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A Bolsa que não para de subir

By Guilherme, www.valoresreais.com
Janeiro 28º, 2018

Na última sexta-feira, 26 de janeiro de 2018, a Bolsa de Valores brasileira cravou novo


recorde nominal de pontos. O IBovespa fechou o dia aos 85.531 pontos. O mês de
janeiro ainda não acabou, e os ganhos acumulados até agora, nesse curto ano de 2018,
ultrapassam 11,90%, que é praticamente o dobro do que se espera para os investimentos
atrelados ao CDI durante todos os 12 meses do ano – a taxa SELIC atual está em 7%, e há
chances de cair pra faixa dos 6.x% ao longo do ano.

Nessas horas de Bolsa em alta, muitos investidores iniciantes se perguntam: é hora de


investir em Bolsa? Devo ser mais arrojado em meus investimentos? Ainda dá tempo de
aproveitar essa alta, ou devo esperar ela cair? Qual seria o melhor momento de entrar na Bolsa?

Perguntas como essa são comuns entre os investidores iniciantes, e esse artigo se destina
a fornecer subsídios para re exões mais aprofundadas, não apenas sobre o investimento
em ações, mas também sobre como montar uma carteira de investimentos, de maneira
mais global.

Por que você quer investir na Bolsa?


A pergunta “é hora de entrar na Bolsa?” está errada. Não é essa pergunta que você deve
fazer, porque é justamente a pergunta oposta a essa que os investidores iniciantes fazem
quando a Bolsa está em queda (“é hora de sair da Bolsa?”).

“Hora de investir”, “hora de sair”, “melhor momento de compra” e perguntas similares,


são todas centradas no timing de mercado, e são mais apropriadas para aqueles que estão
especulando, do que propriamente investindo.

A pergunta que você deve responder é outra, e está estampada no subtítulo desse artigo:
“por que você quer investir na Bolsa?” É a partir das respostas a essa pergunta que você
desenhará sua estratégia de investimentos na área da renda variável.

Portanto, comece investigando os motivos que te fazem querer investir na Bolsa.

Se você for como a maioria dos investidores, certamente nada fez quando a Bolsa estava
num forte ciclo de queda, afundando nos 39 mil pontos. Você deve ter cado bem longe
da Bolsa, concentrando quase tudo em renda xa. E olha que isso nem faz muito tempo:
ocorreu em janeiro de 2016. Há exatos dois anos.

Naquela época, publicamos um artigo cujo título já re etia o contexto estarrecedor em


que vivíamos: 2015 ainda não terminou: LCA BB piora ainda mais (80% do CDI), in ação
recorde, dólar volta aos R$ 4, Bolsa abaixo dos 40k pontos.
Dos mais de 60 comentários que aquele artigo recebeu, ninguém comentou que estava
comprando ações. A maioria absoluta dos comentários estava concentrada na LCA do BB
(cuja rentabilidade piorava cada vez mais), e em alternativas na renda xa.

O medo, sim, o medo, paralisa as pessoas, pois a forte queda da Bolsa tinha fundamentos,
dada a grave crise econômica que enfrentávamos – na verdade, estávamos no olho do
furacão, no meio da pior crise econômica da história do Brasil.

Na oportunidade, escrevi:

“Taí um cenário praticamente inevitável: com a forte queda do IBovespa já na


primeira semana do ano, com perdas de 6,31%, espera-se que o Ibovespa caia
abaixo dos 40k pontos já nos próximos dias.

E tal queda não se deve apenas ao futuro sombrio e incerto do cenário


econômico brasileiro e/ou chinês, mas à própria deterioração de diversos setores
que compõem a economia brasileira, e cujos dados e resultados vão sendo
divulgados paulatinamente.

Trata-se, portanto, de uma queda com fundamentos, e não apenas especulativa. O


ETF BOVA11, por exemplo, que replica o IBovespa, já teve cotas sendo
negociadas, na semana passada, na faixa dos R$ 39.xx, fato que não ocorria desde
o começo de 2009.

A crise na Bolsa brasileira, se por um lado é ruim para quem comprou ações
quando elas estavam no topo histórico, por outro abre oportunidades de compra
que não se viam desde a crise de 2008. Muitas ações estão sendo duramente
castigadas pelo mercado, e, para quem tiver estudo, paciência e estratégia, pode
ser uma grande oportunidade de iniciar um processo de acumulação de riqueza”
(sem destaque no original).

E aí? Vamos voltar à pergunta original: por que você quer investir na Bolsa… agora que ela
está no seu auge?

É para especular no curto prazo? Para ter ganhos melhores que o CDI? É para formar
uma carteira de investimentos para a aposentadoria?
Se você for um leitor antigo do blog, sabe que eu sempre defendi o uso da Bolsa de
Valores como um instrumento para acumulação de riqueza a longo prazo, e não para
especulações de curto ou curtíssimo prazo.

Se for esse também o seu objetivo, ou seja, se você quer investir na Bolsa como
instrumento de formação de patrimônio para projetos de longo prazo, como a
aposentadoria, então seu plano de investimentos também não está centrado numa
“aposta de uma tacada só”, visando a ganhos fabulosos no curto prazo.

Ou seja, você não espera investir um montante alto de uma só vez esperando um retorno
fantástico em menos de 10 dias. O que nos leva ao segundo ponto dessa re exão de
hoje…

Foco no longo prazo


Existe uma excessiva preocupação do investidor no curto prazo. A maioria dos
investidores que se dizem de longo prazo não resistem, e cam acompanhando de forma
frenética a variação diária e mensal de seus ativos.

Se um fundo multimercado famoso do mercado está caindo 0,54% no mês atual, e teve
um desempenho de -1,25% no mês anterior, o investidor já começa a car incomodado, e
pergunta a outros investidores, em fóruns e blogs, se já não seria hora de sair, porque o
fundo acumulou dois meses de retornos negativos, não importando se esse mesmo
fundo trouxe retornos de 200% acima do CDI nos últimos 5 anos.

A maioria dos investidores iniciantes têm pressa por resultados. Pressa no curto e no
curtíssimo prazo. Não aguentam car um ano com retornos negativos. Se car com dois
anos consecutivos no negativo, aí é que saem mesmo. Se o ativo em questão não
consegue ganhar do CDI durante 3 anos, já partem para outro ativo. Não esperam o
investimento maturar. Liquidam suas posições no negativo. E só eventualmente voltam
depois que o ativo já entregou a maior parte de seus ganhos.

E assim vão girando patrimônio, entrando e saindo de fundos, entrando e saindo (e


entrando de novo) em ações, entrando e saindo de títulos públicos e títulos privados etc.
Com isso, vão deixando no meio do caminho: pagamentos de imposto de renda na sua
alíquota mais alta (ou nem isso, caso resolvam sair no prejuízo), taxas de administração,
taxas de corretagem, taxas de performance, e até taxas de saída antecipada, venda a
mercado em momentos ruins e absolutamente inapropriados para o contexto da época
etc.

É essa pressa um dos fatores que acaba prejudicando a rentabilidade dos investimentos.
A falta de paciência cobra o seu preço, e o preço geralmente é caro, caríssimo.
Se você pretende investir em ações agora, é preciso ter um foco forte no longo prazo.
Pense numa data xa de resgates futuros, por exemplo, 10 de maio de 2040, e se indague:
qual é a diferença que vai fazer no futuro você comprar ações hoje, em 2018, que estejam
valendo R$ 10,80 ou R$ 10,90? A resposta é: nenhuma diferença.

Se você investe, por exemplo, comprando, a intervalos regulares, cotas de ETFs do


BOVA11, que replica o Índice Bovespa, pouca importa, para o seu futuro, se o Índice
fechar amanhã aos 85k ou 84k pontos.

No curto prazo, os preços das ações irão oscilar para cima e para baixo. Isso é natural da
renda variável, e você deve se acostumar com isso.

Falar tudo isso é fácil, eu sei. Difícil, bastante difícil, é cumpri-lo na prática. Daí a
relevância de você praticar essa tese fundamental. Colocar dinheiro de verdade no
“jogo”, assistindo suas próprias reações emocionais durante os picos e vales da Bolsa de
Valores.

O teste da experiência, principalmente da experiência em mercados de baixa, é


fundamental para veri car e atestar se você é, de fato, um investidor que se concentra
numa estratégia de ganhos a longo prazo.

Ter o conhecimento da necessidade do foco no longo prazo é fácil: você já deve estar
inclusive cansado de ouvir isso. O problema é adquirir a habilidade de focar no longo
prazo.

Conhecimento e habilidade são coisas distintas. O sucesso no mercado de ações não


depende só do conhecimento: se isso fosse su ciente, bastaria ler uns 10 livros sobre
Bolsa de Valores que você já teria o su ciente para se dar bem na renda variável.

O que vai fazer realmente a diferença para seu êxito na Bolsa de Valores são as suas
habilidades, é a sua capacidade, testada concretamente, de navegar pelas águas
turbulentas do Ibovespa utilizando e desenvolvendo técnicas mentais e emocionais
necessárias para ter os retornos positivos almejados.

É por isso que a maioria dos investidores pessoa física fracassa na Bolsa: porque cam
no primeiro estágio, contentando-se com a aquisição do conhecimento de que longo prazo
é o que importa.

Mas o conhecimento do foco no longo prazo, por si só, não é su ciente. É preciso dar
um passo a mais, adquirindo a habilidade. A habilidade de focar no longo prazo. E
habilidade se constrói na prática, e não apenas com teoria.

A disciplina dos aportes regulares


Uma das melhores estratégias para os investidores pessoa física atuarem em Bolsa é a dos
aportes regulares: investimentos de uma quantia xa, mensalmente (ou a outros
intervalos regulares, como a cada dois meses, a cada 3 meses etc.), que propiciam a
formação de um preço médio no investimento em ações.

Essa estratégia pode ser combinada com outros métodos, como a da alocação de ativos, e
a do “value averaging”, que são métodos mais so sticados, porque exigem um grau de
conhecimento e estudo maior, mas que servem para dar a disciplina necessária nesse
tipo de investimento, muitas vezes sujeito a falta de parâmetros objetivos de atuação.

Nos primórdios do blog, publicamos vários artigos sobre essa matéria, que dão a base
necessária para o investidor iniciante:

Uma das grandes vantagens de se investir de forma regular e constante é que você tira de
si a pressão psicológica de tentar acertar o “melhor momento” de comprar, pois só
sabemos quais foram os melhores momentos de compra ou venda depois que eles
aconteceram.

Por exemplo, agora sabemos, olhando em retrospectiva os últimos 10 anos, que dois dos
melhores momentos para comprar ações foram o último trimestre de 2008, quando a
Bolsa chegou nos 29 mil pontos, e o primeiro trimestre de 2016, quando a Bolsa chegou
nos 38 mil pontos. Mas veja bem: só conseguimos saber disso depois que eles
ocorreram.

Porém, e para os próximos 10 anos? Quais serão os melhores momentos para comprar
ações? Serão no quarto trimestre de 2022 e no segundo trimestre de 2026? Não sabemos.
Ninguém sabe.

É justamente por não sabermos nada sobre o futuro que a técnica das compras regulares
têm o seu valor: ela permite que nos livremos dessa necessidade humana de querer saber
o melhor momento de comprar, e faz com que consigamos aproveitar todos os
momentos de ciclos de baixa da Bolsa, para contrabalançar os ciclos de alta.

Mas os aportes regulares não podem ser feitos sem uma escolha bastante criteriosa das
ações. Quem, no passado, fez preço médio em Paranapanema, Sharp, Brinquedos
Estrela, OGX, MMX, e outras empresas que faliram (ou que quase faliram), certamente
perdeu muito dinheiro.

A recomendação é optar pela ampla diversi cação: estudar muito, MUITO, e escolher
um grupo grande empresas para diversi car o patrimônio. Quantas ações? Alguns falam
em 15 ações, outras falam em 20 ações. Quanto mais, melhor.

Eu, por exemplo, diversi co em quase 70 empresas, pra diminuir de forma consistente a
exposição ao risco, ao mesmo tempo em que busco captar os retornos totais do mercado
de ações, menos os custos.
Aportes constantes, diversi cação dos ativos, e tempo são 3 ingredientes absolutamente
essenciais para a construção de um bom plano de investimentos no mercado de ações.
Nunca despreze nenhum desses fatores, principalmente o fator disciplina.

Conclusão
Dois anos atrás – e nem faz tanto tempo assim, portanto – eu escrevi:
“Mas não posso deixar de abordar um assunto que também é bastante pertinente
nessa temática dos investimentos, ainda mais nesses tempos de Bolsa na faixa dos
trinta e pouco pontos, e dólar acima de R$ 4: o quarto ciclo histórico de baixa que
estamos vivendo, “empatando”, digamos assim, com os 4 ciclos de alta da Bolsa.
Vejam no grá co histórico abaixo, que mostra o valor da Bolsa de Valores em
dólares ao longo dos últimos 50 anos:

Créditos da imagem: Enfoque

Clique na imagem, que é apenas uma screenshot, para ir direto ao pôster interativo

Esse pôster já foi objeto de um artigo escrito há 6 anos, em maio de 2010. Olha só
o que escrevemos na ocasião:

Veri ca-se, também, a existência de 4 tendências de alta, e 3 tendências de baixa,


todas intercaladas, ou seja, uma tendência de alta era sucedida por uma tendência
de baixa. O problema: a última tendência focalizada pelo quadro foi uma tendência de
alta, de outubro de 2002 até maio de 2008, que totalizou uma valorização de
impressionantes 2.051% para o Índice (indexado ao dólar, repita-se). A pergunta é:
será que estamos começando a viver uma nova tendência de baixa? Ou ainda
estamos numa maré de alta?

Já temos a resposta, não é verdade?


Mal sabíamos nós que, a partir de 2008, estávamos prestes a iniciar um forte ciclo
de baixa, o quarto da série histórica, que ainda não terminou (o artigo foi escrito
em janeiro de 2016), e que parece (veja bem, parece) estar atingindo o seu fundo do
poço.

Como todo ciclo de baixa é sucedido por um ciclo de alta, o próximo ciclo, ao
que tudo indica, será de alta, mas quando isso ocorrerá, ninguém sabe”.

Pois bem.

Ao que tudo indica, o ciclo de baixa, o quarto da série histórica, parece que terminou no
primeiro trimestre de 2016, conforme podemos observar do quadro abaixo, atualizado
até os dias atuais:

Observe que, a partir de 2016, a Bolsa engatilhou um ciclo de alta, que já dura dois anos.
Nesse novo ciclo, observamos que o IBovespa ainda não atingiu seu topo em dólares. O
topo em dólares ainda pertence a 2008.

Se as reformas (previdenciária, tributária etc.) forem realizadas nos próximos anos, e a


economia consolidar seu crescimento, é bem provável que esse novo ciclo de alta seja
mais duradouro que o curtíssimo período de alta veri cado entre 2008 e 2011, que, no
nal das contas, se revelou ser arti cial, uma vez que ele não se sustentou nos anos
seguintes (foi na verdade um subciclo de alta enquadrado dentro de um ciclo mais amplo
de baixa).
Para o investidor de longo prazo que ainda tem algumas boas décadas para se aposentar,
o ideal seria haver mais ciclos de baixa do que de alta pela frente, para poder comprar
ações a um preço teoricamente mais baixo e, assim, empurrar o preço médio das ações
pra baixo.

Contudo, como o futuro é absolutamente incerto, as velhas máximas de investir focado


no longo prazo, realizar aportes regulares, e diversi car de maneira ampla, continuam
sendo indispensáveis para a construção de uma carteira inteligente de investimentos.

Lembre-se, ainda, de que não basta adquirir o conhecimento: é preciso dar um passo além,
e investir na aquisição das habilidades, através de treinamento e incursão nos mercados,
mas de modo bem pensado, estruturado e planejado.

Com esforço e dedicação, e tendo o tempo como aliado, e não como inimigo, é plenamente
possível colher os frutos do investimento em ações, e garantir prosperidade nos anos da
aposentadoria. 😉