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UFRB- UNIVERSIDADE FEDERAL DO RECONCAVO DA BAHIA

CAHL- CENTRO DE ARTES, HUMANIDADES E LETRAS

Ithana Maria Oliveira de Souza

AS AÇÕES DOS TRIBUNAIS DO SANTO OFÍCIO NA AMÉRICA COLONIAL

Dissertação feita como atividade avaliativa para


a disciplina de História da América, ofertada
pelo professor Nuno Gonçalves.

Cachoeira/2019
Para muitos autores, a história moderna se inicia com o marco da chegada de Cristóvão
Colombo na américa. A partir do processo de colonização, política, social, cultural e religiosa
dos povos nativos das américas, o continente europeu iniciou seu processo de desenvolvimento
capitalista. Dentro daquele período a Europa, dominada pelos dogmas religiosos, a Igreja
exercia um papel crucial na organização social daquela sociedade, tendo para si tamanho poder
que Estado e Religião andavam lado a lado, tendo como por exemplo, existido tribunais que
julgavam e condenavam as ações dos fiéis que desobedeciam às determinações impostas pelo
cristianismo e sua doutrina.

Os Tribunais do Santo Ofício da Inquisição da Espanha e Portugal, interferiu por


trezentos anos em todos os setores da vida, e existiu aos moldes dos tribunais inquisitoriais
medievais que funcionavam contra grupos heréticos, que desafiavam a soberania católica. Vale
lembrar que a Península Ibérica, por séculos esteve sob domínio dos árabes, e mesmo após a
retomada das localidades pelos reis católicos, ali viviam uma diversidade de pessoas de grupos
étnicos de religião, idioma e costumes diferentes, os árabes e os judeus, até que numa tentativa
de unificação do estado religioso se instaura, portanto, os tribunais inquisitoriais, na Espanha
no fim do século XV, forçando os mouros e judeus a se converterem ao catolicismo afim de
sobreviverem aquela realidade.1

Com as guerras de conquista e o processo de colonização, muitos desses cristãos novos,


convertidos vieram para as américas procurando uma maior liberdade para a manter as suas
crenças, sem o medo constante de serem descobertos e denunciados aos tribunais do santo
ofício. Além da perseguição dos convertidos e hereges, a inquisição tratou de julgar ou crimes
como, feitiçaria, bruxaria, bigamia, sodomia, solicitação, blasfêmia, desacato, dentre outros,
pois seu regimento interno tratava de julgar basicamente os crimes contra a fé ou contra a moral
e os costumes.2

O funcionamento da Inquisição era a base de denúncias, onde seriam averiguadas as


acusações. Se o crime fosse de natureza religiosa, era bem provável que as punições seriam
mais pesadas em relação aos crimes contra a moral e os costumes. O acusado era levado a força,
torturado, e era obrigado a confessar seu crime, e a denunciar amigos e familiares para satisfazer
o desejo dos inquisidores, ainda mais por conta dos confiscos dos bens, quanto mais acusados
maiores as arrecadações para a manutenção dos tribunais, a tortura era aplicada constantemente

1
NOVINSKY, Anita. A Inquisição. Coleção Primeiros Passos.
2
Idem. P.56
como forma de pressionar o indivíduo a dar os nomes de seus colegas, e a pena de morte era
dada aqueles que se recusavam a declararem-se culpados.3

Na América Latina, se estabeleceram três tribunais oficiais, do Santo Ofício espanhol,


Peru em 1570, no México em 1571 e na Colômbia (Cartagena) em 1610. Sendo que o primeiro
auto de fé realizado na américa foi no México em 1528, ou seja, antes mesmo da instauração
oficial do Santo Ofício, a preocupação em manter fora das colônias hereges, convertidos e
“salvar” as almas dos pecadores era pungente para o império espanhol. 4 Da mesma forma que
o Tribunal atuava na Espanha, atuou nas colônias. Milhares de pessoas foram condenadas as
mais diversas punições e os autos de fé eram comuns.

Já na América Portuguesa, o antropólogo Luiz Mott na sua obra, Bahia Inquisição e


Sociedade, aponta que:

Em 1591 e 1618, tem lugar na Bahia de Todos os Santos a 1ª e 2ª


Visitações do Santo ofício, contabilizando aproximadamente 500 denúncias e
confissões de suspeitos e réus confirmados em “crimes contra a fé”: heresias,
judaísmo, protestantismo, feitiçarias, irreligiosidade, assim como “crimes
contra a moral sexual”: sodomia, bigamia e a imoralidade sacerdotal.
Segundo Anita Novinsky, nas visitações do Santo Ofício a América Portuguesa, pois
este tribunal não chegou a se instalar oficialmente em solo brasileiro por conta da economia
açucareira ser dominada basicamente por cristãos novos, foram presos e processados pelo
Tribunal de Lisboa 1076 indivíduos da América Portuguesa, dos quais 249 (23%) moradores
na Bahia.5

Alguns casos podem servir de exemplo para mostrar a atuação dos tribunais
inquisitoriais nas colônias e como estes, como o próprio Luiz Mott já citado acima afirma foram
os bichos papões das populações nas colônias.

No livro, A Inquisição do Michael Baigent, é citado o caso de John Drake:

“[...] no auto de 30 de novembro de 1587, achava-se John


Drake, primo de Sir Francis. Depois de contornar o Cabo Horn, o
navio de Drake naufragara no Pacífico, ao largo da costa do que é hoje
o Chile. Ele e um companheiro haviam subido as montanhas e depois
descido de canoa até Buenos Aires. Ali, foram capturados e mandados
de volta pelas montanhas a Lima. Em seu julgamento, Drake capitulou,
converteu-se ao catolicismo e foi condenado a três anos num mosteiro.

³ Idem. P. 58-60
4
Idem. P. 72.
5
MOTT, Luiz. Introdução. In.: Bahia, Inquisição e Sociedade. EDUFBA, 2010. P.
Seu companheiro, mais obstinado, foi torturado e sentenciado a quatro
anos nas galés, seguidos de prisão perpétua. “

O "Grande Auto" de 1649, foi o ponto alto da Inquisição no México, iam ser julgados
109 pessoas, dessas 20 foram queimadas em efígie, após a morte em alguns casos por suicídio
ou durante as torturas, enquanto 13 foram condenados a morte, desses 12 foram concedidos a
“misericórdia” de serem enforcados antes de serem mandados a fogueira, o único a preferir o
fogo a renegar sua verdadeira fé judaica foi Tomás Trevifio. Já em Lima, boa parte dos casos
também eram de padres acusados do crime de solicitação, onde seduziam as mulheres durante
as confissões, destes casos em 1595 haviam 24 deles em cárcere, mas as penas eram brandas
para esse tipo de crime.6

Já em Lima, a bruxaria se torna a causa mais comum de acusações durante determinado


período e Baigent afirma:

“Num auto de março de 1634, vinte e um supostos bruxos


foram julgados. A maioria, porém, escapou com açoites e multas. Um
foi torturado por cerca de noventa minutos e morreu. Dois foram
sentenciados à estaca, mas La Suprema na Espanha recusou-se a
ratificar as sentenças e até libertou os acusados. ”

Além disso, em Cartagena, a corrupção e os excessos dos inquisidores, são de tamanha


expressividade, que superaram as dos outros Tribunais, como um notório inquisidor dali que
tinha várias aventuras sexuais, inclusive adultérios e casos incestuosos.7

Já na América Portuguesa, Luiz Mott conta que:


“ [...] se confessaram na 1ª Visitação da Bahia 121 pessoas,
contando-se em mais de três centenas as pessoas denunciadas,
predominando entre os “crimes”, as blasfêmias, a distorção ou
omissão de práticas litúrgicas, a sodomia, o judaísmo e as
“gentilidades”, isto é, uma espécie de conversão às crenças e rituais
dos brasilíndios. Nesta primeira Visitação, a maior parte dos réus foi
sentenciada aqui mesmo no Brasil, com penas que incluíam açoites,
sequestro de bens, degredo para outra Capitania, não chegando a uma
dezena os que foram remetidos a Portugal para serem julgados nos
cárceres secretos da Inquisição de Lisboa. ”8
E aponta também que:

6
BAIGENT, Michael. A Inquisição. P. 70 - 74
7
Idem. P. 76
8
MOTT, Luiz. Bahia-Inquisição e Sociedade. P.23-24
“[...] de 235 moradores da Bahia processados pela Santa
Inquisição entre 1546 a 1821, data em que é extinto este tribunal
eclesiástico: judaísmo: 96; bigamia:34; blasfêmia: 33; sodo mia: 18;
gentilismo: 12; luteranismo: 10; feitiçaria: 10; contra a Inquisição: 8;
falsos padres: 6; irreligiosidade: 6; solicitação: 2” 9

Portanto, é de senso comum que a Inquisição foi um capitulo trágico na história


da humanidade como um todo, marcado por uma forte intolerância religiosa por uma
instituição movida por fins políticos e econômicos. Sob domínio das coroas ibéricas e
administrada por clérigos, trouxe para o Novo Mundo, os mesmos paradigmas que
traziam medo e apreensão a aqueles que não professavam a fé católica papista, valendo
lembrar também que o território das colônias era vasto e o controle sobre os povos não
era constante e as denúncias surgiam mais por questões de conflitos pessoais ou
econômicos, então a atuação desse instrumento do clero foi limitada, como foi mostrado
por Stuart B. Swartchz em seu livro Cada um na sua lei, Tolerância religiosa e salvação
no mundo atlântico ibérico, onde ele mostra que no dia a dia nas colônias a tolerância
era praticada normalmente.

Seu reinado de terror se encerrou no século XIX, a partir das mudanças nos
cenários políticos, econômicos e intelectuais, que nasciam na Europa. Por quase três
séculos, essa instituição tentou controlar os comportamentos humanos, mas não impediu
de que alguns rebeldes agissem conforme o que lhe conviesse, desafiando o poder
clerical e dando trabalho para a maldita instituição, que mesmo com seus excessos foi
uma ferramenta importante para a manutenção de uma ordem social, e tinha seu papel
dentro daquela sociedade.

9
Idem. P. 24
REFERÊNCIAS:
BAIGENT, Michael; LEIGH, Richard. A Inquisição. Rio de Janeiro: Imago, 2001
GREEN, Toby. Inquisição: O reinado do medo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.
MOTT, Luiz. Bahia: Inquisição & Sociedade. Salvador, EDUFBA, 2010.
NOVINSKY, Anita Waingort. A Inquisição. Coleção Primeiros Passos, 3ª Edição. Editora
Brasiliense, 1985.

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