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Psicoterapia do Espaço Vivido: Um conceito fenomenológico e

ecológico12

Thomas Fuchs, M. D., Ph. D.

Resumo: Usando a psicologia fenomenológica e ecológica como base, o autor desenvolve o


conceito de espaço vivido como a totalidade das relações espaciais e sociais de um
indivíduo, incluindo as suas “possibilidades de horizonte”. O espaço vivido pode ser visto,
também, como o nicho ecológico do indivíduo, o qual é continuamente formatado [shaped]
por sua troca com o ambiente. A enfermidade mental pode, então, ser concebida como uma
limitação ou deformação do espaço vivido do paciente, inibindo a sua responsividade e
troca com o ambiente. Padrões inconscientes disfuncionais de sentimento e de
comportamento agem como “pontos cegos” ou “curvaturas” no espaço vivido e levam a
distorções típicas, assim restringindo ainda mais as potencialidades e o desenvolvimento
do paciente. Em acordo com isto, a tarefa da psicoterapia é explorar e compreender o espaço
vivido do paciente a fim de reabrir as suas possibilidades de horizonte. O principal agente
para este propósito é o campo interativo da psicoterapia, que pode ser visto como uma
“fusão de horizontes” dos mundos do paciente e do terapeuta.

INTRODUÇÃO

À primeira vista, a fenomenologia pode ser um método mais filosófico,


contemplativo, de pouca ajuda ao psicoterapeuta que está desejoso de promover
uma mudança no paciente. Para este propósito, o terapeuta irá, usualmente,
apoiar-se em explicações e técnicas psicodinâmicas e comportamentais bem
conhecidas. A fenomenologia não oferece nem explicações causais nem técnicas
terapêuticas, de tal modo que parece que o terapeuta poderia dispensá-la. Neste
artigo, eu tentarei mostrar o contrário. Em minha visão, a perspectiva
fenomenológica é indispensável se nós queremos alcançar uma compreensão
genuína, sem preconceitos, da experiência do paciente. Ainda mais, a
fenomenologia oferece uma visão que não localiza o transtorno do paciente nem
nas circunvoluções de seu {p. 424:} cérebro nem nos cantos escondidos de sua
psique, mas no mundo atual de sua vida com outrem, no mundo da vida
(Lebenswelt) – e este é, acima de tudo, o único mundo no qual a psicoterapia é
efetiva.
Em vez de procurar explicações atrás dos fenômenos, a fenomenologia
pode ajudar o terapeuta a perceber melhor e compreender como é [what it is like]
ser o paciente e viver em seu mundo. A fenomenologia não é uma abordagem
principalmente baseada na introspecção e nos estados internos, como um
preconceito antigo sugere3. Ao contrário, ela supera a dicotomia entre interno e
externo ao enfatizar a encarnação [embodiment] e o ser no mundo como modos
fundamentais de existência. As experiências subjetivas não são encontradas “na

1 FUCHS, T. Psychotherapy of Lived Space: A Phenomenological and Ecological Concept,


American Journal of Psychotherapy, vol. 61, no. 4, pp. 423-439, 2007.
2 Tradução: Hernani Pereira dos Santos.
3 Esta visão foi explicitamente negada por Husserl (1952, p. 38). Sobre o assunto, ver também

Zahavi 2004, p. 12ff.


psique”, nem “no cérebro”, mas se estendem sobre o corpo, o espaço e o mundo
da pessoa. Como consequência, os psicoterapeutas inspirados pela
fenomenologia se afastarão da tentativa de modificar os estados internos do
paciente e, em vez disso, focar-se-ão em seu espaço vivido, i.e., a sua maneira pré-
reflexiva ou implícita de viver com os outros. E eles usarão, em particular, a
relação terapêutica como um campo para estender o espaço vivido do paciente e
para mudar os padrões de relacionamento implícitos.
Nas seções seguintes, eu, primeiro, esboçarei o conceito fenomenológico
do mundo e do espaço vivido de uma pessoa. Então, eu passarei à psicopatologia
e caracterizarei os transtornos mentais como tipos diversos de constrições ou
deformações do espaço vivido do paciente. De especial importância será alcançar
uma abordagem diferente ao problema do inconsciente, que eu considero não
como um compartimento interno da psique no sentido psicanalítico tradicional,
mas como uma determinada forma de viver destituída de completa consciência
[awareness] – um ponto cego no espaço vivido, por assim dizer. Na parte final, eu
descreverei o campo interativo da psicoterapia como uma fusão parcial dos
horizontes dos mundos do paciente e do terapeuta. Esta fusão expande o espaço
vivido do paciente e pode ajudá-lo a reformular [reshape], também, os seus
relacionamentos com outrem.

1. O MUNDO E O ESPAÇO VIVIDO DA PESSOA

O meu ponto de partida é um curto esboço do método fenomenológico tal


como desenvolvido por Husserl (1950/1931). A pressuposição fundamental que
guia o fenomenólogo é a de que há muito mais implicado em cada experiência
do que meramente fatos objetivos. Nomeadamente, trata-se da maneira de ser
especial do que está sendo experienciado e da estrutura da própria experiência, que
pode ser desvelada pela fenomenologia. A técnica central usada para este
propósito {p. 425:}, também chamada de epoché (abstenção) por Husserl, implica
a “colocação entre parênteses” de nossas suposições triviais sobre a realidade.
Acima de tudo, é essencial restringir-se de acreditar que apenas aquelas coisas
que existem independentemente da mente ou do sujeito são reais – isto é, o
“mundo externo” ou o “mundo objetivo”. Nós somos solicitados a colocar em
suspenso aquilo que nós acreditamos que “deveríamos” pensar ou encontrar,
especialmente qualquer explicação que faça derivar os fenômenos de causas
subjacentes (mecanismos, substratos) que não se encontram neles próprios. Em
vez disso, o fenomenólogo analisa a maneira em que o sujeito concebe o mundo
e como a relação entre e o sujeito e o mundo deve ser descrita. Este processo da
assim chamada “redução transcendental” leva a um desvelamento das
subjacências originárias de nossa experiência. Ela traça a constituição do eu [self]
e do mundo de volta às estruturas básicas de corporeidade, espacialidade,
temporalidade e intersubjetividade.
Na sequência, eu tomo por foco o conceito fenomenológico de espaço
vivido, ainda que outras categorias, como as de temporalidade e de
intersubjetividade sejam, certamente, de igual importância para a psicopatologia
e a psicoterapia. O conceito de espaço vivido remonta à psicologia “topológica”
ou do “campo” de {p. 426:} Kurt Lewin (Lewin, 1936) e ele foi, posteriormente,
revivido pela psicologia e psicoterapia ecológica (Barker, 1968; Gibson, 1986;
Graumann, 1978; Willi, 1999). O espaço vivido pode ser considerado como a
totalidade do espaço em que a pessoa “vive” e que ela experiencia de maneira
pré-reflexiva, com as suas situações, condições, movimentos, efeitos e com o seu
horizonte de possibilidades – o significado, o ambiente e a esfera de ação do
sujeito encarnado. Este espaço não é homogêneo, mas centrado na pessoa e em
seu corpo, caracterizado por qualidades como proximidade e distância,
amplitude e estreiteza, conexão e separação, acessibilidade e inacessibilidade e
estruturado por fronteiras físicas ou simbólicas que estabelecem uma resistência
rígida ou elástica ao movimento. Isto resulta em domínios mais ou menos
distintos, tais como o território próprio de um indivíduo, propriedade, habitação,
esfera de influência, zonas de proibição ou de tabu, etc. Ademais, “forças de
campo” ou vetores, tais como a atração e a repulsão, a elasticidade e a resistência,
etc., permeiam o espaço vivido. Forças atrativas ou aversivas concorrentes levam
a conflitos típicos, que podem ser considerados como direções opostas de
possibilidade que a pessoa encara. Assim, o espaço vivido oferece diferentes
“valências”, “relevâncias”, ou “oportunizações” [affordances] – para usar o termo
de Gibson – em conformidade com os motivos e as potencialidades de uma
pessoa. Em analogia com os campos físicos, há efeitos de “gravitação” e de
“radiação”, causados, por exemplo, pela influência de um outro significativo ou
de um grupo social dominante e há “curvaturas do espaço” que impedem
movimentos ininterruptos [straight] ou espontâneos, por exemplo, em torno de
zonas de tabu para a pessoa obsessiva ou em torno de áreas de evitação para a
pessoa fóbica.
A este ponto, já ficou óbvio que o conceito de espaço vivido não deve ser
concebido como estático, mas como dinamicamente conectado ao movimento e
ao desenvolvimento, i.e., ao curso e à temporalidade da vida. Ademais, é
manifesto que o espaço vivido, na qualidade de espacialidade do Lebenswelt, é
particularmente formatado [shaped] pelas relações sociais e pelos significados
sociais. A fim de clarificar esta dimensão e de também evitar o risco do
subjetivismo – como se o sujeito, em seu espaço vivido, apenas encontrasse as
suas próprias representações e projeções –, nós tomaremos de empréstimo um
termo da ecologia biológica e caracterizaremos o espaço vivido das pessoas em
seu ambiente como o seu “nicho ecológico” (cf. Willi, 1999). Em analogia com o
nicho biológico ou habitat, ele designa a seção do ambiente físico e social que
corresponde às disposições do perceber e do agir, às motivações e intenções da
pessoa. O nicho pessoal compreende, assim, todos os objetos viventes ou não-
viventes com os quais uma pessoa está em troca ativa e pelos quais é influenciada
– a família, os vizinhos, os colegas, a habitação, o local de trabalho, os produtos
do trabalho, etc. (fig. 1). O círculo contínuo de retroalimentação [feedback] das
ações de uma pessoa {p. 427:} e das respostas de um ambiente pode ser cunhadas
como a “atividade responsiva” [responded action] (cf. Willi, 1999) de uma pessoa.
Supõe-se que a pessoa busca e molda [shapes] um ambiente que responde às suas
ações e oferece as valências para as suas potencialidades. A capacidade de uma
pessoa responder adequadamente aos estímulos e às requisições de seu
ambiente, especialmente às demandas de outrem, pode ser chamadas de sua
“responsividade”.

Figura 1
PESSOA, ESPAÇO VIVIDO E AMBIENTE
p/o = pessoas ou objetos no espaço vivido

As respostas mais intensas e estimulantes surgem nos relacionamentos


familiares e com parceiros. Geralmente, o indivíduo tenta estabelecer uma
responsividade mútua ou uma “co-respondência” com os seus parceiros (Willi,
1999). Através desta escolha de um determinado ambiente ou nicho, as pessoas
também se tornam os produtores indiretos de seus próprios desenvolvimentos
(Lerner, 1981). Os seres humanos influenciam os cursos de suas vidas e dirigem
os seus desenvolvimentos moldando [shaping] e agindo sobre os seus ambientes,
que, em troca, reagem a eles. O curso de vida desenvolve-se como um processo
circular, guiado pela própria atividade de um indivíduo e pelas respostas do
ambiente.
Resumindo, o conceito de espaço vivido e de nicho pessoal expressam a
ideia de que o sujeito e o mundo não existem de maneira separada, mas
constituem-se mutuamente. Daí implica-se uma “topologia existencial”, i.e., uma
matriz pessoa de significados e relações, que cria o espaço-tempo existencial com
as suas curvaturas, gradientes, barreiras, etc. Conforme este conceito, a
subjetividade está espraiada no espaço e na “existência”: a questão “Quem sou
eu? ” é inseparável da questão “Como é o mundo em que eu {p. 428:} vivo?”. Este
mundo é de uma natureza essencialmente social: responsividade e
correspondência moldam a estrutura interpessoal do espaço vivido. Certamente,
o espaço habitado por um indivíduo neste sentido é invisível a outrem. Nós não
vemos a vizinhança ou a distância que as coisas ou pessoas possuem para ele,
nem percebemos os espaços livres ou as perspectivas que o atraem, as barreiras
que o aterrorizam, ou as forças psicológicas que determinam os seus caminhos
como linhas de campo magnéticas. Não obstante, a fim de compreender uma
outra pessoa, nós temos de chegar a conhecer suas circunjacências familiares, a
sua esfera de influência e as suas várias relações com o seu ambiente. Desta
maneira, o principal objetivo da psicoterapia fenomenológica é “penetrar e
compartilhar do mundo do outro” (Margulies, 1984).

2. PSICOPATOLOGIA COMO CONSTRIÇÃO DO ESPAÇO VIVIDO

Com base nisto, a psicoterapia pode ser considerada como um estreitamento


ou uma deformação do espaço vivido de um indivíduo, como uma constrição de seu
horizonte de possibilidades, incluindo aquelas que se referem à percepção, à
ação, à imaginação, à experiência emocional e interpessoal. Os transtornos
psiquiátricos de vários tipos frequentemente são o resultado de uma ruptura no
círculo da atividade responsiva, seja pela separação de outros significativos, por
uma perda de tarefas ocupacionais, ou, em geral, por um desencaixe [mismatch]
das potencialidades de um indivíduo e das valências do ambiente. Uma vez
manifestos, estes transtornos, por sua vez, inibem a atividade responsiva do
paciente, aumentam o seu egocentrismo e reduzem a sua responsividade para
com outrem. O nicho ecológico torna-se contraído, fragmentado, ou,
diferentemente, inadequado [unfitting].
Assim, para dar um exemplo, as personalidades de tipo melancólico, i.e.,
pessoas propensas a desenvolver depressão severa, demonstram ser mais
restritas em seu espaço vivido. Eles são superidentificados com as fronteiras
espaciais de suas casas, com os seus papeis sociais, com as suas responsabilidades
no trabalho e com as suas relações privadas (Tellenbach, 1980; Kraus, 1987;
Kronmueller, et al., 2002). Eles vivem sob uma constante pressão de
normalização, por assim dizer. Um desvio acentuado destas rígidas demandas e
constrições pode resultar em enfermidade depressiva. Assim, o seu horizonte de
possibilidades encontra-se limitado antes mesmo de sua primeira enfermidade.
Na própria depressão, a restrição do corpo vivido (inibição, ansiedade, perda da
apetência) e a perda da ressonância emocional levam a uma perturbação severa
da responsividade do paciente e à troca com o ambiente (Fuchs, 2001, 2005).
Tomemos outro exemplo, ainda que contrário: pacientes com o transtorno
de personalidade borderline encontram-se severamente restritos em sua
capacidade de estabelecer vínculos e desempenhar identidades estáveis e
fidedignos. Eles não são capazes de construir um nicho ecológico contínuo de
atividade responsiva. Em vez disso, o seu {p. 429} espaço vivido é entrecruzado
por intensos impulsos emocionais, i.e., por vetores atrativos e vetores ainda mais
repulsivos, em razão dos quais eles são constantemente lançados de lá para cá
(Fuchs, 2007). Isto leva a uma instabilidade e a uma fragmentação do espaço
vivido, com numerosas interrupções de relacionamentos, projetos e carreiras. Os
pacientes borderlines são, por assim dizer, sacudidos em seu espaço vivido,
incapazes de encontrar uma base de apoio e um centro confiável para a sua
existência. De maneira similar, outras condições psicopatológicas podem ser
consideradas como perturbações do espaço vivido (Fuchs, 2000).

Fenomenologia do inconsciente
Com base no conceito de espaço vivido, nós também podemos alcançar
uma compreensão fenomenológica do inconsciente, que é de especial
importância para a psicoterapia. As dificuldades inerentes às teorias
psicodinâmicas tradicionais “de porão” [cellar] do inconsciente são bem
conhecidas; elas o descrevem como um nível abaixo do solo onde todos os tipos de
entidades sinistras são estocados. Tal conceito é baseado em um modelo
cartesiano da mente como um tipo de recipiente interno que conteria distintas
ideias, memórias e representações da realidade externa que foi introjetada,
internalizada como “representações” ou “imagens” de objeto, i.e., como
entidades imutáveis, reificadas, que povoam os domínios claros ou obscuros da
psique. Estes domínios são reificados também, recebendo nomes como
consciência, inconsciente, superego, e assim por diante.
Tudo isto foi veementemente criticado por fenomenólogos (e.g.,
Binswanger, 1963; May, 1964; Ricoeur, 1969; Hersch, 2003). Contudo, na
qualidade de ciência primária da consciência, a fenomenologia teve problemas
em desenvolver uma teoria alternativa do inconsciente. Em todo caso, este último
não pode ser concebido como um lugar ou um cômodo que contenha entidades
mentais atomísticas, reificadas. Não as coisas, os objetos fixos ou as memórias
devem ser vistas como inconscientes, mas, antes, as potencialidades, as
disposições ou as tendências da vida da pessoa. Assim, a abordagem
fenomenológica procurará o inconsciente nas maneiras implícitas nas quais o
paciente está se comportando e vivendo e nas maneiras em que ele não está
vivendo e se comportando. Aqui, a fenomenologia converge com a mais recente
pesquisa sobre a memória que enfatiza o aprendizado implícito ou processual como
subjazendo as nossas maneiras habituais de comportar-se, agir e mesmo de evitar
possíveis ações, sem uma tomada de consciência [awareness] explícita, ou apenas
com uma consciência marginal (Schacter, 1999; Fuchs, 2004).
Merleau-Ponty, com um objetivo similar, já analisou os efeitos colaterais
inconscientes do trauma psicológico. De acordo com ele, o reprimido assemelha-
se ao membro fantasma em pacientes que sofreram uma amputação na medida
em que ele constitui um “espaço vazio” na subjetividade (1962, p. 86) {p. 430:}. O
inconsciente reprimido pode ser considerado como uma fotografia negativa de
uma experiência passada com a qual o sujeito não é capaz de lidar – um negativo
que recobre cada nova situação sem aviso prévio, assim fixando o indivíduo
traumatizado em seu passado ainda presente.

Certamente, esta fixação não se funde com a memória; ela até mesmo exclui a
memória na medida em que esta última se espalha diante de nós, como uma
fotografia, uma experiência anterior, enquanto que este passado que permanece
o nosso verdadeira presente não nos abandona, mas permanece constantemente
escondido por detrás de nosso olhar em vez de ser mostrado diante dele. A
experiência traumática não sobrevive como uma representação no modo da
consciência objetiva e como um momento “datado”; é de sua essência sobreviver
apenas como uma maneira de ser e com um certo grau de generalidade. (Merleau-Ponty,
1962, p. 83; itálico pelo autor, T. F.).

A memória implícita ou corporal inclui todo o “por trás de nosso olhar”


escondido, apenas vivente em uma maneira geral ou “estilo” de existência, não
relevando a sua própria como uma memória explícita; isto também se aplica a
determinadas experiências traumáticas. Assim, as fixações inconscientes
assemelham-se a distorções ou restrições em um espaço de possibilidades; elas
são causadas por um passado que continua a estar implicitamente presente e
recusa-se a dar lugar ao progresso da vida. Os traços do passado, contudo, não
estão escondidos em algum mundo interno da psique. Eles se manifestam em
“pontos cegos”, lacunas, ou curvaturas do espaço vivido, em padrões de
comportamento que aprisionam a pessoa, de novo e de novo, nas ações que o
indivíduo se recusa a tomar, na vida que ele não ousa viver, etc.4 Assim como a
relação figura-fundo da Psicologia da Gestalt, tais traços tornam-se noticiáveis
como um negativo, i.e., como as inibições ou as omissões típicas para uma pessoa.
Por outro lado, estes traços podem ser atualizados simbolicamente ou
corporalmente, na forma de sintomas somáticos. No lugar de uma visão
determinista sobre o inconsciente, contudo, a visão fenomenológica enfatizará o
seu caráter potencial, dirigido ao futuro. O inconsciente, no sentido
psicodinâmico, são “as potencialidades para a ação e a consciência [awareness]
que a pessoa não pode ou não quererá atualizar” (May, 1964, p. 182):

Este inconsciente deve ser buscado não no fundo de nós mesmos, por detrás das
costas de nossa “consciência”, mas em frente de nós, como articulações de nosso
campo. Ele é “inconsciente” não sendo objeto, mas sendo aquilo através de que os
objetos são possíveis; é a constelação a partir da qual o nosso futuro pode ser lido.
5(Merleau-Ponty, 1964, p. 234).

Seguindo esta linha, eu darei uma pequena correção fenomenológica de


dois conceitos psicodinâmicos centrais, aquele de defesa ou resistência e aquele de
compulsão à repetição.

Defesa e repetição à compulsão


(1) O efeito do trauma emocionai sobre o indivíduo pode ser
considerado como uma deformação específica de seu espaço vivido, que se torna
manifesto em uma perspectiva de evitação em direção a determinadas regiões
ameaçadoras ou a espaços repulsivos (fig. 2). A melhor analogia é a “postura
atenuante” adotada automaticamente quando um membro foi machucado:
instintivamente um indivíduo evita expô-lo a objetos ameaçadores e o segura
(“uma criança queimada teme o fogo”). O fato de que isto acontece de maneira
inconsciente não se deve a uma repressão da injúria, mas, simplesmente, a um
processo de aprendizagem corporal que ocorre sem consciência [awareness]
explícita. Similarmente, o trauma psicológico causa zonas de evitação e, assim,
inibe o desenvolvimento livre das potencialidades do indivíduo. O espaço vivido

4 Sartre mostrou, usando o termo “má fé” (“mauvaise foi”), que há um componente essencial de
autoengano inerente a esta distorção (Sartre, 1943, p. 86). O sujeito adota uma perspectiva
insincera e ambígua com relação a si mesmo, deslizando em uma “inatenção voluntária” [willful
nonattention]. Uma pessoa não sabe algo e não quer sabê-lo. Uma pessoa não vê algo e não quer
olhar para ele, quer dizer, ela olha para o lado com e sem intenção. Sobre isto, cf. Holzhey-Kunz
(2002, p. 173ff.) e Bühler (2004).
5 “Cet inconsciente à chercher, non pas au fond de nous, derrière le dos de notre ‘conscience’,

mais devant nous, comme articulations de notre champ. Il est ‘inconscient’ par ce qu’il n’est pas
objet, mais il est ce par quo ides objets sont possibles, c’est la constellation où se lit notre avenir”
(Merleau-ponty, 1964, p. 234).
é curvado negativamente em torno destas áreas e elas vêm a ser lacunas ou
“pontos cegos”. Aqui, a intencionalidade do inconsciente se torna óbvia: um
contato iminente com uma zona perigosa é antecipada e prevenida {p. 432} sem
atenção consciente [conscious awareness] porque é mais econômico não reativar o
estresse e a ansiedade da experiência traumática de novo e de novo. A resistência
ou defesa da teoria psicodinâmica é, frequentemente, nada mais do que esta
postura atenuante ou de evitação, que se manifesta no contexto da psicoterapia.

Figura 2
“ESPAÇOS REPULSIVOS” DO INCONSCIENTE

(2) O padrão oposto pode ser encontrado no conceito psicodinâmico


de “repetição à competição”: aqui, o indivíduo é aprisionado, de novo e de novo,
nos mesmos padrões disfuncionais de comportamento e de relacionamentos,
ainda que ele tente evitar isto de todas as formas. O espaço vivido é curvado
positivamente em torno de tais áreas e elas se tornam “espaços atrativos” (fig. 3).
Se, por exemplo, as experiências da vida pregressa de uma mulher forem
dominadas por relacionamentos abusivos e violentos, o seu escopo de possíveis
relacionamentos será bastante limitado. Os modos de abuso irão varia, mas o
tema influenciará a sua maneira de arranjar os seus relacionamentos em exclusão
de outros. Os seus comportamentos implícitos terão o efeito de
autopreenchimento de suas expectativas e ela irá encontrar continuamente o
mesmo tipo de situações. Assim, o inconsciente não é um âmbito escondido de
sua psique, mas está enredado em sua maneira de viver, mesmo em seu
comportamento corporal.

Figura 3
“ESPAÇOS ATRATIVOS” DO INCONSCIENTE
Nós podemos abordar outros conceitos psicodinâmicos de maneira
semelhante, mas estes exemplos serão suficientes. De um ponto de vista
fenomenológico, como nós vimos, o inconsciente não é uma realidade
intrapsíquica, localizada em alguma profundida “abaixo da consciência”, mas ele
rodeia e permeia a vida consciente de maneira similar a um quebra-cabeças
pictográfico no qual a figura oculta [blinded out] permeia o primeiro plano. Trata-
se de um inconsciente que {p. 433} não está escondido na dimensão vertical da
psique, mas, antes, na dimensão horizontal do espaço vivido e na
“intercorporalidade” de nosso contato social com outrem6. Isto nos leva adiante
à fenomenologia da interação terapêutica.

3. O CAMPO INTERATIVO COMO O AGENTE DA MUDANÇA

Como nós vimos, a fenomenologia considera a “enfermidade mental” não


como algo mental ou interior, mas como uma alteração no ser no mundo do
paciente; em particular, ela é vista como uma restrição de seu horizonte de
possibilidades. A meta do tratamento seria, então, expandir o horizonte do
paciente e aumentar os seus graus de liberdade. De uma perspectiva
fenomenológica, o principal agente para este propósito é o campo interativo
aberto pelo encontro entre paciente e terapeuta.
De acordo com modelos mais antigos da ação psicoterapêutica, a mudança
é produzida no paciente sozinho, através da reestruturação de seu mundo interno,
como um resultado de intervenções cognitivas ou interpretativas feitas pelo
terapeuta que levam à autocompreensão [insight] e, por consequência, a respostas
mais apropriadas do paciente às suas situações de vida atuais. Mas, a
psicoterapia é um processo interpessoal baseado em interações circulares que não
podem ser apreendidas de uma perspectiva individual. Ela implica uma criação

6 “[...] a latência da psicanálise é um inconsciente que está abaixo da vida consciente e dentro do
indivíduo, uma realidade intrapsíquica que leva a uma psicologia das profundezas em uma
dimensão vertical. [...] a latência da fenomenologia é um inconsciente que rodeia a vida consciente,
um inconsciente no mundo, entre nós, um tema ontológico que leva a uma psicologia da
profundeza na dimensão lateral” (Romanyshyn, 1977). — Sobre o inconsciente na análise
existencial, ver também Bühler (2004); sobre a “intercorporalidade”, ver Merleau-Ponty (1967, p.
213).
mútua de significado que não é um “estado na cabeça”, mas surge do “entre”, ou
do sistema, paciente e terapeuta. Sobre a base do conceito de espaço vivido e
fazendo uso do termo crucial da filosofia hermenêutica de Gadamer, nós
podemos considerar o processo interativo como uma “fusão de horizontes” do
paciente e do terapeuta (Gadamer, 1995; cf. fig. 4). Os seus mundos fenomênicos
pré-existentes interagem, ou mesmo se fundem parcialmente, o que resulta em
um novo mundo, emergente e diádico, que é nutrido pelo “nicho terapêutico” e
cria um novo horizonte de possibilidades. Ao mesmo tempo, os pontos cegos ou
lacunas no espaço vivido do paciente se tornam visíveis através da iluminação
do campo interativo. Este novo e mais amplo espaço pode atenuar ou mesmo
sobrepujar a constrição de seu horizonte. A intercorporalidade, na qualidade de
esfera da interação não-verbal, corporal e atmosférica, desempenha, aqui, um
papel importante. Ainda que permanecendo no plano de fundo, ela é um
importante veículo da relação terapêutica. {p. 434:}

Figura 4
“FUSÃO DE HORIZONTES” NA PSICOTERAPIA

Contudo, o conceito tradicional de transferência e de contratransferência


não apreende esta qualidade interativa, diádica, da relação terapêutica. O
conceito ainda estava seriamente prejudicado pela cisão sujeito-objeto. Os
sentimentos são concebidos como acontecendo dentro do paciente de uma
maneira bastante atomística e mecânica (Hersch, 2003, p. 228). Eles pareciam ser
entidades isoladas, dotadas de determinada quantidade de energia, capazes de
serem armazenados, movidos de um lado para o outro, desconectados de seu
objeto e projetados em outra pessoa. Assim, a transferência foi concebida como
um anacronismo: “Impulsos, sentimentos e defesas que pertencem à pessoa no
passado foram deslocados a uma pessoa no presente” (Greenson, 1967, p. 152). O
que o paciente vê no terapeuta era visto apenas como uma imagem distorcida
derivada do passado. Ademais, a transferência e a contratransferência não
parecem formar algo novo. Ainda que sejam projetados sobre o respectivo outro,
eles não o alcançam realmente, mas permanecem dentro da pessoa que os
experiencia. Esta reificação e materialização dos sentimentos não se adéqua à
natureza interativa e emergente dos fenômenos. Um terapeuta que, desta forma,
considera-se apenas como uma tela de projeção estaria em perigo de não
apreender a dimensão de encontro genuíno em que ele se encontra enquanto uma
pessoa real, encarnada.
Um olhar sobre a psicologia do desenvolvimento pode ser de ajuda aqui.
A pesquisa sobre a relação entre a mãe e a criança mostra que não são imagens
isoladas ou “objetos” que são armazenados na memória, mas, antes, experiências
interativas, esquemas de interação diádica, que são aprendidos e adquiridos de
modo sensorial, motor e {p. 435:} emocional (Beebe, et al., 1997; Stern, 1998a).
Desde a primeira infância em diante, estes esquemas se tornam parte da memória
processual ou implícita e criam o que Lyons-Ruth (1998) chamou de
“conhecimento relacional implícito”. Ele compreende padrões armazenados de
interação corporal e emocional que são ativados pré-reflexivamente por pistas
situacionais sutis (e.g., expressões faciais, gestos, tons de voz, atmosferas). Este
conhecimento é uma memória temporalmente organizada, “musical”, quanto aos
ritmos, dinâmicas e meios-tons que estão presentes na interação com outros.
Assim, os esquemas de estar com (Stern, 1998) processuais ou estilos relacionais
implícitos são adquiridos de forma a organiza o comportamento interpessoal da
criança e irão, mais tarde, ser transferidos a outros ambientes. Eles moldam as
estruturas básicas do espaço relacional de uma pessoa e, então, são de especial
importância para o processo terapêutico.
Nós podemos concluir destes resultados que não é o passado explícito, que
está no foco do processo terapêutico, mas, antes, o passado implícito, que
organiza e estrutura de maneira inconsciente o campo processual de relacionar-se
com outrem do paciente. Com certeza, trata-se de um inconsciente
fenomenológico, i.e., uma estrutura pré-reflexiva, não-temática, básica da
experiência, com a qual estamos lidando, ainda diferente do inconsciente
dinâmico da repressão de Freud. Contudo, os padrões relacionais implícitos
tornaram-se, de modo crescente, importantes para a teoria psicanalítica,
estimulando novos modelos da mudança terapêutica sobre a base de um processo
momento-a-momento (Stern, 2004). É o campo interativo presente da psicoterapia
através do qual padrões relacionais se tornam visíveis, como limalhas de ferro
em um campo magnético. A alteração de padrões implícitos pressupõe a sua
ativação enquanto “inações” [enactments] no processo terapêutico. Apenas então
podem ser substituídos por experiências corretivas, em momentos especiais de
correspondência empática entre paciente e terapeuta ([momentos de encontro]
[moments of meenting], PCSG, 1998).
Aqui, a perspectiva fenomenológica pode ser particularmente útil. A
experiência emocional corretiva da psicoterapia é uma função da extensão pela
qual o terapeuta pode “colocar o seu mundo e a sua teoria entre parênteses”
quando encontra o paciente. A epoche de Husserl, i.e., a suspensão do juízo e a
abstenção de ideias preconcebidas, pode ajudar a liberar o espaço para um
encontro autêntico entre paciente e terapeuta sem a interferência de
metapsicologias complexas de várias escolas terapêuticas (Margulies, 1984;
Varghese, 1988). Terapeutas fenomenologicamente orientados evitam vincular
qualquer ideia presumida à experiência do paciente. Eles tentarão compreender,
tanto quanto possível, “o que é ser como o paciente”, caminhar nas pegadas
experienciais do paciente, recriar a sua visão de mundo em suas próprias
experiências e transmitir esta {p. 436:} experiência ao paciente de maneiras
verbais e não-verbais. Este espelhamento mútuo pode ajudar o paciente a
aprofundar a sua autoexperiência e a sua autocompreensão como um ponto de
partida para a mudança terapêutica.
Certamente, a compreensão empática do paciente não é tudo que é
necessário aqui. Para evitar as armadilhas dos padrões relacionais do paciente, o
terapeuta deve estar bem cônscio do processo interpessoal que é está
acontecendo e do qual ele é parte. De outro modo, ele irá tropeçar justamente nos
“espaços atrativos” do paciente ou, por outro lado, irá tomar parte, de maneira
involuntária, em suas evitações (Merten & Krause, 2003; cf. fig. 5). Se um
paciente, por exemplo, tende a deixar decisões para outrem a fim de evitar a
responsabilidade, certamente seria errado tornar-se aprisionado em seu espaço
atrativo e dizer a ele o que fazer. Se um paciente evita uma experiência
vergonhosa ou uma visão vergonhosa de si mesmo, não seria de muita ajuda
compartilhar, involuntariamente, a sua ansiedade e cuidadosamente contornar
esta zona delicada. Antes, o terapeuta desenvolveria um senso intuitivo das
“zonas curvas” no campo relacional, a fim de torná-las visíveis e de neutralizá-
las na medida do possível por experiências corretivas no espaço seguro da
terapia. Por meio disto, o espaço vivido do paciente pode ser clarificado e
expandido.

CONCLUSÃO

Para concluir, as considerações sobre o psicoterapeuta do espaço vivido


esboçadas acima serão sumarizadas em quatro pontos principais: {p. 437:}
(1) A fenomenologia é a ciência da subjetividade, no sentido em que todo
sujeito é um mundo. As experiências subjetivas não são encontradas dentro
da psique, muito menos no cérebro, mas se estendem sobre o corpo e o
espaço vividos da pessoa. O espaço vivido pode, também, ser considerado
como o nicho ecológico da pessoa que é continuamente moldado por sua
troca com o ambiente, isto é, por sua responsividade e atividade
responsiva. Esta troca também é crucial para o seu desenvolvimento
pessoal.
(2) A enfermidade mental não é, também, um estado na cabeça. Antes, ela
pode ser concebida como uma limitação ou deformação no espaço vivido
do paciente ou como uma inibição em sua responsividade e em sua troca
com o ambiente. Os padrões disfuncionais inconscientes de sentimento e
de comportamento agem como “pontos cegos” ou “curvaturas” no espaço
vivido que levam a distorções típicas, assim inibindo as potencialidades e
o desenvolvimento do paciente.
(3) A tarefa da psicoterapia é explorar e compreender o espaço vivido do
paciente a fim de reabrir o seu horizonte de possibilidades. O principal
agente para este propósito é o campo interativo, que pode ser considerado
como uma “fusão de horizontes” dos mundos do paciente e do terapeuta.
Ele fornece um novo espaço experiencial, diádico, que é capaz de iluminar
os pontos cegos ou as curvaturas no espaço vivido do paciente. Então, de
um ponto de vista fenomenológico, o processo de psicoterapia é mais
experiencial do que cognitivo, do que orientado por autocompreensões
[insight] ou por uma “arqueologia”. As maneiras habituais ou implícitas
de os pacientes relacionarem-se com outrem são “ressurgidos” [reenacted]
no “aqui e agora” da relação terapêutica.
(4) A fenomenologia pode servir como um enquadramento para
conceptualizar estes processos em termos de encarnação [embodiment],
espacialidade, temporalidade e intersubjetividade. Ela oferece uma
linguagem para as variedades de experiências subjetivas, que não é
importada de qualquer paradigma teórico, mas é principalmente derivada
da hermenêutica. Então, não há “psicoterapia fenomenológica”, que
poderia ser vista como ainda outra escola terapêutica. A fenomenologia
oferece, antes, as fundações para uma atitude experiencial e sem prejuízos
que qualquer terapeuta deveria buscar desenvolver.

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