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A NATUREZA AMERICANA

A imagem que o resto do mundo tem dos Estados


Unidos, amigos, é falsa. Aquele país, a despeito da
confusão do séc. XX, ainda é um país cristão em
grande medida. Esse cristianismo, contudo, não é
refletido na política, na mídia ou no cinema. Essas
três áreas são dominadas por humanistas e estes
tendem a seguir uma agenda própria, no intuito de
transfigurar o verdadeiro caráter do americano
médio. Para Erik von Kuehnelt-Leddihn, o
americano talvez nunca tenha sido um homem
moderno no sentido completo. Os Pais Peregrinos,
segundo alguns intelectuais, inclusive Rushdoony,
fugiam não apenas de uma igreja onde não se
sentiam livres, mas também da modernidade e do
Iluminismo. A grandeza daquela nação está
enraizada especialmente em Calvino. Kuehnelt-
Leddihn escreveu:

"Se nós chamarmos os estadistas do fim do século


dezoito de Founding Fathers of The United States,
então os Peregrinos e Puritanos são os avôs e
Calvino é o bizavô. Dizendo isso, ninguém precisa
excluir a Virginia, porque o Anglicanismo tem
fundações essencialmente Calvinistas ainda
reconhecíveis em seus Trinta e Nove Artigos, e os
Pais Peregrinos, como os Puritanos em geral,
representavam um tipo de Anglicanismo re-
reformado. Embora a moda Deísta oitocentista
possa ter penetrado em alguns círculos intelectuais,
o espírito predominante dos americanos antes e
depois da Guerra de Independência era
essencialmente calvinista em ambos os aspectos
brilhantes e feios. Eles eram um povo trabalhador,
sóbrio, sincero, intensivamente nacionalista,
conscientes e orgulhosos de seus padrões morais,
que incluíam a "ética protestante do trabalho".
Como uma nação de tais virtudes eles despertaram
a admiração do mundo e em sua própria auto-
estima foram convencidos de que sua nação tinha
uma missão messiânica de salvar o mundo através
de uma 'novus ordo seclorum'."
Para o austríaco, mesmo o desprezo pela religião
que a América tem vivenciado no séc. XX não
conseguiu apagar a marca do reformador de
Genebra.
"Ainda que o recuo de Calvino nunca tenha sido
completo, não é assim nem mesmo hoje. Sua
influência continua a mover-se como uma corrente
sombria e subterrânea através do subconsciente
americano. A presença do Maistre Jehan da
teocracia genebrina pode ser sentida ao longo de
toda grande literatura americana e em menor grau
através de outras expressões artísticas americanas.
Os americanos não podem afastar-se
completamente da noção de que o homem é uma
criatura depravada totalmente aleijada pelo Pecado
Original e que a Graça de Deus sozinha pode salvá-
lo. Por baixo de toda a atividade frenética, da
busca sem descanso por prazer, uma certa
melancolia permeia a vida americana e encontra
expressão em uma música folk que é
profundamente Calvinista, expressando a seu
próprio modo o que Jacques Chardonne, um
Católico, chamou de 'les terribles vérités
chréstiennes'."

Hollywood não tem interesse em retratar a


verdadeira América; antes, eles querem transformá-
la. "Hollywoood vende 'Californication'", cantou
Anthony Kiedis, vocalista do Red Hot Chili Peppers.
Entre historiadores há uma tentativa clara de
apagar a influência cristã da história daquele país. É
por causa do cinema e da vida das celebridades ou
por causa das opiniões progressistas de seus maiores
jornais que mesmo nós, cristãos brasileiros,
comumente caímos no antiamericanismo sem
entender a complexidade das mudanças que aquele
país enfrentou no século passado, ainda que não
recorramos ao antiamericanismo que a esquerda
implantou nas escolas. A verdade é que aquela
realidade que julgamos representar a cultura
americana existe apenas em algumas regiões do
país.

LAICISMO?

O "laicismo" americano originalmente não impedia


que aquele país fosse essencialmente cristão. Não
apenas nos costumes, mas nas próprias leis. A
Primeira Emenda nada dizia sobre a separação entre
igreja e estado; era na verdade um limite para o
Congresso. Até várias gerações depois de sua
ratificação, as sessões começavam com um culto
solene. Os estados constituintes eram
definitivamente cristãos. O cristianismo era
requerido para cidadania e direito de voto (se não
fosse cristão, sequer poderia servir como
testemunha em um tribunal). Havia leis proibindo a
blasfêmia, leis requerendo a fé na Trindade, etc.
Acontecia mesmo de a Bíblia ser citada em um
julgamento quando a lei civil não cobrisse o caso,
como aconteceu em um caso de divórcio em New
Hampshire em 1836. Um ateu podia ser preso em
alguns lugares, como um homem preso por 60 dias
em Boston (1820) por ter negado a ortodoxia em
uma publicação de jornal.

É apenas no séc. XX que encontra-se uma luta


multiculturalista e relativista, na qual a cultura é
reduzida às artes cênicas e plásticas no intuito de
negar a unidade americana em torno de uma
cultura e religião comuns. Defende-se que a união
americana é feita única e exclusivamente pela
política, pelo voto, como se aquele país fosse na
verdade um papel em branco em que qualquer
cultura do mundo possa encaixar-se. Mas isso não é
verdade. Mesmo os católicos romanos acabavam
aderindo à cultura calvinista predominante. Para
Erik von Kuehnelt-Leddihn, os católicos americanos
e os católicos europeus seguiram caminhos bem
diferentes; que aqueles, embora confessadamente
tomistas, eram culturalmente calvinistas, a ponto
de julgarem os imigrantes católicos irlandeses e
italianos como pagãos diante da sobriedade cultural
calvinista.
"Católicos americanos foram por um longo tempo,
como foi mostrado em seus modos puritanos, uma
pequena minoria influenciada pela cultura
Protestante ao seu redor, sua sobriedade religiosa,
seu clericalismo e legalismo e total aceitação da
teologia Tomista. Eles eram ao mesmo tempo
culturalmente Calvinistas e intelectualmente
medievais e esta foi a ocasião de muitos
desentendimentos entre eles e seus correligionários
europeus continentais. Para muitos católicos
americanos e irlandeses-americanos os imigrantes
italianos pareciam mais pagãos do que Cristãos.
Inclusive, como Everett Dean Martin assinalou, o
espírito americano era - e em pequena medida
ainda é - mais medieval do que moderno. D. H.
Lawrence chegou muito perto da mesma conclusão.
Martin achou que o americano não era um homem
moderno porque ele perdeu as influências
liberalizantes da Renascença; Lawrence sustentou
que a influência da Renascença foi precisamente do
que os Pais Peregrinos fugiram. Antes da Primeira
Guerra Mundial a maior parte dos colégios e
universidades, alguns bancos e uma boa quantidade
de palácios milionários foram construídos no estilo
Gótico e alguns arranha-céus tinham pináculos
góticos. Até mesmo as chamadas letras góticas
eram consideradas como possuindo um caráter
sagrado e eram favorecidas por inscrições religiosas
e no anúncio de objetos litúrgicos.. Mas talvez o
contraste entre o Gótico americano e o
Renascimento europeu talvez possa ser melhor
compreendido pela comparação entre os rostos e
figuras no famoso trabalho de retratos de Grant
Wood com a 'deusa batizada' de Nascimento de
Venus, de Boticelli."
A religiosidade protestante foi o parâmetro que
garantiu a unidade àquela nação. O puritano John
Winthrop, em seu sermão "A Model of Christian
Charity", descreveu a natureza o ideal de fundação
daquela que viria a ser a América a partir da colônia
da Nova Inglaterra:
"Eis que está posta a causa entre Deus e nós.
Estabeleceremos uma aliança com Ele para esta
obra. Assumimos uma comissão. O senhor nos
permitiu redigir os próprios artigos. Professamos
empreender estes e aqueles esclarecimentos, sobre
estes e aqueles fins. Temos, depois disso, lhe
suplicado graça e bênção. Agora, se for agradável
ao Senhor nos ouvir, e trazer paz para o lugar que
desejarmos, então terá ratificado esta aliança e
selado nossa comissão, e esperará uma observância
rigorosa dos artigos nela contidos. Se
negligenciarmos, contudo, a observância desses
artigos, que são os fins aos quais nos propusemos,
e, usarmos de dissimulação para com o nosso Deus,
ao abraçar o mundo presente e dar seguimento às
intenções carnais, buscando grandes coisas para nós
mesmos e para nossa posteridade, o Senhor
certamente lançará sua fúria contra nós; vingar-se-á
de tal povo [pecador] e nos dará a conhecer o preço
da violação de tal aliança."

Que o Senhor possa reavivar a América e avivar o


Brasil.