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Estudos

UNIDADE 1
Socioantropológicos
Estudos Socioantropológicos Graduação | UNISUAM

Apresentação
da Disciplina

Fonte: Flickr

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Unidade 01 Antropologia e Sociologia: ciências do homem e da sociedade

Bem-vindo à disciplina Estudos Socioantropológicos, que tem por objetivo


oferecer a você, caro(a) aluno(a), conhecimento adequado para refletir,
de forma crítica, sobre os acontecimentos da sociedade contemporânea
e sua dinâmica sociocultural a partir do campo teórico-conceitual das
Ciências Sociais.

Diante do mundo globalizado do século XXI, nos deparamos com inúmeros


desafios, com transformações que são cada vez mais rápidas, as quais
afetam o conjunto das relações sociais, abalam os paradigmas que alicerçam
os conhecimentos e produzem inovações de todas as naturezas. Essas
transformações exigem de nós respostas adequadas para que possamos
ser inseridos no fluxo dos acontecimentos, de forma a compreendê-los e
transformá-los, enquanto atores sociais e agentes na nossa própria história.

Para tanto, oferecemos, nesta disciplina, uma introdução geral dos conceitos
básicos da Antropologia, da Sociologia e das Teorias Clássicas delas, que
consideramos indispensáveis para o entendimento global das transformações
socioculturais que vivenciamos na contemporaneidade. Abordaremos questões
que estão presentes no cotidiano na realidade sociocultural contemporânea,
a fim de permitir que você dialogue com eles em um mundo marcado por
mudanças, novas tendências e desafios.

E, para facilitar seu aprendizado, a disciplina está estruturada em quatro


unidades:
Unidade 1 - Antropologia e Sociologia: ciências do homem e da sociedade
Unidade 2 - Sociedade e Cultura: sociodiversidade e multiculturalismo
Unidade 3 - Relações de Trabalho e Sociedade de Consumo
Unidade 4 - O Mundo Globalizado

Ao longo de cada unidade sugerimos leituras a partir de links para textos e


vídeos.

Desejamos a você um ótimo estudo!

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Antropologia
e Sociologia:
ciências do
homem e da
sociedade
Nesta unidade iremos conhecer as transformações sociais, com o advento
da modernidade, e as origens da Sociologia e da Antropologia e seus
objetos de estudo, em busca da compreensão do homem e da sociedade.
Vamos apresentar:
• Os precursores dos estudos sociológicos e antropológicos e suas teorias;
• Os conceitos básicos de ambas as disciplinas no que se refere às relações
sociais e culturais;
• A diversidade sociocultural para uma compreensão crítica da
contemporaneidade.

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Unidade 01 Antropologia e Sociologia: ciências do homem e da sociedade

Assim, organizada em tópicos, estudaremos os seguintes assuntos:

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T1. A Sociedade Moderna e as Transformações Sociais.
T2. As Bases do Pensamento Sociólogico - Max, Durkhein e Weber.
T3. Antropologia: ciência do homem e da cultura.
T4. Diversidade Sociocultural: etnocentrismo e relativismo.

Desejamos que esses assuntos possibilitem a visão geral das ciências do


homem e da sociologia, com temas instigantes para um complemento do
conhecimento.

Vamos lá!

A Sociedade Moderna e as
T1 Transformações Sociais
A emergência da sociedade moderna foi uma experiência efetivamente nova
na história da humanidade, ela está intimamente relacionada à dissolução
da velha sociedade feudal na Europa, à conquista da Terra pelas caravelas
lançadas ao mar, bem como às novas concepções de mundo. Vejamos:

1492 1498 1521 1540

Vasco da Gama, ao Copérnico publica


contornar o continente seus estudos, que
africano, descobre um descrevem um sistema
novo caminho pelo heliocêntrico, ou seja,
oceano para as Índias Magalhães completa ele descobre que é
Orientais. sua viagem de volta ao a Terra e os outros
mundo pelos mares, planetas que giram
Colombo chega fato que comprovará em torno do Sol. “Eis
às Américas. a rotundidade do portanto os começos
planeta. do que chamamos
Tempos Modernos, e
que deveria chamar-se
Era Planetária” (MORIN,
2005, p.21).

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Percebe-se, com a linha do tempo, que estamos diante de acontecimentos


que desencadearam nos últimos cinco séculos transformações globais e que
deram origem à sociedade contemporânea globalizada.

Os modelos societários anteriores à sociedade atual, das sociedades antigas


à feudal, foram marcados por estruturas sociais rigidamente hierarquizadas,
nas quais os grupos, castas ou estamentos dominantes possuíam status
diferenciado e usufruíam de privilégios em relação à população em geral. Os
direitos civis, políticos e sociais, como os conhecemos na atualidade, foram
conquistados paulatinamente graças ao advento da modernidade e da luta
por direitos que ela ensejou.

A estrutura social da sociedade feudal, que antecedeu a sociedade moderna


e contemporânea, estava baseada em estamentos (grupos sociais).

Em uma sociedade estamental os indivíduos integram a pirâmide social


de acordo com a sua origem, na qual é comum permanecerem. Assim,
passar de um estamento a outro era praticamente impossível. Nessa rígida
estrutura social predominavam os valores coletivistas e a religiosidade cristã,
ambos determinantes dos padrões de comportamento e crenças adotados
e compartilhados entre todos na comunidade feudal.

saiba mais
Estatamentos são
agrupamentos mais ou
menos estanques nos
?
quais a mobilidade social A Sociedade Estamental representa a estrutura
é quase inexistente ou social típica do sistema feudal medieval,
extremamente regulada. dividida nos estamentos (grupos sociais), onde
quase não existe mobilidade social, ou seja, a
posição do indivíduo na sociedade dependerá
de sua origem familiar, por exemplo: nasceu
servo, morrerá servo (TODA MATÉRIA, s.d.).

Para compreender mais sobre a sociedade


estamental, leia o artigo “A sociedade estamental:
as funções de cada estatamento”, de Paulo Silvino
Ribeiro, no sitio Brasil Escola. Confira abaixo:

https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/a-
sociedade-estamental-as-funcoes-cada-
estamento.htm
om
g.c
im
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nte

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Fo
Unidade 01 Antropologia e Sociologia: ciências do homem e da sociedade

Segundo Polanyi (2012) o desenvolvimento do comércio e a adoção crescente


da moeda como meio de intermediação das trocas econômicas foram o
grande motor da transformação social que nos levou a chegar até os dias de
hoje. A ampliação das atividades comerciais estimulou os proprietários de
terra a mudarem suas atividades agrícolas, cercando suas terras e forçando
as pessoas a se mudarem do campo para a cidade, que floresceu como o
novo centro econômico, político, social e cultural da sociedade.

O crescimento das cidades e das atividades comerciais e artesãs favoreceu


o desenvolvimento de uma racionalidade que impulsionou o pensamento
científico. A vida urbana e a nova economia mercantil foram fundamentais
para impulsionar a ciência moderna e, consequentemente, o desabrochar
das Ciências Sociais.

O desabrochar das Ciências Sociais consistiu na Sociologia, para poder


interpretar mudanças tão importantes para a consolidação da modernidade; e
com a Antropologia, que por sua vez se debruçou sobre o estudo do homem
e da diversidade cultural presente nas sociedades humanas.

A Transição para a Sociedade Moderna


A sociedade moderna originou-se na Europa ocidental de um longo processo
de transformação da antiga sociedade feudal, provocado por mudanças de
ordem econômica, política, social e cultural. Tais mudanças foram tão profundas
na mentalidade e no comportamento que, em princípio, se estenderam do
século XIV ao XVI, com o advento do Renascimento e que, consequentemente,
favoreceram o desabrochar da Idade Moderna.

O Renascimento foi um movimento artístico, filosófico/científico e cultural


notadamente urbano que fomentou não só as artes e as ideias, mas também
o mercado e o comércio, deslocando para as cidades, à época conhecidas
como burgos, a centralidade da vida econômica, política, social e cultural.
Vejamos os elementos e os acontecimentos significativos que contribuíram
para compor a identidade do Renascimento e para alavancar a modernidade:

Concepção antropocêntrica
O homem e as questões relativas ao ser humano tornam-se referência primeira para a
sociedade renascentista. Assim, a valorização da razão humana, do potencial artístico do
homem e do seu livre-arbítrio nas questões referentes à política foram contribuições do
humanismo presente nas reflexões filosóficas da época. Desenvolveu-se uma concepção
antropocêntrica do mundo, que tem o homem como o centro de todas as coisas no universo,
em oposição ao teocentrismo dominante.
O Homem vitruviano é baseado nas ideias do arquiteto romano Marcus Vitruvius Pollio
exibidas no tratado De Architectura, no qual ele descreve as proporções do corpo humano
masculino. “Este desenho ilustra a tese filosófica segundo a qual o homem é a medida de
todas as coisas, própria do Renascimento. Considerado como um símbolo da simetria básica
do corpo humano e, por extensão, para o universo como um todo” (MARTINS, 2017).

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Fonte: historiadasartes.com

HOMEM VITRUVIANO, CERCA DE 1490.


LEONARDO DA VINCI, 1452 – 1519.
GALLERIE DELL'ACCADEMIA, VENEZA, ITÁLIA.

Concepção Heliocêntrica
A Terra deixou de ser o centro do universo e descobriu-se que
ela era mais um planeta, entre outros, a girar em torno do Sol.
Assim, a concepção geocêntrica aliada ao teocentrismo deu
lugar a uma nova visão, a heliocêntrica. Os enigmas do universo
e do mundo passaram a ser objetos de estudo e de descobertas
cientificas realizadas pelo homem.

As grandes navegações e a descoberta do Novo Mundo


As grandes navegações e a descoberta do Novo Mundo, do continente americano, não só
impulsionaram a economia mercantil e, consequentemente, a exploração colonial dos novos
territórios, como também colocaram diante do homem europeu, branco e cristão um sem
número de povos jamais vistos ou imaginados. O contato com o outro desconhecido, tido como
estranho, diferente e exótico, suscitou questionamentos sobre quem seriam esses “outros”.
Segundo Laplantine (2000), a origem da reflexão antropológica sobre o homem tem seus
fundamentos nessa época.

Fonte: www.scielo.br

PARTIDA DAS CARAVELAS DO PORTO DE LISBOA, 1592; E DANÇA DOS


TUPINAMBÁS, 1592. THEODORE DE BRY, 1528 –1598. ILUSTRAÇÕES DE AMERICAE
TERTIA PARS. SERVICE HISTORIQUE DE LA MARINE, VINCENNES, FRANÇA.

Reforma Protestante e a Invenção da Imprensa


Por sua vez, a Reforma Protestante e a Invenção da Imprensa produziram impactos irreversíveis
de caráter intelectual, religioso, moral e político para a sociedade de então. Ambas contribuíram
para impulsionar o processo de racionalização do mundo, ou seja, para a construção de uma
nova realidade na qual a racionalidade técnica, científica e econômica tornou-se predominante.

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Do ponto de vista econômico, o principal fator de desestabilização do


feudalismo, segundo Sweezy (1977), foi a introdução de uma economia
mercantil baseada no valor de troca, enquanto a economia feudal estava
baseada no valor de uso dos bens produzidos. O sistema de produção feudal
tinha como centralidade econômica a autossuficiência e não a produção
e comercialização de mercadorias, característica, essa, da nova economia
mercantil, o que favoreceu a acumulação de capital.

Assim, o longo período que envolve o processo de transição do feudalismo


para uma sociedade de economia plenamente capitalista deve ser
compreendido como um período no qual a economia baseou-se em um
sistema de produção pré-capitalista de mercadorias.

Por sua vez, Dobb (1987) defende que o principal motivo do declínio do modo
de produção feudal deu-se mais às contradições internas presentes nas
relações entre os servos e os senhores feudais, dado o aumento da exploração
dos servos pelos senhores, a fim de aumentarem seus ganhos, que ao próprio
sistema mercantil nascente e ao desenvolvimento das cidades. Tais fatores
contribuíram para acirrar ainda mais o descontentamento dos servos em
relação aos senhores feudais, uma vez que o comércio crescente contribuiu
para a diferenciação social e o desenvolvimento das cidades, que abrigavam
os que saíam do campo em busca de outras oportunidades de trabalho
fomentadas pelo sistema mercantil.

A decadência da economia feudal, representada pelo esgotamento do modelo


de produção autossuficiente baseado em uma economia rural, favoreceu:
• O desenvolvimento dos burgos, assim as cidades passaram a ser o centro
efervescente da vida social no Renascimento;
• O florescimento dos mercados locais e do comércio ultramarino
alavancados pelo mercantilismo;
• A adoção crescente do dinheiro como meio de intermediação das trocas
econômicas e a consolidação dos bancos, grandes fomentadores das
companhias de comércio e das expedições comerciais;
• A emergência de uma nova classe social, a burguesia mercantil, composta
por moradores dos burgos que se dedicavam à produção artesanal de
mercadorias, ao comércio e ao financiamento da nova economia pelos bancos.
Fonte: wikipedia

PLANO DE FLORENÇA, CIDADE ITALIANA


COMO CENTRO EFERVESCENTE DA VIDA
SOCIAL NO RENASCIMENTO.
VISTA DE FLORENÇA, CERCA DE 1470.
AUTOR DESCONHECIDO. PINTURA.

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O QUADRO DE CLAUDE LORRAIN É


Fonte: claudelorrain.org

REPRESENTATIVO DO MERCANTILISMO
AO RETRATAR O INTENSO COMÉRCIO EM
UM PORTO DO MAR MEDITERRÂNEO NO
SÉCULO XVII.
PORTO COM VILA MEDICI, 1637. CLAUDE LORRAIN, 1600 – 1682.
ÓLEO SOBRE TELA, 102 × 133CM.

OS AGIOTAS, DE QUENTIN MATSYS, FAZ


Fonte: wikiart.org

ALUSÃO ÀS ORIGENS DO SISTEMA FINANCEIRO


DURANTE O MERCANTILISMO.
OS AGIOTAS, 1520. QUENTIN MATSYS, 1466 – 1530. GALLERIA
DORIA PAMPHILJ, ROMA, ITÁLIA.

A CENA DO CASAMENTO DOS ARNOLFINI É UMA


Fonte: nationalgallery.org.uk

REPRESENTAÇÃO ÍNTIMA DA VIDA BURGUESA


NA EUROPA MERCANTIL. AS ROUPAS DO CASAL
REPRESENTAM A ÚLTIMA MODA DA BURGUESIA
DA ÉPOCA E SÃO INDICATIVOS DE SUA RIQUEZA.
O CASAL ARNOLFINI, 1434. JAN VAN EYCK, 1390 – 1441.
ÓLEO SOBRE MADEIRA, 82 X 60CM. THE NATIONAL GALLERY,
LONDRES, INGLATERRA.

A partir do Renascimento, a sociedade europeia adentrou em um ciclo contínuo


de modificações que sedimentaram a Idade Moderna. Tais transformações
organizaram-se em torno de três grandes eixos, que deram sustentação para
a consolidação da sociedade burguesa e capitalista em gestação:

1º Eixo: Revolução Científica


Consiste no eixo do conhecimento, com a Revolução Científica e seus
fundamentos científicos e filosóficos.
Conheça os tipos de conhecimentos despertados no período da
Revolução Científica com o vídeo “René Descartes - Revolução Científica”.

2º Eixo: Revolução Industrial


O segundo eixo é o da economia, quando o Mercantilismo e,
consequentemente, a Revolução Industrial alteraram profundamente
as relações e o modo de produção econômico com a consolidação do
capitalismo.
As causas da industrialização que caracterizaram a Revolução Industrial
podem ser conferidas no vídeo “História - Revolução Industrial”, no link abaixo:
https://www.youtube.com/watch?v=3MZ4v65aeHM

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3º Eixo: Revoluções Burguesas


Conhecido como o eixo da Política, que por meio das Revoluções
Burguesas, ou seja, da Revolução Inglesa, no século XVII e da Revolução
Francesa, no século XVIII derrubaram o absolutismo em defesa de novos
ideais de soberania, em prol das liberdades individuais e econômicas.
Nos vídeos a seguir conheceremos um pouco sobre a Revolução Inglesa
e Revolução Francesa, que fazem parte das Revoluções Burguesas.
https://www.youtube.com/watch?v=ZYelZTa7Lvc
https://www.youtube.com/watch?v=UDFXdQWmQNE&t=264s

Esses eixos abriram o caminho para ascensão da burguesia ao poder, para


a consolidação do modo de produção capitalista e do Estado liberal e
constitucional.

Em suma, a sociedade moderna, na qual a Sociologia e a Antropologia


emergem enquanto Ciências Sociais, se caracteriza por uma organização
econômica capitalista em que os valores econômicos se impõem sobre
valores humanos e sociais.

A nova sociedade adota a racionalidade científica como forma de conhecimento


do mundo, privilegia as necessidades individuais, investe na produção e
no consumo de forma massiva e estimula a vida urbana centralizada nas
metrópoles, o que favoreceu, na contemporaneidade, o avanço do racionalismo
tecnicista, do individualismo, do consumismo e da indiferença social.

O Absolutismo é um conceito histórico que se refere à forma de governo em que o poder é


centralizado na figura do monarca, que o transmite hereditariamente. Esse sistema foi específico
da Europa nos séculos XVI a XVII. (...) O surgimento do Absolutismo se deu com a unificação
dos Estados nacionais na Europa ocidental no início da Idade Moderna, e foi realizada com a
centralização de territórios, criação de burocracias, ou seja, centralização de poder nas mãos
dos soberanos. (...) No Absolutismo, todavia, rei e Estado se sobrepõem ao povo. Já na Inglaterra,
o Parlamento muito cedo diminuiu o poder dos monarcas. ...segundo o historiador Christopher
Hill, ele surgiu no século XVII como uma tentativa da monarquia de importar o modelo francês
e de se impor a todas as classes sociais inglesas. Tal tentativa, no entanto, fracassou devido à
revolta das elites, que não aceitaram um soberano que se sobrepusesse de forma hegemônica
a elas. Essa é a origem da Revolução Inglesa. A decadência do Absolutismo se deu no
século XVIII com a ascensão política das burguesias nos Estados ocidentais, impulsionando
o surgimento de novas teorias que defendiam um governo constitucional, representativo e
uma economia sem a interferência do Estado, como o liberalismo. Por fim, nesse processo, a
Revolução Francesa, no final do século XVIII, impulsionada por povo e burguesia, derrubou o
Absolutismo francês, abrindo caminho para que, no século XIX, Espanha e Portugal também
fizessem movimentos na direção do liberalismo ao imporem constituições a seus reis absolutos
(SILVA, 2009, p.11-13).

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O Surgimento da Sociologia e da
Antropologia
Ao longo do processo de transformação social da sociedade feudal para a
sociedade moderna, além da Revolução Científica, dois acontecimentos foram
decisivos para uma mudança radical da realidade: a Revolução Industrial e
a Revolução Francesa.

Ambas contribuíram para as transformações econômicas e políticas


almejadas pela burguesia e que deram forma à sociedade contemporânea.

Revolução Industrial

A Revolução Industrial revolucionou o sistema produtivo, ao deslocar milhares


de camponeses para trabalharem nas fábricas das cidades. A mão-de-obra
tornou-se assalariada, o comércio monopolista internacional se expandiu, uma
nova forma de colonialismo, o neocolonialismo imperialista, se estabeleceu,
especialmente sobre a África e a Ásia, com a finalidade de explorar recursos
naturais, mão-de-obra e mercados consumidores.

Fonte: História de Tudo


A REVOLUÇÃO
INDUSTRIAL CONSOLIDOU
O MODO DE PRODUÇÃO
ECONÔMICO CAPITALISTA.

Em defesa do neocolonialismo e do imperialismo, ou seja, do domínio


político e econômico das jovens nações burguesas europeias do século XIX
sobre territórios e povos de além-mar, afirmava-se a superioridade do homem
europeu e da civilização europeia do século XIX sobre os demais povos. Tais
ideias foram sustentadas pelo darwinismo social, e infelizmente elas acabaram
por justificar a dominação e a subjugação
econômica, política e cultural de povos e
saiba mais
?
sociedades por todo planeta.

É nesse contexto adverso que o “outro” é tido


como primitivo e atrasado aos olhos dos europeus.
Le i a o a r t i g o “ D a r w i n i s m o S o c i a l e
É sobre esses “outros” exóticos, que habitam
Imperialismo no Século XIX”, de Leandro
os territórios sob o jugo dos empreendimentos
Carvalho, e aprofunde o seu conhecimento
neocolonialistas, que se debruçaram os pioneiros
sobre neocolonialismo, imperialismo e
dos estudos antropológicos, a fim de conhecer
darwinismo social. Aproveite:
seus modos de organização socioculturais.
h t t p : //m u n d o e d u c a c a o . b o l . u o l . c o m .
b r/ h i s tori a geral /d ar w i n i s m o -s oc i a l-
imperialismo-no-seculo-xix.htm
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Revolução Francesa

A Revolução Francesa transformou completamente a política ao afirmar os


princípios da igualdade e da liberdade. As bases do liberalismo econômico e
do constitucionalismo aos poucos se estabeleceram e asseguraram à nova
classe dominante, a burguesia, leis e um Estado garantidor dos seus interesses.

Na Europa, as mudanças caminhavam rumo a acontecimentos tão inusitados


que a população, em geral, não se atentou para a radicalidade das
transformações que estavam ocorrendo na sociedade. Porém, tais mudanças
estimularam os intelectuais, cientistas e filósofos da época a indagarem onde
essas transformações iriam levar a sociedade.

A sociologia surgiu dessa necessidade de compreender a lógica das


transformações sociais na tentativa de prever a direção a que elas nos levariam.

“A sua criação não é obra de um só homem; representa o resultado de


um processo histórico, intelectual e científico.” (DIAS, 205, p. 21). O início da
construção de um pensamento sociológico se dará com Augusto Comte, no
século XIX, e com o desenvolvimento da sua teoria positivista.

O Positivismo, enquanto corrente filosófica que se voltou ao pensamento


social, recebeu influências do racionalismo científico e do humanismo
iluminista dos séculos anteriores. Tinha o pensamento racional e científico
como a expressão máxima do conhecimento humano e depositava forte
confiança na capacidade intelectual do homem.

Sistema filosófico formulado por Augusto Comte tendo como núcleo


sua teoria dos três estados, segundo a qual o espírito humano, ou seja,
a sociedade e a cultura, passa por três etapas: a teológica, a metafísica
e a positiva. As chamadas ciências positivas surgem apenas quando a
humanidade atinge a terceira etapa, sua maioridade, rompendo com
as anteriores. Para Comte, as ciências se ordenaram hierarquicamente
da seguinte forma: matemática, astronomia, física, química, biologia,
sociologia; cada uma tomando por base a anterior e atingindo um
nível mais elevado de complexidade. A finalidade última do sistema é
política: organizar a sociedade cientificamente com base nos princípios
estabelecidos pelas ciências positivas.

Em um sentido mais amplo, um tanto vago, o termo “positivismo”


designa várias doutrinas filosóficas do séc. XIX, ...que se caracterizam
pela valorização de um método empirista e quantitativo, pela defesa
da experiência sensível como fonte principal do conhecimento, pela
hostilidade em relação ao idealismo, e pela consideração das ciências
empírico-formais como paradigmas de cientificidade e modelos para
as demais ciências. (JAPIASSÚ; MARCONDES. 2001, p.217).

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saiba mais
?
Leia o artigo “Augusto Comte, o homem que quis dar ordem ao mundo”, para conhecer
um pouco mais sobre o pensamento sociológico do pai do positivismo:

https://novaescola.org.br/conteudo/186/auguste-comte-pensador-frances-pai-positivismo

Mesmo que tenha sido Comte o criador do termo sociologia e ter sido ele o
primeiro a ter desenvolvido um esforço inicial de teorização da vida social, não
teve importância maior no desenvolvimento da sociologia enquanto ciência.
Os três grandes pensadores que ficaram conhecidos como os clássicos
da sociologia são o francês Émile Durkheim (1858-1917) e os alemães Karl
Marx (1818-1883) e Max Weber (1864-1920), por conferirem-lhe todo o rigor
analítico, teórico e metodológico para o desenvolvimento da disciplina como
uma verdadeira Ciência Social. Suas contribuições continuam influenciando
e inspirando pesquisas e reflexões até hoje.

As Bases do Pensamento
Sociológico - Marx,
T2 Durkheim e Weber
Karl Marx: uma teoria crítica do
capitalismo
Frente à realidade socioeconômica e política da Europa do século XIX,
Karl Marx voltou-se, especialmente, à compreensão das contradições
presentes na sociedade do seu tempo. No mesmo século em que Augusto
Comte deu os primeiros passos rumo a uma ciência da sociedade, Marx,
com o objetivo de compreender as transformações sociais, debruçou-se
sobre o modo de produção econômico capitalista e o conjunto de ideias,
leis e ideologia que o sustentavam.

Karl Marx (1818–1883) foi um filósofo e revolucionário socialista alemão. Criou as bases
da doutrina comunista, onde criticou o capitalismo. Sua filosofia exerceu influência em
várias áreas do conhecimento, tais como Sociologia, Política, Direito, Teologia, Filosofia,
Economia, entre outras (FRAZÃO, 2016). Conheça um pouco mais sobre a biografia de Marx.
https://www.ebiografia.com/karl_marx/

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Unidade 01 Antropologia e Sociologia: ciências do homem e da sociedade

Sua obra ultrapassou o campo disciplinar da Sociologia, ao dialogar com a Filosofia,


a História, o Direito e a Economia. Ele contou com a colaboração e parceria de
Friedrich Engels na elaboração de uma teoria científica, que se destinava a analisar
a realidade social e as contradições históricas presentes no modo de produção
capitalista que, consequentemente, levariam à sua superação.

Fonte: fernandosaldivia.blogspot.com.br
KARL MARX E FRIEDRICH
ENGELS NA GRÁFICA
DA GAZETA RENANA,
COLÔNIA – ALEMANHA.
E. CHAPIRO. ÓLEO SOBRE
TELA MUSEU MARX & ENGELS,
MOSCOU, RÚSSIA

Marx e Engels elaboraram suas teses a partir da influência recebida da filosofia


de Hegel (1770-1831), da qual extraíram o conceito de dialética. Na filosofia
hegeliana:

A dialética é força motriz das mudanças históricas, assim a dinâmica das


relações, em um dado contexto histórico, decorre do conflito entre ideias
antagônicas – a tese e a antítese.

Do embate entre elas uma síntese emerge superando a etapa anterior e


produzindo uma nova realidade. A partir desse processo tudo se transforma
e evolui.

Os socialistas utópicos, Saint-Simon (1760-1825), Charles Fourier (1772-


1837) e Robert Owen (1771-1858), também deram suas contribuições,
especialmente por terem sido pioneiros na crítica à sociedade burguesa
da época. Porém, Marx os criticou severamente pelo fato de suas ideias e
propostas não levarem em consideração o papel da classe trabalhadora
como agente político de transformação da história.

Friedrich Engels foi “responsável por viabilizar


a publicação da obra que Marx deixou
inacabada, O Capital, volumes II e III”. Clique
no link abaixo e conheça mais sobre a biografia
desse grande pensador.
https://www.ebiografia.com/karl_marx/

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Há também as leituras críticas que eles fizeram das teorias econômicas


liberais dos ingleses Adam Smith (1723-1790) e David Ricardo (1772-1823) e
das teses sobre o materialismo mecanicista de Ludwig Feuerbach (1804-
1872). O equívoco de Feuerbach, segundo Marx, foi ter desconsiderado a
dialética na sua concepção materialista da realidade. Devido a isso, não teria
ele conseguido perceber que a realidade do mundo concreto resulta do
processo histórico em curso, ou seja, das relações conflitantes entre as forças
antagônicas, a luta de classes.

A partir dessas ideias e das críticas a elas realizadas, Marx, com a contribuição
de Engels, desenvolveu o método do materialismo histórico e dialético para
análise da realidade social, tendo como base as relações materiais de existência
determinadas pelo modo de produção econômico da sociedade. Nesse contexto
histórico, o que lhes interessava era desvendar as relações capitalistas.

O Materialismo Histórico Dialético e a


Luta de Classes
A história, para Marx, tem um caráter materialista e dialético.

Materialista Dialético

Porque o motor principal de nossa Porque concebe o conjunto das relações sociais e os
realidade não são as ideias, mas acontecimentos a partir de suas dinâmicas estruturais
as maneiras concretas como marcadas por antagonismos, pela luta de classes. O
produzimos e reproduzimos método dialético é adequado para a análise dos processos
materialmente a nossa existência históricos, pois nos revela a existência das forças opostas
por meio do trabalho nas relações em luta em seu interior. Seguindo essa linha de raciocínio,
de produção. Marx e Engels afirmaram que: “A história de todas as
sociedades que existem até nossos dias tem sido a história
das lutas de classes” (MARX, 2004, p.23).

A origem histórica do capitalismo está relacionada a um longo processo de


acumulação de riquezas que se concentrou na Europa com o mercantilismo e
a exploração colonial. A substituição do trabalho artesanal e das corporações
de ofício pelo trabalhador assalariado e pela indústria provocou uma revolução
no modo de produção econômico.

Na produção artesanal que antecedeu a Revolução Industrial, o artesão era


dono da oficina, dos instrumentos de trabalho e dos produtos produzidos por
ele. Com a industrialização da produção, a burguesia passou a ser a proprietária
dos meios de produção – das instalações fabris, dos instrumentos de trabalho,
da matéria-prima utilizada – e, consequentemente, dos produtos fabricados
pelos trabalhadores.

A generalização das fábricas provocou a falência dos artesãos, que


passaram a trabalhar nas indústrias em troca do salário.

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Unidade 01 Antropologia e Sociologia: ciências do homem e da sociedade

Dessa forma, os antigos artesãos, juntamente com os trabalhadores rurais


expulsos do campo em decorrência do cercamento das terras, tornaram-
se trabalhadores livres, ou seja, livres por não possuírem mais os meios de
produção e para venderem a única coisa que lhes restou, a sua força de
trabalho, em troca de salário. Assim, empregaram-se nas fábricas como
operários e constituíram uma nova classe social, o proletariado.

Historicamente, a propriedade foi introduzida na transição do feudalismo para o capitalismo


para controlar o acesso às terras produtivas, que de  feudo  ou  terra comunal  passaram a
constituir propriedade [privada]. (...) A transformação das terras comunais em propriedade privou os
trabalhadores da possibilidade de produzirem seus meios de subsistência obrigando-os a vender
sua força de trabalho e assim transformou os servos e pequenos produtores independentes
em assalariados, a relação de produção predominante no capitalismo. (CERCAMENTOS, 2015)
Fonte: Wikipedia

A OFICINA DE UM
TECELÃO, 1656 - GILLIS
ROMBOUTS, 1630 – 1672.
Fonte: Fatos e Acontecimento

MULHERES
TRABALHANDO EM
UMA MANUFATURA –
REVOLUÇÃO INDUSTRIAL
INGLATERRA
Fonte: Dissertation Rewies

INTRODUÇÃO
DA INDÚSTRIA
METALÚRGICA -
SEGUNDA REVOLUÇÃO
INDUSTRIAL, SÉCULO XIX

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Juntos, Marx e Engels escreveram o Manifesto do Partido Comunista,


publicado em 1848, que contribuiu para despertar a consciência da classe
trabalhadora da sua condição de classe explorada e oprimida e, portanto,
revolucionária, capaz de tomar em suas mãos as rédeas da história e pôr
fim à exploração imposta pela burguesia por meio do modo de produção
capitalista.

https://www.infoescola.com/sociologia/manifesto-comunista/

Conheça as primeiras páginas do Manifesto

A história de todas as sociedades que existem até nossos dias tem sido
a história das lutas de classes.
Homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor feudal e servo, mestre
de corporação e companheiro, numa palavra, opressores e oprimidos,
em constante oposição, têm vivido numa guerra ininterrupta, ora
franca, ora disfarçada; uma guerra que terminou sempre, ou por uma
transformação revolucionária, da sociedade inteira, ou pela destruição
das duas classes em luta.
Nas primeiras épocas históricas, verificamos, por quase toda a parte,
uma completa divisão em estamentos distintos, uma escala graduada
de posições sociais. Na Roma antiga temos patrícios, cavaleiros, plebeus,
escravos; na Idade Média, senhores feudais, vassalos, membros de
corporação, oficiais-artesãos, servos, e ainda, em quase cada uma dessas
classes, novas gradações particulares.
A sociedade burguesa moderna, que brotou das ruínas da sociedade
feudal, não suplantou os velhos antagonismos de classes. Ela
colocou no lugar novas classes, novas condições de opressão,
novas formas de luta.
Entretanto, a nossa época – a época da burguesia – caracteriza-se
por ter simplificado os antagonismos de classe. A sociedade divide-
se cada vez mais em dois vastos campos opostos, em duas grandes
classes diametralmente opostas: a burguesia e o proletariado (MARX,
2004, p.23-24).

Com a finalidade de compreender a organização do sistema capitalista e


transformá-lo, sua obra não se destinou apenas aos estudos dos fenômenos
sociológicos, econômicos, históricos da sociedade, mas à ação política
transformadora da sociedade. Tanto que, do século XIX aos dias de hoje,
suas ideias influenciaram a organização dos trabalhadores na luta contra
a exploração do capital, as revoluções socialistas, os movimentos sociais
com ideários anticapitalistas e ecossocialistas que lutam por igualdade,
direitos e justiça social.

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Unidade 01 Antropologia e Sociologia: ciências do homem e da sociedade

O Modo de Produção Capitalista e a


Exploração do Trabalhador
No modo de produção capitalista os trabalhadores, para sobreviverem, se
veem obrigados a vender a sua própria força de trabalho, uma vez que estão
alienados dos meios de produção, ou seja, não são os proprietários da matéria-
prima, dos instrumentos de trabalho e das empresas nas quais trabalham,
tampouco são proprietários daquilo que produzem.

A principal preocupação na análise marxista é compreender como se


constituem as forças produtivas e as relações de produção.

As forças produtivas são formadas pelas condições materiais existentes em


uma determinada sociedade, tais como matérias-primas, instrumentos de
trabalho, técnicas e tecnologias empregadas no trabalho e a própria mão-
de-obra humana. As relações de produção são definidas de acordo com as
formas de organização da produção.

Segundo Marx, as forças produtivas e as relações de produção são constitutivas


de toda e qualquer atividade econômica, seja qual for a sociedade e a época.
Ao estudar as relações entre elas, Marx pôde conhecer o funcionamento do
modo de produção econômico capitalista e suas contradições, bem como a
sua origem com o desmantelamento da sociedade feudal.

A definição primeira de alienação na obra de Marx está relacionada à expropriação e/ou


separação dos trabalhadores dos meios de produção. Porém, seu significado é mais amplo
e complexo:

O homem não só aliena de si mesmo seus próprios produtos, como também se aliena a si
próprio da atividade mesma pela qual esses produtos são criados, da natureza na qual vive
e dos outros homens. Todos esses tipos de alienação são, em última análise, a mesma coisa:
são aspectos diferentes, ou formas, da alienação do homem, formas diferentes da alienação
que se produz entre o homem e a sua essência ou sua natureza humana, entre o homem e
sua humanidade.

Assim como o trabalho alienado aliena do homem a natureza e aliena o homem de si mesmo, de
sua própria função ativa, de sua atividade vital, ele o aliena da própria espécie (…). Ele (o trabalho
alienado) aliena do homem o seu próprio corpo, sua natureza externa, sua vida espiritual e sua
vida humana (…). Uma consequência direta da alienação do homem com relação ao produto
de seu trabalho, a sua atividade vital e à vida de sua espécie é o fato de que o homem se
aliena dos outros homens (…). Em geral, a afirmação de que o homem está alienado da vida de
sua espécie significa que todo homem está alienado dos outros e que todos os outros estão
igualmente alienados da vida humana (…). Toda alienação do homem de si mesmo e da natureza
surge na relação que ele postula entre outros homens, ele próprio e a natureza. (Manuscritos
econômicos e filosóficos, Primeiro Manuscrito) (BOTTOMORE, 2013, p.21).

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Estudos Socioantropológicos Graduação | UNISUAM

Portanto, ao observar como se comportam as forças produtivas e as relações


de produção no modo de produção capitalista, Marx verificou que o valor
do salário pago ao trabalhador ao longo de uma jornada não representa a
quantidade de valor produzida pelo seu trabalho ao longo dela, é sempre
um valor menor.

Marx denominou de mais-valia a diferença entre o valor pago ao trabalhador


e o valor produzido pelo seu trabalho.

Isso significa que, ao vender a sua força de trabalho, toda a riqueza, ou seja,
todo o valor excedente produzido pelo seu trabalho, que não se destina a pagar
o seu salário, é retida pelo patrão. É por meio da mais-valia que a exploração
do trabalhador se efetiva no capitalismo e garante que a burguesia acumule
capitais e bens, enquanto o proletariado sobrevive do salário.

Em O Capital, principal obra de Marx, ele demostra que a mais-valia pode ser
extraída de duas formas:

Mais-valia absoluta Mais-valia relativa

É obtida com o aumento das horas É obtida com o incremento tecnológico da


trabalhadas, assim se produz mais produção, que possibilita ao trabalhador
mercadorias, ou seja, mais valor/capital. produzir mais sem que haja aumento das horas
Porém, a mais-valia absoluta esbarra em um trabalhadas e do próprio salário, o que resulta
limite físico, que é a necessidade de descanso em uma produção ainda maior de mercadorias,
do trabalhador. ou seja, de valor/capital.

No século XXI, a mais-valia relativa predomina no mundo do trabalho. A


informatização e a robotização das forças produtivas não têm somente
eliminado vagas de trabalho, mas têm também contribuído para o aumentar
a acumulação de capital a partir do aumento da capacidade produtiva e na
geração de valor nas relações de produção.

Nesse século, as evidências sobre o aumento da desigualdade entre os


mais ricos e os mais pobres estão relacionadas à concentração da riqueza
produzida no planeta. Isso vem sendo constatado em pesquisas realizadas
por economistas e pelos relatórios produzidos por instituições financeiras
internacionais, como o relatório Global Wealth Report (Relatório Global de
Riqueza), elaborado pelo Instituto de Pesquisas do banco Credit Suisse.
Fonte: Ilika

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Unidade 01 Antropologia e Sociologia: ciências do homem e da sociedade

Apesar da riqueza global ter aumentado, a sua distribuição foi desigual, o que
indica uma maior concentração de riqueza e, consequentemente, a ampliação
das desigualdades. Não é por menos que Marx afirmou que as desigualdades
sempre existiram, mas que no capitalismo elas se intensificaram devido ao
processo de exploração do homem pelo homem.

saiba mais
?
Acesse o artigo “Pirâmide global da desigualdade da riqueza”, de José Eustáquio Diniz
Alves, e compreenda o quadro da má distribuição da riqueza no ano de 2017.

https://www.ecodebate.com.br/2017/11/24/piramide-global-da-desigualdade-da-
riqueza-2017-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

As Contribuições do Marxismo para a


Compreensão da Realidade Social
Em sua teoria, a realidade social é constituída pela infraestrutura e pela
superestrutura. A infraestrutura diz respeito às relações de produção, à base
material ou econômica de uma sociedade. A superestrutura, que corresponde à
consciência social, é representada pelas ideias, ideologias, crenças, conhecimentos
presentes em uma sociedade, ela é ao mesmo tempo produto da infraestrutura
econômica e é produtora dos valores ideológicos do sistema econômico vigente.

Como a base da nossa economia se desenvolve a partir do capitalismo,


os valores econômicos capitalistas se tornam a ideologia dominante. A
propriedade, o consumo e a mercadoria são valorizados e legitimam e
explicam toda a vida social.

A sociedade capitalista é sustentada pela propriedade privada dos meios


de produção e voltada para a produção de mercadorias com o objetivo de
acumular capital, e a ideologia dominante, por sua vez, difunde esses valores
que influenciam o comportamento. Uma vez que estamos alienados no
nosso cotidiano no processo de trabalho, perdemos a consciência da nossa
condição de classe e reproduzimos a ideologia burguesa. Por isso, Marx
afirmou que no interior do processo de exploração econômica capitalista
terminamos, todos, nos transformando em mercadorias.

A aplicação do método do materialismo histórico e dialético para entender


e mudar a sociedade foi inovadora e influenciou o pensamento social e os
movimentos sociais. Marx tinha como finalidade revolucionar a sociedade,
porém ele tinha consciência que os homens faziam a história, mas não a
faziam da forma que desejavam e sim de acordo com as determinações
materiais de seu tempo.

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Émile Durkheim - O Método Sociológico e


seu Objeto de Estudo
Augusto Comte é considerado o precursor dos estudos sociológicos.

O positivismo defendido por ele não chegou a constituir-se enquanto uma


ciência social, mas como uma filosofia da ordem e do progresso sociais.

Karl Marx, por sua vez, desenvolveu uma teoria social e um método de
investigação da realidade que objetivava não só compreendê-la, mas
revolucionar o sistema capitalista; suas teses não se voltaram exclusivamente
para a Sociologia, mas também para a Economia, a História, o Direito, a Filosofia.
Porém, foi Émile Durkheim quem efetivamente delimitou o campo de estudo
científico da Sociologia ao publicar, em 1895, As Regras do Método Sociológico.

https://www.ebiografia.com/emile_durkheim/

Para Durkheim, a Sociologia não deve tomar como objeto de estudo a


sociedade, uma vez que seria impossível para um sociólogo estudar todos
os fenômenos sociais existentes nela. O sociólogo deve se concentrar na
investigação dos fatos sociais, que são identificados por possuírem três
características básicas: a coercitividade, a exterioridade e a generalidade.

Coercitividade Exterioridade Generalidade

Consiste em conformar Os fatos sociais são exteriores O fato social é geral porque
os indivíduos às regras da ao indivíduo porque eles está presente em toda a
sociedade. Ao aprendermos o existem na sociedade e sociedade e se impõe a todos
idioma, ao internalizarmos as influenciam a cada um de os indivíduos, ou, ao menos, à
regras e as leis, ao aprendermos nós, independentemente de grande maioria deles. Dessa
os hábitos, os costumes e os nossa escolha ou vontade. forma, podemos identificar
valores de uma sociedade, A existência das leis, das a diferença entre um fato
não o fazemos por vontade ou regras e das normas sociais social e um fato isolado ou
escolha própria, mas por meio não dependem das nossas particular que não diz respeito
da coerção social. As forças escolhas particulares, elas à toda sociedade. Assim,
coercitivas atuam no processo estão presentes na sociedade Durkheim pôde identificar
de socialização dos indivíduos, na qual vivemos, possuem o fato social, que é o objeto
que ocorre, especialmente, existência própria, o que de estudo do sociólogo, e
por meio da educação formal determina sua exterioridade separá-lo do fato particular
e informal, integrando-os ao em relação à consciência ou individual, que pode
meio social. Podemos dizer que individual. São denominados interessar a outras áreas do
a sociedade se sobrepõe ao fatos sociais e não fatos conhecimento, mas não à
indivíduo. individuais. sociologia.

Ao estudar um determinado fato social, o sociólogo deve tratá-lo com a


objetividade própria do método científico, ou seja, como objeto (coisa) que
pode ser observado concretamente e mensurado estatisticamente.

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Unidade 01 Antropologia e Sociologia: ciências do homem e da sociedade

Exemplos de Fatos Sociais

O casamento, o homicídio, a natalidade, a corrupção, a mortalidade


infantil, o emprego e o desemprego são exemplos de fatos sociais
cujos dados estatísticos podemos observar, descrever e comparar de
um ano para outro, de uma década para outra, e, assim, conhecer as
suas regularidades e variações.
São exemplos de fatos sociais porque estão presentes em toda
sociedade (generalidade), existem independente da vontade
individual (exterioridade) e influenciam o comportamento de todos
(coercitividade).

Ao sociólogo cabe interpretar o comportamento do fato social na sociedade


ao longo do tempo e compreender a sua importância para a adaptação, para
o funcionamento da sociedade e para a coesão social quando este consegue
se manter normal. Porém, se ele apresentar variações e irregularidades em
seu comportamento, poderá indicar risco de ruptura da coesão social, um
estado de patologia social.

Segundo Durkheim, em princípio, todo fato social é considerado normal, seja


ele o casamento ou o homicídio, uma vez que normal é todo o fenômeno
social que ocorre com regularidade na sociedade, com frequência, e que se
repete no cotidiano. Tomemos como exemplo o homicídio.

Enquanto fato social, o homicídio é considerado um fato normal, porém


isso não significa que seja normal cometer homicídios, uma vez que ele é
considerado pela sociedade um ato moralmente inaceitável e passível de
sanções legais.

O fato do homicida ser punido pelas leis contribui para reforçar os valores, as
normas e as regras sociais reforçando os laços dos indivíduos com a sociedade.
Assim, a função social de todo fato social normal é integrar os indivíduos em
torno de determinas regras e valores comuns a toda sociedade e garantir o
consenso social, que é “a vontade coletiva ou o acordo de um grupo a respeito
de determinada questão” (COSTA, 2010, p.42).

“Normal é aquele “Patológico é aquele “Função social é um


fato que não [fato social] que se conceito que procura
extrapola os limites encontra fora dos justificar a existência
dos acontecimentos limites permitidos de um determinado
mais gerais de uma pela ordem social. (...) comportamento por
determinada sociedade.” como as doenças, são sua contribuição na
(COSTA, 2005, p.85). considerados transitórios manutenção do todo
e excepcionais.” (COSTA, [social] no qual se insere.”
2005, p.86). (COSTA, 2010, p.42).

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Fonte: dontwasteyourmoney.com
Fonte: folhamg.com.br

AS INSTITUIÇÕES JURÍDICAS E EDUCACIONAIS SÃO EXEMPLOS DAS FORÇAS


COERCITIVAS DA SOCIEDADE POR ATUAREM SOBRE OS INDIVÍDUOS COM A
FINALIDADE DE INTEGRÁ-LOS AO MEIO.

Em suma, Durkheim afirma que as sanções legais previstas em leis e aplicadas


para aqueles que cometem homicídio servem, antes, para influenciar e
moldar o comportamento e a consciência dos cidadãos, desestimulando-os
de praticá-lo. Assim, ao se submeterem às leis e temerem as penalidades
previstas nelas, os indivíduos experimentam a força coercitiva dos fatos sociais.

A Sociedade, a Consciência Individual e a


Consciência Coletiva
Na teoria de Durkheim, as “escolhas” individuais estão submetidas às “escolhas”
determinadas pela sociedade. Os comportamentos e ideias que parecem ser
uma opção individual são, na verdade, reproduções de padrões existentes no
interior da sociedade.

A consciência individual é modelada pela consciência coletiva, uma vez que


é determinada pela vontade coletiva que se manifesta nas forças sociais dos
fatos que a sociedade impõe a todos nós. Desse modo, ele desenvolveu todo
o seu pensamento, explicando as bases da coesão social.

O que interessava a Durkheim, era conhecer como a sociedade se mantém


organizada; em especial identificar como os laços sociais entre os indivíduos
garantiam a organização social da sociedade. Os laços sociais, ou melhor, as
formas de solidariedade social, como ele denominou, representam os vínculos
que unem o sujeito na sociedade, e elas se constituem de acordo com a divisão
social do trabalho, que podem ser: solidariedade mecânica e orgânica.

Consciência coletiva é, em Entende-se por divisão social do trabalho a organização


certo sentido, a moral vigente da sociedade em diferentes funções, exercidas pelos
na sociedade. Ela aparece como indivíduos ou grupos de indivíduos. Nas sociedades
um conjunto de regras fortes e mais simples, predomina a divisão social do trabalho
estabelecidas que atribuem valor baseada principalmente em critérios biológicos de
e delimitam os atos individuais. (...) sexo e idade. Em sociedades mais complexas, como
define o que, numa sociedade, é a industrial, surge uma divisão social mais complexa,
considerado imoral, reprovável com a criação de uma imensa gama de funções e
ou criminoso. (COSTA, 2010, p.43). atribuições diferenciadas. (COSTA, 2010, p.44).

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Unidade 01 Antropologia e Sociologia: ciências do homem e da sociedade

Solidariedade mecânica
Numa sociedade de solidariedade mecânica, o
indivíduo estaria ligado diretamente à sociedade,
sendo que enquanto ser social prevaleceria em seu
comportamento sempre aquilo que é mais considerável
à consciência coletiva, e não necessariamente seu
desejo enquanto indivíduo. Nesse tipo de solidariedade
mecânica de Durkheim, a maior parte da existência do
indivíduo é orientada pelos imperativos e proibições
sociais que vêm da consciência coletiva. A SOLIDARIEDADE
Segundo Durkheim, a solidariedade do tipo MECÂNICA, MAIS PRESENTE
mecânica depende da extensão da vida social NAS SOCIEDADES
que a consciência coletiva alcança. Quanto mais TRADICIONAIS E PRÉ-
forte a consciência coletiva, maior a intensidade CAPITALISTAS, EM QUE OS
da solidariedade mecânica. Aliás, para o indivíduo, COSTUMES FAMILIARES
seu desejo e sua vontade são o desejo e a vontade E RELIGIOSOS SÃO MAIS
da coletividade do grupo, o que proporciona uma PRESENTES.
maior coesão e harmonia social (RIBEIRO, s.d.).

Solidariedade orgânica
Na solidariedade orgânica ocorre um
enfraquecimento das reações coletivas contra a
violação das proibições e, sobretudo, uma margem
maior na interpretação individual dos imperativos
sociais. Na solidariedade orgânica ocorre um
processo de individualização dos membros dessa
sociedade, os quais assumem funções específicas
dentro dessa divisão do trabalho social. Cada
A SOLIDARIEDADE pessoa é uma peça de uma grande engrenagem,
ORGÂNICA, CARACTERÍSTICA na qual cada um tem sua função e é esta última
PRÓPRIA DAS SOCIEDADES que marca seu lugar na sociedade.
MODERNAS E CAPITALISTAS A consciência coletiva tem seu poder de influência
REGIDAS PELA DIVISÃO reduzido, criando-se condições de sociabilidade
TÉCNICA DO TRABALHO. bem diferentes daquelas vistas na solidariedade
mecânica, havendo espaço para o desenvolvimento
de personalidades. Os indivíduos se unem não porque
se sentem semelhantes ou porque haja consenso,
mas sim porque são interdependentes dentro da
esfera social. Não há uma maior valorização daquilo
que é coletivo, mas sim do que é individual, do
individualismo propriamente dito, valor essencial para
o desenvolvimento do capitalismo (RIBEIRO, s.d.).

Seja pelos fatos sociais ou pela solidariedade social, o indivíduo é fruto do


seu meio e submetido às forças sociais que o circundam. Caso contrário,
assistiríamos a um processo de anomia social, quando o desregramento da
sociedade poderia levá-la ao caos.

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Max Weber - O Método Compreensivo e a


Teoria da Ação Social
Entre o pensamento revolucionário de Karl Marx e o conservadorismo de
Émile Durkheim, encontra-se Max Weber, que inaugurou na sociologia uma
abordagem compreensiva das relações entre indivíduo e sociedade. Sua
teoria sociológica introduziu novos elementos no estudo da realidade social,
especialmente, em relação ao indivíduo, que passou a ter um papel central
na produção da ordem social.

https://www.ebiografia.com/max_weber/

Weber se voltou para as motivações que levam os homens a agir em busca


de seus objetivos, buscou compreender os sentidos das ações empreendidas
pelos indivíduos na sociedade. As ideias e as ações dos indivíduos passaram
a ter importância para a compreensão da realidade e sua transformação.

É relevante destacarmos a primeira diferença entre os três precursores da


sociologia no que diz respeito às relações entre indivíduo e sociedade.

Marx Durkheim Weber

Kal Marx priorizou em suas análises Émile Durkheim deu ênfase Para Max Weber,
as relações ao mesmo tempo às forças coercitivas da indivíduo e sociedade
antagônicas e complementares entres sociedade que atuam sobre não se opõem,
as classes sociais. O indivíduo não os indivíduos, demonstrando tampouco um se
tem lugar de destaque em sua teoria, assim que a vontade sobrepõe ao outro.
uma vez que as relações sociais coletiva e a consciência
são determinadas pelas relações social prevalecem sobre
de produção que revelam a luta de as escolhas pessoais e a
classes no interior da sociedade. consciência individual.

Como em Marx, a história para Weber é central para a compreensão da


sociedade. Nesse ponto ambos se distanciam de Durkheim, uma vez que em
sua teoria a história particular de cada sociedade não determina a existência
dos fatos sociais. Para Weber, ter conhecimento da história é pré-requisito
fundamental, uma vez que cada sociedade possui suas particularidades
históricas, o que a diferencia das outras. A interpretação dos dados históricos
pelo sociólogo permite que ele compreenda essas diferenças sociais.

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WEBER, MARX, DURKHEIM
Unidade 01 Antropologia e Sociologia: ciências do homem e da sociedade

No lugar do método explicativo, próprio das ciências da natureza, Weber aplicou


em seus estudos o método compreensivo, que julgou ser mais adequado
para as ciências humanas e sociais, uma vez que elas “não deviam explicar os
fatos em si, determinando as suas causas imediatas, mas sim compreender
os processos da ação humana e dela extrair o seu sentido” (COSTA, 2010, p.51).

Assim, concentrou seus estudos nas ações sociais realizadas pelos indivíduos.
Sua intenção era compreender a lógica social do comportamento humano.

Na sociologia weberiana o ser humano, enquanto agente da ação social, é


motivado a agir a partir de valores, sentimentos e ideias de ordem subjetiva;
consequentemente, as motivações subjetivas é que levam o indivíduo a agir
e caracterizam o tipo de ação social empreendida. Weber classificou-as como
ações afetivas, tradicionais e racionais, sendo que as ações racionais podem
ser subdivididas em ações racionais com relação a valores e em ações racionais
com relação aos fins.

Ação social afetiva


Determinada pelas emoções e sentimentos movidos pela paixão, pelo
ódio, pelo amor, entre outros.

Ação social tradicional


Determinada pelos costumes e hábitos cotidianos arraigados nos
indivíduos, passados, especialmente, pela família.

Ação social racional com relação a valores


É orientada por valores éticos, religiosos, estéticos, não tem como
objetivo uma finalidade outra que os próprios valores em si.

Ação social racional com relação a fins


Quando a ação é calculada e voltada para objetivos determinados, e
escolhem-se os meios para alcançar os objetivos da ação.

Segundo Weber, todo comportamento humano possui um sentido


compreensível socialmente, portanto perceptível para outras pessoas.

Conceito básico da sociologia que designa, de maneira geral, toda ação humana que é
influenciada pela consciência da situação na qual se realiza e pela existência das ações e
reações dos outros agentes sociais [indivíduos] que estão envolvidos. Embora reconheça o
condicionamento social da ação humana, o conceito de ação social remete ao princípio de
liberdade e participação histórica [dos indivíduos / dos agentes sociais]. (COSTA, 2010, p.51).

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Em suma, para Weber, as regras, as normas, os valores e a cultura da


sociedade ao serem internalizadas pelos indivíduos se manifestam enquanto
forças motivadoras que levam à ação social. Assim, podemos dizer que na
sociologia weberiana a sociedade age sobre o indivíduo e o indivíduo age
sobre a sociedade. É uma perspectiva diferente da sociologia durkheimiana,
que destaca a coerção da sociedade sobre os indivíduos, e também diferente
da perspectiva marxista, que enfatiza as relações antagônicas entre as
classes sociais em dado contexto social.

Na obra A ética protestante e o espírito do capitalismo, Weber analisou como


os valores difundidos pela Reforma Protestante tornaram-se motivações das
ações sociais empreendidas pelos adeptos do protestantismo que contribuíram
para a formação de um comportamento adequado para a consolidação do
capitalismo. Weber partiu da premissa que o capitalismo prosperou mais
rapidamente em países de tradição protestante e associou este fato a
existência de uma ética, um modo de viver e pensar, que favoreceu seu
desenvolvimento.

O protestantismo valorizava a dedicação ao trabalho, a disciplina religiosa


e uma vida modesta, assim, o ganho material deveria ser reinvestido no
trabalho e não no consumo. Tal comportamento teria favorecido o capitalismo
e a industrialização, em oposição ao catolicismo tradicional que valorizava a
contemplação e a renúncia ao mundo terreno.

Seu estudo sobre o modo de pensar e agir dos protestantes, em um período


de transição do feudalismo para o capitalismo, é um exemplo de como
os motivos presentes na conduta das pessoas permitem revelar para os
sociólogos os sentidos da ação social e como essa influência transforma a
sociedade.

Enquanto a Sociologia voltou-se, desde sua origem, para o estudo das


sociedades europeias, ou seja, para decifrar a ordem social e as transformações
no interior da sociedade moderna, a Antropologia, na mesma época, voltou
o seu olhar para longe, para os territórios coloniais e para as formas de
organização socioculturais das suas populações nativas. Iniciou-se, assim, a
aventura em busca da compreensão do homem e da cultura.

saiba mais
?
Assista ao vídeo “Max Weber e a Ética
Protestante”, da Sociologia em Cena, sobre a
ética protestante e o espírito do capitalismo.

h t t p s : // w w w . y o u t u b e . c o m /
watch?v=ad73gm-rQVA

28
Unidade 01 Antropologia e Sociologia: ciências do homem e da sociedade

Antropologia: ciência do
T3 homem e da cultura
É possível afirmar que as primeiras questões que deram origem a um
saber sobre o próprio homem tenham sido postas desde os primórdios da
humanidade. Segundo Laplantine (2005), o homem sempre se interrogou
sobre sua origem, sua condição e seu destino.

No entanto, somente no século XIX é que se


Fonte: 123RF

consolidou, no campo científico, uma disciplina


que toma o homem como objeto de estudo, a
Antropologia. Até aquele século, o conhecimento
sobre o homem tinha sido de natureza mitológica,
artística, teológica e filosófica, mas não científica.
Tratou-se de transformar o sujeito do conhecimento
– o homem – no próprio objeto de pesquisa e
estudo científico.

O fato de a Antropologia ter surgido na Europa


contribuiu para a construção do objeto de estudo
antropológico a partir de uma diferenciação dualista
entre as sociedades europeias e as não europeias. A
proposta inicial da Antropologia baseou-se em uma
tentativa de análise das populações consideradas
primitivas, ou seja, que viviam nas ditas sociedades
simples, porque não pertenciam ao mundo
exclusivo das sociedades europeias.

Estabeleceu-se uma dicotomia entre sociedades simples e sociedades


complexas. De um lado as sociedades primitivas e tradicionais, às quais se
voltaram os estudos antropológicos; e de outro as sociedades civilizadas e
cosmopolitas, sobre as quais os sociólogos se debruçaram.

Ao longo do século XX, no entanto, a antropologia também passou a se dedicar


ao estudo da cultura nas ditas sociedades complexas, superando assim a
dicotomia em favor da diversidade cultural e das complexidades existentes
em todas as formas de organização social.

Foi nesse contexto que a ciência do homem passou a ser o estudo da cultura
de todos os povos e sociedades.

Para a Antropologia, o homem e a cultura constituem-se como conceitos


básicos, e estabeleceu-se como tarefa dos antropólogos responder às
questões: O que é o homem? O que é a cultura?

29
Estudos Socioantropológicos Graduação | UNISUAM

A Natureza Humana
A partir do século XVII, em meio à Revolução Científica, convencionou-se que o
homem se distinguia dos outros seres vivos por ser ele o único animal dotado
de razão, convincente explicação filosófica demonstrada por René Descartes
(1596-1650), que afirmou a separação existente entre res extensa – corpo, e
res cogitans – espírito/pensamento. De acordo com Descartes, os corpos de
todos os animais se assemelhavam ao funcionamento de máquinas biológicas,
mas no corpo-máquina humano havia um espírito, responsável por fazer do
homem um animal racional.

Posteriormente, a ciência, por meio dos estudos da paleontologia humana,


revelou que a transição da animalidade para a humanidade ocorreu de
forma processual, em decorrência da evolução da espécie, principalmente
com o desenvolvimento do bipedismo, da hipercomplexidade cerebral e da
simbolização – o uso da linguagem. Eis que emergiu desse processo a espécie
homo sapiens sapiens.

A Paleontologia é uma ciência que se dedica ao estudo da


história da vida e sua evolução através do estudo de vestígios
fósseis e de outros vestígios preservados de seres vivos. A
Paleontologia Humana ou Paleoantropologia é o ramo que se
dedica exclusivamente ao estuda da evolução do homem por
meio do estudo dos vestígios fósseis dos nossos antepassados e
de seus artefatos.

Fonte: significados.com.br

LINHA DO TEMPO DA EVOLUÇÃO HUMANA COM A ESTIMATIVA DA PRIMEIRA E


ÚLTIMA APARIÇÃO DE CADA ESPÉCIE.

30
Unidade 01 Antropologia e Sociologia: ciências do homem e da sociedade

Segundo Morin (1975), homem e cultura nascem juntos, pois o que ocorreu
foi uma retroação entre mutação genética do cérebro e complexificação
cultural do humano.

Enquanto, por um lado, foi a evolução ‘natural’ do cérebro


hominídeo que produziu e desenvolveu a cultura, por outro
lado, foi a evolução cultural que impeliu ou estimulou o
hominídeo a desenvolver seu cérebro, isto é, a transformar-
se em homem. Assim, o cérebro passou de 500cm³
(antropoide) para 600 e 800cm³ (primeiros hominídeos) e,
em seguida, para 1.100 cm³ (homo erectus), antes de atingir
1.500 cm³ (homo sapiens neanderthalensis e homo sapiens
sapiens) (MORIN, 1975, p. 87).

Esses três fatores, bipedismo, hipercomplexidade cerebral e a linguagem


simbólica – o uso de palavras, desenhos, grafias, gestos, sons e sinais – para
comunicação permitiram que nossos ancestrais pudessem, por meio da
cultura, fazer uso da natureza e transformá-la a seu favor. Assim, desde a
criação dos machados de pedra, das pinturas rupestres, da organização da
vida social em tribos, da domesticação das plantas e animais, da criação das
cidades, da origem das civilizações, da invenção da filosofia à navegação pelo
espaço a vida do ser humano no planeta se constituiu por meio da cultura.

É nesse sentido que a Antropologia consiste no estudo da unidade do homem,


ou seja, na compreensão da integralidade do homo sapiens sapiens, mas
também no estudo da vida do homem em todas as sociedades e em todas
as culturas, como afirmou Laplantine (2005).

Estudar o homem na sua existência física, biológica e psicológica implica


também conhecê-lo na sua vivência social e cultural, ou seja, devemos
compreender a unidade biológica e a diversidade cultural da espécie humana.
Por isso, os estudos antropológicos passaram a ser sinônimo de estudos da
cultura e acatou-se como verdade inabalável a equação de que o homem é
humano por ser produtor de cultura.
Fonte: Bol.com

31
Estudos Socioantropológicos Graduação | UNISUAM

Atualmente, a tradicional fronteira definida pela cultura que diferencia


os primatas humanos dos primatas não-humanos tem sido questionada,
especialmente pelos estudos da primatologia, que acumulam exemplos de
como nós somos próximos de outros primatas não humanos.

É difícil encontrar hoje em dia qualquer capacidade


supostamente racional que os primatólogos não digam
que está replicada em outros primatas que não os
humanos: uso da linguagem, fabricação de ferramentas,
imaginação simbólica, autoconsciência – imagine qualquer
uma, sempre haverá primatas não humanos que a exercem
(FERNÁNDEZ-ARMESTO, 2007, p. 9).

Diante desse novo dilema, devemos recolocar as questões: “O que é o


homem?” “O que é a cultura?” A busca incansável para essas respostas faz
do estudo do homem e da cultura um campo fértil para o conhecimento de
nós mesmos e, consequentemente, para o conhecimento das relações entre
a natureza humana e a cultura; entre as diferentes culturas e sociedades; e
entre os indivíduos, a sociedade e a cultura.

A Cultura Humana
O termo cultura é usualmente empregado para designar acúmulo de saberes.
Ter cultura, para o senso comum, passou a ser utilizado para indicar um
indivíduo de boa educação, culto, que possui instrução e vasto conhecimento.

No seu sentido inverso, o temo inculto serve para designar pessoas sem
cultura. Esses usos do termo cultura e do seu contrário, inculto, não tem
relação alguma com o conceito antropológico de cultura.

Outra maneira equivocada de usar o termo cultura é para classificar que


determinadas sociedades têm cultura mais evoluída do que outra. Infelizmente,
em seus primórdios, a Antropologia contribui para difundir esse entendimento
enviesado ao afirmar que os povos primitivos não haviam evoluído.

Um exemplo clássico desse equívoco é quando ouvimos que os índios


possuem uma cultura atrasada, mas isso não é verdadeiro, tampouco correto
de se afirmar. Por fim, também usamos cotidianamente o termo cultura para
nos referirmos ao universo artístico, porém a cultura não se resume apenas às
artes. O correto, nesse caso, é compreender que as artes e suas manifestações
estéticas integram a cultura de uma sociedade.
Fonte: Dssbr.org

32
Unidade 01 Antropologia e Sociologia: ciências do homem e da sociedade

Com base no conhecimento antropológico podemos afirmar que todos os


seres humanos possuem cultura.

O surgimento da cultura está intimamente relacionado ao surgimento do


homem, e não há cultura melhor ou pior, superior ou inferior, atrasada ou
evoluída; o que existe são culturas diferentes.

Entre os precursores da Antropologia, foi Edward B. Tylor, em 1871, o primeiro


a criar um conceito de cultura que se tornou clássico: “cultura é aquele todo
complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou
qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro
de uma sociedade” (LARAIA, 2006, p.25). Em suma, todas as invenções e
criações do homem que são transmitidas e compartilhadas por meio da
convivência com outros humanos são o que a Antropologia denomina cultura.

Objetos de uso cotidiano, hábitos alimentares, vestimentas, crenças religiosas,


idiomas, conhecimentos, arquitetura, música são exemplos da produção
material e imaterial dos homens, já que a cultura compreende tudo aquilo
que criamos a partir das nossas interações com o meio em que vivemos. Isso
significa que a cultura de uma sociedade não é transmitida pela hereditariedade
genética, mas pela convivência social.

Adquirimos cultura pelo processo de socialização, ou seja, na convivência


com os grupos sociais dos quais participamos, a começar pelo grupo familiar.

Segundo Marconi (2001), por meio da simbolização os seres humanos podem


transmitir sua cultura para diferentes gerações. É por meio da simbolização e do
significado atribuído aos gestos, aos sinais, às palavras, aos comportamentos,
aos sentimentos e aos objetos que a cultura de uma sociedade pode ser
facilmente compartilhada e seus significados compreendidos por todos.

Uma vez que a cultura é uma herança social,


Fonte: ytimg.com

transmitida pelos grupos sociais com os quais


convivemos, acabamos assimilando ideias,
valores, comportamentos, hábitos e crenças
que influenciam a interpretação que fazemos da
realidade. Podemos dizer que vemos o mundo
pela cultura na qual crescemos. Assim, a cultura
nunca é a mesma para todos, ela varia de um local
para outro, por isso que existem várias culturas
e que cada localidade possui a sua, cada qual
com suas singularidades. Para Dias (2005), essas
variações ocorrem:

Entre diferentes países: a cultura tradicional


japonesa é diferente da cultura tradicional chinesa;

33
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Entre uma região e outra no mesmo país: no Brasil a cultura mineira é diferente
da cultura baiana;

Entre diferentes grupos étnicos em um mesmo território: a cultura dos índios


ashaninka é diferente da cultura dos índios enawenê nawê, e ambos vivem
na Amazônia;

Entre diferentes grupos ou comunidades na mesma cidade: grupos de punks


diferem nos hábitos e no estilo dos funkeiros. Outro exemplo são as diferenças
entre comunidades religiosas distintas, como a católica e a umbandista, cada
qual possuindo sua crença, fé e culto.

A cultura pressupõe ao mesmo tempo a existência de várias culturas, isso é o


que caracteriza a diversidade cultural. Em outras palavras, a cultura humana é
composta por inúmeras culturas, e cada umas dessas é composta por outras
várias culturas.

Podemos, assim, dizer que a cultura brasileira abriga um conjunto de culturas


Fonte: Amino regionais: a caipira, a gaúcha, a nordestina, por exemplo, mas também abriga
um conjunto de pequenos grupos que podem se identificar pela etnia, ou pelos
costumes e tradições típicas de determinada comunidade, como caiçaras, ciganos,
quilombolas, ribeirinhos, entre outras.

O estudo da Antropologia, ou seja, o estudo do homem e da cultura


“consiste, portanto, no reconhecimento, no conhecimento, juntamente com
a compreensão de uma humanidade plural” (LAPLANTINE, 2005, p. 22). Ter
conhecimento de que agimos e pensamos de formas diferenciadas, porque
temos culturas diferentes, é o caminho que pode levar o ser humano a ser
mais compreensivo e a combater os preconceitos. Isso também implica nos
reconhecermos como pertencentes à mesma espécie homo sapiens sapiens.

Afinal, somos uma só humanidade diferenciada pela cultura e não pela


genética. Isso quer dizer que a ideia de raça é mais uma construção ideológica
do que uma constatação científica. Insistir na diferenciação/identificação racial
dos grupos humanos reforça o sentimento de racismo, cria preconceito e
estimula a discriminação.

Alan Templeton: “As diferenças genéticas entre etnias são insignificantes”


Encontrar um índio brasileiro não miscigenado ou mesmo um alemão puro da raça ariana é tarefa
quase impossível. É o que se conclui do trabalho coordenado pelo biólogo norte-americano Alan
Templeton, da Washington University of Saint Louis, que promete pôr fim ao conceito de raça, em
nome do qual foram cometidas algumas das maiores atrocidades da história da humanidade. 
A pesquisa de Templeton comparou mais de oito mil pessoas de várias partes do mundo, entre
elas índios ianomâmis e xavantes do Brasil. “As diferenças genéticas entre grupos das mais
distintas etnias são insignificantes”, afirma o pesquisador, que, apesar dos seus olhos azuis e
cabelos louros, pode ter mais genes africanos do que o rei Pelé. Templeton, que esteve no ICB
participando do IV Seminário de Ecologia Evolutiva, falou com exclusividade ao BOLETIM UFMG.

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Unidade 01 Antropologia e Sociologia: ciências do homem e da sociedade

BOLETIM (B): Sua pesquisa parece cair como luva para quem quer entender o processo de
miscigenação ocorrido no Brasil.
Templeton (T): Sim. Curiosamente, foi aqui no Brasil que, há mais de 20 anos eu senti - digo
senti porque ainda não era algo científico, mas emocional mesmo - o quanto é arbitrária a
divisão dos seres humanos em raças. Um professor da USP me contou que, numa viagem aos
Estados Unidos, percebeu que lá, diferentemente do Brasil, as pessoas morenas ou pardas são
consideradas negras. Foi aí que comecei a compreender que a classificação de pessoas em
raças é feita a partir de uma vivência cultural. A definição de negro, para o brasileiro, é diferente
daquela usada por quem mora no Alaska. O conceito de raça, ao contrário do que se acredita,
não é biológico, mas cultural.
B: Se não existem raças, porque um negro norte-americano é tão diferente de um japonês ou
de um índio maxacali?
T: Os genes, unidades que carregam todas as informações sobre o organismo de um ser humano,
determinam as características físicas. Mas as partículas que definem a cor do cabelo ou o
formato do rosto são tão poucas que perdem seu significado quando comparadas ao número
total de genes. A cor da pele de uma pessoa pode representar uma adaptação biológica a
certas condições geográficas ao longo de sua evolução. Na região de origem dos negros, por
exemplo, o sol é bastante forte. Como o excesso de energia solar prejudica o organismo, a cor
negra protege a pele contra os raios nocivos. Não importa se há diferenças na cor da pele, nas
feições do rosto, na estatura ou origem geográfica. Geneticamente, somos todos iguais.
B: Seria possível, então, encontrar mais genes africanos num alemão “puro” do que em um
negro nascido na África?
T: Sem dúvida. Às vezes, as diferenças mais gritantes aparecem entre indivíduos de um mesmo
grupo étnico, como os asiáticos. Os resultados da minha pesquisa demonstraram que, quando
há diferença significativa, 85% ocorre entre pessoas possuidoras das mesmas características
físicas. Afinal, os nossos genes vêm de todas as partes. Já as diferenças entre os negros africanos
e os brancos europeus, que serviriam de base para raças bem distintas, são de apenas 15%.
B: Os resultados da sua pesquisa podem contribuir para o fim do preconceito racial?
T: O preconceito é uma questão que preocupa o mundo inteiro. Se não existem raças, porque
há discriminação? Não faz sentido achar que os negros são melhores ou piores que os brancos
se os seus genes são praticamente os mesmos.
B: No Brasil, o IBGE divide os indivíduos em negros, brancos, pardos, amarelos e indígenas.
Como será a divisão se o conceito de raça for extinto?
T: Quando começarem a se ver de maneira diferente, os seres humanos passarão a ser
tratados como indivíduos e não só como membros de uma categoria. É lamentável que
essas instituições ainda agrupem as pessoas de forma estanque. Reconheço que produzem
estatísticas válidas para a definição de determinadas políticas públicas, mas no futuro a
forma de se categorizar as pessoas terá de sofrer mudanças. Se é que essas classificações
serão tão importantes assim.

A Antropologia entende que a humanidade é uma só, constituída da mesma


espécie, que tem como sua maior aptidão criar modos e estilos de vida
diferenciados. Assim, o que faz povos e sociedades se distinguirem não é a
sua condição biológica ou “racial”, mas a capacidade criadora e criativa da
cultura humana. Para que essa compreensão fosse alcançada, os estudos
antropológicos passaram por diferentes fases em diferentes períodos.

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Diversidade Sociocultural:
T4 etnocentrismo e relativismo
A diversidade sociocultural ou, especificamente, a diferença entre povos e suas
culturas não é uma descoberta exclusiva da Antropologia em suas origens no
século XIX. O encontro com o outro, aquele que é diferente, ao longo da história
da humanidade ocorre há séculos, desde a Antiguidade, principalmente por
meio das conquistas promovidas pelas antigas civilizações.

Porém, foi a partir das grandes navegações, da expansão colonialista europeia


sobre o planeta e das transformações sociais decorrentes desse processo que
a Era Moderna colocou em contato permanente povos, culturas e civilizações,
ou seja, modos de organização socioculturais distintos. Em suma, trata-se do
início da Era Planetária, como afirmou Morin (2005), que se desenvolve por
meio da conquista e exploração de territórios e da dominação e escravização
atroz de seus povos mundo afora.

A humanidade, ainda sem saber, se encontrava nos primórdios da globalização,


em todos os sentidos. Conjuntamente, um processo de ocidentalização do
mundo se iniciava por meio da imposição do modelo de civilização europeia
nos quatro cantos do globo.

Assim, os povos que eram tidos como selvagens passaram a ser vistos, a partir
do século XIX, como não civilizados, por se encontrarem em estágio evolutivo
inferior ao da civilização ocidental europeia.

Para tanto, argumentos que atualmente consideramos racistas e etnocêntricos


foram utilizados.

Fonte: Historiar

36
Unidade 01 Antropologia e Sociologia: ciências do homem e da sociedade

Em defesa da ação civilizadora dos povos atrasados, o discurso de Jules


Ferry na Assembleia Nacional francesa, em 1885, é revelador da mentalidade
da época: “As raças superiores têm um direito perante as raças inferiores. Há
para elas um direito porque há um dever para elas. As raças superiores têm o
dever de civilizar as raças inferiores” (MESGRAVIS, 1994, p.32). Discurso esse
que não escondia os interesses econômicos do imperialismo, a nova etapa
do colonialismo.

É nesse contexto que os primeiros estudos sobre as culturas das sociedades nativas
se desenvolveram. Os seus precursores pertencem à escola do evolucionismo
social, que tinham como objetivo compreender o processo evolutivo da cultura
humana. Entre os seus principais representantes temos Edward B. Tylor (1832-1917)
e Lewis Morgan (1818-1881). O nobre propósito, que era traçar a história evolutiva
da cultura humana, acabou justificando o discurso de dominação da sociedade
europeia ocidental sobre as demais e, como veremos a seguir, alimentou o
etnocentrismo como visão de mundo.

https://biomania.com.br/artigo/lewis-henry-morgan

https://biomania.com.br/artigo/edward-burnett-tylor

Evolucionismo Social e o Discurso


Etnocêntrico
A escola evolucionista possui como uma das premissas fundamentais
a compreensão de que a humanidade é um todo em evolução através
do tempo. Nos primórdios da humanidade todos os povos primitivos se
encontravam no mesmo nível de organização social e cultural, e por meio de
um processo evolutivo as sociedades progrediam da infância à maturidade.
Assim, segundo Tylor, os povos nativos encontravam-se ainda na infância do
desenvolvimento sociocultural, enquanto as sociedades europeias haviam
atingido a maturidade civilizacional.

Morgan foi quem melhor sistematizou o processo evolutivo das sociedades


humanas. Segundo ele, a evolução da cultura deveria ser classificada em
três estágios:

CIVILIZAÇÃO

BARBÁRIE

SELVAGERIA

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Em todos eles poderiam ser observados o grau de desenvolvimento técnico e


das formas de organização social, política, religiosa e econômica da sociedade
e, assim, classificá-la em um dos três estágios de evolução. Dessa forma, os
evolucionistas pretendiam explicar de forma convincente os motivos pelos
quais sociedades inteiras encontravam-se atrasadas em sua evolução ou
ainda “permaneciam na infância da humanidade”.

Podemos identificar no pensamento evolucionista uma visão etnocêntrica


sobre as culturas das sociedades nativas, uma vez que o modelo ideal que
todos os povos deveriam ter como referência era a civilização.

Os termos selvagem, inferior ou atrasado, empregados para descrever os povos


e suas culturas, ajudam a revelar o etnocentrismo presente em suas concepções.

Mas, afinal, como podemos definir o etnocentrismo?

Antes de qualquer definição, devemos ter em mente que o etnocentrismo


é um fenômeno universal, uma atitude tanto racional quanto emocional
presente em qualquer sociedade, e que, portanto, não é uma característica
exclusiva das sociedades europeias do século XIX, tampouco uma invenção
dos evolucionistas.

Para Dias (2005), todas as sociedades tendem a considerar a sua cultura como
a mais adequada que a cultura das outras sociedades. Assim, o etnocentrismo
viria à tona quando os indivíduos de uma determinada cultura manifestam
sentimentos de repulsa e estranheza diante de hábitos, costumes, crenças e
valores que não lhes são comuns.

Fonte: umsabadoqualquer.com
A CHARGE DE
CARLOS RUAS
MOSTRA COMO
OCORRE O
PENSAMENTO
ETNOCÊNTRICO

Segundo Silva (2009), os indivíduos de uma determinada cultura, ao


prejulgarem a cultura do outro, tendo como base os valores e princípios
de sua própria cultura, estão agindo de forma etnocêntrica. Há nesse
comportamento uma aversão à diferença, uma cegueira à diversidade
cultural, uma incompreensão do outro. Lévi-Strauss tratou de forma exemplar
sobre essa questão em Raça e História:

Não obstante, parece que a diversidade das culturas quase


nunca foi vista pelos homens como o que realmente é:

38
Unidade 01 Antropologia e Sociologia: ciências do homem e da sociedade

um fenômeno natural, resultante das relações diretas ou


indiretas entre as sociedades. Preferiram ver nela uma
espécie de monstruosidade ou escândalo;(...).

A atitude mais antiga, certamente assentada em sólidas


bases psicológicas, já que tende a reaparecer em cada um
de nós quando somos confrontados com uma situação
inesperada, consiste em repudiar, pura e simplesmente,
as formas culturais, morais, religiosas, sociais ou estéticas
mais afastadas daquelas com as quais nos identificamos.
“Costumes de selvagens”, “isso não se faz entre nós”, “não
deveríamos permitir isso”, e entre tantas outras reações
grosseiras que traduzem esse mesmo arrepio, essa repulsa
diante de modos de vida, de crença ou de pensamento
que nos são estranhos. (LÉVI-STRAUSS: 2013, p.362).

Ao partirmos do princípio de que todo comportamento etnocêntrico se


manifesta no contato com a diferença, podemos concluir que atitudes
etnocêntricas podem ser perigosas, uma vez que tais reações buscam
menosprezar, ridicularizar, desdenhar e até mesmo violentar ou exterminar o
outro, principalmente quando aquela diferença é percebida como uma ameaça
à identidade cultural de um grupo ou sociedade.

No atual estágio da globalização no século XXI, o intercâmbio cultural entre as


diversas sociedades tem sido promovido pelos meios digitais de comunicação
como a internet, pela comercialização de produtos, pelo crescimento dos
fluxos turísticos e migratórios das populações. A diferença cultural não é mais
um espanto como foi para os navegadores europeus do século XV, o mundo
está literalmente ao alcance das nossas mãos, nas telas dos smartphones. A
diversidade está em toda parte. Entretanto, devemos refletir sobre a presença
do etnocentrismo no nosso cotidiano.

Um exemplo típico de etnocentrismo no Brasil é a violência impetrada contra


povos indígenas. Porém, não são apenas os povos indígenas que sofrem com
ela; vemos com frequência, nas manchetes que aparecem na mídia, outras
formas de incompreensão das diferenças se manifestarem por meio do
preconceito racial, da intolerância religiosa, da homofobia, da xenofobia, entre
outras. Podemos considerá-las desdobramentos do etnocentrismo enquanto
visão de mundo. Pense nisso!

saiba mais
?
Fonte: TNH1

Entenda um pouco mais sobre etnocentrismo,


assistindo ao vídeo abaixo. Não deixe de ativar
a legenda do vídeo.

h t t p s : // w w w . y o u t u b e . c o m /
watch?v=oD8ELrfSYoI

39
Estudos Socioantropológicos Graduação | UNISUAM

Essa discussão, tão significativa para a antropologia, deve nos fazer


compreender que não existem culturas evoluídas e culturas atrasadas, mas
que são apenas culturas diferentes.

Enfim, a própria antropologia, no desenrolar do século XX, produziu estudos


mais abrangentes e novas teorias fundamentadas em métodos adequados
de investigação científica que poriam em questão não só o etnocentrismo,
mas também os equívocos das teses evolucionistas acerca das diferenças
culturais entre as sociedades.

O Relativismo Cultural, uma Resposta ao


Etnocentrismo
O relativismo cultural é um conceito oriundo do campo antropológico
que aos poucos ganhou evidência e importância após os antropólogos
empreenderem novas práticas de investigação científica, para tratar
dos modos de organização sociocultural dos povos nativos, ou seja,
daqueles povos que os evolucionistas consideraram atrasados quando
comparados com as sociedades ditas civilizadas. Dentre os novos métodos
e técnicas de pesquisa está a pesquisa de campo, aquela que privilegia
o contato direto do antropólogo com a população nativa em detrimento
dos dados e relatos transmitidos por informantes, procedimento comum
aos evolucionistas.

Franz Boas (1858-1942), de origem alemã radicado nos Estados Unidos, foi
um dos precursores da pesquisa de campo. Ele enfatizava que em campo
o antropólogo deveria anotar tudo nos mínimos detalhes. Somente dessa
forma ele poderia transcrever com fidelidade os hábitos, os ritos, os mitos,
as técnicas, em suma, tudo que integra a cultura de uma sociedade.

https://www.ebiografia.com/franz_boas/

Boas demonstrou que cada elemento (hábito, costume, crença, entre


outros) pertencente a uma determinada cultura só tem significado
quando relacionado ao contexto particular daquela cultura. Com isso,
pôde criticar a inconsistência da evolução cultural por estágios e,
consequentemente, o próprio etnocentrismo presente na abordagem
evolucionista.

40
Unidade 01 Antropologia e Sociologia: ciências do homem e da sociedade

Por sua vez, Bronislaw Malinowski (1884-1942) antropólogo britânico de origem


polonesa, inaugurou uma experiência radical na pesquisa de campo. Além de
anotar tudo em detalhes, ele afirmava que para compreender a lógica cultural
do outro seria preciso vivenciá-la, o que segundo ele, significava penetrar fundo
na mentalidade do outro, procurar ver o mundo com os olhos e o espírito do
outro, ou seja, devemos nos despir da nossa cultura para poder compreender
a outra cultura, e chamou esse procedimento de observação participante.

https://biomania.com.br/artigo/bronislaw-malinowski

Por meio da pesquisa de campo, da observação participante e das anotações


no diário de campo dos costumes, dos hábitos, dos afazeres cotidianos, dos
rituais, das trocas e festas, ou seja, das relações sociais em geral dos povos
nativos, os antropólogos dedicaram-se à elaboração de etnografias – estudos
descritivos da organização social e cultural de uma sociedade.

As etnografias só se tornaram possíveis a partir do momento que os


antropólogos passaram a efetuar a observação direta e participante da cultura
das sociedades estudadas na pesquisa de campo.

É importante destacarmos que atualmente a pesquisa de campo e a observação


participante são empregadas em diferentes áreas de conhecimento. Com
elas os antropólogos, além de inaugurarem um novo método científico de
investigação social, deram uma resposta coerente para questões relativas
às diferenças culturais, demonstrando que sociedades distintas possuem
concepções culturais distintas, e que todas são igualmente válidas.

Boas e Malinowski abriram as portas para a compreensão da diversidade


cultural, ao mesmo tempo que sedimentaram o caminho para o relativismo
cultural, que surgiu como uma resposta crítica ao etnocentrismo presente
nas ideias evolucionistas.

DIVERSIDADE CULTURAL

Fonte: UFPB

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Estudos Socioantropológicos Graduação | UNISUAM

O relativismo cultural, segundo Dias (2010, p. 62), “refere-se à visão pela qual
deve ser entendido o comportamento em termos de seu próprio contexto
cultural. Ou seja, qualquer cultura deve ser analisada e compreendida
utilizando seus próprios costumes e valores para julgá-la.” Isso exige que
nós tenhamos uma atitude diferenciada ao olhar para os outros, um olhar
que nos permita compreender que esses outros agem de acordo com os
hábitos, costumes, crenças e valores próprios de sua cultura.

É nesse sentido que a pesquisa de campo e a observação participante


possibilitaram aos antropólogos, em princípio, olhar o mundo de forma
singular.

Isso significa que devemos “olhar o outro” a partir do “lugar do outro”,


ou seja, que devemos ser capazes de nos colocarmos no lugar desse
outro para evitarmos julgar seu modo de vida de forma etnocêntrica. Em
suma, essas foram as maiores contribuições do relativismo cultural, nos
ensinar a ver as particularidades culturais de cada grupo e sociedade e
nos alertar para os equívocos dos prejulgamentos etnocêntricos diante
das diferenças culturais.

Afinal, o que é a cultura se não um mosaico de infinitas formas de


viver, no qual diversas culturas se inserem no interior de uma mesma
cultura ou território? Devemos sempre lembrar que as sociedades
são multiculturais, portanto não cabem em um mundo globalizado
julgamentos etnocêntricos.

Considerações Finais
Nesta unidade, vimos que a emergência da sociedade moderna promoveu
um conjunto de transformações socioculturais que resultou em uma
sociedade capitalista, urbana-industrial, governada pela racionalidade
técnica e científica. Esse contexto de transformações generalizadas foi
favorável para que emergisse um conhecimento científico que pudesse
explicar a sociedade e o homem. Assim, a Sociologia e Antropologia se
constituíram enquanto ciências sociais.

Como precursor desse movimento tivemos Augusto Comte, que nomeou


a ciência da sociedade de Sociologia. Porém, Karl Marx, Émile Durkheim e
Max Weber são os que ficaram reconhecidos com os clássicos da Sociologia.
Cada qual com sua teoria iluminou aspectos distintos da realidade social,
produzindo um saber científico sobre as relações que envolvem os indivíduos
e a sociedade. Os diferentes aspectos da realidade abordados por eles com
suas teorias e métodos, apesar de serem distintos e por vezes opostos, nos
ajudam a compreender a dinâmica da sociedade.

Por sua vez, os antropólogos, ao voltarem seu olhar para os ditos povos nativos,
nos ajudaram a compreender a diversidade cultural.

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Unidade 01 Antropologia e Sociologia: ciências do homem e da sociedade

Vimos que a cultura, do ponto de vista antropológico, não deve servir para
medir o grau de evolução entre povos e sociedades.

Ao contrário, a cultura deve ser entendida como um patrimônio da humanidade,


que é constituinte e constituidora de todas as sociedades humanas, sendo a
diversidade a sua maior riqueza. Assim, podemos combater o etnocentrismo
e as várias formas de intolerância e incompreensão que dele derivam para
estimular o diálogo entre as culturas.

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XIX. Mundo Educação. Disponível em: <https://mundoeducacao.
bol.uol.com.br/historiageral/darwinismo-social-imperialismo-no-
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2015. Disponível em: <http://www.fau.usp.br/docentes/
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DIAS, R. Introdução à Sociologia. 2ª ed. São Paulo: Pearson, 2010.

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FRANZÃO, Dilva. Karl Marx: filósofo e revolucionário alemão.


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POLANYI, K. A Grande Transformação: as origens políticas e


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RIBEIRO, Paulo Silvino. A Sociedade Estamental: as funções de


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brasilescola.uol.com.br/sociologia/a-sociedade-estamental-as-
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TODA MATÉRIA. Sociedade Estamental. Sociologia. Disponível


em: <https://www.todamateria.com.br/sociedade-estamental/>.
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