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: 10.21204/2359-375X/

JORNALISMO TRANSMÍDIA E OS QUIZZES ELEITORAIS BRASILEIROS EM 2018

TRANSMEDIA JOURNALISM AND THE BRAZILIAN ELECTORAL QUIZZES IN 2018

João Carlos MASSAROLO 1 Gustavo PADOVANI 2

Universidade Federal de São Carlos | Brasil

Resumo

O jornalismo multiplataforma desdobra o conteúdo em uma lógica transmídia oferecendo, por meio da cultura participativa, uma ampla possibilidade de acessos aos mais diversos perfis dos usuários. Deste modo, ao disponibilizar uma gama de ferramentas para a produção conteúdo textual e audiovisual, o jornalismo multiplataforma cria condições para ações socioeducativas. Essa parece ser a finalidade das plataformas de escolha eleitoral criadas para as eleições brasileiras de 2018. Neste trabalho, pretende-se problematizar a lógica da montagem dos questionários no formato de quiz, disponibilizados nas plataformas eleitorais. Busca-se assim, verificar a lógica de escolhas implementadas dentro de seus dispositivos.

Palavras-chave

Jornalismo Multiplataforma; Plataformas eleitorais; Jornalismo Transmídia; Aplicativos Educacionais.

Abstract

Multiplatform journalism unfolds the content in a transmedia logic offering, through the participatory culture, an access to a wide possibility of access to the most diverse user profiles. Thus, by providing a range of tools for the production of textual and audiovisual content, cross-platform journalism creates conditions for socio-educational actions. This seems to be the purpose of the electoral election platforms created for the 2018 brazillian election. In this paper, we intend to problematize the logic of the assembly of questionnaires in quiz format, made available on electoral platforms. Therefore, this paper verify the logic of choices implemented within their devices.

Keywords

Journalism Multiplatform; Electoral Platforms; Transmitted Journalism; Educational Applications.

RECEBIDO EM 29 DE AGOSTO DE 2018 ACEITO EM 22 DE OUTUBRO DE 2018

1 Doutor e Mestre em Artes (Cinema e Vídeo) pela Universidade de São Paulo. Professor associado do Departamento de Artes e Comunicação e do Programa de Pós-Graduação em Imagem e Som da Universidade Federal de São Carlos. Coordenador do grupo de pesquisa GEMInIS e Editor responsável da Revista GEMInIS. Coautor do livro Desafios da transmídia: processos e poética (2018). Contato: massarolo@terra.com.br. 2 JORNALISTA. Mestre em Imagem e Som pela Universidade de São Carlos. Professor substituto do Departamento de Artes e Comunicação da UFSCar. Pesquisador do Grupo de Estudos sobre Mídias Interativas em Imagem e Som (GEMInIS). Contato: guspado@gmail.com

João Pessoa Brasil | ANO 5 VOL.5 N.2 | JUL./DEZ. 2018 | p. Revista Latino-americana de Jornalismo | ISSN 2359-375X

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Programa de Pós-Graduação em Jornalismo UFPB

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João Carlos MASSAROLO ▪ Gustavo PADOVANI Introdução N a era da convergência midiática, a informação

João Carlos MASSAROLO Gustavo PADOVANI

Introdução

N a era da convergência midiática, a informação se propaga pelas plataformas com uma velocidade muito maior do que seria possível imaginar no sistema broadcasting, produzindo

mudanças no modo como o público acessa o conteúdo jornalístico ou assiste à televisão e troca informações entre si. Esse púbico deseja, sobretudo, participar na produção da informação e vivenciar narrativas de forma simultânea, através de múltiplas telas. A velocidade da informação, associada aos recursos geolocativos dos dispositivos móveis, afetam a percepção espaço/temporal do público de como a informação circula e é compartilhada nas plataformas sociais. Esse contexto afeta diretamente a produção e circulação de conteúdos do jornalismo multiplataforma, principalmente, nas práticas de promoção de engajamento do público através da cultura participativa. A lógica transmídia pressupõe construções de mundos possíveis, a partir de uma narrativa canônica (storyworld), dotada de extensões por diferentes canais e/ou suportes, permitindo que o público acesse as informações por inúmeros pontos de entrada. Posicionada entre os espaços narrativos, as extensões rompem as barreiras entre educação e entretenimento, servindo como porta de entrada para a articulação estratégica de conteúdos socioeducativos. Nos espaços criados pela lógica transmídia, as plataformas de escolha eleitoral desenvolvidas para as eleições 2018 ajudam o eleitor a identificar e escolher o candidato que combine com suas preferências políticas. Neste trabalho, plataformas de escolha eleitoral são analisadas com o objetivo de problematizar a lógica empregada na montagem dos questionários dos Quiz, sobre os quais o eleitor/usuário é convidado a interagir, num jogo de caráter lúdico/educativo em que são

testados os seus conhecimentos sobre o perfil dos candidatos nas eleições

2018.

A lógica transmídia, enquanto procedimento do jornalismo multiplataforma, permite que um produto midiático como, por exemplo, uma grande reportagem, produzida para ser veiculada primeiramente na TV, seja desdobrada para múltiplas telas e plataformas de video sob demanda, além de jogos para dispositivos móveis e redes sociais (Facebook, Twitter, Instagram, entre outras). Esse processo de convergência midiática estimula a produção colaborativa de textos, fotos, vídeos em blogs para circulação nas plataformas sociais. Para Henry Jenkins, a convergência representa uma transformação cultural em que consumidores são incentivados a procurar

PLATAFORMAS ELEITORAIS, JORNALISMO TRANSMÍDIA E AS ELEIÇÕES 2018 NO BRASIL

novas informações e fazer conexões em meio a conteúdos de mídias dispersos” (2009, p. 29). A série documentária norte-americana East Los High 3 (2013-), criada pelo site de vídeo on demand - 'Hulu' 4 , é uma obra de caráter educativo que se utiliza da lógica transmídia para contar a vida de jovens descendentes de famílias latino-americanas que cresceram e vivem na cidade de Los Angeles. A série foi escrita e dirigida por Carlos Portugal, com a criação de conteúdo transmídia pela produtora The Alchemists (do brasileiro Mauricio Mota). A série oferece encontros por Skype com atores; perfis de personagens para o público interagir; vídeo blog da personagem grávida Ceci Camayo, imagens ligadas a cultura latina (http://eastloshigh.tumblr.com) entre outras ferramentas. As jovens que participam da série, produzem conteúdos e os disponibilizam nos seus canais de blogueiras, expondo o cotidiano das imigrantes latinas em Los Angeles. Ou seja: a série documental transmídia permite às jovens envolvidas com o movimento social de se verem “como protagonistas em situações ou eventos descritos em uma reportagem.” (ALZAMORRA; TARCIA, 2012, p. 31) Do mesmo modo, ao disponibilizar uma gama de ferramentas para a produção conteúdo textual e audiovisual, o jornalismo multiplataforma cria as condições para ações socioeducativas, capazes de retroalimentar o público com materiais baseados nos seus rastros digitais e que, supostamente, são do agrado do usuário em questão. Para Scolari (2014, p. 74), “não há nenhuma mídia informativa, seja escrita ou audiovisual, que não convite seu público para enviar informação, fotografias, vídeos ou textos que permitam que narração das notícias sejam expandidas.” Assim, a lógica transmídia aplicada ao jornalismo multiplataforma materializa a noção de ‘cauda longa’ (Chris Anderson, 2009), alcançando públicos cada vez mais pontuais e remotos, com características migratórias e de maior conectividade (redes sociais), além de ser uma importante ferramenta para a criação e o desenvolvimento de aplicações educativas. Para este público, acostumado a se deslocar e a transitar por diferentes canais em busca de informação, essas iniciativas desempenham um papel importante para disponibilizar informações que possam ajudar na escolha candidato de sua preferência nas eleições 2018. No entanto, essas plataformas possibilitam não somente um maior conhecimento do repertório

3 A série realizou parcerias inovadoras com organizações não governamentais que tratam sobre gravidez e o consumo de drogas na adolescência. Disponível em: <http://eastloshigh.com/> Acesso: 20 out.

2018.

4 Disponível em: <https://signup.hulu.com/plans> Acesso em: 20 out. 2018

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João Carlos MASSAROLO ▪ Gustavo PADOVANI cognitivo do eleitor mas, também, dos processos de gestação

João Carlos MASSAROLO Gustavo PADOVANI

cognitivo do eleitor mas, também, dos processos de gestação das subjetividades em contínua mutação. As subjetividades autoprogramáveis se

desenvolvem, em grande parte, a partir do que Pariser define como filtro-

) que

altera fundamentalmente o modo como nos deparamos com ideias e informações.” (PARISER, 2012, 3%). Essas ações corroboram para a criação de redes discursivas que oferecem uma percepção midiatizada da realidade, promovendo a “passividade na aquisição de informações, o que vai de encontro ao tipo de exploração que leva à descoberta” (PARISER, 2012, 27%). Deste modo, as plataformas sociais “operam segundo uma lógica algorítmica que tende a produzir relações entre indivíduos com afinidades múltiplas, logo menos expostos ao contraditório, e isso propicia a dinâmica do bonding, fundamental para o fortalecimento psicológico dos grupos” (BOSCO, 2017, p.

78).

Para a pesquisadora Mariana Valente, após a onda de protestos em junho de 2013, grupos conservadores adotaram um comportamento que ela classifica como multiplataforma: "se articulam em grupos de WhatsApp, mas atuam em outras redes sociais. Nas conversas no aplicativo articulam movimentos coordenados, como comentários em vídeos do YouTube e no Facebook.” 5 . Essa estratégia surpreendeu boa parte do campo progressista com a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos e a eleição de um candidato de extrema direita para a Presidência da República no Brasil. Não à toa, ambos candidatos se valeram da mesma lógica do algoritmo nas redes ao se utilizarem estratégias e lógicas similares em suas campanhas por meio do uso de dados 6 . Neste contexto, plataformas de jogos educativos que agregam em sua concepção tecnologias e técnicas de design provenientes do entretenimento transmídia, contribuem para a criação de um espaço sociocultural distinto da dinâmica da lógica algorítmica que opera por afinidades nas plataformas sociais, servindo como um indicador do potencial de habilidades cognitivas que os jogos são capazes de desenvolver. O aspecto educativo/lúdico dos games motivam o jogador a avançar na exploração e na aquisição de novos desafios e aprendizagens no contexto de uma narrativa. No entanto, os jogos

bolha, “um universo de informações exclusivo para cada um de nós (

5 Eleitores de Bolsonaro replicam grupos de WhatsApp na rede”. Disponível em:

PLATAFORMAS ELEITORAIS, JORNALISMO TRANSMÍDIA E AS ELEIÇÕES 2018 NO BRASIL

educacionais ainda são uma área pouco explorada no mercado e um dos motivos para isto, é a dificuldade em se criar um jogo educacional que seja interessante ao jovem. Os jogos de entretenimento, que atraem os jovens não são produzidos com o objetivo de fazer o jogador aprender alguma coisa, enquanto que a maioria dos jogos educacionais possuem desafios fracos e pouco motivadores. Uma solução, seria a inserção de um contexto histórico para os conteúdos de aprendizagem. Neste sentido, jogos como Quiz, um gênero que demanda habilidades cognitivas para resolver desafios são capazes de motivar os jogadores a interagirem. Nas eleições 2018, foram desenvolvidas aplicações educativas/lúdicas como Quiz, com o objetivo de testar o conhecimento do público em relação aos candidatos, tanto no plano regional quanto nacional. Quiz é o nome de um jogo interativo, de caráter lúdico/educativo, que pode ser aplicado a diversas áreas de conhecimento (esportes, saúde, entretenimento, entre outros), como recurso didático-pedagógico, no qual o participante tem o intuito de aprender jogando. Um quiz estimula os jogadores a responderem questionários com perguntas sobre determinado tema. Os questionários de perguntas e respostas são comuns em processos seletivos, testes vocacionais, pesquisas quantitativas, assim como em atividades lúdicas como jogos de tabuleiro, programas de televisão e outras atividades informais 7 e agora podem ser encontrados também nas plataformas de escolha eleitoral. As plataformas de escolha eleitoral que se apresentam no formato de quiz, “fazem convergir estratégias de game design no campo educacional e da vida cotidiana, com o objetivo de tornar a realização de diversas atividades mais prazerosa e recompensadora” 8 (MASSAROLO & MESQUISTA, 2013). Essa estratégia metodológica, conhecida como gamificação 9 , reforça qualidades importantes da atividade lúdica. Neste sentido, um quiz normalmente segue regras de um jogo, no qual os vencedores são os que atingem o maior número de pontos. Nos quizzes das plataformas de escolha eleitoral, a principal recompensa para os jogadores é a revelação ao término das respostas do questionário, do perfil do candidato selecionado pelo dispositivo e que, ao menos em tese, correspondem às preferências do eleitor/usuário. Deste modo, as plataformas eleitorais incorporam processos

8 Narrativa transmídia e a Educação: panorama e perspectivas.” Revista Ensino Superior, da UNICAMP,

2013. Disponível em: <https://www.revistaensinosuperior.gr.unicamp.br/ artigos/narrativa-transmidia-e- a-educacao-panorama-e-perspectivas> Acesso em: 15 out. 2018. 9 Neologismo traduzido de gamification.

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João Carlos MASSAROLO ▪ Gustavo PADOVANI cognitivos nas estratégias de gamificação, transformando a cultura

João Carlos MASSAROLO Gustavo PADOVANI

cognitivos nas estratégias de gamificação, transformando a cultura participativa num espaço de midiatização política.

Descrença na democracia, crença no algoritmo

Um acontecimento, em sua instância epistemológica, pode ser compreendido como processo que culmina no fim de algo e no começo de algo novo, uma fenda no tempo na qual a humanidade identifica seus processos de mudanças. Como indica Deleuze e Guattari (2003), há sempre “uma parte de acontecimento, irredutível aos determinismos sociais, e as séries casuais” (DELEUZE e GUATTARI, 2003, p. 215), ou seja, há sempre um resultado que se torna um movimento aberrante, gestado por uma origem comum, mas nascido com uma face completamente estranha aos traços que reconhecíamos. Alguns anos após as manifestações ocorridas em junho 2013, os acontecimentos no país naquele momento assumem um papel central na compreensão das configurações políticas presentes no país. Sua abrangência e intensidade, iniciaram como uma reinvindicação a respeito de 20 centavos da passagem no estado de São Paulo, mas logo canalizaram uma insatisfação de pautas transindividuais que simbolizavam o acúmulo de diversos anos de questões abertas pelo governo. Impulsionada pela atuação dos ativistas, as redes e as ruas, encontraram uma sinergia através da necessidade de uma mobilização urgente que, em pouco tempo, geraram milhares de manifestações pelo país. Essas manifestações colocaram em cheque o papel das principais instituições, dentre as quais, a mídia corporativa, cujas manifestações foram impulsionadas por “uma cobertura criminalizada das manifestações, que dava ênfase ao vandalismo e aos distúrbios ao trânsito” (ALZAMORRA; RODRIGUES, 2014, p.7) e com opiniões que desqualificavam os atos - como o editorial do Arnaldo Jabor no Jornal da Globo e a pesquisa realizada ao vivo com os telespectadores a respeito do uso de violência nas manifestações proposto pelo apresentador José Luiz Datena no programa Brasil Urgente. Todas essas narrativas foram questionadas pela massiva produção de vídeos, fotos e lives realizados por usuários ou coletivos coordenados como a Mídia Ninja e, aos poucos, a grande mídia passou a responder dinamicamente a essa lógica in loco imposta pelos usuários que se dedicavam ao ativismo. Essa importância das plataformas nas manifestações e sua respectiva troca de conteúdos com a grande mídia, configurou-se em 2013 com um acontecimento discursivo transmídia: um grande fluxo de participação entre midiativistas e a grande mídia em torno de uma mesma narrativa, em que

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Universidade Federal da Paraíba

PLATAFORMAS ELEITORAIS, JORNALISMO TRANSMÍDIA E AS ELEIÇÕES 2018 NO BRASIL

cada plataforma, concedia em seus conteúdos uma contribuição para uma compreensão melhor dos acontecimentos. Essa forma de produção de conteúdo e a midiatização das manifestações, transformaram o cenário político nacional. Em um primeiro momento, esse levante ocasionou um descontentamento direto em relação a, então presidente, Dilma Rousseff, pois seu governo “viu suas taxas de aprovação derreterem ao mesmo tempo que falhava em propor políticas de remobilização produtiva, intensificando a crise econômica” (CAVA e COCOO, 2018, p.101). Essa crise também se refletia e servia como argumento discursivo para fortalecer o surgimento de diversos movimentos que se contrapuseram a narrativa e a agenda progressista do governo do Partido dos Trabalhadores (PT), criando assim, uma rede antipetismo fortalecida por grupos como o Movimento Brasil Livre (MBL), Vem pra Rua e Revoltados Online.

Como observa Alves, essa agenda afunilou-se ainda mais para um anti-esquerdismo no qual a negação das políticas do governo petista ou elementos dispersos que atravessem os tons da esquerda, tornou-se o elemento “identitário mais enfatizado por estes agentes, muito mais do que uma tentativa de construção de imagem coletiva que represente um “nós” coeso, com objetivos e modus operandi claros” (ALVES, 2016, p. 168). Esse levante já se refletiu na acirrada eleições 2014, no qual Dilma Roussef e Aécio Neves disputaram o segundo turno e a, então presidente, manteve seu mandato por uma diferença de 3 milhões de votos. O impeachment da Dilma ocorrido em agosto de 2016 e a prisão do ex-presidente Lula em abril de 2018, materializam em parte, os desejos políticos provenientes da força da oposição que essas conclamações em rede fizeram somada à oposição dos diversos partidos que se articularam. O impeachment da Dilma, pelo campo progressista, é lido como um “golpe” arquitetado por significar a articulação de diversos segmentos da sociedade e de políticos para desqualificar as ações do governo, principalmente, por levar em conta diversas ações e não apenas a “pedalada fiscal” realizada por ela e por outros políticos brasileiros 10 . A prisão de Lula também aparece em grande parte questionada pela esquerda devido à suas acusações complexas no qual há um debate sobre as provas que o incriminam (as reformas, a visita ao imóvel e um documento rasurado), como demonstram algumas análises de pesquisadores e professores de direito.

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João Carlos MASSAROLO ▪ Gustavo PADOVANI Independente do espectro político citado, ambos os fatos são

João Carlos MASSAROLO Gustavo PADOVANI

Independente do espectro político citado, ambos os fatos são sintomas diretos que influenciaram na inconfiabilidade que o sistema democrático contemporâneo exibe. Em um universo permeado por fake news, militância em diversos espectros políticos e as denúncias de corrupção ocorridas pela investigação pela lava-jato, o contemporâneo exibe uma crise no sistema democrático, acontecimento esse também observado por autores como Negri e Hardt (2012), Castells (2013) e Cava e Cocco (2018) não somente no Brasil, mas em diversos países do mundo.

Plataformas eleitorais e a educação política

Com a chegada do período eleitoral no Brasil, diversas plataformas de escolha eleitoral 11 foram criados para poder entregar aos usuários dados personalizados que facilitem as escolhas de sua preferência em relação aos candidatos. De forma geral, essas plataformas tentam estabelecer uma relação direta observada em outras aplicações de uso semelhante como, por exemplo, os aplicativos de relacionamento (Tinder e OkCupid, entre outros), de tal forma que os dados inseridos na plataforma possibilitem gerar uma espécie de “match” (uma combinação possível entre as duas pontas, no caso, entre candidato e eleitor) com porcentagens que indiquem as relações de afinidades entre o repertório cognitivo do usuário/eleitor e do candidato de sua preferência.

Figura 1. Tabela de plataformas desenvolvidas para avaliar os candidatos eleitorais

Nome

Desenvolvedores

Funções

 

Catraca

Análise de alinhamento entre opiniões do usuário e propostas/pensamentos senadores, deputados estaduais e federais de acordo com respostas do usuário

Tem meu

Livre

Voto

Link de acesso

Sintonia

G1

Análise de alinhamento entre opiniões dos usuários e dos candidatos à presidência de acordo com respostas do usuário

Eleitoral

Link de acesso

11 No Brasil, as aplicações educativas eleitorais surgiram nas eleições de 2016. No entanto, a maioria dos aplicativos ofereciam informações apenas sobre o processo eleitoral, sem focar no perfil dos candidatos. Para maiores informações: <https://www.gazetadopovo.com.br/vida-publica/eleicoes/2016/aplicativos-

para-android-e-iphone-colocam-as-eleicoes-no-celular-conheca-os-apps-ejsqg5o7v9cy5elaii762y63a/>

Acesso em: 15 out. 2018.

PLATAFORMAS ELEITORAIS, JORNALISMO TRANSMÍDIA E AS ELEIÇÕES 2018 NO BRASIL

Jogo Eleitoral

 

G1

Análise de alinhamento entre os usuários e dos candidatos à governador através de questionários

Link de acesso

Quem eu

 

G1

Reunião de informações filtráveis pelo usuário para conhecer melhor os candidatos à deputados federais e estaduais

escolho?

 

Link de acesso

Match

 

Folha de SP

Análise de alinhamento entre opiniões do usuário e propostas/pensamentos deputados federais e senadores de acordo com respostas do usuário

Eleitoral

 

Link de acesso

Me

 

Fundación Alvina /Altec / Omydiar Network / Tini e Guimarães Advogados

Filtro de alinhamento entre características dos candidatos à deputados estaduais, federais e senadores.

Representa

Link de acesso

Calculadora

 

O Iceberg

Análise de alinhamento entre opiniões de usuário e porcentagem de afinidade com todos os candidatos à presidência

de Afinidade

 

Eleitoral

Link de acesso

Partidômetro

O Iceberg

Análise de alinhamento entre opiniões de usuário e porcentagem de afinidade com todos os candidatos à deputados

das eleições

para deputado

Link de acesso

Voz Ativa

 

Rede de Advocacy / Universidade Federal de Campina Grande / Dado Capital

Filtro de alinhamento entre respostas e características dos candidatos e deputados estaduais, senadores.

Link de acesso

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João Carlos MASSAROLO ▪ Gustavo PADOVANI Vigie Aqui Reclame Aqui App e extensão que identifica

João Carlos MASSAROLO Gustavo PADOVANI

Vigie Aqui

Reclame Aqui

App e extensão que identifica fotos e nomes de políticos condenado, processado ou investigado aparecer.

Link de acesso

Fonte: Autores

tal como: Voz Ativa,

Partidômetro das eleições para deputado, Calculadora de Afinidade Eleitoral, Match Eleitoral, Sintonia Eleitoral, Jogo Eleitoral e Tem Meu Voto, organizam

os resultados como um Quiz, através de um questionário que pode variar de 1 a 20 perguntas. Neste sentido, é importante frisar que na montagem do questionário de um Quiz são utilizadas variáveis que apresentam pontos de vista extremos dos candidatos, com o objetivo de dificultar a resolução do problema. No entanto, essa estratégia comumente utilizada nos Quiz pode enviesar a resposta do usuário/eleitor e prejudicar a seleção e escolha do seu candidato. Essas plataformas geralmente analisam todas as respostas às perguntas efetivadas pelos usuários para depois ofertar como resultado um display com as fotos de todos os candidatos que podem ser deputados estaduais, deputados federais, senadores, governadores e presidente, organizados por uma porcentagem de match baseado nas respostas oferecidas. No entanto, os procedimentos de avaliação, apresentação de resultados e design de suas funcionalidades são diferentes e inferem na comunicação com o usuário.

O Match Eleitoral 12 desenvolvido Folha de São Paulo, por exemplo,

realiza questões como “O Casamento deve ser sempre entre homens e mulheres?”. Abaixo da pergunta o candidato pode selecionar entre duas opções de resposta: o quanto ele endossa essa frase (concordo totalmente / discordo totalmente / concordo parcialmente / discordo parcialmente ) e o quanto esse tema tem importância para a escolha do candidato ( nada importante / um pouco importante / muito importante ). Esse filtro duplo de respostas possibilita que os algoritmos da plataforma possam entender melhor não só como essa questão aparece para o candidato político, mas também para

Uma

grande

parte

dessas

plataformas,

12 Disponível em: https://matcheleitoral.folha.uol.com.br/ Acesso em: 10.10.2018

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ajustar o grau de afinidade entre representante e representado e diminuir a possibilidade de empates, o match é ponderado pelo nível de importância que o eleitor atribui ao tema” 13 . Após responder todas as perguntas, um grande mural com diversas fotos que identificam os candidatos e seus partidos, apresentados em ordem decrescente, ou seja, organizando-se de tal forma a apresentar primeiro os indivíduos que possuem mais afinidade com o usuário até aqueles que possuem menos afinidades. O usuário também consegue acessar em cada uma das fotos, uma segunda página com informações sobre os candidatos, podendo descobrir também de qual partido ele já fez parte, como ele respondeu cada pergunta que foi feita previamente ao candidato e também sua declaração de bens e seu respectivo detalhamento.

Figura 2. Resultado da plataforma Match Eleitoral e seus resultados

Resultado da plataforma Match Eleitoral e seus resultados Como metodologia para elaboração do Match Eleitoral, os

Como metodologia para elaboração do Match Eleitoral, os pesquisadores da Datafolha entraram em contato com 35 partidos, solicitando os nomes e contatos de seus candidatos. Após esse levantamento inicial foi enviado aos candidatos 80 perguntas elaboradas previamente com

13 Disponível em: https://matcheleitoral.folha.uol.com.br/ Acesso em: 10.10.2018

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João Carlos MASSAROLO ▪ Gustavo PADOVANI usuários e outros estudos estatísticos e depois de uma

João Carlos MASSAROLO Gustavo PADOVANI

usuários e outros estudos estatísticos e depois de uma triagem, se transformaram em 20 perguntas. Os códigos da plataforma são abertos e permitem uma atualização constante sem precisar de alterações estruturais com novas informações. No caso da plataforma Voz Ativa, 14 os resultados são dispostos e criados de uma forma diferente. Dividido em cinco temas “Meio Ambiente”, “Direitos Humanos”, “Integridade e Transparência”, “Nova Economia” e “Transversal”, cada um desses tópicos dá acesso a 10 perguntas nas quais o usuário pode responder entre “a favor”, “não sei” e “contra”. Com perguntas mais específicas como “Incentivos e subsídios para a fabricação e aquisição de carros elétricos no Brasil”, a plataforma também conta com um recurso que auxilia o usuário a entender mais sobre a pauta no qual ele está sendo exposto. Logo abaixo da afirmação há um botão escrito “O que é isso?”: ao clicar nele, surge uma explicação breve sobre o tema ou sobre a expressão que está em jogo na afirmação. No caso do meio ambiente selecionado, a explicação é a seguinte: “O Governo Federal lançou em julho deste ano, o Rota 2030, novo regime de benefícios para o setor automotivo. Entre outras medidas, prevê a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) de veículos elétricos ou híbridos.” Como metodologia, a plataforma Voz Ativa realizou 46 perguntas com os candidatos e cruza essas mesmas respostas com as opções dos usuários, mas não são especificadas as condições de como ocorreu esse contato. No entanto, ela também oferece seus dados abertos para que possam ser checado16 como se efetivou o desenvolvimento de programação da plataforma. A plataforma também oferece um diferencial: os resultados não são ofertados de uma vez apenas quando o usuário preenche todas as perguntas, mas as porcentagens são reconfiguradas imediatamente a cada resposta individual do usuário. Além de mostrar uma transparência maior do processo, essa operação ajuda a atender todo o caminho lógico das perguntas, possibilitando que o usuário veja qual é a importância que cada pergunta tem no processo. Por outro lado, essa lógica também possibilita que o usuário volte atrás para conceder outra resposta a um item já respondido, alterando assim, a disposição dos candidatos em questão que mais combinam com sua opinião. A plataforma Me Representa 15 faz outro tipo de filtragem dos resultados da enquete sobre os candidatos. Ao selecionar a opção “sou

14 Disponível em: http://www.vozativa.org/sobre Acesso em: 10.10. 2018 15 Disponível em: http://merepresenta.org.br/faq Acesso em: 10.10.2018

PLATAFORMAS ELEITORAIS, JORNALISMO TRANSMÍDIA E AS ELEIÇÕES 2018 NO BRASIL

eleitor”, o usuário é convidado a responder “O que é importante para você?” e sua resposta pode ser feita em nove blocos temáticos nos quais ele pode selecionar um ou todos simultaneamente – entre eles, as temáticas “LGBT”, “Raça”, “Gênero”, “Povos Tradicionais e Meio Ambiente”, “Trabalho, Saúde e Educação”, “Segurança e Direitos Humanos”, “Corrupção”, “Drogas” e “Migrantes”. Depois do resultado prévio, a plataforma concede ao usuário a opção de utilizar filtros para poder identificar os candidatos por “cargo” (deputado estadual, deputado federal e senador), por “identidade” (“Mulher”, “Negro”, “Indígena” e “LGBT”) e “partido” (uma lista com 35 partidos). As opções temáticas de importância, os filtros e o discurso da plataforma, demarcam bem o caráter militante do quiz , e tem como objetivo

oferecer

às “leitoras e eleitores a candidaturas que valorizam os direitos

humanos”, se apresentando como uma “ONG formada por coletivos de

mulheres, pessoas negras e LGBT+ que buscam promover igualdade de

gênero, luta antirracista e respeito à diversidade sexual e à identidade de

gênero na política ”.

Figura 3. Imagem da plataforma Voz Ativa e seu sistema gradual de revelar os resultados

Voz Ativa e seu sistema gradual de revelar os resultados Utilizando uma lógica colaborativa 1 6
Voz Ativa e seu sistema gradual de revelar os resultados Utilizando uma lógica colaborativa 1 6

Utilizando uma lógica colaborativa 16 , Me Representa convida os

usuários e os políticos para cadastrarem-se e buscar informações sobre os

16 Disponível em:

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João Carlos MASSAROLO ▪ Gustavo PADOVANI representantes para além das oferecidas pelo Tribunal Superior Eleitoral

João Carlos MASSAROLO Gustavo PADOVANI

representantes para além das oferecidas pelo Tribunal Superior Eleitoral

(TSE).
(TSE).

Foram realizadas 22 perguntas baseadas em 9 eixos temáticos para os

candidatos com intuito de entender seu posicionamento, mas além disso,

foram criadas filtragens baseadas em cinco componentes:

candidata/o segundo seu posicionamento frente às 22 pautas de direitos

o posicionamento da candidata/o frente às pautas relacionadas

aos 3 temas prioritários selecionados pela candidatura, os temas prioritários escolhidos pelo eleitor/a visualizando a plataforma; os bônus relacionados ao perfil identitário da candidata/o e a nota da coligação (ou partido quando não há coligação).

humanos;

avaliação da

a
a
quando não há coligação). humanos; avaliação da a O projeto Quem eu Escolho? 1 7 criada

O projeto Quem eu Escolho? 17 criada pelo G1 se apresenta como um

infográfico 18 , utilizando a mesma lógica dos filtros da plataforma Me

Representa, mas com um número maior de opções e outros dados para

serem filtrados: “Gênero”, “Ocupação”, “Grau de Instrução”, “Partido”,

“Patrimônio” (indicado de uma barra que vai de 0 a 8 milhões), “Bandeira”

(29 opções de temáticas que o candidato defende, como “Meio Ambiente”,

“Educação” e outras) e Área de Atuação” (que indica em qual região o

candidato já atuou). Ao clicar dentro da foto de cada candidato, as opções

relacionadas no filtro aparecem para confirmar os resultados obtidos. No

entanto, a iniciativa não apresenta sua metodologia ou como foram coletadas

as informações que se apresentam, apenas oferecem links para outros

infográficos especiais criados pelo G1 e para poder fazer comentários.

A extensão Vigie Aqui, por sua vez, oferece um caráter operacional

diferenciado: ao invés de propor um questionário, ele funciona como um plugin para navegadores da web (Chrome, IE ou Mozilla) ou um aplicativo para celular. No navegador, toda vez que o nome de um político aparece no texto, a plataforma sublinha a palavra de roxo e ao passar o mouse, o usuário consegue identificar quais processos estão em curso, concluídos ou quais acusações que o candidato ou político está sendo indiciado. Em sua versão em aplicativo, ao utilizar a câmera do celular em cima de uma foto, o app consegue identificar os mesmos dados e trazer essas mesmas informações.

os mesmos dados e trazer essas mesmas informações. Em sua metodologia, o Vigie Aqui se utiliza

Em sua metodologia, o Vigie Aqui se utiliza não se uma pesquisa

ativa, mas de um cruzamento de dados das fotos ou dos nomes dos políticos com os dados levantados baseado em “informações oficiais pulverizadas em diversas instâncias de tribunais, como STF, STJ, TJs e

17 Disponível em: <https://falecomog1.globo.com/> Acesso em: 10.10.2018 18 Disponível em: <http://especiais.g1.globo.com/es/espirito-santo/eleicoes/2018/quem-eu- escolho/>Acesso em: 10.10.2018

PLATAFORMAS ELEITORAIS, JORNALISMO TRANSMÍDIA E AS ELEIÇÕES 2018 NO BRASIL

TRFs. Processos sob sigilo de Justiça não são exibidos, uma vez que não constam na base de dados oficial dos tribunais19 . Diante das estratégias apresentadas pelas plataformas de escolha eleitoral, pode-se questionar o sentido do aparecimento repentino de aplicativos do gênero. Além do viés tecnológico que indica uma forma de trazer soluções personalizadas ao usuário, há de se questionar as relações assimétricas entre as metodologias empregadas e a possível criticidade em relação aos candidatos. Como foi constatado nas eleições 2018, mais de 50% das cadeiras de deputados estaduais e federais foram alteradas 20 por novas candidaturas, o que indica uma percepção de insatisfação sobre o estado das coisas. No entanto, as plataformas de escolha eleitoral não fornecem dados concretos sobre a qualidade e os parâmetros decisórios para o usuário em suas decisões em relação a essas questões. Nesta perspectiva, compreende-se que as plataformas de escolha eleitoral são focadas na educação política, no sentido mais amplo do termo, e essa prática promove uma clivagem e curadoria de dados personalizada disposta a ajudar os usuários na tomada de decisão. Os usuários estão em constante prontidão e recebem informações das mais diversas plataformas, que conectam “entre nós e nexus, num roteiro multilinear, multissequencial e labiríntico que ele próprio ajudou a construir ao interagir com os nós entre palavras, imagens, documentação, músicas, vídeos etc.” (SANTAELLA, 2004, p.24). A ubiquidade midiática contemporânea em rede exerce uma grande influência na constituição de espectros políticos de um cidadão, tal como as mídias convencionais (televisão, rádio e jornal, entre outras) já exerceram e ainda exercem. Esse processo também se constitui nas bolhas discursivas criadas nos ambientes das plataformas sociais e, portanto, sujeitas às regulações e estratégias que impulsionam a circulação tanto em função do valor que é investido para a recepção de certos conteúdos, assim como em relação à retroalimentação de dados via algoritmos que fornecem a essas bolhas as condições para que os usuários encontrem seus lanços sociais que o fazem se sentir confortáveis. Em um outro espectro, é possível entender que a escolha e seleção de um candidato nem sempre é um processo racional, mas uma conflituosa mobilização de subjetividades em rede. Safatle (2018) observa que a política não se estrutura meramente em uma dimensão argumentativa de ideias,

19 Disponível em: <http://www.vigieaqui.com.br/detectordefichadepolitico> Acesso em: 10.10.2018 20 Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45780660> Acesso em: 09.10.2018

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João Carlos MASSAROLO ▪ Gustavo PADOVANI mas “trata -se da mobilização de afetos, que, por

João Carlos MASSAROLO Gustavo PADOVANI

mas “trata-se da mobilização de afetos, que, por sua vez, expressam adesões a formas de vidas distintas e conflituais. Você não argumenta contra afetos, mas os desconstitui. É um processo diferente 21 .” Nesse aspecto, em um ambiente cercado de fake news, debates, imagens modificadas, vídeos editados, memes e milhares de links com informações que atuam de forma cacofônica, levam o usuário a uma organização ou a uma lógica de absorção dessas informações em uma dimensão afetiva, tornando-o um curador automático das camadas de um mundo discursivo que ele deseja atuar, sentir e dialogar. Dotado dessas informações, os usuários e produtores de conteúdo, atuam na confecção de materiais que possam, a um só tempo, impactar e mobilizar pelo afeto, trazendo à tona traços de identificação e o medo imputando ao sujeito tanto da recordação de sua responsabilidade perante às urnas, como perante aos impactos das publicações de discursos contrários aos seus próprios anseios por outros usuários que ele tem mais ou menos contatos em redes sociais. Esse talvez seja o principal efeito decorrente da seleção e escolha de um candidato, pois como observa Safatle, “o medo como afeto político central é indissociável da compreensão do indivíduo, com seus sistemas de interesse e suas fronteiras a serem continuamente defendidas, como fundamento para os processos de reconhecimento” (SAFATLE, 2015, p.17).

Conclusões

O jornalismo multiplataforma estimula a criação intensiva de

conteúdo, ao mesmo tempo em que, oferece uma gama ilimitada de soluções e serviços que promovem a interação entre eles. Neste processo, as

plataformas sociais canalizam ou transfiguram vontades políticas em figuras de subjetividades, como nas revoltas na Islândia, Espanha, Estados Unidos, Coréia do Sul, Síria, Egito e Brasil. Essas figuras de subjetividades, como apontam Negri e Hardt (2012), são os canais potentes do ativismo, agrupando diversos discursos em subjetividades em rede, configurando-as para operar no cerne das guerras culturais.

As operações desencadeadas nas plataformas sociais se fazem sentir

também no campo político, social e histórico. Neste sentido, um dos maiores desafios que se impõe aos usuários das plataformas sociais consiste em criar as condições para uma existência política possível, que lhe permita interagir com a dinâmica dos filtros-bolhas, procurando “romper essa esfera para

PLATAFORMAS ELEITORAIS, JORNALISMO TRANSMÍDIA E AS ELEIÇÕES 2018 NO BRASIL

observar e participar, em um exercício livre de alteridade, outras bolhas que não sejam a sua” (MASSAROLO & PADOVANI, 2018, p.587). No entanto, se faz necessário análises complementares de caráter qualitativo e/ou quantitativo junto a usuários para verificação das reais influências das aplicações educativas. Em termos de funcionamento operacional, algumas plataformas optaram por filtros mais simples que conduzem o usuário para um sistema de escolha que, muitas vezes corrobora pontos de vista existentes e outras, certifica propostas e vontades políticas que já são conhecidas pelo usuário/eleitor como, por exemplo, os filtros utilizados nas plataformas Me

Representa e Quem eu escolho?. Na plataforma Voz Ativa, a revelação em

tempo real das reconfigurações encontradas a cada mudança ajuda o usuário

a compreender como esse processo impacta em cada uma das respostas.

Este trabalho procurou analisar a metodologia empregada nos Quiz com o objetivo de verificar a lógica de escolhas implementadas dentro dos dispositivos. Uma das conclusões que emergem deste estudo pressupõe, entre outras coisas, que as plataformas de escolha eleitoral trabalham com variáveis que representam pontos de vista extremos dos candidatos, com o objetivo de destacar suas ideias e propostas. No entanto, resta averiguar se

esta perspectiva não enviesa as respostas sobre o perfil dos candidatos, bem como a relação assimétrica entre os candidatos que já são conhecidos do grande público e os estreantes na política, haja visto a renovação de bancadas e o número de partidos considerados inexpressivos que saíram como vencedores nas eleições 2018.

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Research, V. 8, Número 1. 2012. p. 201. ALZAMORRA, Geane. RODRIGUÉS, Tacyana. “Fora Rede Globo”: a representação televisiva das “Jornadas de Junho” em conexões intermídia In: REVISTA ECOPÓS COMUNICAÇÃO E CONFLITOS POLÍTICOS | V. 17 | N. 1 | 2014 ANDERSON, C. A Cauda Longa: do mercado de massa para o mercado de nicho. Tradução Afonso Celso da Cunha Serra. Rio de Janeiro: Elsevier, 2006. ALVES, M. Vai pra Cuba! - A Rede Antipetista na eleição de 2014. (Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação), Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro, 2016. BOSCO, Francisco. A Vítima tem sempre razão? Lutas identitárias e o novo espaço público brasileiro. São Paulo: Todavia, 2017.

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João Carlos MASSAROLO ▪ Gustavo PADOVANI CASTELLS. Redes de indignação e esperança : Movimentos sociais

João Carlos MASSAROLO Gustavo PADOVANI

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Universidade Federal da Paraíba