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CADERNO DISCENTE – CIÊNCIA POLÍTICA I – FORTALEZA – 2019

SEPARAÇÃO DO PODER TEMPORAL E ESPIRITUAL DE DANTE E A RELAÇÃO


COM A ORGANIZAÇÃO POLÍTICA DE THOMAS MORUS
Lucas Cavalcante dos Santos*

Por meio da obra intitulada “Monarquia”, Dante Alighieri defende a separação entre o
poder espiritual e o poder temporal, bem como sua contribuição na formação do “Estado”. No
terceiro livro, “A Autoridade do Monarca, ou seja, do Império, Emana Diretamente de Deus”,
o autor, ao discorrer sobre a necessidade de um governo universal, dualiza o poder em esferas,
sendo: uma terrena que deve ficar sob a responsabilidade do imperador, do governante
temporal; e a outra espiritual cuja o cuidado compete aos membros da Igreja. Tais esferas não
estão subordinadas entre si, mas devem buscar cada qual atingir objetivos próprios que podem
ser definidos na realização da justiça e da convivência pacífica entre os homens
(responsabilidade da monarquia) e preparação para a vida espiritual (responsabilidade da
Igreja).
Uma vez que o ser humano é dotado de duas partes, uma mortal e outra imortal, e deve,
portanto, ter suporte para atingir os objetivos de cada um desses âmbitos, cabe ao monarca
conduzi-lo ao fim terreno — provendo as necessidades materiais — à felicidade temporal, e ao
papa prepará-lo para a vida espiritual — responsável pela a vida ultraterrena — à felicidade
pétrea.
Para Dante, a paz é a condição ideal para a humanidade obter progresso e alcançar seu
fim, mas a paz é somente atingida através da harmonia e ordem devido a dicotomia do poder.
Destarte, a “Utopia”, palavra criada para o título do livro de Thomas Morus e que resulta
da justaposição dos termos gregos ou (prefixo de negação) e topos (lugar), significando o "não
lugar" ou "lugar que não existe”, descreve uma república imaginária, a “Ilha do Novo Mundo”.
Organizada de acordo com a razão, nesta sociedade não existe a propriedade privada; o dinheiro
e as riquezas materiais não possuem valor, pois Morus defende uma vida simples e sem luxos,
fundada na igualdade de condições de vida e critica o que denomina "luxo desnecessário" da
Igreja, em especial de seu alto clero. Na ilha, os utopianos entendem a fé como a vivência
segundo a natureza, creem em Deus, na imortalidade da alma, na recompensa da virtude. Fé e
razão se mesclam. Há tolerância religiosa e liberdade de culto, mas são vistos com desconfiança
aqueles que não creem numa autoridade única e superior a tudo. Deus pode ser entendido como
a fonte de poder do Estado igualitarista em Utopia, pois é do temor a ele que advém a busca por
justiça.

* Acadêmico do Departamento de Ciências Sociais, no Centro de Humanidade da Universidade Federal do


Ceará, em Fortaleza/CE.
CADERNO DISCENTE – CIÊNCIA POLÍTICA I – FORTALEZA – 2019

Morus, assim como Dante, postula uma interpretação livre da bíblia à medida que crítica
os costumes e a autoridade da Igreja, separando o poder temporal e o poder espiritual. A Igreja
não mais atuaria adjunto ao poder do monarca, uma vez que este emana diretamente de Deus,
ou seja, não depende da interferência, nem da aquiescência dos membros da Igreja. Fica clara
a necessidade de separação entre o Estado e a Igreja para a garantira da felicidade pessoal e
coletiva do homem, pois até então prevalecia o entendimento de que o poder temporal estava
subordinado ao poder espiritual.

REFERÊNCIAS

ALIGHIERI, Dante. Monarquia. São Paulo: Ícone, 2006. Tradução: Hernâni Donato.
MORUS, Thomas. Utopia. Disponível em:
<http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/utopia.pdf>. Acesso em: 05 de Junho. 2019.