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EQUIPE

EDITOR CHEFE SUPORTE


Arno Alcântara Pâmela Arumaa
Alessandra Figueiredo Pelegati
REDAÇÃO E CONCEPÇÃO Márcia Corrêa de Oliveira
Marcela Saint Martin Rayana Mayolino
Marra Signorelli Douglas Pelegati
Raul Martins
FINANCEIRO
REVISÃO William Rossatto
Cristina Alcântara Joline Pupim
Douglas Pelegati
DIREÇÃO DE CRIAÇÃO
Matheus Bazzo COORDENAÇÃO DE PROJETOS
Arno Alcântara
DESIGN E DIAGRAMAÇÃO Italo Marsili
Jonatas Olimpio Matheus Bazzo
Vicente Pessôa
O CARA QUE NUNCA DORME
TRANSCRITORES Douglas Pelegati
Edilson Gomes da Silva Jr
Rafael Muzzulon
Raíssa Prioste
Tiago Gadotti

Material exclusivo para assinantes do Guerrilha Way.

Transcrição das lives realizadas no Instagram do Dr. Italo Marsili


dos dias 01/07/2019 a 05/07/2019

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COMO É A SEMANA GW
1. Assista, de preferência ao vivo, às lives diárias
pelo YT ou Instagram, às 21h30.
Canal do YT: Italo Marsili.
Instagram: italomarsili

2. Na segunda-feira, você recebe no portal GW o


material referente às lives da semana anterior.

3. Leia o seu Caderno de Ativação. A leitura do


CA não leva mais do que 15 minutos.

4. Confira no LIVES a visão geral da semana e os


resumos. Separe uns 20 minutos para isso. As
transcrições na íntegra também estarão lá.

ENTENDA O SEU MATERIAL


1. O Caderno de Ativação o ajudará a incorporar
conteúdos importantes. É um material para FAZER.

2. No LIVES estão as transcrições, os


resumos e a visão geral das lives da semana.
É um material para se TER.

3. Se quiser imprimir, utilize a versão PB,


mais econômica.

4. Imprima e pendure o seu PENDURE ISTO.

3
A SEMANA NUMA TACADA SÓ _______________ 5

O PONTO CENTRAL _______________________ 6

CULPA E CRISE EXISTENCIAL _______________ 11

MEDO DE ENVELHECER! _________________ 21

O INSIGHT DA ETERNIDADE _______________ 31

4
A SEMANA NUMA
TACADA SÓ

LIVE #74 | 01/07/2019


CULPA E CRISE EXISTENCIAL
Evitar as perguntas “Quem sou eu?” e “O que será de
mim?” não é viver uma vida sem crise; é viver uma
vida morta.

LIVE #75 | 02/07/2019


MEDO DE ENVELHECER!
O medo de envelhecer é o medo de perder a másca-
ra enganadora da perfeição. O envelhecimento des-
trói toda a possibilidade de POSE.

LIVE ESPECIAL
O INSIGHT DA ETERNIDADE
O autoconhecimento só é possível quando percebe-
mos aquilo que em nós é imortal. Ao sermos fortes e
úteis, limpamos nossa percepção para que isso acon-
teça.

5
O PONTO CENTRAL
R E S U M O S D A S E M A N A

LIVE #74 | 01/07/2019


CULPA E CRISE EXISTENCIAL

As perguntas “Quem sou eu?” e “O que vai ser de mim?”


são uma constante para todos nós ao longo da vida. Ao
tentarmos responder uma, deixamos que a outra escape.
Esse movimento gera em nós um sentimento de culpa e
crise existencial.

É impossível fugir a essa culpa e essa crise, tampouco con-


seguiremos encontrar um meio-termo para as perguntas
que as originam. Nossa vida sempre será como um pên-
dulo que oscilará entre uma pergunta e outra. Longe de
isso ser uma tragédia, é uma coisa simplesmente maravi-
lhosa, pois é nisso que está a substância da vida humana.
Quando procuramos um meio-termo, nos tornamos mor-
nos e vivemos uma vida sem intensidade, uma vida que
já é morte.

Mais cedo ou mais tarde a vida que temos terminará. Se


evitamos olhar de frente uma dessas perguntas, a crise
será muito pior no momento da morte. Quem não vive
uma vida com intensidade, terá de se perguntar, no fim,
“quem foi que viveu minha vida?”, e essa é uma das maio-
res dores que o ser humano pode experimentar.

Ora, nossa crise testemunha que somos pessoas, não coi-


sas. Uma coisa não tem uma história, mas um fim pronto

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e acabado. Nós, ao contrário, temos uma história e nos-
so fim só ficará claro quando, no instante final de nossa
vida, conseguirmos apreender toda a nossa história de
modo simultâneo. Até lá, nossa crise não será soluciona-
da e teremos de, com alegria, conviver com ela.

LIVE #75 | 02/07/2019


MEDO DE ENVELHECER!
Muita gente tem medo de envelhecer porque jamais en-
carou um fato inevitável: não a morte, mas a decomposi-
ção física, a perda da beleza material, das capacidades
orgânicas, anímicas, e tudo o mais que pode acompanhar
o envelhecimento. Nem mesmo a nossa inteligência está
a salvo da decomposição. Apesar disso, por toda parte
(seja nas moças do Instagram, seja nos rapazes da Sele-
ção Brasileira) existe uma exaltação do vigor físico e uma
promessa, tão atraente quanto falsa, de que nunca vamos
envelhecer. Isso é uma fábrica de neuroses.

Não conseguir se confrontar com a decomposição física


inevitável, porém, é reflexo de que o sujeito não conse-
gue se confrontar com a sua realidade moral. Existe um
elemento de maldade, existem más inclinações em todos
nós, e nem mesmo os santos se viram completamente li-
vres disso, mas há muita gente que não consegue olhar
para essa maldade. Quando a pessoa tem religião, pode
começar a confundir moral religiosa com moral burgue-
sa, e o resultado é um medo terrível da morte. Quem não
consegue encontrar em si todos os males e confessá-los
para si todos dias se tornará um neurótico, com todos os
sintomas clínicos, como enxaqueca, ansiedade e insônia.

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É claro que a força da beleza é importante, que você deve
arrumar sua cara (porque ninguém merece olhar para
uma cara feia), que você deve ficar forte e saudável, mas
não leve tudo isso tão a sério, porque nada disso é seu
centro. Um dia, a velhice vem e destrói a casca de beleza
com que você tentava tapar a sua feiúra moral. Mas, se
confrontar-se com o que há de mal dentro de seu peito for
um hábito, a decrepitude física não o assustará.

Por isso, não tenha medo de declarar que, sim, você é um


bosta, um canalha, um invejoso, mas existe alguém que
te ama, existe um Deus que te ama, e você ainda pode ser
útil e amar outras pessoas. Reconhecendo isso, a velhice
e a morte não parecerão mais tão assustadoras.

LIVE ESPECIAL
O INSIGHT DA ETERNIDADE

Tanto o seu corpo quanto o seu pensamento são mutáveis


e cambiantes. Técnicas de auto-conhecimento, portanto,
que se baseiam no conhecimento de suas sensações cor-
porais ou de sua atividade mental vão deixar você frus-
trado. Seu corpo daqui a seis meses vai ser outra coisa
e mais rápida vai ser a mudança de seus pensamentos.
Essas técnicas só vão ser úteis depois do conhecimento
daquilo que em você é permanente.

Dentro do auto-conhecimento, a coisa mais fácil de co-


nhecer são os temperamentos, porque os temperamentos
são um fator mineral e que, portanto, não muda. No en-
tanto, a percepção fundamental para todo auto-conheci-
mento é a alma imortal. Ela só é perceptível através da
inteligência passiva, e isso quer dizer que não adianta

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correr atrás dessa percepção.

Existe um princípio de identidade que faz com que exista-


mos. Ele é como uma melodia constante que não depende
dos seus pensamentos, do seu corpo, de suas sensações.
Se você tem uma prática de meditação ou de oração, é
essa melodia que você deve buscar. Os exercícios ensi-
nados nas lives e no Guerrilha Way (a prática da oração
e da esmola; tudo o que é dito a respeito de ganhar força
física e estética, de servir sem reclamar) existem para que
você se livre do peso daquilo que é mutável e consiga
perceber o que é permanente, eterno e que vence a mor-
te. Tentar se conhecer antes de ser forte e responsável vai
te deixar deprimido.

O esforço que é necessário fazer agora não é o do auto-


-conheciento, mas o de ser alguém, de se livrar do que te
atrapalha, de tentar captar essa melodia constante. Sem
a presença, o auto-conhecimento não trará benefício ne-
nhum.

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Live 74 | 01/07/2019

CULPA E CRISE EXISTENCIAL

Hoje, a live é sobre culpa e crise existencial. Se formos


falar sobre culpa, teremos várias formas de abordar o
assunto. Podemos entendê-la do ponto de vista ético,
ou seja, quando você faz algo reprovável diante do
seu conjunto moral, o que te leva ao sentimento de
culpa – roubar alguém ou trair um amigo, por exem-
plo. Por que esse sentimento surge? Ele aparece em
função de você ter ido contra um conjunto de crenças
existentes dentro do seu código de conduta moral.
Por meio desse ângulo, não é muito difícil falar sobre
a culpa. Um outro modo de falar sobre esta, que não
é difícil, é o psicanalítico, isto é, você tem uma proje-
ção do que você deveria ser e, ao se frustrar, acaba se
sentindo culpado. Contudo, eu não gostaria de falar
sobre esses ângulos hoje.

Eu queria buscar aqui uma coisa, ou seja, uma sensa-


ção que nos acompanha até o final da vida – como
um incômodo no peito sob forma de culpa ou de cri-
se, o que pode aparecer de modo indistinto e nos pa-
ralisar, levando ao sofrimento e à tristeza profunda.
Vou pegar como base teórica um filósofo espanhol
maravilhoso, o Julián Marías – na minha opinião, um
tipo de mestre, em que prestei bastante atenção ao
longo da minha formação. Marías é um filósofo me-
nor, alguém que não teve muita atenção por tratar de

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uma miscelânea de temas centrais para nossa vida e
nosso espírito. Apesar disso, ele não terminou de dar
o rigor científico exigido pela Academia, ou seja, por
não ter entrado nela, acabou não tendo uma ventila-
ção de ideias na mídia. Por outro lado, ele não era um
filósofo popular, similar ao Voltaire – que era apenas
um jornalista divulgador de ideias, e não um filóso-
fo. Por não ter essas características, Marías ficou no
limbo – não tinha um rigor acadêmico nem era um
divulgador de ideias. Assim, ele não estava ali, por
exemplo, transformando as ideias do Heidegger e da
Fenomenologia de maneira acessível. Esses são os
dois tipos de filósofos/pensadores que acabam tendo
impacto social de modo mais comum/corriqueiro: os
divulgadores e os que estão inseridos na Academia.

No centro da filosofia de Julián Marías, observa-se a


questão da vida tendo semelhança com uma bifur-
cação. Vamos entender isso como um pêndulo, para
que possamos compreender o motivo pelo qual sem-
pre haverá um motivo de culpa e um de crise exis-
tencial dentro do peito. Esse filósofo diz o seguinte:
se você quer entender o que é o Homem (ou seja,
a pessoa), você sempre precisará responder a duas
perguntas. A primeira desse par é “quem sou eu?”,
como se estivesse balançando de um lado para o
outro, num movimento similar ao de um pêndulo.
A segunda pergunta que aparece nos nossos cora-
ções e nas nossas cabeças está localizada no outro
polo deste pêndulo. Ela é “o que vai ser de mim?”, ou

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seja, o que você vai se tornar, o que acontecerá na
sua vida, quais projetos você realizará etc. Ora, essas
duas perguntas aparecem sempre de modo incom-
patível, isto é, quando você está amparando existen-
cial e biograficamente para responder a uma, a outra
fica insegura e foge do seu horizonte de consciên-
cia e vice-versa. Em vida, a incapacidade de respon-
der simultaneamente a essas duas questões é o que
gera a crise existencial e um tipo de culpa. Quando
o sujeito está ali, às voltas com um projeto totalizan-
te, pensando, por exemplo, em fazer a vida (dinheiro,
profissão, carreira, sucesso) e indagando “o que você
vai ser mim?” e “qual será o meu destino?”, começa a
esquecer quem é e os fundamentos que possui. Ele
não se conhece tão bem e já não tem presente a con-
sistência daquela vida. Então, aparece nele um tipo
de insegurança que pode surgir como crise existen-
cial.

Por isso, muitas vezes a pessoa que está no meio de


uma jornada a todo vapor, acelerando a vida e to-
cando um projeto, repentinamente entra num tipo de
crise, em que não sabe onde foi pega. Como o Juli-
án Marías havia explicado, ela foi pega por não ter
se debruçado em busca da resposta para a pergunta
“quem eu sou?”, ou seja, quem é esse sujeito estável,
fixo, constante, que se conhece e tenta se determi-
nar. Ora, ao não conseguir dar essa resposta, a crise
aparece e vem um tipo de culpa. Como esta culpa fi-
losófica... da disjuntiva... dessas perguntas... aparece

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a culpa do tipo “gastei a minha vida” ou “eu não me
conheço”. O sujeito acaba se sentindo culpado por
ter desperdiçado uma parte importante da vida. Essa
sensação, além de ser verdadeira – pois, de fato, apa-
rece –, também é falsa, visto que você não perdeu sua
vida. Isso é a estrutura empírica da vida humana!
Ou seja, o que caracteriza esta estrutura é o fato de
estar espremida/esgarçada entre esses dois polos.
Nós não conseguimos, ao mesmo tempo, acessar/
responder a essas duas perguntas nesta vida, nesta
estrutura empírica.

É algo similar àquela antiga experiência acerca do


comportamento das corujas in natura, que é muito di-
fícil. Se você as ilumina, elas ficam paralisadas e com
os olhos abertos. Ao tirar a luz, elas passam a se me-
xer – mas você não as vê fazendo isso. Então, como
investigo o comportamento noturno de uma coruja?
Se eu a ilumino, ela deixa de se comportar (ela teve
um comportamento artificial); se eu tiro a luz dela, a
coruja passa a se comportar normalmente – o que não
consigo visualizar. Aí, entramos numa disjuntiva/en-
cruzilhada. Como resolvemos esse problema, então?
Isso não tem solução! Nós viveremos para sempre
tanto com o chamado à crise existencial, como tam-
bém com o chamado de culpa. Isso é maravilhoso!
É a fibra da vida humana. Experimentar esse tipo de
crise indica que estamos vivos. Essa crise é eterna,
pois sempre aparecerá para nós – isso é maravilhoso,
porque, ao nos debruçamos muito sobre as experiên-

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cias de autoconhecimento profundo, acabamos nos
paralisando. Se começamos a querer nos autoconhe-
cer, nossos projetos paralisam – em dois ou três anos,
até menos, você pensa “acho que me conheço, mas
para que serviu isso? Eu não fiz nada”.

Por outro lado, quando você está acelerando, con-


quistando, conhecendo, querendo e botando ali seu
projeto de vida, você começa a olhar para trás e falar
“rapaz, cadê? Quem é esse aqui? De onde veio esse
negócio? Veio de mim, do vizinho, de outro... meu vi-
zinho quis... minha mãe quis”. É assim mesmo que
funciona a vida: você não conseguirá ter a totalidade
das respostas ao mesmo tempo nesta vida. A respos-
ta “menos pergunta e mais ação” também não serve!
Afinal, ela te jogará num dos polos, aquele “o que será
de mim?”. Mas o polo “o que sou eu”, que também é
uma pergunta central e importante da biografia hu-
mana, começa a ficar apagado. Quando você orien-
ta demais sua vida à ação, o que acontece contigo?
Aquele autoconhecimento necessário sai do seu ho-
rizonte de consciência. Ao fazer o contrário, ou seja,
perguntas demais e ação de menos, você também
acaba tirando do horizonte de consciência a proje-
ção – característica necessária à vida humana, que
diferencia os homens e as coisas.

As coisas não projetam, isto é, estão dadas. Elas são


o que são. O copo de coqueiros à minha frente é um
copo de coqueiros: ele está dado, não vai a lugar ne-

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nhum; ele serve para algo e acabou! Agora, Ana Cris-
tina, Jussara e Bruno, vocês têm todo um projeto de
vida. Sem este projeto, vocês não são vivos. Aí, uma
pessoa escreveu assim: “a virtude está no meio”. Ao
contrário! Não entenda mal esta frase da ética aristo-
télica. A virtude está no meio, mas que meio é este? O
meio não é aquele morno. In medio virtus, ou seja, no
meio está a virtude... cuidado! A virtude, nesse caso,
ela está nos extremos – em tentar viver nos extremos.
Você sabe que jamais conseguirá viver nos extremos.
Por isso, eu insisto: um dos ingredientes da vida hu-
mana, que vai te levar à felicidade, chama-se inten-
sidade, ou seja, viver a vida de modo intenso, pleno
e cheio de energia. Aí está o ponto daquela moça,
a Rosângela Galvão, que perguntou: “e a pessoa que
não tem crise nunca?”. Esta pessoa virou “uma coisa”
– e a crise aparecerá para ela de modo dramático no
leito de morte, de modo similar às milhares de pesso-
as atendidas por uma enfermeira australiana que per-
guntava a elas “vocês se arrependem de algo?”, e os
pacientes, diante da morte, respondiam “eu me arre-
pendo de não ter sido eu”. Este é um arrependimento
profundo e dramático; uma crise, no final, quase sem
solução. Por quê? Porque aquele sujeito, além de não
ter se preocupado em responder “quem ele é”, pouco
se preocupou em projetar – organizar projetos e fazer
coisas. É similar a viver uma “vidinha mais ou menos”,
morna, vomitada. Esta vidinha pode não te precipitar
uma crise aparente, mas você perdeu a vida.

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Eu não sou daqueles sujeitos que gostam da intros-
pecção profunda, porque o sujeito paralisa no final
das contas. Mas e aquele sujeito que está numa vida
de introspecção (uma vida nada prática e sem resulta-
dos)? Esse sujeito tem as crises interessantes e neces-
sárias da vida. Ele é maravilhoso também. Conhece
pouco do mund, pouco da natureza humana, porque
não se conhece esta apenas por um mergulho em si,
mas por um mergulho na realidade – como o livro A
Situação do Homem no Cosmos, do filósofo Max Sche-
ler... quer dizer, o Homem tem um lugar no Cosmos e
vice-versa. Por exemplo, o Homem não conhece a si
apenas meditando sete anos no Tibete nem tomando
uns golinhos de ayahuasca. O Homem não se conhe-
ce sozinho. Ele se conhece profundamente ao viver
a experiência do outro polo, isto é, o da projeção
– do “o que vai ser de mim”. Isso é maravilhoso! Vi-
ver intensamente nesses dois polos, sabendo que
a crise aparece por não ser possível responder ao
mesmo tempo. É para te dar calma, meu filho. Isso é
a estrutura empírica da vida humana.

Essa estrutura é drama! Ela é crise! É narrativa! Ma-


ravilhosa! A estrutura da vida humana é difícil, no
sentido de que você nunca apreende tudo. O dese-
jo louco de apreender tudo é o que te faz “virar coi-
sa”, uma coisa similar ao meu copo, que está dada.
Você não demora muito tempo para responder. Se o
copo se perguntasse “quem sou eu?”, ele saberia res-
ponder, afinal está dado. Se ele se indagasse “o que

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se fará de mim?”, ele também saberia responder de
modo simples. Mulheres e homens não respondem
a si mesmos de modo simples. Muito pelo contrário!
As respostas são excludentes. A culpa e a crise exis-
tencial – o drama da vida –, Graças a Deus, sempre
aparecerão para nós, porque pessoas não são coisas.
Na Mecânica Clássica, os físicos sabem que existe
um princípio da impenetrabilidade dos corpos; por
exemplo, meu enfeite não entra no meu copo, eles
não se interpenetram. É como dizer que eles não se
completam nem são mais quando se tocam.

Diferentemente, na estrutura empírica de gente acon-


tece o inverso. Com pessoas, há o princípio da pene-
trabilidade, ou seja, quando você aparece na minha
vida – seja como um amigo, um amor, um desafeto,
alguém que eu odeio e vice-versa –, ora, a minha
vida se torna mais e aparece mais. Você precipita
em mim – faz aparecer em mim – possibilidades
que jamais apareceriam se não fosse a intensidade
da sua vida. Se você não aparecesse me completan-
do, eu seria menos eu. Radicalmente, isso já define
e diferencia gente de pessoa. Alguém que não sofre,
nunca está em crise e não tem drama é alguém que
escolheu, miseravelmente, ser um enfeite, um peão,
uma pecinha de xadrez, um copo. Esse sujeito deci-
diu perder sua vida já em vida. Aquele que não se
abre para o amor e a desilusão, a frustração e a com-
pletude, a carência e abundância... esse sujeito abdi-
cou de ser humano, de ser pessoa. Pessoa é aquele

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que pode ser mais – isso já é uma definição clássica
da Filosofia. Podendo ser mais, esse sujeito também
pode ter uma aparência – aí vêm a crise e a cul-
pa, uma aparência de ser menos, quando aparece o
sofrimento, a tristeza e a privação. Contudo, para a
pessoa, estes sentimentos também a fazem ser mais.
Isso é a precipitação, aquilo que aparece em você e
te completa.

Preste atenção! Sempre o ser humano viverá em cri-


se – até o último dia desta vida. Isso é maravilhoso!
Sempre o ser humano viverá com um tipo de culpa,
por não ter respondido perfeitamente às perguntas
“quem sou eu?” e “o que se fará de mim?”. Ora, somen-
te na vida eterna, na passagem para a transcendên-
cia, essas duas respostas se unem, como num misté-
rio de milagre, porque você já estará fora do tempo.
Ali, você tem a completude, toda a sua forma – e num
lance de olho, porque você pega toda a simultanei-
dade e já tem noção do seu destino final... somente
ali a culpa, a crise e o drama desaparecem, pois essas
duas perguntas, pela primeira vez, são respondidas
de modo simultâneo (como num mistério, num mi-
lagre). Ou seja, as duas perguntas, na sua passagem
para a transcendência, estarão perfeitamente res-
pondidas. Neste mundo, no mundo material, nesta
estrutura empírica da vida humana, a culpa e a crise
existencial, Graças a Deus, aparecerão no nosso pei-
to até o final da vida.

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Nunca se deve fugir de dar a resposta! Quem sou eu?
Ou seja, você deve terminar o dia perguntando “o
que eu fiz bem?”, “o que eu poderia ter feito melhor?”
e “o que eu fiz mal?”. Assim, você se conhece. Ao res-
ponder quais são suas bostas interiores, você conse-
gue se conhecer, tendo, dessa forma, um princípio de
autoconhecimento. Por outro lado, deve-se ter uma
vida orientada a “o que se fará de mim?”, que se en-
caminhe para completar sua biografia, de modo que
você trabalhe, sirva e não encha o saco. Ao fazer es-
sas duas coisas, você vai respondendo – sem ser de
modo simultâneo. Isso ocorre sempre em crise, pre-
cipitando uma culpa, mas com aquela instalação na
vida humana, própria dos seres humanos. Não fuja
dessa estrutura empírica da vida humana, pois ela
só muda na passagem para a transcendência. Só na
transcendência você adquire uma outra forma de en-
carar a vida. Aqui, não é assim! É sempre crise e dra-
ma! E isso é maravilhoso! Entender isso é algo que
te alivia e dá força para seguir na jornada diária da
vida.

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Live 75 | 02/07/2019

MEDO DE ENVELHECER!

Hoje falaremos sobre o medo de envelhecer. É im-


pressionante a quantidade de pessoas que me es-
creveram falando que estavam fazendo aniversário
e que de fato tinham esse medo. Ele aparece como
um sintoma do nosso tempo, naquelas pessoas que
jamais experimentaram a possibilidade real de que
irão se decompor.

Sim, decompor. Preste atenção, porque esse tema é


central. Eu preciso que você não comece a ter pruri-
dos e coceiras, levantando objeções — fique tranqui-
lo, que farei isso por você.

Muitos têm medo de envelhecer porque jamais se


confrontaram com certa realidade dramática, verda-
deira, uma das poucas que todos nós enfrentaremos.
Não falo da realidade da morte (esta é muito abstra-
ta), mas de algo mais concreto que acontece quan-
do se morre, ou, pior, que acontece pouco antes de
se morrer, ou ainda durante muitos anos antes de se
morrer: falo da privação física, da decomposição, da
privação de seus movimentos, da perda da beleza
material, do vigor físico, das capacidades orgânicas
e anímicas.

O idoso muitas vezes precisa de uma colostomia,

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pois nem sequer defecar consegue, ou pode ser que
ele precise de uma sonda, pois não consegue comer.
Isso pode acontecer com você e também comigo.

“Estude, pois a inteligência ninguém te tira.” Todos já


ouviram essa frase imbecil de algum parente; talvez
você mesmo a tenha dito, acompanhada de um “Meu
filho estudou. Eu dei a ele aquilo que ninguém pode
tirar: a inteligência.” É, mas existe uma realidade cha-
mada Alzheimer que tira até isso.

Essas são realidades possíveis para todos nós, mas


vivemos num tempo e num mundo em que cisma-
mos com fingir que esse tipo de coisa não existe e
não acontecerá.

No Instagram, eu sigo meus amigos, as pessoas de


quem gosto e as pessoas cuja temática me interessa.
Dentre as pessoas que falam de beleza, de vestimen-
ta, de comida, de nutrição etc., eu só sigo aquelas que
não excluem a vida real de suas histórias, ou seja,
que não falseiam suas histórias, que temperam seus
feeds e stories com vida real, com drama, com choro,
com remela, com alface no dente, com tristeza, com
cansaço.

Vejo muita gente por aí que coloca no feed só aquela


beleza estonteante das Maldivas, de Bali, do escam-
bau a quatro. São pessoas que defecam chantilly, que
não flatulam e sim soltam purpurina pelo traseiro. É
tudo cremoso e delicioso, parece uma maravilha, mas

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na realidade, não passa de uma fábrica de neurose.

Nós, que somos expostos a todo instante a essa vida


falseada, necessariamente teremos uma rejeição ain-
da mais brutal do que aquela que a realidade da ve-
lhice já nos causa. O próprio fenômeno dos jogos de
futebol nos evidencia que é assim.

Eu não tenho nada contra o Neymar ganhar 1 bilhão


de dólares por minuto, ele que ganhe o que queira
(se tem audiência, glória a Deus e sorte dele), mas o
extraordinário é toda essa audiência diante do espor-
te. Isso representa, no final das contas, um desejo por
jamais envelhecer, um desejo por aquela forma per-
feita, atlética, um desejo pelo vigor, pela disposição
física.

O que o esporte nos oferece como entretenimento


real é aquela possibilidade, tão falsa quanto atra-
ente, de que você nunca envelhecerá e terá o vigor
para todo o sempre -- o que jamais acontecerá. É
preciso entender que existe algo visceral dentro de
você chamado maldade, espinho na carne, más in-
clinações.

Nestes meses eu dei uma pausa, mas atendi em con-


sultório durante anos e anos, e meu ouvido foi fican-
do treinado. Quando a pessoa já começa com aque-
le papinho de “Não desejo mal para ninguém”, eu já
corto. Como assim, meu filho, você “não deseja mal
para ninguém”? Você é quem?! Você por acaso é o

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São Padre Pio ou a Madre Teresa de Calcutá? Até esses
caras desejavam mal para alguém, então você quer
enganar a quem?!

Não conseguir se confrontar com a sua miséria e


com a sua maldade é um reflexo desse delírio louco
de jamais envelhecer. A velhice, no final das con-
tas, é quando você toca no inescapável da vida: seu
apodrecimento. Se já aprendeu a conviver com seu
apodrecimento moral ao longo dos dias, você não
vai se surpreender com o fato de que seu corpo tam-
bém apodrecerá.

O mesmo sujeito que falseia uma vida que jamais


acontecerá, que é incapaz de olhar para si e enten-
der que ele é um miserável, um lixo, que ele não vale
nada, que ele pensa mal do filho dele que tem ape-
nas dois dias de vida, terá um medo brutal da morte.
É preciso entender isso e declarar “É disso que sou
feito” com tranquilidade no peito. Afinal, meu Deus
do Céu, quem não é feito disso?

Nós temos várias fábricas de neurose hoje em dia,


e algumas delas são esses grupelhos religiosos que
nada tem a ver com religião e que possuem série de
regrinhas de condutinhas morais: jeito de se compor-
tar, de se vestir, de falar, de se cumprimentar, de se
mexer, de abanar o rabo. Grupo de religião não serve
para isso, mas para que seus membros pensem o se-
guinte: “Você é um lixo e não vale nada, assim como
eu. Vamos tentar suportar-nos uns aos outros com a

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nossa miséria, sem fingir que um bufa mais cheiroso
que o outro.”

Quando fingimos que não arrotamos fedido, começa-


mos a ter um medo terrível do nosso destino último.
Você terá uma neurose que te aparece como sintoma
mesmo (aquela dor de barriga que nunca vai embo-
ra, aquela ansiedade que nunca vai embora, aque-
la enxaqueca que nunca vai embora, aquela insônia
que nunca vai embora...), porque você estará, no final
das contas, amarrado a um simulacro de virtude, de
boa conduta.

Você confunde miseravelmente a moral com uma


porcaria chamada decência burguesa, que nada
tem a ver com uma vida feliz, com a moral ou com a
religião. Eu falo palavrão, sim, e quero que você vá
se catar, seu religiosinho, para ver se você entende
de uma vez por todas que, quando senta no trono
do moralismo burguês, você abdica do que é a vida
humana, porque você é tão filho da mãe e corrompi-
do quanto eu, e o que podemos fazer neste mundo e
nesta vida é suportar-nos uns aos outros sem escon-
der nossa miséria.

Eu tenho verdadeiro ódio das pessoas que ficam ro-


mantizando as relações humanas, como por exemplo
o casamento. Num casamento verdadeiro, feliz, ma-
duro, sobra muito pouco do romantismo, porque nele
você pode se colocar com as suas misérias e haverá
uma outra pessoa na sua frente que não te mandará

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para a guilhotina, para a cadeira elétrica.

O mundo inteiro o tempo todo já te condena; você


tem que ir para aquela porcaria daquele seu trabalho
onde é obrigado a usar jaleco, do contrário o Controle
de Infecção Hospitalar (CCIH) carimba sua caderneta
e você é demitido, ou então você é obrigado a usar
gravata, do contrário toma notificação do Fórum, ou
ainda, se você for para a Google e não usar bermuda,
chinelo e camisa florida, ficará tachado de sujeito es-
tranho. É uma amarração de conduta vitoriana abso-
lutamente neurotizante.

É óbvio que as pessoas que vivem nesta droga de


mundo não conseguem tolerar a putrefação que lhes
acontecerá na velhice, a degenerescência, o esque-
cimento, a tremedeira, a perda dos membros, de de-
dos, dos pés, porque ficaram neuróticas ao longo da
vida jovem, não conseguiram conviver e confrontar
esse apodrecimento que está na alma de todos nós.

É preciso enfrentar, aceitar, com calma, sem jogar


para baixo do tapete. É preciso olhar para aquilo até
com um certo compadecimento, pensando “É, é as-
sim mesmo. Não irei ceder, mas, bem, não preciso es-
conder nada, sei que sou esse farsante, esse tratante,
esse filho da mãe imoral, mas quem não é?”

Se você, neste momento, está olhando para a sua


vida e pensando “Nossa, mas eu sou tão boazinha...
Acho que não sou assim não, Italo”, saiba: está expli-

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cado por que você tem essa droga de insônia, de an-
siedade, está explicado por que ninguém gosta de
você, por que você não sente desejo por seu marido
nem ele por você, está explicado por que você tem
uma porcaria de vida cheia de sintomas neuróticos:
você não consegue declarar que é um lixo, igual a
todos nós, caramba, e que em você habitam os pio-
res pensamentos do mundo, igual a todos nós, e que
você é capaz de todos os erros do mundo, igual a
todos nós.

Todos nós somos assim, e se você não consegue


olhar-se diante do espelho e dizer “Cara, eu poderia
ter sido aquele filho da mãe do Hitler”, ou “Eu poderia
ser aquele sujeito que matou o filho”, você não apren-
deu o que é a vida humana. Mas veja bem: dizer é di-
ferente de fazer e ceder.

O pior de tudo é que, no nosso tempo, o pessoal con-


funde religião com esta porcaria. Se as pessoas vie-
rem me confrontar sobre sujeitos que falam “A reli-
gião engessa, aprisiona”, responderei o seguinte: “Se,
para você, isso é religião, toda razão a eles.”

O problema é que a religião não é isso, muito pelo


contrário, é o inverso. Acontece que você entra em um
grupo de jovens (qualquer um: protestantes, crentes,
orientalizantes) e é a mesma coisa: não há um sujeito
ali com a capacidade de olhar para a lama do outro e
saber do que ela é feita.

27
Já sabemos do que a alma foi feita, e sabemos que
o outro é feito do mesmo barro, já sabemos que ele,
assim como nós, entendeu a putrefação e as treme-
deiras que tem dentro de si, então vamos tentar su-
portar-nos uns aos outros por meio da caridade e do
amor.

Nada na religião se equipara à moral burguesa. No


entanto, vá em qualquer culto ou grupo de oração
e solte um palavrão. Pronto: “Ele não é religioso, é o
verdadeiro ‘demonho’, é o tinhoso, o sete-peles, o coi-
sa ruim, o tranca ruas, ah, meu Deus do Céu, tragam
água benta, chamem o exorcista”. Vá para o quinto
dos infernos, você é quem está profanando o nome
de Deus e o que é a religião, seu animal. Você não
tem idéia de o que se trata isso tudo.

Ao sujeito que fica se expondo só com beleza, com


aquela vidazinha perfeita, saiba: isso também é
moral burguesa, caramba. O cara está lá, achando
que ele engana alguém com aquela droga daquela
perfeição, e o pior é que tem gente que olha, sabe
que é falso, e ainda assim curte e compartilha. Estão
criando uma fábrica de neuroses, uma atrás da ou-
tra, porque não conseguem olhar para uma porcaria
dentro de si chamada espinho na carne, que todos
nós temos.

Por isso é que, no Instagram, eu só sigo quem mostra


a vida real. Não tenho problema nenhum com você
querer ser saudável ou querer colocar um botox no

28
meio dessa cara amassada, até porque ninguém me-
rece conviver com essa droga de caderno pautado
na frente. Ajeite esse sorriso, ajeite esse nariz e ajei-
te essa testa, pois não somos obrigados a olhar para
essa cara feia. Alimente-se de modo saudável, ema-
greça, fique bonita, fique forte.

Isso tudo é maravilhoso, só não leve a sério, porque,


no limite, vai acabar. Você não se sustentará aí, esse
não é o seu centro. É claro que você tem medo de
envelhecer, porque você tem medo de se enfrentar,
de olhar para si e ver que já há algo podre aí den-
tro. Você não está acostumado a essa realidade cha-
mada degenerescência, ainda que ela conviva com
você diariamente e seja o que produz os sintomas
de neurose que você tem dentro de si. É por isso que
você tem ansiedade ou depressão, e pode ser por
esse um dos motivos pelo qual você está com essa
enxaqueca, com essa dor de barriga.

Você está se esquecendo, colocando para dentro e fin-


gindo que não existe, somatizando, e assim ficará até
conseguir olhar para a porcaria do espelho, ou para
um amigo, ou alguém com quem você conviva, e dizer
“É, esse sou eu. Sou assim, sou capaz dessa desgraça
toda, e, não obstante, há quem me ame. Deus me ama.
Eu estou aqui, e mesmo sendo esse balde fedorento
de fezes que arde a narina dos outros, ainda assim eu
posso ser útil, servir, não encher o saco, trabalhar com
amor e ser suporte para a vida de alguém.”

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Quando você entende que é nesta tensão, nesta arti-
culação quase que desconcertante, quase que inca-
paz de coexistir, que a vida humana acontece, você
perde o medo da morte, porque entende que algo
em si já é podre e que esse é o seu ponto de parti-
da, e entende que transmutar essa realidade podre,
paralisada, e claudicante por meio da alquimia do
amor é justamente a equação e a poesia da vida hu-
mana. Assim você entende que o destino final, a ve-
lhice e a morte não são tão assustadores assim, por-
que você já terá se confrontado com essa realidade
no meio do seu peito ao longo da sua vida inteira.

O medo da morte é o medo daquele sujeito que nun-


ca se enfrentou, que falseou sua vida, que, no final
das contas, viveu de costas para o que é a realidade
da vida, buscando somente aquelas belezinhas fú-
teis e inúteis.

30
Live Especial

O INSIGHT DA ETERNIDADE

Quando o pessoal começa com o assunto de auto-


conhecimento, quando ouvimos algumas palestras
de alguns gurus, ou quando estamos lendo livro de
autoconhecimento, em geral eles partem de um prin-
cípio que está num segundo ou terceiro momento. O
que quero dizer com isso?

Existem algumas etapas anteriores que precisamos


abordar para que a palavra “autoconhecimento” te-
nha algum significado. Autoconhecimento quer dizer
que você vai se autoconhecer, vai conhecer a si mes-
mo. Mas qual parte as técnicas de autoconhecimento
se propõem a ensinar? Que parte de si as técnicas de
autoconhecimento se propõem a explorar? Que parte
as técnicas de autoconhecimento se propõe a conhe-
cer? Que parte de si é essa? As técnicas de autoco-
nhecimento estão falando que você vai conhecer o
seu corpo? Ou vai conhecer a sua mente? Ou vai co-
nhecer as suas sensações?

Essa é a primeira pergunta que temos de fazer quan-


do deparamos com o assunto do autoconhecimento.
O autoconhecimento, à medida que conhece suas
sensações, é útil ou inútil? E para que ele serve? O
autoconhecimento, à medida que conhece seus pen-
samentos, é útil ou inútil? E para que ele serve?

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Se apostamos, logo no início da nossa atividade inte-
lectual, no conhecimento de algo que muda, vamos
nos frustrar. Se você quer conhecer movimentos do
corpo, ora, o seu corpo não tem uma consistência,
não tem uma consciência permanente. O seu corpo
muda; as células do seu corpo vão mudando com os
anos. Daqui a 6 meses, você não tem mais nenhu-
ma célula que seja igual à célula de 6 meses atrás.
O nosso próprio corpo muda ao longo dos anos. De
cinco em cinco anos, o seu corpo mudou. Portanto,
se você aposta no autoconhecimento corporal, por
exemplo, nas sensações corporais, no domínio cor-
poral, se aposta nesse autoconhecimento, que algu-
mas técnicas meditação prometem, você necessa-
riamente vai se frustrar, porque assim que terminou
de se conhecer você já mudou.

Então, a impressão que você vai acabar tendo, tan-


to psicológica quanto subjetivamente, é de que não
dá para se conhecer. “Ah… não, não é isso que es-
tou querendo com autoconhecimento; o que quero
com autoconhecimento é conhecer as minhas idéias,
conhecer os meus pensamentos.” Pior ainda, porque
seu pensamento não tem substância, não tem con-
sistência, não tem materialidade. É mais difícil ainda
conhecer a história dos seus pensamentos, é muito
difícil conhecer a história das próprias idéias.

Existe uma força que vem por baixo que pode lhe

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tirar a capacidade de conhecer coisas. Há uma série
de fetiches, uma série de pensamentos estruturantes
que estão abaixo do radar, e você demora anos e anos
para poder abordar isso.

A única coisa necessária para começarmos nesse


assunto de autoconhecimento é saber que você per-
manece, que você é, que você existe, que tem uma
unidade ontológica, que continua existindo no mun-
do. Saber isso lhe dará força, lhe dará presença, lhe
tirará os medos.

Quando você começa a conhecer seu corpo, sua


mente, seu pensamento, isso tudo é muito mutável
e cambiante. Então, exercícios de autoconhecimento
que não apostam antes em exercícios de presença
– ou seja, aprender que você existe, que possui algo
chamado “alma imortal”, algo que não pode ser des-
truído, algo que está para além de todo o seu corpo,
além da percepção e que subsiste, e ter o insight de
que existe a eternidade – vão levá-lo ou para a deses-
perança ou para o cinismo.

No caminho da desesperança, você vai pensar: “Não


dá para se conhecer; este mundo é estranho; este
mundo não tem uma estrutura, não tem uma consis-
tência”. Se for para o caminho do cinismo, fingirá que
percebeu alguma coisa, quando só percebeu deso-
rientação, só ficou no mundo de medo, não conse-
guindo fazer nada, no fim das contas.

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Existe um fio que faz com que permaneçamos. Existe
um princípio de identidade que faz que existamos. E
esse é o objeto próprio e único do autoconhecimen-
to. É isso que temos de perseguir.

Se você tem uma prática de oração, uma prática de


meditação, de introspecção, a primeira coisa a fazer
é encontrar esse ritmo, essa melodia constante, que
não depende do seu corpo, que não depende dos
seus pensamentos, que não depende de suas sen-
sações. Existe um fio, um ritmo que permanece mes-
mo depois que seu corpo acabar. Esse ritmo, essa
melodia é o seu ser, por assim dizer. Esse é o ponto
central do autoconhecimento.

Enquanto não tocarmos naquilo que se pode chamar


de alma imortal, naquilo que vai subsistir e já subsis-
te desde sua criação, todo exercício de autoconheci-
mento vai ser destrutivo, vai jogá-lo para baixo, não
vai ter nenhum efeito benéfico na sua alma.

O antigo adágio “Conhece-te a ti mesmo” é sobre isso.


A primeira coisa de “Conhece-te a ti mesmo” é a per-
manência que existe em você. Existe uma permanên-
cia ontológica, do seu ser, existe uma identidade que
faz com que você seja o que você é. Se você não con-
tinua sendo o que você é, não faz sentido falar em
autoconhecimento, porque o conhecimento de si vai
mudar. Se você não subsiste e não permanece, tudo
muda. Se você vai mudando, não dá para conhecer.
Não é possível conhecer aquilo que muda toda hora.

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Ora, quem é esse que conhece se eu mudo toda hora?
Se você está com essa idéia de autoconhecimento, a
primeira coisa é tentar descobrir dentro de você esse
fio condutor. Se não descobrirmos esse fio condutor
– “Eu descobri que permaneço, descobri que sou in-
destrutível, descobri que a morte não me vence” –,
que é um insight libertador, todo autoconhecimento
é fraco.

Fazer exercícios de força o inscreve nessa realidade.


Você perde certo medo de permanecer. Toda vez que
a pessoa parar para fazer meditação, para fazer ora-
ção, precisa perceber, ali no fundo dela, que ela per-
manece, que subsiste, que há algo que a conduz; há
um ritmo ali.

O que estou falando é monstruosamente esquisito


para algumas pessoas, porque não existe mais um
nome para isso na cultura ocidental. A idéia mesma
de eternidade, a idéia mesma de infinito se correla-
ciona muito proximamente com o infinito matemá-
tico, com o infinito linear, uma coisa que não acaba
numa seqüência. Você tem uma série de números, e
essa série nunca acaba. Não é disso que estou falan-
do. Estou falando de uma eternidade, de uma trans-
cendência, algo que é infinito linearmente e que
tem profundidade e altura intocáveis. Você não toca
naquilo, é insondável, inefável, e só consegue sentir
a sua presença, que não termina, não acaba. É cons-
tante.

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Esse exercício não se alcança mediante atividade;
trata-se de um exercício alcançado por meio da pas-
sividade. Sempre que quiser correr atrás – “Preciso
descobrir minha permanência, preciso descobrir mi-
nha eternidade” –, você se afasta dela. Porém, quando
você, calmamente, fica parado e permanece e come-
ça a se aprofundar e se desligar de certas sensações,
vai começar a notar que existe uma história ali que
não depende da sua força, uma unidade que não de-
pende da sua força, e a percepção de eternidade co-
meçará a aparecer.

Se vamos colocando em prática o que venho falando


aqui, fica mais fácil de você perceber isso. Se você
aposta na força, se não reclama, se acorda cedo, se
cumpre seu dever, essa noção de eternidade já co-
meça a não ser algo estranho, começa a não ser algo
tão esquisito na sua história. E você começa a estar
instalado ali dentro. Isso começa a fazer sentido para
você, e você começa a perceber isso. E aquele medo,
aquela desesperança, aquela angústia, aquela ago-
nia começa a ir embora, porque você está inscrito
dentro da realidade própria do ser humano, que é a
realidade da eternidade. Existe uma coisa em você
chamada alma imortal, que é maximamente grave,
porque a eternidade vai permanecer. Falar de auto-
conhecimento sem falar nesse assunto é irrelevante,
não serve para nada.

Pergunta: “Conhecer o próprio temperamento, que é

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algo sólido como o mineral, seria autoconhecimen-
to?”. Por que você acha que dei um curso sobre tem-
peramento? Porque o temperamento, dentro do auto-
conhecimento, é o que é mais possível de conhecer,
pois o temperamento é uma estrutura mineral, que já
é uma pista. O temperamento não muda: você sempre
teve determinadas reações, e sempre vai tê-las. Isso
não vai mudar. Então dá uma pista do que seja a eter-
nidade, do que seja a alma imortal. O temperamento
não é a alma imortal ainda, mas é algo que existe em
você e que não muda.

Por isso o curso sobre temperamento foi o primei-


ro, porque, sem esse insight, se não tocamos nessas
questões, não percebemos a alma imortal, não con-
seguimos perceber essa permanência.

Para falar de autoconhecimento, o que estou expli-


cando aqui tem de ser evidente para você, e sei que
ainda não é. Temos muito exercício ainda para fazer.
Autoconhecimento é importante, óbvio, mas não es-
tamos na hora ainda. Estamos numa etapa anterior
ao autoconhecimento.

Pergunta: “Como se faz isso de forma prática?”. Não


existe forma prática. Você precisa executar um mon-
te de coisa, e de repente aparece. Se você for seguin-
do minhas recomendações – dar esmola para men-
digo, rezar de vez em quando, ser forte, freqüentar
crossfit, maquiar-se, parar de reclamar –, você vai se
livrando do peso que tira sua capacidade de perce-

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ber as coisas fundamentais. E aí você consegue em
algum momento perceber essa coisa.

Então, não está na hora de falar sobre autoconheci-


mento. Está na hora de construir o nosso aparelho de
percepção; está na hora de limpar nosso aparelho de
percepção. Isso porque autoconhecimento não é tão
fácil quanto o pessoal quer vender por aí. Não temos
nem ferramenta para falar disso ainda.

Muitas pessoas me perguntando sobre religião, rela-


cionando as vivências de alguns místicos com esse
assunto do autoconhecimento. Esses santos – Santa
Catarina de Siena, Santa Teresa de Ávila etc. – já pas-
saram pelas etapas iniciais. O autoconhecimento faz
sentido para eles, porque têm o que conhecer. Quan-
to você não tiver consistência interna, enquanto não
tiver aparelho de percepção, você não tem o que co-
nhecer; vai conhecer um buraco, um vazio, um negó-
cio preto, um nada.

Enquanto você não construir algo, enquanto não for


algo, enquanto não tiver responsabilidade, enquan-
to não amadurecer, não tem o que conhecer. Você
vai conhecer aquilo que é igual a todo mundo, que
é a miséria, a preguiça, a má inclinação…

Enquanto você não for algo, não fizer esforço para fa-
zer algo, não precisa fazer esforço para se conhecer;
eu mesmo digo o que você é: um guloso, um avarento,
um sensual, um invejoso, um mentiroso. Isso é você.

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Autoconhecimento faz sentido nessa realidade místi-
ca, porque esses santos não são mais isso. Eles já são
algo que tem uma identidade própria. Depois de um
tempo que você se esforça na ascese, na virtude, em
ser alguém, em fazer coisas relevantes, em servir, aí
você tem alguma coisa a conhecer. Agora o conhe-
cimento faz sentido. Mas, para conseguir fazer essa
coisa, você precisa de certa unidade, certa identida-
de, que é conquistada por meio dos exercícios que
estou passando aqui: esmola, ficar forte etc. Isso vai
lhe dar uma unidade e, quando você a tiver, vai con-
seguir conhecer alguma coisa. Até lá, vai conhecer o
quê?

Não precisa se desesperar, que esse é o início para


todo mundo, exceto para os sujeitos rousseaunianos,
que acreditam no mito do bom selvagem e que nun-
ca olharam para um ser humano concreto. Se você
reparar em uma criança de 1 aninho, 2 aninhos, ela já
está arrepiando na pracinha, está tomando brinque-
do do amigo, está dando tapa na cara do outro, está
mordendo a mãe, porque essa inclinação vem desde
sempre.

Não fique querendo se autoconhecer, porque vai se


deprimir. Se você tentar se conhecer enquanto for
um bosta, vai parar de se conhecer, pois “ou não dá
para me conhecer ou por que me conhecer já que é
isso?”.

Você não deve fazer esforço de autoconhecimento,

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e sim um esforço de presença, de tentar se limpar
daquilo que atrapalha, e tentar pegar de vez em
quando essa unidade, esse ritmo, essa melodia, esse
fundo anímico do ser, esse fundo de continuidade,
que não é nem o seu corpo nem a sua mente.

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@italomarsili
italomarsili.com.br

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