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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA

CENTRO DE CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO


PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO
DOUTORADO EM EDUCAÇÃO
LINHA DE PESQUISA: EDUCAÇÃO E INFÂNCIA

A DOCÊNCIA NA EDUCAÇÃO INFANTIL COMO ATO


PEDAGÓGICO

Doutoranda: Joselma Salazar de Castro


Orientadora: Profª. Drª. Luciane Maria Schlindwein
Coorientadora: Profª. Drª. Julice Dias
“O destino da viagem”: a creche pesquisada

A pesquisa de campo foi realizada em uma creche pública


municipal de Florianópolis, localizada no Norte da Ilha, com
uma estrutura de atendimento de dez grupos de crianças entre
um a seis anos de idade, durante o ano de 2014.
Os sujeitos da pesquisa

• Seis meninas e nove meninos com idade entre dois


a três anos;

• Duas professoras regentes, duas auxiliares de sala,


uma professora auxiliar de ensino e uma professora
de Educação Física (6 adultos).
Objetivo geral

Investigar a prática pedagógica das professoras e as


possíveis relações dialógicas presentes na
comunicação e na brincadeira estabelecidas nas
interações entre crianças e adultos no cotidiano da
Educação Infantil.
Objetivos específicos
 Pesquisar as relações pedagógicas que são constituídas pelas
professoras no cotidiano educativo, junto às crianças;

 Compreender o lugar da alteridade nas intervenções


pedagógicas das professoras com as crianças e entre as
crianças;

 Analisar o papel da linguagem em uma perspectiva dialógica


na relação entre adultos e crianças;

 Investigar os sentidos e significados que crianças e professoras


atribuem ao que vivenciam nos momentos de brincadeiras.
Diálogo epistemológico

Pedagogia da Infância no Brasil e na Itália (BARBOSA, 2000;


BONDIOLI, 1993; FARIA, 1999; MUSATTI, 1990; ROCHA, 1999; SAVIO,
1993; SCHMITT, 2014).

Sociologia da Infância (Corsaro, 2011; Ferreira, 2010; Sarmento,


2004, 2005).

No tocante à relação entre a brincadeira e a constituição da


linguagem das crianças, nos ancoramos na base teórica e
metodológica desenvolvida por Vigotski (2008, 2000) e por
Bakhtin (2015, 2010, 2006).
Procedimentos metodológicos: descobrindo
o que conhecer
• Pesquisa qualitativa de orientação etnográfica e
interpretativa;

• Imersão no campo de pesquisa durante cinco


meses, frequentando de dois a três dias por
semana, alternadamente;

• Tempo de permanência em cada período foi de


aproximadamente três horas;

• Total de 48 períodos, totalizando uma média de 140


horas de observações;
O diário da viagem: os registros escritos
e a organização dos dados

 O diário de campo e descrição densa e detalhada;

 A fotografia;

 O uso da filmagem;

 Questionários e entrevistas semiestruturadas realizadas com as


profissionais envolvidas na pesquisa;
O CONCEITO DE ATO SOCIAL E A DOCÊNCIA NA
EDUCAÇÃO INFANTIL

Pensar a prática pedagógica a partir do conceito de ato social, tal


como cunhado por Bakhtin (2010), concebendo-a como ato
pedagógico, e não como ação pedagógica, justifica-se pela
compreensão de que ato e ação não significam a mesma coisa.

Na concepção bakhtiniana, a ação pode ser realizada de modo


mecânico, sem exigir responsabilidades sobre o que é feito ou dito.
Já o ato social implica assumir respostas responsáveis
(responsabilidade e responsividade) sobre o que se efetiva, tendo
sempre o outro como interlocutor ativo e participativo,
complementando os sentidos do que digo ou faço, convocando-
me a assumir responsabilidade pelo meu próprio agir.
A BRINCADEIRA DAS E ENTRE AS CRIANÇAS:
IMPLICAÇÕES NA CONSTITUIÇÃO DA LINGUAGEM

Alargando a discussão sobre a constituição da brincadeira entre


as crianças de até três anos de idade e os diferentes elementos
que a constituem, foi possível constatar a edificação dessa
discussão relacionada à brincadeira e às crianças pequeninas,
nos espaços coletivos de Educação Infantil, mais
especificamente nas últimas décadas do século anterior
(BONDIOLI, 1993, 2001, 2002; CASTRO, 2011; COUTINHO, 2010,
2013; DELGADO E NÖRNBERG, 2013; MUSATTI, 1990; SAVIO, 1993,
1995, 2011).
O ATO PEDAGÓGICO NA EDUCAÇÃO INFANTIL: A
COMPREENSÃO DIALÓGICA NA DOCÊNCIA

 A relação entre a ética e o conhecimento, que dialogicamente


constituem o ato social, exige-nos entender que o agir do homem carrega
marcas ideológicas que orientam o seu fazer. Marcas que são forjadas ao
longo da trajetória de vida de cada ser humano. Este processo é
constituído nas e pelas trocas sociais entre duas ou mais consciências e
mediado pela linguagem.

 Analisar aspectos éticos e cognitivos, no contexto formal de educação,


significa perceber a relação entre a linguagem e a própria atividade
docente.
 A análise da prática pedagógica no contexto da Educação Infantil
possibilitou a constituição de diferentes blocos interpretativos, a partir dos
aportes teóricos e metodológicos propostos por Bakhtin: alteridade,
dialogismo e escuta e tema e significação. Assim, foi possível criar eixos de
análises que, em muitos momentos, inter-relacionavam-se e, por isto, já não
poderiam ser tratados como categorias de análise, por não serem
autoexcludentes.

 Cada bloco interpretativo apresenta sua especificidade, o seu foco e o seu


tema, mas concomitantemente possibilita compreender o movimento
dialógico existente entre eles. Esta escolha metodológica permitiu
problematizar a prática docente na Educação Infantil com crianças bem
pequenas, possibilitando a definição desta tese como ato pedagógico.
 Por alteridade, entendemos o conhecer de si pelo conhecer do outro.
Isto exige o excedente da visão para que o eu-para-mim ou o outro-
para-mim possa, do seu vivenciamento, do seu ponto de vista, possa
contemplar e conhecer o vivenciamento da outra pessoa.

 Dialogismo é definido pelo confronto de vozes e entonações,


alternadas entre os sujeitos do discurso por meio de suas enunciações.
Já o conceito de escuta se vincula à constituição do enunciado e da
palavra. Quem a profere ou enuncia algo espera resposta,
interpretação.

 O tema é a ideia do enunciado, levando-se em conta que uma


mesma palavra pode ter diferentes sentidos. Por meio do tema torna-
se possível que distintos enunciados encontrem um ponto comum de
apoio. Ao mesmo tempo, um único enunciado pode ter distintos
sentidos. Já a significação é a base estável da palavra contribuindo
na constituição do(s) sentido(s) (tema), está relacionada com os
significados dicionarizados.
ORIENTAÇÃO PARA AS ANÁLISES DOS DADOS A
PARTIR DOS CONCEITOS BAKHTINIANOS

ALTERIDADE:

 quando a(s) professora(s) se dirigem à(s) criança(s) promovendo o


encontro entre duas consciências, de forma sensível e respeitosa,
nos momentos em que o cuidado está em evidência e as
possibilidades comunicativas entre elas podem ser ou não
ampliadas;

 nos momentos em que as crianças se apropriam dos modos de agir


das professoras, orientando-se à constituição de relações de
alteridade;

 limites e possibilidades na construção das relações entre o


individual e o social (coletivo – podendo ser coletivo de crianças
ou crianças e adultos).
DIALOGISMO E ESCUTA

 quando adultos e crianças reivindicam a escuta de forma direta


ou indireta;

 interesse ou desinteresse das docentes em tornarem seu agir mais


consciente ao dispender atenção às respostas das crianças
acerca do que lhes foi proposto;

 imersão ou distanciamento por parte das professoras às


manifestações das crianças.
TEMA E SIGNIFICAÇÃO

 a atribuição ou não de sentidos das professoras aos fazeres das


crianças;

 construção discursiva das crianças por meio da significação do


que elas interpretam das situações vivenciadas;

 os sentidos atribuídos pelos adultos frente às brincadeiras das


crianças e às transgressões das regras estabelecidas.
DOCÊNCIA COM CRIANÇAS BEM PEQUENAS PELO VIÉS
DA ALTERIDADE
A professora Grasi (PR-M) constantemente está
abaixada junto às crianças e sempre que
observa algum conflito entre elas, se aproxima e
procura saber o que houve, pergunta se pode
bater; qual é o combinado; lembra de como
devem falar. As crianças parecem compreender
as orientações dela e logo repetem os gestos ou
verbalizam algo que conota a lembrança de
algum tipo de regra que vem sendo
estabelecida, por exemplo: “Desculpa tá!”;
“Depois eu posso brincar?”; “Tu me empresta?”.
Estas são falas que escuto recorrentemente
entre as crianças; às vezes mediada pelas
professoras, outras vezes, ditas por elas,
espontaneamente, umas às outras. (D.C. Manhã
de 05 de maio de 2014).
O excerto apresentado revela o quanto as crianças se
apropriam do modo como as relações são estabelecidas com
elas. Na repetição das palavras, orientada pela professora, as
crianças estão ampliando sua discursividade, além de
demonstrarem estarem se apropriando de como estabelecer
relações de respeito com seus pares.

A professora em diversos momentos estava em diálogo com as


crianças; ao se aproximar e falar com elas, também permitia
que falassem e se explicassem, da maneira como elas
conseguissem. Havia uma preocupação em estabelecer
acordos, levando as crianças a se apropriarem, gradualmente,
do que vinha sendo combinado e proposto.
ESCUTA E DIALOGISMO: ELEMENTOS CONSTITUTIVOS
DO ATO PEDAGÓGICO
João chora e grita tentando se
apossar do carrinho que Lucas
brinca, Bete (PAS-M) sugere que
ele solicite ao menino, usando
um tom de voz sereno. João
insiste, se desestabiliza e grita,
Bete lhe fala sorrindo: ‘O João
está virando o lobo mal, está
ficando assustador!’. O menino
sorri se acalmando e desiste do
carrinho que está com o
colega. (D. C. Manhã de 13 de
agosto de 2014).
No caso do excerto apresentado, a criança (o falante), ao
chorar para obter o carrinho, tinha em conta a interpretação
do outro, a resposta do ouvinte, fosse a outra criança, que
poderia se intimidar e ceder-lhe o objeto, fossem as professoras,
que poderiam intervir a seu favor.
A escuta em relação à criança passa pelo reconhecimento
dos seus modos de agir e se comunicar nas situações
cotidianas, dos seus jeitos de reagir em relação aos pares e aos
adultos.
Em nossa interpretação, a atitude/resposta da professora serviu
não apenas para redimensionar a postura da criança frente ao
colega e ao seu desejo pelo carrinho, mas também permitiu a
ela mesma compreender sua postura como uma possibilidade
dialógica de intervir.
A BRINCADEIRA COMO PROMOTORA DA DISCURSIVIDADE
ENTRE AS CRIANÇAS: UM TEAR DE TEMAS E SIGNIFICAÇÕES

Bárbara, Fernanda e Rafaela


protagonizam uma
brincadeira, em que elas eram
uma família. Observo que
Bárbara se tornou a mãe e
Fernanda (que muitas vezes
desejava ser a mãe ou tia, ou
irmã) passou a ser bebê,
usando a chupeta,
engatinhando e fingindo
chorar. (D. C. Manhã de 19 de
agosto de 2014) .
Ao que parece, a brincadeira, neste caso, passou a ser
também uma estratégia das crianças para continuarem
utilizando objetos que desejavam, mas cujo o acesso
não era autorizado pelas professoras a qualquer
momento, como a chupeta por exemplo. Quando
Fernanda se propõe a ser bebê, em uma brincadeira
que já era recorrente, mas em que normalmente ela era
outra personagem, geralmente um pouco mais velha,
teve a chance de usar sua chupeta, já que “chorava”,
“engatinhava” e “ganhava mamadeira”.
A situação em que Fernanda usou sua chupeta com maior
tranquilidade foi em um momento de compartilhamento de
ações com outras crianças. Havia claramente uma regra
estabelecida e uma constante comunicação entre as
meninas. Em alguns momentos, as crianças preferem assumir
papéis em que são maiores e mais velhas do que realmente
são, mas a escolha de Fernanda em ser uma bebê lhe
possibilitava manobrar a atenção dos adultos. As professoras
observavam a brincadeira que se enredava, mas não
pareciam preocupadas com o fato de uma dada criança
estar usando a chupeta naquele momento.
Tecendo algumas considerações

No cotidiano da Educação Infantil, estabelecer a


relação entre teoria e prática implica,
fundamentalmente, correlacionar a organização
pedagógica (planejamentos, observação, registro,
avaliação, organização de tempo e espaços) com cada
criança, com seus modos peculiares de se expressarem.
Esta organização, conscientemente planejada, pode ser
caminho para romper-se com a cultura de que, na
Educação Infantil, o menos é o bastante, além de
possibilitar que se visibilize o quanto de conhecimento e
formação ética e humana são necessários para ser
professora nesta área.
Neste estudo foi possível demarcar que o diálogo com o
outro pressupõe a escuta da palavra alheia e a atenção
à resposta, como reação ao que é enunciado (BAKHTIN,
2011). Foi necessário compreender as relações que são
constituídas entre professoras e crianças, percebendo a
presença ou ausência de alteridade, assim como
conhecer a importância da linguagem como discurso
carregado de sentidos e significados, podendo tornar-se
um diálogo inacabado entre crianças e adultos. Além da
possibilidade de identificar que, para as crianças, a
brincadeira torna-se importante palco no processo de
constituição da linguagem.
Poderíamos afirmar que o diálogo, ora apresentado nesta tese,
chega ao fim, mas partindo da compreensão dialógica da
linguagem, este acabamento concede lugar a novas interações do
discurso. É nesta corrente viva da linguagem que outros textos serão
criados em um movimento de aproximação e distanciamento ao
conteúdo aqui apresentado.

Consideramos que um estudo crítico dialógico pode contribuir com


a formação inicial e continuada de professores para a educação
infantil, permitindo a problematização sobre a responsabilidade
social que o/a professor/a ocupa frente à criança.

A apropriação teórica desvinculada da concretude da vida, do


contexto e da discursividade presentes nas instituições de educação
infantil, se tornaria inócua. É na relação teórico prática que a prática
pedagógica pode assumir um caráter efetivamente reflexivo.
Algumas referências
BAKHTIN, Mikhail Mikhailovich. Problemas da poética de Dostoiévski. 5 ed. Revista.
Trad. Paulo Bezerra. Rio de Janeiro, Forense Universitária, 2015.
BONDIOLI, Anna Maria. Far finta insieme. Condizione, dinamiche, strategie.
Quaderni Infanzia. Bergamo, Itália: Junior S.R.L., 1993.
CORSARO, William. Sociologia da infância. 2ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2011.
FERREIRA, Manuela Maria. “– Ela é nossa prisioneira!”: questões teóricas,
epistemológicas e ético-metodológicas a propósito dos processos de obtenção
da permissão das crianças pequenas numa pesquisa etnográfica. In: Reflexão e
ação. v. 18, nº 2, Santa Cruz do Sul: UDUNISC, 2010. p. 151-182.
GRAUE, Elizabeth; WALSH, Daniel. Investigação etnográfica com crianças: teorias,
métodos e ética. Lisboa, Portugal: Fundação Calouste Gulbenkian, 2003.
SAVIO, Donatella. A brincadeira e a participação da criança: um desafio
educativo e seus pontos nodais. In: BONDIOLI, Anna; SAVIO, Donatella (Orgs.).
Participação e qualidade em educação da infância: percursos de
compartilhamento reflexivo em contextos educativos. Tradução: Luiz Ernani Fritoli.
Curitiba: UFPR, 2013.
ROCHA, Eloisa Acires Candal. A Pesquisa em Educação Infantil no Brasil: trajetória
recente e perspectiva de consolidação de uma Pedagogia da Educação Infantil.
Florianópolis: Centro de Ciências da educação, Núcleo de Publicações – NUP,
1999.
Muito obrigada!

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