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O longo adeus à literatura

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LEYLA PERRONE-MOISÉS

A literatura acabou. Pelo menos, é o que foi anunciado há mais de um século e


tem sido repetido desde então, com uma insistência cansativa. Talvez o
primeiro a anunciá-lo tenha sido Rimbaud. Em 1879, ele respondeu ao amigo
Delahaye: "Não me interesso mais por isso." "Isso" era a poesia, a literatura.

Ao longo do século 20, grandes teóricos falaram do fim da literatura. Valéry


declarou o fim do romance quando disse que não se podia mais escrever "A
marquesa saiu às cinco horas". Sartre, em 1948, terminava seu "O Que É a
Literatura?" com uma advertência: "Nada nos garante que a literatura seja
imortal [...] O mundo pode muito bem passar sem a literatura. Mas pode
passar ainda melhor sem o homem".

Maurice Blanchot mergulhou a fundo na questão e concluiu, em 1959: "A


literatura vai em direção a ela mesma, em direção à sua essência, que é o
desaparecimento". E Roland Barthes, em seu último curso, de 1979,
lamentava: "Algo ronda a nossa história: a morte da literatura".

Os títulos de vários ensaios editados na última década falam por si: "Os Fins da
Literatura" (B. Levinson, 2001); "O Último Escritor" e "Desencanto da
Literatura" (R. Millet, 2005 e 2007); "O Adeus à Literatura. História de uma
Desvalorização, do Século 18 ao 20" (W. Marx, 2005); "O Último Leitor" (R.
Piglia, 2006); "O Silêncio dos Livros" (G. Steiner, 2006); "Literatura para Quê?"
(A. Compagnon, 2007); "A Literatura em Perigo" (T. Todorov, 2007).

CRÍTICOS SE CALARAM

Quando se fala do fim da literatura, trata-se do fim de um tipo de literatura:


aquela da modernidade. É evidente que algo mudou, e muito, na esfera
literária. Os leitores talvez tenham mudado mais do que os escritores. As novas
gerações não querem mais ler aquilo que os teóricos do século 20 chamavam
de literatura. Por falta de critérios estáveis de avaliação, os críticos literários
calaram-se, perderam espaço e prestígio. A disciplina chamada "literatura"
desapareceu no ensino secundário, em que se tornou "comunicação e
expressão"; na universidade, deu lugar a "estudos culturais".

A literatura se tornou coisa do passado. Mas como?, dirão os leitores. Nunca se


publicou tanta ficção e tanta poesia quanto agora. Nunca houve tantas feiras de
livros, tantos prêmios, tantos eventos literários. Nunca os escritores foram tão
midiatizados, tão internacionalmente conhecidos e festejados. Fica claro, então,
que, quando se fala do fim da literatura, não estamos falando da mesma coisa.

Ora, nenhum teórico jamais conseguiu definir exatamente o que é (ou não é)
literatura. Até o século 18, literatura era o conjunto das obras escritas, em
qualquer gênero. Foi somente a partir do romantismo que ela passou a ter o
sentido que, em parte, tem ainda hoje: textos escritos numa linguagem
particular, que interrogam e desvendam o homem e o mundo de maneira
aprofundada, complexa, surpreendente. Atualmente, a imensa maioria dos
livros mais lidos no mundo não corresponde a essa definição. Vejam-se as listas
dos mais vendidos.

LITERATURA PÓSTUMA

O que aconteceu? A situação em que se encontra hoje a literatura não é a de


uma ruptura, como a ocorrida entre o classicismo e o romantismo. Não se trata
de uma simples oposição ao que havia antes. Boa parte da literatura atual vive
da referência àquela que a precedeu, a da modernidade, que nela sobrevive na
forma de citação, alusão, pastiche ou intertextualidade. Sua própria
designação, literatura pós-moderna, a amarra à anterior. É uma literatura
póstuma, uma literatura do adeus.

Um subgênero surgido nos anos 1980 e ainda próspero é o do romance que


ficcionaliza a vida dos escritores da alta modernidade.

Para citar apenas alguns entre dezenas de romances desse tipo: Dostoiévski foi
ficcionalizado por Leonid Tsípkin ("Verão em Baden-Baden", 1981) e por J. M.
Coetzee ("O Mestre de Petersburgo", 1994); Fernando Pessoa se transformou
em personagem de José Saramago ("O Ano da Morte de Ricardo Reis", 1984) e
de Antonio Tabucchi ("Réquiem", 1992, "Os Últimos Três Dias de Fernando
Pessoa", 1994); Rimbaud voltou à cena nas obras de Dominique Noguez ("Os
Três Rimbaud", 1986), Pierre Michon ("Rimbaud, o Filho", 1991) e J.M.G. Le
Clézio ("A Quarentena", 1995); Henry James é o herói de Colm Tóibin ("O
Mestre", 2004) e de David Lodge ("Autor, Autor", 2004); depois de ser
personagem de Fedorovski e de Ken Kalfus, Tolstói ganhou sua última
personificação na obra de Jay Parini ("A Última Estação: Os Momentos Finais de
Tolstoi", 2010).

Essa lista contém romancistas internacionais de renome, alguns deles


premiados com o Nobel, o que dá testemunho da importância do subgênero. Os
fantasmas modernos continuam assombrando seus herdeiros. Metafórica e
literalmente, pois nesses romances os espectros são numerosos.

METALITERATURA

Por falar em fantasmas, acaba de ser publicado mais um livro que pode entrar
na categoria do "adeus à literatura": "Dublinesca", de Enrique Vila-Matas
[trad. José Rubens Siqueira, Cosac Naify, 320 págs., R$ 59]. O escritor catalão
já vem praticando há tempos um gênero misto de romance, diário e ensaio
literário que tem sido chamado de metaliterário.

Em "Bartleby e Companhia" (2000), ele tratava de uma série de escritores


atingidos pelo "mal de Bartleby", isto é, escritores que preferiram não escrever,
que abandonaram a literatura ou não escreveram obra alguma. Em "O Mal de
Montano" (2002), ele narrava as aventuras e desventuras de pessoas que
confundem a vida com a literatura. Em "Doutor Pasavento" (2006),
encontramos intelectuais cuja única aspiração é desaparecer.
"Dublinesca" prossegue na mesma via ultraliterária, com a diferença de que
agora o herói da ficção não é um escritor, mas um editor aposentado que sofre
ao mesmo tempo com seu envelhecimento pessoal e com o desaparecimento
dos grandes escritores, dos editores de boa literatura e dos leitores à altura
desses livros.

O tema central do romance é o "réquiem pela era de Gutenberg": a ausência de


Deus, a obsolescência dos livros, a morte da literatura. Nada melhor para selar
esse apocalipse do que uma viagem a Dublin, com amigos igualmente fanáticos
por literatura, para comemorar o "Bloomsday" numa cerimônia realizada no
cemitério descrito por Joyce em "Ulisses".

Vários espectros assombram a personagem: familiares, conhecidos e


desconhecidos, escritores mortos ou virtuais. Joyce é, naturalmente, o
principal; mas há também um jovem que surge e some na bruma --e que se
parece com Beckett. Numa entrevista, o romancista explicou que se trata da
passagem de uma época de epifania, representada por Joyce, a uma época de
afonia, encarnada pelo outro, isto é, "a decadência de certa forma de entender
a literatura".

HUMOR REFINADO

Com essa temática tão especializada e obsessiva, o surpreendente é que Vila-


Matas tem tido excelente recepção, tanto da parte da crítica especializada
quanto da de seus numerosos leitores. Isso acontece porque mesmo aqueles
que não têm um repertório de leituras tão vasto quanto o do autor nem perdem
o sono pensando no fim da literatura são seduzidos por suas extravagantes
personagens, por uma trama cheia de suspenses, por um humor refinado que
se sobrepõe, com delicadeza, a experiências dramáticas.

Aparentemente apocalíptico, Vila-Matas não é, entretanto, pessimista. No fim


de "Dublinesca", salva-se o deprimido editor e reaparece o autor. A um
entrevistador do "El País" que lhe perguntava como explicaria seu romance a
um leigo, ele respondeu: "Eu lhe diria que trata de alguém muito acabado, que
deseja celebrar o funeral do mundo e descobre que isso, paradoxalmente, é o
que permite ter um futuro na vida". O velho Freud estaria de acordo.

O trabalho de luto ainda está em curso. Em seu recente romance, "Se Um de


Nós Dois Morrer" [Alfaguara, 124 págs., R$ 36,90], Paulo Roberto Pires cria
uma personagem afetada pela "síndrome de Vila-Matas". Naturalmente, a
história inclui cemitérios e defuntos, agora reduzidos a cinzas: "Em poucas
gerações não haverá nada, nadinha a cultuar" (p. 50).

O adeus à literatura não é, evidentemente, o único tema dos escritores atuais.


Mas, por enquanto, tem dado a ela surpreendente sobrevida.

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/941210-o-longo-adeus-a-
literatura.shtml