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Algumas reflexões sobre a introdução de

“Como escrever a História do Novo


Mundo”, de Jorge Cañizares-Esguerra

Em Como escrever a História do Novo Mundo, o autor equatoriano e professor na


Universidade de Austin (Texas) Jorge Cañizares-Esguerra propõe-se contar uma história
da historiografia do Novo Mundo, centrando-se nas visões que se desenvolveram em
ambos os lados do Atlântico no século XVIII. A introdução de dito livro foi o ponto de
partida das discussões do primeiro encontro de 2014 do grupo de estudos Cinema da
América Latina e vanguardas artísticas, realizado em 30 de janeiro.

Cañizares-Esguerra começa comentando como os historiadores, ao invés de separar


fontes “primárias” de “secundárias” (sendo que estas são construídas como reflexões,
sendo já uma representação historiográfica), preocupam-se em distingui-las entre
documentos publicados e de arquivo: “Para os historiadores, as fontes publicadas são
narrativas conscientes de indivíduos e comunidades e, portanto, formais documentais de
falácia ou de engenhosa manipulação retórica. Os documentos de arquivo, por sua vez,
pegam os atores históricos desprevenidos. Os historiadores tratam os relatos publicados
e de arquivo como ‘testemunhos inconscientes’, vendo neles evidências que eles não
pretendiam originalmente produzir” (17). Tais sensibilidades historiográficas modernas
(e pós-modernas) surgem, segundo o autor, no século XVIII.

Nesse período, quando novas técnicas críticas para criar e validar o conhecimento foram
se desenvolvendo na Europa, a autoridade e a confiabilidade das fontes que
tradicionalmente se usavam começaram a ser questionadas: rechaçavam-se os
testemunhos imediatos do corpo, para concentrar-se em dados quantitativos, recolhidos
e analisados por especialistas. Assim, as histórias do Novo Mundo que eram contadas
desde o século XVI por meio de testemunhas oculares (viajantes, soldados,
missionários, por exemplo) foram censuradas como pouco críveis. Da mesma maneira,
os escritos indígenas (códices, quipos etc.), largamente usados até então, foram
colocados em dúvida devido ao fato de constituírem-se em cronologias alternativas, que
se localizam em baixos e duvidosos rangos das escalas evolucionárias.

Essa forma de “investigar” a história do Novo Mundo gerou retratos negativos da


natureza e dos povos americanos, captando-os como profundamente atrasados com
relação à civilização europeia – tanto nas histórias propostas pelos europeus do norte e
anglo-saxões (que consideravam tanto Espanha como América como retrógradas) como
pelos ibéricos desejosos modernidade, passando pelos crioulos hispano-americanos, os
quais também se propuseram a contar suas histórias (ainda que no mesmo tom elitista e
racista dos estrangeiros, avaliando as fontes de acordo com o padrão social das
testemunhas). Entre eles, destaca-se o inca Garcilaso de la Vega [1], que mostrava a
sociedade inca como semelhante à da Roma antiga, mantendo essa mentalidade e
modelo europeus.

Nesse sentido, lembramo-nos das considerações de Doreen Massey em seu livro Pelo
espaço, no qual a autora concebe o espaço como uma imbricação de trajetórias, sempre
aberto ao inesperado, ao acaso, e que, enquanto locus da existência contemporânea, é
marcado pela multiplicidade, pelo encontro com o “outro” – colocando-nos, assim,
permanentemente frente ao desafio do novo. Massey enfrenta aquela subentendida
concepção de espaço como uma grande extensão através da qual viajamos; como a terra
que se estende ao nosso redor, o que faz com que o espaço pareça uma superfície,
contínuo e tido como algo dado. Para ela, essa maneira de entender o espaço pode,
facilmente, nos levar a pensar outros povos, lugares e culturas simplesmente como um
fenômeno “sobre” uma superfície – fazendo com que os mesmos fiquem desprovidos de
história. Ela cita, como exemplo, a chegada dos espanhóis ao México: ao invés de ser
um encontro de trajetórias, esse evento é visto como se os mexicanos estivessem
imobilizados, esperando o desembarque do “descobridor”, o único agente ativo, quem
atravessa o oceano para se deparar com aquele que está, simplesmente, lá. Assim, as
diferenças encontradas entre eles são tomadas como atraso, expressando espaço em
tempo; transformando geografia em história.

Não devemos imaginá-los como tendo suas próprias trajetórias, suas próprias histórias
específicas e o potencial para seus próprios, talvez diferentes, futuros. Não são
reconhecidos como outros coetâneos. Estão, meramente, em um estágio anterior, na
única narrativa que é possível fazer. Esta cosmologia de ‘única narrativa’ oblitera as
multiplicidades, as heterogeneidades contemporâneas do espaço. Reduz coexistências
simultâneas a um lugar na fila da história (Massey, 2009: 24).

Cañizares-Esguerra trilha esse caminho questionando-se a partir de quais fontes e


autoridades deve-se escrever a história das Américas, mas também como elas devem ser
tratadas, pensando no discurso que vai prevalecer, na historicização das mesmas: a fonte
como um recorte, como algo que é construído.

Nesse sentido, de que maneira o cinema pode se constituir como uma fonte para pensar
a história da América Latina? O cinema é constantemente excluído pelos historiadores,
não apenas como uma fonte, mas, especialmente, como um objeto. Não se leva em
conta o poder da imagem para a construção de novas histórias.

Pensamos, por exemplo, em como os cinemas latino-americanos são pensados dentro de


uma escala de evolução em direção aos modelos europeu e hollywoodiano. E, também,
na ideia de Lúcia Nagib da abolição da ideia de world cinema, que opõe todos os
cinemas nacionais a Hollywood, impedindo que se destaquem as particularidades de
todas as outras produções do mundo (e reproduzindo a situação colonial que vê o
mundo com um centro controlador dominando toda a periferia). O progresso, a
modernização, o avanço (voltando a Santo Agostinho) não precisam ser fundamentos
inquestionáveis a serem seguidos: é possível (e necessário) criar novos fundamentos.

É fundamental a seguinte observação de Cañizares-Esguerra ao final da introdução:

Dou como certo que todos os tipos de vozes submersas habitam o corpo e as margens
dos textos, podendo ainda ser recuperados por meio das técnicas de análise retórica
fundadas por críticos literários pós-modernos. Também dou como certo que a ênfase da
historiografia tradicional nas identidades como opostos binários (ou seja,
colonizados/colonizadores, ameríndios/europeus) deixa escapar muitas das interações de
fato (“hibridismos”) que caracterizam as situações coloniais. (…) acredito que as
colônias e metrópoles não podem ser estudadas isoladamente e que suas trajetórias
históricas são informadas por suas interações mútuas (25).

O autor destaca a perspectiva transatlântica de seu estudo, e assume a exclusão da


historiografia produzida nas colônias britânicas americanas. Porém, Cañizares-Esguerra
ignora completamente a presença de Brasil e Portugal em sua história do Novo Mundo –
sem se preocupar, ao menos, em assumir tal exclusão, como fizera com o material de
língua inglesa –, cometendo o mesmo erro que ele tenta sanar.

Livros citados durante a discussão:

CAÑIZARES-ESGUERRA, Jorge. “Introdução”, in Como contar a História do Novo


Mundo: Histórias, epistemologias e identidades no mundo Atlântico do século XVIII.
São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2011. Disponível aqui.

MASSEY, Doreen. Pelo espaço: uma nova política da espacialidade. Rio de Janeiro:
Bertrand Brasil, 2009.

[1] Refletimos sobre a possibilidade de paralelo entre o gesto de Garcilazo de la Vega e


o gesto de Santo Agostinho no século V: ambos buscam o caminhar das sociedades para
o cristianismo, o monoteísmo e o avanço. Por outro lado, também pensamos que a
comparação com o império greco-romano efetuada por Garcilazo de la Vega pode ser
uma assimilação de estratégias de retórica da intelectualidade europeia como uma
maneira de alcançar esse público (chegamos a considerar o autor inca um
antropofágico).

In: https://cinemalatinoamericano.wordpress.com/2014/02/09/algumas-reflexoes-sobre-a-
introducao-de-como-escrever-a-historia-do-novo-mundo-de-jorge-canizares-esguerra/