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3 formas de investir em ações

www.clubedospoupadores.com
Março 26º, 2019

Existem basicamente três formas diferentes para se investir nas ações negociadas na
bolsa de valores. Elas se diferenciam com base em quatro fatores que são:

1. o custo para investir por cada uma das formas;


2. o tempo que será exigido de você (que também é um custo);
3. o conhecimento que cada forma exigirá da você;
4. a liberdade que você terá nas decisões de investimento.

Nenhuma das três formas de investimento em ações, que irei descrever neste artigo, é
campeã em todos esses quatro fatores. O valor que você dará para cada fator pesará
muito na sua decisão sobre a melhor forma de investir. Por esse motivo, é sempre muito
difícil responder sobre a melhor forma de investir em ações, pois a resposta depende de
quem pergunta.

Vou comentar sobre cada forma de investimento e no nal de cada uma irei resumir sua
relação com custo, tempo, conhecimento e liberdade.

Forma 1: Os outros investem por você


Quando você investe em ações, através de um fundo de ações, está pagando para que
outras pessoas comprem ações por você. Elas escolhem em quais ações irão investir o
seu dinheiro, quanto será investido em cada ação e quando irão comprar e vender essas
ações para obter o melhor retorno.

Existem fundos que só investem em ações especí cas (gestão passiva), mas isso você
mesmo(a) poderia fazer por um custo menor. Por isso, os fundos de ações mais atrativos
são aqueles onde o gestor do fundo tem a liberdade para comprar as ações livremente,
ou seja, eles cobram para fazer a gestão ativa do seu dinheiro.

Neste caso, a liberdade de escolha é transferida para o gestor. Você ganha tempo para
cuidar da sua vida enquanto os outros cuidam do seu dinheiro. Isso signi ca que para
investir em um fundo que faz gestão ativa é necessário con ar nas habilidades do gestor,
ou seja, você precisa conhecer o gestor, do contrário estará entregando a
responsabilidade pelo investimento do seu dinheiro para um estranho.

Imagine pagar alguém para assumir a responsabilidade de escolher e comprar tudo que
você e a sua família comem durante um ano. Essa pessoa teria total liberdade para
escolher os alimentos sem considerar suas preferências pessoais. Você também
contrataria outra pessoa para escolher o que você iria vestir, com total liberdade e sem
considerar seus gostos pessoais. Diante dessas situações hipotéticas, certamente você
teria muito cuidado na escolha de uma pessoa de con ança. Provavelmente você
avaliaria se essa pessoa tem gostos parecidos com os seus e se tem o conhecimento
necessário para escolher por você.
Assim deveria ser a escolha de alguém para tomar decisões sobre onde e como investir o
seu dinheiro. Gestores de fundos costumam cobrar, em média, 2% ao ano (taxa
administrativa) sobre o patrimônio que você tiver investido. Fundos de grandes bancos
costumam cobrar o dobro disso. Não importa se eles conseguirão fazer o seu dinheiro
ou não, pois a taxa é cobrada sobre o valor que você tem investido no fundo. Exemplo:
se você investir R$ 10.000,00 em um fundo que cobra taxa de 2% ao ano, seu custo anual
será de R$ 200,00. Se investir R$ 100.000,00 o seu custo será de R$ 2.000,00 por ano.

Escolheram três tipos diferentes de peixe para você comer. Compraram o peixe
usando o seu dinheiro, limparam, fatiaram, pegaram um pedaço do peixe e serviram o
restante cru com pepinos fatiados. Não importa o nome do peixe, não importa quanto
pagaram por ele e não importa se você gosta de peixe cru com pepinos.

Não é barato investir através dos fundos. Di cilmente alguém pagaria esse valor se fosse
cobrado em dinheiro vivo. Certamente cobrança por resultados seria muito maior. A
cobrança é feita de uma forma que você não será capaz de sentir. A taxa é descontada
diariamente do fundo e ela só vai aparecer através de uma rentabilidade menor. Dessa
forma, a rentabilidade divulgada pelos fundos já está com a taxa administrativa e outros
custos descontados.

Muitos fundos também cobram uma taxa de performance que costuma ser de 20%.
Exemplo: se a bolsa valorizar 10% durante o ano e o fundo render 12% ele terá um ganho
de 2 pontos percentuais acima do índice Bovespa (índice que mede o desempenho da
bolsa). O fundo cobrará 20% desses 2 pontos percentuais, ou seja, ele cobrará 0,40%
adicionais. Assim, além de pagar os 2% de taxa administrativa você pagaria mais 0,40%
pela performance. Existem R$ 327 bilhões (R$ 327.270.885.777,52) investidos em mais de
2000 fundos de ações. Como a média da taxa administrativa cobrada por eles é de 2,09%
ao ano, eles disputam R$ 6.8 bilhões por ano em taxas pagas pelos investidores (fonte).

Os fundos de ações com mais recursos investidos são justamente os fundos geridos por
grandes bancos, pois cada gerente de banco em cada agência é uma espécie de “vendedor
de fundos”. É muito fácil convencer um investidor leigo a investir em um fundo de ações
ou multimercado dentro de uma agência quando os fundos de renda xa não estão
rendendo quase nada e existe uma rentabilidade passada acumulada muito elevada nos
fundos de ações. Os fundos dos grandes bancos também cobram as maiores taxas
administrativas, alguns chegam a cobrar 4% ao ano.

Nos últimos anos, muitos gestores que trabalhavam como funcionários desses grandes
bancos, deixaram seus empregos para criar gestoras independentes onde criaram seus
próprios fundos. Grandes corretoras passaram a oferecer esses novos fundos. Se você
tem conta em uma grande corretora é muito provável que receba muitas recomendações
de investimentos em fundos, assim como os gerentes de banco sempre zeram. As
corretoras são remuneradas pelos fundos quando conseguem vender esses fundos para
seus clientes.

Muitos fundos surgiram nos últimos anos e foram oferecidos ao público através das
grandes corretoras. São poucos os fundos com mais de 10 anos de história que permita
ao investidor avaliar o desempenho de longo prazo do gestor. Investir em um fundo que
promete rendimento no longo prazo sem ter um histórico de longo prazo para avaliar é
como dar um tiro no escuro. A con ança no per l do gestor precisa ser maior ainda.
Você contrataria alguém para cuidar de alguma coisa valiosa da sua vida sem conhecer
nada sobre essa pessoa? Nem eu, mas as pessoas fazem isso com uma incrível facilidade
quando escolhem fundos para investir.

Muitas vezes os fundos mais jovens oferecem bons resultados por algum curto período
de tempo. Esses resultados positivos aparecem na imprensa. Existem corretoras que são
donas de sites de notícia (exemplo 1), (exemplo 2) e meios de comunicação que são donos
de corretoras (exemplo).

O destaque na imprensa, com base em resultados passados que não garantem resultados
futuros, atraem muitos investidores novos e, com um volume maior de dinheiro para
investir, o gestor passa a ter di culdades para obter os resultados anteriores. Os fundos
costumam perder e ciência quando precisam investir quantidades grandes de dinheiro.
Alguns fundos tentam evitar isso fechando a entrada de novos investidores e de novos
investimentos por um tempo. Nem todos fazem isso, pois quanto mais dinheiro no
fundo, mais os 2% de taxa administrativa representam grandes volumes de dinheiro.

Cuidado 1: vários fundos de ações apresentam histórico de ganhos acima da média por
serem fundos alavancados, ou seja, são fundos onde o gestor pode investir assumindo
uma espécie de “dívida”. A alavancagem potencializa ganhos, mas ela é um desastre no
caso de perdas. Nesses fundos alavancados, se ocorrer grande perda de patrimônio o
investidor (cotista) pode ser chamado para cobrir essas perdas, ou seja, será obrigado a
pagar por prejuízos produzidos pelas decisões do gestor. Não é comum, mas acontece,
por isso, é fundamental ler o regulamento do fundo de ações antes de investir para
veri car o que o gestor pode e o que ele não pode fazer com o seu dinheiro. Caso não
queira correr esse risco, evite fundos muito alavancados.

Cuidado 2: fundos muito jovens e com pouco patrimônio investido pode obter retornos
acima da média com maior facilidade. Quando crescem, depois que divulgam resultados
passados, ca difícil manter o bom desempenho com consistência. Veri que se o fundo
tem um bom histórico, com bons resultados investindo grandes patrimônios.

Cuidado 3: muitos fundos de ações não divulgam onde estão investindo o seu dinheiro.
A CVM possui um site (que precisa melhorar muito) onde é possível acessar onde os
fundos investiram com 3 meses de atraso. Veja aqui, faça a consulta, clique no fundo e
depois selecione a “competência” de 3 meses antes para ver em quais ações o fundo
investiu no passado. Se você tiver algum conhecimento sobre investimentos em ações
poderá avaliar o gestor através das ações que ele selecionou no passado (“diga-me em
quais ações investe e te direi que investidor tu és”). Isso ajuda a identi car se o gestor
está escolhendo ações que você escolheria, ou seja, se ele tem um estilo compatível com
o seu. Você também pode avaliar se ele está investindo em ações com menor liquidez
(comum quando o fundo é pequeno) ou em ações que apresentam maior risco (de
ganhos e consequentemente de perdas). Grande parte dos fundos possuem sites onde
divulgam “cartas mensais” aos cotistas e as vezes apresentam algum detalhe sobre o que
estão fazendo com o seu dinheiro. Nem sempre a rentabilidade que um fundo oferece é
compatível com o risco que ele correu para obter essa rentabilidade.

Cuidado 4: Nunca invista em nada para depois esquecer. É importante acompanhar o


que os outros fazem com o que é seu. Esquecer só bene cia quem está cuidando do
dinheiro esquecido.

Você também pode investir em ações através de alguns tipos de fundo multimercado. A
taxa administrativa dos multimercados também costuma ser de 2% ou mais. A taxa de
performance costuma ser de 20% do que passar do CDI. É bem mais fácil para o fundo
superar o CDI do que superar a bolsa, principalmente quando o CDI está com taxas
muito baixas.

A forma mais barata de investir em fundos passivos, que apenas replicam uma carteira de
ações, é através de ETF´s. Esses fundos são negociados como as ações e você deveria
aprender a investir em ações para aprender a investir através de uma ETF.

Resumindo: no caso do custo, os fundos de ações são as opções mais caras para se
investir em ações. Investir em fundos de ações exige tempo para escolher o fundo e
tempo para avaliar o que o fundo anda fazendo com o seu dinheiro. Comprar e esquecer
é bom para quem cuida do dinheiro esquecido. É importante ter algum conhecimento
para entender o que o fundo está fazendo e para escolher o fundo. Nos fundos ativos
você não tem liberdade para escolher as ações, pois essa liberdade será do gestor. Nos
fundos passivos, muitas vezes é possível saber onde o gestor irá investir e a taxa
administrativa costuma ser menor.

Forma 2: Os outros dizem onde você deve investir


Você também pode investir em ações seguindo as recomendações dos outros. Podemos
dividir essas recomendações em três tipos:

Recomendações gratuitas de desconhecidos da internet, amigos e parentes;


Recomendações gratuitas dos bancos, corretoras e outras instituições;
Recomendações de empresas que vendem recomendações.

A pior forma de investir em ações é seguir recomendações gratuitas de desconhecidos


da internet. Existem diversos blogs, fóruns e redes sociais, com pessoas que você não
conhece, recomendando ações que você também não conhece. Muitas dessas pessoas se
escondem por trás de pseudônimos. Assim como você jamais investiria em algo
desconhecido recomendado por um estranho no meio da rua, não deveria investir em
algo desconhecido recomendado pelos estranhos que estão por toda internet,
principalmente em redes sociais ou fóruns onde existem muitos per s falsos.

Os piores comentários que recebo aqui no Clube dos Poupadores são de pessoas que
escondem o nome e o e-mail na área de comentários. Tenho um sistema que detecta e
elimina esse tipo de comentário automaticamente, mas mesmo assim ainda gasto tempo
ltrando comentários de per s falsos. Poucos sites dedicam tempo para esse tipo de
limpeza, pois é um trabalho muito custoso.
Investir seguindo recomendações de amigos ou parentes também é ruim. Você nunca
sabe se eles estão recomendando alguma coisa que receberam de um desconhecido.
Muitas vezes nossos amigos só nos recomendam alguma coisa por exibicionismo
(vaidade por resultados passados).

Os seus amigos que possuem os melhores resultados nos investimentos certamente são
os mais discretos.

Seus amigos, parentes e o dono da peixaria recomendam peixes sem cobrar nada por isso. Uma
publicação é vendida por alguns reais mensais listando os melhores peixes para comprar nesse
momento. O resto é com você.

As recomendações dos bancos e corretoras seguem a tendência de motivar você a trocar


de ações constantemente. Eles emitem listas das melhores ações para investir hoje. Uma
semana depois eles criam uma nova lista, com novas ações. As instituições ganham mais
quando você movimenta o seu dinheiro de um investimento para o outro.

A única vantagem que existe nas recomendações dos bancos e corretoras está nas
fundamentações. Algumas instituições emitem relatórios fundamentando a escolha da
ação que recomendam. Para quem está aprendendo a investir em ações esses relatórios
podem ser educativos. Estudar esses argumentos e validar se eles fazem sentido pode ser
uma boa forma de motivar seus estudos.

Temos ainda as empresas que vendem relatórios com recomendações. No passado,


somente grandes investidores podiam comprar relatórios com recomendações
produzidas por grandes consultorias. Eram relatórios caros para os poucos que podiam
pagar por eles. Hoje temos empresas que vendem relatórios por preços de assinatura de
revista. Esses relatórios pagos só possuem alguma utilidade quando você já tem
conhecimentos para investir e avaliar se as recomendações fazem sentido para a sua
realidade nanceira e o seu per l de investidor.

Imagine um adolescente que adoraria viajar pelo mundo em um veleiro. O problema é


que esse adolescente ainda não sabe velejar e não possui um barco. Ele não sabe nadar e
tem medo do mar. Será que comprar uma série de mapas e cartas náuticas teria alguma
utilidade para um jovem iniciante? Muita gente compra relatórios de investimentos sem
antes investir na própria educação.

Resumindo: a recomendação gratuita de amigos, parentes e desconhecidos pode ser o


barato que custa caro. Nunca invista cegamente, con ando totalmente em quem
recomenda, pois o dinheiro investido será seu e não de quem recomenda. Você precisa
adquirir algum conhecimento e ter algum tempo para validar os fundamentos de quem
deu a recomendação. A liberdade de quem só sabe investir através de recomendações
dos outros é zero.

Forma 3: Você investe livremente


Pessoalmente eu valorizo muito a liberdade, só que para exercer essa liberdade,
principalmente no mundo dos investimentos, é necessário adquirir conhecimento. Não
adianta ser livre para escolher se você não consegue enxergar as opções de escolha e não
consegue decidir a melhor opção para você. Nem sempre o que é bom para o gestor do
fundo ou para quem recomenda é bom para você.
Assim como você não aprendeu a ganhar dinheiro do dia para a noite (através da sua
pro ssão) você não vai aprender a investir o seu dinheiro do dia para a noite.

Se o dinheiro que você investe é fruto do trabalho que você realizou, consumindo o seu
tempo, e se o seu tempo é um fragmento da sua vida, então esse dinheiro precisa ser
tratado com muito respeito.

O tempo que gastamos para gerar a nossa renda, através do trabalho, nunca mais
retornará. É vida que foi consumida. Quando cuidamos do dinheiro que ganhamos
trabalhando, estamos cuidando do pedaço de vida que gastamos para ganhar esse
dinheiro.

Ninguém poderá cuidar melhor dos frutos do seu trabalho do que você, mas para isso é
fundamental obter conhecimento, boas ferramentas e desenvolver habilidades como
paciência e controle emocional.

Não prestou atenção no que estava fazendo. Perdeu o peixe, o celular, a vara, a paciência e a
cadeira.

Resumindo: o custo para investir por conta própria é basicamente o custo que você terá
com a sua educação, ferramentas e conquista de experiência. Livros e cursos custam
muito pouco. Muitas vezes o autor de um livro ou de um curso gasta meses ou anos
resumindo de forma didática um monte de conhecimentos e experiências que ele
demorou uma vida para acumular. O tempo necessário para investir por conta própria é
maior quando você está aprendendo e vai diminuindo com a experiência e com a adoção
de ferramentas que ajudam nas análises. O conhecimento só precisa ser adquirido uma
vez e você não precisará das opiniões dos outros. Quando você assume a
responsabilidade de investir por conta própria a sua liberdade é total e o aprendizado é
total.

Liberdade sempre anda de mãos dadas com a responsabilidade e essa responsabilidade


nos ensina muito. Quando você investe através de um fundo e o gestor erra, você não
aprende nada com o erro dele. Quando você investe através das recomendações dos
outros e os outros erram, você também não aprende nada. Quando você investe
livremente, erra e assume a responsabilidade, você aprende com seus erros. Até errando
você ganha.

Leitura recomendada: lista de livros sobre investimentos.

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