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One Art Uma Arte

by Elizabeth Bishop por Elizabeth Bishop

The art of losing isn't hard to master; A arte de perder não é nenhum mistério
so many things seem filled with the intent tantas coisas contém em si o acidente
to be lost that their loss is no disaster. de perdê-las, que perder não é nada sério.

Lose something every day. Accept the fluster Perca um pouco a cada dia. Aceite austero,
of lost door keys, the hour badly spent. a chave perdida, a hora gasta bestamente.
The art of losing isn't hard to master. A arte de perder não é nenhum mistério.

Then practice losing farther, losing faster: Depois perca mais rápido, com mais critério:
places, and names, and where it was you meant lugares, nomes, a escala subsequente
to travel. None of these will bring disaster. da viagem não feita. Nada disso é sério.

I lost my mother's watch. And look! my last, or Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
next-to-last, of three loved houses went. lembrar a perda de três casas excelentes.
The art of losing isn't hard to master. A arte de perder não é nenhum mistério.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster, Perdi duas cidades lindas. Um império
some realms I owned, two rivers, a continent. que era meu, dois rios, e mais um continente.
I miss them, but it wasn't a disaster. Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

—Even losing you (the joking voice, a gesture —Mesmo perder você (a voz, o ar etéreo, que
I love) I shan't have lied. It's evident eu amo) não muda nada. Pois é evidente
the art of losing's not too hard to master que a arte de perder não chega a ser um
though it may look like (Write it!) like disaster. mistério
por muito que pareça (escreve) muito sério.

(tradução de Paulo Henriques Brito)

A norte-americana Elizabeth Bishop nasceu em Massachusetts, em 8 de fevereiro de 1911, e


morreu 68 anos depois, em Boston. Em 1952, depois de uma viagem pela costa brasileira,
Elizabeth encantou-se pelas montanhas de Petrópolis e lá permaneceu por longos quinze anos.
Durante esse período, escreveu numerosos registros e poemas, como o transcrito acima.
Mirror
Sylvia Plath

I am silver and exact. I have no preconceptions.


Whatever I see I swallow immediately
Just as it is, unmisted by love or dislike.
I am not cruel, just truthful -
The eye of a little god, four cournered.
Most of the time I meditate on the opposite wall.
It is pink, with speckles. I have looked at it so long
I think it is a part of my heart. But it flickers.
Faces and darkness separate us over and over.

Now I am a lake. A woman bends over me,


Searching my reaches for what she really is.
Then she turns to those liars, the candles or the moon.
I see her back, and reflect it faithfully.
She rewards me with tears and an agitation of hands
I am important to her. She comes and goes.
Each morning it is her face that replaces the darkness.
In me she has drowned a young girl, and in me an old woman
Rises toward her day after day, like a terrible fish.

Espelho
Sylvia Plath
Sou prateado e exato. Não tenho preconceitos.
Tudo o que vejo engulo imediatamente
Do jeito que for, desembaçado de amor ou aversão.
Não sou cruel, apenas verdadeiro -
O olho de um pequeno deus, de quatro cantos.
Na maior parte do tempo medito sobre a parede em frente.
Ela é rosa, pontilhada. Já olhei para ela tanto tempo,
Eu acho que ela é parte do meu coração. Mas ela oscila.
Rostos e escuridão nos separam toda hora.

Agora sou um lago. Uma mulher se dobra sobre mim,


Buscando na minha superfície o que ela realmente é.
Então ela se vira para aquelas mentirosas, as velas ou a lua.
Vejo suas costas, e as reflito fielmente.
Ela me recompensa com lágrimas e um agitar das mãos.
Sou importante para ela. Ela vem e vai.
A cada manhã é o seu rosto que substitui a escuridão.
Em mim ela afogou uma menina, e em mim uma velha
Se ergue em direção a ela dia após dia, como um peixe terrível.

translated by André Cardoso


(in 34 LETRAS, issue 5/6, Ed. 34 Literatura and Nova Fronteira, Brazil, 1989)

Sylvia Plath (Jamaica Plain, Massachusetts, 27 de Outubro de 1932 — Primrose Hill, Londres, 11 de fevereiro de
1963) foi uma poetisa, romancista e contista norte-americana.

Reconhecida principalmente por sua obra poética, Sylvia Plath escreveu também um romance semi-autobiográfico,
"A Redoma de Vidro" ("The Bell Jar"), sob o pseudônimo Victoria Lucas, com detalhamentos do histórico de sua luta
contra a depressão. Assim como Anne Sexton, Sylvia Plath é creditada por dar continuidade ao gênero de poesia
confessional, iniciado por Robert Lowell e W.D. Snodgrass