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ARTE DO MARINHEIRO

PESCA
Sumário

1 Introdução ........................................................................................................ 5
1.1 Conceito ............................................................................................................ 5
1.2 Características e empregos dos trabalhos marinheiros ..................................... 6
1.2.1 Trabalhos marinheiros ....................................................................................... 6
1.2.2 Nós e balsos ...................................................................................................... 6
1.2.3 Voltas ................................................................................................................. 8
1.2.4 Botões ............................................................................................................... 9
1.2.5 Pinhas ...............................................................................................................10
1.2.6 Alças .................................................................................................................11
1.2.7 Estropos ...........................................................................................................11
1.2.8 Falcaças ...........................................................................................................11
1.2.9 Gachetas e Coxins ...........................................................................................12
1.2.10 Redes ...............................................................................................................12
1.2.11 Costuras ...........................................................................................................13
1.3 Cabos ...............................................................................................................14
1.3.1 Tipos de cabos .................................................................................................14
1.4 Resistência dos cabos ......................................................................................15

2 Nós e voltas ....................................................................................................16


2.1 Elaboração de voltas simples ...........................................................................16
2.2 Elaboração de nós ............................................................................................17
2.3 Elaboração de voltas ........................................................................................19

3 Arte e aparelhos de pesca .............................................................................21


3.1 A antiga história da pesca ...............................................................................21
3.2 Aparelhos de captura ........................................................................................23
3.2.1 Princípios e fundamentos dos aparelhos de captura ........................................25
3.2.2 Requisitos básicos gerais para o sucesso na captura ......................................26
3.2.3 Comportamento das espécies em relação ao aparelho de captura ..................26
3.3 Componentes dos apetrechos de pesca...........................................................29
3.3.1 Bóias ou flutuadores .........................................................................................29
3.3.2 Chumbadas ......................................................................................................29
3.3.3 Destorcedores ..................................................................................................30
3.3.4 Cabos, linhas e fios ..........................................................................................30
3.3.5 Os anzóis ..........................................................................................................33

4 Aparelhos de captura .....................................................................................36


4.1 Aparelhos com anzóis.......................................................................................36
4.1.1 Caniço ..............................................................................................................36
4.1.2 Vara com isca viva ............................................................................................36
4.1.3 Linha de fundo ..................................................................................................37
4.1.4 Corrico ..............................................................................................................38
4.1.5 Espinhel ............................................................................................................38
4.2 Redes ...............................................................................................................41
4.2.1 Redes de espera ..............................................................................................44
4.2.2 Caçoeiro ...........................................................................................................44
4.2.3 Rede de espera fina .........................................................................................44 3
4.2.4 Feiticeira ou Tresmalho ....................................................................................45
4.2.5 Tarrafa ..............................................................................................................45
4.2.6 Rede de arrasto ................................................................................................46
4.2.7 Picaré ...............................................................................................................46
4.2.8 Arrastão de praia ..............................................................................................47
4.2.9 Gerival ..............................................................................................................47
4.2.10 Arrastão de portas ............................................................................................47
4.2.11 Arrastão duplo ou “double rig” ..........................................................................48
4.2.12 Rede de arrasto gêmea ....................................................................................48
4.2.13 Trawl de parelha ...............................................................................................48
4.2.14 “Seine-net” ou arrasto com cabos .....................................................................48
4.2.15 Arrasto de meia-água .......................................................................................49
4.2.16 Rede de cerco ..................................................................................................50
4.3 Atratores de peixes ...........................................................................................50
4.3.1 Atratção luminosa .............................................................................................51
4.4 Arpão ................................................................................................................52
4.5 Fisga .................................................................................................................52
4.6 Armadilha..........................................................................................................52
4.6.1 Covos ...............................................................................................................52
4.6.2 Cerco fixo ou curral ...........................................................................................53
4.6.3 Cerco flutuante .................................................................................................53
4.6.4 Aviãozinho ........................................................................................................54
4.7 Potes para a captura do polvo ..........................................................................54

Bibliografia .................................................................................................................. 55

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1 Introdução

A vida marinheira requer dos seus participantes um conjunto de trabalhos específicos


para a garantia da segurança da embarcação, da sua carga e dos próprios tripulantes.

Estes são os chamados trabalhos marinheiros ou obras dos marinheiros. Executá-


los, depende de dedicação no aprendizado. O mais importante nesta execução é unir o
fazer ao conhecer. Por isso é que não só os marinheiros, mas os mestres e toda a tripulação
devem imbuir-se dos deveres desta matéria.

Pelo fato de serem trabalhos artesanais, muitos subestimam-nos, sem se


aperceberem de que os trabalhos marinheiros, quando negligenciados, ocasionam perdas
irreparáveis à carga, à embarcação e às vidas humanas.

O valor dos trabalhos marinheiros tem um instimável valor em uma embarcação


pesqueira, pois das suas atividades podem resultar perdas de caríssimos materiais, de
cargas de pescado de grande valor ou, ainda, de preciosas vidas. Basta que não se faça
um nó correto, na hora exata, ou que não se dê os graus de leme requeridos por uma
manobra, para ocorrer um grande acidente.

1.1 Conceito

Os trabalhos marinheiros designam tudo que possa resultar no bom andamento da


vida daqueles que exercem atividades em qualquer tipo de embarcação, entendendo-se
esta como qualquer peça que flutue sobre águas com possibilidade de transportar com
segurança de um ponto a outro, pessoal ou material; essa definição abrange tanto os
grandes navios de passageiros, mistos ou cargueiros, como quaisquer embarcações de
pesca e até as pequeninas canoas ou jangadas. Em grandes, médias e pequenas
embarcações, sempre os trabalhos marinheiros são cabíveis. A arte marinheira é
imprescindível!

O conhecimento dos trabalhos marinheiros somente surte o devido efeito quando


corretamente executados. Por outro lado, quando desconhecidos podem constituir-se em
fator de risco, como mencionaremos a seguir.

Os pequenos nós aprendidos no curso das aulas garantirão muitas vezes a


segurança da embarcação que você poderá vir a tripular e que venha a ser o orgulho da
sua vida profissional. Seja qual for a sua atribuição funcional, garanta o bem-estar e a
segurança por meio de acurada aprendizagem do valor dos nós, voltas, balsos, botões,
coxins e toda a gama de trabalhos marinheiros que você possa aplicar na ocasião adequada.

Vale a pena garantir a segurança da tripulação da sua embarcação, da carga


transportada e acrescentar-lhe estética, pois além da segurança, os trabalhos marinheiros
são também capazes de oferecer expressiva beleza.

Seguem alguns exemplos de trabalhos marinheiros. Visualize-os e peça ajuda ao


seu instrutor para aplicá-los sabiamente.

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1.2 Características e empregos dos trabalhos marinheiros

1.2.1 Trabalhos marinheiros – Por serem muitas as atividades que garantem a segurança
especificada na introdução, apresentaremos por grupos que denominaremos de nós, voltas,
botões, pinhas, alças, estropos, rabichos, gachetas, coxias, redes, costuras, falcaças,
etc.

1.2.2 Nós e balsos – Os nós são entrelaçamentos feitos à mão, emendando cabos pelos
chicotes, pelos seios ou um chicote a uma alça. Nas figuras a seguir vemos o nó direito,
os nós de escota (singelo e dobrado), o nó torto, o nó de correr (ou de pescador), o nó
de moringa, o nó de azelha e o lais de guia. Os balsos que aqui agregamos aos nós,
são destinados a sustentar, içar ou arriar alguém que precise fazer um serviço urgente no
mastro, numa verga, no costado e até para salvar um náufrago. Para tais fins são usadas
suas alças. Os balsos mais usados são: calafate, pelo seio, dobrado, de correr (ou lais
de guia de correr).

Nó direito – por ser um dos nós mais


fáceis de fazer, é usado com muita freqüência
para unir cabos de bitolas iguais, sendo para
isso, o mais seguro dos nós.

Nó de escota singelo – é um nó de muita


segurança, com a grande vantagem de poder unir
cabos de bitolas iguais ou diferentes.

Nó de escota dobrado – é um nó de
escota singelo com o chicote fazendo uma volta
redonda em vez de singela para dar maior
segurança. É usado para emendar duas espias,
epecialmente quando uma delas tem alça.

Nó torto – parece-se com o nó direito,


porém a segunda volta é invertida, tornando-o
desusado por correr e quando aperta não se
desfaz com facilidade.

Nó de correr – é muito útil para


emendar dois cabos, é um nó fácil de fazer,
bastando unir os cabos ou fios e dar uma
meia volta em cada no chicote e deslizar
6 para que as meias voltas esbarrem uma na
outra.
Nó de moringa – serve onde seja
necessária uma alça permanente. Antigamente
era usado para içar barris de água potável e
bujões de gás, entre outros materiais cilíndricos.

Nó de azelha – é uma simples laçada pelo


seio, podendo ser usada para fazer uma
marcação num cabo, ou silar uma parte do cabo
que esteja coçada (ferida em conseqüência de
atrito).

Lais de guia – é um dos mais executados em todas as


Marinhas. Trata-se de um nó que garante uma alça
segura, substituindo a mão ou alça de uma espia. Balso
singelo é o seio ou alça que resulta de um lais de guia.

Balso de calafate – também chamado de lais de guia


dobrado. Como os demais balsos, oferece uma boa opção para
salvamento de um náufrago, bem como para agüentar um homem
que trabalha num costado ou num mastro, podendo ele ficar com as
mãos livres.

Balso pelo seio – também chamado de


lais de guia dobrado. Como os demais balsos,
oferece uma boa opção para salvamento de
um náufrago, bem como para agüentar um
homem que trabalha num costado ou num
mastro, podendo ele ficar com as mãos livres.

Balso dobrado – é um balso com


dois seios formados por duas voltas
redondas com o chicote do cabo antes de
dar um lais de guia. Serve para agüentar um
homem que trabalha no costado ou para içar
um objeto, servindo de estropo. 7
AMN
1.2.3 Voltas – as voltas abraçam objetos; a principal, por ser aquela que usamos na
amarração das embarcações de qualquer porte, é a volta falida. A seguir mostramos a
meia-volta, o cote, a volta de fiador, o catau de corrente, volta de fiel, volta de fateixa,
volta de tortor.

Voltas falidas - são uma série de voltas


alternadas dadas em torno de um objeto, são muito
usadas nas atracações, desde que o cabeço seja duplo.

em cunho em malagueta em cabeços

Meia volta – é a volta dada nos embrulhos,


a qual se dá com o chicote do cabo e pode-se
desfazer facilmente. Serve como base ou parte
de outros nós. Utilizada para impedir que o tirador
de um aparelho de laborar se desgurna.

Cote – é uma volta singela em que uma das partes do


cabo morde a outra; raramente é usado só, serve para arrematar
outras voltas.

Volta do fiador – uma volta que lembra o


número 8. É utilizada em chicote de cabo que
labora em aparelho de força para não o deixar
desgurnir.

Catau de corrente – é uma série


de voltas dadas com o objetivo de diminuir
o comprimento de um cabo que não sofre
esforço.
8
Volta do fiel – são dois cotes dados um contra o outro, de
modo que os chicotes saiam por entre eles e em sentidos contrários.
É a volta mais usada a bordo para se passar um fiel ou uma adriça
em torno de um balaustre, um olhal ou um pé de carneiro.

Volta da fateixa – utilizada para amarrar uma


espa a um ancorote ou um fiel a um balde.

Volta de tortor (ou nó de rabiola, aquele que


prende os papéis que formam a rabiola das pipas. A
volta prende pequenos objetos que queiramos içar, como
por exemplo um pincel para alguém que esteja pintando
um mastro. Serve também para amarração de pranchas
de trabalho no costado.

1.2.4 Botões – Unem cabos paralelamente, formam alças, cruzam cabos, unindo-os.
Dentre os muitos existentes, citamos o botão redondo, o redondo-esganado (reforçado),
o falido, o falido-esganado, o cruzado e o peito de morte.

Na seqüência a seguir observa-se a elaboração de um botão redondo.

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AMN
Botão Redondo

Botão Redondo Esganado

Botão Falido

1.2.5 Pinhas – A pinhas são usadas principalmente como enfeites, embora por vezes
como terminais em cabos de vai-e-vem e como peso para arremesso, o que facilita a
passagem das espias de bordo para o cais, nas atracações. Existem diversos tipos de
pinhas, como exemplos citamos: singela, dobrada, pinha de rosa singela, pinha de
cesta ou de retinida.

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Pinhas de retinida
Pinha de rosa singela Singela Dobrada

1.2.6 Alças – As alças são usadas na atracação para fixação de uma espia no cais. As
alças podem ser feitas de cabos de fibra vegetal ou cabos de arame, por vezes forradas
com percintas de lona ou couro.

1.2.7 Estropos – São arranjos ou alças feitas em cabos resistentes ou em correntes,


destinando-os ao embarque de cargas, geralmente laçando-as ou abraçando-as.

Alceado

Estropo redondo

1.2.8 Falcaças – Ao cortarmos um cabo qualquer, a tendência é que os seus cordões se


desbolinem. Para que isso não ocorra, recomenda-se que se dêem voltas redondas,
mordendo-se o chicote. Estas voltas são feitas com cabos finos, linha de barca ou merlim. 11
Isto é falcaçar um cabo. Os cabos de arame são falcaçados com fios de arame.
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1.2.9 Gachetas e Coxins – São trançados de cordões que têm fins ornamentais e também
são usados para proteção de uma embarcação miúda, em seu içamento, ou ainda como
capachos.

Coxins russo Gachetas

1.2.10 Redes – mesmo sendo de fácil manufatura, as redes hoje em dia são feitas em
máquinas. Antigamente o bom marinheiro possuía os seus moldes e agulhas de madeira,
com os quais teciam redes de proteção para as bordas dos navios, das embarcações
miúdas e outras fortes e grandes, que serviam como estropos.

a) nó de escota

b) agulha

c) início da rede

d) rede pronta

12
1.2.11 Costuras – Muitos são os trabalhos marinheiros feitos com lonas. Chamamos de
forração. Forramos corrimão, alças e cabos fixos. Nas forrações e nas costuras de lonas
usados vários tipos de pontos de costura.

Ponto de palomba

Ponto de bigorrilha pelo redondo

Ponto de bigorrilha chato (cosido por dentro)

Ponto de espinha de peixe

Ponto esganado (em dois movimentos)

13
AMN
1.3 Cabos

1.3.1 Tipos de cabos

Saber manusear os cabos é garantia de uma embarcação bem amarrada, de uma


carga bem peada.

Os cabos, quanto à natureza de suas fibras, podem ser:

• Vegetal – quando desfiamos certos vegetais como o sisal, cânhamo, linho,


algodão, coco, juta e outros, torcemos as fibras, formamos os fios de carreta. Ao
torcermos os fios de carreta formamos os cordões e ao torcermos os cordões
formamos os cabos. Medimos o cabo de vegetal pela sua circunferência e em
milímetros. Assim dizemos “a bitola do cabo é de tantos milímetros”.
• Sintético – de matérias plásticas artificiais e que podem ser esticadas em forma
de fios. É mais resistente que o vegetal, sendo de aparência muito mais
apresentável. Existem vários tipos de cabos de matéria plástica, sendo o nylon o
mais conhecido.
• De arame – a formação dos cabos de arame difere bastante da que se faz com
fibra vegetal, uma vez que compõe-se apenas de fios torcidos e isto não pode
ser feito de forma manual. Mesmo assim o cabo de arame, também chamado de
cabo de aço, é o mais resistente. Medimos o cabo de arame pelo seu diâmetro
e em polegadas. Assim dizemos “a bitola do cabo é de tantas polegadas”.
• Mistos – em certas operações especiais, como em alguns reboques, é preferível
usar-se um cabo misto, isto é, parte de arame e parte de fibra vegetal.

Cabo solteiro – O cabo que para muitos é um cabo inútil, torna-se um cabo de
multiuso. Os cabos solteiros não têm especificação de comprimento ou bitola. Seja como
for, se o cabo não tiver uso determinado, ele passa a ser um cabo solteiro. O uso dos
cabos solteiros deve ser feito depois de conhecermos a sua resistência, isto é, se ele
resiste ao esforço que dele precisamos.

Os cabos, matéria-prima mais importante em quase todos os trabalhos marinheiros,


têm as suas pontas denominadas chicotes (“1” e “2”) enquanto que o espaço
representado por “3” é chamado de seio do cabo.

1
2

3
Este mesmo cabo, se for usado para amarrar uma pequena embarcação ao cais,
deixa de ser solteiro para ser um boça. E, se usado para vestir uma talha, passa a ser
14 chamado beta e o seu chicote, onde se exerce a força para içar o peso, recebe o novo
nome de tirador.
1.4 Resistência dos cabos

Nos diversos trabalhos marinheiros, como os nós e voltas, a resistência dos cabos
é enfraquecida pelo uso. Isto ocorre porque, ao mudarmos a direção de uma força, ela se
enfraquece naturalmente. Como exemplo, podemos observar que em cabo de guerra, a
recomendação é que o grupo não mude a direção, mantendo-o em linha reta. Abaixo
apresentamos a tabela de resistência de alguns nós e voltas, com base no trabalho
apresentado pela “Columbian Rope Company, Auburor, N.Y., EUA.

Tabela de resistência de alguns nós e voltas

Tipos de nós e voltas Resistência

Cabo úmido Aumenta a resistência para 111%

C a b o se co 100%

Costura de mão, úmida 100%

Costura de mão, seca,


Reduz para 95%
em sapatilho

Costura redonda Reduz para 85%

Volta de fateixa Reduz para 76%

Lais de guia Reduz para 60%

Volta de fiel Reduz para 60%

Nó de escota Reduz para 55%

Nó de direito Reduz para 45%

Meia volta Reduz para 45%

Pela tabela acima, podemos tirar as seguintes conclusões:

a) os cabos umedecidos são sempre mais resistentes que os secos;


b) as costuras são mais resistentes do que as voltas e os nós; e
c) os nós são os menos resistentes de todos os trabalhos marinheiros.

Diante destas conclusões recomenda-se que não sejam usados cabos emendados,
pois além do enfraquecimento produzido pela emenda, ainda somam-se os desgastes 15
naturais dos cabos usados. AMN
2 Nós e Voltas

2.1 Elaboração de voltas simples

Nesta Unidade você está convidado a exercitar-se, fazendo alguns nós e voltas
que você já viu anteriormente. Para estes treinamentos, prepare uma linha de barca de
40 milímetros de circunferência com 1,20 m de comprimento, falcaçando os seus
chicotes, a fim de que não descochem.

Preparou? Muito bem, vamos à ação.

Façamos a meia-volta:

1º) Estique a linha debarca e cruze os chicotes, como o cabo da figura

2o) Agora faça com que o chicote que está por cima dê uma volta sobre a outra
pernada e, pronto. Assim, se você o apertar, fará um esbarro que impedirá que o tirador
de um aparelho se desgurna. Você também acabou de aprender a primeira parte do nó
direito.

Agora o desafio é fazer um cote. Também é fácil. É quase o mesmo que a meia-
volta; apenas você terá o cuidado de, ao dar o segundo passo da meia-volta, em vez de
abrir os dois chicotes, colocá-los paralelos. Nunca devemos arrematar um trabalho
marinheiro fazendo apenas um cote, pois não daria a segurança esperada. Faça dois ou
três cotes.

16
2.2 Elaboração de nós

Nó direito

É importante não apenas saber fazer um nó, mas também identificar a utilidade
deles no dia-a-dia do marinheiro.

Embora seja um nó que enfraqueça o cabo em 55% da sua resistência, o nó direito


é bastante usado para unir cabos de bitolas iguais. É extremamente fácil de fazer e também
de ser desfeito. São apenas duas meias-voltas superpostas.

Veja como é fácil: é só fazer o chicote “a” seguir o trajeto da linha pontilhada
passando por cima e, em seguida, por baixo da parte “b” do cabo.

Lais de guia

Com o lais de guia, chamado de “rei dos nós”, confeccionamos uma segura alça
provisória em uma espia, uma aboçadura em substituição a um balso, ou então qualquer
outro serviço em que se precise de alça.

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AMN
Tente fazê-lo conforme a figura e depois pratique. Basta fazer o chicote “a” percorrer
o caminho da linha pontilhada passando por baixo da parte “b” e depois por dentro do
seio “c”.

b
a

Aboçadura

As aboçaduras são usadas para unir boças ou espias com rapidez e segurança.
Elas podem ser elaboradas com dois lais de guia ou com vários cotes em cada um dos
chicotes. Veja como é fácil e prático.

Aboçadura com lais de guia

18
Aboçadura com cotes e botões
Nó de correr

O nó de correr ou de pescador consiste na união de dois chicotes paralelamente,


dando-se uma meia volta em cada um deles, abraçando um ao outro. Serve para unir
cabos finos e até linhas finas, daí o nome de nó de pescador.

2.3 Elaboração de voltas

Volta de fiador

Serve de distintivo para o contramestre e do mestre. Semelhante a um número


oito, é usado no chicote do tirador dos aparelhos de içar, para que não se desgurna. Para
essa finalidade, é melhor que a meia-volta porque não fica mordido e se desfaz facilmente.

19
AMN
Volta de fiel

Pode ser feita em volta de uma viga horizontal ou vertical. É usada a bordo sempre
que queremos fixar rapidamente um cabo a qualquer parte do navio. Quando necessário
é arrematada com um ou dois cotes.

Você pode fazê-la em torno de qualquer objeto cilíndrico ou na sua própria mão. Olhe
para a figura apresentada em três tempos e faça-a vagarosamente. Esta é aquela volta que
o cavaleiro faz para amarrar seu cavalo nas estacas da cerca. Insista em aprendê-lo.

Volta da encapeladura singela

Assemelha-se a um nó-de-borboleta (de gravata). É fácil de fazer e serve para a


improvisação de alças na fixação de cabos de sustentação de mastros. Sua parte central
é encaixada no tope do mastro.

Faz-se duas meias-voltas, segurando uma em cada mão e encaixa-se lateralmente


uma a outra, apertando-as e puxando-se os seios para os lados opostos.

Depois de feito isto, encaixamos a sua parte central em uma viga e teremos assim
duas alças onde podemos fixar um aparelho ou dois cabos que queiramos fixar lateralmente.

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3 Arte e aparelhos de pesca

3.1 A antiga história da pesca

Há indícios que o homem da Idade da Pedra já consumia pescado, usando técnicas


primárias, como lanças e pedras, na captura do pescado. A pesca era realizada nas margens
e o produto era consumido pelo próprio pescador ou era distribuído para a comunidade
logo após a captura. Não era necessário, portanto, conservar a carne e a quantidade
pescada era, basicamente, a que seria consumida.

Os tempos passaram e o homem fixou sua moradia, domesticou animais, constituiu


família e construiu meios de transportes. Os utensílios dos pescadores (cordas, redes e a
própria roupa de pesca) eram tingidos com uma tintura de mangue, marrom-ferrugem.
Com as canoas o homem se afastou um pouco mais das margens e aprendeu a conservar
a carne e a aumentar a quantidade dos pescados capturados usando tarrafas e redes.

A guerra, a fome e as pestes também foram inventadas. A busca pelos pescados


cresceu. Países como a Suécia ainda mantém uma tradição de seus antepassados e
consomem peixe apodrecido, outros, como a Noruega, exportam peixes salgados.

As embarcações foram usadas para descobrir outras terras pelos europeus e durante
essas viagens encontraram, como temiam, animais monstruosos, como baleias, tubarões,
polvos gigantes, marlins etc.

Nos dois primeiros séculos de descoberta, o Brasil era explorado por naus e
caravelas européias e frágeis canoas dos tupi-guaranis. No terceiro século houve a
introdução em massa da raça e cultura negras. As embarcações eram de propulsão natural
(remo, vela e vara) e circulavam em todas as direções. Com a introdução do vapor, no
final do século passado, a propulsão natural foi substituída. Na costa, a cabotagem passou
a ser também realizadas por embarcações a vapor (européias). Na Amazônia, as canoas
cobertas e igaratés davam lugar às gaiolas norte-americanas e inglesas.

O investimento em pesquisas melhorou o desempenho do homem no mar. A


mudança no tipo de malha das redes (sintéticas), a mecanização da pesca (guinchos e
roldanas), a introdução de métodos de conservação (gelo e congelamento) e equipamentos
eletrônicos (radar, ecossonda, rádio, sonar) transformaram o homem em um grande
conhecedor do mar e o resultado disso está na evolução da quantidade de pescado
capturado no século passado.

Produção mundial de pescado

Quantidade
Ano
(milhões de Toneladas)
1946 22
1970 75
1995 93 21
AMN
Em 25 anos, de 1946 a 1970, houve um crescimento de 340% ou 6% ao ano. Para
o ano de 1995, o crescimento foi de 0,9% ao ano. A estimativa, a partir desses números
nos leva a crer que, para 2010 a produção vai oscilar entre 85 a 110 milhões de toneladas.

Os motivos para esta estagnação na produção mundial de pescado através da


pesca são muito claros:

• esgotamento dos estoques (sobrepesca);


• são exploradas comercialmente 9.000 das 20.000 espécies conhecidas;
• somente 22 espécies tem produção acima de 100 mil toneladas/ ano; e
• 90% da produção mundial ocorrem em 3% da área total dos oceanos.

Estes fatores demonstram que, na verdade, os oceanos são verdadeiros desertos


com pequenos oásis, e não o celeiro inesgotável de alimento que se pensava outrora.
E talvez por se pensar desta forma, durante muitos anos não havia a preocupação de se
controlar o esforço de pesca empregado sobre os estoques, isto é, a quantidade de barcos,
apetrechos e homens pescando o mesmo tipo de pescado. Desta forma, os principais
recursos pesqueiros estavam em sobrepesca, como foi o caso da sardinha no sudeste, a
lagosta e o pargo no Nordeste, dentre outros.

Um levantamento sobre a situação dos recursos pesqueiros mundiais realizados


pela FAO revela que nas quinze principais zonas de pesca, existe uma tendência negativa.
Na última revisão de 2.000, constatou-se que cerca de 50% dos recursos estão sobre-
explorados, 25% correm risco de colapso e os outros 25% poderiam resistir a capturas
mais elevadas.

Para o setor pesqueiro restam as alternativas de uma pesca responsável nos


estoques já explorados, na redução da fauna acompanhante (principalmente nos
arrasteiros), no controle da poluição, na exploração de novas áreas (principalmente em
pescarias de profundidade), exploração de novas espécies e no cultivo dos organismos
vivos aquáticos (aqüicultura).

3.1.1 Definições

Compreende-se por pesca, todo ato tendente a capturar ou extrair elementos


vivos, animais ou vegetais que possuam na água o seu normal ou mais freqüente
meio de vida.

A pesca foi classificada quanto à finalidade em que o pescado será utilizado.

Tipos de pesca Descrição

O pescado é capturado por pessoas ou entidades devidamente


Científica
autorizadas para fins de pesquisas.
Q ua nd o r e a li za d a c o m o b je t i vo d e c o m p e t i ç ã o ; o a ni m a l
Amadora
capturado é devolvido ao mar ou consumido pelo desportista.
O pescado é capturado para ser vendido a um consumidor ou
Comercial
22 a empresa para ser indutrializado.
Na pesca comercial, o modo como é capturado esse pescado implica numa
subdivisão:
organizada
artezanal
não organizada
Pesca comercial
empresarial
A pesca artesanal é realizada na área litorânea ou costeira por pescadores
profissionais e autônomos, embarcados ou não. Os peixes são capturados principalmente
com rede de espera, rede de arrastão de praia, espinhel, linha de fundo, tarrafas etc.

Diz-se que a pesca artesanal é não organizada quando realizada por pescadores
autônomos, ou que recebem ajuda de familiares. E organizada, quando feita por pescadores
unidos em colônias, associações, cooperativas de pesca ou ainda em regime de parcerias
com outros pescadores.

Os problemas pelos quais a pesca artesanal está passando não são atuais e vêm
sendo discutidos através dos anos. A desorganização é um dos pontos principais, entre
os pescadores artesanais, acarreta a dificuldade de acesso ao crédito (na venda do gelo,
óleo, etc), no baixo nível de instruções, na falta de tecnologia e apetrechos de pesca mais
atuais, na dificuldade de vender os produtos, na degradação dos ecos-sistemas costeiros
(mangues, praias e lagoas) com o lixo doméstico, no aumento da especulação imobiliária,
no desmantelamento das vilas de pescadores com o crescimento desordenado da poluição
agrícola, urbana e industrial, e por fim, o início da pesca predatória.

3.2 Aparelhos de captura

Os pescadores estão divididos também pela área de atuação, que têm em cada
tipo uma tecnologia correta e específica de aplicação. As áreas são:

Tipos Áreas

Litorânia (entremares), conteira(plataforma continental)


Marítima
e oceânica (além da plataforma).

Estuária Mangues e foz de rios.

Interior Lacustre (lagos,açudes,etc) e fluvial (rios).

Os mares são subdivididos em zonas e áreas. Conhecer como a interferência da


maré, da lua, da profundidade e até das chuvas atuam nessas áreas são de grande
importância para os que se aventuram a pescar para além da costa. Afinal, as espécies
de cada região são completamente distintas, tanto na parte física quanto no método de
captura.

23
AMN
A massa de água dos oceanos é dividida em zonas distintas, onde as formas de
vida mudam quase que radicalmente. O sistema de zoneamento ocorre tanto no sentido
horizontal como no vertical.

No zoneamento horizontal, que vai da costa para o mar aberto, a distribuição da


fauna e da flora depende essencialmente da temperatura da água e da quantidade de
alimento disponível. Quanto mais nos afastamos da costa, que é a verdadeira fonte de
nutrientes, menos comida estará disponível para a manutenção da vida.

No zoneamento vertical, que vai da superfície da água até o fundo do oceano, a luz
do sol é a responsável pelas formas das espécies. A penetração solar pode chegar até
100 metros de profundidade no máximo, dependendo da claridade e transparência da
água, que, por sua vez, é afetada pela quantidade de substâncias minerais e orgânicas
dissolvidas, bem como pelo plâncton e outras partículas suspensas.

Ao saber a profundidade, o profissional da pesca saberá quais são as espécies


daquela região. Ela se divide em Pelágica, área entre a superfície e meia água, e em
Demersal regiões mais fundas.

Zona Nerítica

É a f a i xa d o o c e a n o q u e e s t á e m c i m a d a p l a t a f o r m a c o n t i n e n t a l c o m u m a
profundidade média de 200 metros, sendo, portanto, a região mais próxima da costa,
a zo na c o m ma i o r q ua nti d a d e e va ri e d a d e d e vi d a . A ma i o ri a d o s p e i xe s q ue
conhecemos habitam essa zona, aqueles mais importantes para a pesca comercial
e esporti va. E sta zona neríti ca, que está totalmente dentro das águas terri tori ai s
brasileiras, pode, ainda, ser subdividida em duas regiões: a Zona Litorânea, entre
as linhas de maré alta e baixa, e a Zona Costeira, da linha de maré baixa para fora.

Zona Pelágica

Está situada acima da planície abissal e tem uma profundidades de 0 e 200 metros.
É a região mais afastada da costa e os peixes que lá vivem, chamados de oceânicos,
são importantes para a pesca comercial e oceânica. Aqui está incluída parte das águas
territoriais e todas as águas internacionais

Essas informações influenciam na escolha dos materiais e equipamentos a serem


utilizados na confecção dos aparelhos de captura.

24
3.2.1 Princípios e fundamentos dos aparelhos de captura

Nas tabelas a seguir, apresentamos os princípios e fundamentos de que se utilizam


os apetrechos de pesca na captura do pescado. Alguns aparelhos de pesca baseiam-se
em mais de um fundamento.

Princípio Exemplos de pescado


Lula (Zangareio)
Luminosa Agulha (Puçá)
Meka (Light Stick)
Peixe Voador (Óleo)
Tubarões (Sangue)
Gustativa Siri (Peixe ou Tripas)
Atração Peixe-Porco (Puçá)
Peixes Demersais (Iscas)
Linha Pargueira
Linha de Corso Carnívoros (Isca Artificial)
Visual
Espinhéis Bonito (Isca Viva)
Puçás
Armadilhas Polvo (Potes)
Lagosta (Manzuá)
Comportamental
Pitu (Pneu)
Dourado (Atratores)
Tainha (Curral)
Encurralamento Fixo
Currais
Armadilhas
Móvel Trilha (Armadilha)

Camarão (Arrasto de Fundo)


Filtração Ativa
Sardinha (Rede de cerco)
Tarrafa
Arrastos Robalo (Lance)
Redes de Emalhe
Corvina (Rede de Espera)
Rede de Cerco Passiva
Tainha (Tribobó)

Princípio Exemplos de pescado

Lesão direta Pirarucu (Lança)


Flexa e Lanças
Baleias (Arpão)
Bicheiros
Pesca Submarina Marlins (Bicheiro)

Atemoriz ação Tainha (Lance)

Plantas Ictiotóxicas (Timbó)


Produtos Químicos
Narcotiz ação
Desoxigenação
Veneno Animal
25
AMN
3.2.2 Requisitos básicos gerais para o sucesso na captura

• Possuir o aparelho adequado à pesca desejada;

• conhecer a biologia e os hábitos da espécie alvo;

• em pesca embarcada, possuir conhecimentos de navegação;

• estar em dia com a legislação em vigor;

• ter noções de primeiros socorros;

• conhecer o funcionamento do apetrecho; e

• saber realizar os reparos no apetrecho de pesca.

3.2.3 Comportamento das espécies em relação ao aparelho de captura

Zonas correspondentes aos grupos ecológicos:

• Zona A » zona bentônica até 0,5 m sobre o fundo.

• Zona B » zona demersal, até 20 metros sobre o fundo.

• Zona C » zona pelágica.

PELÁGICOS
(Sardinha, anchova, dourado,
atum, agulhão, xaréu, cavala,
tubarão, lula)

10 m
DEMERSAIS
(Corvina, pescada, bagre,
pargo, garoupa, mero,
merluza, badejo)
0,5 m
BENTÔNICOS
(Linguado, arraia,
crustáceos, polvo)
26
Grupos Ecológicos:

• Grupo A » peixes bentônicos que repousam ou enterram-se no fundo.

• Grupo B » peixes demersais, que vivem perto do fundo.

• Grupo C » peixes pelágicos (peixes de passagem).

A divisão mencionada não é exata, ainda que está baseada em hábitos dos peixes
que vivem nas zonas estabelecidas.

Tendências gerais que definem o comportamento de vários tipos de um mesmo


grupo ecológico:

Grupo Direção de fuga (reflexo) Respostas mais frequentes

Geralmente para baixo Saída do centro do distúrbio, para adiante


A
(forma do corpo) e para baixo, enterrando-se.
Geralmente para baixo Saída do centro do distúrbio radicalmente,
B
(forma do corpo) às vezes para baixo.
Para baixo ou para cima Saída rápida em um plano vertical ou
C
(depende da espécie) horizontal.

Ponto de fadiga:

Velocidade máxima Distância máxima


Grupo
p o r seg u n d o ao ponto de fadiga
5 vezes o comprimento 40 a 60 vezes o comprimento
A
do corpo do corpo
6 vezes o comprimento 150 a 250 vezes o comprimento
B
do corpo do corpo
6 a 8 vezes o comprimento 300 a 1100 vezes o comprimento
C
do corpo do corpo

27
AMN
Possíveis comportamentos de peixes frente a uma rede de arrasto

28
3.3 Componentes dos apetrechos de pesca

3.3.1 Bóias ou flutuadores

Elas estão nas redes, ancoradas no mar ou ainda em outros métodos de captura
do pescado, afinal as bóias servem para indicar a posição e facilitar ao pescador a avistar
seus instrumentos. Pela importância e responsabilidade durante a pesca, o flutuador deve
ter alguns requisitos:

• grande flutuabilidade;

• resistente à pressão;

• impermeável;

• baixa resistência hidráulica;

• boa resistência à abrasão ou impacto;

• baixo peso;

• facilidade de manufatura e modelagem; e

• facilidade de aquisição e baixo custo.

O material no qual a bóia é confeccionada influencia e muito nos resultados finais.


A bóia pode ser:

• natural (Bambu, Cortiça, Pau de Jangada); ou

• sintética (Isopor, Borracha, PVC, Poliuretano, Fibra de Vidro, Vidro, Metal)

Material Densidade Material Densidade


Cortiça 0.18 Areia 2.8
P au d e
0.30 Cimento 3.0
Jan g ad a
Bambu 0.50 Latão 7.82
Isopor 0.28 Ferro 7.86
Pedra 2.6 Chumbo 11.34

3.3.2 Chumbadas

A função da chumbada é manter a estrutura e a posição do apetrecho. Os requisitos


são poucos, mas imprescindíveis para se ter sucesso no lançamento, por exemplo, da
rede ao mar. 29
AMN
• Grande capacidade de afundamento – elevada densidade;

• resistência à corrosão;

• fácil manufatura e modelagem; e

• fácil aquisição e baixo custo.

3.3.3 Destorcedores

Servem para impedir que o cabo se arrebente por causa da torção e funcionamento
com intermediador nas ligações de cabo. Existem vários modelos e tamanhos que devem
ser utilizados em função da pescaria a ser realizada. Quase todos são confeccionados de
latão, mas há modelos de aço-carbono.

3.3.4 Cabos, linhas e fios

Para facilitar a escolha da linha de pesca, devem ser consideradas as espécies


que serão capturadas, o local de pesca e o equipamento a ser utilizado. Os cabos, fios e
linhas têm que apresentar qualidades como:

• resistência à ruptura, impacto e atrito;

• elasticidade - Coef. Elasticidade = (Comp. Linha Ruptura/ Comp. Cabo Repouso);

• flexibilidade;

30 • resistência a agentes atmosféricos e químicos;


• resistência à ação de microorganismos;

• baixo grau de retenção de água;

• coloração e densidade adequadas;

• uniformidade; e

• baixo custo e fácil acesso.

Material dos cabos, linhas e fios:

Vegetal - linho, Sisal, Algodão, Cânhamo


Natural Animal - Seda, Pelo
Mineral - Cobre, Ferro, Aço.
Polimida (PA)
Politileno (PE)
Polipropileno (PP)
Sintético Poliéster (PES)
Cloreto de Polivinil (PVC)
Cloreto de Polivinilideno (PVD)
Álcool Polivinil (PVA)

O número de fios primários interfere na tensão que compõem os cabos, fios e


linhas. Existem os monofilamentos e os multifilamentos.

Os monofilamentos são fios de filamento único, com força suficiente para suportar
determinadas tensões. A tabela abaixo apresenta a resistência de fios monofilamento.

Diâmetro (mm) Resistência (Kgf) Metros por Kg


0.25 3.60 17.6
0.35 5.85 9.05
0.45 9.55 5.65
0.60 16.7 3.15
0.70 21.8 2.20
0.80 27.8 1.80
0.90 34.0 1.35
1.00 40.4 1.10

Os monofilamentos sintéticos têm uma propriedade denominada “memória”, ou seja,


possuem uma tendência da linha voltar a sua posição original após ser esticada ou enrolada. 31
AMN
Problemas apresentados pelos monofilamentos:

Sintomas Causa aparente Recomendações


Rachaduras ou abrasão. S e a Retire a parte da linha
superfície estiver lisa e brilhante, estragada, ou troque-a
a linha pode estar fatigada. com mais freqüência.
A linha se rompe mesmo
submetida a baixa tensão. S e a superfíci e esti ver opaca,
desbotada e áspera provém do
Troque a linha.
us o i nt e ns o o u e xp o s i ç ã o
excessiva ao sol.
Linha guardada em local muito
Troque a linha e o local
A linha fica dura e se alonga. q u e n t e o u e s t r a g a d a p o r
de guardá-la.
produtos químicos.
L i nha b o b i na d a c o m e xc e s s o Use menor tensão ao
de tensão. bobinar.
A linha tem dobras e locais
achatados. Ti r e a p a r t e d a li nha
Linha bobinada há muito tempo
dani fi cada do carretel
sem ser usada.
e molhe-a com água.
U s e um a l i nha m a i s
E s p i r a i s e m e x c e s s o e A li nha é mui to grossa para o
f l e xíve l o u d e m e no r
cabeleiras no lançamento. carretel usado.
diâmetro.
A li nha e nd ur e c e e f i c a
Linha guardada em local muito Troque a linha e o local
quebradiça, a superfície fica
úmido e/ou quente. de guardá-la.
seca e esfarela como giz.
A li nha p a r e c e e s ta r b o a ,
Usando linha muito fina para as U t i l i z e l i n h a m a i s
m a s p e r d e m - s e m ui t o s
condições. resistente.
peixes.
A l i n h a e s t á o p a c a d e vi d o à
excessiva exposição ao sol. Troque a linha, passe a
A linha é difícil de ser vista.
usar linha mais visível.
Usando cor errada de linha.

Nos multifilamentos os fios são torcidos ou trançados por um conjunto de fibras


contínuas com diâmetro menor que 0.07 mm. Quanto à numeração dos fios, existem
vários padrões de medidas, mas as mais usuais, e utilizadas em nosso país são: o Tex e
o Td (Denier).

O Tex é a massa em grama de 1.000 metros da fibra primária do fio, por exemplo,
23 tex significam que 1.000 m da fibra primária pesam 23 gramas. Já o Rtex indica o peso
em grama de 1.000 metros do produto final. O Denier é o peso em gramas de 9.000
metros de fibra primária, por exemplo, Td 210 significa que a fibra primária de 9.000
metros pesa 210 g.

Um fio de número 210/18 é composto de 18 filamentos e que cada filamento que


32 compõe o cordel tem 210 Denier, ou seja, 9000 metros e pesam 210 gramas. Quanto
maior o número do fio maior será a quantidade de filamentos e maior será o seu diâmetro.
3.3.5 Os anzóis

Existem milhares de tipos de anzol, de várias formas, mas que devem ter as
seguintes características como requisitos básicos:

• Resistente à corrosão;

• resistente à deformação de ruptura (Flexibilidade x Dureza);

• fácil penetração;

• adequação à espécie e ambiente; e

• fácil aquisição e baixo custo.

Ângulo do olho

1 2 3

1. Fechado
2. Reto (de uso geral)
3. Aberto (comum em anzóis
de pesca com mosca)

33
AMN
Formato do olho

é o modelo mais comum, é possivel


argola
atá-lo com diversos tipos de nós.

agulha mais utilizado em pesca oceânica.

pata transmite mais sensibilidade à linha.

Haste

1. Longa
2. Standard
1 2 3 4 3. Curta
4. Farpada

Tratamento

Oxidação Cadmiação

Niquelação Estanhagem

Coloração
Douração
quimica

34
Tamanho

O número que define o tamanho de um anzol é usado individualmente por cada


fabricante. A escala mais comumente usada em pesca esportiva é a da Mustad. O tamanho
do anzol é inversamente proporcional a numeração do mesmo, até o número 1. A partir
deste tamanho, a razão é proporcional e a numeração é acrescida de /0.

0 cm

1
2

3
10/0 9/0 8/0 7/0 6/0
4
5
6
7
1/0 2/0 3/0 4/0 5/0
8

9
2
10 4
11 6
8
10 12
12
1 3 5 7 9 11

Classificação dos anzóis quanto ao ângulo de torção:

• Direito;

• Torcido; e

• Invertido.

35
AMN
4 Aparelhos de captura

4.1 Aparelhos com anzóis

O caniço, a vara com isca viva, a linha de fundo ou linha de mão, o corrico ou linha
de corso e o espinhél, que pode ser fixo, flutuante ou de fundo (tipo pargueira) são os
aparelhos com anzóis mais conhecidos.

4.1.1 Caniço

O caniço é um instrumento de pesca usado por pescadores do litoral, seja na pesca


de interior como marítima, na captura de peixes de espécies costeiras. O caniço se divide
em quatro partes:

• Vara – geralmente bambu do reino, de 3 a 5 metros de comprimento. Existem no


mercado varas mais sofisticadas de fibra de vidro e equipadas com molinete
(que facilita bastante o lançamento e o recolhimento da linha).

• Linha – em geral de monofilamento de nylon, com 3 a 6 metros de comprimento


e um diâmetro está diretamente ligada às espécies a serem capturadas.

• Alça – pequena volta de arame de aço inox preso a parte superior da vara para
prender a linha.

• Anzol – o tamanho varia, escolhido conforme as espécies que deseja capturar.

4.1.2 Vara com Isca viva

A vara com isca viva é um método muito


antigo usado pelos japoneses na captura de
atuns, cavala e o bonito de barriga listrada. Esse
tipo de pesca só chegou ao Brasil em 1972. Ao
encontrar um cardume, a embarcação pára e
4,5 a 6 m

joga alguns peixes vivos na água (peixes jovens


de sardinha, manjuba, xixarro, etc) para atraí-
etros (B

los. Na borda do barco, os pescadores com


varas, linhas e anzóis lançam-nas em cima do
cardume. Os anzóis são cobertos por uma
ambu)

imitação de penas de ave para atrair o peixe e


não possuem farpa.

Anzóis e vara utilizadas


na pesca com isca viva.

36
4.1.3 Linha de fundo

A linha de fundo, a linha de mão ou linha pargueira é um aparelho de pesca muito


usado na captura de peixes de fundo e possui os seguintes componentes:

• Linha – nylon monofilamento. O objetivo é dar a profundidade devida (varia de


50 a 300m) ao aparelho.

• Alça – Pode ser de nylon monofilamento ou de arame de aço inox.

• Chumbada – Geralmente é de chumbo ou de ferro com peso de 300 a 2000


gramas, conforme a profundidade e a corrente de água.

• Anzol – variando conforme a espécie procurada. Quando uma linha tem vários
anzóis, dá-se o nome de pargueira (pesca do pargo, que vive em cardumes,
possibilitando capturar mais de um durante a pesca), a linha tem de 5 a 15 anzóis.

• Iscas – sardinha, agulha preta, lula, camarão etc.

1 Alça

2 Linha Mestra

3 Distorcedor

1 4 Linha de Anz ol
2
3
5 Anz ol

6 Linha de Chumbada
4
5
7 Chumbada

2
3
4

Detalhe de uma linha pargueira 37


AMN
4.1.4 Corrico

O corrico ou a linha de corso é um aparelho


levado a reboque pela embarcação. É indicado para
a captura de peixes pelágicos como a cavala, xeréu,
enchova, carapau, dourado etc. As embarcações
têm longos tangones com uma espessura delgada,
onde se prendem várias linhas (100 a 300m). Os
outros componentes são o destorcedor, a alça (arame de aço inox), o anzol, as iscas
artificiais e algumas penas de aves ou palha de milho, ou filé de sardinha ou peixe-voador.

4.1.5 Espinhéis

O espinhel flutuante, também conhecido como “long- line” ou oceânico, é utilizado


para a captura dos peixes pelágicos (atuns, agulhões, cavalas, cações e meka). É composto
por várias secções, ligadas umas às outras. Cada secção ou samburá é formada por:

• linha mestra (principal ou madre);

• linha secundária (burã);

• destorcedor;

• arame revestido (sekyama);

• alça de arame (estropo);

• anzol; e

• iscas, mais usadas são a sardinhas, a cavalinha e a lula.


38
Espinhel Pelágico

De cada união das secções saem as linhas secundárias, nas extremidades prendem-
se bóias de plástico com 300mm de diâmetro (flutuabilidade de 15 Kgf). Nas duas
extremidades do aparelho são colocadas bóias luminosas, sendo que em uma delas é
fixada uma bóia rádio para facilitar a sua localização, uma vez que, tanto o barco quanto
o aparelho ficam à deriva, expostos às correntes marítimas e ventos durante toda a
operação de pesca.

O espinhel fixo é mantido ancorado com poitas (arinques) e sustentado por bóias
(para localizar o espinhel). Tem uma linha (madre), da qual partem estropos que se
prolongam por alças de arame de aço ou latão, trazendo na sua extremidade livre o anzol.

Na linha principal, as extremidades estão presas aos cabos que ligam as bóias às
poitas. O número de anzóis varia conforme o local da pesca. Para os espinhéis com mais
de 50 anzóis, deve-se colocar poitas intermediárias (para sustentar o aparelho).

A operação é simples, precisando apenas de uma embarcação pequena como


canoa, caíque ou bote motorizado. A isca pode usar a sardinha, lula ou peixes de pequeno
valor comercial.

O espinhel de fundo para tubarão se diferencia dos demais por apresentar garatéias
em suas extremidades e apresentar a linha principal próxima ao fundo. As linhas secundárias
são mais curtas (cerca de 4 metros), e assim como em espinhéis oceânicos, são reforçadas
com estropos em aço mole. Para isca, além das tradicionais, utiliza-se talhos de raia, pois
além do baixo custo e facilidade de encontrá-las, possuem grande rigidez muscular e
liberam sangue (estimulo olfativo).

Já o espinhel de fundo para peixe possui uma linha secundária de apenas 1m e


pode vir a ter estropo ou não, dependendo da espécie visada. O espinhel para peixe fica
armazenado em cestas ou caixas de madeira. 39
AMN
Profundidade
Linha principal: de 50 a 500 m
cabo de aço

2.000 a 3.000 anzóis

Espinhel de fundo

Dois modelos de espinhel para peixe.

40
4.2 Redes

As redes são antigas na capturas do pescado, sendo a grande maioria confeccionada


pelo próprio pescador. A rede é formada por panagens, bóias, tralhas e chumbos, que,
montados adequadamente, constituem um aparelho de pesca pronto para operar.

A panagem é um conjunto de fios tecidos com ou sem nós, com a bitola desejada
e pode ser tecida manualmente ou em teares. Nas panagens sem nós, as malhas são
feitas ao mesmo tempo em que os fios são torcidos ou trançados, fazendo com que haja
um entrelaçamento das pernadas do próprio fio.

A experiência comprova que as redes sem nós suportam muito mais o atrito do que
as com nós, além de manterem constantes a forma da malha, quando expostos a grandes
esforços. São mais leves, por isso mais indicadas para as redes de cerco.

Na construção de redes podem-se usar o nó direito, esquerdo, duplo ou elaborá-


las sem nó.

direito esquerdo duplo sem nó

A malha é o componente principal da panagem, e sua dimensão é medida entre


nós. As tralhas são os cabos que armam a rede, onde a panagem é fixada.

• Tralha inferior – contém os chumbos.

• Tralha superior – onde os cabos são fixados às bóias.

As arcalas são formadas pelo fio de fixação da panagem nas tralhas, que chamamos
de entralhe. A matação é o coeficiente da quebra que a panagem sofre na montagem da
rede. O entralhe é a operação de unir a panagem às tralhas por meio de arcalas. Do tipo
de entralhe resulta a abertura que desejamos dar às malhas, e com isso na maior ou
menor metragem de panagem a ser presa a um determinado comprimento de tralha.

Com o tempo, ação da água do mar, sol, ventos, e o número de lançamentos a


rede sofre alguns danos, por exemplo, a rede exposta ao sol constantemente, em seis
meses, apodrece. Para manter a durabilidade desse apetrecho siga algumas instruções
citadas no quadro a seguir.

41
AMN
Cuidados básicos para manuseio e conservaçãode redes de pesca

Após a pesca, lave a rede e retire o máximo possível de sujeira incrustada


nela, como algas, galhos de árvores, plásticos, etc.

A rede deve sempre secada à sombra, em local ventilado. Os raios


solares queimam as fibras sintéticas, que rapidamente perdem a cor e a
resistência. A água não apodrece a rede, mas o sol sim.

Antes de usar a rede verifique se existem furos e conserte. Apenas uma


malha rompida quebra a resistência da rede e pode provocar um grande
rasgo, que deixará os peixes escaparem.

Todas as redes sofrem desgastes e acidentes durante a faina de pesca, e


conseqüentemente necessitam de reparos. A conservação e o correto manuseio, são
fatores fundamentais para a preservação das características dos materiais sintéticos que
compõem a sua rede.

Tanto para confeccionar uma rede como para reparar, é preciso seguir alguns passos:

1º : início do nó simples.
2º : laçada para esquerda, passando a agulha por debaixo da malha.
3º : aperto do nó.
4º : continuação para a segunda malha, nó simples.

Para remendar uma rede é preciso estender a malha para verificar o tamanho do
dano e depois fazer um corte, de forma que o reparo seja feito sem interrupção. Esse
42 corte é sempre feito do início ao final com o ponto (corte de duas pernadas da malha) e
com o bar (corte com uma única pernada da malha).
Início
Fim

Início

Fim

Para remendar a rede danificada depois da pesca

43
AMN
Ao se projetar uma malha tem que se ter em mente para qual finalidade ela será
destinada, o tamanho e a forma influenciam diretamente na captura do pescado. As malhas
são usadas como:

Rede de espera Caçoeiro, Rede de espera fina e Feiticeira ou Tresmalho.

Ta rra fa , Re d e s d e a rra sto , no P i ca ré , no a rra stã o d e p ra i a ,


" B eam-trawl" , Geri val, A rrastão de portas, A rrastão duplo ou
Arte de caida
"Double rig", Rede de arrasto gêmea, "Trawl" de prelha, "Seine-
net" ou Arrasto com cabos, Arrasto de meia-água.

Redes de Cerco Traineira, Traineira para a captura de isca-viva, Rede bloqueio.

4.2.1 Redes de espera

Esse tipo de rede é utilizado em todas as partes do mundo na captura de espécies


pelágicas e demersais, sendo bastante seletiva quando projetadas para um determinado
tamanho de peixe. São redes com formato retangular que se estendem ao mar nos pontos
da passagem de cardumes. Podem ficar fixas ao fundo ou à meia-água e, quando presas,
precisam ser sinalizadas por bóias, ou podem ser de superfície (caceia), quando são
deixadas a deriva com uma das extremidades presa à embarcação.

As malhas nestas redes devem ter um perímetro equivalente a 90% do tamanho do


peixe que se deseja capturar. A cor da panagem parece não interferir na captura, mas
ajuda a vê-la, dependendo da turbidez e iluminação da água, dentro da embarcação.

A rede que está na superfície durante o dia, dependendo da penetração da luz


solar, poderá ser mais eficiente com a cor púrpura, laranja, verde ou azul. Pela mesma
razão a que opera no fundo ou durante a noite, deverá ter tonalidades escuras para ser
imperceptível às espécies. Geralmente o fio é um monofilamento ou um multifilamento
com torção suave. As redes de caceio oferecem um poder de flutuabilidade de 2 a 5 vezes
o seu peso da água. O entalhe deve ser de forma a manter uma abertura de malha de 40
a 45%.

4.2.2 Caçoeiro

É uma rede com um formato retangular de 20 a 60 metros por 3 a 5 metros de


altura, feita com fios de nylon grosso, ou de PA multifilamento 210/108 ou ainda ser trançado
de 1,5 a 2,0 mm.

4.2.3 Rede de espera fina

Elaborada da mesma forma que o caçoeiro, porém o tamanho e a espessura do fio


são diferentes. O fio usado é o PA multifilamento, com o diâmetro relacionado ao tamanho
da malha e a espécie que serão capturadas. Para a captura de peixes como a corvina,
enchova, pescada, bagre, etc pode-se empregar o monofilamento 0,30 a 0,50 e malhas
de 60 a 150 mm.
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4.2.4 Feiticeira ou Tresmalho

É constituída de três panos sobrepostos, duas alvitanas (panos externos) que são
confeccionadas com um fio mais grosso e malhas maiores (de 200 a 400 mm) e um miúdo
(pano interno) com uma linha mais fina e malhas maiores (50 a 100mm). Captura peixes
de todos os tamanhos, já que existem malhas de medidas diferentes e três panagens para
dificultar à presa de se desvencilhar da rede.

4.2.5 Tarrafa

Muito usada em baías, lagunas, rios e canais, na captura de diversas espécies de


peixes e camarões, a tarrafa tem uma forma circular com um raio de 3 a 4 metros, a borda
externa com tralhas munidas de pesos de chumbo e as malhas variam de acordo com a
espécie desejada.

Do centro da rede parte uma retinida (fiel) com uns 5 metros de comprimento, que
serve para tirar o equipamento do mar. A maioria das tarrafas encontradas é confeccionada
manualmente, pois, para dar a forma circular à rede, tem-se que acrescentar o número de
malhas nas diversas carreiras.

A operação é simples, quando o pescador vê um cardume na superfície, mantém o


fiel preso na sua mão esquerda, e lança, para o alto e a sua frente, a rede, imprimindo ao
mesmo tempo um impulso de giro, calculando a força, para que a tarrafa caia totalmente
aberta sobre os peixes. O resultado do giro faz com que as chumbadas, pela força
centrífuga, façam a rede abrir formando um círculo. Quando a tralha toca na água, o
movimento de giro pára, e por causa da força da gravidade a tralha com os pesos de
chumbo descem rapidamente para se juntarem, fechando a rede sobre os peixes. O
pescador puxa lentamente o fiel para recolher a rede e tirar os peixes capturados.
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AMN
Pesca de Lance com auxilio de tarrafa

Na pesca do camarão, pode-se usar dois tipos de tarrafas:

Com carapuça – é confeccionada deixando uma pequena bolsa no centro da rede,


junto ao fiel, os camarões ao pressentirem que estão numa rede, reagem subindo e acabam
presos pela carapuça.

Sem carapuça – a tarrafa é parecida com a que captura peixes, salvo por uns
rufus corrediços que partem da tralha e sobem pela parte interna da rede, junto ao fiel. Ao
içar a tarrafa, puxa-se ao mesmo tempo os rufus, que formam uma bolsa grande não
deixando que os camarões fujam.

4.2.6 Redes de arrasto

Diz-se das redes que pescam enquanto rebocadas por embarcações quanto puxadas
na praia por meio de tração humana, junta de animais ou guinchos. Para que a arte de
puxar a rede de arrasto por barco, deve-se ter um equilíbrio perfeito entre a rede e a
embarcação, pois essa harmonia reflete na captura do pescado. Uma rede bem
dimensionada economiza na sua construção, e acarreta numa grande quantidade de
pescados capturados e na diminuição de combustível.

4.2.7 Picaré

Tem uma forma retangular, que é arrastada paralelamente por dois ou quatro
homens. Os pescadores amadores utilizam muito esse tipo de pesca, por ser perfeito na
captura de peixes pequenos e camarões que margeiam as praias. O comprimento varia
de 10 a 20m com uma altura de 1,5 a 2m, e em cada extremidade da rede (manga) é
colocado um calão de madeira, onde os pescadores pegam-na para arrastá-la.
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4.2.8 Arrastão de praia

É muito utilizado pelos pescadores praianos, que lançam-no ao mar com a ajuda
de uma canoa, para depois puxá-lo na praia por meio de cabos, por homens, junta de bois
ou guinchos. O tamanho varia, mas está sempre entre 100 a 600 m de comprimento, com
uma altura no centro (cópio) que oscila entre 6 e 20 m, as pontas das redes (mangas)
atingem 2 a 10 m de altura. Essa diferença está diretamente relacionada com o declive da
praia, quanto maior o declive, maior será a diferença.

4.2.9 Gerival

É muito utilizado pelos pescadores artesanais das regiões Sudeste e Sul do Brasil
na captura do camarão em águas estuarinas (onde existe uma forte correnteza de marés).
Esse aparelho é uma adaptação de uma tarrafa para camarão (malhas de 20 a 28mm),
operado como uma rede de arrastão pela força da maré. O maior benefício do gervival é
que ele captura somente camarões, deixando que os pequenos peixes fiquem de fora,
preservando algumas espécies.

A rede fica na posição vertical, com a parte da tralha do chumbo elevada por uma
trave (barra de PVC ou de bambu) com 3m de comprimento, a uma altura de 30 a 40cm do
fundo. Fica muito parecido com um Beam-trawl, o que proporciona a entrada dos camarões.
A parte superior e interna da rede (entrada da carapuça) tem um aro metálico preso que
deixa essa bolsa constantemente aberta. Do arco, partem quatro cordões que ficam presos
a um pequeno flutuador circular que fica no interior da bolsa (carapuça) e serve para
manter o aro na posição horizontal quando em operação. No centro da trave de PVC é
fixado um cordão (fiel) que passa posteriormente por dentro do aro e do flutuador, e vai
até a mão do pescador.

Um pescador é o suficiente para operar esse aparelho. Dentro de uma canoa ele
joga o gerival para dentro do mar até que toque o fundo, sempre mantém a trave de PVC
à altura de 30cm deste e arrastando a favor da corrente. O camarão fica coberto pela
panagem e ao subir, reação normal, o camarão passa pelo aro metálico onde fica preso
na carapuça da rede. O arrasto do gerival leva 15 a 20 minutos, depois deve ser içado
para a despesca.

4.2.10 Arrastão de portas

O corpo desta rede possui a forma cônica, com dois panos que se prolongam
denominados asas, onde em sua frente dispõe fortes pranchas de madeira, conhecidas
como portas. As portas têm a função de manter a abertura da rede. O ângulo de ataque
é determinado por meio da regulagem dos pés de galinha, que estão presos às portas e
nos quais se fixa o cabo de reboque.

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AMN
Rede de arrasto com portas

4.2.11 Arrastão duplo ou “Double rig”

Hoje quase todos os barcos camaroeiros usam dois arrastões de portas menores
(double ring) que são arrastados ao mesmo tempo nos dois bordos da embarcação com a
ajuda de tangones, o que facilita ainda mais a faina de pesca. Estas redes têm uma
abertura maior da boca e em menor comprimento de mangas, com uma altura de no
máximo 0,90m.

4.2.12 Rede de arrasto gêmea

É um mecanismo que tem duas redes operando lado a lado, com duas mangas
internas ligadas a uma sapata de ferro e as duas externas presa as portas. Das duas
portas e do patim saem cabos (brincos) de 50 a 60 m de comprimento, que se unem ao
cabo real formando um pé de galinha. Pode-se operar com três redes gêmeas, usando
apenas um par de portas e dois patins, neste caso, as redes são recolhidas uma em cada
bordo e a terceira pela popa.

4.2.13 Trawl de parelha

É um aparelho arrastado por duas embarcações, muito utilizado na captura de


peixes demersais ao longo da costa pela frota comercial. Muito semelhante ao trawl de
portas, a trawl de parelha tem asas mais longas e com maior abertura vertical (altura da
boca). A maioria destas redes possui uma válvula (língua) que é uma panagem colocada
dentro da rede em posição oblíqua, o objetivo dessa língua é não deixar que os pescados
capturados escapem quando o barco parar de arrastar, momento esse que se começa o
processo de despesca. O importante é que as duas embarcações estejam na mesma
velocidade.

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4.2.14 “Seine-net” ou arrasto com cabos

Esse aparelho é muito usado na captura de peixes demersais. Oferecendo maiores


vantagens sobre os métodos mais conhecidos de arrasto, o arrasto com cabos gasta
menos combustível e captura uma maior seletividade e qualidade do pescado e causa
menos danos ao fundo do mar (o aparelho não usa portas).

A operação é muito parecida com o arrastão de praia, diferenciando-se só por um


detalhe, é realizada em alto mar. O barco lança ao mar uma bóia onde é fixado o cabo
real, de fibra sintética com alma de chumbo de 1,0 diâmetro, seguindo-se a largada deste
em linha reta. Quando completar a marca de 1000 m, muda-se o rumo com uma guinada
de 60º, e continua-se soltando o cabo, posteriormente os brincos (cabo combinado ½” -
45 m) e finalmente a rede.

Depois de largada da rede e seus respectivos brincos, continuando-se no mesmo


rumo largando o outro cabo até completar 500 m, quando volta-se a guinar mais 60º,
dirigindo-se para a bóia. Ao completar o cerco, a bóia é recolhida para bordo e as duas
extremidades dos cabos puxados ao mesmo tempo a mesma velocidade pelos dois cabeços
do guincho e enrolados ao “rope-reels” (carretel), com o barco engatado avante a uma
velocidade de 2 nós. Ao chegar os brincos a bordo, a rede é desconectada dos cabos e
recolhida na popa com a ajuda de um “power block” adaptado a um guincho “munk”, e o
saco é içado por um pau de carga para a despesca.

O ideal é recolher o aparelho próximo ao local da próxima largada. É mais provável


que a direção da maré ou o deslocamento da água determine a operação deste aparelho.
Por causa disso e da direção dos ventos, esse aparelho é utilizado em lugares inacessíveis
às outras embarcações de arrasto, como nas proximidades de parcéis, pegadores, etc.

4.2.15 Arrasto de meia-água

A operação depende de dois instrumentos hidroacústicos, ecobatímetro (detecta e


determina a profundidade do cardume) e uma sonda instalada na rede (net-sonda) que
verifica a profundidade exata da boca da rede. Assim o mestre, ao detectar a profundidade,
utiliza a net-sonda para verificar em que altura a rede está sendo rebocada, e por meio de
duas alternativas (comprimento do cabo de reboque e velocidade do barco), pode baixar
ou levantar a rede para coincidir com a profundidade em que se encontra o cardume, para
melhor capturá-lo. Com a prática, as imagens obtidas na net-sonda podem avaliar
aproximadamente o total de pescado existente no ensacador da rede, e recolher o aparelho
para evitar o rompimento da panagem.

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AMN
4.2.16 Redes de cerco

São os aparelhos usados na captura de peixes pelágicos como a sardinha, olhete,


cavalinha, bonitos, tainha, atuns etc, sendo largados em volta do cardume quando este é
observado visualmente ou detectado por instrumentos (sonar) pelo pescador.

4.3 Atratores de peixe

Cada espécie de pescado tem uma forma de ser atraída para facilitar na captura.
No Japão, por exemplo, os pescadores usam jangadas de bambu para provocar a
concentração de tunídeos, dourados, etc (seduzidos pela sombra na água).

Os flutuantes podem ser confeccionados de bambu ou tambores, e são ancorados


com cabo de PP ou PA de ¾ “, com comprimento de 1,5 a 2 vezes a profundidade do local.
Presos à bóia, coloca-se pneus velhos, panagens de redes e cabos desfiados, a fim de
servir como substrato a moluscos que se fixam, criando um ecossistema que atraem os
cardumes de bonitos, dourados, atuns etc. Economiza o tempo de procura dos cardumes
por barcos atuneiros de isca viva. Nas figuras a seguir, podemos observar duas formas de
atratores utilizados experimentalmente na costa brasileira.

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Atratores de peixes

4.3.1 Atração luminosa

Os peixes como o xixarro, bonito, peixe voador e a lula são atraídos pela luz (podem
ser classificados como táxi-positivos). Aos que pretendem capturar lulas é recomendável
usar a rede elevadiça, sempre à noite e jamais esquecer de empregar a luz para concentrar
a espécie perto do barco, e depois ser apanhada durante a subida da rede. Os barcos de
cerco durante a noite, usando a atração luminosa, podem concentrar os peixes quando se
encontram espalhados ou retirar o cardume das proximidades do atrator por meio de um
caíque com uma lâmpada submersa, para posteriormente cercá-lo.

Uso de atração luminosa para a pesca de lula

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AMN
4.4 Arpão

É uma pequena peça de ferro pontiaguda, contendo uma


ou duas farpas laterais (podendo ser fixas ou articuladas) que
evitam o escape do peixe. A parte de cima é dotada de um
pequeno tubo onde se enfia uma haste de madeira para o
manuseio. É usado para arpoar as espécies que ficam próximas
da superfície.

4.5 Fisga

Muito parecida com o arpão, a fisga é um pouco mais fina, e tem duas, três ou mais
pontas com farpas usadas para a captura de espécies pequenas. Tem fixado na extremidade
do aparelho uma vara de 2,0 a 3,0m para o manuseio. É muito usada na pesca noturna
com facho ou outro tipo de atração luminosa.

4.6 Armadilhas

4.6.1 Covos

São pequenas armadilhas transportáveis, que têm uma ou mais aberturas (funil de
entrada) para entrada do pescado, sendo muito eficazes na captura das espécies que
pouco se movimentam e vivem muito próximas ao fundo. Os covos utilizados na captura
da lagosta e caranguejos podem ser cilíndricos, semi-cilíndricos ou retangulares. A boca
de entrada do pescado é afunilada, onde podem ser fixadas duas válvulas numa única
entrada. Estes funis podem ser feitos de madeira, taquera, arame ou tela de rede, que
ficam presos na parede da armadilha e esticados com tirantes no interior destas.

Saco com iscas

Janela de escape
Entrada

Covo utilizado na pesca de lagosta


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As iscas podem ser naturais como o ventre do cação, ou artificiais como a louça
branca. Uma isca que dá bom resultado é usar um frasco plástico de cor branca com
pequenos buracos ou sacos de rede, onde são colocados pequenos peixes como a
sardinha.

4.6.2 Cerco fixo ou curral

É muito eficiente na captura de peixes em canais, rios ou lagoas, e é composto por


uma esteira de taquara e estacas de madeira que se fixam no fundo. Uma parede (espia)
serve de guia para o peixe, e o cercado para mantê-lo preso. Na junção da espia com o
cercado, fica a boca de entrada, que é uma abertura que dificulta o retorno do peixe.

A despesca tem que ser realizada por dois pescadores, com a ajuda de uma rede
de forma retangular que tem duas varas de bambu em sua extremidade. Essa rede é
arrastada para dentro do cercado, que depois é fixada através de um cordão que passa
por dentro de várias anilhas existentes na tralha inferior da rede. O cerco de curral pode
representar um perigo à navegação, já que quando as estacas são abandonadas elas
permanecem enterradas no fundo por um longo período, além de acumular detritos junto
ao cercado, formando “coroas”, próximo as margens dos rios.

Três modelos de curral


4.6.3 Cerco flutuante

É um aparelho muito parecido com o anteriormente citado, mas é feito de panagem


com malhas de 26 a 30mm, preferencialmente de PA sem nós. O cercado tem uma forma
elíptica, fechado na parte inferior (fundo), e tem uma das paredes laterais um pano quadrado
feito com um fio mais resistente, perfiado em forma de losango, com bastante brandura,
que serve de ensacador. No ponto onde o caminho se encontra com o cercado tem uma
pequena abertura (boca) por onde o peixe entra.

A despesca é realizada por pescadores em duas canoas, que levantam primeiro a


parede lateral, e depois a panagem do fundo partindo de um lado do cercado, orientado
dessa forma, o pescado vai para o outro lado, onde o ensacador está a espera para
recolhê-lo para a embarcação. Pode-se construir cercos flutuantes com dois caminhos ou
com apenas um, que possibilite a entrada do peixe por ambos os lados.

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4.6.4 Aviãozinho

Utiliza a atração luminosa na captura do camarão rosa e legítimo. A rede tem o


formato de um arrastão, com duas mangas de mais ou menos 7m cada, e um corpo
medindo aproximadamente 4m, feito de panagem sem nós de PA multifilamento. Dentro
do corpo da rede são colocados duas válvulas (funis) com dois aros de arame (diâmetros
60 e 15cm respectivamente) eles atuam deixando o corpo da rede totalmente aberto. As
pontas das mangas são presas em estacas (calões) que estão fixadas no fundo. O saco
fica preso na estaca central, onde está pendurado um lampião a gás (liquinho) para atrair
os camarões.

4.7 Potes para a captura do polvo

São potes de barro cilíndricos com 300mm de altura por 150mm de diâmetro, com
uma boca de entrada de 110mm de diâmetro. No fundo do pote tem um orifício de ¾ para
forçar a saída do polvo. A operação é simples basta largar os potes ao fundo em baterias
de 50 a 100 unidades, que ficam presas a uma linha mestra a distâncias de 15 a 20 m um
dos outros. Em uma ponta é preso um arinque com poita e bóia para localizar o aparelho.

A despesca deve ser feita a cada 24hs, quando os potes são recolhidos e lançados
novamente. Para tirar o polvo do pote bata com força a palma da mão no orifício do fundo
do pote. Pode-se usar também pedaços de pneus costurados pelas bordas e em uma
ponta deixar uma entrada para o polvo.

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Bibliografia

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ALBUQUERQUE, Paulo Guilheme. TecnologIa de Aparelhos de Pesca.

FONSECA, Maurílio M. Arte Naval. 6. ed. Rio de Janeiro: SDGM, 2003.

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KIHLBERG, Bengt. The Lore of ships. Gotemburg: AB Nordbok, 1975.

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MORAES, Orozimbo José de. Guias de Nós para a Pesca.

NOEL, John V. Jr. Knight’s Modern Seamanship. 17 ed. New York: Von Nostrand
Reinhold, 1984.

PREFECTURA NAVAL ARGENTINA. Direccion del Personal. Manual de conocimientos


marineros. Buenos Aires, 1970.

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