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ALAGOAS

POPULAR

Folguedos e Danças
de Nossa Gente
2013
I 59 a Instituto Arnon de Mello.
Alagoas Popular: Folguedos e Danças da Nossa Gente/ Carmem Lúcia Dantas – Pesquisa e
Texto; Douglas Apratto Tenório- Apresentação; Josefina Novaes – Consultoria de Pesquisa de
Campo; Ivone Santos – Revisão; Ricardo Ledo – Fotografia. Maceió: IAM,2013. 242p. 25 cm. Ill.
ISBN:
Conteúdo: ( Fasc.1 – Apresentação; Fasc.2 - Presépio, Pastoril; Fasc.3 - Reisado,
Guerreiro; Fasc.4 – Chegança, Fandango; Fasc.5 – Negra da Costa, Quilombo;
Fasc.6 – Taieira, Baiana; Fasc.7 – Maracatu, Bumba-Meu-Boi, Boi de Carnaval;
Fasc. 8 – Coco, Quadrilha; Fasc. 9 – Mané do Rosário, Dança de São Gonçalo,
Bando; Fasc. 10 – Torre, Cambindas, Caboclinho.)

1 – Folguedos Folclóricos – Alagoas. II Alagoas- Cultura Popular. I Instituto Arnon de Mello II


Dantas, Carmem Lúcia – Pesquisa e Texto. III Tenório, Douglas Apratto- Apresentação. IV Novaes,
Josefina – Consultoria de Pesquisa de Campo. V Santos, Ivone – Revisão. VI Ledo, Ricardo –
Fotografia. VII Título

CDD 793.3198135
ALAGOAS
POPULAR

Folguedos e Danças
de Nossa Gente
2013
Os protagonistas
A qui os temos novamente, em “Alagoas Popular – Folguedos e Danças de Nossa Gente”,
emergindo das sombras à luz, para serem reconhecidos como protagonistas dessa tessitura feita de
elementos prosaicos, quase despretensiosos, para animar os dias, fugindo às suas asperezas, de movimentos
e cantos, singelos, ingênuos, mas que são o mais forte componente dessa rede a que chamamos cultura,
mais precisamente cultura popular.
Há pouco os tivemos no significante “Mestres Artesãos das Alagoas – Fazer Popular”, aí com for-
mas engendradas por mãos hábeis, de sulcos ásperos. Argila, ferro e algodão, uma variedade de materiais
servindo para construções utilitárias, decorativas ou simplesmente elementos de projeção de uma rica e
crítica estética, feita pelos que habitam nos desvãos da sociedade.
E as igrejas, capelas, conventos e elementos de adorno que vimos em “Alagoas Memorável – Patri-
mônio Arquitetônico”? - outro tomo dessa tríade que resgata os feitos do passado e do presente que
estão na base do fazer e do acontecer de nossa gente, dos que já desapareceram nas brumas do tempo e
dos demais, que quase silenciosamente continuam fazendo, sem pretensão ao protagonismo que de fato e
de direito merecem.
Ecos do passado e vozes do presente que nos encantam. Simplicidade feita forma, gestual convertido
em beleza e palavras que adquirem sonoridade. Fazedura, cantos e danças da gente alagoana, edificadores
anônimos de uma estética e da memória, da identidade e - por que não dizer? - da alegria, porque é melhor
ser alegre do que triste, como disse o poeta.

Stefani B. Lins

Mateus de Guerreiro
ALAGOAS Índice Geral
POPULAR
Folguedos e Danças de Nossa Gente

Os Folguedos em Alagoas 14
Presidente do Conselho Estratégico Núcleo de Projetos Especiais Um povo mestiço e único 18
Carlos Alberto Mendonça Folclore, concepção do mundo e da vida 21
Diretor Executivo Coordenação Geral As antigas festas de Natal 23
Luis Amorim Leonardo Simões Origem do folclore alagoano 24
Coordenação Editorial Uma só história e uma geografia variada 27
Farol Editora & Comunicação O alpendre da casa-grande e os limites da senzala 29
A Escola de Viçosa 30
Apresentação
Douglas Apratto Tenório
Pesquisa & Texto Folguedos e Danças de Alagoas 35
Cármen Lúcia Dantas
Consultoria de Pesquisa de Campo
Josefina Novaes
Presépio
Presidente Revisão Por dentro das Jornadas 38
Carlos Alberto Mendonça Ivone Santos Ensaiadoras e animadores 39
Fotografia O auto e a função - A peleja entre o Bem e o Mal 44
Ricardo Lêdo Pastoril - A rivalidade dos cordões 45
Direção de Arte e Diagramação
Wellington Charles Reisado
Tratamento de Fotos
Victor Paiva Chegada à Colônia 51
A ancestralidade de Reis 53
Obra poética - Maurício de Macedo, “das alagoas - Personagens e trajes, o domínio da cor 54
seguido de guerreiro” e “A Poesia no Cordão - seguido Na cadência da função 56
de Pastoril” - Edufal - Maceió - 2002/2003. Entremeios, as prendas da sorte 58
Despedida em marcha 60
Impressão - Moura Ramos Gráfica Editora
Tiragem - 30.000 Exemplares Guerreiro
Instituto Arnon de Mello Guerreiros brincantes, preferência caeté 61
Endereço - Rua Aristeu de Andrade, 355 - Farol Personagens e trajes, um reino de gosto popular 64
O auto e sua função, fragmentos da fé e da guerra 65
Maceió /AL - Cep 57051-090
Entremeios 67
Telefone/Fax - (82) 4009.7777 / 4009.7756 Despedida 68
E-mails: gazeta@gazetaweb.com
comercialga@gazetaweb.com
Negra da Costa
Traços da etnia 73
O folguedo em Alagoas 75
Personagens e trajes 76
O auto e a função 78

Quilombo
Foto capa: Darci Macena Bispo
(Palhaço do Guerreiro Mensageiro do Padre Cícero) Origem discutida 80
Personagens e trajes 82
As fotos utilizadas no Capítulo I deste trabalho O auto e sua função 85
pertencem ao acervo do Museu Théo Brandão, cujos
fotógrafos foram citados nos respectivos créditos.
Chegança Bumba-Meu-Boi
A chegança dos mouros 91 No rastro da lenda 156
Os grupos locais - Penedo, Coqueiro Seco, Rio Largo 94 A folgança em Alagoas 158
Personagens e trajes 97 Personagens e trajes 159
O auto e a função 98 O boi e sua evolução 160

Fandango Boi-de-Carnaval
Outras façanhas no mar 99 Origem discutida 161
Os grupos locais 102
O auto e a sua função 104
Mané do Rosário
Samba de Matuto A Vila Real 167
O começo do mistério 169
As faces múltiplas do samba 109 Registro dos pesquisadores 172
A folgança em Alagoas 111 Personagens e trajes 176
Personagens e trajes 112 Tradição de Mestra 178
O auto e a função 113 O caminho do cortejo 182
O auto e a função 186

Taieira
Bando
Do cortejo ao folguedo 114
Personagens e trajes 118 Arautos de Santa Luzia 190
O auto e a função 1210 Personagens e trajes 192
O Bando em evolução 196

Baianas
Dança de São Gonçalo
Origem discutida 121
Personagens e trajes 124 A origem remota 200
Mestras em destaque 125 Personagens e trajes 204
O auto e a função 126 A dança e a evolução 207

Coco Toré
A origem em questão 131 Tradição ancestral 211
Personagens e trajes 134 O sentido da dança 215
Na “puxada” do Coco 136 Personagens e trajes 217
A dança e a função 137 O folguedo e a folclorização do rito 218

Quadrilha Caboclinho
O selo da erudição 138 Origem indígena 220
Quadrilha em duas versões 139 O auto da região norte 222
Quadrilha regional - personagens e trajes 141 Personagens e trajes 224
A evolução dos pares 142 O auto e a função 226
Quadrilha Moderna - personagens e trajes 143
Quadrilha Moderna em Evolução 144 Cambindas
Herança boreal 228
Maracatu A folgança continua 230
Personagens e trajes 232
Perseguição histórica 149 Cambindas em evolução 233
Maracatu Nação e Maracatu Rural 152
Personagens e trajes 154
Alegoria e função 155 Glossário 235

Bibliografia 237
E ste livro, que dá uma amostra do resultado do Folguedos Ala-
goanos, é apenas uma janela para a imensa importância do
trabalho desenvolvido pelo projeto. É uma árdua tarefa resumir o al-
cance das atividades e seu impacto na região numa única publicação.
Nossos objetivos ao patrocinar cultura, vão além de levar as obras
ao público. Valorizamos a formação das plateias como um todo, e
este projeto tem o papel de gerar capacidade de reflexão através do
senso crítico no que se refere à arte.
Valorizar o resgate das tradições faz parte da nossa política de
patrocínios. Reconhecer a produção passada, incentivar a pesquisa e
a discussão e democratizar o acesso à arte são para nós motivos de
inspiração para continuar patrocinando a cultura nacional.
Para a Petrobras, a cultura deve chegar a todos, independente das
cidades onde nosso negócio atua direta ou indiretamente. Afinal, o
desenvolvimento do Brasil faz parte do nosso desenvolvimento. A
inspiração que vem de cada envolvido nos motiva a seguir em frente
e enfrentar nossos desafios a cada dia.

Petrobras
Capítulo I
Mestre de Guerreiro
Acervo Museu
Théo Brandão

Danço com o corpo maneiro,


piso pra lá e pra cá.
A única paixão que conheço
é o prazer de dançar.
(Maurício de Macedo)

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Os Folguedos
em Alagoas
Douglas Apratto Tenório

A preservação dos valores culturais caracte-


riza-se fortemente como uma peça de re-
sistência atual e uma tendência inquestionável da
época contemporânea. A valorização do regional,
do universo local, em contraposição à onda avas-
saladora da globalização que inunda a economia, o
comércio, os costumes, a comunicação, é vital para
a afirmação de identidades específicas, da sensa-
ção de pertencimento que garante às pessoas o or-
gulho de suas raízes e a referência de seus lugares.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 15


Guerreiro

16 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


No mundo estandardizado, das marcas e Não é fácil para o Brasil industrial e ur- gente simples, do povo, que soube assimilar
logomarcas das grandes empresas que estão bano, construído sobre o asfalto, o plástico e as várias contribuições étnicas, os diálogos
em todos os pontos, em todos os países, que as grandes concentrações urbanas, compre- diversos e a urdidura de muitos atores pro-
não têm origem nem fronteiras, cuja presen- ender, ainda que parcimoniosamente, a criati- venientes de universos geográficos e práticas
ça atropela nacionalidades e estados, a cultura vidade e a beleza do caldeirão extraordinário dessemelhantes.
constitui elemento fundamental para a valo- do seu interior, de seus saberes ancestrais, É significativo assinalar que é cada vez
rização do homem e do seu meio, sejam quais de sua cultura que foi construída longinqua- mais expressivo o número de pessoas que
forem as formas escolhidas para traduzir as mente nas fazendas, casas-grandes e senzalas vêm dando atenção ao indispensável olhar
visões de mundo e as demandas que se colo- desde sua época agrário-colonial. As imagens sobre a nossa história a partir de nossas ra-
cam entre a arte e a cultura dos rincões mais que nos caracterizam e simplificam são ge- ízes populares e não só de nossos ancestrais
distantes e a poderosa indústria cultural que ralmente da seca, da violência, da perversão ibéricos e europeus, brancos, mas também
irradia e domina as tendências mundiais nas política, das paisagens naturais sob o crivo do sob a perspectiva dos antepassados indígenas
metrópoles hegemônicas. exotismo e do oportunismo midiático. e africanos que aqui se encontraram na fase
Sob a égide da modernidade não se deve A cultura nordestina, onde Alagoas está pioneira de formação e que se plasmaram
esquecer que o processo de industrialização inserido - assim como a amazônica, a das ge- definitivamente na concepção de nossa iden-
gerou transformações sociais e urbanas que rais, a pantaneira e a gaúcha -, é o lugar de tidade. Na verdade, foi esse fantástico calde-
dificultam e às vezes incompatibilizam a con- encontro com a história brasileira, é o refle- amento o fator desencadeador das distinções
vivência entre o passado e o futuro, negando xo de sua formação original, de convivências mais notáveis da nossa cultura, a competên-
a unidades periféricas, como Alagoas, o aces- plurais. Tem ligada a sua integração com a cia enorme de incorporar, metamorfosear e
so ao tão apregoado progresso com a fruição sociedade que a gerou, o que estabelece uma transformar, ou seja, reinventar elementos de
de um autêntico lastro cultural erigido por conexão entre a regionalidade e a naciona- outras estirpes que nos conceberam como
séculos em sua trajetória histórica. lidade, um trabalho feito por gerações, por povo e sociedade.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 17


Um povo mestiço e único
E sse amálgama se reflete em nosso

modo de ser, em nossos trejeitos, na

própria constituição de cada identidade regio-


do qual as várias contribuições que formam

a alma brasileira se tocaram e se entrançaram

para nos tornar o que somos hoje, um povo


e sua exposição em diferentes momentos da

crônica brasileira. Cada momento da vida de

seus habitantes e cada instante da sua trajetória

nal. Como é semelhante e ao mesmo tempo mestiço, plural, único, que tem na diversidade no tempo se ritualizam em ondas de encanto

diferente um alagoano de um paulista, um mi- a espantosa força que vem da desigualdade e brilho, desde o exemplo de seus heróis até o

neiro de um pernambucano, um maranhense que nos forjou. suor de seus operários, desde o duro trabalho

de um gaúcho, um carioca de um matogros- Voltemos à unidade político-administrativa na terra arada até a pesca nos seus rios, lago-

sense. Mesmo com a história comum, forma- da federação brasileira onde nascemos e que as e mares de infinito azul, perpassando pela

dos que fomos igualmente na antiga capitania faz parte, junto com outros estados, da fabu- sensibilidade de seus artistas, que conservam a

de Pernambuco, até nossa separação em 1817, losa região nordestina. É a sua presença e o alma dos antepassados e a fé dos vivos.

como são distintos na linguagem e nos há- seu rico acervo cultural que nos interessam Sem exagerar no bairrismo, podemos afir-

bitos um alagoano e um pernambucano. Ca- agora. Alagoas é um lugar onde a história e mar que Alagoas é uma região muito especial.

racterísticas bem diversas que não podem ser a cultura encontraram campo fértil para se- É um lugar onde a história tem deixado vestí-

confundidas. meadura. Apesar da pequenez territorial, da gios que têm sido, a todo o tempo, um ponto

Essa fusão se reflete na própria forma- insignificância econômica se comparado a de referência para grandes decisões do país.

ção da identidade nacional. O povo tem outras unidades da federação, das dificuldades Desde os começos da nação, mesmo subordi-

seus traços comuns, mas cada região possui ingentes e das grandes demandas sociais, é nada ao comando de Pernambuco - “o Leão

distinções próprias. Mais que compreender um lugar onde a trajetória histórica refulge do Norte”, então o centro de primazia da pá-

tal processo de fusão, nascido inicialmente com brilho incomum. tria brasileira em gestação - a pequena parte

entre índios, portugueses e negros africanos, Pequeno em território e gigante na contri- austral da antiga capitania de Duarte Coelho

é importante considerar que o curso desse buição à história e à política do país, analistas Pereira construiu solidamente um espírito cul-

processo se transformou no veio ao redor se surpreendem com a projeção de seus filhos tural próprio que permanece no tempo.

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Repetimos uma afirmação nossa em trabalho anterior: há uma coales-

cência histórica entre Alagoas e o Brasil. Uma frase de um autor, talvez até

elaborada com uma intenção não muito boa, diante de tantos eventos de

muita reverberação que tiveram a primitiva terra dos caetés como teatro, é

que o estado é uma verdadeira oficina histórica, antropológica e sociológica

a ser estudada por pesquisadores do jornalismo e da academia. A realidade

que não pode ser contestada, e é cristalina como água da fonte, é que por

uma série de razões transpusemos os limites geográficos e geopolíticos,

passando a ocupar um lugar de destaque na história e na mídia brasileira.

Como avistar a bandeira caeté na ágora globalizada? Como conhecer,

estudar, valorizar e amar a identidade alagoana e esquecer que somos por-

tadores de uma missão de cultura, pois neste campo laboramos? Vivendo

a era da internet, num tempo em que a celeridade dos acontecimentos gera

a impressão de obsolescência material ou de anacronismo espiritual, nada

mais elogiável do que a preocupação do Instituto Arnon de Mello, através

de seus dirigentes, com este projeto de divulgação de nossos folguedos,

nosso folclore, numa viagem pelo mundo cultural alagoano, de arte cente-

nária, um tesouro que está em vias de extinção, pois quase não é conhecido

pelas novas gerações. Um mundo onde Chegança, Pastoril, Reisado, Guer-

reiro, Caboclinhos etc. são termos deletados, anacrônicos, que ninguém

sabe o que representam.

Um verdadeiro tesouro que reflete o legado cultural das nossas comu-

nidades é reavivado nesta obra singular da Organização Arnon de Mello,

que conduz um estandarte e não abdica do direito à autodeterminação

do povo de Alagoas e ao dever de projetar nossa identidade cultural no

cenário externo.

Figurante de
Reisado
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Prisão do Índio Peri - Guerreiro
de João Amado - J. Medeiros

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Folclore, concepção
do mundo e da vida
A vida do universo alagoano decor-

re dos valores de sua gente, de suas

emoções, humores, fatalismo, crenças, sabe-


sido uma imensurável casa-grande em redor

da qual o povo fantasia, dança, festeja e con-

ta estórias, partes de uma história ainda não


gerado na comunidade energiza o fluxo de

criação, gera o conjunto da obra, o repertó-

rio. Cada microcosmo social, cada sociedade

res, esperanças, padecimentos do seu imagi- totalmente conhecida. Seu povo simples, hu- concebe sua própria cultura e através dela

nário. Pode ser redundante, mas é bom dizer: milde, trabalhador, bravo, é guardião de patri- interage com outras comunidades, de forma

Alagoas é o mundo dos alagoanos. Embora mônios que se mostram às vezes encobertos, eclética e universal pelas suas características e

aceite muitas de suas formulações, não con- às vezes revelados, numa ofuscante visão nos símbolos. O folclore tem o condão de reunir

cordo totalmente com Antonio Gramsci, que espaços das ruas e das praças do interior e as diversas produções comunitárias dando-

traduziu tão bem a realidade cultural do Ve- da periferia das cidades maiores, nos merca- -lhes harmonia geral, formando uma coleção

lho Mundo, seu continente, ao afirmar que dos e nas feiras, no Carnaval, na Quaresma, que sai das profundezas da sua matriz históri-

o folclore é uma concepção do mundo e do nas festas juninas e de padroeiros, no Natal, ca. Até a chegada da globalização, da adoção

povo, assim entendido como complexo de quando a população se engalana com roupas integral dos modelos transacionais, respirava-

classes subalternas e instrumentais que se singelas, exibe a sua arte e desfila gestos, can- -se folclore em todos os pontos de Alagoas

contrapõem objetivamente às classes oficiais tos, danças, evoluções, cordéis, exibindo o o ano inteiro. Assistiam-se manifestações

e dominantes. legado dos ancestrais. populares variadas, de estética apurada, com

Alagoas é, sem dúvida, um grande polo Ao inventar o mundo e a vida o povo pro- cadência e coreografia que encantavam e da-

cultural brasileiro. Sem esquecer a senzala, duz uma cultura, e na vivência cultural firma vam orgulho aos habitantes da chamada “ter-

parte importante da nossa formação, que tem a sua identidade social. Tal comportamento ra dos marechais”.

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Reisado de Viçosa
Robert Stuckert - 1951

22 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


As antigas
festas de Natal
Q uem se esquece das festas de Natal

de antigamente, quando o rodopio

das Baianas causava verdadeiro frisson nos


do já desaparecido Fandango, de origem

espanhola/portuguesa, com cantigas do-

lentes acompanhadas por violão e cava-


destacado, Maracanã ou Wembley, nas pra-

ças centrais e em frente à igreja-matriz de

qualquer cidade que se prezasse. Gilberto

espectadores? Dos desfiles dos Cabocli- quinho, ou do Guerreiro, autenticamente Freyre dizia que para conhecer o nosso

nhos, vertente do Maracatu pernambucano caeté, mistura do Caboclinho com Reisado, povo interessa muito mais o seu caráter, o

que foi criado também do Reisado alagoa- bailado exótico com personagens ricamen- estilo das danças, as associações, os trajes,

no, com seus índios pulando, tocando apito te coloridos que eletrizava e emudecia de seus folguedos e manifestações populares

e arrastando multidões ao som da Banda enlevo as plateias? Mas envolvente mesmo, do que os feitos excepcionais de seus he-

de Pífanos, a conhecida “Esquenta Muié”? o mais participativo de grupos, multidões, róis. Talvez o famoso mestre de Apipu-

Ou ainda, nas praças principais do interior comunidades, vilas e bairros era, sem dúvi- cos quisesse dizer nesta comparação que,

ou em Bebedouro, Tabuleiro do Martins, da, o Pastoril. gerado nas entranhas da sociedade e com

Fernão Velho e em Maceió, da bela versão Quem resistia a gritar - aplaudindo as a fusão de várias contribuições culturais,

nordestina das Mouriscadas portuguesas pastoras e as cores de sua preferência - ao o povo participa diretamente da criação e

- a inconfundível Chegança? Como esque- ver aquele folguedo, numa disputa que gal- da manutenção dessas manifestações, que

cer os Presépios que originaram os Pastoris vanizava dias e dias até a votação final da são, por assim dizer, a história não escri-

dançados nas praças, atraindo os passantes competição? Eram jornadas arrebatado- ta, resumindo as tradições e as esperanças

pela beleza de suas figuras; do Quilombo, ras que colocavam em campos opostos o das coletividades, baseada no passado, mas

uma reedição da luta entre negros e índios azul e o encarnado! Encenações inesque- sempre adaptada à mentalidade e às aspi-

ou entre negros e cristãos, numa fusão ex- cíveis realizadas em residências, colégios e rações do presente. Um capítulo, portanto,

traordinária de gostos e culturas distintas; teatros, mas que tinham seu cenário mais especial e indispensável.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 23


Origens do folclore alagoano
T udo que vem do povo tem uma lógica,

uma razão, uma função. Ele nada faz

sem motivo, e o que produz está geralmen-


na formatação do nosso folclore. E que não

é fácil nem simples demarcar a que grupo

pertence uma de suas variantes ou estabele-


cultura”. Alongando-se ainda sobre o tema,

ele assevera que os disfarces de animais, tão

usados em nossas manifestações dramáticas

te ligado ao comportamento do grupo ou cer com precisão a fronteira de determinada e danças folclóricas - Bumba-Meu-Boi, Reisa-

a uma norma social ou psico-religiosa, um manifestação folclórica. Com a humildade do, Guerreiro e outros -, originam-se do pa-

traço que vem de tempos longínquos, lá do dos sábios, afirma que há dúvidas em alguns leolítico superior, como os encontrados nas

fundo de nossas raízes, perdidas na noite dos casos, e em outros é inteiramente impossível pré-históricas cavernas da França. Por isso,

tempos, quando estávamos em formação. chegar-se a uma conclusão única e definiti- é preciso muita certeza, pesquisa e discussão

Pastoril, Quilombo, Reisado, Coco-de-Roda, va. Cita como exemplo concreto dessas in- para defini-los como europeus, africanos ou

literatura de cordel, festas, tradições, crendi- certezas o caso da dança existente em várias ameríndios.

ces, superstições, contos, mitos, lendas, os unidades nordestinas, que aparece ora como Não se pode esquecer, ainda, além das

ritos religiosos e a música folclórica não apa- Coco, ora como Pagode, ora como Samba. contribuições dos colonizadores europeus,

recem por acaso. Eles são o retrato vivo da Uma eminente folclorista do sul, Oneyda dos nativos indígenas e do africano - aqui

memória popular, que engloba sentimentos e Alvarenga, diz de forma categórica que “se a chegado em largas torrentes migratórias for-

reações diante da história e das transforma- umbigada é africana, a roda em movimento çadas para a nefanda escravidão nos campos

ções sociais. constante, se bem que também encontrada - que Alagoas, núcleo periférico espremido

Quais as origens do folclore alagoano, entre os índios, parece ser característica por- entre os dois grandes polos de colonização

como entender os seus folguedos, quais os tuguesa”. Mestre Théo discorda da afirmação do Brasil, Pernambuco e Bahia, recebeu des-

componentes culturais que o forjaram? O peremptória da colega sulista, pois, diz ele, “a tes gigantes que a circundam uma importante

mestre dos mestres, Théo Brandão, com a roda foi a primeira forma de dança do homem influência. Na sua parte boreal, lugares como

autoridade de quem estudou a vida inteira e e até dos animais e todos os povos e todas Maragogi, Japaratinga, Porto Calvo, Porto de

deixou uma obra irrepreensível sobre o as- as culturas antigas da África, Ásia, Europa e Pedras, Jundiá, Jacuípe, até Matriz e Passo

sunto, diz que são muitas as contribuições América a possuíram em seu estágio inicial de de Camaragibe, há uma nítida ligação com o

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poderoso Leão do Norte. Já na parte austral,

mesmo com Sergipe d’El Rei aparecendo no

meio, a influência da velha Bahia, também

com suas tradições bem fortalecidas, muni-

cípios como Penedo, Pão de Açúcar, Traipu,

Piranhas e suas populações, que constituem

o dinâmico ninho de cultura são-franciscano,

mantêm seus laços comerciais e também os

culturais mais próximos aos da Bahia de To-

dos os Santos e Orixás. Uma curiosa, fervi-

lhante e variada herança que ao transplantar

inúmeras festividades, costumes e contribui-

ções de povos europeus, sobretudo ibéricos,

os pôs em contato com a extraordinária ri-

queza cultural africana e indígena e criou esse

verdadeiro caldeirão de saberes que sobrevive

até hoje, mas que tem ameaçada a sua con-

tinuidade pelo tsunami da globalização, a

onda capitalista do final do segundo milênio

que ameaça levar de roldão todos edifícios

construídos há cinco séculos, para dar lugar

somente às emissões da modernidade sem

rosto e sem história, sob o respaldo do poder

midiático do comércio internacional que in-

fluiu também na indústria cultural alienante e

sem nenhum apreço pela identidade nacional

ou regional. Palhaço Wilton


Branca de Atalaia

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 25


Cavalhada
Marcel Gautherot

26 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Uma só história e
uma geografia variada
A denominação Alagoas é proveniente

da primitiva sede da comarca e pri-

meira capital, Santa Maria Madalena da Lagoa


lugar de clima seco e chuvas escassas, com

vegetação rala, a caatinga, onde a pecuária,

junto com a produção de gêneros alimentícios


hábitos, sua feição cultural e sua história. Até

mesmo as mazelas da escravidão e, consequen-

temente, o imenso quadro de exclusão social

do Sul, que englobava terras que rodeavam as como o milho e o feijão, é notada. Na zona que perdura até hoje.

lagunas principais da região, a do Norte, ou intermediária, entre a mata e o Sertão, está o O ciclo econômico que se iniciou e se ex-

Mundaú, e a do Sul, ou Manguaba. Um ter- Agreste, que também se dedica a culturas de pandiu na faixa da mata litorânea da parte sul

ritório pequeno, de 27.793 quilômetros qua- subsistência. Nessas zonas geográficas, cuja da então capitania de Pernambuco, que teve

drados, que só ganha em extensão do vizinho história está interligada aos momentos prin- sua colonização inaugurada com os engenhos

Sergipe, tem a zona costeira com tabuleiros cipais de sua existência, nasceu e floresceu o Escurial e Buenos Aires, do fidalgo Cristovão

cortada várias vezes pelos vales dos rios que nosso folclore. Lins, no século XVI, formou uma sociedade

deságuam no oceano. A segunda área é uma O estado, plantado no verde dos canaviais hierarquizada, senhorial, de traços feudais, que

região montanhosa, de solo fértil, outrora re- mais viçosos do Nordeste, teve nessa cultura herdou muito dos hábitos e dos costumes por-

vestida por matas, onde se instalou a cultura o embasamento principal desde os primeiros tugueses e espanhóis.

da cana-de-açúcar que deu o substrato de sua lampejos de povoação, com todas as particu- A cana-de-açúcar tomou conta da paisagem

sociedade - um sistema de vida familiar, eco- laridades do desenvolvimento e da formação alagoana desde os primórdios da colonização.

nômico e cultural que ao longo dos séculos social. É dela, desde que surgiram os primei- Ao pretender fixar o homem à terra e conso-

condicionou o ethos do povo alagoano. A ter- ros caminhos do ciclo dos engenhos, que se lidar o domínio português no Novo Mundo,

ceira zona é o Sertão, no interior do território, abriram os vieses da sociedade alagoana, seus Duarte Coelho, primeiro donatário da capita-

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nia onde Alagoas estava inserida, iniciou um negros, o que constitui um exemplo de como a

ciclo que perdura até nossos dias, afetando interação humana, frente à sobrevivência, não

profundamente nossa formação social e histó- tem limitações em sua criatividade, em sua di-

rica, com implicações que transcendam a eco- versidade ou quando responde aos chamados

nomia e deixou marcas profundas em nosso das necessidades básicas.

ethos. As identidades são realmente um proces-

so de acumulação de experiências que aflo-

ram frente as mais diversas conjunturas. No

caso particular alagoano, nossa cultura, nossa

religiosidade, nosso lazer, nossos folguedos e

nosso folclore abarcam uma gama de temas

capazes de proporcionar suficiente material

para uma análise da vida tradicional em mui-

tas das nossas comunidades. Permitem, igual-

mente, devido à riqueza de temas que marcam

nossas manifestações populares, um passeio

por formas culturais que pertencem a espaços

muito especializados, quase fragmentários, da

vida alagoana.

A presença de formas exógenas que termi-

nam se incorporando a setores populares da

vida rural, ou da plantação canavieira, ou da

fazenda, ou da criação são-franciscana, ou ser-

taneja, mostra muitas variantes que, estudadas

em suas origens, confirmam influências cul-

turais mútuas de valores ibéricos, indígenas e


Chegança
Rio Largo - 1958

28 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


O alpendre da casa-grande
e os limites da senzala
É no cenário desse território senhorial, geavam os santos de devoção ou estavam deixando um legado, uma maneira de ser,

principalmente naquele que ia dos no roteiro natalino, da Semana Santa ou das que hoje assumimos todos, como se fosse

alpendres da casa-grande aos limites da sen- festividades juninas. uma propriedade social diferenciada das de-

zala, que as famílias dos proprietários dos Padres, parentes, amigos, a teia imensa de mais sociedades, de outras unidades políti-

engenhos banguês promoviam o lazer da compadrio e agregados, se divertiam com a cas e culturais da federação que a República

comunidade. As fazendas rurais sertanejas peleja dos repentistas, com as disputas e de- iria estabelecer ao ser proclamada em 15 de

e da região do Velho Chico não estão ex- safios de viola, das apresentações ritmadas novembro de 1889.

cluídas dessas atividades que se confundiam das emboladas, dos volteios e improvisos Nosso modo de ser, tão presente nas ma-

com o calendário religioso. Ansiosamente dos brincantes dos folguedos variados que nifestações populares, em nosso folclore, é

aguardadas por todos que faziam parte da- enchiam de deleite os espectadores. Eram precisamente o conjunto de valores sociais

quele mundo de escravos, agregados, parcei- dias especiais que passaram a fazer parte das e culturais que se foram forjando através

ros, meeiros e membros da elite fundiária, recordações das herdades e seriam rememo- dos tempos, sobretudo no período colonial,

que adorava promover e dirigir o espetá- rados de geração em geração. Manifestações constituindo-se um suporte na memória so-

culo lúdico, traziam alegria aos integrantes populares que foram se consolidando com cial dos alagoanos, formando não só uma

daquele universo medieval isolado e sem o passar do tempo, forjando coisas comuns unidade política, mas uma coletividade, um

muitas novidades no seu dia a dia. Normal- compartilhadas pelo conglomerado de ho- sentido de pertencimento.

mente, eram realizadas quando se homena- mens e mulheres que, sem querer, foram

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 29


Foto: Celso Brandão

A Escola
de Viçosa
U ma identidade alagoana em estado

puro não existe. Os povos, como a

gente alagoana, são resultado de relações in-


Théo Brandão
Ranilson França terétnicas. Em seu esforço para sobreviver,

se impõem, se adaptam, construindo um sin-

cretismo, amalgamando-se em suas porções

culturais e se assimilam, forjando uma iden-

tidade. O ser alagoano é precisamente o con-

junto desses valores vários, recorrendo às suas

manifestações culturais e folclóricas que vão se

edificando na memória social das pessoas que

fazem a coletividade. Estudá-lo na sua inteire-

za e complexidade não é tarefa para amadores


José Aloísio Vilela José Maria Tenório Rocha
1935 ou simples curiosos. Há que ter conhecimento

amplo da questão, vocação acadêmica, dedica-

ção, capacidade de pesquisa, amor, paixão.

Temos vários autores que se esforçaram

para estudar essa coesão que formou a alma

alagoana, gente como Thomaz Espíndola,

Moreno Brandão, Craveiro Costa, Jayme de

Altavila pai, e Edilberto Trigueiros, mas, sem

Pedro Teixeira dúvida, nomes dos mais expressivos que se


Josefina Novaes
dedicaram à causa estiveram reunidos naquele
30 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente
grupo que convencionou-se chamar “Escola de discutível valor intelectual, o que hoje podemos dente -, Severino Teixeira Florêncio, mais co-

Viçosa”, tendo a regê-los como um maestro a chamar nas universidades de núcleo de pesqui- nhecido como teatrólogo, mas que nunca dei-

figura do médico Théo Brandão – os não me- sa. Havia certa divisão de tarefas e estudos. José xou os estudos folclóricos, ao lado de seu primo

nos destacados José Aloísio Vilela, José Pimen- Aloísio Vilela dedicou-se à poesia popular; José Pedro de Vasconcelos Teixeira, o mais notável

tel de Amorim e José Maria de Melo. Maria de Melo à literatura oral, contos, adivi- animador dos folguedos que o estado já conhe-

Não devemos esquecer ainda outros pre- nhas, sentinelas; José Pimentel de Amorim era ceu. Pedro Teixeira, enquanto bem viveu seus

cursores das nossas manifestações populares, mais voltado a pesquisas sobre a medicina po- 84 anos, foi incansável na luta pela preservação

dos nossos estudos folclóricos, como Joaquim pular, e o líder, Théo Brandão, vivia mergulhado do nosso folclore e deixou algumas obras sobre

Diégues, Alfredo Brandão, Luiz Lavenére, Abe- até a alma no estudo dos folguedos populares. o assunto.

lardo Duarte, Paulino Santiago; no entanto, Tanto Théo como José Aloísio seguiram a tra- É justo ressaltar que Théo Brandão, fora do

inquestionavelmente, a Escola de Viçosa foi o dição da família Brandão Vilela de apreciar e es- âmbito da Escola de Viçosa, ainda teve extra-

núcleo mais eloquente de estudos dos fatos da tudar o folclore, estimulados que foram por seu ordinária atuação na Universidade Federal de

vida social alagoana que caem no âmbito do fol- tio Olegário Vilela, outro grande apreciador do Alagoas, onde exerceu o cargo de professor.

clore. Eruditos de largo prestígio na sociedade tema, que os encorajou a analisar cientificamen- Formou em seu redor, na academia federal

por seu sucesso profissional, todos de origem te a sabedoria popular, tão presente no cotidia- alagoana, um círculo de discípulos que conti-

rural, provenientes da pequena, mas influente, no da pequena cidade há gerações. nuaram o trabalho após seu desaparecimento

cidade interiorana que era cognominada “Ate- Embora sem ligação direta com o folclore, - figuras de proa como Cármen Lúcia Dantas,

nas alagoana”, famosa por sua vida cultural, eles nem pertencendo ao grupo de elite da Escola Vera Lúcia Calheiros, Fernando Lobo, Teresa

perceberam em suas reuniões que a ausência de Viçosa, Arnon de Mello, um dos líderes do Wucherer Braga e Josefina Novaes. Seus dois

do folclórico, tão característico da vida popular Grêmio Guimarães Passos, citava ainda os no- discípulos mais atuantes, porém, foram José

no meio agrário em que viviam, empobrece a mes de Evilásio Torres, Valdemar Graça Leite, Maria Tenório Rocha e Ranilson França que,

produção literária e artística, roubando-lhe os Ademar Vasconcelos, Arnóbio Graça, José Re- com trabalho hercúleo e diário, conseguiram

aspectos regionais, nacionais e humanos que lhe belo e José Aragão como figuras que também reunir em torno de si os mestres e mestras dos

dão universalidade. deram sua contribuição ao estudo das manifes- folguedos, fundando a Associação dos Folgue-

Manuel Diégues Júnior disse que mesmo tações populares. Podemos ainda acrescentar dos Populares de Alagoas-Asfopal e travando

inexistindo um corpo de métodos e doutrinas, à lista um oriundo de Chã Preta - que durante uma batalha constante pela valorização desses

o grupo era inequivocamente um formidável muitos anos foi distrito de Viçosa e depois se mestres e das manifestações populares de Ala-

eixo de cultura, onde se juntam membros de in- emancipou, tornando-se município indepen- goas.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 31


Boi de Guerreiro

34 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Folguedos e Danças de Alagoas
Cármen Lúcia Dantas

Presépio e Pastoril
Reisado e Guerreiro
Chegança e Fandango
Negra da Costa e Quilombo
Samba-de-Matuto, Taieira e Baiana
Maracatu, Bumba-Meu-Boi e Boi de Carnaval
Coco e Quadrilha
Mané do Rosário, Dança de São Gonçalo e Bando
Toré, Cambindas e Caboclinho

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 35


Capítulo II
Presépio
Oferenda

Dizei-nos, porém, oh anjo,


como faremos para chegar
àquela gruta tão longe
onde o menino tão belo está.
(Maurício de Macedo)

36 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Presépio
E ntre os folguedos populares, o Presépio e o

Pastoril são os que materializam de forma

mais direta a representação do nascimento de Cristo.

Embora não se saiba ao certo de que forma chega-

ram ao Brasil, o fato é que os frades jesuítas e os

franciscanos, no trabalho da catequese dos nativos,

promoveram sua difusão e aprimoramento cenográ-

fico.

Inspirados nas canções natalinas ibéricas e tradições

pastoris da Europa, ambos descrevem a viagem das

pastorinhas a Belém, na Judeia, para adorar o Meni-

no Jesus. O que os diferencia é o foco da dramatiza-

ção. Enquanto um, além das jornadas, narra o nasci-

mento de Cristo com personagens caracterizadas, o

outro é formado apenas por jornadas soltas.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 37


Por dentro das jornadas
P artes que compõem cada episódio,

as jornadas representam o percurso

seguido pelas brincantes, que se mantêm


ção da brincadeira.

De origem notadamente rural, os fol-

guedos, que só foram transportados para


mados pelos moradores, descendentes de

escravos, caboclos do eito, seus filhos e

filhas.

enfileiradas em dois cordões: o encarna- o meio urbano tempos depois, marcavam A urbanização de ambos acabou com

do e o azul, cores votivas que simbolizam, presença nas festas das casas-grandes do o refinamento, pois os grupos se espalha-

respectivamente, o sangue do coração de ciclo dos engenhos. Tanto o Presépio ram por toda a parte, chegando aos bair-

Cristo e a pureza da Virgem Maria. Na pa- quanto o Pastoril eram encenados, exclu- ros periféricos de Maceió. Nessas locali-

leta de cores há também a alusão ao en- sivamente, pelas jovens da camada social dades - Ponta Grossa, Bebedouro, Chã da

carnado como a cor dos mouros e o azul a mais alta - filhas, netas e sobrinhas dos Jaqueira, Tabuleiro do Martins - já havia

dos cristãos, oponentes históricos nas ma- donos da casa. uma forte motivação para as manifesta-

nifestações populares que procedem dos Elitistas, as apresentações acompanha- ções populares, o que se acentuou com

feitos da Idade Média. vam o mesmo princípio de distanciamen- a chegada às escolas públicas, garantindo

Por uma ou outra razão, o certo é que to entre as diferentes classes, nominadas aos folguedos maior popularidade.

a rivalidade se renova a cada apresentação, de acordo com as condições econômicas No que diz respeito às evoluções e à

polarizada pelos dois cordões. No centro e a origem do sobrenome das brincantes. musicalidade, os dois se caracterizam pela

das atenções estão as Pastorinhas, meni- De modo geral, não havia mistura entre delicadeza de gestos e singeleza da melo-

nas que compõem os grupos. Ornamenta- pobres e ricos nos folguedos. E enquan- dia, compatíveis com os temas bucólicos

das com flores e fitas, elas se apresentam to o Pastoril e o Presépio se restringiam e com a alegria esperançosa dos cristãos

de maneira graciosa, mantendo a forma- à aristocracia rural, os demais eram for- diante do nascimento do Menino Jesus.

38 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Ensaiadoras e animadores
O contato com os grupos revela que

o amor pela brincadeira faz parte da

memória afetiva não apenas das antigas Pas-


dos. E, tradicionalmente, Presépios e Pastoris

são organizados e ensaiados por uma mulher.

Trata-se de uma figura importante que, embora


saiadoras notáveis de seu tempo: dona Maria

Souto e dona Maria Emília. A primeira era de

Marechal Deodoro, onde mantinha o grupo

torinhas, das ensaiadoras e dos torcedores dos não participe da brincadeira, conhece do traje, que dançava ao som dos acordes da Sociedade

cordões, mas de toda a comunidade, que enxer- das regras, das peças, da marcação cadenciada Musical Santa Cecília. Em Maceió, dona Ma-

ga ali a possibilidade de manter seu arquivo de e comanda as Pastorinhas nas jornadas soltas e ria Emília inovava com o acréscimo de novas

lembranças. na encenação dramática. partes, aumentando assim o interesse pelas

O envolvimento do grupo comunitário é Em Alagoas, entre as décadas de 1940 e apresentações. Ambas são citadas por Théo

fundamental para a montagem desses folgue- 1950, dois nomes se destacavam entre as en- Brandão como seguidoras de dona Ritinha

Adoração ao Menino Jesus - Presépio Nossa


Senhora de Fátima - Maceió
Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 39
(Rita Cristina da Costa), que manteve os famo- Miranda, em 1949 preparou grupos de Pastoril

sos Presépios e Pastoris da catedral. Sua conti- para apresentações em Recife, nas rádios Jornal

nuadora, dona Eudora Vasconcelos, recuperou o do Comércio e Tamandaré. Depois, estendeu a

auto depois de anos desativado. Ficou conhecida missão à Rádio Iracema, em Fortaleza.

também por vestir suas Pastorinhas com lindos Nos anos 1950, na animação dos programas

trajes que ela mesma confeccionava com muita de auditório da recém-criada Rádio Difusora de Peleja na Praça do Pirulito
habilidade e capricho. Alagoas, suas Pastorinhas arrancavam aplausos

Hoje, em Maceió, dona Áurea está entre fervorosos de plateias animadas pelos radialis- Foi no final da década de 1960 que o pro-

as que entendem da brincadeira e mantém tas Haroldo Miranda, do encarnado, e Aldemar fessor Pedro Teixeira de Vasconcelos ini-

a tradição entre as jovens, sempre exigente Paiva, do azul. Em 1976 Carrascosa assumiu o ciou a formação de grupos de Pastoras nos

com a perfeição do grupo. Membro da As- comando do Grupo Folclórico da Universida- colégios estaduais onde ensinava. Sua inicia-

sociação dos Folguedos Populares de Ala- de Federal de Alagoas. Mesmo tendo perdido a tiva muito contribuiu para a permanência da

goas-Asfopal, conviveu com os folcloristas visão, continuava ensaiando e, com apurada au- tradição, vindo em seguida outros autos a

Ranilson França e Josefina Novaes desde o dição, percebia de pronto quando uma Pastora serem formados, garantindo a continuidade

início, quando a agremiação foi estruturada, errava a marcação. dessas manifestações.

em 1985. Em Penedo, na década de 1960, o Pastoril O professor Pedro era um excelente ani-

de Toinha Peixoto (Antônia Peixoto) levava mador! Com um microfone, voz firme e

Linhagem autêntica multidão ao Montepio dos Artistas e ao Tea- convincente, exaltava as Pastorinhas do cor-

nas ondas do rádio tro 7 de Setembro. Gente da redondeza, de dão encarnado, pedindo aplausos e votos à

Piaçabuçu, Neópolis e Igreja Nova vinha para plateia, enquanto Luiz de Barros, radialista

A professora Maria José Carrascosa, na dé- engrossar os aplausos e depois da brincadeira experiente, animava as Pastorinhas do azul.

cada de 1940, começou a orientar os primeiros voltava nos antigos ônibus, conhecidos por A peleja era acirrada na Praça do Pirulito,

grupos. Seu nome logo ficou conhecido e respei- “sopas” ou “marinetes”. Em quase toda cidade nas décadas de 1960/70 e os aficionados se

tado pela fidelidade à representação dos folgue- havia um ou mais Pastoril se apresentando nas acumulavam em torno do palanque, em rui-

dos autênticos. Convidada pelo locutor Haroldo festas natalinas. dosa aclamação.

40 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Reis Magos - Presépio Menino Jesus
Victor Anderson Andrade Moura, Carlos Alberto da Silva e
Amistron Barros Pessoa Júnior

partir da concepção dos presépios, montados sempre à meia-noite de 24 para 25 de dezem-


Natal interpretado nas casas e igrejas pelas famílias e devotos. bro. Devido à aceitação e ampliação do públi-

A representação dramática segue os mol-

des dos Noéis, Autos Natalinos euro-

peus que surgiram a partir da instalação das


Os países católicos da Europa foram os

pioneiros a adotar essa prática, seguidos das

colônias por eles conquistadas. Nesse rol de


co, o Presépio passou a ser apresentado vários

dias e em palcos e praças, na frente das igrejas,

fazendo parte da grande festa popular que se

primeiras lapinhas, nos idos da Idade Média, colonizados está o Brasil, possessão portugue- organiza em torno da data. Até meados do sé-

cuja origem é atribuída a São Francisco de As- sa que logo se apropriou dessa tradição, vindo culo passado, a aceitação era tão grande que

sis. Não existe informação precisa sobre o sur- a formar o seu repertório cultural a partir dela. cada bairro tinha a sua representação dramáti-

gimento e se realmente a primeira montagem A princípio, a apresentação desse folguedo ca com público garantido.

foi idealizada pelo santo, mas o certo é que a era diante da lapinha da igreja principal, en- Se no passado havia grande número de

interpretação teatral do folguedo aconteceu a quanto os fiéis aguardavam a Missa do Galo, Presépios - não apenas na capital, mas tam-

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 41


Nascimento de Jesus.
Acervo - Museu Théo Brandão

bém nas cidades do interior -, hoje eles estão chapéus de palhinha ou diademas com flores
Personagens e trajes:
perdendo espaço para os Pastoris, mais leves, e fitas. As meias são brancas e os sapatos pre-

soltos e despojados da carga dramática. Da Pastoras, Anjos e Demônios tos. Cada uma tem nas mãos o seu pandeiro,

mesma forma, as lapinhas estão sendo prete- que toca acompanhando o ritmo da música. A

ridas pelas árvores de Natal, de grande apelo Tanto no Presépio quanto no Pastoril, as Diana posiciona-se no centro, entre a Mestra e a

comercial. Nos grandes centros, a figura lendá- Pastorinhas vestem blusa branca com cole- Contramestra, vestida com as duas cores, e pede

ria do Papai Noel está polarizando as atenções, te e saia nas cores de seus cordões, decorados palmas e prendas para os dois cordões.

em detrimento do sentido original do Natal. com lantejoulas, e ligas douradas. Na cabeça, O Demônio Lusbel, vestido a caráter, traja

42 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


macacão preto e vermelho e traz os atributos

do Satanás: chifres e tridente. O Anjo Gabriel,

que anuncia a vinda do Menino Jesus, traja

manto branco, asas de penas e auréola na ca-

beça.

Na evolução do auto, com a projeção da

viagem a Belém, novas personagens aparecem

e com elas as Pastoras interagem, como no

caso da Cigana, da Borboleta e da Camponesa,

que não estão inseridas nos cordões e apresen-

tam uma coreografia própria, vestidas de trajes

típicos.

Na encenação do Presépio, ou Pastoril

Dramático, desenrolam-se as cenas da ado-

ração a Jesus na manjedoura com os per-

sonagens caracterizados. O próprio enredo

é mais elaborado, representando as figuras

que normalmente aparecem nas lapinhas;

isto é: Nossa Senhora, São José, os Reis Ma-

gos, os Pastores, o Anjo e outros persona-

gens que a imaginação popular se encarrega

de acrescentar.

O Bem e o Mal
Presépio Menino Jesus

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 43


O auto e a função,
a peleja entre o Bem e o Mal
L ogo no início acontece a peleja entre o

Bem, representado pelo Anjo Gabriel, e o

Mal, pelo Demônio Lusbel. O anjo anunciando


Boa noite, senhoras também!

Viemos para adorar!


nova: Jesus nasceu! E o cenário do fundo do

palco se ilumina, retratando o menino na man-

jedoura com Maria, José, os Pastores e os Reis.


Jesus nasceu para nos salvar!

o nascimento de Jesus, e o demônio com todas Outros cânticos se repetem até serem recep- As Pastorinhas chegam com flores e todos em

as tentações e artimanhas para conquistar as in- cionadas pelo Velho Simão, com quem mantêm regozijo cantam louvores ao Deus menino.

defesas Pastorinhas, impedindo-as de prosseguir diálogo até a chegada do Pastor Benjamim, que Ofertai, ó Pastoras,

a viagem até Belém. Anjo e demônio desenvol- reforça a nova alvíssara: As flores do nosso afeto,

vem um diálogo de insultos e argumentos. Por Não sei, belas Pastoras, Ao Deus Santo, ao Deus Menino,

fim, a fala vitoriosa do anjo: O que tem meu coração, Nosso santo, nosso dileto!

“Glória a Deus nas alturas! Glória ao nosso Salva- Que adivinha alguma festa, A plateia acompanha tudo com atenção e, no

dor! Glória ao Filho de Maria, que há de ser Redentor!” Ou nunca vista função! final, gritam os partidários do azul um viva para

Dito isto, o demônio reclama e esperneia. De E a brincadeira continua, com a chegada da seu cordão, enquanto os do encarnado fazem o

nada adianta, e ele sai de cena vencido e raivoso. Cigana: mesmo para o seu e todos se unem para saudar

Passado este prólogo, chegam em fileiras as Sou a Cigana do Egito, o Salvador. Em clima de alegria, a encenação é

Pastorinhas: o encarnado, do lado esquerdo, li- Que também venho a Belém, encerrada.

derado pela Mestra, e o azul, do lado direito, pela Adorar o Deus menino, Hoje o auto já não inspira a comoção co-

Contramestra. No centro, a Diana faz as vezes Adorar o sumo bem! mum nas apresentações do passado, quando o

de mediadora da disputa. Atrás, os Pastores, Pastoras, Pastores e os demais figurantes can- público vibrava e chorava a cada ato, mas man-

acompanhados do Velho Simão, figura cômica e tam os louvores ao Deus que vai nascer. Persis- tém a mesma ingênua concepção dramática que

sábia, entoam a louvação de entrada: tente, o Demônio Lusbel ainda aparece tentando caracteriza suas cenas.

Boa noite, meus senhores todos! as Pastorinhas, exaltando seus poderes, sua força

das profundezas do inferno, mas novamente é

afastado pelo Anjo Gabriel, que anuncia a boa

44 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Pastoril
A rivalidade dos cordões
A origem do Pastoril é desconhecida.

Sabe-se, no entanto, que, assim como

o Presépio, era encenado na Itália, na França,


O que permanece como determinante em

todas as apresentações são o tema e a forma

como o auto começa e termina. No início, as

na Espanha e em Portugal a partir do século Pastoras cantam as jornadas de abertura, de

XVI. entrega das oferendas, e no final as de des-

Enquanto o Presépio é um auto de sequ- pedida, com promessas de voltar no próximo

ência lógica, de partes concatenadas e enredo ano.

próprio, o Pastoril, com o mesmo foco no dra-

ma litúrgico da Natividade, consiste em cantos O auto e a função


e louvores soltos, com partes vindas de antigas

canções do ciclo do pastoreio e outras inser- O Pastoril é formado por garotas de ida-

ções que com o tempo foram se incorporando des variadas que se dividem entre as Pasto-

à brincadeira de forma espontânea. Muitas ve- ras do azul e as do encarnado. Enfileiradas,

zes as próprias ensaiadoras criam novas jorna- têm no centro a Diana, com traje e adereços

das ou reavivam suas lembranças e as incluem dos dois. Atrás dela o Pastor, com seu caja-

na função, fazendo a diferença de grupo para do, que bate no chão a cadência da marca-

grupo. ção da ensaiadora.

Diana de Pastoril

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 45


A Mestra (encarnado) e a Contramestra Os passos são glamorosos e as evoluções E as jornadas, como são chamadas as partes,

(azul) conduzem suas doze Pastorinhas, de- graciosas, arrancando aplausos do público. En- polarizam a brincadeira da peleja entre as duas

fendendo as cores de seus cordões, dançando tram cantando a uma só voz: cores. Canta a Mestra a apologia ao seu cordão:

e tocando graciosos pandeiros com fitas pen- Boa noite meus senhores todos,

dentes que acompanham o grupo de tocado- Boa noite senhoras também, Eu sou a Mestra do cordão encarnado,

res. Trajam blusas brancas com coletes e saias Somos Pastoras, Pastorinhas belas, (bis) O meu partido eu sei dominar,

na cor dos seus cordões e avental branco com Que alegremente vamos a Belém! (bis) Eu peço palmas, peço fita e flores, (bis)

babados e rendas, da mesma forma que as Pas- E continuam nos cânticos de entrada: Aos meus senhores peço proteção! (bis)

torinhas do Presépio. Dependendo das condi- Meu São José, As evoluções prosseguem entre os estribi-

ções, as roupas são ricamente decoradas com Dai-nos licença, lhos, com a fila das Pastorinhas mostrando suas

lantejoulas, linhas douradas e coletes de veludo. Para o Pastoril dançar! habilidades na dança, no toque dos pandeiros e

A regra é que os trajes sejam exatamente iguais, Viemos para adorar, (bis)

variando apenas a cor, conforme o cordão. Jesus nasceu para nos salvar! (bis) Pastoril em
formação completa

46 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


no canto. Em seguida, é a vez do cordão azul e Sou a Diana, não tenho partido, sentando no período natalino, mas adaptado

a Contramestra, da mesma forma, lidera a sua O meu partido são os dois cordões, a um novo público que já não vibra com a

fileira. Eu peço palmas, (bis) disputa dos cordões, mas frequenta as festas

As torcidas vibram de um lado e do outro, Peço fita e flores, (bis) tradicionais pelo que representam no resgate

repetindo os refrãos dos animadores: Ó meu senhores sua proteção! (bis) do passado e pela beleza da brincadeira. As

Azul é o céu, Em seguida, vêm os chamados entremeios, apresentações, muitas vezes, são pontuais, uma

Azul é o mar, que são as jornadas da Borboleta, da Florista, noite em um lugar, outra noutro ponto, sem o

Azul é a rainha da Cigana, personagens que podem variar de- compromisso com a coroação.

Que nós vamos coroar! pendendo da ensaiadora que, por vezes, acres- Tem sido cada vez mais frequente a apre-

E os partidários do encarnado fazem o centa algumas figuras regionais. sentação de vários folguedos em uma espécie

coro: A brincadeira se repete por três semanas até de pot-pourri natalino. Ao público habitual se

Estrela do Norte, o dia 6 de janeiro, consagrado a Reis, quando juntam os turistas, ávidos pelas novidades das

Cruzeiro sagrado, acontece a coroação. O cordão vencedor é cidades que visitam, e os pesquisadores, repre-

Vamos dar um viva, aclamado e a Mestra ou a Contramestra sobe sentantes de instituições, que procuram docu-

Ao cordão encarnado! ao trono, vestida de Rainha, para ser coroada mentar os autos com recursos da tecnologia

A plateia chama uma Pastora de cada vez, entre vivas e palmas. audiovisual.

que, sozinha, faz a evolução e recebe aplausos As escolas, a Universidade, a Associação

e votos em notas de dinheiro que o votante Despedida de Folguedos e grupos espontâneos mantêm

prende em sua roupa. E mais senhoras de si Ao final, as Pastoras cantam juntas: vivo o Auto das Pastorinhas, que permanece

ficam as meninas quando as notas se multipli- Adeus minha gente, não apenas em Alagoas, mas em todo o Nor-

cam em fileiras esvoaçantes e os aplausos eco- Queiram desculpar, deste.

am por toda a praça. Todos os dias a votação Que a nossa jornada,

se repete e os pontos são computados pelo Já vai terminar!

pároco ou por quem ele determine. A soma Adeus, é tarde,

desses votos vai definir a eleição de um dos Já vamos partir.

cordões no último dia de apresentação. O dia amanhece,

Contendo a torcida, entra a Diana enalte- Preciso dormir!

cendo os dois cordões: Atualmente, o Pastoril continua se apre-

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 47


Capítulo III
Rainha de Guerreiro

De que vale a coroa tão rica


se o reino perdi do coração.
Traspasse-me agora o peito
a espada que trago na mão.
(Maurício de Macedo)

50 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Reisado

Chegada à Colônia
D os chamados autos natalinos, o Reisado
- celebração do nascimento do Menino
Jesus na manjedoura, em Belém - é dos mais
antigos de que se tem notícias. Presume-se que
sua origem remonta à Idade Média, quando o
ciclo natalino passou a ser comemorado festi-
vamente na Europa.
Nesse período, muitas manifestações alusivas à
data começaram a se espalhar pelos mais diver-
sos lugares, com danças, cantos e referências a
temas religiosos milenares. Eram tidos como
um meio de perpetuar fragmentos da fé, em
novas interpretações que ao longo dos séculos
passam de geração a geração, cristalizando a
sua prática, embora não seja possível precisar,
exatamente, quando tudo começou.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 51


O Reisado chegou ao Brasil logo depois do descobrimento,

com os primeiros colonizadores que conservavam os costu-

mes das antigas aldeias portuguesas e implantaram na Colônia

essas manifestações como forma de extravasar suas lembran-

ças em lugar tão distante. O reforço à tradição trazida das terras

d´além mar vinha dos frades evangelizadores, que promoviam

a difusão e o aprimoramento cenográfico dessas representa-

ções como forma de tornar as festas católicas mais atraentes e,

com isso, angariar maior participação popular.

A expansão e a adequação ao novo ambiente logo acontece-

ram, espalhando-se por toda a parte. No Nordeste a brincadei-

ra ganhou ares de símbolo regional e, nesse contexto, Alagoas

é o estado que possui o maior número de grupos de Reisado

organizados e atuantes. São apresentações que articulam dife-

rentes níveis e dimensões da cultura local, acompanhando, no

tempo, o movimento da sociedade que as promove.

Originalmente, as encenações ocorriam entre o Natal e o

Dia de Reis, 6 de janeiro, mas logo foram antecipadas para

o início de dezembro, enquanto a reorganização do grupo, o

preparo das roupas e o contrato das apresentações começam

a partir de setembro. Atualmente, as exibições ocorrem duran-

te todo o ano, em acontecimentos religiosos como festas de

santos padroeiros, encerramentos de procissões e em eventos

diversos como congressos, feiras culturais, posses de políticos,

atrações turísticas.

Mestre Expedito
Reisado Virgem dos Pobres
Bananal – Viçosa
52 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente
A ancestralidade de Reis
A estrutura original do Reisado é seme-

lhante à da Folia de Reis, auto comum

nas regiões Sul e Sudeste. Isso porque ambos


e a Rainha como personagens centrais. Tam-

bém episódios da Mouriscada portuguesa se

misturaram às conquistas do Congado, dando

são originários das Reisadas, ou Reiseiras, pe- ao Reisado uma dimensão da própria etnia da

ças ancestrais da Península Ibérica, formadas Colônia.

somente por homens que saíam anunciando a Dessa diversidade veio o enriquecimento

boa nova do nascimento de Jesus, dançando e do auto com novos episódios, cantos, dan-

cantando pelas ruas e recebendo acolhida das ças, declamações e improvisos. Não existe

famílias que lhes ofereciam comidas, bebidas um assunto sequenciado, mas uma variedade

e espórtulas. temática que vai da história lusa ao imaginá-

Aqui no Brasil as inovações foram se in- rio criativo dos participantes, das louvações

corporando ao folguedo de tal forma que só ao Divino aos elogios aos donos da casa ou

se reconhece essa origem indo às referências aos espaços públicos onde a festa acontece.

históricas. Sua composição é uma mistura de Dentre os requisitos que garantem o sucesso

temas sacros e profanos advindos de outras da apresentação estão o carisma do Mestre, o


Mestre Dedeca -
José Pereira de Lima
Reisado de Água
brincadeiras e autos, ganhando força com a colorido do traje, o entusiasmo e a harmonia
Branca
mistura das práticas culturais, dos cortejos e do grupo.

danças das corporações e de características

peculiares da região.

A presença do Boi passou a ser um entre-

meio obrigatório, devido à importância do ci-

clo do gado, assim como a inclusão dos autos

do Congo e dos Caboclinhos, trazendo o Rei

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 53


Personagens e trajes,
o domínio da cor
O Mestre é quem detém o conhecimento e rege as

partes, conduzindo tudo ao som do apito. Cada

silvo representa um mando. É ele quem puxa as peças tra-

dicionais e o coro responde em duas vozes. O bom Mestre

é também um repentista. Improvisa peças laudatórias ou

referentes a algum fato novo que porventura ocorra. Tudo

depende do momento. Na maioria das vezes, exalta a cidade

onde o folguedo se apresenta, o santo padroeiro e as mo-

ças bonitas do lugar, o pároco e o prefeito. Alguns usam

óculos escuros, como símbolo de poder, costume trazido de

seus antepassados. Os demais figurantes obedecem ao seu

comando, cumprindo cada um a sua função no espetáculo.

Ensaios, confecção dos trajes, conserto dos chapéus e

diademas, ingressos e dispensa de figurantes, contratos de

apresentações, enfim, tudo que diz respeito ao grupo é de-

cidido pelo Mestre. O Contramestre está ao lado, acompa-

nhando suas funções e reforçando a batida do tropel. É ele

quem representa o Mestre nos impedimentos. Em seguida

Mateus de Reisado

54 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


vêm o Rei e a Rainha vestidos a caráter, dois Embai-

xadores, dois Mateus, Palhaço e demais figurantes,

trajando saiotes e coletes de cetim adornados com

ligas e cordões dourados, meias brancas e sapatos

pretos.

Os chapéus de palha de ouricuri, abas largas do-

bradas de um lado, são cobertos de cetim e guarne-

cidos de espelhos, flores de plástico ou de papel e

areia brilhante. As coroas e os diademas coloridos

também recebem as mesmas aplicações e obede-

cem aos princípios hierárquicos do grupo.

Antigamente, os trajes se limitavam às cores da

bandeira de Portugal: vermelho, verde e amarelo.

Aos poucos foram ganhando novos adereços e au-

mentando a paleta, dando ao folguedo a particulari-

dade da sua representação no Brasil.

Os Mateus pintam o rosto de preto e trazem na

cabeça o cafuringa, chapéu afunilado de abas largas

e cores vibrantes. O Palhaço forma com eles o trio

cômico, fazendo piruetas e tocando pandeiros. São

eles os responsáveis por proteger o Menino Jesus.

Com dissimulações e improvisações, distraem os

soldados de Herodes na dramatização. Vestem rou-

pa folgada de chita estampada ou quadriculada. O

grupo dança ao som de um conjunto musical for-

mado basicamente por sanfona, tambor, zabumba,


Figurante
recorreco e pandeiros. Reisado Talento Ramos
Distrito de Piau
Piranhas

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 55


Na cadência da função
O foco gira em torno da apresentação

que os participantes denominam

“função”. A brincadeira compreende peças


Vilela e Pedro Teixeira, que as ouviam desde

crianças nos Reisados da Viçosa, no início do

século passado, e algumas delas permanecem

cantadas, trechos recitados, louvações e pas- até hoje com a mesma fidelidade à letra e à

sos de dança que variam da marcha ritmada música.

até o tropel simples, ou duplo, dependendo Deus te salve, Casa Santa,

da destreza do Mestre, que é também o en- Onde Deus fez a morada.

saiador. Onde mora o Cálice Santo

O auto começa pelo pedido de “abrição E a hóstia consagrada.

de porta”, seguido pela “louvação ao Divino” Já deu meia-noite,

e, por extensão, aos donos da casa, com o Já ouço tocar o sino,

Mestre na frente empunhando sua espada e o Vamos todos adorar,

Mateus aboiando. Todos os participantes can- Ao Bom Jesus Deus Menino.

tam e sapateiam, balançam os maracás, tinem As representações dramáticas compre-

as espadas, atentos ao comando do apito do endem cenas de guerra, anunciada de forma

Mestre para não perder o ritmo e segurar a ca- declamada, conhecidas por “embaixadas”,

dência dos passos que se sucedem, enquanto enquanto as áreas cantadas são as peças. O

ele próprio sola o canto, repetido por todos os combate se trava. É o momento mais acirra-

Mestres de Reisado brincantes, ou “figurás”, como os participan- do da brincadeira, quando os Embaixadores


Distrito de Piau
Piranhas tes se autodenominam. anunciam a desavença, começando o embate

Muitas marchas de domínio público e ou- pelo Mestre e pelo Rei, seguidos pelos demais

tras de mestres conhecidos foram colhidas figurantes. O soar das espadas ecoa no ar e,

pelos folcloristas Théo Brandão, José Aloísio com destreza, tanto dançam quanto cantam e

56 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


dialogam sobre o inimigo que chega pelo mar. representação. E todos parecem contagiados

As lutas náuticas são recorrentes devido à pela responsabilidade da defesa do Rei. Findo

frequência dessas batalhas na Península Ibé- o episódio da guerra, com a coroação do Rei

rica durante a Idade Média, sendo a de maior ou da Rainha, peças soltas preenchem a brin-

apelo popular a tomada da Espanha e de cadeira pelo tempo que o Mestre determina.

Portugal pelos mouros, no ano 711. Com o Das mais conhecidas, e um verdadeiro clás-

passar do tempo, as questões políticas, e so- sico da poesia popular, é a atribuída ao Mes-

bretudo as religiosas, que se entrecruzaram na tre Luis Góis, que a evocou em 1954, no IV

história desses dois países, foram levadas para Centenário da Cidade de São Paulo, quando

os folguedos, ganhando interpretação e repre- foi ovacionado por uma multidão, segundo

sentação populares. relato de José Aloísio Vilela, que acompanhou

Uma das falas mais tradicionais do Reisado o grupo:

é a do Primeiro Embaixador, quando anuncia Ó, minha gente,

o inimigo: Reisado só da Viçosa,

Sou o primeiro Embaixador, Fazenda só cor-de-rosa,

Que embaixada venho dar, Baiana só do Farol.

Estamos com o porto tomado, Ó, minha gente,

Estamos com guerra no mar, Dinheiro só de papel,

Puxemos pelas espadas, Carinho só de mulher,

Cuidemos em guerrear! Capital só Maceió.

E as embaixadas se repetem e os apelos de

combate se reportam a fatos da história portu-

guesa misturados com a defesa do rei do Con-

go e outras loas que povoam o inconsciente

coletivo e encontram rima na imaginação do

Mestre. Por isso, não existe uma sequência ló-

gica, mas uma variedade de alegorias e de fra-

ses de significância apologética que animam a

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 57


Entremeios, as prendas da sorte
D epois das peças, ou entre elas, alguns

figurantes descem do palco para dis-

trair o público, enquanto outros trocam de


noite, os entremeios foram reduzidos, fican-

do apenas alguns da preferência do Mestre.

A presença da farsa do Boi, porém, é indis-


das pelo Mestre, que representa o fazendeiro

e se propõe a comprar o animal aos Mateus,

que fazem todos rir com as idas e vindas à

roupa e se preparam para o entremeio. É o pensável. Todos aguardam sua chegada com procura do animal e tentativas de enganar o

momento de oferecer prendas, que podem expectativa. É o momento mais alegre da fazendeiro, até que este pega o bicho pelos

ser a espada, o maracá, o chapéu ou o diade- brincadeira. Ele vem fazendo barulho com o chifres e o domina. O drama se desenvolve

ma às pessoas da plateia para depois recolhê- chocalho no pescoço, dando marradas, dan- com a compra do boi, sua morte e a retaliação

-las com uma espórtula. Esta parte é conhe- çando, sendo insultado pelos Mateus, que fa- simbólica das partes, seguida da ressurreição,

cida como “sorte”, pelo fato de ser costume zem piruetas à sua frente, e pelo público que graças ao milagreiro Doutor, ou Curandeiro,

os brincantes escolherem pessoas de maiores participa da farsa. Sua presença é muito forte, personagem cômico que reintegra o animal

posses para entregar a distinção, na esperança apoiada na lenda do Boi Gracioso, que, em e o faz levantar de um salto e sair correndo,

de receber uma recompensa maior. variadas versões, se disseminou por todas as dando marradas e coices, ainda mais disposto

Enquanto acontece essa interação entre os regiões brasileiras dando grande popularidade do que antes, arrancando aplausos e risadas

brincadores e o público, os entremeios come- à figura do boi no folclore nacional. Vigorosa dos presentes.

çam a ocupar o palco com figuras fantasiadas e ao mesmo tempo ágil e graciosa, a repre- Terminado o entremeio o grupo se prepa-

para uma rápida dramatização. No passado es- sentação do Boi desenvolve um jogo de cenas ra para o episódio final, concluindo a brinca-

tas partes eram longas e muito variadas. Não coreográficas de muita movimentação e bele- deira com a peça da despedida.

faltavam os entremeios do Boi, da Burrinha za plástica.

ou Cavalo-Marinho, do La Ursa, do Jaraguá, Chegou, chegou,

do Morto-Vivo, do Zabelê, do Capitão-do- Lá chegou meu boi agora.

-Mato e outros, inspirados nas personagens Se quiser que eu dance, eu danço,

das lendas e do folclore regional. Se não quiser, vou-me embora.

Como as apresentações já não são tão lon- Após as alegorias iniciais começa a drama-

gas quanto as de antigamente, que varavam a tização com as partes declamadas encabeça-

58 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Mestre Dedeca, ao centro, e figurantes
do Reisado de Água Branca

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 59


Despedida em marcha
O Mestre anuncia a retirada e ovaciona a todos

com peças de agradecimento, de louvações ao

Deus Menino e a Nossa Senhora, e na esperança de

voltarem no próximo ano, renovando votos, tocando e

dançando alegremente, sempre com ele à frente, seguido

pelos graduados e demais figurantes.

As marchas de despedida são dolentes e reforçam o

ritual da partida de quem precisa ir, mas quer ficar.

Adeus, minha gente,

Adeus, que eu me vou.

Até para o ano,

Se nós vivo for.

Embora o Reisado seja um marco na história do fol-

clore alagoano, hoje os grupos estão se extinguindo. Um

dos que permanecem em atividade, com apresentações

regulares, é o do Mestre Expedito, no Bananal, povoado

da Viçosa, que mantém a tradição que herdou do pai, o

Mestre Osório Terto. Até meados do século passado, a

dimensão imaterial do patrimônio cultural do estado era

medida pela quantidade de Reisados em atuação e pelo

entusiasmo de que se cercavam suas apresentações. Com

o tempo, o auto deu margem ao surgimento de outro

folguedo, o Guerreiro, que logo veio a suplantá-lo em

termo de aceitação dos brincantes e do público.

Figurantes de Guerreiro

60 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Guerreiro
Guerreiros brincantes,
preferência caeté
D e todos os folguedos, o Guerreiro é o que está em
primeiro lugar na preferência do alagoano. Nos lo-
cais onde os grupos se apresentam, há sempre um como a
atração principal. A energia da música, os passos ritmados,
o apito estridente, a performance dos brincantes e o movi-
mento colorido das fitas dão ao auto uma vigorosa encena-
ção, que contagia e entusiasma a todos.
A semelhança com o Reisado não nega a sua origem,
que remonta ao século passado, pelos idos dos anos de
1930, quando foram feitas inclusões criadas pelos Mestres e
incentivadas pelo público que, na época, vibrava e interagia
com o grupo, fazendo das apresentações o grande aconte-
cimento que mobilizava todas as classes sociais. Com isso,
o entusiasmo do Mestre levava à criação de novas peças,
novos passos e personagens. E, aos poucos, a brincadeira
foi se distanciando do modelo inicial, a tal ponto que pas-
sou a formar outro folguedo com “função” própria.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 61


Mestre Jaime
O folclorista Pedro Teixeira de Vasconce- de outras brincadeiras -, que começou a ter Guerreiro Leão Devorador

los considera a festa do centenário da cidade mais adeptos e a ganhar formatação própria.

de Viçosa, em 1931, o marco da transição Na Zona da Mata, os poetas, juntamente


Está cumprindo o seu fardo. (bis)
do Reisado para o Guerreiro. Embora ainda com os Mestres, contribuíram com criações
Você diz que estou chorando,
permanecesse o nome original, a formação já para o novo folguedo. Olegário Vilela, bardo
Estou chorando é por você.
mudara com a absorção de partes de outros de rima fácil e lírica, senhor do Engenho Boa
Você diz que é mentira, rá rá, (bis)
folguedos, como os Caboclinhos, o Pastoril, Sorte, na Viçosa, versejava suas peças para
Vou chorar pra você ver. (bis)
o Fandango, o Bumba-Meu-Boi e outras can- Reisado e Guerreiro.
O primeiro pesquisador a citar o auto do
ções e repentes que os Mestres conseguiram A cigarra está cantando,
Guerreiro foi Arthur Ramos, em 1935, no li-
juntar. Aos poucos se foi criando uma es- No salgueiro da estrada,
vro O Folk-loro Negro do Brasil. Aos poucos, o
trutura independente - com a fragmentação Coitadinha da cigarra, rá rá, (bis)
reconhecimento foi legitimando o novo auto.
62 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente
Diz Pedro Teixeira que quando o Reisado do auto, juntamente com o público.

Engenho Boa Sorte foi convidado a se apre- Alagoas teve grandes Mestres já elencados

sentar em São Paulo, no ano de 1945, outras por Théo Brandão e José Aloísio Vilela. Em

novidades foram incorporadas às peças e o 2010 a folclorista Josefina Novaes publicou

sucesso foi total. A partir dessa experiência e o catálogo Asfopal – 25 Anos Brincando Sério,

com o frenesi do episódio da guerra, com os com resumos biográficos dos Mestres filia-

personagens digladiando-se com todo o furor dos à Associação dos Folguedos Populares de

rítmico, a brincadeira ganhou personalidade e Alagoas. Entre eles, Benon, Venâncio, Juvenal

passou a ser reconhecida e classificada - ini- Leonardo, Artur Moraes, Djalma de Oliveira

cialmente, fora do estado - com o nome Auto (apelidado Jaime), Juvenal Domingos, Nival-

do Guerreiro. do Abdias e o mais novo deles, André Joa-

Théo Brandão reitera o testemunho de quim, que começou a brincar no Guerreiro da

Pedro Teixeira, dizendo, com a mesma pro- Mestra Zefa Bispo, de Palmeira dos Índios, na

priedade de quem presenciou a transição, que década de 1960. Vindo para Maceió, ele logo Contramestre Anísio
Guerreiro Mensageiro
“o Guerreiro surgiu na Zona da Mata, em Vi- se filiou ao Guerreiro do Mestre Jorge Ferrei- Padre Cícero
Maceió
çosa, sob o viço dos importantes Reisados do ra, da Chã da Jaqueira, e nunca mais deixou a

município”. José Aloísio Vilela também diz o brincadeira.

mesmo e Câmara Cascudo escreve textual- A história dos mestres é permeada por ex- Chegou estes Caboclinhos (bis)

mente em seu dicionário: “Guerreiro - auto periências semelhantes. A maioria participava Foi eu que mandei chamar (bis)

popular no estado de Alagoas”. Ele o assistiu dos folguedos desde criança. Alguns são fi- Eles vieram de longe (bis)

pela primeira vez em Maceió, no ano de 1952, lhos de Mestre, de Rainha, de figurante, e tra- Do canto do Juremá (bis)

e reafirma sua origem no Reisado. zem na memória afetiva o respeito à tradição Quem lá nasce assim conhece (bis)

Natural em qualquer processo de transição, e a fidelidade à forma original. É justamente Caboclo Tupinambá (bis)

a assimilação das mudanças e diferenças entre essa transmissão que garante a perpetuação da

os folguedos ocorreu com o passar do tem- brincadeira.

po. A partir daí a popularidade do Guerreiro É do Mestre Benon esta peça de entrada:

cresceu, e tanto os Mestres quanto os figuran- Boa-noite meus senhores e senhoras (bis)

tes foram migrando aos poucos para o novo Boa-noite eu venho dar (bis)

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 63


Personagens e trajes,
um reino de gosto popular
A lém do Mestre e do Contramestre, das

duas Rainhas, Embaixadores, Mateus,

Palhaços e dos demais brincantes do Reisado,

outros foram acrescidos ao Guerreiro, sendo


Figurantes do
hoje cerca de 30 os participantes. Ao auto fo- Guerreiro Barreira Pesada

ram agregados o General, a Lira, a Estrela de

Ouro, a Borboleta, o Índio Peri e seus Vassalos,

a Rainha dos Guerreiros, a Rainha dos Cabo-

clos e a Banda da Lua. Estes novos persona-

gens reforçaram a identidade do folguedo e

enriqueceram sua encenação.

Os trajes, semelhantes aos do Reisado,

destacam-se por ser mais variados, coloridos e


Guerreiro das Artes
imponentes nos ornatos. As principais figuras
Mestre Juvenal Leonardo
se vestem com réplicas, de gosto popular, dos

trajes da nobreza imperial, em cores vibrantes, zem na cabeça o distintivo do cocar com penas,

em cetim com aplicações de galões dourados, ou estilizado com lantejoulas, e outros apliques.

lantejoulas e muitos espelhos para afugentar os Os chapéus são vistosos, altos, com bri-

maus espíritos, conforme a sabedoria popular. lho e muitas cores. Os do Mestre e do Con- cantes. Quanto maior e mais pesado, mais

O Índio e seus Vassalos tanto brincam a ca- tramestre têm a forma de fachada de igreja orgulho para quem o porta, pois o status do

ráter, com penachos e tangas de penas, como com duas torres, frontão e a cruz latina no grupo é medido pelo garbo e pela importân-

usam o traje normal de fitas coloridas, mas tra- centro, como insígnia norteadora dos brin- cia do Mestre.

64 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


O auto e sua função,
fragmentos da fé e da guerra
D a mesma forma que no Reisado, a

brincadeira começa com o pedido de

“abrição de porta”, com peças semelhantes, e


auto é mantido com o episódio da guerra,

vindo do Reisado, do Auto do Congo e dos

Caboclinhos, recheado de novas incorpora-

outras advindas do Pastoril, seguidas das habi- ções a critério do Mestre.

tuais louvações ao Divino e aos patrocinado- Nenhum folguedo se iguala ao Guerreiro

res. Entre as composições que o grupo entoa, em matéria de animação nos passos de batida

os Mateus divertem o público, respondendo forte, nos gestos e no embate. A ação dramá-

com cantos de conteúdo hilário. tica se desenrola no combate entre guerreiros

Puxa o Mestre e o grupo responde: e caboclos, chegando ao ápice com a morte

Guerreiro, cheguei agora, (bis) e ressurreição do Índio Peri, capturado pelos

Nossa Senhora é nossa defesa. (bis) donos da aldeia, no caso os colonizadores, e

E os Mateus interrompem: da Lira, pivô do conflito passional entre o Rei

Se eu casar com uma mulher feia demais, e a Rainha.

O diabo é que não faz, todo dia ela apanhar!

Em seguida, cantam uma sucessão desco-

nexa de atos, fragmentos de outros folguedos

e de temas aleatórios que tratam da saudade,


Mestre Manoel Venâncio
do amor, da terra e do mar, que enriquecem a
Maceió
diversidade e a maleabilidade do enredo, abor-

dando diferentes contextos socioculturais.

Apesar da falta de unidade temática, o uni-

verso simbólico que sustenta a identidade do

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 65


Guerreiro Mensageiro
A inclusão da figura do General é, com improvisos, quebrando uma possível sequên- Padre Cícero

certeza, uma decorrência do fascínio que cia, sem contudo perder a coerência rítmica. E do corisco e do trovão.
a farda exerce no sentido de poder, so- Uma característica própria do auto são as Todos me prestem atenção
bretudo por conta da conquista do regime peças de exaltação ao próprio Guerreiro ou Eu vou vencer minha batalha
republicano por dois militares alagoanos, ao Mestre. Com isso o ufanismo toma con- À vista de Santa Bárbara
recente ainda na época do surgimento do ta do grupo e o sapateado se torna cada vez Com o seu cálice na mão.
folguedo. O curioso é que o seu traje não mais forte no palco de madeira, exigência do Da Mestra Gajuru temos também outro primor:
é verde, conforme o do Exército brasileiro, Mestre para conseguir fazê-lo ecoar. Existem Boa-noite meus senhores,
mas branco, com patentes nos ombros e nomes emblemáticos de mestras de Guerrei- Boa-noite eu venho dar,
chapéu de dois bicos, semelhante ao usado ro. Entre elas Maria Odilon, Joana Gajuru, Que a Gajuru falada,
pelos almirantes do Fandango e da Che- Zefa Bispo e Mestra Virgínia, que nos deixou Chegou hoje no lugar.
gança. esta peça primorosa de exaltação pessoal: Pega a peça figurá
O tropel duplo é vigorosamente marca- Eu sou a Mestra Virgínia Verde, encarnado e azul,
do pela cadência do apito do Mestre, que Eu sou a rainha do fogo Guerreiro da Gajuru,
não larga o comando e cria uma série de Eu sou a dona dos raios Tá em primeiro lugar.

66 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Entremeios
O s entremeios amplificam a graça e a

vivacidade da brincadeira, dando mo-

vimentação à apresentação cênica, trazendo o


ção do Boi é de ripas e tecido, com uma aber-

tura logo abaixo da cabeça do animal, onde o

condutor coloca o rosto. Dos chifres, verda-

tom jocoso que diverte o público. Geralmente deiros, pendem fitas de cores berrantes que se

são os Mateus e os Palhaços que incorporam misturam com flores e brilhos, dando à figura

os personagens, mas qualquer participante uma monumentalidade plástica que lhe garan-

pode fazer o papel. Até mesmo o Mestre, te o sucesso, principalmente entre a garotada,

como é o caso do Mestre André Joaquim, do que pula e grita no seu entorno.

Guerreiro Padre Cícero, que se traveste de La O Jaraguá é outra figura muito presente.

Ursa e assume a personagem com intimidade Elemento fantástico do folclore brasileiro, ele

e talento. é encontrado em várias regiões como parte

Na época do Carnaval, ele novamente integrante do ciclo natalino e do Carnaval.

veste o disfarce e sai pelas ruas do seu bairro, Trata-se de uma figura alongada, vestida de

o Tabuleiro do Martins, festejado por todos chita estampada e com focinho pronunciado,

e correndo atrás da garotada. O Mestre traz cuja mandíbula se movimenta, acompanhan-

no sangue a tradição familiar, brincando no do o ritmo da música com o entrechoque dos

Guerreiro desde criança até chegar à condi- dentes. Seu passo é miúdo, mas de quando em

ção atual, substituindo o Mestre Venâncio, vez investe sobre o público causando corre-

que faleceu em 2008. rias e risadas.

O entremeio do Boi é sempre muito espe-

rado e o enredo se identifica com o do Reisa-

do, culminando com a ressurreição do animal

e o molejo dos movimentos que fazem dessa Índio Peri


Mestra Vitória
evolução o ponto alto do folguedo. A arma- Guerreiro Leão Devorador

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 67


Despedida
O grupo se perfila para a retirada de
cena, com a empáfia do dever cum-
prido e a certeza de que deixa saudades.

Dai-me licença, senhora,


Que eu quero me alevantar.
A Virgem da Conceição,
Ela nos queira ajudar.

Finda a brincadeira, como dizia o Mestre


Jorge Ferreira, era “hora de forrar o estôma-
go”. A mesa farta das casas-grandes estava
posta. Diferentemente do que acontecia no
meio rural, quando havia o envolvimento
emocional de todos da comunidade, hoje
a relação do grupo com o patrocinador é
contratual e, na maioria das vezes, sujeita à
burocracia do serviço público.

68 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Maria Flor - Rainha do Guerreiro

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 69


Capítulo IV
Personagem
Negra da Costa

Dizem que a inconstância


tem o nome de mulher.
(Não sabem da solidão
que a vida da gente é.)
(Maurício de Macedo)

72 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Negra da Costa

Traços da etnia
O s folguedos, as danças e tantas outras ma-
nifestações culturais são alguns nichos de
resistência da ancestralidade africana no Brasil. O
sentido de pertencimento é transmitido, na maio-
ria das vezes, através da religiosidade que permeia
essas práticas e fortalece sua sobrevivência, apesar
das inúmeras interferências, proibições e descarac-
terizações sofridas ao longo dos anos. Essa assi-
milação justifica a frequência, em terras brasileiras,
de folguedos - a exemplo do Negra da Costa - que
representam, por meio de diferentes metáforas, o
universo quilombola, permanecendo na memória
de seus descendentes.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 73


Na dinâmica da diáspora, que se estendeu africano como seitas. Confundem-se ao ponto Os negros tiveram no Ciclo do Natal e do

oficialmente do século XVI ao XIX, várias rotas de desvincular a Negra da Costa e outras fol- Carnaval ocasiões propícias às práticas sin-

do comércio de humanos foram traçadas para ganças de origem afro das tradições de fé. É créticas e os folguedos se prestaram a essa

dar vazão às demandas de trabalho no país. Um notório que o sagrado e o profano caminham equivalência, num tempo em que os brancos

grande contingente de povos bantus, trazidos lado a lado nas civilizações e culturas. Vem exa- opressores condenavam tanto a prática religiosa

da costa de Angola para o Nordeste, ocupou tamente dessa aproximação a possibilidade de quanto o culto à pátria distante. Essas implica-

o território e imprimiu sua marca na formação que os ritos e as celebrações se ordenem em ções permeiam o enredo dos folguedos que ,

social, demográfica e cultural da região. festividades. No caso específico das religiões de em determinados momentos, chegam a fundir

Os rituais de fé e as celebrações festivas matriz africana, cuja prática era condenada no a História de países de culturas e continentes

acentuaram a unidade entre os negros, que es- Brasil, seus adeptos precisavam lançar mão do diferentes.

palharam por toda parte suas insígnias sagradas tênue limite entre o espiritual e o material para Hoje é difícil perceber os elementos funda-

e suas danças tradicionais, como meio de man- louvar as suas entidades. dores dessas manifestações devido às mudanças

ter parte do ethos do continente de origem. Des- e folclorização dos rituais. A própria distância da

sa maneira, as folganças, assim como as roupas época da escravidão se encarrega de distorcer os

típicas, constituem elementos de revelação do propósitos iniciais, confundindo ou mascaran-

respeito à tradição e à identidade arrancada e do a sua trajetória.

reinventada em todo o território nacional. Atualmente, seus participantes podem pro-

O folguedo Negra da Costa enquadra-se fessar qualquer credo religioso e pessoas de

nesse movimento de reinvenção, constituindo pele clara participam do auto transmutando-se

uma adaptação das danças afro, abrasileiradas em negras. E o tom do folguedo passou a ser

e incluídas no ciclo de autos carnavalescos. O jocoso, diferentemente do seu começo. Essas

próprio nome indica a procedência, que pode mudanças foram implantadas, mas não apagam

ter sido da costa de Angola, da Guiné, mas, os dogmas que deram origem ao auto. Elas ape-

sem dúvida, da costa da África, denominação nas sinalizam os movimentos aos quais estão

genérica para definir os que chegaram com a sujeitas as manifestações populares enquanto

dispersão. parte de um contexto social em constante mo-

Alguns folcloristas enquadram, equivocada- dificação.

mente, as religiões procedentes do continente Pai Velho


Negra da Costa
74 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente
O folguedo em Alagoas
P rovavelmente pela escassez de grupos de

Negra da Costa no estado, os registros

históricos sobre o tema são poucos. Na clas-


As informações dão conta de que em 1920 o

grupo local já se apresentava nos carnavais. A

aceitação por parte da comunidade é grande ao

sificação de Théo Brandão ele é citado como ponto de haver incentivo à sua prática e à cria-

Maracatu. Dos folcloristas locais, apenas José ção de novos grupos nas escolas. Essa valoriza-

Maria Tenório Rocha e Pedro Teixeira de Vas- ção possibilitou que o folguedo fosse incluído

concelos documentaram o folguedo, buscan- como patrimônio cultural local. Enquanto na

do referências em poemas, crônicas e entrevis- literatura o município carrega o trunfo de ter

tas da época. As poucas anotações dão conta dado ao país um dos seus maiores escritores,

de que pelos idos de 1910 existiam grupos de Graciliano Ramos, na cultura popular o orgu-

Negra da Costa em Santana do Ipanema e lho fica por conta do seu rico folclore e nessa

Mata Grande, no Sertão alagoano, e que, na área o Negra da Costa é o maior destaque.

década seguinte, a Negra da Costa de Palmei- Com uma economia baseada na plantação

ra dos Índios puxava os blocos no reinado de da cana-de-açúcar e na criação de gado, sua


Negra da Costa
Momo, trazendo animação para os foliões toponímia procede do termo africano ocubongo- Quebrangulo

com apresentações cheia de trejeitos e brinca- lola, que significa coisa ajuntada, confederação, volvimento mesmo depois de seu assassinato,
deiras. O grupo se extinguiu em 1931 com a grupo de pessoas. No passado, foi palco da em 1954. A outra figura é o mestre Zome -
morte de seu organizador e desde então não foi formação de vários quilombos e de tiranos ca- Manuel Soares de Melo -, babalorixá que, por
mais reativado. O grupo de Chã Preta também pitães do mato. ter sido proibido de frequentar a igreja pela sua
foi registrado por Pedro Teixeira, em 1998. No aspecto religioso duas figuras se desta- condição de umbandista, construiu uma igreja
Localizada na Zona da Mata, Quebrangulo cam. A primeira é o Beato Franciscano - Antô- particular em louvor a São Sebastião, o santo
é a única cidade que mantém a folgança Ne- nio Fernandes de Amorim -, que criou uma vila de sua devoção, em frente ao seu Palácio Rei
gra da Costa em atividade até os dias atuais. de orações que permaneceu em franco desen- Balauê, e ele mesmo oficiava o culto.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 75


Personagens e trajes
O s brincantes, homens travestidos de

mulheres, são chamados de negras.

Como o auto abriu espaço para os brancos,


Xangô, o azul para Iemanjá, o amarelo para

Oxum e assim por diante. Não existe regis-

tro deste folguedo entre os grupos do estado,

estes pintam o rosto, o colo e os braços com mas as legítimas negras vindas da costa africa-

tinta preta, carvão vegetal ou pancake e trajam na não dispensavam seus panos, muitas vezes

roupas como as baianas, com saias longas e tecidos por elas próprias em teares manuais.

largas e blusas de babados fartos, tudo muito Além das Negras, existe a figura do diri-

alvo e engomado. Turbante, colares, pulseiras gente, que traja terno preto e quase sempre

e anéis completam os adereços. Nos lábios o traz uma bolsa de mulher a tiracolo, e o ca-

batom vermelho em excesso reforça a carac- sal de pretos velhos, chamados de Pai Velho

terização dos personagens. e Mãe Velha, que simbolizam a sabedoria e

É evidente que no passado o Negra da a ancestralidade. A Mãe veste-se de forma

Costa tratava-se de uma dança de mulheres igual às demais negras, mas traz como distin-

negras que usavam o Pano da Costa como tivo uma cesta de flores no braço. O Pai veste

complemento da indumentária. O Pano é terno preto e camisa branca, barba e cabelos

uma espécie de xale de algodão, que a negra brancos ou embranquecidos artificialmente.

usa sobre um ombro, cruzado na frente, como Traz no canto da boca um cachimbo com que

fazem as baianas tradicionais. No aspecto re- se delicia a cada baforada. Cabe a ele trazer

ligioso, representa a insígnia do orixá e varia a Calunga, boneca de pano preto, vestida da

de cor conforme a entidade. O vermelho para mesma forma que as Negras.

76 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Negra da Costa
Quebrangulo

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 77


O auto e a função Mandou me chamar!

As Negras brincam sob o comando do dirigen-

A informação sobre a forma como a folgan-

ça se apresenta nos dias de hoje vem de

Quebrangulo, uma vez que não se tem notícias da


- Apanhar macaíba

Pra vender!

Ô Negra da Costa
te, que arrecada as espórtulas. No centro fica o ca-

sal de pretos velhos com a Calunga. Acalentam-na

nos braços, sacodem para cima, dançam com ela e


existência deste folguedo fora do estado. Em janei- Que andas fazendo?
divertem a plateia. Mas o tratamento jocoso dado
ro começam os ensaios e a preparação das roupas. - Ando na rua
à boneca é fruto da folclorização por que passou
Durante o Carnaval o grupo puxa a orquestra e os Comendo e bebendo!
o auto.
blocos, percorrendo o Centro e as principais ruas, Ô Negra da Costa
Originalmente, a Calunga tinha a função re-
sendo ovacionado pelos moradores. Apesar de Com balaio de flor!
ligiosa de fetiche de Iansã, orixá dos trovões, das
haver outros folguedos no município, a Negra da - Ando na rua
tempestades e dos fenômenos da natureza. Com
Costa é sempre o mais esperado e aplaudido com Dançando Xangô!
o tempo, perdeu a força da simbologia, manten-
o calor do pertencimento. A brincadeira é iniciada Costumam incluir na brincadeira alguma mar-
do apenas resquícios longínquos dessa prática. O
com tradicional canto: cha ou frevo de antigos carnavais, repetem cantos
grupo faz referência a Santa Bárbara, que no sin-
Abra a roda, Yoyô de outros folguedos, como no caso das peças do
cretismo corresponde a Iansã. Durante as evolu-
Abra a roda, Yayá Quilombo, ou aproveitam rimas de circos mam-
ções, as Negras se deitam no chão, em plena rua,
A Negra da Costa bembes e cantos regionais. As peças de hoje são
formando um círculo com a boneca no meio. Essa
Chegou pra brincar! as mesmas que foram documentadas na década de
formação reminiscente pode se reportar ao culto
Trata-se de uma dança-cortejo em duas alas, 1970 por José Maria Tenório Rocha, quebangulen-
ancestral da fertilidade, mas os brincantes não têm
que adquiriu sua tipicidade no Carnaval, mas que se que escreveu a história do município.
convicção do que representam e, simplesmente,
também se apresenta nas praças e nos palcos das Ô raia o sol,
evocam Santa Bárbara.
festas católicas, culturais e turísticas. Não tem en- Suspende a lua,
Ô lelê, minha Santa Bárbara,
redo, os brincantes dançam e cantam peças soltas Negra da Costa
Ô lelê, minha Santa Bárbara,
que têm como foco a vida da Negra, seu trabalho, Que anda na rua!
Ô lelê, minha Bárbara Santa,
sua alegria e ousadia. Ô tuê, ô tuê,
Ô lelê, minha Bárbara Santa.
Negra da Costa Ô tuê, ô tuá,

Que vem ver? Negra da Costa Negra da Costa


Quebrangulo
78 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente
Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 79
Quilombo
Origem discutida
E xistem discordâncias quanto à origem do folguedo e à

sua denominação. Enquanto uns defendem a genuinida-

de alagoana, outros consideram o Auto do Quilombo idêntico

ao Lambe-Sujo, de Sergipe, e ao Cacumbi, da região do Rio São

Francisco. Os que apregoam a descendência alagoana referem-se

a particularidades associadas a fatos históricos da República dos

Palmares (1597-1694), mas a falta de registros efetivos polariza as

opiniões. Um dos pontos de consenso é a certeza de que o folguedo

começou nas senzalas, com ritmo e batuque africanos e cantos de

repúdio ao branco, indo de encontro aos interesses do regime escra-

vocrata vigente. Não resta dúvida de que, em sua forma primitiva, o

Quilombo desagradou à ala conservadora da sociedade.

Quilombo
Limoeiro de Anadia

80 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


As exibições públicas eram enquadradas nos folguedo que leva esse nome. nos aglomerados escravos, não resta dúvida de

códigos de postura municipal, que proibiam o Se no rastro europeu as influências mais que em algum momento seu final foi adulte-

ajuntamento de escravos para fins não religio- fortes vieram das Mouriscadas e Danças de rado. Mantida a formatação original, a vitória

sos. Entendendo-se que, àquela época, apenas Pastoreio, na tradição africana os Congos e seria incontestadamente do rei negro, contra-

o catolicismo era tido como religião. Fontes Congadas definiram o timbre negro dessas riando a história e idealizando uma “verdade”

indicam a proibição do folguedo em Marechal manifestações que, no âmbito geral, todas elas lendária.

Deodoro na primeira metade do século XIX, procedentes de um continente ou do outro, O que aconteceu foi uma reviravolta no en-

com prisão dos brincantes e multas para os se- giram em torno do louvor a entidades sobre- redo e os episódios reconceituados conforme

nhores proprietários que permitissem a repre- naturais e feitos históricos cravados no incons- a ótica da classe dominante. Exatamente por

sentação por parte de seus escravos. ciente coletivo. Embora sejam culturas tão dís- isso, alguns folcloristas resistem em incluí-lo na

Arthur Ramos foi dos primeiros a se pro- pares, no universo popular elas se encontram e classificação de folgança de descendência qui-

nunciar sobre a questão, no Folk-lore Negro do se cruzam de tal forma que às vezes fica difícil lombola, preferindo deixá-lo como um caso à

Brasil, reafirmando as convicções de Alfredo separar uma da outra. parte, considerando que a mudança de cunho

Brandão quanto à origem alagoana e diz tex- No caso do Quilombo, tem-se como certo conceitual afetou a linhagem do auto na sua

tualmente: “um auto de sobrevivência históri- se tratar de um folguedo de raiz africana, cujas essência. Por todos esses vieses, tem sido difí-

ca, não da África, mas da própria história dos incursões portuguesas foram chegando à me- cil registrar o folguedo oficialmente como uma

negros no Brasil”. Abelardo Duarte engrossa dida que os grupos abriram espaços (ou foram dramaturgia histórica da República dos Palma-

esta fileira, lembrando a questão negra que a obrigados a abrir) para brancos e caboclos e res.

História oficial documenta, tanto em relação saíram das senzalas para as exibições públicas Em Alagoas, o Quilombo de Limoeiro de

aos brancos quanto aos índios por eles coman- como parte dos folguedos natalinos. Anadia vem de uma tradição secular, manten-

dados, que exterminavam os acampamentos Presume-se ser dessa época a intervenção do a formação do grupo conforme a orienta-

quilombolas e puniam os escravos fugitivos. erudita de que falaram Théo Brandão e Dirceu ção do Mestre e de seus figurantes mais antigos.

Lembra também o universo lendário que se Lindoso, considerando que o enredo do fol- É considerado pelos locais como uma porção

formou em torno do Quilombo dos Palmares, guedo tenha sido subvertido no seu episódio importante da cultura do município, devido à

envolvendo raptos de moças brancas, filhas de final em favor do interesse dos brancos, senho- fidelidade com que a folgança se apresenta nas

senhores poderosos e outras façanhas imaginá- res de escravos. festas, fazendo parte da memória afetiva da co-

rias, facilmente identificadas nos episódios do Em se tratando de um folguedo originado munidade.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 81


Personagens
e trajes
O s Quilombos mais antigos tinham

uma formação muito simples e os

trajes acompanhavam essa simplicidade. Com

o reconhecimento oficial do folguedo como

Auto Natalino, atraindo a aceitação pública da

classe social mais abastada, os trajes passaram

a ser mais elaborados, inspirados no figurino

do Reisado. Os negros trocaram a mescla

azul pela seda brilhosa e adotaram chapéus

ornamentados com fitas multicoloridas. Os

brancos passaram a pintar o corpo de preto

para melhor caracterizar os personagens e

armaram-se de foices de madeira. O grupo

de índios caprichou nos cocares emplumados,

nos braceletes e perneiras. Começaram a usar

a tinta de tonalidade ocre na pintura corporal

e chegaram armados de arco e flechas. Assim

se mantêm nos grupos atuais.

Rei de Quilombo
Limoeiro de Anadia

82 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


O Rei dos negros e o dos caboclos-índios

trajam indumentária semelhante às figuras re-

ais do Reisado, trazendo um parapeito de espe-

lhos que lhes acentua a importância. Os espe-

lhinhos, com aproximadamente 4 centímetros

de diâmetro, encontrados nas feiras públicas,

ainda hoje são muito usados. Os Reis empu-

nham garbosamente espadas da antiga Guarda

Nacional. Na falta destas, fazem outras de ma-

deira e pintam a parte da lâmina de prateado

ou de dourado.

Uma mulher de pele clara que personaliza

a Rainha veste túnica branca, com o parapei-

to semelhante ao dos Reis, manto decorado e

diadema ou coroa na cabeça. Em muitos Qui-

lombos esta é a única figura feminina. Existe a

Catirina, do lado dos escravos, que é um ho-

mem travestido de mulher, que aparece com

frequência em outros folguedos de predomi-

nância negra.

Cada ala tem o seu vigia, que no caso dos

caboclos-índios é chamado de Espia. Ainda

tem o Pai Velho, negro ou com o corpo pin-

tado, barba branca, chapéu de palha. Encarna

a experiência, a sabedoria e detém o respeito

de todos.

Rei de Quilombo
Limoeiro de Anadia

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 83


84 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente
O auto e sua função
O Quilombo dramatiza a luta dos ne-

gros fugitivos na defesa dos seus

acampamentos do ataque dos algozes bran-


No início, os negros simulam roubar obje-

tos de pessoas do lugar, como símbolo de con-

quista da liberdade, e ficam com essas peças

cos e caboclos-índios comandados pelos se- sob sua guarda enquanto dançam em ritmo de

nhores de engenho e seus capitães do mato. samba. O ato é combinado entre os brincan-

Desde que o folguedo passou a ser aceito tes e os donos dos objetos, uma vez que no

pela classe dominante, as apresentações ga- passado houve muitos problemas porque as

nharam uma cenografia elaborada, incluindo peças eram surrupiadas sem que os proprietá-

a instalação de um barracão, ou mocambo, rios soubessem, causando desavenças que, por

para os negros e, a certa distância, uma palho- vezes, eram decididas na delegacia.

ça para os caboclos-índios, ambas camufladas No desenrolar do auto, os negros roubam

com folhagem para dar a impressão de esta- a Rainha branca para casar com o Rei negro,

rem escondidas dos adversários. em meio a muito batuque e festejo. Mas os

Tudo começava na véspera, quando os caboclos, espertamente, montam uma arma-

brincantes se instalavam e faziam o reconhe- dilha. Sabendo do quanto os negros gostam

cimento dos seus domínios. O batuque varava de cachaça, deixam algumas garrafas perto do

a noite, com direito a paneladas de carne gui- mocambo ao alcance de suas vistas. Logo eles

sada e cachaça divididas entre os participantes as encontram e, embriagados e tomados pela

dos dois acampamentos. No dia seguinte a orgia, se tornam presas fáceis. Os caboclos-

brincadeira ganhava plateia. -índios invadem o mocambo, aprisionam os

negros, retomam os objetos e os devolvem aos

seus donos, que os recompensam com gorje-


Evolução de Quilombo
Limoeiro de Anadia tas.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 85


O sentido simbólico das prendas se con-

cretiza entre a conquista e a perda da liber-

dade por parte dos escravos. Exatamente o

que acontecia com os históricos quilombolas,

quando eram dominados e aprisionados, vol-

tando acorrentados e violentamente surrados

para as senzalas.

Das mais tradicionais peças deste episódio

destaca-se o canto de afugentar os brancos:

Folga negro,

Branco não vem cá.

Se vier,

Pau há de levar.

Folga negro,

Branco não vem cá.

Se vier,

O diabo há de levar.

No contraponto, os índios dançam o Toré

em círculo e cantam ritmadamente:

Dá-lhe Toré,

Dá-lhe Toré,

Faca de ponta,

Não mata mulher.

Outros cantos endossam a brincadeira, que

culmina com o rapto da Rainha dos negros

pelos caboclos, fato que motiva a simulação

Figuras de Quilombo de mais luta pela sua captura. Depois da parte


Limoeiro de Anadia
dos vigias de ambos os lados, anunciando a

86 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


aproximação do inimigo, a luta é travada e os negros são aprisio-

nados e vendidos à plateia, que os recompensa com espórtulas.

Todo o enredo é uma mistura da história da escravidão enxer-

tada com episódios lendários, como o amor entre o Rei negro e

a Rainha branca. Exatamente por se tratar de uma manifestação

popular, é legítima a reinterpretação dos fatos históricos, mescla-

dos de oralidade e romantização.

No final, como aconteceu no Quilombo dos Palmares, os ne-

gros são subjugados pela força dos dominadores e o mocambo é

destruído. O Rei é dominado e morto em combate, contrarian-

do a expectativa de um folguedo de origem e resistência negra.

Com os vieses criativos e, por vezes, impostos, de que se re-

vestem as manifestações populares, é de se crer que a tragédia do

reduto palmarino fosse recolocada de tal forma que favorecesse

os negros.

A fidelidade à História oficial, com a derrota dos escravos, é

um indício de que houve uma intervenção do elemento branco

na concepção do auto. Além da morte do Rei, os negros são

humilhados e vendidos, terminando a apresentação com a con-

sagração da vitória cabocla que, simbolicamente, é a vitória do

branco dominador.

O desfecho, em regra, não agrada à plateia, que se sente agre-

dida em seus brios. Além disso, os fatos, da forma como são

enredados, normalmente causam um certo estranhamento entre

as duas alas, cuja competição é levada para a vida na comunidade.

Figura de Quilombo
Limoeiro de Anadia

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 87


Capítulo V
Mestre Rosevaldo
Chegança de Penedo

Canoeiro, canoeiro,
a memória já definha
vencida pelo cansaço.
Existem mais léguas no tempo
do que existem no espaço.
(Maurício de Macedo)

90 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Chegança

A Chegança dos Mouros


O s folguedos mais antigos, a exem-
plo do Auto da Chegança, não
dispõem de informações precisas sobre
quando e onde foram formados os pri-
meiros grupos. Os registros existentes
são vagos. Sabe-se apenas que surgiam e
se modificavam de acordo com caracte-
rísticas específicas de cada região. Nesse
processo de assimilação e mudança, con-
tabilizamos versões tão variadas entre si
que muitas chegam a parecer folguedos
diferentes. Apenas um estudo compara-
tivo, aprofundado entre os elementos es-
senciais, poderia identificar as semelhan-
ças entre as versões.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 91


No caso da Chegança, o que se tem como O Auto da Chegança, ou Chegança dos ginação dos intelectuais espanhóis e portu-

certo é a sua origem ibérica, conhecida tanto Mouros, é um deles. Derivado da Mouriscada gueses. Em se tratando de países católicos,

na Espanha quanto em Portugal. Também é e de danças europeias que tratam do mesmo suas memórias estão ainda mais impregna-

voz corrente que chegou ao Brasil entre as le- tema, o folguedo é uma versão brasileira das das dessas disputas com povos pagãos e das

vas de influências, costumes e culto à história lutas religiosas entre cristãos e mouros. relações entre os poderes constituídos.

lusa. Faz parte do repertório de manifestações A justificativa para o fascínio em torno Nesse aspecto, o Auto da Chegança está

procedentes do domínio mouro na Península desse episódio pode ser compreendida pelo entre as manifestações que estimulam o

Ibérica, que de lá se expandiu para as colônias fato de que a influência árabe na Europa, sentimento de amor à terra, de reconheci-

dominadas pelos dois países. É provável, ain- e particularmente na Península Ibérica, mento pelos feitos históricos, e a defesa da

da, que tenha chegado ao Brasil no início do estendeu-se além da economia e das ques- fé. Foi com essas características que a mani-

século XIX com a corte de dom João VI, mas tões religiosas. Chegou à filosofia, às artes e festação chegou e se estabeleceu no Brasil.

foi, com certeza, depois da mudança do regi- ao pensamento estético. Na própria arqui- O enredo foi preservado e os acréscimos

me político, do Império para a República, em tetura, enquanto narrativa de um tempo, a só vieram reforçar o tema, com a particula-

1889, que o auto atingiu a maioridade. marca está registrada nas cúpulas bulbosas, ridade de fundir os feitos portugueses com

É comum nos folguedos uma recorrência nas colunas retorcidas, nos arcos em forma símbolos e fatos nacionais.

a fatos remotos que entraram no universo dos de ferradura, nos animais fantásticos, nos Nas Cheganças mais recentes, o “adeus

artistas populares e se misturaram a outros rendilhados de pedra e nas barras de azu- Portugal”, do primeiro verso, é substituído

temas, compondo uma nova história, repleta lejos que permanecem nas construções das por “adeus Alagoas”, embora o tema seja

de múltiplas interferências. Nessa dinâmica cidades antigas. a luta contra os mouros. A Chegança Sil-

construtiva, um tema que caiu no agrado e ad- Nas artes decorativas também é grande a va Jardim, do município de Coqueiro Seco,

quiriu diferentes versões na interpretação po- relação dos motivos que permanecem vivos promove essa curiosa mistura que deixa a

pular é exatamente a invasão moura na Penín- na cultura desses povos. Tapetes, louças, ce- brincadeira ainda mais interessante. No

sula. Fato ocorrido nos idos da Idade Média, râmicas, variados esmaltes, sedas, brocados desenrolar das jornadas de luta contra os

trouxe para o imaginário local uma riqueza de e lavores de couro comprovam a vitalidade mouros, os marujos cantam a peça Nossa

motivos e de personagens que ainda povoam da influência muçulmana, sem falar nos vo- Esquadra Brasileira como se fosse a Mari-

as manifestações tradicionais portuguesas e cábulos, nos contos e em todos os gêneros nha do Brasil entrando em ação.

espanholas. de literatura que ainda hoje habitam a ima- Os fatos do passado, distantes da reali-

92 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


dade dos brincantes, terminam recebendo

novas interpretações, associadas ao mundo

conhecido por eles. Ainda assim, a sequên-

cia é mantida sem perder a força temática.

É exatamente neste ponto que a Chegança

difere do Fandango.

Nós devemos dar o Viva!,

Nossa Esquadra Brasileira, (bis)

Sai afora, artilharia,

Faça fogo, artilheiro. (bis)

No Nordeste o folguedo foi amplamen-

te assimilado, com formação de grupos em

praticamente todos os estados, nas cidades

ou povoados que se desenvolvem à mar-

gem das águas, doces ou salgadas, devido à

identificação com a temática da conquista.

Chagança Silva Jardim


Coqueiro Seco

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 93


Os grupos locais
Penedo, Coqueiro Seco, Rio Largo
P enedo, principal cidade do Baixo São

Francisco, sempre teve a Chegança

organizada por distritos. Antônio Osmar


Rua da Santa Cruz em direção à praça da

igreja, entoando a marcha do Alerta. Não

faltava a saudação a Nossa Senhora do Ro-


talino, voltam às ruas nas comemorações

alusivas ao Bom Jesus dos Navegantes,

que acontece nas cidades ribeirinhas nos

Gomes, em seu livro A Chegança, cita o sário, padroeira da cidade, que aguardava domingos de janeiro. Muitos eventos são

grupo do Barro Vermelho e o do Outeiro, em um andor iluminado, na porta princi- programados com manifestações popula-

ambos bairros de pescadores e lavadeiras pal da catedral, para abençoar o grupo. O res que culminam com a procissão pelo rio,

que têm o rio como ícone da comunida- Menino Jesus na lapinha da mesma igreja seguida do cortejo pelas ruas, conduzindo

de. Conta o escritor, no livro de 1941, que era ovacionado. Todos se entusiasmavam a imagem em meio à grande festa de fé e

a Chegança sofreu prescrições religiosas e cantando as peças laudatórias. Em seguida tradições culturais.

policiais devido à presença do Piloto-Cape- a imagem voltava a ser entronada no altar e No repertório das odisseias em louvor

lão, cuja representação cômica gerou insa- a Chegança seguia para o local da apresen- ao Bom Jesus, que se estendem aos outros

tisfação entre os católicos. Alguns achavam tação, acompanhada por muita gente. estados banhados pelo Velho Chico, uma

desrespeitosa a presença do figurante ves- Os fiéis levavam a imagem para o lado das quadras mais típicas da Chegança é

tido de padre, por isso o grupo só brincava de fora porque era, na concepção da épo- esta:

com a autorização da polícia. ca, desrespeitoso os brincantes adentrarem Vamos, maninha vamos,

Outra Chegança que marcou presença a igreja com a indumentária típica dos fol- À praia passear,

na região ribeirinha foi a comandada pela guedos. Até certo ponto o hábito perma- Vamos ver a barca nova,

tradicional família penedense Fausto, em nece. A diferença é que nos dias atuais os Que do céu, caiu no mar.

atividade até meados do século passado. A figurantes masculinos apenas retiram os Nossa Senhora dentro,

função do Almirante era hereditária, pas- chapéus em sinal de respeito. Os anjinhos a remar,

sando para as gerações mais novas a espada As Cheganças do Baixo São Francisco, São José por piloto,

de comando. O grupo saía de sua sede na além de se apresentarem no período na- Bom Jesus a navegar!

94 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Chegança de Penedo

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 95


Entre as peças do Mestre Rosivaldo Jor- dos Santos, sempre no posto de Capitão-de-

dão, que comanda a Chegança de Penedo -Mar-e-Guerra, que figura entre as personali-

desde o final do século passado, destaque para dades mais festejadas do município e, embora

o pedido de licença que é cantado pelos com- não tenha mais forças para dançar, está sem-

ponentes perfilados, prestando continência ao pre disponível para orientar os jovens que dão

Almirante. continuidade à tradição da Chegança Cruza-

Licença, meu Almirante (bis) dor São Paulo. Mestre Juvêncio foi o primeiro

Licença eu venho pedir (bis) vice-presidente da Asfopal (Associação dos

Para saltarmos em terra (bis) Folguedos Populares de Alagoas), criada por

Para conhecer o Brasil (bis) Ranilson França e Josefina Novaes, em 1985.

O Almirante responde: Ai! Adeus que eu já me vou.

Eu vou lhes dar a licença (bis) Belas meninas,

Desta embarcação para a terra (bis) O São Paulo já largou.

Se me chegar algumas queixas (bis) Elas choravam, se maldiziam

Mando-lhes jogar nos ferros! (bis) Silenciosas.

Em outros pontos do estado também en- Adeus, até um dia!

contramos Cheganças emblemáticas, como a

Silva Jardim, da cidade de Coqueiro Seco, da

Mestra-Almirante Maria Luzia Simões, que,

com idade avançada, prepara os mais jovens

para dar continuidade à brincadeira.

Na esquadra do Silva Jardim,

Tem mais de mil marinheiros,

Tem toda munição de guerra,

Tanto no mar como em terra,

Somos heróis e guerreiros.

Mestre Rosivaldo
Chegança de Penedo
Rio Largo tem o decano Juvêncio Joaquim

96 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Personagens e trajes
O s brincantes trajam uniformes da

Marinha Brasileira de acordo com as

funções que exercem, portando as patentes


rio e os Gajeiros subiam realmente no mas-

tro e muitos de lá se jogavam em espetacular

mergulho que arrancava aplausos efusivos da

referentes aos postos. O Almirante é quem assistência. Esses saltos foram suspensos de-

comanda a frota. A ele todos prestam conti- vido ao risco de acidentes. Ainda no elenco, o

nência em respeito à sua posição hierárquica. Embaixador e o Rei Mouro, que só aparecem

Em seguida, por ordem de importância na nas últimas jornadas em trajes caricaturados

frota, vêm o Capitão-de-Mar-e-Guerra, Mes- da nobreza real.

tre-Piloto e Mestre-Patrão. O Padre-Capelão e Todos portam espadas, com exceção dos

o Doutor-Cirurgião vestem-se de acordo com Marujos, que são os mais novos e aprendizes

seus papéis. Depois, a fileira de oficiais, com na brincadeira. Com as armas empunhadas e

farda azul-marinho, quepe branco e muito porte empavonado fazem alegorias, represen-

garbo. Os Marujos são os últimos, com traje tam combates e buscam demonstrar habilida-

branco de marinheiros. Entre eles, o Ração, ou de no manejo com a arma, que na representa-

Despenseiro, que cumpre o importante papel ção do folguedo é o símbolo maior de poder.

de guardar os alimentos. Há ainda dois Gajei- Chegança Silva Jardim


Coqueiro Seco
ros, que sobem no mastro para dar sinal de

terra à vista. Eles olham ao longe, para a linha

do horizonte, na ponta do barco ou palanque,

simulando que estão no alto do mastro.

Antigamente, nas Cheganças do São

Francisco, o barco era montado na beira do

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 97


O auto e a função
P ara melhor entendimento, o auto foi dividi-

do em Chegança dos Mouros e Chegança

dos Marujos, ou Fandango. Isso porque existe


Natal e a Virgem do Rosário. A maioria dos gru-

pos de Alagoas começa com a tradicional peça:

Alerta, alerta quem dorme,


com o batismo oficializado pelo Padre-Capelão:

Eu vós batizo, mouros,

Mouros infiéis pagãos,

uma pequena diferença entre uma Chegança e Olha a moça na janela, E depois de batizados,

a outra no que diz respeito à lógica do enredo, Venha ver a nau Tirana, De mouros sereis cristãos!

mas os personagens, o ritmo e as evoluções são Quando vai largando a vela!

praticamente iguais. Ó, meu Deus, que terra é aquela, Despedida


No caso da Chegança dos Mouros, ou sim- Terra de tanta alegria!

plesmente Chegança, existe um enredo sequen- - É o campo do Rosário, A rendição do Rei e a vitória da esquadra lusa

ciado e longo que fala da luta entre cristãos e Onde festejam Maria! são comemoradas com a cruz de Cristo, levan-

mouros travada em alto-mar. Os pagãos querem Os episódios se sucedem ao ritmo dolente da tada pelo Padre-Capelão. E com a alegria da es-

conquistar novas terras, expandir seus domínios música. As ordens do Almirante, as louvações à quadra os brincantes garbosamente se despedem

pelo Ocidente e os cristãos impedem o desem- Nossa Senhora, ao Bom Jesus dos Navegantes com as marchas da partida. Uma das mais tradi-

barque do inimigo. e ao Menino Jesus, ao mesmo tempo em que cionais, registrada por Théo Brandão, é esta:

Começa o auto com a chegada do grupo ao preparam a nau para a partida. As peripécias Adeus, adeus Alagoas,

palanque, que na maioria das vezes tem a forma em alto-mar: bebedeira do Piloto, brigas entre Saudades eu vou levar,

de um barco. Quando isso não acontece, eles le- a tripulação, confusões do Padre-Capelão e do Da nossa pátria querida,

vam nas mãos uma miniatura conduzida por um Doutor-Cirurgião. Por fim, a presença do inimi- De nossa terra natal.

dos Marujos que segue na frente. go, representado por três mouros que chegam Vamos marchar para a guerra,

Ao longe já vêm cantando, perfilados em duas ao barco, tentando convencer o Almirante a se E ver o mar de Lisboa,

alas, com o Almirante à frente empunhando a es- render ao Rei dos mouros. Como não há acordo, Adeus, adeus Alagoas,

pada, seguido de seus auxiliares diretos e da ma- acontece a guerra e depois de muitas embaixadas Até quando eu voltar!

rujada. Na marcha entoam cantos, anunciando a e lutas com espadas, os cristãos saem vitoriosos e

passagem e convidando a todos para louvarem o os pagãos, vencidos e convertidos ao catolicismo

98 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Fandango

Outras façanhas no mar


I nspirado nas lutas náuticas medie-
vais, o Fandango também é conhe-
cido por Marujada, Nau Catarineta ou
Chegança de Marujos. Pode ser conside-
rado uma versão da Chegança propria-
mente dita, devido à semelhança que
existe entre eles, mas como não desen-
volve o enredo da batalha entre cristão
e mouros com os episódios historiados,
os estudiosos classificaram-no como
mais um Auto Natalino, embora todos
reconheçam a sua filiação da Chegança.

Mestre Isaldino
Fandango do Pontal da Barra
Maceió

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 99


No Sul do país existe uma dança de origem flamenga

chamada Fandango, que no passado foi proibida por ser

considerada de hereges. Hoje faz parte do folclore rio-

grandense. Explora o sapateado e pertence a outra clas-

sificação, não tendo similaridade com o Auto do Fan-

dango dançado nas áreas costeiras do Norte e Nordeste.

Alagoas é um estado que traz na própria toponímia a

riqueza de sua hidrografia. Cercado de mar, rios e lago-

as, tem sua cultura atrelada à geografia. O modo de vida,

a alimentação, a atividade pesqueira, a arte das rendas,

tudo se reporta à vida nas margens, convivendo com

lendas, crenças e todo o vocabulário impregnado da sa-

bedoria popular de quem aprendeu, desde cedo, a viver

das benesses das águas.

Com tais condições, os folguedos que contemplam

enredos náuticos são muito bem aceitos e acrescidos de

características locais, devido à naturalidade com que os

partícipes lidam com o tema. Os grupos são organiza-

dos nos bairros ribeirinhos e, somados, o entusiasmo e

o sentimento de pertencimento dos brincantes resultam

da convivência diária com os movimentos de chegada e

de saída das embarcações no porto e do hábito com a

paisagem. Essas características fazem da Chegança e do

Fandango folguedos muito apreciados e sempre presen-

tes nas festas religiosas.

100 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Fandango do Pontal da Barra
Laguna Mundaú
Maceió

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 101


Os grupos locais
A lguns grupos já se incorporaram às tradições do

bairro, e por esse motivo são mantidos pelos mais

velhos que brincam desde jovens. O Fandango do Pontal

da Barra, em Maceió, é um desses. Vem de um tempo que

a própria comunidade não sabe precisar. As informações

prestadas pelos mais antigos dão conta de um provável iní-

cio na década de 1930.

O almirantado é posto hereditário que passa de pai para

filho na família Costa. Dos ancestrais para o Mestre Abina-

dab, depois para seu filho Isaltino e, agora, para Fernando.

São 36 componentes, entre homens e mulheres. Quase to-

dos estão ligados por laços afetivos, de parentesco ou de

vizinhança, o que fortalece a legitimidade do auto.

Os ensaios acontecem na sede da Colônia de Pescadores

do Pontal, ponto central, cujo grande salão atende a vários

eventos. No bairro, os homens pescam e as mulheres fazem

rendas, principalmente o filé, tradicional da comunidade.

O próprio ambiente do lugar, à margem da Laguna

Manguaba, é propício à prática do auto, pois detém os res-

quícios da influência lusa na atividade artesanal, na culiná-

ria, nas devoções, nas danças e nas músicas.

102 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Fandango do Pontal da Barra
Museu Théo Brandão
Maceió

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 103


O auto e sua função
M antendo a mesma formação da Chegan-

ça, o grupo entoa peças do cancioneiro

popular que fazem parte dos antigos folguedos


Almirante - O navio vai embora (bis)

Coro - Vou embarcar (bis)

Almirante - Eu já vou para o mar (bis)


com a insistência do Contramestre em mandar

o Gajeiro subir ao topo do mastro, mesmo este

prenunciando o risco que está correndo em alta

portugueses, das xácaras, das ladainhas, das lendas. Coro - Vou embarcar (bis) tempestade. No desespero em ferrar as velas, o

Essas canções anônimas, que passam oralmente superior não o escuta e, cumprindo ordens, o Ga-

para os mais jovens, são levadas para o Auto do A banda musical é formada principalmente por jeiro se arrisca. Sobe no mastro e simula cair no

Fandango juntamente com os cânticos de marinha. instrumentos de corda e a dança tem passos curtos mar entre gracejos e desespero. Confirmada a sua

São peças soltas que falam da vida no mar, do amor e lentos com movimentos de corpo que lembram o morte, o Piloto-Capelão faz a encomendação da

de marujo, dos grandes descobrimentos marítimos, embalo das águas. A cadência dolente configura a alma em um latim truncado que provoca risos a

da saudade da terra natal, da partida. Enfatizam representação de um folguedo de identidade aquáti- quem assiste.

também contrabandos, intrigas entre os seus tripu- ca. Tudo converge para o tema. Assume o posto o Segundo Gajeiro, que, com

lantes. Não faltam louvações ao Deus Menino e aos No desenrolar da função o ponto dramático é a mais sorte, sobe no mastro e logo anuncia “terras

santos da devoção local. falta de alimento anunciada pelo Marinheiro Ração. de Espanha e areias de Portugal!”. É a redenção

Brada o Almirante em alto e bom som, repre- A representação do desespero da tripulação é ex- dos tripulantes. E nesse clima, cantam a volta à

sentando a hora do embarque, para dar início à pressa com a sugestão do Contramestre de sortear terra natal e a alegria de pisar em solo firme.

brincadeira: um Marujo para ser sacrificado e servir de alimento O episódio é uma versão da Nau Catarineta,

Todos - Adeus santos que nos amam para os demais. A barbárie só não ocorre porque poetizada por Almeida Garret no século XIX e

Arretirar é preciso o Almirante intervém, categórico, condenando a reproduzida nas mais diversas versões, em corren-

Se houve alguma falta sugestão, ao mesmo tempo em que insiste com os tes eruditas e populares. Na tradição portuguesa

Pedimos perdão por isso. Gajeiros para que subam alto no mastro e tentem a nau conduziu Jorge de Albuquerque Coelho,

Almirante - Ai! Meu Deus, vou-me embora! (bis) ver “terras de Espanha e areias de Portugal.”. De- em 1565, de Olinda a Portugal e grandes foram

Coro - Vou embarcar (bis) pois de algumas tentativas, finalmente o grito de os percalços na travessia do Atlântico. O drama,

Almirante - Deixa logo a ração (bis) terra à vista e a alegria geral. partido e recortado pela sabedoria popular, ainda

Coro - Vou embarcar (bis) Em alguns Fandangos o drama se desenrola hoje é entoado nos Fandangos alagoanos.

104 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Em primeiro plano:
Mestra Eronildes Soares dos Santos
Chegança Silva Jardim
Coqueiro Seco

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 105


Capítulo VI
Mestra Ana
Samba-de-Matuto Renascer
Ilha de Santa Rita Diversa é a cor da pele
Marechal Deodoro
- terra de tanta mistura.
A todos faz camaradas
a risada mais pura.
(Maurício de Macedo)

108 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Samba-de-Matuto

As faces múltiplas do samba


D esde o seu surgimento o Samba fas-
cina e desafia gerações de estudiosos,
que se debruçam sobre a diversidade de suas
características rítmicas e as múltiplas ramifica-
ções surgidas até se transformar no que vemos
hoje: um gênero musical fortemente marcado
por elementos afro-brasileiros.
De origem angolana, começou como dan-
ça. Os registros dão conta de que chegou ao
Brasil trazido pelos negros escravizados. Em
dias e noites de festas, religiosas ou profanas,
eles exaltavam sua crença e reafirmavam seus
costumes ao som do lundu - ritmo marcado
pela fusão entre o batuque e a dança. O aspec-
to sensual dos movimentos, com requebros de
quadris e umbigadas, era considerado lascivo
e imoral.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 109


Apesar da repressão, promovida notada- as festas católicas, como meio de afirmação e

mente pela Igreja Católica, tinha início ali uma sobrevivência cultural, da mesma forma que

cadência sem volta: o samba caiu no gosto po- os escravos estabeleceram a equivalência en-

pular e firmou-se como um gênero predomi- tre os seus orixás e os santos de seus senho-

nante no país: saiu da senzala para os terreiros res. Era a maneira possível de professar a fé

e de lá para as ruas. Integrado ao sincretismo sem proibições.

afro e às variantes regionais, o termo, derivado O fato é que o Samba, nas suas variadas

do vocábulo angolano semba (umbigada), so- formas, é uma das manifestações populares

freu incorporações distintas. que mais contribuíram com a formação “do

Entre as inúmeras variantes, além do Sam- mito das três raças” de que fala o antropó-

ba-de-Matuto, temos Samba de Umbigada, logo Roberto da Matta, sintetizando a sólida

Samba de Roda, Samba de Gafieira, Samba imagem compartilhada entre brancos, negros

de Enredo, Samba de Terreiro, Samba de Ba- e índios que deu origem à cultura brasileira.

tuque, Samba de Breque, Samba de Partido-

-Alto, Samba de Morro e tantos outros que se

multiplicam em ritmo sincopado no batuque

dos tambores, atabaques e cuícas.

Nessa diversidade há algumas confluências

que remetem a uma origem comum, herança

das tradições musicais africanas transportadas

para a América. A grande aceitação da dança

e da música no país atesta sua força como

elemento simbólico, capaz de adaptar-se a

contextos diversos.

No processo de sincretismo, o Samba-de-

-Matuto está entre as variantes dos festejos das

senzalas que, posteriormente, migraram para Samba-de-Matuto


Ilha de Santa Rita
Marechal Deodoro

110 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


A folgança em Alagoas
N a região dos engenhos o Samba-de-

-Matuto ganhou forma e, sobretudo

em Viçosa, Capela, União dos Palmares e vi-


O Samba Leão da Primavera, do Mestre Se-

bastião Amaro, de Maragogi, continua em plena

atividade, com a tradicional formação das figu-


Um dos fatores que concorrem para que haja

essa permanência é a liderança da Mestra e a

amizade fraternal entre as componentes do gru-

zinhança, teve grande aceitação, sendo levado rantes em duas alas e o Mestre no centro, puxan- po, formado por nativas ou integrantes com la-

para os salões das casas-grandes como dança de do o canto e marcando as evoluções. Na Massa- ços de parentesco na Ilha de Santa Rita, comple-

casais. gueira, distrito de Marechal Deodoro, a Mestra xo lagunar onde está inserida a comunidade de

No Litoral Norte o folguedo seguia o mode- Ana Souza da Silva comanda o grupo Renascer. Massagueira. Juntas, batendo papo na margem

lo pernambucano, valorizando a raiz afro com O nome revela a inconstância da brincadeira, da lagoa, bordam seus vestidos e chapéus, fazem

a participação ativa dos terreiros de candomblé, que fora desativada algumas vezes ao longo do os colares, brincos e adereços que acompanham

local onde o Mestre, ou a Mestra, acendia velas tempo, embora ninguém saiba calcular exata- a indumentária. Enquanto conversam, tecem

aos orixás, fazendo da folgança uma oferenda. mente quando começou. O que se sabe é que a lembranças e planejam novas apresentações.

Nas primeiras décadas do século passado, os função foi reatada há uns dez anos pela Mestra

carnavais de São Miguel dos Milagres, Passo de Ana e que o grupo se mantém articulado sem Samba-de-Matuto
Ilha de Santa Rita
Camaragibe e Porto de Pedras eram animados sofrer interrupção. Marechal Deodoro

pelos grupos de Samba-de-Matuto com figu-

rantes de ambos os sexos. Na década de 1970

a concentração continuava nos municípios do

Norte e do Litoral. São Luiz do Quitunde, Porto

Calvo, Murici, Japaratinga, Maragogi, Maceió e

Marechal Deodoro completavam o circuito do

Samba. São localidades onde a tradição ainda se

mantém viva com intervalos de arrefecimento e

reativação, permanecendo latente na lembrança

dos moradores como parte importante dos fes-

tejos locais.
Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 111
Personagens e Trajes
O s trajes dos brincantes apresentam

algumas variações de grupo para

grupo, mas o básico é uma saia larga, de cós


Entre os atributos, o Mestre precisa ter

uma boa voz para levar o ritmo com a tona-

lidade adequada, fôlego para cantar durante


ras femininas, sendo uma de verde no meio,

fazendo as vezes de Diana, ladeada por uma

figurante de azul claro e outra de rosa, tendo

franzido, que realça o movimento das evolu- horas e rapidez de improvisador. Posiciona- nas extremidades a Mestra e a Contramestra,

ções. Não há regra rígida. Alguns optam pelas do no centro, veste camisa de chita ou roupa seguidas das demais figurantes.

cores azul e encarnado e outros pelas saias de comum, totalmente descompromissado com Não existe no Samba-de-Matuto uma va-

chita estampada, fartas em babados, blusas a indumentária do grupo. Quando o samba é riedade de personagens, porque não se trata

brancas com frisos e detalhes do mesmo te- puxado por uma Mestra, ela também vem a de uma folgança dramática que exija um figu-

cido das saias. Na cabeça, chapéus, diademas, caráter, com roupa semelhante à das sambis- rino elaborado para compor um determinado

torços ou flores. tas. Alguns Sambas têm no centro três figu- enredo.

112 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


O Auto e a Função
E ntre dança e folgança, o Samba-de-

-Matuto mantém uma estrutura sim-

ples, que denota fidelidade às circunstância

originais, época em que o batuque ressoava

nas senzalas e nos terreiros. Sua formação bá-

sica preserva as duas alas de figurantes, que

dançam e evoluem conforme a música e os

cantos entoados pelo Mestre, e repetidos em

coro por todos eles. As peças são soltas e mui-

tas vezes improvisadas, mas o ritmo é sempre

o do Samba bem marcado. Cada Mestre tem

as suas preferidas. No repertório do Mestre

Amaro, patrimônio vivo de Alagoas, não fal- Samba-de-Matuto


Ilha de Santa Rita
Marechal Deodoro
tam peças sobre o amor, o mar, as mulheres.

A sua predileta é:

Eu ontem fui à maré

Fazer uma pescaria Acredite quem quiser folguedos que se apresentam em todas as fes-

Quando amanheceu o dia Tire o meu cartaz de bamba tas, do Natal ao Carnaval, adequando os cantos

Ia arribando até. O meu fracasso é samba a cada ocasião. Seu batuque originou diversos

Na cabeça da galé E carinho de mulher. folguedos e contribuiu para o enriquecimento

Aboiou um cação Na simplicidade de sua formação o Samba- de outros, como a Baiana e a Taieira, que con-

Ouvi o nome de Tião -de-Matuto, a princípio um cortejo, hoje se exi- tinuam entre as manifestações populares mais

Namorador de Zezé. be nos palcos e ingressou na classificação de presentes no estado.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 113


Taieira
Do cortejo ao folguedo
N o conjunto da herança africana, a Taieira aparece
como uma das manifestações mais frequentes em vá-
rios estados brasileiros. No Nordeste, a ocorrência é ainda
mais marcante devido ao forte contingente de negros e mu-
latos mantendo as tradições de seus antepassados.
O registro mais antigo de que se tem notícia data de 1760,
na então Vila de Santo Amaro da Purificação, na Bahia, quan-
do um grupo de Taieira se apresentou por ocasião de uma
festa de casamento de nobres.
O auto tem identificação com diferentes folguedos - Ma-
racatu, Baiana, Congo - surgidos nos terreiros de candom-
blés, espaço onde as práticas e os costumes africanos são
cultuados pelos descendentes que buscam a manutenção e
a reconstrução de seu processo identitário. Originalmente, a
Taieira é uma dança-cortejo que se estendeu dos terreiros às pro-
cissões, integrando-se mais tarde aos folguedos natalinos, adap-
tando-se aos palanques nas praças públicas. Hoje a manifestação
pode ser vista nas mais variadas ocasiões festivas e culturais das
localidades onde é preservada.

Rainha
Taieira
São Miguel dos Campos

114 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Nesse ciclo de transformação constante Tradicionalmente a Taieira, como os de-

em que o folguedo está inserido, o sagrado mais folguedos, homenageia os santos de

e o profano se confundem de tal forma que maior devoção entre os escravos e seus des-

não se pode mais separar um do outro, num cendentes diretos, irradiando o espaço do sin-

verdadeiro ritual de fusão entre a dança, o cretismo religioso. Nossa Senhora do Rosário

canto e a performance dos personagens. Des- e São Benedito sempre foram festejados pelas

se amálgama resultou um auto evidenciado Taieiras com direito a desfiles e apresentações.

pela pluralidade estética. Ao contrário do Maracatu e da Baiana,

Arthur Ramos foi um dos primeiros estu- que chegaram a Alagoas pelos municípios do

diosos a estabelecer uma confluência de ele- Norte, a Taieira migrou de Sergipe e da Bahia,

mentos entre a Taieira e os demais folguedos ganhando força no município de São Miguel

filiados aos autos dos Congos-Cucumbis, que dos Campos, que a mantém preservada. Em

exaltam os reis e rainhas do Congo. Nesse Maceió, o Grupo Folclórico Professor Pedro

processo, fragmentos históricos são agrega- Teixeira, criado em 1985, tem uma Taieira em

dos na formação de um enredo que serve de plena atividade.

base à estrutura do folguedo. A representação Apesar do grande contingente de escravos

é sempre o resultado da mistura entre elemen- nas suas lavouras e da proximidade com os

tos históricos, memória afetiva e o gosto pelo estados de Sergipe e Bahia, Penedo não con-

divertimento. seguiu conservar a tradição das Taieiras, que

Inicialmente, a prática da Taieira estava desapareceram com o tempo. Outros regis-

restrita à população negra. Com o tempo, o tros dão conta de que desde o século XIX a

avanço da miscigenação, associado à influên- brincadeira era praticada em localidades como

cia portuguesa, flexibilizou a regra. E a partir Anadia, Marechal Deodoro e Viçosa, oscilan-

de um processo de sincretismo, tipicamente do entre períodos de efervescência e de ina-

brasileiro, houve também a incorporação ao tividade.

auto de elementos do catolicismo, numa via

de mão dupla entre europeus e africanos, e Rei


Taieira
por vezes tripla, com a participação do nativo. São Miguel dos Campos

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 115


116 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente
Taieira completa
São Miguel
dos Campos

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 117


Personagens e trajes
M ulheres e homens participam da folgança. Os diversos per-

sonagens empunham espadas e querequexés. Por ordem

de importância, Rei e Rainha têm direito a manto, cetro e coroa. Em

alguns grupos essas figuras são protegidas por grandes sombrinhas,

bordadas com lantejoulas e franjas de seda, conduzidas por rapazes

fortes com trajes de cortesãos.

Em seguida, vêm as Puxadoras dos cordões, ou Guias, que ini-

ciam o canto, enquanto as Contraguias logo respondem em coro

com as demais figurantes. O Ministro do Rei, com calção balofo de

nobre, cumpre a sua função na corte. As africanas, geralmente ho-

mens, podendo também ser mulheres, com rostos pintados de preto

e traje de baiana, quase sempre branco, com saias rodadas, rendas

e torço na cabeça, seguem dançando. As figurantes, denominadas

Taieiras, com saias nas cores azul ou encarnado, igualmente rodadas,

fazem as evoluções, trazendo nas mãos uma urupemba com flores e

fitas coloridas. Na cabeça usam chapéus de palha forrados de tecido

ou diademas vistosos.

Por iniciativa da Mestra, que comanda o grupo com seu apito,

pode ser acrescido à brincadeira um ou outro personagem. Os brin-

cantes se vestem com tecidos de seda brilhosa, em cores fortes e

estampados variados. Alguns trazem um xale no ombro esquerdo

e todos, indiscriminadamente, capricham nos adereços e detalhes.

118 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Taieira
São Miguel dos Campos

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 119


O auto e a função
O riginalmente, a formação do grupo

implicava no cortejo em direção à

igreja para as homenagens aos santos. Depois


mais movimentadas, ricas nas evoluções, am-

plificando seu caráter profano. Os cortejos

ritualísticos das antigas procissões estão dimi-


com tamanho de aproximadamente um me-

tro, reverenciada por todos de forma jocosa.

Os cantos e as embaixadas passaram a

continuava acompanhando a procissão, inter- nuindo ano a ano e as mudanças são intro- fazer referência aos eventos nos quais se

calando cantos com embaixadas em louvor duzidas conforme os interesses do público. apresentam, ajustando o folguedo às novas

aos santos, seguindo o séquito com as irman- Nesse processo, sua configuração está se vol- feições. Há uma mudança no repertório dos

dades, as congregações e o povo. Em certo tando cada vez mais para o entretenimento, grupos, embora alguns cantos tenham letras

ponto, a comitiva parava e os personagens com uma releitura do significado de origem. fixas e sejam mantidos, a exemplo dos louvo-

digladiavam-se em luta cenográfica, disputan- Com ênfase no palanque, foram mantidas res a Nossa Senhora do Rosário e a São Be-

do a Rainha. Enquanto isso, as figurantes ves- duas alas com figurantes taieiras e africanas nedito. Outros novos são criados para atender

tidas de taieiras, em alas laterais, protegiam o em número variado de grupo para grupo. As ao padroado do lugar ou ao santo predileto da

andor de Nossa Senhora ou de São Benedito. figuras principais, a quem os demais brincan- Mestra. A identidade mantida com os santos

Com o tempo, a formação do grupo foi se tes se dirigem, permanecem no centro, em da devoção dos negros garante a fidelidade do

adaptando às novas circunstâncias das apre- posição de destaque. Em meio ao grupo, um folguedo às suas origens sincréticas.

sentações. Os palanques exigiam coreografias integrante leva a “crioula” - boneca de pano, Dançam ao som de uma banda com ins-

trumentos de percussão como tambor, gan-

zás e querequexés, recorreco e pandeiros. As

espadas, que na hora do simulado combate

se cruzam no ar provocando um som estri-

dente, comandam o ritmo e a dança fica mais

calorosa. Os cantos profanos se multiplicam e

a despedida continua com os habituais agra-

decimentos.
Taieira
São Miguel dos Campos

120 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Baianas
Origem discutida
O utro folguedo tradicional das festas alagoanas é a
Baiana, ou Auto das Baianas, também conhecido
por Baianal, como os grupos se autodefinem.
Apesar do nome, é voz corrente que chegou ao estado
pelos municípios do Norte, vizinhos de Pernambuco, e des-
ceu pela região serrana dos antigos quilombos e pelo litoral
até Maceió, radicando-se pela redondeza. Sua origem pro-
cede das primeiras décadas do século XX, com grupos em
União dos Palmares, Capela, Viçosa e na capital.
Dessa época não se tem notícias de sua presença nos mu-
nicípios do Sul, banhados pelo São Francisco, que recebiam
influência direta da cultura e dos hábitos da Bahia, através
da comunicação, facilitada pelo rio, entre a cidade de Pene-
do e a capital baiana. Devido a não existir esses registros, o
folclorista Théo Brandão defende a ideia de que o folguedo
é de procedência pernambucana. Para ele, o nome Baiana
decorreria do traje das brincantes.

Mestra de Baianas
Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 121
Reforçando essa tese, o livro A Língua e o Folclo-

re da Bacia do São Francisco, de Edilberto Trigueiros,

também não faz alusão à existência da brincadeira

na região. Mas ainda que existam dúvidas quanto à

origem, o fato é que o divertimento ganhou aceita-

ção nas terras alagoanas e até hoje se mantém em

plena atividade.

Como normalmente acontece, partes de outras

folganças lhe foram incorporadas e, com o tempo,

sua identidade como folguedo se sedimentou em

novas roupagens e influências atualizadas. O ponto

de partida, na opinião dos folcloristas, foi o Samba-

-de-Matuto, frequente no Nordeste. Dele o Auto

das Baianas herdou, entre outros elementos, o rit-

mo cadenciado e o molejo dos quadris; do Mara-

catu, o gosto pelo traje de tecido farto e torço na

cabeça; do Reisado, as personagens que, a princípio

compunham seu elenco; do Congo e da Taieira, o

timbre afro que lhe define.

À medida em que alguns grupos de Samba-

-de-Matuto iam sendo desativados por razões di-

versas, até pela concorrência com o novo auto, a

Baiana ganhava adeptas animando as noites nas

praças e nos terreiros, até se caracterizar como

mais um folguedo natalino, apresentando-se nas

noites de dezembro em louvor ao Menino Jesus.

122 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Baianas
Conjunto
Coqueiro Seco

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 123


Personagens e trajes
A princípio, sob a influência do Reisado,

as Baianas mantinham na sua forma-

ção personagens como Embaixadores, Ma-


e o amarelo de Oxum. Pulseiras, anéis, balan-

gandãs, colares e muito brilho completam a

indumentária. A Mestra e a Contramestra tra-

teus, Mestres e Contramestres com trajes co- zem coroa na cabeça e faixa no peito com as

loridos e cheios de fitas de seda. Muitas vezes cores da bandeira do Brasil.

o mesmo Mestre atendia aos dois autos. Com

o tempo, algumas personagens típicas do Rei-

sado foram perdendo espaço na Baiana, que

se alinhava como folguedo de mulheres.

A indumentária tem como padrão as saias

longas e rodadas até os tornozelos, de chita

estampada ou nas cores dos cordões, azul ou

encarnado, como as pastorinhas do Presépio.

A largura favorece uma cenografia que as

brincantes fazem questão de destacar levan-

tando um pouco os gomos do tecido para

facilitar e dar mais graça à dança. A blusa é

lisa, de seda branca ou de cor, com babados e

rendas. Na cintura, uma faixa e, na cabeça, um

torço ou tira do mesmo tecido da saia. Algu-

mas optam pela cor de sua entidade protetora,

como o azul de Iansã, o vermelho de Xangô


Baianas
Acessórios

124 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Mestras em destaque
E m Alagoas algumas Mestras marcaram

presença no folclore local, como a

Mestra Terezinha da Baiana, destaque pela ele-


Outra que deixou nome e seguidoras foi a

Mestra Maria do Carmo Barbosa, que compu-

nha peças e brincava no grupo Baianas Mensa-

gância e pela voz esganiçada, ideal para o can- geiras de Santa Luzia, ao lado da Contramestra

to folk, que brilhou em Maceió na década de Augusta Maria da Conceição, que fez de sua

1980, tendo seu grupo gravado um compacto casa a sede do Baianal.

pela Campanha Nacional do Folclore.

Até 2010 brilhava a Mestra Hilda Maria da

Silva, que comandava o grupo Baianas Vence-

doras de Alagoas acompanhada pelas filhas e

netas. Sócia fundadora da Asfopal, homenage-

ada em Alagoas e fora do estado com o prê-

mio de Cultura Popular Humberto Maracanã,

do Ministério da Cultura, recebeu reconheci-

mento como uma das maiores autoridades do Mestra Maria do Carmo


Santa Luzia do Norte
folclore nacional. Hoje, sua nora Zeza, conhe-

cida também por Duarte, herdou o comando

do grupo.

Mestra Augusta
Santa Luzia do Norte

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 125


O auto e a função
A pesar das peças mais antigas terem

como inspiração a zona rural cana-

vieira, com o tempo os motivos passaram a


a formação de conjuntos e centralizando no

engenho as grandes apresentações. Entre os

que assistiam estavam os jovens viçosenses


Nossa tia Marieta,

A dona deste lugar,

E a maior deste planeta.

ser mais variados e não existe uma sequência que mais tarde se dedicaram ao estudo dessas A nossa estima por ela,

com enredo próprio. São peças soltas, lauda- manifestações e formaram a conhecida Esco- É grande, tem mais valor,

tórias, sobre pessoas e lugares. la de Folcloristas de Viçosa. E a alegria nossa é dela,

Nos anos de 1950 dançava no Engenho Baiana vamos saudar, E todo nosso imenso amor.

Boa Sorte, em Viçosa, um grupo de Baianas

formado pelas moças da casa-grande que se

juntavam às primas que chegavam da capital

para as férias de final do ano. Era liderado

pela Mestra Valderez Vasconcelos Vilela, que

entoava as peças criadas por seu pai, Olegá-

rio Brandão Vilela. O grupo, que já dançava

o Pastoril, estendeu a brincadeira à Baiana

pelo gosto de ver no engenho a formação do

novo folguedo entre as brincantes do antigo

Samba-de-Matuto.

O Boa Sorte era o celeiro das manifesta-

ções populares, graças ao conhecimento e

entusiasmo de seu proprietário, promovendo

Baianas
Coqueiro Seco

126 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Como o auto não desenvolve um enredo,

o que vale é a capacidade de improvisação

das Mestras e Embaixadoras, que cantam e

criam as letras conforme os contornos locais,

iniciando pelas marchas de “abrição de porta”

e terminando com as tradicionais despedidas

e promessas de voltar em breve, sem deixar

de louvar o Deus Menino e a Virgem Maria.

Isso porque de Samba-de-Matuto, com gin- tir de 1920. As apresentações se multiplicaram Baianas
Coqueiro Seco
gado e raiz na África, a brincadeira foi pas- e migraram não só para o Ciclo Natalino, mas

sando por várias modificações, até se vincular também para as festas de santos padroeiros, de

aos folguedos do Ciclo Natalino, conforme a Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito. no canto melódico das brincantes que aten-

tradição portuguesa. Apesar da sua relação com o culto de ma- dem ao mote das “puxadoras” e respondem

Uma das peças mais conhecidas e entoada triz africana e posterior ajuste ao catolicismo, o em coro.

pela Mestra Bida, do Pilar, depõe sobre a sim- repertório de peças com temas diversificados A participação masculina se resume aos

plicidade do auto: e os gracejos e requebros da dança denotam a músicos da banda, composta por instrumen-

Boa-noite meus senhores, senhoras, natureza profana de que se revestiu a folgança tos de percussão como ganzá, recorreco, pan-

Que as Baianas chegou. (bis) com o correr do tempo. Hoje as apresentações deiro, triângulo, atabaque. Algumas Mestras

E ao beija-flor, dar a flor pra beijar. (bis) se estendem a outros tipos de festas, de públi- tocam ganzá, outras apenas sopram o apito

Boa-noite meus senhores, senhoras, co, de interesses, abrindo novas perspectivas com silvos diferentes para cada mando e to-

Que as Baianas chegou. (bis) de exibições e perdendo cada vez mais as suas dos obedecem de pronto, fazendo o coro e

Eu falo sem medo de errar, (bis) referências de origem. marcando o passo.

Porque minha mestra é bacana, O grupo segue a mesma formação de ou- Embora o folguedo não tenha uma elabo-

Chegou as Baianas tros folguedos, com figurantes em duas filas, ração temática que lhe sirva de sustentação, a

Hoje aqui pra dançar. (bis) fazendo evoluções para um lado e para o ou- alegria da música, a coreografia e o entusias-

A afirmação do folguedo veio com o ritmo tro e continuando enfileiradas no gingado das mo das brincantes têm mantido o auto em

acelerado, logo chamado “pancada-motor”, manobras, por todo o espaço do tablado. A evidência, com participantes de todas as ida-

que tomou conta dos terreiros e palcos a par- cadência forte ecoa no sapateado da dança e des e em vários municípios do estado.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 127


Capítulo VII
Mestra
Hilda Maria da Silva
Maceió
Fez-se arte o meu corpo
como as ondas serenas do mar,
como o vento nas palmas
do coqueiral a brincar.
(Maurício de Macedo)

130 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Coco
A origem em questão
Q uando se fala em Coco, logo se liga o fruto
ao estado de Alagoas. A associação se dá
tanto pela extensão dos nossos coqueirais, quan-
to pelas produções artesanal e industrial de seus
derivados. E quando o tema é a dança homônima,
Alagoas também aparece como referência. A maio-
ria dos folcloristas defende que a prática do Coco
começou por aqui, mais precisamente no Quilom-
bo dos Palmares.
Os diversos estudos dão conta de que a dança
surgiu a partir da coleta dos frutos das palmáce-
as, todos eles semelhantes, espalhados pela Zona
da Mata, Litoral, Agreste e Sertão. Por isso mes-
mo, em todas as regiões do estado o Coco apare-
ce como uma forma de dança, a princípio simples,
mas que ganhou variantes conforme as circunstân-
cias locais.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 131


Coco do
Mestre Nelson Rosa
Arapiraca

132 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Tudo começou com o natural toque provo- lho, concluindo o tema. sequência de 10 versos, fechando com a repeti-

cado pelo atrito da pedra quebrando a casca dura Exemplo de Coco Solto sem amarração. ção do mote.

do fruto para se extrair a água e a polpa comes- Puxador : Manoel Catuaba, de Anadia, deixou este

tível. A musicalidade dos negros se encarregou O Colégio pegou fogo “Coco de 10 pés”, coletado por Aloísio Vilela:

de aprimorar a batida e gerar o espetacular ritmo E a Matriz se levantou. Mote :

que se espalhou por todo o Nordeste e ganhou Os dançarinos respondem: Viva o mestre Catuaba,

novas modalidades. Só não quero que me pegue Viva os Campos de Anadia.

Nos passos iniciais, a dança assimilou influ- No botão do paletó. Glosas:

ências indígenas, como defendem alguns estu- A outra modalidade é o Coco Atual, ou Viva a rua de Viçosa,

diosos mais afinados com a percepção musical Evolutivo, compreendendo dois tipos: Iniciais Viva o homem que é valente,

das manifestações. Essa absorção confirma os e Individuais. Os primeiros seguem as formas Viva o pagode da gente,

dados históricos que dizem que sempre existiu tradicionais, que variam entre os de Balamento, Viva a moça que é formosa,

um contingente de índios entre os negros qui- Entrega, Fundamento e Coco Amarrado de 10 Viva meus 10 pés de glosa,

lombolas. Os folcloristas que mais se dedicaram pés de glosa, enquanto os Individuais são deriva- Viva a serra da Maraba,

à pesquisa sobre o Coco, no estado, foram José dos das cantorias de viola, seguindo o estilo de Viva o “duro” que se gaba,

Aloísio Vilela e Abelardo Duarte, ambos defen- cada cantador. Viva a minha cantoria,

sores da procedência negra da dança. Aloísio Velela explica que o Coco de Ba- Viva o mestre Catuaba,

Devido à sua grande difusão, o Coco alagoa- lamento recebeu esta denominação porque o Viva os Campos de Anadia.

no recebeu uma classificação de Abelardo Duar- Puxador, também conhecido como Cantador, Mote:

te que facilita o entendimento da dança em seus conta um causo em canto-narrado, ligeiro feito Viva o mestre Catuaba,

moldes mais antigos, registrados até meados do uma bala. Por sua vez, o Coco de Entrega exi- Viva os Campos de Anadia.

século passado. A partir daí ocorreu nova expan- gia boa memória de quem o puxava, que iniciava Essas formas de Coco elaboradas, que exi-

são, e diferentes características se multiplicaram. com um mote e, a exemplo da cantoria de viola, gem destreza mental do puxador, praticamente

Conforme Duarte, existe o Coco Antigo, co- repetia o lema e em seguida fazia a “entrega” a não existem mais. Mas a história do Coco não

nhecido por Coco Solto, a princípio apenas com outro puxador. O Coco de Fundamento consis- parou no tempo. Outras modalidades surgiram

solo e estribilho, depois com amarração em qua- te na permanência do tema, que se prolonga pela e dão continuidade à dança que permanece em

dras ou emboladas. A amarração é outra parte noite a fora, enquanto o Coco Amarrado em 10 plena efervescência, fazendo parte dos festejos

puxada pelo solista, que vem depois do estribi- pés de glosa, em seguida ao mote inicial, tem a juninos.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 133


Personagens e trajes
P or se tratar de uma dança e não de um folguedo, o Coco não

tem variedade de personagens nem enredo próprio. Na origem,

também não tinha traje específico. As pessoas dançavam conforme

se vestiam em dias de festa. Isso porque se tratava de uma dança e

não de uma apresentação, como hoje acontece. O puxador cantava e

improvisava acompanhando os tocadores, e os pares dançavam juntos

ou em evoluções, separados.

A partir do momento em que a dança passou a ser exibida pu-

blicamente, os grupos estabeleceram um traje com características do

período junino. O chapéu e uma camisa estampada ou em cor de tom

forte são indispensáveis nos homens, e nas mulheres, as saias longas

e rodadas com estampas coloridas e um lenço ou uma flor na cabeça.

134 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Coco Pau-de-Arara
Pitanguinha
Maceió

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 135


Na “puxada” do Coco

N o passado, sobretudo na zona dos

engenhos, se não faltavam grandes

puxadores, como os famosos Jacu, do Barro

Branco; José Rubina, da Chã Preta, e Aprí-

gio, de União, também não faltavam exímios

dançarinos, que andavam léguas atrás do ba-

tuque de um Coco e eram famosos por toda Mestra


Hilda Maria da Silva
a redondeza. E a dança não se resumia a uma

forma única, ia ganhando o calor da animação folguedos. Pelo nome do Pagode dá para se O Coco, ou Pagode Comigo-Ninguém-
à medida que os cantadores improvisavam sentir a personalidade competitiva e tinhosa -Pode, tem canções que vêm passando de
tanto nos cantos como na música, desafiando da Mestra Hilda, que só chegava para brilhar, geração em geração, como a colhida pela fol-
a destreza dos melhores dançadores, como tocando seu ganzá com muito talento e luz clorista Josefina Novaes:
José Clarindo dos Santos, de Viçosa, que na própria. Começou a brincar desde criança, le-
década de 1970 gravou um Coco para a sé- vada pelos pais, grandes dançadores de Coco, Vou ao Rio de Janeiro
rie de compactos da Campanha Nacional do no município de Rio Largo, onde nasceu. A Ver a Igreja da Penha
Folclore. Mestra, da mesma maneira como fez com a Embora ela não tenha
A Mestra Hilda Maria da Silva criou nos sua Baiana, trouxe para o grupo filhas, netas Gente da minha família
anos 1980 o Pagode Comigo Ninguém Pode, e nora, enquanto os homens da família as- Você disse que também ia
na Chã de Bebedouro, bairro de Maceió que sumiam os instrumentos. Transferiu o saber Peça licença primeiro
tem uma tradição de festas populares e onde para sua nora Zeza, que lhe seguiu os passos e Quem for ao Rio de Janeiro
sempre houve uma concentração de sedes de mantém o grupo em franca atividade. Tem que passar na Bahia.

136 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


A dança e a função
O Coco tem outras denominações, mas

atualmente, em Alagoas, é mais co-

nhecido por Coco-de-Roda, Coco-da-Praia,


cachaça e comida. Ao raiar do dia, o piso esta-

va pronto. A casa já podia ser usada porque o

barro sedimentara de tão socado pelos dança-


da cabeça, enquanto os pares rodopiam em

volta, e volta e meia na cadência do tropel.

Das cantigas de outrora que permanecem

Coco-de-Visita, Coco-de-Fileira, Coco-de- dores. Era só varrer para tirar a poeira. no repertório como verdadeiros clássicos po-

-Parelha-Trocada e Pagode. Embora cada um Da mesma forma que o Coco varia as deno- pulares, resta, entre outras, a bela criação do

tenha em sua evolução características particu- minações, muda também nas nuanças rítmicas, Mestre José Rubina:

lares, muitas vezes elas se misturam na mesma no modo de dançar, nos passos, nos improvi- Com quem é que eu danço hoje?

apresentação, dependendo da versatilidade do sos do tropel, mas a troca de umbigadas está Danço mais você menina.

puxador. Em outros estados aparece com de- sempre presente e cada vez mais exagerada Mas quem não gosta

nominações distintas: Coco-de-Umbigada, como forma de atrair a atenção pública. De dançar de madrugada,

Coco-de-Embolada, Coco-de-Ganzá, Zambé O som vem de um conjunto musical mui- Uma roda bem tirada,

etc. to simples, formado basicamente por ganzá, Pelo mestre Zé Rubina?

Atualmente, as apresentações não se limi- surdo, pandeiro e triângulo. O diferencial, que Pisa no chão

tam às festas de São João. A dança é praticada lembra as origens, resulta da batida forte do sa- Muito bonito e bem feito,

em todas as épocas, conforme o calendário pateado e das palmas ritmadas dos dançarinos. Com um cravo branco no peito,

turístico e as comemorações populares para A memória coletiva retorna ao atrito da pedra No chiado da botina.

as quais os grupos são contratados; diferente- no coco, cujo som fez nascer o gênero musical Com quem é que eu danço hoje?

mente de outrora, quando dançavam a noite mais representativo do estado de Alagoas. Danço mais você menina.

toda, de forma espontânea e solidária. Não Hoje a formação se resume a dança de ca- Entre os grupos mais atuantes no momen-

havia cobrança de cachê, tudo era organizado sais soltos, ou em círculo, com cantigas tradi- to, destacam-se o GangaZumba, o Santana, o

com participação comunitária festiva, marcan- cionais e repetidas, dispensando as improvisa- Axé Zumbi, o Lua de Prata, sem nos esquecer-

do forte a batida no chão para socar o piso ções e o inusitado das criações e dos volteios. mos do Coco-de-Roda do Mestre Nelson Rosa

de barro das casas dos amigos e compadres, O puxador entoa as canções acompanhando e do Pagode Comigo-Ningém-Pode, exemplo

cabendo ao dono da casa receber com muita os músicos com um ganzá levantado à altura de hereditariedade no comando da brincadeira.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 137


Quadrilha
O selo da erudição
D ança típica das festas juninas, a Quadrilha está presente
em todo o Nordeste como atração principal das noites
de São João e de São Pedro. Ao lado das comidas regionais, das
fogueiras e dos fogos de artifício, ela garante ao ambiente festi-
vo movimento e colorido surpreendentes.
Originária dos salões europeus, chegou ao Brasil com a corte
portuguesa, no século XIX, tornou-se apreciada pela sociedade
e abria as festas palacianas com coreografias aristocráticas. No
Rio de Janeiro era a dança preferida do paço imperial, marcada
por músicos e dançarinos franceses que tocavam Phillippe Mu-
sard (1793-1859), considerado o pai da dança, e outros compo-
sitores do gênero, como o brasileiro Henrique Alves de Mes-
quita, autor de Soirée Brésilienne com versão para piano e flauta.

Quadrilha
Movimento

138 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


O requinte estendia-se aos saraus e bai- Dos salões imperiais aos arraiais nordes- os dias de hoje como a função mais espera-

les residenciais. Muitas dessas danças eram tinos, a Quadrilha tem trajetória associada da, devido ao seu aspecto cômico.

alusivas a fatos históricos, encomendadas a diferentes regiões e segmentos sociais. A A história da Quadrilha mostra de que

especialmente para a ocasião. Foi assim Proclamação da República, em 1889, foi um maneira as danças podem, no decorrer dos

com a coroação de dom Pedro II, em 1850, marco em sua difusão, chegando às ruas e tempos, se modificar, perder e ganhar ele-

que contou com Quadrilha comemorativa clubes com grande acolhida popular. Nesse mentos, dependendo da época e do grupo

para o baile, seguindo o modelo das festas percurso, manteve-se enquadrada nos pa- social que a pratica. Uma demonstração

francesas, que representavam o que havia de drões europeus, mesmo quando a indumen- dessa resistência pode ser comprovada na

mais elegante na Europa. tária caipira substituiu o fraque e as rendas observação das mudanças pelas quais ela

Sua natureza social, como tudo que vinha francesas foram preteridas pelos babados passou até se transformar no que vemos

da corte, exercia um fascínio em todo o Rio de chita. Ainda assim, permanecia a delica- hoje: um gênero musical e coreográfico to-

de Janeiro, espalhando-se pelo país como deza de gestos e a marcação em língua fran- talmente distante do magnetismo inicial e

símbolo de status e de nobreza. Nessa épo- cesa, abrasileirada pelo sotaque regional. do regionalismo posterior. A Quadrilha de

ca não faltavam compositores, intérpretes, Por essa época passou a ser moda dançar hoje voltou-se para uma nova forma de ex-

mediadores e dançarinos que se destacavam a Quadrilha nos casamentos rurais, o que pressão e de vivência do mundo, plasmada

pela habilidade nos passos e nos acenos às motivou a encenação do enlace como parte na visibilidade que a cultura de massa super-

damas. teatral da sua formação, permanecendo até dimensiona.

Quadrilha em duas versões


Os dois principais formatos de Quadrilha que do interior nordestino. O segundo, em franca Tradicional, ou Regional, e Pulada, devido à

vemos hoje, embora distintos entre si, des- aceitação, tem ritmo acelerado e caracterização mudança do ritmo para algo parecido com a

cendem da antiga, originada nos salões fran- exuberante e estilizada. lambada, em que os brincantes pulam e sacole-

ceses. Em via de extinção, o primeiro mode- Há autores que propõem uma divisão sis- jam. Outros preferem tratá-las como a Antiga

lo é focado na vida rural, nos hábitos simples temática entre uma e outra, denominando-as e a Moderna, ou simplesmente Rural e Urbana.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 139


Quadrilha Moderna

140 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Quadrilha Regional - personagens e trajes
O s casais trajam-se conforme a es-

tética rural, conhecida como cai-

pira, ou matuta. Os homens usam chapéu


do e outros que se queiram acrescentar. Os

casais dançam comandados pelo Marcador,

integrante que detém o saber e conduz a se-

de palha, calça de brim, ou mescla, e cami- quência das partes, dando voz de comando.

sa quadriculada com um lenço de cor viva Pode estar caracterizado ou apenas “marcan-

amarrado no pescoço, enquanto as mulheres do”, fora do grupo. Sendo bom, ele garante

vestem chita de estampa colorida, saia larga a animação da dança a noite inteira.

e cheia de babados. Na cabeça, uma flor ou O folclorista Pedro Teixeira, também pro-

um diadema. Algumas usam chapéu, acessó- fessor de francês, foi um grande Marcador

rio descabido para elas, uma vez que nas fes- de Quadrilha, brincando nos municípios do

tas rurais só os homens o usam. Costumam interior e em Maceió, sempre muito procu-

aplicar remendos nas vestes, exageradamen- rado, uma vez que reunia grandes qualidades

te visíveis, com o intento de melhor carac- para o mister. Além de bom animador, co-

terizar a indumentária. Isso foi incorporado nhecia bem a dança em sua evolução e fazia

ao traje pelo tom jocoso que provoca, mas a marcação com boa pronúncia do idioma

denota desconhecimento quanto à vivência original.

rural, pois os camponeses nordestinos sem- A movimentação começa nos ensaios,

pre foram para as festas com suas melhores que geralmente acontecem nos finais de se-

roupas, nunca as remendadas. mana que antecedem a festa. Os grupos se

A encenação do casamento matuto - parte formam e a camaradagem garante o sucesso

do folclore da Quadrilha - integra vários per- da brincadeira, com a decoração dos arraiais

sonagens à dança: além do casal de noivos, e o gosto na preparação dos trajes e das ca-

Padre, Sacristão, os pais da noiva, o Delega- racterizações.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 141


A evolução dos pares
O s pares enfileirados entram no ar-

raial ao som de uma música junina e

logo se posicionam aguardando o comando


ximo do acréscimo brasileiro é a dramatiza-

ção do casamento na roça, sempre aguardado

pelos dançarinos e pela plateia.

do Marcador, que promove um passeio pelo A “cerimônia” tem um caráter jocoso e

salão com Balancê. Em seguida vêm as diver- toma como tema o casamento imposto pelo

sas partes, algumas permanentes em todos os pai da noiva e pelo Delegado. O noivo tenta

grupos e chamadas em francês: se livrar da situação, mas é obrigado a casar

Alavantú (en avant tous)- os casais vão para frente porque a noiva se encontra em adiantado es-

Anarriê (en arrière) - casais vão para trás tado de gravidez. O Padre e o Juiz oficializam

Balancê (balancer) - dançar com mais balançado. o matrimônio. A interpretação e a fala dos

Changê (changer ) - trocar de casais personagens, carregadas no sotaque nordes-

Cumprimento ‘vis-à-vis’ - cumprimento frente a tino, arrancam risadas e aplausos de todos, re-

frente afirmando o caráter espontâneo da Quadrilha

Otrefoá (autre fois) - repetir o passo anterior Regional. Os figurantes estão ali para brincar,

Outras partes completam a coreografia re- sem o objetivo de concorrer a prêmios.

gional como “Olha a chuva!”, “É mentira!”, Normalmente, esses grupos brincam em

“A ponte quebrou”, “Nova ponte”, “Cami- clubes ou em arraiais de bairros e dançam ao

nho da roça”, “Túnel”, “Grande passeio”. som de uma banda formada por instrumen-

Cada Quadrilha com novos passos e volteios tos populares como sanfona, zabumba e tri-

inesperados que dependem da agilidade dos ângulo, entre outros.

dançantes. Quando algum casal se confunde Quadrilha


Exibição
e erra seu lugar, o Marcador grita o Balancê

e todos novamente se perfilam. O ponto má-

142 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Quadrilha Moderna, personagens e trajes
A partir do final do século XX as Qua-

drilhas começaram a passar por uma

grande transformação, em todos os aspectos,


senvolvendo acrobacias arrojadas por entre

tramas reconstruídas.

O casal de noivos continua presente, mas

incorporando temas que exigem novos per- a noiva não representa mais a vítima das apre-

sonagens, como o Cangaço, a República dos sentações tradicionais. Hoje, ela exagera na

Palmares, a Independência de Alagoas e tan- dança de trejeitos sensuais e provocantes com

tos outros. Dependendo do tema, cada grupo a graça de exímia dançarina. Personagens que

cria e caracteriza seus personagens, que cum- compunham a encenação não existem mais. O

prem os papéis no enredo com indumentárias Padre, o Juiz e o Delegado deixaram de exer-

que se distanciam do figurino rural e exage- cer as suas funções. O que se vê são figuran-

ram na roda das saias, no brilho e na profusão tes em grande número, que dançam em alas e

de adereços. apelam para a exuberância estilizada em todos

As inovações são implantadas e configura- os sentidos: são passos, gestos e exibicionismo

-se um novo universo simbólico para cada pautados por gostos e padrões estéticos atuais,

ano. O projeto é elaborado com meses de sem apego às tradições. Quadrilha


Movimento
antecedência e se mantém em segredo para o

grupo surpreender quando adentrar a quadra.

Lampião e Maria Bonita chegam com muni-

ção para a noite toda e Zumbi dos Palmares

traz seus guerreiros com lanças coloridas, de-

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 143


Quadrilha Moderna
em evolução
A tualmente, com base na estilização,

a dança tem uma coreografia pró-

pria, preparada de acordo com o enredo e


que inicia e termina com passos da Qua-

drilha, mas é recheada com forró, lamba-

da, axé, jazz e outros gêneros que o coreó-

a trilha musical que se renovam a cada ano. grafo queira acrescentar.

O conceito regionalista foi substituído por Essas modificações foram implantadas

uma espécie de dança-espetáculo que lem- a partir da criação de prêmios, que estimu-

bra o cancã norteamericano ou manifesta- lam a competição entre os quadrilheiros,

ções do folclore gaúcho. incorporando à dança aspectos próprios do

A apresentação da Quadrilha passou a teatro musical ou da opereta popular. Re-

ser uma atração teatral com plateia e comis- novar-se, absorver influências, modificar-

são julgadora. Os brincantes perderam a es- -se e até se extinguir são partes da história

pontaneidade e o sentido de improvisação, das manifestações populares que mudam as

assumindo a responsabilidade pelos papéis configurações, dependendo da época e dos

que desempenham, pois um erro na evo- movimentos sociais.

lução pode levar o grupo a perder pontos Representando exatamente o caráter atu-

ou até mesmo a ser desclassificado. Cada al das festividades, as Quadrilhas Modernas

Quadrilha tem a sua diretoria, que funciona têm alcançado aceitação cada vez maior,

como uma agremiação recreativa. com alto índice de popularidade, garantin-

No rol de inovações outros gêneros de do às noites de São João e de São Pedro,

música foram incluídos, fragmentando as em Maceió, a apoteose popular em estilo

partes tradicionais. Desconstruíram a se- Escola de Samba carioca. O público gosta

quência da dança e montaram uma suíte e aplaude as mudanças.

144 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


O entusiasmo domina
as apresentações

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 145


Capítulo VIII
Figura de Maracatu

Na palma estendida eu leio


as quimeras do viver,
a mesma ilusão de sempre
- amor, dinheiro e poder.
(Maurício de Macedo)

148 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Maracatu
Perseguição histórica
A trajetória do Maracatu em Alagoas está forte-
mente ligada à história das perseguições à prá-
tica dos cultos afro-brasileiros no estado. O desfecho
desse imbricamento culminou com a desativação do
folguedo a partir do episódio ocorrido em Maceió, no
ano de 1912, que entrou para a história com a deno-
minação Quebra de Xangô.
Promovida pela Liga dos Republicanos Combatentes,
a ação arbitrária e obscura contou com o apoio de
parte da sociedade, que, desprovida de conhecimen-
to e senso democrático, via nas manifestações reli-
giosas e culturais praticada pelos negros um acinte
aos chamados “costumes civilizadores”. À época, os
Maracatus eram formados pelos frequentadores dos
Terreiros, saindo nos dias de Carnaval, com a natural
pompa de um séquito que rende homenagens ao Rei
e à Rainha do Congo. Com a destruição dos templos
e a perseguição aos Pais e Mães-de-Santos, os grupos
desaparecerem dos Carnavais alagoanos.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 149


Abelardo Duarte, em seu Folclore Negro das ma do preconceito só veio a ser amenizado a Em 2011, no dia 18 de novembro, na Praça

Alagoas, registra a existência de Maracatus an- partir do movimento de valorização da cultura Dois Leões, na porta da Igreja de Nossa Senho-

tes da repressão pública, quando ainda eram africana, na década de 1980, e o recente pedido ra Mãe do Povo, em Jaraguá, Maceió, ocorreu

denominados Cambindas. Dentre os mais co- de perdão por parte do atual governador Teo- um momento histórico com a retomada do

nhecidos desse período estão o Cambinda Ve- tônio Vilela Filho, durante a solenidade alusiva préstito festivo: o Maracatu Nação Corte de

lha, com base no Terreiro do Pai-de-Santo João ao centenário da Quebra de 1912. Os Terreiros Airá, com a participação do Maracatu de Batu-

Catarina, no bairro da Levada; o Cambinda reafirmaram seus direitos, sintetizados no slo- que Alagoano, realizou a cerimônia de coroação

do Porto, do Pai Dão, e o Cambinda de Ouro gan “Xangô rezado alto”, e alguns passaram a do Rei Elias de Airá (Pai Elias do Terreiro de

completando a trilogia dos mais importantes da incluir o Maracatu como parte lúdico-festiva Airá) e da Rainha Lucineide, em ritual celebrado

capital. Referências ao Maracatu do Pai Leocá- da Casa. pelo decano Pai Maciel, que marcou oficialmen-

dio, de Viçosa, podem ser encontradas no livro Os grupos que se formaram a partir deste te a reintegração do Maracatu em Alagoas.

Folguedos Natalinos escrito pelo folclorista Théo século são derivações dos antigos, adaptados ao A solenidade foi revestida de todas as pom-

Brandão. contexto atual, mas com propósito de resgatar pas, com o cortejo de nobres e seus dignitários,

O antropólogo Bruno César Cavalcante, na a identidade original. O conjunto musical conta todos simbolicamente restituídos às funções de-

publicação Kulé Kulé – Visibilidades Negras, co- com a presença de instrumentistas e dançarinos, pois de um século do terrível atentado político-

menta que enquanto o Samba carioca, o Afoxé jovens estudantes que não necessariamente fre- -religioso que vitimou Mãe Marcelina e provo-

baiano e o Maracatu pernambucano ampliavam quentam os Terreiros de culto, mas abraçam a cou a deposição do governador Euclides Malta.

seus espaços de aceitação pública, em Alagoas a diversidade religiosa e a expressão cultural da O rufo dos tambores ecoava alto pela praça,

proibição nas primeiras décadas do século XX folgança. na potência rítmica de seus percussionistas. Re-

e o trauma da violência policial enfraqueceram Com beleza plástica e ritmo contagiante, o presentantes dos diversos Terreiros estiveram

essas manifestações, que só foram voltando em Maracatu reverencia em suas apresentações os presentes, legitimando o acontecimento que

meados do mesmo século, na versão de folgue- santos que participam do elenco de devoção das tem para o alagoano o sentido de reconquista

dos natalinos. Enquanto isso, nos estados vizi- religiões de matriz africana, a exemplo de Nos- e de retomada do direito à diversidade religiosa

nhos a apoteose carnavalesca se caracterizava sa Senhora do Rosário, Santa Bárbara, São Jorge e cultural. Renasce a folgança, a fagulha mística

a partir das alegorias afro com uma pegada de e São Benedito. Essa circularidade afro-católica, foi recuperada, trazendo atrás de si uma história

orgulho da raça nas manifestações. que evoca orixás e santos pareados pelo sincre- de superação e pertencimento.

O processo de retaliação foi tão grande, em tismo, está presente nos filhos de Xangô como
Maracatu
Alagoas, durante e pós-Quebra, que o estig- uma marca cingida pela história. do Mestre Geraldo

150 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 151
Maracatu Nação
e Maracatu Rural
O folguedo em sua versão atual man-

tém a ramificação em Maracatu Na-

ção e Maracatu Rural. O primeiro é o mais


Caboclos de Pena, os primeiros com guias

(fitas) amarradas na lança, e os outros com

adornos de cabeça que lembram a ritualística

antigo e recebeu esta denominação devido à indígena. Esta característica os aproxima dos

palavra nação significar ajuntamento de pes- Caboclinhos e de outros folguedos inspira-

soas que se identificam por laços históricos e dos na cultura nativa.

culturais. No caso, refere-se aos agrupamen- Outra diferença está na sustentação rítmi-

tos negros por nações: nagô, jêje e outras, ca do grupo, com os tradicionais instrumen-

tornando o termo muito familiar para desig- tos de percussão (tambores, caixas, taról, sur-

nar os filiados a determinada etnia africana. dos, cuícas, zabumba) que aparecem nos dois,

O grupo dança ao som de instrumentos de sendo que no caso do Rural há o acréscimo

percussão, em ritmo que vai num crescente, de cornetas, trombones, saxofones e outros

iniciando compassadamente e acelerando instrumentos de sopro. Em razão disso, o

aos poucos até a vibração calorosa do baque maestro Guerra Peixe, em estudo sobre o as-

virado, toque característico do Nação. sunto, classificou-os conforme a organização

A outra versão do Maracatu é a Rural, orquestral de cada modalidade, em Maracatu

mais recente, formada pelo êxodo do campo de Baque Virado (o Nação), mais conhecido

para a cidade do Recife, em meados do sécu- em Alagoas, e Maracatu de Orquestra (o Ru-

lo passado. Desde o início, com sua forma- ral), pelo fato deste apresentar, além da per-

ção miscigenada, valoriza o caboclo, como cussão, instrumentos de sopro.

personagem de destaque, trazido das tribos

indígenas como os Caboclos de Lança e os Maracatu Nação


Maceió

152 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 153
Personagens e Trajes
O Maracatu Nação é rico em persona-

gens trajando indumentárias repre-

sentativas do séquito real, tendo como prin-


cerimônia. Príncipes e Princesas, Embaixado-

res, Lanceiros, Damas do Paço, Porta-Estan-

darte, todos trajam cetim de cores vivas, ador-

cipais figuras o Rei e a Rainha do Congo com nado com arminho, lantejoulas e muito brilho.

suas insígnias, cetro, coroas e mantos cauda- Os homens vestem camisas de mangas lar-

tórios. O casal é protegido por uma sombri- gas e calções balofos amarrados por fitas na

nha franjada de seda e ladeado pelos Guardas, altura na perna, enquanto as mulheres dispu-

vestidos de soldados romanos, como dizem tam as saias mais rodadas, armadas com ara-

os brincantes, com elmos de penachos so- me, que dão à vestimenta uma extraordinária

bre a cabeça. Ao lado, os Vassalos de peito beleza, sobretudo em conjunto, nos movi-

nu abanam a majestade com ventarolas de mentos das evoluções. Completam o cortejo


Maracatu
pluma. as tradicionais Baianas, ou Yabás, vestidas de

O estandarte, da mesma forma que o som- branco e com as cores de seus orixás, trazendo

breiro, é confeccionado em tecido brocado o pano da Costa sobre os ombros. Não faltam brincantes. Os de Alagoas não têm menos de

ou veludo, com aplicações coloridas, vidrilhos os Caboclos de Lança, guerreiros de Ogum, 50 integrantes e são considerados pequenos

e bordados, trazendo no centro o nome do que além das armas trazem guizos amarrados se comparados com os tradicionais grupos do

grupo e o ano de sua criação. O personagem na cintura. vizinho estado de Pernambuco.

que o conduz traja indumentária de nobre, al- Os músicos, homens e mulheres, geral- Apesar de sua reativação recente, os gru-

guns com cabelos postiços, conforme a moda mente são chamados de batuqueiros e vestem pos estão gozando da aceitação pública cada

do século XVIII na Europa, e beca engalana- branco ou as cores que identificam o grupo. vez mais crescente e da aquisição de novos

da, de botões dourados e colarinho alto. Há sempre um grande número de partici- brincantes, interessados em aperfeiçoar a qua-

Quando acontece a festa da coroação, o pantes no folguedo devido aos diversos per- lidade coreográfica e imprimir ao folguedo a

Pai-de-Santo do Terreiro-sede vem no corte- sonagens que o integram e a quantidade de dignidade de uma manifestação que tem atrás

jo, cercado de reverências, com seu traje bran- batuqueiros que compõem o conjunto musi- de si uma história de lutas e de conquistas a

co e as guias de seus orixás, para oficializar a cal, garantindo a marcação e a animação dos preservar.

154 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Alegoria da Função
A formação básica consiste em um

cortejo que tem à frente o Porta-

Estandarte abrindo ca minho para a chegada


Miçanga, miçanga, Luanda

Pra toda a nação, êh, êh, Luanda!

Êh, êh, Calunga, auê,


O cortejo sai pelas ruas em coreografia

dramática, caracterizando a função de seus

personagens através da indumentária, dos

do préstito majestoso, que, na esfera da repre- Êh, êh, Calunga, auê. gestos, da encenação e dos passos da dança.

sentação, promove uma performance teatral Vou embarcar pra Luanda, Mário de Andrade descreve muito bem a pre-

da idealização dos negros africanos, cantando Seu Rei mandou me chamar, sença das Yabás: “Embebedadas pela percus-

a saudade da terra natal e entronando um Rei Vou-me embora pra Luanda, são, dançam lentas, molengas, bamboleando

patrício, negro como eles, do distante Congo. Nação de pretinho do mar! levemente os quartos, num passinho curto,

Não existe um enredo lógico, mas as toadas Êh, êh, Calunga, auê, quase inexistente, sem nenhuma figuração dos

se reportam às recordações da pátria, com Êh, êh, Calunga, auê. pés. Os braços, as mãos é que se movem mais,

alusões à vivência na América e associações A aproximação com o catolicismo é fru- ao contorcer preguiçoso do torso.”.

sincréticas com o catolicismo. to da organização do folguedo pelas Irman- O Caboclo de Pena também tem um passo

Depois do Porta-Estandarte, a Dama do dades de Nosso Senhora do Rosário e de São característico, procedente das danças indíge-

Paço traz a Calunga, boneca de madeira ou de Benedito, imprimindo um selo cristão à reli- nas. Os demais figurantes seguem a cadência

pano que representa a entidade. A Dama tra- giosidade e às atividades festivas dos negros. da música, todos com os mesmos movimen-

ja, em regra, indumentária igual à do fetiche. A criação dessas Irmandades fazia parte da tos e respondendo ao solista, em coro, dando

Alguns Maracatus têm mais de uma Dama, estratégia de dominação dos brancos, na épo- vivas à aclamação do Rei do Congo.

cada uma trazendo uma boneca, correspon- ca em que o sistema escravocrata dava sinais O passo da dança lembra o molejo dolente

dentes a entidades femininas. de fragilidade. dos rituais de candomblés e os atuais grupos,

Em meados do século passado, Théo Ô lelê, sete de ouro, com o distanciamento de tempo e o conheci-

Brandão e Abelardo Duarte transcreveram Nação de pretinho do mar, mento da sua história no estado, vêm tentan-

algumas toadas de antigos Maracatus: Deus do céu lá no espaço, do essa reaproximação, valorizando a dança

Luanda, nação de preto, Luanda Ajoelhem-se os vassalos, ancestral, a preservação da memória e o regis-

Traz a Rainha miçanga, Luanda Salve a Virgem do Rosário! tro dos percalços de seu trajeto.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 155


Bumba-Meu -Boi

No rastro da lenda
A presença do boi na vida do homem se perde
no passado. Mais mística do que histórica, essa
proximidade descortina um universo imagético em
torno de sua poderosa figura, presente nas lendas, to-
adas, danças, apresentações cênicas e ritualísticas de
diferentes épocas e lugares.
Na Península Ibérica não foi diferente. A populari-
dade do boi se estende igualmente nas festas regionais,
no sangue derramado nas touradas, no vasto repertó-
rio das tradições seculares e serve de inspiração para
artistas como Goya, Gil Vicente, Picasso. Sempre a
presença vigorosa do animal como símbolo de força,
resistência e porte incomparáveis.

Bumba-Meu-Boi
Acervo Museu Théo Brandão

156 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Quando os portugueses trouxeram reba- sua mulher, Catirina, que estava grávida do

nhos para o Brasil, veio também toda a aura primeiro filho. Nos entojos da ameaça de

mística que envolve a imagem do boi. Essa aborto, ela teve o desejo de comer a língua

bagagem cultural e social foi logo ampliada do boi mais querido do patrão. Corre a cren-

com o conhecimento dos negros escraviza- ça popular que se o desejo da mulher prenha

dos trazidos igualmente para a lavoura. Do não for saciado, ela perde a criança. Diante

caldeamento de informações que se instalou de tamanha ameaça, o marido matou o boi

no Nordeste com a plantação da cana, refor- e lhe tirou a língua. Sentindo a falta do ani-

çado em seguida pelo ciclo do gado, o boi en- mal, o fazendeiro acionou todos os vaqueiros

trou definitivamente no folclore regional, da e caboclos para darem conta do portentoso

mesma forma que se integrou à vida rural do boi. Confirmada a morte do animal, a mobi-

Norte, tornando-se figura emblemática das lização passa a ser em torno de sua reanima-

duas regiões. ção, finalmente conseguida pela intercessão

Nos autos populares o animal apare- do doutor, curandeiro ou pajé. Quando o boi

ce sempre muito ornamentado e vigoroso, volta à vida, todos celebram festivamente, in-

atraindo a atenção de todos, mas é no Bum- clusive o escravo, Pai Francisco, que se livra

ba-Meu-Boi que mais se destaca pela posição da pena que lhe fora aplicada.

que ocupa frente aos demais integrantes. Não O Bumba-Meu-Boi é a dramatização desta

se sabe exatamente quando começou, mas lenda, acrescido de detalhes e de novos perso-
Figurante
têm-se referências de sua presença em Per- nagens que enriquecem o enredo e alongam Bumba-Meu-Boi

nambuco, no ano de 1840, através do jornal as apresentações. Nos estados do Norte, o

Carapuceiro, do Recife, na edição de 11 de ja- auto faz parte das festas juninas, enquanto

neiro, com críticas ao folguedo por ser consi- no Nordeste desfilam no Carnaval e no Ci- -Reis e em Alagoas, no povoado de Porto da

derado uma dança de requebros sensuais, tan- clo Natalino, mas também aparecem em oca- Rua, município de São Miguel dos Milagres, é

to que, na década de 1860, suas apresentações siões esparsas de caráter cultural e turístico. conhecido por Três Pedaços, alusão ao episó-

públicas foram proibidas. Recebe várias denominações pelo país, como dio da repartição do Boi, embora em todos os

A brincadeira se originou de uma lenda Boi-Bumbá, Cavalo-Marinho, Boi-Surubi, estados a denominação Bumba-Meu-Boi seja

sobre um casal de escravos, Pai Francisco e Boi-de-Reis, Rei-de-Bois, Bumba, Bumba-de- bem conhecida.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 157


A folgança em Alagoas
O estado atualmente está sem Bumba-

-Meu-Boi nos moldes tradicionais,

devido ao falecimento inesperado do Mestre


e fragilizou as apresentações do Bumba-Meu-

-Boi.

Desde o início deste século um fato novo

Eurico, há 12 anos, que comandava o auto está ocorrendo em Alagoas com relação ao

em Maragogi e não deixou substituto. Bumba. Vários grupos estão surgindo a cada

Até meados do século XX havia vários ano no período momesco, não derivados de

grupos na região Norte e na Zona da Mata, antigos Bumbas, mas como desdobramento

estendendo-se pela área das lagunas até Mare- dos Bois-de-Carnaval e adotando o nome

chal Deodoro, documentados por Arthur Ra- Boi-Bumbá, conforme veremos mais adiante,

mos, Jorge de Lima, Alfredo Brandão, Abelar- no capítulo relativo a Bois.

do Duarte, Théo Brandão e Câmara Cascudo.

Cada um deles descreve apresentações que

assistiram, quer com o nome de Bumba-Meu-

-Boi, quer como Três Pedaços, mas todos

grupos relativamente simples, sem grande

produção de indumentária e cenografia.

Théo Brandão, no livro Folguedos Natalinos,

afirmou que o auto nunca foi de forte inci-

dência no estado. O personagem principal, o

Boi, entrou como entremeio do Reisado e do

Guerreiro, folguedos da preferência do públi- Bumba-Meu-Boi


Jaraguá
co, que arrebatou o seu principal personagem Maceió

158 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Personagens e trajes
O Bumba-Meu-Boi em sua encenação e sua mulher Catirina com trajes de escravos

mais completa já foi comparado a uma ópera remediados, calça comprida, camisa, chapéu

de rua. Com enredo longo e personagens ca- de palha, e ela de vestido de chita e cabelos

racterizados com capricho e fartura de cores, com laços de fita. Em alguns grupos o es-

possui grande número de figurantes que se cravo é substituído por um Mateus. Comple-

colocam em torno do Boi, desempenhando tam o elenco o Mestre-Sala, que comanda a

suas funções nos diversos atos da apresen- brincadeira e faz as vezes de fazendeiro dono

tação. Esse elenco é composto por persona- do animal, a Burrinha, o Cavalo Marinho, o

gens humanos, animais e seres fantásticos. Mané Pequenino, o Morto-Vivo, o Jaraguá,

O Boi, ou Touro, é feito com uma arma- Caiporas, o Doutor ou Curandeiro, o Folha-

ção de ripas que dá a forma do corpo, co- ral, Vaqueiros, Índios, Caboclos e tantas ou-

berta por chita, ou por veludo e brocado, tras figuras criadas pelo Mestre, conforme as

dependendo das condições econômicas do situações locais.

grupo. A cabeça, de papel, espuma plástica e Normalmente, cada integrante se respon-

palha, revestida de tecido bordado ou pinta- sabiliza pelo seu personagem, o que garante

do, recebe chifres de verdade, muito usados uma variedade de caracterizações que tor-

nas simulações das marradas durante a brin- nam a folgança ainda mais interessante. Tam-

cadeira. Embaixo dele, escondido, apenas bém varia muito o número de participantes,

com o nariz e os olhos de fora, o chamado dependendo do organizador e das condições

Miolo ou Tripa do Boi, homem forte e bom econômicas do grupo. No Festival Folclórico

dançador que conduz o animal. Quando as de Parintins-AM, que acontece todos os anos

apresentação são longas, dois homens reve- desde 1965, cada grupo se apresenta com

zam no papel. centenas de figurantes, em desfile alegórico

Não falta o casal de negros, Pai Francisco que mobiliza multidões.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 159


Os miolo

O Boi e sua evolução É pra seu Mané Crioulo.

A aparação

É pra seu Tubarão.

O vocábulo Bumba que nomeia o folgue-

do tem o sentido de estimular, atiçar, es-

bordoar o animal para que ele reaja, salte, dance,


e ressurreição do Boi, passando pela doação das

partes do animal aos presentes, em espécie de

testamento, quando o tragicômico chega ao seu


A rabada

É pra negrada.

A tripa gaiteira
ataque e assim provoque no público a emoção ponto alto. Abelardo Duarte, no século passado, É pra dona Eleusa.
alegre da perseguição cenográfica. O zabumbeiro colheu esta primorosa embaixada, em Taperaguá, A tripa fininha
toca o bumbo e o Boi bumba na marcação do município de Marechal Deodoro. Nesse momen- É pra dona Chiquinha.
instrumento em evoluções soltas e ambivalentes. to, o homem que conduz o Boi deixa a carcaça O figo do animal
Reverbera em sua figura o mito da força, da quase no meio do Terreiro e a cerimônia da partilha é É pro pessoal
sacralidade, ao som das toadas, com forte carga de feita pelo Doutor, o mesmo personagem que logo Resta pouco pra repartir
dramaticidade. adiante vai reanimá-lo. Tou com pressa pra sair.
O Bumba-Meu-Boi é das folganças mais A chã de dentro Com ar de insinuação pelo que faltava ser re-
tradicionais do país, que encena a um só tempo É pra seu coroné. partido, saía o figurante correndo e saltando, cheio
um cortejo dramático que mistura dança, mú- A chã de fora de trejeitos, ao som das gargalhadas da plateia. O
sica, teatro e circo das três etnias. Em diferentes É pra dona Aurora. testamento é sempre improvisado pelo Doutor, ou
localidades tem recebido acréscimos, inovações A passarinha curandeiro, e as pessoas que são agraciadas com os
e exibições grandiosas, como acontece em Parin- É de dona Aninha. órgãos do animal se sentem prestigiadas em intera-
tins, no Amazonas. De modo geral, esses grupos O coxão gir com a folgança.
se situam na região Norte e em estados como Per- É pra seu João. Em seguida vem o momento principal e con-
nambuco, que mantém o Bumba com o aparato Mocotó do pé clusivo, presente em todas as apresentações: a res-
fantasioso de monumental manifestação popular. É pra seu Zé. surreição magistral do Boi, ainda mais ágil e fogoso,
As apresentações tradicionais iniciam com o Mocotó da mão acompanhando o toque do zabumba em seus vol-
pedido de licença para a realização da folgança, É pro seu Lesbão. teios e marradas de excelente expressão plástica e
vindo à frente o Pai Francisco, ou o Mateus, e a Os miúdos carga de teatralidade.
Catirina. O enredo tem por base a vida, a morte É pra seu Joca.

160 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Boi-de-Carnaval

Origem
discutida
M antendo a posição de figura emble-
mática das manifestações popula-
res mais enraizadas da cultura brasileira, o
Boi está presente nas festas carnavalescas
sob as mais diversas formas e nas mais di-
ferentes regiões. Nunca deixou de aparecer
nos carnavais de rua alagoanos, isolada-
mente ou participando de algum pequeno
grupo de La Ursa ou similares.

Boi-de-Carnaval

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 161


Nos últimos tempos, o gosto pelo Boi-de-

-Carnaval foi crescendo em Maceió, até que,

em fins do século passado, o radialista Luís

de Barros, com o apoio dos órgãos públicos,

deu início a uma competição entre os Bois,

que começou timidamente, mas logo ganhou

força, com a concorrência entre grupos de

bairros, hoje denominados galeras.

A partir de então, as apresentações adquiri-

ram nova formatação, que se aproxima, cada

vez mais, do cortejo-espetáculo e, embora

tenha surgido do Boi-de-Carnaval, transfor-

mou-se em outra manifestação, diferente da

brincadeira tradicional. Hoje, a disputa acir-

rada entre os Bois estimula a ampliação e a

riqueza ornamental dos conjuntos, que se ins-

piram no Boi-Bumbá do Amazonas e nas Es-

colas de Samba do Rio de Janeiro, com tema

próprio, bateria, enredo e alas temáticas. Em

Maceió, suas exibições levam muitos turistas

e nativos à Praça Multieventos, na Pajuçara,

local onde os grupos brincam e concorrem a

premiações.

Boi de Carnaval
Evolução

162 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 163
Capítulo IX
Mané do Rosário
Figurante
Colaram em meu rosto uma máscara
pra fazer divertimento.
Quem me vê assim brincando
não sabe do meu sofrimento.
(Maurício de Macedo)

166 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Mané do Rosário
A Vila Real
A Vila do Poxim, no município de Coruripe, não guar-
da apenas a tradição da realeza de seu antigo nome
– Vila Real de São José do Poxim do Sul – mas também uma
história de lutas e glórias. No bojo de suas memórias con-
serva com apreço as celebrações de fé em torno dos santos
católicos, principalmente as do seu padroeiro, São José, cuja
imagem está preservada na igreja matriz. É nesse contexto
de fé e festividade que surge uma das mais importantes ma-
nifestações populares do estado, o Mané do Rosário.
A origem do auto está intimamente relacionada ao período
de celebração do fervor ao santo, que anualmente é festeja-
do com terços e novenas que antecedem as comemorações
ao seu dia, 19 de março, no calendário cristão. Essa é a data
em que os fiéis pedem graças, pagam promessas e deposi-
tam esperanças no plantio e na colheita farta do milho. A
exemplo do que acontece em todo o interior nordestino, o
entorno da igreja é o lugar onde se realizam os leilões, as
quermesses com barracas de comidas típicas e as apresenta-
ções de folguedos que reúnem multidões.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 167


Mané do Rosário
Preparativos

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O começo do mistério
D izem os mais velhos, que por sua vez repassam a versão reprodu-

zida pelos antepassados, que no ano de 1762 aconteceu a maior

de todas as festas até então realizadas no dia do padroeiro. Havia um mo-

tivo especial para a celebração: a igreja matriz reabria as portas, após longa

reforma arquitetônica que consumira muito dinheiro e as expectativas da

comunidade.

Nessa ocasião, contam que apareceu na porta do templo um sujeito

mascarado, com chapéu de palha na cabeça e rosto pintado de preto, como

um Bobo de Carnaval, vestindo túnica branca até os pés, descalços. Trazia

no pescoço um grande rosário e tocava um chocalho, enquanto arremes-

sava um chicote de folhas de bananeira na garotada que o cercava, em

galhofa. De tão inesperado, o fato não provocou outra reação por parte da

comunidade senão o questionamento de quem seria o disfarçado.

Não existe registro da época que descreva esse fato. O que se sabe vem

da tradição oral, do ouvir dizer. Os detalhes mudam, de informante para

informante, mas o mote é sempre o mesmo. Alguns dizem que no ano

seguinte o mascarado trouxe consigo um parceiro, e assim se repetiu por

alguns anos, passando a ser uma atração. Ninguém conseguiu identificá-lo.

Conjecturava-se um ou outro nome, naquela comunidade pequena onde

todos se conheciam, e ainda hoje se conhecem. Quem não é parente é ade-

rente, vizinho ou compadre. O enigma permaneceu e a figura misteriosa

terminou sumindo de forma inesperada, da mesma maneira que surgiu.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 169


Mané do Rosário
Rostos velados

170 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Há quem afirme que o seu aparecimento ocorreu durante cinco

anos consecutivos. As pessoas já estavam acostumadas com aque-

la presença e o personagem passou a ser identificado por Mané

do Rosário, porque assim se intitulava ou pelo fato de trazer um

rosário ao peito, às vezes mais de um, conforme informações dos

moradores mais velhos do lugar. Para muitos, era um pagador

de promessas, outros atribuíam a identidade ao organizador dos

grupos folclóricos locais, Manoel Félix, homem de temperamento

vivo e comunicativo, afeito a brincadeiras; alguns desconfiavam

que o mascarado fosse ele, mas o suspeito nunca assumiu. O cer-

to é que o personagem entrou para a cultura do município com

essa denominação.

De tanto se falar e reclamar da falta que fazia o Mané do Ro-

sário, alguns membros da comunidade, sem esperança no seu

retorno, e com espírito lúdico, formaram um pequeno grupo que

se apresentava da mesma forma e com os mesmos trejeitos do

disfarçado. O grupo se aglomerava de forma espontânea, sem en-

saios, acordos prévios de coreografia e sem cantos. Quando o za-

bumba tocava, todos dançavam e as crianças repetiam os mesmos

gracejos de outrora, insultando os dançarinos.

Os párocos não se opuseram e a cada ano aumentava o núme-

ro de participantes na porta da igreja. A brincadeira foi ganhando

corpo e função, até se transformar em um folguedo local.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 171


Registro dos
pesquisadores
T héo Brandão, em 1962, na primeira edição do

Folguedos Natalinos, já incluíra o Mané do Rosá-

rio na classificação dos folguedos, embora com uma

interrogação, denotando saber da existência, mas op-

tando por não descrevê-lo, provavelmente por não ter

assistido apresentações. Foi seu discípulo José Maria

Tenório Rocha quem registrou o Mané do Rosário

nos anos 1980, sendo esta, até o momento, a descri-

ção mais antiga de que se tem notícia. Câmara Cascu-

do, baseado em suas informações, incluiu no Dicionário

do Folclore Brasileiro um verbete sobre a manifestação,

selando seu ingresso no rol dos folguedos populares.

Por um lapso, o dicionarista cita o livro Folclore Negro

das Alagoas também como fonte de informação, mas

não consta na obra de Abelardo Duarte referência a

essa brincadeira.

172 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Mané do Rosário
Figurantes

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 173


João Lemos, historiador do município de Coruripe,

escrevendo sobre a Vila em 2001, fala sobre a tradição

do Mané do Rosário e contextualiza a folgança com a

experiência de quem convive com a comunidade há

mais de duas décadas. A partir daí, alguns registros

rápidos aparecem nos jornais e revistas de Alagoas,

tornando-o mais conhecido, embora não cheguem a

acrescentar dados novos. Em 2012, o trabalho acadê-

mico de Priscylla Silva, Orgulho ou vergonha? O Mané

do Rosário, manifestação do patrimônio cultural intangível de

Poxim, veio reforçar a bibliografia sobre o assunto.

Como se trata de um folguedo puro, são poucas as

referências e as existentes estão limitadas às informa-

ções orais dos moradores da Vila. A importância dessa

tradição reside justamente na sua genuinidade, o que

por si só justifica seu registro como patrimônio ima-

terial do estado.

174 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Mané do Rosário
Representação

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 175


Personagens
e trajes Mané do Rosário
Detalhe

A o contrário de outras folganças, o Mané do Rosário não tem

uma hierarquia de personagens identificadas pelo traje ou pela

posição que ocupam. Também não existe um enredo a ser seguido, com-

partimentado em jornadas ou peças; muito menos cantos e embaixadas

em prosa ou verso. Vale destacar que nele não se nota influência de ou-

tros autos nem a adoção de figuras deles provenientes.

Todos os participantes vestem-se da mesma forma: saia longa de chi-

ta colorida, blusa simples e lisa, imitando o camisão que o mascarado

usava, e um chapéu de palha na cabeça, prendendo um pedaço de tecido

liso e claro que cobre todo o rosto, exceto os olhos, permitindo visibi-

lidade ao participante. Usam meias cobrindo os braços e as mãos. No

ombro, ou no braço, trazem um pano pendente em dobra de estola e al-

guns completam o traje com um chocalho pendurado no pescoço ou na

cintura, como referência ao mascarado que deu origem à manifestação.

Atualmente, alguns homens estão usando calças compridas e largas

em lugar das saias e os rostos pintados de tinta preta e barbas brancas.

Essas figuras trazem as chibatas que simulam afugentar a garotada.

Os chapéus são feitos por uma artesã local, que já tem a medida certa

para homens, mulheres e crianças e ainda faz o típico chapéu de pesca-

dor, com a trança da palha do ouricurizeiro, palmeira comum na região.

As abas largas ajudam a dar uma aura mística à indumentária que, em

seu conjunto, lembra o ritual muçulmano, apesar de nada ter a ver com

esta cultura.

176 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Mané do Rosário
Estandarte

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 177


Tradição de Mestra
A líder do grupo é dona Maria Benedita dos Santos, de 57 anos, co-

nhecida por dona Traíra, pelo fato de, na infância, só querer se

alimentar do peixe homônimo. Nascida e criada no Poxim, conta que to-

dos no lugar sabiam que seu paladar estava acostumado ao sabor do peixe:

“quem pescava uma traíra ia logo levar lá em casa”. De tão afeiçoada às

próprias memórias, ela mesma se apresenta como Traíra. “Aqui na Vila as

pessoas não sabem o meu verdadeiro nome, mas se perguntar por dona

Traíra todo mundo conhece”, diz Maria Benedita.

178 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Mestra Traíra
(Maria Benedita dos Santos)

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 179


180 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente
No Mané do Rosário ela é a Mestra, mas veste traje

igual ao dos demais participantes. Ela organiza, promove

apresentações, estimula novas adesões e detém o saber.

Em 2006 recebeu o título de Patrimônio Vivo do Estado

de Alagoas. Além da honraria, a inclusão nessa categoria

garante ao agraciado uma contribuição financeira mensal

como estímulo à transmissão do saber, visando a manu-

tenção daquela tradição na comunidade.

A Mestra lembra ainda que quando criança seus pais

e seus avós também brincaram o Mané do Rosário. “Eu

acompanhava com encantamento aquele cortejo. Hoje o

considero uma herança de família”, diz em referência ao

fato de seus filhos e netos participarem do folguedo e do

zelo pelos trajes. Devota fervorosa de São José, acredita

que o santo derrama graças especiais sobre os “manés”

que dançam em seu louvor.

Mané do Rosário
Rosto

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 181


O caminho
do cortejo
T odos os anos o desfile começa na

casa de dona Traíra. Prontos, os par-

ticipantes saem em cortejo dançando e fa-


estreitas ou na acústica natural do adro das

igrejas, os acordes ecoam contagiando a to-

dos. Exatamente pelo volume do som que

zendo trejeitos, cumprimentando as pesso- emite, é carinhosamente conhecida também

as por onde passam, polarizando a atenção por Quebra Resguardo. Sua composição

de toda a Vila e dos visitantes ávidos por compreende dois pífanos, duas caixas, ou

conhecer o folguedo. Os “manés” não can- taróis, um zabumba, um triângulo e um pra-

tam. Apenas dançam ao som de uma ban- to. O Mestre é sempre o primeiro pifeiro.

da de pífano. Percorrem as ruas principais Ele comanda o grupo, dá o tom, rege e sola.

em um trajeto que não dura menos de duas

horas até chegar à igreja, onde o pároco os

espera para então começar a cerimônia re-

ligiosa.

Presença constante nas festas do interior,

a banda é conhecida por Terno de Zabum-

ba, ou Esquenta Mulher, pelo fato de sua

cadência irresistível levar as mulheres a re-

bolar e a se alegrar enquanto passa. Na ruas

Mané do Rosário
Caminhada

182 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 183
Como manda a tradição, o folguedo se apresenta nos últi-

mos dias da novena, 16, 17 e 18 de março. No dia 19, ápice

da festa, sai a procissão. Por isso, no final da apresentação,

quando chegam à igreja, depois de dançarem em evoluções

soltas e individuais, todos acompanham dona Traíra, que

puxa a saudação:

Chegamos na porta da igreja

Para louvar o senhor São José

Com o nosso Mané do Rosário

Até para o ano, se Deus quiser!

E dona Traíra completa em alto e bom som:

“E ele haverá de querer!”.

Dito isso, o padre abençoa a todos e em cortejo os parti-

cipantes voltam dançando para a casa de dona Traíra - sede

da brincadeira -, onde trocam de roupa, confraternizam-se

e se dispersam. Como o Mané do Rosário está em franca

expansão, ganhando mais visibilidade a cada ano, eventual-

mente é chamado para apresentações em ocasiões especiais

em outros municípios e fora do estado. O grupo, que a prin-

cípio se reunia de forma espontânea e sem pretensões de ir

além do encontro divertido entre amigos e devotos, abriu

espaço para as mulheres, as crianças e pessoas das comuni-

dades próximas. Participantes se misturam vestidos com tra-

jes iguais e ao primeiro chamado da Mestra, todos acorrem.

184 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Mané do Rosário
Figurantes

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 185


O auto e
a função
O folguedo é conhecido por todos os moradores da Vila do Poxim. Tra-

ta-se de um raro caso de ascensão de grupo genuíno que vem passan-

do sua arte dos mais velhos aos mais novos com pequenas modificações, mas

com muito entusiasmo, aumentando o número de participantes e garantindo a

permanência da tradição. O fato de se tratar de uma folgança puramente local

talvez explique o gosto da comunidade pela sua conservação.

Os integrantes mais antigos, que acompanham o Mané do Rosário por mui-

to tempo, reclamam da gradativa perda ritualística da manifestação. O argu-

mento é o de que atualmente não se preserva, como deveria, o mistério da

identidade de seus participantes. Esse ponto é visto como cerne da questão

lúdica e histórica que justificaria a existência do grupo.

Quando a pesquisadora Priscylla Silva entrevistou pessoas da comunidade,

detectou a insatisfação de alguns pelo que chamam de descaracterização do

grupo e quebra de seu envolvimento religioso, com apresentações em festas

profanas, de caráter cultural e turístico. O saudosismo remete aos pequenos

grupos que saíam sem programação pré-estabelecida, cuja intenção era apenas

homenagear São José, reforçando a tradição local.

186 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Mané do Rosário
Rostos

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 187


Mané do Rosário
Mistério

188 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Contudo, há o reconhecimento de que, graças ao Mané

do Rosário, a Vila aparece com destaque no âmbito da cul-

tura popular. O folguedo agrega à história secular de Poxim

elementos que movimentam a vida local e suas atividades ar-

tesanais, principalmente a venda de bolsas, chapéus e outras

peças de trançado da palha, atividade predominantemente

feminina.

As novas apresentações, deslocadas da festa do padroei-

ro, têm caráter de divertimento. Além de divulgar e projetar

o município, elas angariam fundos para o próprio folgue-

do, como acontece com todas as brincadeiras que alcançam

popularidade fora de seu reduto. Esse deslocamento do

espaço de origem, de alguma forma, contribui para a auto-

estima do grupo e, consequentemente, para o grau de per-

tencimento que garantirá a sua continuidade.

Disseminar as apresentações do Mané do Rosário é um

meio de garantir o seu fortalecimento no tempo, acompa-

nhando o movimento da sociedade que a promove. É tam-

bém um caminho para a intersecção entre a história passada

e as expectativas atuais. O caráter ritualístico do auto per-

manecerá diretamente ligado à festa de São José do Poxim,

seu padroeiro, e à simbologia da fé dos tipos populares que

ficam na história oral dos lugares, como ficou um certo Ma-

noel do Rosário para a gente da Vila.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 189


Bando
Arautos de
Santa Luzia
T apera é um povoado do município de
Anadia. Localizada a 100 quilômetros de
Maceió, no ponto mais elevado daquela região, a
área era conhecida à época dos holandeses como
Campos dos Arrozais dos Inhauns. O que pou-
cos sabem é que o pacato lugarejo, com vista pri-
vilegiada para a Serra Morena, é um dos poucos
redutos do estado onde a religiosidade popular
assume seu ponto alto. É exatamente em nome
da fé em Santa Luzia, a padroeira de Tapera, que
os moradores se reúnem todos os anos num ri-
tual de devoção e agradecimento à protetora da
visão

Máscara

190 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


O curioso é que embora o dia consagrado a Santa

Luzia seja 13 de dezembro, o ciclo da festa, com

orações, novenas e cânticos, tem início no final de

novembro, logo após a apresentação do folguedo

denominado Bando. Cabe ao grupo abrir os cami-

nhos para a festa sagrada. À moda dos arautos de

antigamente, o Bando desfila pelas ruas prenuncian-

do os festejos em homenagem à santa.

Não se sabe ao certo quando essa prática se ini-

ciou. Na falta de registros, os moradores mais anti-

gos especulam que a folgança remonta à Indepen-

dência do Brasil. Sabe-se, no entanto, que o costume

de anunciar as festas religiosas é tão antigo quanto

os próprios festejos. Fazia parte das reminiscências

do catolicismo rural, quando se hasteava na porta da

igreja um mastro, enfeitado de fitas e flores, com a

bandeira do santo. Era o anúncio de que a festa esta-

va por acontecer.

Dependendo da história e da vivência de cada co-

munidade, a forma variava, a exemplo da tradição

mantida na Vila do Poxim, por ocasião das apresen-

tações do lendário Mané do Rosário. E assim é na

Tapera, onde o auto do Bando, em plena efervescên-

cia, interage com a comunidade chamando a atenção

de visitantes e pesquisadores que se debruçam sobre

o tema.

Mascarado

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 191


Personagens
e trajes
S implicidade é a palavra de ordem para desig-

nar a estética do Bando, ou Bandos da Tapera.

Devido a não existir enredo, o grupo dispensa per-

sonagens com funções e trajes específicos, embora

tenha o organizador, que assume a função de Mestre.

Como o nome bem define, os integrantes saem em

bando, com máscaras e trajes improvisados de Bobos

do Carnaval, alguns com uma vara na mão fazendo

as vezes de cajado. São homens, mulheres e crianças

com a mesma caracterização. O disfarce, escondendo

o rosto, alimenta a tradição de mistério e estimula a

curiosidade em torno do auto.

192 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Bando
Preparativos

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 193


194 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente
As máscaras são confeccionadas em papel jornal

molhado e amassado, com bastante cola para facilitar

a moldagem - técnica conhecida como papel machê.

Depois de secas ao sol, as máscaras são pintadas com

tinta a óleo, nas cores mais variadas. O resultado é sur-

preendente, com o desfile dos mascarados diferencia-

dos entre si pela originalidade de cada peça. Os parti-

cipantes dançam em grupo ao som de uma Banda de

Pífano. Alguns vão a cavalo, mas a indumentária tem a

mesma característica.

As máscaras são feitas em sigilo e ficam escondidas

até o dia da exibição com o intuito de causar surpresa e

dificultar a identificação do figurante. Em uma comu-

nidade tão pequena, é claro que logo os mascarados

são identificados, mas eles insistem no disfarce.

Bando
Cortejo

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 195


O Bando
em evolução
O grupo, com cerca de 20 integrantes, reúne-se na

porta da igreja e o ritual tem início quando um dos

mascarados começa a tocar o sino, puxando a corda que o

sacristão cuidadosamente deixa exposta, pendente da torre.

Em seguida, em nome da fé, cada um toca o sino. Diz a

tradição que aquele que deixar de tocar perde a proteção da

santa. O povoado se alvoroça. Todos querem ver o cortejo

passar. Os vivas à padroeira ecoam por toda parte.

Num determinado instante a Banda para de tocar e a pra-

ça silencia. O Mestre anuncia a busca pelo mastro. Todos

saem perfilados em duas alas, trazendo-o pintado de azul e

precedido pela bandeira de Santa Luzia. A população intera-

ge aplaudindo e gritando saudações à padroeira.

196 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Bando
Exibição

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 197


Bando
Mascarados

198 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


A Banda toca marchas e benditos, enquanto os

figurantes deixam a igreja levando a haste no cortejo.

Dançam e cantam alegremente, acompanhados pela

população, passando pelas ruas e sítios até voltar

para a porta da igreja, onde renovam vivas e palmas.

Um deles coloca a bandeira na ponta do mastro, que

logo em seguida é plantado no meio da praça. Por

fim, um mascarado posiciona-se ao lado dele e abre

solenemente um canudo de papel, como faziam os

antigos arautos, e lê o que chamam “edital”.

A leitura se faz em voz alta, clamando pelos mor-

tos ilustres da comunidade, de quem relembram

feitos e qualidades morais e, em seguida, convocam

os vivos, nominando alguns, para comparecerem à

festa da padroeira. Na leitura solene, além da progra-

mação, o mascarado agradece ao pároco e aplaude a

igreja e a santa, seguido em coro pelos demais inte-

grantes e pela população. A Banda executa o bendi-

to, dando por encerrado o ritual.

Bando
Mistério

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 199


Dança de São Gonçalo

A origem
remota
Á gua Branca é uma espécie de oásis no sertão alagoano.

O clima ameno e serrano favorece a vegetação, cujo

verde desafia as agruras da seca que abate a região. Terra de ba-

rões e baronesas, e também de Lampião e Corisco, tem o pas-

sado preservado na arquitetura de suas igrejas e de seu casario.

Além do acervo histórico, o município desponta como um

importante centro de cultura imaterial com diversos folguedos

e rituais populares, como a Dança de São Gonçalo do Amaran-

te, marco da cultura local.

O santo é conhecido na iconografia popular católica como

protetor dos músicos, artistas e moças casamenteiras. Morreu

em Amarante, norte de Portugal, local onde foi erguido um

convento em sua homenagem. Tido na concepção popular

como um santo alegre, tem como atributo uma viola, o que o

credencia a ser o protetor dos violeiros nordestinos.

Dança de São Gonçalo


A música

200 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Não se sabe quando a Dança de São Gonça-

lo chegou ao Brasil, muito menos à Água Branca,

mas sabe-se que se trata de uma tradição portu-

guesa, cuja prática está ligada ao pagamento de

promessas.

Contam os mais antigos que a Dança logo foi

integrada ao sincretismo religioso e praticada pelos

negros escravizados com total aceitação de seus

senhores. Em meio a tantas proibições enfrenta-

das pelos escravos, a permissão para a prática des-

se ritual justificava-se no medo que os senhores

brancos tinham das punições que o santo poderia

lhes infligir. Chegavam a dar dinheiro e garantiam

a farta refeição dos negros no final das orações.

Embora esteja em processo de extinção, exis-

tem registros da prática da Dança de São Gonçalo

em alguns pontos do país, como em Sergipe e na

Bahia. Considerado um auto rural e votivo, vem

resistindo ao processo de folclorização urbana.

Em Alagoas, até poucos anos, no sítio Ouricuri,

em Água Branca, existia o grupo do Mestre José

Luiz dos Santos, desativado após a sua morte.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 201


Dança de São Gonçalo
Figurantes

202 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Hoje, no povoado Cal, distante aproximadamente 25 qui-

lômetros da cidade sede do mesmo município, outro grupo

existe e continua se apresentando na sua função religiosa.

Desde a década de 1960, o Guia Deca (José Ricardo Neto

dos Santos) o comanda na Igreja Comunitária de São Gon-

çalo, que ele mesmo construiu. No lugarejo todos partici-

pam ativamente, dançando ou interagindo como devotos,

pagadores de promessa.

Patrimônio Vivo de Alagoas, Deca aprendeu na infância

a dançar a louvação e desde então a pratica como uma espé-

cie de “obrigação” levada a sério enquanto vida tiver, con-

forme suas próprias palavras. A tradição foi passada pelos

beatos Pedro Batista e Maria das Dores, em Santa Brígida,

cidade baiana próxima à Água Branca, considerada uma re-

gião onde é tênue a fronteira cultural entre os estados de

Alagoas e da Bahia.

Atualmente, o grupo só aparece em momentos votivos

ou para “encomendar” a alma de algum morto, cuja famí-

lia acredita na intercessão de São Gonçalo junto à Divina

Providência. Devido a essa fidelidade à função ritualística,

a Dança mantém sua conceituação original e o Guia Deca

é o primeiro a defender essa posição. O repasse do saber

já está sendo por ele transmitido a integrantes que revelam

aptidão para comandar espiritualmente o grupo, quando for

necessário.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 203


Personagens
e trajes
T odos vestem branco - cor fundamental da

indumentária - da cabeça aos pés e com rou-

pas iguais. Os homens, calças e camisas com mangas

curtas e boina na cabeça. As mulheres, saias longas e

blusas também com mangas e um lenço amarrado na

cabeça, escondendo os cabelos.

Além do guia espiritual detentor do conhecimen-

to, alguns homens compõem a bandinha de música e

doze mulheres fazem parte do grupo de dança. Uma

delas é a Contraguia, que vem à frente trazendo a ima-

gem de São Gonçalo, em torno da qual as jornadas

se desenvolvem. Outros personagens aparecem even-

tualmente - são os pagadores de promessas, que têm

funções a desempenhar.

204 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Dança de São Gonçalo
Trajeto

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 205


Dança de São Gonçalo
Cerimonial

206 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


A dança e a evolução
A o som de violas e rabecas, acompanhadas por tambor,

recorreco, triângulo e pandeiro, o grupo de mulheres se

organiza em duas alas. Após a Contraguia, vem o Guia Espiritual.

Posicionam-se em frente ao altar, dançando em ritmo dolente e

constante, a princípio em alas, depois em círculo.

Em determinado momento um novo círculo se forma com os

devotos que estão ali para pagar promessas. No centro fica quem

encomendou a dança, com o santo na mão, passando por entre os

que reverenciam a imagem e agradecem as graças alcançadas. O

curioso é que os devotos que não podem pagar a oferenda aguar-

dam uma ocasião em que o grupo se apresente publicamente, para

só então participar e, consequentemente, ficar quite com o santo.

O Guia canta as jornadas, em número de doze, que se esten-

dem da tarde ao começo da noite, enquanto as doze mulheres

dançam e acompanham o ritmo com um sapateado que ecoa no

salão da igreja comunitária.

No caso de “encomendação” da alma, o rito é mais demorado

e o Guia leva quatro ou seis mulheres para se revezarem na dança,

acontecendo o mesmo com os músicos. No final da “obrigação”,

como denominam o ritual, cumprimentam-se respeitosamente.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 207


Capítulo X
José Avelino
Caboclinho
Barra do Camaragibe
Do homem de alamares
não me assusta a voz rouca,
a faixa a tiracolo
e tanta medalha na roupa.
(Maurício de Macedo)

210 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


TORÉ

Tradição ancestral
E ntre as manifestações culturais e religiosas mantidas pelas
populações indígenas brasileiras, o Toré se destaca como
referência no processo de demarcação identitária e territorial.
Considerado um dos mais importantes rituais praticados por tri-
bos de diferentes etnias e regiões do Nordeste brasileiro, a dança
sagrada é também cultuada como um símbolo de encantamento
capaz de manter, ao mesmo tempo, o vínculo com os antepassa-
dos e a revitalização da tradição no contexto atual.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 211


Nas comunidades indígenas o Toré é o momento

onde espiritualidade, integração à natureza, identidade

social e memória se fundem num ritual permeado de

sons e movimentos corporais específicos. Cânticos são

entoados em meio a deslocamentos em giros. Aos pares,

eles seguem a cadência determinada pelo som dos mara-

cás. A marcação é feita com os pés, que tocam firme no

chão. Alternam saltos com coreografia de meio círculo

para trás.

Para muitas tribos a dança representa a ligação da al-

deia com a força que domina o mundo, aquela que atende

aos anseios dos povos indígenas, reconhece sua história e

preserva a vida social e a organização tribal.

Outros o traduzem como um espírito protetor da saú-

de, que transmite a sabedoria de índios e caboclos que

“baixam” para indicar chás e banhos com ervas medi-

cinais, como acontece no culto afro-brasileiro. Registros

históricos dão conta de que os negros escravizados prati-

cavam o Toré em seus rituais de guerra, invocando o co-

nhecimento da terra nas horas de fuga. Presente no auto

folclórico do Quilombo, ainda que em circunstâncias dis-

tintas, essa prática reflete o entrelaçamento cultural entre

negros, índios e caboclos.

212 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Ritual
Xucurus
Palmeira dos Índios

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 213


Ritual Kariri Xocó
Porto Real do Colégio

214 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


O sentido da dança
A lgumas comunidades remanescentes nos municípios de Palmeira dos Índios,

Pariconha, Porto Real do Colégio, São Sebastião e Joaquim Gomes mantêm

a tradição da dança como meio de reafirmação da crença nos ancestrais e da integra-

ção entre os membros da aldeia.

O Toré é também um momento de purificação e resguardo das maleficências e

infortúnios. A cerimônia é restrita ao grupo e, eventualmente, aos poucos convida-

dos, o que representa grande distinção.

Não se trata de uma manifestação lúdica, mas de um rito, através do qual os

povos indígenas celebram suas divindades e dançam por melhores colheitas, fartura

para a terra e para seus descendentes.

O caráter coletivo do ritual é marcado pela participação de todos na preparação,

cada um desempenhando papel específico. Além da utilização de trajes típicos, o

Toré resgata a tradição dos hábitos alimentares indígenas. A bebida, feita à base de

sumo de jurema, é misturada a diversas ervas e servida em pote de barro próprio

para a ocasião.

O cachimbo baforado pelos participantes tem também o sentido simbólico de

comunhão. É oferecido pelo Pajé, que conduz a cerimônia ao lado do Cacique. O

som vem da taboca com que fazem flautas e um instrumento que lembra uma trom-

beta rústica e alongada, que emite um som lúgubre. Apitos feitos da cauda do tatu

e maracás de cabaças com sementes em seu bojo acompanham o ritmo e a batida

forte dos pés levantando a poeira no terreiro batido.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 215


Indumentária cerimonial

216 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Personagens
e trajes
O autêntico Toré de aldeia não permite a inclusão de

mulheres. Apenas os homens estão aptos a partici-

par da dança. Nessas ocasiões, vestem-se com penas de aves

de cores variadas e com palha de ouricuri, usada também

na confecção das máscaras. A fibra é trançada ou desfiada

depois de seca e costurada com seu próprio fio, que faz as

vezes de linha. Os adereços são de ossos e dentes de animais

colocados sobre os corpos pintados de urucum (vermelho) e

jenipapo (preto). Os motivos da pintura expressam padrões

de beleza e insígnias de poder hierárquico. O Pajé é quem dita

as normas e detém o saber. A ele compete a invocação dos

ancestrais e o comando espiritual da dança.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 217


O folguedo e a
folclorização do rito
A ssim como ocorreu com outras ma-

nifestações, com o passar do tempo e

por ocasião das comemorações alusivas ao Dia


mais diversas festividades, incluindo os perío-

dos de Natal e Carnaval.

Nessas ocasiões, os integrantes, caracteriza-

do Índio, 19 de abril, o Toré sofreu um proces- dos de índios, vestem tangas de palha ou de pe-

so de folclorização. Fora das aldeias, passou a nas, cocares, braceletes e perneiras dos mesmos

ser representado por pessoas que não mantêm materiais. Contas de miçanga completam os

qualquer tipo de relação com as comunidades adornos. Os grupos são formados basicamente

indígenas. por jovens e crianças. Os homens, munidos de

A versão folclorizada foi incluída no rol dos arco e flecha, completam a coreografia simu-

folguedos populares de inspiração nativa. Nes- lando o uso da arma. Deixam o peito nu e usam

sas apresentações, a caracterização da dança colares e faixas de palha trançada, enquanto as

é feita de forma simplificada, estilizada e sem mulheres vestem um cobre-seios e colares que

vínculo com o aspecto mítico da tradição man- completam o figurino indígena. Dançam dan-

tida até os dias atuais por tribos de diferentes do-se as mãos, inclinam a cabeça para a frente,

etnias. soltam-se e acompanham o ritmo com pouco

O ponto alto das apresentações ocorre no movimento de corpo. Não há molejo de qua-

mês de abril, geralmente nas escolas e centros dris nem de ombros e os passos não variam.

culturais. Embora as pesquisas realizadas pelo Os cantos são monossilábicos, quase im-

folclorista Théo Brandão na década de 1950 perceptíveis, improvisados e onomatopaicos,

não incluam o Toré no grupo dos folguedos emitindo sons que intercalam com a chamada:

natalinos, atualmente ele pode ser visto nas Toré, Toré, Toré!!!

218 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Folclorização
do Toré

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 219


Caboclinho
Origem
indígena
O auto do Caboclinho é outro folguedo inspirado

na cultura indígena. Conhecido também por Ca-

boclinhos, tem origem no início da colonização, época em

que as manifestações nativas eram exploradas pelos frades

portugueses em favor da missão evangelizadora. A trans-

figuração dos ritos, danças e cantos era, então, um meio

eficaz de difusão do catolicismo.

Dóceis e suscetíveis, as crianças eram as primeiras a ser

submetidas ao insidioso processo de catequese. Devido a

esse perfil catequista, muitos pesquisadores atribuem a de-

nominação diminutiva do folguedo ao fato de ter sido, ori-

ginalmente, direcionado ao público mirim: os caboclinhos.

Àquela época, índios e miscigenados eram conhecidos, ge-

nericamente, por caboclos - designação ainda hoje usada na

região Nordeste.

Mestra Miram
Caboclinho
Barra do Camaragibe
220 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente
Tomando por base a manifestação nativa,

os portugueses desvirtuavam a natureza ori-

ginal dos saberes religioso e cultural locais, ao

mesmo tempo em que incutiam e propaga-

vam hábitos e crenças ibéricos. Espalhavam

na Colônia uma nova forma de ver o mundo.

Na área dos folguedos não foi diferente. A

efetividade do processo de assimilação cultu-

ral se dava por meio da introdução de elemen-

tos de folganças e memórias do colonizador,

criando outra modalidade de auto, com feição

lúdica, sob a égide de seus interesses.

No vácuo dessas transformações, o Ca-

boclinho se apresenta com coreografia que

lembra os rituais indígenas, mas a composi-

ção dos cantos e dos trajes, em alguns estados,

é nitidamente portuguesa. Não faltam, aqui e

acolá, traços da cultura dos negros escraviza-

dos que, com o tempo, foram aparecendo na

folgança.

Pai Velho
José Avelino
Barra do Camaragibe
Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 221
O auto da região Norte
A referência ao auto, em Alagoas, vem dos grupos

do Norte, zona que congregou até início deste

século, o maior número de Caboclinhos, com formação

semelhante e funções desempenhadas conforme a mesma

orientação.

A Mestra Miram, também chamada Guia, mantém a

tradição no comando do grupo Caboclinhas do Passo, re-

produzindo os cantos e as evoluções com peças antigas,

guardadas na memória, e outras que improvisa no fulgor

das apresentações.

A influência do traje de procedência portuguesa é mui-

to forte no estado em detrimento da caracterização in-

dígena, cujos elementos aparecem de forma discreta nos

adornos e nos cantos. Essa predominância na indumentá-

ria define a própria vertente do grupo e sua inclinação no

desenvolvimento do enredo e da função.

Em Pernambuco, ao contrário do que acontece em

Alagoas, a ênfase é dada aos elementos indígenas, contu-

do, eles são trabalhados de forma idealizada, distante da

matriz referencial. Os desfiles enfatizam a feição exótica

de uma brasilidade estilizada. Os integrantes trazem nos Caboclinho


Barra do Camaragibe
corpos e nas alegorias muitas penas coloridas e dançam

exibindo manobras que fazem da folgança uma atração

da cultura regional.

222 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Na Paraíba, no Rio Grande do Norte e em outros estados, o

auto também aparece com características particulares; ainda as-

sim, conservam traços da origem comum.

Atualmente, em Alagoas, o folguedo encontra-se em proces-

so de desativação. O desaparecimento dos Caboclinhos de vá-

rios municípios se deu por razões diversas, que vão desde a falta

de um Mestre para a condução dos trabalhos, até a preferência

dos figurantes por outras modalidades de folguedo. Apesar des-

sa descontinuidade, as referências à folgança permanecem vivas

na região. Em meados do século passado, Penedo, Atalaia, Pilar,

Porto Calvo, Porto de Pedras, Passo de Camaragibe e São Miguel

dos Milagres mantinham seus grupos em atividade. O ânimo foi

arrefecendo e hoje em dia a tradição dos Caboclinhos pode ser

vista apenas em Barra de Camaragibe, no Litoral Norte, muni-

cípio de Passo de Camaragibe. Os brincantes apresentam-se no

Carnaval como a atração principal, atraindo o interesse da comu-

nidade que aguarda e acompanha o cortejo.

As apresentações acontecem também no Natal e em diversos

eventos comemorativos, ocasiões em que os cantos são adequa-

dos à temática das festividades.

O grupo de Passo do Camaragibe, atualmente comandado

pela Mestra Miram, que segue a tradição familiar, vem de uma

história de várias gerações. Acostumada a brincar desde criança,

ela assumiu a liderança com a morte repentina do Mestre Joel.

Muito querida na comunidade, Mestra Miram consegue man-

ter carinhosamente articulado o grupo, que, nas apresentações,

interage com o público, estimulando o interesse pelo folguedo,

transformado em verdadeiro ícone do município.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 223


Personagens e trajes
D a mesma forma que acontece com

o Reisado, o Guerreiro, a Folia de

Reis e outros autos de influência ibérica es-


tas vezes diferem uns dos outros na forma-

ção do seu naipe.

Os integrantes são trajados de acordo

palhados pelo país, as figurantes são chama- com suas funções e trazem os atributos que

das Caboclinhas e se vestem com trajes se- lhes são peculiares: estandarte, coroas, ce-

melhantes aos dos antigos autos das Janeiras tros, ventarolas, pandeiros. A Mestra, com

e Reis, do Cciclo Natalino em Portugal. um bastão e um apito, guia os demais figu-

No caso dos Caboclinhos há uma parti- rantes, auxiliada pela Contramestra. O Pai

cularidade: a indumentária recebe, entre se- Velho difere do conjunto com calça e boina

das e fitas coloridas, decoração de penas de brancas e camisa vermelha, portando o ma-

aves domésticas, alusivas à cultura indígena. chado de Xangô.

Flores e folhas também exercem o sentido O estandarte é cuidadosamente restau-

simbólico de identidade com a terra e o rado todos os anos quando a decoração é

meio ambiente. refeita, as franjas e penas são substituídas e

Entre os destaque estão o Mestre ou a a data do ano é atualizada. Ao lado do nome

Mestra, o Contramestre, Rei e Rainha, Por- do grupo permanece a data de sua criação:

ta-Bandeira, Cacique, Pajé, Embaixadores, quanto mais antigo o grupo , maior é o or-

Vassalos e Pai Velho. Há uma flexibilidade gulho dos participantes, que fazem questão

em retirar e incluir personagens, conforme a de destacar a longevidade da organização

vontade do Mestre. Por isso, os grupos mui- nas apresentações.

224 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Personagens de Caboclinho
em evolução
Barra do Camaragibe

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 225


O auto e a função
E ntre as peças mais conhecidas e que

atravessam gerações, merecendo o

registro de pesquisadores, este canto evoca a


Não existe um enredo, como acontece

com alguns grupos que desenvolvem cenas

de lutas e conquista do cetro real, com os fi-


E na despedida, a clássica de quase todos

os folguedos:

Boa noite, meus senhores,

paisagem litorânea da própria região. gurantes munidos de arco e flecha na encena- Caboclinho vai embora.

Tava na beira da praia, ção de pelejas bem engendradas. As peças são Ficará para o ano,

Vendo a maré que fazia. soltas e falam sobre temas diversos, mistura- Se nós vivo for,

Quando eu ia, ela voltava, dos entre si, como a vida do caboclo - a terra, Meus senhores e senhoras.

Quando eu voltava, ela ia. os santos e os pajés, os combates e a valentia O progresso dos passos não ultrapassa a

Dei laço na fita verde, dos nativos. marcha rítmica para frente e para trás. Em

Dei outro na verde rama. Partes soltas da Lira, do Rei Catulé e entre- dado momento, começam a dar uns pulinhos

Benzinho você não sabe, meios de antigos Reisados são incorporados sem sair do lugar, como nas danças indígenas,

Quem é cativo não ama. à folgança entre as peças e embaixadas, sem e sem perder o ritmo. A evolução, contínua,

O grupo sai em cortejo formado em duas nenhuma preocupação com a sequência lógi- discreta, mantendo a recorrência dos passos,

alas. A Guia, Miram, que é também a Rainha, ca de um enredo. Não faltam os pedidos de ainda comporta uma peça de troca de lados,

no centro, puxa as peças e chama os figuran- abrição de portas e as saudações, cantadas na como se os participantes estivessem passean-

tes pelo nome em embaixadas rimadas que chegada ao local da apresentação: do na outra ala. Uma banda de pífano segura

estimulam a dança e mantêm a animação. Boa noite, Caboclinha, a animação.

Boa noite venho dar,

Quero ver tudo animado,

Dentro deste arraiá

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Mané do Rosário com estandarte

Figurantes
Caboclinho
Barra do Camaragibe

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 227


Cambindas
Herança
boreal
A Alagoas do Norte mantém em sua memória um

importante acervo de acontecimentos históricos e

sociais que se perpetuaram no imaginário popular, com-

pondo um vasto repertório de lendas, canções, adágios e

folganças. São resquícios amalgamados da presença de ín-

dios, portugueses, holandeses e africanos. Juntas, essas cul-

turas resultaram em uma mistura étnica e social que deu

origem à criação de núcleos coloniais e à expansão e povo-

amento da região.

Os municípios de Porto de Pedras e São Miguel dos

Milagres, encravados na área litorânea, comprovam essa

resistência histórica, mantendo tradições folclóricas, remi-

niscências de antigos folguedos indígenas e os de matriz

africana. A existência, nas duas localidades, de grupos de

Cambindas representa um alento à manutenção do patri-

mônio vivo em uma área dominada pelo avanço do turismo

exploratório de suas belezas naturais.

Personagens
de Cambindas

228 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


O folguedo tem origem nas celebrações festivas ao Rei do

Congo. O nome Cambindas reporta o auto às reminiscências

de uma região homônima de Angola, que funcionava como

porto por onde embarcaram os negros com destino ao Brasil.

Porto de Pedras, município mais antigo, “uma cidade a

seu modo obediente aos caprichos do rio e às razões do mar”,

como diz Dirceu Lindoso, une-se a São Miguel dos Milagres

por uma rua longa e única, paralela ao mar.

Da mesma forma, a comunidade é também uma só em

todo aquele litoral. Os grupos de Cambindas não fogem a essa

regra geográfica: os participantes chegam de um e de outro

município movidos pela força da história e da tradição oral res-

ponsável por reproduzir costumes típicos da vida praieira.

Além de herdar dos vizinhos do norte o gosto pelo folgue-

do, eles guardam na memória as referências de antigos Mestres,

o que permite a recomposição do auto, especificamente com

base nas formações mais recentes, do século passado.

Em pesquisa realizada na década de 1970, José Maria Te-

nório Rocha levantou antecedentes históricos dos grupos,

chegando à Cambinda Luanda do Mestre Isauro Osório, que

deixou na linhagem de descendentes a Cambinda Nova, do

Mestre Valdir Almeida Lins, seu neto, e a Cambinda do Mestre

Cocó, Cosme Henrique de Oliveira.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 229


A folgança continua
A tualmente, os grupos de Cambinda mantidos em

Porto de Pedras e em São Miguel dos Milagres

saem, no período de Carnaval, com um cortejo de foliões

que acompanham o desfile dançando e cantando junto

com os figurantes.

No Porto, uma das figuras mais conhecidas é a do

Mestre Noa, querido na comunidade pelo temperamen-

to alegre e comunicativo. No comando das Cambindas,

destaca-se pela irreverência de suas peças e rapidez de ra-

ciocínio, improvisando e repassando antigas cantigas que

a memória popular se encarregou de preservar. Os inte-

grantes do grupo, todos do sexo masculino, travestem-se

de mulher, à semelhança do que ocorre na Baiana e no

Samba-de-Matuto.

Em São Miguel dos Milagres as Cambindas saem dan-

çando em cortejo sob a orientação da Mestra Terezinha,

também mãe de santo do terreiro local. Nas apresenta-

ções, ecoa nos quatro cantos da cidadezinha a voz esga-

niçada da Mestra, que é prontamente atendida pelas Cam-

bindas, figurantes mulheres que respondem em coro os

cantos e as embaixadas.

230 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Mestra Terezinha
Cambindas em formação

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 231


Personagens e trajes
O Porta-Estandarte sai na frente, seguido pelo

Mestre, ou Mestra, que alardeia a chegada do

grupo com seu apito estridente. Entre duas alas de

Cambindas, que podem ser homens travestidos ou

mulheres, com roupas semelhantes às das Baianas,

perfilam-se os personagens principais que podem

apresentar alguma variação de grupo para grupo.

Aparecem Rei, Rainha, Embaixadores, ou Embai-

xadoras, Vassalo, Índios, Preto Velho, todos caracte-

rizados e com atribuições próprias. Os grupos mais

tradicionais mantêm a Dama do Paço, integrante que

traz uma boneca representando a figura histórica de

dona Leopoldina.

O Mestre e a Mestra têm a autoridade de se trajar

conforme lhes convém, com roupa comum ou ca-

racterizados, como a Mestra Terezinha de São Miguel

dos Milagres, que vem de saia longa e rodada com o

colorido do seu baianal e um quepe, modelo militar,

com as mesmas cores. Nacionalista convicta, traja o

verde e o amarelo que são extensivos ao seu grupo.

Valorizados como personagens de destaque, estão os

Índios com fartos cocares.


Mestra Terezinha

232 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Cambindas
em evolução
O s grupos dançam ao som de bandas mu-

sicais que tocam ritmos animados, pró-

prios da festa carnavalesca. O cortejo segue em

direção à igreja principal onde está a imagem do

padroeiro, ou padroeira, para as devidas homena-

gens na forma de cantos de saudações. Em se-

guida, encaminham-se para a praça, local da festa,

onde enfim interagem com blocos carnavalescos

e foliões.

Os passos da dança são acrescidos de reque-

brados e trejeitos, enquanto as figuras do centro

fazem as evoluções e cantam peças soltas repeti-

das e sempre presentes nos grupos locais, ou cria-

das pelo Mestre ou pela Mestra.

O Cambindas está entre os autos que perde-

ram o conceito original de reverência aos Reis do

Congo e à tradição trazida pelos negros aqui es-

cravizados. O distanciamento do conteúdo inicial

da folgança tem enfraquecido os grupos a pon-

to de alguns pesquisadores preferirem incluí-lo

como variante do Maracatu.

Personagens
de Cambindas

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 233


Glossário & Bibliografia
Glossário
Abrição – corruptela de abrir. “Abrição de dezembro de 1985, pelos folcloristas Ranil- ou metal representando a forma humana.

porta” é termo usado pelos brincantes para son França e Josefina Novaes, com o objetivo Aparece como fetiche de divindade. Nos fol-

designar a saudação inicial, o pedido de licen- de incentivar os grupos folclóricos tradicio- guedos também representa vultos históricos.

ça para o folguedo se apresentar. nais do estado. A Asfopal foi iniciada com 17 Cordão – grupo de brincantes enfileira-
Adivinhas – perguntas, ambíguas ou não, grupos, entre Guerreiro, Pastoril, Fandango, dos. O mesmo que ala. No Pastoril, no Fan-

de charadas desafiadoras que fazem parte da Coco de Roda etc. dango e em vários folguedos, a formação dos

nossa cultura popular. Auto – representação popular, com cantos figurantes é em dois cordões, fiando no cen-

Antônio Gramsci – filósofo, cientista e danças, tratando de temas religiosos ou pro- tro os personagens de destaque.

social, ativista político italiano. Defendia que fanos. O mesmo que folguedo. Duarte Coelho Pereira – militar e
a escola deve dar acesso à cultura às diferentes Baianal - vocábulo criado pelas brincantes administrador colonial português. Primeiro

classes sociais para que todos pudessem ter de Baiana para denominar o folguedo em que donatário da capitania de Pernambuco.

cidadania plena brincam. Embolada - coco de


Aricuri, ou ouricuri – pal- Brincante – participante de brincadeiras, improviso, também cha-

meira nativa cujas folhas são muito folias tradicionais, folclóricas ou populares. mado coco de repente.

usadas para fazer utensílios artesa- Cafuringa – corruptela de Curinga, fi- Misto de dança e desafio,

nais e que fornecem cocos, peque- gurante que pode desempenhar vários papéis muito popular na região

nos e comestíveis, usados no fabri- em cena, devido à sua versatilidade. Seu cha- nordestina e particular-

co de óleo. péu lembra a forma de um funil. mente em Alagoas.

Associação de Folguedos Po- Caldeamento – mistura, fusão. Entremeio – parte que se inclui no fol-
pulares de Alagoas – criada em 27 de Calunga – boneca de pano, madeira, osso guedo, de permeio, entre suas jornadas.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 235


Ethos – ideias, valores ou crenças caracterís- Prenda – o mesmo que presente, dádiva

ticas de uma coletividade, época ou região. que se oferece a alguém. No Presépio e no

Evolução – movimentos coreográficos Pastoril os torcedores de cada cordão ofere-

de passos, de jogo de corpo, de gestos que cem prendas em dinheiro às pastoras prefe-

acompanham a música e os cantos. Quanto ridas.

mais desembaraço na evolução, mais a apre- Oneyda Alvarenga – intelectual bra-


sentação é enriquecida. sileira ligada ao folclore, à poesia e à música.

Amiga e parceira de Mário de Andrade em

pesquisas sobre a cultura popular.

Peleja de repentistas – contenda em


versos de poetas populares. Perante o público,

Função – na cultura popular, função de- Lusbel – corruptela de Lúcifer, o anjo do a partir de um mote escolhido por um parti-

signa o desenrolar das apresentações dos fol- mal, o demônio. cipante, cada um desenvolve a sua arte provo-

guedos. Quando um grupo folclórico entra Manjedoura – local onde os pastores cando ou respondendo ao rival.

em cena, todos esperam que ele desenvolva colocam comida para os animais. Entrou para Sentinelas – igual a Incelenças, Cantigas
bem a função, isto é, a dança, os cantos e a a história do cristianismo como o local onde de Grandes ou Bendito de Defuntos. Forma

apresentação. Jesus Cristo nasceu. típica de expressão cultural nordestina, e em

Grêmio Guimarães Passos – as- Manobra – movimento coreográfico ar- menor escala de outras regiões brasileiras.

sociação literária fundada em Maceió nos rojado, com idas e vindas que surpreendem Cânticos executados sobre a cabeceira dos

anos 30 do século passado, que congregou os o público. doentes terminais ou dos defuntos.

chamados “Meninos Impossíveis”, jovens ta- Midiático – o que é difundido pela mídia.
lentosos que depois se tornaram grandes no- Refere-se a todo e qualquer suporte de difu-

mes da intelectualidade alagoana e brasileira. são da informação.

Jornada – divisão de peças teatrais, mu- Pertencimento – crença em uma ori-


sicais e autos pastoris desde o século XV. O gem comum entre indivíduos distintos que

mesmo que atos e cenas. É a divisão das di- adotam símbolos que expressam valore e as-

versas partes que compreendem um folgue- pirações. Considerar a si mesmo como mem- Tropel – ruído ritmado provocado pelas

do, podendo ser sequenciada ou solta. bro de uma coletividade. pisadas dos brincantes.

236 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Bibliografia

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