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A palavra vício é usada para designar hábitos, manias e

costumes. Entretanto, o verdadeiro significado da expressão é


patológico. É preciso saber reconhecer quando uma atitude
torna-se realmente um problema.
Jornal-laboratório do Curso de Comunicação Social Unisul - Tubarão novembro 2007 2

Quando o hábito vira doença


Primeiro passo para largar o vício é admitir que se está doente e, em seguida, procurar ajuda
Texto de Laura Peruchi Mezzari Foto-montagem de Laura Peruchi Mezzari

A
palavra vício é usada
pelas pessoas para designar
diversos hábitos, manias ou
costumes. Entretanto, o verdadeiro
significado dessa expressão é patológico.
É preciso saber diferenciar quando
alguma atitude na sua vida torna-se
realmente um vício e como tratar dele.
Segundo o psiquiatra Bráulio Tercius
Escobar, o vício está relacionado a uma
região do cérebro, que se chama sistema
límbico. É nessa região que são liberados
hormônios, desencadeados por certas
situações. Tais hormônios, entre eles a
dopamina, proporcionam à pessoa a
sensação de prazer e bem-estar. “Essa
liberação pode ser feita de várias formas,
como o uso de substâncias químicas ou
outras atividades, como o jogo”, explica
Escobar.
O hábito torna-se um vício a partir
do momento em que passa a impedir a
pessoa de ter uma vida normal. “Ele se
constitui numa doença quando interfere que não sejam o vício e fazê-lo enxergar sintomas paupáveis e concretos no usados para esse fim. “Já os
no dia-a-dia do indivíduo, trazendo os prejuízos causados em sua vida. Mas corpo. “É preciso enfatizar os transtornos antidepressivos sim, estes podem
sofrimento. Ele precisa daquilo”, diz a a psicóloga alerta: é importante que a que o vício está causando na vida da causar dependência”.
psicóloga Cristina Machado Gouveia. O pessoa se dê conta do mal que o vício pessoa”.
vício atrapalha o repertório de vida: o lhe causa. “No caso específico da de- Quanto às medicações usadas nos Um mal sem cura
trabalho, o relacionamento familiar e o pendência química é muito comum que tratamentos, não há com o que se
relacionamento social. “Na maioria das o familiar do paciente o traga ao preocupar. “Elas não causam depen- Há quem diga, após um tratamento
vezes as pessoas só têm essa percepção consultório médico. Mas, se não for uma dência nem síndrome de abstinência”, de vício, que está curado. Isso é um erro.
quando já estão tomadas”, reforça necessidade do viciado, as chances de afirma Escobar. Cristina explica: os “A gente não fala em cura na medicina. A
Escobar. melhora e de um prognóstico positivo remédios que podem causar depen- gente fala em tratamento”, ensina
são muito menores, porque não advém dência são os que têm tarja preta e os Escobar. Por isso que se diz que um
Paciência e remédios de uma necessidade dele, mas de quem remédios que são usados para tratar de alcoólatra viverá nessa condição para o
convive com ele e sofre junto”. vícios têm a tarja vermelha, a mesma resto da vida. No seu cérebro, há uma
O tratamento de um dependente de um antibiótico, o que não causa memória registrada de que aquela
exige paciência e perseverança. “Cada Apoio da família dependência. “Além disso, a substância traz prazer. Se não souber
pessoa tem um comportamento é fundamental psicoterapia procura acompanhar o lidar com isso, ele volta a beber.
diferente, uma biologia diferente, uma paciente, percebendo qualquer reação Felizmente, os índices de melhora são
genética diferente e um meio social Quem está próximo do doente precisa adversa, para que o vício não seja significativos, chegando a 80%. “Só que
psicológico diferente. Então, não existe estar atento. Segundo Escobar, familiares substituído pelo remédio”. A psicóloga não há uma garantia de que a pessoa
uma receita para todo mundo”, diz e amigos que desejam dar apoio precisam diz que o que acontece é o uso nunca mais terá uma recaída”, afirma o
Escobar, explicando que cada caso deve buscar a maior informação possível indiscriminado desses remédios. No psiquiatra. Porém, quando isso acontece,
ser analisado pelo profissional isolada- sobre o tipo de vício e tratamentos. Brasil, muitas pessoas recorrem à auto- o estrago tende a ser pior. Existe um nível
mente. O mais indicado é a associação “Geralmente todo mundo tem um medicação, ou seja, usam a receita do de tolerância, que registra no cérebro a
de remédios, que, como no exemplo do dependente na família, um fumante, profissional pelo resto da vida, não última quantidade de droga ou álcool
álcool, inibem a vontade de beber, com alguém que bebe, só que se tenta fazendo um retorno ao consultório para suficiente para lhe trazer prazer. “Após
a psicoterapia, que procura estudar a esconder, deixar de lado, fechando os descobrir se aquele medicamento está o tratamento, o organismo está
personalidade do viciado. “O psicólogo olhos e passando a mão na cabeça. E aí surtindo efeitos. O bioquímico Daniel desintoxicado e se a pessoa voltar a
atua descobrindo o que levou a pessoa estamos concordando com a de- Duarte confirma a tese. “Esses remédios drogar-se, por exemplo, ela tomará por
a desenvolver o vício, qual a neces- pendência dele”, completa o psiquiatra. não viciam, pois são usados por um base o último registro. É assim
sidade que está por detrás disso”, fala Cristina enfatiza que o viciado precisa de curto período de tempo. A menos que a geralmente que acontece com as
Cristina. O processo consiste em apoio, pois é um sofredor psíquico e o pessoa continue tomando por anos, aí overdoses, levando à morte, porque o
mostrar ao paciente que existem outras vício é como uma doença invisível, não sim”. Duarte diz não saber de nenhum organismo estava diferente, estava mais
maneiras de atender essa necessidade como tantas outras que apresentam caso de alguém viciado em remédios sensível”.

Extra é o jornal-laboratório do Curso de Comunicação Social – Jornalismo – da Unisul, Campus Tubarão

Textos e fotos: Alunos do 6º Semestre/Prof. Cláudio Toldo | Edição: Alunos do 7º Semestre/Prof. Ildo Silva
Fale com a gente! Diagramação: Muriel Albonico, 8ª fase/Agcom | Capa: Arte dos alunos do 6º Semestre.
ESPAÇO DO LEITOR Coordenadora do Curso de Comunicação Social: Prof. Darlete Cardoso
O Extra precisa da sua opinião Coordenador do Jornal-laboratório: Prof. Cláudio Toldo
agcom@unisul.br
Impressão: Gráfica Soller
(48)3621-3303

Reitor: Gerson Luiz Joner da Silveira | Vice-Reitor e Pró-Reitor Acadêmico: Sebastião Salésio Curso de Comunicação
Herdt | Chefe de Gabinete e Secretário-Geral da Reitoria: Fabian Martins de Castro
Pró-Reitor de Administração: Marcus Vinícius Anátocles da Silva Ferreira
Social
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Brincadeira de péssimo gosto


Crack, maconha, cinco overdoses e seis anos de dependência. E tudo começou com um cigarro
Texto de Denise Maurício Claudiano lembra da cena como se que tive overdose, e que, deitado em mas esperamos que, com a
fosse hoje. Ele pegou os cinqüenta reais uma cama de hospital e cheio de conscientização nas mídias, esse índice
“Aos 13 anos comecei a pegar o da carteira de seu pai e foi logo trocar aparelhos, me dei conta de que tinha que se eleve, o quanto antes”, explica a
cigarro do meu pai, foi de brincadeira, e por crack, mas o traficante viu que a sair dessa, não por mim, mas pelos meus psicóloga.
quando me vi, aos 15, já fumava crack e nota era falsa e não vendeu a droga. pais. Destruí a vida deles, eles se
maconha”. Esse é o começo da história “Cheguei em casa furioso, precisava separaram por minha causa”. Da euforia à depressão
de Josué Claudiano Figueira, de 19 anos, fumar. A primeira coisa que vi em Quando o rapaz recebeu alta do
natural de Chapecó, oeste do estado de minha frente foi a tesoura de costura hospital, ele não pediu para ir para casa Segundo o dicionário Aurélio de
Santa Catarina. da minha mãe, peguei e fui logo como era de costume, pediu para seus Língua Portuguesa, “droga é toda
“Comecei a usar o crack primeiro do enfiando na barriga do meu pai. Meu pais o ajudarem, pois ele não agüentava substância entorpecente, alucinógena,
que a maconha. Não vou mentir, a Deus, me arrependo de tanta coisa. mais. Precisava de força e de ajuda para excitante, como por exemplo, a ma-
sensação é maravilhosa, mas depois Mas, quando a gente está sob o efeito lutar. Há dois anos, Claudiano está em conha, o haxixe, a cocaína, ministrada
bate o medo, a depressão”. da droga, podemos fazer muitas coisas uma clínica de recuperação na cidade por via oral, ou outras, com o intuito de
Claudiano conheceu a alucinação do que achávamos que não teríamos de Florianópolis e visita seus pais e que o usuário passe, primariamente e
crack em uma festinha de seu prédio. coragem. Vi meu pai ali caído na sala, parentes a cada dois meses. “Sei que é em caráter transitório, a um estado
Aos 14 anos, seus pais se mudaram para cheio de sangue, e a única coisa que difícil para nós. Ainda mais que sou pai psíquico que lhe pareça agradável”,
Imbituba e foi lá que se envolveu com pensei foi roubar a carteira dele”. dele, mas foi ele que nos pediu isso e sei porém a sensação agradável só dura
entorpecentes. “No começo era O adolescente usou todo o dinheiro que ele está feliz”, desabafa o pai alguns instantes e depois o usuário passa
maravilhoso, usava pouco, e o dinheiro que estava na carteira de seu pai. “Toda Claudino Josué Figueira, de 49 anos. a ter dores, sensação de sofrimento,
que meus pais me davam pra mesada a grana consumi em uma tarde, fiquei A cada dois meses a família faz uma depressão.
dava pra sustentar o meu vício”, revela. zonzo, tive uma overdose, a primeira festa para receber Claudiano. “É muito As drogas provocam alterações
Mas, no decorrer do tempo, o adoles- das cinco ao longo do meu vício. bom saber que posso contar com minha mentais, físicas e emocionais. O usuário
cente começou a aumentar o consumo Quando acordei estava amarrado em família, tive muita força de vontade e de drogas torna-se dependente
e o dinheiro da mesada não supria seu uma maca e meu pai me olhava, não sei hoje estou limpo, não fumo e não bebo. químico, ou seja, necessita ingerir a
vício. “Comecei a pegar presentes que se com ódio ou temor. Foi lamentável o Sou feliz e agora quero estar totalmente droga da qual se tornou escravo.
eu ganhava no meu aniversário e no estado em que eu estava”, desabafa. recuperado pra poder contar um pouco Sabemos que não são só as drogas
Natal e ia trocar por míseras pedras, mas Claudiano jurou que não voltaria da minha vida para todos”. ilegais que causam dor, sofrimento e
depois vi que não dava mais. Eu mexia mais a fumar crack, mas não conseguiu Essa história teve um final feliz, vício. Porém são as drogas ilícitas que
na bolsa da minha avó, na carteira do cumprir, pois as crises de abstinência porém, segundo a psicóloga Ana Maria mais afetam a vida do usuário.
meu pai, até o dia em que meu pai eram terríveis para o usuário. “Não de Ferreira, somente 35% dos usuários Maconha, cocaína, crack, ópio, lança
desconfiou e colocou uma nota falsa na conseguia me controlar diante das de drogas conseguem se recuperar. “É perfume, extasy, LSD são algumas das
carteira”. crises, mas lembro que foi na quinta vez uma pena que o índice ainda seja baixo, drogas ilegais.

Trabalho religioso liberta jovens


Texto de Jailson Vieira “Existem três diferentes áreas para o dependente a se reorganizar. “O índice coisa e, principalmente, em Deus”,
trabalho com os dependentes quími- de recuperação da entidade é de 20% comenta.
Na cidade de Tubarão existe o cos, uma delas é que seus familiares a 30%, considerado um índice bem alto
Movimento Porta Aberta, mantido também são considerados como co- no Brasil”, garante o religioso. Portas abertas para
pelas prefeituras de Tubarão e Capivari dependentes químicos”. O padre destaca que há casos em o tratamento
de Baixo, e também pela ajuda da Semanalmente, toda terça-feira, às que as pessoas participam de duas ou
comunidade. O movimento é uma 20h30min, há uma reunião com a três reuniões e acham que já estão A instituição Porta Aberta tem
entidade que auxilia na recuperação presença do paciente e da família, com curadas. “Não é bem assim, não basta capacidade para abrigar 14 internos,
de pessoas que possuem algum tipo de objetivo de desenvolver o trabalho ir apenas em algumas reuniões e achar mas no momento estão com sete
vício e que desejam procurar cura conjunto. Nos encontros, que duram que já obteve a cura”. pacientes em tratamento. Muitos
espiritual para largá-lo. O local fica em cerca de duas horas, os mais de 15 O estagiário do curso de Psicologia deles chegam à entidade levados por
Pouso Alto, divisa entre os municípios dependentes são atendidos em uma Marcelo Ghizzo desenvolve um algum familiar ou por ordem judicial.
de Tubarão e Gravatal, e atende sala e os familiares em outra. trabalho no Porta Aberta, e afirma que Mas há os que vão por vontade
moradores desta região. a cura do vício não existe. Ele observa própria, pela necessidade de mudar
As instalações ficam numa fazenda, Trabalho, oração e que existem três tipos de usuários: o de vida.
que serve de local de moradia para os disciplina para a cura ocasional, o problema e o dependente Lá são tratados pacientes de 18 a
pacientes em tratamento e possui uma químico. O usuário ocasional é aquele 50 anos. Os que estão na faixa dos 18
boa estrutura com três quartos, sala A paciente em tratamento A.D., 20 que usa a droga de vez em quando, ou a 25 anos são tratados pelo uso de
de estar, sala de reunião, almoxarifado, anos, conta que vem participando das seja, que faz o uso social. O usuário drogas ilícitas. No geral, de cada 10
cozinha, capela e campo de futebol, reuniões há um mês. “Desde então não problema é aquele que perde o pacientes, dois ou três são tratados
além do banheiro. Na entidade, o coloquei mais uma gota de álcool na controle financeiro e psicológico. Já o pelo vício do álcool e sete pela
viciado fica por cerca de 90 dias, sendo boca e nem usei outros tipos de drogas. dependente químico é aquele que não problemática das drogas ilegais.
que nos primeiros dois meses ele fica É uma grande obra que vêm sendo feita consegue mais viver sem as drogas. O Movimento Porta Aberta
em tratamento sem receber nenhuma na minha vida”, revela, lamentando Em todo o estado catarinense, trabalha com o método psicossocial,
visita e não pode ter nenhum tipo de não ter conhecido o movimento existem muitos centros de recu- analisando o lado psicológico do
contato com familiares ou amigos. anteriormente. peração que estão ligados a alguma paciente e devolvendo-o à socie-
Depois disso, pode passar três dias em De acordo com padre Sérgio, para igreja. Os pacientes não buscam dade. Ghizzo avalia que 10% das pes-
casa e volta para a entidade para os adictos foi planejado um programa apenas a cura dos vícios, mas soas que se recuperam o fazem por
concluir o tratamento e lá permanece baseado no tripé: trabalho, oração e também a cura espiritual. No puro desejo de obter a libertação do
por mais 30 dias. disciplina. O trabalho serve para que o entendimento de Ghizzo, não existe vício. Para ele, “não basta somente
Segundo o pároco da capela de dependente possa se desintoxicar; a viciado, e sim dependente químico combater a doença do vício, temos
Humaitá, padre Sérgio Jeremias, que oração “porque nada pode ser resol- ou adicto, como eles se referem aos que cuidar também do psicológico
também é um dos diretores do vido sozinho – é preciso ser colocado internos da entidade. “Viciado é um para que o internado não possa a vir
Movimento Porta Aberta, o trabalho nas mãos de um ser superior, que é termo muito forte. Se fores analisar a desenvolver também um estado de
envolve a família do dependente. Deus”; e a disciplina porque ensina o todos somos viciados em alguma depressão”.
4 Jornal-laboratório do Curso de Comunicação Social Unisul - Tubarão - novembro 2007

Texto de Ednilson Perdoná


Apesar das estatísticas, largar
junho de 1990. “Foi um momento muito residente na comunidade de Santana, na moda. Por isso fumava até duas
especial, por isso sempre vou lembrá-lo. Urussanga, experimentou o primeiro carteiras de cigarro por dia. Ao parar
Vícios diferentes, porém algo em As decisões acertadas da nossa vida não cigarro aos 16 anos. Mas, não conseguiu com o vício fez um propósito que foi
comum marca a vida de Anita, João podem ser esquecidas. Quando fui me se firmar no vício. A única experiência difícil cumpri-lo. “Prometi para mim
Cristóvão, Arcângelo e Robson. Para eles, casar, fumei meus últimos cigarros. O foi simplesmente frustrante. “Meu pai mesmo que fumaria somente dois
cigarro e álcool, drogas lícitas, apesar do penúltimo na estrada a caminho da Igreja fumava. Meus amigos também e eu achei cigarros por dia. Um ao deitar e o outro
fácil acesso e de escravizarem milhares de Treze de Maio e o último ao descer do que podia imitá-los. Tentei. Mas não ao levantar. Mas a ansiedade era tão
de pessoas de diferentes idades e pro- carro. Na porta da igreja. Uma decisão consegui acompanhá-los. Felizmente foi forte que cheguei a ir dormir até mais
fissões, podem ser abandonados. acertada. Por largar o cigarro nunca me uma experiência frustrante. Não conse- cedo que o habitual para satisfazer a
No Brasil, 25 milhões de pessoas arrependi”, brinca. gui tragar o primeiro cigarro. Ao experi- vontade de tragar o cigarro mais
fumam e outras 20 milhões querem parar Para alimentar o vício, Anita chegou a mentá-lo passei mal. A fumaça me rapidamente”, lembra. Arcângelo
e não conseguem. Esta realidade para a queimar até duas carteiras de cigarro por sufocou e fiquei com medo. Acho que deixou do vício por vontade própria e
artesã e empregada doméstica Anita dia e nos finais de semana esta realidade isto aconteceu porque fumar não era hoje sente-se incomodado com o cheiro
Carara De Pieri, 47 anos, moradora do subia para até seis carteiras. “Vivi uma mesmo coisa pra mim”, sorri. da droga usada por pacientes que são
bairro Coloninha, Orleans, é diferente. grande ilusão. Hoje percebo que perdi O fracasso não deixou João insa- atendidos em seu consultório médico.
Anita foi fumante até os 36 anos. Tudo tempo e saúde, pois o fumante não tisfeito. Fumar não faz bem para a sua “Para me livrar do odor tomo até três
começou aos 22 anos, quando por in- percebe o mal que o cigarro lhe faz. Hoje saúde e para o bolso, pois quem tem este banhos diários, pois no meu consultório
fluência de sua cunhada experimentou o nem sinto falta do vício que por muito vício sabe que custa caro para alimentá- médico não impeço o cliente de fumar.
primeiro cigarro. tempo foi o meu mau companheiro. Acre- lo. “Com o dinheiro de uma carteira de
“Achei que fosse bom. Muito bom. Por dito que o fumante que quiser largar o cigarros é possível encher o bolso de Bebida faz parte da
isso outros cigarros foram sendo tra- cigarro pode fazer o mesmo. Simples- balas e sair com um gostinho. Por causa cultura nacional
gados. Eles controlavam a minha ansi- mente abandoná-lo. É uma questão de do cigarro, sei que não vou morrer tão
edade e me passavam uma sensação de vergonha na cara e de amor à vida”, cedo”, conta feliz. João trabalha há 18 O consumo de álcool é uma questão
bem-estar. Uma ilusão. Um vício que aos argumenta. anos de motorista em transporte cole- central na saúde pública brasileira.
poucos foi me dominando e que só tivo e encerra suas atividades diaria- Pesquisas feitas no Brasil indicam que
consegui abandoná-lo aos 36 anos”, Influência negativa do pai mente às duas da madrugada. 11,2% da população fecham diagnóstico
conta alegre por abandonar a droga. Já, o médico pediatra Arcângelo para dependência de bebidas alcoólicas.
A decisão confirmou-se no dia do seu Influenciado pelo pai, o motorista de Librelato, 54 anos, fumou dos 18 aos 30 O uso delas está inserido na cultura
casamento. Eram 16 horas do dia 23 de ônibus João Cristóvão Jacinto, 46 anos, anos. Começou quando fumar era estar brasileira. Faz parte de festividades. É

Quando a vontade de viver fala mais alto


Texto de Arthur Silveira Lessa trabalha, como responsável pela manu- condições de exercer minhas funções e eventos. Após este período, voltou a
tenção dos computadores e equipa- peguei a estrada para Balneário Cam- trabalhar normalmente.
Numa festinha entre amigos, um mentos da fábrica. “Depois de três boriú, por medo da decepção que “O apoio da família foi muito im-
happy hour da empresa, casamentos, horas sem álcool, o corpo já reclamava pudesse causar à família. Chegando lá, portante, tanto dos irmãos quanto da
aniversários, churrascos, baladas. Não e vinha a ressaca. Poucos notavam o pensei bastante sobre o rumo que minha esposa e cunhados”, lembra.
são poucas as situações alegres e meu problema na empresa porque o minha vida tinha tomado e, na volta, Segundo ele, foram seis meses críticos,
descontraídas do cotidiano em que be- ambiente é bastante amplo, e o cheiro procurei pela Marilene”. quando teve que evitar ao máximo lo-
bidas alcoólicas estão presentes e, por dispersava rápido”, lembra ele. Após dar o passo mais importante cais onde pudesse haver o contato com
esta razão, muitas vezes ela é associada Felizmente ainda havia tempo para no processo de reabilitação, que é bebidas e uma possível recaída. Após
à felicidade e bem-estar. E é aí que reverter a situação, após incessantes admitir o problema e pedir ajuda, Pau- dois anos, segundo ele, se sentiu
começa o perigo. avisos de amigos e familiares. “Eu nunca linho foi submetido a exames labora- completamente recuperado e livre
Como aconteceu com Paulo Eduardo bebia até cair. Meu problema não era a toriais e 15 dias de férias para desin- deste fantasma. “Hoje em dia eu acho
Silveira, que lutou contra a depen- quantidade, e sim a rotina. E era essa toxicação na Clínica Predec, do Hospi- que posso até tomar uma dose sem ter
dência do álcool por cerca de cinco rotina que estava começando a tal Bom Pastor, aonde ia pelos períodos nenhum problema. Mas e se eu quiser
anos, e há 12 anos se considera um atrapalhar inclusive o meu trabalho”. da manhã e tarde, e ia para casa para ver se duas também não dá nada? E
vitorioso, por conseguir se livrar do dormir. Lá ele era tratado com vitamina então três e daí por diante... Prefiro não
vício e sem precisar deixar de lado Na cara e na coragem B, assistia a palestras e participava de arriscar”.
nenhuma festa para a qual é convidado.
A história de Paulinho, como é A primeira investida contra o vício
conhecido entre a família e os amigos, aconteceu por conta própria em 1991,
com as bebidas alcoólicas, teve início quando ficou um mês sem beber.
bastante parecido com a de vários jo- Infelizmente, nesta tentativa, o tiro saiu
vens de hoje em dia. Aos 13 anos ia com pela culatra. “Eu fui na cara e na cora-
amigos a um bar próximo para beber gem mesmo. Mas pelas companhias que
após a aula. Por nunca ter gostado eu ainda cultivava, acabei não tendo
muito de cerveja, eram os destilados sucesso. Além disso, eu fumo desde os
que ele bebia. 18 anos, e nessa época eu tava fumando
um atrás do outro”. Durante este
Uma dose antes de ir período, ele sofria de insônia, delírios,
para a cama irritação e tremedeiras. E na volta ao
bar, a situação piorou consideravel-
Perto dos 30 anos de idade, após 15 mente. Foi um ano bebendo direto e
anos bebendo, ele começou a sentir que muito. Até que, no dia 6 de outubro de
o hábito já estava atrapalhando o seu 1993, ele foi falar com Marilene,
dia a dia. Começou a beber três doses assistente social da Portinari na época,
toda noite para dormir, além de sentir com um pedido desesperado de ajuda:
fraqueza e tremedeira, que só passavam Eu preciso parar de beber! Essa
com duas doses, que tomava depois do revelação aconteceu após um episódio
almoço para conseguir trabalhar pela bastante marcante. “Peguei o carro
tarde na Cerâmica Portinari, onde ainda para ir trabalhar. Vi que não tinha
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o cigarro e o álcool é possível


uma doença incurável, mas controlável, irmandade que Robson procurou ajuda os fumódromos. Para isso, propõe que
pessoas em 107 cidades brasileiras,
segundo especialistas. O descontrole para libertar-se da ilusão. “Hoje, graças envolvendo mais de 200 profissionais. o governo envie ao Congresso um proje-
emocional faz as pessoas buscarem a ajuda de Alcoólicos Anônimos, posso O levantamento analisou a preva- to de lei. Temporão lembra que, em
alternativas para superar o medo. dizer que às vezes o usuário de drogas lência das duas substâncias mais utili- artigo publicado em maio deste ano, a
Muitas vezes buscam no vício uma não se vê. Por isso era preciso que al- zadas em nossa sociedade: o álcool e o Organização Mundial da Saúde (OMS),
solução que não virá. guém me apontasse o caminho. Precisei tabaco. O álcool já foi utilizado pelo me- aponta o Brasil como o país que mais
O estudante de Museologia do Centro de alguém que me ajudasse a deixar de nos uma vez na vida por 69% da popu- reduziu o número de fumantes nos últi-
Universitário Barriga Verde (Unibave), beber. Por isso hoje aprendi que é lação brasileira. O índice chega a 77% mos dez anos.
Orleans, Robson Romagna Lunardi, 38 preciso fazer o propósito de por somente entre os homens e é de 60% entre as mu-
anos, experimentou a bebida alcoólica 24 horas não beber. E isso a gente renova lheres. Cerca de 11% dos entrevistados Brasil firma compromisso
ainda criança. Depois com o passar dos a cada 24 horas. Hoje estou sóbrio. Não referiram ter apresentado dependência contra fumaça de tabaco
anos, transformou a experiência num uso bebida alcoólica desde o dia 29 de de álcool em algum momento de suas
vício que lhe dominou até os 30 anos de outubro de 1999. Meu vício começou vidas. O cigarro foi utilizado por 41,% dos O projeto de lei que proíbe os
idade. “Para deixar de beber precisei estimulado pela família, pois meu pai entrevistados, sendo 46% entre os fumódromos confirma a decisão
buscar ajuda. Foram muitos anos de oferecia uma colher de caipirinha e eu homens e 36,6% entre as mulheres. Os unânime dos 146 países representados
uma experiência que não vale a pena. gostava. Fui dominado com o passar dos maiores de 35 anos foram os que mais na II Conferência das Partes realizada
Eram acontecimentos que me deixavam anos e hoje estou arrependido. Mas, feliz- utilizaram: 53%. A dependência foi entre os dias 30 de junho e 6 de julho na
com vergonha de mim mesmo. E eu não mente consegui estacionar a doença”, relatada por 9% dos entrevistados. capital da Tailândia, Bangkok. No en-
sabia que esta droga viciava tanto e justifica. No Brasil, 200 mil pessoas morrem contro, o Brasil e demais países que ra-
deixava o sujeito tão desacreditado”, por ano de doenças relacionadas ao fu- tificaram o Tratado Internacional da
conta com tristeza. Drogas mais consumidas mo. Pesquisas mostram que o percen- Organização Mundial de Saúde firmaram
O alcoólico perde a oportunidade de são as lícitas tual de fumantes que quer deixar o vício o compromisso de adotar ambientes
viver de forma harmoniosa na socie- sempre supera os 60%. Nos Estados livres da fumaça do tabaco.
dade. Quando está dominado pela O Centro Brasileiro de Informações Unidos e na Grã Bretanha, essa taxa é de As orientações aprovadas determi-
bebida, geralmente transforma a vida sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) 75% e 73%, respectivamente. nam a direção que os governos devem
numa guerra. A tranqüilidade é abalada. publicou em agosto de 2001 o I Pensando nas pessoas que não seguir e reforçam o fato de que
Mas para ajudar quem quer abandonar Levantamento Domiciliar sobre Uso de fumam, o ministro da Saúde, José Gomes ventilação e filtragem do ar não são
este vício existem os Grupos de Drogas Psicotrópicas no Brasil. Temporão, defende que sejam elimi- suficientes para reduzir a exposição
Alcoólicos Anônimos (AA) e foi nesta O estudo entrevistou mais de 8500 nadas as áreas destinadas a fumantes, passiva aos malefícios da fumaça.

Um novo modo biliza a conversar e ajudar quem


de ver o mundo estiver passando pelo mesmo dra- Foto-montagem de Muriel Albonico
ma, já tendo ministrado palestras
Hoje ele vive normalmente, não na Portinari, à qual tem imensa
se priva de nenhuma festa ou gratidão pelo apoio. “Eles podiam
qualquer reunião social, participa simplesmente me demitir. Mas
de todas as rodas de conversa, viram que eu ainda tinha volta e me
sempre acompanhado pela sua fiel deram auxílio”.
lata de água tônica, e se disponi-
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As diferentes formas de se viciar


As maneiras que o vício vai entrar na vida das pessoas são muitas, e a cura não é tão fácil
Texto de Daniéli H. Antonello “defeitos” de Mendes, até porque certos tipos de alimentos possuem um comunidade quando os pais não sabem
naquele tempo a bebida era moderada. nível de teor alcoólico que devem ser mais o que fazer e a quem recorrer.
O galo já cantou, os pássaros estão Na família da jovem todos gostavam de evitados sempre, mesmo que o paciente “Domingo desses, eu estava saindo para
cantando, o barulho dos carros e os Paulo: era brincalhão, inteligente e, sem já tenha passado por internações. “Sagu, almoçar e encontrei um pai no portão
raios de sol indicam que o dia ama- dúvida, tinha o principal requisito, o de chocolates de licor e saladas com desesperado. Convidei-o a trazer seu
nheceu, e, logo em seguida, o desper- ser “um bom partido”, pois naquela vinagre são os principais alimentos que filho para o nosso meio, mas com certeza
tador de Nelson, programado para época quem estava no serviço militar o paladar reconhece antes mesmo de o adolescente não topou”, comenta
acordá-lo às 7 horas, irá tocar. É assim só tinha tendência de crescer dentro da serem ingeridos”, explica Júnior. Jorge.
que começa o dia do acadêmico do corporação.
último semestre de engenharia química, Enfim o dia tão esperando chegou: Desafio Jovem Valor nas coisas simples
Nelson Hartmam Júnior. Às 7 em ponto em 22 de maio de 1976, Paulo e
ele salta da cama para poder fazer todas Elizabete se casaram. No dia da união Comportamentos estranhos, notas Todas as atividades, como lavar,
as atividades antes de enfrentar a ele não colocou uma gota de álcool na baixas na escola e agressão verbal ou passar, cozinhar e limpar, são os
maratona do trabalho, que começa às 9 boca. “Eu fiquei muito nervoso, sabia física são sinais de que alguma coisa está próprios jovens que desempenham. “O
horas. que era um grande dia e queria estar errada. P.J.S., de 64 anos, passou por nosso objetivo é mostrar para essas
Com 25 anos e há cinco morando ‘normal’”, comenta Mendes. um sufoco quando descobriu que seu pessoas que elas tinham tudo isso lá fora
sozinho, Nelson já tem uma rotina No primeiro domingo do casal, filho usava drogas. “Quase não acreditei, e que não deram valor”, ressalta Jorge.
definida e bem diferente da de seus pais Elizabete ficou em casa com sua mãe e não poderia ser verdade, eu sempre Na comunidade há horário para
em sua idade, e muito parecida com a Mendes saiu com os amigos para conversei com ele, sempre fomos uma tudo, ninguém faz o que quer. Existe um
de milhares de jovens brasileiros. Logo comemorar em um bar do bairro. “Eu família unida”, desabafa o taxista que certo tipo de tolerância nos primeiros
ao acordar, antes mesmo de tomar sai por volta de 16 horas de casa e só me levou até o Desafio Jovem de 15 dias, depois o jovem precisa se
banho, escovar os dentes ou tomar o retornei às 5h15min da manhã de Tubarão. acostumar com as regras, normas e
café da manhã, ele liga o computador. segunda-feira. Foi nesse dia que a família No decorrer do caminho - que são horários.
Ler notícias? Receber informações de de Elizabete percebeu o ‘partido que eu nada mais do que oito quilômetros do Além do convívio com outras
um amigo ou parente no exterior? Que era’”, desabafa Mendes. centro da cidade de Tubarão -, ele pessoas que já passaram pelas mesmas
nada. É para acessar um dos vícios mais A partir deste dia, todos os outros contou como foi a descoberta e a experiências, os jovens têm acesso uma
poderosos e instantâneos da geração foram assim: seu Paulo nunca deixou de aceitação da família. “O meu filho já vez por semana a conversas com
atual. “Orkut e Msn”. Júnior conta que trabalhar e também nunca deixou faltar tinha 20 anos, estava na faculdade e do psicólogos, separadamente e uma vez
fazer isso já virou uma rotina, mas que nada em casa, mas não largou a nada trancou e nunca mais quis saber por mês com o grupo todo. Além disso,
não se sente dependente de um companhia dos amigos e da bebida. de estudar”, relata. Perguntei o que ele pais, familiares e amigos são sempre
computador para saber o que aconteceu tinha feito para ajudar o filho. “Moça, bem-vindos para passar o dia com eles.
na noite anterior. “Se eu não tivesse esse Alcoólicos Anônimos eu trouxe ele aqui, mas em menos de Depois de seis meses de trabalho de
recurso, eu iria ligar ou até mesmo uma semana ele fugiu”. recuperação a pessoa pode deixar o sítio
procurar alguém para me contar como O tempo passou e Mendes foi Nem todos fazem como o filho do nos finais de semana, para rever seus
foi tal festa ou o que rolou que eu perdi”, internado cinco vezes, quatro delas sem taxista. familiares, mas na segunda-feira, no
comenta. sucesso. Mas a última vez foi diferente: Jorge Eduardo Filho é voluntário e horário estabelecido, deve retornar.
A professora e psicóloga – ele decidiu mudar e procurou ajuda dos técnico em dependência química no Jorge comenta que a palavra-chave
especialista em psicoterapia – Maria Alcoólicos Anônimos. Desafio Jovem, uma comunidade tera- para resumir o progresso e a possível
Fernanda Jorge de Assis comenta que a A psicóloga Maria Fernanda estudou peuta que trabalha com a recuperação cura dos jovens é Deus. “É um tipo de
internet é um vício recente no quadro o caso de Mendes, e confirma que a química há 16 anos. Cerca de 20 jovens espiritualidade que se estabelece para
de dependência, assim como os mudança só ocorreu quando o paciente com faixa etária entre 20 e 30 anos são eles, é a forma de compreender que
videogames da criançada. “É necessário se deu conta que era uma pessoa doente acolhidos no sítio. somente Deus tem o poder de perdão
a pessoa se dar conta que ela está presa e que precisava de ajuda. “Seu Mendes Jorge comenta que a e de cura”, comenta.
a este tipo de suporte, que ela não está percebeu que não estava mais maioria dos jovens são
mais no controle, e que um simples controlando a bebida em sua vida, ele levados para a
eletroeletrônico, como o computador, não bebia na hora que queria, mas sim
pode alterar a rotina”, explica Maria na hora em que o seu organismo sentia
Fernanda. necessidade”, relata a psicóloga.
Os pioneiros da dependência são o A esposa de seu Mendes, Elizabete,
cigarro, a bebida e os jogos que causam conta que cansou de dar banho no
o quadro de vício – que é a dependência, marido e que só depois da recuperação
“ficar dependente de”. Nesses casos, a dele e com 48 anos conseguiu achar um
ajuda que o paciente necessita é emprego. “Eu morria de medo de deixar
primeiramente da desintoxicação. E foi ele em casa com as crianças e com os
isso que aconteceu com o aposentado amigos, sabia que boa coisa não ia sair”,
da Polícia Militar, Paulo Figueiredo comenta.
Mendes, de 54 anos, internado cinco Mesmo com todos os problemas,
vezes, casado e pai de dois filhos. Elizabete nunca abandonou Mendes.
Mendes lembra até hoje como tudo “Ele sempre foi um marido e um pai
começou, há 34 anos. bom, nunca deixou faltar nada, nunca
levantou a voz em casa, brigas
Casa, comida e cachaça tivemos várias, mas nunca pensei em
deixá-lo”, conta Elizabete.
Em 1973 ingressou na carreira
militar e em 4 de outubro de 1975 pediu Álcool no sagu
em casamento a jovem Elizabete de
Barcellos, que mais tarde se tornou a Hoje, um dos desafios da mulher
Sra. Mendes. No pedido, ele destacou de seu Mendes é o cuidado com a
seus três defeitos. 1) não largaria o alimentação do marido. Segundo
futebol do final de semana; 2) não o médico clínico geral do Hospital
deixaria a cachaça; e 3) as festas. Nossa Senhora da Conceição de
Elizabete aceitou o pedido e os Tubarão, Péricles Spartags Júnior,
Jornal-laboratório do Curso de Comunicação Social Unisul - Tubarão outubro 2007 7

Cuidado com o TOC


Roer unhas parace normal, mas é uma forma da sua mente disfarçar que está muito ansiosa
Texto de Taís Pacheco TOC quando esses pensamentos janelas, uma, duas, três vezes se próprio medo que ele tem. Mas não é
acabam pertubando a rotina de possível. Isso quando eu não acordava preciso se preocupar se alguém achar
Quem nunca se pegou roendo as trabalho, a vida pessoal, familiar”, no meio da noite pra ver se tava tudo que tem o TOC, o transtorno não é
unhas, contando pregos no forro de explica Ana. fechado’, conta Shulter. Além disso, uma loucura”, brinca Ana.
casa, contando postes na rua, se As idéias obsessivas podem outros rituais, como só dormir se As idéias obsessivas obrigatórias,
policiando para não pisar nos vãos dos aparecer em várias situações, como tivesse alguém do lado, jamais sair quando exageradas e promovedoras
azulejos, que atire a primeira pedra. músicas de comerciais que não saem desacompanhado, não pegar ônibus de significativa ansiedade ou
Gestos que aparentemente parecem da mente da pessoa, ou da idéia de que sozinho, também o acompanharam por sofrimento, constituem casos pato-
ser normais podem virar um vício ou pode haver um bicho de baixo da cama, um longo período. “Um dia tudo aquilo lógicos. “As obsessões estão tão enra-
uma espécie de defesa criada para ou que a válvula do gás pode estar foi passando, acho que o tempo e as izadas na consciência que não podem
desfazer algum tipo de ansiedade. aberta, apesar da lógica sugerir estar terapias me fizeram esquecer, ou ao ser removidas simplesmente por um
Quando essa “defesa” passa a ser fechada. Alguns desses vícios mentais menos, diminuir tudo isso”, declara aconselhamento razoável, nem por
descontrolada aparecem os primeiros podem ser causados por traumas de Rafael. livre decisão do paciente. Elas
sintomas de um Transtorno Obsessivo infância, ou até mesmo por algum parecem ter existência emancipada
Compulsivo, o TOC. trauma guardado no inconsciente. Remédios e terapia da vontade e, por não compro-
A psicóloga Ana Cristina Carvalho para a mente meterem o juízo crítico, os pacientes
explica que TOC é uma compulsão, a Rituais obsessivos têm a exata noção do absurdo de seu
pessoa tem um pensamento que é A psicóloga explica que existem conteúdo mental”, completa a
obsessivo e faz algo para que a Rafael Shulter foi um portador alguns tipos de tratamento para o psicóloga.
ansiedade provocada por esse assumido de TOC. Aos 13 anos ele e TOC, como terapias ocupacionais e Ana explica ainda que é muito
pensamento diminua. “A compulsão sua família foram vítimas de um terapias cognitivas comportamental, comum encontrar pessoas que
não é eficiente, porque logo o assalto. Mantidos como reféns por que é uma das mais indicadas para apresentam as características do
pensamento causador da tal ansiedade quase uma noite inteira, a família, a trabalhar o problema. Em alguns TOC. Muitos famosos, como o
acaba voltando e a pessoa continua a mãe, ele e o irmão gêmeo, viram seu casos é necessária a ajuda da apresentador Jô Soares, que se preo-
realizar rituais, como lavar a mão pai ser assassinado. O trauma causado farmacoterapia. “O remédio serve cupa exageradamente com a posição
várias vezes por ter medo de se pela situação fez com que Rafael para o paciente diminuir a ansiedade, dos quadros dos locais onde ele
contaminar. Isso passa a ser um passasse a ter medo de tudo. “Antes e a terapia, para ele lidar com estes freqüenta, apresentam esse trans-
problema e pode ser considerado um de dormir eu verificava todas as pensamentos, que, na realidade, é o torno.

Jogando contra a própria sorte


Texto de Cíntia Abreu afirma a psicóloga. O professor Uilton Ribeiro diz Poucos conseguem
Para Loura Di Antunes, dirigente que foi muito difícil largar o vício. largar o vício
“O Brasil está entre os países que da Instituição Nosso Lar, em Tuba- “Jogava baralho todas as noites e
mais têm casa de jogos, bares com rão, que segue uma doutrina espírita, saía cada vez mais endividado”. Ele O tratamento para o viciado,
caça níqueis, tornando a prática do o vício na jogatina dever ser anali- conta que quase perdeu a casa diferentemente dos dependentes
jogo um negócio rentável para quem sado pelo lado espiritual também. Ela própria em uma mesa de jogo. “O químicos, é primeiramente a
não joga”, afirma o delegado da acredita que muitos dependentes são pior de tudo não foi a quase perda psicoterapia, e depois a prescrição
Polícia Civil de Tubarão Renato guiados por obsessores, espíritos do imóvel, e sim a ameaça de minha de um controlador de ansiedade.
Poeta, que no mês de agosto realizou desencarnados e de baixa energia, mulher em ir embora com nosso Segundo Cristina, o apoio familiar é
a busca de caça níqueis por bares da que usam da baixa estima de joga- filho mais velho, na época eu bebia de grande valia, pois muitas vezes é
cidade junto com a nova equipe de dores para manipulá-lo. “As pessoas ainda”, relembra Ribeiro, com um familiar que tem que tomar as
alunos da Acadepol 2007 (Academia são muito imediatistas, acham que o lágrima nos olhos. O professor só rédeas da situação. Muitos
de Polícia). jogo é a melhor solução dos seus largou o vício pelo medo de perder dependentes não podem ter
Ilegais ou não, casas de jogos do problemas. Eles esquecem da fé e a família. Há mais de 25 anos sem dinheiro na própria carteira. “É
tipo caça níquel ou o bingo no salão acham que indo pelo caminho mais jogar, ele afirma que não sente importante ressaltar que o viciado
paroquial, pouco importa. Quem é curto serão felizes”, afirma Loura. nenhum tipo de desejo pela no jogo precisa, como todo
viciado em jogos, joga até carteado jogatina. dependente, de uma atenção
na casa dos amigos. Segundo a Fé ajuda, mas facilidade em O dependente em jogos não especial. Jogadores compulsivos
psicóloga Cristina Machado Gouvea, jogar é tentação assume seu vício, sempre achando tendem a querer suicidar-se”, relata
há diferenças entre o aficcionado em que pode parar quando quiser. a psicóloga.
jogos e o viciado. “O viciado vai ser Para o pastor Antônio Manenti, o Cristina diz que é comum ouvir isso É impossível afirmar que a pessoa
aquele que o dia não pode começar jogador torna-se dependente pela dos viciados. “Eles não percebem que procura a cura estará
nem terminar sem uma mesa de jogo. falta de fé. Manenti ressalta: que a questão já saiu do controle totalmente livre do vício. Segundo
Que perde o dia de trabalho ou “recebo em minha igreja muitas deles”. Cristina, o paciente tem que
quantias altas em dinheiro. Já o pessoas que já tentaram de tudo, e Existe também a questão da entender que haverá momentos na
aficcionado só tem uma admiração, só aqui encontraram o caminho”. A facilidade em jogar. É fácil vida que ele vai sentir-se mais frágil,
acha bela a prática do jogo”. Cristina questão de religião é muito forte na encontrar em bares, por exemplo, e que os cuidados terão que ser
explica também que não existem opinião da estudante Anelise mesas de jogos, como a sinuca. redobrados. “Apenas 12% dos
jogos que viciam mais que outros, Manenti, que conta ter passado por Segundo Estelita, mais conhecida pacientes conseguem recuperar-se
por que isso depende da perso- maus bocados com seu pai, viciado como Tita, proprietária de um bar do vício em jogos que envolvem a
nalidade de cada indivíduo. “Por em jogos de cartas. “No começo próximo à Unisul de Tubarão, que situação financeira do viciado”,
exemplo, os viciados em jogos de íamos minha mãe e eu à igreja, oferece estes tipos de jogos, alguns afirma a psicóloga. Os demais
computador normalmente têm fobia depois convencemos ele. Hoje ele alunos deixam de freqüentar as continuam com recaídas e
social, e acabam entrando no vício não pode nem ouvir falar em aulas para jogar, e dizem que o jogo tratamentos. E isso acontece pela
por ser uma prática individual”, cartas”, conta Anelise. serve para tirar o estresse. demora em procurar ajuda.
Jornal-laboratório do Curso de Comunicação Social Unisul - Tubarão novembro 2007 8
Foto-montagem de Marco Antônio Mendes

O vício calça chuteiras


Quando o futebol ultrapassa os gramados e se torna
uma obsessão que não se pode controlar
Texto de Grazi Bez Batti Milioli Netto, 67 anos, e 50
trabalhando com o futebol.
Os homens são viciados em futebol; Para Milioli, o futebol não é um
e isso não é novidade para eles e muito vício e sim uma questão de opção. “Ou
menos para as mulheres. você gosta ou não gosta, pratica ou não
A impressão é de que os gaúchos são pratica, assiste ou não assiste”. Tor-
mais fanáticos que o restante dos brasi- cedor do Bangu e do Criciúma, o espe-
leiros. Eles transformam o esporte em cialista na área relata que o maior
uma tradição familiar, assim como o prazer do futebol é assistir a um belo
chimarrão e o churrasco. jogo organizado, provocando grandes
É o caso destes gaúchos: o publi- emoções.
citário gremista Sandro Fabrício Ra- Já para as mulheres, quando o
mos, 33 anos, de Porto Alegre, o dire- assunto é futebol, a situação é, na
tor industrial Rafael Noal Vieira da maioria das vezes, muito delicada. A
Cunha, 29 anos, de Cachoeira do Sul, e o advogada Ana Paula Ramos
médico Antônio Perci Weber, 60 anos, Wasniewski, 28 anos, de Criciúma-SC,
de Santa Rosa, ambos torcedores do conta que diversas vezes discutiu com
Internacional. o namorado. “Quando eu morava em

Obsessão prazerosa? Assim como Perci, Rafael e Sandro


tiveram a escolha do time pela herança
familiar. Para Perci, o melhor lugar para
Porto Alegre, ele não podia ficar muito
tempo comigo no domingo, por causa
dos jogos. Ele ia ao jogo e nunca me
levava na rodoviária porque não dava
Muita gente se diz viciado em sexo, mas poucos assistir aos jogos do Inter é em sua casa,
na companhia de seus filhos. Perci tempo”. Atualmente Ana Paula ainda
sabem as conseqüências sofre com o vício. Hoje ela mora na
considera-se um viciado pelo esporte,
Texto de Marco Antônio Mendes comportamento existe tratamento, porque não perde jogo algum. cidade e as brigas são por outros
não pensou duas vezes. “Um amigo Sandro diz que assiste aos jogos motivos. “Ele sempre volta fedendo a
“Além da minha esposa, tinha mais disse que se eu quisesse poderia me sempre que é transmitido e, se está na cerveja e também se tem jogo não
onze amantes”, revela um professor que tratar indo num psicólogo, mas que capital gaúcha. “Até porque não há podemos fazer nada juntos”, diz.
até alguns anos atrás se considerava não dependeria mais da minha vontade”. nada melhor do que assistir ao seu time A publicitária Loreta Diaz, 25 anos,
apenas viciado em sexo, mas obsessivo. Durante os dois anos da terapia, o ao vivo e com os amigos presentes no natural de Porto Alegre e residente em
O homem, que pediu para não ser professor não encostou em mulher ritual”, brinca ele. Muitos dos viciados Criciúma-SC, não suporta nem ouvir a
identificado, apesar de hoje ter uma alguma. “O começo do tratamento não não admitem o vício pelo esporte. Não palavra futebol. Já namorou viciados
vida normal, acredita que a sociedade foi fácil, mas conseguia me controlar. é o seu caso. “Vejo o Globo Esportes pelo esporte e admite ser este um fator
não está pronta para debater deter- Teve alguns momentos que não podia todos os dias e acompanho os relevante para manter uma relação. O
minados assuntos. “Sofreria muito suportar a dor na região geniturinária estresse com as relações anteriores foi
resultados, fico indignado quando
preconceito e as gozações fariam parte e várias vezes fui para o hospital. Era tão grande que Loreta ficou com
do meu ciclo social. Algumas pessoas uma luta grave e tomava até ansiolítico meu time perde e extremamente feliz
para me acalmar”. Ficou mais um ano quando ele ganha. Acho que sou um alguns traumas em relação ao esporte.
poderiam entender, mas muitas ainda
não”, argumenta. vivendo sozinho para entender a fanático sim”, diz ele. Já passou por situações do namorado
Nem ele entendia a própria vida. “A pessoa que era. Foi um período de Dentre os que não se consideram estar alcoolizado e grudar em suas
cabeça de cima não pensava como a de reclusão que acreditava ser a porta de viciados, mas que convivem há pernas após o jogo. “Hoje, não consigo
baixo”, brinca. Mas se avaliarmos que entrada para uma vida normal. muitos anos com o esporte, está um ouvir por um segundo um locutor de
os desejos que tinha eram o que ele Quando por fim, venceu o vício, dos mais importantes jornalistas futebol pelo rádio, meu sangue ferve e
gostaria de vivenciar, mesmo que não pensava ficar solteiro o resto da vida. esportivos de Criciúma, Francisco tenho vontade de sair correndo”.
o fizesse, as duas cabeças funcionavam “De galinha, passei a ser taxado de gay Foto-montagem de Grazi Bez Batti
da mesma maneira. pelas pessoas, porque recusava todos
Viajando entre diversas cidades por os encontros”. Mas o destino seria bom
causa do trabalho, conheceu muitas e traria a única mulher pela qual foi
mulheres. Foi desta época que apaixonado, quando era adolescente.
contabilizou as 11 amantes, apesar de O sexo não é mais para satisfazer prazer,
ser um homem casado e com filhos. Era mas sim parte da relação. Segundo ele,
comum ter, pelo menos, duas relações “um ato respeitado pelos dois”.
sexuais por dia. Segundo a psicóloga de orientação
Foi a partir deste momento que psicanalítica Marília Maura Salvalaggio,
percebeu que havia algo errado. Não o vício em sexo, conhecido como
era possível, conforme ele, uma pessoa ninfomania, é também um distúrbio
pensar em sexo o tempo todo. Uma bipolar. A doença apresenta variações
experiência com uma garota de 14 anos, repentinas de comportamento, ou seja,
quando já era um adulto de 28, foi a em um momento a pessoa pode se en-
situação mais marcante. “Meninas contrar deprimida e em outro entrar
dessa idade desejam homens mais num período de euforia. No caso dos
velhos e me aproveitei disso. Quando viciados em sexo, a euforia é a vontade
dei por mim o que estava fazendo, desisti incontrolável de encontrar um parceiro
da relação”, lembra. para o coito.
Apesar das tentações, do instinto e O sexo, conforme Marília, é algo
da realização deles, o professor não primitivo e faz parte do instinto animal
conseguia admitir a pessoa que era. que todos possuem, assim como comer
Tinha uma vida desregrada, mas e dormir.
também possuía crítica sobre o que De acordo com a psicóloga, as
fazia. Não admitia porque se pessoas que desenvolvem esta
machucava e machucava os outros. A patologia geralmente não tiveram a
única coisa que não queria ser era um presença de uma figura paterna. “A
“velho tarado”. Dizia que chegar aos 50 Psicologia considera que uma figura
anos e ficar com meninas era a última paterna não seja necessariamente um
coisa que esperava dele mesmo. O pai, mas sim, uma pessoa que imponha
casamento era uma fachada para uma limite enquanto ainda é criança ou está
vida normal. Não amava a esposa, mas se desenvolvendo. É alguém que vá
manteve o relacionamento por dois impor autoridade sobre os atos que a
anos. pessoa vai tomar futuramente”,
Quando soube que para este esclarece.