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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

MARCELO PEREIRA DE BRITO

ENFERMAGEM EM SAÚDE COLETIVA NA ATENÇÃO PRIMÁRIA

Trabalho de Estudo de caso apresentado na Escola de


Enfermagem da Universidade de São Paulo

São Paulo

2019
APRESENTAÇÃO
Neste estudo de caso, como sugerido, apresentarei um momento em minha
trajetória profissional que constituiu um marco em minha formação para, posteriormente,
problematizá-lo às luzes do referencial teórico apresentado na disciplina. Sendo assim,
julguei relevante trazer à tona dois diários de campo referentes a reuniões de equipe de
uma Unidade de Estratégia Saúde da Família (ESF), das quais pude participar enquanto
pesquisador na qualidade de mestrando, na zona Noroeste da cidade de Santos-SP.
Vale salientar que, embora no momento destes diários eu me encontrasse na
posição de pesquisador, meu olhar de profissional da saúde esteve presente em todos os
momentos, não havendo uma separação pesquisador/profissional de saúde. Isto posto,
aponto como relevante tais relatos, por possibilitarem um olhar mais aprofundado em
relação às equipes de saúde, ao invés de tratar de um caso do qual participei enquanto
profissional na solicitação ou sugestão de uma possível terapêutica.
No entanto, julgo pertinente apresentar a perspectiva teórico-reflexiva da área da
Saúde Coletiva, trabalhada na disciplina, a fim de que esta possa balizar as reflexões
pertinentes ao estudo de caso aqui proposto.
Há cerca quarenta anos, aproximadamente, a Saúde Coletiva vem se
constituindo como âmbito de práticas e campo de saber mediante crítica ao modelo
biomédico hegemônico, tendo seu desenrolar histórico à partir de países da América
Latina e com forte embasamento na Epidemiologia Social latino-americana, enfatizando
as dimensões histórica e social dos processos saúde-doença e de seus determinantes. A
Saúde Coletiva tem como peculiaridade a defesa da articulação entre sistemas de saúde
equitativos, públicos e universais, baseados no triedro “ideologia, saber e prática” (PAIM,
2006).
Desta maneira, porque pautada na Epidemiologia Social latino-americana, tal
frente de conhecimento almeja forte articulação entre práxis e ideologia, demandando
uma definição mais assertiva diante da prática de saúde e seus conceitos, frente às
determinações histórica, social e coletiva, que perpassam o campo da saúde
(NAKAMURA et al., 2009).
Logo, a Saúde Coletiva configura um campo de conhecimento específico, o qual
tem como viés orientar a assistência à saúde, baseando-se em competências que valorizem
o compromisso com a saúde do público e a defesa da vida (PAIM, 2006) e tomando como
objeto de suas análises e práticas as necessidades de saúde da população, bem como seus
determinantes, com a finalidade de transformar a assistência à saúde e emancipar a
apreensão da realidade onde esta ocorre (NAKAMURA et al., 2009).
Stotz, (1991) indica que se as necessidades de saúde são histórica e socialmente
determinadas, elas só poderiam ser compreendidas e trabalhadas em sua dimensão
individual. Porém, o autor também destaca a imposição de uma reconceitualização desta
afirmação, indicando a obrigação de se exprimir a dialética do social e do individual.
No entanto, a questão mais relevante ao tratarmos das necessidades de saúde e
seus determinantes sociais, diz respeito ao fato de que os modos de se viver “traduzem”
diferentes necessidades de saúde (CECÍLIO, 2001).
Nesta ótica, faz-se importante trabalhar com a ideia de que o valor de uso
(CAMPOS, 1992) que cada tecnologia em saúde assume na assistência à saúde define-se
a partir da necessidade de cada pessoa, em cada momento singular que vive, ou seja, a
importância do consumo das tecnologias em saúde não são estabelecidas particularmente
pelos profissionais de saúde, mas, também, pelas pessoas e suas necessidades de saúde,
necessidades estas que não se limitam à assistência em si, mas que são perpassadas por
outros aspectos e contextos das vidas destas pessoas (CECÍLIO, 2001).
Sendo assim, é imprescindível, ao tratarmos das necessidades de saúde, a
formação de vínculos afetivos e efetivos entre usuários e comunidades, frente as equipes
de saúde e profissional (ais), não limitando-se à inscrição formal a um determinado
programa ou adscrição a um serviço, mas o estabelecimento de uma relação pessoal,
intransferível e contínua, favorecendo-se um encontro de subjetividades (CECÍLIO,
2001).
Todavia, ao salientarmos o caráter coletivo como uma característica relevante da
perspectiva trabalhada pela Saúde Coletiva, cabe a ideia de que se busca, dentre as várias
demandas que configuram a assistência à saúde, a insdispensabilidade de se delimitar os
problemas e necessidades de saúde em um dado território, almejando-se a proposição de
formas de intervenção em realidades particulares (NAKAMURA et al., 2009), a fim de
se dar conta de identificar os perfis de saúde-doença de um determinado contexto, bem
como os seus respectivos perfis de reprodução social (formas de viver e trabalhar).
Assim, ganha relevância a integralidade da atenção como um objetivo primordial
da Saúde Coletiva, valorizando-se o espaço singular de cada serviço de saúde, bem como
o esforço desses serviços em traduzir e compreender, da melhor maneira possível, as
distintas necessidades de saúde, sempre complexas, tendo de ser apreendidas em suas
dimensões individual e coletiva (CECÍLIO, 2001), reconhecendo-se também as distintas
determinações sociais que perpassam cada realidade abordada.
A noção de determinação social da saúde aparece dentro da Saúde Coletiva como
importante categoria analítica, com a finalidade de servir como base conceitual para
estudos voltados para ampliar a discussão sobre a produção coletiva da saúde, fruto,
também, do debate conceitual que critica a abordagem positivista inserida no modelo da
história natural da doença, centrada na causação linear e biologicista dos processos de
saúde-doença (GARBOIS et al., 2017).
Tal noção compreende-se na existência de complexas relações sociais presentes
no processo de produção da saúde e da doença, diante da análise dos vínculos entre os
serviços de saúde, a extensão da cobertura dos cuidados médicos e as necessidades do
capitalismo de manter e reproduzir a força de trabalho, realizar a acumulação de capital
do setor industrial de equipamentos e insumos médicos e controlar as tensões e
antagonismos sociais (DONNANGELO, 1979).
Desta maneira, estabelece-se uma análise pela abordagem da dimensão coletiva
como produtora e reprodutora das formas de vitalidade e adoecimento, tendo como
finalidade a compreensão do processo de saúde-doença como um fenômeno coletivo, não
partindo mais da noção individual, mas sim de grupo (GARBOIS et al., 2017).
Ou seja, houve uma reformulação da natureza da doença, onde se observa como
os processos biológicos acontecem socialmente e trazendo, como consequência, uma
mudança do léxico de “fator” para “processo”, corroborando em uma ótica da saúde-
doença como resultante de um processo social, dando luz à compreensão de seu caráter
dinâmico, como parte integrante do “movimento global da vida social” (BREILH, 1991).
Assim sendo, a temática de reprodução social ganha destaque por enfatizar as
relações entre o processo de saúde-doença e o trabalho (TAMBELLINI-AROUCA,
1984), configurando a principal categoria oriunda do pensamento marxista para a análise
do fenômenos considerados estritos à saúde, inserindo no processo de trabalho a
dimensão da determinação social no processo de adoecimento, considerando-o como
mediador das relações estabelecidas entre os homens e entre estes e a natureza
(GARBOIS et al., 2017).
A guisa de esclarecimento, cabe o apontamento de que há diferenças bastante
importantes ao tratarmos dos “determinantes sociais de saúde” (DSS) e determinação
social de saúde. As críticas apontadas pelos pensadores da Saúde Coletiva acerca dos DSS
residem no fato de a abordagem sobre os DSS apresentarem uma visão reducionista e
fragmentada da realidade social, observando tais determinantes como “fatores”
(condições de vida, de trabalho, de educação, etc), “contextos”, “circunstâncias” e
“condições”, não iluminando o entendimento dos múltiplos processos ecobiológicos,
psicológicos e socioculturais que compõem a dinâmica do processo saúde-doença, tido
que não assume que o perfil patológico é criado e condicionado por cada sociedade em
seu processo histórico, ao mesmo tempo que configura as estruturas sociais em variáveis
e não em predicados de análise do movimento de reprodução e produção social
(TAMBELLINI; SCHÜTZ, 2009; ARELLANO; ESCUDERO; CARMONA, 2008;
BREILH, 2013).
Tal perspectiva das DSS, portanto, dificulta a proposição de uma reflexão crítica
sobre o cerne da organização social da sociedade de mercado e regime de acumulação
capitalista, através dos processos de reprodução e geração da exploração da natureza e
dos seres humanos, bem como suas respectivas consequências na saúde, como ocorre nos
processos de exclusão social e reprodução das desigualdades sociais e de saúde (BREILH,
2013).
Por conseguinte, fica evidente, de acordo com o prima da Saúde Coletiva, que
as necessidades de saúde não são restritas a necessidades médicas, problemas de saúde e
serviços de saúde, mas interconectam-se com as carências e vulnerabilidades sociais que
configuram os diferentes modos de viver, corroborando em distintas maneiras de se
problematizar o que é relevante para se ter saúde e quais condições são importantes para
gozar de saúde (PAIM, 2006), trazendo à tona a imposição de múltiplos olhares e saberes
a fim de se almejar a integralidade por uma perspectiva multiprofissional e
interdisciplinar na atenção à saúde.
Neste sentido, a configuração da Saúde Coletiva como uma frente de saber e
âmbito de práticas traz a retomada de conceitos como necessidades de saúde, as práticas
de saúde e sujeito, alinhados ao entendimento de necessidades de saúde reconhecidas na
relação intersubjetiva entre profissionais de saúde e população, reorganizando as
atividades e recriando tecnologias que permitam aos sujeitos, que usufruem do cuidado,
terem/almejarem saúde (NAKAMURA et al., 2009), fomentando, deste modo, suas
respectivas autonomia e autoconhecimento.
Portanto, mediante apresentação de duas, das seis reuniões que participei,
buscarei elaborar uma reflexão, a fim de colaborar para o desenvolvimento da disciplina
e de meu desempenho acadêmico nesta.
Assim, apresentarei minhas anotações para, em um segundo momento,
estabelecer paralelos com o referencial teórico fornecido, almejando a reflexão sobre
estas anotações, bem como possíveis concordâncias e discordâncias com a literatura.
- Encontro 5
Este encontro começou, em suma, muito parecido com os outros, mediante
discussão dos casos atendidos pela equipe.
Desta vez, porém, a equipe estava completa, com a presença, inclusive, do
médico responsável pela equipe, este último me dando boas vindas, mas já retornando
sua atenção para os casos a serem discutidos.
Não pude deixar de notar um certo estranhamento e curiosidade, por parte do
médico, com a minha presença na reunião, mas nada de anormal. A meu ver, a formação
e trajetória deste médico é um pouco diferente, em relação ao que estava acostumado a
presenciar. Trata-se de um médico nigeriano, formado em medicina na Rússia, o qual
fornece seus serviços através do programa Mais Médicos. Apesar de apresentar algumas
dificuldades em relação ao idioma aqui falado, na Nigéria fala-se inglês, apresenta uma
boa dicção e consegue comunicar-se muito bem com os outros membros da equipe.
Inicialmente, as conversas ocorreram de modo bastante horizontal entre a equipe,
com todos apresentando certa intimidade, mesmo que meramente profissional,
demonstrando haver certa harmonia dentro da equipe.
Entre os casos abordados, deu-se maior destaque a um caso referente à
orientação familiar. Este caso girava em torno de um paciente esquizofrênico e obeso. Os
Agentes Comunitários de Saúde (ACS) estavam apresentando dificuldades para
monitorar e orientar corretamente o paciente e sua família. Por um lado, indicando a
dificuldade de comunicação junto a este e sua respectiva família e, por outro,
evidenciando a resistência do paciente na adesão à terapêutica, principalmente em relação
à saúde mental, dizendo ainda que tal abordagem não dizia respeito à ESF e capacitações
dos ACS, embora tivessem alguma opinião em relação ao caso.
Inclusive, este caso gerou importante discussão a respeito da entrada de
componentes da saúde mental na ESF, por parte dos ACS. Estas questionaram o porquê
de isto estar acontecendo sem ou com apoio parcial de instituições especializadas nesta
área.
Tal fato também foi questionado pelo médico, o qual se manifestou dizendo que
os medicamentos e terapêuticas, que diziam respeito à saúde mental não eram de sua
responsabilidade, dando ênfase aos componentes relacionados às doenças crônicas.
Um fator interessante foi a mudança da condução da reunião com a presença do
médico. Pareceu-me que, com a presença do médico, a condução da reunião foi dividida
entre este e a enfermeira da equipe. Porém, todos da equipe, como nas outras reuniões,
continuaram tendo respeitados seus direitos de falar.
Novamente, apareceu a temática do crime organizado e do tráfico de drogas
como empecilhos para o acesso à alguns usuários e promoção da saúde, apontando que
alguns usuários “trocam de turnos” para trabalharem, não havendo, assim,
compatibilidade com os horários de visita dos ACS.
Pelo fato de o médico estar retornando de férias, alguns casos, discutidos nas
reuniões anteriores, foram retomados para a tomada de decisões por parte deste e
encaminhamento juntamente da unidade.
As ACS trataram de casos relacionados à orientação familiar e comunitária,
apontando que muitas famílias passam por problemas estruturais e de saúde e que, muitas
vezes, acabam se sentindo frustradas por tentarem conscientizar os usuários em relação
às suas condutas de saúde, mas, por conta de “outros problemas”, não conseguiam realizar
essa difícil tarefa, principalmente em relação à mudanças de hábito e condutas
individuais.
Outra discussão em torno das Visitas Domiciliares (VDS) que surgiu, girou em
torno da quantidade de visitas oferecidas pelo médico, 5 ou 6 visitas semanais. A equipe
tem de organizá-las de acordo com a complexidade e urgência de cada caso.
Algo que me chamou atenção foi, novamente, a ressalva da preferência, da parte
dos pacientes, por médicos específicos nas VDS. Notei, também, um posicionamento
firme do médico em relação aos casos de “outros” médicos. Este prefere não interferir
nas terapêuticas de seus pares.
Com o fim da reunião e a posterior saída do médico e da enfermeira, mais uma
vez surgiu a discussão em torno do contrato das ACS junto à unidade, novamente com a
demonstração de certa insegurança e angústia por parte das ACS em relação ao futuro de
seus trabalhos.
Aparentando grande insatisfação, várias foram as manifestações em relação aos
direitos trabalhistas que estas possuem junto à empresa que as contrataram e em relação
à possível saída de alguns membros da equipe com a não renovação do contrato, deixando
ares de insegurança diante da situação.
Porém, todas demonstraram gostarem do trabalho que realizam, reconhecendo a
importância de suas respectivas presenças para o bom funcionamento da ESF, como do
vínculo que possuem com as famílias que atendem, apontando as inúmeras dificuldades
que passaram para o estabelecimento de uma certa conexão com os usuários em questão.
Logo em seguida, despedi-me de todas, confirmando minha presença na próxima
reunião.
- Encontro 6
Fui para esta reunião sabendo, a priori, que seria minha última participação, já
que, a partir deste momento, iria para uma próxima fase da minha pesquisa.
Ao chegar na sala, somente o Dr. Yeme estava presente, porém sem
estranhamento desta vez, apresentando, inclusive, uma certa curiosidade sobre meu
projeto, mesmo que meu projeto estivesse na unidade há mais de três meses.
Com uma série de perguntas, quis saber sobre minha linha de pesquisa,
metodologia, área de estudo, inclusive com certa persistência para tentar entender e,
também, “tirar” algumas informações sobre o porquê de eu estar realizando minha
pesquisa naquela unidade em especial, querendo também saber algumas das minhas
opiniões sobre o que havia ocorrido até o momento.
Procurei responder do modo mais objetivo possível, até porque, neste momento,
outros membros da equipe já haviam chegado e, como pesquisador, não queria atrapalhar
o andamento da reunião falando sobre minha pesquisa.
Achei estranho para a ocasião, mas em um dado momento o médico perguntou
se eu falava inglês, para que eu explicasse, nesta língua, sobre o que se tratava, de fato,
meu projeto, inclusive falando em inglês comigo a partir deste momento.
Mais uma vez, mantive-me no meu lugar de pesquisador, dizendo a ele que
preferia falar sobre minha pesquisa em português. Infelizmente, não vi outra maneira de
fazê-lo. Disse ainda que meu projeto já estava presente na unidade havia um certo tempo
e que, caso ele realmente quisesse saber de uma maneira detalhada sobre, para que o lesse
na íntegra para depois discutirmos particularmente, a fim de não atrapalhar o andamento
da reunião.
Neste encontro uma “nova” participante apareceu (Marta). Integrante do Núcleo
de Apoio Psicossocial (NAPS), esta veio com o intuito de auxiliar os agendamentos dos
casos que necessitassem de acompanhamento de especialistas (psicólogos/psiquiatras).
Iniciando-se, mais uma vez, a discussão dos casos, alguns apontamentos como
as dificuldades na orientação familiar e comunitária surgiram.
Todavia, um apontamento, já realizado pelos ACS, fora discutido, porém, desta
vez, mediado pela integrante do NAPS.
A dificuldade referente ao transporte apareceu novamente. Foi dito que esta
dificuldade vem impedindo um número maior de visitas e atendimentos, o que incomoda
a todos da equipe, principalmente as ACS.
Algo muito importante, a meu ver, é salientar a vontade de ajudar e o
comprometimento que todos da equipe têm, diante dos atendimentos e serviços a serem
fornecidos.
Um caso bastante repercutido, foi sobre um paciente que passava por problemas
familiares graves e pediu ajuda junto às ACS, para realização e agendamento de consultas
junto ao NAPS.
Nesta discussão, apareceu um novo elemento, que não havia aparecido
anteriormente, a religiosidade. Uma das ACS afirmou que, na casa deste paciente, haviam
sido realizados “trabalhos de macumba”, dizendo haver a possibilidade de “más energias”
habitarem o local em questão.
Todavia, o médico tomou a posição para dizer que o problema que ocorria, a seu
ver, era de comunicação entre os familiares e que a psicoterapia poderia ajudar muito
neste caso.
Ressalto que esta reunião teve seu tempo encurtado e poucos casos foram
discutidos.
Aproveitei para informar a todos, ali presentes, que este seria meu último
encontro com eles e que passaria para uma nova etapa do meu trabalho. Aliás, perguntei
para as ACS quais delas gostariam de me ajudar nesta próxima etapa.
Com exceção de uma (Valdomira), todas sugeriram que eu entrasse em contato
somente após o aviso destas, junto aos usuários, que eu as acompanharia nas visitas.
De início, achei pertinente pedir o contato de todas as ACS, embora tenha
realmente simpatizado com três delas. Não seria uma boa atitude, a meu ver, excluir uma
ou outra para a realização das minhas visitas.
Por fim, todas elas me passaram seus respectivos contatos para que, na semana
seguinte, iniciássemos a próxima etapa da minha pesquisa em questão.
Recebemos, durante a reunião, a visita de técnicos da Agência Nacional de
Vigilância Sanitária – ANVISA, os quais estavam realizando uma inspeção de rotina
junto à unidade, mesmo que com uma aparição breve, quase não atrapalhando o
andamento da reunião.
Com o fim da reunião, agradeci muito a receptividade de todos e me despedi,
dizendo que voltaria em breve, assim que minhas entrevistas e reuniões se encerrassem.
DISCUSSÃO
De início, é importante ressaltar como a ESF, mesmo que restrita aos encontros
mencionados, representa um modelo de atenção à saúde diferenciado do modelo
tradicional. O fato de existirem reuniões de equipe onde médicos, enfermeiros e ACS
falam de maneira horizontal, tendo seus lugares de fala respeitados, já apresenta um
grande progresso, diante de uma hierarquia social e historicamente estabelecida entre
estas profissões.
Outro fator importante, diz respeito à familiaridade e compromisso destes
profissionais na discussão dos casos apontados, demonstrando que as intervenções
propostas e discutidas não se limitavam à aspectos técnicos, mas com o envolvimento
pessoal e profissional destes em cada caso, representando, em meu entendimento,
comprometimento destes profissionais, embora com limitações, com as necessidades de
saúde dos sujeitos/comunidade que usufruem do cuidado fornecido pela equipe de saúde
em questão.
Deste modo, pode-se dizer que estas condutas coadunam, em certa medida, com
a Epidemiologia Social, tido que caminham para uma abordagem integral dos casos,
procurando estabelecer uma articulação entre três dimensões, singular, particular e
estrutural, tanto para o planejamento das ações, quanto para a apreensão do(s) objeto(s)
da(s) ação(ões) (FONSECA; EGRY, 2010), almejando-se, assim, “uma atenção à saúde
de boa qualidade, que considere as múltiplas dimensões e dê conta das várias
complexidades dos problemas de saúde (…) bem como os riscos da vida moderna”
(TESSER; LUZ, 2008).
Entretanto, muitas das atribuições conferidas às equipes de ESF têm um caráter
de monitoramento e acompanhamento dos pacientes e suas famílias, em relação à saúde
e seus respectivos processos de saúde-doença, não fugindo da abordagem apresentada
pela epidemiologia clássica, onde, no plano político do sistema capitalista, a saúde é
utilizada como um mecanismo de controle social (FOUCAULT, 1977).
O surgimento da temática do crime organizado e do tráfico de drogas como
empecilhos para o acesso à alguns usuários e promoção da saúde, da parte de alguns
profissionais nestas reuniões, também indica importante aspecto na atenção à saúde
fornecida por estes profissionais pelo fato de revelar a estrutura social que permeava o
contexto estudado e, portanto, explicitar as condições de vida particulares dos usuários,
as quais concernem à perfis de reprodução social de diferentes classes sociais, apontando
as potencialidades de saúde e sobrevivências, bem como os riscos de adoecer e morrer
destes indivíduos, dando luz à dimensão particular da realidade objetiva social onde a
atenção à saúde ocorre (FONSECA; EGRY, 2010).
Não somente, ainda representa o papel fundamental da determinação social nos
processos de adoecimento e vitalidade destes usuários (GARBOIS et al., 2017), tido que
surgem com relevância os múltiplos processos ecobiológicos, psicológicos e
socioculturais que compõem a dinâmica do processo saúde-doença, moldando e
configurando, em certa medida, o perfil de assistência à saúde a ser fornecido,
representando a complexidade e desafio de se oferecer uma atenção integral à saúde em
um ambiente de vulnerabilidade social.
Outro aspecto importante a salientar, foi a instabilidade profissional das ACS em
relação aos seus respectivos futuros na unidade de saúde estudada. Como estas estavam
contratadas por uma empresa terceirizada, encontravam-se extremamente inseguras e
insatisfeitas com a situação na qual se encontravam, algo que, muito provavelmente,
influenciava na assistência à saúde fornecida por estas.
Além disto, apareceram também insatisfações sobre a integração das redes de
atenção à saúde, falta de profissionais para suprir as demandas de saúde do contexto
apresentado, bem como falhas na infraestrutura para o fornecimento de uma assistência à
saúde condizente com os desejos e vontades dos profissionais em questão.
Tal fato indica a necessidade de se ter em mente que a integralidade jamais será
plena em qualquer serviço de saúde singular, por melhor que seja a equipe, os
trabalhadores, a comunicação entre estes e a coordenação de suas práticas, configurando
uma “batalha” pela melhoria de condições de vida e acesso a todas as tecnologias para
melhorar e prolongar a vida (CECÍLIO, 2001) como uma filosofia de trabalho,
principalmente na ESF.
Isto nos remete a indagar sobre a falta de desenvolvimento tecnológico, gerencial
e científico, que corroboram em uma visão vertical dos programas e protocolos que
abarcam a prática clínica, enrijecendo e fragmentando o atendimento e gerando
encaminhamentos excessivos aos especialistas e urgências, além de formas muito
variáveis de contratação de pessoal, salários e incentivos, os quais não promovem a
fixação de profissionais, dificultando o estabelecimento de equipes funcionais que se
pautem em diferentes funções e responsabilidades (GÉRVAS; FERNÁNDEZ, 2012).
No entanto, ganha relevância, no caso em questão, a presença da crença religiosa
de uma das ACS em relação a uma terapêutica discutida, onde, na visão desta, “trabalhos
de macumba” e “más energias” influenciavam nos processos de saúde-doença do usuário
em questão, nos revelando a presença da concepção ontológica da doença, onde o
indivíduo é acometido por uma entidade (malefício), de ordem natural ou sobrenatural,
que produz a doença, não possibilitando uma possível cura através de intervenções sobre
o organismo (CANGUILHEM, 1995), fato este que nos indica a complexidade da atenção
à saúde em um país multicultural e desigual como o Brasil.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Vários são os apontamentos e reflexões que poderiam ser feitos sobre as
problemáticas trazidas nas reuniões de equipe acompanhadas. No entanto, o intuito deste
estudo de caso foi trazer a riqueza imbuída na atenção à saúde frente à literatura
apresentada na disciplina até o momento.
Podemos dizer que, dada a complexidade da sociedade brasileira e da formação
sócio-histórica do SUS e das práticas de saúde em geral, a assistência à saúde encontra-
se estabelecendo uma interface entre a Teoria da Multicausalidade e a Teoria da
Determinação Social do processo saúde-doença, oscilando em suas práticas profissionais
e instituições de saúde entre a Epidemiologia Clássica e a Epidemiologia Social, embora,
sem sombra de dúvidas, a primeira seja hegemônica e destituída de um embasamento
crítico que reflita sobre a estrutura social dinâmica e extremamente excludente que o
Brasil possui.
Sem embargo, ganha enorme relevância a presença de pessoas envolvidas na
assistência à saúde com necessidades e desejos de mudança, com vistas ao
estabelecimento de uma nova maneira de saber/fazer/propor saúde, onde o diálogo entre
as diferentes frentes do conhecimento, não a hegemonia de uma(s) sobre a(s) outra(s),
possa configurar uma nova estrutura política e social de saúde e de sociedade, almejando
o bem-estar daqueles que usufruem do cuidado, obviamente desde que alinhados à
projetos políticos e pedagógicos dispostos a promover reais transformações para a
solução dos problemas de saúde e demandas sociais do país.
Não doravante, cabe elucidarmos, à luz do referencial teórico apresentado, a
“radicalidade” da Saúde Coletiva (PAIM, 2006) enquanto proposta de promover e
provocar uma qualificação profissional condizente e necessária à proposta de práticas
fundamentadas nos pressupostos de autonomia, democracia e emancipação dos sujeitos,
pressupostos estes que representam o maior desafio desta frente de conhecimento ao
associarmos os conceitos de equidade e integralidade a fim de se promover a apreensão
de distintas necessidades de saúde e suas expressões por sujeitos autônomos e suas
respectivas coletividades (NAKAMURA et al., 2009).
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