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A GRANDE EPOPEIA DOS CELTAS

Autor: Can ’MarU, Prefácio: Poul Fttqn Tradução: Jorge Chichorn) Projecto Gráfico: Ana Isabel Viena

A GRANDE EPOPEIA DOS CELTAS


Primeira época

OS CONQUISTADORES DA ILHA VERDE

A PUBLICAR:

Segunda época

OS COMPANHEIROS Do RAMO VERMELHO

Terceira época

0S HERÓIS DOS CEM COMBATES

Quarta época

Os TRIUNFOS Do REI ERRANTE

Quinta época

OS SENHORES DA BRUMA

INDICE
PREFÁCIO - Nas fronteiras do real. 1
PRELUDIO - 0 homem dos tempos antigos. 39
1 - NAS BRUMAS DA AURORA. 47
11 - AS TRIBOS DE DANA. 61
111 - LUG Do BRAÇO LONGO. 79
IV - A GRANDE BATALHA DE MAG-TURED. 95
V - A VINGANÇA DE LUG. 115
VI - Os FILHOS DE MILÉ. 131
VII - 0 ESTRANHO DESTINO DOS FILHOS DE UR. 151
VIII - AS ATRIBULAÇÕES DO JOVEM ANGUS. 165
IX - DEMÔNIOS E MARAVILHAS. 179
X - POR AMOR A FINNABAIR. 199
XI - A TERRA DAS FADAS.
XII - ETAINE E o REI DAS SOMBRAS 229

Deste modo, impelidos para novos horizontes,


Na noite eterna embalados sem retorno,
Não seremos capazes, no oceano das idades,
De lançar âncora ao menos por um dia?

LAMARTINE, O Lago.
A identidade e a especificidade de uma civilização seja ela antiga ou moderna, só se tomam
reconhecíveis no caso de nela se encontrar uma tradição transmitida de geração em geração e
que lhe sirva de testemunha essencial. Esta tradição agrega a memória de um povo ou de um
grupo de povos que vivem em condições equivalentes ou, no mínimo, semelhantes, e pode
manifestar-se de modos muito diversos, desde os simples costumes até especulações filosóficas
muito complexas. Mas, na história da humanidade, sempre se privilegiou a escrita, por esta ser
o meio mais seguro e mais fiel de conservar a memória do passado. Assim se explica que a
Grécia seja o país de Hesíodo, Homero, Ésquilo, Heródoto e Platão, apesar de termos aprendido
na escola que a escultura ocupa um lugar privilegiado na civilização que, segundo se diz
repetidamente, constitui um milagre sem o qual nada teria sido possível.
Assim, no caso dos gregos, não se coloca a questão de a sua identidade cultural ser
reconhecida, pois eles deixaram um número suficiente de obras escritas para que possam
integrar-se entre os chamados Povos «civilizados». Mas o que dizer dos outros povos que, por
uma qualquer razão, não conheceram a escrita ou nunca a utilizaram? Antigamente, devido à
crença ria «mentalidade pré-lógica», tão cara à escola sociológica francesa do início do século
XX, rejeitava-se uma cultura, que não tivesse escrita, por ser considerada incerta, incoerente e
Primitiva. Esta ideologia (palavra que se aplica, sem dúvida, a essa crença), foi a concretização
de um sistema construído sobre a universalidade de uma Razão única que justificava qualquer
ato de colonização, cultural ou outra, e de missão, fossem quais fossem as intenções; ela
privou a humanidade durante muito tempo de uma importante parte de si mesma, pois
rejeitava, sem apelo nem agravo, tudo o que não pertencesse às normas em uso num sistema
imutável e incontestável. Não interessa se tratava de ignorância ou de desprezo pela diferença,
pois a verdade é que já se ultrapassou essa fase, Já ninguém hoje duvida que Os construtores
dos megálitos, que viveram do V ao 11º milênio antes da nossa era, e de quem não se conhece
nem o nome nem a língua, foram extraordinários artesãos de uma civilização brilhante que
ocupou uma grande parte da Europa, tendo nela deixado marca indelével. Em termos de obras
escritas, apesar disso, nada deles chegou até nós. Deles ficaram apenas monumentos, assim
como misteriosos símbolos gravados na pedra, os quais, por terem um conteúdo mais mágico
do que escrito, testemunham sem dúvida não apenas um sentido de arte apurado, mas
também um pensamento muito organizado e quase científico. Acontece, entretanto que o
estudo destes símbolos e da arquitetura extraordinariamente complexa destes monumentos, a
análise e a comparação dos diversos objetos arqueológicos contemporâneos, permite que se
reconstitua a partir de agora, mesmo que de forma incompleta e conjuntural, uma certa
tradição característica da civilização dita megalítica.

No que respeita à tradição celta, está-se perante um caso muito semelhante. Nunca se pensou
negar a existência dos celtas que, bem pelo contrário, foram considerados os únicos
predecessores dos romanos, sendo-lhes atribuídos indiscriminadamente todos os vestígios que
eram anteriores a estes últimos. Mas é sempre com um desprezo indisfarçado que se faz
referência aos povos cujo único defeito parece ser o de não se terem deixado seduzir pelos
encantos da escrita. Há uma realidade incontestável: os celtas não escreveram nada antes de
serem cristianizados, ou seja, antes de monges eruditos e pacientes terem recolhido em
manuscritos preciosos Os seus testemunhos orais que estavam em risco de desaparecer e que
foram salvos do esquecimento. Deste modo, dispomos de testemunhos que, apesar de
incompletos e deformados, nos transmitem os vestígios da alma dos povos celtas. Mas, na
verdade, quem foram realmente os celtas?

A verdade obriga a que se diga que sobre eles muito pouco se sabe.
O Certo é que não os podemos considerar um grupo racial ou étnico delimitado, tão vasto e
impreciso é o seu campo de ação, e tão confusa e contraditória é a morfologia daqueles a
quem se chamou celtas, os quais tanto incluem morenos troncudos e baixos como louros altos
e de olhos azuis. Será mais prudente falar-se deles enquanto um povo que fala a língua céltica.
Também é preciso fazer algumas distinções. Os cimbros e os teutões, que foram exterminados
por Marius e os romanos, eram sem dúvida de origem germânica, embora tivessem nomes
celtas: Cimbros é o combroges gaulês, querendo dizer «do mesmo país» (e que deu o galês C-
vmri); os teutões provêm de uma raça celta de onde saiu o irlandês tuath, «tribo», e que se
reconhece no nome do deus gaulês Teutatès (ou Toutatis), literalmente «paí do povo», e no
termo genérico atual deutsch, «alemão», o que não deixa de ser algo paradoxal. Quanto aos
celtas da mesma época, existe outra dificuldade: a maior parte deles já não fala uma língua
céltica, como o comprovam certos bretões armoricanos (da Alta Bretanha), nove em cada dez
irlandeses, para além dos galeses e de outros povos europeus outrora classificados como celtas
ou que estiveram sob o domínio celta. Além disso, os autores da Antiguidade clássica não
estavam mais elucidados do que nós a este respeito, confundindo com facilidade celtas e
germânicos, oi então fazendo dos primeiros uns vagos «Hiperbóreos», ou mesmo «Ci merios»
que viviam num universo sombrio nas fronteiras de Outro Mundo. A verdade é que os celtas,
cuja existência não se pode contentar, constituem uns povos quase míticos, ou pelo menos
mitológico Esse fato também se explica largamente pela propensão dos celtas, para
confundirem intimamente o real e o imaginário e, assim começaram a fixar a sua história, para
a inventarem deliberadamente em função dos seus mitos fundadores.
0 certo é que os gauleses da Alésia ficariam muito surpreendidos se lhes chamassem celtas.
Naturalmente, o termo Keltoi existia há muito tempo, mas era grego e fora utilizado pelos
historiadores gregos por necessidade de classificação, ora, os gauleses já não se sentiam à
vontade ao serem considerados gauleses, como o provam as dificuldades Vércingétorix e as
acrobacias oratórias a que teve de recorrer no seu discurso de Bibracte (monte Beuvray), em
52 antes da nossa era, para tentar assegurar uma coesão «patriótica» ou «nacional» na
coligação de povos que tinham pegado em armas contra os romanos. Um gaulês era, antes de
qualquer coisa, membro dum «povo», duma «tribo», portanto duma tuath, e nada mais lhe
interessava, além disso. E foi sempre assim: «Nem os irlandeses, nem os galeses, nem os
baixo-bretões da Idade Média se autodenominaram «celtas». Esta denominação comum, na
qual se incluem atualmente os antigos escoceses, os irlandeses, os galeses, os habitantes da
Cornualha e os bretões, tem por base a semelhança das línguas primitivas faladas por estes
povos e um vago parentesco étnico.» Esta constatação continua válida e mostra bem as
dificuldades que se podem encontrar quando se tenta definir os celtas, a sua tradição e a sua
civilização.
Os celtas, segundo os autores gregos, apareceram na História por volta do ano 500 antes da
nossa era. Isso não significa que eles não constituíssem já nessa altura grupos sociais
fortemente enraizados em certas regiões da Europa. Neste caso a arqueologia vem constatar as
lacunas da História e põe em evidência o aparecimento de uma nova forma de civilização na
qual o ferro desempenha um papel fundamental. Chamou-se a este período Primeira Idade do
Ferro, ou Civilização de Hallstatt, nome de uma estação arqueológica austríaca. É realmente
verossímil que o domínio primitivo dos celtas, dividido em principados independentes,
fabulosamente ricos e requintados como no-lo provam os móveis funerários dos túmulos, se
estendia ao norte dos Alpes, entre os montes da Boêmia e o Harz, prolongando-se até ao sul do
Danúbio. Atualmente existe um consenso quanto ao fato de ter sido a partir desta região que
os denominados povos celtas começaram as suas migrações, dirigindo-se, sobretudo para
ocidente, em vagas sucessivas, talvez desde o fim da Idade do Bronze, ou seja, entre 900 e
700 a.C.

1. Dom Lotris Gougaud, Les Chrétieniés celtiques, Paris, 1911, p. i (prefácio). O autor vai-se
acentuando acrescenta numa nota na rnesma página: «0 cepticismo dos sábios dos bretões
cada vez mais, no que respeita ao valor do conceito de raça. Tácito, falando (insulares), atribuía
já uma grande importância ao ambiente, à adaptação, ao meio, em detrimento da idéia de
ruça.» Esta reflexão perfeitamente lúcida foi feita no momento em que o auto-intitulado
«iniciado» Edouard Schuré, digno discípulo de Gobineau e precursor de alguns teóricos de
mágica davam os valores da «raça» celta moria, como sendo de origem nórdica e ariana.

Deve reter-se deste fato que os celtas, ou os assim chamados (há quem lhes chame
protoceltas), são principalmente campesinos, criadores de gado, agricultores e artesãos. Se
mais tarde os vamos encontrar junto ao Atlântico, isso não se deve ao fato de eles terem
procurado aproximar-se do mar, mas por terem sido obrigados, por razões ainda
desconhecidas, a refugiar-se nos confins do velho mundo.
Crê-se que este nó primitivo dos celtas resultou de migrações anteriores de povos indo-
europeus. Aqui, mais uma vez, é necessário precisar este termo, que só pode designar
agrupamentos humanos que falavam uma língua comum - ao menos na origem - e que
possuíam técnicas e estruturas sociais idênticas. É esta a única acepção possível do termo, com
exceção de todas as outras que incluem uma noção de raça. Assim que se instalaram no
triângulo BoémIa-Áustria-Harz, os celtas primitivos, ou por causa da superpopulação, ou porque
estavam ameaçados por outros emigrantes vindos do leste, ter-se-iam dirigido para ocidente a
fim de descobrirem novos territórios onde se pudessem estabelecer. Este fato nada tem de
extraordinário e é comum a muitos outros povos ao longo da História, explicando que todos os
celtas, hoje tão bem enraizados na Europa ocidental e no extremo do Ocidente, atravessaram o
Reno antes de se instalarem nos países cuja História os reconheceu.
Graças ao estudo da distribuição das estações arqueológicas e da sua datação e tendo em
consideração marcas toponímicas e raros vestígios epígrafos, é possível afirmar-se que o fluxo
migratório dos celtas para a Europa ocidental ocorreu em dois períodos bem distintos. 0
primeiro, cronologicamente, situa-se na chaineira das Idades do Bronze e do Ferro e engloba
um grupo de povos que falavam uma língua céltica ainda próxima do indo-europeu comum, a
qual, através de diversos arcaísmos, chegou aos nossos dias encontrando-se no gaélico da
Irlanda, da ilha de Man e da Escócia. Deu-se a este ramo o nome de goidélico ou gaélico, ou
então de celtas com Q, pois eles conservaram, tal como o latim, o uso do som Q indo-europeu
primitivo (por exemplo, «cmco» do latim. quinque, diz-se coic em gaélico). 0 segundo fluxo
migratório ocorreu depois do ano 500 a.C., através de vagas sucessivas, tendo sido a última
dos belgas, no século 1 antes da nossa era. Este ramo é chamado, com i inclui, além dos
gauleses e dos belgas, alguma liberdade, britónico, pois ’ galeses, 0% os antigos bretões
insulares cujos atuais descendentes são os 9 habitantes da Cornualha e os bretões
armoricanos. No plano lingüístico, classificam-se estes povos como celtas com P, porque os
seus diversos componentes transformaram, tal como os gregos, o Q primitivo indo-europeu em
som P, como o mostra o mesmo exemplo de «cinco» que se diz pemp em galês e bretão, e
pente em grego.
Foram estes povos, formados provavelmente por pequenas tribos independentes umas das
outras, que, no decorrer do primeiro milênio antes da nossa era, invadiram a Europa ocidental,
incluindo a planície do Pó (Gália Cisalpina) e o noroeste da Península Ibérica. Havendo também
que referir as expedições que, durante o século 11, chegaram a formar nos Bálcãs o reino da
Galateia. Entretanto, na Ásia Menor, estas migrações devem ser entendidas nas suas devidas
proporções.
Estes famosos celtas fossem quem fossem, não eram numerosos, constituindo apenas uma elite
guerreira, técnica e intelectual. Ora, os países onde eles se fixaram eram habitados por
populações de que nada se conhece, mas que, com certeza, não foram inteiramente
aniquiladas pelos seus dominadores. Bem pelo contrário, os celtas tinham necessidade de mão
de obra, ou seja, de escravos. Fizeram por isso um esforço no sentido de dominar as
populações autóctones, celtizando-as, ou seja, ensinando-lhes a língua e transmitindo-lhes os
costumes, a técnica e a religião, o druidismo que era comum ao conjunto dos grupos ditos
celtas. Além disso, os celtas impuseram-lhes as suas estruturas sociais indo-européias, o seu
modo de vida e o seu modo de pensar. A partir daí o próprio tempo se encarregou de fazer a
sua obra inelutável de assimilação, tomando-se os autóctones os novos celtas, ao mesmo
tempo em que os primeiros celtas não deixavam de ser modificados pelas populações
indígenas. Este processo de interação - extremamente vulgar - contribuiu para a formação do
que hoje se chama civilização celta.
Contudo, estas vagas sucessivas de migrações e de misturas nunca deixaram de provocar
deslocamentos internos das populações. Os primeiros invasores de língua céltica - chamemos-
lhes por comodidade gaélicos - foram empurrados ainda mais para ocidente, o que explica a
especificidade da Irlanda, isolada nos limites extremos do mundo antigo, e tendo conservado,
mais do que qualquer outro país de dominação celta, as tradições mais arcaicas e reveladoras.
(“As descobertas arqueológicas sugerem que os celtas chegaram à Irlanda vindo da Grã-
Bretanha, podendo ser traçada a sua rota através de Cumberland C de Wigtownshire até se
chegar ao nordeste do Ulster”) É esta a opinião.

1 . Myles Dillon, Early Irish literaiure, 1994, p. XI.

Do ceitólogo irlandês Myles Dillon, que diverge de um compatriota, O’Rahilly, que aponta um
itinerário direto dos celtas a partir da Gália. No fundo, as duas teses não são contraditórias,
pois pode ter havido diversas migrações como, de resto, os irlandeses da Idade Média
defendiam quando procuravam reconstituir as idades mais recuadas da sua história. 0
Importante é saber que os dois ramos, o gaélico e o bretônico, coexistiram durante multo
tempo até se diluírem separadamente na História moderna, depois de terem tido uma origem
comum.
.Ora, uma árvore não pode viver se os seus ramos e até a sua folha mais insignificante não
forem alimentados pela seiva. A grande aventura dos celtas só foi possível porque uma mesma
seiva animou desde a origem o ser social que lhe serviu de ponto de partida. Esta selva pode
ser identificada com o que se chama a Tradição, ou seja, com o que é transmitido de geração
em geração para que cada unia destas possa conservar o sentido de uma certa identidade e os
meios de a exprimir através das sucessivas etapas da história.
Em primeiro lugar, esta tradição consiste num corpus de informações herdadas de um passado
sempre apresentado como se remontasse à aurora da humanidade, ao que se chama a noite
dos tempos. Assim sendo, a questão da tradição celta obriga-nos a pensar como pôde ela ser
transmitida se a sua primeira transcrição data apenas dos primeiros séculos do cristianismo,
sendo este responsável pelo seu enquadramento. Naturalmente, pode-se lamentar que a falta
de escrita seja responsável por não haver testemunhos essenciais para o conhecimento da
antiga cultura celta; mas esta não-utilização da escrita, longe de atestar uma qualquer espécie
de incapacidade, resultou duma escolha deliberada das elites celtas, dos chamados druidas, que
eram simultaneamente sacerdotes, filósofos, historiadores, poetas e mágicos. Júlio César foi
muito claro a este respeito: «Os druidas, diz ele, acreditam que a religião não lhes permite
escrever a matéria dos seus ensinamentos (...), pois não querem que a sua doutrina seja
divulgada nem que, por outro lado, os seus alunos, fiando-se na escrita, negligenciem a
memória». (De bello gallico, VI, 14). Eis a razão pela qual os discípulos dos druidas
aprenderam, durante uma vintena de anos, milhares de versos que resumiam, de forma
irmernotécnica, o conjunto da tradição celta.

A existência de uma tal tradição oral está largamente comprovada.


O grego Estrabão (IV, 4), afirma que os poetas dos celtas são «bardos, ou seja, cantores
sagrados». Outro grego, Diodoro de Sicília, transmite detalhes preciosos (V, 29 e 31): «Antes
de cada batalha, eles cantam os feitos dos seus antepassados e exaltam as suas próprias
virtudes, enquanto insultam os adversários. Eles exprimem-se por enigmas (...) e usam
bastante a hipérbole.» 0 latino Pomponius Mela observa que «estes povos possuem uma
eloquência muito própria» (111, 2); quanto ao poeta Lucano, este apostrofa os poetas gauleses
nestes termos, na Pharsale (1, v, 50 sqq.): «Vós cujos cantos de glória lembram, ao futuro
longínquo, a memória dos fortes antepassados desaparecidos em combate, bardos, vós dais
largas sem medo à vossa veia fecunda!» Enfim, se fosse necessário um reconhecimento quase
oficial, poderíamos encontrá-lo no historiador grego Poliffio, apesar de tudo, muito prudente
nos fatos a que se refere. Depois de ter pintado um quadro dos povos gauleses da Cisalpina,
afirma convictamente (11, 17) que «os autores de histórias dramáticas contam a seu respeito
lendas maravilhosas».
Foram os conflitos que opuseram os romanos aos gauleses da Cisalpina, cerca do ano 387
antes da nossa era, que suscitaram mais comentários a propósito de uma tradição épica que os
celtas transmitiram de geração em geração. Quanto aos acontecimentos referidos por Tito Lívio,
historiador latino, apesar de natural da Gália Cisalpina, estão muito mais próximos da lenda do
que da história e parecem inspirar-se diretamente num fundo tradicional veiculado pelos
próprios gauleses, fundo esse que ele conhecia muito bem. «A história das guerras gaulesas,
diz Henri Hubert é extremamente singular, fabulosa e épica.»1’1 E, a este respeito, Camille
Jullian, faz notar precisamente que «a derrota dos romanos, diz claramente Tito Lívio, deveu-se
ao pavor mágico (miraculum) que lhes inspirou o grito de guerra dos celtas. As narrações de
Tito Lívio, de Apio e de Plutarco, cheias de cor e de pormenor, precisas, com um extraordinário
humor religioso e muito favoráveis aos celtas (...), sempre me pareceram inspiradas em parte
em alguma epopéia gaulesa».

Trata-se realmente de uma epopéia. A definição clássica do termo, «narrativa poética de feitos
heróicos», não nos impede de acrescentar que o gênero se refere sempre a fatos de um
passado longínquo, que na sua maioria não podem ser confirmados, mas que fazem parte da
memória coletiva de um povo ou de qualquer grupo social. A epopéia gaulesa assinalada por
Camille Jullian e conservada por Tito Lívio na língua latina não pertence obviamente à história,
sendo antes do âmbito da tradição. Quererá então isto dizer que a tradição celta, por estar
inscrita no quadro de uma civilização que rejeitava a escrita, só pode ser conhecida através de
outras civilizações? Assim parece ser, pois a epopéia gaulesa em questão só chegou até nós
graças aos documentos escritos - pretensamente históricos - que os gregos e os latinos
consagraram às guerras travadas por Roma contra os habitantes da Cisalpina e às expedições
celtas nos Bálcãs. 0 mesmo acontece com a epopéia bretã (ou seja, da Bretanha insular) à volta
do fabuloso rei Artur: as supostas aventuras deste e dos seus cavaleiros, as peripécias da
conquista do Graal, todas as matérias que atualmente se consideram de origem celta, só
chegaram ao nosso conhecimento, com a exceção de alguns textos gauleses, graças a versões
redigidas em línguas não célticas - nomeadamente o francês (dialeto anglo-normando), o inglês
e o alemão. Daqui resulta uma situação no mínimo paradoxal”).
Como é óbvio, existem várias versões de epopéias redigidas ou transcritas em línguas célticas,
mas são tardias, remontando ao que se designa por Alta Idade Média. A primeira questão que
se coloca é sobre a sua autenticidade, ou seja, ignora-se se elas dão conta duma realidade
cultural celta incontestável, o fato de terem sido escritas numa conjuntura cristã, com todos os
equívocos e todas as censuras que isso implica, pode suscitar algumas dúvidas e, no mínimo,
legitimar alguma reserva.
Seria útil, entretanto, que se esclarecesse em definitivo a noção de autenticidade associada à
tradição. Na verdade, o que é autêntico na Tradição senão a própria tradição? Por quem foi
escrita o Gênesis da Bíblia? Com toda a certeza não a escreveram os que viveram nos primeiros
tempos da humanidade, Por quem foram escritos os Evangelhos? Corri certeza não os
escreveram os supostos evangelistas. De resto, a Igreja romana, muito prudente a este
respeito, utiliza um termo latino que expressa bem a idéia que quer transmitir, secundum
Johannen (ou Marcuni, ou Lucam, ou Mattheum). A palavra secundum Nunca quis dizer «por»,
C a tradução francesa oficial, «selon» [segun - não passa de um substituto de «segundo a
tradição». do, em português],
E, sem querer entrar em exegeses sábias, é preciso contextualizar os supostos poemas
homéricos: Homero nunca existiu historicamente, não passando de um nome emprestado a
numerosos rapsodos (literalmente «cosedores de cantos»), que tentavam inserir num plano de
conjunto inúmeras lendas e narrativas herdadas de uma tradição oral com origem na noite dos
tempos. Ninguém hoje em dia acredita que A Ilíada e A Odisséia são obras do mesmo autor e
que este, Homero Do caso, foi testemunha dos acontecimentos que relata. Estas duas obras
não passam de duas versões tardias de lendas orais que dizem respeito a deuses e a heróis da
Grécia antiga, e é por isso mesmo que elas são apaixonantes, pois testemunham
irrefutavelmente um passado que, sem elas, teria mergulhado nas brumas do esquecimento.
É por isso preciso ter em consideração que as narrativas homéricas não são mais do que a
expressão duma tradição arcaica expressa numa língua já clássica, e colocada ao dispor de um
público que Já não era contemporâneo do descrito. O mesmo se passa com as epopéias celtas.
0 fato delas terem sido escritas depois dos fatos terem ocorrido (se é que estes são reais, o que
está longe de ser provado), ou de eles terem sido posteriormente manipulados, não significa de
modo nenhum que a tradição que veiculam Dão seja autêntica. Com efeito, quando se falia de
epopéia, o problema da autenticidade nunca se deveria colocar, pois ela desemboca
necessariamente num não-senso: neste domínio, nada é verdade ou falso e tudo existe na
forma imaginada, simbólica, codificada, testemunhando a realidade profunda de uma
civilização.
«Se tiver em conta as datas, a saga irlandesa é a que nos dá o tipo mais antigo da epopéia
celta.» Esta afirmação de Georges Dottin não pode ser refutada, pois foram os manuscritos
irlandeses, escritos em língua gaélica, que nos transmitiram a maioria das narrativas épicas cujo
estudo interno prova claramente a sua antiguidade, nomeadamente em relação às que foram
reunidas nos manuscritos do País de Gales. E sabe-se, graças a este mesmo estudo interno dos
textos, que foi a partir do século VII da nossa era que os monges irlandeses começaram o seu
paciente trabalho de passar para a escrita a tradição oral gaélica que naquela época ainda era a
deles.
Como é óbvio, estes Primeiros manuscritos desapareceram, devido à ação do tempo, como
aconteceu também com os manuscritos que remontam à Antiguidade e à Alta Idade Média. Não
é de crer que os manuscritos conservados nos nossos dias com tanto cuidado - e com irritante
zelo! - nas bibliotecas e nos arquivos sejam os originais. São simplesmente cópias de
manuscritos mais antigos cujo conteúdo se pretendeu conservar por este a escrita. Uma Ilusão
de permenciiodàdmeuiNtoemantoess Idiveraosi,mnpermenosa ter vindo dar os pergaminhos ou
os papéis velino estão imunes à degradação. Quando os monges as grandes epopéias do
passado, irlandeses passaram para a escrita certos de que haveria quem mais tarde continuaria
o seu trabalho estavam certos disso. Não espanta por que só os documentos de que se dispõe
atualmente, e aos quais as técnicas científicas modernas asseguram uma maior longevidade,
não são de modo algum anteriores ao século X. Quanto aos riscos, sejam de erro ou de que
tenha a ver com simplificação como desistem o próprio conteúdo, que é o mais importante, é
óbvio que eles exigem. Existem três manuscritos principais no que respeita à epopéia irlandesa
- ou seja, por conseqüência, a mais antiga epopéia celta: o Livre de Ia Vache Brune
(Leabhar na hUidré), assim chamado por causa da sua encadernação e que, tendo sido escrito
antes de 1106 no célebre recinto monástico de Clonmacnoise, está atualmente guardado na
Royal Irish Academy de Dublin; o Livre de Leinster (Leabhar Laigen), anterior a 1160, que se
encontra no Triníty College de Dublin; e por fim o manuscrito dito RawIinson B 502,
também do século XII, guardado na BodIeian, Library de Oxford. Os três possuem o que
existe de mais antigo e importante na tradição gaélica. Contudo, a Irlanda continuou a recorrer
aos manuscritos não apenas durante a Idade Média, mas também no decurso do que se chama
Tempos Modernos, isto sobre tudo com o objetivo de divulgar as obras em gaélico, que tinham
estado proibidas ou, no mínimo, escondidas pelo ocupante inglês. 0 nosso conhecimento da
epopéia irlandesa pode ser assim enriquecido graças a um grande número de outros preciosos
manuscritos. Mencionemos ulo XV (Trinity Collenomeadamente o Livre jaune de Lecan, do
séc ge), o Livre de BaIlymOte, também do século XV, (Royal Irish Academy), o Livre de
Lismore, do mesmo século, atualmente na posse de particulares, sem esquecer o Livre de
Fermoy, do século X1V, mais especializado nos textos religiosos cristãos. Outros, menos
importantes, revelam-nos verdadeiras pérolas raras. Ao todo são uma centena, estando a maior
parte deles guardada na Royal Iristi Academy. Só nos podemos maravilhar quando comparamos
esta abundância com a pobreza dos raros manuscritos galeses e a inexistência dos manuscritos
bretões anteriores ao século XVI. Se não fosse a Irlanda, nada conheceríamos da antiga
epopéia dos Celtas.
0 que contêm estes manuscritos de valor inestimável? A resposta é simples: «Coleções muito
variadas de narrativas em prosa e em verso, tanto sagradas como profanas versando lendas,
história e a hagiografia, poesia bárdica e lírica, tratados médicos e jurídicos, tudo em gaélico
antigo, médio ou moderno, sem ter que haver a preocupação da classificação. »(’) 0 que é
admirável é a mistura, numa mesma narrativa, da prosa com a poesia. «Os trechos em prosa,
cuja extensão depende dos manuscritos, parece que foram a princípio simples esboços sobre os
quais o improvisador podia criar à sua vontade; à medida que os poemas Iam desaparecendo,
esses trechos iam tomando o seu lugar.» (2) Estes esboços são bem demonstrativos de urna
época em que a escrita estava proibida pelos druidas, transmitindo-se a tradição oralmente por
meio de versos que os aprendizes estudavam ao longo de vinte anos, podendo enriquecer as
suas narrativas quando o Julgassem útil. Além disso, na maior parte das vezes, os trechos em
verso das narrativas épicas estão repletos de arcaísmos que em alguns casos as torna
incompreensíveis embora estes últimos comprovem a sua antiguidade. Considera-se que todas
estas narrativas são atualizações de contos tradicionais que remontam ao fundo dos tempos. 0
fenômeno é muito particular na Irlanda, pois, no País de Gales poucos trechos em verso
subsistiram nas narrativas em prosa e, na Bretanha armoricana, apenas algumas canções
dramáticas, os gwerziou, sobreviveram à turbulência da história e lembram de algum modo as
grandes epopéias que deviam ser cantadas pelos bardos de outros tempos.

Estas grandes epopéias encontram-se nos manuscritos irlandeses, mas, Da maior parte das
vezes, na forma de fragmentos, de episódios que podem ser auto-suficientes embora só se
tornem realmente compreensíveis quando se ligam uns aos outros, Certas epopéias que têm
como personagem principal um herói bem conhecido apresentam-se nunia forma elaborada e
completa: é o que acontece com a célebre Razzia des Boeufs de CuaIngé, verdadeiro
monumento literário que muitas vezes é comparado à Ilíada e que está centrada no temível
guerreiro Câchulaínn. Este é também o herói de muitas outras histórias episódicas, o que
acontece igualmente com a maioria dos atores, sejam «deuses», «demônios», humanos ou
seres mágicos. Dir-se-ia que as personagens das epopéias eram sobretudo símbolos pré-
existentes a todas as narrativas organizadas, esforçando-se por lhes revelar a sua significação
profunda ao emprestarem-lhes aventuras pretensamente históricas. Esta tendência, que parece
fundamental em todos os celtas, contradiz formalmente a tese de Evhérnère, segundo a qual os
deuses não passam de humanos divinizados. Com efeito, sobretudo nas narrativas que se
podem classificar como mitológicas, os deuses aparecem nitidamente inseridos na história,
devido a esta não estar assente em nenhum acontecimento real. Aqui se encontra outra
característica dos celtas: quando ignoram a história do seu passado ou a esqueceram,
inventam-na. Pode mesmo chegar-se mais longe. Quando eles não estão satisfeitos com a
história vivida, negam-na e criam outra, mais de acordo com a sua mentalidade. Nos celtas, é
extremamente evidente a predominância do mito sobre a realidade quotidiana.
Mas o que atrás foi dito não deve ser classificado de acordo com os padrões habituais. As
epopéias irlandesas apresentam uma desordem mitológica reapaque faz lembrar uma bruma
artística. As personagens são recebidas constantemente nas narrativas de natureza histórica, e
encontram-se certos pormenores realistas em contos cuja beleza se centra no sobrenatural,
pois na mentalidade celta, irlandesa ou outra, não existem fronteiras entre o mundo visível e o
invisível. O sobrenatural, como o próprio nome indica, não é mais do que o natural, visto um
pouco mais de cima para que se possam observar as realidades escondidas. Neste caso, o real,
que serve de base a qualquer narrativa verossímil, aparece como transcendido, como um
autêntico surreal, um mundo do pensamento interior, à imagem do universo do sidh, ou seja,
do Outro Mundo, que, segundo a crença irlandesa, se encontra no interior de grandes túmulos
megalíticos onde vivem deuses e heróis. Estes túmulos abrem-se durante a festa de Samain
(noite de Toussaint), o que permite a intercomunicação entre os dois mundos. 0 que há de
mais natural? Não há maravilhoso na epopéia celta, apenas há fantástico. Com efeito, é o real
que, passando por sucessivas metamorfoses, se torna fantástico.
Comportamentos estranhos, cenários surrealistas, desordem do conteúdo e da forma, são
algumas características da epopéia primitiva dos celtas, em particular da que os gaélicos da
Irlanda quiseram transmitir a posteridade. Esta desordem não pode deixar de surpreender
quem vive ainda à sombra - e ao abrigo - da tranqüilizante lógica aristotélica buscada no
verdadeiro e no falso. Mas os celtas nunca conheceram Aristóteles nem quiseram alguma vez
obedecer aos seus apelos ao senso comum, tendo preferido permanecer na dialética pré-
socrática anterior ao milagre grego, e defender, como o fez Heráclito, que «os mesmos
caminhos que fazem subir fazem também descer». Não é um paradoxo, mas uma pura verdade
lógica demonstrar que qualquer juízo humano depende do seu sistema de referência, por
outras palavras, da polaridade da ação, tudo dependendo do que se entende por «alto» e por
«baixo». Além disso, os latinos, apesar de considerados lógicos, empregavam o mesmo termo,
altus, para classificar a altura e a profundidade, o que parece ter caído no esquecimento.
Quanto à desordem surpreendente da epopéia celta, esta não passa de uma aparência
enganadora: os poetas e os contadores irlandeses sabiam muito bem o que estavam a fazer,
pois alguns deles reconstituíram o plano de conjunto a partir de contos mitológicos
desordenados ou em forma de fragmentos, procedendo assim do mesmo modo que um
Chrétien de Troyes e outros autores franceses da Idade Média que, através de contos
arturianos aparentemente desprovidos de continuidade, escreveram e prolongaram a grande
epopéia do Graal e da Távola Redonda. Com efeito, as epopéias irlandesas formam um ciclo
perfeitamente coerente que, não sendo sempre de fácil discernimento, aparece, no entanto
como um esquema de um extraordinário rigor.
Deste modo, foi redigido antes do ano 1168 o célebre Livro das Conquistas (Leabhar
Gabala), que é uma espécie de compilação de contos mitológicos ligados aos sucessivos
povoamentos da Irlanda, desde as origens até ao advento do cristianismo. Sabe-se atualmente
que na origem desse livro está a escrita em prosa de um cicio de poemas pretensamente
históricos atribuídos a um certo Gilla Caemain, que morreu em 1097 e cuja obra está hoje
perdida. Mas, tal como se encontra, representando o meio intelectual do século XII e tendo a
preocupação de provar uma identidade gaélica face à invasão anglo-Dorrn anda, esta obra é de
um valor imenso pois permite que se tenha uma idéia mais aproximada do encadeamento das
diversas narrativas cujo objetivo era refazer a história da Irlanda de modo a acentuar~lhe a
especificidade e o valor. Assim se explica que apareçam diversas referências bíblicas, sentindo
os irlandeses a necessidade de se agarrarem a uma filiação honrada e quase dividida com os
romanos na fábula de Eneida, filho de na, como tinha acontece que Vênus, e como ocorreu
também na mesma época com os bretões insulares que, pela pena de Geoffroy de Morrinouth,
afirmaram que o seu antepassado epônimo Brutus era um descendente de Eneida, e por isso
de essência troiana e divina. Como é evidente tomavam-se os desejos por realidades, ao
mesmo tempo em que se conciliava a tradição druídica pagã com a tradição judaico-cristã
passando pelo Egito e pela Grécia. O mesmo acontecerá alguns séculos mais tarde com a
História da Irlanda de Geoffroy Keating que, escrita cerca de 1640 e retomada em diversos
manuscritos, só foi impressa em 1723 através de uma tradução inglesa. Tanto o Livro das
Conquistas como a História da Irlanda estão repletos de testemunhos da antiga epopéia celta,
que desafia o tempo e o espaço.
Sendo verdade que estes manuscritos não apresentam a realidade histórica, não deixa de o ser
também que contêm numerosos elementos filosóficos e metafísicos, assim como reflexões
sociológicas, que os antropólogos modernos não desdenhariam. Assim, a enumeração e as
características dos diversos povos que ocuparam a Ilha Verde - Ou seja, a Irlanda - desde o
dilúvio são muito esclarecedoras. os primeiros invasores, a tribo de Partholon, são de um tipo
que se pode classificar como vegetativo, preocupando-se unicamente em sobreviver, abrigar-se
e procriar, imagem esta que corresponde, numa perspectiva simbólica, ao que existe de mais
primário na civilização, Os segundos invasores são membros da tribo de Nemed: ora, o nome
nemed significa «sagrado», o que indica desde logo, claramente, uma reflexão metafísica ou
religiosa numa sociedade que até então só tinha preocupações materiais. Os terceiros invasores
são os Fir Bolg: também neste caso o nome é significativo, pois fir quer dizer «homens» (vide o
latim vir) e bolg tem uma raiz indo-européia que também deu em latim: fulgur, «trovão»”.
Como é óbvio, os Fir Bolg são sobre tudo ferreiros, mestres do fogo e inventores de técnicas
artesanais novas, destinadas à guerra ou a trabalhos agrícolas.
Os quartos invasores da Irlanda são os famosos Tuatha Dê Danann, as «Tribos da deusa
Dana», deusa-mãe cujo nome está associado a numerosos termos vizinhos do Médio Oriente,
em particular Tana:it, ou também Anáta, assim como a rios como o Don e o Dantibio (Tanaüs).
Segundo a tradição, essas tribos vieram «das ilhas do norte do mundo», tendo introduzido na
Irlanda a ciência, a magia e o druidismo. Elas são por isso detentoras de uma sociedade
fortemente hierarquizada à maneira indo-européia, baseada em princípios mais ou menos
teocráticos e onde predominam uma organização sacerdotal. Além disso, os heróis dos Tuatha
De Danann são as antigas divindades do druidismo celta triunfante.
Os quintos conquistadores da lha Verde são chamados, nas narrativas, «Os filhos de Milé», ou
os «milesianos», surgindo do Oriente e passando por Espanha. Correspondem precisamente
aos Gaélicos e representam a sociedade irlandesa tradicional, tal como a descobriram os
primeiros missionários cristãos, e tal como ela era ainda quando da chegada dos Anglo-
Normandos de Henrique Plantageneta, apesar de uma cristianização que tentara substituir os
druidas pelos padres, os abades e os bispos junto dos chefes dos clãs e das tribos. Esta invasão
dos milesianos corresponde ao nascimento duma sociedade baseada no equilíbrio entre as duas
forças que a compõem, a política (os gaélicos) e a religiosa (os druidas, portanto os Tuatha De
Danann). Esse equilíbrio deriva de, após o triunfo dos Filhos de Milé sobre os Tuatha, estes não
se terem deixado eliminar e, segundo um acordo solene, terem ficado na posse dos túmulos e
das ilhas maravilhosas que rodeiam - miticamente - a Irlanda, enquanto os gaélicos ocuparam a
superfície da ilha. Graças à Incontornável colaboração entre o druida e o rei, absolutamente
indispensável para que qualquer grupo possa subsistir, a estrutura da sociedade celta é um
verdadeiro modelo de harmonia entre o mundo visível e o invisível.
Além disso, a sociedade descrita na epopéia é compósita: por muito que os Tuattia sejam tanto
criaturas feéricas (como divinas, misturam-se com os seres humanos intervindo nos seus
assuntos. Acontece também que os elementos originários da tribo de Nemed e dos Fir Bolg
estão sempre presentes. E toda esta gente se vê constantemente confrontada com um
misterioso povo, o dos Fomore, seres gigantes que, habitando em ilhas longínquas, têm
numerosos pontos em comum com os ciclopes da tradição helênica e os gigantes da mitologia
germano-escandinava. Tal como eles provocam freqüentes distúrbios e atacam sempre que há
uma vaga de conquistadores da Ilha Verde, simbolizando, como é evidente, as forças obscuras
do inconsciente, os poderes da destruição e do caos que devem ser constantemente
combatidas para assegurar não apenas o equilíbrio mas também a sobrevivência de uma
sociedade dita civilizada.
Com efeito, os confrontos são constantes. Nada é definitivo, e o retomar dos problemas gerais
processa-se ao ritmo das estações e dos dias. Durante largos períodos de adormecimento, a
tensão vai-se acumulando, cresce. Exacerba-se e acaba por se manifestar, ocorrendo então as
guerras, as aventuras expedicionárias, os acontecimentos imprevistos. Ora, estas crises não são
fruto do acaso nas narrativas épicas, podendo constatar-se que elas coincidem sempre com
uma data essencial do calendário celta, o que demonstra que de certo modo se trata de rituais
realizados segundo um plano bem determinado e com um significado profundo. As invasões,
por exemplo, encontram-se sempre datadas à volta do P de Maio, e as guerras, no decurso das
quais morre um rei, ocorrem à volta do 1º de Novembro. O conjunto obedece a um esquema
superior que os múltiplos autores das narrativas épicas conheciam perfeitamente, o que faz
supor que o corpus da epopéia celta da Irlanda exprimia a tradição mais antiga e mais
específica dos povos celtas originais que sobreviveram a todas as migrações e a todas as
vicissitudes”.
Sabe-se, com efeito, que o calendário dos celtas estava ordenado segundo um eixo
fundamental que Ia da festa de Samain (1º de Novembro) à da Beltane (10 de Maio)”’, ou seja,
guiava-se em função da entrada e saída do Inverno. A datação das invasões no fim do Inverno
e no começo da estação estival corresponde portanto a uma realidade simbólica, tratando-se de
um novo princípio, de um novo nascimento, de um novo ciclo. Quanto à morte de um rei no
início do Inverno, não há aqui senão a constatação de um certo adormecimento, de uma
interrupção das atividades da função real, guerreira e pastoral, sendo esta última
particularmente importante no caso da Irlanda, pois a Ilha Verde foi sempre e continua a ser o
país por excelência da criação de gado, o que explica que a estrutura social dos gaélicos
estivesse profundamente dependente da criação de gado, a única verdadeira riqueza destes
povos ainda marcados pelo nomadismo e cujas fronteiras jamais ultrapassavam os territórios do
rei, ou, dito de outro modo, a sua prosperidade dependia de poderem contar com a proteção
do rei na sua atividade pastoril. Este é um dado muito importante a ter conta se quer
compreender, na sua expressão irlandesa, o sentido profundo da epopéia celta.
Há, por conseguinte, nesta grande quantidade de narrativas aparentemente independentes
uma coerência que deixa supor um conjunto de situações regidas pelos costumes e as crenças
dos antigos celtas. Uma comparação se impõe desde logo, mesmo que pareça paradoxal: as
diversas narrativas recolhidas nos manuscritos irlandeses formam uma verdadeira saga (termo
que costuma estar reservado as homóIogas escandinavas), análoga à que Hortoré de BaIzac
tentou fazer ao compor os múltiplos episódios autônomos da Comédia Humana. Com efeito,
nestes últimos encontra-se de tudo um pouco: fragmentos da vida quotidiana, lutas
intermináveis pelo poder, a voracidade de tubarões de dentes afiados, o sacrifício de inocentes,
histórias de amor de partir corações, assassínios, barbáries, proezas heróicas, delírios poéticos
ou proféticos, e ainda muitos outros elementos que são comuns à antiga epopéia celta, assim
como ao gemo romanesco muitas vezes inspirado pelas vozes do invisível.
É um fato inegável que a saga romanesca de BaIzac se alimenta inconscientemente de mitos
existentes na sociedade da primeira metade do século XIX. As personagens que encontramos
na Comédia Humana e que vão aparecendo, aparentemente em desordem, nos diversos
trechos narrativos, são absolutamente indispensáveis para a coerência do plano de conjunto
que foi idealizado pelo seu autor. Todas elas representam arquétipos, e facilmente poderíamos
identificá-los com certos heróis, não só da epopéia celta da Irlanda, mas também da epopéia
humana em geral. 0 ingênuo, mas poderoso Rastignac tem o seu correspondente irlandês em
Lug do Braço Longo e no seu prolongamento humanizado Cúchulainn; o tímido Rubempré
encontra-se na tocante personagem de Dermot (Diarmaid), e a pobre Esther Gobseck na de
Déirdré, tão exaltada por John Millington Syngee é a imagem perfeita da Irlanda oprimida e
martirizada. Quanto a Vautrin, ser proteiforme, é o Thersite grego, o Lõki germano-escandinavo
e o Bricriu irlandês, ou seja, uma das imagens fundadoras do Diabo medieval, o próprio símbolo
do Tentador que, para melhor semear a discórdia, se mascara com as feições benevolentes do
deus Ogina da palavra dourada, ou então com as feições dum estranho Côroi mac Dacré que
muda de forma e de aspecto sempre que quer enganar um rival. Honoré de BaIzac não
conhecia rigorosamente nada das lendas irlandesas, mas o gênio de um artista de qualquer
época traduz-se em encontrar através da sua criação própria os grandes mitos fundadores da
humanidade, os mitos imperecíveis que moldam a estrutura de um pensamento humano e que
se manifestam através de imagens e de símbolos que remontam à noite dos tempos. Além do
seu exemplo, outros poderiam ser aqui referidos.
Passando adiante, refira-se que do conjunto de episódios preciosamente recolhidos pelos
transcritores irlandeses, saíram várias personagens com características bem vincadas, com um
profundo valor simbólico, e com o seu lugar na sociedade irlandesa e na estrutura mental dos
celtas. O mínimo que se pode dizer é que elas são «cheias de cor» e inesquecíveis, tão forte é o
poder de evocação que exercem sobre o imaginário. Apeteceria chamar-lhes «divinas», se este
epíteto tivesse um verdadeiro significado no espírito dos contadores: na verdade tudo leva a
crer que os druidas professavam a existência de um deus único, incomunicável e inominável, ao
qual por vezes era dada uma aparência humana para que pudesse ser inteligível. Com efeito, as
personagens «divinas» que deambulam pelas epopéias celtas não passam de funções divinas
materializadas, concretizadas e encarnadas por seres que, apesar de terem características
perfeitamente humanas, são dotadas de poderes sobrenaturais ou mágicos, trata~se de
homens e mulheres que, por natureza ou graças a uma paciente iniciação, atingiram um grau
muito elevado de sabedoria e de poder assimilando funções divinas de que são agentes e
donos.
Quer isto dizer que essas personagens diferem profundamente dos «atores» da epopéia grega,
deuses ou semideuses, que, classificados a título definitivo como imortais, se sobrepõem à ação
humana, dominando-a, ou mesmo contrariando-a sempre que ela desafia os limites impostos
pelo Destino. Os deuses gregos são polícias e censores encarregados de manter a ordem numa
sociedade ideal onde cada pessoa tem um lugar definitivo. Os pretensos deuses celtas são
treinadores que mostram ao conjunto dos seres humanos como se transforma um mundo que
ainda mal saiu do caos e se o leva a um estado de perfeição. Esta atitude metafísica encontra-
se nos mais pequenos pormenores da epopéia e, graças a eles, respira-se uma esperança e
uma serenidade que fazem com que cada pessoa encontre o caminho para o pedaço de infinito
que lhe coube.
Acontece na verdade que os heróis, em algumas peripécias em que se enredam, estão
constantemente nas fronteiras do real e prontos a envolverem-se com um além, sendo a
atmosfera essencialmente sagrada, embora permeada aqui e ali por alguns elementos realistas.
É absolutamente verossímil que estas narrativas, independentemente da forma em que
chegaram até Dós, sejam a expressão narrativa, de algum modo romanesca, de antigos rituais
religiosos, de velhos dramas litúrgicos que, entretanto se perderam e nos quais cada
personagem era um sacerdote, um druida e portanto um deus, ou então aspirava a sê-lo; os
atos são às vezes orações mais eficazes que as palavras, sobretudo quando estas são
pronunciadas de tal maneira que mal se compreende o seu sentido. A regra absoluta é por isso
a superação, pois na perspectiva celta que encontramos nos textos, Deus não é, mas
transforma -se, participando todos o seres nesta transformação.
Estes seres comportam por isso diversas facetas, não sendo bons nem maus: eles serão. Os
seus nomes pouco importam, pois se trocam entre si; também pouco importa as suas ações
aparentemente vis, pois pertencem à sua massa bruta. Eles serão heróis com o seu lugar na
subtil e complexa liturgia que decorre no mundo desde que apareceu o primeiro ser vivo. 0 jogo
começa.
Assim se encontram as personagens na abertura da cena, ou melhor, nos primeiros degraus do
santuário. Na tragédia antiga era o coro que, apresentando os heróis, abria o ritual. Neste caso,
uma testemunha vem contar o que viu, pois qualquer narrativa histórica deve ser Justificada
por uma tradição autêntica ou tida como tal. Aqui a testemunha é uni homem estranho, Tuân
mac Cairill, acerca do qual se diz ter vivido várias vidas desde a época do dilúvio tomando
diversas aparencias. Em narrativas análogas, substitui-o um certo Fintan, filho de Boclira e
descendente de Noé. Pouco importa: era necessária uma testemunha fidedigna e encontrou-se
uma. Além disso, como estas histórias foram redigidas na era cristã, impunha-se a caução da
nova religião: esta caução encarna no monge São Firmen a quem Tuân vai contar o que sabe
ou, noutra versão, no célebre santo Colum-Cill (Colomba). Além disso, mais tarde, quando se
tratou de transcrever a grande epopéia dos Fiana à volta de Finn e de Oisin (Ossían), foi o
próprio São Patrício, o grande evangelizador da Irlanda, que veio a evocar a grande sombra do
herói Caílté, um dos companheiros de Finn, para lhe contar as aventuras de que ele foi ao
mesmo tempo testemunha e ator. Acontece, porém, que Cailté tem uma dimensão humana
normal e viveu apenas uma vida. Uan mac Cairill tem um aspecto mais mágico, roçando as
fronteiras do sobrenatural, fazendo lembrar o bardo galês Taliesin que, ao nascer uma segunda
vez, adquiriu um conhecimento supremo, e lembrando também Merlin, o Encantador, da lenda
arturiana, filho de um diabo, mestre da magia e da profecia, que, segundo os próprios textos,
confia ao eremita Blaise a missão de passar para a escrita as aventuras do Santo Graal, de
forma a chegarem à posteridade.
Este procedimento permite recuar no tempo e tirar da sombra grandes figuras que vão cumprir
o ritual, «recuperando-se» os antepassados míticos, como Partholon, o primeiro invasor de uma
Irlanda completamente deserta a seguir ao dilúvio, como Nemed, o primeiro sacralizador da
terra da Ilha Verde, ou como os invasores sucessivos, até ao famoso Tuhatha Dê Danann, que
são verdadeiramente heróis civilizadores e os pilares da sociedade celta teórica, Na verdade,
estas figuras míticas estão organizadas e hierarquizadas segundo o modelo sócio-cultural indo-
europeu, servindo de fio condutor a tudo o que foi edificado na Irlanda e desejando conservar,
apesar da ocupação anglo-normanda, a memória dos velhos gaélicos, depositários de toda uma
tradição de sabedoria e de concepção do mundo.
É assim que surge a figura hierática de Nuada, rei das tribos da deusa Dana, ponto de equilíbrio
desta sociedade ideal, e que num certo sentido se poderia comparar ao Zeus grego e ao Júpiter
romano. Nuada evoca também o Tyrr germano-escandinavo (e a personagem pseudo-histórica
latina Mucius Scaevola), pois perde um braço durante uma batalha. Na tradição germano-
escandinava (como na tradição latina), a «mutilação» deriva de um juramento simulado
pronunciado com plena consciência para proteger o mundo divino, mas na tradição celta trata-
se antes de uma ferida heróica. 0 problema, no caso dos celtas, consiste em que a integridade
física do rei anda a par da sua integridade moral: um rei doente ou mutilado não pode reinar,
pois se o fizesse o seu próprio reino estaria doente ou mutilado, devido a ambos constituírem
uma unidade. Contudo, como entre os celtas as fronteiras do real não são claras, há sempre
uma maneira de inverter uma situação catastrófica, bastando um braço de prata para que
Nuada readquira a plenitude das suas funções reais. Assim, ele poderá nominalmente levar à
vitória as tribos da deusa Dana contra as forças obscuras - e obscurantistas - representadas
pelos Fomore, os demônios de um olho único e maléfico que têm por chefe o gigante Balor, o
trovejador.
Entretanto, a sociedade representada pelos Tuatha Dê Danam está constituída de forma a
refletir a sociedade humana, agrupando, por vezes de forma elitista e aristocrática, um certo
número de indivíduos que tanto representam arquétipos de funções sociais, como são de
alguma forma especialistas duma arte (podendo esta palavra significar também técnica). 0 rei
Nuada acaba por ser o eixo de um mecanismo complexo que só pode funcionar se cada peça
estiver no seu lugar. Um rei que não esteja acompanhado de guerreiros, de artesãos, de
«sábios», de sacerdotes, de mágicos e de poetas, não possui nenhuma relevância.’Que seria do
fabuloso rei Artur sem os seus cavaleiros e sem o seu adivinho? 0 mesmo acontece com Nuada.
À sua volta encontramos personagens como Ogrua, o mestre da palavra - aquele Ogrulos que o
filósofo grego ético Luciano de Samosata descreveu com correntes que, saindo da língua,
chegavam às orelhas dos humanos - o artífice do bronze Credne, o ferreiro Goibniu, o médico
Diancecht e muitos outros artistas que participam numa espécie de conferência onde cada um
tem voto na matéria. De entre eles destaca-se a grande figura de Dágda, cujo nome significa
literalmente «bom deus», e que tem como apelido Ollathair, isto é, «pai de todos».
Este apelido é precisamente o epíteto de Odin-Wotan, Affiadir, mas Dagda, ao que parece,
apenas tem em comum com o deus germano-escandinavo uma certa ambiguidade do carácter.
Do mesmo modo que Odin-Wotan é o deus dos contratos e não pára de troçar deles, Dagda,
enquanto «bom deus», possui uma moca muito estranha que mata com uma das suas
extremidades e ressuscita com a outra. Não será ele o equivalente do deus gaulês Sucellos, que
estava sempre armado com um martelo e cujo nome significa «aquele que bate»? Ou tratar-se-
á de Teutates, ou Toutatis, o «pai do povo»? Seja como for, à medida que, com os séculos, ele
se foi «folclorizando», transformou-se no Gargantua da tradição francesa, que Rabelais tão bem
soube recuperar e revalorizar. Trata-se, com efeito, de um gigante dotado de uma potência
sexual fora do comum e de um apetite voraz. Além disso, possui um caldeirão maravilhoso, um
dos arquétipos do Graal, no qual verte um alimento inesgotável. Mas ele é também um artista
no sentido que atualmente se dá à palavra, pois consegue extrair da sua harpa sons que fazem
chorar e mesmo morrer, que provocam alegria e riso, ou que adormecem quem quer que os
ouça.
E, como Dagda é o «pai de todos», possui diversos filhos, com quem tem um relacionamento
de contornos muito pouco claros. Da sua irmã - ou filha - Boann, epónimo do rio Boyne, ele
tem, após manobras perfeitamente delatórias, um filho que se chamará Oengus (Angus) e cujo
apelido será Mac Oc, ou seja, «jovem filho». Oengus é uma das personagens mais célebres da
tradição gaélica e uma das que mais se enraizou na memória popular. Rei feérico, ele é o
senhor do cairn (megalítico mais famoso do mundo, o de Newgrange - em gaélico, Sidh-na-
Brug ou Brug-na-Boyne), que serviu de inspiração às grandes lendas da tradição épica
irlandesa. E se Oengus tem uma essência divina, não deixa por isso de se vir misturar com os
humanos, intrometendo-se nos seus jogos, nos seus assuntos e nas suas batalhas. Alguns
contos populares descrevem-no como estando sempre escondido no meio do arvoredo, pronto
a intervir no caso de a ordem do mundo ser alterada. Este «jovem filho» é, em suma, uma
espécie de consciência universal, sempre latente no espírito humano e capaz de se manifestar
tanto para operar grandes milagres como para infligir os piores castigos.
Todos estes extraordinários membros das tribos da deusa Dana formam uma espécie de
sociedade ideal onde predominam as estruturas celtas. Cada um deles é «rei» nos seus
domínios, «reina» sobre um co. As antas ou dólmenes estavam normalmente inscritas num
cairn. Estes montículos ou outeiros artificiais tão são designados por tumulus. palácio
maravilhoso, ou sobre um outeiro megalítico; entre eles existem laços que tanto podem ser de
aliança pura e simples, como familiares ou meramente contratuais. Após a batalha de Tailtiu e
a partilha da Irlanda com os milesianos, foi Dagda que, na hierarquia, ocupou o lugar cimeiro,
como se fosse o rei supremo possuidor de uma autoridade moral incontestável e de poderes
para exercer a justiça. Esta proeminência encontramo-la também na personagem de
ManaDann, filho de Lir, epónimo da Ilha de Man: este reina sobre a misteriosa «Terra da
promessa», que também se chama Tir-na-nOg ou «País da Eterna Juventude», que é na
verdade uma espécie de paraíso situado algures em ilhas longínquas, a ocidente,
evidentemente, ilhas estranhas com uma vegetação maravilhosa e com grandes espaços
conhecidos pelo nome de Mag Mell ou «Planície das Fadas». Acontece entretanto que estes
domínios estão situados sob um lago, e às vezes mesmo sob o mar: o Outro Mundo, para os
celtas, está sempre muito próximo do mundo dos vivos, que nele podem penetrar. No que
respeita às «boas gentes», termo popular que se refere aos seres feéricos, deambulam pelo
mundo humano sem quaisquer problemas, possuindo o dom da invisibilidade e podendo
assumir um aspecto humano sempre que o desejem; pode também tomar a forma de aves, o
que acontece sobre tudo quando se trata de mulheres.
Entre todas estas personagens, Dagda, Mider, Oengus, Mananann e muitos outras, há uma que
é muito particular e que escapa a qualquer hierarquia: Lug, ao qual estão associados dois
epítetos, Lanifada, isto é, «braço longo», e Samildanach, «artesão múltiplo». Lug constitui a
figura da divindade celta mais difundida, não apenas na Irlanda, mas em todo o continente
europeu, devendo-se a ele o nome de várias cidades, como Lyon, Laon, Loudun, Leyde e
Leipzig, que derivam da antiga designação lugudunum, «fortaleza de Lug». É a ele que se
refere Júlio César, nos seus Comentários, quando menciona um Mercúrio gaulês, fazendo notar
que se trata do deus mais venerado de toda a Gália. A sua origem é dupla: ele pertence ao
ramo dos Tuatha Dê Danann pelo lado do pai, e ao dos Fomore pelo lado materno, o que faz
com que só ele seja capaz, na segunda batalha de Mag-Tured (Moytura), de enfrentar o avô,
Balor, de olho malévolo, e de o matar. Além disso, sem que ocupe nenhum lugar na hierarquia,
ele é o organizador por excelência e o artesão da vitória final nesta batalha. Isto deve-se ao
fato de ele ser um deus para além de todas as funções, reunindo o conjunto das qualidades
que se encontram nos outros deuses; ele é na verdade o «Múltiplo artesão», tal como o será
mais tarde, na lenda arturiana, Lancelote do Lago, que e a sua imagem heroicizada e tomada
romanesca.
Na epopéia celta encontram-se personagens femininas que nada ficam a dever aos homens.
Segundo a tradição, a Irlanda era habitada, antes do dilúvio, por uma mulher primordial de
nome Cessair; e a própria Irlanda se tornou uma entidade divina ou feérica, Bariba, a qual,
segundo algumas versões da lenda, teria sobrevivido ao dilúvio, assegurando assim a
perenidade da terra situada nos confins do real. Foi também uma mulher, a filha do deus-
médico Dianceclit, que, graças à sua ciência e magia, devolveu o poder real ao Nuada vencido,
fabricando-lhe um braço de prata tão eficaz e vivo como o seu braço de carne, e fazendo-lhe
um «implante» graças a uma extraordinária «operação» cirúrgica. Acontece, com efeito, que,
na perspectiva celta, as mulheres são dotadas de poderes ignorados pelos homens. A mulher é
sempre a imagem simbólica da Soberania, pois encarna o conjunto da comunidade da qual o rei
- acessoriamente o niarido - é a trave mestra teórica, um pouco como acontece no jogo de
xadrez em que a rainha é a peça de maior mobilidade, mas onde o rei é uma peça fundamental
sem a qual se perde a partida. Nas narrativas épicas aparecem também mulheres mágicas, e
freqüentemente feiticeiras, como Funinach, primeira esposa de Mider, inimiga jurada da bela
Etame, e mais tarde mulheres-guerreiras iniciadoras dos jovens e temíveis sacerdotisas
especialistas em manipular os sortilégios. Estas mulheres nunca deixam de viver em plenitude,
arcando com as conseqüências dos seus atos. Por muito conscientes que estejam do seu poder,
não esquecem que podem morrer de amor, estando sujeitas às circunstâncias que lhes
alimentou a paixão voraz e ilimitada e aos caprichos do fado, ou seja, à força de um Destino
desconhecido, mas imanente. E preciso não esquecer que a origem da história trágica de amor
de Tristão e Isolda, tão célebre no mundo ocidental e chegando a ser considerado o símbolo do
amor humano, está claramente inscrita na epopéia celta da Irlanda.

A característica mais saliente destas heroínas femininas épicas e apresentarem múltiplas


aparências, múltiplos rostos, múltiplos semblantes, geralmente três, tendo em consideração o
número simbólico sagrado dos Celtas, o qual tanto se apresenta com a forma de tríade como
de triskell, a tripla espiral que, girando à volta de um ponto central, simboliza por excelência o
universo em expansão. As heroínas aparecem por isso com inúmeras aparências e nomes, em
diferentes épocas e em encamações sucessivas.

1 . A este propósito, ver J. Markale, Lancelot et la Chevalerie arthurienne, Paris, Imago, 1985.

Refira-se em primeiro lugar a tripla Brigit, que se diz filha de Dagda (a não ser que ela não seja
sua irmã), e que vem a ser nem mais nem menos que a Minerva gaulesa de quem fala César,
deusa das técnicas, das ciências e das artes, que os cristãos recuperaram com o vocábulo
«santa» Brígida atribuindo-lhe a fundação do célebre mosteiro de Kildare, antigo lugar de
extrema importância do culto druidico. Ora, esta Brigit é também, com o nome de Boann, a
mãe de Oengus, o Mac Oc que concebeu e deu à luz durante o espaço temporal da noite de
Samain, ou seja, simbolicamente, durante a abolição do tempo, a eternidade. Brigit encama a
vida eterna, e o seu nome, derivado de Bo Vinda, «vaca branca», mostra bem até que ponto se
encontra associada a um alimento inesgotável, o leite, elemento indispensável aos povos
exclusivamente nômades e pastores, como era o caso dos celtas. A simbologia do seu nome
dará os seus frutos, e Boann toma-se o rio Boyne (grafia moderna) que fecunda com as suas
águas doces um vale verdejante ao redor do qual se situam os grandes outeiros feéricos, que
são domínio dos deuses. E se o nome Brigit (que significa «poderosa», «alta», «luminosa») é
extremamente significativo, Boann, representando a riqueza avaliada em cabeças de gado entre
os celtas, constitui a alma duma sociedade onde predominam claramente as tendências
ginecocráticas.

0 terceiro rosto de Brigit-Boann, o de Morrígane (genítívo de Morrigu), filha de Ernirias, uma


das personagens mais marcantes das tribos da deusa Dana, é de difícil apreensão devido aos
seus contornos pouco claros. 0 que nela melhor se evidencia, em particular na narrativa da
batalha de mag-Tured, é o fato de se tratar de uma divindade guerreira temível para os seus
inimigos durante os conflitos enquanto exortava os guerreiros a combaterem com
encamiçamento. O furor guerreiro de que ela dá provas abundantemente desdobra-se num
furor sexual desabrido que a transforma senão numa divindade do amor, ao menos numa
espécie de deusa do erotismo. A fúria guerreira e a sexual andam assim a par, e nos
prolongamentos da epopéia celta encontram-se numerosas mulheres guerreiras que têm
poderes mágicos e são especialistas na arte militar, ao mesmo tempo que são iniciadoras dos
futuros heróis, como é o caso, por exemplo, de CGchulainn ou de Finn mae Cool.

o nome de Morrigane (Morrigu) que significa «grande rainha», evoca o da «fada» Morgana das
novelas arturianas e do ciclo do Graal, tratando-se, em qualquer dos casos, do mesmo
arquétipo, ao mesmo tempo guerreiro, sexual e mágico. A Morrigane da epopeia irlandesa toma
muitas vezes o aspecto duma gralha, chamando-se então Bobdh. A analogia com Morgana é
evidente, pois ela e as suas companheiras da Ilha de Avalon possuem precisamente o mesmo
dom de se metamorfosearem. Além disso, é de crer que a mulher feérica que leva um ramo de
macieira de Emain ao herói Bran, filho de Fébal, antes de o levar a empreender uma estranha
navegação, seja a própria Morrigane, embora o seu nome não seja pronunciado neste episódio.
Porque não havia de reinar a «grande rainha» nesta terra bem aventurada de frutos maduros
durante todo o ano e onde não existem a doença, a velhice e a morte? Seja como for, a ilha
misteriosa de Emam Ablach é o equivalente, quer lingüístico quer mitológico, da ilha de Avalon,
a fabulosa Insula Pornorum para a qual convergem todos os fantasmas da humanidade
sofredora.

Morrigane é bem o tipo de mulher celta vista pelos autores das epopéias mitológicas; e, muitas
vezes, vamos encontrar este tipo nas personagens femininas que, na fronteira entre o humano
e o feérico, possuem dons mais ou menos sobrenaturais e o poderoso geis, ou seja, o poder do
encantamento mágico que tem o valor de obrigação absoluta para aquele ou aquela que dela é
objecto. 0 belo Dermot, filho de O’Duibhné, um dos companheiros de Finn mac Cool, conhecerá
bem esse fenômeno, pois subjuga o geis da bela Grairiné (Grania), perdidamente apaixonada
por ele. Os filtros do amor pouco podem fazer face ao encantamento mágico e religioso que faz
intervir o mundo invisível e faz depender os atos humanos das divindades invisíveis. A jovem
Etaine, profundamente amada pelo sombrio deus Mider (que tem numerosos pontos em comum
com Méléagant de Chrétien de Troyes), não escapa também ao geís lançado pela sua rival
Furimach, e nada neste mundo a consegue poupar ao longo período de turbulências e depois
de metamorfoses que a afetarão profundamente. Apesar disso a aventura de Etaine e de Mider
é uma história de amor «normal», na mais bela tradição romântica. Na epopéia celta, no
entanto, o amor não é um sentimento isolado, fazendo parte das grandes mutações que se
operam no universo, tudo se dirige, por entre as diversas peripécias psicológicas, para uma
dimensão cósmica à qual ninguém consegue escapar. O que é posto em relevo é muito menos
a natureza fatal da paixão amorosa do que a sua necessidade metafísica. Acima de tudo,
procura transmitir-se a idéia de que, a existir um deus. ele só pode ser o amor, pois este
constrói o mundo, e a mulher, que é iniciadora por essência, é capaz de dar, com o seu amor,
um segundo nascimento, o nascimento na eternidade, àquele que escolheu amar.

Existe muito a idéia, formada ao longo dos tempos, de que a epopéia não deixa nenhum
espaço para a vida afetiva, para o estudo do comportamento psicológico dos heróis, cuja
descrição permanece demasiadas vezes ao nível do exterior, estereotipada segundo as normas
do gênero. Naturalmente, as personagens das epopéias são arquétipos carregados de
significação simbólica, mas não deixam por isso de ser dotadas de reações humanas e por isso
de vida interior. Naturalmente, há um aumento do que se chama qualidades, aumento que é
indispensável para se pôr em destaque as ações fora do comum. E verdade que existe também
uma simplificação destinada a inserir as personagens e as ações num determinado quadro
acessível a um público que não compreende a profundidade e as subtilezas da psicologia,
Apesar disso, não se deve esquecer que os heróis são humanos, mesmo quando são
apresentados como sobre-hinnanos. E tanto nas narrativas épicas da antiga Irlanda como nas
da antiga Bretanha, são seres humanos que descrevem outros seres humanos que, ao
atravessarem a vida, tanto passam por situações de incerteza, de angústia e de grande
sofrimento como, por outro lado, também são capazes de viver grandes alegrias e de desfrutar
de momentos de grande felicidade. O amor de Mider por Etam comove-nos porque se trata de
um amor que qualquer homem pode ter por uma mulher. O furor guerreiro com que Lug vinga
a morte do pai, não poupando os descendentes do seu assassino, é bem demonstrativo do
sofrimento que lhe provoca a injustiça de que o seu pai foi vítima. A estranha paixão de Oengus
pela mulher que entrevê através da neblina e o encantamento de Bran, filho de Fébal, quando
ouve a voz da rainha das fadas louvar-lhe os encantos da ilha bem aventurada, são
sentimentos perfeitamente humanos que qualquer pessoa poderia sentir,

É nessa universalidade dos sentimentos que se encontra a extraordinária riqueza destas


epopéias fragmentárias dispersas nos vários manuscritos da Idade Média, cujas linhas diretrizes
são agora fáceis de reconstituir. Para além de nos fazerem refletir, num plano metafísico, sobre
o mundo e sobre as relações entre o visível e o invisível, essas epopéias testemunham uma
sensibilidade que em nada é inferior àquela que o romantismo pretendeu inventar. Estas
diversas narrativas que nos chegam do passado têm um valor que vai muito para além de
serem um testemunho de um mundo imerso em sombras, pois nelas palpita a beleza de
histórias que devem ser transmitidas de geração em geração com a plena certeza de que nelas
o belo, a bondade e o salutar andam de mãos dadas. A árvore do conhecimento não poderá
apontar as suas ramagens frondosas para o céu se as suas raízes não estiverem ricamente
alimentadas pelas sombras que deambulam pela terra, como é o caso das dos fantasmas que
esperam desesperadamente pelo momento de encamarem. E só a poesia pode permitir que se
cumpra esta subtil operação alquímica.

Para que o objetivo se realize, toma~se necessário que se viaje para as estranhas fronteiras do
real, aí onde o sonho e a realidade formam duas vertentes duma mesma e única montanha.

Poul Fetan, 1997.

ADVERTENCIA

A narrativa que se segue não é uma tradução nem uma adaptação de textos originais, ainda
menos uma ficção romanesca inspirada por temas épicos. Trata-se da reescrita da grande
epopéia dos celtas tal como é possível reconstituí-la com o auxilio de múltiplas histórias
contidas nos manuscritos irlandeses da Idade Média, histórias que aparecem como sendo as
mais antigas conservadas da tradição celta. Esta reescrita obedece a dois imperativos: contar
com a máxima simplicidade possível, numa linguagem acessível ao maior número de pessoas, e
respeitar integralmente o esquema dramático original. E esse o motivo por que se fará, em
cada episódio, uma referência precisa ao texto que lhe serviu de base. As obras do passado
pertencem ao patrimônio da humanidade, mas torna-se necessário às vezes relembrá-las a um
Público novo. Era já essa a tarefa dos transcritores da Idade Média, que aqui volta a ser
proposta.
Naquele tempo, o abade Finnen”, na companhia de seis dos seus discípulos, percorria a terra
da Irlanda para ai pregar o Evangelho e batizar aqueles que ainda não tinham recebido o
batismo. Um dia acercou-se ele de uma fortaleza que se erguia numa margem, ao fundo de
uma baía, numa região muito isolada do UIster.l’1 Como ele e os seus companheiros estavam
cansados devido à longa viagem, pediram ao chefe da fortaleza que os acolhesse. Mas este
respondeu que de modo algum daria acolhimento a vagabundos que incitavam os homens da
Irlanda a abandonarem os seus antigos costumes.

Perante esta resposta, Finnen ficou furioso e, avançando para a porta da fortaleza, gritou: «Já
que é assim, já que te referes aos nossos antigos costumes, eu vou lançar uma maldição sobre
o dono deste edifício, assim como sobre todos os que nele habitam e toda a população deste
país! Por Deus Todo-poderoso, enquanto não me for feita justiça,

1 . Firmen, ou Fíman (às vezes conhecido por “São Finian, o Leproso”, é um dos inumeráveis
“santos” irlandeses que, sem serem reconhecidos por Roma, são geralmente considerados os
Primeiros evangelizadores da ilha Verde. Firmen passa por ter fundado o mosteiro de Mag Bile
no Ulster e o de Innisfalien na ilha do grande lago de Killarney, no Kerry, estando este último a
ilustrar os seus Anais, de valor inestimável para a história da alta Idade Média).

2. Trata-se da baía de Sheephaven, no condado de Donegal. No lugar da antiga fortaleza,


encontram-se ainda vestígios do castelo de Doe, construído no século XVI pela família dos Mae
Sweeney nada farei para evitar que a desgraça se abata sobre este país! Nem eu nem os meus
companheiros comeremos qualquer alimento enquanto não for satisfeito o nosso pedido de
hospitalidade. Se morremos, a culpa será de quem nos recusou alojamento e de todos aqueles
que o seguiram na sua detestável atitude. A vergonha abater-se-á sobre todos e terão de
expiar as culpas, estendendo-se o castigo pelos descendentes até à nona geração. É esse o
costume deste pais e eu juro que o farei cumprir até às últimas conseqüências!1’1

Após ter pronunciado estas palavras, Finnen voltou para perto dos seus companheiros e os sete
encaminharam-se para o prado existente em frente à fortaleza. Era um sábado de noite. Os
homens ficaram deitados sobre a erva durante a noite e uma boa parte da manhã seguinte até
que assomou sobre as suas cabeças um sujeito de compleição imponente, de cabelos brancos e
barba abundante, que, depois de os ter observado, se dirigiu a Finnen e se ajoelhou diante
dele. «Saúdo-te, homem de Deus! » disse ele. «Permite-me que faça frente ao desafio que
lançaste às gentes deste país e que, desse modo, não se possa dizer que o costume da
hospitalidade foi traído, recaindo a culpa sobre cada um de nós. Eu não moro longe, e pedi aos
meus criados que acendessem o lume para cozer os alimentos no meu caldeirão. Vem, homem
de Deus; tu e os teus companheiros terão uma acolhimento digno daquele que vos envia a
pregar a sua mensagem aos povos desta ilha.» Finnert ergueu-se e cumprimentou o velho.
«Quem és tu que me chamas homem de Deus? És tu também um homem de Deus ou vens
aqui só para me provocar em nome do Inimigo? - Eu recebi o baptismo em nome do Senhor, o
Deus Todo-poderoso, e foi Patrício que derramou sobre a minha cabeça a água da vida
eterna», respondeu o velho. «Peço-te que renuncies à maldição que lançaste às gentes deste
país e que venhas a minha casa descansar e procurar conforto». «Mas quem és tu?», insistiu
Finnen. «Um homem dos tempos antigos. Já há muito tempo que vim a este mundo, e é por
vontade de Deus que cheguei ao dia de hoje para estar diante de ti. Acho que isto te deve
bastar. Acompanha-me a minha casa.»

«Por Deus Todo-poderoso! », exclamou Finnen, «nem eu nem os outros.

1. Trata-se do famoso jejum legal, praticado freqüentemente pelos celtas e que consistia, para
o queixoso, em jejuar diante da parte adversária, revelando solenemente os motivos do
conflito. Se o que faz jejum morre, a responsabilidade recai sobre aquele que não reparou os
seus erros e que, por isso, é excluído da comunidade. Encontra-se aqui o mesmo princípio da
greve da fome ineus companheiros te acompanharemos se não nos disseres quem és.» «Nesse
caso ouve bem o que te digo. Nunca ninguém tinha desembarcado nesta ilha antes do dilúvio.
Conta-se, no entanto que, quarenta dias antes de as águas subirem, três mulheres aqui
estiveram, tendo o nome de Banba, FothIa e Eriu”), e diz-se também que elas sobreviveram à
inundação. Mas o que é certo é que esta ilha peri-naneceu deserta trezentos e doze anos
depois do dilúvio. Só nessa altura é que aqui chegou Partholon, filho de Sera, acompanhado de
vinte e quatro homens e das suas respectivas mulheres. E eu próprio estava entre esses vinte e
quatro homens.

«Partholon e o seu clã estabeleceram-se assim na Irlanda e aqui viveram muito tempo. A terra
era bela e fértil, com grandes prados onde os gados podiam pastar. E o país agradava-lhes,
porque nele podiam (2) prosperar tranqüilamente e sem o receio de animais venenosos. Mas
um dia, entre dois Domingos, uma epidemia abateu-se sobre a ilha e morreram todos os seus
habitantes. Entretanto, como nunca se ouviu falar de um desastre que não tivesse deixado ficar
ao menos um único sobrevivente para o contar, fiquei eu, a única testemunha dos dias antigos.

«Eu senti-me extremamente só e passei a deambular de colina em colina e de falésia em falésia


evitando os lobos que percorriam as planícies e as florestas. Errei assim ao acaso durante trinta
e dois anos sem encontrar vivalma. Por fim a velhice abateu-se sobre mim e os membros
começaram a pesar-me, ficando eu fraco e desamparado. Já não conseguia subir as colinas e a
certa altura, já não me conseguindo mexer, refugiei-me numa gruta à espera da morte.

«Lembro-me como se fosse hoje. Eu estava à entrada da gruta, meio deitado, quando vi chegar
Nemed, filho de Agnoman, seguido por vários homens e mulheres. Vi-os tomarem posse da ilha
e, quando chegaram à entrada da gruta, não me quis mostrar. Eu tinha deixado crescer os
cabelos, as minhas unhas estavam enormes, estava todo grisalho, decrépito e nu, tolhido pela
miséria e pelo sofrimento. Certa vez, depois de uma noite de sono, ao acordar numa manhã de
sol, apercebi-me de que tomara a forma de um veado, fato com que:

I- São os três nomes tradicionais (e mitológicos) da Irlanda personificada. 0 último tornou-se o


nome gaélico oficial da República da Irlanda, Eriu no nominativo e Erin no genitivo.

2. Não há serpentes na Irlanda. Este fenômeno deriva do fato geológico de a ilha se ter
separado do continente europeu e das Ilhas Britânicas antes da chegada dos animais dos países
temperados e quentes ao norte, no período pós-glaciar. Mas segundo uma lenda tradicional
irlandesa, São Patrício em pessoa terá caçado serpentes na ilha lançando-lhes uma maldição. O
meu espírito se alegrou, pois eu voltava a ser jovem.

«Revestido da minha forma animal, passei a tomar conta dos gados da Irlanda, vendo passar a
meu lado grupos de veados arruivados que corriam através de planícies e vales, e através de
montanhas até chegarem aos estuários dos rios. Foi essa a minha vida no tempo de Nemed. Os
do seu clã tomaram-se numerosos e chegaram a formar quatro mil e trinta casais. Mas as
gentes de Nemed tiveram de combater gigantes que vinham das ilhas imersas em nevoeiro e
aqueles que não se exilaram foram sucumbindo sucessivamente. Assim fiquei só, nesta ilha, a
tomar conta do numeroso gado, e tendo de me refugiar do vento que vinha do largo e da
chuva que me encharcava e me obrigava muitas vezes a esconder~me debaixo dos carvalhos
da floresta.

«E mais uma vez fiquei velho, com os membros entorpecidos. Eu sabia, no entanto que o meu
destino ainda não se cumprira, pois me faltava voltar ao UIster já que fora nessa região que eu
mudara de aspecto. Resolvi por isso refugiar-me numa gruta, não longe daqui, e ficar à espera
do que poderia acontecer de seguida. Foi nessa altura que assisti ao desembarque nesta terra
da Irlanda daqueles a quem se chama os Homens-Trovão. Eles eram muito numerosos e
ocuparam esta terra depois de terem feito frente aos gigantes das ilhas que queriam impedi-los
de aqui viver em paz. Assisti a terríveis perseguições nos vales e ao longo dos estuários, assim
como a combates mortais e a caçadas ao homem na floresta. Mas, por fim, os Homens-Trovão
acabaram por dominar este país. Em dada altura estava eu à entrada da minha caverna,
lembro-me disso como se fosse hoje, e o meu corpo voltou a mudar de aspecto, passando a ter
a forma de um javali. Consigo mesmo lembrar-me que entoei uma canção inspirado pela
maravilha que comigo ocorrera:

«Hoje, sou um javali,

Sou um reijorte e vitorioso.

O meu canto e as minhas Palavras eram agradáveis, outrora, nas assembléias,

Encantando os jovens e belas mulheres.

O meu carro de combate era belo e majestoso, a minha vó: emitia sons graves e doces,

Eu era hábil nos combates, tinha um rosto encantador.

Mas, hoje, sou wnjavali negro... »

«Ora, os Homens-Trovão foram vencidos por outras gentes que desembarcaram nesta terra na
noite anterior as calendas de Maio. Eu vi essas gentes Incendiarem os navios nas margens e
penetrarem nos vales; e vi-as combaterem os Homens-Trovão nas planícies. Pertenciam às
tribos da deusa Dana cuja origem, segundo se diz, é desconhecida. Mas é provável que eles
viessem do céu, pois tinham uma inteligência rara e os seus conhecimentos ultrapassavam
largamente os dos outros povos do universo.

«Mais uma vez fiquei velho, apoderando-se de mim a tristeza e a melancolia. Eu já não era
capaz de fazer o que fizera antes. Não me queria misturar com os outros e habitava em
cavernas sombrias e em covas que existiam entre os grandes rochedos. Eu fugia de tudo o que
mexia, fossem homens ou animais. Lembro-me agora perfeitamente de que me deitei ao
comprido no chão e de que passaram à minha frente as formas que já possuíra até então, o
que fez com que a minha tristeza aumentasse. Jejuei então durante três dias, ao fim dos quais
senti que já não tinha forças. Mas, sem disso me aperceber, tornei-me um pássaro, uma grande
águia do mar. Fiquei de novo alegre, por perceber que poderia percorrer incansavelmente os
céus desta ilha voando mesmo rente às nuvens. Foi assim que levantei vôo e que pude
testemunhar tudo o que se passava na Irlanda. E eu cantarolava estes versos:

«Águia do mar hoje,

já fui noutros tempos um javali.

Vivi antes entre varas de porcos selvagens, e eis-me agora entre bandos de pássaros... »

«Que história estranha me contas! », disse Finnen. «E como é possível que agora sejas um
homem como qualquer outro?» - «Os desígnios de Deus são insondáveis», respondeu o
velho, ,”pois o futuro a Ele pertence. Fica, contudo, a saber, que foi na forma de animais que
consegui sobreviver a todos os povos que invadiram esta ilha. Também assisti à chegada dos
Filhos de Milé e à sua luta contra as tribos da deusa Dana. Nessa altura tinha eu a forma de
pássaro e estava no buraco de uma árvore, junto ao rio.»

«Estive adormecido durante nove dias, ao fim dos quais acordei com o aspecto de um salmão.
Atirei-me então à água e comecei a nadar. Sentia-me bem, com muita energia, e saltei de
rocha em rocha em direção à nascente. Graças à minha habilidade, escapei durante muito
tempo a variados perigos, às redes de pesca dos pescadores, às garras das aves de rapina que
tentavam agarrar-me, aos dardos que os caçadores me atiravam, às lontras que me
perseguiam através da corrente.

«Mas, um dia, lembro-me muito bem, fui apanhado por um pescador, que me ofereceu como
presente à mulher de Caril I, o rei deste país. O cozinheiro meteu-me numa grelha, para me
cozer num fogo de ramos secos. A mulher do rei, ao passar perto, ficou cheia de vontade de
comer-me e devorou-me, passando eu a habitar no seu estômago. Lembro-me como se fosse
hoje, do tempo em que estive no estômago da mulher de Carifi. Lembro-me também de ter
nascido outra vez sob uma forma humana, graças à mulher de Carifi. Comecei então a falar
como os homens falam, e fui capaz de revelar tudo o que se tinha passado na Irlanda desde a
época do dilúvio. E foi depois do meu novo nascimento que me chamaram Tuân, filho de Caril
l».
«Muito bem», disse Finnen. «Agora podemos seguir-te até à tua casa, já que nos ofereces
hospitalidade para nos compensares da má conduta e da perversidade dos habitantes deste
país.»

Tuân, filho de Caril I, conduziu então Finnen e os seus discípulos à sua casa que se erguia
sobre uma colina de onde se avistava o estuário. Era uma casa real, cercada por um muro e por
uma paliçada, e guardada por alguns guerreiros armados. Tuân fez entrar os seus hóspedes,
mas quando quis dar-lhes de comer na sala dos festins, Finnen disse-lhe:

«Hoje é Domingo e ainda não prestamos homenagem ao Senhor. Não comeremos nem
beberemos absolutamente nada enquanto não tivermos cumprido o nosso dever.» «Não há
problema», respondeu Tuân, «há aqui um local para oração. Vem com os teus companheiros e
cumpram o vosso dever».

Quando Firmen e os seus companheiros acabaram de celebrar o ofício de Domingo, seguiram


Tuân até à sala de festins. Tuân pedira aos seus criados para cozerem os alimentos num
grande caldeirão, no fogo que se encontrava ateado a meio da sala. A volta havia juncos e
palha fresca. Finnen, os seus companheiros e Tuân, filho de Caril I, sentaram-se ao redor do
fogo.

«Tomai e saciai-vos», disse Tuân. «Por Deus Todo-poderoso! », gritou Finnen, «Nós não
comemos nenhum alimento nem tomamos nenhuma bebida enquanto tu não começares a
contar-nos o que aconteceu nesta ilha a seguir ao dilúvio. Sê um bom anfitrião e diz-nos o que
sabes, para que possamos apreciar a tua generosidade ao mesmo tempo Ilharemos contigo o
que tu 1 que parte sabes acerca da história do mundo.» «Com todo o prazer», respondeu
Tuân.

O anfitrião começou então a narrar as cinco invasões que a Irlanda sofrera desde os tempos
distantes do dilúvio. E, enquanto os seus hóspedes comiam e bebiam, o homem dos tempos
antigos falava. Os discípulos de Firmen ouviam o que ele dizia. Foram estes que, mais tarde,
contaram tudo o que ouviram aos seus próprios discípulos, os quais transmitiram a mensagem
a novos discípulos e assim por diante. E é assim que, graças a Tuân, filho de Caril I, e também
ao abade Firmen, nós conhecemos a grande epopéia dos celtas.(’)

1Segundo a narrativa do Rawlinson B. 512, publicada com tradução inglesa de Kuno Nleyer,
The Voyage of Bran, Londres, 1987. Outra versão, a do Leabhar na hUidré, foi traduzida Para
francês por Ch.-J. Guyonvarc’h, Textos mitológicos irlandeses, Rennes, 1980.

Capítulo 10

Depois de terem sido expulsos do Jardim do Éden, Adão e a sua companheira Havali, ou seja,
Eva, erraram por muito tempo pela terra em busca de um lugar que os pudesse proteger do
calor ardente e do frio cortante. Com eles levavam uma pedra verde caída do céu”’ e um ramo
da Árvore da Vida. Assim que encontraram um lugar propício, aí construíram uma cabana com
pedras e pedaços de argila, e Havah cravou no solo o ramo da Árvore da Vida. Passaram a
viver na cabana, criaram gado, cultivaram trigo, plantaram vinhas. E tiveram uma numerosa
descendência que se espalhou por toda a terra, chegando às regiões mais longínquas e às
margens do grande oceano que rodeia o mundo.

Ora, entre os filhos dos filhos de Adão e da sua companheira Havali, contavam-se diversas
filhas. E estas filhas ocuparam as planícies e os vales da terra e chegaram às margens do
grande oceano. Ora, estas filhas eram muito belas, e os filhos de Deus que, descendo da
profundeza dos céus, vinham contemplar a terra, observaram-nas e ficaram seduzidos por elas.
Aproximaram-se então e uniram-se a elas, fazendo com que, em breve, das filhas de Adão
nascessem crianças de grande estatura. Estes gigantes, por seu turno, uniram-se a outras filhas
de Adão e engendraram novos gigantes. E, assim sucessivamente, sucederam-se diversas
gerações de gigantes que se espalharam por toda a terra.

I- Isto faz lembrar a esmeralda de Lúcifer que se transformará no Santo Graal numa
versão gnóstica da lenda.
II- Nessa altura, Deus compreendeu que o mal provocado por Adão ia arruinar toda a
sua criação. Triste com esse fato e arrependido por ter dado vida a Adão e à sua
companheira Havali, resolveu então acabar com as criaturas que o ultrajavam,
poupando a vida apenas a um homem com quem simpatizava: Noé, um homem justo
que venerava o Eterno. Deus preveniu-o de que iria fazer chover sobre a terra
durante quarenta dias e quarenta noites para destruir o que havia de mal na criação.
E ordenou-lhe que construísse uma arca, que nela embarcasse um casal de cada
espécie animal que habitava na terra, nos ares e nos oceanos, e que depois nela se
refugiasse com toda a sua família, pois graças a ele sobreviveria o que havia de
melhor na criação.

Então, Noé construiu um barco e reuniu tudo o que deveria ficar a salvo da cólera de Deus. Os
Livros dizem que Noé tinha três filhos, Sem, Cham e Japliet. Mas os Livros não dizem que ele
tinha um quarto filho, de nome Bith, e que este filho tinha uma filha chamada Cessair. Ora,
esta Cessair, quando foi avisada de que as águas iriam inundar a superfície da terra e engolir
tudo o que fosse vivo, à exceção do que estivesse dentro da Arca, tentou escapar ao Destino
pelos seus próprios meios. Segundo ela pensava, devia haver no mundo um lugar onde
nenhum homem tivesse chegado e que por isso deveria desconhecer qualquer tipo de crime ou
de mal; além disso, esse lugar, que deveria ser poupado pelo Dilúvio, jamais deveria ter sido
habitado por serpentes ou por monstros. A pensar nesse país, chamou os druidas e perguntou-
lhes onde ele se poderia encontrar. Os druidas111 refletiram longamente, e disseram-lhe que
só um país poderia ser poupado, a Irlanda, pois esta ilha estava situada no lado ocidental do
mundo, para norte, do mesmo modo que o Jardim do Éden estava situado a oriente, e para sul.

«Com efeito, acrescentaram eles, estas duas regiões têm muitas semelhanças tanto no que
respeita à sua natureza como à sua situação sobre a superfície da terra. Assim como o Paraíso
não pode dar abrigo a animais perigosos, é do conhecimento geral que a ilha da Irlanda não
tem serpentes, nem dragões, nem leões, nem sapos, nem ratos, nem escorpiões, nem
quaisquer outros animais capazes de fazer o mal, se excetuarmos o lobo. À Irlanda chama-se
ilha do Ocidente. Mais tarde, os Gregos chamar-lhe-ão Hyberocl’) e os Romanos, que
dominarão o inundo, chamar-lhe-ão Occasimi.(21 A Irlanda está próxima da Ilha da Bretanha
mas, no que respeita à sua dimensão, é mais estreita, sendo no entanto mais fértil. Estende~se
desde o norte de África, fica na vizinhança da Ibéria e do oceano Cantábrico, e é este o motivo
por que lhe chamarão um dia Hibérnia. Mas também lhe chamarão Scotia porque será povoada
pela nação dos escotosl’1.» «É então para ai que temos de ir», disse Cessair após ouvir aquelas
palavras.

Ela mandou construir navios e preveniu os que lhe eram próximos de que iriam partir por mar
na direção do sol poente. Era uma terça-feira quando ela deixou a ilha Meroe, que ficava ao
largo do Nilo. Demorou-se sete anos em escalas no Egipto e levou oito dias a navegar no mar
Cáspio. Depois, levou mais vinte dias para ir do mar Cáspio ao mar Negro.(”Permaneceu um dia
na Ásia Menor, entre a Síria e o mar Tirreno, depois partiu com a intenção de se dirigir aos
Alpes, durando vinte dias a sua navegação. Aí chegada, o trajeto entre os Alpes e a Espanha
levou-lhe dezoito dias. Foi a partir daí que ela partiu por mar em direção à Irlanda, onde só
chegou passados nove dias, desembarcando na ilha num dia de Sábado.

Cessair e as suas gentes chegaram à Irlanda quarenta dias antes do Dilúvio. Mas, dos três
navios que tinham partido, dois naufragaram, tendo sobrevivido apenas Cessair e os que
seguiam no mesmo navio que ela, a saber, cinqüenta donzelas e três homens. Eram estes Bith,
filho de Noé, Ladra, o piloto, que, segundo se diz, foi o primeiro homem a morrer na Irlanda,
dizendo alguns que morreu de excesso de 1. Pode surpreender encontrar-se a presença de
«druidas» numa época pré-diluviana, mas o termo, típico de uma sociedade celta, designa
antes de mais uma classe sacerdotal. Forarti os celtas que compuseram o transmitiram esta
gigantesca epopéia dos antigos dias, e fizeram-no com os meios de que dispunham, de acordo
com os critérios sócio-culturais que eram os seus, mesmo sendo tardia a redação desta epopéia
(século X1 ou XII) que procura deliberadamente aliar a história mítica da Irlanda à tradição
bíblica.

I. Nome fantasioso que e provavelmente uma forma corrompida do grego uperokhê, «saída
extrema», subentendendo- se para ocidente. Os redatores do Leabhar Gabala (que aqui
seguimos) queriam por força chegar ao termo tradicional Ibernia, para designar a Irlanda
(tendo ainda como justificação a quase homofonia Iberia-Ibernia que justifica a passagem
- imaginária - dos sucessivos invasores da Irlanda pela Península Ibérica).

2. Literalmente «queda», subentendendo-se do sol, ao «poente» (Occidentem).

3. [Scots no original - N. T.] Nome genérico dos gaélicos, que depois o transmitiram aos
escoceses.
4. A rota é obviamente fantasiosa, tanto do ponto de vista espacial como cronológico, mas a
Passagem pela Península Ibérica aparece como uma necessidade mitológica, representando
esta Península, como, aliás, a Escócia, uma espécie de Outro Mundo que pode estar em toda a
parte e em lado nenhum. Há também uma certa ambigüidade entro os Alpes e o antigo nome
da Escócia, Alba, e entre o nome dos escotos e o dos citas mulheres e outros que foi vítima de
um remo que lhe atravessou o corpo, e Fintan, filho de Boclira, o qual, segundo uma certa
versão, não terá morrido e vive ainda entre os povos naturais da Irlanda. O certo e que Cessair,
as suas cinqüenta donzelas e os três homens, desembarcaram nesta ilha quarenta dias antes
do Dilúvio, ou seja, mil seiscentos e cinqüenta e seis anos depois do princípio do mundo.

Assim que desembarcaram no solo da Irlanda, disse-lhes Cessair: «Chegamos a um país que
não sofrerá a fúria das águas, pois se encontra na extremidade do mundo. Estabeleçamo-nos
no cume das montanhas e construamos casas para nos abrigarmos. Contudo é meu desejo que,
daqui a diante, vocês me chamem diferentes nomes consoante o que eu fizer. Durante o dia,
quando o sol brilhar, eu chamar-me-ei Banha. Quando cair à noite, serei FothIa. E quando
estiver a dormir, quero que me chamem Eriu.»

Assim foi. Foram construídas casas no cume das montanhas e a floresta começou a ser
desbravada. Mas uma doença alastrou, e ao fim de uma semana estavam todos mortos, à
excepção de Cessair que permaneceu adormecida. Entretanto, as águas do céu abateram-se
sobre a terra, caindo incessantemente durante quarenta dias e quarenta noites. Cobriram as
montanhas mais altas, e mataram tudo o que era vivo. Só ficou à superfície das águas a Arca
em que Noé e os seus tinham embarcado, com um casal de cada espécie animal. Mas o que os
Livros não dizem é que a Irlanda não foi coberta pelo Dilúvio. A ilha estava desabitada, tendo
sobrevivido a mulher que dormia e se chamava Eriu. Os Livros também não dizem que, na
vastidão do oceano, no meio do nevoeiro, algumas ilhas também não foram submersas pelas
águas. Ora, nestas ilhas viviam gigantes que foram poupados pelo Dilúvio. Foram eles que
depois foram chamados Fomore, os quais nunca deixaram em paz os povos que se vieram a
estabelecer na Irlanda.

Entretanto, logo que as águas deixaram de cobrir a terra e esta secou, Noé e todos os seus
saíram da Arca e procuraram lugares onde se estabelecer. Noé tinha consigo três filhos na Arca,
os quais ocuparam as três regiões da terra, a Europa, a África e a Ásia. Sem, filho de Noé,
instalou-se no que atualmente é a Ásia, tendo saído dele vinte e quatro raças. Cham foi para
África, descendendo dele quinze raças. Quanto a Japliet, o terceiro filho de Noé, apoderou-se
da Europa e do norte da 1 Ásia, sendo o patriarca de quinze raças.

E, pois de Japhet, filho de Noé, que descendem, no nordeste do mundo, os citas, os armén ’Os
e Os Povos da Ásia Menor, assim como todos os povos que ocupam, a norte e a oeste do
mundo, a Europa e as ilhas que ela tem em frente, no grande oceano. Japliet teve oito filhos, e
o oitavo chamava-se Magog. Este teve dois filhos que se chamavam Baath e 1 bath. Foi deste
último, à saber Ibath, que descenderam os reis que governaram Roma. Baath teve um filho a
quem chamou Fenius Farsaid: dele descendem os citas, dos quais provêm os gaéllcos.”’ Mas foi
de Magog, filho de Japliet, que saíram os povos que se vieram a estabelecer na Irlanda antes
dos gaélicos, a saber, a tribo de Partholon, filho de Sera, e a tribo de Nemed, filho de
Agnoman, assim como todos os da tribo de Neined que, após terem sido expulsos da Irlanda, aí
regressaram mais tarde.
Depois do Dilúvio, a ilha da Irlanda permaneceu deserta durante um período de trezentos e
doze anos. Foi então que aí chegou Partholon, filho de Sera, que vinha de um país chamado
Mygdonie, ou seja, Pequena Grécia. Partholon fora obrigado a deixar a sua Pátria porque
cometera um crime: matara o pai e a mãe para permitir que o seu irmão reinasse, mas, ao
fazê-lo, provocara grandes desgraças, sendo assassinados nove nu I homens numa semana, o
que forçou Partholon a fugir o mais depressa possível na companhia de dez pessoas, entre as
quais os seus três filhos e quatro mulheres. Ele deambulou durante um mês na Adalácia, depois
levou nove dias para Ir da Adalácia ao país dos Goths. Voltou a partir deste país e viajou
durante um mês até chegar a Espanha, demorando mais nove dias até atingir as costas da
Irlanda. Estava-se numa terça-feira, o décimo sétimo dia da lua, nas calendas de Maio”.

«Esta terra sem dúvida é a que mais nos interessa», disse Partholon. «As árvores aqui são
belas e verdejantes, e a caça deve ser abundante. Procuremos um lugar onde nos possamos
estabelecer.»

Deram a volta à ilha e decidiram fixar-se no lugar que lhes pareceu mais fértil. Conta-se que é
aquele que hoje se chama Mag InIs, a Planície da Ilha. Naquela altura não havia fazendas, nem
casas, nem campos cultivados à disposição dos homens, que só podiam sobreviver colhendo 1
Estas genealogias são hinárias. Entretanto, a comunidade de origem ceito-cita parece certa.
Georges Durnézil pos em evidência as analogias entre as narrativas mitológicas dos gaélicos da
Irlanda e as dos nartes, os descendentes atuais dos antigos citas e sarmatas. Por outro lado,
existe um evidente parentesco entre a arte celta de la Tène e a arte dos steppes, de influência
cita, como o mostra o célebre «Caldeirão de Gundestrup», que, conservado no museu de
Aarhus, na Dinamarca, ilustra perfeitamente a mitologia dos celtas.

2. Ou seja, durante a grande festa celta da Beltaine.rp” frutos selvagens ou então caçando e
pescando no estuário dos rios.

As casas foram construídas na Planície da Ilha. Quando Partholon partia para a pesca ou para a
caça, deixava a mulher, Elgnat, filha de Lochtach, a tomar conta da casa. E pedia ao seu criado
Topa para proteger EIgnat, para que ela não fosse atacada pelos lobos. Na verdade, havia
lobos na Irlanda, embora não houvesse na ilha outros animais perigosos. Tão pouco havia
abelhas, pois elas aí não podiam viver. Era tal a incompatibilidade entre as abelhas e a Irlanda
que, se alguém espalhasse areia ou cascalho da Irlanda num qualquer lugar da terra onde
houvesse colméias, as abelhas abandonavam-nas imediatamente.

Entretanto, sempre que Partholon se ausentava, EIgnat deitava um olhar ardente, cheio de
desejo, ao criado. E quanto mais o olhava, mais desejava tê-lo nos seus braços. Um dia, não
podendo aguentar mais, convidou-o para o seu leito. O criado recusou temidamente e disse que
jamais trairia a confiança do seu senhor.

1 «Es um grande covarde», disse a mulher. «Tens medo de que Partholon te mate se souber
que te deitaste comigo!» «Eu não tenho medo, senhora, mas não quero trair o meu senhor.»
No dia seguinte, Elgnat voltou a provocar Topa, e ele voltou a recusar deitar-se com ela. «Já
percebi», disse a mulher, «Tu não és viril, e por isso não queres deitar-te comigo. Devias ter
vergonha!»

Ao ouvir este insulto, o criado não encontrou outra solução senão ir provar à mulher de
Partholon, na sua cama, que era viril. Findo o ato, o homem e a mulher tiveram sede e
beberam pelo recipiente que Partholon tinha preparado para quando chegasse.

Ao fim da tarde, quando voltou da caça, Partholon teve sede e bebeu pelo recipiente que tinha
preparado. Mas, ao levá-lo à boca, sentiu o gosto da boca de Elgnat e de Topa, e compreendeu
o que se tinha passado. Não se contendo de fúria, matou o pequeno cão da sua mulher,
Saímer, tendo sido esta a primeira crise de ciúmes da história da Irlanda.

«Parece impossível», disse ElgDat indignada, «tu acabas de cometer uma grande injustiça, belo
Partholon, pois este cãozinho não te tinha feito mal nenhum». «Eu sei», respondeu Partholon,
«mas eu precisava de descarregar a cólera devido à afronta que tu me infligiste. Desde que Eva
cometeu o pecado da maçã, por causa do qual a raça humana foi condenada à escravidão e foi
expulsa do Jardim do Éden, jamais houve neste mundo um crime tão grande e tão hediondo
como aquele que vós acabais de praticar, tu e o meu criado.»

«Bom Partholon», disse a mulher, «quando o desejo é muito, é difícil resistir à tentação. Olha à
tua volta: as vacas parecem-te calmas e tranqüilas quando pastam no prado, mas assim que
aparece o touro ficam cheias de desejo. E as ovelhas, quando querem saciar o instinto, não
hesitam em seguir o primeiro carneiro que lhes apareça à frente. Experimenta pôr um copo de
leite à frente de um gatinho: verás como ele não resiste ao desejo de tomar o leite».

Desenrolou-se pouco tempo depois a primeira batalha da Irlanda. Os Fomore, que vinham em
barcos do país do nevoeiro, vieram atacar Partholon e os que moravam com ele. Eram gigantes
com forma huniana, monstros que tinham uma força descomunal apesar de terem apenas uma
perna e um braço. Comandados pelo seu chefe que se chamava Cichol da perna curva,
combateram Partholon e os seus filhos. A batalha durou uma semana inteira, mas nela ninguém
morreu, pois se tratava de uma batalha mágica. Entretanto, Cichol da perna curva feriu
Partholon num braço, ferida de que este nunca se recompôs.

Quando Partholon chegara à Irlanda, esta ilha só possuía três lagos e nove rios. Mas durante o
tempo em que ele e os seus descendentes habitaram no país, sete novos lagos irromperam da
terra. E foi quatro anos depois da irrupção do sétimo, que se chama Lough Cuan, que Partholon
morreu na velha planície de Elta Edair. Esta planície foi assim chamada porque nenhum braço,
nenhum ramo, dela alguma vez saiu. E Partholon morreu por causa de um veneno que lhe
penetrou no corpo através do ferimento que lhe fora infligido por Cichol da perna curva, na
batalha contra os Fomore. Tinham-se passado trinta anos desde que Partholon chegara à
Irlanda, e o princípio do mundo tinha sido há dois mil seiscentos e vinte e oito anos.
Depois da morte de Partholon, a ilha foi dividida pelos seus filhos, tendo sido esta a primeira
partilha da Irlanda. O país permaneceu assim enquanto nele viveram os descendentes de
Partholon, ou seja, durante quinhentos e vinte anos. Mas abateu-se sobre eles uma doença nas
calendas de Maio, na segunda-feira da festa da Beltame. Esta peste fez sucumbir nove mil
homens até à segunda-feira seguinte, e ainda mais cinco mil homens e quatro mil mulheres
após essa segunda-feira. Morreram todos, a exceção de um único homem, Tuân, que era filho
de Sdam, filho de Sera, filho do irmão do pai de Partholon. Deus Permitiu-lhe que sobrevivesse,
assumindo as mais diversas aparências, desde o tempo de Partholon até aos tempos de Colum-
Cill e de Finnen. Foi ele que revelou aos gaélicos o conhecimento da história, as conquistas que
tiveram lugar na Irlanda, as batalhas provocadas pelos Fomore, desde a chegada de Cessair a
esta ilha até à época de São Finnen, o Leproso. Foi com esta intenção que Deus o manteve vivo
até ao tempo dos santos, até ao tempo em que o chamaram Tuân, filho de Caffil.

A Ilha Verde permaneceu deserta durante trinta anos. Então desembarcou nela Nemed, filho de
Agnoman, que vinha do país dos citas de onde partira com quarenta navios. Navegaram ao
acaso durante um ano e meio no mar Cáspio, mas só um navio conseguiu chegar à Irlanda,
com Nerned e os seus quatro filhos, que chefiavam as hostes. Estabeleceram-se num lugar
fértil e aí construíram duas fortalezas reais, tendo sido depois atacados pelos Fomore contra os
quais travaram uma batalha onde no decurso da qual foram assassinados os dois chefes dos
Fomore.

Nemed desbravou doze planícies nesta ilha e nelas fez prosperar a criação de gado. Assim que
morreu um dos seus filhos, que se chamava Annind, enterraram-no numa das planícies. Mas,
ao ser cavada a terra para se fazer a sepultura, jorrou um lago que inundou todo o país. Em
conseqüência disso, três outros lagos surgiram na terra. Nemed não demorou a sucumbir a
uma doença que vitimou também dois mil dos seus.

Quando os Fomore souberam que Nemed, filho de Agnoman, tinha morrido, aparelharam as
suas frotas e foram combater os filhos de Nemed. Os chefes dos Fomore eram nessa altura
More, filho de Déla, e Conan, filho de Fébar. Este último construíra uma grande torre numa
pequena ilha, a meio do mar, e era aí que se reuniam os navios dos Fomore. Esta torre
chamava-se Torre de Conan, mas também se lhe chamava Tormis, ou seja, Torre da Ilha. E
como os Fomore eram mais numerosos que os filhos de Nemed, venceram-nos em combate e
impuseram pesados encargos aos homens da Irlanda: estes deviam entregar-lhes anualmente
dois terços do trigo e do leite que eram produzidos na ilha e dar-lhes como escravos dois terços
dos recém-nascidos.

Furiosos e sentindo-se ultrajados, os homens da Irlanda não sabiam como haviam de suportar
o peso de tais encargos. Reuniram-se por isso em segredo e decidiram atacar os Fomore de
surpresa. Na costa havia três mil homens, mas outros três mil embarcaram sob a chefia do filho
de Nemed, Fergus da face vermelha. Não tardaram a chegar a Torinis e, após uma batalha
encarniçada, acabaram por tomar de assalto a torre, onde o próprio Fergus da face vermelha
matou Conan. Depois, voltaram para a Irlanda para comemorar a vitória.
More, filho de Dela, ficou furioso quando lhe anunciaram o desastre da Torre de Conan e
resolveu vingar-se dos homens da Irlanda que tinham vencido os Fomore e agora recusavam
pagar-lhes os tributos.

11
Reunindo sessenta navios, aproximou-se então das costas da Irlanda. os filhos de Nemed, por
seu lado, voltaram a reunir as suas hostes e fizeram-se ao mar para irem ao encontro dos
Fomore. Travou-se então urna batalha encarniçada e sangrenta, e uma tempestade afundou os
navios dos homens da Irlanda, escapando apenas um, que tinha a bordo trinta homens, entre
os quais Semeon, filho de Sdarn, ele próprio filho de Nemed, Bethach, filho do adivinho
larbonel, igualmente filho de Nemed, com o seu filho Ibath, assim como Fergus da face
vermelha, que era o filho mais jovem de Nemed. 11

Os sobreviventes reconquistaram a Irlanda e foram encontrar-se com Fintan, filho de Boclira,


que vivia na encosta de uma montanha. Fintan tinha a reputação de ser um sábio e um
vidente, e dizia-se que estava perfeitamente a par do nascimento do mundo e do seu futuro.
Quando os filhos de Nemed foram ao seu encontro, Fintam disse-lhes:

«Sede bem vindos, homens poderosos e corajosos sobre quem se derramou o Espírito.”’ 0 que
vos traz à minha presença? É a guerra que aqui vos traz ou o fato de não saberdes qual o rumo
a dar à vossa vida?» «O que nos traz aqui, sábio e prudente Fintan, é a decisão que temos de
tomar por causa dos Fomore. Eles oprimem-nos desde que nos mataram um grande número de
bravos guerreiros, e obrigam-nos a pagar-lhes um pesa-

1. Esta primeira parte do capítulo foi redigida de acordo com o Leabhar Gabala, o «Livro das
Conquistas», narrativa que data muito possivelmente do século XI, publicado, comentado e
traduzido por R.A.S. Macalister, Lebor Gabaia Erenti, the Book qf the Taking of Ireland, 5 Vol.,
Dublin, 1938-1956. Tradução francesa parcial no Ch.-J. Guyon-varc’h, Textes mytholOgiques
iriandais, Rermes, 1980. Este «Livro das Conquistas» é uma compilação de inforMações muito
antigas apresentadas às vezes de forma anacrônica, com lacunas, incoerências e contradições
flagrantes. É muito difícil reconstituir o fio condutor desta epopéia mitológica que diz respeito
não só à Irlanda como a todo o mundo celta, sem que se recorta a todas as outras fontes
irlandesas, e sem que se restitua à narrativa propriamente dita uma certa coerência
cronológica, o que não significa de modo algum que a coerência tenha de ter uma natureza
histórica ou científica. A reconstituição será assim meramente conjetural.

2. É Preciso não esquecer que Nemed significa «sagrado» em gaélico. É uma palavra que
Provém duma raiz indo-europeia que deu em latim nemus, «bosque sagrado», em gaélico
Moderno niamh, em gaulês nef e em bretão neni, designando estes três termos o «céu» de um
ponto de vista religioso, e daí o antigo nome nemeton, «santuário», «clareira sagrada»,
«Projeção, simbólica do céu sobre a teiTa», que se reconhece no nome atual de Néant-sur-yvel
(Morbihan) e da floresta de Nevet, perto de Locronan (Finisterra) do tributo que não
conseguimos agüentar por muito mais tempo.» «O melhor conselho que vos posso dar,
brilhantes filhos de Nemed, é o seguinte: deveis pôr um fim ao vosso sofrimento e à opressão
dos Fomore. Por isso deixa esta ilha e ide instalar-vos noutro lugar deste vasto mundo.»

«É esse o conselho que nos dás, Fintan?», perguntaram os filhos de Nemed. «Devemos deixar
este país que é nosso’?» «Na verdade», retomou Fintan, «é o único conselho que vos posso
dar. Mas há outra coisa que vos tenho de dizer: não deveis ir todos na mesma direção ou por
um único caminho, pois é bem sabido que um grande ajuntamento de homens é susceptível de
provocar conflitos. E impossível que se junte uma multidão sem que daí não resulte uma
querela por uma razão ou outra. Além disso, sempre que há um agrupamento de homens
armados com lanças e dardos, logo se pensa que o que eles querem é fazer guerra. Jamais a
paz é possível, na verdade, enquanto sobre a terra houver povos que se sentem invadidos por
outros que chegam depois. Parti por isso, filhos de Nemed, deixai esta ilha e espalhai-vos pelo
mundo.»

«Mas para onde havemos de ir, sábio Fintan, filho de Bochra? Diz-nos para que possamos partir
de imediato.» «Vós sois, com certeza, muito numerosos», respondeu Fintan. Por isso dividi-vos
em três grupos. Um deles que parta para o norte, o outro para oriente e o terceiro que siga a
direção oposta ao curso do sol, mas para sul, para os lados onde há mais calor.»

Assim falou Fintan, o Sábio, filho de Botira, aos filhos de Nemed, que dele se despediram. Mas,
antes de partirem, disse-lhes ele ainda: «Ide, pois filhos de Nemed, deixai este país que já não
podeis habitar. Fugi desta ilha onde sois tão cruelmente oprimidos e escravizados. Não fiqueis
aqui por mais tempo e recusai-vos a pagar aos Fomore uns encargos tão pesados. Mas eu
garanto-vos que os vossos filhos e os vossos netos regressarão a este país de que vós fugis e
eles tomá-lo-ão pela força e com todo o direito. Pois, aconteça o que acontecer, vós sereis
sempre os filhos desta ilha e dela sereis para sempre os senhores.»

Combinaram então a maneira como se haveriam de dividir em três agrupamentos. Bethach,


filho de larbonel, o adivinho que era filho de Nemed, não quis deixar a Irlanda. Permaneceu
nela durante algum tempo, vindo a sucumbir a uma doença que assolou o país. Entretanto, as
suas dez mulheres sobreviveram-lhe vinte e três anos. Quanto ao seu filho Ibath, deixou a ilha
na companhia do seu próprio filho Baath, e ambos se dirigiram para as ilhas do norte do
mundo. Os seus descendentes são aqueles a quem hoje se chama tribos da deusa Dana.
Fergus da face vermelha, que era o filho mais novo de Nemed, fez-

-se ao mar e foi para leste com o seu próprio filho que se chamava Bretão, o Príncipe.
Desembarcaram na grande ’lha que fica próxima da Irlanda e aí se estabeleceram. Os seus
descendentes, a quem se chamam bretões, por causa do nome de Bretão, o Príncipe,
dominaram a ilha até à chegada de dois novos chefes saxões que ocuparam as suas terras,
empurrando-os para a costa e obrigando um grande número deles a exilarem-se no outro lado
do mar, na península a que se chama Armórica e à qual depois deram o seu nome.

Quanto a Semeon, filho de Sdarn, filho de Nemed, partiu para sul à conquista dos países onde
o sol é mais quente. Uma tempestade desviou-o da rota, e fê-lo chegar ao mar Tirreno. Aí foi
surpreendido por outra tempestade, que o empurrou pelo meio das Ilhas até às costas da
Trácia. Aqui o solo era seco e estéril, nada nele se podendo cultivar. Apesar disso, Semeon e os
seus companheiros estabeleceram-se naquela região inóspita e construíram as suas casas com
terra seca. Graças a conversações com as gentes daquele país, que não lhes quiseram fazer
frente, concluíram um tratado de paz. Ao clã de Semeon foram atribuídas as propriedades e as
terras que ficavam junto ao mar e em fronteiras distantes, em regiões muito frias, em
montanhas escarpadas e em vertentes de colinas expostas ao vento norte. Foram-lhes também
concedidas ravinas profundas e cumes inabitáveis, em regiões inóspitas cujo solo jamais tinha
conhecido colheitas de qualquer tipo. Mas, não querendo desperdiçar a oportunidade que lhes
tinha sido concedida, as gentes do clã de Semeon fizeram grandes sacos com panos e com as
peles de animais e transportaram grandes quantidades de terra arável através dos rochedos
nus e áridos que lhes tinha cabido em sorte no tratado de paz. Entregaram-se ao trabalho com
tanto afinco e com tanta devoção que daí a pouco tempo àquelas terras estéreis se tinham
transformado em planícies aprazíveis e férteis onde se cultivava o trigo, a vinha prosperava e o
gado pastava em esplêndidas pastagens. Desse modo, não se arrependeram de ter deixado a
Irlanda e de assim se terem furtado aos Pesados tributos que lhes eram impostos pelos
Fomore.

Entretanto, quando os chefes e os guerreiros daquele país viram a obra realizada pelos recém-
chegados, ficaram maravilhados e ao mesmo tempo cheios de inveja de um tal sucesso.
Sempre que Iam visitar as terras do clã de Semeon, ficavam admirados com os campos
cultivados e com os prados que regurgitavam de ovelhas e de carneiros. Convenceram-se então
de que aquele país lhes pertencia e que deviam conquistar aquelas terras tão férteis aos
estrangeiros que nenhum direito tinham sobre elas. Foram então falar com as gentes de
Semeon e propuseram-lhes, em troca do que lhes tinham dado, outras terras, ainda mais para
norte, em regiões inóspitas e frias, em terras duras e cheias de pedras, de solos infestados de
serpentes venenosas. E, para evitarem entrar em guerra, as gentes de Semeon aceitaram o que
lhes era pedido e deixaram as terras que tinham tornado férteis.

Mudando-se mais para norte e sem jamais perderem o ânimo, as gentes de Semeon trataram
tão bem as novas terras que as transformaram em campos ricos e férteis, em tudo idênticos
àqueles que tinham deixado. E, havendo comida em abundância, as gentes do clã de Semeon
multiplicaram-se e aumentaram de número até chegarem aos milhares. Mas, vendo os
estrangeiros tornarem-se tão numerosos, tão ricos e poderosos, os chefes do país intimaram-
nos a entregar-lhes todos os anos metade das suas colheitas e metade dos gados que
pastavam nos prados.

Nessa altura as gentes do clã de Semeon reuniram-se em conselho. Os seus chefes eram os
cinco filhos de Dela, descendente de Nemed, chamando-se Slaingé o mais velho.

«De nada nos serviu fugir da Irlanda para escapar à tirania e aos tributos dos Fomore...
Encontramo-nos agora num país estrangeiro, expulsos de terras incultas que tornamos férteis,
e estamos sujeitos à mesma tirania e aos mesmos tributos. Chegou o momento de nos
revoltarmos contra a injustiça, pois assim não podemos continuar» «Tens razão», disse o seu
irmão Rudraige. «Não podemos continuar sem reagir e sem fazer valer os direitos do nosso
trabalho.» «Os donos deste país jamais nos darão razão», afirmou por seu lado Slainge. «Só
nos resta voltar para o mar, levando todas as riquezas que pudermos, e regressar à terra da
Irlanda, pois essa é a terra dos nossos antepassados e temos o direito de a habitar.»

Assim que o conselho terminou, todos estavam de acordo quanto ao que havia a fazer.
Construíram barcos com os grandes sacos que lhes tinham servido para transportar a terra
arável através dos rochedos inóspitos, e é esse o motivo pelo qual eles foram chamados Fir
Bolg, ou seja, os Homens dos sacos”. Contudo, há quem diga que o nome deriva do fato de
eles saberem domesticar o trovão e utilizarem o fogo para fundirem o metal e fabricarem as
armas e os instrumentos usados para o cultivo da terra. Segundo se pensa, eles roubaram
também navios às gentes do país e juntaram-nos todos no porto onde tinham desembarcado
quando da sua chegada.

«Chegou à hora de partirmos», disse então Slainge, que era o mais velho do grupo e aquele
que era considerado mais sábio pelos irmãos. «Lembre-se que temos sido muito prejudicados
pelos habitantes deste país. Temos por isso de nos vingar, sem esquecer que cada um dos
nossos homens vale por cem dos deles.»

Carregaram então para os navios todas as mercadorias e toda a comida que encontraram,
matando todos aqueles que os queriam impedir de o fazer, e depois arrasaram a região
circundante e atearam-lhe fogos. Em seguida acumularam o produto do saque nos navios de
proa negra que tinham construído com os seus sacos e, por fim, levantaram âncora e
desfraldaram as velas.

Conta-se que os Fir Bolg, ao deixarem a costa da Grécia, possuíam uma frota de mil cento e
trinta navios. Na sexta-feira seguinte, encontravam-se no mar Tirreno e, ao fim de um ano e
três dias, chegaram a Espanha.

Pediram então aos seus druidas e aos seus adivinhos para os instruírem e os informarem acerca
dos ventos com que teriam de contar na sua viagem à vela através do grande oceano.
Deixaram Espanha com um vento de sudoeste e navegaram sempre a direito durante treze dias
até avistarem as costas da Irlanda. Mas ergueu-se então uma tempestade repentina e violenta
que fez com que a frota se dividisse em três grupos. O primeiro a desembarcar foi o filho mais
velho de Déla, Slaingé, no lugar que se veio a chamar Inber Slaingé. Estava-se num Sábado, no
Primeiro dia do mês de Agosto”.

1. Muito corrente, esta terminologia popular não resiste à análise. Apesar de uma certa
analogia, a palavra bolg deriva de uma raiz indo-européia que deu em latirrifúlgur, «raio», raiz
que se encontra no nome dos belgas e no da espada mágica de Nuada, Caladbolg, que se
transformou em Caledfwlch em galês e Excalibur em francês e em inglês, sendo a célebre
espada do rei Artur, literalmente, «raio duro». Entretanto é preciso lembrar que esta história
dos sacos servirem para construir barcos se apóia numa certa realidade: a barca irlandesa típica
é com efeito o curragh (coracle em inglês), sendo a armação de madeira revestida de peles e
de panos alcatroados.

Data simbólica: é a festa céltica de Lugnasad («assembléia de Lug»), no decurso da qual se


celebra o casamento sagrado do rei com a terra que lhe foi confiada.
Os outros desembarcaram em diferentes pontos do país. Como não havia contactos entre os
diferentes grupos, foram enviados mensageiros por toda a Irlanda com a missão de pedir aos
Homens-Trovão para se juntarem todos no mesmo lugar, na fortaleza dos Reis que se encontra
em Tara”. Os mensageiros percorreram a ilha em todos os sentidos e cumpriram a sua missão,
de tal modo que daí a pouco tempo todos se reuniram no lugar combinado.

«Agradeçamos aos deuses por nos terem guiado com sucesso até este país que é o dos nossos
antepassados», disseram eles. «Agora devemos partilhar a Irlanda de tal modo que ninguém
seja prejudicado. Chamemos o sábio Fintan, filho de Boclira, e ele nos dirá como havemos de
partilhar esta ilha de forina justa.»

Fintan, filho de Boclira, veio à assembléia de Tara. Após ter ouvido os Fir Bolg, dividiu a Irlanda
em cinco partes” que foram confiadas a cada um dos filhos de Déla. Todos ficaram satisfeitos
com a sentença pronunciada pelo sábio Fintan, e estabeleceram- se nas terras que lhes foram
atribuídas.

Foi assim que os Fir Bolg, os Homem-Trovão, chegados de tão longe, ocuparam as terras da
Irlanda. E dominaram esta ilha durante trezentos anos. 3)

1. Santuário pré-histórico, depois celta, situado não longe do vale de Boyne, no condado de
Meath. É o centro simbólico da Irlanda, uma espécie de Omphalos, que foi respeitado e que se
continua a considerar como sagrado.

2. Em gaélico, «província» diz-se «coiced», literalmente quinto. Na verdade, nunca houve mais
do que quatro províncias, o Uister, Cormaugiu, o Munster e o Leinster, sendo a quinta,
sobretudo moral: trata-se do famoso reino de Meafla (Mide), literalmente «meio», à volta de
Tara, sede do alto-rei (ard-ri) da Irlanda.

3. Segundo a narrativa conhecida com o título A primeira batalha de Mag-Tured, contido no


manuscrito H.2.17 do TrinitY College de Dublin, publicado por J. Fraser na revista Eriu, Tomo
VIII, Dublin, 1915. Tradução francesa quase integral de Ch. -I Guyon-varc’h, Textes
my1hologiques irlandais, Rermes, 1980.

t o filli de Nemed, que haviam partido por mar sob os comando de Ibath, filho de Bethach,
rumaram ao norte. Navegaram ao acaso, durante muito tempo, até que desembarcaram num
país que se diz ser a Beócia. Aí foram muito bem recebidos pelos naturais, e, segundo consta,
foi aí que eles se iniciaram nas artes, nas técnicas, na magia e no druidismo. Tomaram-se
especialistas em todas as artes do paganismo a ponto de superarem, em pouco tempo, os seus
mestres. Foi então que começaram a ser chamada Tribo de Dana, defendendo certos
historiadores que eles assim foram designados por causa de três homens muito versados na
ciência druídica, os três Deuses de Dana, que eram filhos da mesma mulher-chefe que se
chamava Dana. E como eles tinham tantos poderes como os deuses, as gentes do seu clã
quiseram partilhar o seu nome e o seu poder.

Entretanto, um belo dia, uma grande frota vinda da Síria veio atacar os habitantes da Beócia.
Travaram-se batalhas intermináveis, com os homens da Beócia que tinham sido mortos na
véspera a voltarem na manhã seguinte para enfrentarem os seus inimigos. Na origem desta
maravilhosa ressurreição estava a magia que permitia aos homens de Dana inserir demônios
nos corpos que tinham perdido a vida. Deste modo, as gentes da Síria tinham de lutar todos os
dias contra os mesmos adversários, o que lhes provocava um grande espanto e um enorme
transtorno. Foram Por isso consultar os seus próprios druidas, que os aconselharam a estar
vigilante no campo de batalha assim que a noite caísse: nessa altura deveriam trespassar com
um ramo de freixo os cadáveres que os enfrentassem. Se fossem demônios a reanimar os
corpos, estes cairiam logo e corromper-se-iam rapidamente. As gentes da Síria seguiram este
conselho, e massacraram um grande número de defensores da Boécia.

Quando as tribos de Dana viram que os primeiros iam triunfar sobre os segundos e se
arriscavam a ser perseguida em seguida, os seus chefes reuniram-se e decidiram que era
necessário deixar o país o mais depressa possível. Aparelharam os navios, fizeram-se ao alto
mar navegando à vela, e, como os ventos eram favoráveis, chegaram às ilhas do Norte do
Mundo. Aí foram muitos bem recebidos, por serem muito conhecedores e muito hábeis nas
artes mágicas, e deram-lhes quatro cidades para que pudessem ensinar os jovens do país.
Estas quatro cidades eram Falias, Gorias, Murias e Findias.1’1

Nestas Ilhas do Norte do mundo, as tribos de Dana multiplicaram-se e tomaram-se tão célebres
que se falava delas por todo o lado. Naquele tempo, o rei das tribos de Dana chamava-se
Nuada e tinha a seu lado diversos chefes que o aconselhavam com sapiência: entre eles
encontrava-se Ogina, o campeão possuidor de uma força terrível, Credné, o artíficie do bronze,
que cinzelava belos ornamentos, Goibniu, o ferreiro, que fabricava armas e instrumentos
aratórios, Dianceclit, o hábil médico, Mananann, filho de Lir, especialista em arte de navegação,
Morrigane, filha de Emnias, grande conhecedora de cantos guerreiros, e, sobretudo Eochaid
Ollathair, mais conhecido por Dagda, ou seja, o bom deus, que percebia melhor do que
ninguém de assuntos de magia e de druidismo. E, em cada uma das quatro cidades em que
eles se tinham estabelecido, um druida ensinava os jovens e contava as proezas que outrora
tinham sido protagonizadas pelos filhos de Nemed, na terra da Irlanda e no mundo inteiro.

Um dia, uma certa Eri, uma das mulheres mais nobres das tribos de Dana, estava em casa a
observar a terra e o mar. O mar estava calmo e uniforme como uma tábua de madeira bem
polida. Ora, estando a contemplar a paisagem, Eri ficou muito admirada ao ver um navio
brilhante como prata a navegar diante dos seus olhos. 0 navio pareceu-lhe de grandes
dimensões, mas ela não conseguia distinguir-lhe a forma. Entretanto, como a corrente o
aproximou de terra, ela pôde examiná-lo melhor.
Notou então que havia um homem a bordo, um homem que lhe pareceu extremamente belo.
Uma cabeleira de ouro caía-lhe sobre os ombros, e um manto com faixas de tecido dourado
revestia a túnica, que estava ricamente adornada com bordados de ouro. Sobre o peito,
resplandecia um broche de ouro onde estavam incrustadas pedras preciosas. 0 homem trazia
dardos de prata com hastes de bronze polido, cinco colares de ouro à volta do pescoço, assim
como uma espada cujo punho de ouro estava adornado com círculos de prata e com
ornamentos em ouro. Maravilhada, a mulher saiu de casa e aproximou-se da beira-mar.

Segundo A História da Irlanda, (Foras Feasa ar Eirinn), composta no sécuio xvii por Geoffroy Keating e editada por David Comyn (Londres,
1902).

O homem desceu do barco, pôs os pés em terra e, apercebendo-se de Eri, disse-lhe: «Mulher
será esta a melhor altura para me unir a ti?» «Estou surpresa com o que vêem os meus olhos»,
respondeu ela.

«Pois bem», disse o homem, «não percamos tempo. Peço-te que venhas.» Sem demora, eles
estenderam-se no chão e, quando terminaram, a mulher começou a chorar. «Porque choras?»,
perguntou ele. «Eu tenho para isso duas boas razoes», respondeu ela. «Vou-me separar de ti e
fico desgostosa por isso. Os homens mais belos das tribos de Dana desejaram-me sem sucesso,
e agora que tu me possuíste, o meu coração pertencer-te-á até ao meu último suspiro.» «Não
quero que fiques a sofrer por minha causa», disse-lhe o homem.

Tirando o anel de ouro que tinha no dedo do meio, ele inflou-o na mão da mulher e
recomendou-lhe que jamais o desse ou vendesse, cedendo-o apenas a quem tivesse um dedo a
que o anel se adaptasse.

«Fica certo de que jamais me separarei dele», respondeu a mulher. «Mas tenho muita pena de
não saber quem aqui veio encontrar-se comigo.» «Revelar-te-ei a minha identidade», disse o
homem. «Aquele que veio encontrar-se contigo é Elattia, filho de Indech, que é um dos chefes
de Fomore. Nós vivemos em ilhas envoltas em nevoeiro e, se me quiseres encontrar, só terás
de mostrar este anel a quem se cruzar no teu caminho. Posso dizer-te também que da nossa
relação terás um filho, que se chamará Eochaid Bress, ou seja, Eochaid, o Belo. Fica, a saber,
que tudo o que se vê de belo na Irlanda e nas ilhas do norte do mundo, sejam os prados onde
pastam os gados, os campos onde se cultiva o trigo, as fortalezas edificadas em altos cumes, a
cerveja que se bebe nas assembléias, as velas que iluminam as salas de banquetes, as
mulheres cujo encanto entontece os homens, os cavalos que puxam os carros de combate,
tudo isso não terá uma beleza comparável à do teu filho. E correrá de boca em boca: «Eis o
belo Bress.»1’)

Depois, o homem dos Fomore pediu licença para se retirar. Regressou para o seu navio
prateado e desapareceu no mar alto de onde tinha saído. Eri, por seu lado, voltou para sua
casa. Não tardou a perceber que estava grávida e dela nasceu Eochaid Bress, tal como tinha
predito Elatlia dos Fomore. Oito dias depois do parto, o rapaz parecia ter quinze dias e
continuou a crescer mais rapidamente que as crianças da sua idade, de tal modo que, com sete
anos, tinha a estatura de um rapaz de catorze anos. Assim era Bress, filho de Elatha dos (2)
Fomore e de Eri das tribos de Dana.

Quando as tribos de Dana tiveram conhecimento dos seus feitos, os seus chefes reuniram-se e
foram aconselhados a concluir um tratado de amizade com os Fomore. Enviaram então
embaixadores à presença dos Fomore, e selou-se assim uma aliança entre eles. Foi assim que
Cian, filho de Dianceclit, desposou Ethné, filha de Balor, o campeão dos Fomore. Da sua união
nasceu Lug do Braço Longo, que mais tarde se tornou o herói de todos os homens que se
reclamavam das tribos de Dana. Mas Lug não foi criado pela mãe, pois logo que as tribos de
Dana chegaram à Irlanda, ele foi confiado a uma mulher dos Fir Bolg que se chamava Tailtiu, a
qual foi a sua ama de leite, e de quem ele perpetuou a memória graças aos jogos fúnebres
realizados no mesmo lugar onde ela foi enterrada, ou seja, em Tailtiu, nome dado mais tarde a
este sítio.’1

1 .Em todas as narratívas deste gênero, as etimologias são necessariamente metafóricas. Com
efeito, «Bress» significa literalmente «sopro violento», «golpe guerreiro», podendo designar,
por extensão, «herói». Entretanto, na perspectiva épica, um herói só pode ser «belo» -
afortiori, se imagina que Bress será investido da função real à qual está associada a noção de
beleza, deve-se mostrar, por conseqüência, indigno de a assumir plenamente.

2. Segundo a narrativa da «Segunda batalha de Mag-Tured», contida no manuscrito Harleian


5280, editada e traduzida por W. Stokes na «Revista Céltica», XIII. Tradução francesa de Henri
d’Arbois de Jubainville, na «Epopée celtique en Irlande», Paris, tomo V do «Curso de Literatura
céltica», Paris, 1892. Tradução francesa parcial de Georges Dottin na «Epopée irlandaise», nova
edição, Paris, 1980. Tradução francesa quase integral em Ch.- J. Guyonvarch’h, «Textes
mythologiques irlandais», Rennes, 1980. Para reconstituir deforma coerente o fio condutor
desta epopéia dos antigos celtas, é impossível seguir a ordem cronológica aparente de múltiplas
narrativas. Assim, é preciso recorrer às vezes a certos textos de diferentes épocas e de
assuntos diversos, regressando-se depois a textos anteriores ou tidos como tal.

Houve um tempo em que as gentes das tribos de Dana eram tão nurnerosas que viveram com
dificuldades nas quatro cidades onde residiam. Nuada, que era o seu chefe, reuni-as à sua volta
e, após longas discussões, tomaram a resolução de partir por mar e de voltar à Irlanda que
era o país dos seus antepassados. Aparelharam cerca de trezentos barcos e prepararam-se para
uma longa viagem. Levaram consigo objetos maravilhosos, com os quais pensavam poder
dominar os outros povos da terra. Da vila de Falias levaram a Pedra de Fail, que foi depois
colocada sobre a colina de Tara, tendo havido quem lhe chamasse Pedra do Destino: o seu
grito indicava o nome de cada rei que devia governar a Irlanda.”’ De Gorias foi levada a lança
que mais tarde pertenceu a Lug, e a que também se chamava Lança de Assal: era

1. Tailtiu é hoje Teitown, no condado de Meath, lugar onde decorrem comemorações folclóricas
- e pagãs - em honra de Lug, no início do mês de Agosto, o que corresponde à festa de
Lugnasad. Nas antigas narrativas, Tailtiu é referida como «filha de Mag Mor (=grande planície),
rei de Espanha», e esposa de Eochaid, o último rei dos Fir Bolg. 0 nome Tailtiu refere-se a uma
raiz talamh (do latim teIlus), que significa «terra». Todas estas narrativas mitológicas insistem
na união indispensável entre deus, ou o rei, e a terra, em particular a terra da Irlanda. 0 nome
da mãe de Bress, Eri, é uma variante de Eriu, uma das denominações da mulher primordial
Cessair, que se tomou o nome oficial da Irlanda, Do mesmo modo, o nome da mãe de Lug,
Ethné, encontra-se com inúmeras variantes, como Etaine, a heroína de outra narrativa, que é a
não menos célebre Boann (a Boyne), mãe do herói Angus, ou ainda a tripla Brigit, aliás Dana,
deusa dos Começos. Esta última tem origens muito remotas, pois encontramo-la no Médio
Oriente (Anaitis, Anu, etc,), na índia (Anna Pourna), em Roma (Anna Parerma), no nome dos
rios Don e Dantibio (Tanaüs) ou no de certos povos gregos (os Danaoi), assim como no da
célebre <santa» Ana dos Bretões. NO folclore irlandês, dá o nome a dois cumes do Kerry, «The
Paps of Anu», também chamados os «mamilos de Anna». Na mitologia galesa, tornou-se Dôn,
a mãe de uma série de deuses análogos às personagens das tribos de Dana. A complexidade
das narrativas irlandesas, onde os nomes mudam constantemente, não deve fazer esquecer
que, na maior Parte das vezes, se trata de uma entidade inapreensível e que, como tal, assume
diversos aspectos e nomes. Naturalmente, isso aumenta a dificuldade de compreensão das
narrativas mitológicas, mas assim que se simplifica a nomenclatura, as personagens ganham
destaque e voltam a adquirir todo o seu valor simbólico. Além disso, é preciso ter em conta que
os irlandeses sempre tentaram explicar o nome dos lugares através de fatos mitológicos ou
maravilhosos, sendo capazes para isso de recorrer a etimologias metafóricas ou a homofonias
flagrantes.

2. A Pedra de Fail, que se encontra em Tara, servia para a entronização do alto-rei da Irlanda.
Outros textos contam que, quando da eleição deste, os candidatos deviam tocar na pedra: se
ela «gritasse», era porque os deuses tinham escolhido o mais apto para governar a Ilha Verde.
Na sua História da Irlanda, Geoffroy Keating conta que, depois da conquista da Fscócia pelos
escotos, ou seja, os irlandeses, a Pedra de Fail foi emprestada para a entronização do primeiro
rei gaélico da Escócia, tendo ficado depois na posse da abadia de Scone impossível vencer
quem quer que a brandisse”. De Findías foi levada a espada de Nuada, a que também se
chamava Caladbolg, ou seja, «Raio Violento»: a ela ninguém escapava, tal era o seu ímpeto
furioso quando saía da bainha. (21 De Murias foi transportado o caldo irão de Dagda, que
continha um alimento inesgotável, e ninguém que ele lhe se servisse deixava de ficar saciado.”’

As tribos de Dana partiram então das Ilhas do norte do mundo e navegaram para a Irlanda. Ao
cabo de três dias, três noites e três anos, na segunda-feira da semana do início do mês de
Maio”’, estavam diante da costa de Muga no UIster. Há quem defenda que as gentes de Dana,
que eram da raça de larbonel, o Adivinho, chegaram nas asas de nuvens sombrias e não em
barcos ou navios. 0 mais certo, no entanto, é que, ao desembarcarem, elas incendiaram os
seus navios para que não caíssem na tentação de voltar ou de quererem fugir se algum perigo
as ameaçasse. As grandes nuvens de fumaça que, a certa altura, obscureceram os céus da
Irlanda, fizeram crer que elas teriam sido trazidas por um nevoeiro mágico. Mas a verdade é
que a fumaça ocultou a chegada das tribos de Dana, que se foram refugiar no país de Corcu
Belgatan, que é agora Cormernara, na província de Coiinaught.1’1
Naquele tempo, o rei da Irlanda era Eochaid, filho de Erc, da raça dos Fir Bolg. Ora, na mesma
noite em que as tribos de Dana desembarcaram, ele teve uma visão durante o sono. Levantou-
se incomodado e mandou chamar o seu druida que se chamava Cesard. Logo que este Foi esta
pedra, posteriormente conhecida pelo nome de «Pedra de Scone», que o rei de Inglaterra
Eduardo 1 fez transportar para a sua própria coroação e q Lle se encontra actualmente no trono
que serve para a entronização dos soberanos ingleses em westminster. Em vão os escoceses
reclamam a sua restituição desde há séculos. Não ’se pode deixar de estabelecer uma relação
entre esta maravilhosa Pedra de Fail e o misterioso «Assento Perigoso» da Távola Redonda,
assento reservado àquele que levasse a born termo a aventura da conquista do Graal, portanto
ao «Reí do Graal».

1. Noutro texto, é referido que o poder desta lança era tal que, para a acalmar, era preciso
mergulhar a sua ponta num caldeirão cheio de sangue humano. Não deixa de ser interessante
compará-la com a «Lança que sangra» apresentada no decurso do célebre cortejo do Graal.

2. Ela é o protótipo de CaledfivIch, por-tanto Excalibur, a célebre espada cheia de poder que só
pode ser confiada ao rei Artur.

3. Sem dúvida, trata-se de um dos protótipos do «santo» Graal cristão cuja aparição diante dos
cavaleiros da Távola Redonda lhes fornece o alimento e a bebida que desejam.

4. Isto é, durante a festa céltica de Beltaine, festa essencialmente sacerdotal que assinala 0 fim
do Inverno e o início da estação do Verão.

5. Síntese entre o Livro das Conquistas, a narrativa da Primeira batalha de Mag-Tured e a


narrativa da Segunda batalha de Mag-Tured, primeira versão chegou à sua presença, o rei
disse-lhe que um sonho que tivera durante a noite o tinha deixado cheio de angústia e de
perplexidade.

«Que haveis visto vós, ó rei da Irlanda?», perguntou Cesard. «Na verdade», respondeu
Eochaid, «vi grandes bandos de pássaros negros surgireiri das profundezas do mar e virem na
minha direcção. Num abrir e fechar de olhos, eles chegaram a terra e misturaram-se connosco,
trazendo a confusão e a hostilidade aos homens da Irlanda. Então, um dos nossos
desembainhou a espada e cortou uma asa ao passaro que, de entre todos, me parecia o mais
nobre. Agora, ó diruida, levanta-te e usa a tua ciência e a tua magia para nos dizeres que
significado tem este sonho.»

Cesard ergueu-se diante do rei da Irlanda e, graças ao conhecimento que tinha das coisas
ocultas, falou nestes termos: «Não tenho notícias agradáveis a dar-te a ti e a todos os homens
desta ilha: vêm ao nosso encontro por mar guerreiros nobres e corajosos que nenhuma força
consegue deter. Com eles vêm a morte e a destruição, pois são gentes hábeis nas artes da
magia e do encantamento. Eles lançarão sobre vós nuvens druídica que vos alucinarão e, em
cada combate que travardes com eles, serels a parte mais fraca. Fica, pois, a saber, rei da
Irlanda, que chegou a hora de os Homens-Trovão deixarem de ser os donos desta ilha.»
Ao ouvirem aquelas palavras do druida Cesard, os Fir Bolg enviaram espiões para vigiarem as
gentes que chegavam por mar. Cumprida a missão, os espiões informaram que o grupo dos
recém-chegados era constituído por gente tão bela que Jamais no mundo se vira igual, e que,
além de muito bela, possuía armas muito poderosas e apetrechos bélicos temíveis, tendo para
mais, dotes extraordinários para a música e um comportamento exemplar. Segundo os espiões,
jamais se vira gente tão temível, pois todos os guerreiros pareciam ter uma ciência apurada das
artes e das técnicas do druidismo e da magia.

Os Fir Bolg reuniram-se em conselho no palácio real de Tara, «É terrível que não saibamos de
onde vem essa gente e o que pretende de nós. Enviemos Sreng, filho de Sengann, ao encontro
dos recém-chegados, pois se trata de um homem rude e de alta estatura que conhece muito
bem as artes e as ciências. Ele irá perguntar aos forasteiros quem são e o que pretendem.»

Streng, filho de Sengann, levantou-se e aprontou-se para a partida, equipando com o


poderoso escudo vermelho-acastanhado, as duas lanças de madeira muito espessa, a espada
que cintilava, o capacete Com quatro chifres e a pesada moca de ferro. Assim equipado,
despediu-se da assembléia real e dirigiu-se para o sítio onde se tinham entrincheirado as gentes
das tribos de Dana, no território de Coimaught.

As gentes de Dana vieram recebê-lo na planície, e ficaram muito admiradas com a sua estatura
e com o seu péssimo aspecto. «Olhai: um homem vem ao nosso encontro», disseram elas. «Só
pode ser um mensageiro que nos vem perguntar quem somos e o que desejamos. Mas nós
desconhecemos de que raça ele é, talvez seja da raça dos Fomoi-e.» Dirigindo-se a Bress, filho
de Elattia, disse-lhe: «Vai recebê-lo, pois, embora sejas de sangue real, tens um pai que é um
Fomore, e por isso poderás com certeza compreendê-lo e dizer-nos em seguida quem ele é.»

Bress, filho de Elattia, pegou no escudo, na espada e nas duas grandes lanças, deixou o campo
das tribos de Dana e avançou para a planície ao encontro de Sreng, filho de Sengann.
Aproximaram-se um do outro até o intervalo que os separava ser suficiente para que pudessem
comunicar entre si. Ficaram a olhar um para o outro com atenção e curiosidade, admirando-se
ambos com o armamento e o equipamento do que estava em frente. Achando estranhas as
duas grandes lanças de Bress, Sreng cravou o escudo na terra de modo a proteger o corpo e o
rosto. Bress fez o mesmo com o seu escudo e saudou Sreng. Este correspondeu à saudação e
ambos compreenderam que falavam a mesma língua e que por isso tinham antepassados
comuns. «Fico satisfeito por ouvir palavras tão gentis como as tuas», disse Bress. «Já percebi
que os teus antepassados são da raça de Nemed, que o céu lhe seja leve.» «Eu também fico
satisfeito por constatar que somos da mesma raça e do mesmo sangue», respondeu Sreng.
«Fica, no entanto, a saber, que nós somos homens muito poderosos e que jamais recuámos
diante de qualquer inimigo, por muito poderoso que ele fosse.» «0 mesmo acontece
connosco», respondeu Bress. «Fica, a saber, que nada nos detém e que nunca ninguém levou a
melhor sobre nós.» «Não duvido», disse Sreng, «que o teu povo é corajoso. Se os nossos
exércitos se chegarem a enfrentar, haverá muitas mortes em ambos os lados, por muitas artes
mágicas que sejam usadas para evitar o derramamento de sangue.»
Ficaram a olhar-se por um momento, e depois Bress disse: «Afasta o escudo da frente do teu
corpo e do teu rosto para que eu possa fazer uma descrição do teu aspecto às tribos de Dana.»
«Assim farei», respondeu Sreng. «O meu corpo e o meu rosto estavam escondidos por eu
desconfiar das lanças aguçadas que ambos trazemos conosco».

Sreng afastou o escudo deixando-o cair no chão. Bress fez o mes mo, e encaram-se um ao
outro longamente. «Mostra-me as tuas armas», pediu Bress. «Fá-lo-ei de boa vontade»,
respondeu Sreng, atirando para o chão as suas lanças. Bress deixou cair também as suas. «Pelo
que vejo», exclamou Bress, «são armas de pontas largas, pesadas e fortes, poderosas e
cortantes! Pobre daquele que por elas for ferido, pois não conseguirá sobreviver! Como lhes
chamas?» » «São lanças de batalha», disse Sreng. «Com elas não há inimigo que nos faça
frente, pois provocam ferimentos e danos irreparáveis nos adversários abrindo o caminho à
vitória.» «Acredito bem que sim», disse Bress. «Mas as minhas armas não são menos eficazes,
vais ver. Com elas, posso espalhar a morte e a destruição entre aqueles que quiser atingir,
envenenando-lhes o sangue e fazendo-os desaparecer da superfície da terra.»

Calaram-se por um bom tempo e continuaram a observar se. «Pois sendo assim», retomou
Bress, «e para evitar que os nossos parentes tenham a tentação de se destruir, o melhor será
que estabeleçamos um tratado de aliança e de amizade.» «De boa vontade», respondeu Sreng.
Bress, filho de Elattia, das tribos de Dana, e Sreng, filho de Sengann, da tribo dos Fir Bolg,
juraram então aliança e amizade.

«Onde estavas na noite passada?», perguntou Bress. «Estava na for~ taleza real de Tara»,
respondeu Sreng. «É lá que estão os nobres e os guerreiros dos Fir Bolg, à volta do rei supremo
da Irlanda, Eochald, filho de Erc. E tu, de onde vens?» «Eu desci daquela montanha», disse
Bress, «onde estão as tribos de Dana e o seu rei supremo, Nuada, filho de Eclitach. As tribos de
Dana vieram das ilhas do norte do mundo num manto de nevoeiro e chegaram à Irlanda graças
a uma tempestade desencadeada pelos druidas. É sua pretensão vir habitar nesta ’lha, e por
isso seria justo que os Fir Bolg lhes dessem metade dela, para que pudéssemos viver em paz.»
«Tenho de voltar para Tara», respondeu Sreng, «e de transmitir as tuas palavras ao rei
supremo da Irlanda. Até se chegar a Tara o caminho é longo, portanto tenho mesmo de
partir.» «Val», disse Bress”, mas antes toma uma das lanças que eu trouxe comigo. Os Fir Bolg
saberão assim que tipo de armas possuem as tribos de Daria.»

Sreng apoderou-se da arma que lhe estendeu Bress, e por seu lado, deu-lhe uma das que tinha
trazido. «Diz aos Fu-Bolg», disse Bress, «que só se derem metade da ilha ao meu povo poderão
evitar a guerra de que sairão derrotados pela certa.» «Transmitir-lhes-ei o teu recado»,
respondeu Sreng.

Nessa altura separaram-se, depois de mais uma vez terem prometido amizade entre si, e cada
um seguiu o seu caminho. Quando Sreng chegou a Tara, fizeram-lhe perguntas sobre as gentes
com quem se tinha ido encontrar.
«São grandes guerreiros», respondeu Sreng. «São viris e hábeis, e têm heróis cruéis e
experientes em combate. Usam escudos largos e sólidos, e lanças com pontas afiadas e fustes
de madeira muito sólida. As lâminas das suas espadas são flamejantes e ameaçadoras. É
melhor que selemos com eles a paz e que lhes cedamos metade da Irlanda, pois será muito
difícil vencê-los.»

Os Homens-Trovão reuniram-se à volta do rei Eochaid e estiveram a analisar durante muito


tempo a proposta de Sreng. «Nós não daremos metade da Irlanda aos estrangeiros», disseram
por fim”, pois se o fizéssemos eles a seguir apoderar-se-iam de toda a ilha e escravizar-nos-
Iam, a nós, aos nossos filhos e aos nossos descendentes.»

Bress, por seu lado, voltou para o campo das tribos de Dana. Perguntaram-lhe como era o
homem que tinha ido ao seu encontro na planície, e como eram as suas armas. Mostrando a
lança que lhe dera Sreng, ele respondeu: «É um homem rude, poderoso, e vi-o na posse de
armas muito poderosas. É grande e corajoso, e nada o atemoriza. Duvido muito que o seu povo
nos ceda sem luta metade da Irlanda.» «Devemos então preparar-nos para uma dura batalha»,
disseram as gentes das tribos de Dana. Fabriquemos lanças e espadas e construamos fortalezas
onde nos possamos refugiar em caso de necessidade.»

As três magas das tribos de Dana, Bobdh, Macha e Morrigane, foram enviadas a Tara,
chegando pouco tempo depois ao monte dos Reféns. Daí elas lançaram enxurradas de magia
druídica, nuvens densas de nevoeiro e violentas chuvas de fogo, com gotas de sangue, que
caíram na cabeça dos guerreiros. Assim, durante três dias e três noites, os Fir Bolg não
conseguiram ter um segundo de tranqüilidade e de paz, ficando cheios de angústia.

«Os nossos druidas são incapazes de nos proteger da magia das tribos de Dana», lamentaram-
se eles por fim. «Nós proteger-vos-emos», responderam os druidas dos Fir Bolg.

E fizeram então encantamentos à volta da colina de Tara e detiveram a magia das tribos de
Dana. Nessa altura, os Fir Bolg reuniram-se em conselho e decidiram preparar-se para o
combate. Reuniram as suas hostes num lugar determinado, com todos os seus chefes, todos os
seus nobres e todos os seus reis, e aquele lugar passou a ser chamado Planície de Lia.

Quando viram os Fir Bolg reunidos, as gentes das tribos de Dana reuniram todas as suas hostes
e, dirigindo-se para a planície, tomaram aí posição. Três dos seus druidas foram enviados ao
encontro dos Homens-Trovão para lhes propor a partilha da Irlanda em nome da sua origem
comum, visto que os Fir Bolg e as gentes das tribos de Dana eram todos descendentes de
Nemed.

os três druidas não tardaram a chegar à tenda de Eochaid, filho de Ere, rei supremo da Irlanda.
Foram-lhes oferecidos tesouros e presentes e perguntaram-lhes o que pretendiam. Eles
disseram que tinham vindo propor ao rei supremo a partilha da Irlanda. Os Fir Bolg
responderam-lhes que Jamais aceitariam fazer uma tal partilha e que jamais dariam nietade da
ilha a quem se apresentava daquele modo.
«Pois bem», disseram os três druidas de Dana, «Ficai então, a saber, que tereis de vos haver
conosco em combate. Quando quereis iniciar a batalha?» «Precisamos de um tempo»,
responderam os Fir Bolg. «Temos de preparar as nossas lanças e as nossas espadas, e temos
de fabricar escudos fortes para nos defendermos.»

Os três druidas voltaram para perto das gentes de Dana e anunciaram-lhes que os Fir Bolg não
estavam na disposição de dar metade da Irlanda, compreendendo então as gentes de Dana que
teriam de travar lutas sangrentas, pois as tribos adversárias eram tão bravas e corajosas como
elas. A batalha na Planície de Lia foi marcada para quinze dias e um mês depois do início do
Verão, ao meio do dia. As hostes puseram-se em marcha aos primeiros ralos de sol, e ficaram
frente a frente exibindo escudos ornamentados com pinturas, lanças majestosas e reais, dardos
e espadas flamejantes. Fatach, o poeta dos Fir Bolg, destacou-se dos demais para exteriorizar a
fúria que sentia cantando as glórias dos seus antepassados. Tendo posto um pilar de pedra no
meio da planície, apoiou-se nele, enquanto Cairpré, o poeta das tribos de Dana, enterrou o seu
próprio pilar na outra extremidade da planície e apoiou-se nele para cantar a coragem dos
guerreiros do seu povo. Foi a partir daqui que a Planície de Lia passou a ser chamada Mag-
Tured, ou seja, «Planície dos Pilares» Y1 o combate começou então, violento e Implacável,
sucedendo-se Atualmente, «Moytura», planície situada entre o lago Arrow e o lago Kcy, na
fronteira dos condados de Sligo e de Roscommon, não longe da cidade de Boyle golpes mortais
entre os guerreiros que ficaram com os escudos partidos, as lanças tortas e as espadas
despedaçadas. 0 clamor tomou-se medonho, e o furor posto na luta pelos guerreiros, na vasta
planície, parecia aumentar de momento para momento.
Ao fim do dia, contudo os homens das tribos de Daria, vencidos, tiveram de começar a
recuar. Em vez de os perseguirem ao longo do campo de batalha, de’
os Fir Bolg ixaram-se ficar no seu próprio te Teno e cada um dos Combatentes levou à
presença de Eochaid, filho de Ere, rei supremo de toda a Irlanda, uma pedra da Planície e a
cabeça cortada de um inimigo, com que fizeram um enorme montículo.

Quanto aos homens das tribos de Dana, ergueram pilares em honra das suas gentes mortas em
combate. 0 médico, que se chamava Dianeccht, fez o que pôde para tratar dos feridos. Por se u
lado, os médicos de Fir Bolg, tendo consigo ervas curativas esmagaram-nas e dispersaram-nas
tão bem nas águas duma fonte que estas se tomaram verdes e espessas. E todos os homens
feridos que mergulhavam na fonte recuperavam logo a saúde e ficavam curados, prontos para
voltarem para o combate.

Na manhã seguinte, Eochaid, filho de Ere, rei supreino dos Fir Bolg, foi-se lavar àquela fonte.
Ora, estando ele só, entretido a fazer abluções, viu Por cima de si três homens belos mas
terríveis que, protegem-nos por escudos, o ameaçavam. «Deixem-me ao menos ir buscar as
minhas armas», disse o rei Eochaid, <”Pois não é justo que venhais ameaçar um homem só e
desarmado.»

Mas os três homens recusaram o seu pedido e quiseram enfrentá-lo ali, sem que ele tivesse
tempo para se armar. Apareceu então Sreng, filho de Sengann, um homem grande e forte, de
compleição temível, que se interpôs entre eles. «Não admito que um dia se diga», exclamou
ele, «q.ue o meu rei indefeso foi atacado por três jovens presunÇOsOs. É comigo que deveis
lutar e não com el,!»

Os três atacaram-no e sucumbiram imediatamente aos golpes furiosOs que ele lhes infligiu.
Com a luta já terminada, apareceram os Homens-Trovão. Viram OS três homens caídos por
terra, e o rei contou-lhes como Sreng lutara em seu lugar. Então, pegaram em pedras com que
encobriram Os três corpos de modo a formar um caim, que desde então passou a ser chamado
TumUlus de Champion. Depois disso, o rei seguiu-os, e Prosseguiram os combates contra os
homens das tribos de Dana.

Ora, eram tão densas as hostes ali concentradas que, Por todo o lado faiscavam cores
resplandecentes como as do nascer e as do pôr - os campeões dos dois campos, sobre os quais
incidia o sol do-S0L-tinham um aspecto aterrador, indescritível fogoso e resplandecente, ações;
ao mestível, agitando as suas espadas nos ares em todas as direção nio terflpO, enterravam as
suas lanças no corpo dos adversários e deles faziam jorrar rios de sangue que se derramavam
pela erva verde da planície, Defendendo-se atrás de filas serradas, os homens das tribos de
furioso, brandindo as armas enDana lançaram um ataque impetuoso e contra os Fir Bolg.
Formaram uma venenadas, linha de batalha impenetrável e sangrenta, escondendo-se atrás
dos seus escudos coriáceos lados de vermelho e pintados com as cores mais variadas, requer
bordas às investidas. Os guerreiros mais jovens insistiam a todos estavam na liflancos das
hosnba da frente, pois os mais velhos foram colocados nestes para ajudarem e aconselharem
os que combatiam com tanta valentia. os poetas, os adivinhos e os sábios colocaram-se ao
lado dos pilares que erigira , e puseram em prática toda a magia para tentarem encFanar rfl
1c Z1 os seus inimigos com feitiços e encantamentos. As fúrias, os
monstros e os feiticeiros berravam tão alto e com tanta fúria que as suas vozes ecoavam pelos
rochedos e pelas cascatas, chegando às cavernas mais profundas da terra. E a própria terra
tremia ao ouvir os gritos horríveIs que, naquele dia, se soltaram por toda a planície de Mag-
Tured.

Eocha’d, filho de Ere, o rei supremo dos Fir Bolg e de toda a Irlanda, enleontrava-se mesmo no
coração da batalha, assim como Nuada, o rei de todas as tribos de Dana. Ambos distribuíam
socos violentíssimos à esquerda e à direita, socos que fustigavam os corpos, despedaÇavam os
escudos e as lanças, e cortavam as cabeças, mais parecendo lenhadores a derrubarem à
machadada as árvores da floresta. Os heróis andavam de um lado e do outro e, no meio da
confusão, lançavam murros impetuosos a tudo o que estivesse ao seu alcance, enquanto iam
brandindo as lanças cortantes e faiscantes.

Estavam também presentes três mulheres, as três magas das tribos de Dana, Bobdh, Macha e
Morrigane, a filha de Ernmas”). No meio do tumulto, elas lançavam feitiços para ajudar os seus
e imprecações para

I- Ernnias significa «estranho». Na realidade, as três magas são três aspectos da mesma per-
50”agem: Bobdh é a Gralha, Macha, a Amazona, o Morrigane a Grande Rainha. Esta triPlicação
encontra-se na tradição britónica, em particular na lenda arturianu em que a fada Morgane
aparece às vezes com a forma da Amazona Rhiannon e às vezes com a forma de uma gralha,
pois possui o poder de se metamorfoscar enfraquecer os adversários. As espadas embatiam nas
extremidades dos escudos redondos, e lâminas incandescentes provocavam poças de sangue
que chapinhavam debaixo dos pés dos homens. Bress, filho de Elatha, veio combater contra os
Fir Bolg. Cento e cinqüenta guerreiros sucumbiram às suas mãos, tendo ele aplicado nove
golpes no escudo do rei Eochaid enquanto este lhe infligia nove ferimentos. Sreng, filho de
Sengann, veio combater as tribos de Dana. Morreram às suas mãos cento e cinqüenta
guerreiros, tendo ele aplicado nove golpes no escudo do rei Nuada que, por seu lado, lhe
infligiu nove ferimentos.

A certa altura, os homens das tribos de Dana começaram a repelir os Homens-Trovão,


enquanto na planície se iam acumulando os cadáveres. As hostes tremiam como a água de um
caldeirão que transborda por todos os lados, ou como um rio cujas águas engrossam quando
um exército abre caminho por entre elas para os seus guerreiros poderem passar. E, como os
próprios reis queriam combater, foi-lhes dado um grande espaço. Os guerreiros afastaram-se e
os servos, atemorizados com aquele espetáculo, puseram-se em fuga. A terra foi calcada pelos
heróis e com o ardor da luta endureceram as turfas sob os seus pés. Sreng e Nuada infligiram-
se mutuamente trinta ferimentos, e o primeiro infligiu um golpe terrível ao rei das tribos de
Dana atravessando com a espada a borda do seu escudo e indo cortar-lhe o braço direito até
ao ombro. Nessa altura, Nuada lançou um grito tremendo de dor.

Ao ouvi-lo, Dagda dirigiu-se para ele e tentou protegê-lo dos inimigos que o cercavam. Depois
se aconselhou com os companheiros, e mandaram chamar cinqüenta heróis para proteger o rei,
encontrando-se entre eles o médico Diancecht. Nuada foi levado para fora do campo de
batalha, e tiraram-lhe o braço para o colocarem num círculo de pedras. E o sangue de Nuada
escorreu sobre as pedras.

Entretanto, apesar de Nuada se ter retirado, o combate continuou aceso. Bress, o filho de
Elattia, queria vingar o seu rei. Precipitou-se para o lugar de onde Eochald dirigia a batalha,
exortando os heróis e dando ânimo aos campeões. Bress atacou-o furiosamente e ambos,
escudo contra escudo, feriram-se nas partes do corpo a descoberto, enquanto os restantes
combatentes se mantinham no meio de um cenário caótico, enraivecidos e tendo de suportar o
peso das suas armaduras e dos seus corpos.

Assim que os campeões de Dana vieram em seu socorro, tendo à cabeça Dagda, Ogina, Bobdh
Derg, filho de Dagda, Cian, filho de iancecht, assim como Goibniu, o ferreiro, os Fir Bolg foram
obrigados a deixar o terreno. Quando chegaram a um outeiro que dominava a planície de
Tured, Eochaid, filho de Erc, o rei supremo dos Fir Bolg da Irlanda, sentiu muito fraco. Pediu
então a Sreng, filho de Sengann, para lhe vir falar - «Prossegui o combate, fazei com que todos
os nossos guerreiros continuem a combater com bravura e tenacidade, até que eu encontre
água que possa beber e com que possa lavar a cara», disse Eochaid, «pois tenho a garganta
seca e estou a morrer de sede.» «Nós somos pouco numerosos, agora», respondeu
Sreng, ,”mas asseguro-vos que o combate prosseguirá, aconteça o que acontecer.»

Sreng reuniu uma centena de homens e preparou-se para enfrentar as gentes das tribos de
Dana. Mas, assim que os druidas daquelas souberam que o rei da Irlanda estava morto de
sede, lançaram um feitiço de forma a esconder das suas vistas os nos e os regatos da Irlanda.
E ele, por muito que procurasse o país à procura de uma fonte onde matar a sede, não
encontrou nada. Ora, estando ele a ser perseguido pelos guerreiros das tribos de Dana,
aproximou-se de uma margem, num lugar que hoje se chama o Areal de Eochaid. Aí foi atacado
por três guerreiros, mas defendeu-se energicamente, apesar da sede que o atonnentava, e
matou-os aos três. Tendo recebido diversos ferimentos e estando enfraquecido por todos os
golpes que sofrera, ele próprio também acabou por sucumbir. E ali mesmo foi enterrado,
naquele mesmo areal, debaixo de um montículo que os Fir Bolg fizeram com pedras para ali
levadas.

Naquela noite, devido ao cansaço e às grandes perdas que sofreram, os Homens-Trovão


estavam consternados e completamente desanimados. Censurava-se por não terem lutado com
suficiente ardor e deram sepultura às suas gentes, aos pais, aos amigos e aos familiares. Para
os nobres foram feitos montículos, erigiram-se pilares em memória dos heróis, e os restantes
combatentes foram enterrados em campas. Depois disso, Sreng, filho de Sengann, convocou a
assembléia dos Fir Bolg para se aconselhar e decidir o que fazer. Disse aos Fir Bolg que só
tinham duas possibilidades: ou deixavam a Irlanda para sempre e partiarn para outro país, ou
aceitavam partilhar a ilha entre si e as tribos de Dana. «A não ser assim», acrescentou ele,
«teremos de combater até à última gota de sangue. E ficai, a saber, que, com os poucos
homens que nos restam, não nos será fácil alcançar a vitória.»

Os Firbolg decidiram não abandonar a Irlanda e combater as tribos de Dana até ao último
homem em condições de pegar em armas.
Então, voltaram a pegar nos grandes escudos quadrados, nas lanças envenenadas, nas espadas
cortantes de metal azul, e partiram ao encontro das tribos de Dana, sabendo que no combate
terrível e desesperado que se avizinhava o mais certo era encontrarem a morte. Uma vez
chegados ao lugar onde se encontravam as tribos de Dana, Sreng, filho de Sengann, desafiou
Nuada para o combate como vingança pela luta que ambos já tinham travado. Nuada, como se
não tivesse ficado sem braço, enfrentou-o cheio de coragem. Com a mão esquerda agarrou nas
armas e avançou para Sreng, dizendo-lhe: «Se o que desejas é uma luta como deve ser,
amarra o braço direito, pois eu perdi o meu, e assim estaremos em igualdade de condições. Se
queres que a luta seja justa, é isso o que deves fazer.» «Nada a isso me obriga», retorquiu
Sreng.
«Nós estávamos em igualdade de condições na primeira luta que travámos, e esta é a
continuação dessa primeira luta. É verdade que eu te cortei um braço, mas os teus guerreiros
mataram o meu rei, Eochaid, filho de Erc, e eu tenho sangue real. Cabe-me a mim vingar a
morte do rei supremo da Irlanda, vencendo o rei das tribos de Dana.» Nessa altura interveio
Bress, filho de Elatha:
«Sreng, valoroso guerreiro, lembra-te que nós fizemos um juramento de paz e de amizade. Eu
também tenho sangue real e poderia combater no lugar do meu rei. Mas como estamos unidos
por este juramento de amizade, não podemos voltar a encontrar-nos frente a frente. Paremos
com isto e façamos a paz.» «Farei como dizes, e respeitarei desse modo o juramento feito
perante ti, ó valoroso Bress». Respondeu Sreng. «Espero as tuas propostas.»

i Bress foi-se reunir com os chefes das tribos de Dana e analisou a situação com eles. «Que
perdas sofremos?», perguntou Nuada. «Nobre Nuada», respondeu Dagda, «juro-te que
perdemos muitos guerreiros e muitos campeões nesta batalha. Uma grande parte de nós,
muitos dos nossos irmãos e dos nossos filhos, morreram às mãos dos Fir Bolg, e são tão
grandes as nossas baixas que tão pouco podemos saber quantas foram. Nós pedimos aos Fir
Bolg para partilharem a Irlanda conosco porque temos origem no mesmo clã, o do glorioso
Nemed que é uni nosso antepassado. Era uma questão de justiça, e nós tínhamos o mesmo
direito que eles de habitar este país. Eles não nos quiseram deixar 0 lugar que por herança nos
pertencia, e tivemos de o conquistar pelas armas, pagando um alto preço com o sangue dos
nossos heróis e dos nossos guerreiros. Penso que chegou o momento de celebrar um acor do
com os Firbolg, pois eles já não estão em condições de lutar comiosco e seria cometer uma
injustiça matá-los até ao último hoiiiern». «E a voz da sabedoria que fala pela tua boca, ó
Dagda», disse Nuada. «E, apesar da dor que me provoca a minha enfermidade, apesar da raiva
que sinto, prefiro que se firme a paz entre nós e os Homens-Trovão. Que Bress vá ao encontro
de Sreng, filho de Sengann, e que lhe proponha o fim das hostilidades e a escolha, pela sua
parte, de uma província da Irlanda para habitar com as gentes do seu povo.»

Bress foi falar com Sreng e transmitiu-lhe a proposta dos chefes das tribos de Dana. Sreng
escolheu a província de Connaught. Então juraram paz e amizade, para eles e os seus
descendentes. E Sreng, filho de Sengann, reuniu-se com os Fir Bolg que tinham escapado ao
massacre de Mag-Tured, e partiu para Connaught, de que tomou posse.” Quanto aos homens
das tribos de Dana, reuniram-se mais uma vez para decidir o que haviam de fazer na Irlanda,
tendo-se tornado donos de quase todas as terras da Ilha Verde. Chegaram a acordo
unanimemente que era preciso fixarem-se nas planícies e nos vales tirando proveito do solo
cultivando o trigo e fazendo a criação de gado nos grandes prados situados junto aos rios.
Quanto a Nuada, o rei supremo das tribos de Dana, o médico Diancecht, com a ajuda do
artesão Credné, fez-lhe um braço de prata dotado de todos os movimentos da mão em cada
dedo e em cada articulação. E Miach, filho de Dlancecht, enxertou-lhe o braço, articulação a
articulação, nervo a nervo e vela a veia, por três vezes, ficando ele curado ao fim de nove dias.
Entretanto, I)lancecht ficou despeitado com aquela cura e, furioso, brandindo a espada sobre a
cabeça do filho, provocou-lhe um golpe profundo no pescoço. 0 rapaz, contudo, curou-se pondo
em prática a sua arte. Então, Diancecht voltou a feri-lo e chegou ao osso. 0 rapaz mais uma vez
curou-se voltando a usar a sua arte. Ainda mais furioso, Diancecht feriu-o uma terceira vez na
cabeça e atingiu-lhe o cérebro, tendo sido assim que A tradição popular local de Connaught,
sobretudo no condado de GaIway, conserva a marca da lembrança dos Fir Bolg. Deste modo,
os habitantes das ilhas de Aran são considerados os descendentes dos Homens-Trovão, e as
fortalezas pré-históricas que se encontram nas três ilhas de inismore, Inisman e Inislicer,
passam por ser obras destes longínquos antepassados, na verdade mais míticos que reais, mas
capazes de vencer as barreiras do tempo graças ao poder do imaginário, Miach morreu às mãos
do próprio pai. E este disse que ninguém dali em diante o poderia devolver à vida.

Depois, Diancecht dirigiu-se aos homens das tribos de Dana: «Mesmo no caso de Nuada se
apresentar diante de vós com um braço, ficai, a saber, todos que este é de prata. Por esse
motivo ele passará a ser chamado Nuada do Braço de Prata. Sabei também que qualquer rei
que perde uma parte do corpo se toma incapaz de reinar, pois a integridade do rei é o que
garante a integridade do reino”). Devemos por isso escolher entre nós qual é o mais digno de
ser nosso rei, pois Nuada do Braço de Prata, por muito mérito que tenha, já não é digno de
exercer uma tal função.»

Os chefes das tribos de Dana reuniram-se em conselho. «Diancecht tem razão», disse Nuada.
«Eu já não posso ser o vosso rei, pois lamentavelmente perdi o meu braço. Escolhei pois entre
vós aquele que vos parecer mais digno de ser o vosso rei.»

Então, depois de acesa discussão, acabaram por escolher Bress, filho de Elattia, pois ele tinha
sangue real, sendo filho de um príncipe dos Fomore. E assim Bress tomou-se rei da Irlanda
durante sete anos, após a batalha de Mag-Tured em que as tribos de Dana combateram e
venceram os Fir Bolg.
1. Definição da realeza de tipo celta: um rei só é capaz de governar o seu reino se tiver o
«POder do dom», ou, dito de outro modo, o poder de distribuir as riquezas de acordo com os
méritos de cada um. Mesmo com uma prótese, Nuada é um rei amputado, e não se pode servir
do braço direito para cumprir simbolicamente a sua missão, que é «distribuir». Na lenda
arturiana encontra-se precisamente o mesmo conceito, quando o rei Artur perde devido à
doença - o poder de dar. Isto também acontece no caso do Rei Pescador que, vítima de um
ferimento mágico, não é capaz de assumir em plenitude a função de Rei do Graal. Desse modo
o seu reino torna-se estéril e assim permanecerá enquanto ele não se curar ou enquanto um
jovem rei, de uma incontestável integridade física, como Perceval, não lhe suceder no trono.
Costuma dizer-se que um reino se estende até ao alcance do olhar do rei, o que faz supor da
parte deste uma perfeição física indissociável da perfeição moral.

2. Segundo a narrativa da «Primeira batalha de Mag-Tured», com alguns pormenores extraídos


(10 «Livro das Conquistas» e da narrativa da «Segunda batalha de Mag-Tured», primeira
versão o saberem que Bress, filho de Elatha, se tomara rei das tribos de Dana, os Fomore
ficaram muito satisfeitos, pois viam nele um dos seus e, por seu intermédio, tudo fariam para
impor aos habitantes da Irlanda encargos tão pesados como aos seus antepassados noutros
tempos. Assim, enviaram mensageiros a Bress para lhe lembrar que, se a sua mãe era
originária das tribos de Dana, já o seu pai era Elatha, um dos grandes chefes dos Fomore,
gigantes que habitavam em ilhas no meio do nevoeiro. Desse modo, os Fomore fizeram recair
pesados encargos sobre as tribos de Dana. Os homens da Irlanda deviam-lhes pagar um
imposto sobre o trigo, um Imposto sobre o leite e a manteiga, e um imposto por cada pedra
que servisse para construir uma casa. Além disso, deviam pagar uma onça em ouro por pessoa,
homem ou mulher, adulto ou criança, ou arriscavam-se a que lhes cortassem impiedosamente o
nariz. Para cúmulo, o rei Bress, desde que soubera que podia contar com os Fomore, abusava
em benefício próprio das suas prerrogativas. Atribuiu terras a si mesmo, e obrigou os nobres
das tribos de Dana a executarem trabalhos muito duros em seu proveito. Assim, Ogma, o
campeão”’, devia levar diariamente um feixe de lenha para a lareira da casa de Bress; I- Ognia
é o deus Oginios que o filósofo grego Luciano de Samosata, no seu tratado sobre Herá” es,
apresenta com os traços de um «Hércules» já idoso cujas correntes saídas da língua chegavam
às orelhas dos humanos. 0 nome Oginios-Ogina não é celta mas grego, e evoca a «estrada o
<caminho», tratando-se de qualquer modo de uma divindade da comunicação Segundo a
tradição irlandesa, terá inventado o «ogham», ou seja, a escrita ogântica vertical que se
encontra nas colunas de pedra da alta Idade Média na Irlanda e no oeste da Gr Bretanha.
Obviamente, há pontos em comum entre O nome Ogina e o de Ogliam, e Dagda, que já lhe
havia construído a casa, foi obrigado a construir-lhe fortalezas, Com o passar do tempo, cada
vez mais os nobres das tribos de Dana viam com maus olhos os impostos que lhes eram
infligidos pelos Fomore, assim como as injustiças que eram praticadas pelo seu próprio rei
Bress, filho de Elatha.

Certo dia, um cego de nome Cridenbel foi encontrar-se com Dagda na sua casa real. Era um
preguiçoso, um parasita, mas costumava dizer sátiras e toda a gente o receava.’1 Ora,
Cridenbel pensava que a parte de comida que lhe cabia era muito inferior à de Dagda.

«O Dagda!», exclamou ele em alta voz, «por tua honra, quero que uma terça parte substancial
da tua ração de comida me seja dada!» Foi assim que, a partir de então, Dagda passou a dar
uma grande parte da sua comida ao sátiro. Apesar disso, a ração daquele era abundante, sendo
cada bocado de comida do tamanho de um grande porco. E como Dagda, apesar de privado de
um terço da sua ração, continuava a fazer os seus trabalhos muito duros, ia ficando cada vez
mais fraco.

Um dia, estando a cavar uma fossa, o seu filho Bobdh Derg veio vê-lo e ficou espantado ao vê-
lo tão magro e sem forças. «Que se passa contigo, ó Dagda?», perguntou Bobdh Derg. «Porque
é que estás com tão mau aspecto?» «Ora», respondeu Dagda, «Crideribel, o sátiro, exige de
num que lhe dê todas as noites uma terça parte substancial da minha ração». «Vou-te dar um
conselho», disse Bobdh Derg. Tirou a bolsa da túnica e, pegando em três peças de ouro, pô-las
na mão de Dagda. «Ouve bem o que te digo», continuou ele. «Vais me ter estas três peças de
ouro em três bocados de comida que lhe deres, tendo a preocupação de que sejam os mais
belos e mais apetitosos. Cridenbel engoli-los-ã vorazmente, com as peças de ouro dentro, de tal
modo que o ouro, ao entrar-lhe no corpo, o fará morrer. Irão então dizer a Bress que o sátiro
morreu por lhe teres dado uma erva envenenada. O rei, furioso, dará ordens para que tu sejas
castigado com a morte, mas tu defender-te-ás. Dirás que Cridenbel te pediu os três melhores
bocados da tua comida e que, para o satisfazeres, lhe deste três peças de ouro, ou seja, os três
melhores bocados. Acrescentarás que foi por ter engolido o ouro que Cridenbel morreu.»

1. Membro da classe sacerdotal druídica, o sátiro desempenha um papel muito partícula, as


sociedades de tipo celta: quando ele lança uma «sátira», ou seja, um feitiço mágico, c011tra
alguém, aquela adquire um caráter incontornável e o seu destinatário não lhe pode fugir, pois
se o fizer arrisca-se a perder a honra, a saúde e a própria vida.
Dagda pôs em prática o conselho de Bobdh Derg. Naquela mesma noite, meteu as três peças
de ouro nos três melhores bocados da sua comida e deu-os a Cridenbel. O sátiro devorou
vorazmente os três bocados e de manhã foi encontrado morto. Então, as gentes da casa foram
dizer ao rei que o sátiro tinha morrido porque Dagda lhe dera a comer urna erva envenenada.
Bress chamou Dagda à sua presença e censurou-lhe veementemente a sua malvadez,
ameaçando-o com a morte no caso de se vir, a saber, que ele era culpado. «Eu não sou
culpado», respondeu Dagda. «Crideribel pediu-me as três melhores partes que me cabiam, e o
que eu tinha de melhor eram as três peças de ouro. Dei-as por isso a Cridenbel, e não tenho
culpa de ele ter morrido pelo fato de o seu corpo não ter suportado o ouro.» «Se assim é»,
disse o rei, «mandarei abrir o corpo de Cridenbel para ver se existe ouro lá dentro. Se não
houver, tu morres, e se houver, ser-te-á poupada à vida.»

Abriram a barriga ao sátiro e encontraram três peças de ouro no estômago, o que serviu para
desculpar Dagda, que não tardou a recuperar força e energias, pois já não tinha de dar uma
parte substancial da sua comida. O perdão dado a Dagda não impediu, no entanto que este e
todos os chefes das tribos de Dana se continuassem a queixar das injustiças de Bress.
Queixavam-se amargamente que ele não os deixava dar uso às facas e que nunca lhes oferecia
festins onde corressem a cerveja e o hidromel. Nunca havia grandes festas em que os poetas,
os músicos e todos os tipos de artistas se exibissem para gáudio de toda a gente. Também não
se assistia nunca a grandes competições onde os campeões pudessem mostrar as suas
habilidades. E todos se interrogavam como se havia de ultrapassar esta situação
constrangedora”).

Nuada, pela sua parte, lamentava-se por ter perdido a coroa e o poder real devido à falta do
braço, apesar de um braço de prata lhe ter sido enxertado, permitindo-lhe mover as
articulações com uma extrema suavidade e destreza. Vivia em Tara, com a maior parte das
tribos de Dana, e o Porteiro que lhe vigiava a entrada da fortaleza só tinha um olho.

Um dia, andando o porteiro no prado em frente da fortaleza, viu ao Pé das muralhas dois
jovens belos e de estatura nobre. Um era homem o ’ outro mulher, tendo-o ambos
cumprimentado após se aproximarem dele. Ele correspondeu ao cumprimento e perguntou-lhes
o que os trazia à fortaleza real de Tara. «Nós somos dois bons médicos», responde Segundo a
narrativa da «Segunda batalha de Mag-Tured», primeira versão.
Eram eles, o filho e a filha de Dianceclit. Ele chamava-se Oirmiach e ela Airmed. «Se são tão
bons médicos», disse o porteiro, «têm de n---10 provar. Não vêem que sou zarolho? Pois bem,
fazei com que eu tenha um olho no lugar daquele que me falta.» «E para já», disse o jovem,
«Eu vou imediatamente pôr um olho de gato no lugar do olho que te falta». «Ficarei muito
satisfeito com isso», respondeu o porteiro, «e elogiarei os teus méritos em todas as
assembléias desta ilha.»

Com efeito, este jovem, que se chamava Oirmiach, e a jovem, que se chamava Airmed,
meteram o olho do gato no lugar do que estava em falta no porteiro. Mas, mais tarde, o
porteiro só ficou meio satisfeito, pois quando queria dormir ou descansar, o olho abria-se ao
mais pequeno chiar de um rato, ao mais leve bater de asas de um pássaro, ou mesmo ao mais
ligeiro sopro de vento nos ramos das árvores. Pelo contrário, quando tinha necessidade de
observar um grupo de guerreiros ou uma assembléia de nobres à volta do caldeirão, o olho
fechava-se-lhe e ficava com vontade de dormir e de repousar.

Maravilhado, entretanto, com a arte dos dois jovens, entrou no palácio e foi falar com Nuada do
Braço de Prata. Comunicou-lhe que havia dois bons médicos à porta e que eles tinham acabado
de lhe pôr um olho no lugar daquele que lhe faltava. Nuada mandou então que eles entrassem.

Quando os jovens entraram na grande sala onde estava Nuada do Braço de Prata, ouviram uma
espécie de gemido de lamento e de dor. «0 que há aqui?», perguntou Oirmiach. «Pareceu-me
ouvir o gemido de um guerreiro que padece de um mal terrível.» «Na verdade, é um grito de
dor e de desespero», disse Airmed. «Vejamos se não se trata de um suspiro de um guerreiro
que sofre por um escaravelho lhe estar a roer o braço sem que ele disso se dê conta.»

Estenderam Nuada do Braço de Prata numa liteira e examinaram-no com atenção. Airmed
acabou por lhe tirar o braço de prata, e de dentro dele saiu um escaravelho que se pôs a correr
por toda a fortaleza. Os homens da casa real vieram então ver o que se passava e mataram o
bicho.

«0 braço de prata estava bem articulado», disse Oirmiach, «mas não serve ao rei Nuada. Se
encontrássemos um braço com igual comprimento e largura, metê-lo-íamos no lugar desse.»

Os nobres das tribos de Dana que se encontravam ao redor de Nuada ordenaram então aos
criados que procurassem entre eles uni braço adequado. Os criados observaram os braços de
todos aqueles que ali se encontravam e pediram aos dois jovens para darem um parecer.

Mas estes, fazendo uma ronda por braços sucessivos, não encontravam nenhum que
conviesse. Referindo-se ao braço de Moffian, o chefe Porqueiro das tribos de Dana, os criados
perguntaram aos médicos: «Este braço serve-vos?» «Esse nos parece, com efeito, o mais
conveniente», responderam eles. Era necessário ainda que o homem aceitasse de boa vontade
dar o seu braço ao rei Nuada. «Fá-lo-ei com todo o gosto», disse o porqueiro, «desde que isso
nos ajude a livrarmo-nos da opressão dos Fomore e das injustiças de Bress.» Oirmiach disse
então à sua irina: «O que preferes? Enxertar o braço nos ombros do rei Ou ir procurar ervas
para permitir que ele se adapte à natureza da sua carne?» «Prefiro enxertar o braço»,
respondeu Airmed.

E, enquanto Oirmiach foi procurar ervas, Airmed pacientemente meteu mãos à obra. Com todo
o cuidado, enxertou o braço do porqueiro no ombro do rei e, assim que o Irmão voltou com as
ervas, ela aplicou-as com tantas cautelas que o braço se ajustou perfeitamente a Nuada.
Qualquer pessoa que desconhecesse que ele perdera um braço em combate não poderia
suspeitar que aquele braço não era o seu. Mas, apesar disso, não se deixou de se lhe chamar
rei Nuada do Braço de Prata”.
Entrementes, os nobres das tribos de Dana puseram-se a debater quem havia de ser o rei da
Irlanda. Alguns observaram que, tendo-lhe sido restituído uma mão e um braço, Nuada poderia
reinar de novo sobre o seu povo. Mas outros alvitraram que, tendo sido atribuído poder real a
Bress, filho de Elaffia, este não lhe poderia ser retirado sem seu consentimento. Ora, era sabido
de todos que Bress se apegara ao poder e que não o abandonaria sob nenhum pretexto. «Eu
sei o que há a fazer», disse então Dagda. «Peçamos a Cairpré, que é poeta e sátiro, para ir à
casa de Bress e para lhe fazer provocações pondo a nu as suas fraquezas e a sua sovinice.»

Cairpré, filho de Etaine, que era o poeta das tribos de Dana, deslocou-se então à casa real que
Dagda construíra para Bress. Apresentou-se e pediu hospedagem, que lhe foi dada de boa
vontade. Mas Cairpré achou a casa de Bress sombria, muito pequena e desconfortável. Nela
não havia lareira para se poderem aquecer, nem leito para dormir, nem comida em quantidade
suficiente para matar a fome. Trouxeram-lhe três pequenos pães, que estavam secos e duros.
Além disso, em vez de cerveia e de hidromel, deram-lhe água. Comeu os pequenos pães, bebeu
a água, mas dormiu tão mal na casa real de Bress que acordou na manhã seguinte de muito
mau humor. Saiu de casa, atravessou o pátio e ia pronunciando as seguintes palavras: «Que
horrível é a casa de Bress, filho de Elatha, pois nela a comida não é servida em pratos de ouro,
o leite de vaca não é generosamente distribuído, a cerv ’a deliciosa não corre a rodos, e os
poetas, os contadores de histórias e os músicos nela não têm lugar! Que rei é este que não
sabe distribuir as suas riquezas? Daqui em diante, enquanto Bress, filho de Elattia, for o rei
supremo, não haverá colheitas, as vacas não darão leite, não se fará cerveja, riem se fará a
distribuição de pedras preciosas e de ouro na terra da Irlanda.»

I- Segundo a narrativa do «Sort des enfants de Tuirenn» (Oidhech Chloinne Tuireann), contida em diversos manuscritos do século XVIII,
publicada e traduzida por O’Curry em 1863, por P-W. Joyce em 1874 (old Celtic Romances) e por Richard J. O’Duffy em Dublin em 1901.
Tradução francesa fragmentária em R. Chauviré, Contes ossianiques, Paris, 1947. Tradução francesa integral em Ch.-J. Guyonvarc’h, Textes
mythologiques irlandais, Rennes, 1980.

E, pronunciadas aquelas palavras, Cairpré deixou a fortaleza. Bress ouviu a maldição lançada
por Cairpré e, muito assustado, foi a Tara encontrar-se com os nobres das tribos de Dana na
casa real.

«Porque é que me obrigaram a ouvir a sátira de Cairpré?», perguntou ele. «Um rei deve estar
imune a qualquer maldição, seja de que tipo for.» «A razão é que tu não te comportas como
um rei», respondeu Dagda. Para além de não seres generoso connosco, fizeste de nos escravos
e obrigas-nos a pagar elevados impostos em benefício dos Fomore. «A verdade», acrescentou
Cian, filho de Diancecht, «é que nós nunca deveríamos ter firmado uma aliança com os Fomore.
Eles só nos deixaram conquistar esta ilha aos Fir Bolg para poderem depois dominar-nos e
tirarem dividendos da nossa vitória, e tu nada fizeste para evitar que eles nos prejudiquem.»
«Nós fizemos de ti rei», retomou Dagda, «porque, o nosso rei tinha perdido um braço em
combate. Tu tinhas dois braços, mas eles de nada nos valeram, pois não serviram para criar
riqueza e prosperidade.» «O que é que eu podia ter fato», perguntou Bress. «Eu digo-vos qual
é a minha opinião», disse Dagda, «Agora que o braço que faltava foi restituído a Nuada, ele
deve ser o nosso rei. Pedimos-te que abdiques do trono, pois, devido à sátira que sobre ti foi
lançada, o teu reino está condenado a não dar frutos: faltarão as ervas nos prados parar-se-ão
os animais pastarem, as vacas não darão leite, os campos tornarão estéreis. Se insistires em
ser rei, nada de bom poderemos esperar para o nosso reino.» «Nesse caso abdicarei do trono»,
disse Bress. «Concedei-me algumas garantias, e reconhecerei Nuada como nosso rei.» os
nobres das tribos deram algumas garantias a Bress, tilho de Elatha, prometendo-lhe que seria
sempre bem vindo à casa real e que jamais deixaria de ser convidado para os festins. Então,
ele pediu um prazo de sete dias, que lhe foi dado, deixando depois a casa real de Tara. Mas o
pedido de um prazo deveu-se a um desejo de vingança, tendo ele ficado furioso por ter sido
privado do trono que lhe dava o poder de reinar sobre a Irlanda. Foi encontrar-se com a mãe,
Eri, e perguntou-lhe corno é que havia de encontrar o pai, Elatha, filho do rei dos Fomore.

«Vem comigo, que não terás dificuldade em achá-lo», disse-lhe a mãe. Ela encaminhou~se
para a praia e mandou aparelhar barcos para navegarem para o país dos Fomore. Depois,
tirando o anel de ouro que lhe tinha sido dado por Elattia quando viera ao seu encontro,
estendeu-o para Bress. Bress pô-lo no dedo do meio, ao qual ele se adaptou per~ feitamente.
Até àquela altura, Eri Únha-o guardado religiosamente, não o tendo vendido ou dado a nenhum
homem. Apesar disso, muitos guerreiros tinham tentado enfiá-lo no dedo, sem êxito, pois
aquele anel não se adaptava a nenhum dedo dos guerreiros.

Mãe e filho partiram então para o país dos Fomore, situado numa ilha envolta em nevoeiro.
Desembarcaram e avistaram uma grande planície onde havia varias assembléias. Dirigiram-se
para aquela que lhes pareceu mais bela, e as pessoas que aí se encontravam perguntaram-lhes
por novidades, respondendo eles que tinham vindo da Irlanda. Perguntaram-lhes então se
tinham cães, pois naquele tempo era costume, sempre que pessoas de fora chegavam a uma
assembléia, realizarem-se competições e Jogos. «Sim, temos», respondeu Bress, «e temos
todo o gosto em que eles participem em jogos com os vossos.» Soltaram então os cães, e
estes fizeram corridas contra os dos Foinore, destacando-se graças à sua imensa velocidade.
Perguntaram critão aos recém~chegados se tinham cavalos e se permitiam que eles
Competissem com os dos Fomore «Temos», respondeu Bress, «e é para um grande prazer que
compitam com os vossos.»

E os cavalos das tribos de Dana foram mais rápidos do que os dos Foiriore. Perguntaram então
aos recém-chegados se tinham trazido com eles alguém perito em desembainhar a espada. Mas
os companheiros de Brapiss, apesar de muito se esforçarem, não conseguiram ser mais ’ i dos
que os Fomore. Então Bress tentou a sua sorte, mas assim que pôs a mão na espada o pai
reconheceu o anel de ouro que tinha na mão e Perguntou-lhe quem era ele. A mãe respondeu
por ele, dizendo a Elatha que Bress era um dos seus filhos, e em seguida contou-lhe toda a
história desde que o guerreiro estrangeiro se fora encontrar com ela.

O pai compreendeu que o filho estava ali devido a uma situação grave, e perguntou-lhe: «0 que
é que te fez deixar o país de que és rei?» «O motivo é simplesmente a injustiça e a arrogância
com que tratei os meus súbditos. Eu privei-os dos seus bens e dos seus alimentos, fazendo-os
passar por uma terrível humilhação e por uma situação extremamente injusta.» «Isso é mau»,
disse o pai. «Teria sido preferível que o teu reino fosse prospero, pois um reino rico faz do seu
rei um homem rico. Além disso, é muito mal ter de ouvir maldições.» «Revoltados comigo»
continuou Bress, «os meus súbditos enviaram ao meu encontro um poeta que lançou um feitiço
sobre o reino que durará enquanto eu for rei.» «Estás a dar-me péssimas notícias», disse o pai,
«pois se o teu povo ficar na penúria, não poderá pagar-nos os impostos que lhes impusemos. E
porque é que vieste até aqui, tendo deixado a longínqua Irlanda?» «Vim pedir campeões para
me ajudarem», respondeu Bress, «pois é minha pretensão reconquistar o país pela força.» «Se
em tempo de paz não conquistaste o teu país, não será pela força que conseguirás conquistá-
lo. Temos de ter uma conversa.»

Então, ele levou Bress à presença do pai, Indech, rei dos Fomore.
O rei convocou os nobres e os campeões entre os quais se destacava Balor, filho de Net, que
tinha um olho maléfico. Estudaram a situação e concluíram que, a menos que o trono da
Irlanda fosse devolvido a Bress, filho de Elattia, eles perderiam todos os privilégios que lhes
advinham de tributarem impostos às tribos de Dana. Os Fomore reuniram por isso uma
multidão de homens de todas as ilhas e decidiram partir para a Irlanda. Aí chegados, os
cobradores de impostos reclamariam o tributo devido e, se os homens de Dana se recusassem
a pagar, iniciar-se-ia uma guerra contra eles. E foi assim que a Irlanda viu aproximar-se um
exército poderosíssimo e temível, como jamais se vira.

Entretanto, os nobres e os campeões das tribos de Dana tinham-se reunido à volta do seu rei
Nuada do Braço de Prata, no palácio real de Tara. Sabendo que Bress os trairia e que iria pedir
auxilio aos Fomore, tinham decidido preparar-se para combater aqueles inimigos cruéis C
impiedosos. A reunião decorria na casa real, enquanto o porteiro se mantinha vigilante no
exterior da fortaleza”.

Ora, ao perscrutar o horizonte, ele viu um exército que, avançando pela planície, vinha direito
para a fortaleza. Um jovem destacava-se à frente do exército, parecendo exercer um
ascendente sobre os seus companheiros. O rosto brilhava-lhe como a luz do sol, e as suas
feições muito amplas resplandeciam como ouro. Vinha montado num cavalo cuja crina era tão
bela como as ondas do mar e que avançava tão rapidamente como a noitada fria e cortante da
Primavera. Envergava uma armadura cintilante e na cabeça tinha um capacete belo e sumtuoso
que brilhava, estando ornado com uma rica pedra preciosa atrás e outras duas à frente. Trazia
também uma espada maravilhosa, que matava quem quer que por ela fosse ferido, e que
tomava fraco como uma mulher em trabalho de parto quem quer que a visse reluzir no ardor
da luta.”

Destacando-se dos companheiros de armas, o jovem avançou para o porteiro. «Quem és tu?»,
perguntou-lhe este. «Chamam-me Lug do Braço Longo. Sou filho de Cian, filho de Diancecht, e
de EtImé, filha de Balor das ilhas que ficam para lá do nevoeiro. Fui criado por Tailtiu, filha de
Maginor, dos Fir Bolg.»

«Muito bem», disse o porteiro, «e que desejas tu, filho de Cian?» «Quero dirigir-me à
assembléia dos nobres e dos campeões das tribos de Dana», respondeu Lug. «Isso era bom»,
disse o porteiro, «mas fica a saber que ninguém é admitido na assembléia da casa real de Tara
se não possuir o dom de uma arte, seja ela qual for. 0 que é que tu sabes fazer?» «Muitas
coisas... Sei construir vigas para o teto das casas e edificar paliçadas ao redor das fortalezas.»
«Não duvido da tua arte, mas nós já temos um carpinteiro. Chama-se Luchté, é filho de
Luachaid, e serve-nos perfeitamente sempre que queremos edificar entrincheiramentos ou
construir vigas no teto das casas.» «Eu também sou capaz de forjar relhas do arado e armas
com pontas bem afiadas», replicou Lug. «Sei bater o metal quando ele sai da forja e talhar os
objetos à minha maneira.» «Não duvido das tuas capacidades», retorquiu o Porteiro, «mas já
temos um ferreiro que se chama Goibmu, que é inigualável nas artes do metal.» «Eu também
sou um campeão imbatível no campo de batalha», disse Lug. «Pois que isso te faça bom
proveito! », exclamou o porteiro, «mas nós já temos um campeão que se chama Ogiria.
Sozinho ele é capaz de vencer em combate uma centena de homens armados.» «Eu também
sou tocador de harpa», insistiu Lug, «e sei provocar alegria, tristeza e sortolência.» «Quanto a
isso», objectou o porteiro, «ternos também quem nos satisfaz. Craffine e o nosso tocador de
harpa e, além disso, o nosso protector Dagda possui uma harpa mágica com a qual é capaz de
provocar todos os estados de espírito. A harpa sai por ela própria da parede a que está
encostada e, espontaneamente, vem parar às mãos de Dagda. Como vês, não precisamos de ti
nesta assembleia real.» «Além disso sou poeta e contador de histórias», disse Lug. «Conheço
as histórias de tempos passados, e sou capaz de as contar a quem quer que peça para as
ouvir. Sou a memória viva das tribos de Dana e de todos os povos do mundo.» «Nós já temos
um poeta, Cairpré, filho de Etame. Ele conhece tudo o que aconteceu no mundo desde a sua
criação, e tem o dom de contar os acontecimentos. Se queres que te diga, não sei o que
poderias fazer por nós.» «Mas também sou feiticeiro», insistiu Lug. «Conheço os feitiços que
são necessários para congelar as fontes, impedindo a água de fluir, e para evitar que os
homens ouçam o tumulto do combate. Conheço os sortilégios que desencadeiam as
tempestades e que fazem com que as brumas avancem para os inimigos.» «Também nesse
particular», replicou o porteiro, «nós estamos melhor servidos do que qualquer outro povo.
Temos entre nós diversos sábios e feiticeiros que conseguem dominar o vento, a chuva, o mar
e a terra. Temos também três magas, Bobdh, Macha e Morrigane, que são as filhas de Errimas.
As três têm o dom de lançar feitiços durante os combates e de fazer com que caia chuva de
sangue sobre os inimigos.»

l’ Segundo a narrativa de A segunda batalha de Mag-Tured, primeira versão.


2, Trata-se de Lug do Braço Longo, o Artesão-Múltiplo. Esta descrição muito «solar» e feérica da Personagem foi tirada da narrativa Sort des
enfants de Tuirenn.

«Está bem... », insistiu Lug, «mas eu sou médico e possuo a arte de sarar as feridas sofridas
em combate.» «Tu de nada nos servirias», respondeu o porteiro, «pois temos o mais dotado
médico do mundo. Chama-se Diancecht, e tanto o seu filho como a sua filha são capazes de
fazer prodígios.» «Sou também copeiro real», disse Lug. «Num festim sou capaz de distribuir a
cerveja e o hidromel por todos os assistentes e de acordo com a categoria e o valor de cada
pessoa.» «Nós não precisamos de ti para nada», ripostou o porteiro, «pois entre nós existe um
copeiro real que não tem ninguéti, igual no mundo. Ele serve a cerveja e o hidromel com
sabedoria, e sem melindrar seja quem for. Podes ver, portanto, que há entre nós homens de
arte e de ciência, homens e mulheres que conhecem todos os segredos do mundo.» «Pois bem!
», disse Lug, «vai falar com o teu rei e pergunta-lhe se conhece alguém que reuna numa só
pessoa todas as qualidades que eu acabo de te enunciar. Se a sua resposta for afirmativa, eu
renuncio a entrar na casa real de Tara.»

Então 0 porteiro entrou na fortaleza e dirigiu-se à casa onde à volta do rei Nuada do Braço de
Prata estava reunida a assembléia de nobres e de campeões das tribos de Dana. «Rei
supremo», disse ele, «já fora, à entrada da fortaleza, está um jovem guerreiro que diz chamar-
se Lug, filho de Cian, e que se diz perito em todas as artes que se praticam nesta casa. Nunca
vi nada parecido: é um homem que sabe fazer tudo e que é um Artesão-Múltlplo).

Então, Nuada pediu ao porteiro para ir buscar o jogo de xadrez de Tara e para fazer uma
partida com o jovem guerreiro. 0 porteiro disputou um jogo de xadrez com Lug, e este ganhou
a partida. Sem perda de tempo, o porteiro foi informar Nuada e os chefes das tribos de Da’do
na sobre o ocorri «Fá-lo, pois entrar na casa real», disse Nuada, «pois i amais ouvi falar em
alguém que seja capaz de tantos prodígios.»

0 porteiro foi então chamar Lug e fê-lo entrar na fortaleza, ele caminhando-o depois para a
casa onde estava reunida a assembléia. Aí chegado, Lug tomou lugar no assento reservado aos
sábios”), pois, como era evidente, ele era a pessoa mais sábia que alguma vez estivera na
presença dos nobres e dos campeões das tribos de Dana.

Entrementes, Ogina foi buscar a grande pedra que se encontrava no exterior da casa, e que só
podia ser levantada com o esforço de vinte e quatro homens; arrastando-a através da casa,
depositou-a aos pés de Lug, sendo lançado um desafio a este. Ora, o jovem guerreiro, sem
pronunciar uma palavra, ergueu~se, agarrou a pedra, e com um único movimento levantou-a
na vertical, fazendo-a depois retomar o lugar onde estivera.

«O jovem guerreiro que toque harpa!», disse então Dagda. «Precisamos de música para ficar
em boa forma.»

Lug segurou a harpa de Dagda que estava encostada à parede e, Em gaélico, «Samildanach,
um dos numerosos epítetos de Lug. Esta personagem divina, cornum ao conjunto do mundo
celta, está com efeito «para além das funções», ou seja, reúne em si todas as funções
atribuídas à divindade única que parece ter sido a dos celtas. Trata-se do «Mercúrio» gaulês de
que fala César nos seus comentários, deus que, segundo o Pro-cônsul, era o mais venerado e
aquele a quem foram consagrados mais simulacrum, OU, dito por outras palavras, pilares de
madeira ou de pedra.

Trata-se de um protótipo do célebre «Assento Perigoso», que, na Távola Redonda, está


reservado apenas a predestinados dirigindo-se à assembléia, tocou com tal perfeição uma
música sonolenta que todos dormiram um dia inteiro, desde aquela hora até mesma hora do
dia seguinte. Depois tocou uma música que fazia rir, e todos ficaram alegres e bem dispostos
durante muito tempo. Por fim, tocou uma música triste, e todos mergulharam numa profunda
angústia durante a noite e até à mesma hora do dia seguinte, lamentando-se e choramingando.
Quando Nuada do Braço de Prata chegou à conclusão de que o jovem guerreiro possuía
poderes que ninguém mais tinha, ponderou um momento e pensou que talvez Lug pudesse
libertá-los do jugo dos Fomore que oprimia as tribos de Dana. Consultou os nobres destas
tribos e, a seu conselho, levantou-se do seu assento e pediu ao jovem guerreiro para nele se
sentar. Lug do Braço Longo sentou-se então no assento real, embora não fosse rei, e Nuada
ficou de pé diante dele treze dias e treze noites. Depois disso, o rei foi encontrar-se com Dagda
e Ogiria para lhes dizer em segredo que era aconselhável confiar a Lug, filho de Cian, a chefia
da guerra que iam travar contra os Fomore. Ogina e Dagda aprovaram a idéia e foram da
opinião de que Lug deveria ter a última palavra sobre o modo como o combate devia ser
travado. Foram então se reunir com ele para o consultarem.

Após refletir durante alguns instantes, Lug perguntou ao ferreiro Goilmiu que contributivo ele
lhes poderia dar. «Não te preocupes», respondeu Goibrtiu. «Podem os homens da Irlanda estar
em guerra durante sete anos, e por cada ferro do dardo que saia da haste, ou por cada espada
que se parta, eu substituirei a peça em falta. Qualquer ponta de armamento que saia da minha
for a será de tal modo eficaz que o corpo em i

que penetrar perderá todo o vigor. Nem o ferreiro dos Fomore será capaz de tal artifício. Pela
minha parte, estou pronto para a batalha, e darei todo o apoio a todos os que estiverem em
apuros.» «E tu, Diancecht», retomou Lug, «que podes fazer por nós?» «Não te preocupes:
saberei cuidar de todos os feridos e de os recuperar para as batalhas seguintes, a menos que
os matem ou lhes cortem as goelas.» «E tu, Credné», perguntou Lug ao artifício do bronze,
«que grande contributivo nos poderás dar na batalha?» «Não te preocupes: fornecerei rebites
de dardos, punhos de espadas, bocetes e guarnições de escudos.» «E tu?», dirigiu-se Lug ao
carpinteiro, «que grande contributivo nos poderás dar, frente aos Fomore?» «Não te
preocupes: fornecerei a todos os escudos e as lanças de madeira de que precisarem, e
substituirei instantaneamente as armas que ficarem danificadas no ardor do combate.» «E tu,
Ogiria?», interrogou então Lug o campeão, «o que farás na batalha contra os Fornore?» «Não
te preocupes: fazendo recuar o rei dos Fomore e três novenas dos seus guerreiros, farei com
que os homens da Irlanda fiquem desde logo com um terço da vitória ganha. Nenhum inimigo
conseguirá resistir aos golpes que eu infligir.» «E tu, Morrigane» dirigiu-se Lug à maga, «que
grande contributivo será o teu nesta batalha?» «Não te preocupes: tudo o que eu quiser
alcançarei, graças ao poder dos ineus feitiços. A minha arte aterrorizará de tal modo os Fomore
que a planta dos seus pés ficará branca, e os seus campeões morrerão uns a seguir aos outros
devido à retenção da urina. Quanto aos outros guerreiros, fá-los-ei ter tanta sede que ficarão
enfraquecidos, e farei com que todas as fontes fujam deles de modo a não poderem matar a
sede. E enfeitiçarei as árvores, as pedras e as elevações de terra de tal modo que,
confundindo-as com contingentes de homens armados, (”os inimigos nelas se perderão cheios
de terror e de pânico. «E tu, Cairpré, tu que nos encantas os ouvidos com os teus cantos
melodiosos», interrogou Lug o poeta, «que surpresa agradável nos reservas nesta batalha?»
«Não te preocupes: frente às hostes dos Fomore cantarei a glória dos nossos pais, os filhos de
Nemed. Depois enfeitiçá-los-ei e lançar-lhes-ei o glam dicin”1 mais poderoso que alguma vez
existiu na Irlanda. Desse modo a honra dos Fomore cairá por terra e eles não resistirão à
investida dos nossos, o que, podes crer, Lug, filho de Cian, sem dúvida se deverá à magia da
minha arte».

Então, Lug do Braço Longo virou-se para os diruidas que se encontravam na assembleia e
perguntou-lhes: «E vós, druidas das tribos de o tema das «árvores que combatem» encontra-se
em toda a tradição celta, inclusivamente na recolha feita por Tito Lívio na sua História Roinana,
embora ele a apresente sob uma forma racionalizada. Ver J. Markale, Le Druidisme, nova
edição, Paris, Payot, 1994 (capítulo sobre «o visco e o ritual vegetal»).

2. O glam dicin é a maldição suprema utilizada pelos druidas. É um feitiço mágico acessível a
todos os membros da classe sacerdotal, e, portanto também aos poetas e a fortiori aos druidas
propriamente ditos, adivinhos e mágicos de toda a espécie, assim como aos heróis ou heroínas
que mais se destacam. Tem algo de comum com o não menos poderoso geis, as vezes
traduzido incorretamente por tabou, e que é uma obrigação mágica - e social itriposta a um
indivíduo. Aquele que, por um motivo qualquer, recuse um geis é rejeitado pela comunidade;
mas aquele que seja atingido por um glam dicin não tem outra saída senão sofrer passivamente
o feitiço. Parece que, após a cristianização da Irlanda - ao menos a crer na tradição
hagiográfica - um certo número de padres e de monges praticaram uma forma atenuada do
glam dicin contra não cristãos ou contra indivíduos culpados de um grande mal, em geral de
natureza religiosa.
Dana, que proezas fareis durante a batalha?» «Não te preocupes: desencadearemos tantas
tempestades e tantas chuvas de fogo sobre os Fomore que eles nem serão capazes de levantar
a cabeça e sucumbirão às mãos dos vigorosos guerreiros que investirão contra eles. E se isso
não for suficiente, faremos desaparecer as fontes, os rios e os lagos da Irlanda para que os
Fomore não possam saciar a sede que lhes secará as gargantas durante a batalha. Essas são as
proezas que faremos, ó sábio Lug do Braço Longo, filho de Cian.» «E tu, Craftiné», continuou
LuzeD, dirigindo-se ao harpista, «que feito porás em prática nesta batalha?» «Não te
preocupes: tocarei músicas e melodias tão doces aos nossos guerreiros que eles mergulharão
num repousante sono até à manhã seguinte. Depois disso, irei combater e matarei o maior
número de inimigos possível.» «E tu, Bobdh Derg, filho do valente Dagda». Prosseguiu Lug,
«que podemos esperar de ti?» «Não te preocupes: ire’ combater e logo na minha primeira
investida farei com que caiam a meus pés, vítimas dos meus golpes, mais de uma centena de
guerreiros Fomore. E não deixarei de os perseguir para os eliminar e para Os matar até ao
último dos seus homens.» «E tu, Dagda, o mais sábio de nós todos», continuou Lug, «que
proezas nos reservas durante a batalha contra os Fomore?» «Não te preocupes: tomarei a
dianteira dos homens da Irlanda e serei o primeiro a avançar contra os guerreiros que nos vêm
fazer frente. Bater-me-ei contra eles com tal vigor que arrasarei, corri sortilégios e com armas,
todos aqueles que tentarem resistir. Os ossos dos meus adversários transformar-se-ão em
migalhas de tanto eu lhes bater com a minha moca e as migalhas serão dispersas parecendo
saraiva pisada pelo casco dos cavalos depois de uma tempestade. No auge da batalha, mesmo
se estiver cheio de chagas e de feridas, eu não vos faltarei com a minha assistência e a minha
protecção.» «E tu. Marianann, filho de Uir. Senhor das ilhas distantes», perguntou Lug, «que
grande C, feito realizarás na luta contra os Foniore?» «Não te preocupes: agitarei A moca de
Dagda é célebre na tradição irlandesa. Outro texto explica que, ao bater noutro homem com
uma ponta da moca, Da-da matava-o, e se lhe batesse com a outra ponta da moca,
ressuscitava-o. Isto tinha que ver com a ambigüidade deste «Bom Deus», como ele se
chamava. Parece que Dagda poderá ser identificado com o «Deus do Maço» freqüentemente
representado na estatuária galo-romana e que, com o epíteto freqüente de Sucellos, ou seja,
«Soco Duro», é provavelmente um outro aspecto do Taranis gaulês, que personifica o trovão. A
imagem de Dagda com a moca é muito freqüente no misterios0 «Homem Selvagern», rústico a
quem obedeciam aos animais selvagens e que se encontra em diversos contos populares, assim
como em romances do ciclo arturiano tão habilmente o meu manto entre os Fomore e os
nossos heróis que os Forriore nem se lembrarão da razão que os levou até à planície.» por fim,
Lug virou~se para Nuada do Braço de Prata. «E tu, Nuada», dirigiu-se-lhe ele, «rei supremo da
Irlanda, que proeza irás protagonizar na batalha contra os Fomore?» «Não te preocupes»,
respondeu Nuada. «Na qualidade de vosso rei estarei entre vós, mas não combaterei. Estarei,
no entanto em condições de dar de comer a todos os guerreiros que estarão sob a tua chefia, e
não deixarei que a fome ou a sede se instalem entre eles enquanto durar a batalha.»

Foi assim que. Lia casa real de Tara, no meio de uma assembléia de nobres e de chefes das
tribos de Dana, Lug do Braço Longo, filho de Cian, falou com todos eles na intenção de
preparar a grande batalha que tinha de ser travada para acabar com a escravidão imposta
pelos Fomore. E o discurso que ele fez perante todos foi de tal modo convincente, que o seu
espírito mais parecia o de um rei ou de um príncipe. Passou-se isto uma semana antes da festa
de Samain. (2)

Findo isto, Lug separou-se daqueles nobres e chefes das tribos de Dana e marcaram um
encontro para a véspera de Samain. Mas, antes de deixar a assembléia, Lug, pediu a Dagda
para que estivessem atentos a chegada dos Fomore, que deveria ser retardada o mais possível
de modo a que o combate pudesse ser preparado com todas as cautelas. E Dagda prometeu a
Lug satisfazer o seu pedido, pois ele era o protetor das tribos de Daria e devia, acontecesse o
que acontecesse, velar pela proteção do seu povo.(”1. O manto mágico de Mananann também
é célebre na tradição celta: é um objeto mágico que faz com que se esqueçam alguns dos
acontecimentos mais recentes. A personagem de Mananann, pouco referenciada nas narrativas
que dizem respeito ao estabelecimento das tribos de Dana na Irlanda, anha destaque depois
da partilha da ilha entre as tribos de Dana e os filhos de Milé, ou seja, os GaéIs [Gaélicos em
português - N. T.], pois ele tornar-se-á o rei supremo do «povo feérico», dito de outro modo,
as gentes das tribos de Dana que residem nos «sidhs», os grandes Tumulms megalíticos.

2. A grande festa celta do início de Novembro. Note-se que todas as batalhas épicas se travam
sempre por ocasião das festas celtas, mormente a «Beltaine», no início de Maio (chegada das
tribos de Dana), ou a «Lugnasad», no princípio de Agosto. Significa isto que as batalhas
grandiosas são, sobretudo simbólicas e refere-se a rituais religiosos muito anti-90s, assinalados
pela mudança de tendências ou pela substituição de soberanos.

3. Segundo a narrativa de A segunda batalha de Mag-Tured, primeira versão, com alguns


Pormenores retirados da versão posterior. Esta, diferente da primeira, encontra-se no
manuscrito 24 P 9 da Academia Real Irlandesa de Dublin e foi publicada por Brian O’Cuiv em
Dublin, em 1945. A única tradução actualmente existente é a francesa, de Ch.-J. Guyonvare’h,
Textes mythologiques irlandais, Rennes, 1980.

Capítulo 10
Dagda mandara construir uma casa no norte, no vale de Etin. E como ele combinara encontrar-
se aí com uma mulher, não se demorou em Tara, partindo apressado para norte de forma a
estar em casa no dia e à hora que havia combinado.

Perto de casa, à entrada do vale, corriam dois ribeiros, um para oeste, na direção de
Connaught, e o outro para norte, em direção ao Uister. À chegada, Dagda viu a mulher a lavar-
se, banhando delicadamente o pé direito no ribeiro que corria para Connaught e o pé esquerdo
no que corria para o Uister. Esta mulher era nem mais nem menos do que Morrigane, filha de
Eminas, a maga das tribos de Dana.

Ora, ao observar o espanto de Dagda por vê-Ia lavar os pés em dois ribeiros diferentes, ela
disse: «Não te admires. Assim eu envio os meus sortilégios para Connaught e para o Uister,
pois será na confluência destas duas províncias que se travará a batalha contra os Fomore.»
«Podes vir falar comigo por um momento?» perguntou Dagda. «Não é altura para Isso», disse
Morrigan. «Parece-me que temos outra coisa a fazer, como ficou combinado.» «Está bem»,
disse Dagda, «Mas foi a teu pedido que marquei o encontro aqui. Porque é que temos sempre
de nos encontrar em segredo, às escondidas de todos, sem o conhecimento dos homens das
tribos de Dana?» «Tu sabes perfeitamente que eles ”0 suportariam saber que estou em tua
companhia. Se o soubessem, teriam um ciúme mortal que se abateria sobre ti.» «No entanto»,
disse ]1agda, «eu não sou o único homem que tem a honra de se poder encontrar cOntigo.»
«É verdade, Dagda, mas ninguém o deve saber. Pois, aos olhos dos homens das tribos de
Dana, eu sou livre, e todos esperam ser desejados por mim. Haveria muitos corações
destroçados e inconsoláveis se os meus encontros fossem conhecidos.»

Saindo então do ribeiro que corria para o Uister, Morrigan avançou para Dagda. Trazia consigo
um vestido vermelho cor de sangue, C nove tranças saiam da sua cabeleira. «Desata os meus
cabelos», disse ela. Dagda pegou nas tranças, desatou-as uma a uma, e a cabeleira de
Morrigane, que era negra como as penas do corvo, caiu sobre os ombros e escorreu ao longo
do corpo até roçar ao de leve na cintura. Estendendo-se na relva, chamou-o: «Agora vem.»

Dagda deitou-se a seu lado e ela apertou-o contra as suas coxas. Aquele lugar onde eles se
uniram chama-se agora Leito do Casal. Terminado o ato, Dagda levantou-se e disse: «Vou
deixar-te, pois tenho a missão de identificar o lugar onde estão estabelecidos os Fomore,
devendo depois retardá-los o mais possível para que as tribos de Dana se possam preparar
para a batalha.» «Eu posso ajudar-te», disse Morrigan. «Estás a ver o bando de pássaros
negros que voam por cima das nossas cabeças? Eles vêm de leste, e se voam na direção do sol
poente, é porque um terrível exército os assusta. Não é difícil perceber de onde eles vêm, tão
desnorteados: vêm da planície de Scene, Junto ao Woral. Foi aí que os Fomore desembarcaram
em massa e é aí que estão as suas hostes.» «Nesse caso, vou à planície de Scene», disse
Dagda. «Observarei os seus movimentos e verei o que posso fazer para lhes retardar a
expedição. E tu, o que vais agora fazer?» «Em primeiro lugar, vou esperar por um momento
propício», respondeu Morrigan, «depois intrometer-me-ei entre os Fomore e pedirei para ver o
rei. Deixar-me-ão passar porque sou uma mulher bela e atraente, e entrarei na tenda do rei
Indech. Quando ele quiser saciar os seus desejos comigo, farei com que o seu coração se Parta
e os seus rins se diluam em sangue. Nessa altura, irei mostrar os restos do rei às tribos de
Dana e, tomando conhecimento de que os Fomoré perderam o rei, elas partirão para a batalha
com uma coragem acrescida.»(1)

Nisto, Dagda separou-se de Morrigan e dirigiu-se diretamente para a planície de Scene.


Chegado aí, ficou a observar demoradamente Morrigane, filha de Étrange (Ernmas), é uma
personagem extremamente misteriosa. É a imagem arcaizante de uma deusa da guerra, da
sexualidade e da magia, estando estes três domínios indubitavelmente associados à tradição
celta em que os guerreiros receberam, duma mulher a iniciação sexual, mágica e guerreira (por
exemplo, Perceval, com as feiticeiras de Kaerloyw no ciclo do Graal). Mas Morrigan apresenta
aqui o seu aspecto mais tera atividade dos Fomore, e depois decidiu ir ao encontro dos guardas
pedindo-lhes para falar aos Fomore sobre as convenções que deveriam ser respeitadas na
batalha.

Conduziram-no então à presença de Indech, rei dos Fomore que o recebeu com deferência,
pois sabia que Dagda era um sábio entre os homens de Dana. Falaram sobre o lugar onde
deveria decorrer a batalha e do dia em que ela se deveria iniciar. Depois, o rei, querendo tratar
o hóspede com todas as honras, ordenou aos criados e aos cozinheiros que lhe dessem de
comer.

Os Fomore começaram por lhe dar a beber grandes quantidades de cerveja e de hidromel,
podendo ele saciar-se à sua vontade. Depois lhe prepararam uma papa de farinha, pois sabiam
que era um alimento da sua preferência, mas ao fazê-lo, tinham em mente troçar dele e pôr a
nu a sua gulodice. Para o satisfazerem encheram então o caldeirão do rei que era muito
grande, cabendo nele cinco homens fortes, com leite fresco, farinha e banha, em idênticas
proporções. E como isso não era suficiente, deitaram para dentro do caldeirão cabras, carneiros
e porcos que cozeram com a papa de farinha. Depois, como era impossível comer de uma vez
toda a comida do caldeirão escaldante, fizeram uma cova no solo e deitaram para lá tudo o que
ele continha. 11

Quando Dagda viu a refeição que lhe tinham preparado, começou por se queixar dizendo que
não estava habituado a ser servido de forma tão rude e altiva. Mas o rei dos Fomore foi ter com
ele e ameaçou-o de morte se não comesse tudo o que estava na fossa. Segundo ele, desse
modo Dagda não se iria queixar de que os Fomore não sabiam tratar bem os seus hóspedes.

Referiu, fazendo lembrar claramente a Judite bíblica, e, sobretudo Kali, a Negra, da tradição
indiana, deusa da vida e da morte, que muitas vezes é representada como a castradora por
excelência. Além disso, impõe-se uma comparação muito óbvia entre ela e a fada Morgana das
narrativas arturianas, mesmo tendo ela perdido alguma da sua rudeza primitiva e tendo-se
tornado uma espécie de símbolo sexual.
I. Por trás de uma farsa de mau gosto, o episódio tem por base uma certa
realidade. Achados arqueológico, antropológicas provaram que os homens da Idade
do s e experiências. Bronze e depois do Ferro possuíam uma espécie de cozinha ao ar
livre. Cavava-se uma fossa que se cobria com tábuas ou pedras secas e na qual,
depois de ela ter sido enchida com água, se mergulhava a caça envolvida em palha e
temperada com aromas e alho selvagem. Depois se untavam pedras aquecidas numa
fogueira de modo a cozer os ali Mesmo a uma temperatura moderada, prática que à
todos os níveis está em conformidade com a dietética moderna.
Percebendo que não poderia recusar, Dagda pegou na colher, que era de tal maneira grande
que um homem e uma mulher se poderiam deitar ao fundo dela. E cada colherada que ele
tirava da fossa obrigava-o a devorar meio-porco, um pernil de ovelha ou de cabra”.

«Que saborosa deve ser a carne, se o cheiro não me engana... », disse Dagda. E pôs-se a
comer deliciando-se com as papas de farinha e a carne. Os Fomore observavam-no cheios de
curiosidade, e troçavam do modo como ele devorava o conteúdo da sua colher. Quando
repararam que ele rapava o fundo, por não estar ainda satisfeito com tudo o que havia dentro
da fossa, ficaram embasbacados, pois nunca tinham visto ninguém com tanta gula.

Entretanto, Dagda sentia-se entorpecido, estando a sua barriga tão curva como o maior
caldeirão que alguma vez existira na casa do rei. Deitou-se no chão e não tardou a adormecer,
enquanto os Fomore à sua volta não paravam de se rir e de se divertir à sua custa. Diziam eles:
«Se todos os heróis das tribos de Dana são como este, como é que nos havemos de espantar
que eles não nos queiram dar o trigo e o gado que, na qualidade de vassalos, nos devem?» E
acrescentavam: «Pelo que estamos a ver, será para nós uma brincadeira vencê-los pelas
armas!» Por fim Dagda acordou, não sabendo onde estava. Ao ver que os Fomore troçavam
dele, ficou furioso. Estava tão entorpecido que preferiu não dar troco à zombaria deles. Depois
de se despedir, começou a caminhar para a assembléia de Tara para contar o que vira e a
experiência por que passara.

Mas a barriga estava tão grande que lhe era difícil caminhar, tendo de parar várias vezes.
Estava com um aspecto deplorável, pois a saliência das nádegas aparecia à mostra por baixo da
túnica, e o seu membro viril, que era comprido, estava perfeitamente escancarado. Arrancara
um ramo duma árvore e servia-se dele como se fosse uma bengala, inas era tanta a força com
que se apoiava nele que ia deixando atrás de si uni risco profundo que daria para traçar a
fronteira de uma província.

1. Aqui transparece o aspecto gargantesco de Dagda. É um gigante que carrega uma moca,
sexualmente insaciável e incrivelmente glutão. Representa o poder de absorção atribuído à
divindade, traço de personalidade que se encontra bem evidente nos Gargantua e o Pantagruel,
os quais, antes de serem os heróis de Rabelais, eram personagens divinas tornadas folclóricas.
Gargantua vem a ser o gigante Gwrgwnt das antigas lendas celtas, significando o seu nome
«da perna curva». Quanto a Pantagruel, é uma espécie de demônio medieval que enche de
sede os seus inimigos atirando-lhes sal. O Dagda irlandês é uni dos aspectos que toma esta
personagem saída da mais remota mitologia.

Quando estava a chegar a um vale, viu uma jovem a lavar-se num ribeiro. Como ela era muito
bela, com tranças na cabeça e formas muito atraentes, encheu-se de desejo por ela. Disso se
apercebendo, a rapariga não o rejeitou, e deitaram-se na erva, perto do ribeiro. Apesar disso,
Dagda estava tão pesado que não conseguiu unir-se à jovem, que se ergueu e fez troça dele.

Furioso e com ímpetos violentos, Dagda quis bater na insolente, mas ela furtou~se e começou
a correr. Dagda levantou-se com dificuldade e, percebendo que não poderia apanhá-la, lançou-
lhe pedras, mas não a atingiu. Então, enfurecido, jurou vingar-se massacrando todos os
Fomore que apanhasse pela frente na batalha, pois eram eles os culpados pela sua vergonhosa
situação. A seguir, retomou a marcha em direção a casa real de Tara.

Enquanto isto acontecia, os Fomore, depois de terem preparado as lanças, as espadas e os


escudos, reuniram-se à volta do rei, Indech, cheios de coragem e de determinação, prontos
para avançarem sobre a planície de Tured onde tinham combinado com Dagda travar a batalha.
«Os homens da Irlanda são uns convencidos, por se atreverem a querer combater contra nós»,
disse Indech. «Tenho a impressão que eles ficarão reduzidos a migalhas e que os seus ossos
serão poeira no dia a seguir à batalha.» «Rei supremo», interveio então Bress, filho de Elatha,
«seria bom que fizéssemos uma última tentativa para evitar a confrontação.» «És cobarde?»,
gritou Indech. «Tens medo de medir forças com os guerreiros das tribos de Dana?» «Claro que
não, rei supremo», respondeu Bress. «Se falo assim, é no interesse de todos. Pelo que me toca,
estarei a vosso lado no combate e, aconteça o que acontecer portar-me-ei como um rei. Mas se
exterminarmos os homens da Irlanda, esta ilha ficará deserta e não havera mais ninguém para
cultivar os campos e para criar o gado. Que ganharíamos com isso? As vossas próprias terras
são ilhas no meio do nevoeiro, e é de todo o interesse para vos manter os homens da Irlanda
sob o vosso domínio para que eles criem riqueza e comida em abundância. Seria de todo o
interesse para vós que Os homens da Irlanda, temendo o vosso poder, permitissem que eu
Voltasse a sentar-me no trono, pois assim eu poderia dar-vos o que vos Pertence.» «Penso que
tens razão», disse Indech. «Mandemos uma vir à tona de homens à Irlanda para lhes pedir que
paguem o que nos devem e que reconheçam Bress como rei supremo. Se eles aceitarem estas
nossas últimas propostas, se nos pagarem o tributo, abster-nos-emos de os combater e
voltaremos para as nossas ilhas. Mas se eles recusarem, terão de travar um combate mortal e
de desaparecer desta terra da qual passaremos a ser os únicos senhores.»

O rei dos Fomore deu ordens para que uma vintena dos seus homens mais corajosos e cruéis
se preparassem para partir para Tara com o fim de reclamar o tributo devido aos Fomore e de
obrigar os homens de Dana a reconhecerem Bress, filho de Elatha, como rei supremo. os
emissários agruparam-se sem perda de tempo e puseram~se a caminho, chegando a Tara
pouco tempo depois”.

Ao ver aquele grupo impertinente e de mau aspecto aproximar-se das muralhas da fortaleza, o
porteiro, aterrado, perguntou o que desejava. Assim que lhe foi dada uma resposta foi,
apressado, ter com Nuada e informou-o das pretensões dos Fomore, que exigiam a sua parte
das colheitas, de gado e de objetos preciosos, assim como a devolução da coroa a Bress, filho
de Elattia.

Furioso, Nuada deu um salto e exclamou: «Vai-lhes dizer que os filhos de Dana nunca mais
voltarão a pagar tributos aos Fomore, e Bress, filho de Elatha, nunca mais será o rei supremo
da Irlanda.» Acrescentou: «Nós combateremos no dia combinado na planície de Tured, e
eliminaremos todos os Fomore, pois eles Dão têm nenhuns direitos sobre esta terra e nós
queremos libertar-nos da escravidão que nos é imposta por estrangeiros. Manda-os voltar para
perto dos seus, e diz-lhes para se prepararem para sofrerem uma derrota vergonhosa que lhes
trará toda a infelicidade do mundo!»

O porteiro transmitiu a mensagem, e os Fomore, sem insistirem, regressaram para junto das
hostes do rei Indech. Entrementes, apareceu Lug, filho de Cian. Informado do que acabara de
acontecer e, tomando conhecimento das exigências do adversário, ficou negro de raiva.
«Como?», gritou ele. «Vocês sofreram durante largos anos a opressão dos Fomore, que vos
impuseram a escravatura, e deixaram partir sãos e salvos os mais cruéis e perversos deles?»
«Não tínhamos alternativas», respondeu Nuada. «Eles vieram na qualidade de mensageiros e
era difícil impedi-los de voltar para junto dos seus.» «Mas como me enfurecem os vossos
escrúpulos!», rugiu Lug. «Deviam tê-los tomados como reféns ou tê-los massacrado para que
não pudessem combater-vos na batalha que se avizinha. Eu vou persegui-los e fá-los-ei pagar
um preço bem alto pela audácia e pelas suas pretensões!» «Não faças isso!», interveio então
Cian, filho de Dianceclit. «Não te compete a ti, meu filho Lug, perseguir esses malfeitores. 0 teu
lugar é aqui, entre os chefes das tribos de Dana, que se preparam para travar a batalha mais
violenta que alguma vez se viu. Serei eu a ir atrás desse bando execrável!»

1. Segundo a narrativa da Segunda batalha de Mag-TÚred, primeira versão.

E, antes de alguém poder reagir, Cian saltou para cima de um cavalo e este começou a galopar
a toda a velocidade no encalço dos Fomore. Dois dos seus irmãos, chamados Cti e Ceithenn,
decidiram acompanhá-lo para o ajudarem, mas não conseguiram apanhá~lo e dirigiram-se para
sul ao passo que ele fora para norte. Quanto aos Fom ore, tinhani um grande avanço e Cian,
desesperado por chegar perto deles, ia-se consolando a pensar que, ao menos, os teria pela
frente na batalha a travar na planície de Tured, podendo aí se vingar deles. Arreplou então
caminho com a intenção de entrar em Tara.

Atravessou a planície de Murthemné e logo viu três jovens armados a virem ao seu encontro.
Reconheceu neles, imediatamente, os três filhos de Tuirenn, que se chamavam Brian, lucharba
e luchar.

Ora, havia Já muito tempo que os membros da família de Diancecht e os da família de Tuirenti
se detestavam, chegando mesmo a odiar-se mortalmente. Eram sem conta as batalhas em que
se tinham confrontado, e onde quer que se encontre, alguns deles tombavam por terra, embora
todos eles fizessem parte das tribos de Dana e descendessem de Nemed. Mas era mais forte a
incompatibilidade entre eles, e os três filhos de Tuirenn tinham todos herdado um ódio feroz
pelos membros da família de Diancecht.

Ora, os filhos de Tuirenn, tendo visto e reconhecido Cian na planície de Murthemné, logo
disseram entre si que tinham ali uma oportunidade há muito sonhada para se livrarem de um
filho de Diancecht, já que ele estava só e indefeso em frente a três jovens corajosos e
determinados. Também disseram entre si que, se Cian perdesse a vida naquela aventura,
fariam recair a responsabilidade sobre os Fomore. E decidiram então atacá-lo sem piedade.

Cian compreendera muito bem as suas intenções e, percebendo que corria perigo de vida,
murmurou para si mesmo: «Se os meus dois irmãos estivessem aqui, nós lutaríamos rijamente
e não teríamos dificuldade em desembaraçar-nos destes três. Mas eu não os tenho comigo,
estou só, por isso o melhor que tenho a fazer é fugir. Eles que esperem e iltinca mais me põem
os olhos em cima.» Ao ver-se depois cercado por uma vara de porcos, não hesitou e bateu em
si mesmo com uma varinha druídica, adquirindo então o aspecto de um porco e começando a
esgaravatar no chão como faziam os outros porcos. «Que estranho», disse Brian, filho de
Tuirenn, aos irmãos. «Vocês não viram, como eu, um dos filhos de Diancecht a atravessar a
planície?» «Vimos, na verdade», responderam eles, «e reconhecemo-lo. E impossível que tenha
desaparecido sem motivo. Desde que vejo planícies e vales aprendi, a saber, distinguir o que
existe do que não existe. Estou bem em crer que sei como ele desapareceu: bateu em si
mesmo com uma varinha druídica de ouro e transformou-se num porco, misturando-se com os
desta vara- E, neste mesmo momento, nas nossas barbas, ele prepara-se para fugir com os
seus semelhantes.» «Estamos com pouca sorte», disseram os dois irmãos, «pois esta vara
pertence a uma das tribos de Dana e não podemos matar todos os porcos, já que seríamos
censurados por isso. Além disso, mesmo que o fizéssemos, é certo que o porco druidico nos
escaparia.» «Tu não és muito inteligente», respondeu Brian, «e vejo que de nada te serviu a
lição que recebemos nas ilhas do norte do Mundo. Tu nem sequer és capaz de distinguir um
animal druidico de um animal natural.»

Quando acabou de pronunciar estas palavras, Brian bateu nos seus irmãos com uma varinha
mágica e druídica que trazia sempre consigo, e deu-lhes a forma de dois cães muito magros,
ágeis e rápidos que, soltando latidos fortes, se precipitaram sobre a vara e a dispersaram.
Depois, investiram sobre um dos porcos, precisamente aquele em que se transformara Cian, e
este se refugiou junto de uma mata de aveleiras, esperando não ser visto; mas, por efeito de
artes mágicas, Brian, adivinhando a sua intenção, brandiu a sua lança e bateu-lhe no peito com
ela.

«Porque me bateste desta maneira, sabendo quem eu era e que estava indefeso?», perguntou
o porco. «Eis uma voz humana! », gritou Brian. «Não me enganei e os meus dois cães druidicos
não defloraram a reconhecer-te.» «E verdade», admitiu o porco, «eu era UIII homem antes de
adquirir esta forma. Sou Cian, filho de Dianceclit. Poupa-me a vida, suplico-te, e serei teu
criado, ficando ao teu serviço na batalha contra os Fomore.» «Juro por todos os espíritos do
ar», gritou Brian, «que se a tua alma voltasse sete vezes para o teu corpo, eu a caçaria sete
vezes!» «Então», disse Cian, «faz-me um favor»«Como queiras», disse Brian. «Deixa que eu
volte a ter a forma litimana». «A vontade», disse Brian, filho de Tuirenn, «pois muitas vczes
custa~me mais matar um porco do que um homem.»

Cian adquiriu então a sua forma natural. «Enganei-te», disse ele, «pois se me tivesses matado
na forma de um porco, o meu filho apenas poderia reclamar o preço de um porco. Mas, ja que
me queres matar na minha forma natural, terás de o recompensar com o preço de um homern,
o que te ficará multo caro devido à minha categoria, as minhas ações e aos meus méritos. E
serão as armas com que me matardes que servirão de testemunho da minha morte ao meu
filho.»(’) «Não serás então morto com as nossas espadas», disse Brian, «mas com pedras que
apanharemos do chão.»

E, dito isto, os três irmãos começaram a flagelá-lo com pedras que arremessavam
violentamente, sem piedade e compaixão, fazendo do corpo do herói uma massa informe e
repelente. Cavaram depois uma fossa e enterraram-no. Mas a terra não aceitou este assassínio
e atirou o corpo para a superfície. Os filhos de Tuirenn enterraram-no uma segunda vez, mas a
terra voltou a rejeitá-lo. E eles, enterrando-o seis vezes de seguida, seis vezes de seguida a
terra o rejeitou. Só à sétima vez, enfim, o corpo ficou encerrado dentro da terra. Então, os
filhos de Tuirenn deixaram a planície de Murthemné e dirigiram-se para a planície (2) onde
estava planeado travar-se a grande batalha contra os Fomore.

Entretanto, as tribos de Dana tinham escolhido o seu campo sobre uma colina que dominava a
planície e de onde se podiam vigiar os movimentos e os gestos dos Fomore. E todos os dias
havia lutas entre eles, não Participando nelas nem reis nem nobres, mas apenas guerreiros
muito rijos e temerários. Os Fomore estavam espantados com o infortúnio que sobre eles se
abatera. As suas armas, fossem dardos ou espadas, deterioraram-se sem motivo aparente, e os
seus guerreiros morriam sem que voltassem no dia seguinte. Em contrapartida, era o contrário
o que acontecia com as gentes das tribos de Dana: as suas armas, quando porventura sofriam
danos, logo apareciam intactas e refeitas no dia seguinte, tão poderosas e mortíferas como
antes. 0 grande artífice que tornava aquilo possível era o ferreiro Goibilu, que não parava de
fabricar espadas, lanças e dardos, bastando-lhe dar três pancadas para Em diversas narrativas
mitológicas ou épicas, as armas podem falar e fornecer dados sobre asPectos que envolveram o
seu uso. Não se trata de uma ingenuidade, sabendo-se que a eminologia moderna aplica o
princípio segundo o qual a arma do crime pode fornecer Pistas e Permitir encontrar o assassino.

Segundo a narrativa de Sort (le,y,fils de Tuirenn fazer o seu serviço. 0 carpinteiro Luclité
forjava hastes também com, três pancadas, sendo a terceira para as polir e as inserir no
encaixe da lança ou do dardo. Quando as armas eram postas ao lado da forja, ele lançava os
anéis nas hastes, e já não era necessário ajustá-las. Quanto ao artífice do bronze Credné,
também fabricava pregos com apenas três pancadas, sem ter depois necessidade de os ajustar.
E os guerreiros que tinham sido feridos ou mortos em combate voltavam no dia seguinte para o
seu posto, o que se devia a Diancecht que, com o seu filho Oirmiach e a sua filha Airmed,
lançara um feitiço na Fonte da Saúde. Nesta fonte se banhavam os homens, mortos ou feridos,
ficando com a saúde restabelecida logo que dela saíam. Esta fonte chama-se Lusmag, ou seja,
Planície das Ervas, pois Diancecht a ela deitou urna haste de cada erva que crescia na Irlanda.
Há quem sustente, no entanto, que estas plantas, trezentas e sessenta e cinco ao todo, são as
que cresceram no túmulo de Miach, filho de Dianceclit, assassinado pelo pai devido a ciúmes,
por ter enxertado tão perfeitamente o braço de prata do rei Nuada. Airmed, a filha de
Dianceclit, tinha posto estas ervas no seu manto e tinha-as lançado na Fonte da Saúde. Mas
Dianceclit, sempre movido por ciúmes, tinha misturado tão bem estas ervas que so ele
conhecia a virtude particular de cada uma.

Compreendendo por fim o que se estava a passar, os Fomore encarregaram um dos seus de ir
ver a disposição das hostes das tribos de Dana e de tentar descobrir como eles eram capazes
de fazer tantos prodígios. Coube a Ruadan, filho de Bress e de Brig, filha de Dagda, e que, por
consequência pertencia mais ao clã de Dana do que ao dos Fomore, ir espiar o campo adverso.
No regresso, ele contou aos Fomore as proezas que viram serem feitas pelo ferreiro, pelo
carpinteiro, pelo artífice do bronze e pelos médicos reunidos à volta da fonte, e conflarani-lhe
então a missão de ir matar o ferreiro.

Ruadan pediu a Goibniu um dardo, ao artífice do bronze pregos e uma haste ao carpinteiro,
sendo satisfeito o seu pedido. E, logo que se viu na posse do dardo, Ruadan voltou-se e atingiu
Goibniu com a arma, ferindo-o gravemente. Goibniu arrancou a arina da carne e, voltando-se
para Ruadan, furou-o dum lado ao outro, entregando este último a alma ao pai que estava em
frente, no exército dos Fomore. Brig veio então chorar o filho, dando primeiro um grito e
lamentando-se depois. Crê-se que foi nesta altura que, pela primeira vez, se ouviram choros e
lamentações lia Irlanda. Goibniu, por seu lado, foi mergulhar na Fonte das Ervas e,
recuperando rapidamente, reapossou-se da forja e retomou o trabalho.

entre os Fomore, encontrava-se um jovem guerreiro chamado Eroctriallach, que era um dos
filhos do rei Indech. O jovem aconselhou os Fomore a pegarem numa pedra e a atirarem-na à
Fonte das Ervas, situada a norte do lago e a oeste da planície de Tured. Os Fomore dirigiram-
se para ai, um após outro, e cada um atirou uma pedra para a fonte que ficou assim cheia, de
tal forma que não era possível mergulhar nela. E desde então, neste lugar, ergue-se um outeiro
a que se chama Tumulus de Octriallach.

Quando chegou a hora da grande batalha, os chefes reuniram-se de Um lado e do outro. Os


Fomore saíram do seu campo e formaram batalhões invulneráveis e indestrutíveis. Fosse um
chefe ou um simples guerreiro, todos envergavam uma armadura, e tinham um capacete na
cabeça, urna lança aguçada na mão direita, uma espada bem afiada à cintura, e um escudo
largo e sólido aos ombros. Atacar os Fomore, naquele dia, na planície de Tured era como bater
com a cabeça contra uma rocha, por a mão num ninho de vespas, ou ficar exposto a um fogo
ardente.

Os chefes das tribos de Dana ergueram-se e prepararam-se para o confronto. Mas, como Lug
do Braço Longo deixara a casa real, Nuada do Braço de Prata disse aos que ali estavam: «Não
é conveniente deixarmos o nobre Lug do Braço Longo, filho de Cian, ir combater correndo
assim o risco de ser ferido. Penso que deveríamos impedi-lo de se envolver na carnificina.»
«Tens razão», concordou Ogina, «mas todos nós sabemos que ele nos poderá conduzir à
vitória. Que nos poderá acontecer, se ele não estiver conosco?» «Nada receemos quanto a
isso», respondeu Nuada, «os nossos heróis não têm receio algum quando estão diante das
armas dos inimigos, e se’ que eles saberão resistir à fúria desta raça cruel dos Fomore, mesmo
se Lug não estiver presente Para nos dar o exemplo e nos guiar. Seria mais conveniente que
ele ficasse resguardado, pois ele é o nosso estratégia e o nosso mestre cheio de sabedoria.»III
«Mas», disseram os nobres das tribos de Dana, «Lug Iluirica aceitará ficar resguardado.» «Eu
vou revelar-vos um plano», continuou Nuada do Braço de Prata, «antes de começarmos a
combate Na Primeira versão da «segunda batalha de Mag-Tured», não é dada uma explicação
nem urna justificação para o fato de Lug ficar resguardado. Em contrapartida, na segunda
versão, Nuada propõe que ele fique resguardado por uma questão de ciúme e por querer
reclamar só para si a vitória final ter, devemos organizar um grande festim com muita cerveja
fresca , deliciosa para os campeões. Faremos este festim em homenagem a Lug e com ele
presente. Ele, cheio de alegria, beberá em excesso até ficar bêbedo. E nós, logo que o vejamos
inconsciente, atá-lo-emos e amarrá-lo-emos firmemente com correntes de metal azul aos
grandes pilares plantados na terra que sustentam a tenda dos festins. Desse modo, a batalha
decorrerá sem a sua presença, e não correrá risco de vida.» «O teu plano é sensato e
inteligente», disseram os chefes das tribos de Dana, «e concordamos em pô-lo em prática.»

Assim fizeram. Preparam a tenda dos festins e reuniram-se à volta de Lug e de Nuada. Lug
bebeu tanta cerveja espumante e curativa que não demorou a ficar ébrio e alegre. Os
assistentes tocaram depois harpa e gaitas de foles, assim como outros instrumentos,
embalando o real guerreiro com o excesso de bebida e com a suave melodia. Depois, Craftiné
pegou na sua harpa e, dedilhando as suas nove cordas, tocou até o jovem guerreiro ficar em
repouso absoluto, profundamente adormecido. Então, os nobres das tribos de Dana
apressaram-se a acorrentar o herói. Amarraram-no com firmeza aos pilares bem presos à terra,
sem que ele disso se pudesse aperceber. As hostes puseram-se logo em seguida em
andamento, prontas para combaterem pelo rei supremo da Irlanda, Nuada do Braço de Prata,
tendo ficado apenas Craftiné, o harpista, para vigiar Lug do Braço Longo.

Há muito tempo que decorria o combate, e era grande o tumulto quando Lug despertou. «O
que se passa, meu amigo Craftlné?», perguntou ele. «Como é que eu estou amarrado a estes
pilares e ouço gritos da batalha que se desenrola fora da tenda?» «Não sei», respondeu
Craffiné. «Com efeito, também ouço os gritos dos Fomore e os feitiços de Morrigane que sobre
eles lança, os sortilégios de que só ela tem o segredo. E, tal como tu, ouço Goibinu que bate
com a forja, mas não sei o que se passa do lado de fora desta tenda.» «Mentes!», replicou Lug
do Braço Longo. «Tu sabes muito bem que é o barulho de uma batalha o que ouvimos. Peço-
te, Crafliné, que me desamarres os laços, para que eu possa ir à frente de batalha guiar os
nossos homens à vitória.» «Eu não tenho a força nem a coragem suficientes para desatar os
laços, ó Lug», respondeu Craffiné, «pois foram mãos de heróis e a força de guerreiros que te
amarraram aos pilares.»

Então, Lug sacudiu o corpo com uma tal força e energia que derrubou os pesados pilares que
estavam presos ao chão, e em seguida, ape nas com Os seus braços robustos, ergueu as
correntes pesadas e azuis.
1) Depois, sem grandes dificuldades, conseguiu desembaraçar-se delas e precipitou-se para a
porta, começando a correr para o lugar onde se defrontavam os exércitos. 0 alando provocado
pela sua corrida foi tal que não houve combatente que não ficasse a vê-lo aproximar-se com
uma mistura de medo e de espanto. A sua aparência era tão impressionante que ambos os
exércitos deram um passo atrás. Então, Lug foi juntar-se às tribos de Dana e deteve~se
diante de Nuada do Braço de Prata. «Tu cometeste um erro terrível, ó herói real!», gritou ele.
«Pensavas travar a batalha e libertar a Irlanda sem que eu pudesse ter uma palavra a dizer?
Foi uma imprudência terdes iniciado esta batalha sem terdes tempo para a preparar. Regressai,
pois ao acampamento e esperai pelo sinal que eu vos enviar no momento que achar mais
apropriado para eliminar a raça dos Fomore e libertar a terra da Irlanda dos seus opressores.»

Então, os chefes e os guerreiros das tribos de Dana voltaram ao acampamento, passando-se à


noite sem que houvesse mais qualquer escaramuça entre os guerreiros dos Fomore e os das
tribos de Dana. Entretanto, Morrigane, filha de Ertimas, chegara ao campo dos Fomore e
entrara na tenda de Indech, o seu rei supremo. E ao sair, nas mãos manchadas de sangue,
trazia os rins do rei, que exibiu ativamente aos Fomore para lhes mostrar que já não tinham
chefe. E, sem perda de tempo, entrou no acampamento das tribos de Dana.

Na manhã seguinte, Lug do Braço Longo fez sair os guerreiros para o campo e encheu~os de
coragem. Disse aos homens que deveriam lutar com coragem e que mais valia morrer do que
continuar a viver debaixo da escravatura, tendo de pagar pesados tributos como até ali tinha
acontecido. Depois, diante de todos os chefes, nobres e guerreiros, Lug fechou um olho e, de
pé sobre uma perna, entoou um canto enquanto circulava por entre os guerreiros das tribos de
Dana”.

Os guerreiros de ambos os lados lançaram um imenso clamor ao partirem para o combate.


Encontraram-se no meio da planície de Tured, liunia luta de corpo a corpo, e um grande
número de homens bravos e
I. Trata-se de um canto mágico - e druidico - acompanhado de «eircum-
ambulação», de acordo com um ritual muito antigo. O fato de fechar um olho e de se
agüentar apenas sobre um pé lembra também uma espécie de ritual xamânico de
êxtase guerreiro que se encontra no tema indo-europeu do deus zarolho (Odhin-
wotan, que deu um dos seus olhos Para desfrutar da «dupla visão») e do rei coxo
guardião dos segredos do Outro Mundo (o Rei Pescador do ciclo do Graal) generosos
logo caíram no campo de batalha. A carnificina foi enorn, dando lugar, mais tarde, a
imensas sepulturas neste lugar. Sentimentos como a vergonha e o sentido da honra
ali se misturaram à pior ferocidade que se possa imaginar. Correram abundantes rios
de sangue na pele branca dos belos guerreiros que, cortados pelas espadas, lutavam
encarniçadamente, aplicando golpes implacáveis com as suas lanças muito afiladas. 0
fragor da luta foi desmedido, atirando-se os guerreiros uns contra os outros com um
grande alarido de lanças e de espadas. Por todo o lado ecoava um grande estrondo:
o grito dos guerreiros respondia ao ruído dos escudos que embatiam uns nos outros,
as espadas silvavam nos ares indo ao encontro de carne humana, o estalo das
armaduras misturava-se com o ruído dos dardos. No choque brutal dos corpos os
membros superiores misturavam-se com os inferiores num cenário infernal. Os heróis
caíam uns a seguir aos outros, e o chão estava escorregadio sob os seus pés devido
ao sangue derramado. As cabeças batiam umas nas outras, provocando o estalido
dos ossos do crânio e espalhando os miolos na erva ensangüentada. E o rio
transportava cadáveres que, levados pela corrente para os lagos, aí se amontoavam.
No meio daquela massa humana, Lug do Braço Longo semeava a morte e a destruição.
Envergava um equipamento maravilhoso, desconhecido, que sem dúvida provinha do País da
Promessa. Tinha uma camisa de linho, bordada com um fio de ouro sobre pele branca, e a
túnica, ampla e confortável, possuía diversas cores. O seu avental muito largo e belo estava
revestido de ouro fino e possuía franjas, colchetes, com bordados em prata, tendo um cinto tão
bem guarnecido que nem a espada mais afiada do mundo o poderia trespassar. Lug envergava
também uma armadura em ouro espesso, com belas maçãs onde estavam incrustadas pedras
preciosas, e para se proteger trazia um largo escudo de madeira vermelha revestida a ouro.
Nas mãos segurava a espada, muito longa e fina, escura e muito cortante; brandia a lança que
tinha ferro envenenado, uma lança larga, temível, de cinco pontas, da qual ninguém conseguia
escapar. Mas, sobretudo, ele trazia consigo a sua moca usada em batalhas, de ferro muito
sólido, e a sua funda que lhe permitia arremessar poderosas bolas de ferro que nunca falhavam
o alvo.
Era de todo este aparato bélico que se fazia acompanhar o poderoso protetor do país, o
valoroso Lug do Braço Longo, sempre pronto a fazer frente a quem quer que se intrometesse
no seu caminho e a inspirar os guerreiros das tribos de Dana com o seu exemplo de homem
forte e 108 C--e-ICI-poderoso, que nunca vacilava perante os inimigos. Nele se misturavam a
fúria do leão enraivecido, o bramido das vagas do mar no momento das grandes tempestades,
e o ronco do oceano de espumas azuis e verdes quando se abatem sobre a areia. E os
guerreiros de Dana seguiam-no no seu ímpeto feroz, capaz de fazer estremecer o mundo.
Daí a pouco, Lug do Braço Longo encontrou-se diante de Balor, campeão dos Fomore que era o
pai de Ethné, ela própria mãe de Lug. Balor era poderoso e temível, e nunca ninguém o tinha
vencido. Tinha uni olho maléfico, que só se abria durante os combates. Nessa altura quatro
homens eram obrigados a erguer a pálpebra com um croque bem delicado. Aqueles que fossem
atingidos pelo olhar deste olho não lhe podiam resistir, ficando paralisados pelo medo. 0
sortilégio deste olho devia-se a um feitiço que Balor recebera quando ainda era jovem. Os
druidas do seu pai tinham posto a ferver um caldeirão onde deitaram ervas magicas o feitiços,
e ele, ao abrir uma janela, recebera no olho o vapor envenenado que se libertava do caldeirão.
A partir de então passou a ser chamado simplesmente Balor do olho maléfico.
Quando ficou diante de Balor, Lug do Braço Longo pediu-lhe para mandar suspender a batalha,
para que a vida dos Fomore fosse poupada e eles pudessem voltar sãos e salvos para as suas
ilhas rodeadas de nevoeiro. Acrescentou que não era por medo que falava assim, mas para pôr
cobro a uma batalha que já fizera um grande número de mortos e de feridos. Balor virou-se
então para aqueles que o rodeavam, dizendo: «Companheiros, levantai-me a pálpebra, para
que eu possa ver o palrador que se dirige a mim com tanta impertinência.»
Ergueram-lhe a pálpebra, e Balor começou a contorcer-se à volta de Lug para o provocar. Um
arrepio de medo percorreu o filho de Cian quando viu a sombria cavidade injetada de sangue
negro que, muito aberta, observava as tribos de Dana. Mas, prudentemente, Lug evitou olhar
para o olho de Balor e chamou Goibniu, pedindo-lhe para lhe trazer uma pedra de funda
terrível, arrasadora, maravilhosa, que conseguisse atingir o olho de Balor e eliminá-lo Goibniu
imediatamente pediu ajuda aos seus filhos adotivos que se Puseram em movimento e o
secundaram à volta da forja. Ao pedido do tutor, os filhos ergueram-se de imediato e puseram
mãos à obra, cheios de vontade e de determinação. Acenderam o fogo da forja e fizeralii a mais
terrível e mortífera bala para funda que alguma vez se viu. Ao sair da forja, a bala era tão
pesada e escaldava tanto que nem conseguiram pegar nela, sendo necessário o próprio Goibrim
para a transportar até à presença de Lug do Braço Longo.

Ora, naquele momento era grande o desespero de Lug, pois não havia guerreiro que não
tivesse sido ferido pelo olho maléfico de Balor, um olho que soprava ventos violentos como os
de uma tempestade e de onde saíam chuvadas cheias de veneno. Ainda por cima, o calor que
emanava da bala da funda, os fumos, os vapores que a rodeavam, os feixes de faíscas que a
cravejavam, queimando a pele, impediam quem quer que fosse, mesmo os mais bravos, de se
aproximarem do lugar onde Lug do Braço Longo se encontrava diante do seu avô Balor, o
campeão invencível dos Fomore.

Contudo, Lug, com extrema destreza e rapidez, segurou a bala de ferro ardente e, tendo~a
colocado na funda, fê-la rodar a volta da sua cabeça e arremessou-a com toda a força na
direção de Balor. Apesar da distância que os separava, o tiro foi tão certeiro que o projétil
atravessou a pele muito dura de Balor e lhe esvaziou completamente a órbita do campeão olho
perverso. Os Fomore, que assistiam à terrível luta do seu contra Lug do Braço Longo, viram o
olho maléfico que, depois de ter atravessado o crânio de Balor, foi cair junto deles, matando
logo ali três novenas de homens. Entretanto, aproveitando a confusão Balor fugiu.

Então interveio Morrigane, filha de Ernmas, mostrando aos guerreiros das tribos de Dana os
despojos que arrancara de Indech, rei dos Fomore. Contou-lhes a proeza que acabara de fazer
e encorajou-os a combater os Inimigos até à sua destruição total. Então, e sem perda de
tempo, os heróis das tribos de Dana lançaram um assalto furioso aos Fomore onde pereceram,
além de Elatha, filho de Indech, diversos campeões vindos das ilhas imersas em nevoeiro.

Logo depois, Bress, filho de Elatha, saiu das fileiras dos Fomore e pôs-se diante de Lug, com a
intenção de vingar o pai. Começaram a combater furiosamente, e Bress, batendo em Lug com o
seu escudo, provocou-lhe três ferimentos, mas Lug não deixou de responder e com o rebordo
do seu infligiu-lhe golpes tão violentos que Bress estava em grandes apuros quando os Fomore
vieram em seu socorro. Dando três gritos poderosos contra Lug, eles fizeram chover sobre ele
um feixe de lanças e de dardos, mas ele evitou-os e fê-los cair por terra, pisando-os depois até
os transformar em bocados de ferro contorcido. Mas esta manobra de diversão permitira que
Bress escapasse sem ser ferido e depois se confundisse com os seus, não conseguindo Lug
encontrá-lo, Entretanto, os homens das tribos de Daria investiram de novo contra os Forriore e
não tardaram a encostá-los à parede. Desnorteados, aqueles ficaram desorganizados e,
abandonando a planície de Tured, dirigiram-se para o mar com a esperança de reembarcar e de
fugir o mais depressa possível da ilha da Irlanda. No meio deles, Balor tentava recompor-se da
grave ferÀda que lhe fora infligida por Lug do Braço Longo.
Lug, entretanto, não desistiu de perseguir ferozmente Balor, massacrando sem dó nem piedade
todos aqueles que, em fuga, se atravessavam a sua frente. Acabou por apanhar Balorjunto à
costa e aí lhe lançou um grito de desafio. Balor, voltando-se, tentou defender-se, mas Lug, com
O seu dardo, perfurou-lhe o peito de lado a lado. «Lembra-te que sou o teu avô», gritou Balor
para Lug, «e que a tua mãe é Ethné do rosto doce». «Eu também sou filho de Clan, filho de
Diancecht, e pertenço às tribos de Dana!», replicou Lug. «Por favor, não me humilhes!»,
implorou Balor. «As tuas palavras nada valem!», respondeu-lhe Lug. «Já não te estás a
humilhar quando me pedes para te poupar a vida?» «Eu não te peço que me poupes a vida»,
replicou Balor, «peço-te apenas que me deixes satisfazer um desejo.» «0 que desejas, então?»
«Pois bem, é o seguinte: se me derrotares e me matares, quando me cortares a cabeça”’, peço-
te que a coloques sobre a tua própria cabeça. Desse modo, o meu valor guerreiro e as minhas
virtudes andarão contigo(2) , não havendo entre os meus descendentes quem eu estime tanto
como a ti te estimo!» «Segure o teu conselho, mas de acordo com a minha consciência»,
respondeu Lug.

Cheios de fúria, aproximaram-se um do outro e começaram a lutar com violência, ferindo-se


mutuamente com as espadas e os dardos que flamejavam diante deles, até que Balor, sem
forças, acabou por ceder, cortando-lhe Lug a cabeça.

A seguir, Lug afastou-se, levando consigo o despojo envolto em cabelos, e foi depositá-lo no
fuste de um pilar de pedra que existia nas

I. No contexto mágico inerente a esta época mitológica, já aqui foi referido, pode ressuscitar-se
s mortos, mas na condição de a coluna vertebral e o cérebro não estarem afetados nem
cortados. isto explica o fato de ser usual cortar a cabeça do inimigo, mesmo morto, Para
impedir que ele ressuscite.

2. Referência ao curioso «ritual das cabeças cortadas», abundantemente testemunhado pela


arqueologia galo-romana, e de que dão testemunho numerosos autores da Antiguidade
clássica: trata-se de se ficar de posse das qualidades de um herói, inimigo ou amigo. O tema
encontra-se em diversas narrativas irlandesas, em particular nas do ciclo do Uister,
proximidades. Mas a cabeça esteve aí Pouco tempo, pois estava tão quente que fez com que a
pedra rachasse e se dividisse em quatro muito antes de cair por terra. Então, Lug colocou~a
num ramo fragmentos e voltou Paramente», disse ele, «o conselho que Perto do corpo de
Balor. «Sincebifurcado de aveleir ue me deste não era muito amigável. Se eu o tivesse seguido,
a minha cabeça teria sofrido ainda mais do que o pilar de pedra.» E, sem perda de tempo, ele
voltou a partir, levando consigo a cabeça de Balor.

Entre os Fomore, que iam sendo massacrados, apenas subsistiam os que adquiriram a forma de
pedras e de pilares na planície, mas poetas, deixou de avançar em sua direção e de os
ameaçar, mesmo tem Lug não deixou a forma humana e Lug do ele mudado de aparência. Eles
tomaram no exato de prometeu que lhes faria um favor se lhe revelassem o número «Eu não
sei o número de escravos e de plebeus perdas entre os Fomorc - mas se, que entre os
senhores, nobres campeões, que caíram em combate, cinco ”I e Sesos filhos de reis e os
grandes reis dos Fomore, morreram acompanhavam Os senta e três. Quanto aos plebeus e aos
escravos que acoc, nobres e os chefes, pois todos os chefes traziam as suas gentes, só POSSO
revelar o número daqueles que vi tombarem com Os meus próprios olhos. Quanto aos outros,
aqueles que, ou seja, três mil seiscentos e vinte e sete ter visto só poderão ser enumerados
quando se souber pereceram sem Os céu os grãos de areia na praia, as gotas o número de
estrelas que há no de orvalho nos campos, ou os relâmpagos na tempestade.»

Quando Lug do Braço Longo deixou os poetas e voltou para perto das tribos de Dana, viu num
relance Bress, filho de Elatha, a tentar esconder-se atrás de um rochedo. Avanço” logo para ele
e ameaçou-O 1» gritou. «Foi por tua culpa que sofre com a espada. «Maldito sejas’ , z
travar esta saflmos a opressão dos Fomore e que fomos obrigados a
igrenta batalha!» «É melhor que não me mates e que me poupes a v da!», exclamou Bress. «A
sérog», respondeu Lug. «0 que se ganharia vida?» «Se a vida me for poupada, eu farei com
que as em poupar-te a abundância». «Vou consultar vacas da Irlanda tenham sempre leite em
os meus sábios para saber qual é a opinião deles», respondeu Lug. 01 Lug foi à presença de
Maffiné para saber a sua opinião e repeti -lhe o que ouvira da boca de Bress a respeito das
vacas da Irlanda. X1, u Lug. «Não», vemos poupar-lhe a vida por esse MOtivo 2», Pergunto
a é, «Pois um poder sobre as vacas d respondeu MailIn, ele não tem nenhum dar.» Lug vOl
Irlanda nem sobre a quantidade de leite que elas possam tou depois ao encontro de Bress, e
dIsse-lhe: «Não há motivo para te poupar a vida, pois tu não tens nenhum poder sobre as
vacas e sobre a sua produtividade.» Bress lançou um feitiÇO e Lug perguntou-lhe critão: «Há
algum outro motivo que Possa justificar que a tua vida seja poupada?» «Sim, evidentemente»,
disse Bress. «Se me pouparem a vida, haverá sempre ria Irlanda uma colheita por estação.»

Lug foi de novo consultar MailIné. «Devemos poupar a vida a Bress», perguntou ele, «se
assegurar aos homens da Irlanda uma colheíta por estação?» «Não», respondeu Maffiné, «pois
a realidade é bem diferente: nós temos a Primavera para lavrar e semear, o início do Verão
para que o trigo se fortaleça e amadureça, o começo do Outono para a colheita e o Inverno
para comer. Não faz nenhum sentido essa idéia de uma colheita por estação.»

Lug foi de novo falar corri Bress, «Tu não serás poupado», disse-lhe ele, «pois já temos o que
nos propões.» «Isso não é bem assím», retorquiu Bress, «e se me deixardes viver, eu diT-vos-
ei como se lavra, semeia e faz a colheita, que são três coisas que vos ignorais.» «Se tu mas
revelares», disse Lug, «poupo-te a vida». «Pois bem», disse Bress, «E preciso lavrar à terça-
feira, lançar a semente à terra à terça-feira e fazer a colheita à terça~feira.»

E por causa desta artimanha é que Bress, filho de Elatha, salvou a vida a seguir à batalha da
planície de Tured.

A seguir, Lug foi juntar-se a Dagda e a Ogiria, o homem forte, que encontrara a espada do rei
dos Fomore. Naquela altura ele tirava-a da bainha e limpava-a. Então, a espada contou o que
vira e testemunhara Pois, naquele tempo, as espadas tinham o costume, assim que eram
desembai Dhadas, de revelar as proezas que tinham feito ou que tinham testemunhado. E
assim que se explica que haja hoje sortilégios nas espadas. É preciso ter em consideração que
naquele tempo os demônios falavam por meio das armas, sendo essa a razão por que era
freqüente os homens adorarem as armas.

Lug, Dagda e Ogrua ergueram pilares aos heróis que tinham caído en1 combate e gravaram
neles inscrições. Depois Morrigan, a maga, ’veio juntar-se a eles. «0 que vês?», perguntou-lhe
Dagda. «Neste Momento veio a vitória e o triunfo», respondeu ela, «mas também vejo que
0 teMPO futuro traz muitas desgraças. 0 mundo deixará de me interessar, Pois os Verões não
terão flores, as vacas não darão leite, as mulheres nãO terão pudor, os homens não terão
coragem, as árvores não darão frutos e os mares não terão peixes. Nada será como dantes: os
velhos prestarão juramentos falsos, os homens atraiçoar-se-ão uns aos outros, os filhos
roubarão os pais... É esse o mundo de amanhã, mas hoje as tribos de Dana podem cantar
vitória.»

E Morrigan, filha de Errimas, foi por toda a Irlanda para anunciar que as tribos de Dana tinham
vencido os Fomore das ilhas do nevoeiro na grande batalha da planície de Tured.1’1

1. Segundo a narrativa A Segunda Batalha de Mag-Tured, primeira versão, com pormenores


retirados da segunda versão, nomeadamente o episódio em que Lug se esconde e aquele em
que Lug e Balor se confrontam.

Capítulo XV

Depois da vitória das tribos de Dana sobre os Fomore na planície que passou a chamar-se Mag-
Tured, Lug do Braço Longo encontrou dois irmãos do seu pai, Cu e Ceithenn, ambos filhos de
Dianceclit, e perguntou-lhes se tinham visto Cian na batalha. «Não, não o vimos», responderam
eles. «Fornos no seu encalço seguindo o rasto dos Fomore que tinham vindo a Tara exigir o
pagamento do tributo, mas não chegamos a encontrá-lo, pois rumamos a sul ao passo que ele
se dirigiu para norte. Por isso, não voltámos a vê-lo.» «Os Fomore tê-lo-ão matado?»,
perguntou Lug. «Pensamos que não», responderam Cu e Ceithenn, «Pois os Fomore dirigiram-
se para sul, e não é provável que se tenham encontrado.» «Vamos procurá-lo», disse Lug do
Braço Longo.

Cavalgaram os três até ao lugar onde os seus caminhos devem ter divergido e, apontando bem
para norte, acabaram por se encontrar na planície de Murthemné. «Estou convencido de que o
meu pai já não está vivo», disse Lug, «e juro que nunca mais como e bebo nada enquanto não
souber de que modo ele morreu.»

Ora, estando eles a chegar a um outeiro que se erguia no meio da Planície, a terra pôs-se a
falar. Disse ela a Lug que naquele mesmo lugar, Cian, apanhado pelos filhos de Tuirenn, tinha
adquirido a aparência de um porco. Disse também que ele tinha morrido às mãos deles depois
de ter retomado a forma natural e que se encontrava enterrado debaixo do outeiro.

Então, Lug e os dois irmãos de Cian puseram-se a cavar debaixo do outeiro. Descobriram o
corpo e viram os inúmeros ferimentos que lhe tinham provocado a morte. «Ele foi morto de
forma desleal», disse Lug. «Esses ferimentos devem-se a pedras arremessadas pelos filhos de
Tuiremi, que mataram o meu querido pai de forma covarde e abominável.»

Curvando-se, Lug beijou duas vezes o corpo do pai, depois se endireitou com um ar cheio de
nobreza, e disse aos companheiros: «Tenho o coração destroçado pelo que aconteceu ao meu
pai. Custa-me muito não o ter podido ajudar quando estava refém dos filhos de Tuirenn, mas
juro que tudo farei para que estes malditos assassinos paguem muito caro a perversidade que
cometeram contra um dos seus, um herói das tribos de Dana.»

Lug entoou então um canto fúnebre sobre o corpo do pai e depois, escavando a terra com as
unhas, recolocou aquele debaixo daquele tumulus. Em seguida erigliu um pilar no qual foi
gravada uma inscrição que tinha o nome de Cian em ogham e que explicava o modo traiçoeiro
como ele fora morto pelos filhos de Tuirenn. Por fim, continuou Lug: «Juro que o crime
abominável aqui cometido não ficará impune, embora ainda tenhamos de atravessar um longo
período de grande infelicidade. Por muito tempo a Irlanda continuará a ser dilacerada por lutas
fratricidas, não havendo paz para ninguém. No que me toca, sinto-me profundamente
consternado pela morte que os filhos de Tuirenn deram a meu pai, o valoroso filho de
Diaricech1.»

E logo em seguida Lug despediu-se dos dois irmãos de Cian: «Ide e juntar-vos àqueles que
rejubilar com a vitória das tribos de Dana, mas peço-vos que não reveleis a ninguém o que aqui
se passou enquanto eu próprio o não fizer.»

Alguns dias mais tarde, Nuada do Braço de Prata, rei supremo da Irlanda, convocou o conjunto
das tribos de Dana para se reunirem na fortaleza de Tara. Quando chegou, Lug do Braço Longo
sentou-se Z2, cheio de nobreza e com uma auréola de honra ao pé de Nuada, cri’ frente de
todos os chefes e de todos os nobres que ali se encontravam. Olhando em volta, viu os irmãos
de Tuireim. Os três eram famosos pelo seu valor e beleza, pela sua agilidade e destreza. Todos
eles tinham ajudado à vitória sobre os Fomore, e eram muito considerados por todos. Lug a
certa altura pediu a palavra, que lhe foi concedida, concentrando-se nele todas as atenções.

«Que assunto quereis tratar, ó filhos de Dana?», perguntou ele, «Escolhe tu o assunto»,
responderam eles. «Pois bem», começou LU9, «vou colocar-vos uma questão: que vingança
cada um de vós gostaria que fosse aplicada sobre quem fosse culpado de ter matado o vosso
pai?» Pronunciadas estas palavras fez-se um silêncio e foi o rei da Irlanda o primeiro a falar: «A
alguém que tivesse matado o meu pai eu não infligiria uma morte de um único dia, mas uma
pena muito mais dura ortar. Se tivesse poder para isso, todos os dias eu arrancar-lhe-ia de
suprir a meus pés.»

ni rnernbro até o ver ca 1

Todos os nobres das tribos de Dana foram da mesma opinião, tanto os filhos de Tuirenn como
os outros. «Constato», disse Lug, «que todos são da mesma opinião, inclusive aqueles que
mataram o meu pai. Portanto exijo que me paguem um desagravo pelo sucedido, já que todos
os homens das tribos de Dana pertencem ao mesmo clã e descendem do mesmo antepassado.
Se eles me derem uma satisfação, não violarei o direito que obriga o rei da Irlanda a proteger
todos os seus hóspedes. Mas não respondo pelos meus atos se eles recusarem dar uma
satisfação pelo assassínio que cometeram, e nesse caso não permitirei que abandonem a casa
real de Tara sem se terem havido comigo.» «Se tivesse sido eu a matar o teu pai», disse o rei
da Irlanda, «veria com muito bons olhos que .a a pacyar-te.»

aceitásseis o desagravo que eu me comprometerei Z=1

Os filhos de Tuirenn puseram-se então de lado a falar entre si. «E a nós que se refere Lug»,
disseram luchar e lucharba. «Pelos vistos, ele procurou saber do pai o veio, a saber, como cían
foi morto na planície de Murthemné. «Reccio bem», respondeu Brian, «que ele esteja à que nós
façamos Lima confissão na presença de todos os nobres espera - aceitará da das tribos de
Dana, e, uma vez que isso aconteça, não nossa parte o desagravo.» «Se ele pedir uma
confissão», disseram dois deles, «nós falaremos, mas pensamos que te cabe a ti fazê-la em voz
alta, pois és o mais velho.»

Então, Brian, filho de Tuirenn, ergueu-se e, diante de todos os nobres e chefes das tribos de
Daria, interpelou Lug nestes termos: «E a nós que tu acusas, ó Lug, filho de Cian. Quando falas
de assassínio e de desagravo, é a nós que te referes, pois pensas que nós OS três atacámos o
filho de Diancccht. Não confessaremos nada, mas também não fugiremos às responsabilidades
e estamos prontos a compensar-te pela morte de Cian como se nós próprios tivéssemos
cometido o crime.» «Assim sendo», disse Lug, «vou então vos dizer a compensação que me
devereis dar» «Diz-nos lá qual é essa compensação, ó LUg.» «E a seguinte», Prosseguiu Lug,
«Peço-vos três maçãs, uma pele de porco, uma lança, dois cavalos e um carro, sete porcos, um
pequeno cão, um espeto de assar e três brados num monte. É esse o pagamento que vos exijo
pela morte do meu pai. Se ele vos parece excessivo, torná-lo-ei mais leve, mas se vos parece
ao vosso alcance, parti de imediato em sua demanda.» «Na verdade», respondeu Brian, filho
de Tuirenn, «nós não o achamos muito pesado, o que me faz pensar que poderás estar a
preparar uma traição contra nós. Ele seria mais pesado, com efeito, se exigisse de nós
trezentas mil maças, a mesma quantidade de peles de porco, cem lanças, cem cavalos e cem
carros, cem suínos, cem cães, cem espetos de assar, e cem brados num monte.» «Nesse
caso», continuou Lug, «mantenho o preço que tendes a pagar. Dar-vos-ei a garantia dos chefes
das tribos de Dana, nada mais vos pedirei e não vos trairei. Exijo-vos, no entanto, que me
dêem a mesma garantia.»

Os três filhos de Tuirenn juraram então que pagariam o que lhes era pedido, e deram como
garantia Nuada, rei supremo da Irlanda, assim como Bobdh Derg, filho de Dagda, e alguns dos
chefes que ali se encontravam. «Sendo assim», disse Lug, «e tendo eu as vossas garantias,
dar-vos-ei agora a conhecer o que me deveis trazer.» «Nós íamos interrogar-te a esse
respeito», disseram os filhos de Tuirenn. «Pois então ouvi com atenção», disse Lug, «as três
maçãs que vos peço são as três maçãs do Jardim das Hespérides, que se encontra a leste do
mundo. Só essas maçãs me poderão satisfazer, pois são as melhores e as mais belas de toda a
terra. Têm a cor do ouro bem polido, e a cabeça de uma criança de um mês não é maior do
que cada uma delas. Sabem a mel quando as comemos, e não deixam amargor nem acidez na
boca. Além disso, não diminuem de tamanho quando as comemos, mesmo que o façamos
todos os dias. Aquele que conseguir colher uma destas maçãs terá conseguido cometer a maior
proeza do mundo, pois a maçã pertencer-lhe-á para sempre. E eu sei que, segundo uma
profecia desse longínquo país, serão três jovens corajosos e arrojados idos do oeste da Europa
que delas se apoderarão pela força.»

«A pele de porco que vos peço», continuou Lug, «é a pele de porco que pertence a Tuis, rei da
Grécia. Esta pele é curativa e cura todos os feridos e todos os doentes que por ela sejam
revestidos, por muito grave que seja o seu estado, e desde que tenham ainda um sopro de
vida. Este porco tinha uma excepcional virtude: se o fizessem atravessar um rio, a água deste
transformava-se em vinho durante nove dias. Qualquer ferida que ela tocasse cicatrizava, mas,
a crer nos druidas da Grécia, só a sua pele, e não ele, possuía esta virtude. Morto o porco e
esfolada a pele, esta foi conservada desde então. Estou certo de que não vos será fácil
apoderar-vos dela, pois está vigiada e muito bem guardada. E sabeis que lança vos exijo?»
«Não o sabemos», responderam os filhos de Tuirenn. «Tu é que tens de no-lo dizer.» «Pois
bem», prosseguiu Lug, «é a lança envenenada de Pisear, rei dos Persas. Trata-se de uma arma
mágica que é capaz de cometer as proezas mais extraordinárias do inundo. E de tal modo
escaldante que, em tempo de paz, a sua cabeça fica continuamente mergulhada num caldeirão
de água fria. A não ser assim, a povoação onde se encontra arderia e ficaria destruída. Com
efeito, ser-vos-á muito difícil apoderar-vos dela. Agora, sabeis quais são os dois cavalos e o
carro que desejo receber de vós?»

«Não o sabemos, pois cabe-te a ti dizer-nos». «Pois bem, são os dois cavalos maravilhosos de
Cobar, o rei da Sicilia. Tanto a terra como o mar lhes servem para cavalgar, e é freqüente vê-
los a galopar sobre as ondas. Não há cavalos mais rápidos e resistentes do que eles. Também
não há nenhum carro tão sólido e tão belo como aquele a que eles andam atrelados. Além
disso, quanto mais se matam estes cavalos, mais eles renascem, e cada vez mais belos e mais
sãos do que antes, desde que, pelos menos, se juntem todos os seus ossos. É minha convicção
que não vos será fácil obtê-los, pois estão guardados com todo o cuidado nas cavalariças do
rei.

«Agora», continuou Lug, «Sabeis quais são os sete porcos que vos Peço? São os porcos que
estão na posse de Easal, rei das Colunas de Ouro. Eles têm a particularidade única de, ao
serem mortos de noite, serem encontrados vivos de manhã. E quem comer um pedaço deles,
nunca fica doente nem com má saúde.»

«O pequeno cão que vos peço chama-se Failinis, e pertence ao rei loraidh. Tem a
particularidade de todos os animais que o observam não Poderem continuar de pé e terem de
se deitar no chão. Tal como aos Porcos de Easal, ser-vos-á muito difícil ficar de posse dele. 0
espeto de assar que vos peço é um dos que servem às mulheres de Fianchair para preparar a
comida. Mas é quase impossível conseguir ficar em poder dele, tal é o cuidado que as mulheres
tem para não o perderem. Quanto aos três brados no monte que vos peço, são os brados no
monte de Miodchain, nos países do norte. Ora, tanto Miodcham como as suas ’danças proíbem
quem quer que seja de dar brados naquele monte. Foi na casa dele que o meu pai fez a sua
aprendizagem, e se eu tiver a fraqueza de vos perdoar o vosso crime, é certo que Miodchain
não vos perdoa-rã. E essa, pois a compensação que vos exijo pela morte de meu pai.» Os filhos
de Tuirenn permaneceram em silêncio, enchendo-se de angústia. Abandonaram a assembléia e
foram falar com o pai para lhe contar o que se passara, e para o pôr a par da compensação
exigida por Lug do Braço Longo pelo assassínio de Cian, filho de Diancecht. «Trazeis-Me más
notícias», disse Tuirenn. «lreis passar por grande perigo se partirdes em busca do que vos pede
Lug. Mas não tendes alternativa, e preciso reconhecer que ele tem razão, pois haveis cometido
o pior crime que se pode cometer. Mas previno-vos: vós não conseguireis alcançar tudo isso
sem os poderes maravilhosos de Mananann ou do próprio Lug. Aconselho-vos, pois o seguinte:
pedi emprestado o cavalo de Mananann, que atualmente está ao serviço de Lug. Lug não vo-lo
poderá emprestar e recusará o vosso pedido, pois o cavalo não lhe pertence. Então pedir-lhe-
eis a barca que Mananann também lhe emprestou, e como ele não poderá recusar um segundo
pedido de empréstimo, terá de vo-la emprestar. E ficai, a saber, que a barca vos será mais útil
do que o cavalo.»

Os filhos de Tuirenn foram então se encontrar com Lug do Braço Longo saudaram-no e
disseram que não poderiam compensá-lo se ele próprio os não ajudasse. E suplicaram-lhe
então que lhes emprestasse o cavalo de Mananann.

«É impossível», respondeu ele, «o cavalo não me pertence.» «Então», disse Brian, fillho de
Tuircim, «empresta-nos a barca de Mananann.» «Desta vez não posso recusar o vosso pedido.
Levem-na», disse Lug. «E onde está ela?» «Em Brug-na-Boylle.»

Quando ficaram de posse da barca, os filhos de Tuirenn foram despedir-se do pai, que ficou
triste e desolado ao vê-los partir, pois sabia que a empresa estava condenada ao fracasso,
mesmo com a barca de Mananann. Etimé, filha de Tuirenn, acompanhou os irmãos ao porto e,
aí, entoou para eles um canto lamuriento em que deplorava que os filhos de Tuirenn tivessem
cometido um tal crime contra o pai de Lug e por isso fossem condenados a errar pelo mundo
em busca de coisas impossíveis de obter.

Os três irmãos embarcaram e alcançaram o alto mar. «Que rota vamos tomar?», perguntaram
os dois irmãos mais novos. «Vamos procura das maçãs», respondeu Brian, «pois foi o primeiro
pedido que nos foi feito.»

1. 0 tumulus megalítico de Newgraiige, ao cimo do vale de Boyne, no condado de meath.

Apontaram então a barca de Mananann na direcção do Jardim das Ilespérides, e a barca seguiu
a sua rota na crista das ondas, cruzando o oceano. Como cortou caminho, daí a pouco chegou
a um porto, na costa das Hespérides.

Assim que chegaram, Brian perguntou aos irmãos: «Como é que nos havernos de aproximar do
Jardim das Hespérides? Suponho que há uns campeões e uns guerreiros alados que não
estarão na disposição de nos deixarem lá entrar, estando acompanhados do próprio rei. Não
nos devemos esquecer, apesar disso, do nosso próprio valor, e de que os venceremos em caso
de termos de lutar contra eles, embora com grandes custos e correndo o risco de perdermos a
vida.» Proponho-vos, pois que assaltemos este jardim sob a forma de falcões fortes e rápidos.
Os guardas só dispõem de armas ligeiras e, quando as usarem contra nós só teremos de usar
da máxima prudência e de estar atentos. E, assim que os nossos inimigos estiverem
desarmados, lançar-nos-emos sobre as macieiras, apoderando-se 1cada um de Dós de uma
maçã. Quanto a mim, se puder, apoderar-me-ei de duas, trazendo uma nas garras e a outra no
bico.»

luchar e lucharba aprovaram este plano. Então, Brian bateu neles e em si mesmo com uma
varinha mágica e diruídica e, tomando os três a forma de belos falcões rápidos e possantes,
voaram ao encontro do Jardim. Os guardas viram-nos e, depois de terem gritado, mas em vão,
para tentarem detê-los, dispararam sobre eles uma chuvada espessa de armas que tinham
veneno na ponta. Os filhos de Tuirenn estavam tão atentos que evitaram todas as setas e,
seguindo o plano de Brian, foi-lhes fácil lançarem-se sobre as macieiras depois de os guardas
terem gastado todas as suas munições. Logo depois levantaram vôo, sãos e salvos, e dirigiram-
se para a barca de Mananann.

A notícia daquela grande proeza logo se espalhou pela cidade e por todo o país. Ora, o rei das
Hespérides tinha três filhas extremamente conhecedoras e hábeis nas artes mágicas.
Adquirindo a forma de três grifos, elas perseguiram os falcões até ao mar, lançando-lhes raios
de fogo muito ardentes. «Estamos numa situação multo delicada», disse Brian, «e se não
descobrirmos um truque, seremos calcinados - mas já sei o que temos que fazer.»

Batendo com a varinha mágica e druídica nos irmãos e nele Próprio metamorfosearam-se
imediatamente em cisnes brancos que IUM salto chegaram ao mar, de tal forma que os grifos,
sobrevoando-os, nem repararam neles. Então, os filhos de Tuir, im subiram para a barca e
retomaram o aspecto humano.

Depois disso, decidiram partir para a Grécia para se apoderarem, a bem ou pela força, da pele
de porco. A barca de Mananann conduziu-os velozmente até à vizinhança do palácio real. «Que
forma tomaremos quando nos apresentarmos na corte do rei?», perguntaram os irmãos mais
novos ao mais velho. «Na nossa própria forma», respondeu Brian, «mas far-nos-emos passar
por poetas e artistas da Irlanda, para que sejamos recebidos com todas as honrarias.»

Os três irmãos pentearam os cabelos à maneira de poetas e foram bater à grande porta da
cidade. 0 porteiro perguntou-lhes quem eram e o que queriam. «Sornos artistas da Irlanda»,
responderam eles, «e vimos a esta cidade recitar um poema ao rei.»

0 porteiro foi avisar o rei. «Eles que entrem», respondeu o soberano, «pois e para nos uma
honra receber artistas estrangeiros.»

0 rei deu ordens, também, para que a corte fosse preparada com toda a magnificência, para
que, ao regressarem ao seu pais, os artistas da Irlanda pudessem transmitir a sua admiração
pelos méritos e a opulência do rei da Grécia e dos nobres que o rodeavam. Os filhos de Tuirenn
foram então conduzidos até um grande salão decorado com belas tapeçarias bordadas.
Serviram-lhes bebidas e estavam maravilhados, pois jamais tinham visto uma casa tão
esplendorosa e nunca tinham sido recebidos com tanta pompa em nenhum outro lugar.

Pouco depois, os poetas do rei ergueram-se para declamarem os seus poemas aos forasteiros.
Quando acabaram, Brian pediu aos irmãos para fazerem o mesmo, mas estes recusaram com o
pretexto de que só sabiam combater. Por esse motivo, Brian avançou sozinho ficando diante do
rei e da assembléia. Fez-se um grande silêncio em sua honra, e ele cantou um poema que
terminava com este verso:

«A pele de um porco, riqueza sem igual, é a riqueza que eu peço. »

«O teu poema é muito bom», disse-lhe então o rei, «mas o que significa esta alusão à pele de
porco? Eu elogiar-te-ia o poema de boa vontade se não fosse essa alusão, pois é uma grande
impertinência pedir-lhe essa pele. Fica, a saber, que, por nada deste mundo, a dana aos poetas
e aos artistas, ou sequer aos nobres e aos príncipes, a não ser que fosse obrigado a isso. Mas,
para te recompensar, fica certo de que consinto em te oferecer uma quantidade de ouro que
vale três vezes a pele de porco bem esticada. «Que sejas recompensado pela tua generosidade,
ó rei», respondeu Brian. «Mas previno-te: sou de tal modo desconfiado que só aceitarei o ouro
que me ofereces se ele for pesado e convenientemente pedido à minha frente, pois não
acredito em ninguém.»

O rei deu ordens aos seus servos e aos seus intendentes para que levassem Brian e os irmãos à
casa do tesouro onde seria pesado e medido o ouro. Mas, quando estavam a chegar àquela
casa, Brian apoderou-se da pele com um movimento rápido da mão esquerda e dobrou-a
cuidadosamente com a intenção de a levar; em seguida, desembainhando a espada, golpeou
com tal violência o homem que o acompanhava, que o rachou ao meio. Depois, apertando a
pele contra si, abriu caminho por entre os criados e os intendentes, vindo juntar-se a ele os
seus dois irmãos. O rei e os seus guerreiros precipitaram-se sobre eles, mas, após um violento
e sangrento combate, o rei morreu às mãos do próprio Brian, enquanto os dois irmãos
massacraram vários adversários à sua volta, de tal modo que ninguém conseguiu evitar que
eles saíssem da cidade e regressassem à barca de Mananann.

Puseram-se no alto mar em pouco tempo e só pararam de navegar quando chegaram às costas
da Pérsia. Aí, Brian e os seus irmãos voltaram a adquirir a aparência de poetas vindos da
Irlanda, e foi nessa qualidade que eles foram apresentados na casa do rei. Este recebeu-os
muito bem e pediu-lhes para cantarem. Brian improvisou então um canto em que se fazia
referência, de propósito, à lança de Pisear, rei dos Persas.

«0 teu poema é muito bom», disse o rei, quando Brian acabou de cantar, «mas não percebo
porque é que nele mencionas a lança, ó poeta da Irlanda.» «Eu explico-te, nesse caso»,
respondeu Brian, «é porque quero como recompensa a lança maravilhosa que está em Vosso
poder.» «É muito pouco delicado, o teu pedido», disse o rei. «E tens muita sorte por eu não te
matar imediatamente diante dos nobres e dos príncipes deste país! »

Ouvindo estas palavras, Brian lembrou-se que tinha apanhado duas maçãs no Jardim das
Hespérides. Pegou numa e arremessou-a contra o rei com tanta violência que ela lhe
atravessou o cérebro. Depois, desembainhou a espada e começou a massacrar todos aqueles
que estavam ao seu alcance, fazendo os seus irmãos o mesmo. Descobriram então a lança,
com uma ponta mergulhada no caldeirão Para evitar que a casa ficasse em brasa. Apoderaram-
se dela, assim como do caldeirão, e regressaram à pressa para a barca.

Depois voltaram para o alto mar e não tardaram a avistar em frente a fortaleza do rei da Sicília.
Brian disse aos irmãos que se apresentariam sob a forma de três mercenários da Irlanda que
vinham com a intenção de se pÔr ao serviço do rei. Assim, sem terem necessidade de
combater, saberiam, ao fim de algum tempo, em que lugar estavam guardados os cavalos e o
carro que costumavam ser usados nos combates. E, entrementes, foram-se aproximando da
elevação de terra atrás da qual se erguia a vila.

O rei, os príncipes e os nobres da sua casa formaram um cortejo muito bem organizado para
irem ao seu encontro. Os filhos de Tuirenn prestaram homenagem ao rei da Sicília, e este
perguntou-lhes quem eram, de onde vinham e o que pretendiam. «Nós somos mercenários da
Irlanda», respondeu Brian, «e ganhamos a vida ao serviço de todos os reis da teiTa.» «Quereis
ficar ao meu serviço?», perguntou o rei. «Sim, é esse o nosso desejo.»

Fizeram um contrato e firmaram uma aliança com o rei da Sicília. Mas, ao fim de quinze dias e
um mês na fortaleza, ainda não tinham conseguido obter nenhuma informação sobre os dois
cavalos e o carro. «Este contrato de nada nos está a servir, pois não fizemos nenhuns avanços
até agora», disse Brian. «Que pensas então que devemos fazer?», perguntaram-lhe os irmãos.
«Ouçam bem o que vos digo», disse Brian. «Peguemos nas nossas armas e no nosso traje de
viagem, e vamos comunicar ao rei que deixaremos de estar ao seu serviço se não nos mostrar
a sua parelha de cavalos.»

Os irmãos aprovaram, e os três, depois de se arrumarem, apresentaram-se perante o rei da


Sicília. Este lhes perguntou por que motivo estava em traje de viagem. «A razão é simples, ó
rei», disse Brian. «Nós somos mercenários da Irlanda, mas não nos basta servir os reis da terra
quando há guerras e conflitos. Também somos seus confidentes e seus conselheiros,
especialmente quando eles possuem tesouros preciosos. Ora, desde que aqui estamos, temos
sido tratados de uma forma bem displicente. Sabemos que tu tens os dois melhores cavalos e o
melhor carro do mundo, mas evitaste falar-nos deles e mostrar-no-los. É esse o motivo que nos
faz querer partir.» «Fazeis mal em querer partir»l, respondeu o rei, «pois, de todos os
mercenários que tenho ao meu serviço, sois vós quem mais eu estimo. Ficai, a saber, que, se
logo no primeiro dia mo tivéssemos pedido, eu ter-vos-la mostrado o cavalo e o carro. Mas já
que reprovais a minha atitude, vou imediatamente satisfazer o vosso pedido.»
O rei ordenou aos seus criados que fossem buscar os dois cavalos e os atrelassem ao carro, e a
ordem foi cumprida num abrir e fechar de olhos. Briari ficou então a ver os cavalos com toda a
atenção, em seguida deteve o carro, agarrou o cocheiro e, arremessando-o contra um rochedo
próximo, esmagou-lhe o crânio. Depois, saltando ele próprio para dentro do carro, aplicou um
golpe tão violento ao rei que o deixou prostrado e inanimado. Seguiu-se uma luta rija e
impiedosa que envolveu os guardas do rei, as gentes da cidade e os três irmãos, que deixaram
atrás de si um banho de sangue antes de voltarem para a barca de Mananann com os dois
cavalos e o carro.

Dali se deslocaram velozmente para o país de Easal com a intenção de se apoderarem dos
porcos maravilhosos que lhes era exigido por Lug do Braço Longo. Ora, o rei Easal estava a par
das proezas feitas pelos filhos de Tuirenn, e também ele veio em pessoa recebê-los quando se
aproximaram da sua fortaleza. «Porque vindes a este país?», perguntou-lhes ele. «Por causa de
uma Injustiça que cometermos», respondeu Brian, «e porque temos de pagar um desagravo,
faltando-nos agora levar os teus porcos. Se no-los deres de livre vontade, partiremos
pacificamente e muito gratos pela grandeza da tua ação. Mas se te recusares a no-los dares,
não deixaremos por Isso de os levar, custe o que Custar, após lutas sangrentas em que muitos
dos teus perderão a vida.» «Seria uma péssima idéia entrarmos em luta por causa dos porcos»,
disse o rei. «Vou-me aconselhar.»

O rei foi então consultar os sábios e os adivinhos. Todos foram da Opinião de que era preferível
dar os porcos aos filhos de Tuirenn do que resistir aos seus ímpetos furiosos, vindo dizer-lhes o
rei que permitiria que eles levassem os seus porcos. Os filhos de Tuirenn ficaram encantados,
pois era a primeira vez que lhes era dada uma parte da compensação sem que tivessem de
lutar por ela, expondo-se assim a riscos. 0 rei levou-os à noite a sua própria residência, fazendo
com que eles fossem tratados com toda a deferência e fossem satisfeitos todos seus desejos,
providenciando para eles todas as comodidades e dando-lhes de comer e de beber.

Na manhã seguinte, os porcos foram levados a sua presença, e disse o rei: «Aqui está o que
procuráveis com tanto empenho. A partir de agora estes Porcos são vossos. Que caminho ides
agora tomar? Que mais deveis adquirir para completardes as cláusulas do desagravo?» «Falta-
nos ir ao país de loraidh», respondeu Brian, «e trazer de lá o cão que pertence ao rei. É um cão
diante do qual se deitam todos os animais selvagens.» «Posso pedir-vos um favor?», perguntou
o rei Easal. «Certamente, e nós satisfazê-lo-emos de boa vontade, Pois te estamos muito
reconhecidos,» rmnh

«Pois bem», disse o rei Easal. «Acontece que a i a filha desposou o rei de loraidh, que por isso
é meu genro. Aceitai que vos acompanhe, e eu farei com que fiqueis de posse do cão sem
precisardes de lutaj»

Os filhos de Tuirenn agradeceram ao rei Easal e partiram com ele para o país de loraldh. O país
estava bem defendido, pois já era do conhecimento geral que os filhos de Tuirenn tinham
massacrado muita i gente nos paises por onde tinham passado. Assim, encontravam-se por
todo o lado diversos homens armados prontos para se baterem contra quaisquer estrangeiros
que, sem motivo, por ali aparecessem.

O rei Easal identificou-se e entrou pacificamente naquela terra, depois foi ao lugar onde estava
o seu genro, o rei de loraidh, e contou-lhe as viagens e as aventuras dos filhos de Tuirenn.
«Por que motivo os trouxeste ao meu país?», perguntou o genro. «Para te pedir o cão que te
Pertence», respondeu o rei Easal. «Por todos os deuses do céu!», indignou-se o rei de loraidh,
«não seria justo que eu reconhecesse a três guerreiros o direito de se apoderarem do meu cão
sem antes lhes ter dado luta.» «Não deves proceder com tanta intolerância», retomou o rei
Easal. «A tua atitude irá trazer-te muito sofrimento e infelicidade.»

Apesar das advertências do sogro, 0 rei de loraidh recusou voltar atrás na sua decisão. 0 rei
Easal voltou então para perto dos filhos de Tuinenn e contou-lhes o que se passara. «Sendo
assim», disse Briati, «seremos obrigados a lutar.»

Os guerreiros de loraidh avançaram sobre os filhos de Tuirenn e estes foram cada um para seu
lado, aplicando cada um deles golpes Violentos a todos os que apareciam à sua frente. Diante
de Brian abriu-sc uma clareira, tal era a violência com que ele esmurrava os adversários, e
estes punham-se em fuga mas ele perseguia-os e massacrava-os sem piedade. Os dois irmãos
eram também impiedosos, um de cada lado, e lutavam heroicamente provocando um banho de
sangue. Lutou-sc corpo a corpo, durante várias horas, e não cessavam os murros, Os 901-o rei
de loraidb pés furiosos e implacáveis. Por fim, Brían dominou, mas em vez de lhe aplicar um
golpe fatal, amarrou-o e exibiu-o preso perante as suas hostes, antes de o levar à presença do
rei Easal. «Aqlll Easal!», gritou ele. «E ’uro-te, pela minha honra está o teu genro, rei pelo valor
das minhas armas, que me teria sido mais fácil matá-lo do que trazê-lo assim amarrado à tua
Presença, Se lhe poupei a vida, foi em atenção a ti e pela consideração que me mereces. Toma
este homem e faz dele o que te aprouver.»

O rei Easal ordenou que o combate terminasse - e libertou o genro na condição de que ele
daria o cão aos filhos de Tuírenn, condição que ele aceitou. Depois, chegou-se a uma paz
baseada numa amizade infalível. Então, os filhos de Tuírenn despediram-se do rei Easal e do rei
de loraidh, e muito felizes, voltaram com o cão paira a barca de Mananann.

Ora, enquanto isto acontecia, Lug do Braço Longo, que possuía o dom de saber o que se
passava muito longe, tomou conhecimento dos feitos extraordinários dos filhos de Tuirenn.
Desse modo, ficou, a saber, que eles tinham sido bem sucedidos em todas as provas que ele
lhes tinha imposto, ficando por isso muito amargurado. Recitou então um sortilégio no vento e
lançou um feitiço druidico tão poderoso aos filhos de Tuirenn que eles se esqueceram de que
deviam ainda duas partes da compensação a Lug. E este fez com que eles tivessem um desejo
incontido de voltar a ver o mais depressa possível a Irlanda.

Assim, a barca de Mananann levou-os a Brug-na-Boyne. Quando desembarcaram, informaram-


se sobre a asdsemPbrlaetiaasdeaesntcriobnotrsadveaDnuanmaa. Disseram-lhes que o rei Nuada
do Braço reunião na fortaleza de Tara e, sem perda de tempo, deslocaram-se para aí com tudo
o que tinham conseguido obter para pagar a compensação. Deram-lhes as boas vindas e o rei
perguntou-lhes se tinham obtido o que era reclamado por Lug do Braço Longo. «Temos tudo»,
respondeu Brian, «e estamos prontos para lhe apresentar o que pediu.»

Mas Lug não estava ali, pois soubera do regresso dos filhos de Tuireim à Irlanda e queria que a
vingança fosse completa. Foram por isso enviados mensageiros por toda a ilha, e estes
acabaram por encontrá-lo, vindo ele para a assembléia dos chefes e dos nobres das tribos de
Dana.

Quando ele chegou à pequena saliência de terra em frente à casa real de Tara, os filhos de
Tuirenn apresentaram-lhe o que ele lhes exigia. Depois de ver com todo o cuidado as maçãs de
ouro, a pele de Porco, a lança, os cavalos e o carro, os sete porcos e o pequeno cão, Lug
exclamou: «Espero que os chefes das tribos de Dana vos S””’arn de fiadores pois, se assim não
fosse, eu matar-vos-ia aqui imCdiatamente por não terem cumprido as vossas promessas.» «O
que dizes?», perguntaram os filhos de Tuirenn.

Lug do Braço Longo mediu-os de alto a baixo com um ar de desprezo e disse com uma voz
forte, de modo a que o ouvissem todos aqueles que estavam presentes na assembléia: «Onde
estão pois o espeto de assar e os três brados que vos pedi? Parece-me bem que não estão
incluídos entre o que me trouxestes... »

Ao ouvirem aquelas palavras, os filhos de Tuircim ficaram aterrorizados e lembraram-se de


repente que tinham perdido a memória. Deixaram Tara e digiram-se a casa do pai em Dun
Edair”>. Contaram-lhe as suas aventuras e o modo como Lug do Braço Longo os tratara diante
da assembleia, ficando Tuirenn muito entristecido e angustiado. Passaram juntos aquela noite e
de manhã dirigiram-se para o porto, mas já não podiam embarcar na barca de Mananann, pois
tinham-na entregue a Lug. Ethné, a irmã deles, estava em sua companhia, acompanhando-os
quando estavam em terra. E, quando chegou a hora do embarque, entoou um canto de
lamento que lamentava a má sorte dos filhos de Tuirenn.

Depois de terem ouvido o canto da irmã, os filhos de Tuiremi içaram as velas do barco e
partiram para o alto mar. 0 espeto de assar objeto da sua demanda estava na ilha de Fianchair,
mas nenhum deles conhecia a localização desta ilha, e o barco em que agora viajavam não
podia levá-los por si mesmo ao destino que eles queriam alcançar. A única coisa que eles
sabiam era que aquela ilha estava sob o mar.

Navegaram ao acaso durante um quarto do ano, fazendo perguntas a todos os que com eles se
cruzavam, e acabaram por descobrir que a ilha de Fianchair estava a pouca distância da
embarcação. Fazendo esta avançar sobre a crista das ondas, tentaram achar o caminho que
levava à ilha e, passadas algumas semanas, souberam que ela estava mesmo debaixo deles,
bastando-lhes mergulhar para a alcançarem. «Eu vou sozinho», disse Brian aos irmãos, «pois
na qualidade de mais velho sou responsável por vocês.»
Deixaram-no então ir, e ele entrou na cidade que se erguia debaixo do mar. Aí estava um grupo
de mulheres a coser e a bordar, podendo ele aperceber-se, entre os numerosos objectos que
elas tinham à volta, de um espeto de assar. Então, sem fazer barulho, Brian aproximou-Se dos
espetos, agarrou num e dirigiu-se para uma porta, mas de repente todas as mulheres presentes
começaram a rir. «Que ação corajosa

1. Ou seja, na colina de Howth, na extremidade nordeste da baía de Dublin, acabas de


realizar!», disse por fim uma delas a Brian. «Fica, a saber, que, se tivesses vindo com os teus
irmãos, nenhuma de nós permitiria que levassem o espeto. Muito pelo contrário, precipitando-
nos sobre vós, arrancar-vos-íamos os olhos e castrar-vos-íamos. Mas, como vieste só, sem
defesa e como não nos agrediste, não nos opomos a que leves o espeto. Admiramos a tua
bravura, e por isso te deixamos partir.»

Brian agradeceu-lhes e despediu-se delas. Depois, deixou a cidade e foi ter com os irmãos a
bordo do barco, ficando eles satisfeitos por o verem voltar são e salvo. Içaram as velas e
voltaram para o alto mar em direção ao norte, dirigindo-se para o monte de Miodchain, o antigo
mestre de Cian, filho de Dianceclit. Nesse monte deveriam dar três brados, levando-os aos três
para Lug, filho de Cian.

Demoraram vários meses até chegarem à ilha onde se erguia o monte de Miodchain. Quando aí
chegaram, Miodchain viu-os e velo ao seu encontro, pois lhe cabia a tarefa de impedir que
alguém desse três brados naquele monte. Ao vê-lo, Brian não hesitou em atacá-lo, e lutaram
durante muito tempo. Por fim, Miodchain caiu morto, mas deixou três filhos que, por seu lado,
vieram lutar contra os três filhos de Tuirenn. Depois de uma luta violenta e impiedosa, os filhos
de Miodchain golpearam os corpos dos filhos de Tuirenn com as suas lanças, mas estes, sem se
deixarem atemorizar e desafiando a própria morte, atravessaram de lado a lado os filhos de
Miodchain com as suas armas, fazendo-os cair sem vida por terra. Então, os três filhos de
Tuirenn deram três brados nos montes e, apesar de terem sofrido graves ferimentos, voltaram
para o barco e desfraldaram as velas. «Não podemos morrer antes de chegarmos à Irlanda»,
disse Brian aos irmãos, «pois temos de pagar a Lug do Braço Longo a compensação que nos
pediu.»

Navegaram, assim, durante várias semanas até avistarem a Irlanda, e atracaram o barco diante
da fortaleza de Bem Adair. Tuirenn veio recebê-los à costa, e, vendo-os num triste estado, ficou
desolado e desesperado. «Pai», disse debilmente Brian, «estão aqui conosco o espeto de assar
e os três brados que demos no monte de Miodchain. Trouxentos o que Lug nos pediu para o
recompensar pelo assassínio do pai. Leva-lhe o que trouxemos e pede - 1 he emprestada a pele
de porco do rei da Grécia, para que possamos sai, - os ferimentos e salvar a vida. Vai depressa,
porque estamos esgotados, mas não queríamos morrer sem Voltar a ver a Irlanda e sem pagar
o preço do que nos era exigido.»

Tuireim partiu imediatamente à procura de Lug do Braço Longo e encontrou-o em Tara, no


meio de uma assembléia dos nobres e dos chefes das tribos de Dana. Deu-lhe o espeto e os
três brados dados no monte de Miodchain e, diante de toda a assembléia, pediu-lhe
emprestada a pele de porco do rei da Grécia para salvar a vida dos três filhos. «Isso não está
estipulado no acordo que fizemos», respondeu Lug, «Fico muito satisfeito por os teus filhos
terem cumprido a sua obrigação e por terem pagado a compensação que me deviam pelo
assassínio do meu pai, mas não me interessa nada o que lhes possa acontecer. De modo
nenhum te emprestarei a pele de porco do rei da Grécia.»

Então, Tuirenn voltou para o lugar onde deixara os filhos, que estavam deitados, quase sem
forças, a bordo do barco, e anunciou-lhes a resposta de Lug. «Leve-me à presença de Lug, ó
meu pai», disse Brian, «e eu suplicar-lhe-ei que me ceda a pele de porco que faz sarar todas as
feridas e cura todas as doenças.»

Tuirenn levou-o então a Tara. Quando chegou à casa real, disse Brian a Lug do Braço Longo:
«Nós cometemos um crime contra o teu pai, e tu exigiste de nós uma compensação que foi
satisfeita. Deixa por isso que curemos as nossas feridas.» «Isso não faz parte do nosso
acordo», disse Lug com firmeza. «Vós cumpristes a obrigação, tendes salvo a vossa honra, mas
nada mais posso fazer por vós. E nada me obriga a salvar a vida dos assassinos do meu pai,»

Após ouvir a resposta de Lug, Brian pediu ao pai para o levar de volta para o barco onde os
irmãos jaziam, e, subindo para bordo, foi deitar-se ao lado deles. E logo os três irmãos
perderam a vida, deles se libertando a alma. Tuirenn crigiu um pilar para os filhos e aí gravou
os nomes deles em ogham. E Ettiné, filha de Tuirenn, entoou um cântico fúnebre pelos seus
três irmãos.

Assim se vingou Lug do Braço Longo dos filhos de Tuirenn, fazendo-os pagar pelo assassínio
que perpetraram contra a pessoa do seu pai, Cian, filho de Dianceclit.1’1

1. Segundo a narrativa de Destino dosfilhos de Tuirenn.

Cal) ítt, J(,> VI

m tempos muito distantes, havia um rei muito poderoso que exercia a sua autoridade sobre um
país a que hoje se chama Céltica. E este rei tinha uma filha a quem dera o nome de CeItmé.
Esta sua filha era tão bem dotada fisicamente que nenhuma outra mulher se lhe corriparava, e
a sua beleza fazia Com que tivesse varios pretendentes. Contudo, o seu aspecto e a admiração
que despertava tinham-na tomado tão orgulhosa que rejeitava todos aqueles que se lhe
declaravam, julgando-os indignos da sua categoria e do seu encanto,

Naquele tempo, o grande Héracles acabara de enfrentar o terrível gigante Geryon, que tinha
três cabeças e três corpos. Depois de uma luta impiedosa, ele matara o monstro e levara
consigo a sua manada de vitelas. Foi então que ele deixou a Eriteia, levando consigo as vitelas,
e errou
10119amente através da Céltica, em busca de um lugar onde pudesse construir uma cidade.
Chegou por fim a casa do pai de Celtiné, que o recebeu, lhe deu belas pastagens e o convidou
a estabelecer-se no seu reino.
. Ora, logo que viu Héracles, a bela Celtiné apaixonou-se por ele, POIs, segundo pensava, um
homem com aquele porte e uma presença tão distinta tinha por força de lhe estar destinado.
Por infelicidade,
11éracles não parecia prestar-lhe atenção, estando muito ocupado com as suas vitelas.
Imaginou então uma artimanha e, uma noite, escondeu animais numa caverna cuja entrada só
ela conhecia.

Héracles ficou consternado quando soube do desaparecimento da sua ’n~a, e jurou a si mesmo
que a havia de encontrar o mais depressa possível. Ele calcorreou então os vales mais
escondidos e secretos, sem encontrar a menor pista sobre o seu paradeiro; pelo caminho ia
interrogando as pessoas que encontrava, sem nunca receber uma resposta que lhe pudesse
indicar o caminho certo a tomar. Então, a bela Celtirjé veio ao seu encontro. «Eu sei onde estão
as tuas vitelas», disse ela, «Mas se quiseres saber onde elas estão, terás de aceitar as minhas
condições.»

Héracles acedeu, e ela guiou-o até â caverna onde se encontravarn as vitelas. Louco de alegria,
Héracles levou-as para um belo prado, mas chegada a noite, tinha de se sujeitar às condições
impostas pela jovern, que se traduziam em se unir a ela. E como ele começava a deixar-se
seduzir pelos seus encantos, não teve dificuldade em aceitar unir-se a ela.

Da ligação entre ambos nasceu um filho a quem chamaram Celtos, em homenagem à mãe.
Este filho não tinha igual entre as gentes do país, pois era de uma coragem e de uma robustez
invulgares. Chegado à idade adulta e tendo herdado o reino dos seus antepassados, conquistou
uma grande parte dos territórios vizinhos e destacaram-se graças a inúmeros actos heróicos. E,
como forma vincar bem o seu poder, deu o seu nome aos povos que ficaram sob o seu
domínio, estendendo-se depois este nome a todos os países dos celtas.

Os seus descendentes reinaram num clima de paz e de prosperidade, construindo vastas


fortalezas para se defenderem de eventuais invasões. Bravos e generosos, os soberanos
fizeram-se rodear de artistas e de poetas. Um dos soberanos, chamado Luern, fazia os
possiveis para receber benesses do seu povo, e quando passava de carro pelos campos, atirava
ouro e prata para a multidão de homens e mulheres que o seguiam ou que se chegavam à
berma dos caminhos para o ver passar. Em certas alturas, ele ordenava que para um certo
recinto preparado para o efeito se encaminhassem grandes quantidades de bebidas preciosas e
de provisões, de tal modo que, durante vários dias, se podia entrar livremente no recinto e ficar
regalado com os acepipes que eram servidos ininterruptamente a quem quer que chegasse.

Um dia - tendo sido a data marcada com grande antecipação - 0 rei Luern ofereceu um grande
festim a todos os poetas e músicos do país. A festa foi de arromba e durou várias horas. Os
convivas começavam a pedir licença para se retirarem quando chegou um poeta, que se
atrasara bastante. Vendo que a festa estava no fim, o poeta apareceu diante de Luern e entoou
um canto em que prestava homenagem à magnificência do rei, ao mesmo tempo em que
lamentava que o atraso o tivesse privado de uma grande alegria. O rei, divertido e encantado
com Os seus versos, pediu uma bolsa de ouro a um dos seus criados e atirou-a aos pés do
poeta que corria atrás do seu carro. 0 poeta apanhou a bolsa, mas continuou a correr enquanto
entoava outro canto, dizendo que o rasto deixado na terra pelo carro do rei eram raios que
faziam prenunciar uma grande quantidade de ouro e de benefícios para os homens.

Entretanto, à medida que cresciam as riquezas, a população ia aumentando, até que chegou o
dia em que as colheitas já não eram suficientes para garantir a alimentação de todos, tornando-
se por isso difícil governar tanta gente. Assim, o rei Ambigat, sucessor de Luern, que se sentia
envelhecer e que queria aliviar o reino do excesso de população, chamou à sua presença dois
filhos da sua irmã, Bellovèse e Ségovèse, Jovens corajosos e empreendedores. Anunciou-lhes a
sua intenção de os enviar para novas terras e pediu-lhes, com este propósito, para
determinarem o número de homens que queriam levar com eles, devendo evitar-se qualquer
revolta entre as populações com as quais iriam entrar em contato.

Bellovèse e Ségovèse escolheram então os homens que os deveriam acompanhar; depois foram
convocados os druidas, os sábios, os adivinhos, e perguntaram-lhes qual seria o melhor destino
a dar a estes dois grupos. Os druidas, os sábios e os adivinhos, depois de se reunirem,
disseram: «Segundo pensamos, impõem-se duas direções, uma para a floresta herciniana e a
outra para Itália. Isto se deve a que as regiões mais férteis da Germânia se encontram perto da
floresta herciniana, numa região a que os antigos chamavam Orcinia. Quanto à Itália, o seu
clima e os seus vales muito férteis permitem cultivar a vinha, o que será uma fonte de grande
riqueza. «Muito bem», disse o rei Ambigat, «mas falta-me saber qual dos meus sobrinhos vai
para oriente e qual vai para sul.» Tiraram à sorte, sendo atribuída a Itália a SégOvèses e a
floresta herciniana a Bellovèse.

Bellovèse partiu então com um grande número de homens, cavaleiros e soldados de infantaria,
com carros de combate e pesadas carroças para transportarem os víveres e os despojos. No
entanto, como não encontraram na floresta herciniana o que esperavam, os druidas do grupo
preconizaram que se seguisse para sul, seguindo a mesma rota dos pássaros que voavam
Ilaquela direcção e passavam para além de altas montanhas. Foi assim que este grupo de
celtas, que a si mesmos se chamavam gauleses, gente brava, te`nível e audaciosa, consegulu
subi ir ao cume vertiginoso dos Alpes e chegar a lugares tão frios que se diria serem
inacessiveis.
Na etapa seguinte, aquele grupo chegou à llírIa, cujos habitantes levavam uma vida de ócio e
passavam o tempo sentados à mesa em festins intermináveis. Os gauleses, procurando uma
maneira de se desembaraçarem deles com um mínimo de custos, decidiram então tirar partido
da sua intemperança: cada um deles devia convidar um Iliriano para a sua tenda, e sentando-o
a uma mesa muito bem fornecida de comes e bebes misturaria entre a comida uma certa erva
que desarranja os intestinos. E, graças a este estratagema, os gauleses tornaram-se donos do
país, sendo vários os ilirianos que sucumbiram em estado de fraqueza, enquanto outros se
atiravam para os rios devido a não aguentarem a incontinência infernal dos intestinos.

Mas há também quem defenda que os ilirianos pereceram por terem sido víturias da vingança
do deus Apolo, o qual terão ofendido com a sua gula e a sua indolência. Antes de começarem
os combates contra os gauleses, sofreram calamidades naturais, tempestades e chuvas
diluvianas. E aqueles que conseguiram escapar às inundações e à traição dos gauleses,
encontraram depois outros tormentos, pois a terra produziu uma enorme quantidade de rãs,
cuja putrefacção e estado de decomposição deterioraram as águas do país, Pior ainda, devido
aos miasmas que saiam da terra, o ar tornou-se tão infecto que apareceu uma peste de tal
modo mortífera que todos foram obrigados a abandonar o país. E os gauleses não quiseram
continuar por muito tempo nesta região maldita.

A primeira expedição dos gauleses foi comandada por Cambaulès. Tendo penetrado até à
Trácia, os gauleses no entanto não ousaram atacar os povos que existiam para além desse
território. A expedição seguinte, realizada por aqueles que tinham seguido Catnbaulès, foi
composta por um exército poderoso de soldados de infantaria e de cavaleiros que se dividiram
em três corpos, o primeiro confiado a Cerethrios, o segundo a Breno e Cichorios, o terceiro a
Bolgios. Este último partiu imediatamente para fazer guerra aos macedónios.

Os gauleses possuíam um equipamento bélico que enchia de espailto os povos por cujas terras
passavam. Na verdade, como armas defensivas eles usavam escudos que lhes desciam da
cabeça até aos pés, ornando-os cada um a seu gosto. Como estes escudos serviam não só para
defesa como também para ornamento, alguns soldados tinham gravado neles figuras de bronze
em alto relevo trabalhados com muito requinte. Os capacetes de bronze possuíam partes
salientes que davam um aspecto fantástico àqueles que os usavam. Alguns destes capacetes
tinham chifres 134 C__C__IIC e outros possuíam efigies com pássaros e animais de todas
espécies em relevo, Além disso, os guerreiros sopravam trombetas bárbaras que, graças a um
truque de fabrico, provocavam um ronco descomunal que auinentava ainda mais o grande
tumulto existente no decurso das batalhas.

Estes povos tinham uma tal reputação e exibiam um -aparato tão grande que chegou a haver
reis que, sem serem atacados, simplesmente ao ouvirem o seu nome, lhes compraram a paz a
preço de ouro. Só Ptojorneu, rei da Macedónia, não mostrou me-do ao saber que eles se
aproximavam. Revoltado com os seus crimes atrozes e com os seus parricídios, atreveu-se a
marchar ao encontro deles com um punhado de guerreiros desorganizados, como se pudesse
fazer frente a um tão poderoso exército. Os gauleses, cujo rei era Bolglos, enviaram
inensageiros a Ptolomeu para saber da 1sua disposição e para lhe perguntar se queria comprar
a paz, e este último vangloriou-se perante os seus por ter levado os gauleses a pedir a paz. E
levou a presunção a ponto de afirmar, diante dos emissarios, que não poderia haver paz se os
gauleses não depusessem as armas e não entregassem os seus chefes, pois só confiava neles
se estivessem desarmados, Quando os mensageiros voltaram para o seu campo e contaram o
que se tinha passado, os gauleses pôs-se a rir e exclamaram cheios de desprezo que o rei da
Macedónía não tardaria, a saber, se era por medo ou por piedade que lhe tinha sido oferecida a
paz. E a determinrem a nação dos gauleses para combater, aumentou consideravelmente.
Alguns dias mais tarde, os dois exércitos enfreritaram-se, e os macedónios foram destroçados.
Ptolomeu, que sofreu graves ferimentos, foi fOft0 Prisioneiro, depois puseram a cabeça dele na
ponta de uma lança e exibiram-na à volta do campo de batalha para convencer os macedónios
de que não tinham salvação possível.
Quando voltou da perseguição feita aos fugitivos, Bolgios juntou ()s Prisioneiros e, entre eles,
escolheu os mais fortes e válidos para selem imolados, manifestando desse modo o seu
agradecimento pela vitória aos deuses. Foram poucos os macedónios que escaparam, tendo
sido quase todos mortos ou capturados. Quando na Macedónia se soube deste desastre, os
habitantes concentraram-se Das cidades e fecharam as suas entradas. A consternação era
geral, mas um dos principais chefes, que se chamava Sóstenes, decidiu reagir e resistir aos
invasores. Juntou uma grande parte dos Jovens e, cheio de entusiasmo e de determinação,
ellegou a deter o avanço dos gauleses que, muito entretidos a celebrar entusiasticamente o
tritirifo, tinham perdido o espírito ofensivo. Entrementes, o outro chefe gaulês, que se chamava
Breno, dirigira-se para a Grécia, que tencionava Ocupar. Quando soube que as hostes
comandadas por Bolgios tinham vencido os Macedónios, mas tinham parado de avançar, ficou
indignado por eles negligenciarem de forma tão inglória um despojo valioso que continha todos
os tesouros do Oriente. Juntou então quinze mil cavaleiros e cento e cinquenta mil soldados de
infantaria que, cheios de determinação, invadiram a Macedónia. Enquanto saqueavam os
campos, Sóstenes veio atacá-los com as suas hostes, mas estas eram pouco numerosas e a
maior parte dos jovens que as compunham receavam a ferocidade e a reputação dos gauleses.
Assim, estes últimos, resolutos e confiantes, facilmente os fizerem dispersar por todo o país. Os
macedóníos voltaram então a fechar-se no interior das muralhas das suas cidades, e Breno
pôde a partir daí entreter-se a saquear a sua vontade as regiões vizinhas.

Entretanto, o saque acumulado parecia bastar aos gauleses, cuja satisfação lhes refreou o
ímpeto, facto que desagradou a Breno. O objetivo deste era ir muito mais longe e descobrir um
país onde ele e os seus pudessem prosperar e viver num clima de tranquilidade. Por isso, não
descansou enquanto não convenceu as suas gentes a pegarem em armas contra os gregos.
Para as convencer fez discursos muito eloquentes em que mostrava de um lado a Grécia
derrotada e sem forças, e do outro a sua audácia que era responsável pela opulência das
cidades, a riqueza dos templos e grandes quantias de ouro e de dinheiro.

Para convencer os gauleses a seguirem-no, Breno fez desfilar perante as assembleias do povo
prisioneiros gregos de cabeça rapada que ele escolhera entre os mais enfezados e os mais
macilentos e que eram seguidos pelos seus homens mais corpulentos e robustos - desse modo
podia dizer que guerreiros tão possantes nada tinham a recear de inimigos tão frágeis e
indefesos.

Assim, Breno conseguiu formar um extraordinário exército de cento e cinquenta mil soldados de
infantaria e de dois mil e quatrocentos cavaleiros. Cada senhor possuía dois lacaios que
seguiam atrás dele: perdia-se um cavalo, um dos lacaios dava-lhe o seu e, se ele morria, um
deles substituía-o no combate. E, se morressem dois, havia um terceiro para prosseguir a luta.
Os gauleses chamaram a esta espécie de milícia trimarkesia, termo derivado da palavra marka
que, na língua celta da~ quele tempo, significava cavalo. Com este equipamento, Breno CO-
filandou, muito seguro de si, o seu exército até à Grécia.
Breno era extremamente audaz o experiente, sendo mesmo perito eni. Artimanhas e, em
expedientes de todo o gênero para enganar o adversário. Uma Dolte, em vez de se deixar
intimidar pela destruição das pontes do rio Sperchios, teve a ideia brilhante de enviar dez mil
hornens para a foz do rio. Queria ele que os seus homens atravessassem para a outra margem
sem os Gregos saberem. Naquele lugar, com efeito, o rio não tinha uma corrente tão forte, e
prolongava-se para o interior dos campos, formando aí um verdadeiro pântano. Ora, entre
estes dez mil homens, uns sabiam nadar perfeitamente, e outros tinham unia estatura
imponente, tendo Breno apenas o problema da escolha, pois os celtas tinham uma compleição
sem igual entre todos os outros povos. Foi assim que, naquela noite, uma parte do
destacamento conseguiu atravessar o rio a nado, enquanto a outra pai-te o atravessou sem
perder o pe, o que não estava ao alcance de pessoas menores.

Entretanto, Breno dera ordens aos habitantes das redondezas do golfo Maliaque para
construírem uma ponte no rio Sperchios, e aqueles se tinham apressado a fazê-lo, incitados
pelo medo que tinham daqueles guerreiros armados que os obrigavam a trabalhar dia e noite.
Quando a ponte ficou concluída, os gatileses atravessaram o rio e avançaram para Heraclea,
pilhando todas as habitações que encontravam e matando todos os homens que se lhes
atravessavam no caminho, deixando os seus corpos espalhados pelos campos. Mas o mais
importante para Breno não era conquistar Heraclea. Para ele o objetivo principal era expulsar a
guarnição das muralhas que protegiam a cidade, pois se isso não fosse conseguido, não
conseguiria alcançar a passagem das Termópilas.

Após violentos combates, Breno conseguiu pôr a guarnição em fuga. Passando sem problemas
as muralhas de Heraclea, continuou a marcha Para as Termópilas e resolveu atacar os gregos
que estavam preparados Para lhe oferecer resistência. O confronto ficou marcado, por sua
vontade, para o dia seguinte, ao nascer do sol. Os gregos avançaram para o Combate muito
bem organizado e em silêncio absoluto. Cansados pela longa viagem, os gauleses não estavam
na sua melhor forma nem estavam bem armados, bem pelo contrário. Tendo apenas escudos
em seu Poder viram-se na contingência de se atirarem ao inimigo como uma força bruta,
parecendo feras ferozes a atirarem-se as suas presas.

Apesar de duramente atingidos por machados e por espadas cortantes, nem por isso se
rendiam e não perdiam-no, ir ameaçador e obstinado que lhes era característico. Lutaram
encarniçadamente, até ficarem completamente sem forças e não houve entre eles quem não
fizesse das tripas coração e não retirasse dos golpes moi-tais infligidos pelos gregos as forças
necessárías para lhes responder da mesma moeda, provocando várias mortes entre eles.

Entretanto, os atenienses cercaram-nos tão bem pelos flancos que os invasores não
conseguiram sair dos desfiladeiros onde se tinham reunido, ficando numa situação muito
delicada. Ao verem que a situação era desesperada, os seus chefes deram ordens para recuar,
mas a fuga foi tão precipitada que numerosos guerreiros, caindo uns sobre os outros, morreram
esmagados. Outros dos fugitivos meteram-se pelos pântanos que naquele lugar eram vizinhos
do mar, e os gauleses na debandada perderam tantos homens como na batalha.
Mas Breno nem assim desistiu. Passados sete dias, novas hostes gaulesas puseram-se em
marcha para desta vez tentarem passar o monte Oeta, Breno pretendia que elas seguissem por
um pequeno atalho que levava a Trachine, cidade que Daquela época estava em ruínas mas
sob a .qual existia um templo devotado a Palas, que os habitantes da região tinham enriquecido
com numerosas oferendas. 0 objectivo dos gauleses consistia em, seguindo através daquele
atalho escondido, chegar ao cimo da montanha e aproveitar para saquear o templo.

0 objectivo, no entanto, não era fácil de alcançar, pois os Etólios guardavam as passagens e
sem que nada o fizesse prever surpreenderam os gualeses, destroçando-os. Estes entraram em
panico e uma grande parte deles quis pôr-se em fuga, sendo Breno o único a não perder a
coragem. Pensou ele que, se conseguisse obrigar os Etólios a voltarem para trás, o caminho
ficaria aberto para chegar ao desejado objectivo. Assim, formou um destacamento de quarenta
mil homens a é e de oitocentos cavaleiros, entreo ando o comando a um chefe muito corajoso
chamado Milé e ao seu lugar-tenente Orestorios. Ordenou-lhes que atravessassem o rio
Sperchios e a Tessába, e que fossem pôr o país dos Etólios a ferro e fogo.
Foram estas tropas que devastaram a cidade de Callion e aí perpetraram um massacre
pavoroso. Os sexos viris foram todos mutilados, Os velhos foram passados pelo fio da espada,
as crianças de tenra idade arrancadas ao seio das mães e decapitadas; e àquelas que pareciam
rnelhor amamentadas os gauleses bebiam-lhes o sangue e saciavam-se com a sua carne,”’ As
mulheres e as jovens que tinham o senso da honra entregaram-se voluntariamente à morte
para evitarem a fúria dos vencedores, Outras, obrigadas a sentir na pele todas as indignidades
que se possam imaginar, foram depois alvo de chacota por parte dos seus carrascos, que eram
completamente insensíveis à piedade e ao amor.
Quando os Etólios que defendiam as Termópllas souberam o que se passava no seu país,
partiram imediatamente em socorro dos seus compatriotas e deixaram que os gauleses
ficassem livres para fazerem o que muito bem lhes apetecia.

Passando as Térinópilas podia alcançar-se o cume do monte OEta por dois atalhos distintos:
um, muito estreito e difícil, levava ao cimo de Trachine; o outro, mais acessível à passagem de
um exército, atravessava as terras de Emanes. Breno escolheu este último para a sua
expedição, Os gregos não demoraram, a saber, que os gauleses seguiam este caminho,
conduzidos pelos habitantes de Heracica e pelos Eníanes. Breno deixara o seu lugar-tenente
Kikorios no acampamento e, acompanhado de quarenta mil homens, seguia os guias.
Quis o acaso que, naquele dia, um nevoeiro espesso cobrísse o monte OETA de tal forma que
nem se conseguia ver o sol. Por isso os Fócios que estavam na região só se aperceberam do
inimigo quando este lhes infligiu o primeiro ataque. Gerou-se então uma enorme confusão, com
as vidas a correrem um grande perigo, e enquanto uns procuravam desesperadamente tapar a
passagem aos gauleses, outros tentavam fazer manobras de diversão, mas, no fim, cercados
por todos os lados, abandonaram as suas posições e espalharam-se em todas as direcções,
deixando o adversário dono do terreno, Breno não perdeu tempo. Ordenou que se marchasse
imediatamente sobre Delfos, dizendo repetidamente para aqueles que o acompanhavam que
era uma tarefa dos deuses fazer tesouros para os oferecerem aos humanos. Um dia, aliás,
estando no interior de um tempo, nem sequer deu atenção às oferendas em ouro e prata que
aí estavam depositadas, apoderando-se simplesmente das imagens de Pedra e de madeira, o
que provocou uma enorme rísota: como era possível que os Gregos pudessem dar às
divindades formas humanas que Estes Pormenores de fonte grega são extractos de Pausânias
(X,22), o qual, é preciso notar, ”’ é mu’t0 tiável historicamente, pois a narrativa que ele faz do
ataque a Delfos pelos gauleses (ver mais adiante) é uma colagem integral da que Heródoto
consagrou à pilhagem do santuário pelos persas, eram fabricadas com materiais perecíveis?
Sem esperar que Kikorios se lhe juntasse, Breno, acompanhado de Milé, precipitou-se então
para o santuário de Delfos. Sabendo da notícia, todas as cidades da Fócida enviaram auxílio:
Anfísia deu quatrocentos homens de infantaria; os Etólios, apesar de já terem alguma
experiência, apenas forneceram um pequeno número de guerreiros; e as outras cidades
enviaram para Delfos o número máximo de guerreiros que conseguiram reunir para tentarem
evitar a pilhagem que Breno pretendia levar a cabo.
Breno hesitou ao ver o santuário: deveria ordenar o ataque imediatamente ou, pelo contrário,
deveria conceder aos seus homens uma noite de descanso, já que estavam esgotados pela
viagem? Dois dos chefes gauleses que se lhe tinham juntado na expectativa de um saque
inimigo muito proveitoso queriam que se atacasse imediatamente o que, recolhido na
defensiva, dava sinais de fraqueza. Mas os guerreiros gauleses, fartos de privações e
maravilhados por este país repleto de alimentos e de vinhos, tinham posto de lado os seus
estandartes e estavam eufóricos pelo sucesso alcançado e por terem encontrado urna
inesperada abundância. Espalhados pelos campos, os gauleses colhiam os mais diversos frutos
e saciavam o estômago e os sentidos com o que havia para comer e beber.

Breno esforçou-se por reagrupá-los e por lhes fazer ver o magnífico saque que se lhes oferecia.
Improvisou discursos inflamados, exaltando o ouro maciço das estátuas, os carros que se
distinguiam ao longe, e garantia a pés juntos que o valor destes objectos ultrapassava tudo o
que se poderia imaginar. Excitados pela sua eloquência e embriagados pelas orgias a que se
tinham entregado, os gauleses acabaran, por aceitar partir para o combate.

Pressentindo o perigo iminente, os habitantes de Delfos perguntaram ao deus se era necessário


retirar dos templos 01, tesouros que ai se encontravam, e se era preciso mandar as mulheres e
as crianças para cidades vizinhas, melhor fortificadas, onde pudessem estar em segurança. Pela
voz da Pítia, o deus ordenou que as oferendas e os ornamentos dos santuários ficassem nos
seus lugares, pois ele mesmo, com as Virgens Brancas suas companheiras, se encarregaria de
as ter sob a sua guarda. No templo do deus encontravam-se, com efeito, duas capelas bem
antigas, uma consagrada a Palas Pronaos e a outra a Artémis, e estas duas deusas, de acordo
com o oráculo, secundavam Apolo.

A fúria dos deuses não tardou a manifestar-se contra os gauleses. Para começar, o terreno
ocupado pelas suas tropas sofreu um abalo que durou uma grande parte do dia. A seguir,
ribombaram trovões, acompanhados de clarões contínuos que aterrorizaram os assaltantes e
impedirarin que eles ouvissem as ordens dadas pelos seus chefes. Os raios, que
frequentemente caíam sobre eles, não se limitavam a matar aqueles que atingiam, mas
igualmente reduziam a cinzas os que estavam perto deles, assim como as suas armas. Para
completar o quadro, no céu apareceram heróis de tempos antigos que costumavam devolver a
coragem aos Gregos e lhes mostrava como combater os inimigos. Mesmo os sacerdotes do
santuário se envolveram na batalha e se colocaram na frente de combate, gritando que deus os
tinha vindo defender e que tinha sido visto a atravessar as espessas nuvens que envolviam as
montanhas.

Parecia que todo o universo estava em fúria. Os gauleses, depois de terem passado por tantos
reveses e por tantas angústias durante o dia da batalha, tiveram uma noite ainda mais negra,
pois a enorme quantidade de neve que caiu tornou o frio ainda mais insuportável. E os gauleses
chegaram mesmo a acreditar que as Virgens Brancas das profecias se tinham virado contra
eles, de tal modo eram fustigados por rabanadas de vento e por borrascas de neve.

Depois, como se todos os elementos tivessem cumprido o seu papel, soltaram-se do monte
Parnaso grandes pedras, ou antes, revoadas de rochas inteiras que, caindo sobre eles,
esmagaram não um ou dois de cada vez, mas trinta e quarenta. E o sol só se ergueu quando os
gregos, que se tinham refugiado na cidade, a deixaram, enquanto os Fócios, por seu lado,
desciam das montanhas geladas. Só os guardas de Breno e os homens de elite, muito robustos
e rijos, resistiram ao ataque, embora estivessem enregelados e exaustos. Ao verem o seu chefe
gravemente ferido e numa situação desesperada, estes últimos não hesitaram em cobrir-lhe o
corpo e em transportá-lo, atitude esta que provocou uma debandada geral.

Na fuga, foram surpreendidos pela noite e acamparam, passando e então por momentos de
pânico, palavra esta que designa medo, crendo-se que eles estavam a ser inspirados pelo deus
Pá em pessoa. 0 pavor da noite fê-los passar por um falso alarme, quando um grupo de guer`-
irOs pensou ouvir um galope que se aproximava e que os vinham atacar por trás. 0 medo logo
contagiou os outros, e todos empunharam as respectivas armas, dividiram-se em diversos
grupos e guerrearam-se entre si, plenamente convencidos de que enfrentavam os Gregos.

O pâníco criado foi de tal ordem que, tendo eles esquecido a sua própria língua, acreditavam
que as palavras que ouviam eram dos gregos. Acresce que, no meio da escuridão, não
conseguiam distinguir nem reconhecer a forma dos seus escudos, apesar de serem muito
diferentes dos seus inimigos. Assim, todos eles de uma forma ou de outra passaram a noite
enganados e foram poucos os que conseguiram voltar para o campo de Heraclea quando a luz
do dia irrompeu.

Breno perdeu muitos milhares de homens naquela aventura, tendo sido ele mesmo ferido por
três vezes. Sabendo que não tinha muito tempo de vida, chamou ao seu leito de morte os seus
principais lugares-tenentes e pediu-lhes que acabassem com ele, assim como com todos os
feridos, que incendiassem todas as carroças, alcançassem um porto e voltassem o mais
depressa possível para o país de origem, Ordenou também que o comando do que restava das
tropas fosse entregue a Kikorios e a Milé, e depois de se embriagar apunhalou-se a si próprio,
assim perdendo a vida o chefe desta expedição que se aventurou pelas montanhas e pelos
vales da Grécia.

Por ordem de Kíkorios, ele foi sepultado e tirou-se a vida aos feridos, assim como a todos
aqueles que, em grande número, tinham adoecido devido ao frio e à fome. Depois, de comum
acordo com Milé, Kikorios reuniu os homens que pertenciam ao seu clã e dirigiu-se corn eles
para o mar, tendo ainda de travar várias batalhas para abrir carninho e chegar aos barcos. Uma
vez embarcados, ele e os seus deixaram-se conduzir pelo vento, e chegaram às costas da Ásia.
E são eles que, desde então, são chamados Gálatas.
No que respeita a Milé e aos seus companheiros, estes tomarain outra direcção e, depois de
várias atribulações, chegaram a um porto e decidiram deixar o país. Depois de terem trocado
uma parte do saque por barcos, fizeram-se ao mar e chegaram às costas de Creta. Contudo,
ficaram aí pouco tempo, pois não foram bem recebidos pelos habitantes do país. Então,
embarcaram de novo e navegaram até ao Egipto, onde morreu Milé, tendo-se tornado o seu
filho Bréogan Toda a primeira parte deste capítulo foi redigida de acordo com episódios que se
enc011tram dispersos por obras de escritores gregos e latinos da Antiguidade: Apamea (XX1,1),
Tito-Lívio (V, 34), Justino, que faz o resumo do Gaulês Trogue-Pompeu (XX1V, 4,5,6,8), Ateneu
(X,60), Ãpio (1vrica), Diodoro de Sicilia (V, 31 e Fragmentos XX11 e chefe do clã a que mais
tarde se chamou Filhos de Milé.

Pólio (VII, 35), Cícero (De Divinatione) e sobrctudo, Pausânias (X, 19, 20, 21, 22, 23).

Mas, não lhes interessando o país do Egipto, decidiram todos partir. Andaram então ao acaso
pelo mar Tirreflo, e acabaram por desembarcar na Sicília, mas não Permaneceram aí muitos
tempos Pois os seus druidas e os seus adivinhos tinham~lhes dito para navegarem o mais
possível para oeste, para os países onde o sol se põe sobre as vagas do oceano. Voltaram Por
isso para o mar, com diversos navios, e acabaram por chegar à costa de Espanha. E foi aí que
morreu Bréogan, filho de Milé ` que deixou oito filhos, os quais foram Os chefes dos Filhos de
Milé que quiseram dar a estes um país digno do seu valor.

O filho mais velho de Bréogan dava pelo nome de Ith. Mais do que os irmãos estavam decididos
a descobrir os países maravilhosos cujas virtudes o irmão Amorgen, que era poeta, tanto
enaltecia nas suas visões proféticas. Um dia, com muito esforço ele subiu ao e I ume de uma
montanha. O tempo estava muito claro, Permitindo que se estendesse o olhar até muito longe,
e ele olhou ria direcção dO Poente. Vislumbrou então uma terra verdejante que tinha uma
aparência sedutora. Desceu à pressa a montanha e foi contar aos irmãos o que vira. Mas
Brégu, filho de Bréogan, troçou dele, dizendo que a terra que vira não podia ser senão uma
nuvem suspensa no céu. Mesmo assim, Ith insistiu levo -os a todos ao cimo da Montanha de
onde avistara a terra maravilhosa. «Tinhas razão», disseram Os filhos de Bréogan, «trata-se de
uma terra onde Poderemos levar uma bela vida a criar animais e a viver da agricultura - Vamos
Pois preparar a partida de Modo a alcançá-la por mar.»

Durante várias semanas, Os filhos de Milé construíram navios e ocuparam _ Os, preparando-os
para se poder abastecer de provisões e de água doce. Quando terminaram os Preparativos,
levantairam âncora e partiram à vela. E os ventos empurraram-nos a toda a velocidade pelo
meio do oceano que cerca o mundo, ameaçando levar barcos para o fundo e lançar os seus
tripulantes nos abismos onde rcinam as trevas da noite.

Os Filhos de Milé já navegavam há vários dias quando foram envolvidos por uma bruma. Como
o vento caíra, andaram muito tempo à deri’a Sobre as ondas. Mas, de súbito, viram para lá da
bruma umas luzes débeis que Parecia brilhar a Partir do vazio. Todos tentaram perceber que luz
seria aquela e começaram a desesperar acreditando estar no fim do mundo, quando
vislumbraram a silhuetade uma O’Te DO meio do mar enlâram então na sua direcção com todas
as suas forças e chegaram ao pé de uma torre imensa que, muito direita rio mar, ia abraçar o
céu picaram estupefactos quando viram que a torre era de vidro e que, no seu interior, subiam
e desciam homens que pareciam não lhes dar atenção.

Os filhos de Milé gritaram o mais alto que puderam para chamar a atenção dos desconhecidos.
Estes olharam-nos, mostraram-se indiferentes à sua presença, e não disseram nada. Então, os
filhos de Milé perguntaram-lhes quem eram e que torre era aquela, mas no outro ]ado da
muralha de vidro os outros, sem pronunciarem uma palavra, continuaram entretidos com o que
estavam a fazer, como se nada tivesse acontecido. A luz desapareceu então, e a bruma
encerrou-os numa estranha obscuridade que os encheu de angústia”.

Entretanto, a bruma não tardou a dissipar-se, tão depressa como se formara. Eles
encontravam-se bem no alto mar, e o sol começou a declinar para o horizonte. Mas, por muito
que eles olhassem em volta, Dão viam nenhum vestígio da torre de vidro e dos seus misteriosos
habitantes. Então, recomeçaram as navegações seguindo a direção do norte, Aportaram na
Irlanda na praia que confina com a planície que hoje se chama Mag Ilha, em memória de Ith, o
primeiro dos filhos de Milé a desembarcar naquele lugar. 0 segundo a desembarcar ali foi o seu
irmão Amorgen do joelho branco, o poeta, que, ao pousar o seu pé na terra, entoou o canto
seguinte:

«Mar tão piscoso e brilhante, terra fértil, bosques em vales, com bandos imensos de pássaros,
mar rude com vagas brancas, estuários profundos com centenas de salmões, írrupção de
peixes, mar de peixes infinitos, rios abundantes em água, terrafértil e verdejante... »

Os filhos de Milé tinham chegado em trinta e seis navios. Qualido todos tinham desembarcado,
vieram pessoas falar-lhes e apercebera o episódio da Torre de Vidro encontra-se apenas na
Ilistoría Brittonum, narrativa ein latim de Nenníus, e que data do século X.

_se cora espanto, de parte a parte, que falavam a mesma língua, ou seja, o gaélico, passando
então a tratar-se afavelmente. Os Filhos de Mílé quiseram saber o nome da ilha e a identidade
dos seus habitantes. <Vós estaís na ilha de Elga», responderam os outros, «e nós pertenceaios
às tribos de Dana. Atualmente temos três reis, Mac Cuill, Mac Cecht e Mac Greine, filho de
Cermat, filho de Dagda, e os seus três reinos são Banba, Fothia e Eriu.»”’

Depois de combinarem o que haviam de fazer, os Filhos de Milé decidiram enviar um dos seus a
presença dos reis das tribos de Dana para lhes perguntar se se podiam estabelecer numa parte
da ilha para a cultivarem e aí fazerem a criação de gado. E como tinha sido Ith a coaduzi-los
até ali, foi-lhe confiada àquela missão, partindo ele imediatamente com uma quinzena de
homens.
Naquele dia, os chefes das tribos de Dana estavam reurildos em Tara, na casa real, para
resolverem o conflito que opunha Mac Cuill aos seus dois irmãos, Mac Cecht e Mac Greine.
Estes dois últimos acusavam Mac Cuill de ter ficado com a maior parte dos tesouros de
Fiachma, filho de Delbaeth, que morrera pouco antes. Quando Ith chegou a Tara, o porteiro fê-
lo entrar na casa real, e os reis deram-lhe as boas vindas expondo-lhe depois os motivos
daquela disputa.

«Seria conveniente que houvesse um clima de amizade», disse Ith, «pois nenhum país pode ser
feliz e próspero se não houver coacórdía e fraternidade entre aqueles que o governam, A vossa
ilha é boa e verdejante, com pastagens aprazíveís; o trigo, o peixe, os cereais são aqui
abundantes. O calor e o frio não são excessivos e nada vos falta. Deixai-vos, pois de quezílias e
partilhai equitativamente os tesouros que vos fazem guerrear uns contra os outros. Pela minha
parte, só vos peço uma coisa: que permitis que nos estabeleçamos numa das vossas regiões.
Podeis ficar certo de que a trataremos bem, cultivando-a e criando animais, ficando-vos muito
gratos por todo o bem que nos fizerdes.» «Tens razão», disseram os reis, «quando nos dizes
que é muito triste andarmos em disputas por causa de tesouros que não são dignos disso.
Quanto a ti, volta para perto dos teus Contram-se aqui os três Domes da Mulher Primordial, a
que estava adormecida durante o dilúvio e que simboliza a Irlanda. Os três reis possuem nomes
reveladores: Mac Cuill significa literalmente «filho de aveleira» (sendo a aveleira uma árvore
mágica e druidica), Mac Ceclu, «filho do arado» e Mac Greine «filho do sol». E diz-lhes que em
breve concluiremos um tratado entre nós.»

Ith disse-lhes adeus e, satisfeito por ter cumprido a sua missão, voltou para o lugar onde os
filhos de Milé tinham desembarcado. Entretanto, os chefes das tribos de Dana começaram a
conspirar nas suas costas. Diziam que ele era filho de um dos reis do mundo, e que viera espiá-
los com o objectivo de se apoderar de toda a ilha, sendo necessário impedir que aquelas gentes
se instalassem naquelas terras que as tribos de Dana tinham conquistado mercê do seu valor,
da sua bravura e da sua tenacidade. Combinaram então matar Ith e pôs-se em sua
perseguição, ferindo-o gravemente. Ith conseguiu ainda chegar à presença dos filhos de Milé e
teve tempo para lhes contar o que se passara, mas morreu logo de seguida. Muito
consternados, os seus irmãos e os outros filhos de Mílé fizeram-lhe uma sepultura junto da qual
erigiram um marco funerário. «Não permitiremos que este crime fique impune», disse Eber
Donn, o irmão mais velho de Ith. «Vamos imediatamente pedir aos reis das três tribos de Dana
que seja feita justiça.»

Puseram-se então a caminho tomando a direcção de Tara. Pelo caminho encontraram Bariba,
uma das três rainhas. Ao vê-los aproximarem-se, ela disse-lhes: «Se viestes a esta ilha com o
propósito de vos apoderardes dela, ficai, a saber, que as estrelas não vos estão favoráveis.» «E
por necessidade que aqui estamos», respondeu Amorgen, o poeta. «Mas com que direito te
permites pronunciar palavras tão nefastas? «Fazei-me um favor», disse Bariba. «Qual?»,
perguntou Amorgen. «Gostava que o meu nome fosse dado a esta ilha» «E como te chamas, e
de que raça és tu?», perguntou Amorgen. «Chamam-me Banba», respondeu ela, «e sou da
raça de Adão. Sou mais velha que Noé. Durante o dilúvio estava no cume da montanha, e as
vagas do oceano não me atingiram» Os druidas dos Filhos de Milé lançaram então um
encantamento, e Bariba afastaram-se sem que eles lhe fizessem o favor.

Mais adiante, encontraram Fothia, a segunda das três rainhas. Ela dirigiu-se-lhes nos mesmos
termos de Bariba, e eles desembaraçaram~se dela voltando a lançar encantamentos. Depois,
pondo-se de novo a caminho, encontraram a terceira rainha, esposa de Mac Greme, que dava
pelo nome de Eriu. «ó guerreiros», exclamou ela ao vê-los, «sede beir. Vindos a esta ilha. Há
muito que os nossos profetas anunciaram a vossa vinda. Esta ilha será vossa para todo o
sempre e não haverá terra tão magnífica no mundo inteiro. Nenhuma raça será tão numerosa
como a vossa.» «A profecia é boa», disse Amorgen do joelho branco. «Gostava que se desse o
meu nome a esta ilha», respondeu ela. «Pois bem», disse Arnorgen, «então que o teu nome
seja o seu principal nome.»

E ern seguida chegaram a Tara. Eber Donn e os irmãos foram recebidos pelos três reis, e
protestaram com veemência contra o crime que fora cometido contra Ith, pois este lhes levara
uma mensagem de paz e não possuía quaisquer propósitos agressivos ou mal intencionados.

Os reis estiveram muito tempo a ponderar e depois deten-ninaram o seguinte: os filhos de Milé
deveriam voltar para os seus barcos e levantar âncora, e se num prazo de três dias
conseguissem aportar de novo, toda a ilha passaria a pertencer-lhes. Se, pelo contrário, ao fim
de três dias, os Filhos de Milé não conseguissem aportar, a ilha continuaria na posse exclusiva
das tribos de Dana. Pensavam os três reis que os Filhos de Milé nunca mais voltariam, pois os
druidas lançariam tantos encantamentos contra eles que os impeliriam muito para longe de
terra. «Nós vamos pensar», disse Eber Donn. «Que pensa Amorgen desta proposta?» «Parece-
me razoável», respondeu Amorgen. «Até que distância iremos?», perguntou Eber Donn.
«Iremos para além de nove vagas.»

Os Filhos de Milé deixaram então a fortaleza de Tara e dirigiram~se para sul até ao porto de
Seria, na foz do rio Felle, onde tinham ficado os seus barcos. Embarcaram neles, levantaram
âncora e navegaram para além da nona vaga. Os druidas das tribos de Dana e todos os poetas
lançaram-lhes então encantamentos, de tal modo que os ventos empurraram os navios para
muito longe da Irlanda, enchendo de angústia os seus tripulantes por se acharem no alto mar.

«E um vento druídico que nos empurra para tão longe», disse Eber Donn. «Vejam se o vento
sopra debaixo dos mastros.» Olharam com atenção e viram que o vento aí não soprava.
«Paciência», disse Erech, um dos filhos de Milé que pilotava o barco de Eber Donn; «só temos
de pedir a Amorgen para se opor a este vento druídico.» Erech era filho adoptivo de Amorgen e
chamou-o. «É uma vergonha para todos os nossos homens de arte», disse Eber Donn, «termos
de suportar durante tanto tempo a afronta que nos é infligida pelos druidas da Irlanda. «Não»,
respondeu Amorgen, «não é uma vergonha, mas os nossos homens nada podem fazer
enquanto tu mesmo nada fizeres contra a magia das tribos de Daria.»

Eber Donn desembainhou a espada e apontou-a para o céu. «Por deus!», exclamou ele, «eu
juro que trespassarei com o fio da minha espada todos aqueles que vivem nesta ilha.» O vento
mudou de direcção e empurrou então os barcos dos Filhos de Milé para a costa onde aportaram
pouco depois. «Repara», disse Amorgen, «que o nosso poder druídico vale mais do que o das
tribos de Dana. Voltámos à Irlanda antes dos três dias que nos tinham aprazado e temos agora
o direito de nos apoderarmos de toda a ilha.»

Pegaram nas armas e em todos os seus apetrechos e puseram-se a caminho de Tara.


Entretanto, os chefes das tribos de Dana já sabiam do seu regresso à Irlanda, tendo-se reunido
à pressa ria casa real de Tara, Estavam aí os três reis, Mac Cuill, Mac Cecht e Mac Grein, assim
corno Mananann, filho de Lir, Goibmu, o ferreiro, Díancecht, o médico, Lug do Braço Longo,
filho de Cian, Dagda, a quem também chamavam Eochaid Ollathaír, e Bobdh Derg, filho de
Dagda. Estudaram aprofundadamente a situação, mas não conseguiram encontrar nenhuma
forma para evitar o conflito que fatalmente os iria opor aos Filhos de Milé. «Temos de partilhar
o país com eles», disse Dagda. «É ímpossível», responderam os três reis. «Temos de os
expulsar desta terra, pois nós somos os únicos donos desta ílha.» «Nós fizémos um acordo com
eles», disse Lug, «e devemos respeitá-lo. Segundo esse acordo, se eles conseguissem aportar a
esta ilha antes dos três dias combinados, tornar-se-iam os donos da Irlanda. Respeitemos pois
os nossos compromissos e retiremo-nos para os nossos domínios feéricos. Aí seremos sempre
nós a mandar, aconteça o que acontecer, e eles não conseguirao aproximar-se de nós sem que
o saibamos.» «Além disso, », acrescentou Mananann, «temos o poder de nos tornarmos
invisiveis, e poderemos por isso errar pelo mundo sem que alguém possa suspeitar da nossa
presença.»

Mas os três reis das tribos de Dana mostraram-se ínamovíveis e exigiram dos seus
companheiros que se envolvessem numa luta sem quartel contra os Filhos de Mílé que diziam
descender de uma mesma linhagem que eles, a linhagem dos filhos de Nemed. Deste modo
propuserani que se formasse um exército e que este se opusesse com vigor, tanto pelo poder
mágico como pelo das arinas, às pretensões dos Filhos de Milé de ocuparem toda a Irlanda. Por
fim, todos aceitaram, uns com mais boa vontade do que outros, enfrentar os invasores e evitar
que eles se apoderassem da Ilha Verde. 0 destino assim determinaria o que viesse a acontecer,
e todos juraram que se confoririariam com o resultado do conflito.

As tribos de Dana reunirani todos os homens disponíveis, que não eram muitos, e confiavam,
sobretudo no poder mágico dos seus druidas que lhes prometiam a vitória sem a perda de vidas
humanas. As tropas reagruparam-se longe de Tara, num lugar que se chamava Tailtiu em
honra da ama de leite de Lug do Braço Longo, e onde este mandara que ela fosse enterrada. Aí
em honra dela Lug do Braço Longo realizavam-se jogos e, festas que se desenrolavam dez dias
antes do início do mês de Agosto e dez dias depois, e chamavam-se esses jogos e festas
Lugnasad, ou seja, «Assembleia de Lug», nome que passou a designar o mês de Agosto.

Foi, pois em Tailtiu que se enfrentaram as tribos de Dana e os Filhos de Milé. Como o exército
dos primeiros era pouco numeroso, os seus druídas lançaram encantamentos e incitaram as
tropas a oporeiri-se aos invasores, Mas os druidas e os poetas dos Filhos de Milé não
demoraram a perceber que os seus inimigos recorriam à magia, e por isso lançaram também
eles encantamentos. Desse modo, daí a pouco tempo todos viram que os belos exércitos das
tribos de Daria se tinham transformado em arbustos e em torrões de turfa, o que não impediu
que os três reis Mac CuilI, Mac Cecht e Mac Greine sucumbissern às mãos dos Filhos de Milé.

Privadas dos seus chefes, as gentes das tribos de Dana foram aconselhar-se com Morrigan, que
lhes disse que era altura de celebrarem a paz, pois a magia dos Filhos de Milé era muito
superior à deles. Deste modo Dagda e o seu filho Bobdh Derg, na companhia de Mananann,
filho de Lir, foram encontrar~se com os Filhos de Milé para lhes proporem uma forma de
partilharem a Irlanda. Começaram por se sentar em frente a uma fogueira, partilharam os
alimentos que tinham sido passados pelo lume, depois beberam cerveja e hídromel, sendo por
fim celebrado um acordo.

Eber Donri e os seus Irmãos fizeram prevalecer a Ideia de que as tribos de Dana eram culpadas
de um crime contra Ith, filho de Bréogan, que era rei, e, naquelas condições, deveriam pagar
uma grande compensação, naquele caso a Irlanda inteira. Mas as tribos de Daria de modo
algum queriam abandonar esta ilha que noutros tempos tinham conquistado e por isso
chamaram o sábio Fintan, filho de Bochra, que falou a uns e a outros e demonstrou que era
preferível celebrar a paz do que continuar com guerras até ao fim dos tempos. Fíntan e
Amorgen prepararam então os termos de um tratado cujo juramento deveria ser feito em nome
dos deuses protectores: os Filhos de Milé ocupar-se-iam da superfície da Ilha Verde,
encarregando-se do cultivo da terra e da criação de animais, enquanto as tribos de Daria se
retirariam para o mundo dos tumulus e para pequenas ilhas que existem ao largo da Irlanda.
Deste modo, cada tribo estaria no seu domínio, o que não impediria que houvesse contacto
entre os membros de uma e outra. Nomeadamente foi determinado que as gentes das tribos de
Dana poderiam, se fosse esse o seu desejo, deixar o mundo invisível e vir fazer companhia aos
Filhos de Milé, podendo por sua vez os Filhos de Milé visitar o domínio das tribos de Dana todos
os anos, enquanto durasse a festa de Samain,

O tratado foi celebrado sob juramento e solenemente por ambas as partes. Deste modo as
tribos de Dana retiraram-se para o domínio obscuro dos trimulus e para as ilhas que rodeiam a
Irlanda, enquanto as tribos dos Filhos de Milé se espalharam por todo o país, construindo aí
fortalezas, cultivando a terra e cuidando de belas pastagens para os animais que tinham levado
consigo. Terminou assim a batalha de Tailtiu, com grande satisfação de ambas as partes, e
começou então na Irlanda o reinado dos Filhos de Milé, aqueles a quem hoje se chama
gaélicos.

1. Segundo o Livro das Conquistas.

Depois da batalha de Tailtiu e a partilha da Irlanda entre as tribos de Dana e dos Filhos de Milé,
ambas se organizaram de acordo com os seus costumes antigos e as suas leis ancestrais. Os
Filhos de Milé confiaram o poder real a dois dos filhos de Bréogan, Eber Donn, o mais velho, e
Eremon, o mais novo. Eber ficou com o sul da Ilha Verde, cabendo a Eremon a soberania do
norte. Mas os dois irmãos não se entenderam e daí a pouco travaram uma batalha sangrenta.
Eber Donn foi morto, e Eremon tornou-se o rei supremo de toda a Irlanda, organizando
grandes festas na casa real que se situava no interior da grande fortaleza de Tara.
As tribos de Dana, por seu lado, e de acordo com o que ficara acordado com os Filhos de Milé,
tinham-se refugiado nos domínios féericos, debaixo dos ttimultis, em cavernas profundas no
interior da terra, em palácios que construíram no fundo de lagos, assim como nas ilhas que
rodeavam a Irlanda. E como os seus três reis haviam perecido na batalha de Tailtíu, reuniram-
se um dia para designar aquele que reinaria entre elas.

Tiveram de escolher entre os seus diversos heróis, tais como Mananann, filho de Lir, ou o
grande Dagda, ou o ferreiro Goibniu, ou Mider de Bri Leith, irmão de Dagda, ou ainda Bobdh
Derg, filho de Dagda. Quanto a Lug, filho de Cian, este decidira jamais voltar a ser rei,
Preferindo manter~se completamente livre para fazer o que muito bem lhe aprouvesse.

Ora, depois de acesas discussões, as gentes de Daria decidiram dar o Poder real a Bobdh Derg,
filho de Dagda, tendo em conta tanto a sua nobreza como a sua sabedoria herdada do pai. Este
facto provocou o despeito de Lir, que reinava no tumulo de Fímiachaid Já que ele Crava ver
atribuída a coroa ao seu próprio filho, Mananann. Contrariado, ele abandonou por isso a
assembleia das tribos de Dana sem se despedir de ninguém e sem pronunciar uma palavra. A
sua atitude chocou de tal modo os chefes que, depois de terem confirmado solenemente Bobdh
Derg, todos pensaram numa maneira de o castigar pelo seu desdém e pela sua descortesia.

Alguns chefes chegaram mesmo a propor que se deveria perseguilo até sua casa, incendiar a
sua fortaleza e matá-lo com uma lança e uma espada como se ele fosse um criminoso. E não
era realmente um criminoso, por ter recusado inclinar-se perante o rei que tinha sido designado
pelas tribos de Dana como sendo o melhor para as conduzir? «Não posso acatar a vossa
proposta», respondeu Bobdh Derg, «Uir é um guerreiro corajoso, sempre pronto a lutar até às
últimas consequências por uma causa que lhe tenha sido confiada, e o facto de não se inclinar
perante mim não impede que eu seja o rei das tribos de Dana.»

Assim falou Bobdh Derg e, para provar a sua estima e deferência por Uir, elegeu Mananann,
filho de Uir, para seu principal conselheiro. Mananann aconselhou-o então sobre a melhor
maneira de distribuir as tríbos de Dana pelo território da Irlanda, de acordo com a partilha
combinada com os Filhos de Milé. Segundo ele, era preciso dispersar as tribos pelos tumultis e
fixá-las também nas colinas e nas planícies mais distantes e Uir é urna personagem
emblemática. Traduz-se muitas vezes o seu nome por «mar» ou «vagas», mas esta etii-nologia
é pouco certa pois a trIanda pagã não tem um deus marinho (aliás, só tem um deus lavrador).
Lir, por viver ern ilhas distantes, não tem de ser por isso o deu - da navegação marítima. Além
do mais, os gaêlicos parecem ter horror ao mar e rião têm interesse pelo que se passa no
oceano, com a excepção de quando o designam por país do Outro Mundo. Os gaélicos estão
muito mais ligados às fontes e aos rios, portanto às águas doces, como o parece revelar o
nome de Nechtan (derivado do latim Nepturiu,), outra denominação de Elernar, irmão de
Dagda, proprietário de Brug-na-Boyiie, ou seja, Newgrange. Uir tem, como correspondente em
galês LIvr (o rei Lear de Shakespeare), pai dos heróis Brân Vendigeit «<Corvo Bendito»),
Branwen («Corvo Brarico») e Manawyddan, correspondente britónico exacto do gaélico
Mananann, ele próprio epónimo da ilha de MaD. Esta tiltíma personagem aparecia muitas vezes
nas narrativas irlandesas como Scildo originária de ilhas distantes, ou seja, da Terra da
Promessa, espécie de paraíso ceita, às vezes chamado Emain Ablach, nome no qual se encontra
o termo que designa as macieiras, o que remete para a ilha de Avalon da lenda arturiaria. Às
vezes Mananann chega a ser apresentado a cavalgar um fogoso corcel no meio do mar, o que
naturalmente poderia leva£ a associá-lo a Lima divindade marinha. Na tradição galesa,
Manawyddan, contudo, não tein nenhuma ligação particular com o mar e não tem nada de
navegador isoladas. Em seguida, Bobdh Derg distribuiu aos chefes e aos nobres
seus domínios. Depois Mananann, que era um hábil mágico respeitoso e um perito em ciências
druídícas, conferiu a todos o dom da invísibílidade, o Festim de Goibniu e os porcos de
Mananann: graças ao dom da invisíbilidade, só eles se podiam ver uns aos outros; o Festim de
Goibniu evitava que senússem o avançar da idade; quanto aos porcos de Mananann, estes lhes
asseguravam comida eternamente, pois mortos ao entardecer e comidos durante a noite,
voltavam a estar vivo na manhã seguinte.

Além disso, Bobdh Derg ensinou aos chefes e aos nobres das tribos de Dana como fazer as
suas residências feéricas e como construir as suas fortalezas de modo a parecerem as da Terra
da Promessa, às vezes chamada Emain Ablach, e que está perdida algures no meio do vasto
oceano. Deste modo os chefes das tribos de Dana, em sinal de gratidão, convidaram Bobdh
Derg a visitar as suas residências assim que elas estivessem prontas, e a assistir ao festim que
realizariam para celebrar a Festa do Tempo, altura que era escolhida para prestar homenagens
e tributos.

E assim foi. Entretanto, Uir foi vítima de uma grande desgraça: a sua mulher, mãe de
Mananann, morreu ao fim de uma doença que durou três anos. Este infortúnio custou-lhe
muito, pois devotava à falecida mulher um amor profundo e sincero, chorando amargamente a
sua morte. A notícia espalhou-se por toda a Irlanda e chegou à residência de Bobilli Derg na
altura em que este estava reunido com os chefes das tribos de Dana. «Se Lir aceitar a minha
amizade», disse Bobdh Derg, «eu poderei atenuar-lhe o sofrimento provocado pela morte de
quem ele amava. Tenho aqui, na minha casa, três jovens muito graciosas, de óptima aparência
e famosas em toda a Irlanda, Aeb, Aifé e Ailvé, todas filhas de Aílil, rei de Arann. Elas estão sob
a minha guarda e prot-c40, pois me foram entregues na condição de eu ser o seu pai adop-

Que pensais disso? Se eu lhe propusesse uma delas para esposa, o nosso diferendo ficaria
resolvido...»

Os chefes e os nobres das tribos de Dana acharam a ideia excelente.

Os dois Parágrafos dedicados à distribuição das tribos de Dana e aos dons mágicos que ’h” são
atribuídos têm origem em Altranth Tige da Medar (o alimento da casa dos dois ’OPOs),
narrativa contida no Livro de Fermoy, manuscrito do século XV publicado com tradução inglesa
por Lilian Duncan em Eriu, vol. X1, Dublin, 1932. Tradução francesa de Ch--J. Guyonvare-h em
Textos mitológicos irlandeses, Rermes, 1980.
Foram então enviados a Uir mensageiros da parte de Bobdh Derg para lhe perguntarem se
gostaria de firmar um acordo de amizade com o rei recebendo dele para esposa uma das suas
filhas adoptivas. Lir ficou eincantado com a oferta que lhe foi feita e pôs-se a caminho, no dia
seguIIIte partindo da sua casa da Colina Branca, com cinquenta carros muito belos, em
direcção ao Lago Derg onde Bobdh fixara a sua residência e construíra a sua fortaleza. Aí
chegado, foi muito bem recebido e viu-se rodeado das mais lisonjeiras atenções.

As três filhas de Ailill, rei de Arann, estavam sentadas no mesmo assento que a rainha, mulher
de Bobdh e sua mãe adoptiva que nutria por elas um imenso amor - «Lir», disse Bobdh Derg,
«estão aqui as filhas do rei Arann. Podes escolher a que riials te agradar.» «Não me é fácil
fazer uma escolha», respondeu Lir, «pois todas elas são muito bel as e de grande nobreza. De
qualquer modo, penso que seria conveniente escolher a mais velha.» «Assim sendo», disse
Bobdh Derg, «a mais velha é Aeb, que será por isso tua esposa, se for esse 0 teu desejo.» «E
esse o meu desejo», afirmou Uir.

Desposou então Aeb naquela noite, e ficou a viver na casa de Bobdh Derg durante quinze dias.
Depois levou a mulher para a sua fortaleza, não sem antes ter prometido a todos os chefes das
tribos de Dana que os convidaria para a grande festa das núpcias. Ach deu-lhe dois filhos, uma
rapariga e um rapaz, que se chdmaram Finula, ou seja, Espá dua Branca, e Aedh, ou seja,
Fogo. Ao fim de um certo tempo, ela voltou a engravidar e, desta vez, deu à luz dois filhos que
se chamarani Conn e Fiachra. Aeb, contudo, morreu no parto, facto que voltou a mergulhar Uir
numa grande amargura e tristeza.

A notícia desta triste ocorrência não demorou a chegar a casa de Bobdh Derg, e todos os que aí
se encontravam deram três oritos para lamentar a perda da filha adoptiva. Mas, quando
acabaram de a chorar, Bobdh Derg disse: «O amor que tínhamos pela nossa filha e a amizade
que nos liga àquele a quem a entregámos como esposa fazem com que nos sintamos muito
consternados pela sua perda. Mas a amizade por Uir Roan - irmã da defunta.» ter-se-á como
dantes, pois dar-lhe-ei outra mulher, Alfé, quando soube desta oferta, Lir veio buscar a
segunda jovem aO lago Derg, casou com ela imediatamente e levou-a com ele para a casa da
Colina Branca. Aifé estimava profundamente e tratava muito bem Os quatro filhos da sua irmã,
mas na verdade, ninguém no mundo poderia deixar de o fazer, tão cheios de graça eles eram.
O próprio Bobdh Derfluitas vezes ia a casa de Lir para os ver, e levava-os para passarem uns
tempos com ele, pois achava muito agradável a sua companhia.

Naquele tempo, as tribos de Dana celebravam a Festa do Tempo debaixo dos outeiros e das
colinas feéricas, cabendo a cada um dos chefes convidar, altemadamente, os outros para a sua
residência, Ora, chegou à vez de Uir receber na Colina Branca os chefes e os nobres das tribos
de Dana, que foram chegando e ficando encantados com a beleza dos filhos de Lir, que a todos
enchiam de alegria e de gente com aprazimento. Era costume deles dor iiirem no mesmo
quarto do pai e, quando Lir se levantava, de manhã, ’a sempre se deitar por alguns moinentos
ao lado deles.

Mas este comportamento de Uir teve como consequência fazer com que Aifé ficasse
extremamente enciumada com os filhos da sua irmã, a ponto de os ciúmes se transformarem
em despeito e em ódio. Então, um ano Aifé adoeceu e fez-se passar por vítima de uma febre
que daudrooeucer e lhe inteiro, decidindo então se livrar daqueles que a faziam provocavam
clumes. Assim, um dia ela aparelhou o seu carro, convidou as quatro crianças para a
acompanharem à casa de Bobdh Nerg, e quando elas se sentaram a seu lado Aifé fez com que
os cavalos se dirigissem para o lago Derg. Mas Finula estava contrariada, pois suspeitava que
Alfé lhes queria fazer mal, tendo-lhes um ódio de morte, e um sonho tinha-lhe mesmo revelado
que a irmã da mãe projectava vingar-se daqueles que lhe provocavam insuportáveis ciúmes.

Ora, Aifé fez o carro parar num vale e ordenou aos criados: «Matai os filhos de Lir, pois eles
roubaram-me o amor do seu pai, e eu dar-vos-ei como recompensa tudo o que houver de
melhor neste mundo.» «Não podemos obedecer-te», responderam os criados, «poís estas
crianças são dignas de todo o respeito e amor. Um dia, rainha, pagarás por essa tua intenção
tão perversa.»

Então, como os criados se recusavam terminantemente a fazer mal aos filhos de Uir, Aifé
empunhou uma espada e quis ela mesma praticar o crime, faltando-lhe, no entanto a coragem
no derradeiro momento e dando por isso ordens para que a viagem prosseguisse. Quando
chegaram ao pé do Lago Darvra, ela mandou as crianças tomarem banho no lago. Mas, ainda
eles não tinham mergulhado nas águas e, batendo-lhes com uma varinha mágica e druídica, ela
transformou-os em quatro cisnes graciosos e brancos. «Parti agora, filhos do rei», disse-lhes
ela. «Parti e erral pelo vasto mundo. Haveis sido condenados a uma terrível aventura e todos
aqueles que vos amam sofrerão por isso. Doravante será entre os pássaros que se ouvirão os
vossos gritos e os vossos lamentos.» «Bruxa!», exclamou Finula. «Tu tocaste em nós sem te
termos feito mal, mas podes ter a certeza de que pagaras muito caro pela tua maldade e pela
tua desfaçatez, e no fim nada te poderá valer! Díz-nos só por quanto tempo teremos de
suportar o feitiço de que somos vítimas.» «Se quereis saber, di-lo-ei, mas isso só servirá para
aumentar a vossa mágoa e a vossa angústia», respondeu Alfé. «Conforme. é meu desejo, o
vosso feitiço durará enquanto a Mulher do Sul não tiver encontrado o Homem do Norte. E já
que não resistis à curiosidade, sabei que nenhum amigo nem nenhum poder vos poderá livrar
da forma em que vos transformei enquanto vós não tiverdes vivido trezentos anos no Lago
Darvra, trezentos anos no Mar de Moyle, entre a Irlanda e a Escócia, e trezentos anos na angra
de Doninann. Apesar da vossa aparêncía, mantereis a vossa linguagem e cantareis a música
doce dos palácios feéricos, que é de tal modo límpída e suave que adormece todos aqueles que
a ouvem. Ficareís, pois novecentos anos a terde suportar na superfície das águas o vento
glacial e o sol escaldante. E essa a minha vingança, filhos de Lir, por me terdes privado do
amor do vosso pai.»

Voltando a subir para o carro, ela ordenou que se prosseguisse a viagem. Assim, ela continuou
o percurso até à casa de Bobdh Derg onde foi muito bem recebido pelos chefes e pelos nobres
das tribos de Dana, admírando-se, no entanto Bobdh, filho de Dagda, por ela não ter trazido as
crianças. «A razão é simples», disse ela. «Uir já não te ama e não te quer confiar os seus filhos,
com medo de que não tomes beni conta deles, na sua ausência.» «Isso me surpreende», disse
Bobdb Derg, «pois sei que Lir tem a máxima confiança em mim e me confiaria com toda a boa
vontade os seus filhos que amo tão profundamente como se fossem os meus próprios filhos.»
Mas ele pensou com os seus botões que a mulher o estava a enganar e por isso apressou-se a
enviar mensageiros para a casa de Uir, na Colina Branca. Ao ver estes chegarem, Lir
perguntou-lhes o que os levava ali,

«E por causa das crianças», responderam eles. «Como?», admirou-se Uir. «Elas não foram para
a casa de Bobdh Derg na companhia de Aifé?» «Não», responderam os mensageiros. «E diz
Aifé que tu é que não quiseste que elas fossem para a casa do filho de Dagda, com medo de
que ele não tomasse conta delas.»

Ao ouvir aquelas palavras. Lir ficou muito perturbado, pois pensou jogo que Aífé devia ter feito
algum mal aos seus filhos. Assim, logo lia manhã seguinte, aparelhou o carro e tomou a
direcção que levava ao Lago Darvra. Quando estava a chegar às proximidades do lago, os
quatro cisnes aperceberam-se dos cavalos e do carro, e disse Finula para os seus irmãos: «Que
seja bem vindo este grupo que se aproxima do lago, pois os homens que dele fazem parte são
nobres e poderosos. Nas suas feições há muita tristeza e mágoa, e sem dúvida estão aqui por
andarem à nossa procura. Aproximemo-nos da margem, pois aqueles que se acercam de nós
São Por Certo Lir e as gentes da sua casa.»

Lir, entretanto, fez parar o carro e aproximou-se da beira do lago. Viu os cisnes virem ao seu
encontro e, espantado por eles terem uma voz humana, perguntou-lhes a razão de um tal
mistério. «Eu vou-te contar», disse Finula. «Os quatro cisnes que vês são os teus próprios
filhos, e foi a tua mulher, irmã da nossa mae, que, toda enciumada, nos metamorfoscou para
que nos perdêssemos, » «Há uma forma de vos fazer voltar à forma normal?» «Não há.
Ninguém pode fazer nada por nos, ao menos enquanto não tivermos passado pela prova do
tempo, que deverá manter-nos nesta situação durante novecentos anos. Vê bem a nossa triste
sorte.»

Ao ouvir estas palavras, Lir e as suas gentes Soltaram três grandes gritos de dor e de lamento.
«Quel-eis vir connosco para a nossa terra», Perguntou ele, «já que conservais a linguagem, a
razão e a memória?» «O sortilégio que se abateu sobre nós», respondeu Finula, «não nos
perrnite que vivamos com qualquer outro ser humano e por isso deveremos Permanecer Destas
águas. Mas restá-nos a nossa linguagem, e podemos entoar músicas suaves, iguais às que se
ouvem nos palácios feéricos. Se Passardes a noite perto do lago, adormecereis embalados pela
suave Melodia dos nossos caiitos.»

Ur e aqueles que o acompanhavam, interromperam então a sua Viagem e acomodaram-se


naquele lugar para passar a noite. Apuraram os Ouvidos ao canto dos cisnes, e as horas
passaram por eles com uma extrema doçura. Mas, na manhã seguinte, Lir anunciou aos cisnes
que tinha de partir, mas que jainais os esqueceria. Depois, prosseguiu o seu clininho até ao
Palácio de Bobdh Derg.

Foi aí acolhido com todas as honras e com toda a benevolência, inas o filho de Dagda
censurou-o por não ter levado os filhos com ele, «()ra essa!», respondeu Lir, «Por certo não
seria eu a recusar-me a trazer os meus filhos a tua casa, bem Pelo contrário. Foi Aifé, a tua
filha adoptiva, irmã da mãe deles, que lançou sobre eles um sortilégio, fazendo com que se
transformassem em cisnes brancos no Lago Darvra, o que pode ser comprovado por todas as
gentes da Irlanda. Agora eles são cisnes embora mantenham a razão, o espírito, a voz e a
linguagem que encontramos nos seres humanos.» Perante esta notícia, Bobdh Derg ficou
possesso de raiva dando chamar Aifé, censurou-a veementemente pela má acção que praticara.
«A tua maldade terá um preço muito alto», disse-lhe ele, «e Por teres mudado a aparência dos
filhos de Lir, espero que sejas tu mesma vítima de um sortilégio semelhante. Diz-me qual é a
Pior das formas em que gostarias de ser transformada! » «A pior de todas, segundo penso»,
disse ela, «seria a de um demónio do ar.» «Pois bem», exclamou Boddh Derg, «nesse caso é
essa a forma que tomarás!»

Ele tocou-lhe logo de seguida com a sua varinha mágica e druídica, e Aifé transformou-se de
repente num espírito maligno do ar. Então se misturou com o sopro do vento, e permanece
com esta forma até à consumação dos séculos, como castigo pelo crime perpetrado na pessoa
dos filhos de Uir.

Quanto a Bobdh Derg e aos nobres das tribos de Dana, voltaram ao Lago Darvra e aí se
instalaram para ouvirem o canto dos cisnes. E os Filhos de Milé, que tinham reparado na beleza
destes cantos, costumavam também se deslocar para ali vindos de todos os cantos da Irlanda.
Na verdade, na Ilha Verde, nunca houve música que se pudesse comparar à dos quatro cisnes.
E os cisnes contavam também histórias e entretinham-se a conversar todo o dia com os
homens e as mulheres que tinham conhecido no passado, quer tivessem sido os seus antigos
mestres ou os seus antigos parceiros de jogo, E, todas as noites, eles entoavam a música suave
do país feérico, de tal modo que, por muitas mágoas e tristezas que alguém tivesse, adormecia
cheio de paz e de bonomia. Ao ouvir-se o canto dos quatro cisnes, a felicidade era plena.

As tribos de Dana e dos Filhos de Milé reuniram-se nas rnargells do Lago Darvra durante
trezentos longos anos. Ao fim desse tempo, disse Finula aos seus irmãos: «Sabeis que já se
cumpriu o tempo que deveríamos passar aqui? Amanhã deveremos partir.»

Ao ouvirem aquelas palavras, os filhos de Uir ficaram cheios de Pcna, pois a possibilidade de
falarem com os seus conhecidos, familiares os amigos, permitia~lhes suportar a sua sina sem
terem um grande sofrimento. Além disso, sabiam que estavam condenados a ir para regiões
muito inóspitas, fustigadas por ventos cortantes que vêm do norte. Na inanhã seguinte, os três
irmãos e a irmã vieram pela última vez falar aos seus dois pais, a saber, Lir, o pai natural, e
Bobdh Derg, o pai adoptivo. Disseram-lhes adeus, e Fmula entoou um canto de tristeza em que
lamentava ter de partir para paragens desconhecidas e afastadas das que amava. Quando
Finula acabou de cantar, os quatro cisnes levantaram vôo e batendo as asas vivas e velozes,
confundiram-s’e com o céu e tomaram a direcção do Mar de Moyle, situado entre a Irlanda e a
Escócia. Ao desaparecerem nas alturas, deixaram com uni nó na garganta quem as via partir, e
data desse dia a Proibição na Irlanda de matar cisnes.

O Mar de Moyle era um lugar terrível para nele se viver. Quando os filhos de Lir viram a vasta
costa aparecer diante deles, senfiram a humídade e o frio colar-se-lhes ao corpo e ficaram
cheios de inedo e de angústía. Todas as provações que já tinham passado pareciarn-lhes uma
brincadeira quando comparadas com as que previam. Certa vez, estando a ser fusÚgados por
uma grande tempestade, disse Finula aos irmãos: «A noite que se aproxima será terrível e vem
lá uma tempestade tão forte e violenta que corremos o risco de nos separarmos uns dos
outros. Devemos Por isso marcar um lugar de encontro para o caso de o vento e a tormenta
nos dispersarem.»

Decidiram então se encontrar na Ilha das Focas, pois todos conheciam a sua localização. Ao
aproximar-se a meia-noite, o vento redobrou de violência, aumentou o rumor das vagas, os
clarões da trovoada incendiaram os céus, e o furacao que então se abateu sobre o céu e os
mares foram de tal ordem que os filhos de Lir se dispersaram pelo vasto oceano sem que
pudessem saber do paradeiro de uns e outros. Por fim a tormenta acalmou e a terra e o céu
encheu-se de bonança, achando-se -Finula sozinha no Mar de Moyje. Então, ao ver que os seus
irmãos tinham desaparecido, entoou um canto de lamento e de desespero.

Depois, Sem perda de tempo, dirigiu-se para a Ilha das Focas e Passou aí toda a noite. Ao
nascer do sol, quando perscrutou o horizonte, viu aproximar-se com dificuldade o irmão Conn,
caída com a cabeça e a penugem desalinhada, Ela acolheu-o muito bem e deu-lhe o rfláximo de
conforto que pôde. Pouco depois, veio também, em péssir00 estado, Fíachra, que meio
encharcado, tremia de frio e sofria terrivelmente. Finula protegeu-o com a sua asa e
murmurou: «Ficaríamos contentes se Aedh viesse ao nosso encontro...»

Pouco depois, lá apareceu Aedh, de cabeça erguida e as penas secas, pois encontrara uma
gruta para se abrigar. Finula recebeu-O muito bem e, para reconfortar os três, colocou Aedh
debaixo do peito, Conn debaixo da asa branca e Fiachra debaixo da asa esquerda,
aconchegando-os a todos debaixo da sua penugem que à todos aqueceu.

«Ah, meus irmãos! », exclamou ela, «Foi terrível a noite que passámos, mas esperam-nos
outras ainda mais cruéis!»

E, com efeito, eles tiveram de permanecer durante muito tempo no Mar de Moyle, resistindo ao
frio e às privações, e sendo visitados muitas vezes pela neve. Jamais eles tinham passado tão
mal! Choraram e gemeram lamentando a triste sina, fustigados pelo frio da noite, pela neve
muito espessa e pelo vento glacial que lhes cortava a pele e lhes chegava aos ossos! Depois de
terem penado nesta situação durante um ano inteiro, abateu-se sobre eles uma noite ainda
pior: estavam então na Ilha das Focas, a água gelava à sua volta e, como estavam sobre as
rochas, as suas patas, as asas, as penas começaram a enregelar, colando-se de tal modo à
pedra que nem conseguiam fazer um movimento. Após fazerem um grande esforço para se
libertarem, finalmente conseguiram-no, mas deixaram sobre a rocha a pele das patas, muitas
penas e a extremidade das asas. «Ah, filhos de Uir», disse Finula, «é muito triste a situação em
que nos encontramos, pois a água salgada provoca-nos uma dor intensa ao tocar-nos, e apesar
disso estamos condenados a não deixar o mar: além disso, corremos o risco de morrer se o sal
penetrar através das feridas que temos por todo o corpo.»
Voltaram para a corrente marítima de Moyle com o sal a provocar-lhes dores intensas, estando
condenados a penar naquela situação aflitiva. E permaneceram junto à costa, sofrendo
atrozmente até ao dia eni que se acharam completamente curados, com as penas saradas e as
feridas cicatrizadas. Já recuperados, começaram então logo de manhã a voar até às costas da
Irlanda e da Escócia, mas todas as noites, antes do pôr-do-sol, tinham de voltar ao Mar de
Moyle.

Um dia, quando sobrevoavam as costas da Irlanda, chegaram à foz do Boyne e viram aí um


grupo de cavaleiros de belo porte, ricamente vestidos de branco, que montavam cavalos muito
ágeis e rápidos. «Sabeis quem são estes cavaleiros, filhos de Uir?», perguntou Finula. «É bem
possível que sejam Filhos de Milé ou membros das tribos de Dana.»

Aproximaram-se da margem do rio para identificarem os belos cavaleiros que, ao aperceberem-


se deles, também se aproximaram Par estabelecer conversação. Estavam entre eles dois filhos
de Bobdh Derg, Aedb do espírito ágil e Fergus o Sábio, e com eles havia também dois nobres
das tribos de Dana. Tinham deixado a casa de Bodh Derg para irem à de Lir onde iria ser
celebrada a Festa da Idade. Os cisnes identificaram-se então como sendo os filhos de Uir e os
nobres das tribos de Dana, muito satisfeitos Por encontrá-los, deram-lhes as boas vindas e
quiseram saber da sua sorte. Depois, Finula quis saber notícias de Lir, de Bobdh Derg e de
todos os chefes do povo feérico.

«Estão todos bem de saúde e mantêm as suas qualidades, como quando vós estáveis entre
nós», responderam-lhes. «Vivem nos mesmos lugares e amanhã se reúnem no palácio do vosso
pai, na Colina Branca. Aí se celebrará a Festa da Idade num clima de grande alegria e
felicidade, [apesar de se ] aumentar a vossa ausencia, pois ninguém sabia em que e que vós
vos havícis tomado desde a vossa partida do Lago Darvra». «Ah, Oxalá tenhais melhor sorte do
que nós»,, disse Finula. «Desde então e até hoje passámos por terríveis e inimagínáveis
provações, e sofremos intermináveis tormentos no fluxo e no refluxo das marés.»

E logo a seguir ela entoou este canto:

«Paira uma grande alegria no palácio de Lir Aí se bebe cerveja e hidromel,

Contudo, fria é a noite quando descansam os quatrofilhos do rei.

De nada nos valem os nossos tectos Pois só as penas nos cobrem o corpo.

Noutros tempos, os nossos vestuários eram de púrpura, bebíamos o doce hidromel;

Mas hoje o que temos para beber e comer e a arei.a e a salgada onda do mar Tivemos outrora
leitos bem macios feitos de penas de pássaros;

Mas hoje os nossos leitos são rochas nuas que as vagas não conseguem atingir»
Entoado este canto, os pássaros despediram-se dos cavaleiros e desapareceram nos confins do
céu, Os nobres das tribos de Dana puseram-se em marcha na direcção do palácio de Lir, na
Colina Branca, e Colitaram a todos as provações por que tinham passado os cisnes e como era
triste a sua sina. «Nada podemos fazer por eles», disseram os chefes e os nobres, «mas
ficamos contentes por saber que ainda estão vivos e temos a certeza de que serão salvos no
fim dos tempos.»

Os filhos de Lir, por seu lado, voltaram para o lugar onde viviam no Mar de Moyle, onde ficaram
tanto tempo quanto aquele que já aí tinham passado. Mas, um dia, Finula avisou os irmãos que
precisavam partir. «É chegada a hora em que deveremos deixar este lugar maldito e partir para
a angra de Dorimann. Mas esperam-nos outras provações, pois aí não teremos nenhum lugar
para aterrar nem nenhum abrigo contra as tempestades. Partamos a pesar disso nas asas do
vento gelado, pois temos de cumprir a nossa triste sina.»

Deixaram o Mar de Moyle e, chegados à angra de Dorrinann, viveram uma vida cheia de
desgraças e de tormentas. Certa vez, tendo o mar gelado à volta deles, imobilizou-os
completamente. Perante o lamento dos três irmãos, Finula consolou-os o melhor que pôde,
lembrando-lhes que seriam salvos quando chegasse o tempo da sua libertação. Viveram na
angra de Dormiann durante os trezentos anos que lhes tinham sido aprazados, dizendo Finula
por fim: «Chegou a hora da partida. Dirijamo-nos agora para o palácio da Colina Branca, onde
vive o nosso pai com as suas gentes.»

Os irmãos ficaram todos contentes e os quatros levantaram voo, parecendo que o ar tinha
ficado mais suave e mais leve. Assim, daí pouco tempo eles chegaram à Colina Branca e nela
pousaram, mas ficaram muito espantados e cheios de angústia ao verem que aqueles lugares
estavam completamente desertos. Só se viam aí outeiros verdes e pedras dispersas forradas
com urtigas. Os quatro então se chegaram uns aos outros e todos eles deram três gritos de dor
e de lamento. Depois, Finula entoou este canto:

«Oh que tristew! Tudo está deserto! Nem um tecto, nem um lar!

O meu coração enche-se de amargura ao ver no que se tornou este lugar Nem um cão, nem
uma matilha,

Nem uma mulher, nem uma sombra, nunca tinhamos visto este lugar assim quando Lr o nosso
pai, nele reinava.

Já não há taças nem bebidas inebriantes na sala iluminada,

Nem jovens cheios de alegria

Nas salas defestas, durante osfestins. Quando penso nos outros tempos
O meu Coração pesa-me, e com uma grande - magoa que veio este lugar deserto e
abandonado esta noite. »

Entretanto, Os filhos de Lir passaram aquela noite no lugar onde se erguera o palácio do pai e
onde eles tinham crescido. E aí entoaram a doce música do povo feérico. Ao amanhecer,
levantaram voo, ergueram-se nos céus e viajaram para a ilha de Clare. Quando lá chegaram
todos os pássaros do país se reuniram à sua volta, passando a chamar-se Lago dos Pássaros
aquele lago onde se encontravam.

Ora, aquele era o tempo em que o bem-aventurado Patrício tinha levado a fé de Cristo para a
Irlanda e o seu discípulo, que se chamava Mohévog, se tinha estabelecido na ilha de Clare onde
construíra um eremitério. Ao fim da primeira noite que passaram nesta ilha, os filhos de Lir
ouviram o som como que soava perto dali. Ficaram muito espantados e cheios de medo, Pois
jamais tinham ouvido um som como aquele. Ouviram o som do sino enquanto ele durou e em
seguida pôs-se a entoar em surdina a doce música dos palácios feéricos.

Ao ouvir aqueles tons suaves, Mohévog, encantado com a tristeza daquele canto, pediu a Deus
que lhe mostrasse quem era capaz de entoar aquela música tão bela que ele jamais ouvira
antes. E, lia noite seguinte, teve um sonho que lhe revelou que os cantores eram os filhos de
Lir. Na manhã seguinte, deslocou-se ao Lago dos Pássaros e, vendo Os quatro cisnes na
superfície das águas, aproximou-se da margem para ficar perto deles. «Sois os filhos de Lir?»,
perguntou ele. «Somos», responderam eles. «Deus seja louvado», disse Mohévog, «Pois o
amor que tenho Por vós é que me trouxe até esta ilha, que escolhi em vez de todas as Outras.
Agora, filhos de Lir, vinde a terra e confiai em m’

’Ofrimento acabou e ficareis debaixo da minha protecção.»lm* 0 vosso Eles obedeceram-lhe, e


Mohévog levou os para o Senipre que Moliévog celebrava missa, eles estavam prese seu
cemitério. Ficavam sentados em segurança e ao abrigo do frio e das tempestades. E os quatro
Mobevog inundou um hábil ferretes Ciro fazer umas correntes de prata brilhante meteu umas
entre Aedh C Finula, e outras entre Conn e Fiachra. E os qllatro entoaram admiráveis cantos
que lhe encheram o coração de alegria.

Naquele tempo, o rei de Connaught era Lergnenn, filho de Colmann, e a rainha era Déoch, filha
de Fingliinti. Eram o Homem do Norte e a Mulher do Sul de que Aifé falara quando lançara o
seu sortilégio sobre os filhos de Lir, tendo previsto que eles se encontrariam. Ora, ao ouvir falar
nos cisnes, a mulher ficou ansiosa por possuí-los. Pediu a Lergnenn para ir buscá-los, e o rei
respondeu-lhe que iria pedir a Moliévog para lhe confiar os pássaros. Enviou então mensageiros
ao encontro de Moliévog, mas estes voltaram com a notícia de que o santo eremita se recusava
a separar deles.

Então, a rainha Déoch ficou furiosa, de cabeça perdida, e jurou que não passaria nem mais
uma noite com o rei se ele não lhe trouxesse imediatamente à sua presença os pássaros que
tanto dese ava. Lergnend foi por isso pessoalmente falar com Moliévog e perguntou-lhe se era
verdade que tinha recusado dar os cisnes.
«É absolutamente verdade», respondeu Moliévo - o rei Lergnenn ficou enraivecido. Entrou na
capela onde estavam os cisnes e pegou neles, junto ao altar, preparando-se para os levar à
rainha com dois em cada mão. Mas mal ele tinha posto a mão neles, caiu-lhes a penugem e,
em vez de cisnes, apareceram diante dele três velhos magros e enrugados e uma velha
decrépita, todos eles descamados e sem pinga de sangue. E Lergnenn ficou de tal modo
horrorizado com aquele espectáculo que se pôs em fuga. Então, disse Finula a Moliévog:
«Santo homem é altura de nos baptizares, pois não vamos ficar muito tempo neste mundo.
Quando morrermos, cava a nossa sepultura e põe Conn no meu flanco direito e Fiactira no meu
flanco esquerdo. Quanto a Aedh, põe-no diante de mim, entre os meus dois braços. Apressa-te,
pois o nosso tempo está a chegar ao fim.»

Moliévog sem demoras baptizou os quatro filhos de Uir, e eles morreram daí a pouco tempo.
Então, Mohévog enterrou-os de acordo com as instruções que Finula lhe dera. Erigiu um pilar
de pedra na sepultura e gravou nele os seus nomes em ogham. Depois, entoou umas orações
para que os infelizes filhos de Uir conquistassem finalmente a paz eterna”.

1. Segundo a narrativa Oidheadh Clainne Lír (o destino trágico dos filhos de Ulr), contida em
diversos manuscritos do fim da Idade Média. Resumo pormenorizado por My1e’ Dillon em Early
Irish Literature, Dublin, 1994. Tradução francesa de Roger Chauviré 011, Contes ossianiques,
Paris, 1949.

O tempo em que Bobdh Derg reinava sobre as tribos de Dana, os principais chefes do povo
feérico visitavam-se frequentemente entre si, encontrando-se nomeadamente para celebrarem
em conjunto a Festa da Idade. Entre os chefes havia um que era mais famoso do que todos os
outros, Eochaid Ollathair, pai do rei e mais conhecido pelo nome de Dagda. Este chefe era
respeitado por todos, pois era capaz de fazer grandes prodígios como desencadear
tempestades ou apaziguá-Ias. Além disso, Dagda era também capaz de proteger as colheitas, e
fazia com que os gados tivessem sempre pastagens muito ricas, vindo-lhe daí o nome Dagda,
que significa «deus bom». E as gentes das tribos de Dana, quando precisavam de um conselho,
nunca deixavam de o consultar acerca dos acontecimentos do futuro, pois ele aliava as
qualidades de adivinho às de mago.

Um dia, Elcinar deu um grande festim na sua residência de Brug-na Boyne e Dagda não pôde
deixar de estar presente, pois Elcinar era seu irMão, e seria uma grande desonra, perante as
tribos de Dana, se não prestasse homenagem a quem lhe era tão próximo e possuía, sem
dúvida, o mais belo palácio de toda a Irlanda.,” o festim durou três dias e três noites.

Ora, Elcinar tinha uma mulher que se chamava Boann, e a beleza desta era tal que, ao vê-Ia,
Dagda ficou obcecado com a ideia de a possuir. Por isso, ficou à espreita do momento propício
para a encontrar Lembremo-nos que se trata do cairi7 megalítico de Newgrange, no condado
de Meath, não longe de Slane, no cimo do vale de Boyne sem ninguém ver e, quando a ocasião
surgiu, declarou-se-lhe sem vergonha nem reservas. «Eu unir-me-ei a ti de boa vontade»,
respondeu Boann, «mas receio o que possa fazer Elciriar, pois ele é um mágico hábil e vingar-
se-á de mim sem dó nem compaixão.» «É verdade que ele é um mágico hábil», disse Dagda,
«mas eu sou mais hábil do que ele, e sei como o manter longe de tudo o que nos diz respeito.
Confia em mim, mulher, e nada reccies.»

Naquela mesma noite, Dagda pediu a Elciriar para levar uma mensagem da sua parte a Bress,
filho de Elattia, que vivia na Planície da Ilha. Na manhã seguinte, Elciriar deixou assim o palácio
de Brug para levar a cabo a sua missão. Mas, tendo-se ele afastado um pouco, Dagda lançou-
lhe grandes encantamentos para que ele estivesse ausente durante um ano. Dagda fez com
que ele se perdesse tia escuridão da noite e andasse ao acaso por um longo período de tempo,
pensando apesar disso que a sua viagem só durara um dia e uma noite, o que o poupou às
agruras da fome e da sede.

Então, Dagda foi encontrar-se com Boann, e uniu-se com grande prazer de ambos. Foi tão
profícuo o resultado da união que daí a nove meses Boann deu à luz o rapaz mais belo e mais
perfeito do mundo. «Que nome lhe vamos dar?», perguntou Dagda. «Chamernos-lhe Angus, ou
seja, Escolha Unica», respondeu Boann, «pois ele é o fruto da minha união contigo, tendo sido
esta a única escolha da minha vida.»

O filho de Boann e de Dagda foi assim chamado Angus, mas ern seguida passou a ser chamado
com mais frequência Mac Oc, ou seja, «jovem rapaz», pois era o filho mais recente de Dagda e
possuía todas as qualidades do pai, além de ter a beleza da mãe. Quando Elcmar voltou da
viagem, o parto de Boann já ocorrera há muito tempo, mas, longe de imaginar o que se
passara, ele continuou convencido de que apenas estivera um dia e uma noite ausente da sua
casa de Brug-na-Boyne.

Antes do regresso de Elciriar, entretanto, Dagda enviara o filho para ser educado na casa de
Mider, no outeiro de Bri Leith. A escolha recaíra sobre Mider porque nele Dagda depositava toda
a confiança e sabia que ele daria ao rapaz a melhor educação possível entre os rapazes niais
nobres de toda a Irlanda. Deste modo Angus, durante muitos anos, foi entregue aos cuidados
de Mider, em Bri Leith. Mider tinha um grande campo de jogos em frente da sua residência de
Bri Leith, e albergava nesta cento e cinquenta rapazes e cento e cinquenta raparigas que
tinharil sido confiados aos seus cuidados pelos chefes das tribos de Dana e pcios chefes dos Fir
Bolg que habitavam ainda na Irlanda. Angus era o grande canipeão, pois tinha uma força e
uma habilidade Inigualávels, e Mider tratava-o com tanto afecto como se ele fosse seu filho.

Ora, um dia, Angus entrou em conflito com Triath, filho de Fébal, do clã dos Fir Bolg e um dos
chefes dos Jogos realizados por aqueles que estavam a ser educados no outeiro de Bri Teith.
Triath era também uni dos filhos adoptivos de Mider, que tinha por ele multa consideração.
Triath acabara de criticar Angus por ter ajuizado mal sobre o vencedor duma partida, e o jovem
enfurecera-se. «Só me faltava ter de levar lições do filho de um servo!», gritou ele.

Acontece que Angus pensava que Mider era seu pai e que iria herdar dele a posse de Bri Leith,
mal podendo suspeitar do seu parentesco com Dagda. Mas, ao ser injuriado, Triath sobres
saltara-se e retorquira: «E a mim só me faltava ter de suportar que me levante a voz um
mercenário que nem conhece o pai nem a mãe!»

Ao ouvir aquelas palavras, Angus ficou espantado e estonteado, e foi logo ter com Mider, pois
queria saber se correspondiam à verdade as palavras de Triath.

«Que se passa’?», perguntou-lhe Mider ao vê-lo chegar com um ar sombrio e com os olhos
marejados de lágrimas. «Estou muito ofendido com Triath, o filho de Fébal», respondeu Angus.
«Ele atirou-me à cara que não tenho pai nem mãe. » «Isso é falso», disse Mider. «É verdade
que eu não sou teu pai, embora te tenha criado com um amor de pai, mas Posso assegurar~te
que tens um pai e uma mãe.» «Então», disse Angus, «Peço-te que me digas quem é a minha
mãe e onde poderei encontrar o meu pai.» «A tua mãe é Boann, a mulher de Elcirtar de Brug-
na-Boyne, e o teu pai não é Elcrnar, mas Eochaid Ollathair, mais conhecido pelo nome de
Dagda. Foi ele que me incumbiu de te educar, às escondidas de Elciriar, para que este não
ficasse ofendido por teres nascido na sua ausência. É esta a verdade, meu rapaz, e não quero
que me censures por te não ter revelado mais cedo as tuas origens. Era preciso antes de mais
proteger a tua mae, pois se Elcinar tivesse tido conhecimento do que se Passou, ter-se-ia
vingado iiela.» «Muito bem», disse Angus, «fico-te grato por me revelares que não sou um
rapaz sem pai e sem mãe. Agora, VOU-te pedir que me leves a casa do meu pai, para que ele
me reconheça e assim eu deixe de estar sujeito aos insultos dos Fir Bolg.»

Mider partiu então com o filho adoptivo ao encontro de Dagda. Quando chegaram a Uisnech de
Meath, no centro da Irlanda, onde naquela época vivia Dagda, encontraram-no a meio de uma
assembleia dos chefes e dos nobres das tribos de Dana. Mider chamou-o e pediu-lhe Para se
retirar por um pouco para conversar com o jovem que o acompanhava. Dagda deixou a
assembleia o foi logo ter com eles. «Pois bem, que deseja este jovem guerreiro que nunca aqui
tinha v,ndo?» «É seu desejo ser reconhecido pelo pai», respondeu Mider, «e que lhe sejam
dadas terras, pois não é justo que o teu filho nada tenha tendo tu vastos domínios em toda a
Irlanda.» «Concordo contigo, e fico muito satisfeito por poder dar as boas vindas a um filho»,
disse Dagda, «Acontece, no entanto que não tenho nenhuma terra livre nos meus domínios
para poder satisfazer o seu desejo.» «Tu não podes, no entanto recusar terras ao teu filho»,
insistiu Mider. «Eu sei», disse Dagda, «preciso apenas de um tempo para encontrar uma
solução, e depois o seu desejo será satisfeito.»
Dagda foi aconselhar-se com Mananann, filho de Lir, e, depois de ter exposto o caso,
ponderaram os dois sobre o procedimento a tomar. «Eu dar-lhe-el de boa vontade o domínio de
Brug-na-Boyne», explicou Dagda, «mas como havemos de consegui-lo de Elcinar? Ele nunca o
quererá dar... » «Talvez se consiga alguma coisa...», respondeu Mananann. «Ouve bem o que
te digo sobre o que temos a fazer: Elciriar convidou os chefes e os nobres das tribos de Dana
para a celebração da Festa da Idade na casa de Br-ug-na-Boyne, na véspera do próximo
samain. Faz com que o teu filho te acompanhe e eu pela minha parte farei com que lhe seja
atribuído o domínio de Brug, com o proprio consentimento de Elcinar, e sem que alguém possa
opor-se.»
Deste modo, Mananann, Dagda e Angus partiram juntos para as margens do Boyne, que
tinham a erva seca coberta de orvalho. Forani aí recebidos com todas as honrarias, e na sala do
festim havia palha e rosas frescas para que eles pudessem dispor de todo o conforto. A sala era
bela e sumptuosa: o chão era de bronze, de uma porta à outra, placas de bronze branco
ornamentavam as paredes, e havia animais de todos os géneros finamente esculpidos a
decorarem os leitos. Elernar dera ordens aos seus criados para irem aos lugares mais remotos
da Irlanda pescar e caçar pássaros e outros animais, em honra dos visitantes. Os chefes das
tribos de Dana sentaram-se para o festim, com Segundo a narrativa Tocinarch Etaíne (La
Courtíse d’Etaine), contida no Livre Jaune de Ucan, editado e traduzido em inglês por 0. Bergin
e R.I. Best, em Eriu, vol. Xil, Dublin, 1938. Tradução francesa de Ch-J. Guyonvarch, em Textos
mitológicos irlandeses, Rennes, 1980*

13obdli Derg ao meio, Mananann à direita e Dagda à esquerda. Mais afastados encontravam-se
Mider e Angus, com Elemar e Goibnlu.

Os convivas sentiam-se felizes e estavam de bom humor, pois eram obsequiados com os
melhores manjares e as melhores bebidas que se possa imaginar. Vieram músicos recordar-lhes
Outros tempos, e reeitaram-se poemas em que se exaltavam grandes proezas das tribos de
Dana quando tinham guerreado contra os Fir Bolg e os Fomore. Depois, todos se foram divertir
no prado em frente à fortaleza e, nessa altura, Manannan chamou Angus à parte para que
pudessem falar sem serem ouvidos. «Esta casa é muito bela, ó Angus», disse Mananann, «C
nunca vi nenhuma tão bela na Terra da Promessa. Que bem situada ela está, num lugar tão
aprazível, nas margens do Boyiie, e na fronteira das cinco províncias! Se estivesse no teu lugar,
Angus, não ficaria descansado enquanto esta residência não fosse minha, e lançaria
encantamentos sobre Elcinar para o intimar a deixá-la imediatamente de forma a poder ficar na
sua posse. Estamos na véspera de Samain e como sabes, durante a noite de Samain, o tempo
deixa de existir. Bastar-te-á por isso pedir a Elemar que te deixe ser senhor de Brug durante
uma noite e um dia: ele estará tão entretido com a bebida que nem se aperceberá de que, no
decurso da festa do Samain, uma noite e um dia equivalem a uma etem’dade.» «Porque me
dás esse conselho?», Perguntou Angus. «Eu explico-te o motivo», respondeu Mananann.
«Como o teu pai quer que adquiras terras, encarregou-me de te instruir sobre o que há a
fazer.» «Nesse caso», disse Angus, «seguirei o teu conselho.» «Jura então sobre o teu escudo
púrpura e sobre a tua espada que agirás rigorosamente de acordo com o que te direi.» Angus
prestou o juramento que Mananann exigia dele. «Muito bern», continuou Mananann, «fica, a
saber, que Elemar não é o dono legítimo desta residência e que o território de Brug não deverá
continuar na sua posse. Quando voltarmos para a sala para nos regalarmos com as bebidas do
festim irás ter com Elcinar e, desembainhando a tua espada, arfleaçá-lo-ás de morte, mas nada
lhe farás, desde que ele prometa satisfazer a tua vontade que se traduzirá em ficares senhor de
Brug por um dia e uma noite. Ele não poderá recusar e, assim que se tiver esgotado o tempo,
ele pedir-te-á para voltar a ser o senhor de Brug, e tu dirás simplesmente que o tempo no
mundo se mede por dias e noites, e que ele nada mais tem aqui a fazer, pois deu Brug por uma
eternidade.»
Voltaram todos para a sala do festim, e Angus seguiu à risca o conselho de Mananann. Elcinar
deixou-o ser senhor de Brug por uma noite e um dia. Mas, consumado aquele tempo, quando
reivindicou a devolução do seu domínio, Angus lançou-lhe um encantamento mágico e ordenou-
lhe que abandonasse Brug o mais depressa possível. E, ao ouvir aquela ordem, Elcinar
compreendeu que não tinha alternativa senão partir.

Elcinar sal suas gentes, tanto homens como mulheres. Ninguém que se encontrasse na
assembleia poderia evitar aquela situação, nem poderia protestar contra a injustiça, pois o
encantamento era tão poderoso que à todos afectava por igual, sendo impossível fugir~lhe.
Mas, assim que à noite se viu no prado cheio de humidade, Elemar lamentou-se perante a
mulher e todos os que o rodeavam: «Que desgraça se abateu sobre vós, que pertenceis à
minha família e ao meu clã. É muito triste que tenhais de deixar Boyne e Brug, e sentireis uma
grande mágoa e um grande sofrimento quando estiverdes muito longe daqui, exilados em
países desconhecidos. Como é evidente, foi Mananann quem maldosamente ensinou Angus a
agir daquela forma. Ali, estou tão consternado e tenho o coração tão partido que nem me
importo se tiver de morrer!”

Entretanto, antes de deixar aqueles lugares, Elcmar chamou Dagda para perto de si e
perguntou-lhe: «ó Dadga, tu que és o mais sábio de todos nós, que pensas da acção perversa
de que fui vítima?» «Penso que a acção não foi perversa, mas justa», respondeu Dagda.
«Daqui para frente é a este jovem guerreiro que a terra pertence. Ele apanhou-te de surpresa,
num dia de paz e de amizade, e permitiste que ele fosse senhor dos teus domínios porque te
atemorizaste perante ele. Mas vou dar~te uma compensação: conceder-te-ei uma terra que
não te será menos proveitosa que a de Brug.» «Que terra é?», perguntou Elcmar. «Vou-te
dizer: trata-se de Cletech, e dos três vales ficam em volta. Fica a pouca distância daqui. Os
jovens do teu clã poderão vir distrair-se na terra de Brug todos os dias, e tu poderás consumir
os frutos da Boyne como antes.» «É bom que seja assim», disse Elcmar.

Ele partiu em seguida para a colina de Cletech e mandou construir aí uma fortaleza. Angus, o
Mac Oc, por seu lado, permaneceu na residência de Brug-na-Boyne.(2)

1. Síntese entre La courtise d’Etaine e La nourriture de Ia maison des deux gobelets. a

l primeira narrativa, é Dagda quem concebe o truque destinado a espoliar Elcmar; na segullda,
em que Angus é o filho adoptivo do próprio Elemar, é Mananann.

2. Segundo a narrativa La Courtise X Etaine.

Angus dispôs da sua nova residência como muito bem entendeu. O intendente de Elemar não
tinha seguido aquele, e veio apresentar-se ao seu novo senhor, com a mulher e o filho. Angus
disse-lhe que manteria todas as suas funções, e que ficaria sob a sua protecção. E, desde
então, o intendente foi-lhe devotado, fazendo os possíveis para que no palácio de Brug tudo
corresse pelo melhor.
Ora, uma noite dormia Angus serenamente, e teve de súbito uma visão surpreendente. Em
sonhos viu uma rapariga que vinha ao seu encontro e se punha à sua cabeceira. Era sem
qualquer dúvida a mais belajovem que alguma vez existira em toda a Irlanda. Angus quis
agarrá-la com os braços para a trazer para a cama, mas ela, com um salto, afastou-se até se
confundir com a escuridão.

Angus levantou-se e interrogou os criados, mas nenhum deles vira a beldade, e ninguém lhe
soube dizer para onde ela fora. Ele voltou a deitar-se, mas ja não conseguiu adormecer, tantas
vezes o visitava a imagem graciosa da jovem. E assim ele permaneceu até de manhã, altura em
que se encontrava muito enfraquecido e triste. A forma que entrevira de noite, sem que lhe
pudesse tocar ou falar, pô-lo doente e a partir daí perdeu a vontade de comer. Entretanto, na
noite seguinte, a exaustão fê-lo cair num sono profundo, e voltou a vê-la, tendo ela nas mãos,
desta vez, o mais belo címbalo que alguma vez vira. Ela tocou-lhe música, e depois
desapareceu da mesma maneira como aparecera. Angus ficou acordado o resto da noite e, de
manhã, não quis comer. E todas as noites aconteceu o mesmo: a jovem aproximava-se do seu
leito quando adormecia, mas logo lhe fugia ou lhe tocava uma música que o adormecia
rapidamente.

Isto durou um ano inteiro, fazendo com que Angus ficasse cada vez niais fraco. E, como ele não
confidenciava a ninguém os motivos da sua doença, todos à sua volta estavam muito
preocupados. Vieram vários médicos da Irlanda, mas nenhum soube identificar a doença nem
receitar os medicamentos apropriados para o curar. Então, chamaram Fingen, o melhor médico
do Ulster que conseguia fazer um diagnóstico certeiro de qualquer doença simplesmente
olhando para o doente, e que, ao ver fumo a sair de uma casa, ficava logo, a saber, quantos
doentes havia lá dentro. Graças a esses seus dotes o tinham chamado à residência da Brug.

Ora, depois de ter examinado Mac 0c com toda a atenção, não conseguiu apesar disso
identificar a doença de que ele padecia. Então, Angus pediu que o deixassem ficar a sós com
Fingen, e contou-lhe 0 que se tinha passado, insistindo muito na beleza da jovem que o vinha
visitar todas as noites.

«O teu sofrimento é realmente atroz, pois amas profundamente uma mulher que está sempre
ausente», disse Fingen. «É ela que me põe doente», disse Angus. «Adoeceste gravemente»,
continuou Fingen, «porque não quis partilhar o teu segredo.» «Eu não o podia fazer, pois quem
iria acreditar que uma jovem de rara beleza, extremamente distinta, me vem visitar com um
címbalo todas as noites e me toca música maravilhosa, sendo por isso que fiquei doente? E
haverá cura para uma tal doença?» «Acredito que se encontrará uma solução», respondeu
Fingen. «É óbvio que esta jovem vem ter contigo porque te ama profundamente. Porque a não
vais procurar? Envia mensageiro a Boann, tua mãe, e pede-lhe para te vir falar.»

Partiram então ao encontro de Boann, que estava na casa de Cletech, e ela foi informada de
que o seu filho estava doente. Ela apressou-se e foi a Brug-na-Boyne, onde foi recebida por
Fingen. «Eu estou a tentar curar o teu filho», disse este, «pois ele padece de uma grave
doença.»
Fingen explicou-lhe o que provocava o enfraquecimento de Mac Oc, que estava a morrer por
ter visto em noites sucessivas uma jovem de grande beleza que lhe tocava música. «Eu penso»,
continuou Fingeri, «que num caso destes só a mãe pode fazer alguma coisa por ele. Se amas o
teu filho, dá uma volta por esta ilha para saber se existe alguma jovem com a aparência que
nos é descrita por Angus. A única maneira de o curar é encontrar a jovem e levá-la à sua
cabeceira.»

Boann prometeu a Fingen que partiria sem demora a procura da beldade por toda a Irlanda,
mas foi em vão que ela percorreu as várias províncias, durante um ano, perguntando por ela a
todas as pessoas que encontrava: nem as gentes das tribos de Dana nem as dos Filhos de Milé
lhe souberam indicar a existência de alguém que se parecesse com a jovem referida por Mac
Oc. Voltou por isso para Brug-na-Boyne inulto desiludida e, mais uma vez, foi falar com Fingen.
«Não encontrei ninguém», disse ela, «e estou muito preocupada com o que pode acontecer ao
meu filho. Que podemos fazer agora?» «Bem», disse Fingen, «já que nem a própria mãe
conseguiu descobrir um remédio para o sel, mal, deve mandar-se procurar Dagda para que fale
ao seu filho, Pois deve ser agora o pai a tentar encontrar uma cura para ele.»

Foram então enviados mensageiros a Dagda. Este lhes deu as boas vindas e perguntou-lhes
que bons ventos os levavam ali.

«Ora!», exclamaram eles, «o teu filho Angus está muito doente e Boann, a sua mãe, pediu que
o vás visitar!»

Então Dagda apressou-se a tomar o caminho de Brug~na-Boyne, e Boann deu-lhe a boa vinda
quando o viu vir ao seu encontro. «Deves aconselhar o teu filho», dlsse-lhe ela, «pols está tão
fraco e tão incapacitado para se mexer que nem sabemos como lhe havemos de salvar a vida!
Peço-te que o ajudes, pois está profundamente apaixonado por urna jovem que o vem visitar
todas as noites, mas que desaparece assim que ele acorda. Percorri a Irlanda de um canto ao
outro, durante um ano, mas todos os meus esforços foram em vão. Que podemos fazer por ele,
sábio Dagda, que conselho lhe podemos dar?» «De nada valeria eu falar», disse Dagda, «pois
não posso fazer mais do que tu.» «E verdade», disse Boann, «mas tu és o mais sábio e o mais
solicitado dos chefes das tribos de Dana. Manda consultar Bobdh Derg, o teu filho mais velho,
pois ele é o nosso rei supremo. Ele deve saber melhor do que ninguem como se há-de ajudar
Mac Oc.»

Dagda enviou então mensageiro para o Outeiro de Femen onde nessa altura vivia Bobdh Derg,
e este os acolheu com muito boa vontade. «Sede bem vinda à minha residência, caros servos
de meu pai Dagda», disse-lhes ele. «Que motivo vos traz aqui?» «O estado preocupante de
Angus, filho de Dagda», responderam eles. «Há dois anos que ele está doente por ter visto
uma jovem durante o sono, e a visão fê-lo perder a saúde. Ora, nós não sabemos onde se
encontra, na Irlanda, a Jovem beldade que ele ama profundamente e que todas as noites lhe
vem cantar músicas muito suaves. Por isso te convocamos, ó rei, da parte de Dagda, para que
mandes procurar em toda a ’lha essa jovem de beleza lnigualável.» «Ide dizer a Dagda, meu
pai», respondeu Bobdh Derg, «que a mandarei procurar, mas que preciso do prazo de um ano
para tentar encontrá-la.»

Ao fim de um ano, os mesmos mensageiros voltaram a apresentar-se na casa de Bobdh Derg


no Outeiro de Femen. «Vasculhei por toda a Irlanda», disse-lhes o rei, «e começava a
desesperar quando encontrei, no lago Bel Dracon, a jovem que procurais. Ide levar a notícia a
Dagda, 1* 7èrtre no original, palavra francesa que tanto significa outeiro como tunitilus
megalítico, Ou seja, um outeiro artificial cobrindo um dólmen. Segundo estas tradições de
povos celta Corno os irlandeses os povos feéricos vivem nestes tumuius ou cairns. (N. T.) e
dizei-lhe que estou pronto para levar Angus a esse lago para poder reconhecer aquela que viu
durante o sono.»

Sem perda de tempo, os mensageiros regressaram à residência de Dagda. «Temos boas


notícias», disseram eles, «a jovem foi encontrada! E Bobdh Derg manda dizer que está pronto
para receber Angus e para o levar ao pé dela para que a possa ver e reconhecer.»

Angus deslocou-se então de carro até ao Outeiro de Femen, onde um grande festim lhe foi
oferecido em jeito de boas vindas. Ao fim de três dias e três noites de festividades, Bobdh Derg
disse por fim: «Chegou o momento de irmos ao lago Bel Dracon. Deves ver a jovem para
saberes se é a que te aparece em sonhos.»

Partiram então para o lago Bel Dracon e, entre as colinas, viram um espectáculo
impressionante, pois liavia aí cento e cinquenta jovens, todas elas de uma beleza inigualável,
divertindo-se nas margens do lago, rindo, cantando e folgando exuberantemente. Formavam
pares tendo a ligá-las uma corrente de prata, exibiam colares de prata, à volta da cintura
tinham correntes de ouro, e os seus cabelos eram de uma beleza estonteante.”’ Apesar de se
parecerem umas com as outras, de entre elas destacava-se à primeira vista uma que era mais
alta alguns centímetros. «Olha aquela ali», disse Bodh Derg a Mac Oc. «Não é a que te visitou
em sonhos e te veio tocar música muito suave? » «Sim, é ela», respondeu Angus, «reconheço-
a bem. Vou falar-lhe... » «Isso não é possível», respondeu Bobdh Derg, «pois ela não depende
da minha autoridade e ninguém se pode aproximar destas jovens. Nada mais posso fazer por ti
e não lhe podes falar, muito menos a podes levar contígo.
«Que hei-de então fazer?», perguntou Angus. «Eu estava doente por poder vê-Ia só à noite, e
por ela me fugir quando a queria agarrar, e agora que a vejo em pleno dia, não posso
aproximar-me dela? A minha tristeza é agora muito maior.» «Ouve-me», disse Bobdh Derg.
«Vou dar-te um conselho: esta rapariga é Caer Ibormaith, e o seu pai é Ethal Aribual do Outeiro
de Uaman, na província de Connaught. A única maneira de te aproximares dela e de a
conquistares é falares com o pai dela. Mas ele só admitirá dar-te a filha se for forçado a isso ou
se estiver debaixo do efeito de algum encantamento.»

Angus e as suas gentes deslocaram-se então à residência de Dagda, Descrição clássica das
jovens do povo feérico que, como se verá mais adiante, Podem metamorfoscar-se em cisnes:
voam sempre aos pares e estão sempre ligadas por correntes.
indo Bobdh Derg com eles. Boann encontrava-se lá, na companhia de Dagda, e Angus contou-
lhes o que vira, descreveu-lhes a rapariga, cuja beleza elogiou, referiu a figura tão distinta que
ela tinha, e lamentou que fosse tão inacessível e tão difícil de conqulstar. «Quem é ela afiiial?»,
perguntou Dagda e o avô dela. Bobdh Derg respondeu-lhe, referindo também o pai «Pelos
deuses!», respondeu Dagda, «com muita pena minha, nada posso fazer por ti, meu filho, pois
esta rapariga não está sob o meu domínio. Ninguém conseguirá conqulstá-la sem o
consentimento de seu pai, e eu sei que ele só a cederá pela força ou se estiver debaixo do
efeito de encantamentos.» «Era convertiente», disse Bobdh Derg a Dagda, «que tu em pessoa
fosses a casa de Ailill e Maevel11, pois é na sua provincia que se encontra a rapariga. Se tu lhes
pedires ajuda, talvez eles possam fazer alguma coisa por ti.»

Sem demora, Dagda partiu então para a província de Connaught, com uma escolta de pelo
menos sessenta carros e na companhia do seu filho Angus. O rei e a rainha deram-lhes as boas
vindas, e passaram uma semana inteira a festejar por entre comidas e bebidas com que os
presenteavam.

«Porque haveis vindo?», perguntaram por fim Aílill e Maeve. «Vou explicar-vos», respondeu
Dagda. «Encontra-se nesta província uma rapariga por quem o meu filho se apaixonou, mas
com a qual não se Pode relacionar nem pode conquistá-la, o que lhe provoca uma profunda
tristeza e mágoa. Vim a vossa presença para vos perguntar de que modo se poderá chegar
perto desta rapariga e conquistá-la.» «Quem é ela?», perguntou Ailifi. «Caer Ibormaith, a filha
de Ethal Anbual.» «Ora!», exclamou Aílifi, «nós não temos nenhum poder sobre ela, mas
mesmo assim tudo faremos para que o teu filho a conquiste.»

«Nesse caso», disse Dagda, «convém que chames o teu pai para que Possamos falar com ele.»
«Assim farei», prometeu Ailifi.

 0 intendente de Ailill partiu imediatamente para o Outeiro de Ailill e Maeve são


personagens de relevo na epopeia celta da Irlanda, e desempenham um Papel
importante em todos os ciclos, escapando a qualquer cronologia. A rainha Maeve ri,
particular é Imito característica, sendo a síntese entre uma provável rainha histórica de
Conn,,ght e uma antiga deusa ceita. 0 seu nome (Mebdh) significa «embriaguez» mas
também «meio» o que indicia uma posição intermédia entre o mundo humano e o Outro
Mundo, divino Ou feérico. Affill e Macve residem na fortaleza real de Cruachan (actual
Crogh an, no condado de Roscommon); e na pequena montanha de Knoeknarea, perto
de ”90, existe um «cairn» megalítico que tem o nome de «Túmulo da rainha Maeve».
 Uaman e, assim que se encontrou na presença de Ethal Aribual, disse-lhe: «Venho
da parte do rei Ailill e da rainha Maeve pedir para que os vás visitar pois pretendem
falar-te.» «Não irei», respondeu Ethal, «pois sei muito bem o que eles pretendem. Fica
pois a saber que jamais darei a minha filha ao filho de Dagda.»

O intendente voltou para a fortaleza de Ailill e de Maeve e contou-lhes palavra por palavra o
que lhe dissera Ethal Aribual. «Que ímpertínente!», exclamou Aillil, «juro que a bem ou a mal
o traremos até nós, nem que tenhamos de humilhar os seus guerreiros!»
Ailill juntou então um grupo de homens armados que se pôs a caminho com a escolta de
Dagda, Chegaram ao Outeiro de Uaman e, após terem lutado contra as gentes de Ethal Aribual,
penetraram no outeiro e saquearam-no, com tal proveito que no regresso levavam consigo
sessenta cabeças de guerreiros e Ethal Aribual como prisioneiro.

Quando chegaram pouco depois à fortaleza de Cruachan, Ailill disse a Ethal: «Dá a tua filha ao
filho de Dagda.» «Não o farei», respondeu Ethal Aribual. «Para mais, mesmo que o quisesse
não o poderia fazê-lo, pois o poder que a domina é muito mais forte do que o que eu tenho
sobre ela.» «Que poder é então esse que a domina?», perguntou Ailill. «Acontece muito
simplesmente que ela está sob o efeito de um sortilégio. Durante um ano inteiro, ela tem a
forma de um pássaro e no ano seguinte retoma a forma humana, e ninguém consegue mudar
essa situação.» «Muito bem», disse Ailill, «e em que ano ela tem a forma de pássaro?» «Eu não
devo traí-la», respondeu Ethal.

Então, Ailill ergueu-se e, desembainhando a espada, brandiu-a sobre a cabeça de Ethal Aribual.
«Eu arranco-te a cabeça se não falares!», gritou ele. «Estou a ver que não me resta alternativa
senão falar», suspirou Ethal, «pois estais decidido a matar-me. Sabei então que na próxima
festa de Samain ela estará com uma forma de pássaro rio lago Bel Dracon, tendo na sua
companhia um maravilhoso grupo de cisnes. Todos estarão à superfície das águas, e será
possível falar-lhes a partir da margem, E111 contrapartida, quem quiser aproximar-se deles,
não poderá ter a forma humana.» «Está bem», interveio Dagda, «já sei o que hei-de fazer.»

Foi então firmada a paz entre Ailill, Dagda e Ethal, sendo este último posto em liberdade.
Depois, Dagda e o filho voltaram para Brug-na-Boyne. Mac Oc estava agora muito feliz, pois
sabia que Polico faltava para conquistar a donzela por quem se apaixonara e CUP ausência o
martirizava.

Na noite anterior à festa de Samain, ele dirigiu-se então para as inargens do lago Bel Dracon,
sendo acompanhado pelo pai. Aproximou-se da água e viu um maravilhoso grupo de pássaros
brancos que cruzavam serenamente o lago e que estavam ligados entre si por correntes de
prata, tendo a coroá-los arcos de ouro. Angus, com a forma humana chamou a rapariga pelo
seu nome e um pássaro veio ao seu encontro. «Quem me charna?», perguntou ela. «E Angus,
filho de Dagda, quem te chama. Peço-te, Caer, que venhas comigo, pois o meu amor por ti é
tão grande que não conseguiria viver nem mais um minuto se não viesses comigo para a minha
residência.» «Eu não posso seguir alguém que possui a forma humana», respondeu o pássaro,
e afastou-se.

Então, Dagda tocou no filho com uma varinha mágica e druídíca, e Mac Oc tomou
imediatamente a forma de UM cisne majestoso. «Bela Caer», gritou Angus, «podes agora vir
comigo?» «Posso, com certeza, mas na condição de me dares a tua palavra de honra que me
deixas voltar amanhã para o lago, » «Eu Prometo», respondeu Angus, antes de se abraçar a
ela.
Naquela noite, eles dormiram juntos na forma de cisnes e, na manhã seguinte, deram várias
voltas ao lago e uniram-se fisi aumente varias vezes. Depois se ergueram no ceu, sempre na
forma de pássaros brancos, e viajaram para Brug-na-Boyne. Aí, em terra firme, Caer retornou a
forma humana: nunca fora tão bela, e Angus estava no auge da felicidade. Puseram-se os dois
a cantar a música suave dos palácios feéricos, e todos aqueles que ouviam aquela música
ficavam a dormir durante três dias e três noites. E a rapariga ficou a partir de então a viver com
Angus no palácio de Brug-na-Boyne.

Desde então uma grande amizade passou a ligar Affill e Maeve, rei e rainha de Connaught, a
Angus, o Mac Oc, último filho de Dagda. E as gentes das tribos de Dana, assim como os Filhos
de Milé, ficaram todos muito felizes, de tal modo que os seus poetas, inspirados por esta
história, nunca mais deixaram de compor belas músicas e de escrever: I) narrativas que partem
os corações mais sensíveis.
II) Segundo a narrativa Awj,, oenguso (0 sonho de Angus), contida no manuscrito EgertOn
1782 do Museu Britânico, editado com tradução inglesa por Edward Muiler na Revue celtique,
vol. III, Paris, 1876-1878. Tradução francesa de Ch.-J. Guyonvarch’h em Te”” ’1i101,ógí-
irlandeses, Renries, 1980.

Capítulo X

Certa vez, os homens de Connaught estavam reunidos junto ao Lago dos Pássaros, na planície
de Aé, tendo sido preparado para eles um grande festim que durou toda a noite. Ao romper da
alva, eles levantaram-se e foram passear pelas margens do lago, vendo de súbito um homem
írromper através da bruma: cobria-o um manto de púrpura com cinco dobras, e na mão
segurava dois dardos de cinco pontas, tendo ao ombro um escudo de bossa de ouro; à cintura
trazia uma espada de punho de ouro, e uma bela cabeleira dourada vinha pousar-lhe
suavemente sobre os ombros.

«Vêem o homem que se aproxima?», perguntou Loégairé, filho de Crimthann, um dos mais
belos e nobres guerreiros de Connaught. «Julgo que devemos saudá-lo e recebê-lo bem, pois
ele tem um porte nobre e não revela nenhuma hostilidade contra nós.»

Quando o guerreiro desconhecido chegou ao pé das gentes de Connaught, estas saudaram-no


e deram-lhe as boas vindas. «Agradeço-vos a recepção calorosa», disse o desconhecido. «0 que
te traz aqui?», perguntou-lhe Loégairé. «A esperança de que me possais ajudar» «De onde
vens e quem és?», voltou Loégairé a perguntar. «Sou das tribos de Dana», respondeu ele, «e
chamo-me Fiaclina, filho de Rété. Sou um chefe respeitado entre os meus.» «Se é ajuda o que
pretendes de nós», disse Loégairé, «nós dar-ta-emos de boa vontade se tios disseres o que
pretendes.» «O motivo que aqui me traz é o seguinte: a minha mulher foi-me raptada por
Eochaid, filho de Sâl, que a IIVOU para a sua fortaleza. Inconformado, eu fui atrás do raptor,
que morreu às minhas mãos. Entretanto, a minha mulher refugiou~se em casa de um filho do
seu irmão, Gol I, filho de Golb, cuja fortaleza se encontra no centro da Planície Agradável, e ele
não ma quer devolver. Já o combati em sete batalhas, mas em todas elas fui derrotado e não
conseguiu reaver a minha mulher. Hoje, travaremos uma batalha contra Gol I, mas são poucas
as nossas possibilidades de a vencer se não tivermos ajuda. Por isso vos venho pedir auxílio,
homens de Connaught, e estou disposto a recompensar qualquer um de vós que se junte a
mim e venha combater ao lado dos meus homens.»

Ditas estas palavras, o estranho deu meia volta e desapareceu na bruma, ficando os homens de
Connaught a contemplá-lo enquanto deixava os limites da terra firme e entrava lentamente nas
águas do lago com as quais se confundiu.

«Seria para nós uma vergonha se não ajudássemos este homem!», exclamou Loégairé.

Cinquenta guerreiros dirigiram-se então para o lugar onde tinham visto Fiachria desaparecer e,
entrando nas águas e descendo até à profundeza do lago, foram ’untar-se a ele dispostos a
ajudá-lo. Ao verem di deles uma fortaleza e, no prado, dois exércitos frente a frente, puseram-
se ao lado de Fiacima, filho de Rété, que estava na fileira da frente.

«Agora que aqui chegámos», disse Loégairé, «preparemo-nos para fazer frente ao chefe dos
cinquenta guerreiros que estão diante de nós.» «Aqui estou», disse Gol I, filho de Golb, «e
aceito o desafio que nie lançais! Lutemos, pois se é esse o vosso desejo!»

E começou logo ali uma violenta batalha, ao fim da qual Loégairé e os cinquenta homens que o
acompanhavam foram os claros vericedores, deixando caídos sobre o campo de batalha Goll e
os seus cinquenta guerreiros. Depois, avançaram e saquearam tudo o que encolitraram pela
frente. «Onde se encontra a tua mulher?», perguntou Loégairé a Fiachna. «Na fortaleza, no
meio da Planície Agradável», respondeu Fíachna, «mas tem a protegê-la um poderosíssimo
conti11gente de homens armados.» «Flca então aqui», disse Loé-airé, «enquanto eu lá vou
com os meus cinquenta homens.»

Foram então à fortaleza da Planície Agradável e viram 0 grupo numeroso de homens que a
guardava. Não se deixando intimidar, investiram contra ele e, combatendo com valentia,
abriram uma passagem que dava para o interior da fortaleza. À entrada desta Loégairé gritou:
«Nada vos pode valer! Os vossos chefes já foram mortos, e Gol I, fil, 10 180 C-1le--c-de Goib,
morreu. Estamos na disposição de lutar até vos termos morto a todos, Libertai, pois a mulher
que tendes como refém e em troca pousaremos as armas e poupar-vos-emos a vida.»

Aqueles que estavam no interior da fortaleza pediram um tempo para responder, e Loégairé
acedeu ao seu pedido. Retirou-se para ponderar e, pouco depois, a mulher saiu da fortaleza a
entoar um canto de lamento pelo facto de terem morrido tantos guerreiros por sua causa.
Loégalré pegou-lhe pela mão e conduzm-a até Fiachria que, muito contente com o sucesso
daquela aventura, convidou Loéagairé e os seus cinquenta homens para um festim na sua
residência. «Não sei como te manifestar a minha gratidão», disse Fiachria a Loegairé, «mas vou
fazer-te uma proposta: fica comigo neste país e governemo-lo em conjunto, tu e eu. Tenho
uma filha que se chama Der Greine e, se ela te agradar, poderás desposá~la.»
Mandaram chamar a rapariga, cuja beleza e belo porte muito agradaram a Loégairé. Fiacima
deu então a mão de Der Greine a Loégairé is passaram a e os da noite juntos. Por seu lado, os
cinquenta guerreiros que tinham acompanhado Loégairé tiveram cada um a sua mulher, sendo
escolhidas as mais nobres jovens do país. E todos ali permaneceram um ano inteiro.

«Nós gostávamos de ter notícias do nosso país», disse então Loégairé a Fiacima. «Permiti que
partamos.» «Se é esse o vosso desejo, não vos contrariarei», respondeu Fiachria. «Mas devo
advertir-vos de unia coisa: ’de cavalo para o vossopépsaíesm, mtearsaa»ssim que aí chegardes,
de modo algum deveis pousar os Eles foram então às cavalariças de Fiacima onde escolheram
cavalos robustos e ágeis, deixaram a fortaleza, atravessaram bosques e planícies.
Metes, e pouco depois se encontravam nas margens do Lago dos Pássaros. Ora, precisamente
naquele dia os homens de Connaught estavam leunidos num festim, e Crimthann, pai de
Loégairé, encontrava-se entre eles, Todos se lamentavam então de não terem notícias dos
homens que tinham partido no ano anterior.

Assim, quando viram Loegaire e os seus cinquenta guerreiros a dirigirem-se na sua direcção,
surgindo das profundezas do lago, ficaram todos contentes e foram recebê-los para lhes dar as
boas vindas. «Não se aproximem!», exclamou Loégairé. «Viemos aqui para nos despedirmos de
vós.» Trocaram então diversas informações sobre o ocorrido no ano em que tinham estado
separados. «Não nos deixes», pediu Crimthann, «pois no reino de Connaught tu podes ter tudo
o que desejas: ouro, prata, pastagens férteis para o gado, cavalos rápidos e as mais nobres
mulheres de toda a ilha.»

Mas nem Loégarré nem nenhum dos seus cinquenta companheiros quis ficar a viver no reino de
Connaught, e depois de se despedirem dos familiares e dos amigos, voltaram para as águas do
lago. Pouco depois, entraram na fortaleza onde Loégairé partilhava o poder com Fiachna. 11)

Este poder, entretanto, só era exercido sobre as tribos de Dana que viviam no Connaught, pois
Ailill e Maeve eram por seu lado rei e rainha dos Filhos de Mité. Segundo fora estipulado a
seguir à batalha de Tailtíu, estes últimos povoavam o território da Irlanda enquanto as tribos de
Dana se estabeleceriam nos outeiros, sob as colinas e debaixo das águas dos lagos, não
podendo as suas gentes ser vistas pelos Filhos de Milé senão quando o desejassem, pois
tinham o dom da invisibilidade. Vivendo de acordo com o que tinha sido combinado entre eles,
os dois povos mantinham excelentes relações e respeitavam-se mutuamente.

Ora, nesta época em que partilhava com Loégairé a soberania sobre as tribos de Dana que
viviam em Connaught, Fiactina tinha um hábil porqueiro chamado Rucht e este Rucht tinha uma
relação de amizade com o porqueiro das tribos de Dana que residiam no Munster, o qual, de
nome Friuch, não lhe ficava atrás em habilidade e reputação, Assim, sempre que faltavam
bolotas em Munster, Rucht convidava Friuch a levar a sua vara de porcos a Connaught e, por
seu lado, quando faltavam bolotas em Connaught, Friuch convidava Rucht para a apanha de
bolota em Munster.
Além desta entreajuda, os dois homens também costumavam encontrar-se de tempos a tempos
para fazerem jogos mágicos e de prestídigitação. Ambos eram de uma habilidade inigualável, e
as tribos de Dana procuravam saber qual deles era o melhor. Mas, como não havia vencedor
nem vencido nos torneios que realizavam, sendo de igual valor os dois concorrentes, as gentes
de Dana ficaram impacientes e acabaram por lhes impor provas susceptíveis de desequilibrar a
balança a favor de um ou de outro. «Já que sois tão fortes», disseram-lhes uin dia, «fazei, pois
com que os vossos porcos fiquem um ano sem conici - Segundo uma narrativa contida num
manuscrito do século XV, publicado com tradução inglesa por Saint O’grady, Silva Gadelica,
Dublin, 1892. Tradução francesa de Georgos Dottin na Epopeia Irlandesa, nova ed. Paris, 1980.
Veremos então qual das duas varas é a mais resistente.»

Rucht e Friuch lançaram encantamentos sobre os porcos que tinham ao seu cuidado e, ao fim
de um ano, ambas as varas tinham não só sofrido por causa da falta de comida como os porcos
de Munster tinham emagrecido tanto como os de Connaught. «Pelo mal que fizestes passar os
porcos», disseram-lhes, «ina’s vale que deixais de cuidar deles!» E a ambos foi retirada a
actividade de porqueiro.

Além de ficarem estupefactos e consternados, Rucht e Friuch não conseguiram resolver o seu
problema de saber qual deles era o mais hábil. Decidiram então mudar de forma durante um
ano e rivalizar durante este período para saber qual deles venceria melhor as dificuldades. E, de
comum acordo, tomaram a forma de corvo.

Ao longo do ano, sobrevoaram a Irlanda e enfrentaram diversas dificuldades. Mas, por muitas
lutas violentas que fizessem entre si, não havia maneira de qualquer um deles ganhar
vantagem ao outro. No dia primeiro do ano seguinte, compareceram perante a assembleia de
Munster, tendo voltado a adquirir a forma humana assim que pousaram no chão.

Foram recebidos com boas vindas e perguntaram-lhes o que tinham feito durante o ano sob a
forma de pássaros. «Na verdade», disseram eles, «não tendes motivo algum para estardes
satisfeitos e para nos desejardes as boas vindas. Obrigaste-nos a tentar demonstrar qual de
nós é o mais hábil, mas não se chegou a nenhuma conclusão. Devemos lembrar-vos que, por
causa das provas que nos impusestes, haverá muitas mortes e a Irlanda terá muitas razões
para se lamentar,»

Quiseram logo saber se eles se estavam a referir a uma guerra em particular, obtendo como
resposta: «Não o podemos dizer, mas o certo é que todos os povos desta ilha, sejam as tribos
de Dana ou os Filhos de.Milé serão vítimas do que está para acontecer. Ninguém conseguira
evitar um grande sofrimento e duras penas e o sangue dos homens correrá nos rios e nos
lagos. Agora, para satisfazer a vossa exigência e para ficarmos, a saber, qual de nós é o mais
hábil, iremos mudar de fon-ria durante mais um ano inteiro.»

E imediatamente, deixando a assembleia, foi cada um para seu lado. Um dirigiu-se para o
Shamion, onde mergulhou transformando-se ’lurfl Peixe enorme. O outro partiu para o Suir (’)
onde mergulhou e, por 1, Rio do Munster seu lado, também transformou num enorme peixe.
Depois, ambos, através dos nos, dos lagos e do mar, nadaram ao encontro um do outro.
Passaram metade do ano no Sharmon e a segunda parte no Suir, e procuraram não se ferir
nem se cansar enquanto se perseguiam mutuamente.

Um dia, estando os homens de Connaught reunidos numa assembleia nas margens do Lago dos
Pássaros, assistiram a um espectáculo extraordinário: dois peixes enormes lutavam nas aguas
com uma extrema violência, de tal modo que faíscas saíam das suas escamas que mais
pareciam espadas num combate cruel. E as faíscas, muito vivas e incandescentes, chegavam
até às nuvens.

Ao fim de lutarem sem piedade diante dos homens de Connaught durante algum tempo, os
dois peixes saíram do lago e, sobre a margem, readquiriram a forma humana, sendo
reconhecidos como os dois porqueiros. Fiachria foi então até perto deles e deu-lhes as boas
vindas. «Não nos deveis dar as boas vindas», responderam eles, «pois de nada valem as
nossas lutas, que, como pudestes ver, são terrivelmente violentas. Continuamos sem saber qual
de nós é o melhor e tomaremos agora uma nova forma para pormos à prova a nossa
habilidade.»

Após terem ficado à conversa durante algum tempo, despediram-se de Fiachria e dos homens
de Connaught e partiram cada um para seu lado. Tornaram-se então dois campeões famosos
pela sua força e resistência. Um era o campeão de Ochall, que era o rei do Outeiro de Femen,
em Munster, e o outro o campeão de Fergria, que era o rei do Outeiro de Nento-sob-as-águas,
em Connaught. Todas as campanhas levadas a cabo pelas gentes de Ochall, ficavam a cargo do
seu campeão e o mesmo acontecia em relação às campanhas realizadas pelas gentes de
Fergria em Nento-sob-as-águas. A fama dos dois campeões espalhou-se rapidamente pela Ilha
Verde, sem que alguém soubesse de onde eles tinham vindo.

Entrementes, Ochall decidiu deslocar-se com as suas gentes à assembleia que os homens de
Connaught estavam a realizar junto ao lago Raich, o cortejo de Ochall era notável: nele
seguiam sete vezes vinte carros e sete vezes vinte cavaleiros, e os cavalos, de uma única cor,
ti~ nham riscas prateadas sobre o corpo. Várias mulheres desmaiarant ao ver aquele cortejo,
pois nunca na vida tinham visto um espectáculo tão esplendoroso. Quando chegaram, os
homens de Ochall deixaram Os carros e os cavalos no prado, sem ninguém a vigiá-los.

Os homens de Connaught vieram ao seu encontro e deram-lhes as boas vindas, perguntando-


lhes depois qual era o motivo da visita. «Nós viemos», respondeu OchalI, e realizar provas
convosco «fazer jogos para vermos quem é mais forte de entre nós.» «Assim seja»,
resporideram os homens de Connaught.

D urante todo o dia se fizeram jogos no prado e ao anoitecer juntaram-se todos num festim
que durou até meio da noite. Mas, no dia seguinte, Ochall disse aos homens de Connaught:
«Estamos muito satisfeitos, mas agora eu quero que um de vós lute contra o meu campeão,
que se chama Rinn.» «Manda vir o teu campeão.» Ochall chamou Rinn, e este se Postou diante
dos homens de Connaught que, ao vê-]o, ficaram de tal modo assustados que não ousaram
desafiá-lo, convencendo-se antecipadamente que iriam ser derrotados.

Ora, naquele mesmo momento, todos viram um cortejo que se aproximava, vindo do norte.
Nele havia três vezes vinte cavalos atrelados a carros e tres vezes vinte homens que montavam
cavalos negros, parecendo que cavalgavam sobre o mar. Estavam todos mal vestidos e mal
armados, e os cavalos que montavam, magros e sujos, pareciam arrastar-se penosamente.
Perante aquele cenário tão miserável, puseram-se todos a rir, embora o cortejo tenha sido
depois muito bem recebido e tenha sido Perguntado àqueles que o compunham o que
desejavam. «Eu sou Fergria, do Outeiro de Nento-sob-as-águas», respondeu orgulhosamente o
chefe do cortejo. «Vim aqui com as minhas gentes Para competir convosco. Entre os meus
companheiros, tenho um campeão tão poderoso que duvido que alguém deseje enfrentá-lo.»
«pols bem», responderam os homens de Connaught, «outro grupo antecipou-se ao teu, o de
Ochal I, do Outeiro de Femen, e trouxe um campeão de tal forma temível que ninguém se
atreve a enfrentá-lo.» «Façamos com que lutem um contra o outro», disse Fergita.

Ao ver o campeão recém-chegado, que se chamava Faebal, a assembleia ficou aterrorizada, e


desmaiaram vinte homens de medo e de emoção. Nenhum dos homens de Connaught teria
aceitado o desafio, mas Rinn, o campeão de Ochali, ergueu-se imponente e muito seguro de si
e foi ao encontro de Faebal.

«Eu lutarei contra o teu campeão!», exclamou ele na direcção de Fergria. E, com efeito,
atiraram-se um ao outro com uma incrível ferocidade, durando o combate três dias e três no
que os sites. Tão violenta foi a luta ferimentos provocados em ambos não paravam de
aumentar, ficando os corpos todos ensanguentados e cheios de nódoas negras. Por fim tomou-
se a decisão de os separar, por se recear que pudessem morrer de exaustão. Mas, após um
breve repouso, mudaram de aspecto e metamorfoscaram-se em hediondos demónios da rio
te, e depois arremessaram-se um contra o outro dando urros medonhos. E a luta que se seguiu
durou três dias e três noites sem que jamais um ganhasse vantagem ao Outro. Mais uma vez
foram separados e adiquiriram a forma habitual, ou seja, a do dois porqueiros Rucht e Fruich.
«vejam até onde nos levou a vossa loucura», disseram então. «Quisestes que lutássemos para
pôr à prova a nossa valentia, e foi nisto que deu o desafio que nos lançastes. Porque quereis
saber qual de nós é o melhor, atraístes grandes males e penas para nós os dois, o que
acarretará grandes males para esta ilha no futuro.» «Que quereis.», perguntaram-lhes então.
«Acontece que no futuro uma guerra terrível e sangrenta se abaterá sobre esta ilha, e isto por
causa da nossa rivalidade. Como resultado dela muita dor e iniseria se espalharão pelos
guerreiros desta ilha, sejam eles das tribos de Dana ou dos Filhos de Milé. Melhor teria sido por
isso se não tivésseis incentivado a disputa entre nós doís.»
«Nesse caso», disseram os homens de Connaught, «o melhor será ficari-nos por aqui e
considerafinos que tendes gual valor. Porque não pomos um fim às disputas declarando-vos a
ambos vencedores?» «Já é demasiado tarde»,
«e jamais deixaremos de nos bater um contra o outro - responderam eles -, mas fostes vós que
qulsestes que assim fosse.»
Os dois deixaram a assembleia e desapareceram sem se saber exactamente que rumo
tomavam, transformando-se em minhocas e mergulhando nas águas. Um deles foi para a fonte
de Uaran Garan, em Cormaught, e dizia chamar-se Tumue a quem o interpelava. O outro foi
para o ribeiro do Glass Gruin, em Cualngé no Uister, e dizia chamar-se Crunniuc-

Um dia, o chefe da província do Uister chamado Maga, filho de Daré, velo banhar-se no Glass
Gruind e viu, sobre uma pedra, uiti pequeno animal colorido que parecia uma minhoca. 0
animal chamou Maga pelo seu nome, e ele, cheio de medo, quis sair dali imediatamente. «Não
te vás», disse o animal. «Tens todo o interesse em ficara conversar comigo, pois poderei dar-te
alguma informação preciosa.

«A felicidade está ao teu alcance, Maga, filho de Daré. Existe um barco cheio de tesouro nestas
terras, e ele está à tua espera no lugar em que o curso de água se lança no mar. Se não
acreditas em mim, vai ver com os teus próprios olhos.»
«0 quê?», perguntou Maga, muito espantada.
Então Maga foi ao longo do rio até ao estuário, e aí viu um barco que tinha naufragado. Como
não viu ninguém a bordo, entrou nele e descobriu que estava cheio de jóias, de taças de ouro,
e de urna grande quantidade de pedras preciosas. Depois de ter ordscunaadeoasàas, suas
oentes para recolherem o tesouro e para o levarem para in Maga voltou rio acima ao encontro
do lugar onde vira o pequeno animal. «Pois bem», disse aquele, «acreditas agora ria minha
palavra>» «Acredito», respondeu Maga. «Mas quem és tu, que tens um aspecto tão esquisito e
que me revelas coisas escondidas?» «Já ouviste falar de Rucht e de Friuch, os porquelros de
Connaught e de Munster?» «Já, e sei que a disputa entre eles nunca acabará, pois são os dois
igualmente.

«Eu sou um dos porqueihabilidosos. Mas que relação têm contigo.»

ros, embora hoje tenha esta forma e seja conhecido por Crurinitic. Vou agora dizer-te outra
coisa, Maga, filho de Daré: amanhã uma das tuas vacas virá beber água ao rio e, ao fazê-lo,
erigolir-me-á. Então ela engravidará e dará à luz um vitelo de belo porte e de cor negra que se
chamará o Moreno de CuaIngé, Fica também a saber que amanhã, na fonte do Connaught,
uma outra minhoca, parecida comigo, também será engolida por uma das vacas que pertencem
ao reino Maeve. Também esta ficará grávida e dará à luz um vitelo que, graças aos seus
magníficos cornos, se chamará o Belo Cornudo de Aé. Virá por fim do dizem que dois touros
terríveis. Os dois provocarao uma guerra os touros acabarão por se enfrentar nessa guerra, e
nenhum sobreviverá a ela. Assim concluirão as nossas provas no futuro, Maga, filho de Daré, e
isto é tudo o que te posso dizer.»

Então, o pequeno verme muito colorido desapareceu na profundeza das águas do Glass Gruind,
deixando muito pensativo e melancólico Maga, filho de Daré.

No mesmo momento, e naquele mesmo dia, a rainha Maeve foi-se refrescar à nascente de
Uaran Garan no Connaught. Nas mãos levava um vaso de bronze branco, para lhe a facilitar as
abluções. Mergulhou então o vaso na nascente e um pequeno animal que lhe pareceu uma
minhoca ficou preso dentro do recipiente. Ela ficou a examiná-lo durante algum tempo, pois
tinha uma foi-ma estranha e era multicolor, Ora, de súbito, o animal pôs-se a falar: «Rainha, tu
és poderosa e respeitada, mas um dia faltar-te-á qualquer coisa e tu entrarás numa guerra
terrível para conseguires obter aquilo que te faltar.» «Que queres tu dizer com isso, verme tão
pequeno e insigníficante?», perguntou a rainha, cheia de surpresa. «Na verdade, ao invés de
ser um verme insignificante, sou capaz de tomar todas as formas que quero. Mas o destino está
feito de tal modo que jamais encontrarei a paz enquanto for vivo. Queres saber quais foram as
formas que tomei desde que os homens da Irlanda me enfeitiçaram?» «Fala, pequeno verme. e
diz-me o que sabes.»

Ele contou-lhe então que era, a razão da disputa com o seu amigo, as metamorfoses por que
ambos tinham passado e as lutas intermináveis que tinham travado sem nunca se conseguirem
livrar delas. «Mas», disse Maeve, «quando é que tu e o teu camarada conseguireis descansar?»
«O desfecho está próximo, e tu terás nele uma palavra a dizer, ó Maeve. Fica, a saber, que,
amanhã, uma das tuas vacas virá matar a sede a esta nascente e, ao beber água, engolir-me-á.
Ela ficará grávida e dará à luz um jovem touro dotado de uns cornos tão magníficos que se
chamará o Belo Cornudo de Aé. E fica também, a saber, que no Ulster, no Glass Gruind, se
encontra neste momento uma minhoca em tudo semelhante a mim. Amanhã ela será engolida
por uma das vacas de Maga, filho de Daré, que parirá um touro negro que se chamará o
Moreno de Cualngé. E tu, rainha Maeve, desejarás esse touro, porque ele será tão soberbo e
poderoso como o Belo Cornudo de Aé. E nenhum touro da Irlanda se atreverá a mugir depois
de o Moreno de Cualgné e o Belo Cornudo de Aé o terem feito.»

Depois de pronunciar estas palavras, o pequeno verme de múltiplas cores saltou para fora do
vaso e desapareceu nas profundezas da nascente. E a rainha Maeve voltou muito pensativa
para a fortaleza de Cruachan.`I

Ao anoitecer daquele mesmo dia, Ailill e Maeve encontrava-se em casa, no interior da fortaleza,
com todos os seus parentes, a cozerem a comida no caldeirão. E tendo o rei e os seus
guerreiros feito na véspera dois prisioneiros, disse ele: «Aquele que for capaz de ir pôr o
rebento de um vime à volta do pé de um dos cativos terá uma recompensa à sua escolha.»

1 Segundo a narrativa Os dois porqueiros, contida no Livre Leinster e no manuscrito Egerton


1782, editado por Windisla, «Irishe Texte», vol. 111. Tradução francesa de Arbois de Jubainville
em Les druides e les Dietix à,forme Xanimaux. Outra tradução francesa de Ch.-J. Guyonvarc’h
em Textes rnythologiques irlandais, Rermes, 1980. Esta narrativa serve, como muitas outras, de
prólogo à célebre epopeia de La R=ia de CuaIngé, que põe à bulha os homens do 1JIster com
os outros homens da Irlanda por causa da posse do Moreno de CuaIngé.

Escura como breu estava aquela noite. Todos os homens quiseram vencer o desafio, mas todos
logo voltaram sem terem conseguido pôr o rebento de vime à volta do pé do cativo, na casa
das torturas, pois tinham muito medo dos fantasmas que rodeavam a fortaleza. Então o jovem
Néra ergueu-se e disse: «Pois bem, irei eu, e vencerei o desafio que nos lanças.» «Se assim
for», disse Allill, «terás a minha espada de punho de ouro.»
Néra envergou então uma sólida armadura e dirigiu-se para a casa onde estavam os
prisioneiros. A armadura, contudo, calu-lhe três vezes, dizendo-lhe um dos prisioneiros: «Tens
de por um prego na armadura, ou jamais ela deixará de cair no chão.» Néra pôs então um
prego na armadura e conseguiu segurá-la. «Es corajoso», disse o cativo. «Sem dúvida»,
respondeu Néra, «e isso permitir-me-á obter como prêmio a espada de punho de ouro do rei
A’1’11.» «Ouve», disse ainda o cativo, «já que és tão corajoso, põe-me às costas para que eu
possa ir beber água contigo. Eu estava cheio de sede quando para aqui me trouxeram.» «Sobe
para as minhas costas», respondeu Néra. (“Mas onde é que te hei-de levar’)” “A casa mais
próxima”.»

Ao aproximarem-se da casa mais próxima, viram-na de súbito ser cercada por uma corrente de
fogo. «Não há nada de bom para nós nesta casa», disse o cativo, «pois onde existe fogo falta a
discrição. Vamos à outra que está mais perto de nós.»

Mas quando chegaram ao pé da casa mais próxima, viram-na ser cercada por um lago. «Não
vamos a essa casa», disse o cativo. «A banheira que nela existe só deve servir para tomar
banho, para se refrescar o corpo ou para se lavar a louça depois de uma noite de sono. Vamos
a outra.»

Entraram então noutra e o cativo afirmou que aí havia com que saciar a sede, pousando-o Néra
no chão. Naquele lugar havia, com efeito, banheiras para se refrescar o corpo e para se tomar
banho, mas não havia torneiras. No meio da sala encontrava-se também uma cuba com lixívia.
Depois de ter bebido um gole de cada um dos recipientes para a água, o cativo soprou a última
gota sobre os habitantes da casa, que morreram todos, Depois disso, Néra levou o prisioneiro
para a casa das torturas.

Mas Néra viu então um cenário surpreendente: no lugar da fortaleza, estava a colina queimada
à sua frente e, entre um montão d cabeças metidas em estacas, reconheceu as cabeças de
Ailill, de Maeve de todos os seus familiares.

Entretanto, como uma multidão de guerreiros se confundia com a sonibra, ele seguiu-os até
penetrar no interior do outeiro. Uma vez aí chegados, todos aqueles homens foram mostrar ao
rei as cabeças que levavam consigo. Néra, por seu lado, deixou-se ficar prudentemente para
trás, ocultando-se. «O que é que fizestes ao homem que vos acompanhava?», perguntou-lhes o
rei. «Não lhe fizemos nada, pois não estava com os outros», eles. «Trazei-o à minha presença
para que lhe possa falar.» Trouxeram Néra à presença do rei, que lhe perguntou: «Como vieste
até aqui?» «Não o sei», respondeu Néra. «Eu segui os guerreiros que assaltaram e incendiaram
a fortaleza.» «Está bem», disse o rei, acrescentando: «Vai àquela casa onde te espera uma
mulher. Diz-lhe que eu é que te mandei ao seu encontro e traz-me todos os dias um feixe de
lenha.»

E assim foi. A mulher deu-lhe as boas vindas, e ele dormiu com ela naquela noite. E todos os
dias, desde então, ele levava um feixe de lenha à casa do rei. Mas todos os dias ele via um
cego que, carregando às costas um coxo, saía da casa do rei e se dirigia para um muro em
frente da casa. «É aqui?», perguntava o cego. «É sim», respondia o coxo, «Agora vamo-nos
embora.»

Muito espantado com aquela estranha cena, Néra acabou por perguntar à mulher o que sabia
ela àquele respeito. «O coxo e o cego vão observar a coroa que se encontra escondida no
muro», respondeu ela. «A coroa é um diadema de ouro que o rei põe durante as festas, pois é
mágica e dá poder a quem a ostenta. Esconderam-na no muro para que ninguém, a não ser o
rei, lhe possa tocar.» «Mas porque e que aqueles dois vão juntos assegurar-se de que a coroa
está sempre lá?», perguntou Néra. «A explicação é simples: como um é cego e não vê nada, e
o outro é coxo e não consegue andar, o rei fica certo de que a coroa não será furtada.» «Uma
coisa ainda me intriga», continuou Néra. «Gostava de saber o que se passou no dia em que
entrei no outeiro. Pude observar que a fortaleza de Cruachan tinha sido destruída e incendiada,
e que as gentes do teu povo mataram Ailill e Maeve, assim como todos os que lhe são
próximos.» «Isso não é exacto», respondeu a mulher. «Foi um exército de sombras que foi à
fortaleza. Mas o que viste acabará por acontecer se não puseres os teus de sobreaviso.» «Mas
como?» «Levanta-te e vai ter com eles. Eles estão sempre de volta do caldeirão, cujo conteúdo
ainda não foi comido. Diz-lhes para se manterem em guarda, na próxima noite de Samain, pois
os homens do outeiro deverão atacar nessa altura a fortaleza de Cruachan e todos os que aí se
encontrarem. O que viste ainda não aconteceu. Aconselha também Ailill e Maeve a virem atacar
o outeiro na véspera de Samain, pois há muito tempo foi profetizado que este outeiro seria
destruído por Ailill e Maeve, os quais se apoderariam da coroa do rei Bnun. Esta coroa
conceder-lhes-á a supremacia sobre todos os outros povos da Irlanda.» «1\4as eles pensarão
que estou a inventar histórias se lhes disser que vim a este outeiro», disse Néra. «Leva contigo
frutos de verão», disse a mulher. «Fica também, a saber, que estou grávida de ti e que darei
à luz um rapaz. Quando o teu povo vier destruir o outeiro, envia-me uma mensagem a avisar-
me, para que eu possa refugiar-me num abrigo, com o teu gado. E tu próprio poderás vir aqui
sempre que quiseres. Agora parte, vai ter com os teus.»

Depois de colher áleas~rosas, alho selvagem e morangos, Néra dirigiu-se para a fortaleza,
tendo a impressão de que permanecera três dias no outeiro. Ora, ao chegar a casa encontrou
aí Ailiii e Maeve, assim como os seus familiares, à volta do caldeirão. «Cumpriste, o que te
pedi?», perguntou Ailill. «Cumpri», respondeu Néra, «mas vivi aventuras muito estranhas. Fui a
um belo país onde havia grandes tesouros, pedras preciosas, ricos ornamentos, comidas muito
saborosas e bebidas inebriantes. Mas os habitantes desse país na proxima noite de Samain vêm
matar-vos e incendiar a fortaleza, a não ser que vós mesmos ides à véspera destruir o outeiro.»
«Nesse caso», disse Ailill, «nós iremos já sem falta atacá-los antes que eles nos venham atacar.
Ainda bem que fizeste esta viagem, ó Néra. Como recompensa pelo que fizeste ganharás a
espada de punho de ouro.»

Três dias antes do Samain, Ailill avisou Néra de que ele deveria ir então proteger a mulher e os
seus bens. Néra voltou então ao outeiro, e a mulher deu-lhe as boas vindas. «Vai agora a casa
do rei», disse-lhe ela, «pois eu fui lá todos os dias levar um feixe de lenha em teu lugar,
fingindo que estavas doente. E segura nos braços o teu filho.»
Néra tomou o filho nos braços, e depois foi levar um feixe de lenha à casa do rei, como se nada
tivesse acontecido. Ailill e Maeve reuniram os homens de Connaught e foram atacar o outeiro.
Depois de o destruírem, levaram consigo todas as riquezas que nele existiam. E foi assim que
Ailill e Maeve obtiveram a coroa de Briun que lhes conferiu a supremacia sobre todos os outros
povos da Irlanda.

Néra, por seu lado, voltou para o outeiro com a sua mulher, o filho é o gado, ficando aí a viver
desde então.

Naquela mesma altura, em Munster, reinava um rei chamado os filhos, Rib e Ecca. Tendo tido o
desgosto de Failbé que tinha de perder a mulher, Failbé desposara uma Jovem de grande
beleza que se chamava Ebilu. Ora, esta Ebilu andava a deitar o olho ao filho mais novo, Ecca,
por quem estava loucamente apaixonada. Ela enchia-o de atenções e manifestava por ele tanto
interesse que o rapaz acabou por perceber que aquela afeição, longe de ser a que uma mãe
tem por um filho, era antes filha do desejo.

Ecca passou então evitar encontrar-se com Ebliu, pois não queria provocar qualquer transtorno
ao pai. Muitas vezes ia a caça com os jovens da sua idade e chegava o mais tarde possível à
casa real, mas isso de nada lhe valia, pois Ebliu fazia-lhe esperas e arranjava sempre maneira
de lhe dar a entender o quanto estava apaixonada por ele. Assim, tornou-se inevitável que Ecca
se tenha deixado seduzir por Ebliu e se tenha deitado no seu leito de amor,

Durante algum tempo a relação passou despercebida a toda a gente. Mas, um dia, entrando o
rei Failbé de surpresa no quarto, viu a mulher e o filho juntos na cama. Foi tão grande a sua
mágoa e a sua dor que pensou matar os dois logo ali, mas acabou por se acalmar e ordenou-
lhes que abandonassem Munster imediatamente.

Deste modo Ecca, filho de Failbé, deixou o país do pai na companhia de Ebliu, com toda a
criadagem que o servia. E o seu irmão mais velho, Rib, que não se dava bem com o rei Failbé,
foi atrás dele.

O grupo de exilados dirigiu-se para norte, esperando encontrar aí um lugar aprazível para se
estabelecer. Mas os druidas que os aconipanhavam disseram-lhes que não era conveniente que
os dois irmãos ficassem a morar na mesma residência.

Decidiram por isso separar-se e, enquanto Ecca continuou o seu caminho para norte, Rib e as
suas gentes dirigiram-se para leste. Depois de muito errarem, descobriram um belo lugar na
planície de Arbthenn. «Eis o lugar que nos interessa», disse Rib aos seus companheiros. «Esta
bela planície rica e verdejante será excelente para a criação de gado, terá sempre alimento em
abundância. E nós poderemos saciar a sede à nossa vontade nesta fonte que brota do solo em
direcção ao ceu.»
1. Segundo a narrativa Echira Nerai (as Aventuras de Néra), conservada no manuscrito Egerton
1782, e publicada por Thurneysen em Die Irische Helden Und Konigssage. Versão francesa de i,
Markale em Les Cahiers d’Histoire el de Folklore, vol. VI, Análise e resumo em J. Markale, A
Epopeia celta da Irlanda, nova ed., Paris, 1993.

Estabeleceram- se então na planície de Arbthenn, decididos a residir aí para sempre. Mas,


naquela mesma noite, quando iam buscar água à fonte, esta transbordou bruscamente e
inundou-os a todos. E foi a partir de então que passou a haver um lago no meio da planície de
Arbthenn.

Por seu lado, Ecca, Ebliu e todas as suas gentes continuaram a dirígir-se para norte, mas não
encontraram nenhum lugar onde se estabelecer. Andaram assim durante vários dias, parando
apenas algumas horas à noite para descansarem os membros fatigados e cuidar dos cavalos
esgotados por puxarem carros muito pesados, Chegados por fim ao vale da Boyne,
encontraram-se num prado que ficava na vertente de uma colina onde se situava o outeiro de
Brug, que tinha um brilho muito incandescente ao pôr-do-sol.

«Estamos muito cansados e Ja não conseguimos andar», disse Ecca. «Fiquemos aqui, pois este
lugar é fresco e apirazível, e poderemos montar as nossas tendas no sopé da colina, abrigados
do vento.»

Começaram a instalar-se, mas no alto do outeiro, Angus, filho de Dagda, tinha estado a vê-los e
ficara furioso por os intrusos estarem a instalar-se nos seus domínios sem sequer se terem
dado ao trabalho de lhe pedir autorização. Assim, deixando a sua casa, ele veio ao encontro de
Ecca que, após lhe ter censurado a sua indelicadeza, intimou-o a partir imediatamente com as
suas gentes, pois não estava disposto a permitir que estragassem aqueles pastos puros que
cobriam a encosta. Feita a intimação, voltou para Brug.

Como caía a noite, Ecca decidiu adiar a partida, preferindo esperar pela manhã para retomar a
viagem. Montaram as tendas rapidamente e, como todos estavam fatigados, dormiram
profundamente.

Ainda estavam mergulhados no sono quando Angus apareceu no meio deles, mais furioso do
que nunca. Lançou um encantamento sobre Os cavalos de Ecca e de Ebliu, e todos os cavalos
morreram imediatamente. «Procedeste muito mal, ó filho de Dagda», disse-lhe Ecca. «Nós fião
tencionávamos prejudicar-te e estávamos apenas a descansar até de Inanhã, Pois todos nós
estamos exaustos.» «Eu não vos dei permissão para que ficásseis», gritou mac Oc. «Sois vós os
culpados por eu ter lançado um encantamento sobre os vossos cavalos para os matar. Se
terides algo a lamentar, é a vossa presunção.» «Tu procedes mal ao nos repreenderes tão
vilmente!», replicou Ecca com veemência. «Além de não respeitares os deveres de
hospitalidade, privaste-nos dos nossos cavalos. Quem é que agora nos puxara os carros com
tudo o que têm dentro?» «Vós mesmos puxareis, os carros!», respondeu Angus.
Então eles começaram a arrumar as tendas e quando tudo ficou pronto, puseram-se
corajosamente a puxar os carros. Mas como o terreno não era plano, tiveram uma grande
dificuldade para os fazer avançar, Angus observava-os a partir da sua casa, com um ar irônico,
e disposto a dar-lhes outra reprimenda se não deixassem a sua terra. Mas depois, vendo-os
fazer um esforço tão desmedido, teve pena deles, desceu a colina e foi ao seu encontro.
«Esperai!», gritou ele. «Vou dar-vos um cavalo para vos compensar dos que matei. É um cavalo
forte e poderoso que vos permitirá puxar todos os carros ao mesmo tempo.»

Angus foi a Brug e voltou de lá com uma magnífico cavalo cínzento, de pêlos brilhantes, a crina
prateada e as patas robustas e ágeis. Trazia o belo animal arreios de prata guarnecidos com
fivelas em ouro onde estavam incrustadas pedras preciosas de todas as cores. «Cedo-te este
cavalo sem pedir nada em troca», disse ele a Ecca, «mas devo prevenir-te de uma coisa. Este
cavalo não pertence a nenhuma raça que tu conheças e terás de ter o cuidado de o não deixar
nunca parar, seja dia ou noite. Não o deixes nunca descansar, pois se o fizeres, isso causará
uma grande catástrofe, a qual te será fatal a ti e aos teus.»

Os exilados, sem perda de tempo, retomaram a viagem C Viram maravilhados que o cavalo, na
verdade, puxava sozinho todos os carros sem fazer um grande esforço. Entraram no Ulster e
daí a pouco avistaram uma planície muito verdejante rodeada de colinas, a planície de Neagh.
«Eis um belo lugar para nos estabelecermos», disse Ecca. «Aqui existe erva em grande
abundância para criarmos o nosso gado, e o terreno é tão plano que não teremos dificuldade
em construir aqui as nossas casas.»

Descarregaram os carros, mas absorvidos pela tarefa, esqueceram-se de vigiar o cavalo. No


momento em que este parou uma fonte jorrou então do solo, lançando para o ar jactos de
água que se projectavam torrencialmente nos céus. Ecca lembrou-se então da advertência de
Angus e, muito perturbado com o fenómeno que provocara, mandou construir sem demora,
com pedras de grandes dimensões, uma casa à volta da fonte com uma porta que vedava o
caminho às águas torrenciais. Deste modo, a água deixou de correr e de inundar os terrenos
vízinhos, e Ecca decidiu edificar a sua própria casa perto da fonte para melhor a vigiar.

Todos puseram mãos à obra e, Ecca encarregou uma criada da sua confiança de vigiar a fonte,
ordenando-lhe que tivesse sempre a porta rigorosamente fechada, excepto quando as gentes
da fortaleza fossem buscar água à fonte”.

Construiu-se assim uma cidade ao redor da fortaleza de Ecca e este, com as suas gentes,
dedicaram-se à criação de gado que ia pastar ria erva abundante da planície onde também se
cultivava o trigo. Ebliu deu a Ecca duas filhas que se chamaram Ariu e Libane. Numerosos
chefes do Uister vieram visitar Ecca e prestaram-lhe homenagem, tendo ele tanto sucesso que
ficou soberano de metade da província. E todos elogiavam as excelentes qualidades de Ecca,
filho de Failbé.

Quando chegou à idade de casar, Ariu desposou um poeta de nome Curnan, que cheio de boa
vontade percorria o país de lés a lés recitando ou cantando profecias que pareciam desprovidas
de qualquer sentido: por esse motivo lhe chamaram Curnan, o Simples. Curnan repetia
constantemente que um dia um lago surgiria por causa da fonte, sendo por isso urgente fazer
barcos. «Veio esta planície cheia de morte e destruição», dizia ele. «Veio jatos de água a
saírem da terra, jactos impetuosos e torrenciais. Veio o nosso chefe e todos os seus hóspedes
engolidos pela fúria das águas, Também vejo Ariu, a minha amada, levada pelas vagas. Oh!,
nem sequer a posso salvar. Todos morrerão nesta planície, a excepção de Libane e de eu
proprio. Que triste destino... E vejo Libane a leste e a oeste: ela nadará muito, muito tempo no
vasto oceano, passando perto de costas misteriosas e de ilhotas obscuras, e perto de grutas
profundas imersas nas aguas. W, esta cidade desaparecerá, e só eu ficarei para chorar os que
partiram... !» Era este o lamento que Cuman o Simples constantemente entoava àqueles com
que se cruzava, mas ninguem o queria ouvir e todos lhe voltavam às costas quando o viam
aproximar-se.

Ora, um dia, a mulher que estava encarregue de vigiar a fonte esqueceu-se de fechar a porta.
Logo a água saiu da casa de pedra e invadiu a planície, formando um grande lago que se
chama Lough.

I- Outra versão da mesma narrativa atribui a aventura não a Ecca mas ao seu irmão
Rib. É Mider, o pai adoptivo de Angus, que lhe dá o cavalo, e lhe faz a mesma
advertência. Mas o cavalo põe-se a urinar tão abundantemente que Rib se vê
obrigado a fechá-lo numa casa. Trinta anos mais tarde a urina transborda e inunda
todo o país. (Revue celtique, tomo xv, segundo o manuscrito de Rermes dos
Dindsenchas, série de notas mitológicas sobre os lugares da Irlanda).
II- Neagli. Ecca, filho de Falibé, Ebilu, toda a família e todas as suas gentes foram
vítimas das águas furiosas, salvando-se apenas a sua filha Libane e o seu genro
Curnan o Simples.

Mesmo tendo sido arrastada pelas vagas, Libane conseguiu sobreviver e desceu com o seu cão
às profundezas do lago onde viveu um ano inteiro, numa gruta. Mas, ao fim de um ano, ela
cansou-se de estar presa e exprimiu o desejo de ser um salmão para poder nadar nas águas
profundas dos estuários e poder percorrer com os seus semelhantes o mar claro e verde. Com
efeito, mal ela exprimira o seu desejo, este fora satisfeito, embora o seu rosto e os seus seios
tenham mantido o aspecto dos duma donzela. (2)

Libane errou assim durante trezentos anos por todos os lagos e todos os rios da Irlanda, e
percorreu o mar profundo e encapelado junto à costa. Multas vezes ela voltava ao lago Neagh
e, aí, entoava um lamento em memória de seu pai Ecca e de toda a sua família. Depois, voltava
a partir pelos estuários e continuava as suas longas incursões por toda a Irlanda.

Ora, certo dia, estando ela num rio de águas pouco profundas, foi pescada pelo santo homem
Congal que, professando a fé de Cristo, vivia num eremitério. Congal ficou surpreendido e
maravilhado ao ver aquele ser estranho e belo, e Líbane contou-lhe os acontecimentos que
Reconhecer-se-á nesta história o tema da célebre lenda bretã da Cidade de Is, engolida pelas
vagas do mar por culpa da princesa Dahud que deu as chaves das represas que protegiam a
cidade. No País de Gales encontra-se esta tradição no caso da baía de Cardigan, estando na
origem da catástrofe o esquecimento de uma mulher encarregue de vigiar uin poço, que não
fechou uma porta, deixando assim que ele transbordasse. Pode tambérn mencionar-se a
tradição respeitante ao país de Lyonesse, engolido pelo mar ao largo de Penzance no Cornwall.
Este tema da cidade engolida pelas águas parece constante na lenda celta. Ver J. Markale, Os
Celtas e a civilização céltica, Paris, Payot, 1994 (cap. consagrado ao Mito céltico das origens) e,
sobretudo A mulher celta, Paris, Payot, 1992 (cap. consagrado à «Princesa engolida»).

2. Este ser meio-mulher meio-peixe não é uma sereia, apesar da opinião corrente: na origem,
uma sereia é, com efeito, um monstro feminino com barbatanas que, vivendo em baixios, seduz
os navegadores para os levar para o fundo. Pelo contrário Libane é o perfeito rnodelo de um
tipo melusino (ainda que Melusina tenha uma cauda de serpente e não de peixe). É preciso ter
em conta que este tema foi explorado muitas vezes pelos escultores irlandeses da Idade Média:
testemunham esse facto as representações muito misteriosas, incorrectamente chamadas
«sercias», que se podem encontrar no exterior da catedral anglicaria de Gaiway, e, sobretudo a
representação surpreendente que se encontra num contraforte, no interior da magnífica igreja
romana de Clonfert (condado de Gaiway), a qual está alétu disso colocada sob o orago de São
Brandão, o Navegador testemunhara. Quando Congal lhe perguntou se queria receber o
baptismo, ela aceitou humildemente e pediu a Deus para a acolher na paz eterna. Então ele
baptizou-a e no mesmo instante morreu Libane, filha de Ecca, que veio a ser Muirgen, a «Filha
do Mar».

Segundo a narrativa A inundação do lago Neagh, contida no Leabhar na h Uidré, manuscrito do


fim do século XI, editado com tradução inglesa por 1. 0’ Beirne-Crowe em Ki1kenny
Archaeological Journal, Kilkenny, 1870. Outra tradução inglesa de P. W, Jiyce em Old Celtíc
romances, Dublin, 1879.

Aquele tempo havia um jovem herói chamado Fraech, que era o homem mais belo de toda a
Irlanda e Bretanha. Tinha por pai Idach de Connaught e por mãe Befinn, irmã de Boann, das
tribos de Dana. 13efinn oferecera-lhe dez vacas feéricas, brancas e com orelhas vermelhas, e
que produziam leite em grande abundância. Na casa onde vivia encontravam-se cinquenta
filhos de reis, todos da mesma idade, com a mesma estatura e o mesmo aspecto que ele, e
encontravam-se também três harpistas muito talentosos. A fortuna de Fraech era imensa, e a
sua reputação estendia-se muito para além do Connaught.

Acontece que Finnabair, filha de Ailill e de Maeve, que reinavam então naquela província, de
tanto ouvir falar nas excelentes qualidades de Fraech, se apaixonou por ele sem nunca o ter
visto. Tendo chegado aos ouvidos de Fraech as pretensões da jovem em relação à sua pessoa,
ele decidiu então ir conhecê-la. A este respeito falou com as suas gentes, que lhe deram todo o
apoio. «Mas», acrescentaram elas, «antes de ires para casa de Ailill e de Maeve, vai falar com a
irmã da tua mãe e pede-lhe para te dar presentes feéricos.»

Fraech foi então à residência desta última, que se chamava BoaDn e o recebeu com
benevolência, dando-lhe o que ele lhe pediu: cinquenta capas, azuis como as costas de um
escaravelho, que estavam ornadas com broches vermelhos, cinquenta túnicas brancas com
adornos de aniinais em ouro e prata, cinquenta broquéis de prata com orlas vermelhas
salientes, pedras preciosas que brilhavam à noite como raios de sol, e cinquenta espadas de
punho de ouro. Da casa de Boann, ele trouxe também cinquenta cavalos que tinham como
pendentes do pescoço sinetas de ouro, e exibiam caparazões de púrpura, arreios de ouro e de
prata decorados com figuras de animais e munidos de cinquenta chicotes em latão branco que
tinham na ponta colchetes de ouro; trouxe ainda sete cães de caça equipados com correntes
prateadas, sete tocadores de trompa de cabelos longos dourados, vestidos com túnicas
multicolores e com mantos brilhantes, e seguiam o grupo três druidas coroados com díademas
de prata revestidos a ouro.

Quando se aproximavam de Cruachan onde residiam Ailill e Maeve, a’sentinela que estava na
torre da fortaleza viu-os desembocar na planície e foi anunciar ao rei e à rainha, aos gritos:
«Vem ao nosso encontro uma companhia como nunca se viu desde que reinais sobre
Connaught. Juro pelo deus protector da minha tribo que jamais se viu companhia tão brilhante
e rica: vêm com tal ligeireza e com tal aparato que nunca vi nada igual! Quanto aos
malabarismos e às habilidades que exibe o jovem que se encontra no meio da companhia,
ultrapassam tudo o que se possa imaginar: ele atira o dardo para a frente e, antes que a arma
atinja o solo, sete cães com correntes de prata seguram-na em pleno ar.»

Ao ouvirem tão grande elogio, as gentes que se encontravam na fortaleza de Cruachan


precipitaram-se para as muralhas para poderem ver o grupo que se aproximava, e foi tal a
pressa e a sofreguidão que várias pessoas ficaram esmagadas, tendo morrido dezasseis.
Depois, o espectáculo que todos viram foi impressionante: os membros do grupo deixaram os
cavalos soltos pelo prado e libertaram os caes que, começando a correr velozmente, num
instante, às vistas das muralhas de Cruachan, caçaram sete gamos e sete raposas. Depois, os
cães partiram para um pântano e trouxeram de lá sete lontras que depositarafil à porta das
muralhas. Então, os membros do grupo sentaram-se na erva fresca e ficaram à espera.

Foram da parte de Ailill e de Maeve perguntar-lhes quem eram e de onde vinham, e


responderam que Fraech, filho de Idach, desejava visitá-los. Disso foram então avisados o rei e
a rainha, dizendo Aílill: «Sejam bem vindos, com todo o vosso séquito!»

Fizeram-nos entrar e foi-lhes dada uma casa para repousarerfl. Nela encontraram, da lareira ao
muro, sete leitos dourados com uni frontão de bronze e divisórias de teixo vermelho à volta dos
quaís corriam cintas de bronze. Sete cintas de cobre partiam tambéli, do caldeirão até ao teto
da casa. Esta feita de abeto era coberta com ripas e tinha dezesseis janelas com caixilhos em
cobre. Um caixilho de prata, e a seguir um frontão, uniam as travessas da casa e cercavam-na
de uma porta à outra.

Após dependurarem as armas nas paredes da casa, Fraech e os seus companheiros começaram
a retirar pedras preciosas das suas arcas. E quando Ailill e Maeve vieram cumprimentá-los e
dar-lhes as boas vindas, falaram de diversos assuntos durante bastante tempo, dizendo-lhes
depois a rainha: «É meu desejo jogar xadrez com este jovem.» «Pois bem, se o desejas, que se
faça a tua vontade», concordou o rei, «mas entretanto seria bom que se fosse preparando uma
refeição para os nossos hóspedes.»

Trouxeram um jogo de xadrez. O tabuleiro era esplêndido, todo em bronze branco, com os
cantos em ouro, e as peças eram de ouro e de prata. Maeve começou a jogar com Fraech e,
enquanto decorria a partída, as gentes da casa coziam os alimentos. «Diz agora aos teus
harpistas para nos tocarem qualquer coisa», disse Ailill a Fraech, e este ordenou aos harpistas:
«Começai a tocar.»

As harpas estavam guardadas em sacos de pele de lontra, debruados a couro escarlate com
ouro e prata incrustados. As harpas eram de ouro, de prata e de bronze branco tendo em
relevo as figuras de pássaros e de cães. Quando se tocava nas cordas, as figuras corriam às
voltas ao redor dos homens. Os harpistas começaram a beliscar as cordas, e provocaram um tal
sofrimento e uma tristeza tão grande que morreram doze homens da casa de Ailill e de Maeve.

Estes músicos, excelentes melodistas, eram irmãos, e chamavam-se Lamuriento, Risonho e


Adorrnecedor. Eram assim chamados de acordo com as diferentes melodias que tocara a harpa
de Dagda em honra deles. Com efeito, aquela, quando do nascimento deles, tinha provocado
tristeza quando das primeiras dores da mae, provocara sorrisos e regozijo com o parto dos dois
primeiros filhos, mas induzira ao sono quando do nascimento do terceiro, pois o trabalho de
parto foi rtluito penoso e a mãe adormeceu. Quando esta acordou, quis comemorar o que
sentira durante os seus partos.

Quanto a Maeve e a Fraech, jogaram xadrez durante três dias e três Iloites, sem sequer darem
pela escuridão, pois as pedras preciosas da lareira encontra-se no centro da sala, saindo o fumo
por uma abertura feita no teto desprendia-se uma luz muito suave. Por fim, Fraech levantou-se.
«Basta», disse ele, «que já ganhei esta partida, seja qual for a jogada que fizeres a seguir. E
não fiques aborrecida se te pedir para deixarmos de jogar.» «Desde que te encontras nesta
casa», respondeu Maeve, «nunca os dias me pareceram tão compridos!» «Não admira»,
replicou Fraech, «estamos a jogar há três dias e três noites! »

Maeve ergueu-se, envergonhada por ter deixado os jovens sem comer, mas disseram-lhe que
eles tinham sido servidos com grande fartura. Então, ela pediu que lhes dessem ainda mais
comidas e bebidas, para que se saciassem. Depois, Aíli11 e ela chamaram Fraech à parte e
perguntaram-lhe qual era o motivo que o tinha levado a Cruachan. «Eu queria visitar-vos»,
respondeu Fraech. «E uma grande honra para nós», disse Ailill, «e estamos muito felizes por te
conhecermos. Fica, a saber, que gostamos muito de te ter aqui connosco.» «Nesse caso ficarei
convosco uma semana», disse Fraech.

Assim, durante uma semana ele ficou alojado na fortaleza de Cruachan e os seus companheiros
iam caçar todos os dias e traziam caça em abundância, vindo visItá-los as gentes de
Connauglit. Mas Fraech estava muito aborrecido por não ter encontrado Firmabair, pois viajara
por causa dela, estranhando que Ailill e Maeve não lha tivessem apresentado.
Ora, uma manhã, Fraech levantara-se logo aos primeiros raios de sol e, quando foi ao pátio
lavar-se na fonte, viu Finnabair tomar a mesma direcção na companhia de uma criada.
Imediatamente ele tomou-lhe as mãos e disse-lhe: «Vem falar comigo, pois se aqui me
encontro é por tua causa.» «Eu sei», respondeu ela, «e ficaria muito feliz na tua companhia,
mas isso não é possível. O meu pai e a minha mãe pediram-me que me escondesse de tI»
«Aceitas fugir comigo?», perguntou Fraech. «Isso seria uma atitude insensata, pois sou filha de
um rei e de uma rainha. Quero, no entanto que saibas que Isso não significa desprezo por ti,
pois a tua riqueza e a tua reputação são suficientes para que a minha família consentisse em
obteres a minha mão. Além disso, era contigo que eu preferia ficar, pois te amo desde que
comecei a ouvir falar de ti. Toma este anel, que servirá para nos manter unido. A minha mãe
deu-me para o guardar, e se perguntar porque não o trago comigo direi que o perdi.»

Separaram-se logo em seguida, mas Ailill e Maeve foram prevenidos de que a sua filha se
encontrara com Fraech. «Receio muito», disse o rei, «que a nossa filha fuja com esse jovem.»
«Poderíamos dar-lhe a nossa filha com todas as honras na condição de ele aceitar dar um bom
dote e se se comprometer a acompanhar-nos quando tivermos de fazer uma expedição
guerreira.» Naquele mesmo momento, Fraech entrou em casa. «A vossa conversa é secreta’?»,
perguntou ele. «Se o fosse, não poderias nela participar», respondeu Allifi. «Gostaríamos que
nos dissesses o que desejas.» «Nesse caso, serei lesto a dizer-vos o que dese-jo», disse
Fraech, que perguntou em seguida: «Quereis dar-me a mão da vossa filha.»

Ailill e Maeve entreolharam-se muito sérios.

«Nós dar-te-ernos a sua mão», afirmou Ailill, «desde que aceites dar-nos o dote que te pedir.»
«O que desejas então?» «Três vintenas de cavalos de cor acinzentada, com freios em ouro e
prata, doze vacas leiteiras com capacidade para darem leite, cada uma delas, a cinquenta
pessoas, e tendo cada uma delas um veado branco com orelhas encarnadas. Peço-te também
que jures que nos acompanharás sempre que de ti necessitarmos numa expedição guerreira.
Caso aceites as nossas condições, a nossa filha será tua.» «Pela minha espada e pelas minhas
arrnas!», exclamou Fraech, «nem mesmo a Maeve de Cruachan eu darei um tal dote!» E, irado,
deixou-os e abandonou a casa.

Ailill e Maeve retomaram a conversa. «A situação agravou-se», disse Ailill, «pois agora ele é
capaz de levar a nossa filha à força, o que nos encherá de vergonha e de desonra perante os
reis e os nobres da Irlanda. A meu ver, mais vale que acabemos com ele antes que nos deixe
ficar mal.» «Isso não seriajusto», disse Maeve, «pois ele é nosso hóspede, e temos o dever de
lhe prestar assistência e de o proteger. Matá-lo só serviria para nos desonrar.» «Eu agirei de tal
forma», disse Ailili, «que evitarei que a desonra caia sobre nós.»

Os dois imediatamente saíram da fortaleza e viram os cães na caça. Estava-se a meio da tarde
e os caçadores dirigiam-se para o lago para se refrescarem, seguIndo-os Affill e Maeve.
«Disseram-me», disse Ailill a Fraech, «que és um nadador excelente. Mergulha no lago para
que possamos admirar o teu talento.» «Como é o lago?», perguntou Fraech. «E igual aos
outros», respondeu Ailifi. «Não tem nenhuns perigos e nele é frequente tomarem~se banhos.»
Deixando o cinto na margem. Fraech despiu-se e mergulhou nas águas Ailill aproximou-se,
baixou-se, pegou no cinto, abriu a bolsa que estava dele pendente, onde descobriu o anel de
Finnabair, e reconhecendo-o imediatamente, atirou-o com um gesto brusco para um lugar
distante do lago.
Entretanto, Fraech, sem nunca deixar de nadar, estivera sempre, a observar aquela cena.
Seguiu o anel com os olhos e viu um salmão saltar para fora da água e engoli-lo, Sem perder
tempo, precipitou-Se para o peixe, agarrou nele, transportou-o para terra e pô-lo num lugar
escondido da margem, no meio dum canavial. Depois, quando se preparava para sair do lago,
gritou-lhe Ailill: «Um instante! Vês aquela sorveira, naquele lado do lago? Acho muito bonitas as
suas bagas. Antes de vires ter connosco, vai lá e traz-me um ramo.»

Fraech nadou até ao outro lado do lago, chegou perto da sorveira, arrancou-lhe um ramo, e
transportando-a sobre um ombro, nadou de volta ao encontro do rei. Enquanto isto acontecia,
Finnabair aproximara-se do lago e estivera a apreciar os movimentos muito belos e ágeis de
Fraech a nadar: nunca ela vira um corpo tão branco, com uma cabeleira preta tão harmoniosa,
e um rosto tão delicado, com os olhos azuis e os lábios bem vermelhos. O coração acelerou-se-
lhe e pôs-se a sonhar.

Entretanto, Fraech aproximou-se da margem e arremessou o ramo da sorveira aos pés de Ailifi.
«Estas bagas são magníficas!», gritou ele. «Nunca eu vi bagas iguais a estas. Peço-te, Fraech,
que nos vás buscar outro ramo.»

Fraech deu meia volta e começou a atravessar o lago. Mas, quando chegou a meio, sentiu que,
vindo do fundo, um monstro o estava a atacar. «Atirem-me a espada!», bramiu ele, «Estou a
ser atacado por um monstro!»

Mas, com medo de Ailill e de Maeve, ninguém se atreveu a atirar-lhe uma arma. Então,
Finnabair despiu-se num abrir e fechar de olhos a atirou-se às águas com a espada de Fraech.
Ao ver a filha ter aquela atitude, Ailill disparou contra ela um dardo de cinco pontas. 0 dardo
atravessou as duas tranças da rapariga, mas Fraech agarrou-o com a mão direita e voltou-o
contra Ailill com uma tal precisão que a seta atravessou o vestido púrpura do rei. Finnabair
estendeu então a espada para Fraech, que exclamou: «ó Finnabair, tu és mesmo a branca
aparição que me vem salvar!»

De posse da espada, Fraech cortou logo a cabeça do monstro e arremessou-a para a margem.
Estava, no entanto exausto, com o corpo branco cheio de feridas, ordenando Ailill que o
transportassem para a fortaleza.

1. É este o sentido do nome gaéíico Finnabair, o equivalente estrito do galês Gwenhw’f’af, ou


seja, Guenievre, a esposa do rei Artur.

«Curem-no!», gritou ele, «e preparem-lhe uns banhos para que possa lavar as feridas. Dêem-
lhe também um caldo para que se possa recompor.» Disse depois para Maeve: «Eu não deveria
ter procedido daquela maneira, pois o rapaz não tem culpa nenhuma e, além disso, ele
demonstrou multa coragem. Estou arrependido de ter procedido tão mal. Quanto à nossa filha,
traiu-nos levando-lhe a espada. Os seus lábios calar-se-ão antes de amanhã à noite, pois já não
é possível tolerar tanta audácia e presunção.»

Entraram depois na fortaleza. Fraech estava a tomar banho, havendo mulheres à sua volta a
esfregarem-no e a lavarem-lhe a cabeça. Deram-lhe a beber um caldo, depois retiraram-no da
banheira e deitaram-Do numa boa cama.

Naquele mesmo instante, ouviu-se um grande lamento que se espalhou por toda a Cruachan, e
viu-se de seguida no prado três cinquentenas de mulheres vestidas com túnicas de purpura,
com a cabeça coberta com toucados e trazendo nos pulsos braceletes de prata. Logo alguém
foi mandado perguntar-lhes por que se lamentavam daquela maneira e quem eram. «Nós
lamentamo-nos por causa de Fraech, o filho de Idacha e de Befinn de quem é o filho favorito, e
o jovem mais amado de todas as tribos de Dana.»

Fraech, que ouvira o lamento, pediu para o deixarem ir ao encontro daquelas mulheres.
«Reconheço entre os lamentos o da minha mãe e das mulheres de Boan», disse ele.
Transportaram-no então para o prado, no exterior da fortaleza, e logo que o viram, as mulheres
rodearam-no e levaram-no, desaparecendo na bruma que repentinamente se levantara e que
cobria Cruachan.

Mas, no dia seguinte, quando a tarde ia a meio, viram Fraech voltar na companhia das
cinquenta mulheres. Estava curado de todas as feridas e já vencera a fatiga. As mulheres que o
acompanhavam eram todas da mesma idade, da mesma estatura, igualmente belas, e tinham
um aspecto feérico, não sendo possível distinguir umas das Outras. Pouco faltou para que as
pessoas morressem esmagadas, tal foi a precipitação quando quiseram contemplá-las de perto.
Elas deixaram Fraech à porta do pátio principal e, depois de se despedirem dele, regressaram
pelo mesmo caminho por onde tinham vindo. Mas como, ao afastarem-se, elas continuaram a
entoar o lamento com um sentimento profundo, todas as pessoas que se encontravam naquele
momento ’10 Pátio ficaram loucas. E é desta história que provém o «Lamento dos músicos da
Irlanda e das Fadas», muito conhecido de todos entrou imediatamente na casa de Ailill e de M
e implantou-se toda a assembleia para o acolher e para lhe dar as boas vindas, parecendo que
ele vinha de outro rnundo. O rei - a rainha também se levantaram e exprimiram o seu
arrependimento, pedindo-lhe desculpas pelo que lhe tinham feito. Ele, por seu lado, saudou-os
e fez as pazes com eles, começando-se depois os festejos Fraech mandou chamar um jovem do
seu Grupo Entretanto e disse-lhe «Vai à margem do lago, a um lugar onde eu estive no meio de
um canavial e onde deixei um salmão, Leva-o a Finnabair e pede-lhe para o preparar e para o
cozer bem. Diz-lhe também que o anel se encontra no interior do peixe. Creio que ele nos
poderá ser muito útil esta noite.»

Ailill e Maeve, comprazendo-se com a música e a bebida, não tardaram a ficar embriagado.
Então, o rei pediu ao seu intendente para lhe trazer as suas jóias, que foram, expostas à sua
frente.
«Que maravilha!», exclamaram os convidados. «Nunca vimos uma riqueza igual!» Ailill ordenou
então: «Mandem vir Finnabair!» ouro, Finnabair. Pouco depois, exibindo um vestido debruado a
disse apresentou-se perante o pai e toda a assembleia. «Minha flha», disse-lhe o rei, «onde
está o anel que a tua mãe te deu rio ano passado para o guardares? Ainda o tens? Se o tiveres,
traz-mo para que todos possam admirar a sua beleza.» «Não sei onde ele está», respondeu
Finnabiar. «Nesse caso», replicou Aiiiii, «vai procurá-lo. Se o não encontrares, juro-te que te
faço a alma sair do corpo!» «Isso não é justo!», Protestaram os presentes. «Tens aqui riquezas
suficientes para que nem dês pela falta do anel.» «Estou disposto a dar à tua filha objectos
Preciosos como esse», interveio Fraech, «pois ela salvou-me a vida, e estou-lhe muito grato por
isso.» «Não insistas», disse Ailifl. « Se ela não trouxer o anel que lhe peço, nenhumajóia que
lhe dês a poderá salvaf-» «Assim ou procurá-lo.» «Não1», gritou Ailiii. 1F-u sendo», disse
Finnabair.
1. Este Lamento das Fadas, é, com efeito, um dos mais antigos cantos tradicionais e mantétn-
se enraizado entre todas as classes do povo irlandês, ou seja, ao sidh, o outro mundo.

2. É este o caso: Fraech foi levado ao país das Fadas que se referem, a outeiros megalíticos.
Nas outras narrativas que se supõe existir sob os acham está constrailifl e a Maeve, tudo leva a
pensar que a sua fortaleza de Cru e de onda qualquer sobre um coim, no qual é Possível errar
em certas ocasiões, momento pode surgir o povo feérico para se misturar com os humanos sei
muito bem que se deixares esta sala desapareces da minha vista para sempre. Se pensares que
escapas assim tão facilmente, enganas-te. Mas permito que mandes alguém procurá-lo em teu
lugar.»

Finnabair incumbiu então a sua criada daquela tarefa. «Eu juro pelo deus protector da minha
tfibo», disse Finnabaír, «que se o anel for encontrado, não ficarei nem mais um minuto em teu
poder, e que farei a partir de então o que muito bem entenderl» «Se se encontrar o anel»,
exclamou Ailifi, «serás livre até de te encontrares com o rapaz das cavalariças.»

Naquele momento, a criada entrou com um prato nas mãos. No prato todos viram um salmão
bem temperado e cozido, condimentado com mel e especiarias, estando o anel de ouro sobre o
salmão. Ailill e Maeve olharam-no muito espantados, e depois olharam para Fraech, que levou a
mão ao cinto. «Parece-me», disse ele, «que quando mergulhei no lago, a teu pedido, deixei o
cinto na margem. No cinto havia uma bolsa pendente e dentro dela estava este anel. Se
realmente tens ainda uma réstia de decência, Ailill, diz-nos o que fizeste ao anel.» 0 rei
defendeu-se o melhor que pôde, muito embaraçado:

«Este anel pertencia-me e dei-o a Finnabair, mas soube que ela to tinha dado. Foi por isso que,
quando mergulhaste no lago, o tirei da tua bolsa e o atirei à água. 0 que me espanta é vê1o
aqui. Por tua honra, ó Fraech, explica-nos este prodígío, » «É muito simples... », respondeu
Fraech. «Ao dar-me este anel, a tua =, filha ficou comprometida comigo, o que te deixou
incomodado. Enquanto nadava, vi-te pegar nele e atirá-lo à água, e vi depois o salmão engoli-
lo. Nessa altura agarrei o salmão e escondi-o na margem, de forma dissimulada. Ainda há
pouco, antes do festim, mandei buscá-lo para o dar à tua filha e foi ela que, ao mandar cozer o
salmão, descobriu o anel. Assim se explica que ele esteja agora perante ti.»
Aílill, terrivelmente perturbado, olhou para Maeve que se mantinha calada, e depois fixou o
olhar em Fraech sem ser capaz de falar. «Rei Ailill», continuou Fraech, «todos os que estão
aqui presentes ouviram as palavras que pronunciaste ainda há pouco. Tu disseste que, se o
anel fosse encontrado, ela poderia partir, nem que fosse com o moço das cavalariças, segundo
as tuas próprias palavras.» «Tu sabes muito bem», exclamou Finnabair, «que só a ti trago no
coração!» «Pelos vistos», suspirou Ailill, «tenho mesmo de te dar a minha filha. Exigir-te-ei, no
entanto uma única coisa: que jures acompanhar-nos em todas as expedições guerreiras em que
necessitemos da tua ajuda.»

Fraech ficou assim na fortaleza de Cruachan e dormiu com a donzela. Na manhã seguinte,
despediu-se do rei e da rainha de Connaught e, com todas as suas gentes e Finnabair,
regressou para a sua residência.

Pouco tempo depois, a pedido de Ailill e de Maeve, ele veio ajudá-los numa expedição
guerreira. Mas, logo que regressou, soube que lhe tinham roubado as vacas e que a sua mulher
desaparecera. Foi a mae que lhe velo anunciar: «A tua ausência não foi nada feliz, pois
provocar-te-a um grande sofrimento. Roubaram as tuas vacas e levaram Finnabaír. Três das
tuas vacas estão na Escócia do norte, no território dos Pictos. E as outras, assim como a tua
mulher, estão nas montanhas dos Alpes.(’) «Eu vou à procura dela!», exclamou Fraech. «Não
vás!», disse a mãe, «pois se o fizeres a tua vida correrá um grande perigo. Eu dar-te-ei outras
vacas.» «Mas, e Firinabair?» «Na Irlanda há mulheres tão belas e nobres como ela e eu própria
me encarregarei de te arranjar uma que te convenha.» «Não me interessa o que dizes», disse
Fraech, «pois de qualquer modo partirei em busca de Finnabair e das minhas vacas.»

Deixou então a mãe e, acompanhado de três novenas de homens, de um falcão e de um cão


puxado pela trela, pôs-se a caminho e chegou à província do Uister, onde encontrou Conall
Cemach com quem fez amizade. Disse-lhe este, acompanhando-o na sua demanda: «A tua
missão está condenada ao fracasso, pois prevejo que terás de passar por muitos tormentos e
por muito sofrimento.» «Acompanhar-me-ás, seja qual for o perigo?», perguntou Fraech.
«Nunca recusei ajuda a um amigo», respondeu Conall. «Acompanhar-te-ei para onde quer que
vás.»

Juntos atravessaram então o mar e o norte da ilha da Bretanha entraram no mar de Wight,
erraram muito tempo na Gália e por fim avistaram as montanhas dos Alpes. Quando aí
chegaram, viram uma rapariga que pastava carneiros.

«Vamos falar-lhe», disse ConalI, «enquanto as nossas gentes esperam aqui por nós. Sem
dúvida, ela poderá prestar-nos informações sobre Este país.» Foram então falar a rapariga que,
ao saber que eles vinham da Irlanda, começou a chorar. «Porque choras?», perguntou Fraech.
«A minha mãe veio da Irlanda, tal como vos», respondeu ela, «mas podeis ter a certeza de que
não está cá de sua livre vontade. Estais num país horroroso e terrível, povoado por jovens
guerreiros cruéis e traiçoeiros que andam por todo o lado a roubar tesouros, vacas e
mulheres.» «Qual foi a última coisa que roubaram?», perguntou ConaIl. «Eles roubaram a
mulher e as vacas de Fraech, filho de Idach, de Connauhgt, na Irlanda. A mulher encontra-se
na fortaleza que existe lá em cima, e as vacas vão agora pastar para a encosta da montanha.»
«0 que e que nos aconselhas?», perguntou Fraech. «Penso que devereis ir-vos encontrar com
aquela mulher que está a levar as vacas a pastar. Dizei-lhe por que estais aqui e ela, que veio
da Irlanda, saberá aconselhar-vos melhor do que eu.»

1. Como nas narrativas dos Dois Porqueiros e das Aventuras de Néra, esta Cortesã de Finnabair
constitui um dos numerosos prólogos da célebre epopeia da Razzia des Boenfs de Cualngé.
Nesta Fraech participará e morrerá às mãos do herói Couhoulinn.

2. As narrativas irlandesas incluem sempre um jogo de palavras entre os Alpes, o nome Alba,
que designa Grã-Bretanha.

3. Este Conall Cernach é uma das principais personagens do ciclo épico do UIster. Cornpanheiro
de armas do herói Couhoulinn, será também um dos protagonistas da Razzia des Boeufs de
Cualngé. Numerosas narrativas mostram-no a intervir nas circunstâncias mais diversas.

Apressando-se, Fraech e Conall foram então ao encontro da mulher que tomava conta das
vacas na encosta da montanha. Ela deu-lhes as boas vindas e perguntou-lhes de onde vinham:
«Nós vimos da Irlanda», respondeu Fraech, «e queremos resgatar a mulher que está na
fortaleza, assim como as vacas que nos foram furtadas. Sabes como havemos de entrar
naquele lugar?»

Ouvindo aquelas palavras, a mulher deu três gritos de lamento. «Ah», exclamou em seguida,
«é o infortúnio que vos traz a este país. A fortaleza está guardada por uma serpente
monstruosa que só deixa entrar quem conhece. Aos estranhos ela devora sem piedade, jamais
tendo escapado alguém com vida. Mas quem sois vós afinal, tão temerários ao ponto de
acreditardes que podeis entrar na fortaleza?» «Este é Fraech, filho de Idach, de Connaught, e
eu sou Conall Cernach, companheiro do Ramo Vennelho(”, no Ulster. Finnabair, filha de Affil e
de Maeve, é a Prisioneira que está na fortaleza, e as vacas dadas a Fraech pela sua mãe,
Befinn, das tribos de Dana, estão no meio dessas que guardas.»

Ao ouvir aquelas palavras, a mulher não se conteve e, pondo os braços à volta do pescoço de
Fraech, manifestou uma enorme alegria. «Que se passa?», perguntou Conal, muito
surpreendido com aquele comportamento, «Eu vou explicar-vos», respondeu ela. «Se estou tão
feliz, é porque está próxima a hora em que a fortaleza será destruída.

I. Espécie de fraternidade guerreira do Ulster que, agrupada ao redor do rei Conor


(Conchobar mae Nessa,) fazia as suas reuniões numa casa chamada «Ramo
Vermelho», onde estavam expostos os troféus conquistados nas batalhas.
II. Com efeito, circula pelo país uma profecia que diz que tu deverás pôr um teimo
aos nossos infortúnios. Segundo essa profecia, bastar-te-á apertar o cinto à volta da
cabeça da serpente para que esta adormeça imediatamente.» «Isso é mesmo
verdade?», admirou-se Conall. «Nesse caso, não percamos tempo.» «Esperai», disse
a mulher, «pois os guerreiros que guardam a fortaleza são tão perigosos como a
serpente. E melhor esperar pela noite. Vou para minha casa mas, esta noite, não
mungirei as vacas, e farei de conta que as vitelas precisam de mamar toda a noite.
Deixarei a porta entreaberta, pois sou sempre eu que a fecho todos os dias antes de
cair a noite. Vós entrareis assim na fortaleza assim que os guardas estiverem a
dormir e em seguida fareis o que muito bem entenderdes.»

Esperaram então que a noite caísse e foram para a porta da fortaleza. A serpente, com um pulo
medonho, atirou-se a eles, mas Conall teve tempo de lhe apertar a cabeça com o cinto,
adormecerido-a. Então avançaram, mataram os guardas, libertaram Finnabair e fugiram
levando as jóias mais preciosas que encontraram na fortaleza, Atearam um grande fogo cuja
luz se propagou por toda a montanha, e partiram apos reunirem as vacas de Fraech. Em
seguida, não demoraram a chegar a um porto e partiram por mar com Finnabair e as vacas que
13efirin dera a seu filho.

No entanto, faltavam três e por esse motivo se dirigiram para o território dos pietos do norte,
na Escócia. Após passarem por grandes dificuldades, conseguiram encontrar o lugar onde se
encontravam as vacas, apoderaram-se delas e saquearam a fortaleza do que as roubara. Feito
isso, dirigiram-se para a costa e navegaram até às costas da Irlanda, onde aportaram num
lugar chamado Bennchur.

Nessa altura, após terem renovado o seu juramento de amizade, Fracch e Conall Cernach
separaram-se. CoDall voltou para a sua fortaleza, e Fraech, na companhia de Finnabair,
atravessou a ilha com o seu gado e dirigiu-se para sua casa onde ja ninguem o esperava”.

Segundo a narrativa intitulada Tain bô Fraich (Raz ia des boeuft de Fraech) e contida no
manuscrito XL, guardado na Biblioteca dos advogados de Edimburgo, e que data do séculO XVI,
editado com tradução inglesa de A. - 0. Anderscr) na Revue celtique, tomo XX1V (1903).
Tradução francesa de Georges Dottin, em Lépopée irlandaise, Paris, 1980.

Capítulo 4

Um belo dia do início do Verão, Bran, filho de Fébal, andava a passear sozinho pelos campos
que se estendiam em frente da sua fortaleza. Estava um dia de sol e soprava uma ligeira brisa.
De súbito, Bran ouviu uma música vinda de trás de si. Voltou-se para saber quem estava a
tocar mas, assim que se voltou, a mesma música continuou a ouvir-se nas suas costas. Isto
durou al um tempo, até que, embalado pela extrema melodia e harmonia daquela música, ele
deitou-se na relva e adormeceu.
Quando despertou, Bran viu perto de si um ramo duma macieira com flores brancas que não se
distinguia facilmente de outros ramos, e levou-o para a fortaleza. Quando os Filhos de Milé
chegaram à sala onde se ia realizar o festim, uma mulher apareceu vestida com um traje muito
leve. Avançando para Bran, ela começou a cantar:

«Eis um ramo da macieira de Emain”1 que te trago, semelhante aos outros. Ele tem ramos
menores de prata branca e sobrancelhas de cristal conifiores. Ela vem duma ilha longínqua ao
redor da qual brilham os cavalos marinhos viajando na espuma das ondas.
Trata-se de um dos nomes gaélicos da Terra das Fadas, que corresponde à ilha de Avalon da
lenda arturiana, Quatro colunas suportam esta ilha, são quatro colunas de bronze que brilham
ao longo dos séculos no mundo, num lugar onde brotam numerosas flores.
É uma terra de bondade e de beleza onde abundam os cristais e as pedras preciosas.
O mar arremessa a vaga contra a terra e nela deposita os cabelos de cristal da sua crina. Aqui
não se conhece a dor nem a perfidia:
Nem mágoa, nem desgosto, nem morte, nem doença, nem fraqueza, pois vive-se sob o signo
de Emain, Beleza de uma terra maravilhosa Onde tudo é maravilhoso e onde a bruma não tem
igual ... »

Assim que terminou o canto, a desconhecida afastou-se, e ninguém soube para onde ela foi.
Mas levava com ela o ramo da macieira, que por si mesmo saltara das mãos de Bran para as
dela sem que ele o conseguisse evitar, Bran ficou muito impressionado pelo que acontecera, e
ocorriam-lhe ao espírito, sem cessar, as palavras que ela cantara, Ficou toda a noite sem
conseguir dormir, e de manhã, muito cedo, foi ter com um druida que tinha fama de ser muito
sábio e que residia no país de Corcomroe,111

O druida chamava-se Nuca. Bran perguntou-lhe qual era o significado do canto que ouvira e da
presença da mulher misteriosa na grande casa da sua fortaleza. «Não é difícil de perceber»,
respondeu o druida. «Esta mulher veio de Emain, ou seja, da Ilha das Macieiras. E, ao
apresentar-te um ramo de macieira de Emain, estava a convídar-te para te ires encontrar com
ela nesse lugar.» «A sério?», admirou-se o filho de Fébal. «E onde se situa esta ilha de que me
falas?» «A ilha situa-se algures no vasto oceano, para os lados onde o sol mergulha nas ondas.
Não se conhece a sua exacta localização e ninguém lá consegue ir sem a ajuda de um guia.»
«Nesse caso, que hei-de fazer?», insistiu Bran.

«Queres mesmo ir ter com a mulher à Ilha de Emain?» «Não quero o’utra coisa», respondeu
Bran, «poís desde que me visitou que não consigo pregar o olho a pensar que nunca mais a
vejo.»

O druida pôs-se a meditar longamente, e depois indicou a Bran o dia em que poderia começar a
construir um barco, especificando mesmo o número de homens que o deveriam acompanhar, a
saber, dezasseis, nem inais um, ou de contrário ele poderia sofrer graves reveses. Por fim
indicou-lhe o dia mais conveniente para partir e o porto de onde deveria sair, Bran regressou
então a casa e, no dia marcado pelo druida Nuca, ordenou que se começasse a construir um
barco com três cascos. Feito o barco, seleccionou os familiares que o poderiam acompanhar na
arrojada viagem. Entre eles, encontrava-se um certo German, de quem Bran gostava tanto
como se fosse seu irmão, assim como Nechtân111, filho de Colibran, que era um grande
conhecedor da arte de navegar, Reunindo o grupo que o iria acompanhar, Bran levou-o ao
porto de Cloghan para aí se fazerem os últimos preparativos para a viagem.

Embarcaram no dia marcado pelo druida Nuca, e ainda mal tinham içado as velas e começado a
afastar-se da costa, quando os três irmãos de Bran chegaram à praia e daí começaram a gritar
muito alto para que os fossem buscar. «Voltai para casa! », gritou-lhes Bran, «pois não posso
levar a bordo mais homens do que os previstos!» «Nesse caso», responderam eles, «vamos
atirar-nos à água, seguiremos no teu encalço, e podes ter a certeza de que acabaremos por nos
afogar se não nos aceitares a bordo! » (3)

E, no mesmo instante, eles atiraram-se à água e nadaram para o largo, Vendo que estavam
decididos a cumprir a ameaça, Brari deu ordens para que se desse meia volta e, com medo que
se afogassem, permitiu que subissem para bordo.

Nesse dia, remaram até ao anoitecer, pois o vento não era suficiente para fazer avançar a
embarcação. Quando a noite caía avistaram duas pequenas ilhas rochosas totalmente
desprovidas de vegetação e com duas fortalezas em cima. Ouviram uma algazarra vinda de lá,
que era provocada por pessoas que falavam alto e que se vangloriavam de ter praticado actos
heróicos. «Nós podemos aportar e perguntar-lhes se conhecem a direcção da Ilha das
Macieiras», disse Diuran, o Poeta. «Tens razão», respondeu Bran. «Vamos falar-lhes, pois
devem saber coisas que nós ignoramos.»

1. No condado de Clare, no seio dum vale verdejante e solitário que domina o maciço calcáriO desértico de Burren. Foi em Corcomroe que foi
construída, no século XIII, a mais ocidental das abadias cistercienses. A toda a volta subsistem diversos vestígios megalíticos e célticos.

L Nechtân é o nome gaélico derivado do latim Neptuntis, o que indica claramente a classificação marítima da personagem.

2. No condado de Kerry, ao fundo da Baía Brandão, cujo nome evoca a figura de São Brandão, o Navegudor, fundador histórico do mosteiro de
Clonfert, tendo sido inserido nesse nome o mito pré-crisião de Bran.

3. Trata-se claramente de um encantamento mágico: se os três irmãos de Bran morressem afogados, a responsabilidade recairia sobre Bran
que perderia a sua honra.

Mas, enquanto pronunciavam aquelas palavras, um vento fortíssimo abateu-se sobre o barco e
deixou-o este, governado sobre as ondas. Depois de terem andado ao sabor do vento e das
ondas durante toda a noite, já não viram pela manhã nem a ilha nem terra firme, ignorando
completamente onde se encontravam.

«Tudo isto é por vossa culpa», disse Bran aos irmãos. «Vós subistes para o barco contrariando
as determinações do druida Nuca que me avisou que eu poderia sofrer graves reveses no caso
de ter mais de dezasseis homens a bordo. Agora só nos resta deixar o barco à deriva e ver para
onde ele nos leva.»

Os irmãos, sentindo-se culpados, não responderam, e os outros companheiros de Bran, cheios


de angústia, mantiveram-se também em silêncio. Andaram assim ao sabor das correntes
durante três dias e três noites, sem verem terra. Ao fim do quarto dia, ouviram um ruído
proveniente de nordeste. «É o ruído de ondas a baterem na costa», disse Bran. «Dirijamo-nos
para lá, pois estou certo de que aí descobriremos alguma coisa.»
Não demoraram multo até avistarem terra. Quando estavam a tirar à sorte quem iria a terra,
um enorme enxame de formigas, cada uma delas do tamanho dum potro, surgiu na praia e
avançou para o mar. Era muito visível que estas formigas gigantes pretendiam alcançar o barco
e devorar a tripulação. Bran ordenou aos seus homens que remassem com todas as forças e
conseguiram então ficar fora do alcance das formigas, passando novamente três dias e três
noites à deriva no Mar sem saberem onde se encontravam.

Ora, -na manhã do quarto dia, avistaram à luz do sol uma ilha alta e grande, com terrenos
suspensos nas alturas, Havia fileiras de árvores em cada um dos terrenos e, nos ramos,
estavam dependurados pássaros. Bran e os seus companheiros aconselharam-se sobre o que
havia a fazer, mas não chegaram a nenhuma conclusão. Então Bran decidiu ir a terra sozinho
não tendo aí nenhum percalço. Caçou dois pássaros e levou-os para o barco, proporcionando a
toda a tripulação uma excelente refeição. Logo depois voltaram para o mar.

A meio do dia, avistaram outra Ilha que lhes pareceu grande e arenosa. Quando se preparavam
para aí acostar, viram um monstro que parecia um cavalo, mas que linha as patas de um cão, o
pêlo todo eriçado e unhas pontiagudas. Era visível que o monstro esta preparando-se para
saltar sobre eles e os devorar.

Que se navegasse para o largo o mais depressa possível, mas quando o monstro percebeu que
estavam a fugir dele, correu pela areia e começou a arremessar calhaus contra o barco. E
apressando-se o mais que podiam, os navegadores conseguiram escapar-lhe.

Pouco tempo depois avistaram outra ilha, ursatia, designou German para ir explorá-la, mas
Diziam melhor apanhá-lo, dizendo que o risco era menor se fossem dois. Assim que
desembarcaram, caminharam com muita atenção e foram dar a um grande prado onde
observaram enormes pegadas no terreno que pareciam ter sido deixadas pelos cascos de
cavalos. Havia também, espalhadas 0,11 pouco por toda a parte, grandes cascas de noz. E
como também havia casas eni ruínas, chamaram os seus companheiros para virem ver com os
seus próprios olhos o que eles estavam a ver. Este espectáculo, no entanto, assustou-os, Pois
não conseguiram compreender o que poderia ter provocado aquelas pegadas e aquelas ruínas,
de tal modo que se apressaram a voltar para o barco.

Quando já se tinham afastado da costa, avistaram uma multidão de cavalos, de um tamanho


enorme, que se dirigiam para o mar, montados por uma raça de homens magros e negros que
os incitavam com altos gritos. Os navegadores não duvidaram de que havia ali unia conspiração
de demónios e de fantasmas e afastaram-se a toda as velocidades daquele lugar maldito.

Chegaram depois à outra ilha que tinha na costa uma casa com um grande pórtico nas
traseiras. Havia também uma porta que dava directamente para o mar, com uma batente de
pedra com uma abertura por onde as vagas lançaram uni salmão. Desembarcaram então e
entraram na casa. Esta estava deserta, mas nos seus quatro cantos havia quatro leitos, comida
e um recipiente de vidro que continha uma bebida aparentemente inebriante. Eles comeram e
beberam o que encontraram, e depois voltaram para bordo sem terem visto vivalma.

Voltaram a navegar ao acaso por muíto tempo e começavam a sentir sede e fome quando
descobriram outra ilha que tinha uma grande falésia que caía a pique sobre o mar e que estava
coberta, no cimo, por uma densa floresta. Bran desembarcou na ilha e, embrenhando-se na
floresta, arrancou um ramo de urna árvore. O ramo esteve nas suas mãos durante três dias e
três noites, enquanto o barco dava voltas à ilha, e ao quarto dia apareceram três maçãs na
ponta do ramo. Todos partilharam entre si as maças e saciaram-se delas.

Também passaram na proximidade de uma pequena ilha, baixa e muito bela de se ver, onde
avistaram grandes animais parecidos com cavalos. Cada animal mordia o flanco de outro
arrancarido-lhe um pedaço de carne com pele, de tal modo que rios de sangue carmesim
escorriarri das feridas e derramava-se sobre o chão. Os navegadores afastaram-se a toda a
velocidade, sentindo-se cada vez mais fracos e desamparados, pois não tinham nada para
comer.

Ora, no momento de maior aflição, avistaram uma nova ilha onde se destacavam numerosas
árvores cobertas de frutos, mormente grandes maçãs de cor dourada. Havia pequenos animais
vennelhos que se poderia tomar por porcos selvagens debaixo das árvores, às quais, batendo-
lhes com as patas, faziam cair às maçãs. Depois, comiam-nas com uma imensa satisfação.
Enquanto isso, diversos pássaros banhavam-se nas ondas perto da ilha e quando, ao anoitecer,
os animais vermelhos se retiraram para as suas cavernas, eles voaram para as arvores e
começaram a debicar os frutos. «Parece que estamos com sorte», disse Bran. «Se estes
animais vermelhos e estes pássaros comem com tanto prazer os frutos das árvores, isso
significa que também nós poderemos comer esses frutos. Vamos, pois abastecer-nos a terra.»

Desembarcaram na praia e estranharam que o solo fosse tão quente debaixo dos pés. Na
verdade, aquele calor tornou-se tão insuportável que tiveram de regressar à pressa ao barco;
apesar disso, ainda tiveram tempo de levar corri eles uma grande quantidade de maçãs que
lhes permitiram ter alimento para vários dias.

Quando a comida começou de novo a faltar e eles mal podiam respirar devido ao mau cheiro do
mar, acostaram numa ilha estreita na qual se erguia uma fortaleza rodeada duma muralha
muito branca, corno se tivesse sido construída com cal ou com giz, e tão alta que quase
chegava à nuvens. Como havia uma porta aberta na muralha, eles atravessaram-na e viram
grandes casas também brancas. Entrararri na que lhes parecia maior e encontraram-na sem
ninguém, apenas com um gato que saltava sobre uns pilares que existiam nos quatro cantos da
sala. Ao ver os recém-chegados, o gato não pareceria minimamente assustado, pois continuou
a saltar como se não estivesse ali ninguem. Aos olhos dos recém-chegados, entretanto,
apresentaram-se outras coisas. Havia três filas de objectos numa das paredes da casa, indo de
uma porta à outra: uma de broches dourados e prateados pregados à parede por alfinetes; a
outra de cordões de ouro, tendo cada um a dimensão de um círculo de cobre; e a última, por
fim, de grandes espadas, com Pedras preciosas incrustadas nos punhos de ouro. Avançando
pela sala, eles viram no meio, no fogão, carne assada, toucinho cozido, e grandes taças cheias
até cima de uma bebida de cheiro agradável. «Isto é para nós?», perguntou Bran, voltando-se
para o gato.

O gato olhou-o por um instante, e depois continuou entretido a saltar de um pilar para outro.
Bran percebeu então que aquela refeição tinha sido preparada a pensar neles e comeram e
beberam até se fartarem, adormecendo depois nuns leitos que ali se encontravam. Na manhã
seguinte, quando acordaram, deitaram as bebidas em bilhas e juntaram os restos de comida
para os levarem com eles. Mas, quando estavam de partida, disse um dos irmãos de Bran: «Eu
gostava de levar um destes colares.» «Não faças isso», disse Bran, «pois desconfio que esta
casa está a ser vigiada. Estes objectos foram postos aqui para despertarem a nossa cobiça.»

Mas, às escondidas, o irmão apoderou-se dum colar e, no mesmo instante, o gato, que tinha
estado tranquilamente a saltar de um pilar para outro, atirou-se a ele como uma flecha
implacável e o infeliz ficou de tal modo em brasa que se transformou num montão de cinzas, 0
gato voltou então para junto de um dos pilares e Bran tentou acalmá-lo com palavras muito
suaves, ao mesmo tempo que pos o colar no seu lugar. Os navegadores voltaram depois para o
barco, muito entristecidos por terem perdido um companheiro.

Andaram de novo três dias inteiros no mar e por fim avistaram uma ilha que estava dividida em
duas partes iguais por uma paliçada. Num lado pastava um rebanho de cabras brancas, e do
outro um rebanho de cabras negras, enquanto um homem muito robusto andava de um lado
para o outro a separar os animais. Quando ele agarrava uma cabra branca e a atirava por cima
da paliçada, o animal tomava-se negro ao tocar no solo, e se o fazia a uma cabra negra, esta
se tornava branca.”’

Ao verem aquele espectáculo, Bran e os seus companheiros assustaram-se. «Devemos


desconfiar daquele sortilégio», disse Bran. «Vamos fazer uma experiência: deitemos qualquer
coisa negra no lado das cabras brancas para ver o que acontece.»

Pegaram então num ramo cuja superfície estava enegrecida e atiraram-no para a parte da ilha
onde se encontravam as cabras brancas, ficando o ramo branco instantaneamente.
Arremessaram depois um outro ramo que era branco para o lado das cabras negras, e o ramo
tornou-se negro. «Na verdade», disse Bran, «esta experiência é elucidatíva. Devemos deixar
este lugar tão estranho, ou arriscamo-nos a ter alguma má experiência.»

Pouco tempo depois, avistaram outra ilha na qual estavam reunidas grandes multidões de
homens e de mulheres. Tanto eles como elas eram inteiramente negros, quer fisicamente quer
no vestuário que envergavam. Tinham fitas igualmente negras amarradas à volta da cabeça e
não paravam de se lamentar. «Um de nós deve ir ter com eles e perguntar-lhes porque se
lamentam daquela maneira. E devemos aproveitar para lhes perguntar qual a rota a tomar para
a ilha que desejamos alcançar.»
O acaso designou o segundo irmão de Bran para desempenhar aquela missão. Ele foi a terra e
diriggiu-se para as gentes de negro, mas assim que chegou perto delas, corneçou também a
lamentar-se. Bran mandou então dois homens buscá-lo, mas estes, ao invés de o reconhecerem
entre os outros, puseraffl-se igualmente a chorar e a lamentar-se. Bran disse então: «Que vão
lá quatro homens com correntes e que os tragam à força. Para terem êxito não deverão olhar
para a terra, e deverão cobrir o nariz e a boca para evitarem respirar os miasmas da ilha e
apenas verem aqueles que vão buscar!»

Diuran, Nechtân, German e o terceiro irmão de Bran foram a terra e, com infinitas, precauções,
acorrentaram os dois homens que tinham ido buscar o primeiro. Mas não conseguiram
descobrir este, de tal modo ele já se confundira com os outros. Quando perguntaram aos dois
resgatados os que tinham visto, eles responderam que não se lembravam de nada. E,
Encontra-se uni episódio semelhante na narrativa galesa de Peredur. Vde 3. Markale, Le (ycle
du Graal, sexta época: Perceval o Galês. A mudança de cor significa a passagem de um mundo
para outro, e a paliçada simboliza a fronteira entre o mundo humano dos Filhos de Milé e o
mundo, completamente feérico, das tribos de Dana. Já tem, chamado muitas vezes a este
episódio o «Van das Almas», tendo-se corno referência o texto galês em que so, é preciso ter
em conta as cabras mudam de cor ao atravessarem um estuário. Neste caso a região que Bran
e os seus companheiros se encontram nos I imites do mundo humano, num ambígua em que
se manifestam personagens ou acontecimentos extraordinários, não estando eles ainda prontos
para atravessar a fronteira. Assim s, explica o facto de andarem muito tempo perdidos no mar
antes de encontrarem a Ilha das Fadas cheios de mágoa por terem perdido o segundo irmão de
Bran, os navegadores deixaram a toda a pressa as costas da ilha das lamentações.

Não tardaram a avistar outra ilha de muito pequenas dimensões, onde existia uma fortaleza,
com uma porta aparentemente de bronze, não se podendo entrar nela senao por uma ponte de
vidro. Bran e os seus companheiros desembarcaram e dirigiu-se para a fortaleza, muito
decididos a falar com os que nela deviam habitar. Mas, assim que puseram os pes na ponte de
vidro, caíram todos para trás, sendo incapazes de se manter de pé na superfície muito
escorregadia.

Estavam naquela situação embaraçosa quando viram uma mulher sair da fortaleza com um
balde na mão. Levantando uma placa de vidro, ela encheu o balde numa fonte que jorrava
água debaixo da ponte. Depois, parecendo que nem tinha reparado na presença de Bran e dos
seus companheiros, voltou para trás e entrou na fortaleza. «Que alguém venha falar a Bran,
filho de Fébal!», gritou em voz muito alta Diuran, o Poeta. A mulher, que acabara de entrar,
reabriu a porta e olhou para fora. «É mesmo Bran, filho de Fébal?», perguntou ela com um tom
ironico antes de voltar a desaparecer no interior da fortaleza.

Rastejando, Bran e os seus companheiros chegaram à porta de bronze e começaram a bater


nela com as espadas e os escudos na esperança de que a viessem abrir. Mas o bronze
transformou o barulho que faziam numa música muito suave que os fez dormir até de manhã.
Quando acordaram, viram a mesma mulher sair da fortaleza com o balde na mão. Ela fez o
mesmo que no dia anterior, indo encher o balde à fonte que existia debaixo da ponte. Nechtân
não se conseguiu conter: «Que alguém venha falar a Bran, filho de Fébal!», gritou ele.

A mulher pareceu não ter ouvido nada, mas ao fechar a porta, voltou-se e disse simplesmente:
«Bran, filho de Fébal, parece-me muito belo.» E desapareceu no interior, voltando então Bran e
os seus companheiros a bater à porta de bronze com as suas armas. Mas ao fazerem.

I. É lógico que este episódio pode muito bem conter uma alusão a uma qualquer
terra áretica e, nesse caso, a ponte está coberta por um leito de gelo. Mas estamos
no domínio do mito, onde a lógica nada conta. Com efeito, corno na lenda arturiana,
esta ponte de vidro é uma fronteira entre os dois mundos, sendo semelhante à
célebre «Ponte da Espada» que Lancelot tem de atravessar para libertar a rainha
Guenievre da fortaleza de Gorre, ou seja, de Vidro, onde a mantém prisioneira
Méléagant, uma espécie de divindade dos infernos. Note-se que, no episódio
aqui apresentado. Bran e os seus companheiros não chegarão nunca a entrar na
fortaleza, sinal evidente de que ela não é a «Emain Ablach» onde devem ir. Vide J.
Markale, Le Çycle du Graal, terceira época: Lancelot du Lac.
II. ”LIF,-no, provocaram música e esta prostrou-os até à manhã seguinte. Estiveram
assim durante três dias e três noites, sem comer nem beber. Na manhã do quarto
dia, a mulher dirigiu-se a eles. Era muito bela, e trazia um manto branco, um colar
de ouro à volta do pescoço, e um diadema de prata sobre os cabelos negros. Calçava
sandálias de prata branca que realçavam a delicadeza dos seus pés, e no manto
tinha pregado um broche prateado guarnecido com ouro. E o manto, batido ao de
leve pela brisa matinal, deixava ver uma camisa de seda muito fina sobre a pele
branca. «Sê bem vindo, Bran, filho de Fébal», disse ela.

Em seguida, ela pronunciou o nome de cada um dos companheiros de Bran. «Hã muito
tempo», disse ela, «que sabíamos que vós viríeis. Mas, nobre Bran, não fiques ofendido por
não poderes entrar nesta fortaleza.»

Guiou-os até uma grande casa que se encontrava na costa, sobranceira ao mar, e ela própria
trouxe o barco deles para a areia. Ao entrarem na casa, eles viram um leito para Bran e outro
para três das suas gentes. Logo a seguir, a mulher deixou-os e voltou para a fortaleza.

«Então», perguntou Diuran a Bran, «esta mulher não é a que viste na tua residência e a que
procuramos há tanto tempo?» «Não, não é», disse Bran, «e esta ilha não é aquela de que
andamos em demanda. Não há aqui macieiras, e nada nela se parece com a descriçao que me
foi feita pela mulher antes de reaver o ramo da macieira de Emain.» «É pena», disse Nechtân,
«pois esta mulher é muito bela e ganharias muito em ter uma esposa da sua beleza.»

Dito isto, ela voltou, trazendo-lhes um cesto que tinha dentro o que parecia queijo ou leite
coalhado. Distribuiu o alimento por todos, e todos se regalaram com ele. Em seguida, encher o
balde na fonte debaixo da ponte de vidro e deu o seu conteúdo a Bran. Depois foi encher o
balde a pensar nos outros e, quando viu que estavam todos saciados, deixou-os e voltou para a
fortaleza.

«Realmente», disse Nechtâm a Bran, «esta mulher seria uma esposa digna de ti.» «Não foi ela
que me velo trazer o ramo de Emain», respondeu Bran.

Na ausência de Bran, entretanto, os seus companheiros não deixavam de trocar impressões.


Começavam a ficar fatigado de tantas viagens infrutíferas e, não sabendo como regressar à
Irlanda, não lhes parecia má ideia ficarem algum tempo naquela ilha onde eram tratados com
tantas atenções.

«E se pedíssemos a esta mulher para dormir com Bran?», perguntou então Nechtân. «Sim»,
concordou Diuran, «mas como havemos de propor-lhe isso sem a ofender?»

A mulher voltou na manhã seguinte, trazendo comida no cesto e bebida no balde. Diuran disse-
lhe: «És capaz de provar que gostas de Bran dormindo com ele? Porque não passas aqui esta
noite, para que isso aconteça?» «Como é que podeís fazer uma tal proposta a esta mulher?»,
gritou Bran furioso. «Eu seria incapaz de fazer uma tal proposta! Nós só queremos saber, ó
mulher, que direcção devemos tomar para chegarmos a Emaín Ablach, a Terra das Fadas, onde
me espera aquela que me foi levar um ramo de macieira.»

A mulher começou a sorrir, e disse: «Amanhã terás uma resposta para a tua questão.»

Naquela noite, Bran e os seus companheiros adormeceram profundamente na casa. Mas, ao


acordarem, repararam que estavam no barco, no meio do mar. Nunca mais eles viram a ilha
misteriosa, nem a fortaleza, nem a ponte de vidro, nem a casa onde, junto à costa, tinham
dormido, nem a mulher que lhes tinha servido comidas e bebidas deliciosas.

Sentiram-se terrivelmente deprimidos e de nada valeu Bran tentar consolá-los dizendo-lhes


que aquelas aventuras eram etapas necessárias para poderem chegar a Emain: por muito que
ele se esforçasse, uma profunda tristeza e um sentimento de desamparo acompanhava-os
enquanto o barco andava ao sabor das ondas. De súbito, avistaram uma ilha de onde
Provinham ruídos estranhos, semelhantes aos que fazem os ferreiros quando batem com a
bigorna dos seus martelos. Aproximaram-se e viram, com efeito, quatro ferreiros que ali
trabalhavam. Estavam perto da costa, quando ouviram um dizer: «Estão ao vosso alcance?»
«Estão», respondeu outro. «Mas que gentes são aquelas?» «São uns garotos», disse um
terceiro. «E num pequeno barco», acrescentou um quarto.

Ouvindo aquela troca de palavras, Bran ficou muito inquieto. «Fujamos daqui», disse ele, «mas
sem fazer o barco dar meia volta. Rememos para trás de modo que eles não se apercebam da
nossa fuga.»

Remaram então em sentido inverso. 0 primeiro homem que falara na oficina perguntou aos
outros: «Já chegaram ao porto?» «Não», respondeu o segundo. «Eles estão imóveis e não
avançam.» Pouco depois, o primeiro ferreiro retomou a palavra: «Que estão eles agora a
fazer?» «Penso», disse o segundo, «que estão a preparar-se para fugir, Pois estão mais longe
do porto do que estavam ainda há pouco.»

Então os ferreiros precipitaram-se para a costa, segurando nas mãos enormes massas de ferro
vermelho e arremessaram-nas em direcção ao barco. As massas não os atingiram, mas o mar a
toda a volta começou a ferver enquanto os remadores faziam uni esforço do para se porem
longe dali.

De repente, num instante eles começarani a navegar num mar que parecia de vidro
esverdeado. As águas eram tão límpidas que os navegadores podiam ver as pedras no fundo.
Mas não se via nenhum animal, nenhum peixe, nenhum monstro debaixo do barco, nem se via
nada entre os rochedos a não ser cascalho e areia de cor verde. Navegaram assim durante
muito tempo, maravilhados com a beleza e a transparencia esplendorosa da água.

Mas logo depois ela transformou-se numa espécie de nuvem leve e sem consistência, e eles
chegarani a pensar que o barco se iria afundar. Olhando por sobre as águas viram um belo país
verdejante e o tecto de fortalezas. Avistaram também um animal monstruoso nos ramos de
uma árvore e gado bovino em campos existentes à volta. Um homem amado com uma espada
e um escudo, quando se apercebeu do grande animal no ramo da árvore, começou a correr
desenfreadamente. 0 monstro, entaO, estendeu o pescoço para fora das folhagens, aproximou
o focinho do maior boi da manada, e atirando-se a ele devorou-o num instante. Nisto todos os
outros bois da manada se puseram a fugir numa correria louca. Perante aquele espectáculo,
Bran e os companheiros ficaram apavorados, ainda mais porque o barco não poderia deslocar-
se muito depressa naquelas águas. Mas, ultrapassados os momentos de angústia, conseguiram
deixar aquelas perigosas paragens e viram-se num mar normal, apesar da água parecer parada.
Por muito que tentassem remar com todo o vigor, durante várias horas o barco não avançou.
Por fim, levantou-se o vento, a vela enfunou-se, e voltaram a deslizar sobre as ondas.

Acostaram daí a pouco a uma ilha coberta de árvores que pareciam salgueiros ou aveleiras,
com frutos maravilhosos e grandes bagas. Sacudiram alguns ramos e depois tiraram à sorte
para ver quem provaria os frutos, sendo escolhido B ran. Este esmagou algumas bagas numa
taça e bebeu o sumo, caindo então num sono profundo que durou até ao outro dia àquela
mesma hora. Entretanto, os seus companheiros mostravam-se preocupados, sem saberem se
ele estava vivo ou morto, pois uma espuma vermelha apareceu-lhe na comissura dos lábios.
Ele, no entanto, acordou fresco e bem disposto, e disse-lhes: «Podeis tomar o sumo, Pois é
excelente.»

Juntaram então todos os frutos que puderam para levar para bordo, certos de que com eles
poderiam obter um sumo agradável e inebriante,

Estavam os navegadores para partir quando viram uma grande nuvem vir na sua direcção. Mas
logo eles,repararam que se tratava de um grande pássaro e, aterrorizados com a ideia de que
ele ia aprisioná-los com as suas garras monstruosas, puseram-se a correr em busca de abrigo,
atravessando um bosque até se encontrarem no centro da ilha. Havia aí um peque-no lago
na extremidade do qual pousou o pássaro, que tinha no bico um ramo tão colossal como um
carvalho, mas de uma especie desconhecida. O ramo possuía diversos galhos muito grandes
dos quais pendiam, como se fossem frutos, cachos de uma espécie de bag «os amarelos, que
mal se viam através das folhas, por serem estes muito frescos e abundantes, Bran e os
companheiros ficaram corri os olhos fixos no pássaro, a ver o que ele iria fazer. Mas ele não se
mexia e, vendo melhor, repararam que tinha a plumagem em péssimo estado, podre e comida
pelos bichos. Um dos homens aproximou-se com cuidado do pássaro, e este permaneceu
imóvel; depois voltou para perto dos companheiros e todos se preparavam para partir quando
apareceram por cima deles duas grandes águias, que por sua vez se puseram perto do pássaro
enorme. Depois de urna leve pausa para repousarem, as águias pôs-se a dar bicadas na sua
plumagem, como que para o aliviar dos parasitas que o infestavam.

Assim estiveram as duas águias até meio do dia. Em seguida, começaram a comer as bagas do
ramo, antes de novamente se porem a dar bicadas na plumagem decrépita do vizinho,
arrancando-lhe as penas em pior estado. Por fim colheram os frutos, esmagaram-nos contra
pedras e atiraram-nos ao lago, fazendo com que a água criasse espuma e ficasse toda amarela.
Então o grande pássaro ergueu-se e, dirigindo-se para o lago, foi-se banhar, ao mesmo tempo
em que as duas águias levantaram voo e desapareceram do mesmo modo misteriosos como
tinham aparecido no céu.

Passado um instante, o grande pássaro saiu do lago e, depois de se sacudir vigorosamente,


ficou imóvel na margem como se quisesse dormir. Cada vez mais intrigados com o seu
comportamento, Bran e os companheiros Dão se atreviam a aproximar-se dele, limitando-se a
observá-lo através do ramo das árvores. E por fim o grande pássaro lá se moveu, agitando as
asas e levantando voo, num instante, tão veloz e imponente como quando chegara, e
desapareceu na mesma direcção de onde viera. «Parece evidente», disse Diuran, o Poeta, «que
ele velo aqui restaurar forças. Vamo-nos também banhar no lago para recuperarmos as
energias.» «Tens de ter cuidado», gritou Bran, «poís pode ser perigoso, à que o pássaro
contaminou as águas e quem nele se o banho no lago, jfectado!» «Se ele se banhou, também
eu o posso banhar pode ficar in tornar banho.» Replicou Diuran, acrescentando: «Vou fazer!»,
Tendo dito aquelas palavras, despiu-se e mergulhou nas águas onde ficou durante algum
tempo, dando depois duas ou três braçadas para chegar à margem. E, naquele dia, os olhos
brilharam-lhe como nunca, os dentes jamais tinham sido tão sãos, e nenhum mal parecia ser
capaz de o atormentar. Apesar disso, nenhum dos seus companheiros quis seguir o seu
exemplo, e voltaram todos para o barco, contentando-se em levar para bordo as bagas
vermelhas colhidas no bosque.

Na manhã do dia seguinte, estando a navegar calmamente, viram com grande espanto um
homem a guiar um carro puxado por dois cavalos por cima das ondas. O desconhecido dirigiu-
se para o barco e entabulou conversa com Bran. Assim como todos os teus:
«Sê bem vindo, Bran, filho de Fébal, a espantou-se Bran. «E companheiros.» «Como é que me
conheces?», Quem és tu?» «Sou Manananng filho de Uir, das tribos de Dana, e vim ao teu
encontro para te anunciar que em breve alcançarás o objectivo que persegues». «Mas»,
admirou-se Bran, «que prodígio é esse que te permite galopar os teus cavalos sobre o mar?»
«As coisas nem sempre são o que parecem», respondeu Manartann «Tu achas maravilhoso que
o teu barco seja capaz de navegar sobre as águas, mas a meus olhos, o que tu chamas mar é
uma planície florida sobre a qual se desloca o meu carro puxado por dois bons cavalos. 0 que
te parece um mar claro, ó Bran, filho de Fébal, é para mim uma aprazível planície corri flores
encantadoras. Enquanto tu vês vagas à tua volta, eu, nesta planície imensa e maravilhosa, vejo
gado a pastar tranquilamente na erva seja Verão ou Inverno. O verde e macia que está sempre
presente, peixes que vês através das ondas são para mim pássaros que cantam no ramo das
árvores, e a espuma das vagas é para mim como frutos de Yo do ano. Sim, Bran, o teu barco
riave-ouro que amadurecem ao longo roçando na copa das árvores, e um ga sobre o alto de
um bosque debaixo do casco do bosque cheio de frutos maravilhosos encontram-se teu barco,
um bosque repleto de frutos muito odoríferos, de frutos Perfumado, cujas folhas são da cor do
mais puro ouro.»

Bran e os seus companheiros ouviam cheios de espanto o que lhes dizia Mananann. Este deu
várias voltas ao barco, com os cavalos a galoparem em grande estilo e a atirarem chuviscos
brancos na direcção das velas.

«Agora devo deixar-vos», disse Niltrianaini. Bem sei que ja passastes muito frio, fome e sede.
Mas talvez as privações fossem ireecssarias para conseguirdes finalmente avistar a Ilha das
Mulheres através da bruma. É muito frequente, na verdade, passar-se perto do que se pretende
sem se dar conta disso. Adeus, Bran, filho de Fébal, e que os teus companheiros e tu remem
com todas as vossas forças para a ilha das Mulheres, Emain, que é tão aprazível para quem a
visita. Não estais longe, e chegareis à ilha antes do pôr-do-sol.»

Dito isto, Manannan desapareceu das suas vistas por entre uma fascinante nuvem de espuma.
Puseram-se então todos a remar com energias renovadas, cheios de confiança e de esperança
Assim foram ate que chegaram a uma ilha que, prudentemente, se limitaram a contornar.
Viram nela grupos de homens e de mulheres que se riam as gargalhadas e que, mesmo depois
de olharem para Bran e os seus companheiros, continuaram a conversar e a dar grandes
gargalhadas. «Coiii ç_crie/_d que esta não é a ilha das Mulheres», disse Bran. «Mas temos de
saber que gentes são essas e o que e que as faz rirem-se daquela maneira.»

Tiraram à sorte para escolher quem iria a terra, e o acaso elegeu o terceiro irmão de Bran. Este
desembarcou e, assim que chegou ao pé dos que se riam, começou também a rir como eles. E
por muito que os seus companheiros o chamassem, não respondia, limitando-se a olhá-los e a
fazer troça deles. Então, Bran lembrou-se das advertências ou druida Nuca: em caso algum
deveria levar mais de dezesseis companheiros a bordo. Agora que os três irmãos tinham
desaparecido, a ordem era reconstituída. Com alguma mágoa, Bran decidiu então abandonar
este terceiro irmão na ilha dos Bem Humorados e voltaram para o alto mar remando
corajosamente.

Pouco depois, ficaram em frente duma grande ilha onde se destacava uma vasta planície, com
belos bosques abundantes em árvores floridas e um grande planalto coberto por uma erva
macia. Junto ao mar erguia-se uma grande fortaleza, alta e imponente. Atracaram o barco e
dirígiram-se para ela. A porta estava aberta e entraram para o pátio, onde havia uma casa que
tinha também a poria aberta. Olhando para o interior, viram dezessete leitos ricamente
ornamentados com tapeçarias. Viram também dezasseis raparigas que preparavam um banho.
Não se atrevendo a entrar, sentaram-se no pátio, em frente da soleira da porta.

Quando o sol começava a declinar no horizonte apareceu uma mulher montada num cavalo de
raça. A cavaleira envergava uma capticha azul, um manto de púrpur a bordado, pulseiras com
gravações em ouro, e sandálias de prata. Desceu do cavalo em frente deles e logo uma das
dezasseis raparigas pegou na montada pelas rédeas e levou-a para a cavalariça. Então a mulher
avançou para Bran, que nela reconheceu aquela que lhe levara o ramo de macieira de Ernad e
depois o fizera ouvir a música das fadas.

«És bem vindo, ó Bran, filho de Fébal», disse ela. «Há muito tempo que eu aguardava este
momento. Foi a esperança de te receber nesta ilha que me levou a ir visitar-te na tua fortaleza.
Os teus companheiros são também bem vindos por terem tido a coragem de te acompanhar
nas tuas longas aventuras por mar. Pois não é realmente fácil descobrir esta terra em que reino
só, em paz e harmonia, sem mágoas, tristezas ou doenças. Mas agora que aqui estais, entraí
nesta casa.»

Após entrarem na casa, Bran e os seus companheiros tomaram banho em grandes banheif as
que estavam preparadas para eles. Depois, a rainha sentou-se com as suas dezasseis
companheiras ao redor num lado, enquanto Bran ficou no lado oposto com os seus dezesseis
companheiros à sua volta. Levaram a Bran um prato de prata cheio de manjares requintados e
um copo de vidro cheio até cima de um licor muito saboroso. Serviram também urn prato e um
copo a três dos seus companheiros. Quando acabaram de comer e de beber, a rainha levantou-
se e disse: «Como vão dormir os meus hóspedes?» «Como te aprouver», disse Bran. «Pois
então», disse a rainha, «que cada um escolha a mulher que tem diante de si e a leve para a
cama consigo.» E porque na casa havia dezassete quartos equipados cada um com um bom
leito, os dezasseis companheiros de Bran deitaram-se com as dezasseis filhas da rainha, e ele
próprio foi dormir com a rainha.

Na manhã seguinte, disse a rainha a Bran: «Fica comigo nesta ilha, ó Bran, filho de Fébal, e
jamais ficarás velho. Serás sempre tão jovem como és hoje, e a tua vida não terá fim. E os
prazeres de que desfrutaste na noite passada, desfrutá-lo-ás todas as noites. Fica, pois ja
perdeste muito tempo a correr de ilha em ilha entre perigos e grandes, tormentas. «Mas quem
és tu afinal?», perguntou Bran. A rainha desatou a rir e disse: «Que importa isso? Já me deram
tantos nomes que nem sei qual e o que tenho. Contenta-te em saber que estou do teu lado e
que daqui para frente nada de mal te poderá acontecer. Todos os habitantes desta ilha me
respeitam e respeitam os meus hóspedes. Sou a rainha e todo o dia aplica a justiça para que
nunca deixem de ter uma vida calma e feliz, sem guerras e sem conflitos de qualquer espécie.

Ditas estas palavras, a rainha despediu-se de Bran e saiu para o grande prado existente em
frente da fortaleza, para se reunir com o seu povo. Bran e os seus companheiros
permaneceram nesta ilha durante os três meses de Inverno, parecendo-lhes que estes três
meses tinham durado três anos. Mas, ao fim desse tempo, Neclitân, filho de Colibran, ficou
cheio de saudades. «Estamos aqui há multo tempo», disse ele um dia a Bran, «Porque não
regressamos a casa?» «Não sejas incoiiveníente», respondeu Bran, «pois em lado algum
levaremos uma vida tão agradável como a que aqui levamos.»

Entretanto, Os companheiros de Bran começaram a murmurar e a acusar o seu chefe,


dominado pela rainha da ilha, de não os querer levar de volta para o seu país. «Muíto ama Bran
esta mulher», disse German, «e sendo assim, deixemo-lo com ela e regressemos nós à
Irlanda.»

Ora, Bran estivera a ouvir a conversa, e disse-lhes: «De modo algum partíreís daqui sem mim.
Se realmente pretendeis voltar para o vosso país, e se, mantiverdes esse vosso propósito, ficai
a saber que irei convosco, pois o dever de um chefe é estar sempre com os seus
companheiros.»

Prepararam então em segredo a partida. Um dia, tendo ido a rainha presidir a uma assembleia
do seu povo, Bran e os seus embarcaram no barco e navegaram para o largo, mas a rainha,
que nesse mesmo instante voltava para a fortaleza, viu o barco afastar-,se com Bran e os seus
companheiros. Ela foi então a cavalo até à beira-mar, e atirou Um novelo para dentro do barco,
agarrando-o Bran e ficando com ele colado à mão. Nessa altura, a rainha só teve de Puxar o fio
do novelo para fazer os fugitivos voltarem para o porto. «Porque partís desta maneira?»,
perguntou-lhes ela. «Ao menos me Podíeis ter prevenido, em vez de fugirem como ladrões, »

Como todos abaixaram a cabeça sem saberem o que dizer, Bran acabou por tomar a palavra:
«Os meus companheiros queriam rever o seu país e eu não podia deixá-los partir sozinhos.» «0
teu sentimento é nobre, Bran, filho de Fébal», disse a rainha, «mas sabíeis vós que grandes
perigos vos esperavam? Se quereis Partir para a Irlanda, podeis fazê-lo amanhã logo pela
nianhã, mas devo prevenir-vos do seguinte: nunca deveis descer do barco e pôr os pés em
terra, aconteça o que acontecer.»

Partiram no dia seguinte, depois de se despedirem da rainha da ilha e das suas dezasseis
companheiras, e, estando o vento favorável, não demoraram a avistar as costas da Irlanda
onde acostaram num lugar chamado desde então o Regato de Bran. Ora, realizava-se então
uma grande assembleia na costa, e perguntaram-lhes quem eram.

Bran respondeu, mas as pessoas de terra não compreenderam as suas palavras. Ele insistiu,
dizendo com toda a exactidão quem era, onde residia, e que reis reinavam sobre o país. «Não
conhecemos esses de quem nos falas», responderam elas. Então um velho avançou para a
borda da água. «Ouvi contar, na minha infância, que aí há uns trezentos anos, um chefe
chamado Bran, filho de Fébal, partiu para o mar e nunca mais voltou. És tu? Pareces-me bem
jovem para poderes ser aquele que dizes ser.» «Sou eu, apesar de poderes duvidar da minha
palavra», disse Bran, «e os meus companheiros estão aqui para servir de testernunhas.»
Naquele momento, Nechtân, filho de Colibran, não se contendo, saltou para fora do barco. Mas
mal os seus pés tocaram na terra ele ficou feito em cinzas, como se tivesse estado sepultado há
séculos.

Então, Bran entoou um lamento por Nechtân, filho de Colibran. Depois, após ter contado as
suas aventuras às pessoas que estavam ali na costa, despediu-se delas, mandou içar as velas e
logo o seu barco desapareceu na bruma. Ninguém a partir dali o voltou a ver, mas toda a gente
sabe que Bran, filho de Fébal, se encontra na Terra das Fadas, alguns no vasto oceano, junto
da grande rainha Morrigan, filha de Emma.

Trata-se de Brandon Creek, na baía de Brandon, no norte da península de Dingle. Segundo a


tradição, foi daqui que São Brandão partiu na sua navegação em busca do Paraíso, o que prova
que existe uma profunda ligação entre o mito de Bran e a piedosa lenda de São Brandão.

Síntese de duas narrativas: Iniramni Brain (Navegação de Bran), contida em diversos


manuscritos, editado por K. Meyer e A. Nutt, com tradução inglesa em The Voyage of Bran;
Mailduin, editado por K. Meyer em Zets (-hhri,ftjúr Celtische Philologiè, v()[, XIII, tradução
francesa de D’Arbois de Jubainville em L’Epopée celtique en Irlande, vol. V do seu Curso de
literatura celta).

Um dia, Mider de Bri Leith, das tribos de Dana, decidiu fazer uma visita ao seu filho adoptivo,
Angus, filho de Dagda, que ele criara e por quem tinha uma grande afeição. Assim, por alturas
da festa de Samain, ele deslocou-se até à residência de Angus, em Brug-na-Boyneb, e
encontrou aí Mac Oc ocupado a observar, numa colina, grupos de rapazes que brincavam na
encosta, enquanto Elcmar, Irmão de Dagda, na colina de Cletech, a sul, também observava
aquela cena.

A certa altura os rapazes começaram à bulha, e Angus correu para os separar antes que a luta
Provocasse sangue quando Mider os fosse tentar pacificar. «Sai daqui!», gritou-lhe ele, com
medo que Elcitiar descesse e fosse também meter-se no meio daquela confusão. «Elcmar está
aborrecido contigo desde que tu o expulsaste de Brug. Eu próprio vou acalmar estes rapazes
estouvados!»

Angus foi então se meter no meio dos jovens que se esmurravam e tentou acalmá-los, mas não
foi fácil e, no meio da confusão gerada, um dos rapazes atirou uma ponta de aveleira contra
Mider, ferindo-o num olho. Então, Mider aproximou-se de Angus, magoado e furioso,
mostrando-lhe o sangue que corria do olho.

«Era melhor eu não te ter vindo visítar!», gritou ele. «Já estou arrependido da minha viagem,
Pois me sinto humilhado com o que aconteceu! Esta ferida, no entanto, não me impedirá de ver
o país em que me encontro, e não estou certo se conseguirei voltar para o meu... » «As tuas
palavras são injustas, ó Mider», respondeu Angus, «e ofendem-me muito. Vou pedir a
Diancecht para vir tratar de ti. Ele curar~te-á e poderás depois voltar a ver este país com tanta
clarividência como se fosse o teu.» Mac Oc, sem perda de tempo, foi encontrar-se com
Diancecht e disse-lhe o que esperava dele. Diancecht acompanhou-o a Brug e tratou
imediatamente de curar Mider, cujo olho ficou bom. «Excelente», disse Mider, «poderei agora
comprazer-me com a minha viagem, pois estou curado.» «E ainda será melhor», retomou
Angus, «se ficares aqui durante um ano, até à próxima festa de Samain. Serás meu hóspede e
terás o prazer de visitar a minha terra e de conviver com os meus amigos.» «Eu só fico»,
respondeu Mider, «se for compensado da humilhação que sofri e da vergonha por que passei.»
«E como desejas ser compensado?», perguntou Mac oc. «Eu só te peço o seguinte: um carro
no valor de sete jovens escravas, um manto a meu gosto e a rapariga mais bela da Irlaiida.»
«Eu tenho o carro e o manto que pretendes», disse Angus. «Mas também quero a rapariga
mais sábia e mais bela de todas as que existem na lrlanda», insistiu Mider. «Onde se encontra
ela?» «No Ulster. Trata-se de Etaine, filha de Ecliralde, rei do nordeste. Ela é sem dúvida
nenhuma a mais sábia e bela rapariga de toda a Irlanda.»

Opôs-se a carrunho do Ulster e chegou Sem perda de tempo, Mas resisidia o rei Ecliraide.
Deram-lhes as boas pouco depois a Mag Inís, onde rei e vindas, e ao fim de três noites
perguntaram-lhe o que o levava ali, ao que ele respondeu que desejava a mão de Etalne, a
filha do rei. «Não a terás», respondeu Echraide, «pois, se ta der, nada mais conseguirei de ti,
devido aos teus poderes mágicos. E se a minha filha for desonrada, ninguém das tribos de
Dana me quererá pagar uma compensação por isso.» «Garanto-te que isso não corresponde à
verdade», disse Angus. «E se te recusas a dar-me a tua filha, posso comprar-ta agora mesmo.»
«Assim está bem», disse o rei. «Quanto tenho de pagar por ela?» «O que eu te peço é o
seguinte: quero que desbraves nas minhas terras doze planícies que estão cobertas de floresta,
para que nelas haja boas pastagens para os meus gados, e para que nelas se construam casas,
façam jogos e se realizem assembleias.» «Eu atenderei ao que me pedes», respondeu Mac Oc.

Em vez de voltar para casa, ele foi ter com o pai, Dagda, ao qual contou o que se passara.
Dagda prometeu-lhe então que o trabalho exígido por Ecliraíde seria levado a cabo e, deste
modo, no dia seguinte começou o desbravamento das doze planícies. Findo o trabalho, Angus
foi de novo encontrar-se com Echraide e reclamou-lhe a mão de Etaine.

«Tu não a terás», disse o rei, «a não ser que transformes em doze rios tudo o que este país
possui de nascentes, de pântanos e de turfeiras,

de tal modo que as águas possam ir lançar-se ao mar. Assim, serão drenadas as minhas terras
que darão peixes em abundância às tribos e às famílias do meu país.» «Isso será feito»,
respondeu Mac Oc.

Foi de novo ter com o pai, expôs-lhe a situação, e Dagda fez com que doze grandes rios se
formassem no pais de Echraide antes de se irem lançar no mar em grandes estuários, coisa que
’amais se vira até então. Quando o trabalho ficou concluído, Angus voltou a casa do rei Ecliraide
e reclamou-lhe a mão de Etaine. «Pelo deus que protege a minha tribo», disse o rei, «ainda não
é desta que te dou a mão da minha filha, pois se eu ta desse, amanhã já nada poderia obter de
ti.» «Que mais queres então?», perguntou Mac Oc. «Eu digo-te o que pretendo: quero o
equivalente ao peso da minha filha em ouro e em prata. Caso consigas trazer-me o que te
peço, poderás levar Etalne.» «Terás o que pedes», respondeu Angus.

Chamaram a donzela e pesaram-na na casa de Echralde. Então, Angus fez trazer o equivalente
ao seu peso em ouro e prata e deu-o a Echralde. «Agora estás satisfelto?», perguntou ao rei.
«Acho que já tive de pagar um bom preço pela tua filha, e que eu saiba nunca ninguem pagou
um preço tão alto por uma donzela ’rlandesa.» «Podes levá-la», respondeu Ecliraíde, «mas
lembra-te que és o responsável pela sua honra e pela sua saúde.»

Mae Oc levou então Etaine consigo para Brug-na-Boyne onde o esperava Mider. Ao vê-lo,
Etaine ficou tão encantada com a sua boa aparencia e com a sua beleza que se apaixonou por
ele imediatamente. Mider, por seu lado, ao ver as feições finas da donzela e a elegância do seu
corpo, ficou muito bem impressionado e também se apaixonou.

Etaine e Míder acabaram por dormir juntos naquela noite. No dia seguintes Angus deu a Mider
o manto e o carro que lhe prometera, e Míder, aparti de então muito satisfeito, ficou um ano
inteiro na companhia do seu filho adotivo em Brug. Concluído este tempo, Mider anunciou a
Mac Oc a sua intenção de voltar para a sua própria residência, no outeiro de Bri Leith. «Não
posso impedir-te de o fazeres», disse Angus, mas toma bem conta da mulher que levas contigo.
A que lá te espera.
1. No direito celta o homem pode ter uma ou mais concubinas, mesmo sendo casado, na
condição de a mulher legítima aceitar a pessoa que lhe é apresentada pelo marido. Este
concubinato é de ahum modo leal, pois é sujeito a um verdadeiro contrato que protege a
concubina: este contrato é válido por um ano e pode ser renovado. É o que acontece neste
caso. Poderosa e perita em Pois, foi educado por Bresal, um dos druidas mais sábio das tribos
de Dana.»

Mac Oc, na verdade, tinha pouca confiança em Fuamnach, mulher de Mider. Ela era a filha de
Beothach, do clã de larbonel, e, graças às lições de Bresal, conhecia melhor do que ninguem os
sortilégios e sabia lançá-los sobre quem lhe desagradasse.

Depois de se ter comprometido a tomar conta dela, Mider partiu com Etame para o outeiro de
Bri Leith, onde foram recebidos por Fuamilach que lhes deu as boas vindas. Em seguida, ela
contou ao marido o que se passara nos seus domínios enquanto estivera ausente. «Vem,
MideD>, disse ela, «para que eu te mostre a casa e as extensões de terra que possuis, e para
que a filha do rei possa contemplar as tuas riquezas.»

Mider fez então uma ronda completa pelos seus domínios e Fuamnach mostrou-lhe, assim como
a Etaine, tudo o que fora feito ao longo do ano. Depois, levou-os para casa e fê-los entrar no
quarto onde dormia. «Só mulheres nobres têm acesso a este quarto», disse ela a Etaine, «e
fica a saber que agora podes dispor dele à tua vontade.»

Mas logo que Etaine se sentou na borda da cama, Fuamnach bateu-lhe com uma varinha de
aveleira púrpura e transformou-a numa poça de água que se estendeu por toda a casa. Feita a
malvadez, Fuamnach saiu o mais depressa possível dali e desapareceu na fortaleza para se
refugiar na residência do seu pai adoptivo, o druida Bresal.

Entretanto, o calor da lareira e do ar, e a fermentação do solo, actuaram de tal forma sobre a
poça de água espalhada pela casa que ela se transformou num verme, o qual pouco depois se
tomou uma mosca purpura. Esta mosca tinha uma cabeça humarta, e jamais no mundo se vira
um insecto tão belo como aquele. O som da sua voz e o zumbido das suas asas produziam uma
música mais suave ainda que a das harpas e das gaitas de foles, e os seus olhos brilhavam
como pedras preciosas na escuridão. O perfume de que dela emanava era tão agradável que
fazia passar a fome e a sede a todos os que dela se aproximassem. As gotinhas segregadas
pelas suas asas curavam todos aqueles que ficassem doentes ou se sentissem debilitados. Ela
acompanhava Mider onde quer que ele fosse, sem jamais o deixar, e ele regozijavam-se com a
sua presença, pois sabia que Etaine estava do seu lado tendo adquirido aquela forma. Ora,
como ele a amava profundamente, nunca se interessou por outra mulher enquanto a mosca
esteve com ele, e sentia-se saciado só de a contemplar. Adormecia ao som do seu zumbido, e
ela encarregava-se de o acordar sempre que se aproximava alguém cuja presença lhe
desagradava. Quando Fuamnach ouviu falar da mosca que tanto extasiava Míder, compreendeu
imediatamente que se tratava de Etaine. Tratou então de Ir Visitar Mider, mas Poruma questão
de segurança fez-se acompanhar a Brug-na-Boyne Por três chefes das tribos de Dana, a saber
Dagda, o ma e Lug do Braço Longo.

Mider censurou vivamente Fuamnach e disse-lhe que, se ela não estivesse rodeada de três
responsáveis pela sua segurança, a não deixaria partir viva. Ela retorquiu que não tinha
nenhum remorso pela acção praticada, que preferia fazer o bem a si mesma a qualquer outra
pessoa, e que, fosse qual fosse a forma que tomasse Etaine, nunca deixaria de a importunar. E,
dito isto, lançando encantamentos que lhe tinham sido ensinados pelo seu mestre, Bresal,
desencadeou um vento druídico que envolveu a Mosca num grande turbilhão o a arremessou
violentamente para fora da fortaleza de Bri Leith - E o vento era tão forte e terrível que a infeliz
Etaine não conseguiu encontrar nem lugar, nem copa de árvore, nem cume de colina, onde
pousar durante sete anos, ficando refém dos rochedos à beira mar e das grandes vagas que
vinham rebentar na praia. Mas, uni dia, ela bateu em Mac Oc, quando este passeava no prado
que dominava a fortaleza do Brug-na-Boyne, e Mac Oc reconheceu Etame na forma de mosca
púrpura.

Ele deu-lhe as boas vindas e, dando-lhe guarida nas pregas do seu manto para a proteger do
vento que continuava a soprar, levou-a para o interior da fortaleza. Aí ele colocou o insecto na
sua câmara de sol, que estava sempre inundada de luz e que continha ervas com multo bom
cheiro e Propriedades maravilhosas. E, a partir de então, ele dormia todas as noites ao lado
dela e cuidava dela com todo o carinho para que pudesse reaver a sua cor e as suas energias.

I. Mencionada noutras narrativas irlandesas, assim como o to francês da Folie


Tri,çta,11, esta «Câmara de Sol» evoca um antigo ritual de regeneração pelo sei. 0,a,
a cena passa-,se em Brug-na-Boyne, ou seja, no cairn megabtico de Newgrange, o
que não acontece por acaso, Com efeito, no soIstício de Inverno. Os Primeiros raios
de sol penetram o outeiro de Newgrange por uma abertura feita ao cimo da entrada,
sobem ao longo do corredor e chegan, à câmara funerária que iluminam com uma
assombrosa claridade durante ai-uns minutos. Ora, nesta câmara, encontravam-se
bacias de pedra nas quais tinham sido colocados ossos e cinzas, É inegável que se
tratava de um rito simbólico do renascimento. 0 que é digno de nota, neste caso. é o
facto de haver urna extraordinária correspondência entre o mito e a realidade
arqueológiea. Vide J. Markale, Dolmens el Menhirs, 10 Civifisation Inégalithique,
Paris, Payot. 1994.
Ora, Fuamnach, ao ouvir falar dos cuidados com que Angus tratava Etame, na sua residência
de Brug enviou-lhe um mensageiro para lhe pedir que fosse a Bri Leith onde ela própria se
deslocaria para fazer a paz com Mider e o seu filho adoptivo: se eles aceitassem a proposta de
paz, ela devolveria a Etaine a forma humana. Muito satisfeito com aquela proposta, Mae Oe foi
logo ao seu encontro.

Mas Fuamnach, ao invés de ir para Bri Leíth, foi direita a Brug e, entrando na fortaleza, dirigiu-
se logo para a câmara de sol. Aí lançou uns terríveis encantamentos, e o vento druídico,
arrebatando o insecto do lugar onde estava, pô-lo a errar por cima da Irlanda. Depois de
suportar muito frio e muita chuva, a mosca acabou por cair em estado de grande fraqueza no
tecto duma casa onde homens e mulheres do Uister se preparavam para começar a beber.
Etaine estava de tal modo subnutrida e debilitada que adquirira a forma de uma mosca normal,
e foi naquele estado que, passando através do buraco da chaminé, entrou na taça de ouro que
a mulher de Etar, um dos campeões do Uister, segurava numa das mãos. Esta, sem dar por
isso, engoliu-a com a bebida e ficou grávida naquela noite, dando à luz, nove meses depois,
uma rapariga chamada Etaine, filha de Etar.

Entretanto, Mider e Anger, tendo estado à espera de Fuamnach sem que ela aparecesse,
tinham ficado preocupados. «É evidente que ela nos fez cair nutria armadilha», disse Mae Oc.
«Se ela souber que Etame está em minha casa, é capaz de lhe ir fazer mal. Devo por isso
regressar urgentemente a Brug.»

Quando chegou à fortaleza, não encontrou Etaíne ria câmara de sol. Compreendeu então que
Fuamnach ali estivera e que de novo desencadeara um vento druídico para levar o insecto dali
para fora. Furibundo, partiu então no encalço de Fuamnach e encontrou-a precisamente no
momento em que ela se preparava para entrar na casa do druida Bresal. «Maldita mulher!»,
gritou ele. «Serás castigada pelo crime que cometeste, pois não posso admitir que tenhas
desonrado e posto em perigo a mulher por quem sou responsável!»

E, atirando-se a ela, cortou-lhe a cabeça e voltou depois para Brug-na-Boyne levando aquela
consigo. Etaine, por seu lado, foi criada com todo o carinho por Etar em Inber Cichmaine, onde
estava rodeada de cinquenta filha de chefes. Etar dava-lhes de comer e vestia-as para que
pudessem estar constantemente a tomar conta de Etaine. Esta cresceu cheia de sabedoria e de
beleza, e todos os homens do Uister elogiavam as suas qualidades e o seu encanto.
Um dia, quando as jovens se banhavam no estuário, viram um cavaleiro que, saindo das águas,
se dirigiu para elas. 0 cavaleiro montava um cavalo escuro multo ágil, imponente e grande,
com a crina e a cauda frisadas. Cobria-o um manto verde cujas dobras muito largas, com um
broche de ouro saliente, caiam sobre uma camisa fina ornada de bordado vermelho. Segurava
na mão uma lança de cinco pontas inteiramente guarnecida de ouro, e ao ombro trazia um
escudo de prata bordado a ouro, Uma fita prendia-lhe os cabelos louros para impedir que eles
caíssem sobre o rosto. Ele deteve-se diante das donzelas e entoou-lhes uni canto estranho que
elas não compreenderam, embora tenham ficado encantadas com a beleza do cavaleiro e se
tenham logo apaixonado por ele. Apesar disso, ele deixou-as, ficando elas sem saber de onde
viera e para onde ia aquele que era Mider e que viera de Bri Leith para contemplar Etaine, pois
jamais ele a esquecera e jamais a amara tanto como agora.

Naquele tempo, o rei supremo da Irlanda era Eochaid Airem, filho de Fimi. Ora, naquele ano
que se seguiu à sua subida ao trono, ele mandou que se anunciasse por toda a Irlanda que em
Tara se realizaria um festim durante a festa de Samain. Todos os nobres e reis dos Filhos de
Milé deveriam aí se deslocar, pois aproveítar-se-ía aquela ocasião para Se tratar de negócios e
para se fixarem os impostos que deveriam ser pagos ao rei supremo. Mas os homens da Irlanda
responderam que Dão iriam ao festim de Tara enquanto o rei que os convocava não tivesse
urna esposa digna de si. Na verdade, Eochaid Airem não era casado, e não havia chefe ou
nobre da Irlanda que não honrasse o festim de Tara tendo uma mulher a seu lado. Eochaid
enviou então os seus servos C os seus mensageiros a todas as províncias em busca de uma
mulher que fosse digna do rei supremo. Quando voltaram, os enviados disseram-lhe que
tinham encontrado apenas uma mulher que correspondia exactamente ao ideal que ele
perseguia: Etaíne, filha de Etar, no Uister.

Na esperança de a ver, o próprio Eochaid Airem se deslocou então ao lugar onde lhe tinham
indicado que estava a rapariga e, ao atravessar um vale verdejante, viu uma donzela junto a
uma fonte, Com um pente de prata magnífico a sobressair de enfeites dourados, ela lavava-se
num tanque de prata ricamente ornamentada com quatro pássaros de ouro e pedras preciosas;
A donzela estava vestida com um belo manto púrpura claro, tendo broches de prata e um
alfinete de ouro a cintilarem sobre o peito. Cobria~lhe o corpo uma camisa comprida de seda
verde bordada a ouro, com ouro e prata acolchetados, e o sol derramavam tons maravilhosos
pela roupa que trazia vestida. No alto da cabeça tinha duas tranças douradas, e quatro ganchos
mantinham-nas separados, havendo uma pérola de ouro no alto de cada uma delas.

Naquele instante a rapariga soltava os cabelos para se lavar e, segurando-os com as mãos, em
seouida fê-los caírem sobre os seios. As mãos eram mais brancas que a neve nocturna e as
maçãs do rosto mais vermelhas que uma dedaleira púrpura. A boca era fina e sem defeitos, e
os dentes brilhantes como pérolas. Os olhos eram mais cinzentos que o jacinto. Vermelhos e
finos eram os lábios, leves e suaves os ombros, ternos, doces e brancos os braços. Os dedos
eram longos, magros e brancos. As unhas eram muito belas, de um vermelho pálido. O ventre
era f,cérico, mais branco que a neve ou a espuma do mar. As coxas eram macias e brancas, a
barriga da perna estreita e muito elegante, os pés finos, imaculados e brancos; os calcanhares
eram muito bem torneados o delicados, e muito brancos e redondos eram os joelhos, Eochaid
Airem, maravilhado com toda aquela harmonia, aproximou-se da donzela e cumprímentou-a,
tendo ela correspondido ao seu cumprimento. Depois, ele perguntou-lhe quem ela era, e ela
respondeu que era Etame, filha de Etar, campeão do UIster.

«Donzela, queres casar comigo’?», perguntou-lhe ele. «E quem és tu?» «Eu sou Eochaid Airem,
rei supremo da Irlanda, e vim pedir-te em casamento.» «Não devo ser eu a dar-te uma
resposta, mas sim o meu pai». Disse ela.

O rei foi logo se encontrar com Etar, e este concordou em lhe dar a filha se ele tivesse um bom
dote para lhe dar. Eochaid deu-lhe sete jovens escravas e uma magnífica manada de vacas
brancas, e levou Etame para Tara.

Ao saberem que o rei arranjara uma esposa, os homens da Irlanda foram ao festim de Tara.
Chegaram quinze dias antes do Samain e permaneceram quinze dias depois de terminado os
festins. Ficaram espantados com a beleza e a elegância de Etaine e não paravam de a elogiar,
dizendo que nunca um rei da Irlanda tivera uma mulher tão perfeita.

Entretanto, Eochaid Airem tinha um irmão que se chamava Ailill Anglonnach. E quando este viu
Etame pela primeira vez, no festim de Tara, apaixonou-se imediatamente por ela. Não parava
de a contemplar e de suspirar, de tal forma que a mulher acabou por lhe perguntar: «Para
quem olhas, ó Ailill? Só o amo’* Pode suscitar olhares tão profundos e suspiros como os teus!»

Ailíll, muito envergonhado, recriminou-se a si mesmo e evitou daí em diante olhar para Etame.
Mas, tendo partido os homens da Irlanda a seguir ao festim de Tara, Ailill pelo contrário deíxou-
se ficar, sendo acometido de um estado de grande fraqueza devido ao ciúme, a inveja e ao
despeito que o minavam. Preocupado com ele, Eochaid Airem, o seu irmão, mandou chamar o
seu médico, Fachtna. 0 médico auscultou o peito de AffilI, e este suspirou profundamente.
«Penso que não estás doente», disse Fachtna. «Tu foste acometido do que me parece ser uma
espécie de inveja.»

Ao ouvir aquelas palavras, Ailill ficou cheio de vergonha e evitou dizer ao médico o que o
atormentava, não podendo por isso ser curado. Ora, Eochaid Airem devia partir no seu périplo
real pelas províncias da Irlanda, mas Preocupava-o tanto a saúde do irmão que disse a Etaine:
<Mulher trata do meu irmão e presta-lhe toda a assistêrícia que puderes, pois ele parece-me
bem doente. E, se Por infelicidade, ele morre, tu triesma faz-lhe a sepultura e escreve o seu
nome em ogham na laje que ’oJ ellgidi neste lugar.»

Tendo incumbido Etaine de cuidar de Ailili, Eochaid começou então o seu Périplo por todas as
províncias da Irlanda. Etaine, por seu lado, ]a todos os dias à cabeceira de Affill para lhe lavar a
cabeça e lhe dar de comer. Mas Affill piorava de dia para dia, e Etaine receava que ele
morresse. «Ouve», disse-lhe ela uma noite, «às vezes fico a pensar que a tua doença é
provocada por um pensamento que não tens coragem de confessar. Estou certa de que. se mo
confessares, poderei fazer alguma coisa para te curar.,> <Oh mulher!». Respondeu Niffil, «tu
poderias fazer alguma coisa para me curar, mas eu não me atrevo a revelar-te a causa do meu
mal.» «Diz-me o teu segredo» «Não to direi», obStíDOU-se AffiL.

No entanto, ao fim de alguns dias de muita insistência da parte dela, ele decídiu-se a falar, «Se
queres saber a causa do meu mal», disse ele, «vou-to revelar: és tu. Desde que te vi pela
primeira vez, fiquei de tal maneira apaixonado que deixei de ser senhor do meu coração e dos
meus sentimentos. E uma situação bem triste, ó mulher do rei, pois o meu corpo e 0 meu
espírito estão doentes e nada me pode curar a não ser que tu própria me sirvas de remédio.
Nem podes imaginar como o meu amor é um espinho dilacerante que me rasga a alma e me
destrói todo por dentro! 0 meu amor, que tem as dimensões da terra inteira e do céu infinito,
tortura-me noite e dia e flagela-me a alma que vive no meio de sombras e de trevas! Não
podes imaginar como me consumo a lutar contra as sombras que não param de me visitar e de
me torturar, ó mulher!» Assim falava cheio de mágoa Ailill Anglonnac, filho de Finn, irmão do
rei supremo da Irlanda, Eochaid Airem. E, depois de se ter pronunciado, escondeu o rosto com
vergonha por estar apaixonado pela mulher do irmão. «É uma pena que tenhas ficado tanto
tempo sem dizer a origem do teu mal», murmurou Etame, «pois poderíamos tê-lo curado há
muito tempo.» «Tu poderias curar-me completamente, se o desejasses», disse Ailifi. «Eu
quero», retorquiu Etaine. «Esta noite, quando todos forem dormir, vem ter comigo à casa que
se encontra fora da fortaleza. Eu estarei lá e farei com que fique curado.»

Aillil teve muito cuidado para não dormir, naquela noite. Mas, chegado o momento de partir
para o encontro, foi visitado por um sono profundo e dormiu até de manhã. Etame, por seu
lado, tendo-se dirigido para a casa fora da fortaleza, viu chegar um homem fraco e fatigado,
parecido com Ailill, mas ela percebeu que não era ele. «Não foi contigo que marquei um
encontro», disse ela, «mas com um homem a quem prometi curar, pois está muito doente
devido à paixão que tem por mim.» «0 encontro que marcaste com esse homem não seria
conveniente», disse o desconhecido, «e garanto-te que aquele que esperavas amanhã estará
curado. Fui eu que o fiz dormir e vim no seu lugar para te poupar à desonra e à vergonha.»
«Mas quem és tu?», perguntou Etaine. «Não me reconheces? Quando eras Etaine, filha de
Ecliraide, pertencias-me, e desde então nunca deixei de te amar. Tu sabes bem que me chamo
Mider de Bri Leith. «Se é como tu dizes, o que é que então nos separou?», perguntou Etaine.
«Os artifícios de Fuaninach e os encantamentos do druida Bresal. Não te lembras, ó Etaine, a
mais amada e a mais digna de ser amada?» «Lembro-me, na verdade», disse Etaine, «mas
tudo isso está envolto numa névoa muito distante, parecendo que sombras aparecem à minha
frente sem que eu consiga apreender o seu sentido. E que farás tu para curar Ailill
Anglonnach?» «Eu fá-lo-ei passar por um sonho que o levará a pensar que te teve nos braços
durante toda a noite. ó mulher tão amada, virás comigo?» «E para onde me levas?», perguntou
Etaine.

Então, Mider entoou este canto:

«Oh bela mulher tão amada, virás comigo para a terra tão amada onde se ouvem músicas,
onde sobre os cabelos se levam coroas de primaveras, onde, da cabeça aos pés, o corpo é da
cor da neve, onde ninguém Pode ficar triste ou sentir-se infeliz, onde os dentes são brancos e
as sobrancelhas são negras, onde asfaces são vermelhas como as dedaleiras emflor? A Irlanda
é bela, mas Poucas paisagens são tão belas como as que verãs na grande planície onde te
levarei.
A cerveja da Irlanda é forte, mas a cerveja da Grande Terra é ainda mais inebriante. E um país
maravilhoso o que já conheces.- nele os jovens nunca envelhecem e correm rios de hidromel
nele os homens são encantadores, perfeitos, e o amor não é proibido...
Oh mulher tão amada, quando chegares ao meu país passarás a levar uma coroa de ouro no
cimo da cabeça, comerás porco fresco todo o ano, tomarás cerveja e leite, ó mulher, bela
mulher tão amada, virás comigo?»

«É impossível», respondeu Etaine. «Estou casada com o rei supremo da Irlanda e não 0 Posso
deixar.» «E se eu conseguir que o rei da Irlanda me dê a tua mão, virás comigo?» «Sim»,
respondeu simplesmente Etame. Então Mider desapareceu, sem que Etaine soubesse o rumo
que ele tomara.

De manhã, ela viu Ailill Angloninach vir ao seu encontro com um óptimo aspecto e um olhar
radioso. «ó mulher!», exclamou ele, «tu curaste-me, e não sei como te agradecer.» «Eu sei
como poderás agradecer-me», disse ela. «Basta que não fales a ninguém sobre o que se
passou esta noite entre nós.»

Passados alguns dias, Eochaid Airem voltou do seu périplo real pelas províncias da Irlanda. Ao
ver o irmão curado, ficou muito contente e agradeceu a Etaine o tratamento que lhe dera.
Então, Ailill Anglonnach voltou para sua casa e nunca mais ficou doente.
No dia seguinte, Eochaid Airem levantou-se muito cedo e subiu ao terraço de Tara para
contempiar a planície que se estendia sob o brilhante sol de Verão. Ao olhar ao redor da
fortaleza viu aproximar-se um estranho guerreiro, que vestia uma túnica púrpura e cuja
cabeleira loura caía em ondas até aos ombros - o guerreiro tinha os olhos brilhantes e a lança
de cinco pontas do pescoço trUia azuis, e na mão segurava umas pedras preciosas suspensas
num escudo de prata bordado a ouro e nele incrustadas. Eochaid não o reconheceu, mas sabia
que aquele homem não tinha estado na noite anterior na sala de festins de Tara. «Bem vindo,
guerreiro que não conheço», disse Eochaid - «Eu conheço-te», respondeu o outro. «Tu és
Eochaid Airem, rei supremo de toda a Irlanda.» «Tens razão, mas corno te chamas’» «0 meu
nome não é muito conhecido entre os Filhos de Milé. Fica, a saber, que me chamo «Gostava de
jogar xadrez conmider de Bri Leith.» «E que desejas?» viu Eochaid, «eu sou tigo», respondeu o
guerreiro. «Na verdade», retorque muito bom no jogo de xadrez, e quando me desafiam para
uma parti nunca recuso. Mas a rainha ainda está a dormir, e o tabuleiro e as peças estão nos
seus aposentos.» «Não importa», respondeu o guerreiro, «eu tenho aqui um jogo de xadrez
que não tem menos valor.»

Era verdade o que dizia, pois tinha em seu poder um tabuleiro de prata com cada canto
iluminado por uma pedra preciosa. Depois, retirou as peças que eram de ouro dum saco com
malhas em bronze, e pousou o tabuleiro sobre o terraço. «Agora podemos jogar», disse ele.
«Eu não jogo se não houver uni prétnio», disse Eochaid. «E qual será o prémio?», perguntou
Mider. «É-me indiferente.» «Pois bem», disse Mider, «se tu ganhares o prêmio serão cinquenta
corcéis acinzentado, com as cabeças malhadas e vermelhas, as orelhas pontiagudas, o peito
largo, as narinas muito abertas, as patas muito finas e poderosas, fogosas, rapidas, fáceis de
atrelar, e também cinquenta rédeas esmaltadas. Se eu perder, os corcéis estarão aqui amanhã
à terceira hora.»

Os dois homens começaram então a jogar. Eochaid ganhou a partida e Míder retirou-se,
levando o jogo de xadrez. No dia seguinte, quando Eochaid andava pelo recinto da fortaleza de
Tara, viu Mider aproximar-se do terraço. Não sabia de onde ele vinha nem como conseguira
chegar ali, mas ficou muito satisfeito ao ver que Mider trazia consigo um grupo de cinquenta
cavalos acinzentados com rédeas esmaltadas.
«Está bem», disse ele, «mantiveste a palavra.» «O que é prometido é devido», disse Mider.
«Vamos jogar outro jogo hoje9» «Por mim está bem», respondeu o rei, «na condição de que
haja um prémio.» «Isso nada tem de mais. Se ganhares esta partida, dar-te-ei cinquenta vacas
brancas de orelhas vermelhas, cinquenta portas com bojo cinzento, cinquenta espadas com
proteção em marfim, e cinquenta mantos sarapintados. 0 que pensas>» «Concordo em
absoluto», respondeu Eochaid.

1 Fizeram uma partida, Eochaid ganhou, e no dia seguinte Mider voltou com tudo o que tinha
prometido. E assim foi durante vários dias: Mider perdia regularmente, e Eochaid ia
acumulando as suas riquezas na fortaleza de Tara.

Entretanto, o intendente do rei estava muito admirado com tantos tesouros acumulados em tão
pouco tempo. Interrogou Eochaid, e este lhe contou como ganhava aquelas riquezas. «E muito
estranho», disse o intendente. «Aconselho-te a não confiares neste homem, pois me parece
que ele tem poderes mágicos. Na próxima vez, não deixes que seja ele a propor o prêmio.
Impõe-lhe tu pesados encargos, e veremos como ele assume as suas responsabilidades. »

Assim, quando Mider apareceu no terraço para propor a Eochaid uma nova partida de xadrez,
foi este a impor as condições em caso de vencer, a saber, retirar todas as pedras de Meath,
construir uma estrada sobre os pântanos de Larriraige e plantar uma floresta no vale de
Breifné. «Isso é muito», disse Mider, «mas mesmo assim aceito as condíções.» Voltaram a
jogar e Eochaid ganhou a partida. «Antanhã terás o que pediste», disse-lhe Mider, «mas não
deixes que nenhum homem ou mulher saia da fortaleza antes do sol nascer.» «Eu prometo»,
disse Eochaid, «ninguém sairá da fortaleza antes do nascer do sol.»

Mas, ao invés de manter a promessa, o rei mandou o seu intendente ver o que se passava. O
homem saiu então da fortaleza e foi observar os movimentos de Mider. Viu uma multidão de
homens a trabalharem arduamente na construção da estrada, outros a recolherem pedras, e
ainda outros a plantarem árvores. Voltou imediatamente para Tara e contou a Eochaid os
grandes trabalhos que estavam a ser feitos durante a noite para que a promessa fosse
cumprida. E acrescentou que nunca vira no mundo um poder mágico tão poderoso como
aquele que testemunhara.
Estavam a conversar quando viram aproximar-se o grande guerreiro de cabelos louros e de
olhos azuis. Tinha um cinto à volta do tronco e parecia furioso. Eochaid ficou um pouco
assustado, mas deu-lhe as boas vindas. «Pouco me importam as tuas gentilezas», respondeu
Mider com aspereza. «As tarefas que me pedes para executar e as exigencias difíceis, Eu estava
realmente pensando que me fazes são demasiado duras de cumprir o combinado para te
agradar, mas tu na disposição lá, acalma-te», disse o rei. «Eu tentarei ser abusas da situação.»
«Vamo, logo?», pergunta compreensivo desta. «Fazemos Outro da próxima vez «o que prova a
minha De boa vontade», respondeu Eochaid - ’<Mas qual será 0 prérfiío?» «O que decidir o
vencedor», disse Mider. «Eu aceíto», disse oa vontade para contigo, pois desse modo o rei
nada fica combinado previamente.»’ partida, ficando. Jogaram novamente, mas desta vez,
Míder ganhou dele, do Eochaid muito embaraçado, «Que prémio desejas?», perguntou E MideT
respondeu, «QueTo a tua mulher, Etaíne, filha de Etar do antes de ser tua.» Aterrado, Uster,
que foi minha mulher Muito «Nesse caeochaid acabou Por dizer’- «Dá-me um prazo» «Eu dou-
to».
Mider partiu, deixando Eochaid numa grande angústia, O rei dcsconfiava que Mider tinha
deliberadamente criado aquela situação catastrófica de que dificilmente conseguiria sair como
vencedor* Entretanto. Nao tinha intenção nenhuma de perder Etaine e de a dar a Mider, de tal
forma que, por esse motivo no dia combinado, Eochaid Aírein reuniu ao seu guerreiro da
Irlanda ao redor, em Tara, a elite dos seus homens fortaleza ser cercada, iniciou.
Após muito reflectir, resolveu não cumprir com as suas obrigações. Além disso, Eochaid Prov,
eDtido de a foge da casa onde estava com EtaiBe ser defendida por hoda de tropas,
a quem quer que quisesse faPmens armados e determinadOS a resistir como as da casa, foram
afetar a rainha. As portas da fortaleza assi poderes mágicos id sabia que o homem de grandes
rolhadas, pois Eocha o da assembleia, não faltaria ao encontro marcado, Etaine estava no meio
chefes e os senhores que rodeavam o rei naquela noite, e servia os não impediriam, apesar de
tudo, que Mider As medidas tomadas Era evidentemente aqui que Mider pretendia chegar.
Perdendo partidas sucessivas, o hábil mágico que era capaz de pagar prémios venceu a
desconfiança de Echaid e lhe fez cair na sua armadilha. Em todas as narrativas aumentou a sua
capacidade, Para élic, são apresentados como sendo muito infestivos, os Filhos de Milé, ou
Seja, antigos deuses druídicos que se equipararam à personagens das tribos de Danu ou seja,
as Fadas das ilhas, «bosques tomaram por sequência, até aos nossos dias a tradição popular
oral oriunda da Escócia. – oral até hoje, se não fosse o comercio --- o final desta história
poderia considerar-se que falta ao prometido, mandando espiar, depois tentando assumir os
parecesse, sem se saber como, no meio da casa. Ele era extremamente belo, mas a todos
pareceu que Daquela noite estava ainda mais belo do que era habitual, com os cabelos louros,
os olhos azuis e o manto ornado com pedras preciosas e um broche de ouro. O coração de,
Etaine estremeceu ao vê-lo assim, no meio de uma assembleia que lhe era hostil, mas ficou
calada, limitando-se a encher os copos de cerveja e de hídromel. Estavam todos estupefactos
por ele estar ali, no meio da sala, quando todas as entradas lhe estavam vedadas. Mas Eochaíd
avançou para ele e deu-lhe as boas vindas.

«Estou aquí», disse Mider, «para reclamar o prêmio combinado e se não mo deres perderás a
honra.» «Um rei da Irlanda não pode dar a mulher a outro», respondeu Eochaid. «Posso dar-te
tudo o que me pedires, mas é impossível que Etaine parta contigo esta noite.» «Tu prometeste-
ma», disse Mider, «e deves liquidar a tua dívida perante todos os homens da Irlanda.» «Eu não
te darei Etaine», disse Eochaid com um ar muito ríspido. «Não me assustas», respondeu Mider.
«Ninguém se pode furtar às suas obrigações e muito menos um rei. Eu próprio não tive de
liquidar os compromissos assumidos, apesar de todas as dificuldades por que tive de passar?»
«É verdade», acabou por ter de admitir Eochaid,

Então Mider voltou-se para Etaine. «Mulher», disse-lhe ele, «é verdade que me acompanharás,
se o rei supremo da Irlanda o consentír?» «Sim», respondeu Etaine. «Eu prometi~to.» «Mas eu
não ta entrego!», gritou Eochaíd furibundo. «Cometes perjúrio», disse Míder, «e todos os
homens da Irlanda são testemunhas de que não tens palavra.» «Apenas consinto que tomes
Etaíne nos braços e lhe dês três beijos», disse Eochaid. «Farei então como dízes», disse Mider.

Míder segurou as armas com a mão esquerda e, com a direita, envolveu a cintura de Etaine e
deu-lhe três beijos. Depois, sem pronunciar uma palavra, fê-la passar por um orifício do teto
desapareceram na noite.

Os guerreiros que rodeavam por não terem podlíiindo pertence às tribos de Daria», alguém
disse, «e as tribos de Dana vivem e nos oute, iniciou-se com a iros da Irlanda. Com certeza ele
refuiou-se com a rainha no outeiro mais próximo.»

Eochaid partiu então, com a elite dos homens da Irlanda, para o outeiro mais próximo de Tara,
do lado oeste, o de Bart Finn. Quando aí chegaram, o rei ordenou que se escavasse o solo do
outeiro até se conseguir desalojar os fugitivos. Escavou-se toda a noite, vasculharam-se os
mais recônditos recantos do outeiro”’, mas não se encontrou nada nem ninguém, pois os
homens das tribos de Dana tinham o poder de se tornar invisíveis àqueles que não eram do seu
povo. Mas, de manhã, viram aproximara-se uma mulher já velha. «Que procurais vós aqui,
homens da Irlanda?», perguntou ela. «Procuramos Etaine, a mulher do rei da Irlanda, que
acaba de ser levada», responderam eles. «0 homem que foi encontrar-se convosco e que levou
a vossa rainha não é daqui», respondeu ela. «Se desejais encontrá-lo, deveis dirigir-vos para a
resídência de Bri Leith.»

Rumaram para norte e, ao entardecer daquele dia, chegaram ao outeiro de Bri Leith.
Escavaram o solo toda a noite e de manhã perceberam que todo o esforço tinha sido em vão.
Apesar disso, voltaram a escavar durante todo o dia, e, quando o sol já declinava para o
horizonte, viram dois cisnes brancos que, lado a lado, se erguiam no céu, Por um instante os
pássaros sobrevoaram as suas cabeças e depois, rumando a norte, perderam-se na bruma.

A partir deste tempo distante, quando a tarde cai e uma bruma leve sai das turfeiras, ouve-se
muitas vezes o canto dos dois cisnes brancos que nadam à superfície das águas calmas de um
lago ou de um rio. Têm um canto tão harmonioso que é impossível reter as lágrimas ao ouvi-]o,
pois é a música das fadas que se eleva no ar por entre os últimos raios de sol. Quando menos
se espera, vê-se os dois pássaros levantar voo, sobrevoar por um breve instante na bruma, e
desaparecer. E todos sabem que é Etaine, a bela rainha de Tara, que, na companhia...
1. É preciso ter em conta que o nome gaélico «Airem» significa «aquele que trabalha», «aquele
que escava o solo». Este facto não é certamente casual, e sabe-se que numerosos cairns
megalíticos foram destruídos por sucessivas gerações de agricultores. Por outro lado, uma das
versões da lenda defende que Eochaid Airem foi o primeiro irlandês a meter um jugo nos bois
para os fazer puxar a charrua.

de Mider de Bri Leith, rei das Sombras, vai percorrer o céu sobrevoando a Ilha Verde
em direcção ao país da Eterna Juventude, aí o e frutos nem a dor e onde as árvores têm
flores onde não...

1 Síntese de quatro narrativas, todas intituladas Tochmarc Etaine (Courtise d’Etaine),


conservadas no Livre de ia Vache Brune (Leabhar na hUidré), manuscrito do fim do século XI,
no Livre Jaune de Lecan, manuscrito do século xiv, e no manuscrito Egerton 1782, Textos
publicados em diversas obras, nomeadaniente por Best e Bergin, em Eriu, vol. XII, com
tradução inglesa. Tradução francesa de Ch.4. Guyonvarc’h

iriandais, Rennes, 1980 em Textes mYthologiques . Análise de J, Markale, L’Épopée celtique


d’Iriande, Paris, 1994. A personagem de Etame simboliza a soberania da Irlanda, e aparece nas
narrativas rrijtologicas e épicas com numerosos nomes, tais como Ethné (mãe de Lug), Tailtiu
(mãe adoptiva de Lug), Banha, Fothla, Eriu e, mais tarde, no ciclo do Uster, com o nome da
célebre Deirdré.

Outra obra de fean Markale publicada pela ÉSQUILO:

O CRISTIANISMO CELTA
E as suas sobrevivências populares
Como foram os celtas cristianizados?
O que é que sobreviveu da antiga religião druídica?

É respondendo a estas e outras interrogações que Jean Markale analisa este fenómeno histórico
apaixonante que foi a emergência do cristianismo celta. Nascido na Bretanha, na Irlanda e na
ilha da Bretanha de uma fusão entre o druidismo e o cristianismo, esta espiritualidade aceita a
mensagem de Cristo conservando ao mesmo tempo muitas das características da tradição
céltica: Monaquismo, santos heróicos, integração das mulheres no culto, bispos errantes,
peregrinações pro amore Dei...
Ainda hoje, nas zonas rurais - essencialmente na Bretanha - Jean Markale tem descoberto
sobrevivências populares deste cristianismo celta no culto dos santos, assim como nas festas
tradicionais e nos santuários.
Combatido pela Igreja de Roma - foi mesmo, por vezes, considerado herético - o cristianismo
celta influenciou profundamente o conjunto do cristianismo e constitui uma chave fundamental
para compreender o «cristianismo português».