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Bruna Jesus de Andrade

IFF – Instituto Federal Fluminense


Licenciatura de Teatro/1º Período
Fundamentos da Arte – Anelise Tiez

O Impasto e seu uso ao longo dos anos: De Van Gogh á Ivan Callifan

Resumo: Essa é uma pequena dissertação sobre a técnica de pintura Impasto,


que se constitui em usar camadas espessas de tinta a óleo para obter texturas
em quadros, e sua relação com seus usuários, acompanhando suas diferentes
intenções ao usar o Impasto ao longo das décadas.

Em 1800, século vivido por Van Gogh, a sociedade ocidental vivia


transformações industriais, tecnológicas e artísticas. A fotografia, que já era
realidade entre os anos que o pintor viveu, (1853-1890) já refletia nas artes
plásticas, que tinha que se adequar a um novo mundo, onde podia-se capturar
o realismo em segundos, e as decupagens minuciosas de movimentos reais de
animais e objetos era possível. A pintura precisou passar a dividir sua
característica de registro visual com outra linguagem, que se assemelhava
mais a ela que a escultura.
Acompanhamos o surgimento de pintores que também eram fotógrafos, e
somavam as duas linguagens em suas obras, com estudos precisos de
movimento e realismo, ou os impressionistas, que buscavam em suas obras o

The Starry Night, Van Gogh, óleo sobre tela, 1889


estudo de luz em paisagens e entendimento do caráter único de registro que se
assemelha a forma como a fotografia pode ser definida, e outros artistas como
Van Gogh e sua busca por texturas na técnica de pintura a óleo nomeada de
Impasto, a qual darei uma atenção especial.
O Impasto, termo oriundo da palavra italiana para “mistura” ou “pasta” ¹,
consiste em aplicar camadas espessas de tinta sobre a tela, usando espátulas,
pinceis grossos e até itens de confeitaria, como utilizado por Ivan Alifan nos
dias de hoje. A técnica visa o uso das texturas que as camadas de tinta geram,
dando tridimensionalidade aos quadros, e reagindo à luz ambiente que atinge
as camadas de tinta, onde luz e sombra reais também se somam à pintura.

Sunhat, Iva Alifan, óleo sobre tela, 2017


No trabalho de Ivan Alifan, artista russo contemporâneo, observamos a
experimentação da técnica de Impasto, usando ferramentas alternativas ao
mundo da pintura, como sacos de confeitaria, espátulas de bolos e técnicas de
confeitos para decoração de bolos, onde a técnica é valorizada tanto ou mais
que sua temática, ou é intrínseca a ela. Nas palavras de Alifan “As minhas
obras favoritas são aquelas que assombram o expectador” ², e traço aqui um
paralelo com o modo que Van Gogh era visto em sua época, com trabalhos
tidos como ‘parecidos saídos de um sonho’ ³, e com seus conflitos com a
própria saúde, Van Gogh assombra o expectador em suas obras texturizadas
onde o uso da técnica aqui discutida é essencial para a construção visual ser
alcançada em plenitude.

Detalhes de Starry Night e Sunhat, respectivamente. Podemos conferir o uso do Impasto


em minúcia, e sua influência na leitura da obra.

Enquanto Van Gogh se utiliza da técnica para romper com o realismo da


época e experimenta caminhos novos para favorecer a experiência de admirar
suas obras, sem ficar preso ao realismo limitante do registro fidedigno da
realidade, Ivan Alifan, por sua vez, vê no Impasto a ferramenta para tratar
principalmente, de sexualidade. As texturas, em seu trabalho, evocam quase
um sentimento tátil de pele, fluidos, e matéria orgânica escorregadia, que,
segundo o artista, é sua forma de descriminalizar o sexo na arte, o tornando
como ele mesmo o vê: natural.⁴
Van Gogh nega o culto ao realismo de sua época, de quadros perfeitamente
anatômicos e lisos, que retratam situações sociais cotidianas, e se encaixa em
um movimento de oposição. Ivan, por sua vez, não nega o culto ao realismo do
mundo contemporâneo, com as peles perfeitas nas fotografias de comercial e a
comidas de fast-food brilhantes. Ele vê, nessas influências, um caminho para a
transformação de seus significados, abraçando o realismo a fim de subverte-lo.
Conclusão: Podemos observar que, ao escolher uma técnica para trabalhar
como artista, não estamos fadados a herdar o significado de seus criadores e
difusores. O contexto histórico favorece a renovação e ressignificação de
signos na arte, bem como suas possíveis leituras. Parece ser também uma
tendência do contemporâneo não mais negar totalmente os movimentos que
são anteriores a ela, mas sim tentar agrupar todos em grandes colagens de
informações, significados e referências que compõem o entendimento atual no
tema escolhido.

Bibliografia:
• ¿Por qué las obras de Vincent Van Gogh son importantes?
http://preguntas-de-arte.blogspot.com/2014/03/por-que-las-obras-de-
vincent-van-gogh.html

• Vincent Van Gogh in his own words ³


https://www.theguardian.com/artanddesign/2010/jan/15/van-gogh-his-
own-words

• Why didn’t Van Gogh like having his photograph taken?


https://www.vangoghmuseum.nl/en/125-questions/questions-and-
answers/question-32-of-125

• The Starry Night


https://www.britannica.com/topic/The-Starry-Night#ref1250176

• A Invenção da fotografia estimulou o impressionismo


https://www.pan-horamarte.com.br/2016/07/invencao-da-fotografia-
estimulou-o-impressionismo/

• IVAN ALIFAN ONLINE GALLERY


http://www.ivanalifan.com/gallery.html

• Impasto ¹
https://www.britannica.com/art/impasto

• INSIDER interview with Ivan Alifan ² ⁴


https://www.facebook.com/thisisinsiderart/videos/456869847816918/?hc
_ref=ARSpoTTyBNPcOyDSVg1pjby_92DPmsUQfjoZHz1R7voX8vo1iTu
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