encontra.
Em segundo lugar, se a atual sujeição dos indivíduos ao Estado, assim como a teoria
política correspondente, pode ser indispensável ante as relações internacionais
existentes, não é necessário de nenhum modo, aumentar e fortalecer a teoria a que se
adapta. Em nossa época de filantropia ativa, muitas pessoas desejosas de melhorar a sorte
de seus semelhantes menos afortunados pelos métodos mais rápidos, trabalham sem descanso
para desenvolver medidas administrativas que são próprias a um tipo inferior de
sociedade: propondo-se a avançar, retrocedem. As dificuldades normais com que tropeça o
progresso, são suficientemente grandes por si mesmas, e é lamentável que ainda se as
torne maiores. Por conseguinte, é muito útil mostrar aos filantropos que, em muitos casos
preparam seguramente a desgraça futura da humanidade perseguindo com entusiasmo seu bem-
estar atual.
O principal, sem embargo, é inculcar a todo o mundo a grande verdade, pouco conhecida
ainda, de que a política interior e a política exterior de uma sociedade estão ligadas
entre si, e que não pode haver melhoramento essencial de uma, sem correspondente
melhoramento de outra. Se queremos que a nossa organização interna esteja de acordo com
os princípios de justiça mais elevados, é preciso que em nossas relações exteriores
admitamos habitualmente esses mesmos princípios. Se pudesse ser difundida entre os povos
civilizados a convicção de que existe uma dependência desta espécie, reprimir-se-ia em
grande parte a conduta agressiva de uns para com os outros, e, como consequência, seria
diminuída a coação em seus sistemas de governo, produzindo mudanças correspondentes nas
teorias políticas.

FIM