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NOTA TÉCNICA

Inconsistência dos vetos à Lei nº 13.869/2019 – Lei de Abuso de Autoridade

CONSELHO FEDERAL DA OAB

O Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil - CFOAB vem


apresentar considerações na presente NOTA TÉCNICA acerca da inconsistência dos vetos
promovidos pelo Exmo. Sr. Presidente da República acerca da Lei de Abuso de Autoridade,
Lei nº 13.869/2019.

Para melhor visualização, considerando a ausência de substrato teórico-


normativo dos vetos apresentados, este Conselho Federal apresenta o quadro abaixo com as
razões que afastam as justificativas formuladas:

Dispositivo Razões do veto Inconsistência


Artigo 3º - Os crimes A ação penal será sempre A motivação do veto não
previstos nesta Lei são de pública incondicionada, apresenta nenhuma razão
ação penal pública salvo quando a lei plausível, seja de ordem
incondicionada. expressamente declarar o jurídica, seja política.
§ 1º Será admitida ação contrário, nos termos do Não se argumenta com
privada se a ação penal art. 100 do Código Penal, qualquer hipótese de
pública não for intentada logo, é desnecessária a inconstitucionalidade ou
no prazo legal, cabendo ao previsão do caput do ofensa ao interesse público.
Ministério Público aditar dispositivo proposto. Ao contrário, é comum e
a queixa, repudiá-la e Ademais, a matéria, correta regulamentação
oferecer denúncia quanto à admissão de ação específica da legitimidade
substitutiva, intervir em penal privada, já é para a propositura da ação
todos os termos do suficientemente tratada na penal.
processo, fornecer codificação penal vigente, De outro lado, não se
elementos de prova, devendo ser observado o apresentou nenhum prejuízo
interpor recurso e, a todo princípio segundo o qual o decorrente da normatização
tempo, no caso de mesmo assunto não constante originalmente no
negligência do querelante, poderá ser disciplinado projeto de lei.
retomar a ação como parte em mais de uma lei, nos
principal. termos do inciso IV do art.
§ 2º A ação privada 7º da Lei Complementar
subsidiária será exercida 95, de 1998. Ressalta-se,
no prazo de 6 (seis) ainda, que nos crimes que
meses, contado da data em se procedam mediante
que se esgotar o prazo ação pública
para oferecimento da incondicionada não há
denúncia. risco de extinção da
punibilidade pela
1
decadência prevista no
art. 103 cumulada com o
inciso IV do art. 107 do
CP, conforme precedentes
do STF (v.g. STF. RHC
108.382/SC. Rel. Min.
Ricardo Lewandowski.
T1, j. 21/06/2011).

Artigo 5º, inciso III - A propositura legislativa, Ao contrário da motivação


proibição de exercer ao prever a proibição apresentada, a regra é de
funções de natureza apenas àqueles que indiscutível interesse público,
policial ou militar no exercem atividades de na medida em que assegura o
Município em que tiver natureza policial ou distanciamento do autor do
sido praticado o crime e militar no município da fato e da vítima como sanção
naquele em que residir ou pratica do crime e na restritiva de direito.
trabalhar a vítima, pelo residência ou trabalho da Não há qualquer infração ao
prazo de 1 (um) a 3 (três) vítima, fere o princípio princípio constitucional da
anos. constitucional da isonomia, tratando-se de
isonomia. Podendo, medida adequada,
inclusive, prejudicar as proporcional e que atende às
forças de segurança de especificidades das partes
determinada localidade, a envolvidas.
exemplo do Distrito Além disso, a sanção é apenas
Federal, pela proibição do uma entre as três hipóteses
exercício de natureza previstas, ou seja, a
policial ou militar. autoridade judicial
certamente fará a devida
ponderação das
circunstâncias do caso
concreto para fixar a sanção
de forma individualizada.
Ressalte-se, por fim, que a
regra se aplicará após o
trânsito em julgado da
condenação após regular
tramitação do processo
criminal, com respeito à
ampla defesa e ao
contraditório.

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Artigo 9º - Decretar A propositura legislativa, A motivação é absolutamente
medida de privação da ao dispor que se constitui improcedente.
liberdade em manifesta crime 'decretar medida de A tipificação dessa conduta
desconformidade com as privação da liberdade em representou uma restrição
hipóteses legais: manifesta punitiva em relação art. 350
Pena - detenção, de 1 (um) desconformidade com as do Código Penal:
a 4 (quatro) anos, e multa. hipóteses legais', gera Art. 350 - Ordenar ou
Parágrafo único. Incorre insegurança jurídica por executar medida privativa de
na mesma pena a se tratar de tipo penal liberdade individual, sem as
autoridade judiciária que, aberto e que comportam formalidades legais ou com
dentro de prazo razoável, interpretação, o que abuso de poder: Pena -
deixar de: poderia comprometer a detenção, de um mês a um
I - relaxar a prisão independência do ano.
manifestamente ilegal; magistrado ao proferir a Parágrafo único - Na mesma
II - substituir a prisão decisão pelo receio de pena incorre o funcionário
preventiva por medida criminalização da sua que:
cautelar diversa ou de conduta. I - ilegalmente recebe e
conceder liberdade recolhe alguém a prisão, ou a
provisória, quando estabelecimento destinado a
manifestamente cabível; execução de pena privativa de
III - deferir liminar ou liberdade ou de medida de
ordem de habeas corpus, segurança;
quando manifestamente II - prolonga a execução de
cabível. pena ou de medida de
segurança, deixando de
expedir em tempo oportuno
ou de executar imediatamente
a ordem de liberdade;
III - submete pessoa que está
sob sua guarda ou custódia a
vexame ou a constrangimento
não autorizado em lei;
IV - efetua, com abuso de
poder, qualquer diligência.

É fácil perceber que o tipo


penal do crime previsto no
art. 350, ‘caput’, era mais
aberto que o atual, alterando-
se os elementos normativos
antigos “sem as formalidades
legais” e "com abuso de
poder” para o atual “em
manifesta desconformidade
3
com as hipóteses legais”, que,
a toda evidência, passava a
restringir a criminalização
aos abusos indiscutíveis,
exigindo-se uma decisão
judicial de ilegalidade
manifesta, inquestionável, e
não mais a mera prisão sem as
formalidades legais.
Vale destacar que o tipo penal
procura oferecer a necessária
concretização à garantia
constitucional descrita pelo
art. 5º, LXV (a prisão ilegal
será imediatamente relaxada
pela autoridade judiciária).

Artigo 11 - Executar a A propositura legislativa, A regra vetada significava um


captura, prisão ou busca e ao dispor sobre a importante limite à atuação
apreensão de pessoa que criminalização de dos agentes públicos de
não esteja em situação de execução de captura, segurança, com a finalidade
flagrante delito ou sem prisão ou busca e de tutelar a garantia
ordem escrita de apreensão de pessoa que fundamental do direito de
autoridade judiciária, não esteja em situação de liberdade, que pode ser
salvo nos casos de flagrante delito gera relativizado apenas nas
transgressão militar ou insegurança jurídica, hipóteses constitucionalmente
crime propriamente notadamente aos agentes previstas.
militar, definidos em lei, da segurança pública, Trata-se de norma que se
ou de condenado ou tendo em vista que há destinava à imposição de um
internado fugitivo: situações que a flagrância claro dever de respeito ao
Pena - detenção, de 1 (um) pode se alongar no tempo direito de liberdade dos
a 4 (quatro) anos, e multa. e depende de análise do cidadãos, que não pode no
caso concreto. Ademais, a Estado de Direito sofrer
propositura viola o qualquer tipo de cerceamento
princípio da além das hipóteses legalmente
proporcionalidade entre o estabelecidas.
tipo penal descrito e a Vale destacar, ainda, que o
pena cominada. tipo penal procura oferecer a
necessária concretização à
garantia constitucional
descrita pelo art. 5º, LXI
(ninguém será preso senão em
flagrante delito ou por ordem
escrita e fundamentada de
4
autoridade judiciária
competente, salvo nos casos de
transgressão militar ou crime
propriamente militar,
definidos em lei).

Art. 13, inciso III - III - A propositura legislativa Não há justificativa plausível,
produzir prova contra si gera insegurança jurídica, pois o tipo penal vetado
mesmo ou contra terceiro: pois o princípio da não apenas reproduz de forma
Pena - detenção, de 1 (um) produção de prova contra expressa importante e
a 4 (quatro) anos, e multa, si mesmo não é absoluto consagrado direito
sem prejuízo da pena como nos casos em que se fundamental dos cidadãos,
cominada à violência. demanda apenas uma garantia processual
cooperação meramente assegurada pela Constituição
passiva do investigado. da República em decorrência
Neste sentido, o do art. 5º, inciso LXIII,
dispositivo proposto destacando-se, ainda, que se
contraria o sistema trata de direito reconhecido
jurídico nacional ao por todos os tratados de
criminalizar condutas direitos humanos.
legítimas, como a A motivação do veto,
identificação criminal por portanto, retira toda força
datiloscopia, biometria e normativa da garantia
submissão obrigatória de constitucional.
perfil genético (DNA) de
condenados, nos termos
da Lei nº 12.037, de 2009.

Artigo 14 - Fotografar ou A propositura legislativa, A motivação é injustificada,


filmar, permitir que ao prever como elemento na medida em que a
fotografem ou filmem, do tipo 'com o intuito de tipificação procura proteger
divulgar ou publicar expor a pessoa a vexame também e especialmente a
fotografia ou filmagem de ou execração pública', vítima de crime, exposta
preso, internado, gera insegurança jurídica indevidamente sem sua
investigado, indiciado ou por se tratar de tipo penal autorização. Além disso, nas
vítima, sem seu aberto e que comporta demais hipóteses decorre
consentimento ou com interpretação, diretamente da garantia
autorização obtida notadamente aos agentes fundamental inscrita no art.
mediante da segurança pública, 5º, inciso XLIX (é assegurado
constrangimento ilegal, tendo em vista que não se aos presos o respeito à
com o intuito de expor a mostra possível o controle integridade física e moral),
pessoa a vexame ou absoluto sobre a captação direito hoje assegurado em
execração pública: de imagens de indiciados, todos os tratados
presos e detentos e sua internacionais sobre o
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Pena - detenção, de 6 divulgação ao público por tratamento de presos sob a
(seis) meses a 2 (dois) parte de particulares ou custódia do Estado.
anos, e multa. mesma da imprensa, cuja A atividade de investigação e
Parágrafo único. Não responsabilidade criminal persecutória não sofrerá
haverá crime se o intuito recairia sobre os agentes qualquer prejuízo com a
da fotografia ou filmagem públicos. Por fim, o regra vetada, devendo ser
for o de produzir prova em registro e a captação da realizada com o pleno respeito
investigação criminal ou imagem do preso, aos direitos humanos,
processo penal ou o de internado, investigado ou sobretudo em razão da
documentar as condições indiciado poderá servir no presunção de inocência da
de estabelecimento penal. caso concreto ao interesse pessoa investigada.
da própria persecução
criminal, o que restaria
prejudicado se subsistisse
o dispositivo.

Art. 15, parágrafo único: O dispositivo proposto A motivação outra vez


Incorre na mesma pena gera insegurança jurídica menospreza a importância da
quem prossegue com o e contraria o interesse preservação das garantias
interrogatório: público ao penalizar o constitucionais do direito ao
I - de pessoa que tenha agente pelo mero silêncio, da ampla defesa e do
decidido exercer o direito prosseguimento do devido processo legal, em
ao silêncio; ou interrogatório de pessoa especial da regra específica no
II - de pessoa que tenha que tenha decidido art 5º, inciso LXIII (o preso
optado por ser assistida exercer o direito ao será informado de seus
por advogado ou defensor silêncio, embora o direitos, entre os quais o de
público, sem a presença interrogatório seja permanecer calado, sendo-lhe
de seu patrono. oportunidade de defesa, assegurada a assistência da
pode ser conveniente à família e de advogado).
pessoa o conhecimento O veto, como se depreende,
das perguntas formuladas, não argumenta com o
bem como exercer o interesse público ou com
silêncio apenas em eventual
algumas questões, inconstitucionalidade, pois,
respondendo evidentemente, trata-se de
voluntariamente às negar vigência aos comandos
demais, cuja resposta, a constitucionais, sob a
seu exclusivo juízo, lhe invocação de um modelo
favoreçam. Além disso, a processual penal inquisitório,
falta de assistência por incompatível com a
advogado ou defensor Constituição Federal e com os
público durante o tratados internacionais de
interrogatório não deve proteção dos direitos do
ser criminalizada, uma homem.
6
vez que se trata de
procedimento
administrativo de
natureza inquisitiva e não
configura falta de defesa
ao indivíduo.

Artigo 16 - Deixar de A propositura legislativa Outro veto que nega aplicação


identificar-se ou contraria o interesse concreta à expressa regra
identificar-se falsamente público pois, embora seja constitucional (Art. 5º, LXIV -
ao preso por ocasião de exigível como regra a o preso tem direito à
sua captura ou quando identificação da identificação dos responsáveis
deva fazê-lo durante sua autoridade pela prisão, por sua prisão ou por seu
detenção ou prisão: também se mostra de interrogatório policial).
Pena - detenção, de 6 extrema relevância, ainda
(seis) meses a 2 (dois) que em situações
anos, e multa. excepcionais, a admissão
Parágrafo único. Incorre do sigilo da identificação
na mesma pena quem, do condutor do flagrante,
como responsável por medida que se faz
interrogatório em sede de necessária com vistas à
procedimento garantia da vida e
investigatório de infração integridade física dos
penal, deixa de agentes de segurança e de
identificar-se ao preso ou sua família, que, não raras
atribui a si mesmo falsa vezes, têm que investigar
identidade, cargo ou crimes de elevada
função. periculosidade, tal como
aqueles praticados por
organizações criminosas.

Artigo 17 - Submeter o A propositura legislativa, O veto novamente ignora as


preso, internado ou ao tratar de forma garantias constitucionais e a
apreendido ao uso de genérica sobre a matéria, sedimentada jurisprudência
algemas ou de qualquer gera insegurança jurídica do STF enunciada na Súmula
outro objeto que lhe por encerrar tipo penal Vinculante nº 11.
restrinja o movimento dos aberto e que comporta São comuns os casos e
membros, quando interpretação. Ademais, divulgados diariamente pela
manifestamente não há ofensa ao princípio da imprensa diversas situações
houver resistência à intervenção mínima, para em que autoridades policiais
prisão, internação ou o qual o Direito Penal só algemam cidadãos
apreensão, ameaça de deve ser aplicado quando desnecessariamente, havendo,
fuga ou risco à integridade estritamente necessário, portanto, objetividade e
física do próprio preso, além do fato de que o uso segurança jurídica na
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internado ou apreendido, de algemas já se encontra legislação ao enunciar as
da autoridade ou de devidamente tratado pelo hipóteses na parte final do
terceiro: Supremo Tribunal dispositivo em que não há
Pena - detenção, de 6 Federal, nos termos da resistência à prisão, ameaça
(seis) meses a 2 (dois) Súmula Vinculante nº 11, de fuga e etc..
anos, e multa. que estabelece parâmetros Ao contrário das razões do
Parágrafo único. A pena é e a eventual veto, o dispositivo fortalece o
aplicada em dobro se: responsabilização do sistema de garantias e
I - o internado tem menos agente público que o proteção do cidadão.
de 18 (dezoito) anos de descumprir.
idade;
II - a presa, internada ou
apreendida estiver grávida
no momento da prisão,
internação ou apreensão,
com gravidez
demonstrada por
evidência ou informação;
III - o fato ocorrer em
penitenciária.

Artigo 20 - Impedir, sem O dispositivo proposto, ao A previsão de entrevista


justa causa, a entrevista criminalizar o pessoal e reservada com o
pessoal e reservada do impedimento da preso é garantia do cidadão
preso com seu advogado: entrevista pessoal e prevista na Lei Federal nº
Pena - detenção, de 6 reservada do preso ou réu 8.906/94 (art. 7º, inciso III),
(seis) meses a 2 (dois) com seu advogado, mas mas mesmo assim algumas
anos, e multa. de outro lado autorizar autoridades policiais,
Parágrafo único. Incorre que o impedimento se dê especialmente em presídios
na mesma pena quem mediante justa causa, gera federais, tem restringido esse
impede o preso, o réu insegurança jurídica por direito, e, em outros casos, até
solto ou o investigado de encerrar tipo penal aberto gravam conversa de advogado
entrevistar-se pessoal e e que comporta com seus clientes no
reservadamente com seu interpretação. Ademais, parlatório.
advogado ou defensor, trata-se de direito já O dispositivo, portanto,
por prazo razoável, antes assegurado nas Leis nºs fortalece a cidadania e o
de audiência judicial, e de 7.210, de 1984 e 8.906, de sistema de defesa das
sentar-se ao seu lado e 1994, sendo desnecessária prerrogativas dos advogados.
com ele comunicar-se a criminalização da De outro lado, a Lei nº
durante a audiência, salvo conduta do agente 13.245/2016 alterou o
no curso de interrogatório público, como no âmbito Estatuto da Advocacia e da
ou no caso de audiência do sistema Penitenciário OAB para assegurar a
realizada por Federal, destinado a isolar assistência dos advogados
videoconferência. durante o
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presos de elevada interrogatório/depoimento,
periculosidade. sob pena de nulidade da
investigação, o que torna
insubsistente a justificativa do
veto.

Inciso II do § 1º do artigo A propositura legislativa, O dispositivo vetado protege o


22 - executa mandado de ao prever como elemento cidadão contra buscas e
busca e apreensão em do tipo a 'forma ostensiva apreensões em
imóvel alheio ou suas e desproporcional', gera endereço/dependências
dependências, insegurança jurídica por alheias da ordem judicial,
mobilizando veículos, encerrar tipo penal aberto fortalecendo, portanto, a
pessoal ou armamento de e que comporta cidadania.
forma ostensiva e interpretação. Além disso, Além disso, resguarda o
desproporcional, ou de em operações policiais, o cidadão de diligências
qualquer modo planejamento da logística ostensivas que extrapolam o
extrapolando os limites da de bens e pessoas comando judicial e causam
autorização judicial, para competem às autoridades constrangimentos diversos ao
expor o investigado a da segurança pública. cidadão.
situação de vexame;
Artigo 26 - Induzir ou A propositura legislativa O dispositivo não afeta a
instigar pessoa a praticar gera insegurança jurídica atividade investigativa,
infração penal com o fim por indeterminação do tampouco reduz a capacidade
de capturá-la em flagrante tipo penal, e por ofensa ao da polícia exercer a
delito, fora das hipóteses princípio da intervenção persecução penal.
previstas em lei: mínima, para o qual o Ele delimita o tipo penal às
Pena - detenção, de 6 Direito Penal só deve ser situações de induzimento ou
(seis) meses a 2 (anos) aplicado quando instigação que em muitas
anos, e multa. estritamente necessário, vezes, na prática forense, tem
§ 1º Se a vítima é tendo em vista que a sido reconhecido pelos
capturada em flagrante criminalização da conduta Tribunais como ‘flagrante
delito, a pena é de pode afetar negatividade a preparado’, o que torna ilegal
detenção, de 1 (um) a 4 atividade investigativa, e nula a prisão.
(quatro) anos, e multa. ante a potencial incerteza
§ 2º Não configuram de caracterização da
crime as situações de conduta prevista no art.
flagrante esperado, 26, pois não raras são as
retardado, prorrogado ou vezes que a constatação
diferido. da espécie de flagrante,
dada a natureza e
circunstâncias do ilícito
praticado, só é possível
quando da análise do caso
propriamente dito,
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conforme se pode inferir
da jurisprudência do
Supremo Tribunal Federal
(v.g. HC 105.929, Rel.
Min. Gilmar Mendes, 2ª
T. j. 24/05/2011).

Parágrafo único do artigo A propositura legislativa, O dispositivo não traz


29 - Parágrafo único. ao prever como elemento insegurança jurídica, mas
Incorre na mesma pena do tipo 'informação sobre impõe pena ao agente público
quem, com igual fato juridicamente que omite dado ou informação
finalidade, omite dado ou relevante e não sigiloso', fato juridicamente relevante e
informação sobre fato gera insegurança jurídica não sigiloso que traz
juridicamente relevante e por encerrar tipo penal desdobramento no âmbito do
não sigiloso. aberto e que comporta procedimento judicial,
interpretação. Além disso, policial, fiscal ou
pode vir a conflitar com a administrativo.
Lei nº 12.527, de 2011,
(Lei de Acesso à
Informação), tendo em
vista que pode conduzir
ao entendimento pela
possibilidade de
divulgação de
informações de caráter
pessoal, as quais nem
sempre são sigilosas, mas
são protegidas por aquele
normativo.

Artigo 30 - Dar início ou A propositura legislativa A Constituição Cidadã de


proceder à persecução viola o interesse público, 1988 assegura a liberdade de
penal, civil ou além de gera insegurança manifestação e veda o
administrativa sem justa jurídica, tendo em vista anonimato (art. 5º, IV),
causa fundamentada ou que põe em risco o cabendo a todos os cidadãos
contra quem sabe instituto da delação contribuir e denunciar às
inocente: anônima (a exemplo do autoridades policiais notícia
Pena - detenção, de 1 (um) disque-denúncia), em de fato considerado crime.
a 4 (quatro) anos, e multa. contraposição ao O dispositivo em nada afeta
entendimento mecanismo de interlocução da
consolidado no âmbito da polícia com a sociedade, a
Administração Pública e exemplo de disque-denúncia e
do Poder Judiciário, na outros.
esteira do entendimento
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do Supremo Tribunal A apuração de ilícitos penais
Federal (v.g. INQ. 1.957- com base em denúncia
7/PR, Dj. 11/11/2005), de anônima é admitida pelos
que é possível a apuração Tribunais, desde que
de denúncia anônima, por contenha mínimos elementos
intermédio de apuração (justa causa) para instauração
preliminar, inquérito da persecução penal.
policial e demais medidas O que não pode ocorrer é a
sumárias de verificação manutenção de ambiente de
do ilícito, e se esta revelar ‘denuncismo’ e abertura de
indícios da ocorrência do investigações sem a devida
noticiado na denúncia, justa causa, com feitio muitas
promover a formal vezes de perseguição política e
instauração da ação penal. achincalhamento do cidadão.

Artigo 32 - Negar ao A propositura legislativa O dispositivo dá concretude à


interessado, seu defensor gera insegurança jurídica, garantia constitucional do
ou advogado acesso aos pois o direito de acesso acusado de ter conhecimento
autos de investigação aos autos possui várias prévio dos elementos
preliminar, ao termo nuances e pode ser indiciários ou de prova contra
circunstanciado, ao mitigado, notadamente, ele instaurados.
inquérito ou a qualquer em face de atos que, por Mesmo com a Súmula
outro procedimento sua natureza, impõem o Vinculante 14, do STF, é
investigatório de infração sigilo para garantir a comum a instauração de autos
penal, civil ou eficácia da instrução apartados pelas autoridades
administrativa, assim criminal. Ademais, a policiais para cumprimento
como impedir a obtenção matéria já se encontrar de diligências, bem como
de cópias, ressalvado o parametrizada pelo procedimentos sigilosos no
acesso a peças relativas a Supremo Tribunal Ministério Público que só
diligências em curso, ou Federal, nos termos da após conclusão são apensadas
que indiquem a realização Súmula Vinculante nº 14. aos autos principais da
de diligências futuras, investigação, os quais, em
cujo sigilo seja grande parte dos casos, o
imprescindível: acusado e seu defender não
Pena - detenção, de 6 tem nenhum tipo de acesso.
(seis) meses a 2 (dois) Em boa parte dos casos o
anos, e multa. advogado toma conhecimento
dos fatos pela imprensa, e não
mediante acesso e cópia dos
autos.

Artigo 34 A propositura legislativa, As razões do veto não se


Deixar de corrigir, de ao dispor que 'erro justificam, pois cabe a todo e
ofício ou mediante relevante' constitui qualquer agente público
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provocação, com requisito como condição proceder com correção e
competência para fazê-lo, da própria tipicidade, gera atender os comandos legais.
erro relevante que sabe insegurança jurídica por A expressão ‘erro relevante’
existir em processo ou encerrar tipo penal aberto traz segurança jurídica,
procedimento: e que comporta objetiva e protege eventuais
Pena - detenção, de 3 interpretação. Ademais, o falhas praticadas pelos
(três) a 6 (seis) meses, e dispositivo proposto agentes públicos, pois não é
multa. contraria o interesse qualquer tipo de ‘erro’ em
público ao disciplinar processo ou procedimento que
hipótese análoga ao crime gera nulidade e/ou manifesto
de prevaricação, já prejuízo ao cidadão.
previsto no art. 34 do
Código Penal, ao qual é
cominado pena de três
meses a um ano, e multa,
em ofensa ao inciso III do
art. 7º da Lei
Complementar nº 95 de
1998, que dispõe sobre a
elaboração, a redação, a
alteração e a consolidação
das leis, em razão do
inadequado tratamento do
mesmo assunto em mais
de um diploma
legislativo.

Artigo 35 - Coibir, A propositura legislativa O dispositivo dá concretude


dificultar ou impedir, por gera insegurança jurídica, ao direito fundamental de
qualquer meio, sem justa tendo em vista a reunião, associação ou o
causa, a reunião, a generalidade do agrupamento pacífico, na
associação ou o dispositivo, que já forma do art. 5º, XVI.
agrupamento pacífico de encontra proteção no art. As expressões ‘coibir’,
pessoas para fim legítimo: 5º, XVI, da Constituição ‘dificultar’ ou ‘impedir’ tem
Pena - detenção, de 3 da República, e que não se significado próprio e não
(três) meses a 1 (um) ano, traduz em uma possuem exegese aberta de
e multa. salvaguarda ilimitada do modo a trazer insegurança
seu exercício, nos termos jurídica, ao contrário das
da jurisprudência do razões do veto.
Supremo Tribunal
Federal, cujo
entendimento é no sentido
de que o direito à
liberdade de se reunir não
12
se confunde com incitação
à prática de delito nem se
identifica com apologia de
fato criminoso.

Artigo 38 - Antecipar o A propositura legislativa Não há ofensa à Constituição


responsável pelas viola o princípio Federal, pois o dispositivo
investigações, por meio constitucional da impõe pena ao agente público
de comunicação, inclusive publicidade previsto no que antecipa juízo de valor
rede social, atribuição de art. 37, que norteia a sem a devida conclusão da
culpa, antes de concluídas atuação da Administração persecução penal e o devido
as apurações e Pública, garante a processo legal.
formalizada a acusação: prestação de contas da A atividade investigava, em
Pena - detenção, de 6 atuação pública à regra, é sigilosa e incumbe ao
(seis) meses a 2 (dois) sociedade, cujos valores agente público proceder com
anos, e multa. da coletividade a devida discrição e evitar
prevalecem em regra juízo de culpa antecipado,
sobre o individual, nos sobretudo para evitar o
termos da jurisprudência achincalhamento público do
do Supremo Tribunal acusado antes da formação de
Federal. Por fim, a culpa em sentença transitada
comunicação a respeito de em julgado.
determinados ocorrências, A Carta Magna assegura a
especialmente sexuais ou presunção de inocência no
que violam direitos de inciso LVII, do art. 5º, razão
crianças e adolescentes, pela qual o dispositivo dá
podem facilitar ou concretude à garantia
importar em resolução de fundamental.
crimes.

Artigo 43 - A Lei nº 8.906, A propositura legislativa Não há insegurança jurídica.


de 4 de julho de 1994, gera insegurança jurídica, O dispositivo vetado limitou à
passa a vigorar acrescida pois criminaliza condutas configuração de crime apenas
do seguinte art. 7º-B: reputadas legítimas pelo a violação das prerrogativas
Art. 7º-B Constitui crime ordenamento jurídico. previstas nos incisos II, III, IV
violar direito ou Ressalta-se que as e V do EAOAB.
prerrogativa de advogado prerrogativas de O Senado Federal já aprovou
previstos nos incisos II, advogados não geram o PLS 141/2015, que altera o
III, IV e V do caput do art. imunidade absoluta, a EAOAB para tipificar as
7º desta Lei: exemplo do direito à hipóteses de violação de
Pena - detenção, de 3 inviolabilidade do prerrogativas profissionais,
(três) meses a 1 (um) ano, escritório de advocacia e a sendo esta proposta mais
e multa.' própria Lei nº 8.906, de abrangente que o dispositivo
1996, com redação dada vetado.
13
pela Lei nº 11.767, de Referido PLS foi
2008, que permite a encaminhado à Câmara dos
limitação desse direito Deputados e, também
quando o próprio aprovado, aguarda
advogado seja suspeito da apreciação no Plenário,
prática de crime, conforme PL 8347/2017.
notadamente concebido e A OAB não compactua com
consumado no âmbito desvio de conduto de seus
desse local de trabalho, inscritos, mas não pode
sob pretexto de exercício admitir a flexibilização de
da profissão, conforme prerrogativas profissionais
entendimento do Supremo em detrimento das iniciativas
Tribunal Federal (v.g. do Estado ‘Policial’ que
INQ. 2424, Rel. Min. muitas vezes investe contra os
Cezar Peluso, p., j. advogados para desvendar os
26/11/2008. delitos de seus clientes.

As razões do veto do Exmo. Sr. Presidente da República, com o devido


respeito, estão equivocadas, pelo que o Conselho Pleno do Conselho Federal da OAB, por
unanimidade, apresenta NOTA TÉCNICA contrária à manutenção das razões formuladas.

Brasília, 16 de setembro de 2019.

Felipe Santa Cruz


Presidente Nacional da OAB

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