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Pe.

Gabriel Roschini

A Predestinação de Nossa Senhora


Pe. Gabriel Roschini, OSM

A própria razão nos diz que o primeiro entre todos os predestinados devia ter sido aquela criatura racional que é a
mais vizinha a Cristo, causa eficiente, exemplar e final de nossa predestinação e, por isso mesmo, chefe e cabeça dos
predestinados. E tal criatura não foi, porventura, Maria, sua Mãe? A razão nos diz, além disso, que Deus quer a
existência das criaturas conforme o grau de perfeição das mesmas, pelo qual se manifesta sua glória, que é o fim da
criação; de sorte que as criaturas mais nobres são intencionadas por Deus antes das menos nobres. E a Virgem
Santíssima, como Mãe do Criador e Mãe universal das criaturas, não se acha, porventura, no pináculo da nobreza e
de toda grandeza? Portanto, Maria foi intencionada por Deus antes de qualquer outra criatura. Uma consequência
lógica desse princípio inconcusso é que todas as criaturas foram criadas em vista de Cristo e de Maria, para a glória
dos dois, como um cortejo real para eles. "Para Maria", diz um sermão atribuído a São Bernardo, “ foi criado todo o
mundo” (P. L. 184, 1069). E é justo: o que é menos nobre existe sempre para o que é mais nobre. E todo o mundo,
tomado em conjunto, não é, porventura, menos nobre do que Jesus e Maria? Todo o mundo, portanto, está
subordinado a Jesus e a Maria, e foi tirado do nada em vista deles, para sua glória.

Tudo, portanto, pertence a Jesus e a Maria, tudo deve servir a Jesus e a Maria. Outra consequência lógica do
princípio exposto acima é que Jesus e Maria foram desejados por Deus antes mesmo (anterioridade lógica e não
cronológica) dos anjos, antes de nossos primeiros pais Adão e Eva, e antes da permissão divina de seu pecado;
foram, portanto, intencionados por Deus independentemente deles e de seu pecado. A Encarnação redentora,
portanto, no plano presente (único querido e realizado por Deus), foi decretada por Deus em conexão, realmente,
com a permissão do pecado de Adão (e não só por si mesma, como pensam os Escotistas), porém não em
dependência real e verdadeira do pecado original (como pensam os Tomistas), de modo que, sem o pecado original
(ou seja, em um plano diverso do presente, no qual o pecado está necessariamente incluído), a Encarnação não se
teria realizado. Essa dependência real e verdadeira da existência de Cristo e Maria em relação ao pecado nos parece
dever ser excluída absolutamente, pois que Cristo e Maria, na ordem presente, foram o primum volitum, a primeira
coisa que Deus intencionou; todas as outras coisas foram ordenadas necessariamente a eles e foram, portanto,
desejadas ou permitidas por Deus em razão e em vista deles.

Não são, portanto, eles que dependem realmente das outras coisas; todas as outras coisas são as que dependem
realmente deles. Nem se diga que a Encarnação é, no plano presente, redentora e que pode ser redentora sem
haver um gênero humano a remir e, por isso, depende realmente, como condição sine qua non, do gênero humano,
a remir. Certamente, a Encarnação é, na presente ordem, redentora e não podia ser redentora sem haver um gênero
humano a remir. Mas se deve notar que Deus, que queria antes de tudo o grande bem que ia derivar da Encarnação
redentora, permitiu a queda do gênero humano, tornando-o assim sujeito apto da redenção e ordenado à mesma.
Existe, portanto, uma dependência real e verdadeira do pecado em relação à Encarnação, e não desta em relação
àquele. Deus consentiu, portanto, o grande mal do pecado em vista do máximo bem que é a Encarnação. Portanto,
quis primeiro a Encarnação e, depois, em vista dessa, permitiu o pecado. Jesus e Maria gozam, pois, de um primado
perfeitíssimo, que não depende de coisa alguma.

Instruções Marianas, pp 25-26

A Glorificação do Corpo e da Alma de Maria Santíssima mediante a Assunção


Por Pe. Gabriel Roschini

INTRODUÇÃO: A HORA DA ALEGRIA E DO TRIUNFO

Depois de uma vida que, como a de Jesus, seu Filho, foi toda ela uma cruz e um martírio; depois de tantas e tão
profundas humilhações, também para Maria, como para Jesus, soou a hora da alegria e da glória. Chegada ao termo
de seu exílio terreno, Ela foi glorificada, e de modo singularíssimo, na alma e no corpo. Foi levada aos céus em corpo
e alma. Esta integral, extraordinária glorificação de Maria, nós a celebramos cada ano no dia 15 de agosto.
Mas em que sentido dizemos, antes de tudo, que a Virgem Santíssima foi levada aos céus? Teria sido transportada
pelos anjos, como o imagina a fantasia popular e como se vê em tantas pinturas? Não! É verdade elementar que os
corpos dos Santos, apenas ressuscitados e, portanto, apenas glorificados, se tornam, como diz São
Paulo,espiritualizados, independentes das leis físicas e, portanto, podem com a celeridade do pensamento percorrer
o universo em todas as direções, exatamente como os espíritos. A Virgem Santíssima, portanto, glorificada
imediatamente ao termo de seu exílio terreno também quanto ao corpo, teve em si mesma a faculdade de subir ao
céu, sem necessidade de ser transportada pelos anjos.

Tornado semelhante ao corpo de Jesus, o corpo de Maria era igualmente capaz de dirigir-se sozinho para o céu. A
única diferença entre Jesus e Maria estava em que Jesus, como Deus-Homem, subiu ao céu por seu próprio poder,
enquanto Maria, como simples criatura, subiu ao céu, não por um poder que brotasse naturalmente de sua pessoa,
mas pelo poder de Deus, ou seja, por um dom a Ela concedido por Deus. Esta diferença, nós a exprimimos ao
chamarmos a subida de JesusAscensão, enquanto à de Maria chamamos de Assunção.

Ora, que a Virgem Santíssima, ao termo de seu exílio terreno, tenha sido levada aos céus e que seu corpo,
florescente de uma vida imortal, se encontre naquele reino feliz, é uma verdade de fé, definida solenemente pelo
Santo Padre Pio XII a 1º de novembro de 1950.

1. A VOZ DA ESCRITURA

Comecemos pelas razões que provam o fato. Antes de tudo, a Assunção de Maria ao céu está compreendida
implicitamente, em termos equivalentes, na Sagrada Escritura.

Está incluída implicitamente no Gênesis, nas palavras do Proto-Evangelho: "Porei inimizade entre ti e a mulher, etc."
(Gn 3,15) e no Novo Testamento, na saudação angélica: "Ave, gratia plena!" (Lc 1, 28).

1.1. O Proto-Evangelho

Nas palavras do Proto-Evangelho acha-se predita uma inimizade perpétua entre a serpente, a mulher e o filho da
mulher, assim como o triunfo grandioso desse filho sobre a serpente, quer dizer, do Salvador sobre o demônio. E o
triunfo predito foi obtido. O Filho de Deus, escreve São João em sua primeira carta, no capítulo III, veio para destruir
a obra do diabo: o pecado, a concupiscência e a morte. Isto posto, se todos os homens estão destinados a tomar
parte neste triunfo do Redentor, é muito claro que a mulher, de quem o Redentor será a descendência, deve ter com
Ele, em seus triunfos, uma parte especialíssima. Nem o pecado, nem suas consequências, nem mesmo a morte,
terão jamais domínio algum sobre Ela. Também sobre a morte, pois Ela deverá triunfar, ou evitando-a, ou, pelo
menos, ressurgindo antecipadamente para a vida nova, sem esperar a ressurreição geral que se dará no fim dos
tempos.

1.2. A saudação do Anjo

Este triunfo sobre a morte verificou-se na Virgem, porque esteve sempre cheia de graça e porque foibendita entre
todas as mulheres, conforme disse a saudação do Anjo; por isso, esteve isenta das misérias e da maldição que a
culpa trouxe consigo, entre as quais está a morte e a consequente redução do corpo a pó. Além disso, a glória é
proporcional à graça; por conseguinte, a uma "plenitude de graça" não podia deixar de corresponder uma "plenitude
de glória", ou seja, a plena glorificação do composto, alma e corpo.

1.3. Outros lugares escriturísticos

Alguns escolásticos quiseram ver uma referência à Assunção também nas seguintes passagens da Escritura: "Entra
em teu palácio real, tu e a arca de tua santificação" (Sl 131, 8): a arca seria Maria. "Sentada à tua destra a rainha, em
vestes de ouro" (Sl 44, 10): por aquelas vestes de ouro, pode-se compreender o corpo sacratíssimo de Maria. E,
finalmente, a passagem do Apocalipse: "E um grande sinal apareceu no céu: uma mulher vestida de sol, com a lua
sob os pés e a cabeça adornada com uma coroa de doze estrelas" (Apoc 12, 1). Com estas palavras, Maria, figura da
Igreja, é apresentada como viva e triunfante no céu.

2. A VOZ DA TRADIÇÃO

2.1. Nos cinco primeiros séculos

Outra prova da Assunção corpórea de Maria se deve deduzir da Tradição.

a) Testemunhos implícitos. Essa tradição foi ininterrupta na Igreja e, portanto, se pode dizer que tem uma origem
apostólica.

Nos quatro primeiros séculos da Igreja, essa verdade era professada só implicitamente, como compreendida em
outras verdades professadas a respeito da Virgem, das quais brotou, em seguida, naturalmente e das quais era um
elemento integrante. "Como aqueles rios de águas frescas", observa Campana[1], "saudáveis e fecundantes, que
correm, primeiro, sob um longo trecho do solo e, depois, surgem de súbito à luz do sol com toda a impetuosidade e
de sua abundante corrente, assim a crença na Assunção de Maria se encontra na Igreja primitiva, mas só em estado
latente, envolvida e como sepultada sob o manto de outras ideias; progredia com desenvolvimento das outras ideias
e a consequência lógica desse processo era que se abrisse o invólucro e deixasse ver a nova ideia em um estado de
formação já completa".

Os Padres dos primeiros séculos, excetuando-se Timóteo de Jerusalém, não nos oferecem nenhum testemunho
certo e explícito da Assunção. Mas, se não há testemunhos certos e explícitos, há testemunhos implícitos se não
existisse nenhuma negação, que nos autorize ou faça suspeitar que os antigos representantes da Tradição cristã
tenham sido contrários ao fato da Assunção. Este seu silêncio pode ser tomado como argumento favorável, como
aprovado, ou, ao menos, não reprovando a crença universal, já radicada nesses primeiros séculos no ânimo dos fiéis.

b) Os apócrifos e seu valor. Com efeito, a literatura do povo fiel daqueles dias longínquos afirmava de modo mais
explícito a Assunção corpórea de Maria. Os escritos apócrifos, tão numerosos e difundidos tão largamente em todas
as línguas orientais, relatam com abundância de pormenores a Assunção de Maria. Em seu conteúdo, não se pode
negar que haja muita lenda, mas a narração, em sua substância, no substrato, tem um verdadeiro valor histórico,
apto, pelo menos, para dar-nos a conhecer o pensamento e as crenças dos cristãos daqueles tempos. Em caso
diverso, não se explicaria a veneração em que foram tidos por muito tempo e a história nos teria transmitido pelo
menos alguns protestos de personagens de responsabilidade contra eles. É o caso, portanto, de repetir: quem cala
consente.

c) A festa a Assunção. Outro argumento que prova o fato da Assunção é a festa instituída no século IV para celebrar
esse mistério. Esta aparece como de uso universal e comum, não somente entre os católicos, mas também entre
seitas dissidentes ou antiquíssimas igrejas nacionais, como a dos armênios e dos etíopes.

d) Os motivos do relativo silêncio. O silêncio relativo dos quatro primeiros séculos não nos deve causar admiração,
tantas eram suas razões. Entre estas, as principais foram: o cuidado dos Padres em defender do ataque dos infiéis a
natureza divina e os atributos de Nosso Senhor Jesus Cristo, o perigo da idolatria, que durou em algumas partes da
Itália até fins do século VI, o perigo de dar-se pasto à propagação da heresia dos Gnósticos ou Docetas, que
sustentavam que Jesus Cristo tinha um corpo fantástico, aéreo. A esses motivos, junte-se a disciplina do arcano, que
durou até o fim do século VI. Portanto, tinha razão Santo André de Creta (675) ao dizer que a Igreja não julgou bom
divulgar a Assunção "porque aqueles tempos não permitiam a explicação de tais coisas".

2.2. Do século V em diante

a) Testemunhos explícitos. Pelo fim do século V, a Assunção de Maria se encontrava já afirmada em vários
documentos explicitamente. São Gregório de Tours (596) afirma explicitamente no livro De gloria Martyrum, c. IV.
Logo depois do fim do século VI, a festa da Assunção já havia tomado um lugar solene no calendário de muitas
igrejas. Em seguida, o século VII nos mostra a doutrina e a festa da Assunção a se difundirem por todo o orbe
católico. Do sétimo século até nossos dias, tivemos, por assim dizer, a marcha triunfal, cada vez mais acentuada, da
ideia da Assunção. Mais de 200 Bispos apresentaram ao Concílio do Vaticano uma petição para o fim de obter-se
uma solene definição. Em seguida, as petições dos Bispos e dos fiéis se foram tornando cada vez mais numerosas e
hoje, afinal, essa verdade é um dogma de fé.

b) Um indício eloquentíssimo. Finalmente, um indício eloquentíssimo da Assunção corpórea de Maria é o fato de que
em nenhum lugar da terra nos é dado achar seu corpo ou mesmo uma parte só do mesmo. Mostra-se seu sepulcro
em Jerusalém; outros pretendem que ele esteja em Éfeso; em todo caso, trata-se sempre de um sepulcro vazio.
Nenhuma igreja, seja do Oriente, seja do Ocidente, jamais se jactou de possuir o corpo de Maria ou parte do mesmo.
No entanto, todos sabem quanto os fiéis teriam ambicionado possuir esse corpo ou alguma parte desse corpo, do
qual tomou sua carne o Verbo de Deus.

Na hipótese, portanto, de que esse corpo, de que Deus tomou sua carne, não se ache glorioso no céu, teria de jazer
pulverizado, abandonado, ignorado Deus sabe em que canto oculto da terra. Mas seria isto possível? O senso cristão
se rebela contra esta hipótese e tanto mais se rebela quanto bem sabe o cuidado com que Deus conserva as
relíquias dos Santos, tendo mesmo perado milagres extraordinários para não as deixar desprezadas, sem glória e
sem honras. Esta reflexão nos leva a concluirmos que Maria não tem seu corpo na terra. Se não o tem na terra, deve
tê-lo no céu.

Assentado o fato da Assunção, passemos a ver sua conveniência.

3. A VOZ DA RAZÃO

Esse triunfo singular era requerido pela glória plena de Cristo, de Maria e do céu.

3.1. A plena glória de Cristo


Em primeiro lugar, exigia este triunfo a plena glória de Cristo, ou seja, sua honra e seu amor por sua Mãe; honra e
amor filial que ficariam seriamente comprometidos se Ele, podendo subtrair sua Mãe à humilhação da corrupção do
corpo, não o tivesse feito. A integridade virginal, que Ele não ousara destruir para nascer, seria deixada, porventura,
entregue aos vermes vorazes do sepulcro?

Exigia-o o amor que Ele sempre nutrira por Aquela que o havia revestido de carne humana. Com efeito, o amor é
unitivo e, por isso, Jesus não podia consentir em que, enquanto a alma de sua Mãe lhe era unida na glória do céu, o
corpo (requerido para a constituição da pessoa) ficasse longe dEle nas trevas do sepulcro. Oh! se um filho, diante do
frio e inerte cadáver da própria Mãe pudesse repetir aquelas grandes palavras: "Levanta-te e anda!", acreditais que
não as repetiria? Ora, Jesus podia repetir aquelas palavras, porque era onipotente e, portanto, devia sem dúvida
repeti-las; tanto mais que, como observa Pedro Blesense, devia parecer a Cristo que não teria subido todo ao céu até
que tivesse atraído a si Aquela de cuja carne havia tomado sua própria carne (PL. 207, 662). Com efeito, Maria,
segundo a ousada expressão de um príncipe da oratória sagrada, é como um Jesus Cristo em esboço. Depois da
Ascensão de Jesus, Ela teria ficado aqui embaixo como um resto, um resíduo de Jesus.

3.2. A plena glória de Maria

Exigia esse triunfo, em segundo lugar, a plena glória de Maria, ou seja, os múltiplos nexos que ligavam a Virgem
Santíssima a Cristo. Com efeito, a Virgem Santíssima foi sempre e em tudo semelhante a Cristo; foi, diria o divino
Poeta, "a face que a Cristo mais se assemelha". Os mistérios da vida de Maria se harmonizam maravilhosamente
com os mistérios da vida de Cristo. A cada mistério da vida de Cristo corresponde sempre um mistério análogo da
vida de Maria. Ao mistério, portanto, da gloriosa Ressurreição de Cristo devia corresponder o mistério da
ressurreição gloriosa de Maria. À gloriosa Ascensão de Cristo devia corresponder a gloriosa Assunção de Maria. Dois
destinos tão maravilhosamente unidos desde sua origem e durante todo seu curso seriam, porventura, separados
em seu termo?
Além disso, dada a identidade originária da carne de Cristo com a de Maria, era mais do que conveniente que
também a carne de Maria não tivesse, como não teve a de Cristo, de conhecer a corrupção da sepultura. Ligada de
modo tão íntimo e indissolúvel Àquele que é a vida: "Ego sum vita", como era possível que aquela carne bendita
fosse presa da morte?

3.3. A plena glória do céu

Em terceiro lugar, exigia esse glorioso triunfo a plena glória do céu, o qual não podia ficar por muito tempo sem sua
doce Rainha. Cantou egregiamente um delicado poeta moderno: "Tinham necessidade de teus cantos os céus - ó
boca santa, pura e bela - que Jesus beijou; se tu não cantasses, pareceria menos belo o canto dos céus. Tinham
necessidade de teu riso os céus - ó boca santa, pura e bela - que Jesus beijou: Abril sem flores não é abril, nem
seriam céu os céus sem ti" (Fábio Gualdo).

Com razão, portanto, a Igreja canta exultante: "Assumpta est Maria in caelum: gaudent Angeli, collaudantes
benedicunt Dominum".

Ao ingresso triunfal de Maria nos céus, em corpo e alma, seguiu-se logo, no meio da mais jubilosa exultação de todo
aquele reino bem-aventurado, sua coroação como Rainha do universo. Os coros dos Anjos, o colégio dos Apóstolos,
o exército dos Mártires, dos Confessores, das Virgens, saíram a seu encontro, agitando suas palmas e exclamando:
"Salve, ó Rainha!" - "Tu és a glória da Jerusalém celeste, a alegria de Israel, a honra do gênero humano!" E Ela passa
em voo de coro a coro, de luz a luz, até o centro de toda luz, de toda beleza, de toda majestade, até "o ponto que
resplandece sem véus" - Deus.

Que dizer, pois, do amplexo inefável com que recebem as Três Pessoas Divinas Aquela que era unida por liames tão
íntimos e singulares a cada uma delas? Quem glorificara de modo tão singular as três Pessoas divinas, é então
glorificada por elas de modo extraordinário.

Que dizer da exultação de toda a corte celeste, quando o Eterno Pai a fez sentar-se à destra do Filho e lhe pôs sobre
a cabeça a coroa de Rainha do céu e da terra? Ei-la elevada acima de todos. O ponto mais alto da Igreja triunfante
corresponde ao ponto mais baixo da glória de Maria. A todos os olhos, Ela aparecia como a mulher vestida de sol,
com a cabeça cercada por uma coroa de doze estrelas. Por todo o Paraíso ecoa seu nome dulcíssimo. "Assim",
repetirei com o divino Poeta, "a melodia ondeante se rematava - e todos os outros fulgores - faziam soar o nome de
Maria" (Paraíso, 23, 96-98).

CONCLUSÃO

Gaudeamus omnes in Domino! Exultemos todos no Senhor, ao revocarmos o grande mistério da Assunção de
Maria... "Gaudeamus omnes in Domino" É o convite que nos dirige a Igreja na liturgia da
Assunção. Gaudeamus! Exultemos, pois a glória e o júbilo da Mãe, da Rainha, é também glória e alegria dos filhos e
dos servos. Gaudeamus! Exultemos, pois a Virgem Santíssima, como um dia seu Filho, subiu em corpo e alma ao céu
para preparar um lugar também para nós: a Mãe, com efeito, não pode ficar sem seus filhos, a Rainha não pode ficar
sem os servos. Também a nossa alma, depois de ter estado separada, se unirá um dia ao corpo... A Senhora da
Assunção nos espera!

Gaudeamus! Exultemos! Pois, se a terra perdeu sua flor mais bela, obteve no céu sua mais poderosa Padroeira,
aquela Onipotência Suplicante nos braços da qual todos podemos encontrar o refúgio mais seguro na vida e na
morte. De suas mãos correm perenes rios de graças, tirados das Chagas de Cristo. Ela nos ajudará a passarmos por
este mundo sem sermos do mundo, a passarmos por entre o pó da terra sem ficarmos empoeirados, a
atravessarmos entre os ataques movidos pelo demônio e pela carne sem sairmos feridos. Ela nos protegerá até
aquele momento supremo em que todos, Mãe e filhos, Rainha e servos, trocaremos mutualmente, em uma alegria
inexprimível, um sorriso sem fim.

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[1]
Maria nel Dogma, P. II, q. V.

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ROSCHINI, G. Instruções Marianas. Tradução de José Vicente. São Paulo: Edições Paulinas, 1960, p.219-226.
http://www.mulhercatolica.org/2013/08/a-glorificacao-do-corpo-e-da-alma-de.html

As perfeições relativas à alma de Maria: § 1 - A imunidade de imperfeições: A


imunidade do pecado original
Por Padre Gabriel Roschini

A parte principal do composto humano é a alma. Comecemos, pois, nossas instruções pela alma.

Art. I: A IMUNIDADE DE IMPERFEIÇÕES

A alma de Maria foi imune de qualquer imperfeição e cheia de todas as perfeições. Foi imune de qualquer
imperfeição e, assim, daquela tríplice imperfeição que todos nós possuímos, a saber: o pecado original, o foco
ou chama da concupiscência e o pecado atual. Estava ornada de todas as perfeições e, assim, cheia 1) de graça, 2)
das virtudes, 3) dosdons do Espírito Santo, 4) das beatitudes, 5) dos frutos do Espírito Santo e 6) de carismas ou
graças grátis datas.

1. A IMUNIDADE DO PECADO ORIGINAL

A primeira imperfeição que contraem, inevitavelmente, as almas de todos os míseros filhos de Adão é o pecado
original. Somente Maria foi livre dele. Ela é a Imaculada Conceição. Vejamos, pois, brevemente 1) o significado, 2) as
provas desse insigne privilégio.

I. O SIGNIFICADO DO PRIVILÉGIO

Este insigne privilégio concedido por Deus à sua Mãe Santíssima compreende quatro coisas: a elevação do homem à
ordem sobrenatural mediante a graça santificante, a perda dessa graça pelo pecado cometido pelos nossos
primeiros pais, a transmissão deste pecado, chamado original, a todos os seus descendentes por via da geração
natural; a exceção feita por Deus para sua Mãe Santíssima, em vista justamente da missão singularíssima a que a
tinha predestinado. Exponhamos brevemente esses quatro pontos fundamentais.

A Imaculada Conceição supõe, antes de tudo, a elevação do gênero humano, na pessoa de nossos primeiros pais, à
ordem sobrenatural, mediante a graça santificante. Com efeito, não contente de dar a nossos protoparentes e,
neles, a todos os seus descendentes os dons naturais, a saber: a alma e o corpo, que correspondiam à sua natureza
de homens, Deus também quis dar-lhes dons de todo indevidos, isto é, sobrenaturais, como é a graça santificante
(verdadeira participação na natureza divina) e as virtudes infusas, e ainda dons preternaturais, como a integridade
(isto é, a plena submissão do apetite sensitivo à razão), a impassibilidade e a imortalidade. Todo esse acúmulo de
dons -- naturais, sobrenaturais e preternaturais -- nossos primeiros pais teriam transmitidos a seus descendentes,
sob a condição, porém, de que prestassem a Deus um ato de obediência em prova de sua posição de súditos,
abstendo-se de comer do fruto proibido.

O homem, o primeiro homem, como todos sabem, em seguida à instigação de Eva, seduzida pela serpente infernal,
recusou a Deus esse ato de submissão e veio assim a perder, para si e seus descendentes, os dons indevidos à sua
natureza, isto é, os dons sobrenaturais e os dons preternaturais, ficando só com os dons naturais, ou seja, a alma e o
corpo.

Este primeiro pecado, chamado justamente de original, em virtude de sua solidariedade com Adão, do qual todos
descendem, se transmite, junto com a natureza humana, a todos de sua prole, como consta da carta de São Paulo
aos Romanos (5, 12-19), onde afirma que todos os homens pecaram em Adão, sua cabeça moral: "No qual todos
pecaram" (Rom 5, 12).

Mesmo a Virgem Santíssima, justamente pelo fato de ser descendente de Adão por via de geração natural, deveria
ter contraído esse pecado original, deveria ter aparecido neste mundo como nós, isto é, sem os dons preternaturais
e sobrenaturais e, por conseguinte, privada da graça santificante e sujeita ao demônio. Deus, porém, como o definiu
solenemente Pio IX, por um privilégio só a Ela concedido e, portanto, singular, em previsão dos méritos do
Redentor, seu Filho, a Ela previamente aplicados, noprimeiro instante de sua existência a preservou de incorrer na
culpa original.

Disse por singular privilégio, pois ninguém, na inumerável multidão de descendentes de Adão, teve tal privilégio,
senão Maria.

Disse em previsão dos méritos do Redentor, seu Filho, porque, como todos os outros descendentes de Adão, também
a Virgem Santíssima, sujeita ao débito do pecado, teve necessidade do Redentor universal e da aplicação antecipada
de seus méritos. Também Ela foi remida; antes, foi a primeira a ser remida; mas o foi de um modo mais excelente,
isto é, por uma redenção preservativa (impedindo assim a queda) e não como nós, por uma
redenção liberativa (reerguendo depois da queda).

Disse mais: no primeiro instante de sua existência, isto é, no momento mesmo em que sua alma foi criada e
infundida em seu corpo. Portanto, quando a onda lodosa do pecado original estava para envolvê-la e abatê-la, a mão
do Onipotente estendeu-se sobre Ela, impedindo assim que a atingisse. Maria não esteve nunca, portanto, nem
mesmo um instante, sob a lei do pecado, sob o domínio de Satanás.

Isto posto, passemos a considerar a provas desse insigne privilégio.

II. AS PROVAS DO PRIVILÉGIO

1. A SAGRADA ESCRITURA

A Sagrada Escritura, a Tradição e a razão proclamam em altas vozes esse privilégio insigne.

A Sagrada Escritura, antes de tudo. Nenhuma passagem do Velho ou do Novo Testamento nos diz, explicitamente,
que a Virgem não contraiu o pecado original. Dizem-nos isto, porém, implicitamente, duas passagens: uma do Velho
(o Proto-evangelho) (Gen 3, 15) e uma do Novo Testamento (a saudação do Anjo a Maria (Lc 1, 28).

a) O Proto-evangelho. Di-lo implicitamente o Proto-evangelho, ou seja, o primeiro anúncio da redenção, feito por
Deus mesmo a nossos protoparentes no Éden, logo depois da queda dos mesmos: "Eu porei inimizade entre ti e a
mulher, entre a descendência tua e descendência dela. Ela te esmagará a cabeça e tu armarás insídias a seu
calcanhar". Esta mulher futura, vencedora de Satanás, é Maria. Do texto ora citado pode-se deduzir um duplo
argumento em favor da Imaculada Conceição. Com efeito, o texto enuncia uma especial e ilimitada inimizade, ou
seja, uma oposição plena e contínua entre o diabo, isto é, o pecado e a mulher profetizada, ou seja, a Senhora
(aquela mesma oposição que teria de existir entre Cristo e o diabo). Mas essa oposição não seria plena e contínua se,
mesmo por um só instante, a Virgem Santíssima tivesse de ficar sujeita ao pecado original, isto é, ao diabo.

Além disso, o texto do Gênesis declara que a Virgem Santíssima, junto com seu Filho, teria de conquistar (como
consequência de sua plena e contínua inimizade com o diabo) um triunfo integral sobre o demônio e o pecado. O par
dos vencidos (Adão e Eva) viria a ser substituído pelos dois vencedores (Cristo e Maria). Mas esse triunfo não teria
sido integral se a Virgem Santíssima, no primeiro instante de sua existência, houvesse estado sujeita à culpa e,
portanto, vencida pelo demônio.

No Proto-evangelho, portanto, encontramos revelada formalmente, embora só de modo implícito, a verdade da


Imaculada Conceição.

b) A saudação do Anjo. Outro testemunho implícito da Imaculada Conceição, encontramo-la na saudação dirigida
pelo Anjo à Virgem no dia da Anunciação.
Disse o Anjo: "Salve, cheia de graça; o Senhor é convosco; bendita sois vós entre as mulheres". Notem-se bem três
coisas: a Virgem Santíssima é proclamada cheia de graça, unida a Deus, bendita entre as mulheres, sem limite algum
de tempo. São três afirmações que a põem equivalentemente, para fora da esfera contaminada pela culpa, na qual
se movem todos os míseros filhos de Eva. Com efeito, Ela é saudada como tão cheia de graça que jamais poderá ter
estado privada dela, nem mesmo por um só instante de sua existência; é saudada como unida de tal modo a Deus,
que jamais terá podido estar separada dEle pelo pecado, nem mesmo por um instante; é saudada como bendita
entre as mulheres de um modo que jamais terá podido, nem por um instante, ser objeto de maldição da parte de
Deus. Esta é a interpretação dada pelos Padres às palavras do Anjo. Maria apareceu, portanto, neste mundo como
uma aurora cândida, sem sombra de culpa: "quasi aurora consurgens". Tudo isso se nos tornará evidente, se nos
detivermos a fazer uma rápida análise dos três incisos da saudação do Anjo: são os três raios da Imaculada.

"Salve, cheia de graça!" A Virgem Santíssima é saudada como cheia de graça. Não só. Essa plenitude de graça é de tal
modo uma propriedade da Virgem Santíssima que constitui, de certa maneira, seu próprio nome. Com efeito, o Anjo
não diz: "Ave, Maria, cheia de graça", mas diz simplesmente: "Ave, ó cheia de graça!" Este vocativo: "cheia de graça"
é como o nome próprio e, portanto, como uma propriedade da Virgem Santíssima. Mas o que constitui a
propriedade, isto é, o proprium de uma pessoa ou de uma coisa, lhe convém não só em algum período determinado
de tempo, mas sempre. Assim, por exemplo, é próprio do sol resplandecer; por isto, o sol resplandece sempre. A
plenitude de graça, portanto, sendo uma propriedade de Maria, deve ter existido sempre nEla; não só quando foi
saudada cheia de graça, porém sempre, desde o primeiro instante de sua vida. Mas, onde está a graça, não pode
estar o pecado, pois a graça é luz e o pecado, trevas; onde está a luz, não podem estar as trevas. Por força, pois, de
sua plenitude de graça, ou seja, dessa sua propriedade, a Virgem Santíssima não deve jamais ter estado em pecado;
deve ter sido, portanto, concebida Imaculada.

Não basta. O Anjo acrescenta mais: "O senhor é convosco", isto é, o Senhor esteve e está em vós, de um modo todo
particular, com sua sabedoria, poder e bondade; esteve e está em vós para vos proteger sob a sombra de suas asas,
como a pupila de seus olhos. Não há nenhuma palavra do Anjo que circunscreva dentro de certo limite de tempo
essa presença particular de Deus em Maria. Deus, portanto, esteve particularmente presente nEla em todos os
instantes de sua vida, desde o primeiro instante de sua cara e gloriosa existência. Mas, onde Deus está presente não
pode estar presente o demônio, ou seja, o pecado. Tanto mais que a Virgem Santíssima havia sido escolhida para a
alta missão de esmagar a cabeça da serpente infernal, que tinha enganado a primeira mulher e a impelira a pecar. A
Virgem Santíssima, desde o primeiro instante de sua existência pessoal, sentiu Deus presente em si mesma, sentiu-
se filha de Deus, portanto, esteve imune da culpa original, que nos priva da presença especial de Deus.

O Anjo, por fim, coerentemente com as afirmações eloquentes dos dois incisos precedentes, disse mais:"Bendita sois
vós entre as mulheres!"

Como é eloquente também este terceiro inciso! A Virgem Santíssima é, com efeito, declarada bendita de um modo
todo particular, em sumo grau, sem limite algum de tempo, portanto, sempre. Mas, onde se tem presente a bênção
de Deus, não pode estar presente de modo algum a maldição hereditária, que é constituída pelo pecado original.
Com efeito, segundo a Escritura, um é o pecado por antonomásia, o pecado original; logo, uma também é a bênção
por antonomásia, a imunidade do pecado original, causa da maldição de Deus. Nas palavras dirigidas pelo Anjo a
Maria Santíssima: "Bendita sois entre as mulheres", que não vê um paralelismo autêntico com as palavras dirigidas
por Deus, logo depois da culpa original, à serpente: "Maldita és tu entre os animais da terra"? Como a maldição
particular da serpente foi efeito e pena do pecado original, assim a bênção particular de Maria foi efeito e prêmio de
sua preservação do pecado original.

A saudação do Anjo a Maria: "Salve, cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois entre as mulheres!" equivale,
em poucas palavras, a esta: "Ave, ó Imaculada!".

No primeiro inciso, com efeito, acha-se expressa a causa formal de sua exímia pureza original, ou seja, a graça:
"Salve, cheia de graça!". No segundo inciso, acha-se expressa a causa eficiente dessa pureza, ou seja, Deus: "o
Senhor é convosco". No terceiro inciso, acha-se expresso o duplo efeito ou fruto da dupla causa, formal e eficiente,
de tal pureza, ou seja, o fruto da plena preservação da maldição e o fruto da bênção singular: "Bendita entre as
mulheres". Em outras palavras, pois, o Anjo disse: "Ave, ó Imaculada!"

2. A TRADIÇÃO

a) Nos três primeiros séculos. À Sagrada Escritura, faz eco a Tradição.

Nos três primeiro séculos da Igreja, esse insigne privilégio era professado implicitamente no paralelo feito
frequentemente entre Eva e Maria, na absoluta pureza e santidade da Virgem Santíssima, na veracidade da
maternidade divina. Estas três grandes verdades, professadas explicitamente, continham, como em germe, a doce
verdade da imunidade de Maria Santíssima à culpa original.

Continha a Imaculada Conceição o conhecidíssimo paralelo Eva-Maria, tanto pela razão da semelhança quanto da
oposição que existira entre elas. Pela razão da semelhança, quer dizer: Como Eva saíra pura e imaculada das mãos de
Deus, assim também Maria, nova Eva, deveria ter saído pura e imaculada, cheia de graça, das mãos de seu Criador.
Tanto mais que a primeira Eva haveria de dar a todos os seus descendentes a morte, enquanto a segunda Eva iria dar
a todos a vida. Pela razão daoposição: Aquela que era, com efeito, destinada por Deus para reparar a culpa de Eva,
como poderia ter incorrido na mesma culpa?

Continha a Imaculada Conceição a verdade da absoluta pureza e santidade de Maria, exaltada de mil modos pelos
Padres da Igreja. Pois exigiam, de fato, que jamais culpa alguma, tanto atual como original, houvesse maculado ou
tivesse podido macular a alma de Maria.

Continha a Imaculada Conceição a verdade fundamental da divina maternidade de Maria, a qual é inconciliável com
qualquer mácula moral, pois a ignomínia da Mãe haveria de refletir-se sobre o Filho.

b) Do século IV em diante. No quarto século, o insigne privilégio começa a ser professado de modo explícito,
especialmente na Igreja Oriental. Santo Efrém, o Sírio, canta assim a imaculada pureza de Maria: "Tu e tua Mãe sois
os únicos totalmente belos, pois em ti, Senhor, não existe nenhuma mácula e nenhuma mácula existe em tua Mãe"
(Carmina Nisibena, p.40, Leipzig, 1866).

Esta profissão explícita se torna, com o correr dos séculos, mais frequente, até que, nos séculos XI e XII, começa a
atrair a atenção dos teólogos da Igreja Latina, com o que se inicia o período das discussões que terminam, depois,
por eliminar todos os obstáculos e por fazer resplandecer em pleníssima luz o insigne privilégio. Nem deve causar
surpresa o fato de que um privilégio tão luminoso haja sido posto em dúvida, ou, mesmo, negado, no decurso dos
séculos, por homens insignes pela piedade e pela doutrina, movidos por algumas razões contrárias que lhes
pareciam insolúveis, embora tenham sido depois solucionadas. Tal oposição foi providencial, pois serviu para
despertar a atenção dos fiéis e fazer resplandecer cada vez mais fúlgida a verdade. "Um eclipse do sol", escreve com
graça Santo Antônio M. Claret[1], "chama a atenção de todos os habitantes de um hemisfério; ao contrário, quando
não há nenhum eclipse, pouquíssimos levantam os olhos para o rei dos astros. Ó quantos e quantos levantaram os
olhos da mente, contemplaram a beleza de Maria, eleita como o sol, e verificaram que a opinião contrária não era
mais do que uma lua passageira, satélite da terra, mais vizinha de nós do que dela, e que nada havia de presunção
em sua beleza por si mesma, embora fosse pouco entendida por nós. Ó quantos cânticos de louvor temos ouvido e
dos quais teríamos ficado privados se não tivesse havido tais oposições! Aconteceu o que se passa com um viajante
que, em marcha à hora de meio-dia, cansado e fatigado, chega a um vale verdejante e fresco, coberto de rosas, lírios
e violetas; vê uma fonte de água abundante e cristalina, que corre de uma rocha, pára, refresca o rosto, bebe a água
e senta-se à margem do regato, e observa que, no meio do mesmo, existem alguns seixos que parecem opor
obstáculo a seu curso; mas não é assim: a água, de fato, não se detém por isso e aqueles seixos são a causa de certo
murmúrio que dão origem a uma sinfonia mais doce e mais grata aos ouvidos que as composições musicais mais
melodiosas. Se não houvesse aqueles seixos, a água correria silenciosamente por seu álveo. Todos sabemos que a
dúvida do Apóstolo São Tomé foi motivo para o Senhor dar provas mais claras de sua ressurreição."

3. A RAZÃO
Depois da Sagrada Escritura e da Tradição, demos a palavra à razão. Esta nos demonstra que Deuspodia preservar a
Virgem da culpa original e que era conveniente que o fizesse, de tal modo que o contrário (ou seja, o contrair a
Virgem a culpa original) teria sido uma coisa de todo inconveniente e, portanto, moralmente impossível por parte de
Deus.

A razão nos demonstra, pois, que Deus podia preservar a Virgem Santíssima da culpa original, visto tal
preservação não apresentar nenhuma repugnância. Não repugna de modo algum com relação a Deus, o qual é
Onipotente e pode fazer tudo que não é contraditório. Não repugna de modo algum com relação ao Filho, pois que
não derroga em nada à sua pureza singularíssima (tendo Ele sido concebido de modo virginal), nem à universalidade
de sua redenção (continuando Ele a ser redentor de todos e também, antes de um modo mais sublime, de Maria).
Não repugna em nada com relação ao Espírito Santo, pois Este podia muito bem, melhor do que purificá-la da culpa
já contraída, preservá-la do contágio dessa culpa. É bem verdade que se trata de um privilégio singular,
extraordinário, inaudito, porém, tudo, não é, porventura, singular, extraordinário, inaudito em Maria? Sua lei é a
exceção.

Mas a razão, além de demonstrar-nos a nenhuma repugnância da conceição imaculada, demonstra-nos ainda sua
múltipla conveniência. Demonstra sua conveniência por parte de Deus Pai, o qual estava, por assim dizer, obrigado a
isentar a Virgem, sua filha predileta, da culpa original, pois que um dia haveria de ter em comum com Ele o próprio
Filho divino. Demonstra sua conveniência por parte do Filho, o qual a teria um dia por Mãe e a ignomínia de Maria se
teria refletido necessariamente sobre o Filho. Demonstra sua conveniência por parte do Espírito Santo, o qual a teria
um dia por Esposa. Era conveniente, portanto, que Ela fosse preservada do contágio da culpa original, que a aurora
de sua vida estivesse em harmoniosa relação com seu meio-dia.

Ademais, quem tiver de tratar de um negócio importante junto a um grande personagem deve ser, antes de tudo,
uma pessoa grata ao mesmo, pois, de outra forma, seu aparecimento o irritaria. No entanto, a Virgem Santíssima
estava destinada a tratar junto a Deus do importantíssimo negócio de nossa reconciliação com Ele. Devia ser,
portanto, uma pessoa que lhe fosse grata. E não o teria sido se, mesmo por um só instante, houvesse estado sujeita
à culpa original.

Com toda razão, portanto, o Sumo Pontífice Pio IX, satisfazendo às ardentes aspirações de todo o orbe católico, no
dia 8 de dezembro de 1854 definiu solenemente, como dogma de fé, a imunidade de Maria em relação ao pecado
original. À voz do Pontífice fazia eco, apenas quatro anos depois, a própria Virgem. Aparecendo, com efeito, em
Lourdes no ano de 1858, à Santa Bernadete que perguntava qual era seu nome, respondeu sorrindo: "Eu sou a
Imaculada Conceição". Como se quisesse dizer: Eu sou aquela que o Vigário de meu divino Filho definiu, faz pouco,
como Imaculada!

Era a sanção trazida do céu à definição feita sobre a terra pelo Vigário de Cristo. E os milagres contínuos, espantosos,
que a Virgem realiza em Lourdes em favor de quem a invoca sob esse belo título, mostram claramente quanto ele
lhe seja caro ao coração e quanto lhe agrade ser exaltada por motivo daquele singular privilégio.

CONCLUSÃO

Maria é, portanto, a Imaculada! Sua alma, desde o primeiro instante de sua infusão no corpo, se nos apresenta toda
circundada de lírios, toda embalsamada por unguentos deliciosos do céu! E é a nossa Mãe, que foi assim agraciada
com um privilégio tão grande, tão glorioso!... A glória da Mãe irá refletir-se espontaneamente sobre seus filhos...

Exultemos! Mas, ao mesmo tempo, tenhamos o mais profundo horror ao pecado. O privilégio insigne concedido por
Deus a Maria nos mostra a inexprimível aversão dEle ao pecado, aversão que O levou a preservar sua Mãe mesmo
daquela culpa que se contrai por necessidade de natureza.

Enfim, oremos! Rezemos à Virgem Santíssima para que, não tendo podido imitá-la com entrar neste mundo sem a
mancha da culpa, possamos ao menos imitá-la no sair deste mundo sem pecado.
[1]
Cfr. L'Immacolata, Introd. e notas do P. G. Roschini O.S.M., p.58-59, Ed. Ancora, 1943.

---------------
ROSCHINI, G. Instruções Marianas. Tradução de José Vicente. São Paulo: Edições Paulinas, 1960, p.119-127.

http://www.mulhercatolica.org/2013/12/as-perfeicoes-relativas-alma-de-maria-1.html

As provas da Realeza de Maria - O MAGISTÉRIO ECLESIÁSTICO


As provas da Realeza de Maria

Por Pe. Gabriel Roschini

1. O MAGISTÉRIO ECLESIÁSTICO

a) Documentos Pontifícios. Em vários documentos pontifícios, encontramos quase de contínuo, na expressão de


“Rainha da terra e do céu”, atribuída à Virgem Santíssima essa Realeza; ou em expressões de todo equivalentes.
Recentemente ainda o imortal Pontífice Pio XI, não contente de bendizer e aprovar o projeto de dedicar-se à
Catedral de Port-Said a Maria, Rainha do Universo, enviou a consagrá-la um Legado seu e ofereceu um preciosíssimo
colar de ouro, cheio de diamantes, para a estátua de Maria. Além disso, permitiu à diocese de Port-Said acrescentar
à Ladainha Lauretana a invocação: Regina mundi, ora pro nobis. Já antes de Pio XI, o imortal Pontífice Leão XIII fizera
coroar em seu nome, em 1902, uma estátua de Maria, Rainha do Universo, venerada em Friburgo, na Suíça.

b) Liturgia. Além disso, a Igreja nos faz continuamente saudar, em sua liturgia, a Virgem Santíssima com o título
de Rainha: ”Salve Regina!”, “Ave, Regina caelorum!”, “Regina caeli, laetare!”

Depois, mais de 800 Bispos, dispersos por todo o mundo, indulgenciavam em suas respectivas dioceses uma
prece dulcíssima à Realeza de Maria, a qual foi difundida por um grupo de piedosas senhoritas romanas e publicada
em várias centenas de revistas. A realeza de Maria Santíssima é, portanto, uma daquelas verdades que estão
contidas na pregação quotidiana e universal da Igreja e, por isso mesmo, no depósito da Revelação, isto é, na
Escritura do Velho e do Novo Testamento, e na Tradição.

2. A SAGRADA ESCRITURA

a) Maria, profetizada e prefigurada no Velho Testamento como “Rainha”. No Velho Testamento, a Realeza de
Maria foi profetizada e prefigurada. Foi predita por Davi, seu antepassado, no Salmo 44, quando, ao descrever as
núpcias do Rei incomparável, o Messias, disse: “Eis as filhas do Rei para te honrar — a Rainha está a teu lado, com
ouro de Ofir... Cheia de glória é a real menina — pérolas e tecido de ouro são as suas vestes. — Sobre tapetes
bordados, é levada ao Rei — atrás dela, as virgens, suas companheiras — são levadas a ti; — conduzidas com festiva
exultação, — entram no palácio real” (Sl 44, 10-17). Esta Rainha, como a Esposa do Cântico dos Cânticos, em sentido
alegórico e literal é, além da Igreja e de modo especial, Maria, o membro mais eminente da Igreja.

Foi prefigurada, em seguida, de modo todo particular, por Betsabé, mãe do Rei Salomão e por Ester, esposa de
Assuero. No livro terceiro dos Reis (3, 19-20), conta-se que Betsabé dirigiu-se para onde estava o rei Salomão, seu
filho, a fim de interceder a favor de Adonias. O Rei levantou-se, foi a seu encontro e, voltando a sentar-se, quis que,
à sua direita, sobre outro trono, sentasse também sua mãe. E esta lhe disse: Venho pedir-te uma pequena graça.
Não me deixes voltar abatida! — Pede então, minha mãe, respondeu o Rei, é muito justo que te satisfaça. — Eis uma
esplêndida imagem do quanto aconteceu e de quanto acontece continuamente no céu entre Maria e seu divino
Filho. Entretanto no céu no dia da Assunção, onde ia interceder por nós, seu divino Filho foi a seu encontro e a fez
sentar-se à sua direita, sobre um trono vizinho ao seu. E, às preces da Rainha, o Filho Rei não nega nada.
Outra figura radiosa de Maria Rainha é Ester, esposa do Rei Assuero (Est 2, 17; 5, 3). “O Rei”, assim se lê, “amou-a
mais do que a todas as outras mulheres, pôs em sua cabeça um diadema real e a fez Rainha, em lugar de Vasti. E
ordenou que se fizesse um suntuoso banquete para todos os príncipes e todos os servos, no matrimônio e nas
núpcias de Ester... E concedeu um feriado a todas as províncias, e distribuiu dádivas com munificência de príncipe...
Ester revestiu-se com o manto real e penetrou no átrio interno do apartamento do Rei e se postou em frente da sala
deste. O Rei estava sentado no trono, colocado no fundo da sala. Apenas Assuero a viu, apresentou-lhe o cetro de
ouro que tinha na mão. Então, Ester aproximou-se e beijou a extremidade do cetro. E o Rei lhe disse: Que queres,
Rainha Ester? Que pedes? Mesmo que pedisses a metade de meu reino, ser-te-ia dada”. O comportamento de
Assuero para com Ester não é, porventura, uma pálida imagem do procedimento de Jesus, Rei dos Reis, para com
Maria, Rainha das Rainhas?

b) Maria saudada como “Rainha” no Novo Testamento. Profetizada e prefigurada no Velho Testamento, Maria
Santíssima é saudada como Mãe do Rei e, por isso mesmo, Rainha no Novo Testamento. É saudada como Mãe de
um Rei pelo Arcanjo São Gabriel, na Anunciação. Falando-lhe, com efeito, do Filho que ela conceberá e dará à luz,
diz: “E o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai e reinará eternamente na casa de Jacó” (Lc 1, 32). É saudada
como “Mãe do Senhor”, isto é, do Rei dos Reis, por Santa Isabel, a qual, como nota o Evangelista, falava sob a moção
do Espírito Santo; “cheia do Espírito Santo” exclamou: “Como me é dado que a Mãe de meu Senhor venha a mim?”
(Lc 1, 44). Também no Apocalipse (12, 5), a Virgem Santíssima, a mulher vestida de sol e coroada com um diadema
de doze estrelas é apresentada como Mãe de um Filho que deve governar todas as nações com uma mão de ferro.
Isto posto, é muito pequeno e muito fácil o passo da “maternidade do Rei” para o título de “Rainha”. São, com
efeito, expressões que se equivalem.

3. A TRADIÇÃO

a) Padres, Doutores e Escritores Eclesiásticos. À palavra de Deus, contida na Sagrada Escritura, faz eco,
harmoniosa, a voz dos séculos cristãos. O privilégio da Realeza de Maria o título deRainha, de Imperatriz, de
Soberana ou Senhora[1]. Eclesiásticos do Oriente e do Ocidente. Teríamos de nos alongar muito mesmo se
quiséssemos limitar-nos a referir seus testemunhos principais. Um célebre Mariólogo do século XVII, Marracci, em
sua Polyantea Mariana, chegou a enumerar 135 escritores que deram a Maria o título de Rainha, de Imperatriz, de
Soberana ouSenhora[2]. Só a palavra Rainha ocupa 13 grandes páginas de citações[3].

b) As antigas pinturas de Maria “Rainha”. O modo mesmo por que a Virgem Santíssima é retratada nas antigas
pinturas das Catacumbas nos deixa compreender como estava inscrito profundamente na mente e no coração
daqueles primeiros cristãos o inefável privilégio da Realeza de Maria. Em uma pintura das Catacumbas de Priscila, a
qual monta ao início do II século, a Virgem Santíssima se acha representada no ato de apresentar seu divino Filho à
adoração dos Magos. Embora a Virgem não esteja sentada, como nas pinturas dos séculos III e IV, traz contudo
atavios que recordam os das Imperatrizes da primeira metade do II século, sem véu algum sobre si[4]. No século IV,
a Virgem é representada como uma Rainha no mármore negro do Museu Kircheriano e nos fragmentos de Damons-
el-Karita[5]. No século VI, encontramos Maria representada nas âmbulas conservadas em Modena. Aí se vê uma
Rainha, cheia de sua majestade: o mesmo tipo que se depara nos famosos mosaicos de Santo Apolinário, em
Ravena, nos afrescos de Santa Maria Antiga, junto ao Fôro Romano e, mais tarde, nos portais de várias igrejas do
século XII[6].

4. A VOZ DA TRADIÇÃO

a) A Virgem Santíssima, Rainha no sentido metafórico. A razão, trabalhando com os vários elementos fornecidos
pela Revelação através da Escritura e da Tradição, esclarece o fato e a natureza da Realeza de Maria. A Virgem
Santíssima é, então, chamada de Rainha não somente em sentido metafórico, mas também em sentido próprio. Rei
e Rainha em sentido metafórico e, portanto, impróprio se dizem aquele e aquela que sobressaem, de modo singular,
sobre seus semelhantes em alguma prerrogativa comum. Assim, por exemplo, o leão é chamado rei das selvas pela
sua força singular; a rosa é chamada rainha das flores pela sua singular beleza. É evidente, nestes casos, o sentido
metafórico das palavras rei e rainha. Outro tanto se pode dizer de Cristo e Maria. Assim, a Virgem Santíssima pode
ser chamada metaforicamente Rainha de toda beleza, pela singular formosura de seus traços; Rainha da santidade,
pela singular plenitude de sua graça, princípio de virtudes e de méritos incalculáveis. E, de fato, a Igreja a invoca de
contínuo nas Ladainhas Lauretanas como Rainha de todos os Santos, genericamente: “Regina Sanctorum omnium”,
porque supera a todos na santidade da vida, mesmo tomados todos eles juntos; invoca-a, em seguida, de modo mais
particular, como ”Rainha dos Anjos”, porque a todos excede no acúmen do intelecto; ”Rainha dos Patriarcas”,
porque a todos sobrepuja no heroísmo e na piedade; ”Rainha dos Profetas”, porque a todos se sobrevela no dom de
profecia; ”Rainha dos Apóstolos”, porque a todos vence no zelo; ”Rainha dos Mártires”, porque a todos precede na
fortaleza; ”Rainha dos Confessores”, porque a todos se avantaja na confissão da fé; ”Rainha das Virgens”, porque a
todas transcende na imaculada pureza. Jesus e Maria, por sua beleza singular, são o Rei e a Rainha de toda a criação.

b) A Virgem Santíssima, Rainha em sentido próprio. Mas, além de lhes convir em sentido metafórico e impróprio,
os títulos de Rei e de Rainha convêm a Cristo e a Maria, respectivamente, também em sentido próprio, em vista do
seu primado não só de excelência, mas também de poder sobre todas as coisas. É bem verdade que só a Deus, como
autor de todas as coisas, convém essencialmente a Realeza universal sobre todas as criaturas, que Ele governa e
conduz a seu fim. Mas é também verdade que Jesus e Maria participam dessa Realeza universal, que convém
essencialmente só a Deus. De que modo? Cristo, mesmo como homem, participa dessa Realeza de duas maneiras:
por direito natural e por direito adquirido. Por direito natural, antes de tudo, por causa de sua personalidade divina,
ou seja, por força da união hipostática. Epor direito adquirido, isto é, por causa do resgate do gênero humano, por
Ele operado, do domínio de Satanás. Outro tanto, de modo paralelo, mas analógico, podemos dizer de Maria. Ela é
Rainha em sentido próprio por dois títulos: por direito natural e por direito adquirido. Por direito natural, em vista
do fato mesmo de ser Mãe do Deus-Homem. De fato, como a Mãe de Deus feito homem, Ela pertence à ordem da
união hipostática (pois a humanidade de Cristo é também termo da maternidade divina) e participa assim da
dignidade real de seu divino Filho. E é também Rainha por direito adquirido, pois que associada intimamente com
Cristo na obra de nosso resgate é verdadeira Co-redentora, ao lado do Redentor.

c) Uma objeção. Não vale objetar que a mãe de um Rei, que se chama comumente de Rainha-Mãe, não é, de
fato, Rainha em sentido próprio, pois não tem a autoridade real, como se poderia dizer ser o caso de Maria.

A resposta a essa objeção não parece nada difícil. É evidente, com efeito, que não há, nem pode haver paridade
alguma entre a assim chamada Rainha-Mãe e a Virgem Santíssima. A Rainha-Mãe é simplesmente mãe de alguém
que não nasceu Rei, mas isto se tornou posteriormente. A Virgem Santíssima, pelo contrário, é Mãe de quem foi Rei
desde o primeiro instante de sua concepção. Concebeu-o a Virgem não somente como Deus, mas também como Rei,
tendo Ele sido concebido e dado à luz por Ela como Rei, em razão mesmo da união hipostática. Podem aplicar-se,
portanto, à Virgem Santíssima com toda razão aquelas palavras do Cântico dos Cânticos: “Vêde o Rei no diadema
com que o coroou sua Mãe” (Cant 3, 11). Comenta Santo Ambrósio: “Coroou-o quando o formou, quando o gerou”
(PL. 16, 328 D.). Em razão, portanto, da maternidade divina de Maria a Mãe de Deus vem a ser partícipe da
dignidade real do Deus-Homem, seu Filho, adquirindo assim certo domínio sobre todas as coisas.

d) Natureza e extensão da Realeza de Maria. A Virgem Santíssima, portanto, é e deve ser chamada Rainha do
universo não só em sentido metafórico, mas também em sentido próprio. Como a de Cristo, a Realeza de Maria é,
também, principal e diretamente uma Realeza sobrenatural e espiritual; secundariamente, porém, e indiretamente é
também uma Realeza natural e temporal, isto é, se estende também às coisas naturais e temporais, enquanto estas
se referem ao fim sobrenatural e espiritual.

Como a de Cristo, assim também a Realeza de Maria não conhece limites de espaço, nem de tempo: estende-se a
todos, a tudo e sempre à terra, ao céu, ao Purgatório e ao Inferno.

Estende-se, antes de tudo, à terra, pois que as graças que descem do céu sobre a terra passam, pela vontade de
Deus, através do coração e das mãos de Maria. Estende-se ao céu, sobre todos os bem-aventurados, seja porque sua
graça essencial é devida, além dos méritos de Cristo, também aos de Maria; seja porque sua graça acidental precípua
é causada pela amabilíssima presença da Virgem. Estende-se ao Purgatório, levando os fieis da terra a sufragarem de
muitos modos as almas que ali sofrem e aplicando a estas, em nome do Senhor, os méritos e as satisfações de seu
divino Filho, e os seus próprios. Estende-se, por fim, ao Inferno, fazendo tremer os demônios, tornando vãos seus
assaltos para a perdição das almas. Não há, portanto, ponto algum do universo sobre que a Virgem Santíssima não
estenda sua Realeza.
---------------
[1] Cf. BOURASSE, Summa Aurea, vol. 9 e 10.
[2] Idem.
[3] L. c., vol. 10, col. 192-212.
[4] Cf. Dict. Archéol. Chrét., art. Mages, t. IX, col. 995.
[5] Cf. DELATTRE, Le culte de la S. Vierge en Afrique, Paris, 1907, p.5-6.
[6] Cf. MALE, L'art réligieux du XII siècle en France, 3ª ed., Paris, 1928, p.56.
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ROSCHINI, G. Instruções Marianas. Tradução de José Vicente. São Paulo: Edições Paulinas, 1960, p.111-114.

Os dons do Espírito Santo em Maria - Dom da Sabedoria


2. A PLENITUDE DOS DONS EM MARIA

g) E agora eis o mais perfeito dos três dons intelectuais do Espírito Santo, o dom de sabedoria. É um dom que
aperfeiçoa a virtude da caridade e reside, ao mesmo tempo, no intelecto e na vontade, pois infunde na alma luz e
calor, verdade e amor. Este dom compendia todos os outros dons, como a caridade compendia em si todas as outras
virtudes.

O dom de sabedoria pode, pois, definir-se um dom que, aperfeiçoando a virtude da caridade, nos faz discernir e
julgar relativamente Deus e as coisas divinas segundo seus mais altos princípios, e nos dão disso o sabor.

“Como Maria recebeu, mais que qualquer outra criatura, uma larga participação na virtude da caridade divina, assim
também possuiu, com inigualável perfeição, o dom de sabedoria, pelo qual sabia discernir quase por instinto divino
as coisas divinas das coisas do mundo, com aquela delicadeza de afeto própria de todo aquele ama, em todas as suas
ações.

Essa celeste sabedoria encheu, em seguida, sua alma de uma doçura imensa e infundiu, por fim, em suas obras
exteriores um perfume do paraíso, pois está escrito que “nada de amargo existe no trato da sabedoria e conviver
com ela não causa tédio, mas consolação e gáudio”.

Quando lemos que “a Sabedoria edificou para si uma casa e levantou sete colunas”, podemos entender como a
espiritual e celeste sabedoria de Maria houvesse sido assinalada por sete caracteres que são, por assim dizer, outros
tantos sustentáculos seus.

“A sabedoria do alto é, primeiramente, pura, depois pacífica, modesta, dócil, procedendo ao modo dos bons, é cheia
de misericórdia e de bons frutos; sem o hábito de criticar e alheia à hipocrisia”.

“Pense-se em quanto deviam ser sólidas as bases dessas sete colunas em Maria e com que majestade se levantava
sobre elas sua sabedoria” (LÉPICIER, 1. c.).

3. CULTIVEMOS OS DONS DO ESPÍRITO SANTO!

Também a nós, como a Maria, conforme o dissemos, embora em uma medida incomparavelmente inferior, no
Batismo, junto com a graça santificante, Deus bendito prodigalizou os dons do Espírito Santo. pois bem, à imitação
de Maria, cultivemo-los também nós incansavelmente em nossa alma! Cultivemo-los, antes de tudo, pela prática das
virtudes morais, prática que constitui a primeira condição necessária para a cultura dos dons. Cultivemo-los, em
segundo lugar, combatendo estrenuamente o espírito do mundo, que é diametralmente oposto ao espírito de Deus,
lendo, meditando as máximas evangélicas e conformando às mesmas nosso próprio procedimento.

Cultivemo-los, finalmente, pelo recolhimento interior, isto é, pelo hábito de pensar frequentemente em Deus, que
vive não somente vizinho a nós, mas em nós e, assim recolhidos, nos será mais fácil escutarmos a voz do Espírito
Santo e segui-la.

—————
ROSCHINI, Gabrielle M., OSM. Instruções Marianas. Tradução de José Vicente. São Paulo: Edições Paulinas, 1960, pp.
176-181.
Fonte: Mulher Católica.org.

http://vashonorabile.blogspot.com.br/2013/07/os-dons-do-espirito-santo-em-maria-dom.html

Os dons do Espírito Santo em Maria - Dom da Inteligência

2. A PLENITUDE DOS DONS EM MARIA

f) Afim ao dom da ciência é o dom de inteligência. O dom de inteligência distingue-se do de ciência, porque seu
objeto é muito mais vasto: não se restringe só às coisas criadas, mas se estende a todas as verdades reveladas; além
disso, seu olhar é mais profundo, fazendo-nos penetrar (intus légere - ler dentro) no significado interior das verdades
reveladas.

Não nos faz, é certo, compreender os mistérios da fé, mas nos faz compreender que, não obstante sua obscuridade,
são críveis, que se harmonizam bem entre si e com o que há de mais nobre na razão humana, com o que se
confirmam os motivos de credibilidade.

“Como o Espírito se comprazia em escolher Maria para sua esposa, assim quis também adorná-la com o precioso
dom de inteligência, para que, além da luz da fé que a iluminou acerca dos mistérios, Ela recebesse outros raios de
viva luz, destinados a dar-lhe a inteligência dos mistérios divinos e especialmente daquele glorioso mistério que nEla
devia realizar-se.

Ora, foi justamente na Encarnação do Verbo que essa resplandeceu vivíssima a seus olhos, de tal modo que, indo
visitar sua prima Isabel, pode, à saudação dessa, responder em termos tão elevados e tão acertados que nos deixam
entender como havia compreendido a grandeza do desígnio divino e a utilidade da Encarnação.

Quando, no dia da purificação, o santo velho Simeão, tomando nos braços a divina criança, profetizou que ela se iria
tornar um sinal de contradição e, voltando-se para Maria, lhe revelou que uma espada de dor lhe havia de atravessar
o coração bendito, oh! Maria entendeu tanto quanto uma pura criatura o podia entender nesta vida todo o plano da
Redenção e percebeu como era necessário que também Ela, em união com seu Jesus, sofresse para o resgate do
gênero humano.

Por isso, pôde dizer com muita verdade que não teve nunca outros sentimentos senão os sentimentos de Jesus
Cristo mesmo: Nós temos o senso de Cristo” (LÉPICIER, 1. c.).
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ROSCHINI, Gabrielle M., OSM. Instruções Marianas. Tradução de José Vicente. São Paulo: Edições Paulinas, 1960, pp.
176-181.

Fonte: Mulher Católica.org.

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Os dons do Espírito Santo em Maria - Dom da Ciência


2. A PLENITUDE DOS DONS EM MARIA

e) Resta-nos considerar agora os três dons intelectuais: de ciência, de inteligência e de sabedoria. O dom de ciência
nos faz julgar retamente das coisas criadas em suas relações com Deus; o dom de inteligência nos descobre a íntima
harmonia das verdades reveladas; o dom de sabedoria nos faz julgarmos, apreciarmos e gostarmos das coisas
divinas (reveladas).

Todos os três têm de comum que nos dão um conhecimento experimental ou quase experimental, porque nos
fazem conhecer as coisas divinas não por via de raciocínio ou reflexão, mas por meio de uma luz superior que no-las
faz atingir como se delas tivéssemos a experiência.

A ciência de que se fala não é a ciência filosófica ou teológica, mas é chamada ciência dos Santos, que nos faz julgar
santamente das coisas criadas em suas relações com Deus.

Pode, pois, definir-se o dom de ciência como um dom que, sob a ação iluminadora do Espírito Santo, aperfeiçoa a
virtude da fé, fazendo-nos conhecer as coisas criadas em suas relações para com Deus.

O objeto do dom de ciência são, portanto, as coisas criadas enquanto nos conduzem a Deus, do qual todas provêm e
pelo qual todas são conservadas. Elas são como degraus para se subir até Deus.

À Mãe de seu Filho, Deus não só concedeu uma vastíssima ciência das coisas sobrenaturais e naturais, mas infundiu
também aquele instinto divino, com o qual Ela poderia apreciar com segurança o valor das coisas divinas e como
todo saber humano converge para a fonte de toda verdade, que é Deus.

“À eficácia desse espírito de ciência se devem especialmente aquelas profundas palavras que Maria pronunciou,
quando foi saudada por Santa Isabel como a Mãe do Verbo. Além disso, se vemos que na vida, tanto privada quanto
pública, de Cristo, Maria sabia discernir com certeza o verdadeiro do falso, desprezando os bens falazes do mundo e
estimando em seu justo valor os trabalhos aos quais se tinha voluntariamente sujeitado pela nossa redenção, tudo
isso aconteceu exatamente como efeito do dom de ciência, pelo que poderia dizer com São Paulo: “As coisas que
eram ganho para mim estimei-as como perda, por causa de Cristo” (LÉPICIER, 1. c.).

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ROSCHINI, Gabrielle M., OSM. Instruções Marianas. Tradução de José Vicente. São Paulo: Edições Paulinas, 1960, pp.
176-181.

Fonte: Mulher Católica.org.

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Os dons do Espírito Santo em Maria - Dom do Temor


2. A PLENITUDE DOS DONS EM MARIA

d) O dom do temor aperfeiçoa ao mesmo tempo a virtude da esperança e a virtude da temperança: a virtude da
esperança, fazendo-nos temer desagradar a Deus e sermos separados dEle; a virtude da temperança, apartando-nos
dos falsos deleites que nos poderiam levar a perdermos Deus.

É um dom, portanto, que inclina a vontade ao respeito filial de Deus, nos afasta do pecado que lhe desagrada e nos
faz esperarmos em seu auxílio poderoso.

Não se trata, pois, daquele medo de Deus que nos inquieta quando nos lembramos de nossos pecados, nos
entristece e perturba. Nem se trata do temor do inferno, que basta para esboçar uma conversão, porém não basta
para dar acabamento à nossa santificação. Trata-se do temor reverencial e filial, que nos faz recear toda ofensa a
Deus.

Grande foi, na realidade, o temor de Maria, porém não foi nada servil. Com efeito, cheia como era da graça divina e
tão pura, tão santa, que castigo poderia jamais temer?

Nem ao menos houve propriamente nEla aquele temor chamado casto, o qual considera a possibilidade e o perigo
de perder Deus com o pecado, pois sabia que, por uma assistência especial do Espírito Santo, não podia perder a
graça; pelo que o temor de Maria, à semelhança do temor de que esteve oprimida a própria alma de Cristo, era um
temor reverencial, produzido por um sentimento vivíssimo da majestade infinita de Deus e de seu infinito poder.
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ROSCHINI, Gabrielle M., OSM. Instruções Marianas. Tradução de José Vicente. São Paulo: Edições Paulinas, 1960, pp.
176-181.

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Os dons do Espírito Santo em Maria - Dom da Fortaleza


2. A PLENITUDE DOS DONS EM MARIA

c) O terceiro dom do Espírito Santo é a fortaleza. Este aperfeiçoa a virtude da fortaleza, dando à vontade um
impulso e uma energia que a tornam capaz de operar e de sofrer alegremente e intrepidamente grandes coisas,
superando todos os obstáculos.

Se considerarmos, de um lado, a grandeza da obra a realizar-se, a que Maria fora predestinada por Deus e, de outro
lado, as dificuldades inumeráveis que lhe competia afrontar, não por parte da carne, pois era imaculada, mas por
parte do demônio e do mundo, veremos que teria havido motivo muito justo para Ela perder a coragem, se
houvesse sido deixada entregue a suas próprias forças.

Como poderia jamais uma criatura, santa sim, mas débil por natureza, achar tanta coragem para realizar uma obra
tão árdua e para vencer os inimigos tão feros? Na graça de Deus, por Jesus Cristo, responde São Paulo.

“Sim, por meio da graça que lhe será dada quase sem medida pelos méritos de Jesus Cristo, seu Filho, Maria vencerá
todas as dificuldades, todo perigo e cumprirá a árdua empresa de cooperar com Cristo, no resgate do gênero
humano. Essa graça a tornará inarredável, qual escolho em meio de um mar tempestuoso e fará com que Ela
repouse em Deus como uma criança nos braços maternos” (LÉPICIER, 1. c.).

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ROSCHINI, Gabrielle M., OSM. Instruções Marianas. Tradução de José Vicente. São Paulo: Edições Paulinas, 1960, pp.
176-181.

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Os dons do Espírito Santo em Maria - Dom da Piedade


2. A PLENITUDE DOS DONS EM MARIA

b) Passemos agora ao dom da piedade. Este dom aperfeiçoa a virtude de religião, que é anexa à justiça e produz no
coração um afeto filial para com Deus e uma terna devoção às Pessoas e às coisas divinas, para fazer-nos cumprir
com santa presteza os deveres religiosos.

Se nos fosse dado penetrar com o olhar no íntimo de Maria, ficaríamos maravilhados com os sentimentos de filial
afeto para com Deus, nEla inspirados pelo dom de piedade. Que doçura em seus colóquios com o Esposo de sua
alma!

Foi o dom de piedade que levou Maria menina a dedicar sua atividade ao serviço do Templo, que Ela, com a mesma
terna piedade, venerava por cima de todas as coisas materiais.
Foi o dom de piedade que lhe inspirou uma veneração especial pela Sagrada Escritura, como pelas palavras
pronunciadas por seu Filho Jesus, as quais “conservava todas em seu coração”.

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ROSCHINI, Gabrielle M., OSM. Instruções Marianas. Tradução de José Vicente. São Paulo: Edições Paulinas, 1960, pp.
176-181.

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Os dons do Espírito Santo em Maria - Dom de Conselho


1. QUE COISA SÃO

Os dons do Espírito Santo são hábitos sobrenaturais que dão às faculdades da alma tal docilidade que estas
obedecem prontamente às inspirações da graça.

A diferença essencial entre as virtudes e os dons deriva da diferente maneira de operarem aquelas e estes: na
prática da virtude, a graça nos deixa ativos, sob o influxo da prudência; o uso dos dons, ao invés, quando já
chegamos a seu pleno desenvolvimento, requer de nossa parte mais docilidade do que atividade.

Uma comparação: quem pratica a virtude navega a remo; quem goza, ao invés, dos dons navega à vela, com o que
anda mais depressa e com menor esforço. Os dons aperfeiçoam as virtudes teologais e morais.

Quais e quantos são esses dons? São sete (Is 11, 2-3): sabedoria, inteligência, ciência, conselho, piedade, fortaleza e
temor de Deus.

Deus dá, juntamente com a graça santificante, todos esses dons; dá-os, porém, a cada um em determinada medida.
Só a Maria, por assim dizer, os deu sem medida. Passemo-los brevemente em revista.

2. A PLENITUDE DOS DONS EM MARIA

a) O dom de conselho aperfeiçoa a virtude da prudência, fazendo-nos julgar prontamente e com segurança, por uma
espécie de intuição sobrenatural, sobre o que convém fazermos, especialmente nos casos difíceis. O objeto próprio
do dom de conselho é a boa direção das ações particulares.

Admirável foi esse dom em Maria, que é chamada pela Igreja a “Mãe do Bom Conselho”.

Com efeito, a alma de Maria esteve sempre voltada para Deus, de quem recebia com suma facilidade todas as
aspirações, motivo por que a Ela, mais de que a qualquer outro Santo, se podem aplicar as palavras: “Tua proteção
será o bom conselho e a prudência te salvará” (Prov 2, 11).

Essa prontidão de Maria em voltar-se para Deus e em receber as divinas iluminações em todas as circunstâncias de
sua vida manteve em sua alma uma paz perfeitíssima.

Mas foi especialmente em duas circunstâncias que Maria Santíssima deixou conhecer o modo eminente em que
possuía esse dom precioso.

Isto aconteceu, primeiro, em sua apresentação no Templo, quando, por inspiração divina, soube ser coisa agradável
a Deus que lhe fosse consagrada, desde a infância, pelo voto de perpétua virgindade.

Em segundo lugar, foi em sua Anunciação, quando, ao ser saudada pelo Anjo como cheia de graça e ao ser pedido o
seu consentimento para o cumprimento da Encarnação, se dirigiu ao Núncio celeste para saber dele quais eram as
disposições divinas a seu respeito e, conhecidas estas, se ofereceu totalmente, como serva, ao Senhor (LÉPICIER, Il
piú bel fiore del Paradiso, pp. 68-69).

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ROSCHINI, Gabrielle M., OSM. Instruções Marianas. Tradução de José Vicente. São Paulo: Edições Paulinas, 1960, pp.
176-181.

Fonte: Mulher Católica.org.

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As provas da Realeza de Maria

1. O MAGISTÉRIO ECLESIÁSTICO

a) Documentos Pontifícios. Em vários documentos pontifícios, encontramos quase de contínuo, na expressão de


"Rainha da terra e do céu", atribuída à Virgem Santíssima essa Realeza; ou em expressões de todo equivalentes.
Recentemente ainda o imortal Pontífice Pio XI, não contente de bendizer e aprovar o projeto de dedicar-se à
Catedral de Port-Said a Maria, Rainha do Universo, enviou a consagrá-la um Legado seu e ofereceu um preciosíssimo
colar de ouro, cheio de diamantes, para a estátua de Maria. Além disso, permitiu à diocese de Port-Said acrescentar
à Ladainha Lauretana a invocação: Regina mundi, ora pro nobis. Já antes de Pio XI, o imortal Pontífice Leão XIII fizera
coroar em seu nome, em 1902, uma estátua de Maria, Rainha do Universo, venerada em Friburgo, na Suíça.

b) Liturgia. Além disso, a Igreja nos faz continuamente saudar, em sua liturgia, a Virgem Santíssima com o título
de Rainha: "Salve Regina!", "Ave, Regina caelorum!", "Regina caeli, laetare!"

Depois, mais de 800 Bispos, dispersos por todo o mundo, indulgenciavam em suas respectivas dioceses uma prece
dulcíssima à Realeza de Maria, a qual foi difundida por um grupo de piedosas senhoritas romanas e publicada em
várias centenas de revistas. A realeza de Maria Santíssima é, portanto, uma daquelas verdades que estão contidas na
pregação quotidiana e universal da Igreja e, por isso mesmo, no depósito da Revelação, isto é, na Escritura do Velho
e do Novo Testamento, e na Tradição.

2. A SAGRADA ESCRITURA

a) Maria, profetizada e prefigurada no Velho Testamento como "Rainha". No Velho Testamento, a Realeza de Maria
foi profetizada e prefigurada. Foi predita por Davi, seu antepassado, no Salmo 44, quando, ao descrever as núpcias
do Rei incomparável, o Messias, disse: "Eis as filhas do Rei para te honrar — a Rainha está a teu lado, com ouro de
Ofir... Cheia de glória é a real menina — pérolas e tecido de ouro são as suas vestes. — Sobre tapetes bordados, é
levada ao Rei — atrás dela, as virgens, suas companheiras — são levadas a ti; — conduzidas com festiva
exultação, — entram no palácio real" (Sl 44, 10-17). Esta Rainha, como a Esposa do Cântico dos Cânticos, em sentido
alegórico e literal é, além da Igreja e de modo especial, Maria, o membro mais eminente da Igreja.

Foi prefigurada, em seguida, de modo todo particular, por Betsabé, mãe do Rei Salomão e por Ester, esposa de
Assuero. No livro terceiro dos Reis (3, 19-20), conta-se que Betsabé dirigiu-se para onde estava o rei Salomão, seu
filho, a fim de interceder a favor de Adonias. O Rei levantou-se, foi a seu encontro e, voltando a sentar-se, quis que,
à sua direita, sobre outro trono, sentasse também sua mãe. E esta lhe disse: Venho pedir-te uma pequena graça.
Não me deixes voltar abatida! — Pede então, minha mãe, respondeu o Rei, é muito justo que te satisfaça. — Eis uma
esplêndida imagem do quanto aconteceu e de quanto acontece continuamente no céu entre Maria e seu divino
Filho. Entretanto no céu no dia da Assunção, onde ia interceder por nós, seu divino Filho foi a seu encontro e a fez
sentar-se à sua direita, sobre um trono vizinho ao seu. E, às preces da Rainha, o Filho Rei não nega nada.
Outra figura radiosa de Maria Rainha é Ester, esposa do Rei Assuero (Est 2, 17; 5, 3). "O Rei", assim se lê, "amou-a
mais do que a todas as outras mulheres, pôs em sua cabeça um diadema real e a fez Rainha, em lugar de Vasti. E
ordenou que se fizesse um suntuoso banquete para todos os príncipes e todos os servos, no matrimônio e nas
núpcias de Ester... E concedeu um feriado a todas as províncias, e distribuiu dádivas com munificência de príncipe...
Ester revestiu-se com o manto real e penetrou no átrio interno do apartamento do Rei e se postou em frente da sala
deste. O Rei estava sentado no trono, colocado no fundo da sala. Apenas Assuero a viu, apresentou-lhe o cetro de
ouro que tinha na mão. Então, Ester aproximou-se e beijou a extremidade do cetro. E o Rei lhe disse: Que queres,
Rainha Ester? Que pedes? Mesmo que pedisses a metade de meu reino, ser-te-ia dada". O comportamento de
Assuero para com Ester não é, porventura, uma pálida imagem do procedimento de Jesus, Rei dos Reis, para com
Maria, Rainha das Rainhas?

b) Maria saudada como "Rainha" no Novo Testamento. Profetizada e prefigurada no Velho Testamento, Maria
Santíssima é saudada como Mãe do Rei e, por isso mesmo, Rainha no Novo Testamento. É saudada como Mãe de
um Rei pelo Arcanjo São Gabriel, na Anunciação. Falando-lhe, com efeito, do Filho que ela conceberá e dará à luz,
diz: "E o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai e reinará eternamente na casa de Jacó" (Lc 1, 32). É saudada
como "Mãe do Senhor", isto é, do Rei dos Reis, por Santa Isabel, a qual, como nota o Evangelista, falava sob a moção
do Espírito Santo; "cheia do Espírito Santo" exclamou: "Como me é dado que a Mãe de meu Senhor venha a mim?"
(Lc 1, 44). Também no Apocalipse (12, 5), a Virgem Santíssima, a mulher vestida de sol e coroada com um diadema
de doze estrelas é apresentada como Mãe de um Filho que deve governar todas as nações com uma mão de ferro.
Isto posto, é muito pequeno e muito fácil o passo da "maternidade do Rei" para o título de "Rainha". São, com
efeito, expressões que se equivalem.

3. A TRADIÇÃO

a) Padres, Doutores e Escritores Eclesiásticos. À palavra de Deus, contida na Sagrada Escritura, faz eco, harmoniosa, a
voz dos séculos cristãos. O privilégio da Realeza de Maria o título
de Rainha, deImperatriz, de Soberana ou Senhora[1]. Eclesiásticos do Oriente e do Ocidente. Teríamos de nos alongar
muito mesmo se quiséssemos limitar-nos a referir seus testemunhos principais. Um célebre Mariólogo do século
XVII, Marracci, em sua Polyantea Mariana, chegou a enumerar 135 escritores que deram a Maria o título de Rainha,
de Imperatriz, de Soberana ou Senhora[2]. Só a palavraRainha ocupa 13 grandes páginas de citações[3].

b) As antigas pinturas de Maria "Rainha". O modo mesmo por que a Virgem Santíssima é retratada nas antigas
pinturas das Catacumbas nos deixa compreender como estava inscrito profundamente na mente e no coração
daqueles primeiros cristãos o inefável privilégio da Realeza de Maria. Em uma pintura das Catacumbas de Priscila, a
qual monta ao início do II século, a Virgem Santíssima se acha representada no ato de apresentar seu divino Filho à
adoração dos Magos. Embora a Virgem não esteja sentada, como nas pinturas dos séculos III e IV, traz contudo
atavios que recordam os das Imperatrizes da primeira metade do II século, sem véu algum sobre si[4]. No século IV, a
Virgem é representada como uma Rainha no mármore negro do Museu Kircheriano e nos fragmentos de Damons-el-
Karita[5]. No século VI, encontramos Maria representada nas âmbulas conservadas em Modena. Aí se vê uma Rainha,
cheia de sua majestade: o mesmo tipo que se depara nos famosos mosaicos de Santo Apolinário, em Ravena, nos
afrescos de Santa Maria Antiga, junto ao Fôro Romano e, mais tarde, nos portais de várias igrejas do século XII[6].

4. A VOZ DA TRADIÇÃO

a) A Virgem Santíssima, Rainha no sentido metafórico. A razão, trabalhando com os vários elementos fornecidos pela
Revelação através da Escritura e da Tradição, esclarece o fato e a natureza da Realeza de Maria. A Virgem Santíssima
é, então, chamada de Rainha não somente em sentido metafórico, mas também em sentido próprio. Rei e Rainha
em sentido metafórico e, portanto, impróprio se dizem aquele e aquela que sobressaem, de modo singular, sobre
seus semelhantes em alguma prerrogativa comum. Assim, por exemplo, o leão é chamado rei das selvas pela sua
força singular; a rosa é chamada rainha das flores pela sua singular beleza. É evidente, nestes casos, o sentido
metafórico das palavras rei e rainha. Outro tanto se pode dizer de Cristo e Maria. Assim, a Virgem Santíssima pode
ser chamada metaforicamente Rainha de toda beleza, pela singular formosura de seus traços; Rainha da santidade,
pela singular plenitude de sua graça, princípio de virtudes e de méritos incalculáveis. E, de fato, a Igreja a invoca de
contínuo nas Ladainhas Lauretanas como Rainha de todos os Santos, genericamente: "Regina Sanctorum omnium",
porque supera a todos na santidade da vida, mesmo tomados todos eles juntos; invoca-a, em seguida, de modo mais
particular, como "Rainha dos Anjos", porque a todos excede no acúmen do intelecto; "Rainha dos Patriarcas",
porque a todos sobrepuja no heroísmo e na piedade; "Rainha dos Profetas", porque a todos se sobrevela no dom de
profecia; "Rainha dos Apóstolos", porque a todos vence no zelo; "Rainha dos Mártires", porque a todos precede na
fortaleza; "Rainha dos Confessores", porque a todos se avantaja na confissão da fé;"Rainha das Virgens", porque a
todas transcende na imaculada pureza. Jesus e Maria, por sua beleza singular, são o Rei e a Rainha de toda a criação.

b) A Virgem Santíssima, Rainha em sentido próprio. Mas, além de lhes convir em sentido metafórico e impróprio, os
títulos de Rei e de Rainha convêm a Cristo e a Maria, respectivamente, também em sentido próprio, em vista do seu
primado não só de excelência, mas também de poder sobre todas as coisas. É bem verdade que só a Deus, como
autor de todas as coisas, convém essencialmente a Realeza universal sobre todas as criaturas, que Ele governa e
conduz a seu fim. Mas é também verdade que Jesus e Maria participam dessa Realeza universal, que convém
essencialmente só a Deus. De que modo? Cristo, mesmo como homem, participa dessa Realeza de duas maneiras:
por direito natural e por direito adquirido. Por direito natural, antes de tudo, por causa de sua personalidade divina,
ou seja, por força da união hipostática. E por direito adquirido, isto é, por causa do resgate do gênero humano, por
Ele operado, do domínio de Satanás. Outro tanto, de modo paralelo, mas analógico, podemos dizer de Maria. Ela é
Rainha em sentido próprio por dois títulos: por direito natural e por direito adquirido. Por direito natural, em vista
do fato mesmo de ser Mãe do Deus-Homem. De fato, como a Mãe de Deus feito homem, Ela pertence à ordem da
união hipostática (pois a humanidade de Cristo é também termo da maternidade divina) e participa assim da
dignidade real de seu divino Filho. E é também Rainha por direito adquirido, pois que associada intimamente com
Cristo na obra de nosso resgate é verdadeira Co-redentora, ao lado do Redentor.

c) Uma objeção. Não vale objetar que a mãe de um Rei, que se chama comumente de Rainha-Mãe, não é, de fato,
Rainha em sentido próprio, pois não tem a autoridade real, como se poderia dizer ser o caso de Maria.

A resposta a essa objeção não parece nada difícil. É evidente, com efeito, que não há, nem pode haver paridade
alguma entre a assim chamada Rainha-Mãe e a Virgem Santíssima. A Rainha-Mãe é simplesmente mãe de alguém
que não nasceu Rei, mas isto se tornou posteriormente. A Virgem Santíssima, pelo contrário, é Mãe de quem foi Rei
desde o primeiro instante de sua concepção. Concebeu-o a Virgem não somente como Deus, mas também como Rei,
tendo Ele sido concebido e dado à luz por Ela como Rei, em razão mesmo da união hipostática. Podem aplicar-se,
portanto, à Virgem Santíssima com toda razão aquelas palavras do Cântico dos Cânticos: "Vêde o Rei no diadema
com que o coroou sua Mãe" (Cant 3, 11). Comenta Santo Ambrósio: "Coroou-o quando o formou, quando o gerou"
(PL. 16, 328 D.). Em razão, portanto, da maternidade divina de Maria a Mãe de Deus vem a ser partícipe da
dignidade real do Deus-Homem, seu Filho, adquirindo assim certo domínio sobre todas as coisas.

d) Natureza e extensão da Realeza de Maria. A Virgem Santíssima, portanto, é e deve ser chamada Rainha do
universo não só em sentido metafórico, mas também em sentido próprio. Como a de Cristo, a Realeza de Maria é,
também, principal e diretamente uma Realeza sobrenatural e espiritual; secundariamente, porém, e indiretamente é
também uma Realeza natural e temporal, isto é, se estende também às coisas naturais e temporais, enquanto estas
se referem ao fim sobrenatural e espiritual.

Como a de Cristo, assim também a Realeza de Maria não conhece limites de espaço, nem de tempo: estende-se a
todos, a tudo e sempre à terra, ao céu, ao Purgatório e ao Inferno.

Estende-se, antes de tudo, à terra, pois que as graças que descem do céu sobre a terra passam, pela vontade de
Deus, através do coração e das mãos de Maria. Estende-se ao céu, sobre todos os bem-aventurados, seja porque sua
graça essencial é devida, além dos méritos de Cristo, também aos de Maria; seja porque sua graça acidental precípua
é causada pela amabilíssima presença da Virgem. Estende-se ao Purgatório, levando os fieis da terra a sufragarem de
muitos modos as almas que ali sofrem e aplicando a estas, em nome do Senhor, os méritos e as satisfações de seu
divino Filho, e os seus próprios. Estende-se, por fim, ao Inferno, fazendo tremer os demônios, tornando vãos seus
assaltos para a perdição das almas. Não há, portanto, ponto algum do universo sobre que a Virgem Santíssima não
estenda sua Realeza.
Por Pe. Gabriel Roschini
---------------
[1]
Cf. BOURASSE, Summa Aurea, vol. 9 e 10.
[2]
Idem.
[3]
L. c., vol. 10, col. 192-212.
[4]
Cf. Dict. Archéol. Chrét., art. Mages, t. IX, col. 995.
[5]
Cf. DELATTRE, Le culte de la S. Vierge en Afrique, Paris, 1907, p.5-6.
[6]
Cf. MALE, L'art réligieux du XII siècle en France, 3ª ed., Paris, 1928, p.56.

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ROSCHINI, G. Instruções Marianas. Tradução de José Vicente. São Paulo: Edições Paulinas, 1960, p.111-114.
Este artigo foi publicado originalmente no * Mulher Católica *.

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Os dons do Espírito Santo em Maria


Por Pe. Gabriel Roschini

1. QUE COISA SÃO

Os dons do Espírito Santo são hábitos sobrenaturais que dão às faculdades da alma tal docilidade que estas
obedecem prontamente às inspirações da graça.

A diferença essencial entre as virtudes e os dons deriva da diferente maneira de operarem aquelas e estes: na
prática da virtude, a graça nos deixa ativos, sob o influxo da prudência; o uso dos dons, ao invés, quando já
chegamos a seu pleno desenvolvimento, requer de nossa parte mais docilidade do que atividade. .
Uma comparação: quem pratica a virtude navega a remo; quem goza, ao invés, dos dons navega à vela, com o que
anda mais depressa e com menor esforço. Os dons aperfeiçoam as virtudes teologais e morais. . Quais e quantos são
esses dons? São sete (Is 11, 2-3): sabedoria, inteligência, ciência, conselho, piedade, fortaleza e temor de Deus.

Deus dá, juntamente com a graça santificante, todos esses dons; dá-os, porém, a cada um em determinada medida.
Só a Maria, por assim dizer, os deu sem medida. Passemo-los brevemente em revista.

2. A PLENITUDE DOS DONS EM MARIA

a) O dom de conselho aperfeiçoa a virtude da prudência, fazendo-nos julgar prontamente e com segurança, por uma
espécie de intuição sobrenatural, sobre o que convém fazermos, especialmente nos casos difíceis. O objeto próprio
do dom de conselho é a boa direção das ações particulares.

Admirável foi esse dom em Maria, que é chamada pela Igreja a “Mãe do Bom Conselho”.

Com efeito, a alma de Maria esteve sempre voltada para Deus, de quem recebia com suma facilidade todas as
aspirações, motivo por que a Ela, mais de que a qualquer outro Santo, se podem aplicar as palavras: “Tua proteção
será o bom conselho e a prudência te salvará” (Prov 2, 11).

Essa prontidão de Maria em voltar-se para Deus e em receber as divinas iluminações em todas as circunstâncias de
sua vida manteve em sua alma uma paz perfeitíssima.

Mas foi especialmente em duas circunstâncias que Maria Santíssima deixou conhecer o modo eminente em que
possuía esse dom precioso.

Isto aconteceu, primeiro, em sua apresentação no Templo, quando, por inspiração divina, soube ser coisa agradável
a Deus que lhe fosse consagrada, desde a infância, pelo voto de perpétua virgindade. .
Em segundo lugar, foi em sua Anunciação, quando, ao ser saudada pelo Anjo como cheia de graça e ao ser pedido o
seu consentimento para o cumprimento da Encarnação, se dirigiu ao Núncio celeste para saber dele quais eram as
disposições divinas a seu respeito e, conhecidas estas, se ofereceu totalmente, como serva, ao Senhor (LÉPICIER, Il
piú bel fiore del Paradiso, p.68-69).
b) Passemos agora ao dom da piedade. Este dom aperfeiçoa a virtude de religião, que é anexa à justiça e produz no
coração um afeto filial para com Deus e uma terna devoção às Pessoas e às coisas divinas, para fazer-nos cumprir
com santa presteza os deveres religiosos.

Se nos fosse dado penetrar com o olhar no íntimo de Maria, ficaríamos maravilhados com os sentimentos de filial
afeto para com Deus, nEla inspirados pelo dom de piedade. Que doçura em seus colóquios com o Esposo de sua
alma!

Foi o dom de piedade que levou Maria menina a dedicar sua atividade ao serviço do Templo, que Ela, com a mesma
terna piedade, venerava por cima de todas as coisas materiais. .
Foi o dom de piedade que lhe inspirou uma veneração especial pela Sagrada Escritura, como pelas palavras
pronunciadas por seu Filho Jesus, as quais “conservava todas em seu coração”.

c) O terceiro dom do Espírito Santo é a fortaleza. Este aperfeiçoa a virtude da fortaleza, dando à vontade um impulso
e uma energia que a tornam capaz de operar e de sofrer alegremente e intrepidamente grandes coisas, superando
todos os obstáculos.

“Se considerarmos, de um lado, a grandeza da obra a realizar-se, a que Maria fora predestinada por Deus e, de
outro lado, as dificuldades inumeráveis que lhe competia afrontar, não por parte da carne, pois era imaculada, mas
por parte do demônio e do mundo, veremos que teria havido motivo muito justo para Ela perder a coragem, se
houvesse sido deixada entregue a suas próprias forças.

Como poderia jamais uma criatura, santa sim, mas débil por natureza, achar tanta coragem para realizar uma obra
tão árdua e para vencer os inimigos tão feros? Na graça de Deus, por Jesus Cristo, responde São Paulo.

“Sim, por meio da graça que lhe será dada quase sem medida pelos méritos de Jesus Cristo, seu Filho, Maria vencerá
todas as dificuldades, todo perigo e cumprirá a árdua empresa de cooperar com Cristo, no resgate do gênero
humano. Essa graça a tornará inarredável, qual escolho em meio de um mar tempestuoso e fará com que Ela
repouse em Deus como uma criança nos braços maternos” (LÉPICIER, 1. c.).

d) O dom do temor aperfeiçoa ao mesmo tempo a virtude da esperança e a virtude da temperança: a virtude da
esperança, fazendo-nos temer desagradar a Deus e sermos separados dEle; a virtude da temperança, apartando-nos
dos falsos deleites que nos poderiam levar a perdermos Deus.

É um dom, portanto, que inclina a vontade ao respeito filial de Deus, nos afasta do pecado que lhe desagrada e nos
faz esperarmos em seu auxílio poderoso.

Não se trata, pois, daquele medo de Deus que nos inquieta quando nos lembramos de nossos pecados, nos
entristece e perturba. Nem se trata do temor do inferno, que basta para esboçar uma conversão, porém não basta
para dar acabamento à nossa santificação. Trata-se do temor reverencial e filial, que nos faz recear toda ofensa a
Deus.

Grande foi, na realidade, o temor de Maria, porém não foi nada servil. Com efeito, cheia como era da graça divina e
tão pura, tão santa, que castigo poderia jamais temer?

Nem ao menos houve propriamente nEla aquele temor chamado casto, o qual considera a possibilidade e o perigo
de perder Deus com o pecado, pois sabia que, por uma assistência especial do Espírito Santo, não podia perder a
graça; pelo que o temor de Maria, à semelhança do temor de que esteve oprimida a própria alma de Cristo, era um
temor reverencial, produzido por um sentimento vivíssimo da majestade infinita de Deus e de seu infinito poder.

e) Resta-nos considerar agora os três dons intelectuais: de ciência, de inteligência e de sabedoria. O dom
de ciência nos faz julgar retamente das coisas criadas em suas relações com Deus; o dom de inteligência nos
descobre a íntima harmonia das verdades reveladas; o dom de sabedoria nos faz julgarmos, apreciarmos e
gostarmos das coisas divinas (reveladas).

Todos os três têm de comum que nos dão um conhecimento experimental ou quase experimental, porque nos fazem
conhecer as coisas divinas não por via de raciocínio ou reflexão, mas por meio de uma luz superior que no-las faz
atingir como se delas tivéssemos a experiência.
A ciência de que se fala não é a ciência filosófica ou teológica, mas é chamada ciência dos Santos, que nos faz julgar
santamente das coisas criadas em suas relações com Deus.

Pode, pois, definir-se o dom de ciência como um dom que, sob a ação iluminadora do Espírito Santo, aperfeiçoa a
virtude da fé, fazendo-nos conhecer as coisas criadas em suas relações para com Deus.

O objeto do dom de ciência são, portanto, as coisas criadas enquanto nos conduzem a Deus, do qual todas provêm e
pelo qual todas são conservadas. Elas são como degraus para se subir até Deus.

À Mãe de seu Filho, Deus não só concedeu uma vastíssima ciência das coisas sobrenaturais e naturais, mas infundiu
também aquele instinto divino, com o qual Ela poderia apreciar com segurança o valor das coisas divinas e como
todo saber humano converge para a fonte de toda verdade, que é Deus.

“À eficácia desse espírito de ciência se devem especialmente aquelas profundas palavras que Maria pronunciou,
quando foi saudada por Santa Isabel como a Mãe do Verbo. Além disso, se vemos que na vida, tanto privada quanto
pública, de Cristo, Maria sabia discernir com certeza o verdadeiro do falso, desprezando os bens falazes do mundo e
estimando em seu justo valor os trabalhos aos quais se tinha voluntariamente sujeitado pela nossa redenção, tudo
isso aconteceu exatamente como efeito do dom de ciência, pelo que poderia dizer com São Paulo: “As coisas que
eram ganho para mim estimei-as como perda, por causa de Cristo” (LÉPICIER, 1. c.).

f) Afim ao dom da ciência é o dom de inteligência. O dom de inteligência distingue-se do de ciência, porque seu
objeto é muito mais vasto: não se restringe só às coisas criadas, mas se estende a todas as verdades reveladas; além
disso, seu olhar é mais profundo, fazendo-nos penetrar (intus légere - ler dentro) no significado interior das verdades
reveladas.

Não nos faz, é certo, compreender os mistérios da fé, mas nos faz compreender que, não obstante sua obscuridade,
são críveis, que se harmonizam bem entre si e com o que há de mais nobre na razão humana, com o que se
confirmam os motivos de credibilidade.

“Como o Espírito se comprazia em escolher Maria para sua esposa, assim quis também adorná-la com o precioso
dom de inteligência, para que, além da luz da fé que a iluminou acerca dos mistérios, Ela recebesse outros raios de
viva luz, destinados a dar-lhe a inteligência dos mistérios divinos e especialmente daquele glorioso mistério que nEla
devia realizar-se.

“Ora, foi justamente na Encarnação do Verbo que essa resplandeceu vivíssima a seus olhos, de tal modo que, indo
visitar sua prima Isabel, pode, à saudação dessa, responder em termos tão elevados e tão acertados que nos deixam
entender como havia compreendido a grandeza do desígnio divino e a utilidade da Encarnação.

“Quando, no dia da purificação, o santo velho Simeão, tomando nos braços a divina criança, profetizou que ela se
iria tornar um sinal de contradição e, voltando-se para Maria, lhe revelou que uma espada de dor lhe havia de
atravessar o coração bendito, oh! Maria entendeu tanto quanto uma pura criatura o podia entender nesta vida todo
o plano da Redenção e percebeu como era necessário que também Ela, em união com seu Jesus, sofresse para o
resgate do gênero humano.

Por isso, pôde dizer com muita verdade que não teve nunca outros sentimentos senão os sentimentos de Jesus
Cristo mesmo: Nós temos o senso de Cristo” (LÉPICIER, 1. c.).

g) E agora eis o mais perfeito dos três dons intelectuais do Espírito Santo, o dom de sabedoria. É um dom que
aperfeiçoa a virtude da caridade e reside, ao mesmo tempo, no intelecto e na vontade, pois infunde na alma luz e
calor, verdade e amor. Este dom compendia todos os outros dons, como a caridade compendia em si todas as outras
virtudes.

O dom de sabedoria pode, pois, definir-se um dom que, aperfeiçoando a virtude da caridade, nos faz discernir e
julgar relativamente Deus e as coisas divinas segundo seus mais altos princípios, e nos dão disso o sabor.

“Como Maria recebeu, mais que qualquer outra criatura, uma larga participação na virtude da caridade divina, assim
também possuiu, com inigualável perfeição, o dom de sabedoria, pelo qual sabia discernir quase por instinto divino
as coisas divinas das coisas do mundo, com aquela delicadeza de afeto própria de todo aquele ama, em todas as suas
ações.
Essa celeste sabedoria encheu, em seguida, sua alma de uma doçura imensa e infundiu, por fim, em suas obras
exteriores um perfume do paraíso, pois está escrito que “nada de amargo existe no trato da sabedoria e conviver
com ela não causa tédio, mas consolação e gáudio”.

“Quando lemos que “a Sabedoria edificou para si uma casa e levantou sete colunas”, podemos entender como a
espiritual e celeste sabedoria de Maria houvesse sido assinalada por sete caracteres que são, por assim dizer, outros
tantos sustentáculos seus.

“A sabedoria do alto é, primeiramente, pura, depois pacífica, modesta, dócil, procedendo ao modo dos bons, é cheia
de misericórdia e de bons frutos; sem o hábito de criticar e alheia à hipocrisia”.

“Pense-se em quanto deviam ser sólidas as bases dessas sete colunas em Maria e com que majestade se levantava
sobre elas sua sabedoria” (LÉPICIER, 1. c.).

3. CULTIVEMOS OS DONS DO ESPÍRITO SANTO!

Também a nós, como a Maria, conforme o dissemos, embora em uma medida incomparavelmente inferior, no
Batismo, junto com a graça santificante, Deus bendito prodigalizou os dons do Espírito Santo. pois bem, à imitação
de Maria, cultivemo-los também nós incansavelmente em nossa alma! Cultivemo-los, antes de tudo, pela prática das
virtudes morais, prática que constitui a primeira condição necessária para a cultura dos dons. Cultivemo-los, em
segundo lugar, combatendo estrenuamente o espírito do mundo, que é diametralmente oposto ao espírito de Deus,
lendo, meditando as máximas evangélicas e conformando às mesmas nosso próprio procedimento.

Cultivemo-los, finalmente, pelo recolhimento interior, isto é, pelo hábito de pensar frequentemente em Deus, que
vive não somente vizinho a nós, mas em nós e, assim recolhidos, nos será mais fácil escutarmos a voz do Espírito
Santo e segui-la.

—————

ROSCHINI, G. Instruções Marianas. Tradução de José Vicente. São Paulo: Edições Paulinas, 1960, p.176-181.

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http://pemiliocarlos.blogspot.com.br/2013/06/os-dons-do-espirito-santo-em-maria-por.html

Maria, Mãe espiritual dos homens


Por Pe. Gabriel Roschini

Na vida de São José Cafasso se descreve uma cena deliciosa. Para acender no coração das crianças o mais ardente
amor filial a Maria, nossa Mãe, perguntava aos pequenos: "Quantas mães têm vocês? Em geral, respondiam, como
era de esperar, que só tinham uma. O santo dizia: Não! Pensem bem... Vocês têm mais de uma. Se os meninos
lembravam, então, além da mãe, a avó ou a tia, replicava ele: Não, não! Eu falo de mãe verdadeira, insistia. Quando
não conseguiam dar a resposta esperada, deixava-os refletir um momento e quebrarem a cabeça. Em seguida,
acrescentava: Eu sei qeu vocês sabem, mas, como não me querem dizer, prestem um pouco de atenção, para ver se
eu adivinho. Mães, vocês têm duas: uma, que está em casa e que lhes quer muito bem; a outra é a que vocês têm no
céu, é Nossa Senhora, que lhes quer mais bem ainda. Não é verdade? Respondiam todos que sim; replicava o santo:
Bem disse eu que vocês sabiam; mas não queriam dizer". E aproveitava a ocasião para exortá-los a amar a Virgem
Santíssima com coração de filhos.

Sim, além da mãe terrena, temos uma mãe celeste, pois que, além da vida natural, temos em nós a vida
sobrenatural da graça divina, que é incomparavelmente mais nobre.

Observa justamente um célebre Mariólogo[1] que, em todas as línguas, entre tantas palavras que as compõem, há
uma que forma por si só um poema de amor; é uma palavra que fala ao coração e só ao coração; uma palavra que
não inspira senão amor; uma palavra tão doce, tão suave, que se pronuncia com dois beijos, pois os lábios se tocam,
ao pronunciá-la, duas vezes; é a palavra mamãe! (mamma)!

É a primeira que brota dos lábios e, geralmente, é também a última que aí se extingue, pois se observa
frequentemente nos moribundos este fenômeno psicológico: a invocação de sua mãe. Isto se observa não somente
nos meninos, mas também nos jovens e, ainda, nos adultos e nos velhos. Homens feitos, que já têm esposa, que têm
mesmo filhos, naquele momento chamam apenas pela mãe.

Esta palavra tão doce traz à nossa mente a pessoa mais querida da nossa vida. A ideia despertada por essa palavra
nos acompanha através de todas as idades, fonte inesgotável de alegria, de sacrifícios e de amor. Para a criança, a
mãe é tudo; para o jovem, é um freio poderoso contra suas paixões tumultuosas; para o transviado, é um apelo ao
arrependimento, ao dever; para o homem maduro, é fonte de doces recordações, de lembranças inesquecíveis. A
mãe é como o sol que ilumina e alegra toda a jornada de nossa trabalhosa vida terrena.

Pois bem, Maria é nossa mãe. Este é tanto o sentimento, quanto a convicção prática de todos os católicos.

Em que sentido Maria é nossa Mãe

1. Sentidos incompletos

Mas, em que sentido estamos nós acostumados a chamar a Maria de nossa Mãe? Há alguns que pensam ser Maria
nossa Mãe especialmente pelo amor, pelos cuidados maternais de que usa para conosco. É muito pouco.

Outros, mesmo muitos, creem que Maria é nossa Mãe adotiva, tendo-nos Ela adotado por filhos. Também este
sentido é insuficiente. Dizer simplesmente que Maria é nossa Mãe adotiva, embora isto seja verdade porquanto não
é nossa mãe natural, não exprime bastante toda a grande realidade de sua maternidade a nosso respeito. A mãe
adotiva não tem, realmente, senão uma relação afetiva com seu filho, e alguns direitos sobre ele: não foi ela que
transmitiu a vida ao filho adotivo.

2. O sentido verdadeiro

Maria é, ao invés disso, nossa Mãe verdadeira, não propriamente carnal, mas espiritual; não natural, mas
sobrenatural. Esta verdade é a consequência lógica, necessária, da cooperação de Maria para a nossa redenção, ou
seja, nossa regeneração para a vida da graça.

Com efeito, mãe é aquela que coopera para dar a vida e, quando a tem dado, a protege, até que haja atingido seu
pleno desenvolvimento. Ora bem, a Virgem Santíssima cooperou com o Redentor divino para dar-nos a vida
sobrenatural da graça, vida divina da qual, desgraçadamente, havíamos sido privados pelo pecado de nossos
primeiros pais. Com efeito, a graça é princípio de vida, princípio vital; é para a alma o que a mesma alma é para o
corpo. É a alma que dá ao corpo o vigor, o movimento, em uma palavra, toda sua vida. De modo semelhante, é a
graça que dá à alma uma vida nova, a vida dos filhos adotivos e dos amigos de Deus; por isso, é chamada com justiça
a alma de nossa alma.

Isto posto, é evidente que, desde o momento em que a Virgem Santíssima cooperou para nos obter a vida da graça
nós devemos saudar nEla a fonte de nossa vida sobrenatural, nossa mãe verdadeira.

É verdade que não existe dessa grande e consoladora verdade uma definição explícita e solene da Igreja. Mas, os
Sumos Pontífices têm muitas vezes feito referência a isso como a uma verdade indiscutível. Assim, para citar
somente os mais recentes, Bento XIV, Pio IX, Leão XIII e São Pio X, Pio XI e Pio XII, falaram de modo que suas palavras
não deixam mais lugar a nenhuma dúvida a respeito da verdade da maternidade espiritual da Virgem Santíssima.

Nada mais justo, pois, tanto a Sagrada Escritura, quanto a Tradição, com os aplausos entusiásticos da razão, também
são muito claras e explícitas sobre essa tese.

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[1]
CAMPANA, E. Maria nel Dogma Cattolico, P. I q.1, art.4, n.1.

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ROSCHINI, G. Instruções Marianas. Tradução de José Vicente. São Paulo: Edições Paulinas, 1960, p.71-73.

Os três lírios de Maria


Thiago de Oliveira Geraldo [1] Cf. Súrio, Vita del B. Edidio. Apud Pe. Gabriel Roschini. Instruções Marianas. São
Paulo: Paulinas, 1960, p. 209.
Certa vez, naquele longínquo século XIII, um dominicano de uma inteligência luzidia, muito douto e devoto da
Santíssima Virgem, estava passando por uma forte provação. Não conseguia entender como era possível a Mãe de
Deus permanecer virgem, tendo dado à luz o Menino Jesus.

Esta dúvida era como um espinho em seus pensamentos, pois apesar de ser muito sábio, isto lhe permanecia oculto.

Um dia, tendo tomado conhecimento da existência de um Frei franciscano, o Bem-aventurado Egídio de Assis, o qual
tinha fama de aliviar as consciências conturbadas, resolveu ir ao encontro deste religioso.

Quando chegara às portas do convento franciscano, não foi necessário chamar ninguém, pois Frei Egídio iluminado
acerca da situação deste dominicano saiu-lhe ao encontro e disse-lhe: "Irmão pregador, a Santíssima Mãe de Deus,
Maria, foi virgem antes de dar-nos Jesus" [1]. Enquanto dizia isto, Frei Egídio golpeou o chão com seu cajado e
imediatamente brotou do solo um formoso lírio branco.

O dominicano surpreendido por este fato inesperado continuou ouvindo o Frei, que prosseguiu: "Irmão pregador,
Maria Santíssima foi virgem ao dar-nos Jesus". E com um novo golpe, outro lírio floresce instantaneamente.

Atônito, o dominicano presta atenção por mais uma vez: "Irmão pregador, Maria Santíssima foi virgem depois de
dar-nos Jesus". Ao terceiro golpe, surge um lírio mais esplêndido que os anteriores. Frei Egídio, sem dizer nenhuma
outra palavra, retorna ao convento, tendo desfeito aquela longa provação de seu irmão religioso, o qual até o fim da
vida conservou consigo os três lírios, símbolos inequívocos da virgindade de Nossa Senhora: antes, durante e depois
do parto.

Esta bela história nos mostra a envolvente e cativante época dos milagres medievais, mas, sobretudo, destaca uma
virtude cada vez mais esquecida nos tempos atuais, a virgindade.

Houve época em que o casamento entre pessoas virgens era uma questão de honra. Depois, isso se tornou uma
responsabilidade apenas do gênero feminino. Mas hoje em dia, se fosse perguntado aos jovens sua opinião sobre o
assunto, provavelmente muitos até ridicularizariam esta virtude tão sublime.

No entanto, ela deve ser preservada como um tesouro inestimável, o qual devemos guardar a todo custo, sob o peso
de chorar sua perda. Por mais que certos ambientes possam zombar de sua prática e tê-la como praticada por
pessoas retrógradas, podemos bem aplicar seu valor aos conhecidos versos de Casimiro de Abreu:

"Oh! que saudades que eu tenho Da aurora da minha vida Da minha infância querida Que os anos não trazem
mais!".

Aqui podemos, inclusive, parafrasear Casimiro de Abreu, entendendo por infância aquela inocência de criança, de
uma alma limpa e sem malícia, cujos anos, as más amizades, as ideias perniciosas, muitas vezes vêm deteriorar.
Depois de perdida a inocência, o colorido que o mundo apresentava se torna mais opaco, quando não se apaga por
completo.

Começa, então, uma longa caminhada em busca de uma felicidade que a pessoa já possuía na aurora da vida, mas
que recusou diante de mentirosas promessas. Este é o momento de olhar para Nossa Senhora, intitulada Rainha das
Virgens (Regina Virginum) em sua Ladainha e dizer a "Salve Rainha".

Ela, como Mãe compassiva, olhará a miséria humana e pedirá ao seu Divino Filho para que restitua aquela virtude
angélica, a fim de nos tornarmos verdadeiramente os "pequeninos", aos quais pertence o "Reino dos Céus" (cf. Mt
19,13-15; Mc 10,13-16; Lc 18,15-17).

http://www.radiocoracao.org/artigos/os-tres-lirios-de-maria-por-thiago-de-oliveira-geraldo

Os fundamentos da escravidão à Virgem Santíssima


O culto de escravidão sintetiza todos os cultos que devemos a Nossa Senhora, como Rainha que ela é de todo o
universo.

Pe. Gabriel M. RoschiniTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere


Além do culto de veneração, de amor, de gratidão, de invocação e de imitação, à Virgem SS. é devido, como Rainha
de todo o universo, um culto de escravidão. É este último ato de culto mariano que sintetiza todos os demais.

o O escravo fiel à sua Rainha, se realmente o é, venera-a antes de tudo, reconhecendo sua singular excelência.

o Em segundo lugar, ama-a e faz tudo o que a agrada, evitando tudo o que possa aborrecê-la.

o Enche-se de gratidão por Ela, devido aos grandes favores que dela recebeu.

o Está cheio de confiança em sua Rainha, se sabe que Ela conhece, pode e quer socorrê-lo em todas as suas
necessidades.

o O servo fiel à sua Rainha, enfim, se o é realmente, trata de imitá-la, uma vez que reconhece nEla o seu
modelo ideal.

Eis aqui, portanto, como o ato de escravidão sintetiza todos os outros atos do culto singular que devemos a Maria
SS., Mãe de Deus, Mãe dos homens, Corredentora do gênero humano, dispensadora de todas as graças divinas,
modelo insuperável de nossa vida.

No conhecido Salmo 44, em que se celebram as núpcias do Rei messiânico, o autor inspirado não se esquece de
ressaltar o culto de servidão tributado ao Rei incomparável e à Rainha, sua esposa, representada à sua direita. Diz-se
do Rei que a ele se submeterão os povos (v. 6); põe-se de relevo a homenagem que lhe tributam suas filhas (v. 9).
Depois, referindo-se à Rainha, o hagiógrafo nota como os habitantes de Tiro, uma das cidades ricas de então, vêm a
Ela com seus presentes, e como os próceres do povo tratam de conquistar o seu favor (v. 13). Em outra parte, a
Rainha é representada com um cortejo de virgens à sua volta, companheiras e servas suas, símbolo evidente daquela
inumerável corte de almas — todas as almas verdadeiramente cristãs — que haveriam de servi-la.

Em outro lugar, prediz-se que todos os povos hão de servir o Rei messiânico: “Omnes gentes servient ei” (Sl 72, 11).
Ora, não deveria dizer-se o mesmo da Rainha, Mãe e Esposa sua? Assim como Ela compartilha com Ele o domínio
real sobre todas coisas, assim também deve compartilhar com Ele o culto de escravidão que lhe temos de tributar
todos nós, já que o Rei e a Rainha constituem uma única pessoa moral.

“Tantas são as criaturas que servem a Maria quantas são as que servem a Santíssima Trindade.”

O primeiro dos Padres da Igreja que se declarou expressamente “servo de Maria” foi, ao que parece, o diácono S.
Efrém, o Sírio (306-373), chamado de “sol dos Sírios”, “harpa do Espírito Santo”, “o cantor de Maria”. Depois de
proclamá-la “Senhora de todos os mortais”, S. Efrém se declara humildemente um “indigno servo seu”. Em seu
primeiro canto de louvor a Maria, o santo lhe dirige esta ardente oração:

Ó Imaculada Virgem Maria, Mãe de Deus, Rainha do universo, esperança dos mais desesperados, gloriosíssima,
ótima e honorabilíssima Senhora Nossa! Ó grande Princesa e Rainha, incomparável Virgem, puríssima e castíssima
Senhora de todos os senhores, Mãe de Deus, nós nos entregamos e consagramos ao vosso serviço desde nossa
infância. Levamos o nome de servos vossos.

Não permitais, pois, que Satanás, o espírito maligno, nos arraste para o inferno. Enchei de agora em diante a minha
boca, ó Santa Senhora, com a doçura da vossa graça. Aceitai, ó Virgem Santa, que o teu humílimo servo vos louve e
vos diga: Saúdo-vos, ó vaso magnifico e precioso de Deus! Saúdo-vos, Maria, Soberana minha cheia de graça! Saúdo-
vos, Soberana de todas as criaturas! Saúdo-vos, cântico dos querubins, doce harmonia dos anjos! Saúdo-vos, hino
dos solitários! Saúdo-vos, Soberana, que tendes em mãos o cetro sobre os vossos fiéis servos!

Fundamentos racionais. O fundamento último do culto mariano de singular servidão apóia-se no domínio
completamente singular que a bem-aventurada Virgem exerce sobre todas as criaturas, como Rainha do universo.
“O servo”, observa o Angélico, “diz relação a seu Senhor”. Onde há, pois, uma especial razão de senhorio e de
domínio, haverá também uma razão especial de servidão.

Ora, que na Virgem SS. exista uma especial razão de domínio e de senhorio sobre todas as coisas, é algo que se
segue de sua universal realeza. Podemos, portanto, concluir com Dionísio, o Cartuxo: “Ela domina e pode mandar
em todas as criaturas, no céu e na terra”; ou com S. Bernardino de Sena: “Tantas são as criaturas que servem a
Maria quantas são as que servem a SS. Trindade”.
Viver na presença de Maria é viver, com maior facilidade, na presença de Deus.

O servo fiel de qualquer rainha da terra está contínua e habitualmente perto dela, sem nunca abandoná-la. É isto
que tem de fazer, de modo análogo, o servo fiel da Rainha dos céus. Deve estar sempre junto dEla, não perdê-la
nunca de vista, ou seja, deve ter o seu pensamento constantemente nEla. Pensar habitualmente em Maria SS. lhe
tornará mais fácil pensar habitualmente em Deus. Viver, pois, na presença de Maria é viver, com maior facilidade,
na presença de Deus.

Ora, o meio mais eficaz para vivermos assim, continuamente — tanto quanto for possível —, na presença de Maria,
é estar profundamente persuadido de que a Virgem SS., de uma maneira misteriosa, está sempre presente em
cada um de nós, com o pensamento, com o afeto, com as ações. Ela está conosco

o pelo pensamento, já que continuamente nos vê em Deus;

o pelo afeto, pois está presente ali onde está o seu amor, e a Virgem SS. nos ama a todos com um amor
inefável de Mãe; e

o pelas ações, uma vez que todas as graças que preservam e fazem desabrochar a nossa vida sobrenatural
passam, como por um canal, pelas mãos de Maria.

Referências

o Transcrito e adaptado da obra La Madre de Dios según la Fe y la Teología. Trad. esp. de Eduardo Espert. 2.ª
ed., Madrid: Apostolado de la Prensa, 1958, vol. 2, pp. 363-389.

https://padrepauloricardo.org/blog/os-fundamentos-da-escravidao-a-virgem-
santissima?fbclid=IwAR2bRu7v7ttXKaumYDPvZrBUaPaXlO0v3tKJUFfZ2O4TVVuk8uXMAB-XBhQ

Por que os católicos veneram Maria? A Bíblia responde.


O que a Bíblia realmente nos diz a respeito da piedade que os fiéis, desde os primeiros séculos, têm à Mãe de seu
Salvador? Será que os católicos têm mesmo o respaldo das Escrituras para venerar Maria?

Este artigo é uma adaptação, mais ou menos livre e com sensíveis modificações, de um capítulo da magistral “La
Madonna secondo la Fede e la Teologia”, obra do teólogo italiano e frade servita Gabriel M. Roschini (1900-1977),
um dos mais importantes mariólogos do século passado (cf. Gabriel M. Roschini, “La Madre de Dios según la Fe y la
Teología”. Trad. esp. de Eduardo Espert. 2.ª ed, Madrid: Apostolado de la Prensa, 1958, vol. 2, pp. 296-300).

Uma das muitas objeções que os protestantes costumam levantar contra o culto católico à Virgem Maria é a sua
suposta falta de fundamentação bíblica. Quando não o acusam de simplesmente “idolátrico”, veem-no como algo
estranho à pureza primitiva da fé cristã, como imposição externa e tardia de uma época em que o cristianismo
verdadeiro, pregado pelos Apóstolos, já fora substituído pelo novo “constantinismo”, cuja influência paganizante se
faria cada vez mais evidente, até a definição do dogma da maternidade divina no Concílio de Éfeso, em 431 d.C. Há
quem chegue a afirmar, mesmo contra o testemunho eloquente das catacumbas romanas, que o culto à Mãe de
Deus não é anterior ao século V e que antes desse período as imagens de Nossa Senhora, livres de qualquer vestígio
de “superstição“, não a retratam senão como uma personagem histórica mais, pintada sobre um pano de fundo
dogmaticamente neutro.

Se é fácil desmentir, por um lado, estes últimos erros, contra os quais existem abundantes dados arqueológicos, sem
contar a voz das antigas liturgias e dos Padres da Igreja, a falta de base bíblica para o culto mariano, por outro,
parece ser uma dificuldade séria, ao menos à primeira vista, para os que desejam defender a legitimidade de tributar
à Virgem SS. as homenagens de que Ela sempre foi digna. O problema, no entanto, é mais aparente do que real.
Embora seja verdade que em nenhum lugar as SS. Escrituras nos obriguem ou recomendem explicitamente a venerar
Maria, disto não se segue que o culto a Ela prestado, pelo qual os fiéis de todos os tempos sempre tiveram
um especial carinho, esteja proibido. Tal silêncio se deve, antes de tudo, a que os motivos por que temos de honrá-
la são mais do que óbvios.

Isso é ainda mais claro se levarmos em conta que tampouco a adoração devida a Cristo é apresentada na Bíblia como
objeto de um preceito positivo. Basta-nos saber, como nela se atesta sem sombra de dúvida, que Ele é o Filho de
Deus para que o culto à sua divina Pessoa surja em nosso coração de forma espontânea. Que mais era preciso ao
cego de nascença para prostrar-se em adoração aos pés de Jesus do que, restituída a vista, reconhecer que Aquele
que o curou era de fato o Filho do Homem (cf. Jo 9, 35-38)? Ora, se isso vale para o Filho, por que não valeria
também para a Mãe? Acaso pode Aquele que nos manda honrar nossos pais (cf. Ex20, 12) deixar Ele mesmo de
honrar quem O gerou ou sentir-se incomodado de que seus súditos, em atenção a um tão grande Rei, venerem a
tão pura Rainha [1]?

Mas ainda que não as expresse de modo direto, a Escritura nos dá a entender de forma bastante clara as razões por
que podemos e devemos venerar Maria SS. Em primeiro lugar, foi a própria Virgem que, numa profecia que há vários
séculos se vem cumprindo à risca, predisse que todas gerações a proclamariam “bem-aventurada” (Lc 1, 48), ou seja,
reconheceriam a sua excelência, o que não é outra coisa senão o núcleo de todo ato de culto [2]. Quem quer que
leia este versículo e se veja tão pouco devoto de Maria deve sentir-se, naturalmente, separado de todas essas
gerações que, num movimento espontâneo de amor e confiança, imitam aqueles três símbolos vivos — o Arcanjo
Gabriel, Santa Isabel e uma mulher anônima do povo — nos quais vemos representado um número incontável de
fiéis. Analisemos um por um.

1. O Arcanjo Gabriel. — Na cena da Anunciação, com efeito, o evangelista Lucas nos apresenta São Gabriel como
emissário de Deus (cf. Lc 1, 26) encarregado de pedir a uma virgem, cujo nome era Maria (cf. Lc 1, 27), o seu
consentimento ao grande mistério da Encarnação. A solene saudação do Anjo, marcada por um acento tanto de
ternura quanto de assombro, constituirá tempos depois uma das mais repetidas e queridas orações católicas: “Ave,
cheia de graça, o Senhor é contigo” (Lc 1, 28). Ouvido somente pelas quatro pequenas paredes de uma humilde
casinha em Nazaré, este elogio ressoaria pelos séculos seguintes no átrio de basílicas e catedrais, no coração e nos
lábios de uma multidão de almas piedosas. Ora, por que não poderíamos também nós repetir a mesma saudação
com que o próprio Deus quis, por boca do Anjo, honrar a futura Mãe de seu Filho e da qual toda a corte celeste foi
testemunha? Se em tudo devemos imitá-lO, por que nisto faríamos exatamente o contrário?

2. Santa Isabel. — “Naqueles dias”, continua São Lucas, “Maria se levantou e foi às pressas às montanhas, a uma
cidade de Judá. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel” (Lc 1, 39s), sua prima, já no sexto mês de gestação
(cf. Lc 1, 36). Apenas escutou a voz de sua parenta, Isabel exclamou, cheia do Espírito Santo: “Bendita és tu entre as
mulheres e bendito é o fruto do teu ventre” (Lc 1, 42). Aqui é a velhice que se inclina ante a juventude; uma
respeitada senhora, ante uma jovem pobre e desconhecida [3], pois a singular maternidade desta supera os direitos
de idade daquela: “Donde me vem esta honra de vir a mim a mãe de meu Senhor?” (Lc 1, 43). Até João Batista, ainda
no seio materno, manifesta com estremecimentos sua reverencial alegria pela visita do Redentor e de sua Mãe
virginal. Essa extraordinária moção divina, pela qual mãe e filho se encheram de gozo e graça celestiais, nos faz
compreender que as felicitações de Isabel provinham, não de seus próprios sentimentos, mas de um
impulso sobrenatural do Espírito Santo, que a iluminou para reconhecer as maravilhas que se realizaram em sua
prima (cf. Lc 1, 49) [4]. Por isso, diz ela ao final: “Bem-aventurada és tu que creste, pois se hão de cumprir as coisas
que da parte do Senhor te foram ditas” (Lc 1, 45).

3. Uma mulher anônima. — Tudo isto, porém, aconteceu na intimidade de uma casa, na discrição de um lar a que
ninguém tinha acesso (cf. Lc 1, 24). O primeiro louvor público à SS. Virgem seria privilégio de uma personagem cujo
nome o Evangelho passa por alto. O contexto deste episódio é significativo e se reveste de especial valor
apologético. São Lucas, o único a relatá-lo com detalhe, nos situa na Judeia, não muito longe da Cidade Santa, no
último ano da vida pública de Nosso Senhor, o qual acabara de exorcizar um surdo-mudo que, como nota Mateus
(cf. Mt 12, 22), era também cego. Uma multidão maravilhada O rodeava; diante de mais um sinal, começaram as
turbas a perguntar-se se não seria Ele o Messias. Os escribas (cf. Mc 3, 22) e fariseus (cf. Mt 12, 24) que ali se
encontravam, não podendo negar o que sucedera e receosos da exaltação do povo, atribuem o ocorrido a forças
diabólicas: “Ele expele demônios por Belzebu, príncipe dos demônios” (Lc 11, 16).

Com um argumento carregado de sabedoria divina (cf. Lc 11, 17-26), Jesus desfaz essa maldosa insinuação e
demonstra que Ele expulsa, sim, os demônios pelo dedo de Deus. A isto levanta a voz, repleta de entusiasmo, uma
mulher do meio do povo: “Bem-aventurado o ventre que te trouxe, e os peitos que te amamentaram!” (Lc 11, 27). É
o primeiro cumprimento do Magnificat e a comprovação de um princípio tão caro à mentalidade judaica: a glória das
mães são os filhos (cf., por exemplo, Gn 30, 13; Pv 23, 24s; Lc 1, 58) e a glória dos filhos redunda nos pais (cf. Pv 17,
6) [5]. A resposta de Nosso Senhor — “Antes bem-aventurados aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a observam”
(Lc 11, 28) —, longe de significar desprezo por sua Mãe, como às vezes podemos ser tentados a pensar, vem
justamente enaltecer, numa ordem superior, aquela que o Pai fez “sede de todas as graças divinas” [6]. Ora, que
Jesus não somente não se oponha a este espontâneo elogio, senão que o aprove e amplifique, é algo evidente se
levarmos em consideração algumas circunstâncias desse episódio:

a) Em primeiro lugar, o fato de Cristo estar em público pregando às multidões mostra que Ele, sem se indignar de ser
interrompido por aquele súbito elogio, preferiu servir-se dele como pretexto para sublinhar um outro aspecto da
dignidade de Maria vinculado tanto à universalidade do Evangelho, dirigido a todos os povos, quanto ao primado da
graça sobre a natureza. Ao chamar bem-aventurado a quem ouve a Palavra de Deus e a guarda, Jesus não nega a
grandeza de sua Mãe, mas declara que são mais profundos e importantes os laços sobrenaturais que estabelece a
graça de Deus naqueles que O ouvem e obedecem do que os que “estabelecem naturalmente os vínculos de sangue”
[7]. Contrariando, assim, a tendência “etnocêntrica” típica do judaísmo de seu tempo, Nosso Senhor acrescenta ao
louvor baseado na carne e no sangue a glória que provém da alma e do espírito: Maria é digna não só por ter dado
ao Salvador a carne pela qual seríamos salvos, mas sobretudo por ter ouvido a Palavra de Deus e cumprido fielmente
a sua vontade (cf. Mt 12, 46-50) [8]. Embora justifiquem em níveis distintos o culto devido à Virgem SS.,
a maternidade divina e a plenitude de graça são, nesse sentido, dois aspectos inseparáveis da dignidade quase
infinita que Deus lhe conferiu [9].

b) Além disso, é preciso notar, de um lado, o humilde anonimato no qual se esconde essa mulher, representação
viva do entusiasmo e da piedade com que tantas pessoas, desde os acontecimentos narrados no Evangelho, vêm
honrando a Cristo em e por sua Mãe; as palavras dessa judia cheia de espírito de fé podem muito bem ser postas na
boca de todos os que, despreocupados do que dirão os inimigos de Jesus, não se envergonham de exaltar com força
e santo ardor o seio que O carregou, o colo que O acolheu, os braços que O estreitaram, os olhos que O
contemplaram, o Coração Imaculado que O amou acima de tudo. Também se deve considerar, de outro lado, que
a finalidade desse louvor não foi outro senão o de glorificar o Filho por meio da Mãe: “Bem-aventurado o ventre
que te trouxe, e os peitos que teamamentaram”. Ao engrandecer a Maria, com efeito, em nada diminuímos a
Cristo, de quem, por quem e para quem são todas as coisas (cf. Rm 11, 36). Não há caminho mais curto para o
Coração do Filho do que recorrer àquela pela qual Ele mesmo quis entrar no mundo: Ad Iesum per Mariam, já que
por Maria Ele veio a nós.

Se a devoção mariana encontra tão sólido apoio no conteúdo mesmo dos Evangelhos, não deve causar surpresa nem
a veneração dos primeiros cristãos à Mãe do Salvador nem o amor sempre crescente que a Igreja foi experimentado,
no correr dos séculos, por aquela que deu à luz a sua mística Cabeça. Que neste Ano Jubilar de comemoração do
centenário das aparições de Fátima e da invenção da imagem de Nossa Senhora Aparecida Deus Pai se digne
enraizar ainda mais nos corações católicos a devoção à nossa Mãe amantíssima e, movido de misericórdia, inspire os
que se encontram apartados do único rebanho de Cristo a reconhecer que é em seu Filho — fim de toda devoção
genuinamente cristã — que redundam as glórias de sua Mãe [10].

Referências

1. Cf. Pedro Canísio, De Maria Virgine Incomparabili, l. 1, c. 2, in: J. J Bourassé, Summa Aurea. Parisiis, ex typis
J.-P. Migne, 1862, vol. 8, col. 651.

2. V., por exemplo, João Damasceno, Or. III de Imaginibus, nn. 27-40 (PG 94, 1347-1355).

3. Cf. Ambrósio de Milão, Expositio Evang. sec. Luc., l. 2, n. 22 (PL 15, 1560); v. Andrés F. Truyols, Vida de
Nuestro Señor Jesucristo. Madrid: BAC, 1948, p. 11.

4. Cf. H. Simón, Prælectiones Biblicæ. Novum Testamentum. 7.ª ed., de integro retractata a G. G. Dorado,
Taurini: Marietti, 1955, vol. 1, p. 295, n. 213.

5. Cf. M. de Tuya, “Evangelios”, in: VV.AA., Biblia Comentada. Madrid: BAC, 1964, vol. 5, p. 844.

6. Pio XII, Encíclica “Fulgens corona“, de 8 set. 1953, n. 8 (AAS 45 [1953] 579).

7. A. Royo Marín, La Virgen María. Madrid: BAC, 1968, p. 30, n. 21.


8. Cf. H. Simón, op. cit., p. 586, n. 410: “Segundo muitos acatólicos, o advérbio μενοῦν [lt. quinimmo; pt.
‘antes’] implica uma restrição ou correção do que dissera a mulher, de modo que o sentido [das palavras de
Jesus] seria: ‘Pelo contrário, bem-aventurados os que ouvem etc.’. No entanto, de acordo com a maioria não
apenas dos católicos, mas também dos protestantes […], não se trata de uma correção, mas de uma
confirmação, uma vez que o significado próprio daquela partícula é ‘de fato’, ‘antes, em verdade’ […]. O
sentido, pois, deste versículo [Lc 11, 28] é: A Virgem Deípara é efetivamente bem-aventurada por ter sido
elevada ao fastígio da maternidade divina, mas o é muito mais ‘por ter feito a vontade de Deus’ (S. Aug., In
Ioh., tract. 10, 3)” (trad. nossa).

9. Cf. Tomás de Aquino, S. Th. I, q. 25, a. 6, ad 4.

10. Cf. Ildefonso de Toledo, Lib. de virginit. perpetua S. Mariæ, c. 12 (PL 96, 108).

Fonte: padrepauloricardo.org

https://divinocapitaodafe.com.br/por-que-os-catolicos-veneram-maria-a-biblia-responde/

Maria: o segredo das famílias santas


PE. GABRIEL M. ROSCHINI › 30/08/2018

A devoção a Maria é, comprovadamente, o sinal mais claro de uma família unida e o meio mais eficaz de produzir
famílias santas.

A graça, como todos sabemos, não destrói a natureza, mas a eleva e aperfeiçoa. Foi por isso que Deus, ao confiar seu
Filho único aos cuidados de Maria e José, quis que Nossa Senhora, como toda boa mãe, fosse o centro e o coração da
Sagrada Família. A Ela Jesus, com incrível humildade, e José, com castíssimo amor, dedicavam seus melhores afetos e
atenções.

E é também por isso que Maria, ainda hoje, deve continuar sendo a alma e o coração dos lares cristãos: Ela é a
Rainha, o modelo, a ajuda e o ânimo para todas as famílias que desejam permanecer unidas e ser santas como santa
foi a casinha de Nazaré.

A devoção a Maria é uma fonte viva de benefícios, não só para o indivíduo, mas também para toda a sociedade,
seja doméstica, seja civil ou religiosa. No que diz respeito à sociedade doméstica em particular, quatro palavras
sintetizam as relações que ligam Maria SS. com a família cristã: Rainha, modelo, ajuda e ânimo.

Vejamos de que maneira o culto de devoção a Nossa Senhora pode ajudar a promover, de modo muitíssimo eficaz,
a unidade e a santidade dos nossos lares.

1) Maria, Rainha da família

Maria SS. é e deve ser, em primeiro lugar, a Rainha da família cristã. Esta realeza de Maria tem o seu fundamento
sólido nas singulares relações que a unem à grande e eterna família do céu, composta pelas três pessoas divinas: o
Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Maria SS., como disse Pio XII, está “misteriosamente aparentada, em virtude da união hipostática, com a SS.
Trindade e com Aquele que, só, é por essência a Majestade infinita, Rei dos Reis e Senhor dos senhores,
como Filha primogênita do Pai, Mãe terníssima do Verbo, Esposa predileta do Espírito Santo” [1].

Ela é, com efeito, por esse seu divino “parentesco” com a família divina, Rainha de todas as outras famílias; tem,
portanto, direito à homenagem, ao obséquio e à servidão de todas elas. Donde a suma conveniência de que todas as
famílias, além de consagrar-se ao S. Coração de Cristo Rei, consagrem-se também ao Coração Imaculado e doloroso
de Maria Rainha, a fim de reconhecer de uma maneira solene e voluntária esse domínio natural que Ela tem sobre
todas as famílias.

“Só será mãe cristã, autêntica e verdadeira, aquela que se amoldar ao exemplo da augusta Mãe de Cristo.”
Daí a oportunidade de erigir em todos os lares, no lugar mais frequentado da casa, um altarzinho com uma bela
imagem de Maria SS., de maneira que todos possam tê-la continuamente diante dos olhos e no coração, tornando-
se assim, na prática, Rainha do lar, verdadeira “ama da casa”.

Será também oportuno colocar em todos os cômodos alguma bela imagem de Maria: Ela deve constituir o centro
ao redor do qual se desenvolva e no qual se inspire toda a vida doméstica. Diante dela a família deve recolher-se
em oração, especialmente durante a récita do Santo Terço. A Ela as crianças devem aprender a pedir perdão depois
de qualquer travessura. A Ela, além de flores materiais, devem-se oferecer todas as flores espirituais, bem como as
florezinhas que em sua honra produzem e pintam as crianças. A Ela se recorre continuamente nas várias
necessidades da família, tanto espirituais quanto materiais. A Ela, enfim, a saudação de todos ao entrar ou sair de
casa.

Será de bom conselho renovar todos os anos o ato de consagração a Maria, a fim de trazer outra vez à memória
nossos deveres para com a amabilíssima Rainha de todas as famílias. E podemos facilmente imaginar os grandes e
incalculáveis efeitos de semelhante presença de Maria em todas as famílias cristãs. O pensamento, tão óbvio, de
não entristecer jamais a uma tão excelsa Rainha, sentada em seu trono, será de grande eficácia para impedir as
blasfêmias, as palavras feias, as discussões, as imprecações; numa palavra, o pecado em todos os seus aspectos.
Não será menor a eficácia de semelhante presença em fazer com que floresçam, tendo-a como exemplo luminoso,
as mais belas virtudes cristãs, particularmente as domésticas.

2) Maria, modelo da família

Maria SS., em segundo lugar, deve ser o modelo da família cristã e, de uma maneira muito particular, daquela que é
o centro e o coração da família: a mãe. Só será mãe cristã, autêntica e verdadeira, aquela que se amoldar ao
exemplo da augusta Mãe de Cristo.

E quais as notas característica de um coração de mãe? São duas: o amor e o sacrifício. Ora, não são estas
justamente as duas notas mais melodiosas do Imaculado Coração de Maria? Que poder de amor e que espírito de
sacrifício há naquele Coração! Ela é e será sempre a Mestra das mestras na arte de sobrenaturalizar o amor e o
sacrifício.

Mas a Virgem SS., na família cristã, além de ser modelo insuperável de mãe, é também o modelo mais completo
para os filhos. Com efeito, ninguém, depois de seu próprio e divino Filho, esteve mais perfeitamente do que Ela
sujeito a seus pais, cercando-os de respeito, de afeto filial e de infinitas delicadezas. Nela, por conseguinte, devem
inspirar-se todos os filhos de família, se queremos que cada família cristã se converta em outra Família de Nazaré.

3) Maria, ajuda da família

Maria SS., em terceiro lugar, é ajuda da família cristã. Entre os poucos, mas significativos episódios referidos pelo
Evangelho a respeito de Maria SS., há dois que nos revelam o quão propensa é a Virgem a socorrer as famílias
cristãs. Estes dois episódios referem-se às duas famílias que tiveram grande relação com Cristo: a de Zacarias e a
desconhecida família de Caná.

Deviam ser duas famílias muito devotas de Maria SS. e muito conhecidas e amadas por Ela. Foi em favor destas duas
famílias que Ela alcançou de Jesus dois milagres, os dois primeiros milagres que Ele realizou: o primeiro, na
ordem sobrenatural: a santificação de S. João Batista; o segundo, na ordem natural: a conversão da água em vinho.

“Sempre acontece assim: onde entra Maria, antes ou depois entrará também Jesus, e com Jesus todo o bem, tanto
espiritual como material.”

Maria SS. ficara sabendo pelo Anjo, no dia da Anunciação, que sua prima Isabel, mulher de Zacarias — que ficara
mudo pela incredulidade às palavras do Anjo —, depois de tantos anos de humilhante esterilidade, era agora mãe, e
mãe do Precursor de seu divino Filho. Desejosa de participar da inefável alegria de sua santa prima, abandona a
celestial solidão de Nazaré, dirige-se às montanhas da Judéia e entra na casa de Zacarias. Levado por Maria, entra ali
também Jesus. Assim outrora; assim agora; assim sempre.

À voz da saudação que Maria dirige à dona da casa, Isabel sente-se cheia do Espírito Santo, e o pequeno Batista,
saltando no seio de sua mãe, expressa com aquela manifestação de alegria a santificação produzida em sua alma.
Com este excelso dom sobrenatural (a voz de Maria foi como o veículo daquela primeiro milagre), Ela recompensou
o afeto que lhe tinha aquela família.

O mesmo deve ser dito da visita de Maria a uma outra família, que estava prestes a constituir-se. Aqueles dois jovens
esposos tiveram a nobre ideia de convidar Maria para participar da alegria que lhes inundava o coração, ao verem
finalmente realizado o seu sonho de amor. Maria aceita, com complacência maternal. Por respeito a Maria — como
parece deduzir-se do texto —, convidam também a Jesuscom seus primeiros discípulos.

Sempre acontece assim: onde entra Maria, antes ou depois entrará também Jesus,e com Jesus todo o bem, tanto
espiritual como material. Foi nesta ocasião feliz que o contrato matrimonial elevou-se à dignidade de sacramento
[2], ou seja, foi elevado para significar a inefável união de Cristo com a Igreja e a conferir a graça necessária ao
cumprimento de todos os deveres conjugais. Este foi o benefício espiritual. A ele veio somar-se o material.

Aconteceu, pois, que o vinho começou a faltar, e Maria SS., sem que ninguém lho pedisse, dirigiu-se a seu divino
Filho, e Ele realizou o milagre — o primeiro, o que abriu a série de seus milagres — da conversão da água em um
generoso vinho. Esta mesma ajuda, prestada a estas duas famílias, a Virgem há de prestá-las sem dúvida alguma,
ainda que não lha peçam explicitamente, a todas as famílias que lhe oferecerem seus obséquios.

4) Maria, ânimo da família

A Virgem SS. é, em quarto lugar, o ânimo da família cristã. A quantas famílias tem confortado a Consoladora dos
aflitos! Em primeiro lugar, confortou a primeira família humana, imediatamente depois de sua clamorosa derrota
pela serpente infernal.

A salvação da família acaba por coincidir com a salvação da sociedade. E a salvação da família é precisamente Maria,
Rainha do lar.

Com efeito, das palavras dirigidas por Deus à serpente, a “Mulher” prometida aparece como um raio de esperança
entre as trevas da culpa, como promessa de vitória sobre a serpente vencedora. A luminosa visão desta
prometida eterna inimiga e vencedora de Satanás foi o que consolou nossos primeiros pais e a seus descendentes
nas amarguras da peregrinação terrena. A Ela, pois, dirigiu a humana família, desde o primeiro momento, seu olhar
como a uma tábua de salvação, e como a seu supremo ânimo.

Confortou, com sua vinda a este mundo, a sua própria família, ou seja, a seus santos pais, aflitos — segundo uma
antiga e venerável tradição — por uma longa e humilhante esterilidade. A alegria trazida por Maria SS. à sua família
não era mais do que um símbolo da alegria que Ela havia de trazer a toda a família humana em geral e a cada
família que a faz penetrar em suas paredes domésticas.

Estes são, em rápida síntese, os benefícios preciosos e incalculáveis que a devoção terna e sólida à Virgem SS. traz
para a família. Se é verdade que a família é o “centro da humanidade”, já que a sociedade, tanto civil como religiosa,
não é mais do que a extensão da família, também é verdade que a salvação da família acaba por coincidir com a
salvação da sociedade. E a salvação da família é precisamente Maria, Rainha do lar. Eis porque se deve “à SS.
Virgem tudo o que de bom tem a família. Nunca será demais repeti-lo” [3].

Referências

Tradução e adaptação de Gabriel M.ª Roschini, La Madre de Dios según la Fe y la Teología. Trad. esp. de Eduardo
Espert. 2.ª ed., Madrid: Apostolado de la Prensa, 1958, vol. 2, pp. 505-509.

Notas

1. Cf. L’Osservatore Romano, 19 mai. 1946.


2. É contudo ponto discutível em teologia sacramental o momento exato em que Cristo teria elevado o matrimônio à
dignidade de sacramento da Nova Aliança (Nota da Equipe CNP).
3. S. de Lestapis, “Marie et la Famille”, em: Marie, vol. 1, Paris, Beauchesne, p. 767.

Por Pe. Gabriel M. Roschini, via Padre Paulo Ricardo

https://catolicodigital.com.br/maria-o-segredo-das-familias-santas.html
Por que a devoção a Nossa Senhora é necessária?
A necessidade da devoção e da oração a Nossa Senhora para a nossa santificação e a salvação de nossas almas
segundo o grande mariólogo italiano Pe. Gabriel M. Roschini.

Todo coração católico sente-se irresistivelmente atraído por Maria. Quem tem a graça de crer, mesmo que careça de
maior instrução, reconhece nela, por um suave instinto do Espírito Santo, não só a Mãe de Deus segundo a carne,
mas também a própria Mãe segundo a graça. Mas, apesar dessa inclinação espontânea que todos temos a Nossa
Senhora, será que é realmente necessário ser devoto dela? Não seria possível ser católico e conseguir a salvação
eterna sem ter por Maria SS. um amor especial e uma singular veneração?

Nesta nova matéria, de autoria do Pe. Gabriel M. Roschini, grande mariólogo italiano, você irá entender por que
tantos santos, baseados nas Escrituras e na razão humana, afirmaram que a devoção mariana é não apenas útil e
conveniente, mas uma verdadeira necessidade, querida por Deus para a nossa santificação e salvação.

É realmente necessário que um católico seja devoto de Maria?

Será mais fácil respondermos a esta pergunta, de consequências tão decisivas para a nossa vida espiritual, se
levarmos em consideração as seguintes verdades, fundamentadas no testemunho tanto das Escrituras quanto da
razão humana.

Como sabemos, todos os eleitos devem reproduzir em si mesmos a imagem de Jesus, cujo nome, segundo o
Apocalipse, levarão escrito em suas frontes (cf. Ap 22, 4), porque, conforme as palavras do Apóstolo, “os que Ele
distinguiu de antemão, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho” (Rm 8, 29).

Ora, Jesus é por natureza Filho de Deus e de Maria; e nós, pela graça, somos filhos de Deus e de Maria. Logo, para
reproduzirmos em nós a semelhança e a vida de Jesus e, portanto, sermos predestinados, temos de imitar o seu
terno amor, não só ao Pai, mas também à sua Mãe. Em outras palavras, se para sermos salvos devemos ser cópias
vivas de Jesus, e se Jesus, como bom Filho, teve por Maria grande veneração, quem não tiver devoção a Ela não será
salvo, porque lhe faltará um elemento característico de Jesus, modelo único dos eleitos.

Além disso, a necessidade da devoção à Virgem SS. para obter a inestimável graça da eterna salvação decorre como
que de três princípios inconcussos, de suas três qualidades fundamentais:

1. de sua condição de Mãe de Deus;

2. de sua condição de Mãe dos homens; e

3. de sua condição de Mediadora entre Deus e os homens.

Essa necessidade decorre, antes de tudo, de sua condição de Mãe de Deus. De fato, é sabido que para alcançar a
salvação eterna é preciso crer no mistério da Encarnação[1]. Ora, como é possível crer no mistério da Encarnação, ou
seja, no mistério de um Deus feito homem, sem crer ao mesmo tempo no mistério de uma mulher Mãe de Deus?
Com efeito, há um vínculo íntimo entre o filho e a mãe, entre o Verbo encarnado e a Mãe deste Verbo encarnado.

O mesmo ato de fé necessário para salvar-se abarca, portanto, o homem-Deus, Jesus, e a Mãe de Deus, Maria. Por
isso, desde os tempos apostólicos, e com grande probabilidade desde os próprios Apóstolos, pedia-se ao batizando,
antes de receber o Batismo, um ato de fé explícito em “Jesus Cristo, nascido da Virgem Maria”. Ora, este mesmo ato
de fé na Encarnação e em Maria deve-se repetir, de acordo com a opinião mais comum, aliquoties in vita, isto é,
algumas vezes durante a vida, sob pena de pecado grave.

Logo, para salvar-se é preciso também, necessariamente, um ato de fé em Maria. Ora, este ato de fé em Maria, Mãe
do Verbo encarnado, não é porventura um ato de culto, ou seja, de devoção, uma vez que a fé é o grande obséquio
da inteligência a uma verdade revelada? Não se salva, portanto, quem, ao menos aliquoties in vita, não quiser
render à divina maternidade de Maria, inseparável do conceito de Encarnação do Verbo, a devida homenagem.

Ademais, em toda a linguagem humana, entre as tantas palavras que a compõem, há uma que por si só forma um
verdadeiro poema de amor. É uma palavra que fala ao coração e só ao coração; uma palavra que não respira outra
coisa que amor; é a primeira palavra que floresce nos lábios e geralmente é também a última que deles se
desprende. É a palavra “mãe”.
A Virgem Maria, Mãe espiritual de todos os homens

Pois bem, Maria é nossa Mãe, Mãe espiritual dos homens. Mãe, com efeito, é aquela que coopera para dar a vida, e
quando a dá, rodeia-a de cuidados até alcançar seu pleno e completo desenvolvimento. Ora, acaso não cooperou a
Virgem SS. com o divino Redentor para dar-nos a vida sobrenatural da graça, vida divina da qual, desgraçadamente,
estávamos privados pelo pecado de nossos progenitores?

A graça, com efeito, é princípio da vida: ela é para a alma o que esta é para o corpo. É a alma o que dá vigor e
movimento ao corpo: numa palavra, toda a sua vida. E, da mesma maneira, a graça é o que dá uma nova vida à alma,
a vida sobrenatural dos filhos adotivos, dos amigos de Deus: com razão, pois, a graça é chamada “alma de nossa
alma”. Pois bem, uma vez que a Virgem SS. cooperou para a nossa regeneração, para a nossa vida da graça, é
evidente que devemos reconhecê-la e saudá-la como nossa verdadeira Mãe espiritual.

É verdade, sim, que não existe nenhuma definição explícita e solene desta grande e consoladora verdade. Os Sumos
Pontífices, no entanto, ressaltaram com frequência que se trata de uma verdade inquestionável. Portanto, a S.
Escritura, assim como a Tradição, com as quais a razão, entusiasmada, faz coro, são também muito claras e explícitas
acerca deste suavíssimo tema. Acertadamente, pois, o Cardeal H.-M. Lépicier a qualifica de “verdade católica,
pertencente propriamente à fé. De maneira que negá-la seria algo, não só temerário, mas de sabor herético” (Trac.
de B. M. V., III, c. 1, a. 1, p. 456).

Ora, há um preceito formal que obriga todo filho a honrar pai e mãe. Se Maria é verdadeira Mãe espiritual dos
homens, Mãe não só de nome, mas especialmente com os fatos, pelos diligentes cuidados maternais que Ela
prodigaliza a todos os seus filhos, é nosso dever honrá-la. E dado que seria coisa monstruosa não conhecer os
deveres de piedade filial com respeito à própria mãe terrena, assim também, e com maior razão, seria monstruoso
desconhecer os deveres de piedade filial com respeito à própria mãe celestial, Maria. A graça, com efeito, não
destrói a natureza, mas a aperfeiçoa.

Nossa Senhora, mediadora de todos os homens

Uma outra razão teológica, que bastaria por si só a provar a nossa tese, está tomada do ofício de Mediadora dos
homens. O ofício de Mediadora pode ser considerado sob um duplo aspecto: enquanto indica a cooperação na
aquisição das graças e especialmente de nossa reconciliação com Deus, pelo que mereceu o título de Corredentora
do gênero humano; e enquanto indica a cooperação de Maria na distribuição das graças, pelo que merece o título de
Dispensadora de todas as graças.

Pois bem, a gratidão àqueles que nos fizeram algum bem e nos livraram do mal é um dever. “Grati estote”, exorta o
Apóstolo (cf. Col 3, 15). Ora, ninguém, depois de Deus, nos fez tantos benefícios e nos livrou de tantos males como a
Virgem SS. Com efeito, enquanto Corredentora do gênero humano, Ela nos livrou do inferno e nos abriu as portas do
céu. Não seria monstruoso, pois, negar-lhe o culto da inteligência, não reconhecendo sua participação na obra de
nosso resgate, e negar-lhe o culto do coração, com o agradecimento por tudo o que Ela fez e padeceu por nós?

É de fé, além disso, que sem a graça atual não podemos ser salvos. A graça é necessária para todo ato sobrenatural,
porque deve haver certa proporção entre o efeito e seu princípio. Nós, por nossas próprias forças, por mais que
usemos bem de nossa liberdade, não podemos nem dispor-nos positivamente à conversão nem perseverar no bem
por um tempo notável, e muito menos perseverar até a morte: “Sem mim”, diz Jesus a seus discípulos, “nada podeis
fazer”. Não podeis ter sequer um bom pensamento, acrescenta S. Paulo, porque Deus é quem obra em vós o querer
e o operar (cf. Jo 15, 5; 2Cor 3, 5; Fl 2, 13).

O Doutor Angélico, Santo Tomás de Aquino, depois de estabelecer a necessidade da oração, propõe-se a seguinte
pergunta: devemos rogar aos santos para que intercedam a nosso favor? E responde enunciando uma lei
estabelecida pelo próprio Deus, segundo a qual a ordem da oração deve corresponder à ordem dos benefícios. Ora,
os benefícios provêm de Deus por meio dos santos; logo, é pelo mesmo meio que a Deus deve chegar a nossa
oração: as coisas inferiores, com efeito, devem dirigir-se a Deus por aquelas que são como meios até Ele.

O que o Angélico afirma de modo geral da mediação dos santos deve ser dito, de uma maneira particular, também
da Rainha de todos os santos. O mesmo Doutor Angélico nos ensina que a mediação de Maria é anterior à de todos
os outros eleitos. E acrescentamos, de nossa parte, que a mediação de Maria é necessária, ao passo que a mediação
dos outros eleitos é, ao menos, utilíssima: porque até nas graças obtidas pelos santos não está ausente a intercessão
de Maria.

Por que é necessário o culto de oração a Virgem Maria?

Ela é, portanto, o canal necessário de nossas súplicas. E se tal é assim, como não dizer que é necessário o culto de
oração à Virgem SS.? Como não chamar necessária à devoção de Maria para a salvação? Além disso, é fato digno de
ter em conta, porquanto não carece de força probatória: em todo o mundo católico, floresce e se desenvolve a flor
da devoção a Maria; todos os fiéis, movidos pelo instinto que a todos nos move em direção à nossa Mãe, se voltam a
Ela, proclamam-na bem-aventurada, encomendam-se a Ela, pondo em suas mãos especialmente o negócio
importantíssimo de sua eterna salvação. Quem, entre os fiéis, não conhece e não reza a Ave-Maria? É a primeira
oração, ao lado do Pai-Nosso, que se aprende a balbuciar sobre o aconchego do colo materno.

Todo o mundo católico, todos os fiéis, sem exceção, sentem a necessidade da devoção a Maria: sentem-na e, mais
do que tudo, praticam-na. Poderíamos, é claro, perguntar em que grau, ou seja, em que medida é necessária a
devoção a Maria, e especialmente o culto de oração, para salvar-se. É difícil determinar semelhante coisa, porque
depende de múltiplas e variadas circunstâncias. O que, sim, se pode e deve dizer é o seguinte: quanto mais fervorosa
e frequente for a nossa devoção a Maria, sobretudo a nossa oração, mais generosamente Ela fará descer sobre nós
suas graças e favores celestiais, com cuja ajuda podemos estar seguros de nossa eterna salvação.

Se assim é, “quem de nós”, diz S. Leonardo de Porto Maurício, “recusará alistar-se no número dos devotos de Maria,
a fim de assegurar o grande negócio de sua eterna salvação?” (Disc. 7, n. 3). “Abracemos todos com grande fervor a
verdadeira devoção a Maria, e assim nos salvaremos todos” (Disc. 16, n. 4).

Repitamos, pois, mais com o coração do que com a língua, em união com este santo:

Ó Maria! Já que está em vossas mãos a minha salvação, e vós salvais todos os que vos são devotos e se encomendam
a vós, eis-me aqui, ó grande Virgem: lanço-me desde este momento em vossos braços e professo-me para sempre
vosso verdadeiro devoto. Ó amada Maria, aceitai-me e salvai minha pobre alma! (Disc. 10, n. 3).

Fonte: PADRE PAULO RICARDO. É “obrigatório” ser devoto da Virgem Maria?

Tradução e adaptação de Gabriel M.ª Roschini, La Madre de Dios según la Fe y la Teología. Trad. esp. de Eduardo
Espert. 2.ª ed., Madrid: Apostolado de la Prensa, 1958, vol. 2, pp. 533-544.

Links relacionados:

TODO DE MARIA. A necessidade da verdadeira devoção a Maria.


TODO DE MARIA. Maria e as três vindas de Jesus Cristo.
TODO DE MARIA. Por que Maria tem vários títulos ou nomes?

Nota:

[1] As opiniões discrepam quanto a isso. Cf., e.g., A. R. Marín, “A fé da Igreja”, n. 38: “Para obter a vida eterna, além
da fé habitual unida à caridade, é necessário a todos os homens adultos com uso da razão crer expressamente que
Deus existe e que é remunerador, ou seja, premiador dos bons e castigador dos maus”; n. 39: “Não consta com
certeza que, para salvar-se, seja necessária a todos os homens do mundo a fé explícita na Encarnação do Verbo”,
salvo nos casos em que se tenha recebido instrução suficiente acerca dos mistérios da fé.

https://blog.cancaonova.com/tododemaria/poque-a-devocao-a-nossa-senhora-e-necessaria/

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