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“ENTRE TEXTOS“

Gramática, Interpretação de Texto e Literatura


Murilo de Almeida Gonçalves e Lucas Limberti

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hexag
SISTEMA DE ENSINO
1ª edição
São Paulo
2016
hexag
SISTEMA DE ENSINO

© Hexag Editora, 2016


Direitos desta edição: Hexag Editora Ltda. São Paulo, 2016
Todos os direitos reservados.

Autores
Murilo de Almeida Gonçalves (Gramática e Interpretação de texto)
Lucas Limberti (Literatura)

Diretor geral
Herlan Fellini

Coordenador geral
Raphael de Souza Motta

Responsabilidade editorial
Hexag Editora

Diretor editorial
Pedro Tadeu Batista

Editora
Emily Cristina dos Ouros

Revisor
Arthur Tahan Miguel Torres

Pesquisa iconográfica
Camila Dalafina Coelho

Programação visual
Hexag Editora

Editoração eletrônica
Bruno Alves Oliveira Cruz
Camila Dalafina Coelho
Eder Carlos Bastos de Lima
Raphael de Souza Motta

Capa
Hexag Editora

Fotos da capa (de cima para baixo)


http://www.fcm.unicamp.br
Acervo digital da USP (versão beta)
http://www.baia-turismo.com

Impressão e acabamento
Imagem Digital

ISBN: 978-85
Todas as citações de textos contidas neste livro didático estão de acordo com a legislação, tendo por fim único e exclusivo o
ensino. Caso exista algum texto, a respeito do qual seja necessária a inclusão de informação adicional, ficamos à disposição
para o contato pertinente. Do mesmo modo, fizemos todos os esforços para identificar e localizar os titulares dos direitos sobre
as imagens publicadas e estamos à disposição para suprir eventual omissão de crédito em futuras edições.
O material de publicidade e propaganda reproduzido nesta obra está sendo usado apenas para fins didáticos, não represen-
tando qualquer tipo de recomendação de produtos ou empresas por parte do(s) autor(es) e da editora.

2016
Todos os direitos reservados por Hexag Editora Ltda.
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CARO ALUNO,
O Hexag Medicina é referência em preparação pré-vestibular de candidatos à carreira de Medicina. Desde 2010,
são centenas de aprovações nos principais vestibulares de Medicina no Estado de São Paulo e em todo Brasil.
Ao atualizar sua coleção de livros para 2016, o Hexag considerou o principal diferencial em relação aos
concorrentes: a sua exclusiva metodologia fundamentada em três pontos – período integral, estudo orientado
(E.O.) e salas reduzidas.
O material didático foi, mais uma vez, aperfeiçoado e seu conteúdo enriquecido, inclusive com questões
recentes dos principais vestibulares 2016.
Esteticamente, houve uma melhora em seu layout, na definição das imagens e também na utilização de cores.
No total, são 80 livros, distribuídos da seguinte forma:
ƒ 21 livros de Ciências da Natureza e suas tecnologias (Biologia, Física e Química);
ƒ 14 livros de Ciências Humanas e suas tecnologias (História e Geografia);
ƒ 07 livros de Linguagens, Códigos e suas tecnologias (Gramática, Literatura e Inglês);
ƒ 07 livros de Matemática e suas tecnologias;
ƒ 04 livros de Sociologia e Filosofia;
ƒ 04 livros “Entre Aspas” (Obras Literárias da Fuvest e Unicamp);
ƒ 02 livros “Entre Frases” (Estudo da Escrita – Redação);
ƒ 06 livros “Entre Textos” (Interpretação de Texto).
ƒ 03 livros "Between English and Portuguese" (Inglês).
ƒ 12 livros de Revisão (U.T.I. "Unidade Técnica de Imersão").
O conteúdo dos livros foi organizado por aulas. Cada assunto contém uma rica teoria, que contempla de
forma objetiva o que o aluno realmente necessita assimilar para o seu êxito nos principais vestibulares e Enem,
dispensando qualquer tipo de material alternativo complementar.
Os capítulos foram finalizados com cinco categorias de exercícios, trabalhadas nas sessões de Estudo Orien-
tado (E.O.), como segue:

ƒ E.O. Teste I: exercícios introdutórios de múltipla escolha, para iniciar o processo de fixação da matéria
estudada em aula;

ƒ E.O. Teste II: exercícios de múltipla escolha, que apresentam grau médio de dificuldade, buscando a con-
solidação do aprendizado;

ƒ E.O. Teste III: exercícios de múltipla escolha com alto grau de dificuldade;

ƒ E.O. Dissertativo: exercícios dissertativos nos moldes da segunda fase da Fuvest, Unifesp, Unicamp e
outros importantes vestibulares;

ƒ E.O. Enem: exercícios que abordam a aplicação de conhecimentos em situações do cotidiano, preparando
o aluno para esse tipo de exame.
A edição 2016 foi elaborada com muito empenho e dedicação, oferecendo ao aluno um material moderno e
completo, um grande aliado para o seu sucesso nos vestibulares mais concorridos de Medicina.

Herlan Fellini
Gramática E
Interpretação de texto

Aula 13: Numeral e Preposição 6


Textos em verso 10
Aula 14: Conjunção 36
Textos em prosa 39
Aula 15: Termos essenciais da oração 64
Crônicas 69
Aula 13 (Gramática e I.T.)
Numeral, preposição e
textos em verso
NUMERAL
Numeral é a classe de palavra que se relaciona diretamente com o substantivo, atribui-lhe quantidade, situa-o em
determinada sequência e com ele mantém vínculo morfossintático, isto é, o numeral é considerado um sintagma
nominal.

Exemplo: Os cinco ingressos devem ser distribuídos aos vencedores.


(cinco é um atributo numérico do substantivo ingressos.)

O numeral traduz em palavras as quantidades indicadas pelos números. Se a expressão for escrita apenas
em números, não se tratará de numerais, mas de algarismos. Vejamos alguns exemplos:

Exemplos:
Ele foi aprovado em primeiro lugar.
(primeiro é o algarismo empregado para formar numerais escritos.)

Usei um quarto do meu salário para pagar as contas.


(um quarto é o algarismo empregado para formar numerais escritos.)

IMPORTANTE! Algumas palavras são consideradas numerais, se denotarem ideia de quantidade, propor-
ção ou ordenação.

Passou-se uma década até alcançarmos a democracia.


Comprei meia dúzia de ovos para o bolo.

Classificação de numerais
ƒ Cardinais: indicam contagem, medida:
Exemplo: A medida do quarto é de trinta metros.
ƒ Ordinais: indicam a ordem ou o lugar da coisa ou pessoa numa série dada.
Exemplo: Verifique o segundo contato da agenda.
ƒ Multiplicativos: indicam multiplicação da coisa ou pessoa, quantas vezes a quantidade dela foi aumen-
tada.
Exemplo: Apareceu um triplo de convidados a mais que o esperado.
ƒ Fracionários: indicam parte de um inteiro da coisa ou pessoa.
Exemplo: Dois terços dos alunos foram aprovados na primeira fase da prova.

Emprego de “ambos” e “ambos os”

São considerados numerais e significam “um e outro” e também “os dois” (ou “uma e outra” e “as duas”). São
empregados para retomar pares de seres anteriormente mencionados. Se empregarmos ambos/ambas em função
adjetiva, ou se antecederem um substantivo, devem vir seguidos de artigo (o, a, os, as). No entanto, se em função
substantiva, dispensa-se o artigo.

Exemplos:
Os dois estudantes, ambos repetentes, tinham grandes dificuldades de aprendizado.
Gosto de meus irmãos; Ambos os dois.
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Emprego de “meio” como As preposições são invariáveis, ou seja, não se
numeral adjetivo flexionam em gênero, número ou grau. Mas elas se con-
traem com outras palavras, como vimos no exemplo an-
Meio(s) e meia(s) são numerais adjetivos que acompa- terior. Ao se juntar ao artigo, elas passam a estabelecer
nham substantivos. Por esse motivo, obedecerão às re- concordância em gênero e número com essas palavras.
gras de concordância nominal (concordam em gênero e Importante lembrar que não se trata de uma variação
número com esse substantivo). própria da preposição, mas da palavra com a qual ela
se funde.
Exemplos:
A relação estabelecida pelas preposições pressu-
Agora é meio dia e meia (metade da hora).
põe um primeiro elemento – chamado antecedente – e
Meia taça de vinho já me deixa bêbado. um segundo – chamado consequente. Aquele é o que
exige a preposição, também chamado termo regente; o
Empregos especiais segundo é o termo regido por ela, também chamado de
dos numerais termo regido pela preposição.

Quando há a necessidade de se atribuir características O antecedente ou termo regente de preposição


numéricas a figuras importantes, como papas, reis, im- pode ser:
peradores, séculos, ou partes de uma obra, empregam-
ƒ Substantivo: bloco de cimento
-se os ordinais até décimo elemento. Daí em diante,
ƒ Adjetivo: contente com o desempenho
deve-se empregar os cardinais, desde que o numeral
ƒ Advérbio: preciso imediatamente de um cura-
venha seguido do substantivo.
tivo
Ordinais > cardinais ƒ Pronome: quem de vocês fez isso?
João Paulo II (segundo) ƒ Verbo: gostar de matemática
Tomo XVI (dezesseis)
D. Pedro II (segundo)
Capítulo XX (vinte)
Século VIII (oitavo)
Classificação das
Século XX (vinte) preposições
Exceção: para designar leis, decretos e porta- ƒ Essenciais – palavras que atuam exclusivamen-
rias, emprega-se o ordinal até nono, e o cardinal a par- te como preposição. São elas: a, ante, após, até,
tir do décimo elemento. com, contra, de, desde, em, entre, para, perante,
Artigo 1º (primeiro) por, sem, sob, sobre.
Artigo 9º (nono) ƒ Acidentais – palavras de outras classes gra-
Artigo 10 (dez) maticais que atuam como preposições. São elas:
como, conforme, consoante, durante, exceto, fei-
PREPOSIÇÃO to, mediante, segundo.

A preposição é utilizada para estabelecer relações de


sentido entre dois ou mais termos de uma oração. Trata- Preposições e suas
-se de um processo de conexão entre os elementos que
relações de sentido
foram ligados pela preposição.

Exemplo: Comprou os bilhetes da rifa com o Principais relações estabelecidas pelas preposições:
troco do lanche (da: contração da preposição “de” com ƒ Oposição: Eles lutarão um contra o outro
o artigo “a” / com: preposição isolada / do: contração ƒ Conteúdo: Preciso de um copo de (ou com)
da preposição “de” com o artigo “o”). água.
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ƒ Origem: Você veio de Pernambuco.
ƒ Autoria: Estes versos são de Camões.
ƒ Posse: Essa mochila é de Paulo
ƒ Lugar: Estou em minha casa.
ƒ Tempo: Viajei durante o inverno.
ƒ Modo ou conformidade: Vamos selecionar por par ou ímpar.
ƒ Especialidade: Ana formou-se em Medicina.
ƒ Destino ou direção: Vá para a casa de sua tia.
ƒ Causa: Faltou por conta de uma gripe.
ƒ Assunto: Não gosto de comentar nada sobre esses comportamentos.
ƒ Fim ou finalidade: Eu vim para mudar tudo.
ƒ Instrumento: Paulo feriu-se com o estilete.
ƒ Companhia: Vou ao cinema com minha namorada.
ƒ Meio: Gosto de andar a pé.
ƒ Matéria: Prefiro sofás de espuma.

Locuções prepositivas
São duas ou mais palavras empregadas com a função de uma única preposição. Nelas, a última pa-
lavra do conjunto é sempre uma preposição essencial: acerca de, apesar de, a respeito de, de acordo com,
graças a, para com, por causa de, abaixo de, por baixo de, embaixo de, adiante de, diante de, além de, antes de,
acima de, em cima de, por cima de, ao lado de, dentro de, em frente a, a par de, em lugar de, em vez de, em redor
de, perto de, por trás de, junto a, junto de, por entre.

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TEXTOS EM VERSO
Como informado na abertura da apostila, muitos vestibulares, atualmente, fazem uso dos gêneros literários para
construir questões de interpretação de textos. Ou seja, as questões não abordam necessariamente um conheci-
mento profundo sobre a obra (seu enredo), mas exigem do candidato um trabalho mais acurado com as questões
estruturais e também com a compreensão do conteúdo de algum poema ou trecho de livro. Nessa primeira aula,
daremos ênfase às características dos textos em verso (os poemas).

O poema
O poema é um gênero textual de cunho bastante subjetivo, que se constrói não apenas com ideias ou sentimentos,
mas que articula combinações de palavras que, na maioria dos casos, constitui sentidos variados. Essas combina-
ções de palavras costumam ser distribuídas em um “corpo” bastante complexo, dotado de vários elementos que
conheceremos mais adiante, como o verso, a estrofe (elementos estruturais), a rima, o ritmo (elementos sonoros),
entre outros. O jogo de palavras realizado nos poemas (de fortes marcas denotativas) muitas vezes imprime dificul-
dades de interpretação. Vejamos os elementos do poema:
a) O verso e a estrofe
Para entendermos com mais precisão o que são esses dois elementos, vejamos o poema a seguir, do escritor
Jorge Lima:

Retreta do Vinte

O cabo mulato balança a batuta,


meneia a cabeça, acorda com a vista
os bombos, as caixas, os baixos e as trompas.

(No centro da Praça o busto de D. Pedro escuta.)


Batuta pra esquerda: relincham clarins,
requintas, tintins e as vozes meninas da banda do 20.

Batuta à direita: de novo os trombones


e as trompas soluçam. E os bombos e as caixas: ban-ban!
Vêm logo operários, meninas, cafuzas,
mulatos, portugas, vem tudo pra ali.
Vem tudo, parecem formigas de asas
Rodando, rodando em torno da luz.

Nos bancos da Praça conversas acesas,


apertos, beijocas, talvezes.

D. Pedro II espia do alto.


(As barbas tão alvas
tão alvas nem sei!)

E os pares passeiam,
parece que dançam,
que dançam ciranda,
em torno do Rei.
(Jorge de Lima. Poemas negros. Cosac Naify,
página 41, 2014).

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ƒ Verso: entende-se por verso uma sucessão ou Quero que meu soneto, no futuro,
sequência de sílabas que mantém determina- não desperte em ninguém nenhum prazer.
da unidade rítmica e melódica em um poema, E que, no seu maligno ar imaturo,
correspondendo, habitualmente, a uma linha do ao mesmo tempo saiba ser, não ser.
poema. No poema apresentado, cada linha do Esse meu verbo antipático e impuro
poema corresponde a 1 verso, então temos um há de pungir, há de fazer sofrer,
total de 21 versos. tendão de Vênus sob o pedicuro.

ƒ Estrofe: entende-se por estrofe um agrupamen- Ninguém o lembrará: tiro no muro,


to de versos realizado pelo autor do poema. Os cão mijando no caos, enquanto Arcturo,
agrupamentos podem variar bastante, de acordo claro enigma, se deixa surpreender.
com a forma do poema (forma fixa ou forma li-
Temos aí um soneto de estilo clássico, que além
vre). Por exemplo, no poema de Jorge de Lima
de apresentar o agrupamento de estrofes que comen-
que foi apresentado, opta-se por uma forma
tamos (dois quartetos e dois tercetos), apresenta ele-
mais livre, com agrupamentos variados. Temos
mentos de métrica e rima bastante determinados. Aliás,
na abertura duas estrofes de 3 versos (conhe-
é importante nesse momento conhecermos um pouco
cidas como tercetos), seguidas por uma de 6
melhor esses outros elementos.
versos (sexteto). Em seguida, temos um agrupa-
mento com 2 versos (chamado dístico), seguido
de outro de 3 (mais um terceto). O poema é fi- Métrica
nalizado com um grupo de 4 versos (quarteto).
A métrica é a medida dos versos ou, em termos mais
Atenção às formas fixas! claros, a quantidade de sílabas que possui cada linha
que compõe o poema. No entanto, a contagem de
São conhecidos como formas fixas aqueles poemas que sílabas poéticas segue um padrão diferente da
apresentam um padrão pré-determinado em sua cons- separação de sílabas tradicional. Na contagem de
trução. Existem vários tipos de forma fixa, como o vi- sílabas poéticas devemos proceder da seguinte maneira:
lancete (um terceto mais dois outros tipos de estrofe à
ƒ Conta-se as sílabas de maneira habitual, mas
escolha do poeta), o haicai (poema de origem japonesa
devem ser contadas como uma única sílaba a
que se constrói com três versos e um número bem de-
vogal final + a vogal inicial de duas palavras.
terminado de sílabas) ou as redondilhas (formas fixas
de 5 ou 7 versos). A mais tradicional dessas formas é ƒ A contagem deve ser encerrada na última sílaba
tônica da última palavra do verso.
o soneto. Ele possui uma forma estruturada a partir
do agrupamento de duas estrofes de 4 versos (dois Vejamos um exemplo com os dois primeiros ver-
quartetos) e outras duas de 3 versos (dois tercetos), to- sos da segunda estrofe do poema de Carlos Drummond
talizando 14 versos. Em sua composição costuma ser que foi apresentado:
desenvolvida uma ideia ou discussão que perpassa os
Que/ ro/ que/ meu/ so/ ne/ to,/ no/ fu/ tu/ ro,
13 primeiros versos e encontra sua resolução/fecho no 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

último verso. Vejamos um exemplo de soneto:


não/ des/ per/ te em/nin/ guém/ ne,/ nhum/ pra/zer
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
Oficina Irritada

Eu quero compor um soneto duro Pode-se notar que o primeiro verso que escolhe-
como poeta algum ousara escrever. mos é um decassílabo perfeito. A contagem, como dito,
Eu quero pintar um soneto escuro, deve ser encerrada na última tônica da última palavra
seco, abafado, difícil de ler. do verso (a palavra “futuro” é paroxítona; sua tônica
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é a sílaba “-tu”). Já no segundo verso encontramos outra regra que deve ser obedecida (sublinhada no verso): a
junção da vogal final de uma palavra com a vogal inicial de outra (des-per-te em). Também é um verso decassílabo.
De acordo com a variabilidade de sílabas poéticas, as estrofes terão nomes diferentes:
ƒ 5 sílabas poéticas: pentassílabo ou redondilha menor
ƒ 7 sílabas poéticas: heptassílabo ou redondilha maior
ƒ 10 sílabas poéticas: decassílabo
ƒ 11 sílabas poéticas: endecassílabo
ƒ 12 sílabas poéticas: dodecassílabos ou alexandrinos
O processo de contagem e separação de sílabas poéticas recebe o nome de escanção.

Ritmo
O ritmo corresponde a uma “melodia” que se cria no corpo do poema por conta da acentuação de certas sílabas
que há nos versos. Usando novamente os versos acima apresentados, podemos perceber que há um conjunto de
sílabas mais fortes nas mesmas posições de cada verso (no caso, a segunda, a sexta e a décima são as mais fortes).
Esse padrão cria um ritmo que dá certa musicalidade ao poema, quando de sua recitação.

Que/ ro/ que/ meu/ so/ ne/ to,/ no/ fu/ tu/ ro,
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11

não/ des/ per/ te em/nin/ guém/ ne,/ nhum/ pra/zer


1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

Rima
A rima é um recurso sonoro que também atribui musicalidade ao poema. Se constrói a partir da semelhança sonora
de palavras no final de versos. Novamente:

Eu quero compor um soneto duro


como poeta algum ousara escrever.
Eu quero pintar um soneto escuro,
seco, abafado, difícil de ler.

Quero que meu soneto, no futuro,


não desperte em ninguém nenhum prazer.
E que, no seu maligno ar imaturo,
ao mesmo tempo saiba ser, não ser.

Destacamos o sistema de rimas do poema de Drummond. Fica evidente que é um esquema de rimas em
que os versos se alternam “-uro” e “-er”. Essa sequência de versos alternados também garante musicalidade ao
poema.

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E.O. TESTE I 1. (Unesp) Assinale a alternativa cuja frase
contém um numeral cardinal empregado
TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES: como substantivo.
a) Há muitos anos que a política em Portugal
Uma campanha alegre, IX apresenta...
Há muitos anos que a política em Portugal b) Doze ou quinze homens, sempre os mesmos,
apresenta este singular estado: alternadamente possuem o Poder...
Doze ou quinze homens, sempre os mesmos, c) ... os cinco que estão no Poder fazem tudo o
alternadamente possuem o Poder, perdem o que podem para continuar...
Poder, reconquistam o Poder, trocam o Po- d) ... são tirados deste grupo de doze ou quinze
der... O Poder não sai duns certos grupos, indivíduos...
como uma pela* que quatro crianças, aos e) ... aos quatro cantos de uma sala...
quatro cantos de uma sala, atiram umas às
outras, pelo ar, num rumor de risos.
2. (Unesp) ... cheios de fel e de tédio...
Quando quatro ou cinco daqueles homens es-
Nesta passagem do sexto parágrafo, o cro-
tão no Poder, esses homens são, segundo a
nista se utiliza figuradamente da palavra fel
opinião, e os dizeres de todos os outros que
para significar:
lá não estão — os corruptos, os esbanjadores
a) rancor.
da Fazenda, a ruína do País!
b) eloquência.
Os outros, os que não estão no Poder, são,
c) esperança.
segundo a sua própria opinião e os seus jor-
d) medo.
nais — os verdadeiros liberais, os salvadores
e) saudade.
da causa pública, os amigos do povo, e os
interesses do País.
Mas, coisa notável! — os cinco que estão no TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
Poder fazem tudo o que podem para continu- As matas ciliares são tão importantes para
ar a ser os esbanjadores da Fazenda e a ruína os rios e lagos, como são os cílios para a pro-
do País, durante o maior tempo possível! E teção dos nossos olhos. (...) Sem as matas
os que não estão no Poder movem-se, cons- ciliares, as nascentes secam, as margens dos
piram, cansam-se, para deixar de ser o mais rios e riachos solapam, o escoamento super-
depressa que puderem — os verdadeiros li- ficial aumenta e a infiltração da água no solo
berais, e os interesses do País! diminui, reduzindo as reservas de água do
Até que enfim caem os cinco do Poder, e solo e do lençol freático. As consequências
os outros, os verdadeiros liberais, entram são dramáticas para o meio ambiente: a po-
triunfantemente na designação herdada de luição alcança facilmente os mananciais e a
esbanjadores da Fazenda e ruína do País; em vida aquática é prejudicada, rios e reservató-
tanto que os que caíram do Poder se resig- rios transformam-se em grandes esgotos ou
nam, cheios de fel e de tédio — a vir a ser os lixões.
verdadeiros liberais e os interesses do País.
Ora como todos os ministros são tirados des-
3. (G1-CPS) Na primeira frase do texto, a pre-
te grupo de doze ou quinze indivíduos, não
posição para, na oração destacada, foi em-
há nenhum deles que não tenha sido por
pregada com valor semântico de __________,
seu turno esbanjador da Fazenda e ruína do
como ocorre nesta oração: Todos os condômi-
País...
nos se empenham para custear a instalação
Não há nenhum que não tenha sido demi-
de um sistema de captação de água pluvial
tido, ou obrigado a pedir a demissão, pelas
no prédio.
acusações mais graves e pelas votações mais
Para que a afirmação seja correta, a lacuna
hostis...
do texto deve ser preenchida por:
Não há nenhum que não tenha sido julgado
a) finalidade.
incapaz de dirigir as coisas públicas — pela
b) conclusão.
Imprensa, pela palavra dos oradores, pelas
c) explicação.
incriminações da opinião, pela afirmativa
d) concessão.
constitucional do poder moderador...
e) proporcionalidade.
E todavia serão estes doze ou quinze indi-
víduos os que continuarão dirigindo o País, TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
neste caminho em que ele vai, feliz, abun-
dante, rico, forte, coroado de rosas, e num Trem de aço
chouto** tão triunfante! 1
Viajar de trem me dá saudade de coisas que
(*) Pela: bola. não vivi. É também diante de um trem, estan-
(**) Chouto: trote miúdo. do eu dentro ou fora dele, que revejo cenas
(Eça de Queirós. Obras. Porto: Lello & Irmão-Editores, [s.d.].) que não presenciei e histórias que incluem
13
pessoas que nem sempre conheci. 2Gente complementar termos.
esperando na plataforma, dando adeus aos
Assinale a alternativa em que a preposição
amigos, beijando a namorada, enxugando
destacada apenas complementa um termo,
uma lágrima, mas fingindo sorrir. São como
sem expressar relação de sentido:
muitas imagens que povoam os nossos so-
a) “Viajar de trem me dá saudade de coisas que
nhos e que, 3ao nos lembrarmos delas, fica-
não vivi.” (ref. 1)
mos em dúvida sobre sua vivência real ou
b) “(...) e assim, com os olhos cheios de so-
sonhada. Se estou dentro de um deles, ime-
nhos, se postarem nas janelas e nos quintais
diatamente me acomodo junto à janela, para
(...)” (ref. 4)
ver o desfile das pequenas cidades, as crian-
c) “Fui testemunha de romances que começa-
ças acenando, as mulheres suspendendo por
ram e que terminaram nessas viagens (...)”
um instante o que estão fazendo 4e assim,
com os olhos cheios de sonhos, se postarem (ref. 7)
nas janelas e nos quintais, suspirando por d) “(...) nas viagens quase semanais que eu fa-
uma vida bonita como uma viagem de trem. zia para participar do Grande Teatro.” (ref.
[...] 6)
Uma viagem, qualquer uma, curta ou longa, TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
seja por um meio, seja por outro, sempre
nos deixa imagens de vida que ficam para Quando a rede vira um vício
sempre. Mas as que fazemos de trem per- Com o titulo “Preciso de ajuda”, fez-se um
duram muito além das outras. Num avião, desabafo aos integrantes da comunidade Vi-
por exemplo, não temos paisagem. É como ciados em Internet Anônimos: “Estou muito
se viajássemos dentro de um tubo de ensaio. dependente da web, Não consigo mais viver
Num navio existe sempre a monótona so- normalmente. Isso é muito sério”. Logo ob-
lidão do oceano que parece não ter fim. 5O teve resposta de um colega de rede. “Estou
trem, ao contrário, nos enriquece os olhos na mesma situação. Hoje, praticamente vivo
e a imaginação, com as múltiplas imagens em frente ao computador. Preciso de ajuda.”
desfilando diante de nós, como no cinema. Odiálogo dá a dimensão do tormento provo-
Muitas vezes viajei no “trem de aço”, como cado pela dependência em Internet, um mal
era chamado o comboio que fazia o trajeto que começa a ganhar relevo estatístico, à
entre São Paulo e Rio, ainda que o nome ofi-
medida que o uso da própria rede se disse-
cial fosse Santa Cruz. Quantos enredos foram
mina. Segundo pesquisas recém-conduzidas
vividos ali, 6nas viagens quase semanais que
pelo Centro de Recuperação para Dependên-
eu fazia para participar do Grande Teatro.
cia de Internet, nos Estados Unidos, a parce-
Muitas na companhia ocasional de Caymmi,
la de viciados representa, nos vários países
do Cyro Monteiro, da Aracy de Almeida, entre
estudados, de 5% (como no Brasil) a 10%
outros. No carro-restaurante rolavam uísque
dos que usam a web — com concentração
e boas histórias. 7Fui testemunha de roman-
na faixa dos 15 aos 29 anos. Os estragos são
ces que começaram e que terminaram nessas
enormes. Como ocorre com um viciado em
viagens. Quantas lágrimas felizes e infelizes
álcool ou em drogas, o doente desenvolve
vertidas na madrugada. Numa dessas via-
uma tolerância que, nesse caso, o faz ficar
gens presenciei a bofetada de uma amante,
on-line por uma eternidade sem se dar conta
indignada e raivosa com suposta traição, em
do exagero. Ele também sofre de constantes
seu parceiro. E em meio a essas cenas, quan-
crises de abstinência quando está desconec-
do nos dávamos conta, já era dia claro. Então
tado, e seu desempenho nas tarefas de na-
corríamos às nossas cabines, para um sim-
tureza intelectual despenca. Diante da tela
ples cochilo que fosse e que nos devolvesse
uma aparência melhor para enfrentar o dia do computador, vive, aí sim, momentos de
que estava começando. Muitos de nós via- rara euforia. Conclui uma psicóloga america-
jávamos de trem por economia. Outros, por na: “O viciado em internet vai, aos poucos,
medo de voar, como o próprio Cyro Monteiro, perdendo os elos com o mundo real até de-
que chamava o trem de “avião dos covardes”. sembocar num universo paralelo — e com-
[...] pletamente virtual”.
(CARLOS, Manoel. Revista Veja Rio,
Não é fácil detectar o momento em que al-
Editora Abril, 31/10/12, p. 130.) guém deixa de fazer uso saudável e produ-
tivo da rede para estabelecer com ela uma
relação doentia, como a que se revela nas
4. (G1-CP2) Preposições são conectivos que, histórias relatadas ao longo desta reporta-
em determinados contextos, expressam di- gem. Em todos os casos, a internet era ape-
ferentes relações de sentido. Por vezes, nas “útil” ou “divertida” e foi ganhando um
no entanto, esvaziam-se de sentido para espaço central, a ponto de a vida longe da
14
rede ser descrita agora como sem sentido. em dezoito semanas de sessões individuais e
Mudança tão drástica se deu sem que os pais em grupo, 80% voltam a niveis aceitáveis de
atentassem para a gravidade do que ocorria. uso da internet. Não seria factível, tampou-
“Como a internet faz parte do dia a dia dos co desejável, que se mantivessem totalmente
adolescentes e o isolamento é um compor- distantes dela, como se espera, por exemplo,
tamento típico dessa fase da vida, a família de um alcoólatra em relação à bebida. Com a
raramente detecta o problema antes de ele rede, afinal, descortina-se uma nova dimen-
ter fugido ao controle”, diz um psiquiatra. são de acesso às informações, à produção de
A ciência, por sua vez, já tem bem mapeados conhecimento e ao próprio lazer, dos quais,
os primeiros sintomas da doença. De saída, em sociedades modernas, não faz sentido se
o tempo na internet aumenta — até culmi- privar. Toda a questão gira em torno da dose
nar, pasme-se, numa rotina de catorze horas ideal, sobre a qual já existe um consenso
diárias, de acordo com o estudo americano. acerca do razoável: até duas horas diárias,
As situações vividas na rede passam, então, no caso de crianças e adolescentes. Quanto
a habitar mais e mais as conversas. É típico antes a ideia do limite for sedimentada, me-
o aparecimento de olheiras profundas e ain- lhor. Na avaliação de uma das psicólogas, “Os
da um ganho de peso relevante, resultado da pais não devem temer o computador, mas,
frequente troca de refeições por sanduíches sim, orientar os filhos sobre como usá-lo de
— que prescindem de talheres e liberam uma forma útil e saudável”. Desse modo, reduz-
das mãos para o teclado. Gradativamente, a -se drasticamente a possibilidade de que, no
vida social vai se extinguindo. Alerta outra futuro, eles enfrentem o drama vivido hoje
psicóloga: “Se a pessoa começa a ter mais pelos jovens viciados.
amigos na rede do que fora dela, é um sinal Silvia Rogar e João Figueiredo, Veja, 24
claro de que as coisas não vão bem”. de março de 2010. Adaptado.
Os jovens são, de longe, os mais propen-
sos a extrapolar o uso da internet. Há uma 5. (G1-col.naval) Assinale a opção em que não
razão estatística para isso — eles respondem há correspondência entre a preposição e o
por até 90% dos que navegam na rede, a sentido expresso.
maior fatia —, mas pesa também uma expli- a) “Desde 1996, [...], a dependência em inter-
cação de fundo mais psicológico, à qual uma net é reconhecida -e tratada - como uma do-
recente pesquisa lança luz. Algo como 10% ença.” (4° parágrafo) - tempo
dos entrevistados (viciados ou não) chegam b) “Toda a questão gira em torno da dose ideal,
a atribuir à internet uma maneira de “ali- sobre a qual já existe um consenso [...]”
viar os sentimentos negativos”, tão típicos (4° parágrafo) - assunto
de uma etapa em que afloram tantas an- c) “Na rede os adolescentes sentem-se mais à
gústias e conflitos. Na rede, os adolescentes vontade para expor suas ideias”, pois a in-
sentem-se ainda mais à vontade para expor ternet proporciona um ambiente favorável
suas ideias. Diz um outro psiquiatra: “Num para que eles se expressem livremente. (3°
momento em que a própria personalidade parágrafo) - direção
está por se definir, a internet proporciona d) “[...] o doente desenvolve uma tolerância
um ambiente favorável para que eles se ex- que, nesse caso, o faz ficar on-line por uma
pressem livremente”. No perfil daquela mi- eternidade sem se dar conta do exagero.”
noria que, mais tarde, resvala no vicio se vê, (1° parágrafo) - ausência
em geral, uma combinação de baixa autoes- e) “Diante da tela do computador, vive, aí sim,
tima com intolerância à frustração. Cerca de momentos de rara euforia.” (1° parágrafo) -
50% deles, inclusive, sofrem de depressão, em frente de
fobia social ou algum transtorno de ansie-
dade. É nesse cenário que os múltiplos usos TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
da rede ganham um valor distorcido. Entre
A(s) questão(ões) a seguir abordam um poe-
os que já têm o vicio, a maior adoração é
ma de Raul de Leoni (1895-1926).
pelas redes de relacionamento e pelos jogos
on-line, sobretudo por aqueles em que não A alma das cousas somos nós...
existe noção de começo, meio ou fim.
Dentro do eterno giro universal
Desde 1996, quando se consolidou o primei-
Das cousas, tudo vai e volta à alma da gente,
ro estudo de relevo sobre o tema, nos Esta-
Mas, se nesse vaivém tudo parece igual
dos Unidos, a dependência em internet é
Nada mais, na verdade,
reconhecida — e tratada — como uma doen-
Nunca mais se repete exatamente...
ça. Surgiram grupos especializados por toda
parte. “Muita gente que procura ajuda ainda Sim, as cousas são sempre as mesmas na cor-
resiste à ideia de que essa é uma doença”, rente
conta um psicólogo. O prognóstico é bom: Que no-las leva e traz, num círculo fatal;
15
O que varia é o espírito que as sente e fantástico:
Que é imperceptivelmente desigual, a palmeira, o sabiá,
Que sempre as vive diferentemente, o longe.
E, assim, a vida é sempre inédita, afinal... CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Nova canção do exílio
Estado de alma em fuga pelas horas,
Tons esquivos e trêmulos, nuanças Considere as afirmações abaixo em relação
Suscetíveis, sutis, que fogem no Íris ao poema “Nova canção do exílio”, de Carlos
Da sensibilidade furta-cor... Drummond de Andrade.
E a nossa alma é a expressão fugitiva das I. O poema retoma, de forma intertextual, o
cousas conhecido texto da “Canção do exílio”, do
E a vida somos nós, que sempre somos ou- poeta romântico Gonçalves Dias.
tros!... II. A estrutura repetitiva do poema deve-se,
Homem inquieto e vão que não repousas! exclusivamente, à influência do texto de
Para e escuta: Gonçalves Dias, uma vez que a repetição
Se as cousas têm espírito, nós somos não é um procedimento comum no autor
Esse espírito efêmero das cousas, de A rosa do povo.
Volúvel e diverso, III. O exílio a que se refere o título do poema
Variando, instante a instante, intimamente, assume ao longo do texto uma dimensão
E eternamente, que ultrapassa o aspecto geográfico, assu-
Dentro da indiferença do Universo!... mindo um caráter existencial.
(Luz mediterrânea, 1965.) Está correto apenas o que se afirma em:
a) I.
6. (Unesp) Uma leitura atenta do poema per- b) II.
mite concluir que seu título representa: c) I e II.
a) a negação dos argumentos defendidos pelo d) I e III.
eu lírico. e) II e III.
b) a confirmação do estado de alma disfórico do
eu lírico.
8. (UEG) CONJUGAÇÃO
c) a síntese das ideias desenvolvidas pelo eu
lírico. Eu falo
d) o reconhecimento da supremacia do homem tu ouves
no mundo. ele cala.
e) uma afirmação prévia da incapacidade do ho-
mem. Eu procuro
tu indagas
7. (UPF) Um sabiá
ele esconde.
na palmeira, longe.
Estas aves cantam
Eu planto
um outro canto.
tu adubas
O céu cintila ele colhe.
sobre flores úmidas.
Vozes na mata, Eu ajunto
e o maior amor. tu conservas
ele rouba.
Só, na noite,
seria feliz: Eu defendo
um sabiá, tu combates
na palmeira, longe. ele entrega.

Onde é tudo belo Eu canto


e fantástico, tu calas
só, na noite, ele vaia.
seria feliz.
(Um sabiá, Eu escrevo
na palmeira, longe.) tu me lês
ele apaga.
Ainda um grito de vida e
voltar SANT’ANNA, Affonso Romano de. Poesia reunida:
para onde é tudo belo 1965-1999. Porto Alegre: L&PM, 2004. p. 157-158

16
Tradicionalmente são consideradas antô- o que é sem rosto
nimas palavras cujos significados estão em mas
oposição entre si. Considerando-se isso, ve- fere
rifica-se no poema “Conjugação”, de Affonso
Romano de Sant’Anna, que: o que é invisível
a) o fato de usar versos curtos, com apenas mas
duas ou três palavras, dificulta a compre- dói.
ensão das oposições lexicais e enfraquece a
estética do poema. (Em: Teia. São Paulo: Geração Editorial, 1996.)
b) as oposições de sentido são apresentadas
Considere as seguintes afirmações:
de forma dicotômica no poema, já que as
I. O poema mantém alguns traços formais
oposições ocorrem apenas em agrupamentos
da adivinha popular.
bipolares. II. Como a adivinha popular, a do poema
c) as palavras apresentam oposição de sentido possui uma única resposta, que é um ele-
de vários modos distintos, de acordo com o mento concreto.
texto em que ocorrem e com seu contexto de III.A adivinha do poema é uma reinvenção
uso. da adivinha popular.
d) o uso de três verbos diferentes em cada es-
trofe do poema tem como meta semântica a Está(ão) correta(s) apenas:
construção de um significado econômico. a) I.
b) I e II.
9. (ITA) O poema abaixo é de José Paulo Paes c) I e III.
d) II.
Bucólica e) II e III.

O camponês sem terra


Detém a charrua E.O. TESTE II
E pensa em colheitas
Que nunca serão suas. TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
(Em: Um por todos – poesia reunida.
São Paulo: Brasiliense, 1986.) O padeiro

O texto apresenta Levanto cedo, faço minhas abluções, ponho


a) uma oposição campo/cidade, de filiação ár- a chaleira no fogo para fazer café e abro a
cade-romântica. porta do apartamento – mas não encontro o
b) um bucolismo típico da tradição árcade, in- pão costumeiro. No mesmo instante me lem-
dicado pelo título. bro de ter lido alguma coisa nos jornais da
c) uma representação tipicamente romântica véspera sobre a “greve do pão dormido”. De
do homem do campo. resto não é bem uma greve, é um lock-out,
d) um contraste entre o arcadismo do título e o greve dos patrões, que suspenderam o traba-
realismo social dos versos. lho noturno; acham que obrigando o povo a
e) uma total ruptura com a representação rea- tomar seu café da manhã com pão dormido
conseguirão não sei bem o que do governo.
lista do homem do campo.
Está bem. Tomo o meu café com pão dormi-
do, que não é tão ruim assim. E enquanto
10. (ITA) A adivinha é um gênero da oralidade tomo café vou me lembrando de um homem
popular que formula construções como: “O modesto que conheci antigamente. Quando
que é, o que é: tem escamas mas não é pei- vinha deixar o pão à porta do apartamento
xe, tem coroa mas não é rei? O abacaxi!. Ela ele apertava a campainha, mas, para não in-
consiste num jogo enigmático de perguntas comodar os moradores, avisava gritando:
que, por conter dualidades e oposições, leva – Não é ninguém, é o padeiro!
o ouvinte a pensar. Considerando essa defi- Interroguei-o uma vez: como tivera a ideia
nição, leia o poema abaixo de Orides Fontela. de gritar aquilo?
“Então você não é ninguém?”
Adivinha Ele abriu um sorriso largo. Explicou que
aprendera aquilo de ouvido. Muitas vezes
O que é impalpável lhe acontecera bater a campainha de uma
mas casa e ser atendido por uma empregada ou
pesa outra pessoa qualquer, e ouvir uma voz que
vinha lá de dentro perguntando quem era;
17
e ouvir a pessoa que o atendera dizer para Ronaldinho? Porque não pode todo mundo
dentro: “não é ninguém, não senhora, é o ser o Ronaldinho”.
padeiro”. Assim ficara sabendo que não era (“Revista Veja” Edição 1979 - 25 out. 2006).
ninguém...
Ele me contou isso sem mágoa nenhuma, A respeito das expressões destacadas nos
e se despediu ainda sorrindo. Eu não quis trechos acima, é linguisticamente adequado
detê-lo para explicar que estava falando com afirmar que:
um colega, ainda que menos importante. Na- a) apenas em BILHÕES E BILHÕES, em que “bi-
quele tempo eu também, como os padeiros, lhões” é essencialmente advérbio, existe
fazia o trabalho noturno. Era pela madruga- uma indicação precisa de quantidade.
da que deixava a redação de jornal, quase b) apenas em UM MILHÃO, em que é “milhão” é
sempre depois de uma passagem pela oficina essencialmente adjetivo, existe uma indica-
– e muitas vezes saía já levando na mão um ção precisa de quantidade.
dos primeiros exemplares rodados, o jornal c) em ambas as expressões, que são conjunções
ainda quentinho da máquina, como pão saí- coordenativas aditivas, existe uma indicação
do do forno. precisa de quantidade.
Ah, eu era rapaz, eu era rapaz naquele tem- d) em ambas as expressões, que são essencial-
po! E às vezes me julgava importante por- mente numerais, existe um uso figurado que
que no jornal que levava para casa, além de expressa exagero intencional.
reportagens ou notas que eu escrevera sem e) apenas em BILHÕES E BILHÕES, em que “bi-
assinar, ia uma crônica ou artigo com o meu lhões” é essencialmente pronome, existe um
nome. O jornal e o pão estariam bem cedinho uso figurado que expressa exagero intencional.
na porta de cada lar; e dentro do meu cora-
ção eu recebi a lição de humildade daquele TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
homem entre todos útil e entre todos alegre; A carruagem parou ao pé de uma casa ama-
“não é ninguém, é o padeiro!” relada, com uma portinha pequena. Logo à
E assobiava pelas escadas. entrada, um cheiro mole e salobro enojou-
BRAGA, Rubem. O padeiro. In: ANDRADE, Carlos -a. A escada, de degraus gastos, subia ingre-
Drummond de; SABINO, Fernando; CAMPOS, Paulo
Mendes; BRAGA, Rubem. Para gostar de ler: v. 1. memente, apertada entre paredes onde a cal
Crônicas. 12ª ed. São Paulo: Ática, 1982. p.63 - 64. caía, e a umidade fizera nódoas. No patamar
da sobreloja, uma janela com um gradeado-
zinho de arame, parda do pó acumulado, co-
1. (G1 - IFSC) Quanto à classe gramatical das berta de teias de aranha, coava a luz suja do
palavras do texto, é correto afirmar que: saguão. E por trás de uma portinha, ao lado,
a) em “Ele me contou isso sem mágoa nenhu- sentia-se o ranger de um berço, o chorar do-
ma”, a palavra “mágoa” é um pronome. loroso de uma criança.
b) em “recebi a lição de humildade”, a palavra (Eça de Queirós, O PRIMO BASÍLIO)
“humildade” é um advérbio.
c) em “ainda que menos importante”, a palavra
“menos” é um numeral. 3. (Fuvest) O segmento do texto em que a pre-
d) em “não encontro o pão costumeiro”, a pala- posição DE estabelece uma relação de causa
vra “costumeiro” é um adjetivo. é:
e) em “Muitas vezes lhe acontecera”, a pala- a) “ao pé de uma casa amarelada”.
vras “muitas” é um verbo. b) “escada, de degraus gastos”.
c) “gradeadozinho de arame”.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO d) “parda do pó acumulado”.
Em uma peça publicitária recentemente vei- e) “luz suja do saguão”.
culada em jornais impressos, pode-se ler TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
o seguinte: “Se a prática leva à perfeição,
então imagine o sabor de pratos elaborados “O futebol é muito maior do que a criação
bilhões e bilhões de vezes”. artística”
1 Por que cargas d’água o futebol não tem
2. (PUC-SP) A segunda oração que compõe a na literatura brasileira a correspondência
referida peça publicitária contém a expres- de sua verdadeira dimensão na nossa so-
são “pratos elaborados BILHÕES E BILHÕES ciedade? Na verdade, pode-se (I) essa
de vezes”. Em recente declaração à “Revis- questão 7para todas as demais manifes-
ta Veja” a respeito de seu filho, o presiden- tações artísticas - música, cinema, teatro
te Luís Inácio Lula da Silva fez a seguinte e artes plásticas. De (II) muito, o
afirmação “Deve haver UM MILHÃO de pais futebol 2se infiltrou de tal forma no 3teci-
reclamando: por que meu filho não é o do social brasileiro que está presente no
18
nosso dia de maneira sufocante. Respi- dentro e fora de mim, todos esses anos. 5São
ramos futebol e falamos de futebol, quer teimosas, ambíguas e ferem. 6Minha luta
gostemos ou não de futebol. Ele já faz com elas é uma luta extenuante. 7Assim,
parte da própria natureza do brasileiro. nesse momento, enceto duas lutas: com as li-
Mas isso não está devidamente expresso nhas e com as palavras, mas tenho a certeza
na poesia ou na prosa, nem impresso nas que, desta vez, estou querendo chegar a um
obras espalhadas pelas galerias de arte, resultado semelhante e descobrir ao fim do
tampouco projetado nas telas de cinema, bordado e ao fim desse texto, algo de deli-
representado devidamente nos palcos ou cado, recôndito e imperceptível sobre o meu
4
capturado em seu rico gestual pelas co- próprio destino e sobre o destino dos seres
reografias de balé. que me rodeiam. 8Ontem, quando entrei no
2 Talvez a resposta esteja com o professor, armarinho para escolher as linhas, vi-me
ensaísta, poeta, escritor e gênio em ge- cercada de pessoas com quem não convivia
ral, Décio Pignatari, que, 8a propósito, me há muito tempo, ou convivia muito pouco,
disse certa vez: “É que o futebol é muito de cuja existência tinha esquecido. 9Mulhe-
maior do que a criação artística”. res de meia-idade que compravam lãs para
3 O que o mestre queria dizer, se 5entendi, bordar tapeçarias, selecionando animada-
é que o futebol incorpora a graça do balé, mente e com grande competência os novelos,
a dinâmica do cinema, a expressão do ser comparando as cores com os riscos trazidos,
e dos movimentos das artes plásticas; ele contando os pontos na etamine, medindo o
cria os mais inverossímeis personagens, tamanho do bastidor. 10Incorporei-me a elas
tece as tramas mais insólitas que a ficção e comecei a escolher, com grande acuidade,
possa conceber e nos 6derrama um belo as tonalidades das minhas meadas de linha
verso, 9ao menos, (III) cada partida. mercerizada. 11Pareciam pequenas abelhas
Assim, criou sua própria semântica, uma alegres (...), levando a sério as suas tarefas.
linguagem que dispensa as demais. (...) 12Naquelas mulheres havia alguma coisa
(Adaptado de: HELENA JR., Alberto. O FUTEBOL É MUITO preservada, sua capacidade de bordar dava-
MAIOR DO QUE A CRIAÇÃO ARTÍSTICA. Folha de São -lhes uma dignidade e um aval. 13Não queria
Paulo, 03 de setembro, 1997, p. 12, 3º. caderno.)
que me discriminassem, conversei com elas
de igual para igual, mostrando-lhes os pon-
tos que minha pequena mão infantil execu-
4. (Ufrgs) Considere as seguintes possibilida-
tara.
des de substituição de preposições do texto.
(JARDIM, Rachel. O PENHOAR CHINÊS. 4ª ed.
I. A preposição “para” poderia ser substitu- Rio de Janeiro: José Olympio, 1990.)
ída por “a” (ref. 7).
II. A preposição “a” poderia ser substituída
por “de” (ref. 8). 5. (Unirio) A preposição DE contida nas opções
III.A preposição “a”, na combinação “ao” abaixo NÃO estabelece relação de posse em:
(ref. 9), poderia ser substituída por a) “... a tessitura dos pontos... “ (1º. período).
“por”, gerando-se, assim, uma nova com- b) “... ao fim do bordado... “ (7º. período).
binação. c) “... o destino dos seres... “ (7º. período).
Quais delas mantêm o significado original d) “... pessoas (...) de cuja existência...” (8º.
das expressões que as contêm? período).
a) Apenas I e) “... tamanho do bastidor.” (9º. período).
b) Apenas II
c) Apenas III 6. (Unicamp 2016) Cem anos depois
d) Apenas I e II Vamos passear na floresta
e) Apenas I e III Enquanto D. Pedro não vem.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO D. Pedro é um rei filósofo,
Que não faz mal a ninguém.
1
Neste momento, o bordado está pousado em
cima do console e o interrompi para escre- Vamos sair a cavalo,
ver, substituindo a tessitura dos pontos pela Pacíficos, desarmados:
das palavras, o que me parece um exercício A ordem acima de tudo.
bem mais difícil. Como convém a um soldado.
2
Os pontos que vou fazendo exigem de mim
uma habilidade e um adestramento que já Vamos fazer a República,
não tenho. 3Esforço-me e vou conseguindo Sem barulho, sem litígio,
vencer minhas deficiências. 4As palavras, po- Sem nenhuma guilhotina,
rém, são mais difíceis de adestrar e vêm car- Sem qualquer barrete frígio.
regadas de uma vida que se foi desenrolando
19
Vamos, com farda de gala, Mas, favela, ciao,
Proclamar os tempos novos, que este nosso papo
Mas cautelosos, furtivos, está ficando tão desagradável.
Para não acordar o povo. vês que perdi o tom e a empáfia do começo?
...
(José Paulo Paes, O melhor poeta da minha rua, (ANDRADE, Carlos Drummond de, Corpo.
em Fernando Paixão (sel. e org.), Para gostar Rio de Janeiro: Record, 1984)
de ler. São Paulo: Ática, 2008, p.43.)

O tom irônico do poema em relação à histó- 7. (Epcar (Afa)) Para o eu lírico a situação
ria do Brasil põe em evidência: precária de vida dos moradores da favela é
a) o modo como a democracia surge no Brasil causada, principalmente, pela(o)(s):
por interferência do Imperador. a) condições sanitárias do ambiente em que vi-
b) a maneira despótica como os republicanos vem.
trataram os símbolos nacionais. b) violência do ambiente, representada no poe-
c) a postura inconsequente que sempre carac- ma pela lâmina e revólver.
terizou os governantes do Brasil. c) descaso que os mais abastados têm em mu-
d) a forma astuciosa como ocorreram os movi- dar a realidade social do país.
mentos políticos no Brasil. d) qualidade de vida dos moradores que está
aquém da dos bichos.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 3 QUESTÕES:
FAVELÁRIO NACIONAL
Carlos Drummond de Andrade
O texto que você lerá a seguir – o poema
“Outro verde”, foi retirado da obra Delírio
da Solidão, do escritor cearense de Quixera-
Quem sou eu para te cantar, favela, mobim Jáder de Carvalho, que nasceu em 29
Que cantas em mim e para ninguém de dezembro de 1901 e faleceu no dia sete
a noite inteira de sexta-feira de agosto de 1985. Jáder de Carvalho foi jor-
e a noite inteira de sábado nalista, advogado, professor e escritor: poe-
E nos desconheces, como igualmente não te ta e prosador. Sua obra mais conhecida é o
conhecemos? romance Aldeota.
Sei apenas do teu mau cheiro:
Baixou em mim na viração, Outro verde
direto, rápido, telegrama nasal
anunciando morte... melhor, tua vida. Teus olhos mostram o verde
... que não é do mar.
Aqui só vive gente, bicho nenhum Não lembram viagens sem fim
tem essa coragem. nem o céu a abraçar-se com as águas,
... num horizonte parado,
Tenho medo. Medo de ti, sem te conhecer, que os marujos não alcançam.
Medo só de te sentir, encravada
Favela, erisipela, mal-do-monte Qual o verde dos teus olhos,
Na coxa flava do Rio de Janeiro. se não é o do oceano?
Não é também o das florestas
Medo: não de tua lâmina nem de teu revólver onde cabem mistérios e distâncias.
nem de tua manha nem de teu olhar.
Medo de que sintas como sou culpado Teu olhar não tem a cor
e culpados somos de pouca ou nenhuma ir- da enseada que eu amo.
mandade. Nele não gritam tempestades,
Custa ser irmão, nem afundam ou se perdem veleiros.
custa abandonar nossos privilégios
e traçar a planta Não escondem braços em naufrágios
da justa igualdade. nem vozes que não se ouvem
Somos desiguais na despedida.
e queremos ser
sempre desiguais. O verde dos teus olhos é subjetivo.
E queremos ser Não sugere portos nem a foz de um rio.
bonzinhos benévolos Pintores, dizei-me:
comedidamente qual de vós se atreveria
sociologicamente a copiar a cor desses olhos?
mui bem comportados. Ainda não sofreste.
20
Ainda não conheces a saudade. 10. (UECE) Marque com V o que for verdadeiro
Um dia, entre lembranças doridas, e com F o que for falso acerca do que se diz
o verde dos teus olhos mudará. sobre o texto.
Já li nas linhas da tua mão esquerda: ( ) A pergunta especial que o sujeito líri-
tu, sem a estrela dos navegantes, co faz aos pintores tem força expressiva
esperas
no poema, principalmente porque traz o
pelo navio perdido do meu amor.
verbo no futuro do pretérito. Esse tempo
verbal sugere a incerteza, a quase impos-
(Jáder de Carvalho. Delírio da Solidão. p. 46-47.)
sibilidade – ou mesmo a impossibilidade
– da missão de determinar a tonalidade
8. (UECE) Assinale o que está INCORRETO so- do verde dos olhos da personagem.
bre a primeira estrofe do poema. ( ) O verso 1 da 5ª estrofe, “O verde dos teus
a) O primeiro sentido que o leitor atribui ao olhos é subjetivo”, serve de ponte para
texto é literal: os olhos são o órgão da visão, se passar da superficialidade da primeira
e o verde é uma cor, algo perceptível por leitura para a profundidade da segunda.
esse órgão. Isso se dá em virtude da incongruência
b) Em uma leitura mais atenta, chega-se à con-
da relação entre sujeito e predicativo do
clusão de que os olhos são uma metáfora
sujeito: o verde (a cor verde) é algo per-
(com algo de metonímico) para a alma ou
o espírito da amada do sujeito lírico. Essa cebido por um dos cinco sentidos, por-
metáfora é o centro do poema e aparece em tanto é algo que não pode ser subjetivo.
meio a uma estrutura fortemente metoními- ( ) Um acontecimento que, para o sujeito
ca. lírico, poderá ser um elemento, talvez o
c) As negações intensificam a dificuldade en- primeiro, que determinará a fixação do
frentada pelo eu lírico para determinar o verde dos olhos da amada será a espera
verde dos olhos da amada. tranquila e feliz da chegada do amor em
d) Em “o céu a abraçar-se com as águas”, o ver- um navio perdido.
bo “abraçar” (abraçar-se) foi usado literal- ( ) Os versos transcritos a seguir – “Não es-
mente, denotativamente. condem braços em naufrágios / nem vo-
zes que não se ouvem / na despedida”
9. (UECE) No estudo de um texto, costuma-se (4ª estrofe) – constituem duas metoní-
distinguir assunto de tema. Eis algumas das
mias, as mais expressivas do poema. Os
diferenças entre essas duas noções: o as-
braços são, com certeza, a parte do corpo
sunto é particular, o tema é geral; o assunto
encontra-se facilmente na superfície textu- cujos movimentos mais se mostram na
al, o tema geralmente camufla-se nas cama- tentativa de salvação de um afogamento.
das mais profundas; o assunto é concreto, o Por seu lado, a voz é, de maneira geral, o
tema é abstrato. som que mais se ouve em uma despedida.
( ) Nos 3 versos finais da última estrofe –
Considerando, no poema “Outro verde”, essa “tu, sem a estrela dos navegantes, / espe-
distinção entre TEMA e ASSUNTO, atente ao ras / pelo navio perdido do meu amor”, o
que é dito nos itens a seguir. eu poético constrói uma imagem que con-
cretiza algo abstrato – “amor” – em algo
I. TEMA – As dificuldades que tem o sujei- concreto – “navio”. Esse trabalho de con-
to lírico para determinar a tonalidade do
cretização do abstrato potencializa a for-
verde dos olhos da mulher amada.
ça negativa do navio (“perdido do meu
II. ASSUNTO – O sujeito lírico tenta deter-
minar a tonalidade de verde dos olhos da amor”), ou seja, do amor do eu poético.
amada inutilmente. Chega, então, à con- Está correta, de cima para baixo, a seguinte
clusão de que a tonalidade do verde dos sequência:
olhos dela é subjetiva. a) V, F, V, V, F.
III. TEMA – Só as vicissitudes da vida e as ex- b) F, V, F, F, V.
periências que nos afetam positiva e ne- c) F, F, V, V, F.
gativamente determinam o que seremos. d) V, V, F, V, V.
Está correto apenas o que é dito em:
a) II e III.
b) I e II.
c) III.
d) I.
21
E.O. TESTE III exemplo. Poderia ter respondido à menina
que não, ainda não sabia ler como deveria,
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO mas que chegaria lá.
Adaptado de: VERISSIMO, Luis Fernando.
O Salman Rushdie era para ser a estrela da Zero Hora, 14 jul. 2005, p. 3.
terceira Festa Literária Internacional de Pa-
rati e foi. Só 5se decepcionou quem esperava 1. (Ufrgs) Considere as seguintes afirmações
que ele 6se comportasse como estrela. É um sobre o uso da preposição DE.
homem 1........ e afável, e 7sua participação I. Em DE TANTOS PONTOS ALTOS (ref. 10), a
foi um dos pontos altos de um acontecimen- preposição DE poderia ser substituída, sem
to que 10de tantos pontos altos pareceu uma prejuízo do sentido por “graças a”.
cordilheira. A começar pelo 15começo, uma I. Em SEGUIDA DE UM MAGNÍFICO SHOW (ref.
bela homenagem a Clarice Lispector, 11segui- 11) e FALANDO DE SUAS EXPERIÊNCIAS (ref.
da de um 18magnífico 13show de Paulinho da 12), a preposição DE estabelece idêntica re-
Viola que acabou com todo 2........ sambando lação semântica entre os elementos que liga.
30- 24
até, 25não duvido, o Salman Rushdie. III. Em SHOW DE PAULINHO (ref. 13), a preposi-
Outro 34pico do evento foi a palestra do Aria- ção DE exprime autoria, como em TUDO [...]
no Suassuna, cujo tema era para ser “Brasil, DO GROSSMAN (ref. 14).
arquipelago de culturas”, mas no fim foi o Quais estão corretas?
espetáculo de Ariano Suassuna sendo 16Aria- a) Apenas II.
no Suassuna, outro show inesquecível. Das b) Apenas III.
outras mesas (que eu vi, esqueci a 26ubiqui- c) Apenas I e II.
dade em casa e não pude 27ir a tudo), des- d) Apenas I e III.
taque para o isralense David Grossman e o e) Apenas II e III.
sri-landês, 28se é assim que se diz, Micha-
el Ondaatje falando sobre 39suas obras, a 2. (ITA) O projeto Montanha Limpa, desenvol-
20
crítica argentina Beatriz Sarlo e o Rober- vido desde 1992, por meio da parceria en-
to Schwartz - na mesa em que foi servida tre o Parque Nacional de Itatiaia e a DuPont,
a 35iguaria intelectual mais fina da festa - , visa amenizar os problemas causados pela
Jô Soares e Isabel Lustosa falando de humor poluição em forma de lixo deixado por visi-
com muito humor, o “rapper” e sociólogo tantes desatentos.
36
espontâneo MV Bill, com Luiz Eduardo Soa- (Folheto do Projeto Montanha Limpa do
res e 31Arnaldo Jabor, no que foi certamente Parque Nacional de Itatiaia).
a 3........ mais 17emocional e emocionante de
32
todas, e o americano John Lee Anderson e A preposição que indica que o Projeto Mon-
o 22português Pedro Rosa Mendes 12falando tanha Limpa continua até a publicação do
de suas 21experiências como repórteres de Folheto é:
guerra no Iraque e em Angola, 29respectiva- a) entre.
mente. b) por (por visitantes).
Eu falei para um grande grupo de crianças c) em.
na Flipinha, um programa paralelo dirigido a d) por (pela poluição).
escolares da região, e uma das perguntas que e) desde.
40
vieram da plateia foi: “O senhor sabe ler?”
Pergunta 19básica e perfeita e mais impor-
tante do que imaginava a pequena autora. 3. (FGV) Observe os termos destacados nas se-
Ela 4checava as minhas credenciais para ser guintes frases:
escritor e estar ali mandando todos 41lerem.
Saber ler não significa apenas ser 37alfabe- - Chegou a hora DO PÚBLICO se manifestar
tizado ou interpretar um texto como faz o contra a publicação desse impostor.
Salman Rushdie, que lê como o ator frustado - As palmas DO PÚBLICO ecoavam pelo tea-
que 8confessou ser. Também significa saber tro, em apoio à proposta de Nabuco.
ler a realidade à 9sua volta, como fazem Da- - Vista DO PÚBLICO, a cantora parecia boni-
vid Grossman, que vive em Jerusalém e tenta ta; da coxia, percebia-se que era feia.
se manter racional e humano em meio 42aos
ódios dos dois lados, 33ou MV Bill, que nasceu Sobre eles, é correto afirmar:
na Cidade de Deus e sobreviveu e hoje faz a a) Para o segundo exemplo, vários gramáticos
leitura mais certa do que é ser negro e pobre recomendam a forma DE O em lugar de DO,
no Brasil. E aprender a ler também signifi- porque a preposição está regendo o sujeito.
ca descobrir escritores, como se faz na Flip. b) Para o terceiro exemplo, vários gramáticos
23
Saí de Parati 38decidido a ler 14tudo que en- recomendam a forma DE O em lugar de DO,
contrar do Grossman e da Beatriz Sarlo, por porque a preposição está regendo o sujeito.
22
c) Nos três exemplos, os termos destacados de outros sistemas do gênero, não se limita
exercem a mesma função sintática de adjun- a ler o que está na tela, procurando estabe-
to adverbial. lecer um diálogo com o deficiente visual via
d) No primeiro e no segundo exemplos, os ter- interfaces e ferramentas específicas. E boa
mos destacados exercem a mesma função parte desse diálogo é feito com voz humana
sintática de adjunto adnominal. gravada, o que facilita ainda mais a intera-
e) Para o primeiro exemplo, vários gramáticos ção. Compatível com a maioria dos sinteti-
recomendam a forma DE O em lugar de DO, zadores de voz existentes, ele tem seis mil
porque O PÚBLICO é sujeito, que não deve usuários no Brasil e na América Latina, se-
ser iniciado por preposição. gundo o NCE.
O passo seguinte foi criar um software vol-
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO tado para paraplégicos, o Motrix. O progra-
O texto a seguir, de André Machado, foi ma foi criado sobre uma interface padrão de
adaptado da seção Informática etc., do jornal reconhecimento de voz, a Sapi (Speech Ap-
O Globo, de 30 de junho de 2003, p. 1. plication Programming Interface). Funciona
assim: o usuário aciona o cursor do mouse
Texto I e os programas do micro falando palavras-
-chave, como “pra cima”, “pra baixo”, “pra
A vida Renovada
direita”, “pra esquerda”, “duplo clique”,
Portadores de deficiência física vencem bar-
“conexão internet” e assim por diante. Além
reiras com auxílio do PC
disso, conectado a uma tomada especial, o
Motrix permite ao tetraplégico, usando a
Atualmente, empresas e instituições estão voz, acender a luz, ligar a TV ou outro ele-
cada vez mais ligadas no conceito de acessi- trodoméstico, trocar de canal, etc.
bilidade, que visa prover ao deficiente físico - Neste último caso não preciso usá-lo, por-
meios para tomar contato com documentos e que tenho acompanhante em casa à noite
informações. Na área da Tecnologia da Infor- - diz a doutora Lenira. Mas comando tudo
mação (TI) não é diferente. Existem recur- no computador com o Motrix, através de
sos à disposição na internet e em software um microfone. Faço meus estudos médicos,
para ajudar nisso. E alguns projetos brasi- mantenho minha correspondência em dia,
leiros estão entre os pioneiros nessa área. comunico-me com pessoas de todo o país.
Um deles é o Projeto Habilitar, do Núcleo de
Computação Eletrônica (NCE) da UFRJ, cuja NOTA:
principal mentora é uma médica radióloga 1 Cisco Networking Academy Program - CNAP
tetraplégica, a Drª. Lenira Luna, que coman- - é um programa destinado a formar profis-
da seu computador apenas com a voz. Desde sionais na área de redes de computadores,
março o NCE vem treinando deficientes fí- que tem por objetivo prover ao aluno um cer-
sicos para inserção no mercado de trabalho tificado de qualidade, com reconhecimento
- primeiro, em formação de técnicos de rede, internacional. No Brasil, a Cisco Systems Inc.
em parceria com a Cisco1, e posteriormente estabeleceu parceria com diversos centros
em áreas como webdesign e programação. de ensino, chamados de Academias Locais,
Para isso, usa ferramentas criadas no pró- constituindo uma rede de formação profis-
prio NCE, como o Dosvox (para deficientes sional com cobertura nacional e garantindo
visuais) e o Motrix (para deficientes mo- qualidade do ensino. As Academias Regio-
tores). O professor Sérgio Guedes, um dos nais treinam instrutores, e as Locais, o usu-
coordenadores do Projeto Habilitar, ao lado ário final. O NCE/UFRJ é uma das academias
de seu criador, o professor Antônio Borges, que mais tem oferecido cursos no Brasil.
conta que o Núcleo trabalha desde o século O fragmento de texto abaixo, de André Machado,
foi adaptado da seção Informática etc., do jornal
passado com os deficientes.
O Globo, de 30 de junho de 2003, p. 2.
- Tanto que o Dosvox era assim chamado por-
que na época só existia a plataforma Dos, e
ele fazia a leitura (transcodificação) do que Texto II
estava escrito na tela para a linguagem audi-
tiva, de modo que o deficiente visual intera- A Vida Antes e Depois do Computador e da
gisse com o computador. O Dosvox evoluiu e Internet
hoje já trabalha com Windows numa boa. Só
não foi postado ainda para o Unix, mas isso Professora usa blog2 para informar sobre de-
já está sendo feito. ficiências
Hoje, o Dosvox - usado por deficientes visu-
ais como o professor Hercen Hildebrandt, do Usar um computador pode de fato dar uma
Instituto Benjamim Constant -, ao contrário nova dimensão ao dia de um deficiente
23
físico. A professora Marcela Cálamo Vaz Sil- A preposição PARA foi empregada com senti-
va, 36, moradora de Guarulhos, SP, é tetra- do semelhante ao observado acima, em todas
plégica desde os seis anos de idade e conta as opções, EXCETO em:
que a tecnologia mudou sua vida. Ela tam- a) “(...) empresas e instituições estão cada vez
bém cita o Motrix e o Dosvox como exemplos mais ligadas no conceito de acessibilidade,
de softwares que ajudam os deficientes, em- que visa prover ao deficiente físico meios
bora seu caso não os exija: PARA tomar contato com documentos e in-
- Nunca usei nenhum software específico formações.” (10. parágrafo - Texto I)
para portadores de deficiência, pois, mesmo b) “Existem recursos à disposição na Internet e
com uma lesão num nível muito alto, que me em software PARA ajudar nisso.” (10. pará-
classifica como tetraplégica, tenho preserva- grafo - Texto I)
dos os movimentos de braços, mãos e dedos c) “Desde março, o NCE vem treinando defi-
- explica, por email. Mas posso dizer, com cientes físicos PARA inserção no mercado de
toda segurança, que minha vida se divide trabalho (...)”. (10. parágrafo - Texto I)
em duas fases: antes e depois do computa- d) “(...) e ele fazia a leitura (transcodificação)
dor, sobretudo a internet. Meu contato com do que estava escrito na tela PARA a lin-
a rede começou há quatro anos, através dos guagem auditiva, de modo que o deficiente
chats3. A fase do chat durou uns dois anos visual interagisse com o computador.” (20.
e meio e foi no final dela que descobri o parágrafo - Texto I)
quanto meu mundo poderia crescer através e) “Mas, depois, percebi que o estava direcio-
da internet. Mesmo sendo paraplégica des- nando PARA informar meus leitores, a maio-
de os seis anos de idade, meu contato com ria formada por pessoas sem qualquer tipo
outros portadores de deficiências limitara-se de deficiência (...).” (40. parágrafo - Texto
aos poucos anos em que frequentei a AACD II)
(Associação de Apoio à Criança Deficiente).
Foi através da internet que retomei o conta- TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
to com pessoas com necessidades especiais,
como eu, e comecei a me interessar por as- 27
Aumenta o número de adultos que não con-
suntos relativos à deficiência, como luta por segue focar sua atenção em uma única coisa
direitos, preconceito, acessibilidade. por muito tempo. 37São tantos os estímulos
Foi também através de um amigo de chat que e tanta a pressão para que o entorno seja
Marcela teve o primeiro contato com o mun- completamente desvendado que aprendemos
do dos blogs (em julho, seu blog Maré fará a ver e/ou fazer várias coisas ao mesmo tem-
um ano). Hoje, ela é uma blogueira convicta. po. 34Nós nos tornamos, à semelhança dos
- No início era apenas um blog com assun- computadores, pessoas multitarefa, não é
tos despretensiosos. Mas depois percebi que verdade?
o estava direcionando para informar meus 41
Vamos tomar como exemplo uma pessoa di-
leitores, a maioria formada por pessoas sem rigindo. 4Ela precisa estar atenta aos veícu-
qualquer tipo de deficiência, sobre tudo que los que vêm atrás, ao lado e à frente, à velo-
minha experiência como “cadeirante” per- cidade média dos carros por onde trafega, às
mitia. Percebi o quanto as pessoas são mal orientações do GPS ou de programas que si-
informadas a respeito de como um portador nalizam o trânsito em tempo real, 6às infor-
de deficiência vive e que essa ignorância se mações de 29alguma emissora de rádio que
deve à falta de convivência ou de alguém que comenta o trânsito, ao planejamento mental
possa dizer a elas como as coisas realmente feito e refeito 9várias vezes do trajeto 20que
são. Decidi que faria isso em meu blog. deve fazer para chegar ao seu destino, aos
NOTA: 2blog: é uma página web atualizada semáforos, faixas de pedestres etc.
frequentemente, composta por pequenos pa- 35
Quando me vejo em tal situação, 19eu me
rágrafos apresentados de forma cronológica. lembro que 14dirigir, 45após um dia de inten-
É como uma página de notícias ou um jornal so trabalho no retorno para casa, já foi uma
que segue uma linha de tempo, com um fato atividade prazerosa e desestressante.
após o outro. O conteúdo e tema dos blogs 18O uso da internet ajudou a transformar
abrangem uma infinidade de assuntos que nossa maneira de olhar para o mundo. Não
vão desde diários, piadas, notícias até poe- 23
mais observamos os detalhes, 1por causa de
sia, fotografias. nossa ganância em relação a novas e dife-
3chats: salas virtuais de bate-papo. rentes informações. Quantas vezes sentei em
frente ao computador 44para buscar textos
4. (Ufjf 2003) Releia o subtítulo do Texto II: sobre um tema 38e, de repente, 24me dei con-
“Professora usa blog PARA informar sobre ta de que estava em 39temas 15que em nada se
deficiências”. relacionavam com meu tema primeiro.
24
Aliás, a leitura também sofreu transforma- (ref. 44) – posição superior.
ções pelo nosso costume de ler na internet. c) “[...] após um dia de intenso trabalho no
16
Sofremos de uma tentação permanente de retorno para casa [...]” (ref. 45) – modo.
43
pular palavras e frases inteiras, apenas d) “Aí, um belo dia elas vão para a escola.” (ref.
para irmos direto ao ponto. O problema é 46) – origem.
que 22alguns textos exigem a leitura atenta e) “Elas já nasceram neste mundo de profusão
de palavra por palavra, de frase por frase, de estímulos” (ref. 2) – delimitação.
para que faça sentido. 5Aliás, não é a combi-
nação e a sucessão das palavras que dá sen- 6. (UECE) Sujeito lírico ou eu poético é um ser
tido e beleza a um texto? de ficção, como o é o narrador na prosa. Para
3
Se está difícil para nós, adultos, focar nossa
que o texto literário tenha a consistência
atenção, imagine, caro leitor, para as crian-
necessária a despertar uma reação emotiva
ças. 2Elas já nasceram neste mundo de 8pro-
no leitor, é preciso ser validado pela própria
fusão de estímulos de todos os tipos; elas são
materialidade textual – um universo feito
exigidas, desde o início da vida, a dar conta
de palavras que apresenta nexo ou harmonia
de várias coisas ao mesmo tempo; elas são
entre os elementos textuais.
estimuladas com diferentes objetos, sons,
imagens etc. Considere o que se afirma sobre essa valida-
46
Aí, um belo dia elas vão para a escola. Pro- ção no poema. Assinale com V as afirmações
fessores e pais, a partir de então, querem que verdadeiras e com F as falsas.
as crianças prestem atenção em uma única ( ) Tem-se um enunciador que fala direta-
coisa por muito tempo. 36E quando elas não mente a uma mulher, e o faz com certa
conseguem, reclamamos, levamos ao médico, intimidade, uma vez que a trata na se-
arriscamos hipóteses de que sejam portado- gunda pessoa do singular.
ras de síndromes que exigem tratamento etc. ( ) Quando se fala diretamente a uma pes-
42
A maioria dessas crianças sabe focar sua soa, numa comunicação face a face, exis-
atenção, sim. Elas já sabem usar programas te a certeza de uma resposta. Isso, porém,
complexos em seus aparelhos eletrônicos, não ocorre no poema, o que o empobrece.
10
brincam com jogos desafiantes que exigem ( ) Percebe-se que o enunciador, no caso, o
atenção constante aos detalhes e, se deixar- sujeito lírico, ao opor o verde indefinido
mos, 21passam horas em uma única atividade dos olhos da musa do poema a outros ver-
de que gostam. des já referidos na literatura, expressa-se
17
Mas, nos estudos, queremos que elas pres- de um ponto de vista moderno, o que é
tem 26atenção no que é preciso, e não no que também mostrado pela própria estrutura
gostam. 28E isso, caro leitor, exige a árdua do poema: versos livres e brancos.
aprendizagem da autodisciplina. Que leva ( ) O vocabulário não oferece dificuldade,
tempo, é bom lembrar. mas ainda não é o vocabulário dos tem-
32
As crianças precisam de nós, pais e profes- pos atuais. O poeta ainda não emprega a
sores, para começar a aprender isso. Aliás, linguagem quase prosaica que se aproxi-
31boa parte desse trabalho é nosso, e não ma da linguagem do povo, mas também
delas. não usa mais um vocabulário recheado de
12
Não basta mandarmos que elas prestem preciosismos, isto é, de palavras pouco
atenção: 33isso de nada as ajuda. 13O que usadas e até desconhecidas.
pode ajudar, por exemplo, é 40analisarmos ( ) A sintaxe também é simples e direta,
o contexto em que estão 7quando precisam sem as inversões que caracterizaram os
focar a atenção 25e organizá-lo para que seja poemas do fim do século XIX e início do
favorável a tal exigência. 11E é preciso lem-
século XX, época em que floresceu o sim-
brar que não se pode esperar toda a atenção
bolismo, o parnasianismo e o pré-moder-
delas por muito tempo: 30o ensino desse que-
nismo.
sito no mundo de hoje é um processo lento
( ) Pelo tom do texto, conclui-se que o sujei-
e gradual.
SAYÃO, Rosely. “Profusão de estímulos”. Fo- to lírico enuncia, provavelmente, de um
lha de São Paulo, 11 fev. 2014 – adaptado. lugar amplo, onde muitas pessoas podem
escutar as palavras de amor que ele diz à
5. (G1-col.naval) Assinale a opção que indica amada.
corretamente o valor semântico da preposi- Está correta, de cima para baixo, a seguinte
ção em destaque. sequência:
a) “[...] pular palavras e frases inteiras, apenas a) F - V - F - F - V - V.
para irmos direto ao ponto [...]” (ref. 43) – b) V - F - V - V - V - F.
lugar. c) F - F - V - V - F - V.
b) “[...] para buscar textos sobre um tema [...]” d) V - V - F - F - V - F.
25
7. (G1-IFSC) Poema tirado de uma notícia de 8. (UERJ) A memória expressa pelo enunciador
jornal do texto não pertence somente a ele.
João Gostoso era carregador de feira livre e Na construção do poema, essa ideia é refor-
morava no morro da Babilônia num barracão çada pelo emprego de:
sem número a) tempo passado e presente
Uma noite ele chegou no bar Vinte de No- b) linguagem visual e musical
vembro c) descrição objetiva e subjetiva
Bebeu
d) primeira pessoa do singular e do plural
Cantou
Dançou
Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas 9. (UFG) Leia os poemas a seguir.
e morreu afogado.
Fonte: BANDEIRA, Manuel. In: Manuel Bandeira. A POESIA
São Paulo: Abril Educação, 1981, p. 65.
Ah se não houvesse a poesia,
Sobre o texto, é CORRETO afirmar que:
a) é um texto não literário porque tem como se não houvesse a poesia, não haveria água,
objetivo detalhar fatos e deve ser classifica- nem madeira, nem caminho, nem céu, nem
do como reportagem, e não como poema. corpo
b) é um texto informativo por apresentar infor- atraindo outro corpo. Ah, se não houvesse
mações sobre um acontecimento recente e, a poesia
por isso, deve ser classificado como notícia. eu simplesmente não seria um zé garcia
c) é um texto descritivo, diferentemente do atravessado
que consta no título, porque apresenta vá- na garganta de deus e do diabo, eu não seria
rias características físicas e psicológicas do um zé,
personagem João Gostoso. um Zé Garcia Chuva de Manga, não um ca-
d) é um texto literário, possui traços narrativos marada
porque apresenta uma sequência de aconte- atravessado de nuvens e de tantas mulheres
cimentos, e deve ser classificado como poe- felizes,
ma, conforme consta no título. eu não seria, engraçada, uma tempestade
e) é um texto instrucional porque indica como
muda.
realizar uma ação, aproximando-se, por isso, GARCIA, José Godoy. Poesias. Brasília:
de um manual de instruções. Thesaurus, 1999. p. 25.

TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO UM CADÁVER DE POETA


CANÇÃO DO VER II
Fomos rever o poste.
[...]
O mesmo poste de quando a gente brincava
A poesia é de certo uma loucura;
de pique
e de esconder. Sêneca o disse, um homem de renome.
1Agora ele estava tão verdinho! É um defeito no cérebro... Que doidos!
O corpo recoberto de limo e borboletas. É um grande favor, é muita esmola
Eu quis filmar o abandono do poste. Dizer-lhes bravo! à inspiração divina...
O seu estar parado. E, quando tremem de miséria e fome,
O seu não ter voz. Dar-lhes um leito no hospital dos loucos...
O seu não ter sequer mãos para se pronun- Quando é gelada a fronte sonhadora
ciar com Por que há de o vivo que despreza rimas
as mãos. Cansar os braços arrastando um morto,
Penso que a natureza o adotara em árvore. Ou pagar os salários do coveiro?
Porque eu bem cheguei de ouvir arrulos1 de A bolsa esvaziar por um misérrimo,
passarinhos Quando a emprega melhor em lodo e vício!
que um dia teriam cantado entre as suas fo- AZEVEDO, Álvares de. Lira dos vinte anos.
lhas. São Paulo: FTD, 1994. p. 127.
Tentei transcrever para flauta a ternura dos
arrulos. Os poemas transcritos tratam do mesmo
Mas o mato era mudo. tema, o fazer poético, mas apresentam dife-
Agora o poste se inclina para o chão − como rentes concepções a respeito dessa temática.
alguém Tal diferença se expressa na contraposição
que procurasse o chão para repouso. entre as ideias de que a poesia é
Tivemos saudades de nós. a) produto da observação da natureza, no pri-
Manoel de Barros
Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010. meiro poema; e fruto da inspiração divina,
1 arrulos − canto ou gemido de rolas e pombas no segundo.
26
b) decorrente dos temas explorados pelo poeta,
no primeiro poema; e resultado da insanida- E.O. DISSERTATIVO
de de quem a produz, no segundo.
c) inspirada nos sentimentos amorosos, no pri- TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
meiro poema; e responsável pelas dores vivi-
das pelo poeta, no segundo. Natal
d) forma de conhecimento para o poeta, no pri-
meiro poema; e motivo de sofrimento para Jesus nasceu! Na abóbada infinita
quem a cria, no segundo. Soam cânticos vivos de alegria;
e) gênese da criação, no primeiro poema; e re- E toda a vida universal palpita
sultado de distúrbios emocionais do poeta, Dentro daquela pobre estrebaria...
no segundo.
Não houve sedas, nem cetins, nem rendas
10. (Insper) Falar e dizer No berço humilde em que nasceu Jesus...
Não é possível que portentos não tenham Mas os pobres trouxeram oferendas
ocorrido Para quem tinha de morrer na Cruz.
Ou visões ominosas e graves profecias
Quando nasci. Sobre o Menino-Deus, que está cercado
Então nasce o chamado Dos animais da pobre estrebaria.
Herdeiro das superfícies e das profundezas
então Não nasceu entre pompas reluzentes;
Desponta o sol Na humildade e na paz deste lugar,
E não estremunha aterrado o mundo? Assim que abriu os olhos inocentes,
Assim à idade da razão Foi para os pobres seu primeiro olhar.
Vazei os olhos cegos dos arúspices e,
Fazendo rasos seus templos devolutos, No entanto, os reis da terra, pecadores,
Desde então eu designo no universo vão Seguindo a estrela que ao presepe os guia,
As coisas e as palavras plenas. Vêm cobrir de perfumes e de flores
Só O chão daquela pobre estrebaria.
Com elas
Recôndito e radiante ao sopro dos tempos Sobem hinos de amor ao céu profundo;
Falo e digo Homens, Jesus nasceu! Natal! Natal!
Dito e decoro Sobre esta palha está quem salva o mundo,
O caos arreganhado a receber-me inconti- Quem ama os fracos, quem perdoa o Mal!
nente.
(Antônio Cícero) Natal! Natal! Em toda Natureza
Há sorrisos e cantos, neste dia...
Salve, Deus da Humildade e da Pobreza,
Vocabulário: Nascido numa pobre estrebaria!
Arúspice: Sacerdote romano que fazia pres-
ságios consultando as entranhas das vítimas
OLAVO BILAC
In: BUENO, Alexei (org.). Olavo Bilac: obra reunida.
Nos versos, a postura assumida pelo eu lírico
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996.
em relação ao mundo revela:
a) confiança no poder da palavra, capaz de or-
ganizar o caos do universo em que o eu líri- 1. (UERJ) Observe os seguintes empregos da
co se insere. preposição “de”: “Dos animais” (v. 12) e “de
b) aceitação de seu anonimato, visto que seus flores” (v. 19).
dons não estão ao alcance de serem compre- Em cada caso, ela indica uma relação de sen-
endidos no universo. tido diferente.
c) sentimento de inferioridade diante da incer- Cite os valores semânticos dessa preposição
teza de poder nomear os acontecimentos do nos exemplos citados. Reescreva, ainda, cada
universo. construção, substituindo o “de” por outra
d) insegurança em relação à tarefa a que se preposição de sentido equivalente.
sente destinado: organizar o caos do univer-
so.
e) revolta por perceber sua própria incapacida-
de de alterar o mundo à sua volta.
27
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO Eu dava o meu orgulho de homem – dava
Minha estéril ciência, sem receio,
Vocês, que não conhecem os subterrâneos de E em débil criancinha me tornava,
jornal, não imaginam como uma redação é
povoada de seres misteriosíssimos. Procu- Descuidada, feliz, dócil também,
rem visualizar uma paisagem submarina. Se eu pudesse dormir sobre o teu seio,
Há peixes azuis, escamas cintilantes, águas Se tu fosses, querida, a minha mãe!
jamais sonhadas. De vez em quando, sai de (Antero de Quental. Antologia, 1991)
uma caverna um monstro de movimentos
lerdos, pacientes etc. E passa um peixe sem 4. (FGV) Com base no poema,
olhos, que emana uma luz própria. a) explique o que representa a mãe para o eu
Eis o que eu queria dizer: - quanto entrei, lírico, tendo em vista o que ele vive e o que
pela primeira vez, numa redação, acabava de desejaria viver. Justifique sua resposta com
fazer dez anos. Com a trágica inocência das informações do texto;
calças curtas, tive a sensação de que entrava b) reescreva os versos “Eu dava o meu orgu-
numa outra realidade. As pessoas, as mesas, lho de homem – dava / Minha estéril ciên-
as cadeiras e até as palavras tinham um halo cia, sem receio, / E em débil criancinha me
intenso e lívido. Era, sim, uma paisagem tão tornava,”, substituindo os verbos “dar” e
fascinante e espectral como se redatores, “tornar”, respectivamente, por “abster-se” e
mesas, cadeiras e contínuos fossem também “converter-se”, conjugados em outro tempo
submarinos. verbal, adequado ao contexto.
(Nélson Rodrigues, O Reacionário: Memórias e Confissões.)

TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO


2. (UFSCar ) A palavra “até”, no trecho - “até as Soneto do Amor Total
palavras tinham um halo intenso e lívido” -,
não está empregada em sua função própria Amo-te tanto, meu amor ... não cante
de preposição. O humano coração com mais verdade ...
a) Qual a função estilística dessa palavra no Amo-te como amigo e como amante
trecho? Numa sempre diversa realidade.
b) Dê dois exemplos em que “até” seja empre-
gado como preposição. Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
3. (Fuvest) No final da Guerra Civil americana,
Dentro da eternidade e a cada instante.
o ex-coronel ianque (...) sai à caça do solda-
do desertor que realizou assalto a trem com Amo-te como um bicho, simplesmente,
confederados. De um amor sem mistério e sem virtude
[“O Estado de S. Paulo”, 15/09/95] Com um desejo maciço e permanente.
E de te amar assim, muito e amiúde,
O uso da preposição ‘com’ permite diferentes
É que um dia em teu corpo de repente
interpretações da frase anterior.
Hei de morrer de amar mais do que pude.
a) Reescreva-a de duas maneiras diversas, de (MORAES, Vinicius de. In: Antologia poética.
modo que haja um sentido diferente em São Paulo: Cia das Letras, 1992, p. 232.)
cada uma.
b) Indique, para cada uma das redações, a no- 5. (G1-CP2) No texto, pode-se observar que,
ção expressa pela preposição ‘com’. ao abordar o amor, o poeta confere a esse
sentimento ora uma dimensão sublime e
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO transcendente, ora uma dimensão terrena e
material. Transcreva do poema o verso que,
Mãe apresentando uma antítese, sintetiza essa
contradição.
Mãe – que adormente este viver dorido.
E me vele esta noite de tal frio,
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
E com as mãos piedosas até o fio
Do meu pobre existir, meio partido... Natal

Que me leve consigo, adormecido, Jesus nasceu! Na abóbada infinita


Ao passar pelo sítio mais sombrio... Soam cânticos vivos de alegria;
Me banhe e lave a alma lá no rio E toda a vida universal palpita
Da clara luz do seu olhar querido... Dentro daquela pobre estrebaria...
28
Não houve sedas, nem cetins, nem rendas Um elástico que já não se pode
No berço humilde em que nasceu Jesus... mais trocar, de tão gasto;
Mas os pobres trouxeram oferendas nem se arrebenta mais, de tão forte.
Para quem tinha de morrer na Cruz.
Um elástico assim como é a vida
Sobre a palha, risonho, e iluminado que nunca volta ao ponto de partida.
Pelo luar dos olhos de Maria, [TELES, Gilberto Mendonça. In: BUSSATTO, Luiz (sel.).
Melhores poemas. 3 ed. São Paulo: Global, 2001. p. 127.]
Vede o Menino-Deus, que está cercado
Dos animais da pobre estrebaria.
7. (Ufrrj) No poema, a língua é concebida como
Não nasceu entre pompas reluzentes; “um elástico”.
Na humildade e na paz deste lugar, Na última estrofe, esse “elástico” é compa-
Assim que abriu os olhos inocentes, rado à vida, “que nunca volta ao ponto de
Foi para os pobres seu primeiro olhar. partida.”
Explique, de acordo com o texto, em que con-
No entanto, os reis da terra, pecadores, siste a “elasticidade” da língua portuguesa?
Seguindo a estrela que ao presepe os guia,
8. (Unicamp) O poema abaixo é de autoria de
Vêm cobrir de perfumes e de flores
Manoel de Barros e foi publicado no Livro
O chão daquela pobre estrebaria.
sobre nada, de 1996.
“A ciência pode classificar e nomear todos os
Sobem hinos de amor ao céu profundo;
órgãos de um sabiá mas não pode medir seus
Homens, Jesus nasceu! Natal! Natal!
encantos.
Sobre esta palha está quem salva o mundo,
A ciência não pode calcular quantos cavalos
Quem ama os fracos, quem perdoa o Mal!
de força existem nos encantos de um sabiá.
Quem acumula muita informação perde o
Natal! Natal! Em toda Natureza
condão de adivinhar: divinare.
Há sorrisos e cantos, neste dia...
Os sabiás divinam”.
Salve, Deus da Humildade e da Pobreza, (Manoel de Barros, Livro sobre nada. Rio
Nascido numa pobre estrebaria! de Janeiro: Record, 1996, p. 53.)
OLAVO BILAC
In: BUENO, Alexei (org.). Olavo Bilac: obra reunida.
a) No poema há uma estrutura típica de pro-
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996.
vérbios com uma finalidade crítica. Aponte
duas características dessa estrutura.
b) Considerando que o poeta joga com os senti-
6. (UERJ) Vede o Menino-Deus, que está cerca- dos do verbo “adivinhar” e da sua raiz latina
do (v. 11) divinare, justifique o neologismo usado no
último verso.
As formas verbais deste verso modificam a
representação do fato relatado, já que nas
duas primeiras estrofes predomina o tempo
passado dos verbos.
E.O. ENEM
Explicite o efeito estilístico causado pelo
emprego de cada uma dessas formas verbais: 1. (Enem PPL) Grupo escolar
uma no modo imperativo e outra no presen-
te do indicativo. Sonhei com um general de ombros largos
que fedia
e que no sonho me apontava a poesia
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
enquanto um pássaro pensava suas penas
LÍNGUA e já sem resistência resistia.
O general acordou e eu que sonhava
Esta língua é como um elástico face a face deslizei à dura via
vi seus olhos que tremiam, ombros largos,
que espicharam pelo mundo.
vi seu queixo modelado a esquadria
vi que o tempo galopando evaporava
No início era tensa, (deu para ver qual a sua dinastia)
de tão clássica. mas em tempo fixei no firmamento
esta imagem que rebenta em ponta fria:
Com o tempo, foi amaciando, poesia, esta química perversa,
foi-se tornando romântica, este arco que desvela e me repõe
incorporando os termos nativos nestes tempos de alquimia.
e amolecendo nas folhas de bananeira BRITO, A. C. In: HOLLANDA, H. B. (Org.). 26 Poetas
as expressões mais sisudas. Hoje: antologia. Rio de Janeiro: Aeroplano, 1998.

29
O poema de Antônio Carlos Brito está histo- Até que, farta da constante
ricamente inserido no período da ditadura prisão da forma, saltes
militar no Brasil. A forma encontrada pelo da mão para o chão
eu lírico para expressar poeticamente esse e te estilhaces, suicida.
momento demonstra que:
a) a ênfase na força dos militares não é afetada numa explosão
por aspectos negativos, como o mau cheiro de diamantes.
atribuído ao general. PAES, J. P. Prosas seguidas de odes mínimos.
b) a descrição quase geométrica da aparência São Pauto: Cia. das Letras, 1992.
física do general expõe a rigidez e a raciona-
A reflexão acerca do fazer poético é um dos
lidade do governo.
mais marcantes atributos da produção lite-
c) a constituição de dinastias ao longo da his-
rária contemporânea, que, no poema de José
tória parece não fazer diferença no presente
Paulo Paes, se expressa por um(a)
em que o tempo evapora.
a) reconhecimento, pelo eu lírico, de suas li-
d) a possibilidade de resistir está dada na reno-
mitações no processo criativo, manifesto na
vação e transformação proposta pela poesia,
expressão “Por translúcida pões”.
química que desvela e repõe.
b) subserviência aos princípios do rigor formal
e) a resistência não seria possível, uma vez que
e dos cuidados com a precisão metafórica,
as vítimas, representadas pelos pássaros,
como se observa em “prisão da forma”.
pensavam apenas nas próprias penas.
c) visão progressivamente pessimista, em face
da impossibilidade da criação poética, con-
2. (Enem PPL) Minha mãe achava estudo a coi- forme expressa o verso “e te estilhaces, sui-
sa mais fina do mundo. cida”.
Não é. d) processo de contenção, amadurecimento e
A coisa mais fina do mundo é o sentimento. transformação da palavra, representado pe-
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, los versos “numa explosão / de diamantes”.
ela falou comigo: e) necessidade premente de libertação da prisão
“Coitado, até essa hora no serviço pesado”. representada pela poesia, simbolicamente
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo comparada à “garrafa” a ser “estilhaçada”.
com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo. 4. (Enem) Aquarela
O corpo no cavalete
PRADO, A. Poesia reunida. São Paulo: Siciliano, 1991.
é um pássaro que agoniza
Um dos procedimento consagrados pelo exausto do próprio grito.
Modernismo foi a percepção de um lirismo As vísceras vasculhadas
presente nas cenas e fatos do cotidiano. No principiam a contagem
poema de Adélia Prado, o eu lírico resgata a regressiva.
poesia desses elementos a partir do(a) No assoalho o sangue
a) reflexão irônica sobre a importância atribuí- se decompõe em matizes
da aos estudos por sua mãe. que a brisa beija e balança:
b) sentimentalismo, oposto à visão pragmática o verde - de nossas matas
que reconhecia na mãe. o amarelo - de nosso ouro
c) olhar comovido sobre seu pai, submetido ao o azul - de nosso céu
trabalho pesado. o branco o negro o negro
CACASO. In: HOLLANDA, H. B (Org.). 26 poetas
d) reconhecimento do amor num gesto de apa-
hoje. Rio do Janeiro: Aeroplano, 2007.
rente banalidade.
e) enfoque nas relações afetivas abafadas pela Situado na vigência do Regime Militar que
vida conjugal. governou o Brasil, na década de 1970, o poe-
ma de Cacaso edifica uma forma de resistên-
3. (Enem 2015) À garrafa cia e protesto a esse período, metaforizando
a) as artes plásticas, deturpadas pela repressão
Contigo adquiro a astúcia e censura.
de conter e de conter-me. b) a natureza brasileira, agonizante como um
Teu estreito gargalo pássaro enjaulado.
é uma lição de angústia. c) o nacionalismo romântico, silenciado pela
perplexidade com a Ditadura.
Por translúcida pões d) o emblema nacional, transfigurado pelas
o dentro fora e o fora dentro marcas do medo e da violência.
para que a forma se cumpra e) as riquezas da terra, espoliadas durante o
e o espaço ressoe. aparelhamento do poder armado.
30
5. (Enem) Casa dos Contos Trabalhando com recursos formais inspira-
& em cada conto te cont dos no Concretismo, o poema atinge uma ex-
o & em cada enquanto me enca pressividade que se caracteriza pela:
nto & em cada arco te a a) interrupção da fluência verbal, para testar
barco & em cada porta m os limites da lógica racional.
e perco & em cada lanço t b) reestruturação formal da palavra, para pro-
e alcanço & em cada escad vocar o estranhamento no leitor.
a me escapo & em cada pe c) dispersão das unidades verbais, para ques-
dra te prendo & em cada g tionar o sentido das lembranças.
rade me escravo & em ca d) fragmentação da palavra, para representar o
da sótão te sonho & em cada estreitamento das lembranças.
esconso me affonso & em e) renovação das formas tradicionais, para pro-
cada cláudio te canto & e por uma nova vanguarda poética.
m cada fosso me enforco &
ÁVILA, A. Discurso da difamação do 7. (Enem PPL) Fogo frio
poeta. São Paulo: Summus, 1978.
O Poeta
O contexto histórico e literário do período A névoa que sobe
barroco-árcade fundamenta o poema Casa dos campos, das grotas, do fundo dos vales,
dos Contos, de 1975. A restauração de ele- é o hálito quente da terra friorenta.
mentos daquele contexto por uma poética
contemporânea revela que: O Lavrador
a) a disposição visual do poema reflete sua di- Engana-se, amigo.
mensão plástica, que prevalece sobre a ob- Aquilo é fumaça que sai da geada.
servação da realidade social.
b) a reflexão do eu lírico privilegia a memória e O Poeta
resgata, em fragmentos, fatos e personalida- Fumaça, que eu saiba,
des da Inconfidência Mineira. somente de chama e brasa é que sai!
c) a palavra “esconso” (escondido) demonstra
o desencanto do poeta com a utopia e sua O Lavrador
opção por uma linguagem erudita. E, acaso, a geada não é
d) o eu lírico pretende revitalizar os contrastes fogo branco caído do céu,
barrocos, gerando uma continuidade de pro- tostando tudinho, crestando tudinho, quei-
cedimentos estéticos e literários. mando tudinho,
e) o eu lírico recria, em seu momento histórico, sem pena, sem dó?
numa linguagem de ruptura, o ambiente de FORNARI, E. Trem da serra. Porto Alegre: Acadêmica, 1987.
opressão vivido pelos inconfidentes. Neste diálogo poético, encena-se um embate
de ideias entre o Poeta e o Lavrador, em que:
6. (Enem) da sua memória a) a vitória simbólica é dada ao discurso do
lavrador e tem como efeito a renovação de
mil uma linguagem poética cristalizada.
e b) as duas visões têm a mesma importância e
mui são equivalentes como experiência de vida e
tos a capacidade de expressão.
out c) o autor despreza a sabedoria popular e traça
ros uma caricatura do discurso do lavrador, sim-
ros plório e repetitivo.
tos d) as imagens contraditórias de frio e fogo re-
sol feridas à geada compõem um paradoxo que
tos o poema não é capaz de organizar.
pou e) o discurso do lavrador faz uma personifica-
coa ção da natureza para explicar o fenômeno
pou climático observado pelos personagens.
coa
pag 8. (Enem PPL) Meu povo, meu poema
amo
meu Meu povo e meu poema crescem juntos
ANTUNES, A. 2 ou + corpos no mesmo Como cresce no fruto
espaço. São Paulo: Perspectiva, 1998. A árvore nova
31
No povo meu poema vai nascendo a) o poeta utiliza uma série de metáforas zoo-
Como no canavial lógicas com significado impreciso.
Nasce verde o açúcar b) “morcegos”, “cabras”, e “hienas” metafori-
zam as vítimas do regime militar vigente.
No povo meu poema está maduro c) o “porco” , animal difícil de domesticar, re-
Como o sol presenta os movimentos de resistência.
Na garganta do futuro d) o poeta caracteriza o momento de opressão
através de alegorias de forte poder de impac-
Meu povo em meu poema to.
Se reflete e) “centuriões” e “sentinelas” simbolizam os
Como espiga se funde em terra fértil agentes que garantem a paz social experi-
mentada.
Ao povo seu poema aqui devolvo
Menos como quem canta 10. (Enem) Pote Cru é meu pastor. Ele me guia-
Do que planta rá.
FERREIRA GULLAR. Toda poesia. José
Ele está comprometido de monge.
Olympio: Rio de Janeiro, 2000.
De tarde deambula no azedal entre torsos de
O texto Meu povo, meu poema, de Ferreira cachorros, trampas, trapos, panos de regra,
Gullar, foi escrito na década de 1970. Nele, o couros,
diálogo com o contexto sociopolítico em que de rato ao podre, vísceras de piranhas, ba-
se insere expressa uma voz poética que: ratas
a) precisa do povo para produzir seu texto, mas albinas, dálias secas, vergalhos de lagartos,
se esquiva de enfrentar as desigualdades so- linguetas de sapatos, aranhas dependuradas
ciais. em
b) dilui a importância das contingências políti- gotas de orvalho etc. etc.
cas e sociais na construção de seu universo Pote Cru, ele dormia nas ruínas de um con-
poético. vento
c) associa o engajamento político à grandeza Foi encontrado em osso.
do fazer poético, fator de superação da alie- Ele tinha uma voz de oratórios perdidos.
nação do povo. BARROS, M. Retrato do artista quando
d) afirma que a poesia depende do povo, mas coisa. Rio de Janeiro: Record, 2002.
esse nem sempre vê a importância daquela
nas lutas de classe. Ao estabelecer uma relação com o texto bí-
e) reconhece, na identidade entre o povo e a blico nesse poema, o eu lírico identifica-se
poesia, uma etapa de seu fortalecimento hu- com o Pote Cru porque:
mano e social. a) entende a necessidade de todo poeta ter voz
de oratórios perdidos.
b) elege-o como pastor a fim de ser guiado para
9. (Enem) Logia e mitologia
a salvação divina.
c) valoriza nos percursos do pastor a conexão
Meu coração
entre as ruínas e a tradição.
de mil e novecentos e setenta e dois
d) necessita de um guia para a descoberta das
Já não palpita fagueiro
sabe que há morcegos de pesadas olheiras coisas da natureza.
que há cabras malignas que há e) acompanha-o na opção pela insignificância
cardumes de hienas infiltradas das coisas.
no vão da unha da alma
um porco belicoso de radar 11. (Enem) O sedutor médio
e que sangra e ri
e que sangra e ri Vamos juntar
a vida anoitece provisória Nossas rendas e
centuriões sentinelas expectativas de vida
do Oiapoque ao Chuí. querida,
CACASO. Lero-lero. Rio de Janeiro: 7Letras; o que me dizes?
São Paulo: Cosac & Naify,2002. Ter 2, 3 filhos
e ser meio felizes?
O título do poema explora a expressividade
VERISSIMO, L. F. Poesia numa hora dessas?!
de termos que representam o conflito do mo- Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.
mento histórico vivido pelo poeta na década
de 1970. Nesse contexto, é correto afirmar No poema O sedutor médio, é possível reco-
que: nhecer a presença de posições críticas:
32
a) nos três primeiros versos, em que “juntar 2.
expectativas de vida” significa que, juntos, a) A palavra “até” tem função enfatizadora.
os cônjuges poderiam viver mais, o que faz b) Vou até a praia. Amar-te-ei até o último
do casamento uma convenção benéfica. sopro.
b) na mensagem veiculada pelo poema, em que 3.
os valores da sociedade são ironizados, o que a) ... sai à caça do soldado desertor que, com
é acentuado pelo uso do adjetivo “médio” no confederados, realizou assalto a trem.
título e do advérbio “meio” no verso final. ... sai à caça do soldado desertor que rea-
lizou assalto a trem com confederados em
c) no verso “e ser meio felizes?”, em que
seu interior.
“meio” é sinônimo de metade, ou seja, no
b) No primeiro caso há noção de companhia;
casamento, apenas um dos cônjuges se sen- no segundo, de conteúdo.
tiria realizado. 4.
d) nos dois primeiros versos, em que “juntar a) A mãe representa proteção para o eu lí-
rendas” indica que o sujeito poético passa rico, conforme ele expressa em “Que me
por dificuldades financeiras e almeja os ren- leve consigo, adormecido, / Ao passar
dimentos da mulher. pelo sítio mais sombrio...”, assim como
e) no título, em que o adjetivo “médio” qualifi- alívio: “Me banhe e lave a alma lá no rio
ca o sujeito poético como desinteressante ao / Da clara luz do seu olhar querido...”.
sexo oposto e inábil em termos de conquis- Tal pedido decorre de um momento de di-
tas amorosas. ficuldades vivido pelo eu lírico, uma vez
que o primeiro verso do poema, “Mãe –
que adormente este viver dorido.” expõe
GABARITO tal situação de forma direta e pontual.
Seu desejo, no entanto, seria outro viver,
isento de preocupações próprias à vida
adulta, uma vez que gostaria de se tornar
uma “débil criancinha” (…) “Descuida-
E.O. Teste I da, feliz, dócil também / Se eu pudesse
1. C 2. A 3. A 4. C 5. C dormir sobre o teu seio, / Se tu fosses,
querida, a minha mãe!”
6. C 7. D 8. C 9. D 10. C b) “Eu me absteria do meu orgulho de ho-
mem – abster-me-ia de minha estéril ci-
ência, sem receio, e em débil criancinha
me converteria”.
E.O. Teste II 5. No verso “dentro da eternidade e a cada
instante” encontramos dois termos-chave:
1. D 2. D 3. D 4. E 5. A “eternidade” e “instante”. O primeiro é uma
6. D 7. C 8. D 9. A 10. D abstração do tempo e adquire uma dimensão
sublime e transcendental. É imensurável e
infinito. Já o segundo adquire uma dimen-
são mais material: o instante é um momen-
to, que sempre está passando, algo finito e
E.O. Teste III passageiro. Constrói-se, então, uma antítese
1. D 2. E 3. E 4. D 5. E entre a eternidade e o instante, sintetizando
a contradição entre o amor sublime e o amor
6. B 7. D 8. D 9. D 10. A terreno.
6. Os termos verbais “vede” e “está” interrom-
pem o fato relatado anteriormente nas duas
primeiras estrofes do poema. Assim, com o
E.O. Dissertativo modo imperativo, o enunciador dirige-se aos
homens, convocando-os a olhar o Menino-
1. A preposição “de”, contraída com o artigo
-Deus. Com o presente do indicativo, o enun-
definido “os” na expressão “Dos animais”,
ciador torna a cena atual e viva, como se ela
introduz o agente da oração na voz passiva,
se desenrolasse diante das pessoas que ali
com o mesmo valor semântico que apresen- estão presentes.
taria na expressão pelos animais (Vede o Me- 7. A referida “elasticidade” consiste nas cons-
nino-Deus, que está cercado/ Pelos animais tantes transformações e adaptações sofridas
da pobre estrebaria). No verso “Vêm cobrir pela língua portuguesa, ao ser transplantada
de perfumes e de flores”, a preposição “de” para o Brasil, para atender às necessidades
indica substância e poderia ser substituída de seus usuários, sofrendo influências de di-
por com: vêm cobrir com perfumes e com flo- versas culturas e tornando-se forte mesmo
res. com toda flexibilidade.
33
8.
a) Os provérbios são textos sucintos, ricos em imagens, que expressam suposta sabedoria popular
e com sonoridade agradável, fator essencial na sua difusão e sua memorização. O verso “Quem
acumula muita informação perde o condão de adivinhar: divinare” contém ritmo marcante
realçado na rima interna dos termos “informação” e “condão”, a aliteração na consoante “m”
(acumula muita informação) e a assonância na vogal “u” (acumula muita ).
b) O neologismo “divinar” remete ao verbo latino divinare, que significa intuir, por meios so-
brenaturais ou por astúcia, fatos desconhecidos ou ocultos do presente, passado e futuro. Ao
contrário do ser humano que busca explicações através da ciência, desvalorizando assim a sua
intuição primitiva, os sabiás conservariam o dom de adivinhar, pois são seres guiados pelo
instinto natural como se orientados por entidades divinas.

E.O. Enem
1. D 2. D 3. D 4. D 5. E

6. D 7. A 8. E 9. D 10. E 11. B

34
Aula 14 (Gramática e I.T.)
Conjunção e textos em prosa
INTRODUÇÃO ƒ Conclusivas – estabelecem uma relação de
conclusão a respeito de um fato dado no mundo.
A conjunção é uma classe de palavras invariável que ƒ Principais conjunções conclusivas: logo,
atua como instrumento de conexão entre orações. De portanto, por conseguinte, por isso, assim,
acordo com a natureza de relação apresentada nas pois (depois do verbo e entre vírgulas).
orações, as conjunções podem ser classificadas como
coordenativas e subordinativas. Os termos ligados Exemplo: Estava muito irritado, portanto,
pelas conjunções coordenativas podem ser isolados um preferiu conversar mais tarde.
do outro sem que as unidades de sentido de cada termo ƒ Explicativas – estabelecem uma relação de
sejam perdidas. Os termos ligados pelas conjunções su- explicação sobre fato que ainda não ocorreu no
bordinativas dependem necessariamente da existência mundo.
um do outro.
ƒ Principais conjunções explicativas: que,
porque, porquanto, pois (antes do verbo).
CONJUNÇÕES COORDENATIVAS Exemplo: Não fique irritado, porque a con-
versa pode tomar outros rumos.
Coordenam orações sem estabelecer uma relação de
dependência (uma função sintática). De acordo com um
critério lógico-semântico, elas se classificam assim: CONJUNÇÕES SUBORDINATIVAS
ƒ Aditivas – estabelecem uma relação de soma,
As conjunções subordinativas ligam duas orações, das
de adição entre os termos.
quais uma é necessariamente dependente da outra, de-
ƒ Principais conjunções aditivas: e, nem, sempenhando em relação a esta uma função sintática.
não só... mas também, não só... como tam- São classificadas como:
bém, bem como, não só... mas ainda.
ƒ Causais – introduzem a oração que é causa da
Exemplos:
ocorrência da oração principal.
Ele saiu cedo e levou a carteira.
Ela não só saiu cedo como também passou ƒ Principais conjunções causais: porque,
na farmácia. que, pois que, visto que, uma vez que, por-
quanto, já que, desde que, como (no início
ƒ Adversativas – estabelecem uma relação de
da frase).
contraste, de oposição entre os termos.
ƒ Principais conjunções adversativas: Exemplo: Ele não fez as compras porque
mas, porém, contudo, todavia, entretanto, no não havia trazido a carteira.
entanto, não obstante. ƒ Concessivas – introduzem a oração que ex-
pressa ideia contrária a da principal.
Exemplo: Tentou vender os livros usados,
mas não conseguiu. ƒ Principais conjunções concessivas: em-
ƒ Alternativas – estabelecem uma relação de bora, ainda que, apesar de que, se bem que,
alternância, de escolha ou de exclusão entre os mesmo que, por mais que, posto que, con-
termos: quanto.

ƒ Principais conjunções alternativas: ou, Exemplo: Embora fosse arriscado, investi-


ou... ou, ora... ora, já... já, quer... quer, seja... mos em ações.
seja, talvez... talvez. ƒ Condicionais – introduzem uma oração que
Exemplo: Ou você chega logo, ou vou em- indica a hipótese ou a condição para ocorrência
bora para minha casa. da principal.
37
ƒ Principais conjunções condicionais: se, ƒ Comparativas – introduzem orações que ex-
caso, contanto que, salvo se, a não ser que, pressam ideia de comparação em relação à ora-
desde que, a menos que, sem que. ção principal.

Exemplo: Caso precise de algum emprésti- ƒ Principais conjunções comparativas:


mo, procure um banco. como, assim como, tal como, como se, (tão)...
como, tanto como, tanto quanto, do que,
ƒ Conformativas – introduzem uma oração que
quanto, tal, qual, tal qual, que nem, que
exprime a conformidade de um fato com outro.
(combinado com menos ou mais).
ƒ Principais conjunções conformativas:
conforme, como (conforme), segundo, con- Exemplo: A seleção fez mais gols hoje que
soante. no jogo anterior.

Exemplo: As coisas nem sempre ocorrem ƒ Consecutivas – introduzem orações que ex-

como queremos. pressam consequência em relação à principal.

ƒ Finais – introduzem uma oração que expressa ƒ Principais conjunções consecutivas: de


a finalidade ou o objetivo com que se realiza a sorte que, de modo que, sem que (que não),
principal. de forma que, de jeito que, que (cujo antece-
dente na oração principal seja tal, tão, cada,
ƒ Principais conjunções finais: para que, a
tanto, tamanho).
fim de que, que, porque (para que), que.
Exemplo: Dormiu tanto que ficou com do-
Exemplo: Mande o e-mail para que todos
res no pescoço.
compareçam no horário correto.

ƒ Proporcionais – introduzem uma oração que


expressa um fato relacionado proporcionalmen- CONJUNÇÕES INTEGRANTES
te à ocorrência da principal.

ƒ Principais conjunções proporcionais: à As conjunções integrantes introduzem as orações su-

medida que, à proporção que, ao passo que bordinadas substantivas. Ocorrem com os termos “que”

– e as combinações: quanto mais... (mais), e “se”.


quanto menos... (menos), quanto menos... Exemplos:
(mais), quanto menos... (menos). Espero que você volte (espero sua volta).
Exemplo: Os problemas saem do controle à Não sei se ele voltará (não sei da sua volta).
medida que não são resolvidos.

ƒ Temporais – introduzem orações que acrescen-


tam uma circunstância de tempo ao fato expres-
Dica
so na oração principal.
Para confirmar se uma conjunção é do tipo integrante,
ƒ Principais conjunções temporais: quan- deve-se substituir os termos “que” ou “se”, e o restante
do, enquanto, antes que, depois que, logo da oração que os acompanha, pelo pronome “isso”.
que, todas as vezes que, desde que, sempre
Exemplo:
que, assim que, agora que, mal (assim que)
É necessário que se mudem os pensamentos.
Exemplo: Ele nos atendeu assim que co-
isso
meçamos a reclamar.
38
TEXTOS EM PROSA de Marçal Aquino. Na Europa, esse gênero deu
origem a grandes clássicos, como A metamor-
fose, de Kafka; Morte em Veneza, de Thomas
Denominamos prosa um texto construído prioritaria-
Mann; e A morte de Ivan Ilitch, de Tolstói.
mente com parágrafos (se escrito em versos, teremos
um texto poético), que apresenta maior extensão que ƒ Conto: entende-se por conto uma composição
um poema, por exemplo. Costumeiramente, possui uma textual em prosa mais curta que a novela ou o
linguagem de cunho mais denotativo (diferente da po- romance. Por possuir um espaço de desenvol-
esia, bem mais conotativa), mas isso não impede que vimento menor, o conto costuma apresentar
o autor se valha de artifícios que deem maior variabili- uma estrutura bastante fechada, em que o en-
dade aos sentidos que estão sendo expressos no texto. redo se desenvolve com maior velocidade, sem
Os principais tipos de texto em prosa são os seguintes: desdobramento de conflitos secundários (como
habitualmente acontece com o romance). Ca-
ƒ Romance: entende-se por romance uma com-
racteriza-se por deixar várias questões a cargo
posição textual longa, em prosa, que desenvolve
da interpretação do leitor, e também por possuir
algum tipo de enredo, linear ou fragmentado,
um clímax mais próximo de seu fim. Trata-se de
que costuma apresentar volume significativo
um gênero muito trabalhado por prosadores
de informações ao leitor. Não há regras pré-
brasileiros, pois seus processos de ficcionalidade
-determinadas para a composição das partes de
costumam alcançar tanto elementos mais “ma-
um romance, mas o final, por exemplo, costuma
teriais”, quanto elementos mais fantasiosos (os
ser uma espécie de enfraquecimento dos vários
contos fantásticos, por exemplo). Há autores que
elementos que foram sendo “amarrados” na desenvolveram a totalidade de suas obras em
história. No romance não costuma haver clímax contos, como é o caso do escritor Murilo Rubião.
ao final da narrativa. Na prosa brasileira são co- Outros grandes contistas brasileiros são Macha-
nhecidas como romances obras como Memórias do de Assis, Mário de Andrade, Clarice Lispector
póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro, Vidas e Guimarães Rosa.
secas, Capitães da areia, Iracema, Til. Ou seja,
textos narrativos de maior extensão, com enredo ƒ Drama: entende-se por drama uma composição
variado, que apresentam algum tipo de “amar- textual em prosa que realiza uma figuração/re-
presentação de ações ou histórias. Habitualmen-
ração” em sua estrutura.
te, são textos para serem encenados em peças
ƒ Novela: entende-se por novela uma composi- (no teatro). Sua estrutura pode ser dividida em
ção textual em prosa de menor extensão do que capítulos denominados “atos” (1º ato, 2º ato
o romance, mas costumeiramente maior que um etc.), e apresenta dimensões variadas, que levam
conto. Em relação ao romance, podemos dizer em conta o tempo de apresentação da obra ao
que a novela apresenta maior economia de re- público. Muito se discute a respeito das diferen-
cursos narrativos. Já em comparação ao conto, ças que podem existir entre o texto dramático
pode-se dizer que a novela possui um maior de- escrito e aquilo que é representado em um palco.
senvolvimento tanto de enredo, quanto de per- A ideia geral seria que se seguisse o mais fiel-
sonagens. Dessa maneira, podemos concluir que mente possível o texto que foi produzido pelo
a novela seria uma forma intermediária entre o autor, no entanto, os diretores de peças têm a
conto e o romance. Em geral, trata-se de uma liberdade de realizar modificações variadas no
narrativa em que as ações giram em torno de um enredo ou nas composições cenográficas. Não é
único personagem (o romance costuma apresen- dos gêneros mais trabalhados pelos prosadores
tar maior número de tramas e linhas narrativas). brasileiros, embora existam produções de grande
Não é um gênero muito praticado entre os pro- qualidade que se tornaram famosas por virarem
sadores brasileiros, embora tenhamos, mais con- filmes. É o caso das peças Lisbela e o prisionei-
temporaneamente, grandes obras nesse estilo, ro, de Osman Lins, O auto da compadecida, de
como A hora da estrela, de Clarice Lispector; Um Ariano Suassuna, ou Eles não usam black-tie, de
copo de cólera, de Raduan Nassar; ou O invasor, Gianfrancesco Guarnieri.
39
Os tipos de narrador que conduzem a obra
Qualquer dos tipos de texto em prosa que foram apresentados costuma ser conduzido por um narrador, que é a
figura que transmite as mensagens e conta a história. Existem dois tipos padrão de condução narrativa: a narrativa
em primeira pessoa, que é um modo em que a história é narrada por personagens que falam sobre e para si mes-
mos. Já a narrativa em terceira pessoa apresenta alguém que conta a história de algum personagem de “fora para
dentro”. Esses dois modelos apresentam algumas subdivisões que conheceremos a seguir.

Narrador em primeira pessoa


ƒ Narrador-personagem: é aquele que, não apenas conta a história em primeira pessoa, mas também faz
parte dela (por isso narrador e também personagem). Suas principais características estão na evidenciação
de fortes marcas subjetivas e emocionais do narrador no decorrer da obra. O texto é constantemente pau-
tado pela emissão de opiniões a respeito dos fatos que ocorrem na história. A narrativa conduzida por esse
tipo de narrador costuma ser entendida como uma narrativa parcial, pois os eventos são contados a partir
do ponto de vista de quem os narra (não temos outros pontos de vista). Por esse motivo, tem-se uma visão
limitada dos fatos, o que pode contribuir para o efeito de suspense sobre os fatos da obra, pois o leitor faz
descobertas junto com a personagem.

ƒ Narrador-protagonista: é aquele que é não apenas o narrador, mas também a personagem principal
da história. É uma narrativa marcada por forte subjetividade, pois todos os eventos giram em torno desse
personagem principal. É também um tipo de narrativa parcial, pois o leitor é induzido a criar uma empatia
com os sentimentos de satisfação ou insatisfação vividos pela personagem. Isso tudo dificulta a visão geral
da história.

ƒ Narrador-testemunha: trata-se de uma personagem que conta uma história por ela vivenciada, mas da
qual não era a personagem principal. Também há nessa modalidade o registro dos fatos por uma óptica
subjetiva, com a diferença de que a carga emocional sobre este é menor, tendo em vista que não é a per-
sonagem principal da trama.

Narrador em terceira pessoa


ƒ Narrador onisciente: é aquele que sabe de todos os fatos a respeito da história e dos personagens, in-
cluídos aí os pensamentos e sentimentos destes. Por conta dessa amplitude de conhecimento, esse tipo de
narrador é capaz de fazer descrições sobre coisas que acontecem simultaneamente em lugares diferentes.

ƒ Narrador onisciente neutro: é aquele que relata os fatos e descreve detalhes das personagens, mas
sem influenciar o leitor com observações ou opiniões dos eventos narrados. Esse tipo de narrador costuma
evidenciar somente os fatos que são essenciais para a compreensão da narrativa.

ƒ Narrador onisciente seletivo: é aquele que, tendo conhecimento dos pensamentos e sentimentos das
personagens, seleciona aqueles aos quais dará maior ênfase nas revelações. Desse modo, é um narrador que
tenta influenciar o leitor a tomar algum posicionamento em relação a algum personagem.

ƒ Narrador observador: é aquele que presencia a história que está narrando. Não deve ser confundido
com a modalidade “onisciente”, pois o narrador observador não tem a visão de tudo. Ele conhece apenas
um ângulo da história que narra. Funciona como uma testemunha dos fatos, mas não faz parte de nenhum
deles. Não apresenta nenhum tipo de conhecimento em relação à intimidade de qualquer personagem.
40
E.O. TESTE I por ano — uma média de uma língua a cada
duas semanas. (...)
A perda de línguas raras é lamentável por
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO várias razões. Em primeiro lugar, pelo in-
teresse científico que despertam: algumas
Confidência do Itabirano questões básicas da linguística estão longe
de estar inteiramente resolvidas. E essas lín-
Alguns anos vivi em Itabira.
guas ajudam a saber quais elementos da gra-
Principalmente nasci em Itabira.
mática e do vocabulário são realmente uni-
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
versais, isto é, resultantes das características
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
do próprio cérebro humano.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
A ciência também tenta reconstruir o per-
E esse alheamento do que na vida é porosi-
curso de antigas migrações, fazendo um le-
dade e comunicação.
vantamento de palavras emprestadas, que
A vontade de amar, que me paralisa o tra- ocorrem em línguas sem qualquer parentes-
balho, co. Afinal, se línguas não aparentadas par-
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem tilham palavras, então seus povos estiveram
mulheres e sem horizontes. em contato em algum momento.
Um comunicado do Programa das Nações
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte, Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) diz
é doce herança itabirana. que “o desaparecimento de uma língua e de
seu contexto cultural equivale a queimar um
De Itabira trouxe prendas diversas que ora
livro único sobre a natureza”. Afinal, cada
te ofereço:
povo tem um modo único de ver a vida. Por
este São Benedito do velho santeiro Alfredo
exemplo, a palavra russa mir significa igual-
Duval;
mente “aldeia”, “mundo” e “paz”. É que,
esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil;
como os aldeões russos da Idade Média ti-
este couro de anta, estendido no sofá da sala
nham de fugir para a floresta em tempos de
de visitas;
guerra, a aldeia era para eles o próprio mun-
este orgulho, esta cabeça baixa...
do, ao menos enquanto houvesse paz.
Tive ouro, tive gado, tive fazendas. Disponível em: <http://revistalingua.com.br/textos/116/a-
morte-anunciada-355517-1.asp> acesso em 28 set. 2015.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!
2. (G1-IFPE) Na frase “Linguistas preveem que
Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do mundo.
metade das mais de 6 mil línguas faladas
no mundo desaparecerá em um século”, que
1. (Fuvest) Na última estrofe, a expressão que aparece no início do texto, o vocábulo “que”
justifica o uso da conjunção sublinhada no funciona como:
verso “Mas como dói!” é: a) conjunção integrante e introduz uma nova
a) “Hoje”. oração com valor de predicativo do sujeito.
b) “funcionário público”. b) pronome relativo e estabelece uma ligação
c) “apenas”. entre o verbo e a palavra “metade”.
d) “fotografia”. c) conjunção integrante e introduz uma nova
e) “parede”. oração com valor de sujeito.
d) pronome e estabelece uma relação entre
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO “linguistas” e o que sucede o pronome.
e) conjunção integrante e introduz uma oração
Uma revisão de dados recentes sobre a morte com valor de objeto direto.
de línguas
Linguistas preveem que metade das mais de TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
mil línguas faladas no mundo desaparece-
rá em um século — uma taxa de extinção Quantos seres humanos a Terra seria capaz
que supera as estimativas mais pessimistas de suportar?
quanto à extinção de espécies biológicas. O número ideal seria entre a bilhões de
(...) pessoas. Atualmente, porém, a população é
Segundo a Unesco, da população mundial de bilhões. Ou seja, já somos mais do que o
falam só das línguas existentes. E apenas dobro do que a Terra conseguiria abrigar de
da humanidade partilha o restante dos idio- forma sustentável. De acordo com o Fundo
mas, metade dos quais se encontra em perigo de População das Nações Unidas (UNFPA),
de extinção. Entre e idiomas desaparecem três fatores devem ser considerados para o
41
cálculo: disponibilidade de comida, água e 3. (G1-IFSP) Considere o trecho: “Mas nem pre-
terra; padrão de consumo e capacidade do cisamos ir tão longe: com o consumo médio
planeta de absorver a poluição; e número de atual, já exploramos pelo menos duas vezes
pessoas. Para o pesquisador Alan Weisman, mais do que o planeta oferece”. A conjunção
autor de Contagem Regressiva – A Nossa Úl- destacada pode ser substituída, sem perda
tima e Melhor Esperança para um Futuro na significativa do sentido, por:
Terra, há um paradoxo. Não adianta aumen- a) Além disso nem precisamos ir tão longe: com
tar a nossa capacidade de alimentar e man- o consumo médio atual, já exploramos pelo
ter bilhões de pessoas vivas se cada vez mais menos duas vezes mais do que o planeta ofe-
pessoas continuarem nascendo. “No início rece.
do século 20 éramos bilhões e tínhamos b) Como, nem precisamos ir tão longe: com o
vastas florestas, qualidade de vida, comida consumo médio atual, já exploramos pelo
para todo mundo e pouca emissão de com- menos duas vezes mais do que o planeta
bustíveis fósseis. Ou seja, tínhamos um pla- oferece.
neta saudável”, afirma Weisman. c) Assim nem precisamos ir tão longe: com o
consumo médio atual, já exploramos pelo
SACO SEM FUNDO menos duas vezes mais do que o planeta
Com o avanço da tecnologia e da medicina, oferece.
mais gente vive por mais tempo. Também d) Conquanto nem precisamos ir tão longe: com
produzimos mais grãos utilizando o mesmo o consumo médio atual, já exploramos pelo
espaço – atualmente, nos EUA, cerca de dos menos duas vezes mais do que o planeta ofe-
grãos alimentam gado (que geram alimento rece.
para o homem). Porém, quanto mais comida e) Entretanto nem precisamos ir tão longe: com
produzimos, mais pessoas surgem para se- o consumo médio atual, já exploramos pelo
rem alimentadas. menos duas vezes mais do que o planeta ofe-
rece.
ALÍVIO TEMPORÁRIO
A taxa de natalidade mundial está diminuin- TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
do. Atualmente muitas pessoas vivem nas ci-
dades e as famílias não precisam ter tantas Chuva fora de época dá só 18 dias de alívio
crianças (antigamente, os filhos eram im- às represas da Grande SP
portante força de trabalho na lavoura). Além As primeiras duas semanas de setembro
disso, os lares estão cada vez menores e o trouxeram chuvas acima da média e amplia-
custo de vida maior. Por tudo isso, pessoas ram em 50 bilhões de litros as reservas das
urbanas têm cada vez menos filhos. principais represas da Grande São Paulo.
Todo esse volume, porém, representa ape-
SOMOS EXAGERADOS nas um ligeiro alívio nos agonizantes ma-
Desenvolvimento também não é garantia de nanciais e deverá ser todo consumido num
abundância. Se toda a população consumis- intervalo de apenas três semanas de estia-
se como os americanos, a Terra não supor- gem – como aconteceu nos últimos 18 dias
taria - precisaríamos do triplo de recursos do mês de agosto.
existentes atualmente. Mas nem precisamos E é justamente essa a previsão dos climato-
ir tão longe: com o consumo médio atual, já logistas para a próxima semana. Segundo es-
exploramos pelo menos duas vezes mais do sas previsões, a região metropolitana e seu
que o planeta oferece. entorno, onde estão os seis principais reser-
vatórios, terá bastante calor e quase nenhu-
PLANEJAMENTO FAMILIAR ma chuva.
De acordo com Alan Weisman, podemos re- Setembro é o último mês da estação seca,
duzir a quantidade de pessoas que vivem na iniciada em abril. A expectativa do governo
Terra ao longo de três gerações sem tomar Geraldo Alckmin (PSDB) é que as chuvas em
medidas extremas. “Há países que redu- grande volume voltem a partir de outubro
ziram o número de habitantes apenas com – na última estação chuvosa, porém, elas só
distribuição de contraceptivos, educação e vieram em fevereiro e março.
planejamento familiar, sem precisar obrigar A Grande SP vive hoje a mais grave seca já
as famílias a ter menos filhos”. registrada.
http://mundoestranho.abril.com.br/materia/quantos- Fabrício Lobel (Disponível em http://www1.folha.
seres-humanos-a-terra-seria-capaz-de-suportar uol.com.br/cotidiano. Acesso em 15.09.2015)

42
4. (G1-Utfpr) Sobre o texto, identifique como Trazem pelo menos o patrimônio de sua in-
verdadeiras (V) ou falsas (F) as seguintes quietação e de seu 17apetite de vida. 9Muitos
afirmativas: se perderão, sem futuro, na vagabundagem
( ) A conjunção porém, no segundo parágra- inconsequente das cidades; uma mulher
fo, introduz uma ideia de oposição às in- dessas talvez se suicide melancolicamen-
formações do primeiro parágrafo. te dentro de alguns anos, em algum quar-
( ) No segundo parágrafo, o travessão ( – ) to de pensão. Mas é preciso de tudo para
foi empregado para introduzir um escla- 18
fazer um mundo; e cada pessoa humana é
recimento à informação anterior. um mistério de heranças e de taras. Acaso
( ) No terceiro parágrafo, o pronome indefi- importamos o pintor Portinari, o arquiteto
nido onde foi empregado para retomar o Niemeyer, o físico Lattes? E os construtores
lugar, citado anteriormente . de nossa indústria, como vieram eles ou seus
( ) No título da notícia, a palavra alívio re- pais? Quem pergunta hoje, 10e que interes-
cebe acento por ser uma paroxítona ter- sa saber, se esses homens ou seus pais ou
minada em - a. seus avós vieram para o Brasil como agricul-
Assinale a alternativa que apresenta a sequ- tores, comerciantes, barbeiros ou capitalis-
ência correta, de cima para baixo. tas, aventureiros ou vendedores de gravata?
a) F – V – F – V. Sem o tráfico de escravos não teríamos tido
b) F – F – V – V. Machado de Assis, e Carlos Drummond seria
c) F – V – V – F. impossível sem uma gota de sangue (ou uís-
d) V – V – F – F. que) escocês nas veias, 4e quem nos garante
e) V – F – F – V. que uma legislação exemplar de imigração
não teria feito Roberto Burle Marx nascer
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO uruguaio, Vila Lobos mexicano, ou Pancet-
ti chileno, o general Rondon canadense ou
1
José Leal fez uma reportagem na Ilha das Noel Rosa em Moçambique? Sejamos humil-
Flores, onde ficam os imigrantes logo que des diante da pessoa humana: 5o grande ho-
chegam. E falou dos equívocos de nossa polí- mem do Brasil de amanhã pode descender
tica imigratória. 2As pessoas que ele encon- de um clandestino que neste momento está
trou não eram agricultores e técnicos, gente saltando assustado na praça Mauá13, e não
capaz de ser útil. Viu músicos profissionais, sabe aonde ir, nem o que fazer. Façamos uma
bailarinas austríacas, cabeleireiras lituanas. política de imigração sábia, perfeita, mate-
Paul Balt toca acordeão, Ivan Donef faz co- rialista14; mas deixemos uma pequena mar-
quetéis, Galar Bedrich é vendedor, Serof Ne- gem aos inúteis e aos vagabundos, às aven-
dko é ex-oficial, Luigi Tonizo é jogador de tureiras e aos tontos porque dentro de algum
futebol, Ibolya Pohl é costureira. Tudo 15gen- deles, como sorte grande da fantástica 19lo-
te para o asfalto, “para entulhar as grandes teria humana, pode vir a nossa redenção e a
cidades”, como diz o repórter. nossa glória.
6
O repórter tem razão. 3Mas eu peço licença (BRAGA, R. Imigração. In: A borboleta amarela.
Rio de Janeiro, Editora do Autor, 1963)
para ficar imaginando uma porção de coisas
vagas, ao olhar essas belas fotografias que
ilustram a reportagem. Essa linda costurei- 5. (ITA) Assinale a opção em que o termo gri-
rinha morena de Badajoz, essa Ingeborg que fado é conjunção integrante.
faz fotografias e essa Irgard que não faz coi- a) José Leal fez uma reportagem na Ilha das
sa alguma, esse Stefan Cromick cuja única Flores, onde ficam os imigrantes logo que
experiência na vida parece ter sido vender chegam. (ref. 1)
bombons 11– não, essa gente não vai aumen- b) As pessoas que ele encontrou não eram agri-
tar a produção de batatinhas e quiabos nem cultores e técnicos, gente capaz de ser útil.
16
plantar cidades no Brasil Central. (ref. 2)
7
É insensato importar gente assim. Mas o c) Mas eu peço licença para ficar imaginando
destino das pessoas e dos países também é, uma porção de coisas vagas, ao olhar essas
muitas vezes, insensato: principalmente da belas fotografias que ilustram a reportagem.
gente nova e países novos. 8A humanidade (ref. 3)
não vive apenas de carne, alface e motores. d) [...] e quem nos garante que uma legislação
Quem eram os pais de Einstein, eu pergunto; exemplar de imigração não teria feito Rober-
e se o jovem Chaplin quisesse hoje entrar no to Burle Marx nascer uruguaio, [...] (ref. 4)
Brasil acaso poderia? Ninguém sabe que des- e) [...] o grande homem do Brasil de amanhã
tino terão no Brasil essas mulheres louras, pode descender de um clandestino que neste
esses homens de profissões vagas. Eles es- momento está saltando assustado na praça
tão procurando alguma coisa12: emigraram. Mauá, [...] (ref. 5)
43
6. (Unesp) Nenhum dos filmes que vi, e me 8. (UERJ) pode-se adivinhar a norma que lhe
divertiram tanto, me ajudou a compreender rege a vida ao primeiro olhar.
o labirinto da psicologia humana como os ro- A expressão destacada reforça o sentido ge-
mances de Dostoievski – ou os mecanismos ral do texto, porque remete a uma ação base-
da vida social como os livros de Tolstói e de ada no seguinte aspecto:
Balzac, ou os abismos e os pontos altos que a) vulgaridade.
podem coexistir no ser humano, como me b) exterioridade.
ensinaram as sagas literárias de um Thomas c) regularidade.
Mann, um Faulkner, um Kafka, um Joyce ou d) ingenuidade.
um Proust. As ficções apresentadas nas telas
são intensas por seu imediatismo e efême- 9. (UERJ) A narrativa condensada do texto
ras por seus resultados. Prendem-nos e nos sugere uma crítica relacionada à educação,
desencarceram quase de imediato, mas das tema anunciado no título.
ficções literárias nos tornamos prisioneiros Essa crítica dirige-se principalmente à se-
pela vida toda. Ao menos é o que acontece guinte característica geral da vida social:
comigo, porque, sem elas, para o bem ou a) problemas frequentes vividos na infância.
para o mal, eu não seria como sou, não acre- b) julgamentos superficiais produzidos por pre-
ditaria no que acredito nem teria as dúvidas conceitos.
c) dificuldades previsíveis criadas pelas indivi-
e as certezas que me fazem viver.
dualidades.
(Mario Vargas Llosa. “Dinossauros em tempos difíceis”. www.
valinor.com.br. O Estado de S. Paulo, 1996. Adaptado.) d) desigualdades acentuadas encontradas na ju-
ventude.
Segundo o autor, sobre cinema e literatura é
correto afirmar que: TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
a) a ficção literária é considerada qualitativa- APRENDA A CHAMAR A POLÍCIA!
mente superior devido a seu maior elitismo
Tenho sono muito leve, e numa noite dessas
intelectual.
notei que havia alguém andando sorrateira-
b) suas diferenças estão relacionadas, sobre- mente no quintal de casa.
tudo, às modalidades de público que visam Levantei em silêncio e fiquei acompanhando
atingir. os leves ruídos que vinham lá de fora, até
c) as obras literárias desencadeiam processos in- ver uma silhueta passando pela janela do
telectualmente e esteticamente formativos. banheiro.
d) a escrita literária apresenta maior afinidade Como minha casa era muito segura, com gra-
com os padrões da sociedade do espetáculo. des nas janelas e trancas internas nas por-
e) as duas formas de arte mobilizam processos tas, não fiquei muito preocupado, mas era
mentais imediatos e limitados ao entreteni- claro que eu não ia deixar um ladrão ali, es-
mento. piando tranquilamente.
Liguei baixinho para a polícia, informei a
TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 3 QUESTÕES situação e o meu endereço. Perguntaram-me
A EDUCAÇÃO PELA SEDA se o ladrão estava armado ou se já estava no
interior da casa. Esclareci que não e disse-
Vestidos muito justos são vulgares. Revelar ram-me que não havia nenhuma viatura por
formas é vulgar. Toda revelação é de uma perto para ajudar, mas que iriam mandar al-
vulgaridade abominável. guém assim que fosse possível.
Os conceitos a vestiram como uma segunda Um minuto depois liguei de novo e disse
pele, e pode-se adivinhar a norma que lhe com a voz calma:
rege a vida ao primeiro olhar. – Oi, eu liguei há pouco porque tinha alguém
Rosa Amanda Strausz no meu quintal. Não precisa mais ter pressa.
Mínimo múltiplo comum: contos. Rio Eu já matei o ladrão com um tiro da escopeta
de Janeiro: José Olympio, 1990.
calibre 12, que tenho guardada em casa para
estas situações. O tiro fez um estrago danado
7. (UERJ) O conto contrasta dois tipos de texto no cara!
em sua estrutura. Passados menos de três minutos, estavam
Enquanto o segundo parágrafo se configu- na minha rua cinco carros da polícia, um
ra como narrativo, o primeiro parágrafo se helicóptero, uma unidade do resgate, uma
aproxima da seguinte tipologia: equipe de TV e a turma dos direitos huma-
a) injuntivo. nos, que não perderiam isso por nada neste
b) descritivo. mundo.
c) dramático. Eles prenderam o ladrão em flagrante, que
d) argumentativo. ficava olhando tudo com cara de assombrado.
44
Talvez ele estivesse pensando que aquela era à educação básica e tantos outros indicado-
a casa do Comandante da Polícia. res terríveis.”
No meio do tumulto, um tenente se aproxi- (Gazeta de Alagoas, seção Opinião, 12.10.2010)
mou de mim e disse:
– Pensei que tivesse dito que tinha matado 2. (G1-IFAL) Em que alternativa a seguir, a
o ladrão. conjunção “enquanto” apresenta o mesmo
Eu respondi: sentido expresso no parágrafo?
– Pensei que tivesse dito que não havia ne- a) “Enquanto era jovem, viveu intensamente.”
nhuma viatura disponível. b) “Dorme enquanto eu velo...” (Fernando Pes-
Disponível em: http://pensador.uol.com.br/ soa)
frase/OTQzODk4/. Acesso em: 27/08/2015.
c) “João enriquece, enquanto o irmão cai na
Adaptado. (Autor desconhecido, mas há quem
atribua a autoria a Luís Fernando Veríssimo.) miséria.”
d) “A gramática é o estudo da língua enquanto
sistema...” (Sílvio Elia)
10. (Acafe) Sobre o texto, é correto o que se
e) “Eu trabalhava enquanto ele dormia a sono
afirma em:
solto.”
a) O narrador deu dois telefonemas para a po-
lícia: no primeiro, ele falou a verdade, e a
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
polícia respondeu supostamente com uma
mentira; no segundo, contou uma mentira, Filme-enigma de Christopher Nolan gera
e a polícia entrou em contradição. discussões sobre significado e citações ocul-
b) A oração “[...] que não perderiam isso por tas ou óbvias em sua trama onírica
nada neste mundo” é ambígua, pois o pro-
nome relativo “que” pode tanto retomar
“uma equipe de TV e a turma dos direitos
humanos” quanto retomar apenas “a turma
dos direitos humanos”.
c) Em “Talvez ele estivesse pensando que aque-
la era a casa do Comandante da Polícia”,
ocorre apenas um pronome, e esse pronome
retoma “o ladrão”.
d) Na frase “Esclareci que não e disseram-me
que não havia nenhuma viatura por perto
Certa vez o sábio taoísta Chuang Tzu sonhou
para ajudar, mas que iriam mandar alguém
que era uma borboleta. Ao acordar, entretan-
assim que fosse possível”, todos os “quês”
to, ele não sabia mais se era um homem que
têm a mesma função sintática, isto é, fun-
sonhara ser uma borboleta ou uma borboleta
cionam como conjunções integrantes.
que agora sonhava ser um homem.
Será que Dom Cobb está sonhando? Será que

E.O. TESTE II a vida real é esta mesma ou somos nós que


sonhamos?
Alguns podem ir ao cinema para assistir “A
1. (Espcex (Aman)) Em “Não sei, sequer, se me Origem”, de Christopher Nolan (“Batman - O
viste...”, a alternativa que classifica correta- Cavaleiro das Trevas”) e achar tão chato que
mente a palavra em destaque é: vão sonhar de verdade, dormindo na fase de
a) conjunção subordinativa condicional. sono REM.
b) conjunção substantiva subjetiva. Mas outros estão sonhando acordados. Em
c) conjunção subordinativa temporal. blogs, sites e grupos de discussão, os já fa-
d) conjunção coordenativa explicativa. náticos pelo filme de Nolan apontam refe-
e) conjunção subordinativa integrante. rências (de mitologia grega), veem citações
(de “Lost”), tecem teorias malucas e conspi-
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO ratórias (o sonho dentro do sonho).
Parágrafo do Editorial “Nossas crianças, Alguns acusam o diretor de copiar filmes os
hoje”. mais variados, de “Blade Runner” (1982) a
“eXistenZ” (1999), de se inspirar em “2001
“Oportunamente serão divulgados os resul- - Uma Odisseia no Espaço” (1968) e até de
tados de tão importante encontro, mas en- roubar a ideia de um quadrinho do Tio Pati-
quanto nordestinos e alagoanos sentimos na nhas de 2002.
pele e na alma a dor dos mais altos índices O fato é que Nolan acertou o alvo. E ele sabia
de sofrimento da infância mais pobre. Nosso do potencial “nerdístico” de seu filme. Tanto
Estado e nossa região padece de índices ver- é que cogitou mudar a canção que toca no
gonhosos no tocante à mortalidade infantil, filme todo, “Non, Je Ne Regrette Rien”, com

45
Edith Piaf, porque uma das atrizes escala- __________ soar como estrangeiro. 4Na 5ado-
das, Marion Cotillard, havia vivido a cantora lescência, sentimo-nos estranhos __________
francesa em um filme de 2007. quase tudo, andamos por aí enturmados com
(...) os da mesma idade ou estilo, tendo apenas
Além da música, uma boa diversão de “A uns aos outros como cúmplices para existir.
Origem” é identificar os objetos impossí- O fim desse desencontro deveria ocorrer no
veis deixados por Nolan ao longo do filme. começo da vida adulta, quando trabalhamos,
A escada de Penrose, criada pelo psiquiatra procriamos e tomamos decisões de repercus-
britânico Lionel Penrose, aparece diversas são social. Finalmente 6deveríamos sentir-
vezes na tela - e também inspirou o quadro -nos legítimos cidadãos da vida. 7Porém,
que tenta explicar facetas do longa. julgamos ser uma fraude: 8imaginávamos
Melhor ir ver o filme e não pensar em esca- que os adultos eram algo maior, mais consis-
das... No que você está pensando agora? tente do que sentimos ser. Logo em seguida
(http://www1.folha.uol.com.br/fsp/
disso, já começamos a achar que perdemos o
ilustrad/fq1908201010.htm)
bonde da vida. O tempo nos faz estrangeiros
__________ própria existência.
3. (Insper 2011) Em “O fato é que Nolan acer- Uma das formas mais simples de combater
tou o alvo”, o “que” exerce a função de: todo esse 9mal-estar é encontrar outro para
a) conjunção integrante, pois introduz uma ora- chamar de diferente, de inadequado. 10Quem
ção subordinada substantiva.
pratica o bullying, quer seja entre alunos ou
b) pronome relativo, pois introduz uma oração
com os que têm hábitos e aparência distintos
subordinada adjetiva.
do seu, conquista momentaneamente a ilu-
c) partícula expletiva, pois, tendo apenas o ob-
são da legitimidade. Quem discrimina arran-
jetivo de realçar uma ideia, não exerce fun-
ja no grito e na violência um lugar para si.
ção sintática.
Conviver com as diferentes cores de pele, in-
d) advérbio de intensidade, pois atribui uma cir-
terpretações dos gêneros, formas de amar e
cunstância ao verbo “acertar”.
casar, vestimentas, religiões ou a falta delas,
e) preposição, pois relaciona o verbo “ser” à
línguas faz com que todos sejam estrangei-
oração subordinada substantiva.
ros. Isso produz a mágica sensação de inclu-
são universal: 11se formos todos diferentes,
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO ninguém precisa sentir-se excluído. Movi-
SOMOS TODOS ESTRANGEIROS mentos migratórios misturam povos, a eli-
minação de barreiras de casta e de precon-
Volta e meia, em nosso mundo redondo, ceitos também. Já pensou que delícia se, no
colapsa o frágil convívio entre os diversos futuro, entendermos que na vida ninguém é
modos de ser dos seus habitantes. 1Neste nativo. 12A existência de cada um é como um
momento, vivemos uma nova rodada 2dessas barco em que fazemos um trajeto ao final do
com os inúmeros refugiados, famílias fugi- qual sempre partiremos sem as malas.
tivas de suas guerras civis e massacres. Eles Texto adaptado de Diana Corso, publicado em 12 de
tentam entrar na mesma Europa que já ex- setembro de 2015. Disponível em: <http://wp.clicrbs.
com.br/opiniaozh/2015/09/12/artigo-somos-todos-estr
pulsou seus famintos e judeus. Esses movi-
angeiros/?topo=13,1,1,,,13>. Acesso em: 19 out. 2015
mentos introduzem gente destoante no meio
de outras culturas, estrangeiros que chegam
falando atravessado, comendo, amando e re- 4. (G1-ifsul) As conjunções porém (ref. 7) e se
zando de outras maneiras. Os diferentes se (ref.11) estabelecem, respectivamente, rela-
estranham. ções de:
Fui duplamente estrangeira, no Brasil por a) condição e oposição.
ser uruguaia, em ambos os países e nas es- b) concessão e oposição.
colas públicas por ser judia. A instrução era c) oposição e concessão.
tentar mimetizar-se, falar com o menor so- d) oposição e condição.
taque possível, ficar invisível no horário do
Pai Nosso diário. TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
Certamente todos conhecem esse sentimen-
to de sentir-se estrangeiro, ficar de fora, de O Segundo Sol
não ser tão autêntico quanto os outros, ou (Cássia Eller)
não ser escolhido para o que realmente im-
porta. Na 3infância, tudo é grande demais, Quando o segundo sol chegar
amedronta e entendemos fragmentariamen- Para realinhar as órbitas dos planetas
te, como recém-chegados. Na puberdade, Derrubando com assombro exemplar
perdemos a familiaridade com nossos fami- O que os astrônomos diriam
liares: o que antes parecia natural começa Se tratar de um outro cometa
46
Não digo que não me surpreendi tal opinião. Mas seria possível supor que o
Antes que eu visse você disse jornalista tivesse dado a palavra somente a
E eu não pude acreditar quem pensasse como ele. Portanto, haverá
Mas você pode ter certeza duas declarações discordantes entre si, para
mostrar que é fato que há opiniões diferen-
De que seu telefone irá tocar
tes sobre um caso, e o jornal expõe esse fato
Em sua nova casa
irretorquível. A esperteza está em pôr antes
Que abriga agora a trilha
entre aspas uma opinião banal e depois ou-
Incluída nessa minha conversão
tra opinião, mais racional, que se assemelhe
Eu só queria te contar muito à opinião do jornalista. Assim o leitor
Que eu fui lá fora tem a impressão de estar sendo informa-
E vi dois sóis num dia do de dois fatos, mas é induzido a aceitar
E a vida que ardia sem explicação uma única opinião como a mais convincen-
te. Vamos ver um exemplo. Um viaduto des-
Explicação, não tem explicação moronou, um caminhão caiu e o motorista
Explicação, não morreu. O texto, depois de relatar rigorosa-
Não tem explicação mente o fato, dirá: Ouvimos o senhor Rossi,
Explicação, não tem 42 anos, que tem uma banca de jornal na es-
Não tem explicação quina. Fazer o quê, foi uma fatalidade, disse
Explicação, não tem ele, sinto pena desse coitado, mas destino é
Explicação, não tem destino. Logo depois um senhor Bianchi, 34
Não tem
Disponível em: http://letras.mus.br/cassia-
anos, pedreiro que estava trabalhando numa
eller/12570/. Acesso em: 19.09.2015. obra ao lado, dirá: É culpa da prefeitura, que
esse viaduto estava com problemas eu já sa-
bia há muito tempo. Com quem o leitor se
5. (G1-IFBA) Na primeira estrofe da letra de identificará? Com quem culpa alguém ou al-
música “O Segundo Sol”, há duas conjunções guma coisa, com quem aponta responsabili-
subordinativas que, respectivamente, dão dade. Está claro? O problema é no quê e como
ideia de: pôr aspas.
a) causa e modo.
ECO, Umberto. Número Zero. Rio de
b) tempo e modo. Janeiro: Record, 2015, p. 55-6.
c) tempo e causa.
d) modo e finalidade.
e) tempo e finalidade. 6. (UFPR) Assinale a alternativa correta sobre
afirmações encontradas no texto.
TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES a) Ao mencionar “um princípio fundamental
do jornalismo democrático: fatos separados
Para responder a(s) quest(ões) a seguir, leia de opiniões”, Simei destaca que os jornais
o seguinte diálogo entre os personagens Si- seguem rigorosamente esse princípio.
mei e Colonna, no romance Número Zero, de b) Ao dizer que “o leitor tem a impressão de
Umberto Eco: estar sendo informado de dois fatos, mas é
induzido a aceitar uma única opinião”, Co-
– Colonna, exemplifique para os nossos ami-
gos como é que se pode seguir, ou dar mos- lonna explicita uma forma de manipulação
tras de seguir, um princípio fundamental do da opinião do leitor.
jornalismo democrático: fatos separados de c) Na primeira linha do texto, Simei faz uma
opiniões. Opiniões no Amanhã [nome do jor- retificação (“... seguir, ou dar mostras de se-
nal] haverá inúmeras, e evidenciadas como guir...”) para deixar claro que o jornalista
tais, mas como é que se demonstra que em deve não só separar fatos de opiniões como
outros artigos são citados apenas fatos? indicar isso explicitamente nos artigos.
– Muito simples – disse eu. – Observem os d) Ao afirmar que “é fato que há opiniões dife-
grandes jornais de língua inglesa. Quando rentes sobre um caso, e o jornal expõe esse
falam, sei lá, de um incêndio ou de um aci- fato irretorquível”, Colonna destaca a im-
dente de carro, evidentemente não podem parcialidade do jornal ao incluir nos artigos
dizer o que acham daquilo. Então inserem opiniões divergentes.
no artigo, entre aspas, as declarações de uma e) Ao afirmar, no final do texto, que “o proble-
testemunha, um homem comum, um repre- ma é no quê e como pôr aspas”, Colonna en-
sentante da opinião pública. Pondo-se aspas, fatiza a importância da fidelidade na citação
essas afirmações se tornam fatos, ou seja, é das palavras das testemunhas de cada fato
um fato que aquele sujeito tenha expressado noticiado.
47
7. (UFPR 2016) Segundo o texto, são estraté- tudo de latrina abaixo. Mas o mais grave foi
gias utilizadas pelos jornais ao fazer cita- o roubo de uma nota de cinco mil-réis, do
ções: patrimônio da própria Inhá Luísa. De posse
1. Escolher criteriosamente as citações das dessa fortuna nababesca, comprei um livro e
testemunhas para contemplar pontos de uma lâmpada elétrica de tamanho desmedi-
vista divergentes sobre um mesmo fato. do. Fui para o parque Halfeld com o butim de
2. Salientar os pontos de vista que mais in- minha pirataria. Joguei o troco num bueiro.
teressam ao jornalista. Como ainda não soubesse ler, rasguei o livro
3. Redigir as notícias de tal forma que as e atirei seus restos em um tanque. 9A lâm-
opiniões sejam apresentadas como fatos. pada, enorme, esfregada, não fez aparecer
4. Citar em primeiro lugar as palavras da nenhum gênio. Fui me desfazer de mais esse
testemunha que faz uma análise mais ra- cadáver na escada da Igreja de São Sebastião.
10
cional dos acontecimentos. Lá a estourei, tendo a impressão de ouvir
Estão de acordo com o texto as estratégias: os trovões e o morro do Imperador desaban-
a) 1 e 2 apenas. do nas minhas costas. Depois dessa série de
b) 1 e 4 apenas. atos gratuitos e delitos inúteis, voltei para
c) 1, 2 e 3 apenas. casa. 11Raskólnikov. O mais estranho é que
d) 1, 3 e 4 apenas. houve crime, e não castigo. Crime perfeito.
e) 2, 3 e 4 apenas. Ninguém desconfiou. Minha avó não deu por
falta de sua cédula. 12Eu fiquei por conta das
TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 3 QUESTÕES Fúrias de um remorso, que me perseguiu
toda a infância, veio comigo pela vida afo-
O texto é um excerto de Baú de Ossos (volu- ra, com a terrível impressão de que eu pode-
me 1), do médico e escritor mineiro Pedro ria reincidir porque vocês sabem, 13cesteiro
Nava. Inclui-se essa obra no gênero memo- que faz um cesto... 14Só me tranquilizei anos
rialístico, que é predominantemente narra- depois, já médico, quando li num livro de
tivo. Nesse gênero, são contados episódios Psicologia que só se deve considerar roubo
verídicos ou baseados em fatos reais, que fi- o que a criança faz com proveito e dolo. O
caram na memória do autor. Isso o distingue furto inútil é fisiológico e psicologicamente
da biografia, que se propõe contar a história normal. Graças a Deus! Fiquei absolvido do
de uma pessoa específica. meu ato gratuito...
(Pedro Nava. Baú de ossos. Memórias 1. p. 308 a 310.)
1
O meu amigo Rodrigo Melo Franco de An-
drade é autor 2do conto “Quando minha avó 8. (UECE) Na referência 13, aparece a primeira
morreu”. Sei por ele que é uma história au- parte de um dito popular: “cesteiro que faz
tobiográfica. 3Aí Rodrigo confessa ter pas- um cesto...”
sado, aos 11 anos, por fase da vida em que Assinale a opção que expressa a correta com-
4
se sentia profundamente corrupto. Violava plementação do provérbio, e o vocábulo que
as promessas feitas de noite a Nossa Senho- o traduz, visto esse vocábulo não só por sua
ra; mentia desabridamente; faltava às aulas acepção dicionarizada, mas também pelas
para tomar banho no rio e pescar na Barroca conotações que o revestem.
com companheiros vadios; furtava 5prati- a) Cesteiro que faz um cesto faz dez cestos. >
nhas de dois mil-réis... 6Ai! de mim que mais Tenacidade
cedo que o amigo também 7abracei a senda b) Cesteiro que faz um cesto faz um cento. >
do crime e enveredei pela do furto... 8Aman- Reincidência
te das artes plásticas desde cedo, educado c) Cesteiro que faz um cesto nunca deixa de fa-
no culto do belo, eu não pude me conter. zer cesto. > Persistência
Eram duas coleções de postais pertencentes d) Cesteiro que faz um cesto é capaz de fazer
a minha prima Maria Luísa Palleta. Numa, um cento de cestos. > Obstinação
toda a vida de Paulo e Virgínia – do idílio
infantil ao navio desmantelado na proce- 9. (UECE) O excerto que vai da referência 1
la. Pobre Virgínia, dos cabelos esvoaçantes! à referência 6 (“mil réis”) tem a seguinte
Noutra, a de Joana d’Arc, desde os tempos função textual:
de pastora e das vozes ao da morte. Pobre a) Apresentar parâmetro para os crimes do
Joana dos cabelos em chama! Não resisti. enunciador.
Furtei, escondi e depois de longos êxtases, b) Diminuir o impacto causado pelas revelações
com medo, joguei tudo fora. Terceiro roubo, do enunciador.
terceira coleção de postais – a que um car- c) Mostrar que é normal a criança ainda muito
camano, chamado Adriano Merlo, escrevia a nova praticar crimes.
uma de minhas tias. Os cartões eram fabulo- d) Demonstrar, com fatos, a falta de caráter de
sos. Novas contemplações solitárias e piquei crianças mimadas.
48
10. (UECE) Comparando-se ao amigo, o narra- Aqui no Brasil de Cima,
dor considera-se: Não há dô nem indigença,
a) mais culpado do que ele. Reina o mais soave crima
b) só relativamente culpado. De riqueza e de opulença;
c) menos culpado do que ele. Só se fala de progresso,
d) tão culpado quanto ele. Riqueza e novo processo
De grandeza e produção.
Porém, no Brasi de Baxo
E.O. TESTE III Sofre a feme e sofre o macho
A mais dura privação.

1. (Acafe 2015) As conjunções destacadas em Brasi de cima festeja


negrito nas frases abaixo expressam, respec- Com orquestra e com banquete,
tivamente, relações de: De uísque dréa e cerveja
( ) Assim que receber os livros, vou deixá- Não tem quem conte os rodete.
-los à venda na Livraria Letras Finas. Brasi de baxo, coitado!
( ) Embora tenhamos boas intenções, nossos Vê das casa despejado
atos, às vezes, são mal compreendidos. Home, menino e muié
( ) Visto que o dinheiro não foi suficiente Sem achá onde morá
para concluir a obra em conformidade Proque não pode pagá
com o plano inicial, os sócios optaram O dinhêro do alugué.
por abandonar o projeto de construir um
novo modelo de barco. No Brasi de Cima anda
( ) À medida que novos casos de contami- As trombeta em arto som
nação foram comprovados, o governo foi Ispaiando as propaganda
impelido a disponibilizar um maior vo- De tudo aquilo que é bom.
lume de recursos financeiros e humanos No Brasi de Baxo a fome
para conter o avanço da doença. Matrata, fere e consome
A sequência correta, de cima para baixo, é: Sem ninguém lhe defendê;
a) proporcionalidade / concessão / conformi- O desgraçado operaro
dade / condição Ganha um pequeno salaro
b) temporalidade / concessão / causalidade / Que não dá pra vivê.
proporcionalidade
Inquanto o Brasi de cima
c) consequência / concessão / causalidade /
Fala de transformação,
condição
Industra, matéra-prima,
d) consequência / finalidade / concessão /
Descobertas e invenção,
temporalidade
No Brasi de Baxo isiste
O drama penoso e triste
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO Da negra necissidade;
É uma coisa sem jeito
BRASI DE CIMA E BRASI DE BAXO E o povo não tem dereito
(Fragmento) Nem de dizê a verdade.
Meu compadre Zé Fulô, No Brasi de Baxo eu vejo
Meu amigo e companhêro, Nas ponta das pobre rua
Faz quage um ano que eu tou O descontente cortejo
Neste Rio de Janêro; De criança quage nua.
Eu saí do Cariri Vai um grupo de garoto
Maginando que isto aqui Faminto, doente e roto
Era uma terra de sorte, Mode caçá o que comê
Mas fique sabendo tu Onde os carro põe o lixo,
Que a miséra aqui no Su Como se eles fosse bicho
É esta mesma do Norte. Sem direito de vivê.
Tudo o que procuro acho. Estas pequenas pessoa,
Eu pude vê neste crima, Estes fio do abandono,
Que tem o Brasi de Baxo Que veve vagando à toa
E tem o Brasi de Cima. Como objeto sem dono,
Brasi de Baxo, coitado! De manêra que horroriza,
É um pobre abandonado; Deitado pela marquiza,
O de Cima tem cartaz, Dromindo aqui e aculá
Um do ôtro é bem deferente: No mais penoso relaxo,
Brasi de Cima é pra frente, É deste Brasi de Baxo
Brasi de Baxo é pra trás. A crasse dos Marginá.
49
Meu Brasi de Baxo, amigo, — Como todos rissem, o autor da frase emen-
Pra onde é que você vai? dou [...].
Nesta vida do mendigo As conjunções destacadas expressam, res-
Que não tem mãe nem tem pai? pectivamente, relação de:
Não se afrija, nem se afobe, a) alternância e conformidade.
O que com o tempo sobe, b) conclusão e proporção.
O tempo mesmo derruba; c) concessão e causa.
Tarvez ainda aconteça d) explicação e comparação.
Que o Brasi de Cima desça e) adição e consequência.
E o Brasi de Baxo suba.
[...] 4. (FGV) Observe os períodos a seguir e esco-
(ASSARÉ, Patativa do. Melhores poemas. Seleção de lha a alternativa correta em relação à ideia
Cláudio Portella. São Paulo: Global, 2006. p.329-332) expressa, respectivamente, pelas conjunções
ou locuções SEM QUE, POR MAIS QUE, COMO,
2. (G1-IFPE) No que diz respeito às conjunções CONQUANTO, PARA QUE.
coordenativas grifadas nos versos “[...] Po- 1. Sem que respeites pai e mãe, não serás
rém, no Brasi de Baxo / Sofre a feme e sofre feliz.
o macho [...] / Sem achá onde morá / Proque 2. Por mais que corresse, não chegou a tem-
não pode pagá [...] Não se afrija, nem se afo- po.
be, [...]”, é correto afirmar que estas exer- 3. Como não tivesse certeza, preferiu não
cem, respectivamente, os seguintes valores responder.
semânticos: 4. Conquanto a enchente lhe ameaçasse a
a) Explicação, adversidade, explicação, adição. vida, Gertrudes negou-se a abandonar a
b) Adversidade, adição, explicação, adversidade. casa.
c) Adição, alternância, conclusão, adição. 5. Mandamos colocar grades em todas as ja-
d) Conclusão, adição, explicação, adversidade. nelas para que as crianças tivessem mais
e) Adversidade, adição, explicação, adição. segurança.
a) Condição, concessão, causa, concessão, fina-
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO lidade.
b) Concessão, causa, concessão, finalidade,
Quando o falante de uma língua depara um condição.
conjunto de duas palavras, intuitivamente é c) Causa, concessão, finalidade, condição, con-
levado a sentir entre elas uma relação sintá- cessão.
tica, mesmo que estejam fora de um contex- d) Condição, finalidade, condição, concessão,
to mais esclarecedor. causa.
Assim, além de captar o sentido básico das e) Finalidade, condição, concessão, causa, con-
duas palavras, o receptor atribui-lhes uma cessão.
gramática – formas e conexões. Isso aconte-
ce porque ele traz registrada em sua mente 5. (Fatec 1996) Observe o texto publicitário
toda a sintaxe, todos os padrões conexionais a seguir reproduzido, que explora de forma
possíveis em sua língua, o que o torna capaz criativa o uso da conjunção.
de reconhecê-los e identificá-los. As duas
palavras não estão, para ele, apenas dispos-
tas em ordem linear: estão organizadas em
uma ordem estrutural.
A diferença entre ordem estrutural e ordem
linear torna-se clara se elas não coincidem,
como nesta frase que um aluno criou em aula
de redação, quando todos deviam compor um
texto para outdoor, sobre uma fotografia da
célebre cabra de Picasso: “Beba leite de ca-
bra em pó!”. Como todos rissem, o autor da
frase emendou: “Beba leite em pó de cabra!”.
Pior a emenda do que o soneto.
(Flávia de Barros Carone. Morfossintaxe, 1986. Adaptado.)

Assinale a afirmação correta a respeito dos


3. (Unifesp) Considere as seguintes passagens
procedimentos linguísticos encontrados em
do texto:
“Viver ou Sonhar?” e “Viver e Sonhar.”.
— [...] é levado a sentir entre elas uma rela-
a) Temos, respectivamente, conjunção coor-
ção sintática, mesmo que estejam fora de um
denativa aditiva e conjunção coordenativa
contexto mais esclarecedor.
50
alternativa, pois, quando se joga com o sen- húngaros, ao formularem a mesma verdade,
tido das frases, opondo-se as ações umas às não pensavam nem em peixe, nem em mar;
outras, as conjunções podem assumir valo- ao olhar para o seu quintal, notaram que a
res e significados diferentes ou até mesmo
“maçã não cai longe da árvore”.
opostos. Paulo Rónai, Como aprendi o português e outras aventuras.
b) A primeira frase traz uma conjunção coor-
denativa alternativa com valor aditivo, e a
segunda frase, uma conjunção coordenativa 6. (Fuvest) Considere as seguintes afirmações
aditiva com valor adversativo. Isto se dá de- sobre os dois provérbios citados no terceiro
vido à intenção do autor de fazer um jogo de parágrafo do texto.
palavras muito em uso na linguagem publi- I. A origem do primeiro, de acordo com o
citária. autor, está ligada à história do povo que
c) Vê-se que a conjunção coordenativa, pre- o usa.
sente em ambos os casos, apesar de adquirir II. Em seu sentido literal, o segundo expres-
significativos diferentes, não altera o sen-
sa costumes peculiares dos húngaros.
tido das frases, já que liga elementos inde-
III.A observação das diferenças de expressão
pendentes, estabelecendo relações de alter-
nância, no primeiro caso, e de igualdade ou entre esses provérbios pode, segundo o
alternância, no segundo caso. pensamento do autor, ter interesse etno-
d) Temos, respectivamente, conjunção coorde- gráfico.
nativa alternativa e conjunção coordenativa Está correto apenas o que se afirma em:
aditiva. A mudança de sentido obtida com a a) I.
troca das conjunções está na escolha a ser b) II.
feita: a primeira implica exclusão de ações, c) III.
o que leva à indecisão, enquanto a segunda d) I e II.
expressa a soma de uma ação à outra, re- e) I e III.
sultando disso um modo mais completo de
vida.
7. (Fuvest 2016) No texto, a função argumen-
e) Temos, respectivamente, conjunção coorde-
nativa alternativa e conjunção coordenativa tativa do provérbio “Da vida nada se leva” é
aditiva. O autor do texto publicitário, ao fa- expressar uma filosofia de vida contrária à
zer um jogo, alternando as conjunções, ten- que está presente em “vintém poupado, vin-
ta obter uma mudança de sentido; porém, tém ganhado”. Também é contrário a esse úl-
como podemos observar com uma leitura timo provérbio o ensinamento expresso em:
mais cuidadosa, nem toda troca de conjun- a) Mais vale pão hoje do que galinha amanhã.
ção caracteriza uma alternância de pensa- b) A boa vida é mãe de todos os vícios.
mento. c) De grão em grão a galinha enche o papo.
d) Devagar se vai ao longe.
e) É melhor prevenir do que remediar.
TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES

Seria ingenuidade procurar nos provérbios TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO


de qualquer povo uma filosofia coerente,
uma arte de viver. É coisa sabida que a cada Segundo informações do Amadeus CarsFo-
provérbio, por assim dizer, responde outro, rum, evento realizado em Miami em 2015,
de sentido oposto. A quem preconiza o sábio
a indústria do turismo cresceu 12,6% no
limite das despesas, porque “vintém pou-
Brasil, o dobro da média mundial. Nunca,
pado, vintém ganhado”, replicará o vizinho
em todos os tempos, os brasileiros viajaram
farrista, com razão igual: “Da vida nada se
leva”. (...) tanto, atingindo a média de três viagens ao
Mais aconselhável procurarmos nos anexins ano por habitante. Cecília Meireles, a poe-
não a sabedoria de um povo, mas sim o es- tisa que, significativamente, intitulou seu
pelho de seus costumes peculiares, os sinais primeiro livro de Viagem, dizia que “há as
de seu ambiente físico e de sua história. As viagens que se sonham e as viagens que se
diferenças na expressão de uma sentença fazem – o que é muito diferente”.
observáveis de uma terra para outra podem
divertir o curioso e, às vezes, até instruir o Em algumas questões desta prova de litera-
etnógrafo. tura em língua portuguesa, você deverá re-
Povo marítimo, o português assinala seme- solver questões que tratam do viajante, dos
lhança grande entre pai e filho, lembran- lugares percorridos ou imaginados e da ex-
do que “filho de peixe, peixinho é”. Já os periência da viagem.
51
8. (PUC-RS) Leia o trecho abaixo, de Lygia Fa- diante, para o nosso menino, será só uma
gundes Telles, retirado da obra Passaporte pergunta: «Vou ou não vou?» E foi. O rio fa-
para a China. zia um desvio grande, afastava-se, e de rio
ele estava já um pouco farto, tanto que o via
“Rio de Janeiro, 24 de setembro de 1960. desde que nascera. Resolveu cortar a direito
Diz o horóscopo que os do signo de Áries não pelos campos, entre extensos olivais, lade-
devem de modo algum se arriscar no dia de ando misteriosas sebes cobertas de campai-
hoje. Sou do signo de Áries e daqui a pouco, nhas brancas, e outras vezes metendo pelos
em plena noite, devo embarcar num avião bosques de altas árvores onde havia clareiras
a jato para a China. Escalas? Dacar, Paris, macias sem rasto de gente ou bicho, e ao re-
Praga, Omsk, Irkutsck e finalmente Pequim. dor um silêncio que zumbia, e também um
Quer dizer, atravessarei quatro continentes: calor vegetal, um cheiro de caule fresco.
América, África, Europa e Ásia. É continente Ó que feliz ia o menino! Andou, andou, fo-
demais, hein! Melhor tomar antes um chope ram rareando as árvores, e agora havia uma
duplo ali no bar do Lucas, defronte ao mar charneca rasa, de mato ralo e seco, e no meio
de Copacabana, ficar ouvindo a voz espume- dela uma inóspita colina redonda como uma
jante das ondas e esquecer que passarei ho- tigela voltada.
ras e horas “naquela coisa” que às vezes a Deu-se o menino ao trabalho de subir a en-
gente ouve cortar o céu tão rapidamente e costa, e quando chegou lá acima, que viu
com um silvo tão desesperado que quando ele? Nem a sorte nem a morte, nem as tá-
se olha para as nuvens não se vê mais nada. buas do destino… Era só uma flor. Mas tão
Nada.” caída, tão murcha, que o menino se achegou,
Com base no texto selecionado e na obra de de cansado. E como este menino era especial
Lygia Fagundes Teles, analise as seguintes de história, achou que tinha de salvar a flor.
afirmativas: Mas que é da água? Ali, no alto, nem pinga.
I. A narradora enfrenta a ideia de voar com Cá por baixo, só no rio, e esse que longe es-
expectativa, pois, além do país asiático, tava!...
conhecerá outras cinco cidades. Não importa.
II. O texto expressa os sentimentos de uma Desce o menino a montanha, atravessa o
viajante momentos antes da partida, en- mundo todo, chega ao grande rio, com as
frentando o pânico de cruzar o planeta mãos recolhe quanta de água lá cabia, volta
para conhecer um país distante. o mundo atravessar, pelo monte se arrasta,
III.O emprego reiterado de aliterações no três gotas que lá chegaram, bebeu-as a flor
último parágrafo sugere a ideia da ve- com sede. Vinte vezes cá e lá…
locidade que provoca temor na viajante Mas a flor aprumada já dava cheiro no ar,
supersticiosa. e como se fosse uma grande árvore deitava
A(s) afirmativa(s) correta(s) é/são: sombra no chão. O menino adormeceu de-
a) I, apenas. baixo da flor. Passaram as horas, e os pais,
b) II, apenas. como é costume nestes casos, começaram a
c) I e III, apenas. afligir-se muito. Saiu toda a família e mais
d) II e III, apenas. vizinhos à busca do menino perdido. E não o
e) I, II e III. acharam. Correram tudo, já em lágrimas tan-
tas, e era quase sol-pôr quando levantaram
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO os olhos e viram ao longe uma flor enorme
que ninguém se lembrava que estivesse ali.
As histórias para crianças devem ser escritas Foram todos de carreira, subiram a colina e
com palavras muito simples… Quem me dera deram com o menino adormecido. Sobre ele,
saber escrever essas histórias… resguardando-o do fresco da tarde, estava
Se eu tivesse aquelas qualidades, poderia uma grande pétala perfumada…
contar, com pormenores, uma linda história José Saramago, A Maior Flor do Mundo, 5a
que um dia inventei... seria a mais linda de edição, Lisboa, Editorial Caminho, 2010
todas as que se escreveram desde o tempo
dos contos de fadas e princesas encanta-
das… 9. (G1-IFAL) A personagem do menino é intro-
Logo na primeira página, sai o menino pelos duzida na história como alguém que:
fundos do quintal, e, de árvore em árvore, a) caminha vagarososamente.
como um pintassilgo, desce o rio e depois b) sonha em chegar ao planeta Marte.
por ele abaixo… c) sobe numa árvore que encontra no caminho.
Em certa altura, chegou ao limite das terras d) caminha ininterruptamente, mas com leve-
até onde se aventurara sozinho. Dali para za.
diante começava o “planeta Marte”. Dali para e) brinca com um pintassilgo.
52
10. (PUC-RS) Leia o excerto do texto dramático
O auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. E.O. DISSER TATIVO
MANUEL – Sim, é Manuel, o Leão de Judá,
o Filho de Davi. Levantem-se todos pois vão TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
ser julgados. A música popular entra no paraíso¹
JOÃO GRILO – Apesar de ser um sertanejo Carlos Drummond de Andrade
pobre e amarelo, sinto que estou diante de
Deus – Quem é este baixinho que vem aí, ao
uma grande figura. Não quero faltar com o
respeito a uma pessoa tão importante, mas, som do violão, de copo cheio na mão?
se não me engano, aquele sujeito acaba de São Pedro – Senhor, pelos indícios, só pode
chamar o senhor de Manuel. ser o vosso servo Vinicius, Menestrel da Gá-
MANUEL – Foi isso mesmo, João. Esse é um vea e dos amores inumeráveis.
dos meus nomes, mas você pode me chamar Deus – Será que ele vem fazer alaúza no céu,
também de Jesus, de Senhor, de Deus... Ele perturbando o coro dos meus anjos-cantores,
gosta de me chamar de Manuel ou Emanuel, diplomados pela Schola Cantorum² do mes-
porque assim quer se persuadir de que sou tre São Jorge, o Grande?
somente homem. Mas você, se quiser, pode São Pedro (hesitante) – Bem... Eu acho, com
me chamar de Jesus. a devida licença, que ele traz um som novo,
JOÃO GRILO – Jesus?
mais terrestre, menos beatífico, é certo, mas
MANUEL – Sim.
com uma suavidade brasileira inspirada nos
JOÃO GRILO – Mas espere, o senhor é que é
Jesus? seresteiros seus avós, os quais já têm assen-
MANUEL – Sou. tos cativos junto ao vosso trono, Senhor. Coi-
JOÃO GRILO – Aquele a quem chamavam sa mui digna de vossa especial atenção.
Cristo? Deus – Hum, hum...
JESUS – A quem chamavam, não, que era São Pedro – Posso continuar, Senhor? [...]
Cristo. Sou, por quê? Este nasceu diretamente para o amor [...].
JOÃO GRILO – Porque... não é lhe faltando Vinicius nasceu com a célula poética, e esta
com o respeito não, mas eu pensava que o desabrochou em cânticos variados, na voz de
senhor era muito menos queimado. [...] A seus lábios e na dos instrumentos. Com estes
cor pode não ser das melhores, mas o senhor
cânticos ele encantou o seu povo. E era um
fala bem que faz gosto. [...]
povo necessitado de canto, um canto tão ne-
MANUEL – Muito obrigado, João, mas agora é
sua vez. Você é cheio de preconceito de raça. cessitado mesmo!
Vim hoje assim de propósito, porque sabia Deus – Ele deu alegria ao meu povo?
que ia despertar comentários. Que vergonha! São Pedro (exultante) – Se deu, Senhor! E
Eu, Jesus, nasci branco e quis nascer judeu, para isso não precisava sempre compor can-
como podia ter nascido preto. Para mim tanto ções alegres. Ia até o fundo das canções tris-
faz um branco ou um preto. Você pensa que tes, mas dava-lhes uma tal doçura e meigui-
sou americano para ter preconceito de raça? ce que as pessoas, ouvindo-as, não sabiam
Com base no diálogo e na obra literária de se choravam ou se viam consoladas velhas
Ariano Suassuna, analise as afirmativas. mágoas. Era um coração se desfazendo em
I. João Grilo mostra-se desrespeitoso dian-
música, Senhor. Deu tanta alegria ao povo,
te de um Jesus negro, que não correspon-
que até a última hora de sua vida (esta não
de às suas expectativas.
II. Na sua fala, Manuel demostra que o valor chegou a ser longa, mas se alongou em can-
das pessoas independe da cor da pele. ção) trabalhou com seu fiel parceiro Toqui-
III.O companheiro inseparável de João Grilo, nho para levar às crianças um tipo musical
Chicó, é um contador de estórias que se de felicidade. Morreu, pois, a vosso serviço,
caracteriza como uma espécie de menti- Senhor.
roso ingênuo. Deus (disfarçando a emoção) – Mande en-
IV. A obra dramática de Ariano Suassuna trar, mande entrar logo esse rapaz.
mostra-se alinhada a uma tradição literá- (In: Jornal do Brasil. Crônica de 11 de
ria ibérica que apresenta obras fundacio- julho de 1980. Com adaptações.)
nais, como o Auto da barca do Inferno, de ¹O texto acima foi escrito em homenagem a
Gil Vicente. Vinícius de Moraes, dois dias após a sua morte.
²Schola Cantorum – escola de canto coral
Estão corretas as afirmativas:
a I e II, apenas.
b) III e IV, apenas. 1. (G1-CP2) Releia a última frase do texto:
c) I, II e III, apenas. “Morreu, pois, a vosso serviço, Senhor.”. Que
d) II, III e IV, apenas. outra conjunção de igual valor semântico po-
e) I, II, III, IV. deria substituir a conjunção destacada?
53
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO b) As palavras “renda(s)” e “rendimentos”,
usadas várias vezes no texto, apenas no fi-
Sr. Diretor do Imposto de Renda: nal foram substituídas por “lucros” (ref. 4).
(...) Que palavras poderiam substituir “rendosos”
Minha dúvida, meu problema, Sr. Diretor, (ref. 5) e “rentabilidade” (ref. 6), tendo em
consiste na desconfiança de que sou, tenho vista o contexto?
sido a vida inteira um sonegador do Imposto
de Renda. Involuntário, inconsciente, mas TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
de qualquer forma sonegador. Posso alegar
em minha defesa muita coisa: a legislação, O homem que queria eliminar a memória
3
embora profusa e até florestal, é omissa ou
não explícita; os itens das diferentes cédu- Entrou no hospital, mandou chamar o me-
las não preveem o caso; o órgão fiscalizador lhor neurocirurgião.
jamais cogitou disso; todo mundo está nas O médico:
mesmas condições que eu, e ninguém se acu- — Sim?
sa ou reclama contra si mesmo. Contudo, não — Quero me operar. Quero que o senhor tire
me conformo, e venho expor-lhe lealmente um pedaço do meu cérebro.
as minhas rendas ocultas. — Um pedaço do cérebro? Por que vou tirar
A lei manda cobrar imposto a quem tenha um pedaço do seu cérebro?
renda líquida superior a determinada im- — Quero eliminar a memória.
portância; parece claro que só tributam ren- — Para quê?
dimentos em dinheiro. A seguir, entretanto, — Gozado, as pessoas só sabem perguntar:
a mesma lei declara: “São também contri- o quê? Por quê? Para quê? 1Falei com deze-
buintes as pessoas físicas que perceberem nas de pessoas, e todos me perguntaram: por
rendimentos de bens de que tenham a pos- quê? Não podem aceitar pura e simplesmen-
se, como se lhes pertencessem.” E aqui me
te alguém que deseja eliminar a memória.
vejo enquadrado e faltoso. Tenho a posse de
— Já que o senhor veio a mim para fazer
inúmeros bens que não me pertencem e que
esta operação, tenho ao menos o direito des-
desfruto copiosamente. Eles me rendem o
máximo, e nunca fiz constar de minha de- sa informação.
claração tais rendimentos. — Não quero mais me lembrar de nada. Só
Esses bens são: o Sol, para começar do alto (só isso. As coisas passaram, passaram. Fim!
a temporada de praia, neste verão que aca- — Não é tão simples assim. 2Na vida diária,
bou, foi uma renda fabulosa); a Lua, que, vis- o senhor precisa da memória. Para lembrar
ta do terraço ou da calçada da Avenida Atlân- pequenas coisas. Ou grandes. Compromissos,
tica, diante do mar, me rendeu milhões de encontros, coisas a pagar, etc.
1
cruzeiros-sonho; (...) as crianças brincando — É tudo que vou eliminar. Marco numa
no play-ground ou a caminho da escola; em agenda, olho ali e pronto.
particular, três meninos que vêm e vão pelo — 3Não dá pra fazer isso, de qualquer modo.
ar, tão moleques e tão 5rendosos para este 4
A medicina não está tão adiantada assim.
coração; (...) certos prazeres como andar por (...)
andar, ver figura em edições de arte, conver- — Seria muito melhor para os homens. O
sar sem sentido e sem cálculo, um filmezinho dia a dia. O dia de hoje para frente. Entende
como Le petit poisson rouge, em que o gato o que eu quero dizer? Nenhuma lembrança
salva o peixe para ser gentil com o canário, ruim ou boa, nenhuma neurose. O passado
indicando um caminho aos senhores da guer-
fechado, encerrado. Definitivamente bloque-
ra fria; e isso e aquilo e tudo mais de alta
6 ado. Não seria engraçado? Não se lembrar se-
rentabilidade... 2não em espécie.
Estes os meus verdadeiros rendimentos, se- quer do que se tomou no café da manhã? E
nhor; salários e dividendos não computados pra que eu quero me lembrar do que tomei
na declaração. Agora estou confortado por- no café da manhã?
que confessei; invente depressa uma rubrica — 5Se todo mundo fizesse isso, acabaria a
para incluir esses 4lucros e taxe-me sem pie- história.
dade. Multe, se for o caso; pagarei feliz. — E quem quer saber de história?
Atenciosas saudações. — Imaginou o mundo?
Carlos Drummond de Andrade, “Cadeira de balanço”. — Feliz, tranquilo. Só de futuro. O dia em
vez de se transformar em passado de hoje,
2. (FGV) Atenda ao que se pede. mudando-se em futuro. Cada instante proje-
a) Reescreva o trecho “embora profusa e até tado para frente.
florestal” (ref. 3), substituindo a conjunção — Não seria bem assim. Teríamos apenas
e os adjetivos por expressões equivalentes e uma soma de instantes perdidos. Nada mais.
introduzindo um verbo, sem alterar o senti- Cada segundo eliminado. A sua existência
do do texto. comprovada através do quê?
54
— Quem quer comprovar a existência? 4. (FGV) Com relação às classes de palavras,
— A gente precisa. aponte o valor que:
— Pra quê? a) a preposição DE assume no contexto das fra-
O médico pensou. Não conseguiu responder. ses:
O homem tinha-o deixado totalmente confu- I. “... os morros palejavam de luar...”
so. Pediu ao homem que voltasse outro dia. II. “De manhã, com a fresca...”
Despediram-se. O médico subiu para os bran- b) a conjunção COMO assume no contexto das
cos corredores do hospital, passou pela sala frases:
de operações. Chamou um amigo. III. “Como eu insistisse...”
— Estou pensando em tirar um pedaço do IV. “... como a dos amores...”
meu cérebro. Eliminar a memória. O que
você acha? TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
— Muito boa ideia. Por que não pensamos PENSAR É VIVER
nisso antes? Opero você e depois você me
opera. Também quero. Não tenho nenhuma receita, nenhum facili-
(Ignácio de Loyola Brandão. Cadeiras proibidas: tador para se entender a vida: ela é confusão
contos. Rio de Janeiro: Codecri, 1984, pp. 32-34.) mesmo.
A gente avança no escuro, teimosamen-
te, porque recuar não dá. Nesse labirinto a
3. (G1-CP2) “Falei com dezenas de pessoas, e gente encontra o fio de um afeto, pontos de
todos me perguntaram: por quê?” (ref. 1) criatividade, explosões de pensamento ou
Qual é o valor semântico da conjunção des- ação que nos iluminem, por um momento
tacada? que seja. Coisas que nos justifiquem enquan-
to seres humanos.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO Tenho talvez a ingenuidade de acreditar que
tudo faz algum sentido, e que nós precisa-
(...) ANTES DE CONCLUIR ESTE CAPÍTULO, mos descobrir - ou inventá-lo. Qualquer pes-
FUI À JANELA INDAGAR DA NOITE POR QUE soa pode construir a sua “filosofia de vida”.
RAZÃO OS SONHOS HAVIAM DE SER ASSIM Qualquer pessoa pode acumular vida inte-
TÃO TÊNUES QUE SE ESGARÇAVAM AO MENOR rior. Sem nenhuma conotação religiosa, mas
ABRIR DE OLHOS OU VOLTAR DE CORPO, E ética: o que valho, e os outros, o que valem
NÃO CONTINUAVAM MAIS. A NOITE NÃO ME para mim? O que estou fazendo com a minha
RESPONDEU LOGO. ESTAVA DELICIOSAMENTE vida, o que pretendo com ela?
BELA, OS MORROS PALEJAVAM* DE LUAR E O Essa capacidade de refletir, ou de simples-
ESPAÇO MORRIA DE SILÊNCIO. COMO EU IN- mente aquietar-se para sentir, faz de nós
algo além de cabides de roupas ou de ideias
SISTISSE, DECLAROU-ME QUE OS SONHOS JÁ
alheias. Sempre foi duro vencer o espírito de
NÃO PERTENCIAM À SUA JURISDIÇÃO. Quan-
rebanho, mas esse conflito se tornou esqui-
do eles moravam na ilha que Luciano** lhes zofrênico: de um lado precisamos ser como
deu, onde ela tinha o seu palácio, e donde os todo mundo, é importante adequar-se, ter
fazia sair com as suas caras de vária feição, seu grupo, pertencer; de outro lado é neces-
dar-me-ia explicações possíveis. Mas os tem- sário preservar uma identidade e até impor-
pos mudaram tudo. Os sonhos antigos foram -se, às vezes transgredir, para sobreviver.
aposentados, e os modernos moram no cé- Discernir e escolher fica mais difícil, porque
rebro das pessoas. Estes, ainda que quises- o excesso de informações nos atordoa, a tro-
sem imitar os outros, não poderiam fazê-lo; ca de mitos nos esvazia, a variedade de soli-
a ilha dos sonhos, como a dos amores, como citações nos exaure. Para ter algum controle
todas as ilhas de todos os mares, são agora de nossa vida é necessário descobrir quem
objeto da ambição e da rivalidade da Europa somos ou queremos ser - à revelia dos mode-
e dos Estados Unidos. los generalizantes.
Dura empreitada, num momento em que
Era uma alusão às Filipinas. Pois que
tudo parece colaborar para que se aceitem
não amo a política, e ainda menos a política
modelos prontos para servir. Pensamento
internacional, fechei a janela e vim acabar
independente passou a ser excentricidade,
este capítulo para ir dormir. quando não agressão. Família, escola e socie-
(Machado de Assis, Dom Casmurro. Adapta- dade deviam desenvolver o distanciamento
do) crítico e a capacidade de avaliar - e questio-
* palejar = tornar-se pálido, empalidecer. nar - para poder escolher.
** Luciano= escritor grego, criador do diá- Mas, embora a gente se pense tão moder-
logo satírico. no, não é o que acontece. Alunos (e filhos)
55
questionadores podem ser um embaraço. b) Apresente dois argumentos por meio dos
Preferimos nos tornar membros da vasta quais o autor justifica sua afirmação de que
confraria da mediocridade, que cultua o mais o futebol é uma espécie de “língua geral”.
fácil, o mais divertido, o que todo mundo
pensa ou faz, e abafa qualquer inquietação. TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
Por sorte nossa, aqui e ali aquele olho da an-
gústia mais saudável entreabre sua pesada A civilização do espetáculo: uma radiografia
pálpebra e nos encara irônico: como estamos do nosso tempo e da nossa cultura
vivendo a nossa vida, esse breve sopro... e
o que realmente pensamos de tudo isso - se As ideias de especialização e progresso, in-
por acaso pensamos? separáveis da ciência, são inválidas para as
LUFT, Lya. Pensar é transgredir. Rio de letras e as artes, o que não quer dizer, evi-
Janeiro: Record, 2004. pp 177-78 dentemente, que a literatura, a pintura e a
música não mudem nem evoluam. Mas, di-
5. (G1-CP2) Leia o primeiro parágrafo do tex- ferentemente do que se diz sobre a química
to: e a alquimia, nelas não se pode dizer que
“Não tenho nenhuma receita, nenhum faci- aquela abole e supera esta. A obra literária e
litador para se entender a vida: ela é confu- artística que atinge certo grau de excelência
são mesmo.” não morre com o passar do tempo: continua
a) Que conjunção ou locução conjuntiva poderia vivendo e enriquecendo as novas gerações e
substituir os dois pontos sem que o sentido evoluindo com estas. Por isso, as letras e as
fosse alterado? artes constituíram até agora o denominador
b) Que valor semântico, ou seja, que significado comum da cultura, o espaço no qual era pos-
apresentam tanto os dois pontos quanto a sível a comunicação entre seres humanos,
conjunção/locução conjuntiva que os subs- apesar das diferenças de línguas, tradições,
titui? crenças e épocas, pois quem hoje se emocio-
na com Shakespeare, ri com Molière e se des-
6. (Unicamp 2016) No livro Veneno Remédio lumbra com Rembrandt e Mozart está dialo-
- o futebol e o Brasil (São Paulo: Companhia gando com quem no passado os leu, ouviu e
das Letras, 2008, p. 14), o músico, composi- admirou.
tor e ensaísta José Miguel Wisnik afirma que Esse espaço comum, que nunca se especiali-
o futebol se tornou uma espécie de “língua zou, que sempre esteve ao alcance de todos,
geral”, válida para todos, que põe “em con- passou por períodos de extrema complexida-
tato as populações de todos os continentes”. de, abstração e hermetismo, o que restringia
Leia a seguir dois trechos em que o autor a compreensão de certas obras a uma elite.
explora essa analogia: Mas essas obras experimentais ou de van-
“(...) Nada nos impede de dizer que os lan- guarda, se de fato expressassem zonas iné-
ces criativos mais surpreendentes não dis- ditas da realidade humana e criassem for-
pensam a prosa corrente do ‘arroz com fei- mas de beleza duradoura, sempre acabavam
jão’ do jogo, necessário a toda partida. Ou por educar leitores, espectadores e ouvintes,
de constatar, na literatura como no futebol, integrando-se desse modo no patrimônio co-
que a ‘prosa’ pode ser bela, íntegra, articu- mum.
lada e fluente, ou burocrática e anódina, e a A cultura pode e deve ser, também, experi-
‘poesia’, imprevista, fulgurante e eficaz, ou mentação, é claro, desde que as novas téc-
firula retórica sem nervo e sem alvo. nicas e formas introduzidas pela obra am-
(...) o futebol é o esporte que comporta múl- pliem o horizonte da experiência da vida,
tiplos registros, sintaxes diversas, estilos revelando seus segredos mais ocultos ou nos
diferentes e opostos, e gêneros narrativos, expondo a valores estéticos inéditos que re-
a ponto de parecer conter vários jogos den- volucionem nossa sensibilidade e nos deem
tro de um único jogo. A sua narratividade uma visão mais sutil e nova desse abismo
aberta às diferenças terá relação, muito pos- sem fundo que é a condição humana. A cul-
sivelmente, com o fato de ter se tornado o tura pode ser experimentação e reflexão,
esporte mais jogado no mundo, como um pensamento e sonho, paixão e poesia e uma
modelo racional e universalmente acessível revisão crítica constante e profunda de todas
que fosse guiado por uma ampla margem de as certezas, convicções, teorias e crenças.
diversidade interna, capaz de absorver e ex- Mas não pode afastar-se da vida real, da vida
pressar culturas.” verdadeira, da vida vivida, que nunca é a dos
a) O autor vê o futebol como formas de “prosa” lugares-comuns, do artifício, do sofisma e
e de “poesia”. Embora ambas as formas se- da brincadeira, sem risco de se desintegrar.
jam consideradas necessárias, cada uma tem Posso parecer pessimista, mas minha im-
um lado negativo. Indique-os. pressão é que, com uma irresponsabilidade
56
tão grande como nossa irreprimível vocação feias. Clarete sorriu. 5O rapaz da ponta, com
para a brincadeira e a diversão, fizemos da o Rio Esportivo aberto nas mãos e os olhos
cultura um daqueles castelos de areia, visto- pregados nela, sorriu também. Clarete 6arru-
sos mas frágeis, que se desmancham com a mou-lhe em cima um olhar que queria dizer:
primeira ventania. idiota! e o rapaz zureta afundou os óculos
Mario V. Llosa, A civilização do espetáculo: de tartaruga na entrevista do 7beque carioca
uma radiografia do nosso tempo e da nossa sobre o jogo contra os paulistas.
cultura. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013.
(...)
Praia de Botafogo. Meu Deus! Pendurou-se
7. (FGV) Com base nos conceitos de “especiali- nervosamente na campainha, saltou e atra-
zação” e “progresso”, o autor distingue arte vessou a rua sob o olhar perseguidor da ra-
de ciência. Explique sucintamente o que ele paziada que ia no bonde.
entende por: Houve tempo em que Clarete se chamava
a) “especialização”; simplesmente Clara. Tinha, então, os cabelos
b) “progresso”. compridos, pestanas sem rímel, sobrance-
lhas cerradas, uma magreza de menina que
TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES ajuda a mãe na vida difícil e um desejo in-
FELICIDADE disfarçável de acabar com as sardas que lhe
8
pintalgavam as faces e punham no narizi-
1
Olhou para o céu, certificando-se de que não nho arrebitado uma graça brejeira.
ia chover. Trabalhava numa fábrica de caixas de pa-
– Passa já pra dentro, Jaú. Olha a carrocinha! pelão e vinha para a casa às quatro e meia,
Jaú, costelas à mostra e rabinho impertinen- quando não havia serão, doidinha de fome e
te, continuou impassível a se espichar ao recendendo a cola de peixe.
sol, num desrespeito sem nome à sua dona Quando ela passava, os meninos buliam na
e numa ignorância santa das perseguições certa:
municipais. – Ovo de tico-tico! Ovo de tico-tico!
2
Clarete também teve o bom senso de não in- Ela arredondava-lhes um palavrãozinho que
sistir, o que aliás era uma das suas mais evi- aprendera na fábrica com a Santinha e conti-
dentes qualidades. Carregou mais uma vez nuava a subir a ladeira comprida, rebolando,
a boina escarlate sobre o olhar 3cinemático, provocante. (...)
bateu a porta com força – té logo, mamãe! Verdade é que eles a chamavam de ovo de
– e desceu apressada, sob um sol de rachar tico-tico, menos pelas sardas do que por
pedras, a extensa ladeira para apanhar o despeito. Ela não dava confiança a nenhum
bonde, pois tinha de estar às oito e meia, – vê lá!... – e no coração deles andava uma
sob pena de repreensão, na estação Sul da loucura por Clarete. Ai! se ela quisesse!... –
Cia. Telefônica. suspiravam todos intimamente. Ela, porém,
No bonde, afinal, tirou da bolsa o reloginho- não queria, estava mais que visto. E eles fi-
-pulseira e deu-lhe corda. Era um bom reló- cavam se regalando amoravelmente com o
gio aquele. Também, era Longines e no rá- palavrãozinho jogado assim num desprezo
dio do vizinho, que se mudara, um sujeito superior, pela boca minúscula que todas as
mal-encarado, ouvira sempre dizer que era noites aparecia, tentadoramente se ofertan-
o relógio mais afamado do mundo inteiro. do, nos seus sonhos juvenis.
Fora presente de seu Rosas quando ela mo- Marques Rebello
rava na avenida. E, à falta de outra coisa, foi Contos reunidos. Rio de Janeiro: Nova Fron-
remexendo o seu passado pequenino com a teira, 2002.
lembrança do seu Rosas. 3
cinemático − que se movimenta em várias direções
4
Rosas. Que nome! Não lhe entrava na cabeça 6
arrumar-lhe − dirigir-lhe
que uma pessoa pudesse se chamar Rosas. 7
beque − zagueiro
8
Nem Rosas, nem Flores. Que esquisitice, já pintalgar − pintar
se viu?
Arregalou os olhos fotogênicos. 8. (UERJ) O texto Felicidade é um exemplo da
– Que amor!
prosa urbana modernista. Observe:
Uma senhora ocupava o banco da frente, com
O rapaz da ponta, com o Rio Esportivo aber-
um chapéu, rico, de feltro, enterrado até às
to nas mãos e os olhos pregados nela, sorriu
sobrancelhas. O solavanco da curva não a
deixou ter inveja. Calculou o preço, assim também. Clarete arrumou-lhe em cima um
por alto: cento e poucos mil-réis, no mínimo. olhar que queria dizer: idiota! e o rapaz zu-
Quase seu ordenado. Quase... E sem querer reta afundou os óculos de tartaruga na en-
voltou a seu Rosas. trevista do beque carioca sobre o jogo contra
Fora ele quem lhe dera aquele reloginho. A os paulistas.
mãe torcera o nariz, nada, porém, dissera. Praia de Botafogo. Meu Deus! Pendurou-se
Devia contudo ter pensado dela coisas bem nervosamente na campainha, (ref. 5)
57
Com base neste trecho, aponte duas caracte- – Quanto está a água hoje? – perguntava ao
rísticas da prosa urbana modernista, sendo roupeiro.
uma relacionada ao conteúdo e outra à lin- Era o único nadador que não interrompia os
guagem. treinos no inverno, sozinho, a água gelada, a
piscina fechada aos sócios. (...) Nadar era di-
fícil, ficava cada vez mais difícil... Onde quer
9. (UERJ 2016) No conto, o narrador faz re-
que surgisse um ecordista, logo surgia outro
ferência a duas etapas distintas da vida da para abaixar-lhe o recorde. (...)
protagonista. – Marciano, a sua vez! – vinham lhe avisar.
Nomeie essas duas etapas, na ordem em que 3
Nada a fazer. Ali estava ele, pronto para o
elas aparecem no texto. Em seguida, trans- sacrifício, convocado como um condenado
creva a frase que explicita a distinção entre para a execução. Ia seguindo em direção à
as duas etapas. mesa dos juízes, para assinar a súmula, sem
olhar para os lados. Sentia que todos os
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO olhos o seguiam, ouvia vagamente os aplau-
sos, procurava ignorar tudo, concentrar-se.
O ENCONTRO MARCADO Vontade de dormir, de desistir, fugir, sair
Eduardo e a vida sadia. Seu Marciano tornou- correndo, esquecer aquele suplício. Medo. Os
-se sócio do clube, o filho praticava natação. outros também se sentiriam assim, fragili-
– Por que você não joga basquete? – sugeria zados pela emoção, sucumbidos pela espera?
Letícia. – Natação é tão sem graça... Munira-se de alguns minutos de descanso e
solidão, curtidos em agonia no vestiário –
– Porque natação não depende de ninguém,
era a sua reserva. Ali fora, os nervos se es-
só de mim.
bandalhariam ante o que o aguardava – que
Em seis meses era o melhor nadador de sua
viesse imediatamente.
categoria, e ameaçava já o recorde dos adul-
– Mostra a essa gente, Eduardo.
tos.
– É pra valer!
Uma espécie diferente de emoção – a de – Capricha, menino.
poder contar consigo mesmo, e de se saber, – Está bem, está bem...
numa competição, antecipadamente vence- Deslumbrado pela luz dos refletores, despro-
dor. Os entendidos sacudiam a cabeça, ad- tegido e nu, ia caminhando para o sacrifício.
mirados:
Fernando Sabino O encontro marcado.
– Quem diria, esse menino... Rio de Janeiro: Record, 2012.
1
Era uma espécie de êxtase: fazer de simples
prova de natação, a que ninguém o obriga-
va, uma disputa em que parecia empenhar 10. (UERJ) Nada a fazer. Ali estava ele, pronto
o destino, fazer da arrancada final uma luta para o sacrifício, convocado como um conde-
contra o cansaço, em que a vida parecia que- nado para a execução. Ia seguindo em dire-
rer prolongar-se além de si mesma. ção à mesa dos juízes, para assinar a súmula,
Dia de competição. As luzes da piscina ace- sem olhar para os lados. (ref. 3)
sas, as arquibancadas cheias. Ambiente de Cite dois vocábulos desse fragmento que re-
expectativa, medo, alegria, excitação. Alto- velam o sentimento que a prova de natação
-falantes comandando ordens, convocando provoca em Eduardo. Em seguida, com base
nadadores, apostas, previsões, torcida, gri- no último parágrafo, indique um recurso
taria. Nada da paz quase bucólica da piscina utilizado pelo narrador para enfatizar esse
nos dias de treino – o rigor e a monotonia sentimento.
dos exercícios, de manhã e de tarde, o longo,
lento e meticuloso esforço durante meses e
meses, para ganhar décimos de segundo na E.O. ENEM
luta contra o cronômetro. Refugiado no ves-
tiário, enrolado em cobertor, Eduardo aguar- 1. (Enem 2002) Érico Veríssimo relata, em
dava o momento de sua prova, ouvindo, lá suas memórias, um episódio da adolescência
fora, os aplausos da multidão. Logo chegaria que teve influência significativa em sua car-
a sua vez. Chico, o roupeiro, aparecia para reira de escritor.
dar-lhe a notícia da competição. “Lembro-me de que certa noite - eu teria
– Estamos ganhando. Daqui a pouco é você. uns quatorze anos, quando muito - encarre-
(...) 2Sua emoção se traduzia em longos bo- garam-me de segurar uma lâmpada elétrica
cejos, o medo era quase náusea, a expectati- à cabeceira da mesa de operações, enquanto
va era uma ilusória, persistente e irresistí- um médico fazia os primeiros curativos num
vel vontade de urinar. A multidão voltava a pobre-diabo que soldados da Polícia Munici-
aplaudir, lá fora. – “Daqui a pouco é você”. pal haviam “carneado”. (...) Apesar do hor-
Nunca saía do vestiário antes da hora de na- ror e da náusea, continuei firme onde esta-
dar. va, talvez pensando assim: se esse caboclo
58
pode aguentar tudo isso sem gemer, por que a) foi prejudicial para a equipe e quase pôs a
não hei de poder ficar segurando esta lâm- perder a conquista da copa do mundo.
pada para ajudar o doutor a costurar esses b) mostrou que os brasileiros tinham as mes-
talhos e salvar essa vida? (...) mas qualidades que admiravam nos euro-
Desde que, adulto, comecei a escrever ro- peus, principalmente nos ingleses.
mances, tem-me animado até hoje a ideia c) ressaltou o sentimento de inferioridade dos
de que o menos que o escritor pode fazer, jogadores brasileiros em relação aos euro-
numa época de atrocidades e injustiças como peus, o que os impediu de revidar as agres-
a nossa, é acender a sua lâmpada, fazer luz sões sofridas.
sobre a realidade de seu mundo, evitando d) mostrou que o choro poderia aliviar o sen-
que sobre ele caia a escuridão, propícia aos timento de que os europeus eram superiores
ladrões, aos assassinos e aos tiranos. Sim, aos brasileiros.
segurar a lâmpada, a despeito da náusea
e) mostrou que os brasileiros eram iguais aos
e do horror. Se não tivermos uma lâmpada
europeus, podendo comportar-se como eles,
elétrica, acendamos o nosso toco de vela ou,
que não respeitavam os limites da esportivi-
em último caso, risquemos fósforos repeti-
dade.
damente, como um sinal de que não deserta-
mos nosso posto.”
(VERÍSSIMO, Érico. Solo de Clarineta. 3. (Enem 2006) Depois de um bom jantar: fei-
Tomo I. Porto Alegre: Editora Globo, 1978.) jão com carne-seca, orelha de porco e couve
com angu, arroz-mole engordurado, carne
Neste texto, por meio da metáfora da lâmpa- de vento assada no espeto, torresmo enxuto
da que ilumina a escuridão, Érico Veríssimo de toicinho da barriga, viradinho de milho
define como uma das funções do escritor e, verde e um prato de caldo de couve, jantar
por extensão, da literatura, encerrado por um prato fundo de canjica
a) criar a fantasia. com torrões de açúcar, Nhô Tomé saboreou
b) permitir o sonho. o café forte e se estendeu na rede. A mão
c) denunciar o real. direita sob a cabeça, à guisa de travesseiro,
d) criar o belo. o indefectível cigarro de palha entre as pon-
e) fugir da náusea. tas do indicador e do polegar, envernizados
pela fumaça, de unhas encanoadas e longas,
2. (Enem) Em 1958, a seleção brasileira foi ficou-se de pança para o ar, modorrento, a
campeã mundial pela primeira vez. O texto olhar para as ripas do telhado.
foi extraído da crônica “A alegria de ser bra- Quem come e não deita, a comida não apro-
sileiro”, do dramaturgo Nelson Rodrigues, veita, pensava Nhô Tomé... E pôs-se a cochi-
publicada naquele ano pelo jornal “Última lar. A sua modorra durou pouco; Tia Police-
Hora”. na, ao passar pela sala, bradou assombrada:
“Agora, com a chegada da equipe imortal, as - Êêh! Sinhô! Vai drumi agora? Não! Num
lágrimas rolam. Convenhamos que a seleção presta... Dá pisadêra e póde morrê de ataque
as merece. de cabeça! Despois do armoço num far-má...
Merece por tudo: não só pelo futebol, que foi mais despois da janta?!
o mais belo que os olhos mortais já contem- Cornélio Pires. Conversas ao pé do fogo. São
plaram, como também pelo seu maravilho- Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 1987.
so índice disciplinar. Até este Campeonato, Nesse trecho, extraído de texto publicado
o brasileiro julgava-se um cafajeste nato e originalmente em 1921, o narrador:
hereditário. Olhava o inglês e tinha-lhe in- a) apresenta, sem explicitar juízos de valor,
veja. Achava o inglês o sujeito mais fino,
costumes da época, descrevendo os pratos
mais sóbrio, de uma polidez e de uma ce-
servidos no jantar e a atitude de Nhô Tomé e
rimônia inenarráveis. E, súbito, há o Mun-
de Tia Policena.
dial. Todo mundo baixou o sarrafo no Brasil.
b) desvaloriza a norma culta da língua porque
Suecos, britânicos, alemães, franceses, che-
cos, russos, davam botinadas em penca. Só incorpora à narrativa usos próprios da lin-
o brasileiro se mantinha ferozmente dentro guagem regional das personagens.
dos limites rígidos da esportividade. Então, c) condena os hábitos descritos, dando voz a
se verificou o seguinte: o inglês, tal como o Tia Policena, que tenta impedir Nhô Tomé de
concebíamos, não existe. O único inglês que deitar-se após as refeições.
apareceu no Mundial foi o brasileiro. Por d) utiliza a diversidade sociocultural e linguís-
tantos motivos, vamos perder a vergonha tica para demonstrar seu desrespeito às po-
(...), vamos sentar no meio-fio e chorar. Por- pulações das zonas rurais do início do século
que é uma alegria ser brasileiro, amigos”. XX.
Além de destacar a beleza do futebol brasi- e) manifesta preconceito em relação a Tia Poli-
leiro, Nelson Rodrigues quis dizer que o com- cena ao transcrever a fala dela com os erros
portamento dos jogadores dentro do campo: próprios da região.
59
4. (Enem) São Paulo vai se recensear. O gover- sol em irradiações noturnas. Quentes ondas.
no quer saber quantas pessoas governa. A Seu marido se aproxima os pés calçados de
indagação atingirá a fauna e a flora domes- meias nos chinelos folgados. Ele olha as ho-
ticadas. Bois, mulheres e algodoeiros serão ras nos dois relógios do pulso. Ele acusa você
reduzidos a números e invertidos em esta- de ter ficado fora de casa o dia todo até tarde
tísticas. da noite enquanto a menina ardia em febre.
O homem do censo entrará pelos bangalôs, Ponto e ponta. Dor perfume crescente...
pelas pensões, pelas casas de barro e de ci- CUNHA, H. P. As doze cores do vermelho. Rio
de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2009.
mento armado, pelo sobradinho e pelo apar-
tamento, pelo cortiço e pelo hotel, pergun- A literatura brasileira contemporânea tem
tando: abordado, sob diferentes perspectivas, ques-
- Quantos são aqui? tões relacionadas ao universo feminino. No
Pergunta triste, de resto. Um homem dirá: fragmento, entre os recursos expressivos
- Aqui havia mulheres e criancinhas. Agora, utilizados na construção da narrativa, des-
felizmente, só há pulgas e ratos. taca-se a:
E outro: a) repetição de “você”, que se refere ao interlo-
- Amigo, tenho aqui esta mulher, este pa- cutor da personagem.
pagaio, esta sogra e algumas baratas. Tome b) ausência de vírgulas, que marca o discurso
nota de seus nomes, se quiser. Querendo le- irritado da personagem.
var todos, é favor... (...) c) descrição minuciosa do espaço do trabalho,
E outro: que se opõe ao da casa.
- Dois, cidadão, somos dois. Naturalmente o d) autoironia, que ameniza o sentimento de
sr. não a vê. Mas ela está aqui, está, está! A opressão da personagem.
sua saudade jamais sairá de meu quarto e de e) ausência de metáforas, que é responsável
meu peito! pela objetividade do texto.
Rubem Braga. Para gostar de ler, v. 3. São
Paulo: Ática, 1998, p. 32-3 (fragmento). 6. (Enem 2012) Leia.
O senhor
O fragmento anterior, em que há referência
Carta a uma jovem que, estando em uma
a um fato sócio-histórico - o recenseamento
roda em que dava aos presentes o tratamen-
-, apresenta característica marcante do gê-
to de você, se dirigiu ao autor chamando-o
nero crônica ao :
“o senhor”:
a) expressar o tema de forma abstrata, evocan-
Senhora:
do imagens e buscando apresentar a ideia de
Aquele a quem chamastes senhor aqui está,
uma coisa por meio de outra.
de peito magoado e cara triste, para vos di-
b) manter-se fiel aos acontecimentos, retratan-
zer que senhor ele não é, de nada, nem de
do os personagens em um só tempo e um só
ninguém.
espaço.
Bem o sabeis, por certo, que a única nobreza
c) contar história centrada na solução de um
do plebeu está em não querer esconder sua
enigma, construindo os personagens psico-
condição, e esta nobreza tenho eu. Assim, se
logicamente e revelando-os pouco a pouco.
entre tantos senhores ricos e nobres a quem
d) evocar, de maneira satírica, a vida na cidade,
chamáveis você escolhestes a mim para tra-
visando transmitir ensinamentos práticos do
tar de senhor, e bem de ver que só poderíeis
cotidiano para manter as pessoas informa-
ter encontrado essa senhoria nas rugas de
das.
minha testa e na prata de meus cabelos. Se-
e) valer-se de tema do cotidiano como ponto
nhor de muitos anos, eis aí; o território onde
de partida para a construção de texto, que
eu mando é no país do tempo que foi. Essa
recebe tratamento estético.
palavra “senhor”, no meio de uma frase, er-
gueu entre nós um muro frio e triste.
5. (Enem 2ª aplicação 2010) As doze cores do
Vi o muro e calei: não é de muito, eu juro,
vermelho
que me acontece essa tristeza; mas também
Você volta para casa depois de ter ido jantar
não era a vez primeira.
com sua amiga dos olhos verdes. Verdes. Às
BRAGA, R. A borboleta amarela. Rio
vezes quando você sai do escritório você quer de Janeiro: Record, 1991.
se distrair um pouco. Você não suporta mais
tem seu trabalho de desenhista. Cópias plan- A escolha do tratamento que se queira atri-
tas réguas milímetros nanquim compasso buir a alguém geralmente considera as si-
360º. de cercado cerco. Antes de dormir você tuações específicas de uso social. A violação
quer estudar para a prova de história da arte desse princípio causou um mal-estar no au-
mas sua menina menor tem febre e chama tor da carta. O trecho que descreve essa vio-
você. A mão dela na sua mão é um peixe sem lação é:
60
a) “Essa palavra, ‘senhor’, no meio de uma frase trouxe um perfume de poesia a nossa qua-
ergueu entre nós um muro frio e triste”. dra. Aprendi nessas férias a brincar de pala-
b) “A única nobreza do plebeu está em não que- vras mais do que trabalhar com elas. Comecei
rer esconder a sua condição”. a não gostar de palavra engavetada. Aquela
c) “Só poderíeis ter encontrado essa senhoria que não pode mudar de lugar. Aprendi a gos-
nas rugas de minha testa”. tar mais das palavras pelo que elas entoam
d) “O território onde eu mando é no país do do que pelo que elas informam. Por depois
tempo que foi”. ouvi um vaqueiro a cantar com saudade: Ai
e) “Não é de muito, eu juro, que acontece essa morena, não me escreve / que eu não sei a
tristeza; mas também não era a vez primei- ler. Aquele a preposto ao verbo ler, ao meu
ra”. ouvir, ampliava a solidão do vaqueiro.
BARROS, M. Memórias inventadas: a
7. (Enem PPL 2012) Eu sei que a gente se infância. São Paulo: Planeta, 2003.
acostuma. Mas não devia.
No texto, o autor desenvolve uma reflexão
A gente se acostuma a morar em apartamen-
sobre diferentes possibilidades de uso da
tos de fundos e a não ter outra vista que não
língua e sobre os sentidos que esses usos
as janelas ao redor. E, porque não tem vista,
podem produzir, a exemplo das expressões
logo se acostuma a não olhar para fora. E,
“voltou de ateu”, “desilimina esse” e “eu
porque não olha para fora, logo se acostuma
não sei a ler”. Com essa reflexão, o autor
a não abrir todas as cortinas. E, porque não
destaca
abre as cortinas, logo se acostuma a acender
mais cedo a luz. E, à medida que se acostu- a) os desvios linguísticos cometidos pelos per-
ma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a sonagens do texto.
amplidão. b) a importância de certos fenômenos grama-
COLASANTI, M. Eu sei, mas não devia.
ticais para o conhecimento da língua por-
Rio de Janeiro, Rocco, 1996. tuguesa.
c) a distinção clara entre a norma culta e as
A progressão é garantida nos textos por de- outras variedades linguísticas.
terminados recursos linguísticos, e pela co- d) o relato fiel de episódios vividos por Cabelu-
nexão entre esses recursos e as ideias que dinho durante as suas férias.
eles expressam. Na crônica, a continuidade e) a valorização da dimensão lúdica e poética
textual é construída, predominantemente, presente nos usos coloquiais da linguagem.
por meio:
a) do emprego de vocabulário rebuscado, possi- 9. (Enem 2012) E como manejava bem os cor-
bilitando a elegância do raciocínio. déis de seus títeres, ou ele mesmo, títere
b) da repetição de estruturas, garantindo o pa- voluntário e consciente, como entregava o
ralelismo sintático e de ideias. braço, as pernas, a cabeça, o tronco, como
c) da apresentação de argumentos lógicos, cons- se desfazia de suas articulações e de seus
tituindo blocos textuais independentes. reflexos quando achava nisso conveniência.
d) da ordenação de orações justapostas, dispon-
Também ele soubera apoderar-se dessa arte,
do as informações de modo paralelo.
mais artifício, toda feita de sutilezas e gros-
e) da estruturação de frases ambíguas, cons-
serias, de expectativa e oportunidade, de in-
truindo efeitos de sentido apostos.
sônia e submissão, de silêncios e rompantes,
de anulação e prepotência. Conhecia a pala-
8. (Enem 2012) Cabeludinho vra exata para o momento preciso, a frase
Quando a Vó me recebeu nas férias, ela me picante ou obscena no ambiente adequado, o
apresentou aos amigos: Este é meu neto. Ele tom humilde diante do superior útil, o gros-
foi estudar no Rio e voltou de ateu. Ela disse seiro diante do inferior, o arrogante quando
que eu voltei de ateu. Aquela preposição des- o poderoso em nada o podia prejudicar. Sa-
locada me fantasiava de ateu. Como quem bia desfazer situações equivocadas, e armar
dissesse no Carnaval: aquele menino está intrigas das quais se saía sempre bem, e sa-
fantasiado de palhaço. Minha avó entendia bia, por experiência própria, que a fortuna
de regências verbais. Ela falava de sério. Mas se ganha com uma frase, num dado momen-
todo-mundo riu. Porque aquela preposição to, que este momento único, irrecuperável,
deslocada podia fazer de uma informação
irreversível, exige um estado de alerta para
um chiste. E fez. E mais: eu acho que bus-
sua apropriação.
car a beleza nas palavras é uma solenidade
RAWET, S. O aprendizado. In: Diálogo. Rio
de amor. E pode ser instrumento de rir. De de janeiro: GRD, 1963 (fragmentado).
outra feita, no meio da pelada um menino
gritou: Disilimina esse, Cabeludinho. Eu não No conto, o autor retrata criticamente a
disilimei ninguém. Mas aquele verbo novo habilidade do personagem no manejo de
61
discursos diferentes segundos a posição do a) causalidade, segundo a qual se relacionam
interlocutor na sociedade. A crítica à condu- as partes de um texto, em que uma contém
ta do personagem está centrada: a causa e a outra, a consequência.
a) na imagem do títere ou fantoche em que o b) temporalidade, segundo a qual se articulam
personagem acaba por se transformar, acre- as partes de um texto, situando no tempo o
ditando dominar os jogos de poder na lin- que é relatado nas partes em questão.
c) condicionalidade, segundo a qual se combi-
guagem.
nam duas partes de um texto, em que uma
b) na alusão à falta de articulações e reflexos
resulta ou depende de circunstâncias apre-
do personagem, dando a entender que ele sentadas à outra.
não possui o manejo dos jogos discursivos d) adversidade, segundo a qual se articulam
em todas as situações. duas partes de um texto em que uma apre-
c) no comentário, feito em tom de censura pelo senta uma orientação argumentativa distin-
autor, sobre as frases obscenas que o per- ta e oposta à outra.
sonagem emite em determinados ambientes e) finalidade, segundo a qual se articulam duas
sociais. partes de um texto em que uma apresenta o
d) nas expressões que mostram tons opostos meio, por exemplo, para uma ação e a outra,
nos discursos empregados aleatoriamente o desfecho da mesma.
pelo personagem em conversas com interlo-

GABARITO
cutores variados.
e) no falso elogio à originalidade atribuída a
esse personagem, responsável por seu suces-
so no aprendizado das regras de linguagem
da sociedade. E.O. Teste I
1. C 2. E 3. E 4. D 5. D
10. (Enem 2012) Labaredas nas trevas
Fragmentos do diário secreto de 6. C 7. D 8. B 9. B 10. A
Teodor Konrad Nalecz Korzeniowski

20 DE JULHO [1912]
Peter Sumerville pede-me que escreva um
E.O. Teste II
1. E 2. D 3. A 4. D 5. E
artigo sobre Crane. Envio-lhe uma carta:
“Acredite-me, prezado senhor, nenhum jor- 6. B 7. C 8. B 9. A 10. A
nal ou revista se interessaria por qualquer
coisa que eu, ou outra pessoa, escrevesse so-
bre Stephen Crane. Ririam da sugestão. [...]
Dificilmente encontro alguém, agora, que
E.O. Teste III
1. B 2. E 3. C 4. A 5. D
saiba quem é Stephen Crane ou lembre-se de
algo dele. Para os jovens escritores que estão 6. E 7. A 8. D 9. D 10. D
surgindo ele simplesmente não existe”.

20 DE DEZEMBRO [1919]
Muito peixe foi embrulhado pelas folhas de
jornal. Sou reconhecido como o maior escri-
E.O. Dissertativo
tor vivo da língua inglesa. Já se passaram
1. Para responder qual outra conjunção poderia
dezenove anos desde que Crane morreu, mas substituir o “pois” é preciso compreender
eu não o esqueço. E parece que outros tam- qual o significado que o “pois” carrega na
bém não. The London Mercury resolveu cele- última frase do texto. Pelo contexto, per-
brar os vinte e cinco anos de publicação de cebe-se que há um valor semântico de con-
um livro que, segundo eles, foi “um fenôme- clusão: conclui-se que ele morreu a serviço
no hoje esquecido” e me pediram um artigo. do Senhor. Dessa forma, pode-se substituir
FONSECA, R. Romance negro e outras histórias. São o termo em destaque por qualquer conjun-
Paulo: Companhia das Letras, 1992 (fragmentado). ção que indique conclusão, tais como “logo”,
“assim”, “então”, ou “portanto”.
Na construção de textos literários, os autores 2.
recorrem com frequência a expressões meta- a) Mesmo sendo abundante e até densa…
fóricas. Ao empregar o enunciado metafóri- b) No contexto, e atendendo a derivações do
co “Muito peixe foi embrulhado pelas folhas substantivo “lucros”, as palavras “ren-
de jornal”, pretendeu-se estabelecer, entre dosos” e “rentabilidade” poderiam ser
dois fragmentos do texto em questão, uma substituídas por lucrativos e lucrativida-
relação semântica de: de, respectivamente.
62
3. O valor semântico da conjunção “e” é aditi- 9. 1ª etapa: adolescência/juventude.
vo, pois expressa um acréscimo de informa- 2ª etapa: infância / meninice / pré-adoles-
ção ao período: além de ter falado com deze- cência.
nas de pessoas, todas elas lhe perguntaram Frase: Houve tempo em que Clarete se cha-
por quê. mava simplesmente Clara.
4. 10. Na verdade, há três vocábulos representati-
a) vos: sacrifício; condenado e execução. Todos
I. Em “...os morros palejavam de luar...”, a passam a sensação de estresse e de medo.
preposição de tem valor causal. Porém, à guisa da proposta, dois vocábulos
II. Em “De manhã, com a fresca...”, a prepo- já bastam.
sição de indica tempo. Os recursos estilísticos usados pelo narra-
b) dor são o uso dos adjetivos “desprotegido”
III.Em “como eu insistisse...”, como é con- e “nu”, enfatizando a ideia de vulnerabili-
junção subordinativa causal, equivalente dade e de medo. Também deve-se reparar na
a porque, porquanto e introdutora de uma repetição da palavra “sacrifício”, passando a
oração subordinada adverbial causal. ideia do pavor e da impotência por que passa
IV. Em “...como a dos amores...”, integra uma qualquer ser vivo diante do abate.
oração comparativa, sendo conjunção su-
bordinativa comparativa.
5.
a) Porque.
b) Apresentam valor semântico de causa.
E.O. Enem
6. 1. C 2. B 3. A 4. E 5. B
a) Segundo José Miguel Wisnik, tanto a 6. A 7. B 8. E 9. A 10. B
prosa quanto a poesia podem apresentar
marcas negativas. A primeira pode seguir
automaticamente regras e procedimentos
sem entusiasmo e criatividade e a segun-
da, usar floreio de palavras, com lingua-
gem vazia de conteúdo que não desperte
emoção.
b) O fato de o futebol seguir regras entendi-
das racionalmente em qualquer contexto
cultural e ser praticado em quase todo o
mundo permite que as diferenças cultu-
rais se diluam e configurem uma espécie
de código linguístico comum e universal.
7.
a) O autor argumenta que conceitos essen-
ciais para as ciências, como a especiali-
zação, isto é, a necessidade da ciência de
restringir-se a um determinado objeto
de pesquisa ou mesmo de tornar-se her-
mética para que assim possa progredir.
Segundo o autor, a ciência nunca esteve
nem poderá estar ao alcance de todos, di-
ferentemente das artes.
b) O progresso nas ciências depende da es-
pecialização, da pesquisa para que possa
progredir, enquanto que as artes evoluem
ao manter um diálogo temporal entre to-
dos os que compartilham uma obra.
8. Quanto ao Conteúdo: a vida moderna/a vida
na cidade grande/o cotidiano urbano (bon-
de, o jornal Rio Esportivo).
Quanto à linguagem: há uso de expressões
coloquiais; linguagem informal e jovial (zu-
reta e idiota); frases curtas em períodos co-
ordenados.
63
Aula 15 (Gramática e I.T.)
Termos essenciais da oração e
crônicas
TERMOS ESSENCIAIS DA ORAÇÃO: a) Simples, se apresentar apenas um núcleo
(a palavra principal do sujeito, que encerra
SUJEITO E PREDICADO essencialmente a significação) ligado direta-
mente ao verbo, estabelecendo uma relação
Sujeito é o termo que concorda, em número e pessoa, de concordância com ele.
com o verbo da oração. Em grande número de casos, o
sujeito da oração é também o agente da ação expressa Exemplo: As pessoas saíram pelas ruas em
pelo verbo, mas essa não deve ser a base de definição protesto.
conceitual, uma vez que há orações para as quais não Observação: O sujeito é simples, se o ver-
se pode atribuir ao sujeito essa função de agente. bo da oração referir-se a apenas um elemento, seja ele
um substantivo (singular ou plural), um pronome ou um
Exemplos:
numeral. Não confundir sujeito simples com a noção de
Ele viajou para o interior de São Paulo.
singular.
(viajou está no singular para concordar com
ele. O conteúdo do verbo expressa uma ação.) Exemplos:
O segundo andar possui sala de reunião.
Eles viajaram para o interior de São Paulo. Todos correram em direção ao ônibus.
(viajaram está no plural para concordar com
b) Composto, se apresentar dois ou mais nú-
eles. O conteúdo do verbo expressa uma ação.)
cleos ligados diretamente ao verbo, estabele-
Ele está no interior de São Paulo. cendo uma relação de concordância com ele.
(está está no singular para concordar com ele;
Exemplo: Brigadeiro e caipirinha são es-
no entanto, o conteúdo do verbo não expressa
pecialidades tipicamente brasileiras.
uma ação.)
2. Sujeito indeterminado: é aquele que, embora
Eles vivem no interior de São Paulo.
existindo, não é possível determiná-lo nem pelo
(vivem está no plural para concordar com eles;
contexto, nem pela terminação do verbo. Há três
no entanto, o conteúdo do verbo não expressa
maneiras diferentes de indeterminar o sujeito de
uma ação.)
uma oração:
a) com verbo na terceira pessoa do plu-
Observação: as gramáticas normativas deter-
ral, sem que ele se refira a nenhum termo
minam o sujeito e o predicado como termos essenciais;
identificado anteriormente (nem em outra
no entanto, deve-se observar que o termo constante em
oração).
toda oração é o verbo.
Exemplos:
Exemplos: Proibiram a entrada de menores.
Choveu o dia todo. Estão transferindo as crianças de lugar.
(verbo que indica um fenômeno natural.)
b) com verbo na voz ativa e na terceira
Chorou. pessoa do singular seguido do prono-
(verbo que indica uma ação e permite a possível me se, pronome esse que atua como índi-
identificação do sujeito através da desinência.) ce de indeterminação do sujeito. Essa
construção ocorre com verbos que não apre-
sentam complemento direto (verbos intran-
Classificação do sujeito sitivos, transitivos indiretos e de ligação). O
verbo obrigatoriamente fica na terceira pes-
O sujeito das orações pode ser determinado ou inde-
soa do singular.
terminado.
1. Sujeito determinado é aquele que pode ser iden- Exemplos:
tificado com precisão a partir da concordância Vive-se melhor após o avanço da tecnolo-
verbal. Ele pode ser: gia. (verbo intransitivo)
65
Precisa-se de vendedores com prática. Exemplos:
(verbo transitivo indireto) Choviam canivetes quando eles brigavam.
(canivetes é o sujeito)
No dia da prova, sempre se fica nervoso.
Já amanheci cansado. (eu é o sujeito)
(verbo de ligação)
b) verbos ser, estar, fazer e haver, se usa-
c) com o verbo no infinitivo impessoal:
dos para indicar uma ideia de tempo
Exemplos:
ou fenômenos meteorológicos:
Era penoso estudar Direito e Economia, si-
Ser
multaneamente.
Exemplos:
É bom assistir a filmes antigos. É de noite. (período do dia)
Eram duas horas da manhã. (hora)
Importante: Se o verbo estiver na terceira
pessoa do plural e fizer referência a elementos explí- Observação: Ao indicar tempo, o verbo ser
citos em orações anteriores ou posteriores, o sujeito é varia de acordo com a expressão numérica que o acom-
determinado. panha.
Exemplos:
Exemplo: Ana e Gustavo foram a Miami. É uma hora.
Compraram muitas roupas. (Nesse caso, o São nove horas.
sujeito de compraram é Ana e Gustavo. Ocor-
re sujeito oculto na segunda oração). Ao indicar data, o verbo ser pode ficar no
singular, subentendendo-se à palavra dia, ou
3. Orações sem sujeito são formadas apenas pelo pode ficar no plural, concordando com o nú-
predicado e articulam-se a partir de um verbo mero de dias.
impessoal. Por isso se diz que o sujeito é ine- Exemplo: Hoje é, ou são, 15 de março. (data)
xistente. Observe a estrutura destas orações.
Estar
Exemplos: Exemplos:
Havia borboletas no jardim. Está tarde. (tempo)
Nevou muito este ano em Santa Catarina. Está muito quente. (temperatura)

É possível constatar que essas orações não têm Fazer


sujeito. Constituem a enunciação pura e absolu- Exemplos:
ta de um fato mediante o predicado apenas. O Faz dois anos que não o vejo. (tempo decor-
conteúdo verbal não é atribuído a nenhum ser: rido)
a mensagem centra-se no processo verbal. Os Fez 40 °C ontem. (temperatura)
casos mais comuns de orações sem sujeito da
Haver
língua portuguesa ocorrem com:
Exemplos:
a) verbos que exprimem fenômenos da
Não a vejo há anos. (tempo decorrido)
natureza: nevar, chover, ventar, gear, trove-
Havia muitos alunos naquela aula. (haver
jar, relampejar, amanhecer, anoitecer etc.
com significado de existir)
Exemplos:
Atenção!
Ventou muito no inverno passado.
Os verbos impessoais devem ser usados sem-
Amanheceu antes do horário previsto.
pre na terceira pessoa do singular. Cuidado com
Observação: Se usados na forma figurada, os verbos fazer e haver usados impessoalmente: não se
esses verbos podem apresentar sujeito determinado. deve empregá-los no plural.
66
Exemplos: dois núcleos nesse predicado, uma vez que con-
Faz muitos anos que nos conhecemos. siderou predica sobre o sujeito, mas irregular
Deve fazer dias quentes na Bahia. predica sobre a coleta dos dados. Portanto, há
Há muitas pessoas interessadas na vaga. uma ação direcionada ao sujeito, mas também
Houve muitas pessoas interessadas na vaga. há uma informação sobre o que é alvo da ação.
Vamos detalhar como essa estrutura funciona.
Observação: O verbo existir é pessoal, por-
Nesse predicado há um núcleo verbal e um nú-
tanto, admite sujeito que concorda com ele.
cleo nominal.)
Exemplos:
Existiram grandes mestres da Arquitetura. Tipos de predicado
Existe uma biodiversidade muito rica na Ama-
zônia. A partir de estruturas que se assemelham às dos exem-
Grandes mestres é o sujeito da primeira ora- plos anteriores, podem-se classificar os predicados em
ção e uma biodiversidade muito rica na Amazô- três categorias:
nia é sujeito da segunda, ambos do tipo determinado 1. Predicado verbal tem, como núcleo, uma for-
e simples. ma verbal.
a) A estudante gosta de viajar nas férias.
Predicado: gosta de viajar nas férias
PREDICADO Núcleo: gosta
b) Todo domingo à tarde ele vai ao cinema.
É o termo da oração que faz uma afirmação sobre o Predicado: vai ao cinema
sujeito; diz-se, portanto, que se trata de uma predicação Núcleo: vai
sobre o sujeito. No caso das orações sem sujeito, a pre-
dicação é genérica. Tudo o que constitui as orações, à 2. Predicado nominal tem, como núcleo, uma
exceção do sujeito e do vocativo, faz parte do predicado. forma nominal (adjetivo ou locução adjetiva).
Os predicados devem conter necessaria- Os verbos que ocorrem nos predicados nomi-
mente um verbo, mas o núcleo do predicado (termo nais são sempre de ligação.
que detém o sentido propriamente) pode ser um verbo, Importante: Os termos que constituem o nú-
um nome ou a junção dos dois. cleo dos predicados nominais denominam-se pre-
Exemplos: dicativos do sujeito.
Os dados mostram um aumento no número de Exemplos:
ciclovias. (sujeito: os dados) – (predicado: mos- O filme foi emocionante.
tram um aumento no número de ciclovias. Predicado: foi emocionante
O verbo é o núcleo do predicado por indicar o Núcleo: emocionante (adjetivo que dá informa-
conteúdo da predicação sobre o sujeito.) ção sobre o substantivo sujeito. Sintaticamente,
esse adjetivo recebe a função de predicativo do
Os dados foram coletados no início do ano. sujeito).
(sujeito: os dados) – (predicado: foram coleta-
Ficaram animados com a programação para o
dos no início do ano. O núcleo é coletados,
final de semana.
palavra que guarda a significação do predicado
sobre o que está informado acerca do sujeito.) Predicado: ficaram animados com a programa-
ção para o final de semana.
O instituto considerou irregular a coleta dos Núcleo: animados (adjetivo que dá informação
dados. (sujeito: o instituto) – (predicado: con- sobre o sujeito oculto. Sintaticamente, este adje-
siderou irregular a coleta dos dados. Há tivo recebe a função de predicativo do sujeito).
67
3. Predicado verbo-nominal tem dois núcleos: um núcleo constituído de uma forma verbal e um núcleo
constituído de uma forma nominal.
Exemplos:
Os alunos chegaram cansados.
Predicado: chegaram cansados
Núcleo verbal: chegaram
Núcleo nominal: cansados

Eles o julgaram responsável.


Predicado: o julgaram responsável
Núcleo verbal: julgaram
Núcleo nominal: responsável

Predicativo do sujeito e predicativo do objeto


É importante sistematizar a definição de predicativo, função sintática relacionada à ocorrência, nas orações, de
predicados nominais ou verbo-nominais. Denomina-se predicativo a palavra ou locução de natureza nominal que
constitui o núcleo de um predicado nominal ou o núcleo de um predicado verbo-nominal. O predicativo pode se
referir ao sujeito da oração – predicativo do sujeito –, no caso dos predicados nominais, ou ao objeto da oração –
predicativo do objeto –, no caso dos predicados verbo-nominais.
Exemplos:
Ana saiu enfurecida.
Predicado: saiu enfurecida
Núcleo: enfurecida (predicativo do sujeito)

Eles julgaram o criminoso culpado.


Predicado: julgaram o criminoso culpado
Núcleo verbal: julgaram
Núcleo nominal: culpado (predicativo do objeto)

68
CRÔNICAS
A crônica é um gênero que transita entre a literatura e o jornalismo. É conduzido a partir da observação subjetiva
de fatos cotidianos que são relatados ao leitor. Há, por parte do cronista, um desejo de oferecer não apenas um
relato de um acontecimento, mas uma reflexão/interpretação sobre o ocorrido. Nesse sentido, a crônica acaba por
revelar ao leitor elementos que estão por trás das aparências ou que não são percebidos pelo senso comum. Trata-
-se de um gênero marcadamente opinativo, em que a subjetividade do escritor vem à tona.

Contexto de circulação
As crônicas circulam habitualmente em sessões específicas de jornais e também em revistas. Tratam de temas va-
riados do cotidiano, mas também podem tratar de temas bem específicos se circularem em revistas especializadas
(por exemplo, uma revista cuja temática seja a beleza feminina, terá crônicas que tratem de temas femininos).
Posteriormente, muitas crônicas publicadas por grandes autores podem vir a ser reunidas em livros. Foi o
que aconteceu com escritores como Carlos Drummond de Andrade ou Rubem Braga, autores cujas crônicas, de
fortes marcas literárias, passaram do jornal ao livro.

Recepção da crônica
As crônicas são procuradas por um público variado, especialmente as jornalísticas. A menos que sejam crônicas
produzidas, como dito anteriormente, em publicações especializadas.

Estrutura da crônica
Embora não apresente estrutura completamente fixa, a crônica possui algumas marcas de condução textual que
são seguidas por boa parte dos autores. São elas:
ƒ Observação mais subjetiva a respeito de acontecimento cotidiano.
ƒ Evocação de experiências pessoais ou de pessoas muito próximas para circunstanciar sua opinião.
ƒ Há uma conclusão que, em certa medida, retoma os elementos centrais discutidos na crônica.
De maneira geral, a crônica costuma ser organizada por meio de um movimento reflexivo, que parte de uma
experiência particular, e que tem como objetivo alcançar significado mais amplo, que atinja um número maior de
pessoas e as faça refletir.

Linguagem da crônica

A linguagem da crônica é marcada por certo grau de informalidade, embora suas bases se construam dentro da
gramática normativa. Esse choque linguístico se dá justamente por conta de ser um tipo de publicação veiculada
em um jornal/revista (meio de comunicação em que, habitualmente, se usa a norma padrão), mas que é dotada de
fortes marcas subjetivas.

69
E.O. TESTE I preocupados com o uso excessivo da tecno-
logia no cotidiano de jovens e crianças. “Mi-
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO nha preocupação é com o fato de os jovens
permanecerem o tempo todo conectados aos
Celular liberado smartphones. Considero que, 9dessa forma,
Em 2010, a pesquisadora em Tecnologias há o risco de os recursos de informática
da Informação e Comunicação na Educação se tornarem os ‘protagonistas’ do processo
Glaucia da Silva Brito e o mestrando em quando, na verdade, o foco deve ser sempre
Educação Marlon de Campos Mateus, ambos o recurso ‘humano’”, diz Beatriz.
da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Disponível em: http://revistaeducacao.uol.com.
br. Acesso em: 24.09.2015. Adaptado.
realizaram uma pesquisa com professores
de um colégio estadual de Curitiba (PR). A 1. (G1-IFBA) Na referência 2, pode-se afirmar
pergunta era: é possível usar os aparelhos sobre a classificação morfossintática da pa-
celulares dos alunos com propósito peda- lavra “Tudo” que:
gógico em sala de aula? A maioria não via a) é um predicado nominal.
nenhuma utilidade nos aparelhos, e ainda b) é o sujeito simples da oração.
os considerava como um empecilho em suas c) compõe o predicado da oração.
aulas. Quatro anos depois, é crescente o nú- d) morfologicamente, pode ser classificada
mero de professores que veem os celulares como substantivo.
com outros olhos. E muitos os estão usando e) constitui o sujeito indeterminado, uma vez
como aliados. que é impossível determinar quem pratica a
No Colégio Vital Brazil, de São Paulo (SP), ação.
costuma-se dizer que a liberação do uso dos
smartphones e outros aparelhos eletrônicos TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
em aula foi uma 1“necessidade”. A coorde-
Leia a letra de música abaixo e responda ao
nadora pedagógica do ensino médio, Maria
que se pede na(s) questão(ões) a seguir.
Helena Esteves da Conceição, conta que,
desde 2013, o uso dos aparelhos eletrônicos O Segundo Sol
passou a ser feito em laboratórios e aulas (Cássia Eller)
específicas, como artes e matemática. (...)
Os pesquisadores da UFPR sugerem ainda Quando o segundo sol chegar
outras possibilidades de uso pedagógico dos Para realinhar as órbitas dos planetas
smartphones: pesquisas em dicionários on- Derrubando com assombro exemplar
-line ou aplicativos, a câmera como recurso O que os astrônomos diriam
nas aulas de artes, as redes sociais com geo- Se tratar de um outro cometa
localização para as aulas de geografia. 2Tudo
depende do propósito pedagógico e da dis- Não digo que não me surpreendi
ponibilidade do professor. Antes que eu visse você disse
3
Mas será que esses aparelhos precisam ser E eu não pude acreditar
usados em sala de aula? Não 4haveria outros Mas você pode ter certeza
meios para chegar aos mesmos resultados de
De que seu telefone irá tocar
pesquisa? Para incorporar os smartphones
Em sua nova casa
nas classes, é preciso preparo dos professo-
Que abriga agora a trilha
res e planejamento para as aulas, acredita
Incluída nessa minha conversão
Vanderlei Cardoso, professor e assessor de
matemática do Colégio Vital Brasil.
Eu só queria te contar
Mãe do aluno 5David, do 9º ano do Colégio
Que eu fui lá fora
Bandeirantes, Beatriz Silva, 6aprova a utili-
E vi dois sóis num dia
zação dos aparelhos eletrônicos em aula, “já
E a vida que ardia sem explicação
que fazem parte do dia a dia dessa nova ge-
ração” e, segundo sua percepção, houve mu- Explicação, não tem explicação
danças no processo de aprendizagem de seu Explicação, não
filho. “Ele se tornou mais motivado para 7al- Não tem explicação
gumas atividades escolares específicas nas Explicação, não tem
8
quais usa os aparelhos e apresentou mais Não tem explicação
autonomia para fazer pesquisa na internet Explicação, não tem
e criatividade no uso de programas relacio- Explicação, não tem
nados às artes gráficas”, relata. Mas Beatriz Não tem
não esconde suas preocupações, que são as Disponível em: http://letras.mus.br/cassia-eller/12570/.
mesmas de muitos pais e pesquisadores, Acesso em: 19.09.2015.

70
2. (G1-IFBA) As quatro primeiras orações da até noturnos, parece estar aumentando.
segunda estrofe apresentam os sujeitos clas- A demanda por cursos técnicos que elevam
sificados, respectivamente, em: suas habilidades para o bom exercício da
a) oculto, oculto, oculto, oculto. profissão está em alta. É tratada como priori-
b) oculto, oculto, simples, simples. dade tanto no governo como em instituições
c) simples, simples, simples, simples. representativas das empresas. O mercado ob-
d) oculto, indeterminado, simples, simples. serva a carência de pessoal qualificado para
e) indeterminado, indeterminado, simples, elevar a eficiência do trabalho.
simples. Muitos reconhecem que o Brasil é um dos
países emergentes que estão melhorando,
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO a duras penas, a sua distribuição de renda.
Mas, para que este processo de melhoria do
Quando se pergunta à população brasileira, bem-estar da população seja sustentável, há
em uma pesquisa de opinião, qual seria o que se conseguir um aumento da produtivi-
problema fundamental do Brasil, a maioria
dade do trabalho, que permita, também, o
indica a precariedade da educação. Os en-
aumento da parcela da renda destinada à
trevistados costumam apontar que o sistema
poupança, que vai sustentar os investimen-
educacional brasileiro não é capaz de prepa-
tos indispensáveis.
rar os jovens para a compreensão de textos
simples, elaboração de cálculos aritméticos A população que deseja melhores serviços
de operações básicas, conhecimento elemen- das autoridades precisa ter a consciência de
tar de física e química, e outros fornecidos que uma boa educação, não necessariamente
pelas escolas fundamentais. formal, é fundamental para atender melhor
[...] as suas aspirações.
Certa vez, participava de uma reunião de (YOKOTA, Paulo. Os problemas da educação no Brasil. Em
http://www.cartacapital.com.br/educacao/os-problemas-
pais e professores em uma escola privada da-educacao-no-brasil-657.html - Com adaptações)
brasileira de destaque e notei que muitos
pais expressavam o desejo de ter bons pro-
fessores, salas de aula com poucos alunos, 3. (G1 - col.naval 2015) Assinale a opção na
mas não se sentiam responsáveis para par- qual o termo oracional foi classificado corre-
ticiparem ativamente das atividades educa- tamente.
cionais, inclusive custeando os seus serviços. a) “[...] inclusive elegendo representantes que
Se os pais não conseguiam entender que esta partilhem desta convicção e não estejam
aritmética não fecha e que a sua aspiração pensando somente nos seus benefícios pes-
estaria no campo do milagre, parece difícil soais.” (5º §) (núcleo do predicado verbal)
que consigam transmitir aos seus filhos o b) “[...] e notei que muitos pais expressavam o
mínimo de educação. desejo de ter bons professores [...].” (2º §)
Para eles, a educação dos filhos não se ba-
(predicativo do sujeito)
seia no aprendizado dos exemplos dados pe-
c) “O mercado observa a carência de pessoal
los pais.
Que esta educação seja prioritária e ajude a qualificado para elevar a eficiência do traba-
resolver outros problemas de uma sociedade lho.” (7º §) (objeto indireto)
como a brasileira parece lógico. No entanto, d) “[...] mas não se sentiam responsáveis para
não se pode pensar que a sua deficiência de- participarem ativamente das atividades edu-
pende somente das autoridades. Ela começa cacionais, [...].” (2º §) (complemento nomi-
com os próprios pais, que não podem sim- nal)
plesmente terceirizar essa responsabilidade. e) “[...] parece difícil que consigam transmitir
Para que haja uma mudança neste quadro é aos filhos o mínimo de educação.” (2º §)
preciso que a sociedade como um todo esteja (objeto direto)
convencida de que todos precisam contribuir
para tanto, inclusive elegendo representan- 4. (Espcex (Aman) 2014) Assinale o sujeito do
tes que partilhem desta convicção e não es- verbo forjar, no período abaixo.
tejam pensando somente nos seus benefícios Chama atenção das pessoas atentas, cada vez
pessoais. mais, o quanto se forjam nos meios de comu-
Sobre a educação formal, aquela que pode nicação modelos de comportamento ao sabor
ser conseguida nos muitos cursos que estão
de modismos lançados pelas celebridades do
se tornando disponíveis no Brasil, nota-se
que muitos estão se convencendo de que eles momento.
ajudam na sua ascensão social, mesmo sendo a) meios de comunicação
precários. O número daqueles que trabalham b) modelos de comportamento
para obter o seu sustento e para ajudar a fa- c) modismos
mília, e ao mesmo tempo se dispões a fazer d) celebridades do momento
um sacrifício adicional frequentando cursos e) pessoas atentas
71
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO dar um conselho. Sou professor emérito da
Unicamp. O conselho é este: salvem-se en-
V – O samba quanto é tempo!”. Aí o sinal fica verde e eu
À direita do terreiro, adumbra-se* na escuri- continuo.
dão um maciço de construções, ao qual às ve- “Mas que desmancha-prazeres você é!”, vo-
zes recortam no azul do céu os trêmulos vis- cês me dirão. É verdade. Desmancha-praze-
lumbres das labaredas fustigadas pelo vento. res. Prazeres inocentes baseados no engano.
(...) Porque aquela alegria toda se deve precisa-
É aí o quartel ou quadrado da fazenda, nome mente a isto: eles estão enganados.
que tem um grande pátio cercado de senza- Estão alegres porque acreditam que a uni-
las, às vezes com alpendrada corrida em vol- versidade é a chave do mundo. Acabaram
ta, e um ou dois portões que o fecham como de chegar ao último patamar. As celebra-
praça d’armas. ções têm o mesmo sentido que os eventos
Em torno da fogueira, já esbarrondada pelo iniciáticos – nas culturas ditas primitivas,
chão, que ela cobriu de brasido e cinzas, dan- as provas a que têm de se submeter os jo-
çam os pretos o samba com um frenesi que vens que passaram pela puberdade. Passadas
toca o delírio. Não se descreve, nem se ima- as provas e os seus sofrimentos, os jovens
gina esse desesperado saracoteio, no qual deixaram de ser crianças. Agora são adultos,
todo o corpo estremece, pula, sacode, gira, com todos os seus direitos e deveres. Podem
bamboleia, como se quisesse desgrudar-se. assentar-se na roda dos homens. Assim como
os nossos jovens agora podem dizer: “Deixei
Tudo salta, até os crioulinhos que esper-
o cursinho. Estou na universidade”.
neiam no cangote das mães, ou se enrolam
Houve um tempo em que as celebrações eram
nas saias das raparigas. Os mais taludos vi-
justas. Isso foi há muito tempo, quando eu
ram cambalhotas e pincham à guisa de sapos
era jovem. Naqueles tempos, um diploma
em roda do terreiro. Um desses corta jaca universitário era garantia de trabalho. Os
no espinhaço do pai, negro fornido, que não pais se davam como prontos para morrer
sabendo mais como desconjuntar-se, atirou quando uma destas coisas acontecia: 1) a fi-
consigo ao chão e começou de rabanar como lha se casava. Isso garantia o seu sustento
um peixe em seco. (...) pelo resto da vida; 2) a filha tirava o diploma
José de Alencar, Til.
(*) “adumbra-se” = delineia-se, esboça-se.
de normalista. Isso garantiria o seu sustento
caso não casasse; 3) o filho entrava para o
5. (Fuvest 2013) Na composição do texto, fo- Banco do Brasil; 4) o filho tirava diploma.
ram usados, reiteradamente, O diploma era mais que garantia de emprego.
I. sujeitos pospostos; Era um atestado de nobreza. Quem tirava di-
II. termos que intensificam a ideia de movi- ploma não precisava trabalhar com as mãos,
mento; como os mecânicos, pedreiros e carpinteiros,
III.verbos no presente histórico. que tinham mãos rudes e sujas.
Está correto o que se indica em: Para provar para todo mundo que não traba-
lhavam com as mãos, os diplomados trata-
a) I, apenas.
vam de pôr no dedo um anel com pedra colo-
b) II, apenas.
rida. Havia pedras para todas as profissões:
c) III, apenas.
médicos, advogados, músicos, engenheiros.
d) I e II, apenas.
Até os bispos tinham suas pedras.
e) I, II e III. (Ah! Ia me esquecendo: os pais também se
davam como prontos para morrer quando o
6. (ITA) Texto 1 filho entrava para o seminário para ser pa-
Vou confessar um pecado: às vezes, faço mal- dre – aos 45 anos seria bispo – ou para o
dades. Mas não faço por mal. Faço o que fa- exército para ser oficial – aos 45 anos seria
ziam os mestres zen com seus “koans”. “Ko- general.)
ans” eram rasteiras que os mestres passavam Essa ilusão continua a morar na cabeça dos
no pensamento dos discípulos. Eles sabiam pais e é introduzida na cabeça dos filhos
que só se aprende o novo quando as certe- desde pequenos. Profissão honrosa é profis-
zas velhas caem. E acontece que eu gosto de são que tem diploma universitário. Profissão
passar rasteiras em certezas de jovens e de rendosa é a que tem diploma universitário.
velhos... Cria-se, então, a fantasia de que as únicas
Pois o que eu faço é o seguinte. Lá estão os opções de profissão são aquelas oferecidas
jovens nos semáforos, de cabeças raspadas e pelas universidades.
caras pintadas, na maior alegria, celebran- Quando se pergunta a um jovem “O que é
do o fato de haverem passado no vestibu- que você vai fazer?”, o sentido dessa per-
lar. Estão pedindo dinheiro para a festa! Eu gunta é “Quando você for preencher os for-
paro o carro, abro a janela e na maior serie- mulários do vestibular, qual das opções ofe-
dade digo: “Não vou dar dinheiro. Mas vou recidas você vai escolher?”. E as opções não
72
oferecidas? Haverá alternativas de trabalho sua primitiva condição.
que não se encontram nos formulários de Não parece absurdo relacionar a tal circuns-
vestibular? tância um traço constante de nossa vida so-
Como todos os pais querem que seus filhos cial: a posição suprema que nela detêm, de
entrem na universidade e (quase) todos os ordinário, certas qualidades de imaginação
jovens querem entrar na universidade, con- e “inteligência”, em prejuízo das manifesta-
figura-se um mercado imenso, mas imenso ções do espírito prático ou positivo. O pres-
mesmo, de pessoas desejosas de diplomas e tígio universal do “talento”, com o timbre
prontas a pagar o preço. Enquanto houver particular que recebe essa palavra nas regi-
jovens que não passam nos vestibulares das ões, sobretudo, onde deixou vinco mais forte
universidades do Estado, haverá mercado a lavoura colonial e escravocrata, como o são
para a criação de universidades particulares. eminentemente as do Nordeste do Brasil, pro-
É um bom negócio.
vém sem dúvida do maior decoro que parece
Alegria na entrada. Tristeza ao sair. Forma-
conferir a qualquer indivíduo o simples exer-
-se, então, a multidão de jovens com diplo-
cício da inteligência, em contraste com as ati-
ma na mão, mas que não conseguem arranjar
emprego. Por uma razão aritmética: o núme- vidades que requerem algum esforço físico.
ro de diplomados é muitas vezes maior que o O trabalho mental, que não suja as mãos e não
número de empregos. fatiga o corpo, pode constituir, com efeito,
Já sugeri que os jovens que entram na uni- ocupação em todos os sentidos digna de an-
versidade deveriam aprender, junto com o tigos senhores de escravos e dos seus herdei-
curso “nobre” que frequentam, um ofício: ros. Não significa forçosamente, neste caso,
marceneiro, mecânico, cozinheiro, jardinei- amor ao pensamento especulativo, – a ver-
ro, técnico de computador, eletricista, enca- dade é que, embora presumindo o contrário,
nador, descupinizador, motorista de trator... dedicamos, de modo geral, pouca estima às
O rol de ofícios possíveis é imenso. Pena que, especulações intelectuais – mas amor à frase
nas escolas, as crianças e os jovens não se- sonora, ao verbo espontâneo e abundante, à
jam informados sobre essas alternativas, por erudição ostentosa, à expressão rara. E que
vezes mais felizes e mais rendosas. para bem corresponder ao papel que, mesmo
Tive um amigo professor que foi guindado, sem o saber, lhe conferimos, inteligência há
contra a sua vontade, à posição de reitor de de ser ornamento e prenda, não instrumento
um grande colégio americano no interior de de conhecimento e de ação.
Minas. Ele odiava essa posição porque era Numa sociedade como a nossa, em que cer-
obrigado a fazer discursos. E ele tremia de tas virtudes senhoriais ainda merecem largo
medo de fazer discursos. Um dia ele desapa- crédito, as qualidades do espírito substituem,
receu sem explicações. Voltou com a família não raro, os títulos honoríficos, e alguns
para o seu país, os Estados Unidos. Tempos dos seus distintivos materiais, como o anel
depois, encontrei um amigo comum e per- de grau e a carta de bacharel, podem equi-
guntei: “Como vai o Fulano?”. Respondeu- valer a autênticos brasões de nobreza. Aliás,
-me: “Felicíssimo. É motorista de um cami-
o exercício dessas qualidades que ocupam a
nhão gigantesco que cruza o país!”.
(Rubem Alves. Diploma não é solução,
inteligência sem ocupar os braços, tinha sido
Folha de S. Paulo, 25/05/2004.) expressamente considerado, já em outras
épocas, como pertinente aos homens nobres
Texto 2 e livres, de onde, segundo parece, o nome de
liberais dado a determinadas artes, em opo-
Com o declínio da velha lavoura e a quase sição às mecânicas que pertencem às classes
concomitante ascensão dos centros urbanos, servis.
precipitada grandemente pela vinda, em (Sérgio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil. Rio
1808, da Corte Portuguesa e depois pela In- de Janeiro: José Olympio, 1984, p. 50-51)
dependência, os senhorios rurais principiam
a perder muito de sua posição privilegiada e Assinale a opção que expressa o que há de
singular. Outras ocupações reclamam agora comum nos Textos 1 e 2.
igual eminência, ocupações nitidamente cita- a) Os equívocos nas escolhas profissionais dos
dinas, como a atividade política, a burocracia, jovens.
as profissões liberais. b) A absorção de profissionais de trabalho inte-
É bem compreensível que semelhantes ocu-
lectual pelo mercado.
pações venham a caber, em primeiro lugar, à
gente principal do país, toda ela constituída c) O crescimento dos centros urbanos e das pro-
de lavradores e donos de engenhos. E que, fissões que lhes são típicas.
transportada de súbito para as cidades, essa d) A valorização do trabalho intelectual em de-
gente carregue consigo a mentalidade, os pre- trimento do trabalho manual.
conceitos e, tanto quanto possível, o teor de e) A formação histórico-social da distinção en-
vida que tinham sido atributos específicos de tre o trabalho intelectual e manual.
73
7. (G1-Utfpr) Antigamente as moças chama- mas não divulgamos, temos pudor de nos
vam-se “mademoiselles” e eram todas mi- exibir, de mostrar ao país o que somos”.
mosas e muito prendadas. Não faziam anos: Ele acredita que de fora se tem uma visão re-
completavam primaveras, em geral dezoito. gionalista limitada à memória e à questão do
Os janotas, mesmo não sendo rapagões, fa- patrimônio histórico, à longa tradição de pe-
ziam-lhe pé de alferes, arrastando a asa, mas dra e cal da cultura mineira. Sem descuidar
ficavam longos meses debaixo do balaio. E se desse acervo (só de barroco estão ali 65% do
levavam tábua, o remédio era tirar o cavalo patrimônio nacional), o desafio dos gover-
da chuva e ir pregar em outra freguesia. (...) nantes mineiros é mostrar sem reserva o que
Os mais idosos, depois da janta, faziam o Minas tem de mais moderno, cosmopolita e
quilo, saindo para tomar a fresca; e também contemporâneo.
tomavam cautela de não apanhar o sereno. Mas acho que não será fácil assim. A não ser
Os mais jovens, esses iam ao animatógrafo, meu amigo Ziraldo, que adora se mostrar,
chupando balas de alteia. Ou sonhavam em tendo aliás razão para isso, que outro mi-
andar de aeroplano. Estes, de pouco siso, se neiro vocês imaginam chamando a atenção
metiam em camisa de onze varas e até em para o que está fazendo? Num artigo famoso,
calças pardas; não admira que dessem com Guimarães Rosa listou 66 adjetivos com os
os burros n’água. quais são caracterizados seus conterrâneos.
Carlos Drummond de Andrade Eles vão de “acanhado, afável, desconfiado”
Sobre o excerto acima, retirado da crônica até “sonso, sóbrio, taciturno, tímido”, pas-
“Antigamente”, assinale a alternativa cor- sando por “precavido, pão-duro, perspicaz,
reta. quieto, irônico, meditativo”.
a) A linguagem culta formal é opção feita pelo Fernando Sabino, que conhece a alma minei-
autor, mas acaba sendo prejudicada pelos ar- ra como a dele próprio, tem várias histórias
caísmos, que tornam o texto obsoleto. para ilustrar como seus conterrâneos ficam
b) A linguagem do texto apoia-se em uma va- sempre na moita. Mineiro não gosta de reve-
riante linguística que demonstra o movi- lar nem a identidade.
mento de mudanças constantes que as lín- — Qual é o seu nome todo? — pergunta o
guas sofrem, através do tempo. carioca.
c) Por empregar expressões em desuso, existen- — Diz a parte que você sabe — desconversa
tes apenas nos dicionários, o texto desperta o mineiro.
interesse apenas dos mais idosos. Nessa aqui o escritor conta o diálogo com um
d) Contém erros grosseiros, como o uso de pa- motorista mineiro em Nova York:
lavra estrangeira, expressões incompreensí- — Ah, você também é de Minas?
veis como “pé de alferes”, “faziam o quilo”, — Sou sim sinhô.
“de pouco siso” etc. — De onde?
e) O saudosismo do autor confere ao texto um — De Minas mesmo.
tom muito triste, nostálgico. Se consegue esconder até de onde é, imagina
quando lhe pedem uma opinião política.
8. (UEMG) Texto I — Que tal o prefeito daqui?
— O prefeito? É tal qual eles falam dele.
As últimas do mineiro — Que é que falam dele?
Zuenir Ventura — Dele? Uai, esse trem todo que falam de
tudo que é prefeito.
Talvez porque numa das vezes em que al- Há quem alegue que o que se diz em forma
guém bateu com a língua nos dentes um
de anedota está longe de ser a verdade sobre
pescoço foi parar na forca, Minas trabalha
Minas, são apenas versões. Então me lembro
em silêncio, como se diz. Pode não ser verda-
do dia em que alguém reclamou de José Ma-
de, mas é a versão, que acaba prejudicando
ria Alkmim: “Criei a frase ‘o que importa é
mais do que favorecendo a imagem de um
a versão, não o fato’, e todo mundo atribui
estado que, além das riquezas naturais e de
ela a você. Ao que ele respondeu: “Isso só
uma poderosa tradição política, tem o maior
confirma a frase.”
patrimônio histórico-cultural do país. Numa
Portanto, imprima-se a versão.
época de predomínio do marketing, em que
o importante é mostrar mais do que fazer, Texto II
ficar calado no seu canto pode não ser um Os princípios da conversa
bom negócio. José Luiz Fiorin
Como afirma um amigo de Belo Horizonte,
“temos os melhores grupos de dança do país, As condições gerais de linguagem que permi-
cantores e compositores excelentes, artistas tem fazer inferências na troca verbal
plásticos e grupos teatrais de alta qualidade, Uma anedota conhecida conta que um agente
74
alfandegário pergunta a um passageiro que MÁXIMAS CONVERSACIONAIS
desembarcara de um voo internacional e Máximas da quantidade
passava pela aduana: a) Que sua contribuição contenha o tanto de
– Licor, conhaque, grapa...? informação exigida;
O passageiro responde: b) Que sua contribuição não contenha mais
– Para mim, só um cafezinho. informação do que é exigido.
A graça da piada reside no fato de que o pas- Máximas da qualidade (da verdade)
sageiro fez, propositadamente ou não, uma a) Que sua contribuição seja verídica;
inferência errada nessa situação de comu- b) Não diga o que pensa que é falso;
c) Não afirme coisa de que não tem provas.
nicação. Inferiu que o fiscal aduaneiro lhe
Máxima da relação (da pertinência)
oferecia um digestivo, como no final de uma
Fale o que é concernente ao assunto tratado
refeição num restaurante, quando, na rea-
(seja pertinente).
lidade, a inferência correta é se ele trazia
Máximas de maneira
alguma bebida alcoólica na bagagem. Ele Seja claro.
violou o princípio de pertinência que rege o a) Evite exprimir-se de modo obscuro;
uso da linguagem. b) Evite ser ambíguo;
Chama-se inferência pragmática aquela que c) Seja breve (evite a prolixidade inútil);
resulta do uso dos princípios que governam d) Fale de maneira ordenada.
a utilização da linguagem na troca verbal. http://revistalingua.com.br/textos/100/
Paul Grice (1975) postula que um princípio artigo304577-1.asp. (Adaptado).
de cooperação preside à comunicação. Ele
Em conformidade com a explicação dada
enuncia-se assim: sua contribuição à comu-
pelo texto II, é correto afirmar que os diá-
nicação deve, no momento em que ocorre,
logos citados no texto I contêm exemplos de
estar de acordo com o objetivo e a direção
desobediência à máxima da:
em que você está engajado. a) qualidade, pelo fato de que o mineiro, com
Categorias medo de se expor, apresenta informações
Esse princípio é explicitado por quatro cate- falsas em suas respostas.
gorias gerais – a da quantidade das informa- b) pertinência, haja vista que o mineiro muda
ções dadas, a de sua verdade, a de sua perti- de assunto quando indagado a respeito de
nência e a da maneira como são formuladas, temas notadamente polêmicos.
que constituem as máximas conversacionais. c) quantidade, uma vez que o mineiro, ao dar
(...) respostas, não fornece detalhes suficientes
Não são regras que satisfaçam às perguntas.
Pode-se infringir uma máxima para não d) maneira, em razão de o mineiro atribuir du-
transgredir outra, cujo respeito é considera- plo sentido às perguntas, de sorte que suas
do mais importante. respostas não condigam com as perguntas.
No exemplo que segue, a resposta do inter-
locutor viola a máxima da quantidade para TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES
não desobedecer à da qualidade:
– Onde João trabalha? Ele saiu daquela fir- A PRESSA DE ACABAR
ma?
Evidentemente nós sofremos agora em todo
– No Rio de Janeiro. o mundo de uma dolorosa moléstia: a pres-
Com efeito, quem pergunta quer de fato sa de acabar. Os nossos avós nunca tinham
saber é a firma onde João presta serviços. pressa. Ao contrário. Adiar, aumentar, era
A resposta mais vaga permite inferir que o para eles a suprema delícia. Como os reló-
interlocutor não sabe exatamente onde João gios, nesses tempos remotos, não eram ma-
trabalha. ravilhas de precisão, os 1homens mediam os
Pode-se explorar a infringência de uma má- dias com todo o cuidado da atenção.
xima com vistas a criar um dado efeito de Sim! Em tudo, 2essa estranha pressa de aca-
sentido. Por exemplo, a ironia é a exploração bar se ostenta como a marca do século. Não
de uma transgressão da máxima da qualida- há mais livros definitivos, quadros destina-
de. O que o texto irônico está dizendo não é dos a não morrer, ideias imortais. Trabalha-
verdade. Deve-se entendê-lo pelo avesso. No -se muito mais, pensa-se muito mais, ama-
exemplo que segue, “modesto” quer dizer o -se mesmo muito mais, apenas sem fazer a
oposto: digestão e sem ter tempo de a fazer.
“‘Tenho uma voz conhecida, então não é qualquer narrador, Antigamente as horas eram entidades que os
é o Falabella contando a história’, diz o modesto autor- homens conheciam imperfeitamente. Calcu-
locutor” (+ Miguel Falabella) (Veja, 11/1/2012, p. 109) lar a passagem das horas era tão complicado
75
como calcular a passagem dos dias. 3Inven- 10. (UERJ) O homem cinematográfico resolveu
tavam-se relógios de todos os moldes e for- a suprema insanidade: encher o tempo, ato-
mas. petar o tempo, abarrotar o tempo, paralisar
4
Hoje, nós somos escravos das horas, dessas o tempo para chegar antes dele. (ref. 7)
senhoras inexoráveis* que não cedem nun- De acordo com a leitura global do texto, o
ca e cortam o dia da gente numa triste mi- autor caracteriza a tentativa de controlar o
galharia de minutos e segundos. Cada hora tempo como “suprema insanidade”, porque
é para nós distinta, pessoal, característica, se trata de uma tarefa que não está ao alcan-
porque cada hora representa para nós o acú- ce do homem.
mulo de várias coisas que nós temos pressa O trecho que melhor expõe a insanidade des-
de acabar. O relógio era um objeto de luxo. sa tentativa é:
a) homens mediam os dias com todo o cuidado
Hoje até os mendigos usam um marcador de
da atenção. (ref. 1)
horas, porque têm pressa, pressa de acabar.
b) Inventavam-se relógios de todos os moldes e
O homem mesmo será classificado, afirmo eu
formas. (ref. 3)
já com pressa, como o Homus cinematogra-
c) O homem de agora é como a multidão: ativo
phicus. 5Nós somos uma delirante sucessão e imediato. (ref. 6)
de fitas cinematográficas. Em meia hora de d) sua, labuta, desespera com os olhos fitos
sessão tem-se um espetáculo multiforme e nesse hipotético poste (ref. 8)
assustador cujo título geral é: Precisamos
acabar depressa.
6
O homem de agora é como a multidão: ati-
vo e imediato. Não pensa, faz; não pergunta,
E.O. TESTE II
obra; não reflete, julga.
7
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
O homem cinematográfico resolveu a supre-
ma insanidade: encher o tempo, atopetar o A questão a seguir refere-se ao fragmento de
tempo, abarrotar o tempo, paralisar o tempo Capitães da Areia reproduzido abaixo.
para chegar antes dele. Todos os dias (dias
em que ele não vê a beleza do sol ou do céu e O TRAPICHE
a doçura das árvores porque não tem tempo, SOB A LUA, NUM VELHO TRAPICHE ABANDO-
diariamente, nesse número de horas reta- NADO, as crianças dormem.
lhadas em minutos e segundos que uma po- Antigamente aqui era o mar. Nas grandes e
pulação de relógios marca, registra e desfia), negras pedras dos alicerces do trapiche as
o pobre diabo 8sua, labuta, desespera com os ondas ora se rebentavam fragorosas, ora vi-
olhos fitos nesse hipotético poste de chega- nham se bater mansamente. A água passava
da que é a miragem da ilusão. por baixo da ponte sob a qual muitas crian-
Uns acabam pensando que encheram o tem- ças repousam agora, iluminadas por uma
po, que o mataram de vez. Outros desespe- réstia amarela de lua. Desta ponte saíram
rados vão para o hospício ou para os cemité- inúmeros veleiros carregados, alguns eram
rios. A corrida continua. E o Tempo também, enormes e pintados de estranhas cores, para
o Tempo insensível e incomensurável, o a aventura das travessias marítimas. Aqui
Tempo infinito para o qual todo o esforço é vinham encher os porões e atracavam nesta
inútil, o Tempo que não acaba nunca! É sata- ponte de tábuas, hoje comidas. Antigamente
nicamente doloroso. Mas que fazer? diante do trapiche se estendia o mistério do
RIO, João do. Adaptado de Cinematógrafo: mar oceano, as noites diante dele eram de
crônicas cariocas. Rio de Janeiro: ABL, 2009. um verde escuro, quase negras, daquela cor
misteriosa que é a cor do mar à noite.
* inexoráveis − que não cedem, implacáveis Hoje a noite é alva em frente ao trapiche. É
que na sua frente se estende agora o areal
do cais do porto. Por baixo da ponte não há
9. (UERJ) Nós somos uma delirante sucessão mais rumor de ondas. A areia invadiu tudo,
de fitas cinematográficas. (ref. 5) fez o mar recuar de muitos metros. Aos pou-
Ao comparar os seres humanos com filmes, o cos, lentamente, a areia foi conquistando a
autor estabelece uma crítica. frente do trapiche. Não mais atracaram na
No contexto, essa crítica pode ser sintetiza- sua ponte os veleiros que iam partir carre-
da pelo seguinte termo: gados. Não mais trabalharam ali os negros
a) insubordinação das hierarquias musculosos que vieram da escravatura. Não
b) coisificação das pessoas mais cantou na velha ponte uma canção um
c) arrogância desmedida marinheiro nostálgico. A areia se estendeu
d) intolerância moral muito alva em frente ao trapiche. E nunca
76
mais encheram de fardos, de sacos, de cai- e) O substantivo “telegrama”, no último ver-
xões, o imenso casarão. Ficou abandonado so do poema, é um adjunto adnominal de
em meio ao areal, mancha negra na brancu- “bola”.
ra do cais.
AMADO, Jorge. Capitães da Areia. São Paulo:
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
Companhia das Letras, 2009. p. 25.
QUEM É O CRIMINOSO?
1. (UFRN) Para fazer uma leitura proficiente
do fragmento, é necessário que o leitor, en- “Outro dia, durante uma conversa despre-
tre outros procedimentos, recupere as rela- tensiosa, um dos líderes da Central Única
ções sintático-semânticas ali estabelecidas. de Favela (Cufa), entidade surgida no Rio
Assim, os sujeitos dos quatro últimos perío- de Janeiro para representar os favelados do
dos do fragmento, considerando-se a ordem país, descrevia uma cena que presenciou du-
de ocorrência, são: rante anos a fio em sua vida: ‘É o bacana da
a) “um marinheiro nostálgico”, “a areia”, “os Zona Sul estacionar seu Mitsubishi no pé do
negros musculosos” e “o imenso casarão”.
morro e comprar cocaína de um garotinho de
b) “uma canção”, “a areia”, “os negros muscu-
12 anos’. Em seguida, fez uma pergunta per-
losos” e “um marinheiro nostálgico”.
turbadora: ‘Quem é o criminoso? O bacana
c) “um marinheiro nostálgico”, “a areia”, “o
da Zona Sul ou o garoto de 12 anos?’. E deu
imenso casarão”, “o imenso casarão”.
a resposta: ‘Para vocês, o garoto de 12 anos
d) “uma canção”, “a areia”, “o imenso casarão”
tem de ser preso porque ele é um traficante
e “um marinheiro nostálgico”.
de drogas. Para nós, tem de prender o bacana
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO da Zona Sul porque ele está aliciando meno-
res para o crime’. Não resta dúvida de que a
De um jogador brasileiro a um técnico es- situação retrata um dilema poderoso: de um
panhol lado, tem-se uma vítima do vício induzida
João Cabral de Melo Neto ao crime de comprar drogas e, de outro, tem-
Não é a bola alguma carta -se uma vítima da pobreza e da desigualdade
que se leva de casa em casa: 5induzida ao crime de vendê-las. Na ceguei-
ra legal em que vivemos, a solução é simples:
é antes telegrama que vai prendem-se vendedor e comprador.
de onde o atiram ao onde cai. (...)
Começa agora a surgir uma alternativa mais
Parado, o brasileiro a faz
realista com a intenção do governo federal de
ir onde há-de, sem leva e traz;
implantar a chamada 1’política de redução
com aritméticas de circo de danos’. Ou seja: em vez de punir os 3usu-
ele a faz ir onde é preciso; ários, tratando-os como criminosos, passa-se
a encará-los como doentes e atendê-los de
em telegrama, que é sem tempo
modo a reduzir os riscos a que estão 4expos-
ele a faz ir ao mais extremo.
tos - como a overdose, aids, hepatite e outras
doenças. É mais realista porque 6a repressão
Não corre: ele sabe que a bola,
do uso de drogas é uma política bem-inten-
Telegrama, mais que corre voa.
cionada, na qual se pretende a purificação
(Disponível em: <http://www.revista.agulha.nom.br/
futebol.html#jogador> Acesso em: 12 out. 2011.) pela via da punição, mas que tem se mostra-
do sistematicamente falha. A ideia brasileira
2. (G1-IFPE) Quanto aos aspectos morfossintá- - já em uso em outros países, e não apenas
ticos do texto, assinale a alternativa correta. na Holanda - é um pedaço de bom senso e
a) O sujeito das duas primeiras estrofes é inde- humildade. 2Encarar um viciado como doen-
terminado, como se verifica pelos verbos “se te é um enfoque justo e generoso.”
leva” e “atiram”. André Petry. Revista VEJA, 24 de novembro de 2004, p. 50.
b) O predicado em “Não é a bola alguma car-
ta” e “é antes telegrama...” é verbal, pois os 3. (G1-Cftce) “... a repressão do uso de drogas
verbos indicam o estado da bola. é uma política bem-intencionada” (ref. 6) -
c) O sujeito simples “brasileiro” da terceira es- verifica-se que o predicado é:
trofe é retomado nas demais estrofes pelo a) verba.l
pronome “ele”. b) nominal.
d) O predicado da oração “Ele a faz ir”, na quar- c) verbo-nominal.
ta e quinta estrofes, é verbo-nominal, pois d) nominal, porque o verbo é intransitivo.
indica ação e descreve a bola. e) verbal, porque o verbo é de ligação.
77
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO ataque terrorista. Olha aí no que dá defen-
der minoria...
CONSIDERAÇÃO DO POEMA A esquerda francesa defende minorias.
(Fragmento) Membros de uma minoria são suspeitos pelo
Não rimarei a palavra sono ataque terrorista. A esquerda francesa é cul-
com a incorrespondente palavra outono. pada pelo ataque terrorista.
Rimarei com a palavra carne A extrema direita francesa demoniza os
ou qualquer outra, que TODAS ME convêm. imigrantes. O ataque terrorista fortalece a
As palavras não nascem amarradas, extrema direita francesa. A extrema direita
ELAS saltam, se beijam, se dissolvem, francesa está por trás do ataque terrorista.
no céu livre por vezes um desenho, Marine Le Pen é a líder da extrema direita
são PURAS, largas, autênticas, indevassáveis. francesa. “Le Pen” é “O Caneta”, se tomar-
mos o artigo em francês e o substantivo em
4. (FEI) Observe o verso: inglês. Eis aí uma demonstração de apoio
“As palavras não nascem amarradas” da extrema direita francesa à liberdade de
Assinale a alternativa em que o sujeito e o expressão – e aos erros de concordância no-
predicado da oração estejam corretamente minal.
analisados: Numa democracia, é desejável que as pessoas
a) sujeito composto e predicado nominal sejam livres para se expressar. Algumas des-
b) sujeito simples e predicado verbo-nominal sas expressões podem ofender indivíduos ou
c) sujeito composto e predicado verbal grupos. Numa democracia, é desejável que
d) sujeito simples e predicado nominal indivíduos ou grupos sejam ofendidos.
e) sujeito simples e predicado verbal Os terroristas que atacaram o jornal Charlie
Hebdo usavam gorros pretos. “Black blocs”
5. (G1 1996) A alternativa que classifica incor- usam gorros pretos. “Black blocs” são terro-
retamente o predicado é: ristas.
a) Os meninos pequenos brincavam no quintal. 1
Todo abacate é verde. O Incrível Hulk é ver-
(predicado verbal) de. O Incrível Hulk é um abacate.
b) Os pássaros são aves frágeis. (predicado no- Antonio Prata
minal) Adaptado de Folha de São Paulo, 11/01/2015.
c) Os pássaros saíram apressados da gaiola.
(predicado verbal) 6. (UERJ) Considere o último parágrafo do tex-
d) Cedo, os meninos já queriam as bicicletas. to.
(predicado verbal) Todo abacate é verde. O Incrível Hulk é verde.
e) O ladrão fugiu apavorado. (predicado verbo- O Incrível Hulk é um abacate. (ref. 1)
-nominal) Todo argumento pode se tornar um sofisma:
um raciocínio errado ou inadequado que nos
TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 4 QUESTÕES leva a conclusões falsas ou improcedentes. O
último parágrafo do texto é um exemplo de
TERRORISMO LÓGICO sofisma, considerando que, da constatação
de que todo abacate é verde, não se pode de-
O TERRORISMO É DUPLAMENTE OBSCURAN- duzir que só os abacates têm cor verde.
TISTA: PRIMEIRO NO ATENTADO, DEPOIS NAS Esse é o tipo de sofisma que adota o seguinte
REAÇÕES QUE DESENCADEIA. procedimento:
Said e Chérif Kouachi eram descendentes de a) enumeração incorreta
imigrantes. Said e Chérif Kouachi são sus- b) generalização indevida
peitos do ataque ao jornal Charlie Hebdo, c) representação imprecisa
na França. Se não houvesse imigrantes na d) exemplificação inconsistente
França, não teria havido ataque ao Charlie
Hebdo. 7. (UERJ) O terrorismo é duplamente obscu-
Said e Chérif Kouachi, suspeitos do ataque rantista: primeiro no atentado, depois nas
ao jornal Charlie Hebdo, eram filhos de arge- reações que desencadeia.
linos. Zinedine Zidane é filho de argelinos. O subtítulo do texto sugere uma explicação
Zinedine Zidane é terrorista. para o título.
Zinedine Zidane é filho de argelinos. Said e Essa explicação é melhor compreendida pela
Chérif Kouachi, suspeitos do ataque ao jor- associação entre:
nal Charlie Hebdo, eram filhos de argelinos. a) tiros e opiniões.
Said e Chérif Kouachi sabiam jogar futebol. b) armas e negociações.
Muçulmanos são uma minoria na França. c) convicções e mentiras.
Membros de uma minoria são suspeitos do d) crenças e esclarecimentos.
78
8. (UERJ) Considere o último parágrafo do tex- Ela não quer sair de casa. Não é teimosia, é
to. falta de opção. 2“Para onde ir?”, pergunta,
Todo abacate é verde. O Incrível Hulk é verde. com uma voz desesperançosa. Está tão con-
O Incrível Hulk é um abacate. (ref. 1) fusa que não consegue imaginar saídas.
Este parágrafo indica como o leitor deve ler Nem a piedade de enterrar os mortos o go-
todos os anteriores. verno permite. Cadáveres estão espalhados
Segundo essa indicação, os argumentos pelas ruas. As forças de Assad 3impediram de
apresentados pelo cronista devem ser com- sepultar ou mesmo remover os restos mor-
preendidos como:
tais. Ou seja, mesmo viva, ela não tem como
a) críticas irônicas
fugir da morte escancarada diante de seus
b) exercícios formais
olhos. Não é fácil acreditar na vida, quando
c) raciocínios aceitáveis
a realidade grita o contrário.
d) recriações linguísticas
Se não podem sepultar os mortos, os sobre-
viventes tentam ao menos ajudar a curar as
9. (UERJ) Antonio Prata, ao comentar o ataque
ao jornal Charlie Hebdo, construiu uma série feridas dos machucados. Não podem levá-los
de variações do argumento típico do méto- aos hospitais da cidade, já que há um medo
do dedutivo, conhecido como “silogismo” e generalizado de que o governo prenda os fe-
normalmente organizado na forma de três ridos como se fossem prisioneiros de guerra.
sentenças em sequência. Resta improvisar atendimento nos campos.
A organização do silogismo sintetiza a es- Não bastasse a precariedade do atendimen-
trutura do próprio método dedutivo, que se to, não há medicamentos suficientes.
encontra melhor apresentada em: Rebeca, de 32 anos, é trabalhadora autôno-
a) premissa geral – premissa particular – con- ma. Ou melhor, 4era. Agora já não sabe mais
clusão o que é e o que faz em sua cidade Damasco,
b) premissa particular – premissa geral – con- capital da Síria.
clusão Crônica parafraseada do depoimento de uma
c) premissa geral – segunda premissa geral – moradora da capital da Síria (identificada
conclusão particular apenas pela letra “R”) ao jornal Folha de
d) premissa particular – segunda premissa par- São Paulo, de quarta-feira, dia 25. A Síria
ticular – conclusão geral está em revolta há 16 meses contra a dita-
dura de Bashar al-Assad. Nos últimos dias, o
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
confronto contra os rebeldes se acirrou e as
Crônica parafraseada de uma Síria em guerra mortes aumentaram.
Disponível em: <http://ultimato.com.br/sites/
Ela abre os olhos. Não fosse o cheiro horrível
fatosecorrelatos/2012/07/26/cronica-parafraseada-
de morte, o silêncio seria até agradável, mas
de-uma-siria-em-guerra/> Acesso em: 14 set. 2015.
o olfato a lembra que não há paz 1– nem pes-
soas, vizinhos, crianças. A trégua na manhã- 10. (G1-Ifsul) Sobre o texto, são feitas as se-
zinha não traz esperança. Tão somente lhe guintes afirmações:
permite descansar o corpo, mas não a mente. I. A narradora, um dia após um bombardeio
As lembranças da noite anterior ainda pro-
na cidade de Damasco, conta um episódio
duzem sobressaltos. Bombas, casas caindo e
trágico por ela vivido.
soldados gritando.
II. O texto descreve o drama de uma refu-
Levanta-se, bebe o pouco da água que restou
giada síria, em Damasco, que se depara
do copo ao lado da cama. Já não é tão lim-
pa, nem farta como antes. Sempre um gosto cotidianamente com a morte.
amargo misturado com H2O. III.A crônica foi inspirada em um caso ve-
Abre a geladeira, e só encontra comida enla- rídico relatado por uma sobrevivente da
tada e congelada. E mesmo não tão congela- guerra na Síria.
da assim, já que os cortes diários de eletrici- IV. A narradora, intitulada Rebeca, vive uma
dade derretem as camadas de gelo. situação dramática: a guerra na Síria.
Os sobrinhos ainda dormem, e ela tenta orar. Está(ão) correta(s) a(s) afirmativa(s):
Não consegue. A mente desconcentra-se fa- a) I, II, III e IV.
cilmente. Em uma prece fragmentada, pede b) I e IV apenas.
a Deus descanso e trégua. E faz a oração sem c) III apenas.
pensar muito. Não precisa; é a mesma oração d) II, III e IV apenas.
das últimas semanas.
79
E.O. TESTE III incluem seu sucesso econômico e a valori-
zação que ele confere ao currículo. “A gente
sabe que não vai ficar 40 anos em um mesmo
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO lugar, por isso já se prepara para coisas no-
vas”, diz Mosaner.
Os ideais da nossa Geração Y 7
Apesar de mais pragmáticos, os universitá-
5 rios brasileiros, assim como os americanos e
Uma pesquisa inédita mostra como pensam
europeus, 8consideram como objetivo máxi-
os jovens que estão entrando no mercado de
mo equilibrar trabalho e vida pessoal. 6Quem
trabalho. Eles são bem menos idealistas que
pensa em americanos como viciados em tra-
os americanos.
balho e em europeus como cultivadores dos
Daniella Cornachione
prazeres da vida talvez precise reavaliar as
1
Quando o jornalista Otto Lara Resende, dian- crenças diante da geração que está saindo da
te das câmeras de TV, pediu ao dramaturgo faculdade: o bom balanço entre trabalho e
Nelson Rodrigues que desse um conselho aos vida pessoal é a meta número um de 49%
jovens telespectadores, a resposta foi con- dos brasileiros, 52% dos europeus e... 65%
tundente: “Envelheçam!”. A recomendação dos americanos.
foi dada no programa de entrevistas Painel, (ÉPOCA, 21 de junho de 2010)

exibido pela Rede Globo em 1977. Pelo me- 1. (Epcar (Afa) 2011) Assinale a alternativa
nos no quesito trabalho, os brasileiros perto em que a relação foi estabelecida correta-
dos 20 anos de idade parecem dispensar o mente.
conselho. 9Apesar de começarem a procurar a) Em “O trabalho precisa ser desafiador”, o
emprego num momento de otimismo econô- substantivo “trabalho” é sujeito da oração,
mico, quase eufórico, os jovens brasileiros e o adjetivo “desafiador”, sua atribuição.
têm expectativas de carreira bem menos ide- b) Nas palavras desenvolvimento, possibilida-
alistas que os americanos e europeus — e de, e improvável, os encontros destacados
olha que por lá eles estão enfrentando uma são denominados dígrafos.
crise brava. É o que revela uma pesquisa da c) Nos vocábulos valorização, treinamento e
consultoria americana Universum, feita em dia foram destacados os ditongos.
25 países. (...). No estudo, chamado Empre- d) A locução “de acordo com”, ref.11, introduz
gador ideal, universitários expressam seus uma ideia comparativa.
desejos em relação às empresas, em diver-
sos quesitos. O Brasil é o primeiro país sul- TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
-americano a participar -- foram entrevista-
dos mais de 11 mil universitários no país de Nos últimos três anos foram assassinadas
fevereiro a abril. mais de 140 mil pessoas no Brasil. Uma mé-
11
De acordo com o estudo, 4dois em cada três dia de 47 mil pessoas por ano. Uma parcela
universitários brasileiros acham que o em- expressiva destas mortes, que varia de re-
pregador ideal oferece, em primeiro lugar, gião para região, é atribuída à ação da po-
treinamento e desenvolvimento — quer di- lícia, que se respalda na impunidade para
zer, a possibilidade de virar um profissional continuar cometendo seus crimes. São 25 as-
melhor. A mesma característica é valoriza- sassinatos ao ano por cada 100 mil pessoas,
da só por 38% dos americanos, que colocam índice considerado de violência epidêmica,
no topo das prioridades, neste momento, segundo organismos internacionais.
a estabilidade no emprego. 3Os brasileiros Se os assassinatos com armas de fogo são
apontaram como segundo maior objetivo a uma face da violência vivida na nossa socie-
possibilidade de empreender, criar ou ino- dade, ela não é a única. Logo atrás, em ter-
var, numa disposição para o risco que parece mos de letalidade, estão os acidentes fatais
estar diminuindo nos Estados Unidos. de trânsito, com cerca de 33 mil mortos em
O paulista Guilherme Mosaner, analista de 2002 e 35 mil mortes por ano em 2004 e
negócios de 25 anos, representa bem as pre- 2005. Isto, sem falar nos acidentados não fa-
ocupações brasileiras. “O trabalho precisa tais socorridos pelo Sistema Único de Saúde,
ser desafiador. Tenho de aprender algo todo que multiplicam muitas vezes os números
dia.” 10Mosaner trabalha há um ano e meio aqui apresentados e representam um custo
em uma empresa de administração de patri- que o IPEA estima em R$ 5,3 bilhões para o
mônio, mas acha improvável construir a car- ano de 2002.
reira numa mesmacompanhia, assim como A lista da violência alonga-se incrivelmen-
metade dos estudantes brasileiros entrevis- te. Sobre as mulheres, os negros, os índios,
tados pela Universum. 2Entre as boas quali- os gays, sobre os mendigos na rua, sobre os
dades de um empregador, os universitários movimentos sociais etc. Uma discussão num

80
botequim de periferia pode terminar em b) Apenas as afirmações II, III e IV são verda-
morte. A privação do emprego, do salário deiras.
digno, da educação, da saúde, do transporte c) Apenas as afirmações I, II, IV e V são verda-
público, da moradia, da segurança alimentar, deiras.
tudo isso pode ser compreendido, conside- d) Apenas as afirmações I, III e V são verdadeiras.
rando que incide sobre direitos assegurados e) Todas as afirmações são verdadeiras.
por nossa Constituição, como tantas outras
formas de violência.
(Silvio Caccia Bava. Le Monde Diplomatique TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
Brasil, agosto 2010. Adaptado.)
Nasce um escritor
2. (Unifesp 2011) No período Uma parcela ex- O primeiro dever passado pelo novo profes-
pressiva destas mortes, que varia de região sor de português foi uma 7descrição tendo o
para região, é atribuída à ação da polícia, mar como tema. A classe inspirou, toda ela,
que se respalda na impunidade para continu- nos encapelados mares de Camões, aqueles
ar cometendo seus crimes, as palavras subli- nunca dantes navegados. O 5episódio do Ada-
nhadas referem-se, respectivamente, mastor foi reescrito pela 2meninada. Prisio-
a) à palavra parcela e tem a função de sujeito;
neiro no internato, eu vivia na saudade das
à palavra polícia e tem a função de sujeito. 4
praias do Pontal onde conhecera a liberdade
b) à palavra mortes e tem a função de sujeito;
e o sonho. O mar de Ilhéus foi o tema de
à palavra polícia e tem a função de sujeito.
minha descrição.
c) à palavra parcela e tem a função de objeto;
Padre Cabral levara os deveres para corrigir
à palavra polícia e tem a função de objeto.
d) à palavra parcela e tem a função de objeto; em sua cela. Na aula seguinte, entre risonho
à palavra ação e tem a função de sujeito. e solene, anunciou a existência de uma vo-
e) à palavra parcela e tem a função de sujeito; cação autêntica de escritor naquela sala de
à palavra ação e tem a função de sujeito. aula. Pediu que escutassem com atenção o
dever que 1ia ler. Tinha certeza, afirmou, que
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO o autor daquela página seria no futuro um
escritor conhecido. Não regateou elogios. 3Eu
Os cargos públicos são os que mais desqua- acabara de completar onze anos.
lificam candidatos com tatuagens, dentre Passei a ser uma personalidade, segundo os
eles: agentes das polícias militar, civil e car- cânones do colégio, ao lado dos futebolistas,
reiras do exército. Para cargos que exigem dos campeões de matemática e de religião,
que o funcionário trabalhe diretamente com dos que 6obtinham medalhas. Fui admiti-
o público, os candidatos tatuados costumam do numa espécie de Círculo Literário onde
ser menos qualificados que os candidatos 9
brilhavam 8alunos mais velhos. Nem assim
“limpos”.
Disponível em: TATUAGENS ATRAPALHAM NA
deixei de me sentir prisioneiro, sensação
HORA DE ARRUMAR UM EMPREGO? - http://www. permanente durante os dois anos em que
abaratadigital.com/tatuagensatrapalham-na-hora- estudei no colégio dos jesuítas. 11Houve, po-
de-arrumar-um-emprego/ Acesso: 13 out. /2013. rém, 10sensível mudança na limitada vida do
3. (G1-IFSC) Analise as seguintes afirmações aluno interno: o padre Cabral tomou-me sob
sobre o texto. sua proteção e colocou em minhas mãos li-
I. a palavra “limpos”, no contexto em que vros de sua estante. Primeiro “As Viagens de
se encontra, está empregada com sentido Gulliver”, depois clássicos portugueses, tra-
figurado. duções de ficcionistas ingleses e franceses.
II. ‘tatuados’ e ‘funcionários’ são palavras Data dessa época minha paixão por Charles
derivadas por sufixação. Dickens. Demoraria ainda a conhecer Mark
III.o primeiro período do texto é classificado Twain: o norte-americano não figurava entre
como período simples, por causa da pre- os prediletos do padre Cabral.
sença de um único verbo. Recordo com carinho a figura do jesuíta
IV. ‘públicos’ e ‘exército’ são palavras propa- português erudito e amável. Menos por me
roxítonas e, por isso, recebem acento grá- haver anunciado escritor, sobretudo por me
fico obrigatoriamente. haver dado o amor aos livros, por me ha-
V. Em “Os cargos públicos são os que mais ver revelado o mundo da criação literária.
desqualificam candidatos...”, o verbo em Ajudou-me a suportar aqueles dois anos de
destaque está no plural para estabelecer internato, a fazer mais leve a minha prisão,
concordância com o seu sujeito. minha primeira prisão.
Assinale a alternativa CORRETA. AMADO, Jorge. O menino Grapiúna. Rio de
a) Apenas as afirmações I e III são verdadeiras. Janeiro. Record. 1987. p. 117-20.

81
4. (G1-IFCE) A expressão “... alunos mais ve- (...)
lhos.” (ref. 8) exerce a função de: Seus olhares 4fulguraram por um instante
a) sujeito da forma verbal “brilhavam” (ref. 9). um contra o outro, depois se 5acariciaram
b) objeto indireto. ternamente e, finalmente, se disseram que
c) agente da ação expressa pela forma verbal não havia nada a fazer. 6Disse-lhe adeus com
“obtinham” (ref. 6). doçura, virou-se e cerrou, de golpe, a porta
d) agente da passiva.
sobre si mesmo numa tentativa de secionar2
e) objeto direto.
aqueles dois mundos que eram ele e ela. Mas
16
o brusco movimento de fechar prendera-
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
-lhe entre as folhas de madeira o espesso te-
Logo depois, transferiu-se para o trapiche cido da vida, e ele ficou retido, sem se poder
[local destinado à guarda de mercadorias mover do lugar, 11sentindo o pranto formar-
para importação ou exportação] o depósito -se muito longe em seu íntimo e subir em
dos objetos que o trabalho do dia lhes pro- busca de espaço, como um rio que nasce.
porcionava. Estranhas coisas entraram então 17
Fechou os olhos, tentando adiantar-se à
para o trapiche. agonia do momento, mas o fato de sabê-la
Não mais estranhas, porém, que aqueles ali ao lado, e dele separada por imperativos
meninos, moleques de todas as cores e de
categóricos3 de suas vidas, 12não lhe dava
idades, as mais variadas, desde os 9 aos 16
forças para desprender-se dela. 8Sabia que
anos, que à noite se estendiam pelo assoalho
e por debaixo da ponte e dormiam, indife- era aquela a sua amada, por quem esperara
rentes ao vento que circundava o casarão ui- desde sempre e que por muitos anos buscara
vando, indiferentes à chuva que muitas ve- em cada mulher, na mais terrível e dolorosa
zes os lavava, mas com os olhos puxados para busca. Sabia, também, que o primeiro passo
as luzes dos navios, com os ouvidos presos às que desse colocaria em movimento sua má-
canções que vinham das embarcações... quina de viver e ele teria, mesmo como um
(AMADO, Jorge. O trapiche. Capitães de Areia. São autômato, de sair, andar, fazer coisas, 9dis-
Paulo: Livraria Martins Ed., 1937. Adaptado.)
tanciar-se dela cada vez mais, cada vez mais.
18
5. (Fatec 2010) Assinale a alternativa em que E no entanto ali estava, a poucos passos,
o verbo destacado tem como sujeito aquele sua forma feminina que não era nenhuma
apresentado entre colchetes. outra forma feminina, mas a dela, a mu-
a) Logo depois transferiu-se para o trapiche o lher amada, aquela que ele 7abençoara com
depósito dos objetos... [os objetos] os seus beijos e agasalhara nos instantes
b) ... o depósito dos objetos que o trabalho do do amor de seus corpos. Tentou 3imaginá-la
dia lhes proporcionava. [o depósito dos ob-
em sua dolorosa mudez, já envolta em seu
jetos]
espaço próprio, perdida em suas cogitações
c) Estranhas coisas entraram então para o tra-
piche. [estranhas coisas] próprias − um ser desligado dele pelo limite
d) ... indiferentes ao vento que circundava o existente entre todas as coisas criadas.
13
casarão uivando... [o casarão] De súbito, sentindo que ia explodir em lá-
e) ... com os ouvidos presos às canções que vi- grimas, correu para a rua e pôs-se a andar
nham das embarcações. . . [as embarcações] sem saber para onde...
MORAIS, Vinícius de. Poesia completa e
prosa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1986.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO

SEPARAÇÃO 6. (UERJ) No íntimo, preferia não tê-lo feito;


(ref. 1)
Voltou-se e mirou-a como se fosse pela últi- Embora seja narrada em terceira pessoa, a
ma vez, como quem repete um gesto imemo- crônica apresenta ao leitor as sensações do
rialmente irremediável. 1No íntimo, preferia personagem, por meio de termos que reme-
não tê-lo feito; mas ao chegar à porta 2sentiu tem à intimidade, como exemplificado aci-
que 14nada poderia evitar a reincidência da- ma.
quela cena tantas vezes contada na história Dois outros termos, empregados pelo nar-
do amor, que é a história do mundo. 10Ela o rador, que remetem ao universo interior do
olhava com um olhar intenso, onde existia personagem são:
uma incompreensão e um anelo1, 15como a a) sentiu (ref. 2) − imaginá-la (ref. 3)
pedir-lhe, ao mesmo tempo, que não fosse e b) fulguraram (ref. 4) − acariciaram (ref. 5)
que não deixasse de ir, por isso que era tudo c) Disse-lhe (ref. 6) − abençoara (ref. 7)
impossível entre eles. d) Sabia (ref. 8) − distanciar-se (ref. 9)
82
TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES O mal que há nessa “democratização” dos ve-
ículos é que se formam crenças sem funda-
mento, mudam-se as opiniões das pessoas,
Agora todo mundo tem opinião
afirmam-se absurdos em que muita pessoa
Meu amigo Adamastor, o gigante, me apa- ingênua acaba acreditando. Sim, porque es-
receu hoje de manhã, muito cedo, aqui na tudar, comprovar metodicamente, testar a
biblioteca, e disse que vinha a fim de um validade, tudo isso dá muito trabalho.
cafezinho. 1Mentira, eu sei. 2Quando ele vem O Adamastor não estava muito convencido
tomar um cafezinho é porque está com algu- da 17justeza dos meus argumentos, mas o
ma ideia borbulhando em sua mente. café tinha terminado e ele se despediu.
Texto de Menalton Braff, publicado em 03 de
E estava. 3Depois do primeiro gole e antes do abril de 2015. Disponível em: <http://www.
segundo, café muito quente, ele afirmou que cartacapital.com.br/cultura/agora-todo-mundo-tem-
concorda plenamente com a democratização opiniao-7377.html>. Acesso em: 20 abr. 2015.
da informação. Agora, com o advento da in-
ternet, qualquer pessoa, democraticamente, 7. (G1-Ifsul) Em relação ao último parágrafo
pode externar aquilo que pensa. do texto, conclui-se que
4
Balancei a cabeça, na demonstração de uma a) Adamastor não compreendeu as razões ex-
postas pelo narrador.
quase divergência, e seu 5espanto também
b) Adamastor, não encontrando argumentos
me espantou. Como assim, ele perguntou,
para rebater o narrador, desiste da discus-
está renegando a democracia6? Pedi com mo-
são.
dos a meu amigo que não 7embaralhasse as
c) o gigante não aceitou as explicações dadas
coisas. Democracia não é um termo 8divina-
pelo narrador.
tório, que se aplique sempre, em qualquer
d) a tese exposta pelo narrador foi parcialmen-
situação.
te compreendida pelo gigante, deixando-o
Ele tomou o segundo gole com certa avidez e
9
satisfeito.
queimou a língua.
Bem, voltando ao assunto, nada contra a de- 8. (G1-Ifsul) Analise as afirmativas a seguir.
mocratização dos meios para que se divul- I. O advérbio agora presente no título do
guem as opiniões, as mais diversas, mais texto tem o objetivo de contextualizar
esdrúxulas, mais inovadoras, e tudo o mais. no tempo o assunto exposto, trazendo-o
É um direito que toda pessoa tem10: emitir para a atualidade.
opinião. II. Ao utilizar o termo palavrão (ref.11), o
O que o Adamastor não sabia é que uns dias autor chama a atenção do leitor, que pode
atrás andei consultando uns filósofos, al- associá-lo tanto a algo obsceno como à di-
guns antigos, outros modernos, desses que ficuldade de sua pronúncia.
tratam de um 11palavrão que sobrevive até os III. Pelo contexto, pode-se concluir que o
dias atuais: gnoseologia. Isso aí, para dizer adjetivo apócrifos (ref.14) foi empregado
teoria do conhecimento. com o sentido de falsos, não autênticos.
Sim, e daí?12, ele insistiu. Está(ão) correta(s) a(s) afirmativa(s):
O mal que vejo, continuei, não está na 13en- a) I apenas.
xurrada de opiniões as mais isso ou aquilo b) II apenas.
na internet, e principalmente com a chegada c) II e III apenas.
do Facebook. Isso sem contar a imensa quan- d) I, II e III.
tidade de textos 14apócrifos, muitas vezes até
opostos ao pensamento do presumido autor, TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
falsamente presumido. A graça está no fato
de que todos, agora, têm opinião sobre tudo. Para responder à(s) questão(ões)
− Mas isso não é bom? seguinte(s), leia o seguinte texto, em que
O gigante15, depois da maldição de Netuno16, a autora, colunista de gastronomia, recorda
tornou-se um ser impaciente. cenas de sua infância:
O fato, em si, não tem importância alguma.
Uma tia-avó
O problema é que muita gente lê a enxur-
rada de bobagens que aparecem na internet Fico abismada de ver de quanta coisa não me
não como opinião, mas como conhecimento. lembro. Aliás, não me lembro de nada.
O Platão, por exemplo, afirmava que opinião Por exemplo, 1as férias em que eu ia para
(doxa) era o falso conhecimento. O conhe- uma cidade do interior de Minas, acho que
cimento verdadeiro (episteme) depende de nem cidade era, era uma rua, e passava por
estudo profundo, comprovação metódica, Belo Horizonte, 2onde tinha uma tia-avó.
teste de validade. Essas coisas de que se vale Não poderia repetir o rosto dela, sei que
em geral a ciência. muito magra, vestido até o chão, 3fantasma
83
em cinzentos, levemente muda, deslizando TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
por 4corredores de portas muito altas.
O clima da casa era de passado 5embrulha- Nós, escravocratas
do em papel de seda amarfanhado, e posto Há exatos cem anos, saía da vida para a his-
no canto para que não se atrevesse a voltar tória um dos maiores brasileiros de todos os
à tona. Nem um riso, 6um barulho de copos tempos: o pernambucano Joaquim Nabuco.
tinindo. Quem estava ali sabia que quanto 1
Político que ousou pensar, intelectual que
menos se mexesse menor o perigo de sofrer. não se omitiu em agir, pensador e ativista
Afinal o mundo era um 7vale de lágrimas. com causa, principal artífice da abolição do
8
A casa dava para a rua, não tinha jardim, a regime escravocrata no Brasil.
não ser que você se aventurasse a subir uma Apesar da vitória conquistada, Joaquim Na-
escada de cimento, lateral, que te levava aos buco reconhecia: “2Acabar com a escravidão
9
jardins suspensos da Babilônia. não basta. É preciso acabar com a obra da
Nem precisava ser sensível para sentir a se- escravidão”, como lembrou na semana pas-
cura, 10a geometria esturricada dos canteiros sada Marcos Vinicios Vilaça, em solenidade
11
sob o céu de anil de Minas. Nada, nem uma na Academia Brasileira de Letras. Mas a obra
da escravidão continua viva, sob a forma da
flor, só coisas que espetavam e 12buxinhos
exclusão social: pobres, especialmente ne-
com formatos rígidos e duras palmas e os
13
gros, sem terra, sem emprego, sem casa, sem
urubus rodando alto, em cima, esperan-
água, sem esgoto, muitos ainda sem comida;
do… O quê? 14Segredos enterrados, medo,
sobretudo sem acesso à educação de quali-
sentia eu 15destrambelhando escada abaixo. dade.
16
Na sala, uma cristaleira antiga com um Cem anos depois da morte de Joaquim Nabu-
17
cacho enorme de uvas enroladas em papel co, a obra da escravidão se mantém e conti-
brilhante azul. nuamos escravocratas.
Para mim, pareciam 18uvas de chocolate, re- 3
Somos escravocratas ao deixarmos que a es-
cheadas de bebida, mas não tinha coragem cola seja tão diferenciada, conforme a renda
de pedir, estavam lá ano após ano, intoca- da família de uma criança, quanto eram dife-
das. A avó, baixinho, permitia, “Quer, pode renciadas as vidas na Casa Grande ou na Sen-
pegar”, com voz neutra, mas eu declinava, zala. Somos escravocratas porque, até hoje,
19
doida de desejo. não fizemos a distribuição do conhecimento:
Das comidas comuns da casa, não me lembro instrumento decisivo para a liberdade nos
de uma couvinha que fosse, não me lembro dias atuais. Somos escravocratas porque to-
de empregadas, cozinheiras, sala de jantar, dos nós, que estudamos, escrevemos, lemos
nada. e obtemos empregos graças aos diplomas,
Enfim, Belo Horizonte para mim era uma beneficiamo-nos da exclusão dos que não es-
tudaram. Como antes, os brasileiros livres se
terra triste, de 20mulheres desesperadas e
beneficiavam do trabalho dos escravos.
mudas enterradas no tempo, 21chocolates se-
Somos escravocratas ao jogarmos, sobre os
dutores e proibidos. Só valia como passagem
analfabetos, a culpa por não saberem ler, em
para a 22roça brilhante de sol que me espe-
vez de assumirmos nossa própria culpa pelas
rava. decisões tomadas ao longo de décadas. Privi-
Nina Horta, Folha de S. Paulo, 17/07/2013. Adaptado.
legiamos investimentos econômicos no lugar
9. (FGV) Embora tenha sido publicado em jor- de escolas e professores. Somos escravocra-
nal, o texto contém recursos mais comuns na tas, porque construímos universidades para
linguagem literária do que na jornalística. nossos filhos, mas negamos a mesma chance
Exemplificam tais recursos a hipérbole e a aos jovens que foram deserdados do Ensino
Médio completo com qualidade. Somos escra-
metáfora, que ocorrem, respectivamente,
vocratas de um novo tipo: a negação da edu-
nos seguintes trechos:
cação é parte da obra deixada pelos séculos
a) “corredores de portas muito altas” (ref. 4);
de escravidão.
“fantasma em cinzentos” (ref. 3). A exclusão da educação substituiu o seques-
b) “vale de lágrimas” (ref.7); “passado embru- tro na África, o transporte até o Brasil, a pri-
lhado em papel de seda” (ref. 5). são e o trabalho forçado. Somos escravocra-
c) “doida de desejo” (ref. 19); “um barulho de tas que não pagamos para ter escravos: nossa
copos tinindo” (ref. 6). escravidão ficou mais barata, e o dinheiro
d) “mulheres desesperadas” (ref. 20); “sob o para comprar os escravos pode ser usado em
céu de anil de Minas” (ref.11). benefício dos novos escravocratas. Como na
e) “roça brilhante de sol” (ref. 22); “chocolates escravidão, o trabalho braçal fica reservado
sedutores e proibidos” (ref. 21). para os novos escravos: os sem educação.
84
Negamo-nos a eliminar a obra da escravidão. Northup (1808-1863), homem livre seques-
Somos escravocratas porque ainda achamos trado em Washington em 1841 e submetido
naturais as novas formas de escravidão; e à escravidão em fazendas da Louisiana, livro
nossos intelectuais e economistas comemo- que serviu de base ao roteiro do filme 12
ram minúscula distribuição de renda, como anos de escravidão, dirigido por Steve Mc-
antes os senhores se vangloriavam da me- Queen.
lhoria na alimentação de seus escravos, nos
anos de alta no preço do açúcar. Continua- No cemitério de S. Benedito
mos escravocratas, comemorando gestos par- Em lúgubre recinto escuro e frio,
ciais. 4Antes, com a proibição do tráfico, a lei Onde reina o silêncio aos mortos dado,
do ventre livre, a alforria dos sexagenários. Entre quatro paredes descoradas,
Agora, com o bolsa família, o voto do anal- Que o caprichoso luxo não adorna,
fabeto ou a aposentadoria rural. Medidas ge- Jaz da terra coberto humano corpo,
nerosas, para inglês ver e sem a ousadia da que escravo sucumbiu, livre nascendo!
abolição plena. Das hórridas cadeias desprendido,
Somos escravocratas porque, como no sécu- Que só forjam sacrílegos tiranos,
lo XIX, não percebemos a estupidez de não Dorme o sono feliz da eternidade.
abolirmos a escravidão. 5Ficamos na mesqui-
nhez dos nossos interesses imediatos negan- Não cercam a morada lutuosa
do fazer a revolução educacional que poderia Os salgueiros, os fúnebres ciprestes,
completar a quase-abolição de 1888. Não ou- Nem lhe guarda os umbrais da sepultura
samos romper as amarras que envergonham Pesada laje de espartano mármore,
e impedem nosso salto para uma sociedade Somente levantado em quadro negro
civilizada, como, por 350 anos, a escravidão Epitáfio se lê, que impõe silêncio!
nos envergonhava e amarrava nosso avanço. — Descansam n’este lar 1caliginoso
Cem anos depois da morte de Joaquim Nabu- O mísero cativo, o desgraçado!...
co, a obra criada pela escravidão continua,
porque continuamos escravocratas. E, ao Aqui não vem rasteira a vil lisonja
continuarmos escravocratas, não libertamos Os feitos decantar da tirania,
os escravos condenados à falta de educação. Nem ofuscando a luz da sã verdade
CRISTOVAM BUARQUE. Adaptado de http:// Eleva o crime, perpetua a infâmia.
oglobo.globo.com, 30/01/2000.
Aqui não se ergue altar ou trono d’ouro
10. (UERJ) Político que ousou pensar, intelec- Ao torpe mercador de carne humana.
5
tual que não se omitiu em agir, pensador e Aqui se curva o filho respeitoso
ativista com causa, principal artífice da abo- Ante a lousa materna, e o pranto em fio
lição do regime escravocrata no Brasil. (ref. Cai-lhe dos olhos revelando mudo
1) A história do passado. Aqui nas sombras
Na frase acima, Cristovam Buarque define Da funda escuridão do horror eterno,
6
Joaquim Nabuco de quatro maneiras. As três Dos braços de uma cruz pende o mistério,
primeiras definições partem de determina- Faz-se o 2cetro 3bordão, andrajo a túnica,
das pressuposições. Mendigo o rei, o 4potentado escravo!
Uma pressuposição que se pode deduzir da
leitura do fragmento é: Primeiras trovas burlescas e outros poemas,
a) ativistas têm abraçado muitas causas. 2000.
1
b) intelectuais costumam resistir à ação. caliginoso: muito escuro, tenebroso.
2
c) políticos ousam pensar a respeito de tudo. cetro: bastão de comando usado pelos reis.
3
d) pensadores têm lutado pelo fim da escravi- bordão: cajado grosso usado como apoio ao
dão. caminhar.
4
potentado: pessoa muito rica e poderosa.

E.O. DISSERTATIVO Doze anos de escravidão

Houvera momentos em minha infeliz vida,


TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO muitos, em que o vislumbre da morte como
o fim de sofrimentos terrenos — do túmulo
A(s) próxima(s) questão(ões) toma(m) por como um local de descanso para um corpo
base um poema de Luiz Gama (1830-1882), cansado e alquebrado — tinha sido agradável
poeta, jornalista e líder abolicionista brasi- de imaginar. Mas tal contemplação desapare-
leiro, nascido livre e vendido como escravo ce na hora do perigo. Nenhum homem, em
pelo próprio pai, e um excerto da narrati- posse de suas forças, consegue ficar imper-
va Doze anos de escravidão, de Solomon turbável na presença do “rei dos horrores”.
85
A vida é cara a qualquer coisa viva; o verme alegria comum e o ethos, que eu gostaria de
rastejante lutará por ela. Naquele momento, traduzir ao mesmo tempo como uso e como
era cara para mim, escravizado e tratado tal fragmento de ética.
como eu era. VINCENT-BUFFAULT, Anne. Da amizade: uma
história do exercício da amizade nos séculos XVIII
Sem conseguir livrar a mão dele, novamen- e XIX. Trad. de Maria Luiza X. de A. Borges. Rio
te o peguei pelo pescoço e dessa vez com de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1996. p. 9.
uma empunhadura medonha que logo o fez
afrouxar a mão. Tibeats ficou enfraquecido e a) O texto revela o caráter secundário da amiza-
desmobilizado. Seu rosto, que estivera bran- de nos séculos XVIII e XIX, o que fica explí-
co de paixão, estava agora preto de asfixia. cito em “O amor, o casal e a família ocupam
Aqueles olhos miúdos de serpente que exa- o primeiro plano. As práticas de amizade
lavam tanto veneno estavam agora cheios de acrescentam-se a eles, desempenhando mui-
horror — duas órbitas brancas precipitando- tas vezes papéis secundários.” Transcreva do
-se para fora. 2º parágrafo do texto o adjetivo que reitera
Havia um “demônio à espreita” em meu co- essa ideia.
ração que me instava a matar o maldito cão b) Tendo em vista a regra básica de concordân-
naquele instante — a manter a pressão em cia verbal, identifique o sujeito de “se mul-
seu odioso pescoço até que o sopro de vida se tiplicam”, no último período do 1º parágrafo
fosse! Não ousava assassiná-lo, mas não ou- do texto.
sava deixá-lo viver. Se eu o matasse, minha c) No texto, há o predomínio de um determina-
vida teria de pagar pelo crime — se ele vi- do tempo verbal. Identifique-o e explique o
vesse, apenas minha vida satisfaria sua sede seu emprego.
de vingança. Uma voz lá dentro me dizia
para fugir. Ser um andarilho nos pântanos, TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
um fugitivo e um vagabundo sobre a Terra,
era preferível à vida que eu estava levando. TEXTO I - ARTE DE AMAR
Doze anos de escravidão, 2014.
Se queres sentir a felicidade de amar, esque-
ce a tua alma.
1. (Unesp) Indique os termos que exercem a A alma é que estraga o amor.
função de sujeito nas orações que constituem Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
os versos das referências 5 e 6 do poema de Não noutra alma.
Luiz Gama e o que há de comum nesses ver- Só em Deus - ou fora do mundo.
sos no que se refere à posição que ocupam
em relação aos respectivos predicados. As almas são incomunicáveis.

2. (PUC-RJ) A amizade, nos séculos XVIII e Deixa o teu corpo entender-se com outro cor-
XIX, é aceita, valorizada, mas não está em po.
evidência. O amor, o casal e a família ocu- Porque os corpos se entendem, mas as almas
pam o primeiro plano. As práticas de ami- não.
zade acrescentam-se a eles, desempenhando (BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira: poesias
muitas vezes papéis secundários. A amizade reunidas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.)
é alegria suplementar, marca de uma elei-
ção, não é uma instituição. Ela estabelece TEXTO II - MINERAÇÃO DO OUTRO
redes de influência, inventa lugares de con-
vivência e laços de resistência enquanto se Os cabelos ocultam a verdade.
multiplicam para a maioria as oportunida- Como saber, como gerir um corpo alheio?
des de encontros e de interações. Os dias consumidos em sua lavra
Todos a dizem essencial: na verdade, é “aces- significam o mesmo que estar morto.
sória”. Seu exercício voluntário torna-lhe a
existência mais frágil, mais submetida ao Não o decifras, não, ao peito oferto,
acaso. Os valores da amizade parecem tan- monstruário de fomes enredadas,
to mais invocados quanto mais outras obri- ávidas de agressão, dormindo em concha.
gações, outras injunções tendem a limitar Um toque, e eis que a blandícia1 erra em tor-
de fato a possibilidade do seu exercício. A mento,
amizade no entanto se exerce, ela ocupa, é e cada abraço tece além do braço
atuante. Esse exercício da amizade forma e a teia de problemas que existir
transforma: praticando-o, elaboram-se tanto na pele do existente vai gravando.
o si mesmo quanto o entre-si. Indo ao en-
contro dos outros, é ao encontro de si mesma Viver-não, viver-sem, como viver
que a pessoa se lança. Nela se conjugam a sem conviver, na praça de convites?
86
Onde avanço, me dou, e o que é sugado ao carinho com que me recebeu naquele dia.
ao mim de mim, em ecos se desmembra; (WALCYR CARRASCO, PÁG. 98 - VEJA SP, 14 DE ABRIL, 1999.)
nem resta mais que indício,
pelos ares lavados,
do que era amor e dor agora, é vício. 4. (FGV) Na época, já SOFRIA de uma doença
que lhe dificultava o movimento das mãos e
O corpo em si, mistério: o nu, cortina
dos pés.
de outro corpo, jamais apreendido,
a) Cite o pronome que, no texto, funciona
assim como a palavra esconde outra
como sujeito de sofria.
voz, prima e vera, ausente de sentido.
Amor é compromisso b) Explique a quem, no texto, tal pronome se
com algo mais terrível do que amor? refere. Justifique sua resposta.
- pergunta o amante curvo à noite cega,
e nada lhe responde, ante a magia: TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
arder a salamandra2 em chama fria.
(ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia e prosa.
A CORRIDA DO OURO
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1988.)
Duzentos anos de buscas foram necessários
1
blandícia : meiguice, brandura; afago, para que os portugueses chegassem ao ouro
mimo, carícia de sua América. Aos espanhóis não se apre-
2
salamandra : animal anfíbio que, segundo sentou o problema da procura e pesquisa
a mitologia, era capaz de viver no fogo sem dos metais preciosos. 6Assim que desembar-
ser consumido caram no México, na Colômbia ou no Peru,
seus olhos mercantis foram ofuscados pelo
3. (UERJ) Transcreva os sujeitos de “vai gra- ouro e prata que os homens da terra osten-
vando” (verso 11 - texto II) e “resta” (verso tavam nas suas armas, adornos e 7utensílios.
2
16 - texto II). Junto às suas civilizações, o gentio havia
desenvolvido a exploração e o trabalho dos
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO metais, para 4eles mais preciosos pelas suas
serventias que pelo poder e valor que 5agre-
Meu amigo Marcos gavam ao homem da Europa cristã, de alma
lapidada pela cultura 3ocidental. O primeiro
O generoso e divertido companheiro de crô- trabalho que tiveram os castelhanos foi o de
nicas imediatamente afirmarem a inferioridade
Conheci Marcos Rey há mais de vinte anos, daquele homem que se recusava a total sub-
quando sonhava tornar-me escritor. Certa serviência à majestade de Deus e d’el Rei,
vez confessei esse desejo à atriz Célia Hele- através de concepções bastante convenientes
na, que deixou sua marca no teatro paulista. a seus propósitos. O brilho do metal, como o
Tempos depois, ela me convidou para ten- canto da sereia, tornou-os surdos a qualquer
tar adaptar um livro para teatro. Era O RAP- apelo contrário que não fosse o da ambição
TO DO GAROTO DE OURO, de Marcos. Passei pelo ouro e pela prata, tornando-os insen-
noites me torturando sobre as teclas. Célia síveis a qualquer consideração humana no
marcou um encontro entre mim e ele, pois a “trabalho” de 1submetimento do indígena,
montagem dependia da aprovação do autor. até o seu extermínio ou à redução, dos que
Quando adolescente, eu ficara fascinado com sobreviveram, à condição de servos ou escra-
MEMÓRIAS DE UM GIGOLÔ, seu livro mais co- vos nas fainas da mineração.
nhecido. Nunca tinha visto um escritor de Os sucessos castelhanos atiçaram os colo-
perto. Imaginava uma figura pomposa, em nos portugueses a iniciarem suas buscas,
cima de um pedestal. Meu coração quase seja pelo encanto daquelas descobertas, seja
saiu pela boca quando apertei a campainha. pelas fantasias que se criaram a partir de-
Fui recebido por Palma, sua mulher. Um ho- las: de tesouros fabulosos perdidos nas en-
mem gordinho e simpático entrou na sala. tranhas generosas das Américas; de relatos
Na época, já sofria de uma doença que lhe imprecisos de indígenas vindos do interior;
dificultava o movimento das mãos e dos pés. de noções equivocadas da geografia do con-
Cumprimentou-me. Sorriu. Estava tão ner- tinente como a da proximidade do Peru; ou
voso que nem consegui dizer “boa-tarde”. mesmo de alguns possíveis indícios concre-
Gaguejei. Mas ele me tratou com o respeito tos, surgiram lendas como as de Sabarabuçu
que se dedica a um colega. Propôs mudan- e as de Paraupava, que avivavam os colonos
ças no texto. Orientou-me. Principalmente, na procura de pedras e metais preciosos.
acreditou em mim. A peça permaneceu em (MENDES Jr., A., RONCARI, L. e MARANHÃO, R. Brasil
cartaz dois anos. Muito do que sou hoje devo história: texto e consulta. São Paulo. Brasiliense, 1979.)

87
5. (UERJ) Na construção do texto, empregam- São os improváveis que, de repente, se veem
-se pronomes pessoais e possessivos que ora esculpidos por novas luzes”.
estabelecem relações indispensáveis à com- A leitura pode garantir essas forças de vida?
preensão do sentido, ora se tornam redun- O que esperar dela – sem vãs ilusões – em lu-
dantes nesta função textual. gares onde a crise é particularmente intensa,
a) Observe atentamente o trecho compreendi- seja em contextos de guerra ou de repetidas
do entre as ref. 2 e 3 do primeiro parágrafo violências, de deslocamentos de populações
e indique os termos antecedentes de ELES mais ou menos forçados, ou de vertiginosas
(ref. 4) e do sujeito oculto de AGREGAVAM recessões econômicas?
(ref. 5). Em tais contextos, crianças, adolescentes e
b) Transcreva dois trechos em que o possessivo adultos poderiam redescobrir o papel dessa
possa ser suprimido sem qualquer prejuízo atividade na reconstrução de si mesmos e,
para a compreensão do texto. além disso, a contribuição única da literatu-
ra e da arte para a atividade psíquica. Para
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO a vida, em suma.
Michèle Petit, A arte de ler ou como resistir à
Texto I adversidade. São Paulo: ed. 34, 2009.

QUAL O PODER DA LEITURA NESTES TEMPOS


DIFÍCEIS? Texto II

Hoje, é possível dizer que o mundo inteiro é Paradoxalmente, o caos em que a humani-
um “espaço em crise”. Uma crise se estabele- dade corre o risco de mergulhar traz em seu
ce de fato quando transformações de caráter bojo sua própria e última oportunidade. Por
brutal – mesmo se preparadas há tempos -, quê? Para começar, porque a proximidade do
ou ainda uma violência permanente e gene- perigo favorece as instâncias de conscienti-
ralizada, tornam extensamente inoperantes zação, que podem então multiplicar-se, am-
os modos de regulamentação, sociais e psí- pliar-se e fazer surgir uma grande política
quicos, que até então estavam sendo prati- de salvação do mundo. E, sobretudo, pela se-
cados. Ora, a aceleração das transformações, guinte razão: quando um sistema é incapaz
o crescimento das desigualdades, das dispa- de resolver seus problemas vitais, ou ele se
ridades, a extensão das migrações alteraram desintegra, ou é capaz, dentro de sua própria
ou fizeram desaparecer os parâmetros nos desintegração, de metamorfosear-se num
quais a vida se desenvolvia, vulnerabilizan- metassistema mais rico, capaz de buscar so-
do homens, mulheres e crianças, de maneira luções para esses problemas.
Edgar Morin, http://www.comitepaz.org.br
obviamente bastante distinta, de acordo com
os recursos materiais, culturais, afetivos de Texto III
que dispõem e segundo o lugar onde vivem.
Para boa parte deles, no entanto, tais crises O que diz o vento (07/10/1991)
se manifestam em transtornos semelhantes.
Vividas como rupturas, ainda mais quando Para o Brasil chegar afinal ao Primeiro Mun-
são acompanhadas da separação dos próxi- do só falta vulcão. Uns abalozinhos já têm
mos, da perda da casa ou das paisagens fa- havido por aí, e cada vez mais frequentes.
miliares, as crises os confinam em um tempo Agora passa por Itu esse vendaval, com tan-
imediato – sem projeto, sem futuro -, em um tas vítimas e tantos prejuízos a lastimar. Al-
espaço sem linha de fuga. Despertam feridas guns jornais não tiveram dúvida: ciclone. Ou
antigas, reativam o medo do abandono, aba- tornado, quem sabe.
lam o sentimento de continuidade de si e a Shelley que me desculpe, mas vento me dá
autoestima. Provocam, às vezes, uma perda nos nervos. Desarruma a gente por dentro.
total de sentido, mas podem igualmente esti- Mas, em matéria de vento, poeta tem imuni-
mular a criatividade e a inventividade, con- dades. Manuel Bandeira associou à canção do
tribuindo para que outros equilíbrios sejam vento a canção da sua vida.
forjados, pois em nosso psiquismo, como dis- O vento varria as luzes, as músicas, os aro-
se René Kaës, uma “crise libera, ao mesmo mas. E a sua vida ficava cada vez mais cheia
tempo, forças de morte e forças de regene- de aromas, de estrelas, de cânticos.
ração”. “O desastre ou a crise são também, e Fúria dos elementos, símbolo da instabilida-
sobretudo, oportunidades”, escreveram Cha- de, o vento é ao mesmo tempo sopro de vida.
moiseau e Glissant, após a passagem de um Uma aragem acompanha sempre os anjos. E
ciclone. “Quando tudo desmorona ou se vê foi o vento que fez descer sobre os apóstolos
transformado, são também os rigores ou as as línguas de fogo do Espírito Santo. Destrui-
impossibilidades que se veem transformados. dor e salvador, com o vento renasce a vida,
88
diz a “Ode to the West Wind”, de Shelley. No revoltados, os comunistas no mundo todo. E
inverno só um poeta romântico entrevê o iní- depois veio a denúncia dos crimes de Stálin
cio da primavera. Divindade para os gregos, por Kruschev, a queda do muro de Berlim...
o vento inquieta porque sacode a apatia e a Muita gente nunca perdoou as mentiras, os
estagnação. enganos, a perda de seus sonhos. Não é meu
Com esse poder de levar embora, suponha- caso. Na verdade, tenho mais saudades do
mos que uma lufada varresse o Brasil, como que rancores. Tenho saudades não do comu-
na canção do Manuel Bandeira. Que é que nismo, que nunca cheguei a viver na prática,
esse vento benfazejo devia levar embora? mas da visão do comunismo que me anima-
Todo mundo sabe o mundo de males que va, a visão de um mundo justo, igualitário.
SCLIAR, Moacyr. Eu vos abraço, milhões. 2. ed. São
nos oprime nesta hora. Deviam ser varridos Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 246.
para sempre. Se vento leva e traz, se vento é
mudança, não custa acreditar que, passada O eu lírico do poema e o protagonista do
a tempestade, vem a bonança. E com ela, o romance, nas obras citadas, distinguem-se
sopro renovador — garante o poeta. A casa tanto pela expectativa sobre o futuro quanto
destelhada, a destruição já começou. Vem aí pela forma de recomposição de suas memó-
a reconstrução. rias. Considerando o exposto, responda:
Otto Lara Resende, Bom dia para nascer: a) em relação à expectativa de futuro, em que
crônicas publicadas na Folha de S. Paulo. São se diferem os posicionamentos do eu lírico e
Paulo: Cia. das Letras, 2011. Adaptado.
do protagonista do romance?
b) Em relação às formas de recomposição da
6. (FGV) Responda ao que se pede: memória, em que se diferem as escolhas do
a) O autor do texto III ilustra o tema de sua eu lírico e do protagonista do romance?
crônica com um provérbio. Esse provérbio
poderia ilustrar também os temas dos textos TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
I e II? Justifique sua reposta.
b) Diferentemente do texto I e II, a crônica de As descontroladas
Otto L. Resende, tendo em vista o gênero a
que pertence, tem características tanto do As primeiras mulheres que passaram na cal-
estilo jornalístico quanto do literário. çada da Rio Branco chamavam-se melindro-
Identifique duas marcas linguísticas presen- sas. Eram um tanto afetadas, com seu vesti-
tes no texto: uma, própria do estilo literário; do de cintura baixa e longas franjas, mas a
outra, própria do estilo jornalístico. julgar por uma caricatura célebre de J. Carlos
tinham sempre uma multidão de almofadi-
7. (UFG) Leia o poema e o trecho a seguir. nhas correndo atrás. O mundo, cem anos de-
pois, mudou pouco no essencial. Diz-se ago-
EU POSSO TRANSFORMAR O MUNDO ra que o homem “corre atrás do prejuízo”. De
resto, porém, a versão nacional do assim ca-
Tudo que está fora de mim é mais, muito
minha a humanidade segue o mesmo cortejo
mais do que eu.
de sempre pela Rio Branco — com o detalhe
Eu vi tudo, sem poder, eu vi sem alcançar
que as mulheres trocaram as franjas pelo cós
seu vigor simples,
baixo da calça da Gang. E, evidentemente,
sua despojada beleza terrena.
não são mais chamadas de melindrosas.
Passaram por mim o dia, a luz, o tédio, a
dignidade. Elas já atenderam por vários nomes. Uma
Eu estive sempre aquém de toda a beleza que “uva” era aquela que, de tão suculenta e
cerca a vida. bem-feita de curvas, devia abrir as folhas
Mas eu sou um homem, algo feito pelo que de sua parreira e deliciar os machos com a
está aí fora eternidade de sua sombra. 1Há cem anos as
e por minha ideia e minhas mãos. mulheres que circulam pela Rio Branco já fo-
E posso transformar o mundo. ram chamadas de tudo e, diga-se a bem da
GARCIA, José Godoy. Poesias. Brasília: verdade, algumas atenderam. Por aqui 3pas-
Thesaurus, 1999. p. 36. sou o “broto”, o “avião”, o “violão”, a “certi-
[…] Em 1935, quatro anos depois de nossa nha”, o “pedaço”, a “deusa”, a “boazuda”, o
chegada a Porto Alegre, eclodiu o fracassado “pitéu”, a “gata” e tantas outras que podem
levante que depois ficaria conhecido como não estar mais no mapa, como as mulatas do
Intentona Comunista, dirigido contra o go- Sargentelli, mas já estão no Houaiss eletrô-
verno de Getúlio e chefiado por Luís Carlos nico. Houve um momento que, de tão belas,
Prestes. […] Quatro anos depois, em 1939, chegaram a ficar perigosas. Chamavam-nas
era assinado, pela União Soviética e pela “pedaço de mau caminho” ou “chave de ca-
Alemanha nazista, o pacto de não agressão deia”. Algumas, de carne tão tenra, eram
que deixou perplexos e confusos, quando não “frangas”.
89
Havia, de um modo geral, um louvor res- 9. (Unicamp 2012) O parágrafo reproduzido
peitoso na identificação de cada um desses abaixo introduz a crônica intitulada Tragé-
tipos que sucederam as melindrosas. Gosto dia concretista, de Luís Martins.
de lembrar daquela, ali pelo início dos 60, O poeta concretista acordou inspirado. So-
que era um “suco”. Talvez porque sucedesse nhara a noite toda com a namorada. E pen-
o tipo de “uva” e fosse tão aperfeiçoada no sou: lábio, lábia. O lábio em que pensou era o
inevitável processo de evolução da espécie da namorada, a lábia era a própria. Em todo
que já viesse sem casca e, principalmente, o caso, na pior das hipóteses, já tinha um
sem os caroços. Sempre prontinhas para be- bom começo de poema. Todavia, cada vez
ber. De uns tempos para cá, quando se pensa- mais obcecado pela lembrança daqueles lá-
va que na esquina surgiria um vinho de safra bios, achou que podia aproveitar a sua lábia
especial, a coisa avinagrou. As mulheres fi- e, provisoriamente desinteressado da poesia
cam cada vez mais lindas mas os homens, na pura, resolveu telefonar à criatura amada,
hora de homenageá-las, inventam rótulos de na esperança de maiores intimidades e van-
carinho duvidoso. O “broto”, o “violão” e o tagens. Até os poetas concretistas podem ser
“pitéu” na versão arroba ponto com 2000 era homens práticos.
a “popozuda”. Depois, software 2001, veio a (Luís Martins, Tragédia concretista, em As cem melhores
“cachorra”, a “sarada”. Pasmem: era elogio. crônicas brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007, p. 132.)
Algumas continuavam atendendo.
a) Compare lábio e lábia quanto à forma e ao
Agora está entrando em cena, perfilada num significado. Considerando a especificidade
funk do grupo As Panteras — um rótulo que, do poeta, justifique a ocorrência dessas duas
a propósito, notou a evolução das “gatas” palavras dentro da crônica.
—, a mulher do tipo “descontrolada”. (...). b) Explique por que a palavra todavia é usada
Não é exatamente o que o almofadinha lá do para introduzir um dos enunciados da crôni-
início diria no encaminhamento do eterno ca.
processo sedutivo, mas, afinal, homem ne-
nhum também carrega mais almofadas para
10. (Unicamp 2015) No texto abaixo, há uma
se sentar no bonde. Sequer bondes 2há. Já
presença significativa de metáforas que au-
fomos “pães”. Muito doce, não pegou. Somos
xiliam na construção de sentidos.
todos lamentáveis “tigrões” em nossa triste
sina de matar um leão por dia. Entre silêncios e diálogos
Elas mereciam verbetes melhores, que se
lhes ajustassem perfeitos, redondos, como Havia uma desconfiança: o mundo não ter-
a tal calça da Gang. A língua das ruas anda minava onde os céus e a terra se encontra-
avacalhando com as nossas “minas”, para vam. A extensão do meu olhar não podia de-
usar a última expressão em que as mulheres terminar a exata dimensão das coisas. Havia
foram saudadas com delicadeza e exatidão o depois. Havia o lugar do sol se aninhar
— dentro da mina, afinal, 4cabe tanto a pe- enquanto a noite se fazia. Havia um abrigo
pita de ouro como a cavidade que se enche para a lua enquanto era dia. E o meu coração
de pólvora para explodir e destruir tudo o de menino se afogava em desesperança. Eu
que estiver em cima. que não era marinheiro nem pássaro - sem
barco e asa.
A deusa da nossa rua, que sempre pisou os
astros distraída, não passa hoje de “tchu- Um dia aprendi com Lili a decifrar as letras
tchuca marombada” ou “popozuda descon- e suas somas. E a palavra se mostrou como
trolada”. É pouco para quem caminha nas pe- caminho poderoso para encurtar distância,
drinhas portuguesas como se São Pedro fosse para alcançar onde só a fantasia suspeitava,
sobre as águas bíblicas. Algumas delas, uvas para permitir silêncio e diálogo. Com as pa-
do vinho sagrado, santas apenas no aguardo lavras eu ultrapassava a linha do horizonte.
da beatificação vaticana, provocando ainda E o meu coração de menino se afagava em
maior alvoroço, alumbramento e estupefação esperança.
dos sentidos. Ao virar uma página do livro, eu dobra-
JOAQUIM FERREIRA DOS SANTOS va uma esquina, escalava uma montanha,
O que as mulheres procuram na bolsa:
crônicas. Rio de Janeiro: Record, 2004.
transpunha uma maré.
Ao passar uma folha, eu frequentava o fundo
8. (UERJ) O cronista explica o sentido dos no- dos oceanos, transpirava em desertos para,
mes almofadinha e mina, aplicados respecti- em seguida, me fazer hóspede de outros co-
vamente ao homem e à mulher. rações.
Resuma cada uma dessas explicações e iden- Pela leitura temperei a minha pátria, chorei
tifique a figura de linguagem corresponden- sua miséria, provei de minha família, bebi
te ao uso de cada nome. de minha cidade, enquanto, pacientemente,
90
degustei dos meus desejos e limites. a) uma narrativa direta e econômica.
Assim, o livro passou a ser o meu porto, a b) real, palpável.
minha porta, o meu cais, a minha rota. Pelo c) sentimento de realidade.
livro soube da história e criei os avessos, d) seu expediente de homem.
soube do homem e seus disfarces, soube das e) seu remédio.
várias faces e dos tantos lugares de se olhar.
(...) Ler é aventurar-se pelo universo intei- TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES
ro.
Bartolomeu Campos de Queirós, Sobre ler, escrever e O autor do texto abaixo critica, ainda que em
outros diálogos. Belo Horizonte: Autêntica, 2012, p. 63. linguagem metafórica, a sociedade contem-
porânea em relação aos seus hábitos alimen-
a) No trecho “Assim, o livro passou a ser o meu tares.
porto, a minha porta, o meu cais, a minha
rota”, há metáforas que expressam a expe- “Vocês que têm mais de 15 anos, se lembram
riência do autor com a leitura. Escolha uma quando a gente comprava Ieite em garrafa, na
dessas metáforas e explique-a, considerando leiteira da esquina? (...)
Mas vocês não se lembram de nada, pô? Vai
seu sentido no texto.
ver nem sabem o que é vaca. Nem o que é
b) O texto mostra que a experiência de leitura
leite. Estou falando isso porque agora mesmo
promove uma importante mudança subjeti-
peguei um pacote de leite - leite em pacote,
va. Explique essa mudança e cite dois tre- imagina, Tereza! - na porta dos fundos e esta-
chos nos quais ela é explicitada. va escrito que é pasterizado, ou pasteurizado,
sei lá, tem vitamina, é garantido pela embro-

E.O. ENEM
matologia, foi enriquecido e o escambau.
Será que isso é mesmo leite? No dicionário
diz que leite é outra coisa: ‘Líquido branco,
1. (Enem) E considerei a glória de um pavão contendo água, proteína, açúcar e sais mi-
ostentando o esplendor de suas cores; é um nerais’. Um alimento pra ninguém botar de-
luxo imperial. Mas andei lendo livros, e des- feito. O ser humano o usa há mais de 5.000
anos. É o único alimento só alimento. A car-
cobri que aquelas cores todas não existem na
ne serve pro animal andar, a fruta serve pra
pena do pavão. Não há pigmentos. O que há
fazer outra fruta, o ovo serve pra fazer outra
são minúsculas bolhas d’água em que a luz
galinha (...) O leite é só leite. Ou toma ou
se fragmenta, como em um prisma. O pavão bota fora.
é um arco-íris de plumas. Esse aqui examinando bem, é só pra botar
Eu considerei que este é o luxo do grande fora. Tem chumbo, tem benzina, tem mais
artista, atingir o máximo de matizes com o água do que leite, tem serragem, sou capaz
mínimo de elementos. De água e luz ele faz de jurar que nem vaca tem por trás desse
seu esplendor; seu grande mistério é a sim- negócio.
plicidade. Depois o pessoal ainda acha estranho que os
Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! meninos não gostem de leite. Mas, como não
Minha amada; de tudo que ele suscita e es- gostam? Não gostam como? Nunca tomaram!
plende e estremece e delira em mim existem Múúúúúúú!”
apenas meus olhos recebendo a luz de teu (FERNANDES, Millôr. O Estado de S.
Paulo, 22 de agosto de 1999)
olhar. Ele me cobre de glórias e me faz mag-
nífico.
(BRAGA, Rubem. Ai de ti, Copacabana. 20a ed.) 2. (Enem) A crítica do autor é dirigida:
a) ao desconhecimento, pelas novas gerações,
O poeta Carlos Drummond de Andrade escre- da importância do leiteiro para a economia
veu assim sobre a obra de Rubem Braga: nacional.
O que ele nos conta é o seu dia, o seu ex- b) à diminuição da produção de leite após o de-
pediente de homem, apanhado no essencial, senvolvimento de tecnologias que têm subs-
narrativa direta e econômica. (...) É o poeta tituído os produtos naturais por produtos
do real, do palpável, que se vai diluindo em artificiais.
cisma. Dá o sentimento da realidade e o re- c) à artificialização abusiva de alimentos tra-
médio para ela. dicionais, com perda de critério para julgar
Em seu texto, Rubem Braga afirma que “este sua qualidade e sabor.
é o luxo do grande artista, atingir o máxi- d) permanência de hábitos alimentares a partir
mo de matizes com o mínimo de elementos”. da revolução agrícola e da domesticação de
Afirmação semelhante pode ser encontrada animais iniciada há 5.000 anos.
no texto de Calos Drummond de Andrade, e) à importância dada ao pacote de leite para a
quando, ao analisar a obra de Braga, diz que conservação de um produto perecível e que
ela é: necessita de aperfeiçoamento tecnológico.
91
3. (Enem) A palavra embromatologia usada e) sugerir que o país adote, além de uma postura
pelo autor é: linguística “politicamente correta”, uma polí-
a) um termo científico que significa estudo dos tica de convivência sem preconceito racial.
bromatos.
b) uma composição do termo de gíria “embro- 5. (Enem 2ª aplicação 2010) Saúde
mação” (enganação) com bromatologia, que Afinal, abrindo um jornal, lendo uma revista
é o estudo dos alimentos. ou assistindo à TV, insistentes são os apelos
c) uma junção do termo de gíria “embromação” feitos em prol da atividade física. A mídia
(enganação) com lactologia, que é o estudo não descansa; quer vender roupas esporti-
das embalagens para leite. vas, propagandas de academias, tênis, apa-
d) um neologismo da química orgânica que relhos de ginástica e musculação, vitaminas,
significa a técnica de retirar bromatos dos dietas... uma relação infindável de mate-
laticínios. riais, equipamentos e produtos alimentares
e) uma corruptela de termo da agropecuária que, por trás de toda essa “parafernália”,
que significa a ordenha mecânica. impõe um discurso do convencimento e do
desejo de um corpo belo, saudável e, em sua
4. (Enem 2ª aplicação 2010) O “politicamen- grande maioria, de melhor saúde.
te correto” tem seus exageros, como chamar RODRIGUES,L. H.; GALVÃO, Z. Educação Física
baixinho de “verticalmente prejudicado”, na escola: implicações para a prática pedagógi-
mas, no fundo, vem de uma louvável preocu- ca. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2008.
pação em não ofender os diferentes. É muito
mais gentil chamar estrabismo de “idiossin- Em razão da influência da mídia no compor-
crasia ótica” do que de vesguice. tamento das pessoas, no que diz respeito ao
O linguajar brasileiro está cheio de expres- padrão de corpo exigido, podem ocorrer mu-
sões racistas e preconceituosas que precisam danças de hábitos corporais. A esse respeito,
de uma correção, e até as várias denomina- infere-se do texto que é necessário:
ções para bêbado (pinguço, bebo, pé-de-ca- a) reconhecer o que é indicado pela mídia como
na) poderiam ser substituídas por algo como referência para alcançar o objetivo de ter um
“contumaz etílico”, para lhe poupar os sen- corpo belo e saudável.
timentos. O tratamento verbal dado aos ne- b) valorizar o discurso da mídia, entendendo-o
gros é o melhor exemplo da condescendên- como incentivo à prática da atividade física,
cia que passa por tolerância racial no Brasil. para o culto do corpo perfeito.
Termos como “crioulo”, “negão” etc. são até c) diferenciar as práticas corporais veiculadas
considerados carinhosos, do tipo de carinho pela mídia daquelas praticadas no dia a dia,
que se dá a inferiores, e, felizmente, cada considerando a saúde e a integridade corpo-
vez menos ouvidos. “Negro” também não é ral.
mais correto. Foi substituído por afrodes-
d) atender aos apelos midiáticos em prol da
cendente, por influência dos afro-americans,
prática exacerbada de exercícios físicos,
num caso de colonialismo cultural positivo.
como garantia de beleza.
Está certo. Enquanto o racismo que não quer
dizer seu nome continua no Brasil, uma in- e) identificar os materiais, equipamentos e
tegração real pode começar pela linguagem. produtos alimentares como o caminho para
atingir o padrão de corpo idealizado pela mí-
VERÍSSIMO, L. F. Peixe na cama. Diário de
Pernambuco. 10 jun. 2006 (adaptado). dia.

Ao comparar a linguagem cotidiana utilizada 6. (Enem 2ª aplicação 2010) Prima Julieta


no Brasil e as exigências do comportamento
“politicamente correto”, o autor tem a in- Prima Julieta irradiava um fascínio singular.
tenção de: Era a feminilidade em pessoa. Quando a co-
a) criticar o racismo declarado do brasileiro, que nheci, sendo ainda garoto e já sensibilíssimo
convive com a discriminação camuflada em ao charme feminino, teria ela uns trinta ou
certas expressões linguísticas. trinta e dois anos de idade.
b) defender o uso de termos que revelam a des- Apenas pelo seu andar percebia-se que era
preocupação do brasileiro quanto ao precon- uma deusa, diz Virgílio de outra mulher. Pri-
ceito racial, que inexiste no Brasil. ma Julieta caminhava em ritmo lento, agi-
c) mostrar que os problemas de intolerância ra- tando a cabeça para trás, remando os belos
cial, no Brasil, já estão superados, o que se braços brancos. A cabeleira loura incluía re-
evidencia na linguagem cotidiana. flexos metálicos. Ancas poderosas. Os olhos
d) questionar a condenação de certas expres- de um verde azulado borboleteavam. A voz
sões consideradas “politicamente incorre- rouca e ácida, em dois planos: voz de pessoa
tas”, o que impede os falantes de usarem a da alta sociedade.
linguagem espontaneamente. MENDES, M. A idade do serrote. Rio de Janeiro: Sabiá, 1968.

92
Entre os elementos constitutivos dos gêne- c) o uso de expressões exclusivas da nova for-
ros, está o modo como se organiza a pró- ma literária para substituir palavras usuais
pria composição textual, tendo-se em vista do português.
o objetivo de seu autor: narrar, descrever, d) o emprego de palavras pouco usuais no dia a
argumentar, explicar, instruir. No trecho, dia para reafirmar a originalidade e o espírito
reconhece-se uma sequência textual: crítico dos usuários desse tipo de rede social.
a) explicativa, em que se expõem informações e) o uso de palavras e expressões próprias da
objetivas referentes à prima Julieta. mídia eletrônica para restringir a participa-
b) instrucional, em que se ensina o comporta- ção de usuários.
mento feminino, inspirado em prima Julieta.
c) narrativa, em que se contam fatos que, no 8. (Enem PPL 2012) Pode chegar de mansi-
decorrer do tempo, envolvem prima Julieta. nho, como é costume por ali, e observar sem
d) descritiva, em que se constrói a imagem de pressa cada detalhe da estação ferroviária
prima Julieta a partir do que os sentidos do de Mariana. Repare na arquitetura recém-
enunciador captam. -revitalizada do casarão, e como os detalhes
e) argumentativa, em que se defende a opinião em madeira branca, as delicadas arandelas
do enunciador sobre prima Julieta, buscan- de luzes amarelas e os elementos barrocos
do-se a adesão do leitor a essas ideias. da torre já começam a dar o gostinho da via-
gem aguardada. Vindo lá de longe, o apito
7. (Enem PPL 2012) Uma tuiteratura? estridente anuncia que logo, logo o cenário
estará completo para a partida. E não tarda
As novidades sobre o Twitter já não cabem para o trem de fato surgir. Pequenino a prin-
em 140 toques. Informações vindas dos EUA cípio, mas de repente, em toda aquela imen-
dão conta de que a marca de 100 milhões sidão que desliza pelos trilhos. Arrancando
de adeptos acaba de ser alcançada e que a sorrisos e deixando boquiaberto até o mais
biblioteca do Congresso, um dos principais desconfiado dos mineiros.
templos da palavra impressa, vai guardar em TIUSSU, B. “Raízes mineiras”. Disponível em: www.
seu arquivo todos os tweets, ou seja, as men- estadao.com.br. Acesso em: 15 nov. 2011 (fragmento).
sagens do microblog. No Brasil, o fenômeno
A leitura do trecho mostra que textos jor-
não chega a tanto, mas já somos o segundo
nalísticos produzidos em determinados gê-
país com o maior número de tuiteiros. Tam-
neros mobilizam recursos linguísticos com
bém aqui o Twitter está sendo aceito em ter-
o objetivo de conduzir seu público-alvo a
ritórios antes exclusivos do papel. A própria
aceitar suas ideias. Para envolver o leitor no
Academia Brasileira de Letras abriu um con-
retrato que faz da cidade, a autora:
curso de microcontos para textos com apenas
a) inicia o texto com a informação mais impor-
140 caracteres. Também se fala das possibi-
tante a ser conhecida, a estação de trem de
lidades literárias desse meio que se caracte-
Mariana.
riza pela concisão. Já há até um neologismo,
b) descreve de forma parcial e objetiva a esta-
“tuiteratura”, para indicar os “enunciados ção de trem da cidade, seus detalhes e carac-
telegráficos com criações originais, citações terísticas.
ou resumos de obras impressas”. Por ora, c) apresenta com cuidado e precisão os recur-
pergunto como se estivesse tuitando: querer sos da cidade, sua infraestrutura e singulari-
fazer literatura com palavras de menos não dade.
é pretensão demais? d) faz uma crítica indireta à desconfiança dos
VENTURA, Z. O Globo. 17 abr. 2010 (adaptado)
mineiros, mostrando conhecimento do tema.
As novas tecnologias estão presentes na so- e) dirige-se a ele por meio de verbos e expres-
ciedade moderna, transformando a comuni- sões verbais, convidando-o a partilhar das
cação por meio de inovadoras linguagens. O belezas do local.
texto de Zuenir Ventura mostra que o Twitter
tem sido acessado por um número cada vez 9. (Enem) Desabafo
maior de internautas e já se insere até na Desculpem-me, mas não dá pra fazer uma
literatura. Neste contexto de inovações lin- cronicazinha divertida hoje. Simplesmente
guísticas, a linguagem do Twitter apresenta não dá. Não tem como disfarçar: esta é uma
como característica relevante: típica manhã de segunda-feira. A começar
a) a concisão relativa ao texto ao adotar como pela luz acesa da sala que esqueci ontem à
regra o uso de uma quantidade predefinida noite. Seis recados para serem respondidos
de toques. na secretária eletrônica. Recados chatos.
b) a frequência de neologismos criados com a Contas para pagar que venceram ontem. Es-
finalidade de tornar a mensagem mais popu- tou nervoso. Estou zangado.
lar. CARNEIRO, J.E. Veja, 11 set. 2002 (fragmento)

93
Nos textos em geral, é comum a manifestação a) A supremacia das formas da língua em rela-
simultânea de várias funções da linguagem, ção ao seu conteúdo.
com predomínio, entretanto, de uma sobre b) A necessidade da norma padrão em situações
as outras. No fragmento da crônica Desaba- formais de comunicação escrita.
fo, a função de linguagem predominante é a c) A obrigatoriedade da norma culta da língua,
emotiva ou expressiva, pois: para a garantia de uma comunicação efetiva.
a) o discurso do enunciador tem como foco o d) A importância da variedade culta da língua,
próprio código. para a preservação da identidade cultural de
b) a atitude do enunciador se sobrepõe àquilo um povo.
que está sendo dito. e) A necessidade do dicionário como guia de
c) o interlocutor é o foco do enunciador na adequação linguística em contextos infor-
construção da mensagem. mais privados.
d) o referente é o elemento que se sobressai em
detrimento dos demais.
e) o enunciador tem como objetivo principal a
manutenção da comunicação.
GABARITO
10. (Enem 2012) Sou feliz pelos amigos que
tenho. Um deles muito sofre pelo meu des-
cuido com o vernáculo. Por alguns anos ele
E.O. Teste I
sistematicamente me enviava missivas eru- 1. B 2. B 3. A 4. B 5. E
ditas com precisas informações sobre as re-
6. D 7. B 8. C 9. B 10. D
gras da gramática, que eu não respeitava, e
sobre a grafia correta dos vocábulos, que eu
ignorava. Fi-lo sofrer pelo uso errado que
fiz de uma palavra num desses meus badu-
laques. Acontece que eu, acostumado a con- E.O. Teste II
versar com a gente das Minas Gerais, falei 1. A 2. C 3. B 4. B 5. C
em “varreção” – do verbo “varrer”. De fato,
trata-se de um equívoco que, num vestibu- 6. C 7. B 8. A 9. A 10. C
lar, poderia me valer uma reprovação. Pois
o meu amigo, paladino da língua portugue-
sa, se deu ao trabalho de fazer um Xerox da
página 827 do dicionário, aquela que tem, E.O. Teste III
no topo, a fotografia de uma “varroa” (sic!) 1. A 2. A 3. C 4. A 5. C
(você não sabe o que é uma “varroa”?) para
corrigir-me do meu erro. E confesso: ele está 6. A 7. B 8. D 9. B 10. B
certo. O certo é “varrição” e não “varreção”.
Mas estou com medo de que os mineiros da
roça façam troça de mim porque nunca os vi
falar de “varrição”. E se eles rirem de mim E.O. Dissertativo
não vai me adiantar mostrar-lhes o xerox da 1. A referência 5 (“Aqui se curva o filho res-
página do dicionário com a “varroa” no topo. peitoso”) apresenta como sujeito simples os
Porque para eles não é o dicionário que faz a termos “o filho respeitoso”, cujo núcleo é o
língua. É o povo. E o povo, lá nas montanhas substantivo “filho”.
de Minas Gerais, fala “varreção” quando não A referência 6 (“Dos braços de uma cruz
“barreção”. O que me deixa triste sobre esse pende o mistério”) apresenta como sujeito
amigo oculto é que nunca tenha dito nada simples os termos “o mistério”, cujo núcleo
sobre o que eu escrevo, se é bonito ou se é é o substantivo “mistério”.
feio. Toma a minha sopa, não diz nada sobre Em relação aos predicados de ambas as refe-
ela, mas reclama sempre que o prato está ra- rências nota-se que o sujeito de cada oração
chado. está posposto.
ALVES, R. Mais badulaques. São Paulo:
2.
Parábola, 2004 (fragmento)
a) O adjetivo é a palavra “acessória”.
De acordo com o texto, após receber a carta b) O sujeito é “oportunidades de encontros
de um amigo “que se deu ao trabalho de fa- e de interações.”
zer um Xerox da página 827 do dicionário” c) Há predomínio pelo presente do indica-
sinalizando um erro de grafia, o autor reco- tivo para tratar até mesmo de ações do
nhece: passado.
94
3. vai gravando: existir Tudo que está fora de mim é mais, muito
resta: indício mais do que eu. Enquanto na narrativa, o
4. protagonista analisa a realidade através
a) O pronome que funciona como sujeito de de sua história pessoal, através da pró-
SOFRIA é ELE (sujeito elíptico). pria subjetividade.
b) O pronome refere-se a Marcos Rey, “um 8. O termo “almofadinha”, usado como meto-
homem gordinho e simpático”. nímia, define o indivíduo com base em um
5. hábito que era o de carregar uma almofada
a) Eles: gentio. para se sentar nos bondes. A palavra “mina”
Agregavam: os metais. constitui uma metáfora, associando a mu-
b) - que os homens da terra ostentavam nas lher a algo valioso e que oferece risco de
suas armas, adornos e utensílios. confusão ou destruição.
- mais preciosos pelas suas serventias 9.
- Os sucessos castelhanos atiçaram os co- a) O termo “lábio” designa cada parte exter-
lonos portugueses a iniciarem suas bus- na do contorno da boca, e o seu feminino,
cas, ”lábia”, está associado, na linguagem in-
6. formal, à arte de iludir alguém com pa-
a) Sim, o provérbio “Depois da tempestade, lavreado astucioso. Através da figura de
vem a bonança”, que ilustra a crônica de linguagem denominada paranomásia, o
Otto Lara Resende, também pode ser as- autor brinca com esse recurso usado fre-
sociado às opiniões dos autores dos tex- quentemente pelos poetas concretistas
tos I e II relativamente à capacidade de para narrar o episódio.
o indivíduo superar obstáculos e respon- b) A conjunção coordenativa “todavia” é
der de forma positiva às adversidades. usada para introduzir uma ideia que con-
No primeiro, porque Michèle Petit con- traria a preocupação inicial do poeta em
sidera o ato da leitura um instrumento fazer um poema concreto, pois a urgência
importante na reconstrução do indivíduo em estabelecer contato com a namorada
perante as adversidades e, no segundo, era ainda mais forte.
Edgar Morin afirma que o próprio sistema 10.
se encarrega de criar soluções que garan- a) O aluno pode escolher entre uma das
tam a sua sobrevivência. acepções:
b) Frases como “Uns abalozinhos já têm ha- - “Porto” indica duas alternativas: o livro
vido por aí” e “o vento é ao mesmo tempo sugere segurança, o qual também pode
sopro de vida” revelam marcas do estilo permitir tanto chegadas quanto partidas
literário, já que apresentam linguagem a diversos locais;
com função poética: coloquialismo e me- - “Porta” ilustra a capacidade que a leitu-
táfora, respectivamente. O estilo jornalís- ra confere ao leitor de ultrapassar limites
tico, cuja linguagem é predominantemen- e alcançar lugares surpreendentes;
te referencial, objetiva, está presente na - “Cais” retoma parte da metáfora de
informação sobre o vendaval que atingiu “porto”: o ato de ler permite chegadas e
Itu e as características da poesia de Ma- partidas a diferentes locais;
nuel Bandeira:“Agora passa por Itu esse - “Rota” caracteriza a leitura como o ca-
vendaval, com tantas vítimas e tantos minho a ser tomado pelo leitor.
prejuízos a lastimar” , “Manuel Bandeira É válido ressaltar que todas as metáforas
associou à canção do vento a canção da apresentadas estão relacionadas à expan-
sua vida”. são dos horizontes, tal qual a linha cen-
7. tral da narrativa apresentada.
a) Analisando os dois textos, pode-se obser- b) Por mudança subjetiva compreende-se
var que, no poema, o eu lírico acredita uma mudança íntima, particular do nar-
ainda na possibilidade de transformar o rador; segundo o contexto, tal mudança
mundo apesar das idiossincrasias ineren- ocorre a partir da leitura, a qual amplia
tes à realidade. Enquanto no romance, o seu conhecimento de mundo – uma ne-
protagonista se mostra conformado com cessidade que ele mesmo indicava no iní-
as mudanças sonhadas que não acontece- cio do trecho.
ram historicamente, entretanto, mostra- Essa mudança é explicitada em trechos
-se saudoso com o fato de um dia, ao me- como (vale ressaltar, a questão solici-
nos, ter sonhado com a possibilidade de ta apenas dois trechos): “E a palavra se
um mundo mais justo. mostrou como caminho poderoso para
b) No poema, o eu lírico ressalta a fé no encurtar distância, para alcançar onde
coletivo, no social, dando mais ênfase a só a fantasia suspeitava, para permitir
isso do que a seus sonhos individuais: silêncio e diálogo”, “Com as palavras eu
95
ultrapassava a linha do horizonte”, “E o meu coração de menino se afagava em esperança”, “Ao
virar uma página do livro, eu dobrava uma esquina, escalava uma montanha, transpunha uma
maré”, “Ao passar uma folha, eu frequentava o fundo dos oceanos, transpirava em desertos
para, em seguida, me fazer hóspede de outros corações”, “Pela leitura temperei a minha pátria,
chorei sua miséria, provei de minha família, bebi de minha cidade, enquanto, pacientemente,
degustei dos meus desejos e limites”, “Pelo livro soube da história e criei os avessos, soube do
homem e seus disfarces, soube das várias faces e dos tantos lugares de se olhar”.

E.O. Enem
1. A 2. C 3. B 4. E 5. C
6. D 7. A 8. E 9. B 10. B

96
LITERATURA

Aulas 25 e 26: Realismo/Naturalismo em Portugal 98


Aulas 27 e 28: Realismo no Brasil 126
Aulas 29 e 30: Naturalismo no Brasil 166
Aulas 25 e 26
Realismo/Naturalismo
em Portugal
REALISMO/NATURALISMO EM PORTUGAL

Enterro em Ornans. Gustave Courbet

Realismo Romantismo
Objetivismo. Subjetivismo.

Descrições e adjetivação objetivas, voltadas para a captação do real Descrições e adjetivação idealizantes, voltadas para a elevação do
como ele é. objeto descrito.

Linguagem culta e direta. Linguagem culta, e estilo metafórico e poético.

Idealização da mulher com qualidades e defeitos. Idealização da mulher, anjo de pureza e perfeição.

Amor e sentimentos subordinados aos interesses sociais. Amor sublime e puro, acima de qualquer interesse.

Casamento, instituição falida, não passa de contrato de interesses


Casamento centrado no relacionamento amoroso.
e conveniências.

Herói em conflito, enfraquecido, com manias e incertezas. Herói íntegro, de caráter irrepreensível.

Narrativa lenta, ao ritmo do tempo psicológico. Narrativa de ação e de aventura.

Personagens moldadas psicologicamente. Personagens planas cujos pensamentos e ações são previsíveis.

Universalismo. Individualismo, culto do eu.

Naturalismo
Quanto à forma Quanto ao conteúdo
ƒ Linguagem simples. ƒ Determinismo.
ƒ Clareza, equilíbrio e harmonia na composição. ƒ Objetivismo científico.
ƒ Narrativa minuciosa. ƒ Temas sociais patológicos.
ƒ Emprego de termos regionais. ƒ Observação e análise da realidade.
ƒ Longas descrições. ƒ Homens encarados sob a ótica animalesca e sensual.
ƒ Impessoalidade. ƒ Despreocupação com a moral.
ƒ Literatura engajada.

99
A saturação do Romantismo
Em Portugal, por volta de 1870, o subjetivismo romântico dava sinais evidentes de saturação, cenário propício à
reação literária denominada Realismo.

Autorretrato. Gustave Courbet

O Realismo teve origem na França. Precursor do movimento, o francês Gustave Courbet chamou de “O rea-
lismo” uma exposição de quarenta telas realizada em Paris, em 1855. Sua intenção era fazer uma “arte viva”, que
“retratasse os costumes, ideias e aspectos de sua época”, com o objetivo de dar sinceridade à arte em oposição
à liberdade artística do Romantismo.
Honoré Daumier Courbet (1808-1879) e Jean-François Millet (1814-1875), contemporâneos seus, privile-
giam cenas de grupos sociais desfavorecidos.
Posição semelhante assumiram alguns escritores, que viam na literatura o papel de educar e retratar a
sociedade: Gustave Flaubert (1821-1880) e Émile Zola (1840-1902).

Os britadores de pedra. Óleo sobre tela, 159 cm X 259 cm. 1849. Gustave Courbet.

100
Nascimento do Realismo no mundo
Ao publicar em 1857 o romance Madame Bovary, Gustave Flaubert deu
início ao Realismo literário. Trata-se de uma análise bastante impiedosa da ide-
ologia burguesa romântica. Uma caricatura da burguesia, que acima de tudo,
ridiculariza o casamento falsamente moralista. Sobretudo pelo estilo conciso, o
autor influenciou significativamente os realistas portugueses e brasileiros.
A incursão feita na sociedade burguesa trouxe temas clericais – crítica
à concepção de vida do clero – em oposição ao conhecimento científico, e os
temas político-sociais, um diagnóstico da sociedade burguesa em crise.
Por outro lado, Émile Zola, radicalizou o realismo de Flaubert, ao
levar às últimas consequências a ideia da influência do meio sobre as pes-
soas.
Seu objetivo foi representar com absoluta franqueza a realidade social,
sem descuidar dos fenômenos patológicos e da vida sexual dos burgueses. Essa
tendência ficou conhecida como realismo naturalista, que tratou de assuntos
até então evitados pelos escritores. Nesse contexto, seu romance Thérèse Raquin, de 1867, foi simbólico.
Graças a essa história, Zola foi acusado de imoralidade. Nela, focaliza o amor adúltero de Laurent e Thérè-
se, que tramam o assassinato de Camille, marido de Thérèse. Ela é uma jovem mulher fechada em si mesma, que
passou a infância junto a um primo doente e foi obrigada a esconder dentro de si um coração ardente e nervoso.
Laurent, por sua vez, é um homem desprezível cuja maior ambição é viver no ócio. O encontro dos dois resulta na
fatalidade que os levará à ruína.
Vistos como bestas humanas, os personagens agem alheios às próprias vontades, às próprias almas e natu-
rezas, impotentes de se comportarem de outra forma, dada a situação em que se encontram.
O texto sobressai pela descrição dos mais íntimos sentimentos de suas personagens, pelos mecanismos da
mente humana diante do inevitável. Zola também foi autor do romance experimental, em que defende a ideia do
romance como documento da realidade.
O Naturalismo foi considerado um Realismo avançado, que esmiúça o casamento burguês até a patologia social.

O Realismo cientificista
Aproximar a verdade social da verdade artística, privilegiando o cotidiano do homem também brutal e animalizado,
foi um dos objetivos do Realismo.
Conceitualmente, Realismo e Naturalismo confluíram para o ideal positivista do final do século XIX. Era
pressuposto desses movimentos submeter o texto artístico à realidade. Ao artista importavam a observação e a
experiência, não a idealização da realidade que caracterizou o Romantismo.
Em tempos de industrialização e da vitória do capitalismo, o culto à ciência criou o ambiente contrário
ao sentimentalismo romântico. A ciência passou a ser considerada o único veículo legítimo de conhecimento da
realidade, não mais a emoção. Uma literatura “científica”, um recurso de conhecimento da realidade, um espelho
fiel do universo.
O pensamento positivista do francês Augusto Comte (1798-1857) marcou a atmosfera realista cujo foco foi
o saber à luz das leis científicas, superior ao saber teológico ou metafísico.
101
O Naturalismo disseminou uma visão determinista do homem, visto como produto de leis físicas e so-
ciais, fruto do meio em que vive, da raça e do momento histórico, bem como da cultura a que está sujeito: a
educação e o ambiente.
Também influenciada pelo evolucionismo de Charles Darwin, a arte realista-naturalista postulava a seleção
natural do homem na sociedade como veículo de transformação das espécies. Vence sempre o mais forte. Ao fraco,
inevitavelmente, cabe ser vencido.
Os escritores naturalistas introduziram na Europa o chamado “romance experimental”, idealizado e execu-
tado por Émile Zola, seu patrono.
Trata-se de um romance resultado da evolução científica do século. Cabe-lhe “continuar a Fisiologia [...]
substituir o estudo do homem abstrato, do homem metafísico pelo estudo do homem natural, submetido às leis
físico-químicas e determinado pelas influências do meio ” (ZOLA, Émile. O romance experimental e o Naturalismo.
São Paulo: Perspectiva, 1979).

A sopa. 1862 a 1865. Honoré Daumier (1808–1879). A cena é quase animalesca: enquanto se alimenta, a mãe também amamenta a criança.

Características do Realismo/Naturalismo
O Realismo-Naturalismo foi uma arte engajada, compromissada com seu universo e com a observação do mundo
objetivo e exato.

Presença do cotidiano

Os realistas-naturalistas representavam a realidade artística de seu tempo sem preconceito e sem convenção.
Tinha destaque o cotidiano puro e simples, desprezado pelas estéticas anteriores. Os personagens dos romances
realistas-naturalistas estão muito próximos das pessoas comuns, reais, com seus problemas e suas vidas medianas,
cujas atitudes devem ter sempre explicações lógicas e científicas. A linguagem, outra preocupação, aproxima-se do
texto informativo, simples, sem recorrer a imagens denotativas, mas detalhista no enfoque da realidade, explicável
pela proximidade com os fatos narrados. A sintaxe obedece à ordem direta.
102
Preferência pelo presente

Com preferência pelo momento presente, as narrativas realistas-naturalistas são ambientadas e criticadas no tem-
po contemporâneo ao do escritor. Com isso, a literatura passou a denunciar e a criticar a realidade social.

Personagens tipificados

Trazidos da vida real, seus personagens são representativos de uma determinada categoria: empregado, patrão, pro-
prietário, subalterno; senhor, escravo, e assim por diante. Consistem em personagens típicos, ou tipos, espécies de
caricaturas, com traços definidos, comportamentos previsíveis e, basicamente, sem alterações ao longo da narrativa.
Esses tipos permitem estabelecer relações críticas entre o texto e a realidade histórica em que ele se insere.

O escritor Eça de Queirós e seus personagens típicos. 1928. Caricatura de João Abel Manta.

Limites entre Realismo e Naturalismo


Realismo e Naturalismo, constituem estéticas literárias bastante próximas apesar das inúmeras características
comuns, a prosa realista e a naturalista manifestam diferenças.
Há quem veja o Naturalismo como uma espécie de extensão exacerbada do Realismo, que considerava
a predestinação das histórias e dos personagens, as frequentes situações de desequilíbrio e o comportamento
animalesco do homem sujeito aos instintos, como consequência do meio em que estes personagens vivem e da
hereditariedade física e patológica, responsáveis por determinar seus comportamentos.
De fato, o Naturalismo aprofunda a visão cientificista do Realismo ao mostrar o homem como um caso clini-
camente estudado, realçando seus distúrbios provocados pelo comportamento. Nessa linha, são temas preferidos
pelo naturalista, a miséria, o adultério, a criminalidade, e os problemas decorrentes da vida sexual dos personagens.
Os conflitos são o enfoque preferencial na obra naturalista.
103
O Realismo/Naturalismo em Portugal
Em Portugal, o Realismo/Naturalismo ganhou impulso a partir de 1865; no Brasil, a partir de 1881 até o final
do século XIX.

Realismo-Naturalismo
Realismo-Naturalismo brasileiro (1881-1893)
português (1865-1890)
Questão Coimbrã ou Bom-senso e bom gosto:
Publicação de Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.
Antero de Quental versus Antônio Feliciano de Castilho

Romance de costume: Eça de Queirós Romance documental: Raul Pompeia

Poesia metafísica: Antero de Quental Romance naturalista: O mulato, de Aluísio Azevedo

Romance de tese: Aluísio Azevedo, Adolfo Caminha, Julio Ribeiro

Poesia do cotidiano: Cesário Verde Parnasianismo: cultivo da arte pela arte

Poesia neoclássica: Olavo Bilac, Alberto de Oliveira, Raimundo Correia

Nascido em 1865 com a Questão Coimbrã, o Realismo português entrou em decadência a partir de 1890 e
extinguiu-se após a morte do escritor Eça de Queirós, em 1900.
Influenciado pelo Realismo francês, profundamente anticlerical, antiburguês e antirromântico, um grupo de
intelectuais chamado Geração de 1870 – liderado por Antero de Quental e com participação de Oliveira Martins,
Teófilo Braga, e Guerra Junqueiro – deu vida ao movimento realista português.

Questão do bom senso e do bom gosto

“Caracterizou-se por uma guerra de folhetos e folhetins entre Antero e Antônio Feliciano de Castilho e Antônio
Pinheiro Chagas. Com um fundo predominantemente ideológico, esta questão promoveu ventos de mudança
estéticos. Possivelmente influenciado pelo palavroso romantismo piegas, o realismo começa por caracterizar-se
por uma defesa pela linguagem simples.
(Disponível em: <filosofianamadeiratorres.blogspot.com.br>. Acesso em: 15 mar. 2015).

Foi com a Questão Coimbrã, em 1865, polêmica literária travada pelos jornais de Coimbra, que o Realis-
mo começou a ganhar vida em Portugal. Naquela mesma data, o poeta romântico Antônio Feliciano de Castilho,
representante da Escola de Lisboa, fez elogios num posfácio à obra Poema da mocidade, de Pinheiro Chagas, e
censurou o estilo poético defendido pela Escola Coimbrã, citando os nomes de Antero de Quental e Teófilo Braga.
Foi o quanto bastou para que Antero de Quental lhe respondesse mediante folhetos denominados Bom senso e
bom gosto e A dignidade das letras e as literaturas oficiais.
104
Ato contínuo, formaram-se grupos partidários, românticos e realistas, de um e de outro lado, que se
degladiaram durante os anos de 1865 e 1866. Enquanto os românticos pregavam a tradição, os realistas anun-
ciavam a revolução.
A perspectiva revolucionária do grupo privilegiava a liberdade de pensamento, como se pode perceber neste
trecho do folheto “Bom senso e bom gosto”, assinado por Antero de Quental.

O escritor quer o espírito livre de jogos, o pensamento livre de preconceitos e respei-


tos inúteis, o coração livre de vaidades, incorruptível e intemerato.
Só assim serão grandes e fecundas as suas obras; só assim merecerá o lugar
de censor entre os homens, porque o terá alcançado, não pelo favor das turbas,
inconscientes e injustas, mas elevando-se naturalmente sobre todos pela ciência,
pelo paciente estudo de si e dos outros, pela limpeza interior duma alma que só vê
e busca o bem, o belo, o verdadeiro.
(Bom senso e bom gosto. In: ABDALA Jr, B.; PASCHOALIN, M. A. His-
tória social da Literatura Portuguesa. São Paulo: Ática, 1987).
Caricatura de Antero de Quental.
Rui Rodrigues de Sousa.

Conferências do cassino lisbonense


A partir de 1868, incendiados pela polêmica entre os jovens de Coimbra, os estudantes reuniram-se no Grupo do Cená-
rio, do qual participaram escritores e intelectuais da primeira linha cultural portuguesa contemporânea ao movimento
realista: Eça de Queirós, Antero de Quental, Oliveira Martins, Ramalho Ortigão, Salomão Sáraga, Santos Valente, Mariano
Machado de Faria e Maia, José Eduardo Lobo da Costa, dentre outros nomes. Nessas reuniões boêmias idealizaram-se as
Conferências do Cassino abertas ao público, com o objetivo de popularizar as questões em moda na Europa e na América
do Norte, alinhar-se a elas, modernizar-se enfim. Não faltaram críticas da imprensa conservadora a essas conferências,
que as considerou subversivas e foram proibidas.
Tal proibição sensibilizou o próprio Alexandre Herculano, romântico de primeira hora, que se alinhou aos
jovens revolucionários em defensa da liberdade de pensamento.
Mesmo dissolvido no final da década de 1870, o Cenário voltou a se reunir em 1887 e 1888, contando com
outros participantes que foram chamados Vencidos da vida. O nome irônico fazia menção aos derrotados intelec-
tualmente, mas vencedores pelo reconhecimento social.
No decorrer dos anos 1870, cada integrante do grupo desenvolveu uma produção marcante até o fim do século.

Linhas de pensamento do Realismo/Naturalismo em Portugal


Estas observações procuram sintetizar a produção literária do Realismo/Naturalismo português.

Crítica ao tradicionalismo vazio da sociedade portuguesa

De acordo com os jovens de Coimbra, o tradicionalismo era resultado de uma educação romântica, convencional e
distante da realidade. O escritor tinha uma missão a cumprir: a de comprometer-se com a verdade social.

Crítica ao conservadorismo da Igreja

Tendo em vista a importância do catolicismo em Portugal, os realistas criticavam seu conservadorismo voltado para
o passado, que impedia o desenvolvimento natural da sociedade.
105
Visão objetiva e natural da realidade

O escritor realista construía seus personagens mediante tipos concretos, criados pela observação da relação deles
com o meio. Seu comportamento deveria ser definido pelos caracteres psicossociais influenciados e adquiridos no
ambiente em que viviam.

Preocupação com a reforma da sociedade

Desejo de democratização do poder político mediante amplas reformas sociais; diagnóstico de problemas sociais e
sugestões de soluções reformistas de caráter socialista.

Representação da vida contemporânea

Estabelecimento de conexões rigorosas de causa e efeito entre os fenômenos observados da realidade social.

Poesia e ficção como armas de combate


A poesia produzida no Realismo português teve caráter revolucionário e serviu como arma de combate e de denúncia
de questões sociais. Engajada, compromissada com causas políticas, também foi voltada para a filosofia, para a re-
flexão profunda sobre a existência e, magistralmente, tematizada pelo cotidiano. Foram poetas realistas portugueses:
ƒ Guerra Junqueiro e Antero de Quental, cuja poesia foi revolucionária;
ƒ Antero de Quental, poesia filosófica;
ƒ Cesário Verde, poesia do cotidiano.
Paralelamente à poesia, o romance foi outra arma de denúncia social e de ataque à burguesia, ao clero e à
monarquia. Fez jus à plataforma realista de observação social aprofundada. Tornou-se um verdadeiro documentário
sobre a burguesia portuguesa. Os romances realistas-naturalistas floresceram mais no fim do século XIX, dos quais
foram seus melhores representantes Eça de Queirós e Antero de Quental.

Principais autores realistas


Antero de Quental

Líder do Realismo e seu principal ativista aos 23 anos, Antero Tarquínio de Quental (1842-1891) publicou
as Odes modernas, que fugiam aos padrões românticos.

106
Transcendentalismo
(Ao Sr. J. P. Oliveira Martins)
Já sossega, depois de tanta luta,
Já me descansa em paz o coração.
Cai na conta, enfim, de quanto é vão
O bem que ao Mundo e à Sorte se disputa.
Penetrando, com fronte não enxuta,
No sacrário do templo da Ilusão,
Só encontrei, com dor e confusão,
Trevas e pó, uma matéria bruta...
Não é no vasto mundo — por imenso
Que ele pareça à nossa mocidade —
Que a alma sacia o seu desejo intenso...
Na esfera do invisível, do intangível,
Sobre desertos, vácuo, soledade,
Voa e paira o espírito impassível!
Antero de Quental
In Sonetos, 1861
Edição de 1886
(Org. J. P. Oliveira Martins)

NOTAS:
1. soneto do período: 1880-1884
2. grafia atualizada

Finda a polêmica da Questão Coimbrã, Antero mudou-se para Paris, aderiu ao socialismo e pôs em prática
uma filosofia humanitária de auxílio ao próximo, com o que logo se desiludiu. Percebeu que a prática deveria ema-
nar de uma ação coletiva, não individual. Antero mudou-se para Nova York, onde não se adaptou ao modo de vida
norte-americano. De volta a Portugal em 1868, filiou-se ao grupo de debates Cenáculo.
Em 1871, filiado ao Partido Socialista e em contato com organizações do movimento proletário interna-
cional, organizou as Conferências Democráticas no afã de propagar as ideias que defendia e fazer com que
Portugal caminhasse no mesmo passo rápido da Europa. Visado pela repressão, foi perseguido junto com todos os
demais integrantes do movimento democrático.
Com a morte do pai em 1873, Antero de Quental foi obrigado a retirar-se da cena política.
Os livros de poemas Raios de extinta luz e Primaveras românticas são obras anteriores à Questão Coimbrã.
Revelam uma poesia ainda influenciada por um romantismo ora religioso, ora amoroso. Sua primeira obra marcante
e revolucionária foi Odes modernas.
“Achei-me sem direção, estado terrível de espírito, partilhado mais ou menos por quase todos os de minha
geração”, confessaria o poeta em carta a um amigo, datada de 1887.
Com cento e nove composições, Sonetos é uma obra síntese de Antero de Quental; compreende vários
períodos de sua vida: do ciclo inicial, “amor-paixão”, ao último, reflexão metafísica, passando por diferentes fases:
apostolado social, desejo de evasão e de morte e pensamento teológico.
107
Mais luz!

Amem a noite os magos crapulosos,


E os que sonham com virgens impossíveis,
E os que se inclinam, mudos e impassíveis,
À borda dos abismos silenciosos...

Tu, Lua, com teus raios vaporosos,


Cobre-os, tapa-os e torna-os insensíveis,
Tanto aos vícios cruéis e inextinguíveis,
Como aos longos cuidados dolorosos!

Eu amarei a santa madrugada,


E o meio-dia, em vida refervendo,
E a tarde rumorosa e repousada.

Viva e trabalhe em plena luz: depois,


Seja-me dado ainda ver, morrendo,
O claro Sol, amigo dos heróis!

(QUENTAL, Antero de Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Agir, 1967).

Magos crapulosos: sacerdotes libertinos

Eça de Queirós

José Maria Eça de Queirós (1845-1900) estudou Direito na Universidade de Coimbra, onde conheceu a
geração que revolucionou a literatura.
Aos 21 anos participou ativamente das Conferências do Cassino Lisbonense.
Ingressou na vida diplomática e atuou como cônsul em Cuba e na Grã-Bretanha, onde escreveu O crime do
padre Amaro e O primo Basílio, romances de mais repercussão em sua carreira literária.
Mesmo com tempo gasto com a diplomacia, Eça de Queirós não deixou de escrever para jornais portu-
gueses e brasileiros.
Em 1883, foi eleito sócio-correspondente da Academia
Real de Ciências. Conheceu o escritor Émile Zola, em Paris,
para onde foi transferido.
Depois de escrever e publicar A relíquia e Os Maias,
em 1888, Eça já não era mais o combativo jovem das Confe-
rências do Cassino. Tampouco o eram seus companheiros. Em
Paris, escreveu A ilustre casa de Ramires e A cidade e as serras.
Sua última visita a Portugal foi em 1900, ano em que faleceu.
108
As três fases de Eça de Queirós

A obra de Eça de Queirós pode ser organizada em três fases:


ƒ Primeira fase – de 1865 a 1871 – é considerada a fase
de aprendizado, com a produção dos folhetins de gosto
popular, reunida mais tarde sob o título de Prosas bár-
baras. Neles revela influência de Victor Hugo e Mechelet,
uma vez inclinado para os temas históricos. Também em
folhetins nasceu seu primeiro romance – O mistério da es-
trada de Sintra (1871) –, escrito em parceria com Ramalho
Ortigão. O método epistolar da escrita – troca de cartas
entre os autores – despertou o interesse do público. Nas
cartas, os escritores contam a história de um sequestro. Na
época, os leitores acreditavam tratar-se de fato verídico.
ƒ Segunda fase – de 1871 a 1888 –, chamada Realismo
Agudo, deu-se após a publicação de O crime do padre
Amaro e Os Maias. Seu objetivo foi assim expresso por Eça
de Queirós em carta ao amigo Teófilo Braga: [...] “pintar
a sociedade portuguesa e mostrar-lhe, como num espelho,
que triste país eles formam. [...] destruir as falsas inter-
pretações e falsas realizações que lhe dá uma sociedade
podre”.
ƒ Terceira fase – de 1888 a 1900 –, considerada a fase de “nacionalismo nostálgico” ou “realismo
fantasia”, em que suas obras focam o tradicionalismo das origens de Portugal e uma tentativa de fazer as
pazes com o país que tanto criticou. É o caso de A ilustre casa de Ramires. O protagonista Ramires procura
colocar-se à altura de seus antepassados medievais e a recompor a própria história. Esta fase compreende
também A correspondência de Fradique Mendes e o romance A cidade e as serras.

Obras
O crime do padre Amaro (1875)

Primeiro romance do Realismo português tem o enredo ambientado em Leiria, cida-


de interiorana do norte de Portugal, onde o ingênuo padre Amaro Vieira vai assumir
sua paróquia. Hospedado inicialmente na casa da Senhora Joaneira, acaba por se
envolver amorosamente com sua filha Amélia. Seus colegas padres não estranham
tal relação, o que leva o jovem pároco a percebe que agiam cinicamente.
Amélia engravida e acaba por morrer no parto e Amaro entrega a criança
a uma “tecedeira de anjos”.
Depois da morte da criança, Amaro prossegue em sua carreira sacerdotal.
Trecho do capítulo VI de O crime do padre Amaro, de Eça de Queirós”:
[...]
Pelo meio do dia ordinariamente Amaro subia à sala de jantar, onde a S.
Joaneira e Amélia costuravam. “Estava aborrecido embaixo, vinha um bocado para
o cavaco”, dizia. A S. Joaneira, numa cadeira pequena, ao pé da janela, com o gato
109
aninhado na roda do vestido de merino, cosia de luneta na ponta do nariz. Amélia, junto da mesa, trabalhava com
o cesto da costura ao lado; a cabeça inclinada sobre o trabalho mostrava a sua risca fina, nítida, um pouco afogada
na abundância do cabelo; os seus grandes brincos de ouro, em forma de pingos de cera, oscilavam, faziam tremer e
crescer sobre a finura do pescoço uma pequenina sombra; as olheiras leves cor de bistre esbatiam-se delicadamente
sobre a pele de um trigueiro mimoso, que um sangue forte aviventava; e o seu peito cheio respirava devagar.
Às vezes, cravando a agulha na fazenda, espreguiçava-se devagarinho, sorria, cansada. Então Amaro gracejava:
– Ah preguiçosa, preguiçosa! Olha que mulher de casa!
[...]
Depois, animando-se, bulia-lhe no cesto da costura. Um dia encontrara uma carta; perguntou-lhe pelo der-
riço; ela respondeu, picando vivamente o pesponto:
– Ai! a mim ninguém me quer, senhor pároco...
– Não é tanto assim, acudiu ele. Mas suspendeu-se, muito vermelho, afetando tossir.
Amélia às vezes fazia-se muito familiar; um dia mesmo, pediu-lhe para sustentar nas mãos uma meadinha
de retrós que ela ia dobar.
– Deixe falar, senhor pároco! exclamou a S. Joaneira. Ora a tolice! Isto, em se lhe dando confiança!...
Mas Amaro prontificou-se, rindo, todo contente: – ele estava ali para o que quisessem! Era mandarem, era
mandarem!... E as duas mulheres riam, dum riso cálido, enlevadas naquelas maneiras do senhor pároco, “que até
tocavam o coração”! Às vezes Amélia pousava a costura e tomava o gato no colo; Amaro chegava-se, corria a mão
pela espinha do maltês que se arredondava, fazendo um ronrom de gozo.
– Gostas? dizia ela ao gato, um pouco corada, com os olhos muito ternos.
E a voz de Amaro murmurava, perturbada:
– Bichaninho gato! bichaninho gato!
Depois a S. Joaneira erguia-se para dar o remédio à idiota ou ir palrar à cozinha. Eles ficavam sós; não falavam,
mas os seus olhos tinham um longo diálogo mudo, que os ia penetrando da mesma languidez dormente. Então Amélia
cantarolava baixo o Adeus ou o Descrente: Amaro acendia o seu cigarro, e escutava, bamboleando a perna.
– É tão bonito isso! dizia.
Amélia cantava mais acentuadamente, cosendo depressa; e a espaços, erguendo o busto, mirava o alinha-
vado ou o pesponto, passando-lhe por cima, para o assentar, a sua unha polida e larga.
Amaro achava aquelas unhas admiráveis, porque tudo que era ela ou vinha dela lhe parecia perfeito: gos-
tava da cor dos seus vestidos, do seu andar, do modo de passar os dedos pelos cabelos, e olhava até com ternura
para as saias brancas que ela punha a secar à janela do seu quarto, enfiadas numa cana. Nunca estivera assim
na intimidade duma mulher. Quando percebia a porta do quarto dela entreaberta, ia resvalar para dentro olhares
gulosos, como para perspectivas dum paraíso: um saiote pendurado, uma meia estendida, uma liga que ficara sobre
o baú, eram como revelações da sua nudez, que lhe faziam cerrar os dentes, todo pálido. E não se saciava de a
ver falar, rir, andar com as saias muito engomadas que batiam as ombreiras das portas estreitas. Ao pé dela, muito
fraco, muito langoroso, não lhe lembrava que era padre; o Sacerdócio, Deus, a Sé, o Pecado ficavam embaixo, longe,
via-os muito esbatidos do alto do seu enlevo, como de um monte se veem as casas desaparecer no nevoeiro dos va-
les; e só pensava então na doçura infinita de lhe dar um beijo na brancura do pescoço, ou mordicar-lhe a orelhinha.
Às vezes revoltava-se contra estes desfalecimentos, batia o pé:
– Que diabo, é necessário ter juízo! É necessário ser homem!
Descia, ia folhear o seu Breviário; mas a voz de Amélia falava em cima, o tique-tique das suas botinas batia
o soalho... Adeus! a devoção caía como uma vela a que falta o vento; as boas resoluções fugiam, e lá voltavam
as tentações em bando a apoderar-se do seu cérebro, frementes, arrulhando, roçando-se umas pelas outras como
um bando de pombas que recolhem ao pombal. Ficava todo subjugado, sofria. E lamentava então a sua liberdade
perdida: como desejaria não a ver, estar longe de Leiria, numa aldeia solitária, entre gente pacífica, com uma criada
velha cheia de provérbios e de economia, e passear pela sua horta quando as alfaces verdejam e os galos cacare-
jam ao sol! Mas Amélia, de cima, chamava-o – e o encanto recomeçava, mais penetrante.
[...]
110
No cinema

O jovem padre Amaro (Gael García Bernal) acaba de ser ordenado e em breve irá para Roma continuar seus es-
tudos, graças à boa relação que man-
tém com o bispo. Antes, contudo, deve
trabalhar em uma paróquia. É enviado
para Los Reyes para atuar sob as or-
dens do padre Benito (Sancho Gracia),
o vigário que aparentemente vive uma
existência corrupta e contraditória. Lá
Amaro conhece a linda e devota Amé-
lia (Ana Claudia Talancón), filha de
Sanjuanera (Angélica Aragón), dona
do restaurante mais importante da ci-
dade e amante do padre Benito. Dian-
te do mundo real, Amaro é confron-
tado com a hipocrisia da Igreja, que
condena as guerrilhas, mas convive
com chefes do tráfico de drogas.
(1h42, 2002. Disponível em: <adorocinema.com/filmes/filme-49421/>. Acesso em: 14 mar. 2015).

O primo Basílio (1878)

Jorge e Luísa são um casal da burguesia lisboeta. Convivem num círculo de amizades formado, entre outros, pelo
Conselheiro Acácio, homem apegado a convenções sociais; Dona Felicidade, que nutre uma paixão por ele; e Se-
bastião, o melhor amigo de Jorge.
Jorge sai em uma viagem de trabalho e durante sua
ausência, Luísa recebe a visita de Basílio, seu primo e antigo
namorado, residente em Paris. Admirado com a beleza da
moça, Basílio envolve Luísa em um jogo de sedução, que faz
com que ela se imagine vivendo uma das aventuras amo-
rosas de suas leituras românticas. Eles se tornam amantes,
passando a trocar cartas de amor. Luísa encontra estímulo
na amiga Leopoldina, mulher casada, colecionadora de ca-
sos extraconjugais. Toda a movimentação da casa é observa-
da pela governanta Juliana, sempre às voltas com planos de
enriquecimento rápido.
Para escapar das desconfianças dos vizinhos, o ca-
sal de amantes passa a se encontrar em um quarto alu-
gado nos subúrbios de Lisboa. A despeito da decrepitu-
de decadente do lugar, chamam-no de Paraíso. Ali vivem
tórridas cenas de amor. Com o tempo, Luísa percebe um
esfriamento na paixão de Basílio, que passa a lhe tratar
com certo desprezo.
111
Juliana apodera-se de algumas cartas trocadas entre os amantes e passa a chantagear a patroa. Luísa expõe
um plano de fuga a Basílio, mas ele se recusa a segui-lo e retorna a Paris.
Jorge chega da viagem e Luísa continua a sofrer o assédio de Juliana, que exige uma grande quantia em
dinheiro para devolver-lhe as cartas. Para conter seus ímpetos, Luísa vê-se obrigada a conceder à empregada uma
série de privilégios: presenteia-lhe com seus vestidos, deixa seu quarto mais confortável e chega até mesmo a
substituí-la em alguns serviços domésticos, sempre às escondidas do marido.
Jorge apercebe-se do que acredita ser desprezo de Juliana pelo trabalho e resolve demiti-la. Juliana exige o
dinheiro da chantagem e Luísa apela então para Sebastião. Ele escuta toda a história do adultério e fica horroriza-
do, mas resolve ajudar a amiga. Vai até a casa de Jorge em um momento em que Juliana está só e, com ameaças de
prisão, obtém as cartas. Vendo escapar-lhe o sonho de enriquecimento, Juliana tem uma síncope e morre. Sebastião
entrega as cartas a Luísa.
Luísa adoece. Jorge apanha, em meio à correspondência, uma carta de Basílio. Imaginando que a causa da
doença da esposa seja algum problema familiar de cujo conhecimento ela o poupa, Jorge abre a carta. Nela, Basílio
relembra os bons momentos passados no Paraíso. Quando a esposa melhora, Jorge lhe mostra a carta de Basílio. Luísa
sofre um choque e, alguns dias depois, morre.
(Disponível em: <educacao.globo.com>. Acesso em: 14 marco. 2015).

Trechos do segundo e terceiro capítulos do romance O primo Basílio.

Capítulo II

Aos domingos à noite havia em casa de Jorge uma pequena reunião, uma cavaqueira, na sala, em redor do velho
candeeiro de porcelana cor-de-rosa. Vinham apenas os íntimos. O “Engenheiro”, como se dizia na rua, vivia muito ao
seu canto, sem visitas. Tomava-se chá, palrava-se. Era um pouco à estudante. Luísa fazia crochê, Jorge cachimbava.
O primeiro a chegar era Julião Zuzarte, um parente muito afastado de Jorge e seu antigo condiscípulo nos
primeiros anos da Politécnica. Era um homem seco e nervoso, com lunetas azuis, os cabelos compridos caídos sobre a
gola. Tinha o curso de cirurgião da Escola. Muito inteligente, estudava desesperadamente, mas, como ele dizia, era um
tumba. Aos trinta anos, pobre, com dívidas, sem clientela, começava a estar farto do seu quarto andar na Baixa, dos
seus jantares de doze vinténs, do seu paletó coçado de alamares; e entalado na sua vida mesquinha, via os outros, os
medíocres, os superficiais, furar, subir, instalar-se à larga na prosperidade! “Falta de chance”, dizia. [...]
Como vinha mais cedo ia à sala de jantar, tomava a sua chávena de café; e tinha sempre um olhar de lado
para as pratas do aparador e para as toaletes frescas de Luísa. [...]
Às nove horas, ordinariamente, entrava D. Felicidade de Noronha. Vinha logo da porta com os braços esten-
didos, o seu bom sorriso dilatado. Tinha cinquenta anos, era muito nutrida, e, como sofria de dispepsia e de gases,
àquela hora não se podia espartilhar e as suas formas transbordavam. Já se viam alguns fios brancos nos seus
cabelos levemente anelados, mas a cara era lisa e redonda, cheia, de uma alvura baça e mole de freira; nos olhos
papudos, com a pele já engelhada em redor, luzia uma pupila negra e úmida, muito móbil; e aos cantos da boca uns
pelos de buço pareciam traços leves e circunflexos de uma pena muito fina. Fora a íntima amiga da mãe de Luísa,
e tomara aquele hábito de vir ver a pequena aos domingos. Era fidalga, dos Noronhas de Redondela, bastante
aparentada em Lisboa, um pouco devota, muito da Encarnação.
Mal entrava, ao pôr um beijo muito cantado na face de Luísa, perguntava-lhe baixo, com inquietação:
– Vem?
– O Conselheiro? Vem.
[...]
Havia cinco anos que D. Felicidade o amava. Em casa de Jorge riam-se um pouco com aquela chama. Luísa
dizia: “Ora! E uma caturrice dela!” [...]
112
O Conselheiro era a sua ambição e o seu vício! Havia sobretudo nele uma beleza, cuja contemplação demo-
rada a estonteava como um vinho forte: era a calva. Sempre tivera o gosto perverso de certas mulheres pela calva
dos homens, e aquele apetite insatisfeito inflamara-se com a idade. [...]
Era alto, magro, vestido todo de preto, com o pescoço entalado num colarinho direito. O rosto aguçado
no queixo ia-se alargando até à calva, vasta e polida, um pouco amolgada no alto; tingia os cabelos que de uma
orelha à outra lhe faziam colar por trás da nuca – e aquele preto lustroso dava, pelo contraste, mais brilho à calva;
mas não tingia o bigode: tinha-o grisalho, farto, caído aos cantos da boca. Era muito pálido; nunca tirava as lunetas
escuras. Tinha uma covinha no queixo, e as orelhas grandes muito despegadas do crânio.
[...]
Houve um silêncio comovido, e à porta uma voz fina, disse:
– Dão licença?
– Oh, Ernestinho!... – exclamou Jorge.
Com um passo miudinho e rápido, Ernestinho veio abraçá-lo pela cintura:
– Eu soube que tu partias, primo Jorge... Como está, prima Luísa?
Era primo de Jorge. Pequenino, linfático, os seus membros franzinos, ainda quase tenros, davam-lhe um as-
pecto débil de colegial; o buço, delgado, empastado em cera mostache, arrebitava-se aos cantos em pontas afiadas
como agulhas; e na sua cara chupada, os olhos repolhudos amorteciam-se com um quebrado langoroso. Trazia
sapatos de verniz com grandes laços de fita; sobre o colete branco, a cadeia do relógio sustentava um medalhão
enorme, de ouro, com frutos e flores esmaltados em relevo. [...]
Luísa bordava, calada; a luz do candeeiro, abatida pelo abajur, dava aos seus cabelos tons de um louro
quente, resvalava sobre a sua testa branca como sobre um marfim muito polido. [...]

Capítulo III

[...]
Nascera em Lisboa. O seu nome era Juliana Couceiro Tavira. Sua mãe fora engomadeira. [...]
Servia, havia vinte anos. Como ela dizia, mudava de amos, mas não mudava de sorte. Vinte anos a dormir
em cacifos, a levantar-se de madrugada, a comer os restos, a vestir trapos velhos, a sofrer os repelões das crianças
e as más palavras das senhoras, a fazer despejos, a ir para o hospital quando vinha a doença, a esfalfar-se quando
voltava a saúde!... Era demais! Tinha agora dias em que só de ver o balde das águas sujas e o ferro de engomar se
lhe embrulhava o estômago. Nunca se acostumara a servir. Desde rapariga a sua ambição fora ter um negociozito,
uma tabacaria, uma loja de capelista ou de quinquilharias, dispor, governar, ser patroa; mas, apesar de economias
mesquinhas e de cálculos sôfregos, o mais que conseguira juntar foram sete moedas ao fim de anos; tinha então
adoecido; com o horror do hospital fora tratar-se para casa de uma parenta; e o dinheiro, ai! derretera-se! No dia
em que se trocou a última libra, chorou horas com a cabeça debaixo da roupa.
Apesar de seu dia a dia abrutalhado, Juliana sonhava com um futuro de grande dama.
Ficou sempre adoentada desde então; perdeu toda a esperança de se estabelecer. Teria de servir até ser
velha, sempre, de amo em amo! Essa certeza dava-lhe uma desconsolação constante.
Começou a azedar-se.
[...]
Lentamente, começou a tornar-se desconfiada, cortante como um nordeste; tinha respostadas, questões
com as companheiras; não se havia de deixar pôr o pé no pescoço!
As antipatias que a cercavam faziam-na assanhada, como um círculo de espingardas enraivece um lobo.
Fez-se má; beliscava crianças até lhes enodoar a pele; e se lhe ralhavam, a sua cólera rompia em rajadas. Começou
a ser despedida. Num só ano esteve em três casas. Saía com escândalo, aos gritos, atirando as portas, deixando as
amas todas pálidas, todas nervosas...
[...]
(QUEIRÓS, Eça de. O primo Basílio. São Paulo: Ática, 1979.]

113
No cinema

São Paulo, 1958. Luísa (Débora Falabella) é uma jovem romântica


e sonhadora que é casada com Jorge (Reynaldo Gianecchini), um
engenheiro que está envolvido na construção de Brasília. Um dia
Luísa reencontra Basílio (Fábio Assunção), seu primo e também sua
paixão de juventude. Quando Jorge é chamado a trabalho para
Brasília, Luísa fica em casa apenas com a companhia das emprega-
das Juliana (Glória Pires) e Joana (Zezeh Barbosa). Basílio passa a
visitá-la frequentemente, conquistando-a com as histórias de suas
viagens. Logo as saídas de ambos viram fofoca na vizinhança. Até
que Juliana encontra as cartas de amor trocadas entre os primos
e, de posse delas, passa a chantagear Luísa para conseguir uma
generosa aposentadoria.
(1h46 – 2007 – Daniel Filho. Disponível em: <adorocinema.com>.
Acesso em: 14 mar. 2015).

Curiosidade

O romance O primo Basílio também foi adaptado para a fotonovela em uma livre versão de Mário Miguel.

114
E.O. TESTE I 4. O realismo, como escola literária, é caracte-
rizado:
a) pelo exagero da imaginação.
1. O realismo foi um movimento de: b) pelo culto da forma.
a) volta ao passado; c) pela preocupação com o fundo.
b) exacerbação ultra-romântica; d) pelo subjetivismo.
c) maior preocupação com a objetividade; e) pelo objetivismo.
d) irracionalismo;
e) moralismo. 5. Podemos verificar que o Realismo revela:
I. senso do contemporâneo. Encara o pre-
2. A respeito de Realismo, pode-se afirmar: sente do mesmo modo que romantismo se
I. Busca o perene humano no drama da volta para o passado ou para o futuro.
existência. II. o retrato da vida pelo método da docu-
II. Defende a documentação de fatos e a im- mentação, em que a seleção e a síntese
pessoalidade do autor perante a obra. operam buscando um sentido para o en-
III. Estética literária restritamente brasilei- cadeamento dos fatos.
ra; seu criador é Machado de Assis. III. técnica minuciosa, dando a impressão de
a) São corretas apenas II e III. lentidão, de marcha quieta e gradativa
b) Apenas III é correta. pelos meandros dos conflitos, dos êxitos
c) As três afirmações são corretas. e dos fracassos.
d) São corretas I e II. Assinale:
e) As três informações são incorretas. a) se as afirmativas II e III forem corretas.
b) se as três afirmativas forem corretas.
3. Em texto sobre O primo Basílio, de Eça de c) se apenas a afirmativa III for correta.
Queirós, Machado de Assis afirma: d) se as afirmativas I e II forem corretas.
“o tom carregado das tintas, que nos assus- e) se as três afirmativas forem incorretas.
ta, para ele é simplesmente o tom próprio.”
Assinala que o escritor português já provo- 6. Das características abaixo, assinale a que
cara admiração dos leitores com O crime do não pertence ao Realismo:
Padre Amaro e acrescenta: a) Preocupação critica.
Pois que havia de fazer a maioria, senão b) Visão materialista da realidade.
admirar a fidelidade de um autor, que não c) Ênfase nos problemas morais e sociais.
esquece nada, e não oculta nada? Porque a d) Valorização da Igreja.
nova poética é isto, e só chegará à perfeição e) Determinismo na atuação das personagens.
no dia em que nos disser o número exato dos
fios de que se compõe um lenço de cambraia 7. Assinale a única alternativa incorreta.
ou um esfregão de cozinha. a) O Realismo não tem nenhuma ligação com o
Considerados o estilo de Machado e seu con- Romantismo.
texto, deve-se compreender as palavras aci- b) A atenção ao detalhe é característica do Re-
ma destacadas como: alismo.
a) elogio a uma prática inovadora que o au- c) Pode-se dizer que alguns autores românticos
tor brasileiro adotou desde a obra inicial, já possuem certas características realistas.
tornando-se o maior representante do Rea- d) O cientificismo do século XIX forneceu a
lismo no Brasil; base da visão do mundo adotada, de um
b) recusa do Realismo entendido como repro- modo geral, pelo Naturalismo.
dução fotográfica, que não propicia a esco- e) O Realismo apresenta análise social.
lha dos detalhes mais significativos de uma
situação ou perfil humano; 8. (Fuvest) Tendo em vista o conjunto de pro-
c) crítica à “velha poética”, que, mais sutil, mais posições e teses desenvolvidas em A cidade
sugeria do que explicitava, negando-se a des- e as serras, pode-se concluir que é coerente
crições detalhadas; com o universo ideológico dessa obra o que
d) negação dos procedimentos típicos dos es- se afirma em:
critores românticos, que, evitando a obser- a) A personalidade não se desenvolve pelo sim-
vação da realidade, em nada podiam con- ples acúmulo passivo de experiências, des-
tribuir para a formação da consciência da provido de empenho radical, nem, tampou-
nacionalidade; co, pela simples erudição ou pelo privilégio.
e) elogio ao público pelo reconhecimento do b) A atividade intelectual do indivíduo deve-
valor do escritor português, fiel à descrição -se fazer acompanhar do labor produtivo do
e avaliação da sociedade burguesa que retra- trabalho braçal, sem o que o homem se infe-
ta em suas obras. licita e desviriliza.
115
c) O sentimento de integração a um mundo fi-
nalmente reconciliado, o sujeito só o alcan- E.O. TESTE II
ça pela experiência avassaladora da paixão
amorosa, vivida como devoção irracional e 1. (Unifesp) Leia os versos de Cesário Verde.
absoluta a outro ser. Duas igrejas, num saudoso largo,
Lançam a nódoa negra e fúnebre do clero:
d) Elites nacionais autênticas são as que ado-
Nelas esfumo um ermo inquisidor severo,
tam, como norma de sua própria conduta, os
Assim que pela História eu me aventuro e
usos e costumes do país profundo, constitu-
alargo.
ído pelas populações pobres e distantes dos (www.astormentas.com)
centros urbanos.
Em relação à Igreja, o eu lírico assume, nes-
e) Uma vida adulta equilibrada e bem desenvolvi-
ses versos, uma posição:
da em todos os seus aspectos implica a partici-
a) anticlerical.
pação do indivíduo na política partidária, nas b) submissa.
atividades religiosas e na produção literária. c) evangelizadora.
d) saudosista.
9. Examine as frases abaixo: e) ambígua.
I. Os representantes do Naturalismo fazem
2. (PUC-SP - Adaptado) A obra “O Primo Ba-
aparecer na sua obra dimensões meta-
sílio”, escrito por Eça de Queirós em 1878,
físicas do homem, passando a encará-lo
é considerada uma das mais representativas
como um complexo social examinando à do romance realista-naturalista português.
luz da psicologia. Indique a alternativa a seguir que NÃO con-
II. No Naturalismo, as tentativas de firma o conteúdo desse romance.
submeter o Homem a leis deter- a) Romance de tese, apresenta os mecanismos
minadas são consequências das do casamento e analisa o comportamento da
ciências, na segunda metade do século XIX. pequena burguesia de Lisboa.
III. Na seleção de “casos” a serem enfoca- b) Luísa, personagem central do romance, é
dos, os naturalistas demonstram especial caracterizada como uma mulher romântica,
aversão pelo anormal e pelo patológico. sonhadora e frágil, comportamento esse que
Pode-se dizer corretamente que: a predispõe ao adultério.
a) só a I está certa. c) O narrador do romance aproxima-se bastan-
b) só a II está certa. te do modelo proposto pela literatura rea-
c) só a III está certa. lista, que se caracteriza pela objetividade e
d) existem duas certas. pelo senso da minúcia.
d) Entre as diferentes personagens que se mo-
e) nenhuma está certa.
vem na narrativa, está Juliana, uma bur-
guesa que perdera tudo na vida e tornara-se
10. Das citações apresentadas abaixo, qual não empregada.
apresenta, evidentemente, um enfoque na- e) Basílio, personagem que dá titulo ao ro-
turalista? mance, não se compromete nem se envolve
a) Às esquinas, nas quitandas vazias, fermen- emocionalmente; apenas busca na aventura
tava um cheiro acre de sabão da terra e amorosa uma maneira agradável de ocupar o
aguardente. tempo.
b) ... as peixeiras, quase todas negras, muito
TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 4 QUESTÕES
gordas, o tabuleiro na cabeça, rebolando os UMA CAMPANHA ALEGRE, IX
grossos quadris trêmulos e as tetas opulentas.
c) Os cães, estendidos pelas calçadas, tinham Há muitos anos que a política em Portugal
uivos que pareciam gemidos humanos. apresenta este singular estado:
d) ... batiam-lhe com a biqueira do chapéu nos Doze ou quinze homens, sempre os mesmos,
ombros e nas coxas, experimentando-lhes o alternadamente possuem o Poder, perdem o
Poder, reconquistam o Poder, trocam o Po-
vigor da musculatura, como se estivesse a
der... O Poder não sai duns certos grupos,
comprar cavalos.
como uma pela* que quatro crianças, aos
e) À porta dos leilões aglomeravam-se os que quatro cantos de uma sala, atiram umas às
queriam comprar e os simples curiosos. outras, pelo ar, num rumor de risos.
Quando quatro ou cinco daqueles homens es-
tão no Poder, esses homens são, segundo a
opinião, e os dizeres de todos os outros que
lá não estão — os corruptos, os esbanjadores
116
da Fazenda, a ruína do País! c) a defesa de boas ideias frequentemente leva
Os outros, os que não estão no Poder, são, à renúncia.
segundo a sua própria opinião e os seus jor- d) os políticos honestos sofrem acusações e
nais — os verdadeiros liberais, os salvadores perseguições dos desonestos.
da causa pública, os amigos do povo, e os e) todos os políticos se equivalem pelos desvios
interesses do País. da ética.
Mas, coisa notável! — os cinco que estão no
Poder fazem tudo o que podem para continu-
5. (Unesp) Considerando que o último parágra-
ar a ser os esbanjadores da Fazenda e a ruína
fo do fragmento representa uma ironia do
do País, durante o maior tempo possível! E
os que não estão no Poder movem-se, cons- cronista, seu significado contextual é:
piram, cansam-se, para deixar de ser o mais a) Portugal vai muito bem, apesar de seus maus
depressa que puderem — os verdadeiros li- governantes.
berais, e os interesses do País! b) A alternância dos grupos no poder faz bem
Até que enfim caem os cinco do Poder, e ao país.
os outros, os verdadeiros liberais, entram c) O país experimenta um progresso vertiginoso.
triunfantemente na designação herdada de d) O país vai mal em todos os sentidos.
esbanjadores da Fazenda e ruína do País; em e) Portugal não se importa com seus políticos.
tanto que os que caíram do Poder se resig-
nam, cheios de fel e de tédio — a vir a ser os 6. (Unesp) Considere as frases com relação ao
verdadeiros liberais e os interesses do País. que se afirma na crônica de Eça de Queirós:
Ora como todos os ministros são tirados deste I. Os que estão no poder não querem sair e
grupo de doze ou quinze indivíduos, não há os que não estão querem entrar.
nenhum deles que não tenha sido por seu tur- II. Quando um partido ético está no poder,
no esbanjador da Fazenda e ruína do País... tudo fica melhor.
Não há nenhum que não tenha sido demitido, III. Os governantes são bons e éticos, mas vi-
ou obrigado a pedir a demissão, pelas acusa- vem a trocar acusações infundadas.
ções mais graves e pelas votações mais hostis... IV. Os políticos que estão fora do poder julgam-
Não há nenhum que não tenha sido julgado -se os melhores eticamente para governar.
incapaz de dirigir as coisas públicas — pela As frases que representam a opinião do cro-
Imprensa, pela palavra dos oradores, pelas nista estão contidas apenas em:
incriminações da opinião, pela afirmativa a) I e II.
constitucional do poder moderador... b) I e III.
E todavia serão estes doze ou quinze indi- c) I e IV.
víduos os que continuarão dirigindo o País, d) I, II e III.
neste caminho em que ele vai, feliz, abun- e) II, III e IV.
dante, rico, forte, coroado de rosas, e num
chouto** tão triunfante! 7. (Mackenzie) Assinale a alternativa incorreta
(*) Pela: bola.
(**) Chouto: trote miúdo.
a respeito de Eça de Queirós.
a) Embora tenha militado intensamente na
(Eça de Queirós. Obras. Porto: Lello & Irmão-Editores,
[s.d.].) implantação do Realismo em Portugal, não
participou das Conferências do Cassino Lis-
3. (Unesp) ... cheios de fel e de tédio... bonense.
Nesta passagem do sexto parágrafo, o cro- b) Costuma-se dividir sua obra em três fases,
nista se utiliza figuradamente da palavra fel sendo a segunda aquela em que desenvolveu
para significar: um estilo realista implacável.
a) rancor. c) Sua obra é considerada o ponto mais alto da
b) eloquência. prosa realista portuguesa.
c) esperança. d) Em O CRIME DO PADRE AMARO, critica a so-
d) medo. ciedade burguesa de Portugal e mostra a in-
e) saudade. fluência do clero na sociedade provinciana.
e) Em O PRIMO BASÍLIO, temos um romance no
4. (Unesp) Não há nenhum que não tenha sido qual se denuncia a rede de vícios e de adul-
demitido, ou obrigado a pedir a demissão, térios que infestava a Lisboa de então.
pelas acusações mais graves e pelas votações
mais hostis... TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES
esta frase, o cronista afirma que:
a) a atividade política está sempre sujeita a Amaro lia até tarde, um pouco perturba-
acusações descabidas. do por aqueles períodos sonoros, túmidos
b) é altamente honroso, em certos casos, demi- de desejo; e no silêncio, por vezes, sentia
tir-se para evitar males ao estado. em cima ranger o leito de Amélia; o livro
117
escorregava-lhe das mãos, encostava a cabe- Quais propostas estão corretas?
ça às costas da poltrona, cerrava os olhos, e a) Apenas 1.
parecia-lhe vê-la em colete diante do touca- b) Apenas 2.
dor desfazendo as tranças; ou, curvada, de- c) Apenas 3.
sapertando as ligas, e o decote da sua camisa d) Apenas 2 e 3.
entreaberta descobria os dois seios muito e) 1, 2 e 3.
brancos.
Erguia-se, cerrando os dentes, com uma de-
cisão brutal de a possuir.
Começara então a recomendar-lhe a leitura
E.O. TESTE III
dos Cânticos a Jesus.
— Verá, é muito bonito, de muita devoção! TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 5 QUESTÕES
Disse ele, deixando-lhe o livrinho uma noite O melro veio com efeito às três horas. Luísa
no cesto da costura. estava na sala, ao piano.
Ao outro dia, ao almoço, Amélia estava páli- — Está ali o sujeito do costume – foi dizer
da, com as olheiras até o meio da face. Quei- Juliana.
xou-se de insônia, de palpitações. Luísa voltou-se corada, escandalizada da
— E então, gostou dos Cânticos? expressão:
— Muito. Orações lindas! respondeu. — Ah! meu primo Basílio? Mande entrar.
Durante todo esse dia não ergueu os olhos E chamando-a:
para Amaro. Parecia triste – e sem razão, às — Ouça, se vier o Sr. Sebastião, ou alguém,
vezes, o rosto abrasava-se-lhe de sangue. que entre.
(Eça de Queirós. O crime do padre Amaro.) Era o primo! O sujeito, as suas visitas per-
deram de repente para ela todo o interesse
8. (Unifesp) O trecho em que a ação de uma picante. A sua malícia cheia, enfunada até
personagem se demonstra impregnada de aí, caiu, engelhou-se como uma vela a que
determinismo biológico e permite associar falta o vento. Ora, adeus! Era o primo!
o romance de Eça de Queirós ao movimento Subiu à cozinha, devagar, — lograda.
estético denominado Naturalismo é: — Temos grande novidade, Sra. Joana! O tal
a) Erguia-se, cerrando os dentes, com uma deci- peralta é primo. Diz que é o primo Basílio.
são brutal de a possuir.
E com um risinho:
b) Começara então a recomendar-lhe a leitura
— É o Basílio! Ora o Basílio! Sai-nos primo à
dos Cânticos a Jesus.
última hora! O diabo tem graça!
c) (...) deixando-lhe o livrinho uma noite no
cesto da costura. — Então que havia de o homem ser se não
d) Queixou-se de insônia, de palpitações. parente? – observou Joana.
e) Durante todo esse dia não ergueu os olhos Juliana não respondeu. Quis saber se estava
para Amaro. o ferro pronto, que tinha uma carga de roupa
para passar! E sentou-se à janela, esperan-
9. (Unifesp) O texto permite afirmar que: do. O céu baixo e pardo pesava, carregado
a) o livro de orações que Amaro costumava ler de eletricidade; às vezes uma aragem súbita
desperta seu amor por Amélia. e fina punha nas folhagens dos quintais um
b) a observação diária de certas ações de Amé- arrepio trêmulo.
lia desperta o desejo de Amaro. – É o primo! – refletia ela. – E só vem en-
c) embora Amélia ache lindas as orações do li- tão quando o marido se vai. Boa! E fica-se
vro, a obra a deixa perturbada. toda no ar quando ele sai; e é roupa-branca
d) o livro que Amaro empresta a Amélia au- e mais roupa-branca, e roupão novo, e tipoia
menta, aos poucos, sua religiosidade. para o passeio, e suspiros e olheiras! Boa bê-
e) com a leitura do livro, Amélia passa a corres- beda! Tudo fica na família!
ponder aos sentimentos de Amaro. Os olhos luziam-lhe. Já se não sentia tão lo-
grada. Havia ali muito “para ver e para escu-
10. (Ufrgs) Considere o enunciado a seguir e as
tar”. E o ferro estava pronto?
três propostas para completá-lo. “O Crime
Mas a campainha, embaixo, tocou.
do Padre Amaro”, de Eça de Queirós, é um
(Eça de Queirós. O primo Basílio, 1993.)
romance:
I. em que a ironia queirosiana se volta para
a burguesia lisboeta e suas mazelas. 1. (Unifesp) Observe as passagens do texto:
II. no qual o autor denuncia a corrupção da — Ora, adeus! Era o primo! (7.º parágrafo)
Igreja, criticando, assim, a sociedade por- — E o ferro estava pronto? (penúltimo
tuguesa, marcada por um falso catolicismo. parágrafo)
III. cujo painel social abrange todas as clas- Nessas passagens, é correto afirmar que se
ses, denotando, dessa forma, o profundo expressa o ponto de vista:
envolvimento do autor com as tendências a) da personagem Juliana, em discurso direto,
socialistas da época. independente da voz do narrador.

118
b) da personagem Juliana, sendo que sua voz 5. (Unifesp) A leitura do trecho de O primo
mescla-se à voz do narrador. Basílio, em seu conjunto, permite concluir
c) do narrador, em terceira pessoa, distancia- corretamente que essa obra:
do, portanto, do ponto de vista de Juliana. a) expõe a sociedade portuguesa da época para
d) do narrador, em primeira pessoa, próximo, recuperar a tradição e os vínculos sociais.
portanto, do ponto de vista de Juliana. b) traz as relações humanas de forma idealista,
e) da personagem Luísa, em discurso indireto, ainda que recupere a ideologia vigente.
independente da voz do narrador. c) retrata a sociedade portuguesa da época de
forma romântica e idealizada.
2. (Unifesp) Quando é avisada de que Basílio d) faz explicitamente a defesa das instituições
estava em sua casa, Luísa escandaliza-se sociais, como a família.
com a forma de expressão de sua criada Ju- e) faz um retrato crítico da sociedade portu-
liana. A reação de Luísa decorre: guesa da época, exibindo os seus costumes.
a) da linguagem descuidada com que a criada

E.O. DISSERTATIVO
se refere a seu primo Basílio, rapaz cortês e
de família aristocrática.
b) da intimidade que a criada revela ter com o
Basílio, o que deixa a patroa enciumada com 1. (Fuvest) Leia o excerto de A cidade e as serras,
o comentário. de Eça de Queirós, e responda ao que se pede.
c) do comentário malicioso que a criada faz à Na sala, a tia Vicência ainda nos esperava
presença de Basílio, sugerindo à patroa que desconsolada, entre todas as luzes, que ar-
deveria envolver-se com o rapaz. diam no silêncio e paz do serão debandado:
d) da indiscrição da criada ao referir-se ao ra- — Ora uma coisa assim! Nem querem ficar
paz, o qual, apesar do vínculo familiar, não para tomar um copinho de geleia, um cálice
era visita frequente na casa da patroa. de vinho do Porto!
e) da ambiguidade que se pode entrever nas — Esteve tudo muito desanimado, tia Vi-
cência! - exclamei desafogando o meu tédio.
palavras da criada, referindo-se com ironia
— Todo esse mulherio emudeceu, os amigos
às frequentes visitas de Basílio à patroa.
com um ar desconfiado...
Jacinto protestou, muito divertido, muito
3. (Unifesp) Considere o antepenúltimo pará- sincero:
grafo do texto. — Não! Pelo contrário. Gostei imenso. Exce-
Nas reflexões de Juliana, está sugerido o que lente gente! E tão simples... Todas estas ra-
acaba por ser o tema gerador desse romance parigas me pareceram ótimas. E tão frescas,
de Eça de Queirós, a saber: tão alegres! Vou ter aqui bons amigos, quan-
a) o amor impossível, em nome do qual Luísa do verificarem que eu não sou miguelista.
abandona o marido. Então contamos à tia Vicência a prodigiosa
b) a vingança, em que Luísa vitima seu amante história de D. Miguel escondido em Tormes...
Basílio. Ela ria! Que coisas! E mau seria...
c) o triângulo amoroso, em que Basílio ocupa o — Mas o Sr. Jacinto, não é?
lugar de amante. — Eu, minha senhora, sou socialista...
d) o casamento por interesse, mediante a com- a) Defina sucintamente o miguelismo a que se
pra do amor de Basílio. refere o texto e indique a relação que há entre
e) o casamento por conveniência, no qual Luí- essa corrente política e a história do Brasil.
sa foi lograda. b) Tendo em vista o contexto da obra, explique
o que significa, para Jacinto, ser “socialista”.
4. (Unifesp) A leitura do antepenúltimo pará-
2. (Unicamp) Os trechos a seguir foram extraí-
grafo do texto permite concluir que as refle-
dos de A cidade e as serras, de Eça de Queirós.
xões de Juliana são pautadas:
Mas dentro, no peristilo, logo me surpreen-
a) pelo inconformismo com os encontros, que
deu um elevador instalado por Jacinto – ape-
lhe representam mais afazeres. sar do 202 ter somente dois andares, e liga-
b) pela falta de interesse que tem de se ocupar dos por uma escadaria tão doce que nunca
dos afazeres domésticos. ofendera a asma da Srª. D. Angelina! Espaço-
c) pelo ressentimento que experimenta, por so, tapetado, ele oferecia, para aquela jorna-
não receber a atenção desejada. da de sete segundos, confortos numerosos,
d) pela insatisfação de contemplar o bem-estar um divã, uma pele de urso, um roteiro das
da família. ruas de Paris, prateleiras gradeadas com cha-
e) pelo descaso que revela ter em relação a Lu- rutos e livros. Na antecâmera, onde desem-
ísa e aos seus familiares. barcamos, encontrei a temperatura macia e
119
tépida duma tarde de Maio, em Guiães. Um não é pois Zola – é Claude Bernard*. A arte
criado, mais atento ao termômetro que um tornou-se o estudo dos fenômenos vivos e
piloto à agulha, regulava destramente a boca não a idealização das imaginações inatas...
dourada do calorífero. E perfumadores entre * Claude Bernard (1813-1878) foi importante médico e
palmeiras, como num terraço santo de Be- fisiologista francês.
nares, esparziam um vapor, aromatizando e Eça de Queirós. Idealismo e Realismo.)
salutarmente umedecendo aquele ar delica-
do e superfino. TEXTO B
Eu murmurei, nas profundidades do meu as- Tinham passado três anos quando [Luísa] co-
sombrado ser: nheceu Jorge. Ao princípio não lhe agradou.
— Eis a Civilização! Não gostava dos homens barbados; depois
— Meus amigos, há uma desgraça... percebeu que era a primeira barba, fina, ren-
Dornan pulou na cadeira: – Fogo? te, muito macia decerto; começou a admirar
— Não, não era fogo. Fora o elevador dos os seus olhos, a sua frescura. E sem o amar,
pratos que inesperadamente, ao subir o pei- sentia ao pé dele como uma fraqueza, uma
xe de S. Alteza, se desarranjara, e não se mo- dependência e uma quebreira, uma vontade
via, encalhado! de adormecer encostada ao seu ombro, e de
(...) ficar assim muitos anos, confortável, sem re-
O Grão-Duque lá estava, debruçado sobre o ceio de nada. Que sensação quando ele lhe
poço escuro do elevador, onde mergulhara disse: Vamos casar, hem! Viu de repente o
uma vela que lhe avermelhava mais a face rosto barbado, com os olhos muito luzidios,
esbraseada. Espreitei, por sobre o seu om- sobre o mesmo travesseiro, ao pé do seu!
bro real. Em baixo, na treva, sobre uma larga Fez-se escarlate. Jorge tinha-lhe tomado a
prancha, o peixe precioso alvejava, deitado mão; ela sentia o calor daquela palma larga
na travessa, ainda fumegando, entre rode- penetrá-la, tomar posse dela; disse que sim;
las de limão. Jacinto, branco como a gravata,
ficou como idiota, e sentia debaixo do ves-
torturava desesperadamente a mola compli-
tido de merino dilatarem-se docemente os
cada do ascensor. Depois foi o Grão-Duque
seus seios. Estava noiva, enfim! Que alegria,
que, com os pulsos cabeludos, atirou um em-
que descanso para a mamã!
puxão tremendo aos cabos em que ele rolava.
(Eça de Queirós. O primo Basílio.)
Debalde! O aparelho enrijara numa inércia
de bronze eterno. Vistas à luz dos princípios teóricos expostos
(Eça de Queirós, A cidade e as serras. São Paulo: no texto A, qual o sentido das reações de Luísa
Companhia Editora Nacional, 2006, p. 28, p. 63.)
diante de Jorge e de seu pedido de casamento
a) Levando em consideração os dois trechos, (texto B)?
explique qual é o significado do enguiço do
elevador. 4. (Fuvest) Leia o excerto de A cidade e as serras,
b) Como o desfecho do romance se relaciona de Eça de Queirós, e responda ao que se pede.
com esse episódio? Era um domingo silencioso, enevoado e macio,
convidando às voluptuosidades da melancolia.
3. (Unifesp adaptado) Leia os textos. E eu (no interesse da minha alma) sugeri a Ja-
cinto que subíssemos à basílica do Sacré-Coeur,
TEXTO A em construção nos altos de Montmartre. (...)
Outrora uma novela romântica, em lugar de Mas a basílica em cima não nos interessou,
estudar o homem, inventava-o. Hoje o ro- abafada em tapumes e andaimes, toda bran-
mance estuda-o na sua realidade social. ca e seca, de pedra muito nova, ainda sem
Outrora no drama, no romance, concebia-se alma. E Jacinto, por um impulso bem jacín-
o jogo das paixões a priori; hoje analisa-se tico, caminhou gulosamente para a borda do
a posteriori, por processos tão exatos como terraço, a contemplar Paris. Sob o céu cinzen-
os da própria fisiologia. Desde que se desco- to, na planície cinzenta, a cidade jazia, toda
briu que a lei que rege os corpos brutos é a cinzenta, como uma vasta e grossa camada
mesma que rege os seres vivos, que a cons- de caliça* e telha. E, na sua imobilidade e
tituição intrínseca de uma pedra obedeceu na sua mudez, algum rolo de fumo**, mais
às mesmas leis que a constituição do espí- tênue e ralo que o fumear de um escombro
rito duma donzela, que há no mundo uma mal apagado, era todo o vestígio visível de
fenomenalidade única, que a lei que rege os sua vida magnífica.
movimentos dos mundos não difere da lei *Caliça: pó ou fragmentos de argamassa ressequida,
que rege as paixões humanas, o romance, em que sobram de uma construção ou resultam
lugar de imaginar, tinha simplesmente de da demolição de uma obra de alvenaria.
observar. O verdadeiro autor do naturalismo **Fumo: fumaça.

120
a) Em muitas narrativas, lugares elevados tor- a) o que representavam Antônio Feliciano de
nam-se locais em que se dão percepções ex- Castilho e Antero de Quental nessa polêmica?
traordinárias ou revelações. No contexto da b) o que marca a Questão Coimbrã na História
obra, é isso que irá acontecer nos “altos de da Literatura Portuguesa?
Montmartre”, referidos no trecho? Justifi-
que sua resposta. 7. (Fuvest) Havia cinco anos que D. Felicidade
b) Tendo em vista o contexto histórico da obra, o amava. (...) Acácio tornara-se a sua mania:
por que é Paris a cidade escolhida para repre- admirava a sua figura e a sua gravidade, ar-
sentar a vida urbana? Explique sucintamente. regalava grandes olhos para a sua eloquência,
c) Sintetizando-se os termos com que, no ex- achava-o numa “linda posição”. O Conselhei-
certo, Paris é descrita, que imagem da cidade ro era a sua ambição e o seu vício! Havia so-
finalmente se obtém? Explique sucintamente. bretudo nele uma beleza, cuja contemplação
demorada a estonteava como um vinho forte;
5. (Unicamp) Leia o trecho a seguir de A cidade era a calva. Sempre tivera o gosto perverso
e as serras: de certas mulheres pela calva dos homens, e
— Sabes o que eu estava pensando, Jacin- aquele apetite insatisfeito inflamara-se com
to?... Que te aconteceu aquela lenda de Santo a idade. Quando se punha a olhar para a cal-
va do Conselheiro, larga, redonda, polida,
Ambrósio... Não, não era Santo Ambrósio...
brilhante às luzes, uma transpiração ansiosa
Não me lembra o santo. Ainda não era mes-
umedecia-lhe as costas, os olhos dardejavam-
mo santo, apenas um cavaleiro pecador, que
-lhe, tinha uma vontade absurda, ávida de
se enamorara de uma mulher, pusera toda lhe deitar as mãos, palpá-la, sentir-lhe as
a sua alma nessa mulher, só por a avistar a formas, amassá-la, penetrar-se dela! Mas dis-
distância na rua. Depois, uma tarde que a farçava, punha-se a falar alto com um sorriso
seguia, enlevado, ela entrou num portal de parvo, abanava-se convulsivamente, e o suor
igreja, e aí, de repente, ergueu o véu, entre- gotejava-lhe nas roscas anafadas* do pesco-
abriu o vestido, e mostrou ao pobre cavaleiro ço. Ia para casa rezar estações, impunha-se
o seio roído por uma chaga! Tu também an- penitências de muitas coroas à Virgem; mas
davas namorado da serra, sem a conhecer, só apenas as orações findavam, começava o tem-
pela sua beleza de verão. E a serra, hoje, zás! peramento a latejar. E a boa, a pobre D. Fe-
de repente, descobre a sua grande chaga... É licidade tinha agora pesadelos lascivos e as
talvez a tua preparação para S. Jacinto. melancolias do histerismo velho.
(Eça de Queirós, As cidades e as serras. São Paulo: *anafadas = gordas
Ateliê Editorial, 2007, p. 252.) Eça de Queirós, “O primo Basílio”.

a) Explique a comparação feita por Zé Fernan- a) Qual é a escola literária cujas características
des. Especifique a que chaga ele se refere. mais se fazem sentir neste trecho? Justifi-
b) Que significado a descoberta dessa chaga tem que brevemente sua resposta.
para Jacinto e para a compreensão do romance? b) Considere a seguinte afirmação: “Em Eça
de Queirós, a sátira e a caricatura tornam-
-se, com frequência, cruéis e sombrias, por
6. (Unesp) No ano de 1865, em Portugal, se
isso mesmo incompatíveis com o riso e o
inicia uma grande polêmica. De um lado, An-
humor”. Essa afirmação aplica-se ao trecho
tônio Feliciano de Castilho (1800-1875); de
anteriormente reproduzido? Justifique su-
outro, Antero Tarquínio de Quental (1842-
cintamente sua resposta.
1891). Em posfácio ao livro POEMA DA MO-
CIDADE de Pinheiro Chagas, Castilho refe-
riu-se com pouco caso e algum deboche aos 8. (Fuvest) “Eu condenara a arte pela arte, o
jovens poetas que, em Coimbra, defendiam romantismo, a arte sensual e idealista - e
apresentara a ideia de uma restauração li-
ideias novas. Antero, um dos mencionados
terária, pela arte moral, pelo Realismo, pela
por Castilho, faz logo publicar uma carta em
arte experimental e racional”.
resposta ao velho mestre, na qual retribui as (Eça de Queirós)
ironias, ao mesmo tempo em que faz ataque
cerrado e contundente a Castilho. Em pouco Neste texto, Eça de Queirós explicita os prin-
tempo cada um ganha adeptos e com isso se cípios estéticos que iria pôr em prática no ro-
produz uma das mais ricas polêmicas da His- mance “O primo Basílio” e em outras de suas
tória da literatura Portuguesa. Tal episódio obras, opondo nitidamente os elementos que
ficou conhecido como a Questão Coimbrã ou ele condena aos elementos que ele aprova.
também pelo título recebido pela publica- a) Em “O primo Basílio”, qual a principal ma-
ção de Antero: Bom Senso e Bom Gosto. Com nifestação dessa condenação do “romantis-
base nestas informações e considerando-se o mo” e “da arte sensual e idealista”? Expli-
texto dado, responda: que sucintamente.
121
b) Nesse mesmo romance, como se realiza o fiacre que estacara num brusco escorregar
projeto de praticar uma “arte experimental da pileca; mas logo algum dorso apressado
e racional”? se encafuava pela portinhola da tipoia, ou
um cacho de figuras escuras trepava sofrega-
9. (Unicamp adaptado) Sobre “O Crime do Padre mente para o ônibus — e, rápido, recomeça-
Amaro”, romance de Eça de Queirós, o poeta va o rolar retumbante.
Antero de Quental, em carta dirigida ao autor, a) No trecho “com toda uma escura humanida-
afirmou: de formigando entre patas e rodas”, pode-se
“A longanimidade, a indiferença inteligente reconhecer a marca de qual escola literária?
com que V. descreve aquela pobre gente e os Justifique sucintamente sua resposta.
seus casos, encantou-me. Com efeito, aquela b) Tendo em vista que contemplar significa “fixar
gente não merece ódio nem desprezo. Aqui- o olhar em (alguém, algo ou si mesmo), com
lo, no fundo, é uma pobre gente, uma boa encantamento, com admiração” (Dicionário
gente, vítimas da confusão moral do meio de Houaiss) ou “olhar, observar, atenta ou em-
que nasceram, fazendo o mal inocentemen- bevecidamente” (Dicionário Aurélio), qual é a
te, em parte porque não entendem mais nem experiência vivida pelo narrador, no excerto, e
melhor, em parte porque os arrasta a paixão, que sentido ela tem no contexto da época em
o instinto, como pobres seres espontâneos, que se passa a história narrada no romance?
sem a menor transcendência.”
a) Aceitando-se essas considerações de Antero
de Quental, em qual ato específico residiria
o verdadeiro “crime” do Padre Amaro?
GABARITO
b) Eça trata com sarcasmo as libertinagens,
tanto do clero como de algumas figuras da
sociedade portuguesa da província. Se, como
disse Antero de Quental, são todos vítimas
E.O. Teste I
da confusão moral do meio, arrastados pela 1. C 2. D 3. B 4. E 5. B
paixão e pelo instinto, como se pode justifi-
6. D 7. A 8. A 9. B 10. E
car o sarcasmo por parte do escritor?

10. (Fuvest) Os romances de Eça de Queirós


costumam apresentar críticas a aspectos
importantes da sociedade portuguesa, fre- E.O. Teste II
quentemente acompanhadas de propostas 1. A 2. D 3. A 4. E 5. D
(explícitas ou implícitas) de reforma social.
Em A Cidade e as Serras: 6. C 7. A 8. D 9. C 10. B
a) qual o aspecto que se critica nas elites
portuguesas?
b) qual é a relação, segundo preconiza o ro-
mance, que essas elites deveriam estabelecer E.O. Teste III
com as classes subalternas? 1. B 2. E 3. C 4. A 5. E

11. (Fuvest) Considere o excerto abaixo, no qual


o narrador de A cidade e as serras, de Eça de
Queirós, contempla a cidade de Paris.
(...) E por aquela doce tarde de maio eu saí
E.O. Dissertativo
1.
para tomar no terraço um café cor de cha- a) No final do século XIX, estabeleceu-se na
péu-coco, que sabia a fava. sociedade portuguesa uma visão gene-
Com o charuto aceso contemplei o Boule- ralizada de duas correntes políticas que
vard, àquela hora em toda a pressa e estridor se opunham: miguelismo, defensora da
da sua grossa sociabilidade. A densa torren- corrente absolutista, e liberalismo, por-
te dos ônibus, calhambeques, carroças, pa- tadora de anseios políticos renovadores.
relhas de luxo, rolava vivamente, com toda Reagindo negativamente à aclamação de
uma escura humanidade formigando entre D. Pedro como rei de Portugal, os adep-
patas e rodas, numa pressa inquieta. Aquele tos de seu irmão D. Miguel, ligados às
movimento indescontinuado e rude depres- alas mais conservadoras da burguesia e à
sa entonteceu este espírito, por cinco quie- igreja católica mais retrógrada, conspira-
tos anos afeito à quietação das serras imu- vam secretamente para derrubar os libe-
táveis. Tentava então, puerilmente, repousar rais, ligados ao rei. Assim, o miguelismo
nalguma forma imóvel, ônibus que parara, era considerado pela população como a
122
facção defensora dos princípios absolu- 3. Com o advento das correntes filosóficas do fi-
tistas, símbolo de um estado retrógrado nal do século XIX (Determinismo, Positivis-
e reativo aos anseios republicanos que já mo, Darwinismo e Experimentalismo), Eça
se faziam sentir, o que explica a deserção de Queirós justifica em “Idealismo e Realis-
de todos os convidados da tia Vicência. D. mo” a alteração de comportamento do escri-
Pedro I do Brasil e IV de Portugal, depois tor perante um novo público que exige uma
de abdicar do trono brasileiro, parte para estética voltada para a observação da reali-
Portugal, derrota os miguelistas e abre dade e não mais para a idealização fantasio-
espaço para o estabelecimento de gover- sa que o Romantismo oferecera no passado.
no regencial no Brasil enquanto D. Pedro Ao citar Claude Bernard e ao outorgar-lhe a
II não atinge a maioridade. verdadeira autoria do Naturalismo, o escri-
b) Em “A cidade e as serras”, desenvolve-se a tor expressa a necessidade de se adaptar à
tese de que a prosperidade social aconte- nova estética através de recursos verificáveis
ce como resultado da intervenção patronal em “O Primo Basílio”. Assim, ao desvendar a
na melhoria de condições de sobrevivên- essência de Luísa, vítima de uma sociedade
cia dos trabalhadores, assim como a in- burguesa aculturada, Eça desmonta a ideali-
trodução da tecnologia na produção rural. zação típica do Romantismo que norteava as
Trata-se de uma visão reformista, pois não ações do protagonista. Ao invés de um sen-
interfere na divisão da propriedade, nem timento amoroso profundo, Luísa acede ao
altera a estratificação social do regime vi- pedido de casamento com Jorge por conve-
gente, o que contraria a filosofia socialis- niências sociais (“Que alegria, que descanso
ta clássica. Jacinto declara-se “socialista” para a mamã!”), desejos reprimidos (“ela
por ter amenizado as duras condições de sentia o calor daquela palma larga penetrá-
vida dos seus empregados, à luz de uma -la, tomar posse dela”) e manifestações físi-
ação assistencial e paternalista. cas incontroláveis (“sentia debaixo do ves-
2. tido de merino dilatarem-se docemente os
a) No primeiro trecho, o narrador surpre- seus seios”).
ende-se com o requinte das novas tecno- 4.
logias, entre elas o elevador apetrechado a) Sim, pois Jacinto, que no início da obra
com os mais diversos acessórios para ofe- era deslumbrado com a Cidade, defenden-
recer o máximo de conforto aos usuários: do a vida urbana como superior, agora,
divã, pele de urso, roteiro das ruas de nos “altos de Montmartre”, em um mo-
Paris, prateleiras com charutos e livros. mento de intenso pessimismo, reconhece
Como o elevador servia apenas dois pavi- que tudo o que havia valorizado outrora
mentos ligados por suaves escadas, perce- poderia ser ilusão.
be-se a excessiva preocupação do morador b) Paris, no final do século XIX, era a “ci-
em dispor da tecnologia da época. No se- dade-luz”, símbolo do mundo moderno,
gundo trecho, o leitor percebe claramente auge da ciência e da cultura, por isso é ela
que essa tecnologia, muitas vezes, mais a escolhida, já que, como símbolo, aparece
atrapalhava do que ajudava, pois o peixe, como modelo ideal de progresso, desejado
que poderia ter sido transportado facil- por aqueles que sonham chegar ao mesmo
mente pelas escadas, tinha ficado preso estágio em que ela se encontra.
no poço do ascensor, construído para levar c) No texto, Paris não é mais descrita como
a comida da cozinha para a sala de jantar a cidade “luminosa” do início do livro,
no andar superior. O enguiço do elevador mas como cinzenta e sem vida, “a cidade
simboliza, assim, os reveses causados pelo jazia, toda cinzenta, como uma vasta e
excesso de tecnologia. grossa camada de caliça e telha”.
b) O final do romance constitui a síntese dos 5.
conceitos apresentados por Jacinto e Zé a) Zé Fernandes compara a impressão que
Fernandes. À tese inicial de que a felici- Jacinto teve inicialmente ao entrar em
dade se obtém em ambiente urbano, único contato com a serra com a do cavaleiro
espaço em que a tecnologia e o conheci- pecador quando foi atraído pela beleza
mento conferem ao homem o estatuto de de uma mulher: ambas foram idealizadas,
civilizado, contrapõe-se a convicção anti- produto do encantamento inicial, que não
tética de que a felicidade só pode ser en- pressupõe os defeitos. Nenhuma delas ti-
nha revelado ainda os pontos negativos
contrada na vida simples em contato com a
que iriam chocar os seus admiradores: a
natureza. Jacinto encontra equilíbrio emo- mulher, com a chaga no peito e a serra,
cional, recupera a alegria e realiza-se com- com a chaga da miséria dos trabalhadores.
pletamente no regresso ao meio rural dos b) Na Quinta de Tormes, Jacinto continuava a
seus antepassados, na atividade agrícola e experimentar os acessos de idealismo que
no uso sensato da tecnologia. o acometiam em Paris, desconhecendo o
123
profundo grau de pobreza em que viviam a fazer uma arte de crítica social radi-
os trabalhadores da sua propriedade. cal, aproximando-se dos postulados do
Quando se depara com a realidade, sobres- escritor naturalista francês Émile Zola,
salta-se e dispõe-se a promover melhorias precursor do romance experimental, ou
para atenuar essas condições de penúria. seja, de tese. Trata-se de um estudo de
Transforma-se em homem de ação, pro- caso: o autor faz um levantamento dos
cura resolver paternalisticamente a situ-
pressupostos que levaram a protagonista
ação, a ponto de começar a ser confundido
com um “santo” ou com “D.Sebastião”. In- ao adultério, analisa as circunstâncias e
troduz no campo alguma tecnologia (tele- as consequências dele, em especial a de-
fone), mas sem colidir com a harmonia da sagregação familiar. Como se vê, a obra
vida rústica e a simplicidade da natureza. apresenta uma estrutura racional de ins-
6. piração científica.
a) Castilho representa a estética romântica 9.
e Quental, a realista. a) O ato específico do “crime” do Padre
b) arca o início do Realismo em Portugal. Amaro reside na entrega do filho bas-
7. tardo, que tivera com Amélia, para uma
a) Realismo-Naturalismo. Características: a ama-de-leite. A quebra dos votos, o ci-
descrição objetiva e minuciosa; a desidea- nismo e o assassinato são uma série de
lização do ser humano, captado em seus as- transgressões feitas pelo padre.
pectos ridículos e grotescos; o “determinis- b) Eça de Queiroz pretendia por meio do sar-
mo biológico”, na prevalência do instinto e casmo e crítica à sociedade reformular os
da sexualidade; a crítica social na retração valores éticos.
da hipocrisia moral de quem dissimulava, 10.
no ritualismo das rezas e penitências, a se- a) O que se critica da elite portuguesa no
xualidade mal resolvida; a ironia que beira
romance é o conservadorismo e a futili-
o sarcasmo; o cuidado estilístico.
dade.
b) A maneira como Eça de Queirós articula a
b) As elites deveriam ter uma relação assis-
caracterização de D. Felicidade e de sua pai-
xão serôdia e não-correspondida pelo Con- tencialista com a classe subalterna.
selheiro Acácio pode esconder um “drama 11.
humano” e uma “tragédia” existencial. a) Neste trecho reconhecem-se característi-
8. cas do Naturalismo, uma vez que a ani-
a) O romance “O Primo Basílio” integra o malização (ou zoomorfização) é um re-
movimento realista/naturalista portu- curso dessa escola.
guês e tem como protagonista Luísa, jo- b) A experiência narrada de forma distan-
vem casada, frívola e ociosa, fruto de uma ciada por Zé Fernandes é a da observa-
cultura haurida nos folhetins românticos. ção atenta, com certa perplexidade, da
Desse modo, forjou-se nela uma consci- vida agitada na Paris durante a Belle
ência artificial e alienada da realidade, Époque, a qual se contrapõe à sua vida
uma expectativa sentimental e idealiza- tranquila no campo.
da da existência que contrastava com o
cotidiano medíocre de “burguesinha da
Baixa”. O retorno a Lisboa de seu primo
Basílio, novo-rico arrogante, pretensioso
e mulherengo, cria ocasião para que ela
vivencie as aventuras sensuais de suas
leituras. A partir desses fatos, a obra ma-
nifesta dura condenação ao movimento
romântico e à “arte sensual e idealista”.
b) No fragmento transcrito, Eça de Queirós
opõe, de um lado, a “arte pela arte, o ro-
mantismo, a arte sensual e idealista” e,
de outro, a “arte moral (...) Realismo,
(...) arte experimental e racional”. Assim,
o experimental e o racional estão em cla-
ra oposição ao idealismo e ao sentimen-
talismo românticos.
Em “O Primo Basílio”, a análise do adul-
tério feminino é o motivo a partir do qual
se passam em revista as contradições
sociais marcadas tanto pela hipocrisia
quanto pelos conflitos de classe.
O escritor português se propõe, então,
124
Aulas 27 e 28

Realismo no Brasil
REALISMO NO BRASIL
O contexto brasileiro
A lição dos contemporâneos portugueses, notadamente Eça de Queirós, e franceses, Stendhal de preferência, foi
decisiva para os autores realistas brasileiros fortemente influenciados por eles.
A família burguesa já não era mais o
único foco da literatura, como havia aconte-
cido no Romantismo. Os realistas ocupavam-
-se de outras classes sociais e da alma delas.
A crise matrimonial, o papel da mulher nas
relações sociais e o operariado passam a ser
temas e personagens nessa literatura. Retra-
tar a vida em sociedade, descrever cenas, am-
bientes e comportamentos passa a fazer parte
considerável das obras literárias.
Registrar a realidade torna-se uma prio-
ridade. Os oportunismos disfarçados, as falsas
devoções e a moral de aparência são temas que
passam a integrar o universo do romance.
Tal como em Portugal, o Realismo
Naturalismo no Brasil esteve muito ligado
às ideias estéticas, científicas e filosóficas
europeias – positivismo, darwinismo, natu-
rismo, cientificismo – que provocaram bas-
tante repercussão.
As mudanças que o tempo impôs
coincidiram, por sua vez, com o rápido declí-
Foto da rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, em 1863, no apogeu da Belle Époque. nio do Segundo Império de Pedro II, após a
Foi cenário de O livreiro da rua Ouvidor, conto de Machado de Assis. Guerra do Paraguai.

Não só o abolicionismo foi contemporâneo ao Realismo/Naturalismo. O movimento Republicano, em 1870,


também. propunha a trocar o trabalho escravo pela mão de obra imigrante.

Missa campal em 1888 comemora a abolição da escravatura e conta com a presença da princesa Isabel.

127
As campanhas abolicionista e republicana tiveram início a partir de 1870 e formaram um movimento
político que dominou o Brasil e toda a América Latina, voltado para as grandes reivindicações urbanas que já
haviam triunfado nos Estados Unidos e na Europa. A aristocracia rural entrava em decadência e a monarquia
mostrava-se um regime superado.

O final do século XIX é um tempo de muitas transformações na vida brasileira. Em 1888, é abolida definitivamente

a escravidão. No ano seguinte, como resultado de um golpe militar, é proclamada a República. A Cidade do Rio de

Janeiro cumpre, em 1889, mais uma

vez, um papel simbólico fundamen-

tal, pois é diante de sua Câmara Mu-

nicipal, dissolvido o parlamento do

Império, que se dá a posse dos mem-

bros do Governo Provisório da Repú-

blica, em vias de institucionalização.

A República, porém, não extirpará

num passe da mágica as mazelas do

Brasil antigo, nem terminará com as

profundas contradições sociais exis-

tentes no país. [...] O Rio de Janeiro,

como cenário do novo regime, torna-

-se objeto de atenção das preocupa-

ções cientificistas da época. Movida

pela ideologia do progresso, a virada

do século será marcada pela ideia de modernização urbana – que caracterizará todo o século XX.

[SANTOS, Afonso Carlos Marques dos. Do livramento ao Cosme Velho: o Rio de Machado de Assis. Disponível em: <revistaipotes.ufjf.br>].

128
A literatura do final do Império
A literatura realista no Brasil foi marcada pelo registro do tipo brasileiro no fim do Império. Chamaram a atenção
romances e contos de Machado de Assis, bem como a obra de Raul Pompeia – aversão explícita aos padrões
conservadores da época.
Se ainda vingava a narrativa psicológica, crescia a produção
literária voltada para as realidades sociais. O romance naturalista
sublinhava os aspectos mais brutais desse meio e posicionava-se
face ao que expunha: denunciava, instigava a consciência do leitor,
solicitava opções. Aluísio Azevedo, Adolfo Caminha, Inglês de Sou-
za e Júlio Ribeiro foram escritores naturalistas que se empenharam
na análise sociológica, de fora para dentro, e juntaram suas convic-
ções cientificistas ao Realismo.
O Realismo e o Naturalismo brasileiros são faces de uma
mesma moeda. As duas tendências importaram o comportamento
humano, as formas explicitadas do meio e do ambiente em que exis-
tiam, a hereditariedade que trazem da origem. Se o Realismo do-
cumentou apenas os aspectos que enxergou, o Naturalismo empe-
nhou-se em marcar posições. Se os realistas preferiram tão somente
indicar forças psicológicas que guiam comportamentos, os naturalis- Homenagem ao escritor Machado de Assis em selo do
tas preferiram denunciar a exploração do homem pelo homem e sua Correio

consequente animalização.

Principais autores

Machado de Assis

Órfão aos dez anos, o menino mestiço do Morro do Livramento, no Rio de Janeiro, estudou em escolas públicas e
tratou de instruir-se por conta própria, interessado que era pela leitura.
Inteligente e esforçado, Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) aproximou-se de intelectuais e
de jornalistas que lhe deram oportunidades. Aos dezesseis anos empregou-se na tipografia de Paula Brito. Aos
129
dezenove já era colaborador assíduo de jornais e revistas cariocas: Correio Mercantil, O espelho, Diário do Rio de
Janeiro, Semana Ilustrada, Jornal das Famílias.

Caricatura de Machado de Assis

Em 1867, foi nomeado oficial da Secretaria de Agricultura, enquanto sua carreira de escritor mostrava-se
cada vez mais promissora. Casou-se aos trinta anos com a portuguesa Carolina Xavier de Novais.
Na passagem do Império para a República, Machado de Assis já era um intelectual respeitável. Formado
escritor à luz do Romantismo, com o tempo enveredou para o Realismo, o que, a depender da fase, sua obra seja
caracterizada ou romântica, até 1880, ou realista, de então em diante.

Cronologia
ƒ 1839 – Em 21 de junho nasce no Rio de Janeiro Joaquim Maria Machado de Assis, filho do brasileiro Fran-
cisco José de Assis e da açoriana Maria Leopoldina Machado de Assis, moradores do Morro do Livramento.
ƒ 1849 – Depois do falecimento de sua mãe e de sua única irmã, Machado é amparado por sua madrinha.
ƒ 1854 – Seu pai casa-se com Maria Inês da Silva, com quem Machado continuará vivendo após a morte de
Francisco José.
ƒ 1855 – Publica seu primeiro poema, Ela, após tornar-se colaborador do jornal Marmota Fluminense, de
Francisco de Paula Brito.
ƒ 1856 – Como aprendiz de tipógrafo, entra para a Tipografia Nacional.
ƒ 1858 – Tem aulas de francês e latim com o professor padre Antônio José da Silveira Sarmento. Torna-se
revisor de provas de tipografia e da livraria do jornalista Paula Brito. Lá conhece membros da Sociedade
Petalógica: Manuel Antônio de Almeida, Joaquim Manoel de Macedo. Colabora nos jornais O Paraíba e
Correio Mercantil.
ƒ 1859 – Colabora na revista O Espelho (publicada até janeiro de 1860) como crítico teatral.
ƒ 1860 – A convite de Quintino Bocaiúva, passa a redator do Diário do Rio de Janeiro, sob os pseudônimos
Gil, Job e Platão. Resenhava debates do Senado, escrevia crítica teatral colaborava em A Semana Ilustrada.
ƒ 1861 – Publica Desencantos (comédia) e Queda que as mulheres têm para os tolos (sátira).
ƒ 1862 – Como sócio do Conservatório Dramático Brasileiro, exerce função não remunerada de auxiliar da
censura. É bibliotecário da Sociedade Arcádia Brasileira. Colabora em O Futuro, periódico quinzenal sob a
direção de Faustino Xavier de Novais.
ƒ 1863 – Publica o Teatro de Machado de Assis, do qual constam duas comédias, O protocolo e O caminho
da porta. Passa a publicar contos no Jornal das Famílias.
ƒ 1864 – Publica seu primeiro livro de versos, Crisálidas. Em julho firma contrato com B. L. Garnier para a
venda definitiva dos direitos autorais do livro.
130
ƒ 1865 – Sócio fundador da Arcádia Fluminense.
ƒ 1866 – Publica a comédia Os deuses de casaca e sua tradução do romance Os trabalhadores do mar, de
Victor Hugo. No fim deste ano, chega ao Rio de Janeiro a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novais,
irmã do poeta Faustino Xavier de Novais e futura esposa de Machado.
ƒ 1867 – É agraciado com a Ordem da Rosa, no grau de cavaleiro, e nomeado ajudante do diretor do
Diário Oficial.
ƒ 1868 – Crítico consagrado, a pedido de José de Alencar, guia o jovem poeta Castro Alves no mundo das letras.
ƒ 1869 – Casa-se com Carolina Augusta Xavier de Novais.
ƒ 1870 – Publica Falenas e Contos fluminenses.
ƒ 1872 – Publica Ressurreição, seu primeiro romance.
ƒ 1873 – Publica Histórias da meia-noite (contos) e Notícia da atual literatura brasileira: instinto de nacio-
nalidade (ensaio crítico). É nomeado primeiro oficial da Secretaria de Estado do Ministério da Agricultura,
Comércio e Obras Públicas.
ƒ 1874 – Publica A mão e a luva, seu segundo romance.
ƒ 1875 – Publica Americanas, seu terceiro livro de poesias.
ƒ 1876 – Entre agosto e setembro, publica o romance Helena no jornal O Globo. Colabora na revista Ilustra-
ção Brasileira e é promovido a chefe de seção da Secretaria de Agricultura.
ƒ 1878 – Publica o romance Iaiá Garcia em O Cruzeiro e edita-o em livro. Em artigo no mesmo jornal publica
crítica ao romance O primo Basílio, de Eça de Queirós, que o nomeia defensor de seus direitos autorais, por
conta das edições clandestinas da obra no Brasil. Em licença por motivo de doença, permanece em Friburgo
de onde retorna em março do ano seguinte.
ƒ 1879 – Publica na Revista Brasileira, o romance Memórias póstumas de Brás Cubas e na revista A Estação,
o romance Quincas Borba e A nova geração (estudo).
ƒ 1880 – É designado Oficial de Gabinete do Ministério da Agricultura. Em comemoração ao tricentenário do
poeta português Luís de Camões, organizada pelo Real Gabinete Português de Leitura, sua comédia Tu, só
tu, puro amor... é representada no teatro Dom Pedro II.
ƒ 1881 – Publica em livro Memórias póstumas de Brás Cubas. Escreve crônicas no jornal Gazeta de Notícias
e passa a ser oficial de gabinete do ministro da Agricultura. Publicada em livro a comédia Tu, só tu, puro
amor...
ƒ 1882 –- Publica seu terceiro livro de contos, Papéis avulsos, do qual faz parte O alienista. Entra em licença
de três meses para tratar-se fora do Rio de Janeiro.
ƒ 1884 – Publica em livro os contos de Histórias sem data e passa a morar na rua Cosme Velho, onde
residirá até a morte.
ƒ 1886 – Publica o volume Terras, compilação para estudo da Secretaria da Agricultura, resultado do trabalho
de oito anos na Comissão de Reforma da Legislação das Terras.
ƒ 1888 – Por decreto imperial é nomeado oficial da Ordem da Rosa.
ƒ 1889 – Em 30 de março é promovido a diretor da Diretoria do Comércio, da Secretaria de Estado da Agri-
cultura, Comércio e Obras Públicas.
ƒ 1891 – Publica em livro o romance Quincas Borba.
ƒ 1892 – É promovido a diretor-geral da Viação da Secretaria da Indústria, Viação e Obras Públicas.
ƒ 1895 – Araripe Júnior publica um perfil de Machado de Assis na Revista Brasileira, de José Veríssimo. Em
dezembro daquele ano, Machado passa a ser colaborador da revista.
ƒ 1896 – Publica seu quinto livro de contos Várias histórias. Dirige a primeira sessão preparatória da fundação
da Academia Brasileira de Letras, ABL.
131
ƒ 1897 – Participa da inauguração da ABL e é eleito seu primeiro presidente, cargo que ocupou por dez anos.
ƒ 1899 –Publicado o romance Dom Casmurro e Páginas recolhidas, livro de contos, ensaios e teatro. Firma a
escritura de venda de toda sua obra a François Hippolyte Garnier.
ƒ 1901 – Publica Poesias completas, das quais constam Crisálidas, Falenas, Americanas e a coletânea
Ocidentais.
ƒ 1904 – Publica seu penúltimo romance Esaú e Jacó. Em janeiro, em Friburgo, morre Carolina Augusta Xavier
de Novais, dias antes de completarem 35 anos de casamento. Não tiveram filhos.
ƒ 1906 – Dedica à mulher já falecida seu mais famoso soneto, A Carolina.
ƒ 1908 – Publica seu nono e último romance, Memorial de Aires. Em 1o de junho entra em licença para tra-
tamento de saúde. Falece no dia 29 de setembro, aos 69 anos, no Rio de Janeiro. É enterrado conforme sua
determinação: na sepultura da esposa no Cemitério de São João Batista.

Machado e Carolina: minha carola

“Ai, o amor de um poeta! Amor / Subido / Indelével, puríssimo, exaltado, /Amor eternamente convencido”

Machado de Assis e Carolina Novais viveram juntos durante 35 anos em perfeita harmonia. Um amor de verdade,
de carne e osso. Ela era portuguesa e mais velha que o escritor. Em carta, Machado escreve uma declaração: “Tu
não te pareces com as mulheres vulgares que tenho conhecido. Espírito e coração como os teus são prendas raras.
Como te não amaria eu?”.
No ano seguinte ao casamento foi publicado o primeiro volume dos Contos fluminenses. Mesmo sem
ter sido o grande sucesso do escritor, os contos apresentam uma das características de Machado: o diálogo
com o leitor e a ironia.

132
Machado continua notícia até hoje

Poema inédito de Machado de Assis é descoberto por pesquisador

Poema foi escrito quando Machado tinha apenas 17 anos.

Machado de Assis na juventude

Depois de mais de cem anos de sua morte, Machado de Assis (1839-1908) ainda continua a surpreender
o público e a crítica. Segundo a Folha de S. Paulo, Wilton Marques, professor do Departamento de Letras da
Universidade Federal de São Carlos e da Pós-graduação em Estudos Literários da Unesp de Araraquara, en-
controu um poema inédito do autor, escrito quando Machado tinha apenas 17 anos de idade.
O Grito do Ipiranga, nome do poema encontrado por Marques e publicado no Correio Mercantil, em
9 de setembro de 1856, possui 76 versos. Recheado de patriotismo e de exaltação ao Brasil, o poema é ainda
bastante influenciado pelo Romantismo chamado “heroico”. Trata-se, sem dúvida, de um Machado bem dife-
rente daquele que conhecemos, crítico e ácido, de obras políticas como Esaú e Jacó.
Machado de Assis publicou seu primeiro poema aos 15 anos e boa parte da sua juventude ainda é um
mistério. Foi membro fundador da Academia Brasileira de Letras, teve sua obra traduzida para diversos
idiomas, incluindo o tcheco, sueco e estoniano, e é considerado o maior escritor da literatura nacional.
O poema passou despercebido durante mais de um século, mesmo sendo assinado como Joaquim Maria
Machado de Assis, ficando de fora de diversos volumes da obra completa do autor. Não se destacando, se-
gundo os estudiosos, esteticamente, o poema é importante por mostrar que Machado publicava em grandes
jornais já aos 17 anos e não aos 19, como antes se imaginava.
(Jéssica Borges, 14 mar. 2015. Disponível em: <cabineliteraria.com.br>. Acesso em: 23 mar. 2015).

133
Foi no jornal Marmota Fluminense que Machado de Assis estreou como escritor.

Primeira fase: ciclo romântico

Ao analisar os romances e os contos de Machado de Assis considerados românticos, já se revela a característica que
haveria de marcar sua obra. Os acontecimentos são narrados sem precipitação, entremeados de explicações aos
leitores por parte do narrador e cheios de considerações sobre os comportamentos. Seus personagens não são line-
ares como os dos demais românticos. Têm comportamentos imprevistos, fazem maquinações, não são transparen-
tes, mas interesseiros. A estrutura narrativa, no entanto, ainda é linear: tem começo, meio e fim bem demarcados.
Fazem parte do ciclo romântico as obras Ressurreição, A mão e a luva, Helena e Iaiá Garcia e os livros de
contos Histórias da meia-noite e Contos fluminenses.
134
Helena
No ano de 1859 morre o conselheiro Vale, figura de primeira classe da
sociedade do Segundo Reinado, homem bem relacionado e respeitado. Ele
deixa um filho, Estácio, de vinte e sete anos, e uma irmã, D. Úrsula, que
desde a morte da cunhada cuidará com desvelo da bela chácara em que
vivem, no Andaraí. A leitura do testamento revela uma segunda filha do
conselheiro Vale, Helena, nascida de uma união até então desconhecida
de toda a família. Enquanto Estácio aceita o último pedido do pai – levar
Helena para morar na chácara e tratá-la com muito carinho – D. Úrsula vê
na jovem uma intrusa e usurpadora. No entanto, o testamento é obedeci-
do. Helena sai do colégio interno para morar na chácara, onde começa a
mudar a vida de todos.
Helena e Estácio apaixonam-se, mas o rapaz sente-se culpado, acre-
ditando ser irmão da moça. Helena, contudo, sabe que não é filha de Vale. O
conselheiro teve um romance secreto com sua mãe e prometeu perfilhar a
menina e tratá-la com carinho. A atitude esquiva de Helena, que se encontra
às ocultas com seu pai legítimo, Salvador, faz com que se desconfie que ela
tem um amante.
No final, embora perdoada por Estácio, que descobre a verdade, Helena morre em consequência de uma
febre nervosa.

Capa do romance Helena

Segunda fase: ciclo realista


Com a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas, em 1881, Machado de Assis mudou o rumo de sua obra.
Amadureceu como escritor e passou a escrever para leitores mais exigentes. Seus personagens tornaram-se mais
elaborados, pois eram compostos à luz da Psicologia. Além disso, a técnica de composição do romance foi aperfei-
çoada: os capítulos e frases passam a ser mais curtos a fim de estabelecer maior contato com o leitor. Observa-se
também uma apurada análise da sociedade brasileira do final do Segundo Império, ambiente no qual o casamento
começa a ser um grande alvo da crítica tecida pelo autor.
135
As estruturas narrativas fogem à linearidade, entremeadas de digressões temporais, intromissões do narra-
dor e a análise apurada dos acontecimentos. Memórias póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro,
Esaú e Jacó, Memorial de Aires são romances do ciclo realista.
Além dos romances, Machado publica cerca de duzentos contos a partir de 1869, começando com os Con-
tos fluminenses, publicados em pleno Romantismo. Suas narrativas curtas estão reunidas em Histórias da meia-
-noite, Papéis avulsos, Histórias sem data, Várias histórias, Páginas recolhidas, Relíquias da casa velha.
Merecem destaque os contos A cartomante, Missa do galo, O alienista, O espelho, Cantiga de
esponsais, Noite de almirante, A igreja do diabo, entre outros.
A produção poética de Machado de Assis está reunida em Falenas, Crisálidas, Americanas, Ocidentais.
Destacam-se as peças de teatro Queda que as mulheres têm para os tolos, Quase ministros e Lição de botânica.

Machado versus Eça

Tudo teria começado em fevereiro de 1878, quando O Primo Basílio, de Eça, foi publicado no Brasil. A relação adúl-
tera de Luísa com o primo e as críticas demolidoras aos costumes da burguesia de Lisboa escandalizaram leitores
dos dois continentes.
Em dois artigos publicados em abril daquele ano, Machado fez severas restrições à trama. Apontou falhas
estruturais, condenou a inconsistência psicológica de Luísa e descreveu a relação entre os primos como “um
incidente erótico, sem relevo, repugnante, vulgar”.
Ao publicar os dois ensaios sobre Eça, Machado já era autor de quatro romances (Ressurreição, A Mão e a
Luva, Helena e Iaiá Garcia).
Mas o furacão Eça apareceu no meio do ca-
minho do comedido escritor brasileiro, o que levou
Machado a reformular seus romances.
Em dezembro de 1878, seriamente enfer-
mo, Machado, “bruxo do Cosme Velho” partiu para
uma temporada em Nova Friburgo. Voltou de lá três
meses depois, com o primeiro esboço de Memórias
póstumas de Brás Cubas, furacão ainda mais avassa-
lador que o de Eça.
A narrativa do “defunto autor”, irônica, frag-
mentária, inventiva, foi um divisor de águas na lite-
ratura nacional e inaugurou a grande fase do autor.
A chave dessa reinvenção abasteceu-se do
cânone literário – em Brás Cubas, o caldeirão inclui
a Bíblia, Xavier de Maistre, Sterne, Shakespeare e
muito mais – de forma despudorada.

O romance machadiano
O estilo

Elegância e certa contenção, rápidas pinceladas e muita discrição na composição da personagem, eis o estilo
machadiano. Adepto de personagens fortes, as narrativas revelam excepcional capacidade de observação do ser
humano e da sociedade, impressa, aliás, desde o início.
As lições que aprendeu dos românticos José de Alencar, Almeida Garrett, Victor Hugo e Swift levaram-no a
apenas organizar seus personagens de modo diverso ao deles.
136
Entrelinha

“No romance machadiano, praticamente não há frase que não tenha segunda intenção ou propósito espirituoso. A
prosa é detalhista ao extremo, sempre à cata de efeitos imediatos, o que amarra a leitura ao pormenor e dificulta
a imaginação do panorama. Em consequência, e por causa também da campanha do narrador para chamar a
atenção sobre si mesmo, a composição do conjunto pouco aparece”
(SCHARZ, Roberto. In: Um mestre na periferia do capitalismo – Machado de Assis. p.18).

O olhar detrás das máscaras

Nos romances iniciais, Machado é um romântico crítico, um pouco diferente dos demais, característica singular que
haveria de constituir. O casamento não é a cura para todos males (como diziam os românticos), mas um tipo de
comércio, uma certa troca de favores.
Nos romances escritos após de 1881, essa crítica social é acentuada e assume uma fina ironia ao con-
templar o casamento, o adultério, a exploração do homem pelo próprio homem. Acostumou-se a olhar detrás das
máscaras sociais, a desmascarar o jogo das relações sociais, a compreender a natureza humana mediante persona-
gens com penetrante espírito de análise. Nos indivíduos sempre há intenções supostas para objetivos reais. Disso
resultam suas atitudes, veículos de satisfação pessoal para quem as pratica.

A criação de mulheres-símbolo

As mulheres ganham especial tratamento na obra machadiana. Não faltam as “dissimuladas”, as ambíguas, as
sensuais, as astuciosas, as dominadoras sem a fragilidade da mulher romântica. Não à toa carregam nomes bastan-
te sugestivos: Capitu, capitã (vem do sobrenome do deus dos mares na mitologia Netuno Capitolino), comandante;
Sofia, sabedoria; Iaiá, patroa.
Nos contos, elas assumem o papel de fatais, adúlteras; recatadas, sedutoras, fascinantes...
137
Linguagem e ironia machadiana

E nós continuamos a ler o tal romance; com um pouco de irritação com esse narrador estranho e arrogante,
mas continuamos. Adiante, Brás Cubas, contando sua juventude (era na verdade um playboy rico e desocupado),
apaixona-se por uma prostituta de luxo, com quem gasta muito dinheiro (do pai, é claro). Este ficará furioso, mas
Brás Cubas, fingindo certa ingenuidade, nos conta: “Marcela amou-me por quinze meses e onze contos de réis”.
Esta curta frase é maravilhosa, pois, sem denegrir a moça diretamente, o protagonista nos afirma que o amor dela
era profissional, interesseiro, por dinheiro. Marcela não o amava: o autor construiu outra ironia, sugerindo que
entendêssemos o contrário do que disse.
E esse romance, tão famoso, vai por aí afora. É só diversão, embora, é claro, com um vocabulário do século
19, o que nem sempre é simples para nós. Na verdade, o tal Brás Cubas se exibe até no uso do vocabulário, ele
é pedante. Se prosseguirmos na leitura, conseguimos rir muito, pensando que os vários episódios vividos naquela
sociedade (por ele e por todos), são os mesmos nos tempos de hoje. E muitas ações sociais e morais são as mes-
mas... O pai de Brás Cubas, por exemplo, era um exibicionista. Dava festas muito ricas para ‘fazer barulho’, para
aparecer na sociedade. Quanta gente faz isso ainda hoje, não? Existem até revistas especializadas nessa exibição
de ricos e famosos.
(Márcia Lígia Guidin. Especial para a Página 3. Pedagogia & Comunicação (Atualizado em 13 dez. 2013).
Disponível em: < educacao.uol.com.br>.

Joaquim Maria Machado de Assis (1837-1908) era mulato e nasceu num morro do Rio de Janeiro, numa época
em que, no Brasil, os negros eram ainda escravos. Não teve educação formal, mal frequentou a escola primária.
Trabalhou desde cedo e aprendeu o que pôde. Uma das características mais atraentes e refinadas de Machado de
Assis é sua ironia, uma ironia que, embora chegue francamente ao humor em certas situações, tem geralmente
uma sutileza que só a faz perceptível a leitores de sensibilidade já treinada em textos de alta qualidade. Essa
ironia é a arma mais corrosiva da crítica machadiana dos comportamentos, dos costumes, das estruturas sociais.
Machado a desenvolveu a partir de grandes escritores ingleses que apreciava e nos quais se inspirou (sobretudo
o originalíssimo Lawrence Sterne, romancista do século XVIII).
(Disponível em: <webartigos.com/artigos>).

Humor inglês

Acabamos percebendo que as pessoas são as mesmas, que o mundo da hipocrisia e farsa social não mudou. Essa
sensação é parte do pessimismo machadiano de que tanto nos falam os livros. Não gargalhamos, apenas rimos em
silêncio, com o canto da boca, para nós mesmos. E esse sinal é o famoso humor inglês de que falam os estudiosos:
as piadas, as ironias são todas assim, inglesas; o defunto diz o que quer, fingindo não dizer.
Um dos momentos mais cruéis (sim, a ironia às vezes é cruel com os personagens) chama-se “A flor da moita”.
Sabe por quê? Quando pequeno, Brás havia presenciado um beijo às escondidas que um poeta casado dava numa
dama solteirona atrás de uma moita da mansão de seus pais. Pois bem, anos depois, conheceu a filha bastarda dessa
mesma senhora, a menina Eugênia. Era linda, educada, pura, mas coxa (manca). Eugênia ficou então sendo “a flor da
moita” porque concebida no amor ilícito. Por isso teria defeitos. Perceba que Brás é grosseiro, vulgar e deseducado.
Mas quem vai punir um defunto? Quem?
(Márcia Lígia Guidin. Especial para a Página 3. Pedagogia & Comunicação.
(Atualizado em 13 dez. 2013) Disponível em: < educacao.uol.com.br>. Acesso em: 14 de março 2015).

138
Digressão

Própria do discurso oratório, a digressão pode apresentar qualquer medida, aparecer em qualquer parte do texto
e em obras de qualquer outra natureza, sobretudo a poesia épica, o romance e o ensaio. Empregada desde a Anti-
guidade greco-latina, constitui expediente difícil de manejar, uma vez que pode comprometer a integridade da obra
em que se insere. Por isso, hoje em dia tende a ostentar sentido pejorativo, equivalente a “desvio”, “divagação”,
“subterfúgio”
(Moisés Massaud. 2004, p. 125).

Tanto em Dom Casmurro (1899) quanto em Memórias póstumas de Brás Cubas, a narração é conduzida
por personagens que contam sua própria história e a comentam. Por trás de ambos está o escritor Machado de
Assis que, na verdade, conduz a narrativa como um todo. Acrescente-se que o narrador se vale, na construção do
texto, da utilização da narração em primeira pessoa, da participação, da técnica da digressão, do jogo de tempo
cronológico e psicológico, do frequente exercício da metalinguagem, da narração em ar de conversa, tudo isso
pontuado pelo humor e ironia.
(Disponível em: <webartigos.com/artigos>).

Um mestre na periferia do capitalismo


“Seja no plano da forma, através das interrupções, seja no plano do conteúdo,
através de anedotas e apólogos sobre a vaidade humana, a experiência visada
não muda. Observemos enfim que apólogos, anedotas, vinhetas, charadas, cari-
caturas, tipos inesquecíveis etc. – modalidades curtas, em que Machado carrega
a tinta na maestria – são formas fechadas em si mesmas, e neste sentido matéria
romanesca de segunda classe, estranha à exigência de movimento global própria
ao grande romance oitocentista”.
(SCHARZ, Roberto. Um mestre na periferia do capitalismo – Machado de Assis, p.51).

Memórias póstumas de Brás Cubas


Uma escrita renovadora

A posição de Machado de Assis na literatura brasileira é a de renovador – um abri-


dor de caminhos –, pois revolucionou a narrativa, atribuindo-lhe um tom de mais
verossimilhança e menos superficialidade, e foi além de seu tempo, imprimindo à
literatura um senso psicológico notável.
O caráter inovador de Memórias póstumas de Brás Cubas é as reflexões do
personagem, com elas se encadeiam e se misturam os eventos que ele vive.

Ilustração do capítulo “O vergalho”, de Memórias póstumas de Brás Cubas. Portinari.


139
Capítulo I – Óbito do autor

[...] expirei às duas horas da tarde de uma sexta-feira do mês de agosto de 1869, na minha bela chácara de
Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos e prósperos, era solteiro, possuía cerca de trezentos contos e fui
acompanhado ao cemitério por onze amigos. Onze amigos! Verdade é que não houve cartas nem anúncios. Acresce
que chovia – peneirava – uma chuvinha miúda, triste e constante tão constante e tão triste, que levou um daqueles
fiéis da última hora a intercalar esta engenhosa ideia no discurso que proferiu à beira de minha cova: – “Vós, que o
conhecestes, meus senhores, vós podeis dizer comigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparável de
um dos mais belos caracteres que cobrem o azul como um crepe funéreo, tudo isso é a dor crua e má que lhe foi à
natureza as mais intimas entranhas; tudo isso é um sublime louvor ao nosso ilustre finado”.
[...]

Memórias póstumas de Brás Cubas. Ilustração. Cândido Portinari.

Comentário

“Parece claro que a situação de ‘defunto autor’, diferente de ‘autor defunto’ (...) que não desmancha a verossimi-
lhança realista. A todo momento, Brás exibe o figurino do gentleman moderno, para desmerecê-lo em seguida, e
voltar a adotá-lo, configurando uma inconsequência que o curso do romance vai normalizar”
(SCHARZ, Roberto. Um mestre na periferia do capitalismo – Machado de Assis. p.19).

140
Capítulo XIV – O primeiro beijo

Tinha dezessete anos; pungia-me um buçozinho que eu forcejava por trazer a bigode. Os olhos, vivos e resolutos,
eram a minha feição verdadeiramente máscula. Como ostentasse certa arrogância, não se distinguia bem se era
uma criança com fumos de homem, se um homem com ares de menino. Ao cabo, era um lindo garção, lindo e
audaz, que entrava na vida de botas e expostas, chicote na mão e sangue nas veias, [...]
Sim, eu era esse garção bonito, airoso, abastado; e facilmente se imagina que mais de uma dama inclinou
diante de mim a fronte pensativa, ou levantou para mim os olhos cobiçosos. De todas porém a que me cativou logo
foi uma... não sei se diga; este livro é casto, ao menos na intenção; na intenção é castíssimo. Mas vá lá; ou se há de
dizer tudo ou nada. A que me cativou foi uma dama espanhola. Marcela, a “linda Marcela”, como lhe chamavam
os rapazes do tempo. [...]
Era boa moça, lépida, sem escrúpulos, um pouco tolhida pela austeridade do tempo, que lhe não permitia
arrastar pelas ruas os seus estouvamentos e berlinda, luxuosa, impaciente, amiga de dinheiro e de rapazes. Naquele
ano, morria de amores por um certo Xavier, sujeito abastado e físico – um pérola [...]

Capítulo XVII – Do trapézio e outras coisas

Cena do filme Memórias Póstumas de Brás Cubas. Brás e Marcela.

Marcela amou-me durante meses e onze contos de réis; nada menos. Meu pai, logo que teve aragem dos onze
contos, sobressaltou-se, achou que o caso excedia as falas de um capricho juvenil.
– Desta vez, disse ele, vais para Europa; vais cursar uma universidade, provavelmente Coimbra; quero-te
para homem sério e não para arruador e gatuno. E como eu fizesse um gesto de espanto: – Gatuno, sim senhor;
não é outra coisa um filho que me faz isto...
Sacou da algibeira os meus títulos de dívida, já resgatados por ele, e sacudiu-os na casa.
– Vês, peralta? É assim que um moço deve zelar o nome dos seus? Pensas que eu e meus avós ganhamos o
dinheiro em casas de jogo ou a vadiar pelas ruas? Pelintra! Desta vez ou tornas juízo, ou ficas sem coisa nenhuma.
Estava furioso, mas de um furor temperado e curto. Eu ouvi-o calado, e nada opus à ordem da viagem [...]

141
Capítulo XXVIII – Virgília?

Virgília? Mas então era a mesma senhora que alguns anos depois...? A mesma; era justamente a senhora,
que em 1869 devia assistir aos meus últimos dias, e que antes, muito antes, teve larga parte nas minhas mais
íntimas sensações. Naquele tempo contava apenas uns voluntários. Não digo já lhe coubesse a primazia da
beleza, entre as mocinhas do tempo, porque isto não é romance, e, que lhe maculasse o rosto nenhuma sarda
ou espinha, não. Era bonita, fresca, saía das mãos da natureza, cheia daquele feitiço, precário e eterno, que
o indivíduo passa a outro individuo, para os fins secretos da criação. Era isto Virgília, e era clara, muito clara,
financeira, ignorante, pueril, cheia de uns ímpetos misteriosos; muita preguiça e alguma devoção, – devoção
ou talvez medo; creio que medo. Aí tem o leitor, em poucas linhas, retrato físico e moral da pessoa que devia
influir mais tarde na minha vida; era aquilo com dezesseis anos. Tu que me lês, se ainda fores viva, quando
estas páginas vieram à luz, – tu que me lês, Virgília amada, não reparas na diferença entre a linguagem de hoje
e a que primeiro empreguei quando te vi? Crê que era tão sincero então como agora; a morte não me tornou
rabugento, nem injusto.
– Mas, dirás tu, se você não guardou na retina da memória a imagem do que fui, como é que podes assim
discernir a verdade daquele tempo, e exprimi-la depois de tanto anos?
Ah! Indiscreta! Ah! Ignorantona! Mas é isso mesmo que nos faz senhores da terra, é esse poder de
restaurar o passado, para tocar a instabilidade das nossas impressões e a vaidade dos nossos afetos. Deixa
lá dizer o Pascal que o homem é um caniço pensante. Não; é uma errata pensante, isso sim. Cada estação da
vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor
dá de graça aos vermes.

Capítulo CLX

Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui
califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar
o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de Dona Plácida, nem a semidemência do Quincas
Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e con-
seguintemente que sai quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério,
achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: – Não tive filhos,
não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria
(ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo: FTD. 1991).

Nos quadrinhos

Memórias Póstumas de Brás Cubas (em quadrinhos), o mais célebre romance


brasileiro de todos os tempos, revolucionário na forma fragmentária, no tempo
narrativo não linear, no estilo realista irônico, é ao mesmo tempo um dos mais
agudos retratos das elites brasileiras, além de repositório de algumas passagens
mais famosas da literatura em língua portuguesa.
142
No cinema

Depois de morrer, em pleno ano de 1869, Brás Cubas (Reginaldo Faria) decide narrar sua história e revisitar os fatos mais
importantes de sua vida a fim de se distrair na eternidade. Relembra de amigos como Quincas Borba (Marcos Caruso),
de sua displicente formação acadêmica em Portugal, dos amores de sua vida e do privilégio de nunca ter precisado
trabalhar na vida
(1h41–2001– Disponível em: <adorocinema.com/filmes/filme-120279/>. Acesso em: 22 mar. 2015).

Traiu ou não traiu? Eis a questão!

Dom Casmurro
Publicado em 1900, Dom Casmurro é um romance narrado em primeira pessoa. A partir de um flashback da velhi-
ce para a adolescência, Bentinho conta sua própria história.
Órfão de pai, cresceu num ambiente familiar muito carinhoso – tia Justina, tio Cosme, José Dias. Recebeu
todos os cuidados da mãe, D. Glória, que o destinara à vida sacerdotal.
Sem vocação, Bentinho não quis ser padre. Namora a vizinha Capitu e quer se casar com ela. D. Glória, presa a
uma promessa que fizera, aceita a idade inteligente de José Dias de enviar um escravo ao seminário para ser ordenado
no lugar do Bentinho.
Livre do sacerdócio, o moço forma-se em Direito e acaba casando-se mes-
mo com Capitu.
O casal vive muito bem. Betinho vai progredindo, mantém amizade com
Escobar, antigo colega de seminário, e Sancha, sua esposa. A vida segue seu
curso. Nasce-lhe um filho, Ezequiel.
Escobar morre e, durante o enterro, Bentinho começa a achar Capitu es-
tranha. Surpreende-a contemplando o cadáver de uma forma que ele interpre-
ta como apaixonada.
A partir do episódio, Bentinho consome-se em ciúme e o casamento entra
em crise. cada vez mais Ezequiel torna-se parecido com Escobar – o que preci-
pita em Bentinho a certeza de que ele não é seu filho. O casal separa-se, Capitu
e Ezequiel vão para a Europa e algum tempo depois ela morre.
Já moço, Ezequiel volta ao Brasil para visitar o pai, que comprova a se-
melhança do filho com Escobar. Ezequiel morre no estrangeiro. Cada vez mais fechado em sua dúvida, Bentinho
ganha o apelido de “Casmurro” e põe-se a escrever a história de sua vida.

143
Trecho de Dom Casmurro
Capítulo XXXII – Olhos de ressaca

Tudo era matéria às curiosidades de Capitu. Caso houve, porém, no qual não sei se aprendeu ou ensinou, ou se fez
ambas as coisas, como eu. É o que contarei no outro capítulo. Neste direi somente que, passados alguns dias do
ajuste com o agregado, fui ver a minha amiga; eram dez horas da manhã. D. Fortunata, que estava no quintal, nem
esperou que eu lhe perguntasse pela filha.
– Está na sala penteando o cabelo, disse-me; vá devagarzinho para lhe pregar um susto.
Fui devagar, mas ou o pé ou o espelho traiu-me. Este pode ser que não fosse; era um espelhinho de pataca
(perdoai a barateza), comprado a um mascate italiano, moldura tosca, argolinha de latão, pendente da parede,
entre as duas janelas. Se não foi ele, foi o pé. Um ou outro, a verdade é que, apenas entrei na sala, pente, cabelos,
toda ela voou pelos ares, e só lhe ouvi esta pergunta:
– Há alguma coisa?
– Não há nada, respondi; vim ver você antes que o Padre Cabral chegue para a lição. Como passou a noite?
– Eu bem. José Dias ainda não falou?
– Parece que não.
– Mas então quando fala?
– Disse-me que hoje ou amanhã pretende tocar no assunto; não vai logo de pancada, falará assim por alto
e por longe, um toque. Depois, entrará em matéria. Quer primeiro ver se mamãe tem a resolução feita...
– Que tem, tem, interrompeu Capitu. E se não fosse preciso alguém para vencer já, e de todo, não se lhe
falaria. Eu já nem sei se José Dias poderá influir tanto; acho que fará tudo, se sentir que você realmente não quer
ser padre, mas poderá alcançar?... Ele é atendido; se, porém... É um inferno isto. Você teime com ele, Bentinho.
– Teimo; hoje mesmo ele há de falar.
– Você jura?
– Juro! Deixe ver os olhos, Capitu.
Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. Eu não
sabia o que era oblíqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e
examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira; eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram mi-
nhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra ideia do meu intento; imaginou que era um
pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que
entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que...
[...]
144
Capítulo CXXII – O enterro

A viúva... Poupo-vos as lágrimas da viúva, as minhas, as da outra gente. Saí de lá cerca de onze horas; Capitu e
prima Justina esperavam-me, uma com o parecer abatido e estúpido, outra enfastiada apenas.
– Vão fazer companhia à pobre Sanchinha; eu vou cuidar do enterro.
Assim fizemos. Quis que o enterro fosse pomposo, e a afluência dos amigos foi numerosa. Praia, ruas, Praça
da Glória, tudo eram carros, muitos deles particulares. A casa não sendo grande, não podiam lá caber todos; mui-
tos estavam na praia, falando do desastre, apontando o lugar em que Escobar falecera, ouvindo referir a chegada
do morto. José Dias ouviu também falar dos negócios do finado, divergindo alguns na avaliação dos bens, mas
havendo acordo em que o passivo devia ser pequeno. Elogiavam as qualidades de Escobar. Um ou outro discutia o
recente gabinete Rio Branco; estávamos em março de 1881. Nunca me esqueceu o mês nem o ano.
Como eu houvesse resolvido falar no cemitério, escrevi algumas linhas e mostrei-as em casa a José Dias,
que as achou realmente dignas do morto e de mim. Pediu-me o papel, recitou lentamente o discurso, pesando as
palavras, e confirmou a primeira opinião; no Flamengo espalhou a notícia. Alguns conhecidos vieram interrogar-me:
– Então, vamos ouvi-lo?
– Quatro palavras.
Poucas mais seriam. Tinha-as escrito com receio de que a emoção me impedisse de improvisar. No tílburi
em que andei uma ou duas horas, não fizeram mais que recordar o tempo do seminário, as relações de Escobar,
as nossas simpatias, a nossa amizade, começada, continuada e nunca interrompida, até que um lance da fortuna
fez separar para sempre duas criaturas que prometiam ficar muito tempo unidas. De quando em quando enxugava
os olhos. O cocheiro aventurou duas ou três perguntas sobre a minha situação moral; não me arrancando nada,
continuou o seu ofício.
Chegando a casa, deitei aquelas emoções ao papel; tal seria o discurso.

Capítulo CXXIII – Olhos de ressaca

Aquarela. Elza Tamas.

Enfim, chegou a hora da encomendação e da partida. Sancha quis despedir-se do marido, e o desespero daquele
lance consternou a todos. Muitos homens choravam também, as mulheres todas. Só Capitu, amparando a viúva,
parecia vencer-se a si mesma. Consolava a outra, queria arrancá-la dali. A confusão era geral. No meio dela, Capitu
olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não admira lhe saltassem algumas
lágrimas poucas e caladas...
As minhas cessaram logo. Fiquei a ver as dela; Capitu enxugou-as depressa, olhando a futuro para a gente
que estava na sala. Redobrou de carícias para a amiga, e quis levá-la; mas o cadáver parece que a retinha também.
Momento houve em que os olhos de Capitu fitaram o defunto, quais os da viúva, se, o pranto nem palavras desta,
mas grandes e abertos, como a vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar também o nadador da manhã.
(ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. São Paulo: África, 1978).

145
Capitu

“Na construção de Machado, Capitu é a mulher que inverte o jogo: de oprimida passa a opressora, pois escolhe
Bentinho como quem vai tornar concreto o seu desejo e consegue trazê-lo para si; vive sua época e assume este
desejo como legítimo: quer ser rica, torna-se rica. É virtuosa, sim, pois é fiel ao que traçou para si. Mas nem quan-
do ama – pois ama Escobar! – compreende a natureza do pró-
prio desejo. Seu tropeço não é amar Escobar, mas não ser capaz
de colocar todo o seu Ser naquele propósito que desenhou para
si: uma parte dela ama quem não devia amar. Para Capitu, é im-
possível viver o amor, e seus desejos não se reconciliam; o desejo
possível (realizado com Bentinho, que lhe cobre a matéria) fica
de frente com o desejo impossível (amar plenamente Escobar) e
assim Capitu se revela. A grande traição que Dom Casmurro nos
mostra é, por fim, a da natureza: a aparência do filho, que expõe
o desejo fora do controle da anti-heroína gananciosa”
(Mônica R. de Carvalho. Disponível em: <forademim.com.br>. Acesso em 22 mar. 2015).

Na música

O professor e músico Luiz Tatit criou esta espetacular canção que retrata Capitu, personagem atemporal de Macha-
do Assis. Faz menção à concepção de um feminino com arte que encanta com seu jeito atraente e misterioso. Vale
a pena escutá-la também na voz de Zélia Duncan.

Luiz Tatit

Capitu

De um lado vem você com seu jeitinho


Hábil, hábil, hábil
E pronto!
Me conquista com seu dom
De outro esse seu site petulante
WWW
Ponto
Poderosa ponto com
É esse o seu modo de ser ambíguo
146
Sábio, sábio
E todo encanto
Canto, canto
Raposa e sereia da terra e do mar
Na tela e no ar
Você é virtualmente amada amante
Você real é ainda mais tocante
Não há quem não se encante
Um método de agir que é tão astuto
Com jeitinho alcança tudo, tudo, tudo
É só se entregar, é não resistir, é capitular
Capitu
A ressaca dos mares
A sereia do sul
Captando os olhares
Nosso totem tabu mulher em milhares
Capitu
No site o seu poder provoca o ócio, o ócio
Um passo para o vício, o vício
É só navegar, é só te seguir, e então naufragar
Capitu
Feminino com arte
A traição atraente
Um capítulo à parte
Quase vírus ardente
Imperando no site
Capitu

Curiosidade

Bentinho que traiu Capitu?

Publiquei, através de anos, no Estadão, no O Dia, e no Jornal do Brasil – ao todo aproximadamente dois milhões de
exemplares – “pesquisa” sobre Dom Casmurro, a obra magna de Machado de
Assis. Como minha página era a capa exterior dos jornais citados, e o assunto
era picante – se Escobar, “herói” do romance, tinha ou não tinha comido a
Capitu, eterna e tola discussão entre beletristas –, devo ter alcançado pelo
menos cem mil desprevenidos. Bom, não apenas mostrei que Escobar comeu
a Capitu, como, não sei não, acho que tirei Dom Casmurro do “armário”.
Como não sou dos maiores – e nem mesmo dos menores – admira-
dores do bruxo, fundador da Academia Brasileira de Letras (“a Glória que
fica, eleva, honra e consola”, eu, hein, que frase!), não vou discutir a maciça,
inexpugnável web protecionista que se criou em torno dele. Não quero pole-
mizar (falta-me vontade e capacidade) com a candura que os erúditos (com
acento no ú, por favor) têm pra relação equívoca entre Capitu, a “dos olhos
Millôr Fernandes
147
de ressaca” (que Machado não explica se era ressaca do mar ou de um porre), e Escobar, o mais íntimo amigo de
Bentinho, narrador e personagem do livro (evidente alter ego do próprio Machado).
A desconfiança básica vem desde 1900, quando Machado publicou Dom Casmurro. Dom Casmurro é ou
não é corno, palavra cujo sentido de humilhação masculina – que ainda mantém bastante de sua força nesta época
de total permissividade – na época de Machado era motivo de crime passional, “justa defesa da honra”, e outros
desagravos permitidos pela legislação e pelos costumes.
Curioso que, ontem como hoje, o epíteto corna não se grudou à mulher. Ela é tola, vítima, “não sei como
suporta isso!”, “corneia ele também!”, mas o epíteto não colou.
Dom Casmurro sofre da dor específica umas 50 páginas do romance, envenenado pela hipótese da infide-
lidade de Capitu. Que dúvida, cara pálida? Capitu deu pra Escobar. O narrador da história, Bentinho/Machado, só
não coloca no livro o DNA do Escobar porque ainda não havia DNA. Mas fica humilhado, desesperado mesmo, à
proporção que o filho cresce e mostra olhos, mãos, gestos e tudo o mais do amigo, agora morto. Bentinho chega a
chamar Escobar de comborço (parceiro na cama).
Mas, pela nossa eterna pruderie intelectual, também ainda ridiculamente forte com relação a outro tipo de
relação, a homo, nunca vi ninguém falar nada das intimidades entre Bentinho e Escobar. É verdade que, na época,
Oscar Wilde estava em cana por causa do pecado que “não ousava dizer seu nome”.
Não fiz interpretações. Apenas selecionei frases – momentos – do próprio Dom Casmurro/Machado, da
edição da Editora Nova Aguilar. Leiam, e concordem ou não.
Pág. 868 “Chamava-se Ezequiel de Souza Escobar. Era um rapaz esbelto, olhos claros, um pouco fugidios,
como as mãos, como os pés, como a fala, como tudo.”
Mesma página “Escobar veio abrindo a alma toda, desde a porta da rua até o fundo do quintal. A alma da
gente, como sabes, é uma casa com janelas para todos os lados, muita luz e ar puro… Não sei o que era a minha.
Mas como as portas não tinham chaves nem fechaduras, bastava empurrá-las e Escobar empurrou-as e entrou. Cá
o achei dentro, cá ficou…”.
Pág. 876 “Ia alternando a casa e o seminário. Os padres gostavam de mim. Os rapazes também e Escobar
mais que os rapazes e os padres.”
Pág. 883 “Os olhos de Escobar eram dulcíssimos. A cara rapada mostrava uma pele alva e lisa. A testa é que era
um pouco baixa… mas tinha sempre a altura necessária para não afrontar as outras feições, nem diminuir a graça delas.
Realmente era interessante de rosto, a boca fina e chocarreira, o nariz fino e delgado.”
Mesma página “Fui levá-lo à porta… Separamo-nos com muito afeto: ele, de dentro do ônibus, ainda me
disse adeus, com a mão. Conservei-me à porta, a ver se, ao longe, ainda olharia para trás, mas não olhou.”
Mesma página “Capitu viu (do alto da janela) as nossas despedidas tão rasgadas e afetuosas, e quis saber
quem era que me merecia tanto.
– É o Escobar, disse eu.”
Pág. 887 “– Escobar, você é meu amigo, eu sou seu amigo também; aqui no seminário você é a pessoa que
mais me tem entrado no coração.
– Se eu dissesse a mesma cousa, retorquiu ele sorrindo, perderia a graça… Mas a verdade é que não tenho
aqui relações com ninguém, você é o primeiro, e creio que já notaram; mas eu não me importo com isso.”
Pág. 899 “Durante cerca de cinco minutos esteve com a minha mão entre as suas, como se não me visse
desde longos meses.
– Você janta comigo, Escobar?
– Vim para isto mesmo.”
Pág. 900 “Caminhamos para o fundo. Passamos o lavadouro; ele parou um instante aí, mirando a pedra de
bater roupa e fazendo reflexões a propósito do asseio; lembra-me só que as achei engenhosas, e ri, ele riu também.
A minha alegria acordava a dele, e o céu estava tão azul, e o ar tão claro, que a natureza parecia rir também co-
nosco. São assim as boas horas deste mundo.”
148
Pág. 901 “Fiquei tão entusiasmado com a facilidade mental do meu amigo, que não pude deixar de abraçá-
-lo. Era no pátio; outros seminaristas notaram a nossa efusão: um padre que estava com eles não gostou…”
Pág. 902 “Escobar apertou-me a mão às escondidas, com tal força que ainda me doem os dedos.”
Pág. 913 “Escobar também se me fez mais pegado ao coração. As nossas visitas foram-se tornando mais
próximas, e as nossas conversações mais íntimas.”
Pág. 914 “A amizade existe; esteve toda nas mãos com que apertei as de Escobar ao ouvir-lhe isto, e na
total ausência de palavras com que ali assinei o pacto; estas vieram depois, de atropelo, afinadas pelo coração, que
batia com grande força.”
Págs. 925/26 (Depois da morte de Escobar) “Era uma bela fotografia tirada um ano antes. (Escobar) estava
de pé, sobrecasaca abotoada, a mão esquerda no dorso de uma cadeira, a direita metida no peito, o olhar ao
longe para a esquerda do espectador. Tinha garbo e naturalidade. A moldura que lhe mandei pôr não encobria a
dedicatória, escrita embaixo, não nas costas do cartão: ‘Ao meu querido Bentinho o seu querido Escobar 20-4-70c.”
•••
P.S.: Mas, se vocês ainda têm dúvida, leiam a página 845 do fúlgido romance. Bentinho, ele próprio, fica
pasmo, e realizado, quando consegue dar um beijo (quer dizer, apenas uma bicota) em Capitu. É ele próprio quem
fala, entusiasmado com seu feito de bravura:
“De repente, sem querer, sem pensar, saiu-me da boca esta palavra de orgulho:
– Sou Homem!”
(Millôn Fernandes)(Disponível em: <blogdogusmao.com.br>. Acesso em: 22 mar. 2015.)

Nos quadrinhos – HQ

O amor (e o ciúme) de Bentinho por Capitu virou história em quadrinhos. A Editora Ática acaba de editar o clássico
Dom Casmurro, escrito por Machado de Assis em 1899, nesse formato,
com arte de Rodrigo Rosa e roteiro de Ivan Jaf. O lançamento integra a
coleção Clássicos Brasileiros em HQ.
Nos quadrinhos acima e abaixo, o ainda adolescente Bento San-
tiago entreouve a mãe falar que quer torná-lo padre, independente-
mente de sua nascente paixão pela vizinha Capitu. Dom Casmurro em
quadrinhos é fiel à manutenção do mistério original, no qual o caráter
ambíguo de Capitu merece destaque.
No fim do livro, o leitor conta com a seção bônus, com informa-
ções sobre o processo de construção da obra e curiosidades sobre o
contexto histórico brasileiro do Século 19. Com 88 páginas, Dom Cas-
murro em versão HQ.

No cinema
Bento (Marcos Palmeira) é um homem cujos pais, apreciadores de Machado de Assis, resolveram batizá-lo com este
nome em homenagem ao personagem homônimo do livro Dom Casmurro. Tantas vezes foi justificada a razão da
homenagem que Bento cresceu com a ideia fixa de que seria o próprio personagem e destinado a viver, exatamen-
te, aquela história. Até chamava sua amiga de infância no Rio de Janeiro, Ana (Maria Fernanda Cândido), de Capitu.
Seus amigos, conhecedores do seu sentimento de predestinação, apelidaram-no Dom. Bento e Ana separaram-se
quando a família do menino mudou-se para São Paulo. Já adulto, Bento reencontra Miguel, um amigo que Bento
conheceu antes de ele desistir da faculdade Engenharia. Miguel está em São Paulo para procurar modelos para um
clipe de uma Banda de Rock (Capital Inicial), que sua empresa está produzindo, e leva Bento para o estúdio, com
149
o pretexto de conhecê-la, mas na verdade é para aproximá-lo de sua assistente. É lá que “Dom” acidentalmente
reencontra sua Capitu e dali renasce o romance da infância, só que, agora, avassalador.
(Disponível em: <wikipedia.org>. Acesso em: 23 mar. 2015).

Minissérie

Capitu desenvolve se a partir da promessa de Dona Glória (Eliane Giardini), mãe do protagonista Bentinho: depois
de perder um filho, ela jura fazer do próximo herdeiro um padre; mas Bentinho tem uma enorme paixão por sua
vizinha e melhor amiga Capitu, mas por causa da promessa eles não podem ficar juntos. Mesmo a contragosto,
Bentinho vai para o seminário, onde conhece Escobar, que vira seu melhor amigo. Antes de deixar o seminário,
José Dias ajuda a Bentinho ficar junto a sua amada. Já fora do seminário, vai estudar, forma-se advogado e casa-se
com Capitu. Escobar torna-se comerciante e casa-se com Sancha, amiga de infância de Capitu. O casal Escobar e
Sancha geram uma filha, Capituzinha. Dois anos depois, para a alegria de Bento e Capitu, nasce Ezequiel. Os casais
mantêm fortes laços de amizade. Num jantar na casa de Escobar, os quatro amigos planejam uma viagem para
a Europa. Em um momento a sós, Bentinho surpreende um olhar intenso de Sancha, o que dá vez a um diálogo
cheio de insinuações e uma troca ardorosa de apertos de mãos. Bentinho, fortemente atraído por Sancha, repele
o sentimento e fica mal ao perceber o desejo pela mulher do melhor amigo. A fatalidade marca a vida de Escobar,
que morre afogado no dia seguinte. A morte do amigo aumenta ainda mais a culpa e o ciúme de Bentinho, que,
atormentado, acredita ver no próprio filho, Ezequiel, a imagem do amigo por causa do ocorrido anteriormente.
(Disponível em: <wikipedia.org>. Acesso em: 22 mar. 2015).

O conto machadiano

Machado de Assis é autor de quase duzentos contos, cujas histórias revelam evolução das românticas, leves para
mais densas, intrigantes, que alcançam o patamar das obras-primas da Literatura brasileira.
A construção de um conto é, com certeza, muito mais difícil do que a construção de um romance, porque o conto:
ƒ é uma narrativa curta e deve prender a atenção do leitor;
ƒ deve ter um só e muito interessante conflito;
ƒ deve provocar tensão e conduzir o leitor para um único efeito;
ƒ deve manter um perfeito equilíbrio narrativo e;
ƒ trabalha com poucas personagens, em tempo exíguo e em pequenos espaços.

Machado de Assis foi um contista extraordinário porque soube manejar as regras do conto como ninguém.
O núcleo temático e narrativo reduzido e sua força expressiva altamente concentrada do conto machadiano flagra
150
aspectos psicológicos da natureza humana.

ƒ Personagens fortes – as femininas ocupam lugar de destaque.


Como no romance, guardam as ambiguidades típicas do universo femi-
nino; têm força interior; estão no comando, são racionais e calculistas.
ƒ Adultério – o tema é explorado implícita – apenas sugerido – e ex-
plicitamente.
ƒ Temas psicológicos – a visão de mundo de Machado de Assis é a
mesma nos romances e nos contos. Nestes são uma versão em mi-
niatura do seu modo de interpretar a sociedade. São relatos sofridos,
pesados, recriadores da vida real, notadamente a carioca do final do
século. Prosa com boa dosagem de humor e de tragédia.
Trechos de contos:

Missa do galo

Nunca pude entender a conversão que tive co uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era
noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria
acordá-lo à meia-noite.
A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Menezes, que fora casado em primeiras núpcias, com
uma de minhas primas. A segunda mulher, Conceição, e a mãe desta acolheram-me bem, quando vim de Mangara
para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparatórios. [...]
Boa Conceição! Chamavam-lhe “a santa”, e fazia jus ao título, tão facilmente suportava os esquecimentos do
marido. Em verdade, era um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, nem grandes risos. No
capítulo de que trato, dava para maometana; aceitaria um harém, com as aparências salvas. Deus me perdoe, se a
julgo mal. Tudo nela era atenuado e passivo. O próprio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos
uma pessoa simpática. Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo. Não sabia odiar; pode ser até que não soubesse
amar. Naquela noite de Natal foi o escrivão ao teatro. Era pelos anos de 1861 ou 1862. Eu já devia estar em Manga-
ratiba, em férias; mas fiquei até o Natal para ver “a missa do galo na Corte”. A família recolheu-se à hora do costume;
eu meti-me na sala da frente, vestido e pronto. Dali passaria ao corredor da entrada e sairia sem acordar ninguém.
Tinha três chaves a porta; uma estava com o escrivão, eu levaria outra, a terceira ficaria em casa.
– Mas, Sr. Nogueira, que fará você todo esse tempo? Perguntou a mãe de Conceição.
– Leio, D. Inácia.
Tinha comigo um romance, os Três Mosqueteiros; velha tradução creio do Jornal do Comércio. Sentei-me
à mesa que havia no centro da sala, e à luz de um candeeiro de querosene, enquanto a casa dormia, trepei ainda
uma vez ao cavalo magro de D’Artagnan e fui-me às aventuras. Dentro em pouco estava completamente ébrio de
Dumas. Os minutos voavam, ao contrário do que costumam fazer, quando são de espera; ouvi bater onze horas,
mas quase sem dar por elas, um acaso.
Entretanto, um pequeno rumor que ouvi dentro veio acordar-me da leitura. Eram uns passos no corredor que
ia da sala de visitas à de jantar; levantei a cabeça; logo depois vi assomar à porta da sala o vulto de Conceição.
– Ainda não foi? perguntou ela.
– Não fui, parece que ainda não é meia-noite.
– Que paciência!
Conceição entrou na sala, arrastando as chinelinhas da alcova. Vestia um roupão branco, mal apanhado na
cintura. Sendo magra, tinha um ar de visão romântica, não disparatada com o meu livro de aventuras; fechei o livro;
151
ela foi sentar-se na cadeira que ficava defronte
de mim, perto do canapé. Como eu lhe pergun-
tasse se a havia acordado, sem querer, fazendo
barulho, respondeu com presteza:
– Não ! qual! Acordei por acordar.
[...]
– Eu gosto muito de romances, mas leio
pouco, por falta de tempo. Que romances é que
você tem lido?
Comecei a dizer-lhe os nomes de alguns.
Conceição ouvia-me com cabeça reclinada no
espaldar, enfiando os olhos por entre as pál-
pebras meio-cerradas, sem os tirar de mim. De
vez em quando passava a língua pelos beiços,
para umedecê-los. Quando acabei de falar, não
me disse nada; ficamos assim alguns segundos.
Em seguida, vi-a endireitar a cabeça, cruzar os
dedos e sobre eles pousar o queixo, tendo os
cotovelos nos braços da cadeira, tudo sem des-
viar de mim os grandes olhos espertos.
“Talvez esteja aborrecida”, pensei eu.
E logo alto:
– D. Conceição, creio que vão sendo horas, e eu...
– Não, não, ainda é cedo. Vi agora mesmo o relógio; são onze e meia. Tem tempo. Você, perdendo a noite,
é capaz de não dormir de dia?
– Já tenho feito isso.
– Eu, não perdendo uma noite, no outro dia estou que não posso, e meia hora que seja., hei de passar pelo sono.
Mas também estou ficando velha.
– Que velha o quê, D. Conceição?
Tal foi o calor da minha palavra que a fez sorrir. De costume tinha os gestos demorados e as atitudes tran-
quilas; agora, porém ergueu-se rapidamente, passou para o outro lado da sala e deu alguns passos, entre a janela
da rua e a porta do gabinete do marido. Assim, com o desalinho honesto que trazia, dava-me uma impressão sin-
gular. Magra embora, tinha não sei que balanço no andar, como quem lhe custa levar o corpo; essa feição nunca me
pareceu tão distinta como naquela noite. Parava algumas vezes, examinando um trecho de cortina o consertando
a posição de algum objeto no aparador; afinal deteve-se, ante mim, com a mesa de permeio. Estreito era o círculo
das suas ideias; tornou ao espanto de me ver esperar acordado; eu repeti-lhe o que ela sabia, isto é, que nunca
ouvira missa do galo na Corte, e não queria perdê-la.
– É a mesma missa da roça; todas as missas se parecem.
– Acredito; mas aqui há mais luxo e mais gente também. Olhe, a semana santa na Corte é mais bonita que
na roça. S. João não digo, nem Santo Antônio...
Pouco a pouco, tinha-se inclinado; fincara os cotovelos no mármore da mesa e metera o rosto entre as mãos
espalhadas. Não estando abotoadas, as mangas caíram naturalmente, e eu vi-lhe metade dos braços, muitos claros,
e menos magros do que se poderiam supor. A vista não era nova para mim, posto também não fosse comum; na-
quele momento, porém, a impressão que tive foi grande. As veias eram tão azuis, que, apesar da pouca claridade,
podia contá-las do meu lugar. [...]
152
[...]
Havia também umas pausas. Duas outras vezes, pareceu-me que a via dormir; mas os olhos, cerrados por
um instante, abriam-se logo sem sono nem fadiga, como se ela os houvesse fechado para ver melhor. Uma dessas
vezes creio que deu por mim embebido na sua pessoa, e lembra-me que os tornou a fechar, não sei se apressada ou
vagarosamente. Há impressões dessa noite, que me aparecem truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalho-
-me. Uma das que ainda tenho frescas é que em certa ocasião, ela, que era apenas simpática, ficou linda, ficou
lindíssima. Estava de pé, os braços cruzados; eu, em respeito a ela, quis levantar-me; não consentiu, pôs uma das
mãos no meu ombro, e obrigou-me a estar sentado. Cuidei que ia dizer alguma cousa; mas estremeceu, como se
tivesse um arrepio de frio voltou as costas e foi sentar-se na cadeira, onde me achara lendo. Dali relanceou a vista
pelo espelho, que ficava por cima do canapé, falou de duas gravuras que pendiam da parede.

153
E.O. TESTE I
1. Machado de Assis

Joaquim Maria Machado de Assis, cronista, contista, dramaturgo, jornalista, poeta, novelista, roman-
cista, crítico e ensaísta, nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 21 de junho de 1839. Filho de um
operário mestiço de negro e português, Francisco José de Assis, e de D. Maria Leopoldina Machado de
Assis, aquele que viria a tornar-se o maior escritor do país e um mestre da língua, perde a mãe muito
cedo e é criado pela madrasta, Maria Inês, também mulata, que se dedica ao menino e o matricula
na escola pública, única que frequentou o autodidata Machado de Assis.
Disponível em: http://www.passeiweb.com. Acesso em: 1 maio 2009.

Considerando os seus conhecimentos sobre os gêneros textuais, o texto citado constitui-se de:
a) fatos ficcionais relacionados a outros de caráter realista, relativos à vida de um renomado escritor.
b) representações generalizadas acerca da vida de membros da sociedade por seus trabalhos e vida coti-
diana.
c) explicações da vida de um renomado escritor, com estrutura argumentativa, destacando como tema
seus principais feitos.
d) questões controversas e fatos diversos da vida de personalidade histórica, ressaltando sua intimidade
familiar em detrimento de seus feitos públicos.
e) apresentação da vida de uma personalidade, organizada sobretudo pela ordem tipológica da narração,
com um estilo marcado por linguagem objetiva.

2. (ITA) O texto abaixo é o início da obra Dom Casmurro, de Machado de Assis.

Uma noite dessas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz
aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim,
falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode
ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os
olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos
no bolso.
[...] No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando-me Dom Casmurro.
Os vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afi-
nal pegou.
[...] Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que
lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos
de fidalgo. Tudo por estar cochilando! Também não achei melhor título para a minha narração; se
não tiver outro daqui até ao fim do livro, vai este mesmo.

Considere as afirmações abaixo referentes ao trecho, articuladas ao romance:


I. O narrador já apresenta seu estilo irônico de narrar.
II. O narrador assume uma alcunha que o caracteriza ao longo do enredo.
III. Os eventos narrados no trecho inicial desencadeiam o conflito central da obra.
IV. O título Dom Casmurro não caracteriza adequadamente o personagem Bentinho.

Estão corretas apenas:


a) I e II.
b) I e III.
c) II e III.
d) II e IV.
e) III e IV.

154
3. (Insper) As imagens abaixo fazem parte do game “Filosofighters”. Inspirado em jogos de lutas, ele
propõe uma batalha verbal entre importantes filósofos. Nele os argumentos dos pensadores valem
como golpes, conforme se verifica na ilustração abaixo.

Relacione as teorias dos pensadores citados ao excerto de Machado de Assis. Por defender posição
similar, infere-se que, no jogo, o “filósofo” Quincas Borba NÃO poderia ser adversário de:
a) Aristóteles, pois ao definir a paz como “destruição” e a guerra como “conservação”, Quincas Borba
recupera a ideia de que “o homem é livre só dentro de regras”.
b) Jean Paul-Sartre, pois, assim como o filósofo existencialista, o mentor do Humanitismo mostra que a
necessidade de alimentação determina a obediência ou a violação às regras.
c) Hobbes, pois a tese do Humanitismo reafirma a ideologia do autor de “Leviatã”, entendendo que o
estado natural é o conflito.
d) Rousseau, pois defende os mesmos princípios do filósofo iluminista, mostrando que, embora pareça ser
uma solução, a guerra traz grandes prejuízos à humanidade.
e) nenhum dos pensadores citados, pois Quincas Borba, ao contrário deles, prevê um destino promissor
para a humanidade.

4. Jesus, filho de Sirach, se soubesse dos meus primeiros ciúmes, dir-me-ia, como no seu cap.IX, vers.
1: “Não tenhas ciúmes de tua mulher, para que ela não se meta a enganar-te com a malícia que
aprender de ti”. Mas eu creio que não, 1e tu concordarás comigo; se te lembras bem da Capitu me-
nina, hás de reconhecer que uma estava dentro da outra, 2como a fruta dentro da casca.
Machado de Assis, D.Casmurro

Considerado o fragmento no contexto do romance, assinale a alternativa correta.


a) O narrador onisciente, ao confirmar sua insegurança afetiva, dá pistas ao leitor de que Capitu, mesmo
adulta, manteve o comportamento ingênuo da infância, tendo na verdade sido vítima da malícia do
amigo Escobar.
b) O narrador protagonista, buscando a cumplicidade do leitor (e tu concordarás comigo, ref. 1), afirma sua
convicção de que a esposa, já falecida, desde muito jovem já manifestara indícios de um comportamento
suspeito.
c) A ambiguidade do discurso de Bento Santiago converge para a expressão como a fruta dentro da casca
(ref. 2) que pode ser lida tanto como prova da inocência da esposa como, ao contrário, prova de sua
culpa.
d) Valendo-se de um discurso tendencioso, o advogado Bento Santiago evita ressalvas e modalizações na fala,
expondo ao leitor inquestionáveis indícios da traição de sua mulher Capitu.
e) O discurso bíblico citado no início do fragmento revela que o narrador, preocupado em caracterizar o com-
portamento da esposa infiel, omite informações importantes acerca de si próprio.
155
5. Leia o texto e examine a ilustração: 6. (Ufrgs) Considere as seguintes afirmações
ÓBITO DO AUTOR sobre o romance Memórias Póstumas de Brás
(...) expirei às duas horas da tarde de uma Cubas de Machado de Assis.
sexta-feira do mês de agosto de 1869, na I. Quando filiado a uma ordem religiosa,
minha bela chácara de Catumbi. Tinha uns Brás contrariou sua natureza interesseira
sessenta e quatro anos, rijos e prósperos, era e sentiu-se verdadeiramente recompen-
solteiro, possuía cerca de trezentos contos sado ao diminuir a desgraça alheia.
e fui acompanhado ao cemitério por onze II. Baseado na constatação de que, ao olhar
amigos. Onze amigos! Verdade é que não para o próprio nariz, o indivíduo deixa de
houve cartas nem anúncios. Acresce que invejar o que é dos outros, Brás teoriza
sobre a utilidade da ponta do nariz para
chovia - peneirava - uma chuvinha miúda,
o equilíbrio das sociedades.
triste e constante, tão constante e tão triste,
III. A teoria do Humanitismo de Quincas
que levou um daqueles fiéis da última hora a
Borba foi fundamentada no episódio da
intercalar esta engenhosa ideia no discurso
borboleta negra, que morreu nas mãos do
que proferiu à beira de minha cova: -”Vós, protagonista por não ser azul e bela.
que o conhecestes, meus senhores, vós po- Quais estão corretas?
deis dizer comigo que a natureza parece a) Apenas I.
estar chorando a perda irreparável de um b) Apenas II.
dos mais belos caracteres que tem honrado c) Apenas I e II.
a humanidade. Este ar sombrio, estas gotas d) Apenas I e III.
do céu, aquelas nuvens escuras que cobrem e) I, II e III.
o azul como um crepe funéreo, tudo isto é a
dor crua e má que lhe rói à natureza as mais 7. (UCS) Memórias Postumas de Brás Cubas, de
íntimas entranhas; tudo isso é um sublime Machado de Assis, inaugura a chamada se-
louvor ao nosso ilustre finado.” (....) gunda fase da produção literária do autor.
A esse momento está também ligada a obra
(Adaptado. Machado de Assis. Memórias póstumas
de Brás Cubas. Ilustrado por Cândido Portinari. Rio Dom Casmurro.
de Janeiro: Cem Bibliófilos do Brasil, 1943. p.1.) Em relação ao romance Dom Casmurro, ana-
lise a veracidade (V) ou a falsidade (F) das
proposições abaixo.
( ) A ambiguidade e a incerteza permeiam
as ações dos protagonistas e isso não é
amenizado nem mesmo no desfecho.
( ) Capitu, Bentinho, Sancha e Escobar for-
mam os pares românticos da trama, mar-
cada pela busca de ascensão social.
( ) O motivo principal que inicialmente im-
pede Bentinho de namorar Capitu é o
fato de ela pertencer a uma classe social
inferior à dele.
Assinale a alternativa que preenche correta-
mente os parênteses, de cima para baixo.
a) V – V – V
b) V – F – F
c) V – F – V
d) F – F – F
e) F – V – V

8. (UPF) Leia as seguintes afirmações sobre a


obra Memórias póstumas de Brás Cubas, de
Compare o texto de Machado de Assis com a Machado de Assis:
ilustração de Portinari. I. A idealização das personagens é um traço
É correto afirmar que a ilustração do pintor: significativo do romance.
a) apresenta detalhes ausentes na cena descri- II. Constata-se, na narrativa, uma ruptura
ta no texto verbal. com os lugares-comuns que caracteriza-
b) retrata fielmente a cena descrita por Macha- vam a linguagem no Romantismo.
do de Assis. III. No romance, destaca-se a presença de
c) distorce a cena descrita no romance. um narrador que é também o prota-
d) expressa um sentimento inadequado à situação. gonista da história e que se apresenta
e) contraria o que descreve Machado de Assis. como defunto autor.
156
Qual(is) está(ão) correta(s)? 10. No texto a seguir, Machado de Assis faz uma
a) Apenas I. crítica ao Romantismo: Certo não lhe falta
b) Apenas II. imaginação; mas esta tem suas regras, o as-
c) Apenas III. tro, leis, e se há casos em que eles rompem
d) I e III. as leis e as regras é porque as fazem novas, é
e) II e III. porque se chama Shakespeare, Dante, Goethe,
Camões.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
Com base nesse texto, notamos que o autor:
(...) Um poeta dizia que o menino é o pai do a) Preocupa-se com princípios estéticos e acre-
homem. Se isto é verdade, vejamos alguns dita que a criação literária deve decorrer de
lineamentos do menino. uma elaborada produção dos autores.
Desde os cinco anos merecera eu a alcunha b) Refuga o Romantismo, na medida em que os
de “menino diabo”; e verdadeiramente não autores desse período reivindicaram uma es-
era outra coisa; fui dos mais malignos do tética oposta à clássica.
meu tempo, arguto, indiscreto, traquinas e c) Entende a arte como um conjunto de princípios
voluntarioso. Por exemplo, um dia quebrei estéticos consagrados, que não pode ser mani-
a cabeça de uma escrava, porque me nega- pulado por movimentos literários específicos.
ra uma colher do doce de coco que estava
d) Defende a ideia de que cada movimento lite-
fazendo, e, não contente com o malefício,
rário deve ter um programa estético rígido e
deitei um punhado de cinza ao tacho, e, não
inviolável.
satisfeito da travessura, fui dizer à minha
mãe que a escrava é que estragara o doce e) Entende que Naturalismo e o Parnasianismo
“por pirraça”; e eu tinha apenas seis anos. constituem soluções ideal para pôr termo à
Prudêncio, um moleque de casa, era o meu falta de invenção dos românticos.
cavalo de todos os dias; punha as mãos no

E.O. TESTE II
chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa
de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma
varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas
a um e outro lado, e ele obedecia, – algumas TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
vezes gemendo – mas obedecia sem dizer
Ultimamente ando de novo intrigado com o
palavra, ou, quando muito, um – “ai, nho-
nhô!” – ao que eu retorquia: “Cala a boca, enigma de Capitu. Teria ela traído mesmo o
besta!” – Esconder os chapéus das visitas, marido, ou tudo não passou de imaginação
deitar rabos de papel a pessoas graves, pu- dele, como narrador? Reli mais uma vez o
xar pelo rabicho das cabeleiras, dar beliscões romance e não cheguei a nenhuma conclu-
nos braços das matronas, e outras muitas fa- são. Um mistério que o autor deixou para a
çanhas deste jaez, eram mostras de um gê- posteridade.
(Fernando Sabino, O bom ladrão.)
nio indócil, mas devo crer que eram também
expressões de um espírito robusto, porque
meu pai tinha-me em grande admiração; e 1. (Unifesp) “Tinha-me lembrado a definição
se às vezes me repreendia, à vista de gente, que José Dias dera deles, “olhos de cigana
fazia-o por simples formalidade: em particu- oblíqua e dissimulada”. Eu não sabia o que
lar dava-me beijos. era oblíqua, mas dissimulada sabia, e que-
Não se conclua daqui que eu levasse todo o ria ver se se podiam chamar assim. Capitu
resto da minha vida a quebrar a cabeça dos deixou-se fitar e examinar. Só me pergunta-
outros nem a esconder-lhes os chapéus; mas va o que era, se nunca os vira; eu nada achei
opiniático, egoísta e algo contemptor dos extraordinário; a cor e a doçura eram minhas
homens, isso fui; se não passei o tempo a conhecidas. A demora da contemplação creio
esconder-lhes os chapéus, alguma vez lhes que lhe deu outra ideia do meu intento;
puxei pelo rabicho das cabeleiras. imaginou que era um pretexto para mirá-los
(Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas.)
mais de perto, com os meus olhos longos,
constantes, enfiados neles, e a isto atribuo
9. (Unifesp 2011) É correto afirmar que:
a) se trata basicamente de um texto naturalis- que entrassem a ficar crescidos, crescidos e
ta, fundado no Determinismo. sombrios, com tal expressão que...
b) o texto revela um juízo crítico do contexto Retórica dos namorados, dá-me uma compa-
escravista da época. ração exata e poética para dizer o que foram
c) o narrador se apresenta bastante sisudo e aqueles olhos de Capitu. Não me acode ima-
amargo, bem ao gosto machadiano. gem capaz de dizer, sem quebra da dignida-
d) o texto apresenta papéis sociais ambíguos de do estilo, o que eles foram e me fizeram.
das personagens em foco. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me
e) os comportamentos desumanos do narrador dá ideia daquela feição nova. Traziam não
são sutilmente desnudados. sei que fluido misterioso e enérgico, uma
157
força que arrastava para dentro, como a vaga Entende-se, então, que ele:
que se retira da praia, nos dias de ressaca.” a) começava a nutrir sentimento de repulsa em
(Machado de Assis, “Dom Casmurro”.) relação a ela, como está sugerido em [seus
olhos] “entrassem a ficar crescidos, cresci-
No texto de Sabino, o narrador questiona a dos e sombrios, com tal expressão que...”
traição de Capitu. Lendo o texto de Machado, b) se sentia fortemente atraído por ela, como
pode-se entender que esse questionamento comprova o trecho: “Traziam não sei que
decorre de: fluido misterioso e enérgico, uma força que
a) os fatos serem narrados pela visão de uma arrastava para dentro...”
personagem, no caso, o narrador em primei- c) passou a desconfiar da sinceridade dela,
ra pessoa, que fornece ao leitor o perfil psi- como está exposto em: “mas dissimulada
cológico de Capitu. sabia, e queria ver se se podiam chamar as-
b) a personagem ser vista por José Dias como sim.”
“oblíqua e dissimulada”, o que gerou mal- d) começava a vê-la como uma mulher comum,
-estar no apaixonado de Capitu, deixando de sem atrativos especiais, como demonstra o
vê-la como uma mulher de encantos. trecho: “eu nada achei extraordinário...”
c) a apresentação da personagem Capitu ser e) deixava de vê-la como uma mulher enig-
feita no romance de maneira muito objetiva, mática, como está sugerido em: “Olhos de
sem expressão dos sentimentos que a vincu- ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia
lavam ao homem que a amava. daquela feição nova.”
d) os aspectos psicológicos de Capitu serem
apresentados apenas pelos comentários de 3. (Unifesp) Ao afirmar que Capitu tinha olhos
José Dias, o que lhe torna a caracterização de “cigana oblíqua”, José Dias a vê como
muito subjetiva. uma mulher:
e) o amado de Capitu não conseguir enxergar a) irresistível.
nela características mais precisas e menos b) inconveniente.
misteriosas, o que o faz descrevê-la de forma c) compreensiva.
bastante idealizada. d) evasiva.
e) irônica.
TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES

Tinha-me lembrado a definição que José Dias TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES
dera deles, “olhos de cigana oblíqua e dissi- Antes de concluir este capítulo, fui à jane-
mulada”. Eu não sabia o que era oblíqua, mas la indagar da noite por que razão os sonhos
dissimulada sabia, e queria ver se se podiam hão de ser assim tão tênues que se esgarçam
chamar assim. Capitu deixou-se fitar e exa- ao menor abrir de olhos ou voltar de corpo,
minar. Só me perguntava o que era, se nunca e não continuam mais. A noite não me res-
os vira; eu nada achei extraordinário; a cor e pondeu logo. Estava deliciosamente bela, os
a doçura eram minhas conhecidas. A demo- morros palejavam de luar e o espaço morria
ra da contemplação creio que lhe deu outra de silêncio. Como eu insistisse, declarou-
ideia do meu intento; imaginou que era um -me que os sonhos já não pertencem à sua
pretexto para mirá-los mais de perto, com jurisdição. Quando eles moravam na ilha
os meus olhos longos, constantes, enfiados que Luciano lhes deu, onde ela tinha o seu
neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar palácio, e donde os fazia sair com as suas
crescidos, crescidos e sombrios, com tal ex- caras de vária feição, dar-me-ia explicações
pressão que... possíveis. Mas os tempos mudaram tudo. Os
Retórica dos namorados, dá-me uma compa- sonhos antigos foram aposentados, e os mo-
ração exata e poética para dizer o que foram dernos moram no cérebro da pessoa. Estes,
aqueles olhos de Capitu. Não me acode ima- ainda que quisessem imitar os outros, não
gem capaz de dizer, sem quebra da dignida- poderiam fazê-lo; a ilha dos Sonhos, como
de do estilo, o que eles foram e me fizeram. a dos Amores, como todas as ilhas de todos
Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me os mares, são agora objeto da ambição e da
dá ideia daquela feição nova. Traziam não rivalidade da Europa e dos Estados Unidos.
sei que fluido misterioso e enérgico, uma Machado de Assis - D. Casmurro
força que arrastava para dentro, como a vaga palejavam: tornavam pálidos
que se retira da praia, nos dias de ressaca.
(Machado de Assis, Dom Casmurro.) 4. (Mackenzie) Assinale a alternativa correta
sobre “D. Casmurro.”
2. (Unifesp) Para o narrador, os olhos de Capi- a) A linguagem concisa e objetiva do autor são
tu eram “olhos de ressaca, como a vaga que recursos usados a fim de não prejudicar o
se retira da praia, nos dias de ressaca”. desenvolvimento linear da narrativa.
158
b) O aproveitamento da mitologia segue o prin- II. “Helena” e “Iaiá Garcia” encaixam-se na
cípio da mimese (“imitação”) de tradição primeira fase dos romances machadia-
clássico-renascentista. nos, apresentando ainda alguns aspectos
c) A idealização da natureza é prova da influ- ligados ao Romantismo.
ência que o Romantismo exerceu sobre o es- III.Há exemplos do pessimismo e da ironia
tilo machadiano. de Machado de Assis tanto em seus ro-
d) A crítica ao determinismo cientificista é ín- mances como em seus contos.
dice do estilo naturalista de Machado de As- Assinale:
sis. a) se todas estiverem corretas.
e) A digressão permite ao narrador interromper b) se apenas II e III estiverem corretas.
o fluxo narrativo para tecer comentários crí- c) se apenas II estiver correta.
ticos em tom irônico. d) se apenas III estiver correta.
e) se todas estiverem incorretas.
5. (Mackenzie) Assinale a alternativa que
apresenta fragmento da epopeia camoniana, 8. (Mackenzie) Imagine a leitora que está em
extraído do episódio “A ilha dos amores”, a 1813, na igreja do Carmo, ouvindo uma da-
que o texto faz referência. quelas boas festas antigas, que eram todo o
a) Volve a nós teu rosto sério, / Princesa do recreio público e toda a arte musical. Sabem
Santo Gral, / Humano ventre do Império, / o que é uma missa cantada; podem imaginar
Madrinha de Portugal. o que seria uma missa cantada daqueles tem-
b) Ali, em cadeiras ricas, cristalinas, / Se as- pos remotos. Não lhe chamo a atenção para
sentam dous e dous, amante e dama; / Nou- os padres e os sacristãos, nem para o sermão,
tras, à cabeceira, de ouro finas, / Está co’a nem para os olhos das moças cariocas, que
bela deusa o claro Gama. já eram bonitos nesse tempo, nem para as
c) Se encontrares louvada uma beleza,/ Ma- mantilhas das senhoras graves, os calções,
rília, não lhe invejes a ventura,/ que tens as cabeleiras, as sanefas, as luzes, os incen-
quem leve à mais remota idade/ a tua for- sos, nada. Não falo sequer da orquestra, que
mosura. é excelente; limito-me a mostrar-lhes uma
d) Este lugar delicioso, e triste, / Cansada de cabeça branca, a cabeça desse velho que rege
viver, tinha escolhido / Para morrer a mísera a orquestra, com alma e devoção.”
Lindóia. O trecho anterior, que inicia CATINGA DE ES-
e) Choraram da Bahia as ninfas belas, / Que PONSAIS, extraordinário conto de Machado
nadando a Moema acompanhavam; / E ven- de Assis, apresenta uma das características
do que sem dor navegam delas, / À branca de sua prosa.
praia com furor tornavam. Trata-se:
a) do pessimismo.
6. (Mackenzie) Sobre Machado de Assis, é IN- b) do humor.
CORRETO afirmar que: c) da denúncia da hipocrisia e do egoísmo.
a) seus primeiros romances como RESSURREI- d) da análise psicológica do personagem.
ÇÃO e lAIÁ GARCIA apresentam traços ainda e) do leitor incluso.
ligados ao Romantismo.
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
b) sua poesia apresenta, muitas vezes, carac-
terísticas próprias do Parnasianismo como a Algum tempo hesitei se devia abrir estas
busca da perfeição formal e um vocabulário memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é,
elevado. se poria em primeiro lugar o meu nascimen-
c) nos contos, não se percebem elementos que to ou a minha morte. Suposto o uso vulgar
o consagraram nos romances, como o pessi- seja começar pelo nascimento, duas conside-
mismo, negativismo e leitor incluso. rações me levaram a adotar diferente méto-
d) os romances de sua segunda fase tornam- do: a primeira é que eu não sou propriamen-
-se totalmente realistas, evidenciando as ca- te um autor defunto, mas um defunto autor,
racterísticas que o diferenciam na literatura para quem a campa foi outro berço; a segun-
brasileira. da é que o escrito ficaria assim mais galan-
e) em sua extensa obra, ainda se podem encon- te e mais novo. Moisés, que também contou
trar peças de teatro, crônicas e ensaios a sua morte, não a pôs no introito, mas no
cabo: diferença radical entre este livro e o
7. (Mackenzie) Leia as afirmações a seguir: Pentateuco.
I. DOM CASMURRO, MEMÓRIAS PÓSTUMAS Dito isto, expirei às duas horas da tarde de
DE BRÁS CUBAS e QUINCAS BORBA são uma sexta-feira do mês de agosto de 1869,
romances narrados em primeira pessoa. na minha bela chácara de Catumbi. Tinha
uns sessenta e quatro anos, rijos e prósperos,
159
era solteiro, possuía cerca de trezentos con- I. Depois de haver comparado seu estilo ao
tos e fui acompanhado ao cemitério por onze andar dos ébrios, o narrador resolve com-
amigos. pará-lo também ao “luncheon”, peniten-
Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas. ciando-se, assim, dos vícios que praticara
em vida – entre eles, o do alcoolismo.
II. Nas comparações com o “luncheon”, pre-
9. (FGV-RJ) Ao configurar as Memórias póstu-
sentes no excerto, o narrador revela ser o
mas de Brás Cubas como narrativa em pri-
capricho (ou arbítrio) o móvel dominante
meira pessoa, conforme se verifica no tre- tanto de seu estilo quanto das ações que
cho, Machado de Assis: relata.
a) deu um passo decisivo em direção ao Realis- III.Na autocrítica do narrador, realizada com
mo, adotando os procedimentos mais típicos ingenuidade no excerto, oculta-se a críti-
dessa escola. ca do realista Machado de Assis ao Natu-
b) visa a criticar o subjetivismo romântico e os ralismo dominante em sua época.
excessos sentimentalistas em que este in- Está correto o que se afirma em:
correra. a) I, apenas.
c) deu a palavra ao proprietário escravista e b) II, apenas.
rentista brasileiro do Oitocentos, para que c) I e II, apenas.
ele próprio exibisse sua desfaçatez. d) II e III, apenas.
d) parodia as Memórias de um sargento de mi- e) I, II e III.
lícias, retomando o registro narrativo que as

E.O. TESTE III


caracterizava.
e) confere confiabilidade aos juízos do narra-
dor, uma vez que este conhece os aconteci-
mentos de que participou. 1. Sobre “Dom Casmurro”, de Machado de As-
sis, leia as afirmações a seguir e depois assi-
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO nale a alternativa CORRETA:
CAPÍTULO 73 - O Luncheon* I. A obra mais conhecida de Machado de As-
sis tem como temática o adultério femi-
O despropósito fez-me perder outro capítulo. nino, a exemplo de outras narrativas suas
Que melhor não era dizer as coisas lisamen- contemporâneas.
te, sem todos estes solavancos! Já comparei II. O ciúme foi a causa da separação de Ben-
o meu estilo ao andar dos ébrios. Se a ideia tinho e Capitu, pois o fato de que Eze-
vos parece indecorosa, direi que ele é o que quiel é filho de Bentinho fica comprovado
eram as minhas refeições com Virgília, na na narrativa.
casinha da Gamboa, onde às vezes fazíamos III. Ao criticar a sociedade de seu tempo, Ma-
a nossa patuscada, o nosso luncheon. Vinho, chado de Assis desnuda as relações inter-
frutas, compotas. Comíamos, é verdade, mas pessoais, sempre egoístas, como acontece
com Bentinho e Capitu.
era um comer virgulado de palavrinhas do-
IV. Capitu, a mulher dissimulada, de olhos de
ces, de olhares ternos, de criancices, uma
cigana oblíqua, não consegue dissimular
infinidade desses apartes do coração, aliás o
sua dor, por ocasião da morte de Escobar.
verdadeiro, o ininterrupto discurso do amor. V. Dom Casmurro é o marco inicial do Rea-
Às vezes vinha o arrufo temperar o nímio lismo brasileiro, de que Machado de Assis
adocicado da situação. Ela deixava-me, refu- é o maior representante.
giava-se num canto do canapé, ou ia para o a) As afirmações I, III e IV estão corretas.
interior ouvir as denguices de Dona Plácida. b) As afirmações II, III e V estão corretas.
Cinco ou dez minutos depois, reatávamos c) Somente a afirmação I está correta.
a palestra, como eu reato a narração, para d) Somente a afirmação V está errada.
desatá-la outra vez. Note-se que, longe de e) Nenhuma das afirmações acima está errada.
termos horror ao método, era nosso costu-
me convidá-lo, na pessoa de Dona Plácida, a 2. A ficção realista de Machado de Assis, no sé-
sentar-se conosco à mesa; mas Dona Plácida culo XIX,
não aceitava nunca. a) inaugura a literatura regionalista de proble-
Machado de Assis, Memórias póstumas de mática existencial.
Brás Cubas. b) continua uma literatura de caráter cientifi-
(*) Luncheon (Ing.): lanche, refeição ligeira, merenda. cista iniciada no Naturalismo.
c) cria uma literatura que retrata os conflitos
das camadas populares.
10. (FGV-RJ) Considere as seguintes afirmações d) incorpora a temática da oposição entre meio
sobre o excerto das Memórias póstumas de urbano e meio rural.
Brás Cubas, obra fundamental da literatura e) antecipa o romance moderno de linha in-
brasileira: trospectiva.
160
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO c) “Capitu estava melhor e até boa. Confessou-
-me que apenas tivera uma dor de cabeça
Joaquim Maria Machado de Assis é cronista, de nada, mas agravara o padecimento para
contista, dramaturgo, jornalista, poeta, no- que eu fosse divertir-me. Não falava alegre,
velista, romancista, crítico e ensaísta. o que me fez desconfiar que mentia (...)”
Em 2008, comemora-se o centenário de sua d) “Eu levantei-me depressa e não achei com-
morte, ocorrida em setembro de 1908. Ma- postura: meti os olhos pelas cadeiras. Ao
chado de Assis é considerado o mais canô- contrário, Capitu ergueu-se naturalmente
nico escritor da Literatura Brasileira e dei- e perguntou-lhe se a febre aumentara (...)
xou uma rica produção literária composta de Como era possível que Capitu se governasse
textos dos mais variados gêneros, em que se tão facilmente e eu não?”
destacam o conto e o romance. e) “Ouvimos passos no corredor; era D.Fortunata.
Segue o texto desse autor, em poesia. Capitu compôs-se depressa, tão depressa que,
quando a mãe apontou à porta, ela abanava a
A Carolina
cabeça e ria. Nenhum laivo amarelo, nenhu-
Querida, ao pé do leito derradeiro ma contração de acanhamento (...)”
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida, 5. (Ufrrj) O tema do ciúme foi abordado por Ma-
Trazer-te o coração do companheiro. chado de Assis em “Dom Casmurro:”
Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
“CAPÍTULO CXXXV
Que, a despeito de toda a humana lida,
OTELO
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs um mundo inteiro. Jantei fora. De noite fui ao teatro. Repre-
sentava-se justamente Otelo, que eu não vira
Trago-te flores, - restos arrancados nem lera nunca; sabia apenas o assunto, e
Da terra que nos viu passar unidos, estimei a coincidência. (...) O último ato
São pensamentos idos e vividos.
mostrou-me que não eu, mas Capitu deve-
Que eu, se tenho nos olhos mal feridos ria morrer. Ouvi as súplicas de Desdêmona,
Pensamentos de vida formulados, as suas palavras amorosas e puras, e a fúria
São pensamentos idos e vividos. do morro, e a morte que este lhe deu entre
(Machado de Assis) aplausos frenéticos do público.
- E era inocente, vinha eu dizendo rua abai-
3. (Ibmecrj) Quanto à sua forma, podemos xo; - que faria o público, se ela deveras fosse
afirmar que o texto: culpada, tão culpada como Capitu?” (...)
(ASSIS, Machado de. “Obra completa”. Rio, Aguilar, 1982.)
a) Apresenta versos regularmente rimados e
metrificados, bem ao gosto da tradição esté- No fragmento acima, observa-se uma carac-
tica clássica. terística recorrente nos romances machadia-
b) Apresenta versos livres e sem rimas, confor- nos, que é a:
me a tendência moderna da poesia. a) crítica aos excessos sentimentais do perso-
c) É um soneto, forma poética desprestigiada nagem.
pela tradição clássica. b) ausência de monólogos interiores.
d) Apresenta estrofação regular, típica de ron- c) preocupação com questões político-sociais.
dós. d) abordagem de tema circunscrito à época re-
e) Não contém preocupações formais. alista.
e) análise do comportamento humano.
4. Todas as passagens de D.Casmurro, de Ma-
chado de Assis, são exemplos da dissimula-
ção de Capitu, na visão de Bentinho, EXCETO:
a) “A confusão era geral. No meio dela, Capitu
E.O. DISSERTATIVO
olhou alguns instantes para o cadáver tão
1. (Fuvest) Responda ao que se pede.
fixa, tão apaixonadamente fixa, que não ad-
a) Qual é a relação entre o “sistema de filo-
mira-lhe saltassem algumas lágrimas poucas
e caladas...” sofia” do “Humanitismo”, tal como figurado
b) “ - E você, Capitu, interrompeu minha mãe vol- nas Memórias póstumas de Brás Cubas, de
tando-se para a filha do Pádua que estava na Machado de Assis, e as correntes de pensa-
sala, com ela, - você não acha que o nosso Ben- mento filosófico e científico presentes no
tinho dará um bom padre?” “ - Acho que sim, contexto histórico-cultural em que essa obra
senhora, respondeu Capitu cheia de convicção.” foi escrita? Explique resumidamente.
161
2. (PUC-RJ) Leia. explorada, ou quase inexplorada. Simão Baca-
As crônicas da vila de Itaguaí dizem que em marte compreendeu que a ciência lusitana, e
tempos remotos vivera ali um certo médico, particularmente a brasileira, podia cobrir-se
o Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da de “louros imarcescíveis”, – expressão usada
terra e o maior dos médicos do Brasil, de Por- por ele mesmo, mas em um arroubo de inti-
tugal e das Espanhas. Estudara em Coimbra midade doméstica; exteriormente era modes-
e Pádua. Aos trinta e quatro anos regressou to, segundo convém aos sabedores.
ao Brasil, não podendo el-rei alcançar dele – A saúde da alma, bradou ele, é a ocupação
que ficasse em Coimbra, regendo a universi- mais digna do médico.
dade, ou em Lisboa, expedindo os negócios ASSIS, Machado de. O alienista. São
da monarquia. Paulo: Ática, 1982, pp. 9-10.
– A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o
a) A compreensão do jogo entre o narrador, as
meu emprego único; Itaguaí é o meu uni-
personagens e o leitor é um dos procedimen-
verso.
tos críticos necessários à análise da obra li-
Dito isto, meteu-se em Itaguaí, e entregou-
terária. Comente, utilizando as suas próprias
-se de corpo e alma ao estudo da ciência,
alternando as curas com as leituras, e de- palavras, a problemática do foco narrativo
monstrando os teoremas com cataplasmas. no conto “O alienista” tendo como referên-
Aos quarenta anos casou com D. Evarista da cia o início do texto.
Costa e Mascarenhas, senhora de vinte e cin- b) Dois dos mais significativos aspectos da obra
co anos, viúva de um juiz de fora, e não bo- do autor de “Dom Casmurro” estão relacio-
nita nem simpática. Um dos tios dele, caça- nados ao seu ceticismo e à crítica corrosiva
dor de pacas perante o Eterno, e não menos e sarcástica da sociedade brasileira do seu
franco, admirou-se de semelhante escolha tempo. Publicado entre outubro de 1881 e
e disse-lho. Simão Bacamarte explicou-lhe março de 1882, O alienista narra a trajetó-
que D. Evarista reunia condições fisiológi- ria de Simão Bacamarte, médico voltado para
cas e anatômicas de primeira ordem, digeria a pesquisa, entendimento e cura dos males
com facilidade, dormia regularmente, tinha do espírito. Tomando por base o fragmento
bom pulso, e excelente vista; estava assim selecionado, comente criticamente a visão
apta para dar-lhe filhos robustos, sãos e in- de Machado de Assis sobre os postulados do
teligentes. Se além dessas prendas, – úni- pensamento positivista e da ideologia do pro-
cas dignas da preocupação de um sábio, – D. gresso tão valorizados no fim do século XIX.
Evarista era mal composta de feições, longe
de lastimá-lo, agradecia-o a Deus, porquanto
não corria o risco de preterir os interesses 3. (Fuvest) No excerto abaixo, narra-se parte
da ciência na contemplação exclusiva, miúda do encontro de Brás Cubas com Quincas Bor-
e vulgar da consorte. ba, quando este, reduzido à miséria, mendi-
D. Evarista mentiu às esperanças do Dr. Ba- gava nas ruas do Rio de Janeiro:
camarte, não lhe deu filhos robustos nem Tirei a carteira, escolhi uma nota de cinco
mofinos. A índole natural da ciência é a lon- mil-réis, – a menos limpa, – e dei-lha [a
ganimidade; o nosso médico esperou três Quincas Borba]. Ele recebeu-ma com os olhos
anos, depois quatro, depois cinco. Ao cabo cintilantes de cobiça. Levantou a nota ao ar,
desse tempo fez um estudo profundo da ma- e agitou-a entusiasmado.
téria, releu todos os escritores árabes e ou- — In hoc signo vinces!* bradou.
tros, que trouxera para Itaguaí, enviou con- E depois beijou-a, com muitos ademanes de
sultas às universidades italianas e alemãs, e ternura, e tão ruidosa expansão, que me pro-
acabou por aconselhar à mulher um regímen duziu um sentimento misto de nojo e lásti-
alimentício especial. A ilustre dama, nutrida ma. Ele, que era arguto, entendeu-me; ficou
exclusivamente com a bela carne de porco sério, grotescamente sério, e pediu-me des-
de Itaguaí, não atendeu às admoestações do culpa da alegria, dizendo que era alegria de
esposo; e à sua resistência, – explicável mas pobre que não via, desde muitos anos, uma
inqualificável, – devemos a total extinção da nota de cinco mil-réis.
dinastia dos Bacamartes. — Pois está em suas mãos ver outras muitas,
Mas a ciência tem o inefável dom de curar disse eu.
todas as mágoas; o nosso médico mergulhou — Sim? acudiu ele, dando um bote para mim.
inteiramente no estudo e na prática da medi-
— Trabalhando, concluí eu.
cina. Foi então que um dos recantos desta lhe
* “In hoc signo vinces!”: citação em latim que
chamou especialmente a atenção, – o recan- significa “Com este sinal vencerás” (frase que
to psíquico, o exame de patologia cerebral. teria aparecido no céu, junto de uma cruz, ao
Não havia na colônia, e ainda no reino, uma imperador Constantino, antes de uma batalha).
só autoridade em semelhante matéria, mal Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas.

162
a) Tendo em vista a autobiografia de Brás 6. (UFMG) “Vim... Mas não; não alonguemos
Cubas e as considerações que, ao longo de este capítulo. Às vezes, esqueço-me a escre-
suas Memórias póstumas, ele tece a respei- ver, e a pena vai comendo papel, com gra-
to do tema do trabalho, comente o conselho ve prejuízo meu, que sou autor. Capítulos
que, no excerto, ele dá a Quincas Borba: “— compridos quadram melhor a leitores pesa-
Trabalhando, concluí eu”. dões; e nós não somos um público infólio,
b) Tendo, agora, como referência, a história de mas in-12, pouco texto, larga margem, tipo
D. Plácida, contada no livro, discuta sucinta- elegante, corte dourado e vinhetas... princi-
mente o mencionado conselho de Brás Cubas. palmente vinhetas... Não, não alonguemos o
capítulo.”
4. (UFU) “NÃO HOUVE LEPRA REDIJA um pequeno texto justificando a ma-
Não houve lepra, mas há febres por todas es- neira como o narrador de MEMÓRIAS PÓSTU-
sas terras humanas, sejam velhas ou novas. MAS DE BRÁS CUBAS, de Machado de Assis,
Onze meses depois, Ezequiel morreu de uma considera o leitor.
febre tifoide, e foi enterrado nas imediações
de Jerusalém, onde os dois amigos da uni- TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO
versidade lhe levantaram um túmulo com
esta inscrição, tirada do profeta Ezequiel, A(s) questão(ões) deve(m) ser respondida(s)
em grego: ‘Tu eras perfeito nos teus cami- com base no fragmento textual a seguir, re-
nhos’. Mandaram-me ambos os textos, grego tirado do capítulo O debuxo e o colorido, do
e latino, o desenho da sepultura, a conta das romance Dom Casmurro, de Machado de As-
despesas e o resto do dinheiro que ele leva- sis.
va; pagaria o triplo para não tornar a vê-lo. Quando nem mãe nem filho estavam comi-
Como quisesse verificar o texto, consultei a go o meu desespero era grande, e eu jurava
minha Vulgata, e achei que era exato, mas matá-los a ambos, ora de golpe, ora deva-
tinha ainda um complemento: ‘Tu eras per- gar, para dividir pelo tempo da morte todos
feito nos teus caminhos, desde, o dia da tua os minutos da vida embaçada e agoniada.
criação’. Parei e perguntei calado: ‘Quando Quando, porém, tornava a casa e via no alto
seria o dia da criação de Ezequiel?’ Ninguém da escada a criaturinha que me queria e es-
me respondeu. Eis aí mais um mistério para perava, ficava 1desarmado e diferia o castigo
ajuntar aos tantos deste mundo. Apesar de de um dia para outro.
tudo, jantei bem e fui ao teatro.”
(Machado de Assis - Obra Completa. Organizada por
(Machado de Assis. “Dom Casmurro” - Cap. CXLVI) Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Aguilar, 1971.)

Este capítulo de “Dom Casmurro” permite


classificar a narrativa de Machado de Assis 7. (UFRN) A partir da fala do narrador-per-
como realista. Desenvolva essa ideia, com-
sonagem, reproduzida acima, caracterize o
provando-a com dois elementos do texto
relacionamento entre Bentinho (pai) e Eze-
quiel (filho) ao longo do romance. Justifique
5. (UFV) Observe como o narrador inicia o pri- sua resposta.
meiro capítulo de “Memórias Póstumas de
Brás Cubas”:
8. (UFSCar) A questão baseia-se no texto a se-
Algum tempo hesitei se devia abrir estas
guir, de Machado de Assis.
memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é,
Começo a arrepender-me deste livro. Não
se poria em primeiro lugar o meu nascimen-
que ele me canse; eu não tenho que fazer;
to ou a minha morte. Suposto o uso vulgar
e, realmente, expedir alguns magros capí-
seja começar pelo nascimento, duas conside-
tulos para esse mundo sempre é tarefa que
rações me levaram a adotar diferente mé-
distrai um pouco da eternidade. Mas o livro
todo: a primeira é que eu não sou propria-
é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa
mente um autor defunto, mas um defunto
contração cadavérica; vício grave, e aliás ín-
autor , para quem a campa foi outro berço;
fimo, porque o maior defeito deste livro és
a segunda é que escrito ficaria assim mais
tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o
galante e mais novo.
livro anda devagar; tu amas a narração direi-
(ASSIS, Machado de. “Obra completa.” In: COUTINHO,
Afrânio, org. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992. p. 513. v. I) ta e nutrida, o estilo regular e fluente, e este
livro e o meu estilo são como os ébrios, gui-
Escreva, de forma concisa, sobre o narrador- nam à direita e à esquerda, andam e param,
-personagem, Brás Cubas, apontando ele- resmungam, urram, gargalham, ameaçam o
mentos que justifiquem a postura revolucio- céu, escorregam e caem...
nária de Machado de Assis, como iniciador O trecho apresentado faz parte de “Memó-
do movimento literário realista. rias póstumas de Brás Cubas”, obra que tem
163
como narrador o falecido Brás Cubas. Daí
poder-se entender que escrever distrai um
E.O. Dissertativo
1.
pouco da eternidade. a) O Humanitismo, sistema filosófico tão
a) O narrador tem toda a eternidade para es- perfeito que nasceu para arruinar todo
crever. O leitor, porém, tem um tempo di- arcabouço teórico da época, é uma crí-
ferente. Essa oposição estabelece que tipo tica velada, sobretudo ao Positivismo de
de relação entre a obra e o leitor, segundo Comte, que resumia o mundo aos fenôme-
o narrador? nos observáveis. Segundo Quincas Borba,
b) O narrador compara seu estilo aos ébrios (bê- a sobrevivência dos mais aptos, ditada
pela máxima a vida é luta, era a força
bados), usando orações coordenadas e cur-
propulsora para as guerras e para a fome,
tas. O que essas orações sugerem? sempre convenientes aos mais fortes e
prejudicial aos mais fracos, uma crítica
9. (Fuvest) No capítulo CXIX das Memórias também ao evolucionismo de Darwin.
póstumas de Brás Cubas, o narrador declara: 2.
“Quero deixar aqui, entre parêntesis, meia a) O foco narrativo do texto é de terceira
dúzia de máximas das muitas que escrevi pessoa, ou seja, o narrador onisciente
por esse tempo.” Nos itens a) e b) encon- tem conhecimento dos fatos, sentimentos,
opiniões e pensamentos das personagens.
tram-se reproduzidas duas dessas máximas.
Entretanto, no início do texto, o narrador,
Considerando-as no contexto da obra a que
ao citar “as crônicas da vila de Itaguaí”,
pertencem, responda ao que se pede. incluindo outros narradores no seu relato,
“Máxima”: fórmula breve que enuncia uma mistura história e ficção e configura a in-
observação de valor geral; provérbio. confiabilidade do foco narrativo.
a) “Matamos o tempo; o tempo nos enterra.” b) Nota-se no texto a maneira irônica com
Pode-se relacionar essa máxima à maneira que são descritos tanto a chegada do mé-
de viver do próprio Brás Cubas? Justifique dico à vila quanto os critérios utilizados
sucintamente. pelo Dr. Bacamarte na escolha da futura
esposa. No primeiro caso, configura-se a
b) “Suporta-se com paciência a cólica do próxi-
ideia de progresso através da atividade
mo.” A atitude diante do sofrimento alheio,
científica mencionada. Em relação ao po-
expressa nessa máxima, pode ser associada sitivismo, percebe-se que Dona Evarista
a algum aspecto da filosofia do “Humanitis- éeleita devido as suas “condições fisio-
mo”, formulada pela personagem Quincas lógicas e anatômicas”, distantes da ideia
Borba? Justifique sua resposta. previsível de uma escolha pelo amor e
pela beleza física.
3.
a) O conselho de Brás Cubas a Quincas Borba
GABARITO revela a hipocrisia do personagem-narra-
dor que, nascido em família abastada e
amparado pelos privilégios concedidos à
elite burguesa do Segundo Reinado, nun-
E.O. Teste I ca teve de trabalhar para garantir a sua
sobrevivência.
1. E 2. A 3. C 4. B 5. A b) Brás Cubas assume comportamentos dife-
6. B 7. B 8. E 9. B 10. A rentes relativamente a Quincas Borba e a
D. Plácida. Enquanto que ao primeiro, num
gesto vaidoso e paternalista, dava uma
pequena esmola e aconselhava a trabalhar
para conseguir mais dinheiro, à segunda,
E.O. Teste II movido pelo interesse em manter uma
1. A 2. B 3. D 4. E 5. B aliada para os seus encontros clandestinos
com Virgília, oferecia quantias generosas
6. C 7. B 8. E 9. C 10. B sem nenhum sentimento de culpa.
4. Machado de Assis apresenta a morte de seu
filho, Ezequiel, de forma objetiva, sem emo-
ções.
E.O. Teste III É com crueldade que se refere às despesas do
enterro de Ezequiel, afirmando que “pagaria
1. A 2. E 3. A 4. B 5. E o triplo para não tornar a vê-lo”.
164
5. Embora a enunciação de Brás Cubas paire no
absurdo, pois um morto não fala, e sobretudo
não escreve, o personagem identifica-se na
obra como um “defunto-autor”. Talvez Ma-
chado, inovando sua técnica, entendesse que
seu narrador merecia uma exceção, dado que
ao figurar-se como morto, dava-lhe uma van-
tagem: mostrar-se multifacetado. Enquanto
morto caracterizava-se como ser inteligente;
e morto, um “debochado”, “palhaço”.
6.
O narrador machadiano expõe ao leitor os
problemas da criação literária e da técnica
narrativa, chamando-o a participar do pro-
cesso narrativo.
7.
Bentinho não sente uma afinidade com Eze-
quiel. Após a morte de Escobar, começa a ver
no filho Ezequiel a fisionomia, os gestos, a
personalidade do amigo.
É enorme a crueldade de Bentinho com o
filho ao tentar matá-lo, envenenando-o, ou
quando se refere às despesas de seu enterro,
afirmando que “pagaria o triplo para não o
ver mais” .
8.
a) A obra é atemporal; e o leitor está sujeito
a um tempo limitado: o da leitura.
b) As orações são “ilustrações” do andar de
um ébrio.
9.

a) Sim, a vida ociosa de Brás Cubas, a dis-


plicência com que encarou cada etapa da
sua carreira profissional e a superficiali-
dade das relações afetivas com as pessoas
de quem se aproximou revelam um per-
curso existencial sem valor ou qualidade.
O balanço final da sua vida, exposto no
capítulo “Das negativas”, apresenta um
narrador que analisa o gênero humano
com ceticismo e desprezo, confirmando
melancolicamente a máxima “Matamos o
tempo; o tempo nos enterra.”
b) O “Humanitismo” do filósofo Quincas
Borba defende a supremacia “do império
da lei do mais forte, do mais rico e do
mais esperto”. Surge pela primeira vez,
na prosa machadiana, para desnudar iro-
nicamente as teorias do Positivismo de
Auguste Comte, do Cientificismo do sé-
culo XIX e do caráter desumano e anti-
ético da teoria de Charles Darwin acerca
da seleção natural da “lei do mais forte”
se associada às ciências sociais. A frase
“Suporta-se com paciência a cólica do
próximo” é condizente com a filosofia
do Humanitismo, já que privilegia tudo
o que seja em beneficio próprio e apregoa
a total indiferença ao sofrimento dos ou-
tros.
165
Aulas 29 e 30

Naturalismo no Brasil
NATURALISMO NO BRASIL

Não é de hoje que a cidade do Rio de Janeiro é dividida entre ricos e pobres, morro e asfalto. Basta ler o romance
O cortiço (1890), obra-prima de Aluísio Azevedo (1857-1913), para perceber que os contrastes sociais já faziam
parte do dia a dia dos cariocas desde o século XIX. Ambientada nas vésperas da Abolição e da Proclamação da
República, a história revela um efervescente ambiente urbano, construído à luz da observação do cotidiano e sob a
influência da literatura francesa – notadamente do romance L’assommoir (A taberna), 1877, do francês Émile Zola
(1840-1902), inspirador do naturalismo francês do qual Azevedo é seguidor.

Contexto
Na tentativa de acabar com os cortiços no Rio de Janeiro, muitos pobres foram literalmente empurrados para longe
da cidade e para os morros, onde se formaram as favelas. O fim da escravidão e o início do período republicado
no Brasil foram marcados por
conflitos e revoltas populares
também no Rio de Janeiro. Em
1904, estourou um movimen-
to de caráter popular desenca-
deado contra a campanha de
vacinação obrigatória contra a
varíola, imposta pelo governo
federal.

167
Revolta popular

A revolta engrossava a cada dia, impulsionada pela crise econômica – desemprego, inflação e custo de vida alto. A
reforma urbana retirou a população pobre do centro da cidade, derrubando cortiços e habitações simples.
Espalhados pelas ruas, populares destruíam bondes e apedrejavam prédios públicos. Em 16 de novembro de
1904, o presidente Rodrigues Alves revogou a lei da vacinação obrigatória e mandou que o exército, a marinha e a
polícia acabassem com os tumultos.

Burguesia versus proletariado

A segunda metade do século XIX foi caracterizado pela consolidação do poder da burguesia, do materialismo e
do crescimento do proletariado. De um lado, o progresso, representado pelo crescimento das cidades; de outro, o
crescimento dos bairros pobres onde residiam os operários. Enquanto a burguesia lutava pelo dinheiro e pelo poder,
o operário manifestava sua insatisfação e promovia as primeiras greves. Nessa conjuntura nasceram e desenvolve-
ram-se as ciências sociais, preconizando o desenvolvimento científico, que levaram à substituição o idealismo e o
tradicionalismo pelo materialismo e racionalismo. O método científico passou a ser o meio de análise e compreen-
são da realidade. Teorias desse naipe deram fundamentos ideológicos à literatura realista-naturalista, quais sejam:
teoria determinista, de Hippolyte Taini (1825-1893), encarava o comportamento humano como determinado pela
hereditariedade, pelo meio e pelo momento; e a teoria evolucionista, de Charles Darwin (1809-1882) defendia a
tese de que o homem descende dos animais.
As características do naturalismo literário são ligadas à realidade da época cujo tom deixa de ser tão poético
e subjetivo, como nas escolas precedentes.
Os romances naturalistas revelam:

ƒ veracidade – as narrativas buscam seus correspondentes na realidade;


ƒ contemporaneidade – essa realidade retratava com fidelidade as personagens reais, vivas, não idealizadas;
ƒ detalhismo – a caracterização das personagens e ambientes é minuciosa; o amor é materializado; e a
mulher passa a ser vista como objeto de prazer masculino;
ƒ denúncia das injustiças sociais – levada pela função social da arte, a literatura denuncia o preconceito,
sia e a ambição humanos;
168
ƒ determinismo e causalidade – busca da explicação lógica para o comportamento das personagens;
consideração da soma de fatores que justificam suas atitudes; visão de mundo determinista e mecanicista;
homem próximo ao animal (zoomorfismo);
ƒ linguagem popular e coloquial – emprego de termos e sentidos comuns ao das personagens cotidiana;
linguagem é simples, natural e clara;
ƒ cientificismo – caracterização e análise objetivas das personagens, consideradas casos a serem analisados;
ƒ personagens patológicas – mórbidas, adúlteras, assassinos, bêbadas, miseráveis, doentes, prostitutas
procuram comprovar a tese determinista sobre o ser humano.

Diferenças entre Realismo e Naturalismo

Realismo Naturalismo
ƒ Visão determinista
ƒ Mergulho psicológico ƒ Cientificismo
ƒ Retrato fiel da personagem ƒ Zoomorfismo
ƒ Personagem esférica ƒ Classes dominadas (pobres e favelados)
ƒ Materialização do amor ƒ Emprego de termos técnicos
ƒ Veracidade ƒ Personagens patológicas e biológicas
ƒ Classes dominantes (burguesia urbana) ƒ Determinismo, evolucionismo, positivismo
ƒ Influência de Gustave Flaubert (França) ƒ Foco na terceira pessoa
ƒ Conclusões tiradas pelos leitor ƒ Romance de tese (experimental)
ƒ Influência de Émile Zola (França)

Aluísio Azevedo
Aluísio Azevedo (1857-1913) deixou São Luís, no Maranhão, onde nas-
ceu, aos dezenove anos e veio para o Rio de Janeiro. Lá morou com o
irmão, Artur Azevedo, e dedicou-se persistentemente ao desenho e à
pintura na Imperial Academia de Belas-Artes.
Aos vinte e um anos voltou a São Luís, onde passou a colaborar
na imprensa local. Em 1879, já havia lançado o romance romântico
Uma lágrima de mulher. Mas foi em 1881 que seu nome tornou-se
conhecido com a publicação do romance O mulato, cuja temática, bas-
tante criticada pela sociedade local, atacava o preconceito racial. Por
isso, Aluísio foi aconselhado a “pegar na enxada, em vez de ficar es-
crevendo”.
De volta para o Rio de janeiro, produziu folhetins românticos para jornais. Memórias de um condenado e Mis-
térios da Tijuca foram alguns deles ditados pelas necessidades de sobrevivência. Escreveu também obras mais bem
elaboradas à luz da estética realista-naturalista, como Casa de pensão e O cortiço, que consolidaram seu prestígio.
Em 1895 foi nomeado vice-cônsul em Vigo, na Espanha. Foi o início de uma atribulada carreira diplomática,
que o levaria a Locoama, no Japão, a La Plata, na Argentina, a Salto Oriental, no Uruguai, a Cardiff; na Inglaterra,
a Nápoles, na Itália e, finalmente, a Buenos Aires, na Argentina.

Fase romântica

Dentre os seus folhetins românticos destacam-se Uma lágrima de mulher; Memórias de um condenado ou A Con-
dessa Vésper; Filomena Borges; A mortalha de Azira; Mistério da Tijuca ou Girândola de amores.
169
Fase naturalista

Romances: O mulato; Casa de pensão; O homem; O coruja; O cortiço; O livro de uma sogra e os contos Demônios;
Pegadas; O touro negro.
Considerado o mais importante dos naturalistas brasileiros, em sua obra não há excesso de exploração da
patologia humana, como ocorre, por exemplo, na obra do paradigma francês Émile Zola.
Aluísio prefere a observação direta da realidade da qual ressalta, sobretudo, a influência que o meio exerce sobre
o homem, segundo a teoria determinista de Hippolyte Taine.

O cortiço
Nesse seu melhor romance naturalista, focaliza o proletariado urba-
no do Rio de Janeiro que vive num ambiente coletivo: um cortiço. Os
personagens são criados sob uma visão de conjunto cujo meio influi
categoricamente, despersonalizando-os e a tudo dominando.
O espaço é o elemento de destaque na obra que está intimamente
ligado aos personagens. Como o romance possui muitos deles, a coletivida-
de torna-se um fator preponderante na obra, o que faz com que O Cortiço
seja considerado um romance da multidão. As personagens espelham o
nascimento do proletariado no Rio de Janeiro, em fins do século XIX.

O cortiço
João Romão é um ganancioso comerciante de origem portuguesa, dono de
um armazém, de uma pedreira e de um terreno de bom tamanho, no Rio de
Janeiro, onde constrói casinhas de baixo custo para alugar.
Bertoleza, uma ex-escrava negra, vive com o português e o ajuda no
armazém.
Aos poucos, o cortiço que vai se formando e passa a incomodar o vizinho
Miranda, dono de uma loja próxima. Chefe de uma família composta pela es-
posa Estrela e pela filha Zulmira, Miranda sempre reclama da situação sórdida
do lugar. João Romão, por sua vez, também não aprecia o vizinho e com ele
mantém constante rivalidade.
Quando Jerônimo, um operário português que trabalha na pedreira, muda-
-se com a esposa Piedade para lá, a situação começa a sofrer alterações. Je-
rônimo apaixona-se pela mulata Rita Baiana, comprometida com o capoeirista
Firmo, morador de outro cortiço.
Com a evolução dessa paixão, Firmo e Jerônimo acabam se enfrentando e o português leva uma navalhada
do capoeirista. Nesse ínterim, João Romão começa a se interessar por Zulmira, filha do comerciante Miranda –
sonha casar-se com ela e mudar de condição social. Jerônimo, que acaba se juntando a Rita Baiana, arma uma
cilada para Firmo e o assassina a pauladas.
Moradores do cortiço vizinho, o “Cabeça-de-Gato”, ateiam fogo ao cortiço de João Romão, para vingar a
morte do capoeirista. O incêndio, indiretamente, auxilia o português, que o reconstrói, fazendo um cortiço mais
novo e mais próspero.
Com o tempo, João Romão aproxima-se cada vez mais de Miranda. Só resta tirar a escrava Bertoleza do cami-
nho. Ameaçada de voltar ao cativeiro, a negra suicida-se. João Romão casa-se com Zulmira.

170
Trechos de O cortiço
Capítulo III

Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas
e janelas alinhadas.
Um acordar alegre e farto de quem dormiu de uma assentada, sete horas de chumbo. Como que se sentiam
ainda na indolência de neblina as derradeiras notas da última guitarra da noite antecedente, dissolvendo-se à luz
loura e tenra da aurora, que nem um suspiro de saudade perdido em terra alheia.
A roupa lavada, que ficara de véspera nos coradouros, umedecia o ar e punha-lhe um farto acre de sabão
ordinário. As pedras do chão, esbranquiçadas no lugar da lavagem e em alguns pontos azuladas pelo anil, mostra-
vam uma palidez grisalha e triste, feita de acumulações de espumas secas.
Entretanto, das portas surgiam cabeças congestionadas de sono; ouviam-se amplos bocejos, fortes como
o marulhar das ondas; pigarreava-se grosso por toda a parte; começavam as xícaras a tilintar; o cheiro quente do
café aquecia, suplantando todos os outros; trocavam-se de janela para janela as primeiras palavras, os bons-dias;
reatavam-se conversas interrompidas à noite; a pequenada cá fora traquinava já, e lá dentro das casas vinham
choros abafados de crianças que ainda não andam. No confuso rumor que se formava, destacavam-se risos, sons
de vozes que altercavam, sem se saber onde, grasnar de marrecos, cantar de galos, cacarejar de galinhas. De alguns
quartos saiam mulheres que vinham pendurar cá fora, na parede, a gaiola do papagaio, e os louros, à semelhança
dos donos, cumprimentavam-se ruidosamente, espanejando-se à luz nova do dia.
Daí a pouco, em volta das bicas era um zunzum crescente; uma aglomeração tumultuosa de machos e
fêmeas. Uns, após outros, lavavam a cara, incomodamente, debaixo do fio de água que escorria da altura de uns
cinco palmos. O chão inundava-se. As mulheres precisavam já prender as saias entre as coxas para não as molhar;
via-se-lhes a tostada nudez dos braços e do pescoço, que elas despiam, suspendendo o cabelo todo para o alto do
casco; os homens, esses não se preocupavam em não molhar o pelo, ao contrário metiam a cabeça bem debaixo
da água e esfregavam com força as ventas e as barbas, fossando e fungando contra as palmas da mão. As portas
das latrinas não descansavam, era um abrir e fechar de cada instante, um entrar e sair sem tréguas. Não se demo-
ravam lá dentro e vinham ainda amarrando as calças ou as saias; as crianças não se davam ao trabalho de lá ir,
despachavam-se ali mesmo, no capinzal dos fundos, por detrás da estalagem ou no recanto das hortas.
171
Roupa estendida. (Óleo sobre tela, 67 CM X 82 cm. 1944. Eliseu Visconti.)
[...]
A primeira que se pôs a lavar foi a Leandra, por alcunha a “Machona”, portuguesa feroz, berradora, pulsos
cabeludos e grossos, anca de animal do campo. Tinha duas filhas, uma casada e separada do marido, Ana das
Dores, a quem só chamavam a “das Dores” e outra donzela ainda, a Nenen, e mais um filho, o Agostinho, menino
levado dos diabos, que gritava tanto ou melhor que a mãe. A das Dores morava em sua casinha à parte, mas toda
a família habitava no cortiço.
Ninguém ali sabia ao certo se a Machona era viúva ou desquitada; os filhos não se pareciam uns com os
outros. A das Dores, sim, afirmavam que fora casada e que largara o marido para meter-se com um homem do
comércio; e que este, retirando-se para a terra e não querendo soltá-la ao desamparo, deixara o sócio em seu lugar.
Teria vinte e cinco anos.
Nenen dezessete. Espigada, franzina e forte, com uma proazinha de orgulho da sua virgindade, escapando
como enguia por entre os dedos dos rapazes que a queriam sem ser para casar. Engomava bem e sabia fazer roupa
branca de homem com muita perfeição.
Ao lado da Leandra foi colocar-se à sua tina a Augusta Carne-Mole, brasileira, branca, mulher de Alexandre,
um mulato de quarenta anos, soldado de polícia, pernóstico, de grande bigode preto, queixo sempre escanhoado e
um luxo de calças brancas engomadas e botões limpos na farda, quando estava de serviço. Também tinham filhos,
mas ainda pequenos, um dos quais, a Juju, vivia na cidade com a madrinha que se encarregava dela. Esta madrinha
era uma cocote de trinta mil-réis para cima, a Léonie, com sobrado na cidade. Procedência francesa.
Alexandre em casa, à hora de descanso, nos seus chinelos e na sua camisa desabotoada, era muito chão
com os companheiros de estalagem, conversava, ria e brincava, mas envergando o uniforme, encerando o bigode
e empunhando a sua chibata, com que tinha o costume de fustigar as calças de brim, ninguém mais lhe via os
dentes e então a todos falava teso e por cima do ombro. A mulher, a quem ele só dava “tu” quando não estava
fardado, era de uma honestidade proverbial no cortiço, honestidade sem mérito, porque vinha da indolência do seu
temperamento e não do arbítrio do seu caráter.
Junto dela pôs-se a trabalhar a Leocádia, mulher de um ferreiro chamado Bruno, portuguesa pequena e
socada, de carnes duras, com uma fama terrível de leviana entre as suas vizinhas.
Seguia-se a Paula, uma cabocla velha, meio idiota, a quem respeitavam todos pelas virtudes de que só ela
dispunha para benzer erisipelas e cortar febres por meio de rezas e feitiçarias. Era extremamente feia, grossa, triste,
com olhos desvairados, dentes cortados à navalha, formando ponta, como dentes de cão, cabelos lisos, escorridos
e ainda retintos apesar da idade. Chamavam-lhe “Bruxa”.
172
Depois seguiam-se a Marciana e mais a sua filha Florinda. A primeira, mulata antiga, muito séria e asse-
ada em exagero: a sua casa estava sempre úmida das consecutivas lavagens. Em lhe apanhando o mau humor
punha-se logo a espanar, a varrer febrilmente, e, quando a raiva era grande, corria a buscar um balde de água e
descarregava-o com fúria pelo chão da sala. A filha tinha quinze anos, a pele de um moreno quente, beiços sen-
suais, bonitos dentes, olhos luxuriosos de macaca. Toda ela estava a pedir homem, mas sustentava ainda a sua
virgindade e não cedia, nem à mão de Deus Padre, aos rogos de João Romão, que a desejava apanhar a troco de
pequenas concessões na medida e no peso das compras que Florinda fazia diariamente à venda.
Depois via-se a velha Isabel, isto é, Dona Isabel, porque ali na estalagem lhe dispensavam todos certa con-
sideração, privilegiada pelas suas maneiras graves de pessoa que já teve tratamento: uma pobre mulher comida de
desgostos. Fora casada com o dono de uma casa de chapéus, que quebrou e suicidou-se, deixando-lhe uma filha
muito doentinha e fraca, a quem Isabel sacrificou tudo para educar, dando-lhe mestre até de francês. Tinha uma
cara macilenta de velha portuguesa devota, que já foi gorda, bochechas moles de pelancas rechupadas, que lhe
pendiam dos cantos da boca como saquinhos vazios; fios negros no queixo, olhos castanhos, sempre chorosos en-
golidos pelas pálpebras. Puxava em bandós sobre as fontes o escasso cabelo grisalho untado de óleo de amêndoas
doces. Quando saía à rua punha um eterno vestido de seda preta, achamalotada, cuja saia não fazia rugas, e um
xale encarnado que lhe dava a todo o corpo um feitio piramidal. Da sua passada grandeza só lhe ficara uma caixa
de rapé de ouro, na qual a inconsolável senhora pitadeava agora, suspirando a cada pitada.
A filha era a flor do cortiço. Chamavam-lhe Pombinha. Bonita, posto que enfermiça e nervosa ao último
ponto; loura, muito pálida, com uns modos de menina de boa família. A mãe não lhe permitia lavar, nem engomar,
mesmo porque o médico a proibira expressamente.
[...]

Capítulo VII

[...]
Ela saltou em meio da roda, com os braços na cintura, rebolando as ilhargas e bamboleando a cabeça, ora para a
esquerda, ora para a direita, como numa sofreguidão de gozo carnal, num requebrado luxurioso que a punha ofe-
gante; já correndo de barriga empinada; já recuando de braços estendidos, a tremer toda, como se fosse afundando
num prazer grosso que nem azeite, em que se não toma pé e nunca se encontra fundo. Depois, como se voltasse
à vida, soltava um gemido prolongado, estalando os dedos no ar e vergando as pernas, descendo, subindo, sem
nunca parar com os quadris, e em seguida sapateava, miúdo e cerrado, freneticamente, erguendo e abaixando os
braços, que dobrava, ora um, ora outro, sobre a nuca, enquanto a carne lhe fervia toda, fibra por fibra, titilando.
[...]
O chorado arrastava-os a todos, despoticamente, desesperando aos que não sabiam dançar. Mas, ninguém
como a Rita; só ela, só aquele demônio, tinha o mágico segredo daqueles movimentos de cobra amaldiçoada;
aqueles requebros que não podiam ser sem o cheiro que a mulata soltava de si e sem aquela voz doce, quebrada,
harmoniosa, arrogante, meiga e suplicante.
E Jerônimo via e escutava, sentindo ir-se-lhe toda a alma pelos olhos enamorados.
Naquela mulata estava o grande mistério, a síntese das impressões que ele recebeu chegando aqui: ela era
a luz ardente do meio-dia; ela era o calor vermelho das sestas da fazenda; era o aroma quente dos trevos e das
baunilhas, que o atordoara nas matas brasileiras[...].
(AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. São Paulo: Ática, 1945).

173
Roda de samba. Heitor dos Prazeres.

Raul Pompeia
Raul D’Ávila Pompeia (1863-1895) tinha apenas dez anos quando
foi matriculado num internato, dirigido pelo doutor Abílio César Bor-
ges, o Barão de Macaúbas, no Rio de Janeiro. Após concluir os estu-
dos primários, entrou para o Imperial Colégio D. Pedro II, em 1879.
Em literatura, o adolescente admirava Flaubert e Zola e
deliciava-se com as ideias de liberdade aprendidas na Leitura de
Rousseau. No final do colégio, já tinha pronto seu primeiro romance:
Uma tragédia no Amazonas.
Em 1881, matriculou-se na Faculdade de Direito de São Paulo.
Três anos depois, já como jornalista consagrado, abolicionista e repu-
blicano, foi reprovado na Faculdade. Nesse tempo escrevera mais um
romance: As joias da Coroa.
Tomou, então, a decisão de se transferir para o Recife, onde
terminou o curso, em 1885, e começou a escrever o romance que
haveria de consagrá-lo: O Ateneu, publicado sob a forma de fo-
lhetim em 1888.

Biografia

Raul de Ávila Pompeia nasceu em Jacuecanga, Angra dos Reis, RJ, em 12 de abril de 1863, e faleceu no Rio
de Janeiro, RJ, em 25 de dezembro de 1895. É o patrono da cadeira no 33 da ABL, por escolha do fundador
Domício da Gama.
Era filho de Antônio de Ávila Pompeia, homem de recursos e advogado, e de Rosa Teixeira Pompeia, que
pertencia à família de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Transferiu-se cedo com a família para a Corte e
foi internado no Colégio Abílio, dirigido pelo educador Abílio César Borges, o Barão de Macaúbas – o mesmo que,
em Salvador, educara Castro Alves e Rui Barbosa – estabelecimento de ensino que adquirira grande nomeada.
Passando do ambiente familiar austero e fechado para a vida no internato, recebeu Raul Pompeia um choque pro-
fundo no contato com estranhos. Logo se distinguiu como aluno aplicado, com o gosto dos estudos e leituras, bom
174
desenhista e caricaturista, que redigia e
ilustrava do próprio punho o jornalzinho
O Archote. Em 1879, transferiu-se para o
Colégio Pedro II, para fazer os prepara-
tórios, e onde se projetou como orador e
publicou seu primeiro livro, Uma tragédia
no Amazonas (1880).
Reprovado no terceiro ano, em
1883 seguiu com 93 acadêmicos para o
Recife e lá concluiu o curso de Direito,
mas não exerceu a advocacia. De volta
ao Rio de Janeiro em 1885, dedicou-se
ao jornalismo, escrevendo crônicas, fo-
lhetins, artigos, contos e participando
da vida boêmia das rodas intelectuais.
Nos momentos de folga escreveu O Ate-
neu, “crônica de saudades”, romance
de cunho autobiográfico, narrado em
primeira pessoa, contando o drama de um menino que, arrancado ao lar, é posto num internato da época.
Publicou-o em 1888, primeiro em folhetins, na Gazeta de Notícias, e, logo a seguir, em livro, que o consagrou
definitivamente como escritor.
Decretada a Abolição, em que se empenhara, passou a dedicar-se à campanha favorável à implantação
da República. Em 1889 colaborou em A Rua, de Pardal Mallet, e no Jornal do Comércio. Proclamada a Repú-
blica, foi nomeado professor de mitologia da Escola de Belas Artes e, logo a seguir, diretor da Biblioteca Na-
cional. No jornalismo revelou-se um florianista exaltado, grande jacobino que era, em oposição a intelectuais
do seu grupo, como Pardal Mallet e Olavo Bilac. Numa das discussões, surgiu um duelo entre Bilac e Pompeia.
Combatia o cosmopolitismo, achando que o militarismo, encarnado por Floriano Peixoto, constituía a defesa da
pátria em perigo. Referindo-se à luta entre portugueses e ingleses, desenhou uma de suas melhores charges: O
Brasil crucificado entre dois ladrões. Com a morte de Floriano, em 1895, foi demitido da direção da Biblioteca
Nacional, acusado de desacatar a pessoa do então Presidente da República, Prudente de Morais, no explosivo
discurso pronunciado em seu enterro. Rompido com amigos, caluniado em artigo de Luís Murat, sentindo-se
desdenhado por toda parte, inclusive dentro do jornal A Notícia, que não publicara o segundo artigo de sua
colaboração – o que, aliás, tratou-se de um simples atraso – pôs fim à vida, com um tiro no coração, no dia
de Natal de 1895.
A posição de Raul Pompeia, ficcionista de alturas geniais, na literatura brasileira é controvertida. A princípio
a crítica o julgou pertencente ao Naturalismo, mas as qualidades artísticas presentes em sua obra fazem-no aproxi-
mar-se do Simbolismo, ficando a sua arte como a expressão típica, na literatura brasileira, do estilo impressionista.
(Diposnível em: <academia.org.br/abl>. Acesso em: 22 mar. 2015).

175
O Ateneu
O romance O Ateneu tem cunho memorialista e ressalta-se em seu eixo fundamental o estudo psicológico de um
adolescente. O foco narrativo é centrado em Sérgio, personagem constantemente em conflito com os valores im-
postos pela direção do internato.

Surgem no romance os problemas criados pela educação convencional: a homossexualidade, as revoltas e


a corrupção.
Oscilando entre ser um diário e um romance, o livro é recheado das experiências do menino Sérgio no inter-
nato, dirigido pela mão de ferro do diretor Aristarco de Ramos.
Trata-se de quadros narrativos que vão sendo expostos ao leitor. Personagens e situações do colégio são
apresentados, desvendando-se um mundo de hipocrisias e falsidades em que até amigos tornam-se delatores. A
história do internato passa pela formação sexual e intelectual do adolescente como um reflexo da sociedade e
focaliza, ao mesmo tempo, a decadência do regime monárquico-escravocrata brasileiro.
No colégio há um sistema de “proteções”, estudantes mais velhos tomam a guarda de mais novos. O sistema
esconde todo tipo de baixeza, inclusive o assassinato provocado pela criada Ângela. A atmosfera saturada e falsa,
forjada pelo diretor Aristarco, contamina a todos, com exceção de D. Ema, esposa do diretor, que é pessoa de muito
boa vontade e vem a ser alvo de uma paixão platônica do menino Sérgio. A obra termina com um incentivo provo-
cado pelo estudante Américo.

Trechos de O Ateneu

Capítulo I

[...]

O diretor recebeu-nos em sua residência, com manifestações ultra de afeto. Fez-se cativante, paternal; abriu-nos
amostras dos melhores padrões do seu espírito, evidenciou as faturas do seu coração. O gênero era bom sem dú-
vida nenhuma; que apesar do paletó de seda e do calçado raso com que se nos apresentava, apesar da bondosa
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familiaridade com que declinava até nós, nem um segundo o destituí da altitude de divinização em que o meu
critério embasbacado o aceitara.
[...]
Surpreendendo-nos com esta frase, untuosamente escoada por um sorriso, chegou a senhora do diretor,
D. Ema. Bela mulher em plena prosperidade dos trinta anos de Balzac, formas alongadas por graciosa magreza,
erigindo, porém, o tronco sobre quadris amplos, fortes como a maternidade; olhos negros, pupilas retintas de uma
cor só, que pareciam encher o talho folgado das pálpebras; de um moreno rosa que algumas formosuras possuem,
e que seria também a cor do jambo, se jambo fosse rigorosamente o fruto proibido. Adiantava-se por movimentos
oscilados, cadência de minueto harmonioso e mole que o corpo alternava. Vestia cetim preto justo sobre as formas,
reluzente como pano molhado; e o cetim vivia com ousada transparência a vida oculta da carne. Esta aparição
maravilhou-me.
Houve as apresentações de cerimônia, e a senhora com um nadinha de excessivo desembaraço sentou-se
ao divã perto de mim.
– Quantos anos tem? – perguntou-me.
– Onze anos...
– Parece ter seis, com estes lindos cabelos.
Eu não era realmente desenvolvido. A senhora colhia-me o cabelo nos dedos:
– Corte e ofereça a mamãe, aconselhou com uma carícia; é a infância que aí fica, nos cabelos louros... De-
pois, os filhos nada mais têm para as mães.
O poemeto de amor materno deliciou-me como uma divina música. Olhei furtivamente para a senhora. Ela
conservava sobre mim as grandes pupilas negras, lúcidas, numa expressão de infinda bondade! Que boa mãe para
os meninos, pensava eu. Depois, voltada para meu pai, formulou sentidamente observações a respeito da solidão
das crianças no internato.
[...]

Capítulo II

[...]

Os companheiros de classe eram cerca de vinte; uma variedade de tipos que me divertia. O Gualtério, miúdo, redon-
do de costas, cabelos revoltos, motilidade brusca e caretas de símio – palhaço dos outros, como dizia o professor;
o Nascimento, o bicanca, alongado por um modelo geral de pelicano,
nariz esbelto, curvo e largo como uma foice; o Álvares, moreno, cenho
carregado, cabeleira espessa e intonsa de vate de taverna, violento e
estúpido, que Mânlio atormentava, designando-o para o mister das
plataformas de bonde, com a chapa numerada dos recebedores, mais
leve de carregar que a responsabilidade dos estudos; o Almeidinha,
claro, translúcido, rosto de menina, faces de um rosa doentio, que se
levantava para ir à pedra com um vagar lânguido de convalescen-
te; o Maurílio, nervoso, insofrido, fortíssimo em tabuada: cinco vezes
três, vezes dois, noves fora, vezes sete?... Iá estava Maurílio, trêmulo,
sacudindo no ar o dedinho esperto... olhos fúlgidos, rosto moreno,
marcado por uma pinta na testa; o Negrão, de ventas acesas, lábios
inquietos, fisionomia agreste de cabra, canhoto e anguloso, incapaz
de ficar sentado três minutos, sempre à mesa do professor e sem-
pre enxotado, debulhando um risinho de pouca-vergonha, fazendo
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agrados ao mestre, chamando-lhe bonzinho, aventurando a todo ensejo uma tentativa de abraço que Mânlio
repelia, precavido de confianças; Batista Carlos, raça de bugre, válido, de má cara, coçando-se muito, como se o
incomodasse a roupa no corpo, alheio às coisas da aula, como se não tivesse nada com aquilo, espreitando apenas
o professor para aproveitar as distrações e ferir a orelha aos vizinhos com uma seta de papel dobrado. Às vezes a
seta do bugre ricochetava até à mesa de Mânlio. Sensação; suspendiam-se os trabalhos; rigoroso inquérito. Em vão,
que os partistas temiam-no e ele era matreiro e sonso para disfarçar.
Dignos de nota havia ainda o Cruz, tímido, enfiado, sempre de orelha em pé, olhar covarde de quem foi
criado a pancadas, aferrado aos livros, forte em doutrina cristã, fácil como um despertador para desfechar as li-
ções de cor, perro como uma cravelha para ceder uma ideia por conta própria; o Sanches, finalmente, grande, um
pouco mais moço que o venerando Rebelo, primeiro da classe, muito inteligente, vencido apenas por Maurílio, na
especialidade dos noves fora vezes tanto, cuidadoso dos exercícios, êmulo do Cruz na doutrina, sem competidor na
análise, no desenho linear, na cosmografia.
[...]
(POMPEIA, Raul. O Ateneu. São Paulo: Ática, 1986.]

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E.O. TESTE I 3. (UFPE-adaptada) Os movimentos ou tendên-
cias literárias que surgiam na Europa letrada
alcançaram o Brasil através dos colonizadores
TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES portugueses e tiveram nomes que se destaca-
E Jerônimo via e escutava, sentindo ir-se-lhe ram no continente americano. A esse propó-
toda a alma pelos olhos enamorados. sito, analise as afirmações a seguir.
Naquela mulata estava o grande mistério, a ( ) No século XVII, o Barroco procurava, atra-
síntese das impressões que ele recebeu che- vés da ênfase na religiosidade, solucionar
gando aqui: ela era a luz ardente do meio- os dilemas humanos. Esse movimento foi
-dia; ela era o calor vermelho das sestas da introduzido no Brasil pelos jesuítas, sen-
fazenda; era o aroma quente dos trevos e das do seu representante capital Padre Antô-
baunilhas, que o atordoara nas matas brasi- nio Vieira, cuja obra – Sermões – consti-
leiras; era a palmeira virginal e esquiva que tui um mundo rico e contraditório.
se não torce a nenhuma outra planta; era o ( ) No século XVIII, floresceu o Arcadismo
veneno e era o açúcar gostoso; era o sapoti em Minas Gerais, Vila Rica. Com o esta-
mais doce que o mel e era a castanha do caju, belecimento de relações sociais mais con-
que abre feridas com o seu azeite de fogo; centradas, formou-se um público leitor,
ela era a cobra verde e traiçoeira, a lagar- elemento importante para o desenvolvi-
ta