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Quase oitenta anos após sua publicação, Casa Grande & Senzala continua sendo, ao mesmo tempo, um livro

fácil e
um livro dificílimo: fácil pelo estilo leve e coloquial de Freyre, que o coloca ao alcance de qualquer leitor médio em busca
do prazer da leitura; difícil, dificílimo, pois a própria oralidade da linguagem, e a tendência freyreana de pensar em
termos de “antagonismos em equilíbrio”, tornam Casa Grande & Senzalauma obra repleta de ambiguidades que, a
todo momento, traem e enganam um leitor acadêmico que tente “isolar” os pensamentos e opiniões de Freyre. Em Casa
Grande & Senzala, muitas vezes a afirmação vem seguida da sua negação, e vice-versa, e assim sucessivamente,
“fazendo com que a cada avaliação positiva possa se suceder uma crítica … que acaba por dar um caráter antinômico à
sua argumentação.” (Benzaquen)

No momento do seu lançamento, diz Antonio Candido, é difícil de se avaliar a enormidade do impacto da obra: “sacudiu
uma geração inteira, provocando nela um deslumbramento como deve ter havido poucos na história mental do Brasil.”
Monteiro Lobato compara sua publicação à chegada do cometa Halley – que foi muito mais impressionante em 1910 do
que em 1986, cabe dizer, ou não se entenderá a comparação. Freyre oferece uma versão totalmente nova da História do
Brasil, varre do pensamento brasileiro a noção de racismo científico e interpreta positivamente tanto a contribuição
negra quanto a mestiçagem.

Em breve, porém, acadêmicos marxistas ligados à USP, como Florestan Fernandes, Caio Prado Jr, Fernando Henrique
Cardoso, Octavio Ianni e Antonio Candido, começam uma crítica sistemática às idéias de Freyre. Nas palavras de Gabriel
Cohn, em oposição à visão patriarcal, “de cima”, mais culturalista e antropológica, de Freyre, propõem uma perspectiva
plebéia, “de baixo”, mais sociológica e econômica. À leitura de Freyre, focada na singularidade cultural e racial do Brasil,
Florestan Fernandes contrapõe uma leitura que enfatiza a participação do país nas grandes correntes históricas ligadas à
expansão do capitalismo mundial. Ainda segundo Cohn, apesar da rivalidade entre elas, essas visões seriam mais
complementares do que propriamente excludentes.

Entretanto, para debater ou refutar Freyre, primeiro era necessário defini-lo e enquadrá-lo, uma tarefa dificílima em se
tratando de um autor tão ambíguo e escorregadio, sem afiliações acadêmicas, e capaz de chamar para si quase todos os
rótulos sem jamais colar-se a eles. Carlos Guilherme Mota, por exemplo, em quase desabafo, nota que Freyre
desenvolveu uma série de “mecanismos e artifícios” para não ser facilmente localizável: se colocar como sociológo ao
mesmo tempo em que diz fazer anti-ciência; se definir como liberal, mas criticar os liberais; se afirmar um
revolucionário, mas um revolucionário conservador; e por fim, se classificar simplesmente como “escritor”, o que, de
acordo com Antonio Candido, é uma “teima” que serve apenas para indefinir suas verdadeiras coordenadas. Já pode-se
ver o enorme incômodo que Freyre causava em uma parcela da academia: Mota, ao usar a palavra “desenvolver”, e
Cândido, “teima”, praticamente sugerem que o estilo sincrético, paradoxal e iconoclasta de Gilberto Freyre seria não um
reflexo legítimo de sua personalidade, mas somente “mecanismos e artifícios”, nas palavras de Mota, propositalmente
criados para ludibriar seus adversários. Começa aqui a história das desleituras da obra de Freyre.

Com o passar dos anos, Freyre realmente sofre uma guinada conservadora: na década de sessenta, manifesta seu apoio às
ditaduras do Brasil e de Portugal e começa, enfim, a utilizar o termo “democracia racial” – originalmente criado por
Roger Bastide e que jamais aparece em Casa Grande & Senzala ou Sobrados & Mucambos. Entretanto, as posições
conservadoras posteriores de Freyre são progressivamente projetadas em seus trabalhos anteriores, até o ponto de ser
praticamente um truísmo (falso) que “Casa Grande & Senzala é o livro que
defende/começa/define/promove/apresenta/etc a tese da democracia racial”.

Entre as décadas de sessenta e oitenta, quanto mais conservador Freyre se afirma, mais a crítica marxista a ele torna-se
compreensivelmente feroz. Pode-se dizer que, durante esses anos, seu prestígio acadêmico esteve no nível mais baixo:
quando Stuart Schwartz escreve seu seminal Segredos Internos: Engenhos e Escravos na Sociedade Colonial,
seu objetivo original era simplesmente provar que “visão doce” que Freyre tinha da escravidão estava equivocada. Dante
Moreira Leite parece fazer o epitáfio intelectual de Freyre quando afirma que sua posição parecia então [1969]
inevitavelmente datada e anacrônica, identificando-o com os grupos mais conservadores e afastando-o dos intelectuais
mais criadores. E conclui: Casa Grande & Senzala entretém mas não explica e, na verdade, por sua fórmula ensaística
e universalista, encobre o problema real das relações de dominação no Brasil. Antonio Candido, como que curado do
impacto que sofreu com a obra, desdenha: Casa Grande & Senzala não é uma interpretação do Brasil, mas uma
autobiografia. Com a morte de Freyre em 1987 e a queda do muro de Berlim em 1989, entretanto, os ânimos começam a
esfriar e Freyre pôde ser lentamente apropriado pela academia.

Em 1995, estudando História do Brasil, na PUC-RJ, recordo-me perfeitamente do professor que nos apresentou a Casa
Grande & Senzala como um livro que há algum tempo não era ensinado e que “agora estava voltando”, pois era
importante para a evolução do pensamento brasileiro, embora reacionário, conservador, ultrapassado, etc. É possível que
a súbita popularidade de Freyre nessa universidade tenha se dado graças ao lançamento, no ano anterior, de Guerra e
Paz. Casa Grande & Senzala e a Obra de Gilberto Freyre nos Anos 30, por um professor da casa, Ricardo
Benzaquen de Araújo, provavelmente o melhor livro acadêmico sobre Freyre. Voltaremos ao livro de Ricardo ao final
desse ensaio; basta dizer que a década de noventa marca a “retomada freyreana”, na feliz colocação de Christopher Dunn.

Uma vasta gama de pensadores, personalidades e pesquisadores tem redescoberto e reutilizado Gilberto Freyre, desde o
ex-ministro da cultura Gilberto Gil, tentando aumentar a mestiça auto-estima nacional, até a antropóloga Yvonne
Maggie, uma das faces mais visíveis da luta contra a adoção de cotas raciais no Brasil. Apesar disso, a produção brasileira
mais recente, em livro, não parece estar à altura do tema. Gilberto Freyre e a Invenção do Brasil (2000) e Gilberto Freyre
e o Idéario Brasileiro (2005), de Roberto Cavalcanti de Albuquerque e Odilon Ribeiro Coutinho, são somente panegíricos
freirianos, listagens dos elogios que ele recebeu e respostas aos seus críticos. Pelo menos, não escondem suas lealdades:
no primeiro, o autor já afirma na orelha que foi amigo de Freyre por 30 anos e o segundo apresenta uma foto de Freyre
com o autor na contracapa. A Construção da Brasilidade. Gilberto Freyre e sua Geração (2001), pelo respeitado
historiador Vamireh Chacon, fala pouco sobre “a construção da brasilidade” mencionada no título, e contém pouca ou
nenhuma análise sobre a obra freyriana: trata-se de um estudo documental sobre o impacto e as leituras de Casa
Grande & Senzala, antologizando resenhas, correspondência e controvérsias: decepciona como trabalho acadêmico,
mas pode tornar-se uma boa fonte primária. Gilberto Freyre, Um Vitoriano nos Trópicos (2005), de Maria Lúcia
Pallares-Burke, é um trabalho acadêmico de peso mas talvez com um recorte excessivamente estreito: a influência de
autores ingleses na formação intelectual de Gilberto Freyre até Casa Grande & Senzala. Por fim, mais interessantes,
três coleções de artigos trazem contribuições inovadoras à pesquisa freyriana no século XXI: Gilberto Freyre e os
Estudos Latino-Americanos(2006), organizado por Joshua Lund e Malcolm McNee, O Imperador das Idéias.
Gilberto Freyre em Questão (2001), organizado por Joaquim Falcão e Rosa Maria Barbosa de Araújo, e a edição
crítica de Casa Grande & Senzala da Coleção Archivos (2002), organizada por Guillermo Giucci, Enrique Rodriguez
Larreta e Edson Nery da Fonseca.

Também no exterior, acadêmicos têm se debruçado sobre Gilberto Freyre, em novos livros como Colonialism and
Race in Luso-Hispanic Literature (2006), de Jerome Branche, White Negritude. Race, Writing and Brazilian
Cultural Identity (2008), de Alessandra Isfahani-Hammond e a coletânea de artigos The Masters and the Slaves.
Plantation Relations and Mestizaje in American Imaginaries (2005), editado pela mesma autora. Essa mais
recente produção norte-americana tem feito fortíssimas críticas a Freyre, partindo não mais de bases marxistas ou
materialistas históricas, mas dos estudos culturais, pós-coloniais e afro-americanos.

O livro de Branche exemplifica bem essa nova variação de uma antiga maneira de desler a obra de Freyre: é uma análise
de raça enquanto narrativa no cânone luso-hispânico, desde o século XV até o presente, buscando por instâncias de
traços racistas, mesmo que atenuados e suavizados, no discurso dominante. Naturalmente, Branche também se debruçou
sobre Freyre: ele aponta que o próprio título Casa Grande & Senzala, com sugestões de inerentes hierarquias sociais,
raciais e sexuais, desmente as teorias freyrianas de relações sociais e raciais harmoniosas. Continua Branche: as
referências à casa-grande e à senzala já remeteriam a um espaço de dominação econômica e política, com potencial
inerente de coerção e brutalidade; além disso, a referência ao patriarcado no subtítulo (“Formação da Família Brasileira
sob o Regime de Economia Patriarcal”) também evocaria toda a dominação patriarcal masculina branca do senhor de
engenho sobre suas escravas, filhas e esposas.

Naturalmente, a explicação verdadeira pode ser rigorosamente oposta: dado que o próprio título Casa Grande &
Senzala enfatiza as hierarquias sociais, raciais e sexuais do Brasil Colônia, então talvez seja Branche quem fez uma
leitura equivocada do livro, ao atribuir a ele idéias que o próprio Branche reconhece que são desmentidas pelo título!
Talvez, ao contrário do que Branche parece apressadamente concluir, colocar a palavra “patriarcado” no subtítulo de um
trabalho de História não signifique necessariamente celebrar esse patriarcado, mas denunciá-lo, entendê-lo, estudá-lo. A
precariedade da leitura de Branche, que ao mesmo tempo registra em Freyre a presença das ausências que aponta, é
explicitada no seguinte trecho, sintomático de uma des-leitura bem comum de Casa Grande & Senzala. Vale a pena a
citação longa, pois é flagrante como uma frase desmente rigorosamente a frase anterior:

“Freyre’s authorial ambivalence emerges again as he identifies slave children as


indispensable playmates of the off-spring of the slave-owning class, while they are also
seen as a source of moral and physical corruption for them. Slave boys teach their
young masters obscene language, and the slave girls introduce them to sex and often to
syphilis. The repeated image of interracial childhood interaction in Masters and the
Slaves, as putative metaphor for racial democracy among the young by way of the effect
of affect, is by no means watertight. Its purported sincerity is exploded by the sadism
that often characterizes the relationship between the young slave owner’s son and his
black slave companion and in his ininhibited sexual access to black and mulatto girls at
the onset of puberty. In fact, the unenvenness of such relationships is vividly depicted
by Freyre’s nonchalant reference to the belief among diseased young males of the slave-
holding class that having sex with a twelve- or thirteen-year-old virgin would cure their
syphilis.”

O trecho é tão contraditório que quase poderia ter sido escrito por Freyre e ser um exemplo do seu estilo de
“antagonismos em oposição”. Nas primeiras duas frases, Branche chama a atenção para as várias descrições de
exploração sexual de crianças brancas sobre negras e mulatas em Casa Grande & Senzala, algo que não se esperaria
em um livro que, como ele parece acreditar, promove a “democracia racial”, mas Branche não vê a contradição em seu
próprio argumento. Na terceira frase, o autor comenta que essa interação sexual infantil forçada “não funciona como
metáfora da democracia racial” – mas não se sabe de onde ele tira que essas relações de estupro e dominação poderiam
jamais ser consideradas metáforas de qualquer tipo de democracia racial. Aparentemente, ele acredita que Freyre diz
isso, mas não cita onde. Por fim, na quarta e quinta frases, Branche se contradiz de novo e lista várias ocasiões em que
Freyre, mais uma vez, descreve os crimes sádicos das relações sexuais entre senhores e escravos, sem jamais parecer
compreender que são essas descrições, entre outras coisas, que comprovam queCasa Grande & Senzala não defende
que o Brasil Colônia fosse um paraíso racial.

Poderíamos nos perguntar: se o livro descreve tantos horrores da relação entre senhores e escravos, como pode promover
a democracia racial? Se promove a democracia racial, por que incluir tantos e longos trechos sobre sadismos, torturas,
estupros? A leitura de Branche, que já escreve buscando o racismo disfarçado do discurso oficial, é sintomática da forma
mais comum de desleitura freyreana: é impressionante a quantidade de atrocidades, torturas e estupros que um leitor
precisa relevar ou esquecer para fecharCasa Grande & Senzala e tachá-lo de livro “promotor da democracia racial”.
Também não está se tentando aqui glorificar ou defender Gilberto Freyre – pecado de parte da bibliografia atual.
Naturalmente, se Branche buscava pelo racismo subjacente ao discurso oficial, mesmo se atenuado ou suavizado, ele
poderia encontrar muitos exemplos em Casa Grande & Senzala – somente não os que ele cita – e não apenas aí, mas
em toda a produção literária brasileira até então. Por exemplo, quando Gilberto Freyre escreve que todo brasileiro,

“mesmo o alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não na alma e no corpo … a
sombra … principalmente do negro. … Em tudo que é expressão sincera de vida,
trazemos quase todos a marca da influência negra. Da escrava ou sinhama que nos
embalou. Que nos deu de mamar. Que nos deu de comer…”,

não há dúvida de que se trata de uma operação de exclusão, ainda que presumivelmente bem-intencionada. O negro,
apesar de tão valorizado no texto, é claramente excluído da categoria “todo brasileiro” ou mesmo do “nós”. Ele é quem
está fora, ele é a “sombra”. Ele “nos” dá de mamar, justamente por não ser parte desse “nós”: é externo a ele, está fora de
nós. Aliás, a primeira pessoa do plural é sempre complexa na prosa freyriana, mais um exemplo da ambiguidade que
dificulta sua assimilação pela academia: para Gilberto Freyre, “nós” pode ser desde “brasileiros brancos descendentes de
senhores de engenho nordestinos” até “brasileiros brancos, mas sem incluir negros e índios”, passando inclusive por
“todos os cidadãos brasileiros”. É a proliferação do primeiro “nós” que permite que Antonio Cândido, não sem alguma
razão, classifique Casa Grande & Senzala como autobiografia.

O que muitas vezes falta aos autores que embarcam em críticas semelhantes contra Freyre é a contextualização de quão
pouco racista o seu discurso era, em comparação ao discurso contemporâneo e anterior. Aos nossos ouvidos
politicamente corretos de começos do século XXI, um autor dizer que todo brasileiro mamou em tetas negras pode
parecer somente uma operação de exclusão. Em 1933, “sacudiu uma geração inteira”, nas palavras de Cândido. Pinçar
racismos aqui e ali na prosa ambígua de Gilberto Freyre é muito fácil; fazê-lo sem contextualizar o impacto de sua obra
na atmosfera racista de então é má-fé acadêmica.

Recentemente, alguns intelectuais brasileiros têm revalorizado a contribuição de Freyre, especialmente no sentido de
superar o racismo científico e estabelecer a democracia de raças como um ideal a ser atingido. Hermano Vianna ataca o
“mito do mito da democracia racial”, muito em voga entre brazilianistas, segundo ele, e que teria se originado de “uma
leitura apressada, tendenciosa e burra” de Casa Grande & Senzala:

“como dizer que CG&S criou uma imagem idílica da sociedade colonial se, logo no
prefácio de sua primeira edição, aprendemos que os senhores mandavam ‘queimar
vivas, em fornalhas de engenho, escravas prenhes, as crianças estourando ao calor das
chamas’…?”

Vianna também considera que o melhor do Brasil seja nossa valorização da mestiçagem, que não seria sinônimo de
defender a idéia de vivermos em uma democracia racial.

Já em A Utopia Brasileira e os Movimentos Negros (2007), de Antonio Risério, a presença de Gilberto Freyre é
sentida em cada página, mesmo quando não mencionado. Em muitos trechos, Risério parece literalmente incorporar
Freyre:

“Quando falo de sociedade urbana convivial, não estou me referindo a uma sociedade
harmônica, sossegada, entregue à sua própria placidez. Não me refiro sequer a um
espaço social onde os conflitos se apresentassem de forma atenuada. Em outras
circunstâncias, estes esclarecimentos seriam dispensáveis, mas o ambiente brasileiro
não se encontra hoje, mentalmente, em condições normais de temperatura e pressão.
Parece até que as pessoas estão fazendo questão de parecer burras. Daí o didatismo e a
redundância a que somos obrigados.”
Neste livro, Risério busca entender dois fenômenos fundamentais do Brasil: a mestiçagem e o sincretismo, resgatando-os
e valorizando-os. Sobre a democracia racial, ele aponta que o próprio impacto e recepção de Casa Grande &
Senzala provaram não ser o Brasil uma democracia racial, mas essa tornou-se uma das grandes aspirações nacionais. De
certo modo, à sua maneira, mesmo sem inventar a expressão “democracia racial” ou usá-la emCasa Grande & Senzala,
Gilberto Freyre deu ao país o seu “Brazilian Dream”. E, desde que não seja usada conservadora e reacionariamente, como
uma desculpa para alienação política, como uma realidade que o Brasil já alcançou, qual é o problema da “democracia
racial” como projeto, como sonho, como aspiração? Será algo tão ruim assim? Não será essa, talvez, a maior contribuição
do Brasil à cultura mundial? E fecha o livro com a frase: “Cumpre, portanto, fazer com que o mito se encarne na história.”

Por fim, como já foi dito, talvez o melhor livro acadêmico sobre Freyre nas últimas décadas tenha sido Guerra e Paz:
Casa-Grande e Senzala e a Obra de Gilberto Freyre nos Anos 30, de Benzaquen. Fugindo de interpretações
fáceis de Gilberto Freyre, sem nem pinçar seus trechos mais felizes para endeusá-lo, nem seus piores deslizes, para pintá-
lo como um ideológo reacionário, Benzaquen foi direto ao cerne do estilo freyriano, à sua característica talvez mais difícil:
seus “antagonismos em conflito”, “sua heterogeneidade”, “sua imprecisão”, que seria “um dos componentes mais
importantes de Casa Grande & Senzala”, “fornecendo valiosas pistas para a compreensão de alguns dos seus mais
importantes propósitos”.

Em suma: a parte constitutiva do pensamento freyriano seria justamente a imprecisão que Mota havia desdenhado como
“mecanismo e artifício”. Para Benzaquen, o pano de fundo de Casa Grande & Senzala é o realce dado por Gilberto
Freyre ao caráter despótico e mesmo brutal de nossa tradição patriarcal, capaz de permitir uma certa dose de intimidade
entre grupos sociais divergentes sem que isso cancelasse ou sequer diminuísse a desigualdade e a opressão embutidas em
seu relacionamento. Depois de listar alternadamente alguns trechos sobre sadismo e sobre confraternização entre
brancos e negros, dando a impressão de uma certa esquizofrenia autoral por parte de Freyre, Benzaquen dá o passo que
Branche, e outros críticos, não deram:

“CGS dá a impressão de ter sido escrito justamente para acentuar a extrema


heterogeneidade que caracterizaria a colonização portuguesa, ressaltando basicamente a
ativa contribuição de diversos e antagônicos grupos sociais na montagem da sociedade
brasileira.”

Assim como, na sociedade, diversos opostos conseguem conviver de lado a lado, em amálgama tenso mas equilibrado,
Gilberto Freyre, ao vencer a desconfiança fundamental que o pensamento ocidental nos ensinou a manter quanto à
contradição, também consegue reunir elementos antagônicos sem se preocupar com sua síntese ou com o
estabelecimento de mediação entre eles, fazendo assim desse relativo louvor da ambiguidade o ponto central e decisivo
de sua reflexão. O estilo de Freyre era um modo concreto de trazer para a escrita parte da instabilidade, ambiguidade e
excesso que caracterizavam a sociabilidade da casa grande.

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