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Shankara

Viveka Chuda Mani


(A Jóia Suprema do Discernimento)

Índice

Índice _________________________________________________________________________ 1
Prefácio _______________________________________________________________________ 2
I Shankara_____________________________________________________________________ 3
II A Filosofia do Não-Dualismo____________________________________________________ 5
O espírito da filosofia de Shankara______________________________________________________ 5
A natureza da aparência de mundo _____________________________________________________ 6
Sobreposição, ou Maya________________________________________________________________ 7
Maya: uma declaração de fato e de princípio _____________________________________________ 7
Brahman e Iswara ___________________________________________________________________ 9
O problema do mal __________________________________________________________________ 10
A meta suprema ____________________________________________________________________ 12
Métodos e meios ____________________________________________________________________ 13
III A Jóia Suprema do Discernimento______________________________________________ 14
A senda____________________________________________________________________________ 14
O discípulo_________________________________________________________________________ 15
O mestre___________________________________________________________________________ 16
As perguntas _______________________________________________________________________ 17
Atman e não-Atman _________________________________________________________________ 19
Vigília, sono, sono sem sonhos _________________________________________________________ 20
Maya______________________________________________________________________________ 21

1
O Atman __________________________________________________________________________ 22
A mente ___________________________________________________________________________ 23
O corpo ___________________________________________________________________________ 24
Purificação_________________________________________________________________________ 25
O invólucro do intelecto ______________________________________________________________ 26
Ilusão _____________________________________________________________________________ 27
O invólucro da bem-aventurança ______________________________________________________ 28
Atman é Brahman___________________________________________________________________ 28
O universo _________________________________________________________________________ 29
Eu sou Brahman ____________________________________________________________________ 30
Isso és Tu __________________________________________________________________________ 30
Devoção ___________________________________________________________________________ 32
Falsa identificação __________________________________________________________________ 33
O ego _____________________________________________________________________________ 34
Desejos ____________________________________________________________________________ 35
Recolhimento_______________________________________________________________________ 36
Rejeição das aparências ______________________________________________________________ 36
A corda e a cobra ___________________________________________________________________ 37
Samadhi ___________________________________________________________________________ 38
Controle interior e exterior ___________________________________________________________ 39
O um______________________________________________________________________________ 40
Libertação _________________________________________________________________________ 41
O mundo fantasma __________________________________________________________________ 41
União com Brahman_________________________________________________________________ 42
Desprendimento ____________________________________________________________________ 42
Impassibilidade _____________________________________________________________________ 43
Iluminação _________________________________________________________________________ 43
A cessação do sonho _________________________________________________________________ 44
A flecha não se deterá________________________________________________________________ 45
Brahman é tudo_____________________________________________________________________ 46
O discípulo se rejubila _______________________________________________________________ 47
A jóia suprema _____________________________________________________________________ 49
IV Shankara formula e responde a algumas importantes perguntas ______________________ 53

Prefácio

2
A Jóia S upre ma do D isce rnime nto é um te xto clá ssico do V e da nta a re spe ito do ca minho pa ra D e us a tra vé s
do conhe cime nto. S e u e nsina me nto bá sico é o de que só D e us é a re a lida de que a tudo pe rme ia ; a a lma
individua l nã o é outra se nã o a a lma unive rsa l.

S ha nka ra (686-718 d.C .) re pre se nta uma fonte proe mine nte da sa be doria orie nta l. E le de sfruta de e norme
popula rida de de vido à ma ne ira cla ra e ra ciona l com que a borda te ma s re la ciona dos com a re ligiã o.

N o e nta nto, como e ste livro irá mostra r, e le ta mbé m e ra ca pa z de gra nde de voçã o. R e núncia , disce rnime nto,
a utocontrole - sã o e sta s a s sua s se nha s. A lguns ta lve z nã o se a gra de m da sua a uste rida de , sobre tudo na s
pa rte s inicia is do diá logo que e le ma nté m com um prová ve l discípulo; ma s é justa me nte e ssa se ve rida de
que se rve de va lioso corre tivo pa ra os pe rigos do se ntime nta lismo fá cil.

S ha nka ra nã o te m ilusõe s a re spe ito de ste mundo de Ma ya ; e le conde na se us a pa re nte s pra ze re s com uma
fra nque za bruta l. P or e ssa ra zã o é que e le conse gue de scre ve r com ta nta inte nsida de a comple ta
tra nsforma çã o do unive rso que a conte ce dia nte dos olhos do ilumina do, na qua l o mundo se toma , de fa to,
um pa ra íso. D e pois de á rduos e mba te s, o discípulo da Jóia S upre ma a lca nça a re a liza çã o, e o livro de
S ha nka ra te rmina com a ma gnífica e xplosã o da sua a le gria .

******

Ó S e nhor, que ha bita is e m nosso íntimo


V ós sois a luz
N o lótus do cora çã o.
O m é o vosso e u,
O m, a ma is sa gra da da s pa la vra s,
O rige m e fonte da s e scritura s.
N ã o pode a lógica de scobrir-vos,
Ó S e nhor, ma s os iogue s
V os conhe ce m na me dita çã o.
E m vós e stã o toda s a s fa ce s de D e us,
S ua s forma s e a spe ctos;
E m vós ta mbé m
E ncontra mos o guru.
E sta is e m todos os cora çõe s
E se , uma ve z que se ja ,
U m home m a brir
S ua me nte pa ra re ce be r-vos,
E m ve rda de e sse home m
S e rá livre pa ra se mpre .

S ha nka ra

I
Shankara

Ma gnífica s e fa ntá stica s nuve ns de le nda ce rca m a figura a uste ra , fa scina nte e pue ril de S ha nka ra - santo,
filósofo e poe ta . Ma s, historica me nte fa la ndo, sa be mos muito pouco sobre a s circunstâ ncia s de sua vida .

S ha nka ra na sce u e m ou por volta de 686 a .D ., de pa is brâ ma ne s, e m K a lá di, vila re jo do Ma la ba r O cide nta l,
no S ul da índia . A os de z a nos já e ra um prodígio a ca dê mico. N ã o só tinha lido e de cora do toda s a s
e scritura s como e scre ve ra come ntá rios sobre muita s de la s e tra va ra discussõe s com re noma dos e ruditos
que de toda s a s pa rte s do pa ís a corria m pa ra vê -lo.

3
Ma s o me nino e sta va insa tisfe ito. N uma é poca e m que a ma ioria da s cria nça s a inda ma l come ça ra a
e studa r, já e le e sta va de sconte nte com o va zio do conhe cime nto livre sco. E le viu que se us profe ssore s nã o
pra tica va m a s sublime s ve rda de s que pre ga va m. D e fato, toda a socie da de e m que e le vivia e ra ma te ria lista
e da da à busca dos pra ze re s. A índia e sta va pa ssa ndo por um pe ríodo de de ca dê ncia e spiritua l. S ha nka ra,
a rde ndo de ze lo juve nil, re solve u fa ze r de sua vida um e xe mplo que pude sse re conduzir os home ns à se nda
da ve rda de .

P or e ssa é poca , se u pa i fa le ce u. O me nino se viu à s volta s com o e nigma da vida e da morte , e de cidiu
de cifrá -lo. Iria re nuncia r a tudo e m sua busca do significa do da e xistê ncia . F oi e ntã o que e scre ve u o poe ma
Moha Mudga rwn - O F im da Ilusã o. E is uma tra duçã o ma is ou me nos lite ra l de sse poe ma :

Q ue m é a e sposa ? Q ue m é o filho?
E stra nhos sã o os ca minhos de ste mundo.
Q ue m é s tu? D e onde vie ste ?
V a sta é a ignorâ ncia , me u be m-a ma do.
Me dita , pois, sobre e ssa s coisa s e a dora o S e nhor.

V ê a loucura do H ome m:
N a infâ ncia ocupa do com se us brinque dos,
N a juve ntude se duzido pe lo a mor,
N a ma turida de curva do sob a s pre ocupa çõe s -
E se mpre ne glige nte com o S e nhor!
A s hora s voa m, a s e sta çõe s pa ssa m, a vida se e scoa ,
Ma s a brisa da e spe ra nça sopra continua me nte e m se u cora çã o.

O na scime nto tra z a morte , a morte tra z o re na scimento:


E sse ma l nã o ne ce ssita de prova .
O nde , pois, ó H ome m, e stá a tua fe licida de ?
E sta vida tre mula na ba la nça
Q ua l orva lho numa folha de lótus -
N ã o obsta nte , o sá bio pode nos mostra r, num insta nte ,
C omo a tra ve ssa r e sse ma r de muda nça s.

Q ua ndo o corpo se cobre de ruga s, qua ndo o ca be lo enca ne ce ,


Q ua ndo a s ge ngiva s pe rde m os de nte s, e o bordã o do a nciã o
V a cila sob o se u pe so como um ca niço,
A ta ça do se u de se jo a inda e stá che ia .

T e u filho pode tra ze r-te sofrime nto,


T ua rique za nã o te ga ra nte o cé u:
N ã o te va nglorie s, pois, de tua rique za ,
N e m de tua fa mília , ne m de tua juve ntude –
T oda s e la s pa ssa m, toda s hã o de muda r.
S a be isso e sê livre .
E ntra na a le gria do S e nhor.

N ã o busque s a pa z ne m a discórdia
C om a migos ou pa re nte s.
Ó be m-a ma do, se que re s a lca nça r a libe rda de ,
S ê igua l e m tudo.

S ha nka ra e ntã o pe rsua diu sua mã e a de ixá -lo consa gra r-se à vida moná stica , prome te ndo ir visitá -la a nte s
que e la morre sse . D e pois, te ndo provide ncia do o indispe nsá ve l à s sua s ne ce ssida de s, pa rtiu e m busca de
um me stre .

À s ma rge ns do rio N a rma da e ncontrou G a uda pa da , cé le bre filósofo e vide nte que a lca nça ra o conhe cime nto
da R e a lida de . S ha nka ra pe diu a o ve lho sá bio que se e nca rre ga sse de sua inicia çã o, ma s G a uda pa da
re cusou-se a a te ndê -lo. F ize ra voto de pe rma ne ce r absorto na uniã o com B ra hma n. E nviou, poré m, o
me nino a o se u principa l discípulo, G ovinda pa da . G ovinda pa da iniciou-o e instruiu-o na me dita çã o e no
inte iro proce sso da Ioga . E m pouco te mpo S ha nka ra a lca nçou a comple ta re a liza çã o mística e come çou e le
próprio a e nsina r.

4
U ma ma nhã , qua ndo ia ba nha r-se no G a nge s, e ncontrou um C ha nda la , um me mbro da ma is ba ixa da s
ca sta s, a dos intocá ve is. O home m tra zia consigo qua tro ca chorros, que bloque a va m o ca minho de
S ha nka ra . P or um mome nto, o ina to pre conce ito de ca sta se fe z va le r. S ha nka ra , o B ruhmin, orde nou a o
C ha nda la que sa ísse do se u ca minho. Ma s o C ha nda la re trucou: - S e rá um só D e us, como pode ha ve r
muita s e spé cie s de home ns?" S ha nka ra e nche u-se de ve rgonha e re ve rê ncia , e prostrou-se dia nte do
C ha nda la . E sse incide nte inspirou um dos ma is be los poe ma s de S ha nka ra , o Ma nisha P a ncha ka , composto
de cinco e strofe s, ca da qua l te rmina ndo com o re frão:

Q ue m a pre nde u a ve r e m toda pa rte a E xistê ncia única ,


E sse é o me u me stre , se ja e le B ra hmin ou C ha nda la .

S ha nka ra come çou a e nsina r e ntre os e ruditos do pa ís, conve rte ndo prime iro os profe ssore s, de pois os
a lunos de ste s. U m de le s e ra o fa moso filósofo Ma ndan Misra . Ma nda n Misra a firma va que a vida do che fe
de fa mília e ra muito supe rior à do monge , e sua opiniã o e ra la rga me nte re spe ita da e compa rtilha da e m toda
a índia . S ha nka ra re solve u discutir com e le e dirigiu-se à sua ca sa . A li che ga ndo, e ncontrou a s porta s
fe cha da s. Misra e sta va ce le bra ndo uma ce rimônia re ligiosa e nã o que ria se r incomoda do. S ha nka ra , com o
e spírito tra ve sso de um a dole sce nte , subiu numa á rvore próxima e da li sa ltou pa ra de ntro do pá tio. Misra
pe rce be u-o no me io da multidã o. E le nã o gosta va de monge s - principa lme nte qua ndo e ra m tã o jove ns - e
pe rguntou sa rca stica me nte : - D e onde ve m e ssa ca be ça ra spa da ?" - O se nhor te m olhos pa ra ve r -,
re sponde u S ha nka ra com insolê ncia . "A ca be ça ra spa da ve m do pe scoço.- Misra ficou irrita do, ma s
S ha nka ra continuou a provocá -lo, a té que os dois concorda ra m e m tra va r um de ba te a re spe ito dos mé ritos
conce rne nte s à s vida s do monge e do che fe de fa mília . F icou a sse nta do que S ha nka ra , se pe rde sse , se
toma ria che fe de fa mília , e que Misra , se fosse e le o pe rde dor, se toma ria monge . O de ba te durou vá rios
dia s. B ha ra ti, a culta e sposa de Misra , se rviu de árbitro. P or fim, S ha nka ra conse guiu conve nce r Misra da
supe riorida de da vida moná stica e Misra tomou-se se u discípulo. F oi e le que m má s ta rde a notou os
come ntá rios de S ha nka ra sobre os B ra hma -S utra s.

S ha nka ra te rminou se us dia s e m K e da ma th, no H ima la ia . A o morre r, tinha a pe na s 32 a nos. D ura nte e sse
bre ve pe ríodo, funda ra vá rios moste iros e cria ra dez orde ns moná stica s. F oi e ssa a prime ira ve z e m que se
orga nizou o mona sticismo na Índia , e o siste ma de Sha nka ra pe rdura a té hoje . S ha nka ra e ra ma is um
re forma dor que um inova dor. N ã o pre gou ne nhuma nova doutrina ou cre do. Ma s de u um novo impulso à
vida e spiritua l do se u te mpo. S e pa ra dos por inte rva los de milha re s de a nos, como trê s picos formidá ve is,
B uda , S ha nka ra e R a ma krishra a vulta m na cordilhe ira da história re ligiosa da índia .

A produçã o lite rá ria de S ha nka ra foi e norme . N ã o só te ce u come ntá rios sobre os V e da nta -S utra s, os
principa is U pa nisha ds e o B ha ga va d-G ita como produziu dua s importa nte s obra s filosófica s, o
U pa de sha sa ha sn e o V íve ka chuda (A Jóia S upre ma do D isce rnime nto). D e ixou-nos ta mbé m vá rios poe ma s,
hinos, pre ce s e obra s me nore s sobre o V e da nta .

A Jóia S upre ma do D isce rnime nto foi e scrito inte ira me nte e m ve rsos, prova ve lme nte pa ra fa cilita r sua
me moriza çã o pe los discípulos. O s ve rsos sã o longos e a mé trica é complica da . P re fe rimos nã o te nta r
re produzi-los e m nossa tra duçã o. A me nsa ge m de S ha nka ra é infinita me nte ma is importa nte do que sua
forma lite rá ria : a cla re za foi a nossa única pre ocupa çã o. P or isso nã o he sita mos e m pa ra fra se a r e a mplia r o
te xto se mpre que isso nos pa re ce u ne ce ssá rio. N o todo, poré m, a tra duçã o pe rma ne ce muito fie l a o origina l.

II
A Filosofia do Não-Dualismo

O espírito da filosofia de Shankara

"B ra hma n - a e xistê ncia , o conhe cime nto e a a ve ntura nça a bsolutos - é re a l. O unive rso nã o é re a l. B rahma n
e A tma n (o e u profundo do home m) sã o unos.

N e sta s pa la vra s S ha nka ra sinte tiza sua filosofia . Q ua is a s implica çõe s de ssa a sse rtiva ? Q ue e nte nde e le
por "re a l" e por “irre a l"?

5
S ha nka ra só a ce ita como "re a l" a quilo que nã o muda ne m ce ssa de e xistir. A o formula r e ssa de finiçã o, ele
se gue os e nsina me ntos dos U pa nisha ds e de G a uda pa da , se u pre de ce ssor. N e nhum obje to, ne nhum tipo
de conhe cime nto pode se r a bsoluta me nte re a l se sua e xistê ncia for me ra me nte te mporá ria . A re a lida de
a bsoluta implica a e xistê ncia pe rma ne nte . S e conside ra rmos nossa s múltipla s e xpe riê ncia s dura nte os
e sta dos de vigília e de sono, ve rifica re mos que a s e xpe riê ncia s dura nte o sono sã o ne ga da s pe la s
e xpe riê ncia s no e sta do de vigília e vice -ve rsa - e que a mbos os tipos de e xpe riê ncia ce ssa m dura nte o sono
se m sonhos. N outra s pa la vra s, qua lque r obje to de conhe cime nto, e xte rno ou inte rno - pois um pe nsa me nto
ou idé ia é um obje to de conhe cime nto ta nto qua nto o mundo e xte rior -, e stá suje ito a modifica çã o e ,
porta nto, se gundo a de finiçã o de S ha nka ra , é "irre al".

Q ua l é , e ntã o, a R e a lida de subja ce nte à s nossa s e xpe riê ncia s? S ó e xiste uma coisa que nunca nos
a ba ndona - a consciê ncia profunda . E ste é o único aspe cto consta nte de toda e xpe riê ncia . E e ssa
consciê ncia é o E u re a l, o E u a bsoluto. Me smo no sono se m sonhos o E u re a l e stá pre se nte como uma
te ste munha , a o pa sso que a consciê ncia do e go a que cha ma mos "nós me smos", nossa individua lida de ,
ficou te mpora ria me nte subme rsa na ignorâ ncia (a vidya ) e de sa pa re ce u.

A filosofia V e da nta ocupa uma posiçã o ce ntra l e ntre o re a lismo e o ide a lismo. O re a lismo e o ide a lismo
ocide nta is a sse nta m a mbos na distinçã o e ntre me nte e ma té ria ; a filosofia india na colocou a me nte e a
ma té ria na me sma ca te goria - a mba s sã o obje tos do conhe cime nto. N ã o se de ve , poré m, conside ra r
S ha nka ra como um pre cursor de B e rke le y: e le nã o diz que o mundo é irre a l simple sme nte porque sua
e xistê ncia de pe nde da nossa pe rce pçã o. O mundo, de a cordo com S ha nka ra , "é e nã o é ”. S ua re a lida de
funda me nta l só pode se r compre e ndida e m re la çã o à e xpe riê ncia mística fina l, a e xpe riê ncia da a lma
ilumina da . Q ua ndo a a lma ilumina da me rgulha na consciê ncia tra nsce nde nta l, e la pe rce be o E u (o A tma n)
como pura be a titude e pura inte ligê ncia , o “U m se m um se gundo “. N e sse e sta do de consciê ncia , toda
pe rce pçã o da multiplicida de che ga a o fim, toda distinçã o e ntre “me u e se u” de ixa de e xistir; o mundo como
usua lme nte o conhe ce mos de sa pa re ce . E ntã o o E u re spla nde ce como o único, a V e rda de , o B ra hma n, a
ba se de sta a pa rê ncia de mundo.

A a pa rê ncia de mundo ta l como a e xpe rime nta mos no e sta do de vigília pode se r compa ra da , diz S ha nka ra ,
a uma suposta cobra que , e xa mina da ma is de pe rto, re ve la se r um simple s rolo de corda . Q ua ndo a ve rda de
é conhe cida , de ixa mos de se r iludidos pe la a pa rê ncia - a a pa rê ncia de cobra de sa pa re ce na re a lida de da
corda , o mundo de sa pa re ce e m B ra hma n.

O utros siste ma de filosofia hindu - S ha nkya , Yoga ou N ya ya - a firma m que o mundo fe nome na l possui uma
re a lida de obje tiva , muito e mbora e sta possa nã o se r visíve l a os olhos de uma a lma ilumina da . O A dva ita
V e da nta dife re de sse s siste ma s ne ste ponto vita l: e le ne ga a re a lida de última do mundo do pe nsa me nto e
da ma té ria . Me nte e ma té ria , obje tos finitos e sua s re la çõe s, sã o uma compre e nsã o e rrône a de B ra hma n, e
na da ma is - e is o que S ha nka ra e nsina .

A natureza da aparência de mundo

Q ua ndo S ha nka ra a firma que o mundo do pe nsa me nto e da ma té ria nã o é re a l, nã o e stá que re ndo dize r que
e le nã o e xiste . A a pa rê ncia de mundo é e nã o é . N o e sta do de ignorâ ncia (nossa consciê ncia de todos os
dia s) e le é vive ncia do, e e xiste ta l como nos a pa rece . N o e sta do de ilumina çã o e le nã o é vive ncia do, e de ixa
de e xistir. S ha nka ra nã o vê ne nhuma e xpe riê ncia como ine xiste nte e nqua nto e la é vive ncia da , ma s de duz
na tura lme nte uma distinçã o e ntre a s ilusõe s pa rticula re s do indivíduo e a ilusã o unive rsa l ou ilusã o do
mundo. À prime ira e le cha ma pra tibha sika (ilusória ); à se gunda , vya va ha rika (fe nome na l). P or e xe mplo, os
sonhos de um home m sã o a s sua s ilusõe s pa rticula re s; qua ndo e le a corda , e la s de ixa m de e xistir. Ma s a
ilusã o unive rsa l - a ilusã o do mundo fe nome na l - pe rsiste dura nte toda a vida de vigília do home m, a nã o se r
que e le se conscie ntize da V e rda de me dia nte o conhecime nto de B ra hma n. A lé m disso, S ha nka ra
e sta be le ce uma distinçã o e ntre e sse s dois tipos de ilusã o e a s idé ia s que sã o tota lme nte irre a is e
ima giná ria s, que re pre se nta m uma impossibilida de tota l ou uma fla gra nte contra diçã o de te rmos - como o
filho de uma mulhe r e sté ril.

6
E sta mos, pois, dia nte de um pa ra doxo - o mundo é e nã o é . E le nã o é ne m re a l ne m ine xiste nte . E , nã o
obsta nte , e sse a pa re nte pa ra doxo é simple sme nte a afirma çã o de um fa to - fa to que S ha nka ra de nomina
Ma ya . E sse Ma ya , e ssa a pa rê ncia de mundo te m sua base e m B ra hma n, o e te rno. O conce ito de Ma ya se
a plica unica me nte a o mundo fe nome na l, que , se gundo S ha nka ra , consiste e m nome s e forma s. E le nã o é
ine xiste nte , poré m dife re da R e a lida de , B ra hma n, da qua l de pe nde pa ra a sua e xistê ncia . E le nã o é irrea l,
visto que de sa pa re ce à luz do conhe cime nto da sua ba se e te rna . A a pa rê ncia de inundo é Ma ya ; só o E u, o
A tma n, é re a l.

Sobreposição, ou Maya

O ma is difícil de ntre todos os proble ma s filosóficos é o da re la çã o e ntre o finito e o Infinito, o proble ma de


como e ste mundo finito ve io a e xistir. S e a cre dita mos que o finito te m uma re a lida de própria a bsoluta e que
e le se origina do Infinito e é uma ve rda de ira tra nsforma çã o do Infinito, ou se conside ra mos o Infinito como
urna prime ira ca usa tra nsce nde nta l do mundo fe nome na l (posiçã o suste nta da pe la ma ioria dos te ólogos
cristã os), e ntã o te mos de a dmitir que o Infinito já nã o é infinito. U m D e us que se tra nsforma a S i me smo no
unive rso visíve l e stá E le próprio suje ito à tra nsforma çã o e à muda nça - nã o se pode conside rá -lo corno a
re a lida de a bsoluta . U m D e us que cria um mundo limita a S i me smo pe lo próprio a to da cria çã o, e porta nto
de ixa de se r infinito. A pe rgunta "P or que D e us ha ve ria de cria r?" pe rma ne ce se m re sposta .

E ssa dificulda de é supe ra da , poré m, se conside ra rmos o mundo como Ma ya . E e sta e xplica çã o do nosso
unive rso e stá , a lé m do ma is, e m pe rfe ito a cordo com a s de scobe rta s da ciê ncia mode rna - que se pode m
re sumir a ssim:

“U ma bolha de sa bã o com irre gula rida de s e ruga s e m sua supe rfície é ta lve z a me lhor ima ge m do novo
unive rso que nos foi re ve la do pe la te oria da re la tivida de . O unive rso nã o é o inte rior da bolha de sa bã o, ma s
a sua supe rfície - e a substâ ncia da qua l a bolha é sopra da , a pe lícula de sa bã o, é um e spa ço va zio fundido
1
o te mpo va zio.”

D e ste modo, só qua ndo a na lisa mos a na ture za do U nive rso e o de scobrimos como Ma ya - ne m
a bsoluta me nte re a l, ne m a bsoluta me nte ine xiste nte - é que compre e nde mos como a supe rfície fe nome na l
da bolha de sa bã o sa lva gua rda a e te rna pre se nça do A bsoluto. O s U pa nisha ds, é ve rda de , pa re ce m
conside ra r B ra hma n como a ca usa prime ira do unive rso, ta nto ma te ria l como e ficie nte . A firma m e le s que o
unive rso e ma na do B ra hma n a bsoluto, subsiste ne le e, fina lme nte , funde -se com e le . S ha nka ra nunca ne ga
dire ta me nte os U pa nisha ds, ma s e xplica dife re nte me nte e ssa s a firma çõe s. O unive rso, diz e le , é uma
sobre posiçã o a B ra hma n. B ra hma n pe rma ne ce e te rna me nte infinito e imutá ve l. N ã o e stá tra nsforma do
ne ste unive rso. E le simple sme nte a pa re ce a nós como e ste unive rso, na nossa ignorâ ncia . N ós sobre pomos
o mundo a pa re nte a B ra hma n do me smo modo que à s ve ze s sobre pomos urna cobra a um rolo de corda .

E ssa te oria da sobre posiçã o (viva rta va da ) e stá indissoluve lme nte liga da à te oria da ca usa lida de . A re la çã o
ca usa l e xiste no mundo da multiplicida de , que é Ma ya . N o inte rior de Ma ya , a me nte nã o pode funciona r
se m urna re la çã o ca usa l. Ma s fa la r de ca usa e e fe ito com re fe rê ncia a o A bsoluto é simple sme nte a bsurdo.
B usca r sa be r o que ca usou o mundo é tra nsce nde r o mundo; busca r e ncontra r a ca usa de Ma ya é ir a lé m de
Ma ya - e , qua ndo o fa ze mos, Ma ya de sa pa re ce , porquanto o e fe ito de ixa de e xistir. C omo, e ntã o, pode
ha ve r urna ca usa de um e fe ito ine xiste nte ? E m outras pa la vra s, a re la çã o e ntre B ra hma n e Ma ya é , pe la sua
própria na ture za , incognoscíve l e inde finíve l por qua lque r proce sso do inte le cto huma no.

Maya: uma declaração de fato e de princípio

P orta nto, se gundo S ha nka ra , o mundo do pe nsa me nto e da ma té ria possui uma e xistê ncia fe nome na l ou
re la tiva e e stá sobre posto a B ra hma n, a re a lida de única , a bsoluta . E nqua nto pe rma ne ce rmos na ignorâ ncia
(isto é , e nqua nto nã o tive rmos re a liza do a consciê ncia tra nsce nde nta l), continua re mos a e xpe rime nta r e ste
mundo a pa re nte , que é o e fe ito da sobre posiçã o. Q uando se re a liza a consciê ncia tra nsce nde nta l, a
sobre posiçã o ce ssa .

1
S ir Ja rne s Je a ns.

7
Q ua l a na ture za de ssa sobre posiçã o? N a introduçã o ao se u come ntá rio sobre os B ra hma S utra s, S ha nka ra
nos diz que “sobre posiçã o é a a pre se nta çã o a pa re nte à consciê ncia , pe la me mória , de a lgo que foi
a nte riorme nte obse rva do e m a lguma outra pa rte ”. V e mos uma cobra . Le mbra mo-nos de la . N o dia se guinte ,
ve mos um rolo de corda . S obre pomos a e la a le mbra nça da cobra e de sse modo fa lse a mos a sua na ture za .

S ha nka ra a nte cipa uma obje çã o à sua te oria e tra ta de re futá -la . P ode mos de sa fia r a te oria da sobre posiçã o
a firma ndo que B ra hma n nã o é um obje to de pe rce pçã o. C omo pode mos sobre por uma cobra a uma corda
que nã o pe rce be mos? C omo pode mos sobre por uma a pa rência de mundo a uma re a lida de que nã o é
visíve l a os nossos se ntidos? “P orque todo home m sobre põe obje tos a outros obje tos conforme e ste s se
a pre se nta m à sua pe rce pçã o (isto é , conforme e ntra m e m conta to com se us órgã os se nsoria is)”.- A isso
S ha nka ra re sponde : “B ra hma n nã o é , re plica mos nós, nã o-obje tivo no se ntido a bsoluto. P orque B ra hma n é
o obje to da idé ia do e go. S a be mos pe rfe ita me nte , por intuiçã o, que o E u profundo e xiste , já que a idé ia do
e go é uma re pre se nta çã o do E u. N e m é uma re gra a bsoluta que obje tos possa m se r sobre postos a pe na s a
outros obje tos ta l como e le s se nos a pre se nta m; porque a s pe ssoa s ignora nte s sobre põe m um a zul-e scuro
a o cé u, que nã o é um obje to de pe rce pçã o se nsoria l”.

E sta a firma çã o re que r a lguma e xplica çã o a diciona l. E mbora B ra hma n nunca se ja visíve l à nossa pe rce pçã o
se nsoria l do dia -a -dia , e xiste um modo no qua l e sta mos cônscios da re a lida de : o E u profundo. B ra hma n,
como ficou dito, é a e xistê ncia , o conhe cime nto e a be m-a ve ntura nça a bsoluta . S Ó na consciê ncia
tra nsce nde nta l pode mos pe rce be r isso ple na me nte . N o e nta nto, B ra hma n é pa rcia lme nte visíve l ta mbé m à
nossa consciê ncia norma l. B ra hma n é E xistê ncia , e todos sa be mos que e xistimos. N e ste se ntido, ca da um
de nós te m um conhe cime nto intuitivo do E u profundo (o A tma n, ou B ra hma n-de ntro-da -cria tura ). P oré m o
E u profundo, a re a lida de , nunca é um obje to da pe rce pçã o se nsoria l - porque na nossa ignorâ ncia ,
sobre pomos a idé ia de uma individua lida de pa rticula r - a de se r o S r. S mith ou a S ra . Jone s - à nossa
pe rce pçã o da E xistê ncia . S omos inca pa ze s de compre ende r que a E xistê ncia nã o é nossa proprie da de
pa rticula r, que e la é unive rsa l e a bsoluta . O E u profundo, porta nto, e stá pre se nte na nossa consciê ncia
norma l como “o obje to da idé ia do e go” tra duçã o lite ra l da fra se de S ha nka ra . A sobre posiçã o da idé ia do
e go à E xistê ncia constitui o nosso prime iro e ma is importa nte a to como se re s huma nos. N o mome nto e m
que pra tica mos e sse a to ce ntra l de sobre posiçã o - no mome nto e m que dize mos “e u sou e u, sou um e nte
pa rticula r, sou se pa ra do, sou um indivíduo”, e sta bele ce mos uma e spé cie de re a çã o e m ca de ia que torna
ine vitá ve is nova s sobre posiçõe s. A re ivindica çã o da nossa individua lida de implica a pre se nça da
individua lida de e m toda pa rte . E la sobre põe a utoma tica me nte um mundo múltiplo de cria tura s e obje tos à
re a lida de única , nã o-dividida , à E xistê ncia que é Bra hma n. Idé ia do e go e a pa rê ncia de mundo de pe nde m
um do outro. A ba ndone a idé ia do E go na consciê ncia tra nsce nde nta l, e a a pa rê ncia de mundo de ve
ne ce ssa ria me nte de sa pa re ce r.

Q ua ndo e como ocorre u e sse a to de sobre posiçã o? F oi no nosso na scime nto individua l ou numa vida
a nte rior? F oi num mome nto histórico - corre sponde nte à história da que da de A dã o - e m que o mundo
fe nome na l ve io a e xistir como de corrê ncia da idé ia do e go? A futilida de de se me lha nte s pe rgunta s se
e vide ncia por si me sma . A nda mos me ra me nte à volta de um círculo. O que é e ssa a pa rê ncia de mundo
Ma ya ? Q ue m o criou? A nossa ignorâ ncia . O que é e ssa ignorâ ncia ? Ma ya , igua lme nte . S e houve , há e
se mpre ha ve rá uma re a lida de imutá ve l, como pode mos a dmitir que Ma ya te ve início num mome nto histórico
e spe cífico? N ã o pode mos.

D e ve mos pois concluir, como S ha nka ra , que Ma ya , a e xe mplo de B ra hma n, nã o te ve come ço. A ignorâ ncia
como ca usa e a a pa rê ncia de mundo como e fe ito se mpre e xistira m e se mpre e xistirã o. S ã o como a
se me nte e a á rvore . A “cone xã o e ntre o re a l e o irre a l” produzida pe la nossa ignorâ ncia é um proce sso
unive rsa lme nte ma nife sto e m nossa vida diá ria . S ha nka ra diz: “É óbvio, e nã o pre cisa de prova s, o fa to de
que o obje to que é o nã o-e go e o suje ito que é a idé ia do e go (sobre posta a o E u) sã o opostos um a o outro
como a luz e a s tre va s. N ã o se pode ide ntificá -los, e muito me nos se us re spe ctivos a tributos”. N o e nta nto, é
próprio do home m (de vido a o se u conhe cime nto e rrôneo) nã o pode r dife re ncia r e ntre e ssa s e ntida de s
distinta s e se us re spe ctivos a tributos. E le sobre põe a um a na ture za e os a tributos do outro, liga ndo o re a l
a o irre a l e se rvindo-se de e xpre ssõe s como "e u sou isto”, “isto é me u".

8
S ha nka ra fa la a qui de dois e stá gios ine re nte s a o proce sso de sobre posiçã o. P rime iro a idé ia do e go é
sobre posta a o E u profundo, à e xistê ncia -re a lida de . D e pois a idé ia do e go, e xte rioriza ndo-se , por a ssim dize r,
ide ntifica -se com o corpo e com os a tributos e a s a çõe s física s e me nta is do corpo. D ize mos, como se fosse
a coisa ma is na tura l, “e u sou gordo”, "e u e stou ca nsa do", "e u e stou a nda ndo”, “e u e stou se nta do”, se m nos
de te rmos pa ra conside ra r o que ve m a se r e sse “e u”. E va mos ma is longe . R e ivindica mos como nossos
obje tos e condiçõe s pura me nte e xte riore s. D e cla ra mos que "e u sou re publica no" ou que “e sta ca sa é
minha ”. À me dida que se multiplica m a s sobre posiçõe s, a firma çõe s insólita s toma m-se possíve is e norma is -
ta is como "a funda mos onte m trê s subma rinos” ou “te nho um e xce le nte se guro”. D e ce rto modo,
ide ntifica mos o nosso e go com ca da obje to do unive rso. E , e nqua nto isso, o E u profundo a tua como
e spe cta dor, tota lme nte dissocia do de sse s e sga re s e disposiçõe s de â nimo - ma s toma ndo-os possíve is pe lo
fa to de proporciona r à me nte a que la luz da consciê ncia se m a qua l Ma ya nã o pode ria e xistir.

Q ue Ma ya nã o te m princípio pode se r igua lme nte de monstra do se re toma rmos por um mome nto a ima ge m
da corda e da cobra . A sobre posiçã o da cobra à corda só é possíve l se pude rmos le mbra r da a pa rê ncia da
cobra ; uma cria nça que nunca viu uma cobra nunca fa ria e ssa sobre posiçã o. C omo pode o re cé m-na scido,
e ntã o, sobre por a “cobra ” (a pa rê ncia de mundo) à “corda ” (B ra hma n)? S ó pode re mos re sponde r a e ssa
pe rgunta se postula rmos uma “me mória da cobra ” unive rsa l, comum a toda a huma nida de e e xiste nte de sde
um te mpo se m princípio. E ssa “me mória da cobra " é Ma ya .

Ma ya , diz S ha nka ra , é nã o a pe na s o unive rsa l ma s també m o que nã o te m princípio ne m fim. N o e nta nto,
de ve -se fa ze r uma distinçã o e ntre Ma ya como princípio unive rsa l e a ignorâ ncia (a vidya ), que é individua l. A
ignorâ ncia individua l nã o te m princípio, ma s pode te rmina r a qua lque r mome nto: e la de sa pa re ce qua ndo o
home m a lca nça a ilumina çã o e spiritua l. D e sse modo, o mundo pode de sa pa re ce r da consciê ncia de um
indivíduo e a inda a ssim continua r a e xistir pa ra o re sto da huma nida de . N isso a filosofia de S ha nka ra dife re
e sse ncia lme nte do ide a lismo subje tivo do O cide nte .

Brahman e Iswara

E m ce rto se ntido, B ra hma n é a ca usa primordia l do unive rso -já que , pe la a çã o de Ma ya , a a pa rê ncia de
mundo é sobre posta a B ra hma n. B ra hma n é a ca usa , Ma ya , o e fe ito. T oda via , nã o se pode dize r que
B ra hma n. se tra nsformou no mundo ou que o criou, porque a R e a lida de a bsoluta é , por de finiçã o, inca pa z
de a çã o ou de muda nça te mpora l. O utra pa la vra , lswara , pode pois se r e mpre ga da pa ra de scre ve r o
princípio cria tivo. lswa ra é B ra hma n unido a Ma ya - a combina çã o de B ra hma n e se u pode r que cria ,
pre se rva e dissolve o unive rso num proce sso se m princípio e se m fim. lswa ra é D e us pe rsonifica do, D e us
com a tributos.

D e a cordo com o siste ma de filosofia S a nkhya , o unive rso é uma e voluçã o da P ra kriti - ma té ria
indife re ncia da , composta de trê s força s cha ma da s guna s. A cria çã o é uma pe rturba çã o no e quilíbrio de ssa s
força s. A s guna s come ça m a pa ssa r por uma e norme va rie da de de combina çõe s - ma is ou me nos como na
te oria ocide nta l da e strutura a tômica - e e ssa s combina çõe s constitue m os e le me ntos, os obje tos e a s
cria tura s individua is. E sse conce ito da P ra kriti corre sponde , a té ce rto ponto, a o conce ito de Ma ya formula do
por S ha nka ra , ma s com e sta importa nte dife re nça : P ra kriti é conside ra da distinta e inde pe nde nte de
P urusha (a R e a lida de a bsoluta ), e nqua nto Ma ya é vista como de stituída de re a lida de a bsoluta , ma s como
de pe nde nte de B ra hma n. P orta nto, é lswa ra , e nã o P ra kriti, que pode se r de scrita como a ca usa primordia l
do unive rso.

E xiste m e ntã o dois D e use s - um impe ssoa l B ra hma n, outro o pe ssoa l lswa ra ? N ã o - porque B ra hma n só
a pa re ce como lswa ra qua ndo visto pe la re la tiva ignorâ ncia de Ma ya . lswa ra possui o me smo gra u de
re a lida de que Ma ya . D e us, a P e ssoa , nã o é a na ture za primordia l de B ra hma n. N a s pa la vra s de S wa mi
V ive ka na nda , “o D e us P e ssoa l é a le itura do Impe ssoa l pe la me nte huma na ”.

S ri R a ma krishna , que vive u ininte rrupta me nte na consciê ncia do B ra hma n a bsoluto, se rviu-se da se guinte
ilustra çã o: “B ra hma n. pode se r compa ra do a um oce a no infinito, se m princípio ne m fim. A ssim como, de vido
a o frio inte nso, a lguma s pa rte s do oce a no se conge la m e a á gua informe pa re ce a dquirir forma , do me smo
modo, gra ça s a o inte nso a mor do de voto, B ra hma n pa re ce a ssumir forma e pe rsona lida de . Ma s a forma
toma a de sa pa re ce r qua ndo o sol do conhe cime nto volta a brilha r. E ntã o todo o unive rso ta mbé m
de sa pa re ce e nã o há se nã o B ra hma n, o infinito."

9
Muito e mbora lswa ra se ja , e m ce rto se ntido, uma pe ssoa , de ve -mos toma r cuida do pa ra nã o conside rá -lo
como se me lha nte ou idê ntico à jiva, a a lma huma na individua l. lswa ra , como jiva, é B ra hma n unido a Ma ya ,
poré m com e sta dife re nça funda me nta l: lswa ra é o senhor e controla dor de Ma ya ; jiva é o se rvo e jogue te de
Ma ya . P ode mos pois dize r, se m pa ra doxo, que somos ao me smo te mpo D e us e os se rvos de D e us. E m
nossa na ture za a bsoluta , somos unos com B ra hma n; e m nossa na ture za re la tiva , somos dife re nte s de
lswa ra e e sta mos suje itos a E le .

A de voçã o a lswa ra , o D e us P e ssoa l, pode le va r um home m muito longe no ca minho da e spiritua lida de ,
pode tra nsformá -lo num sa nto. Ma s e ste nã o é o conhe cime nto fina l. S e r comple ta me nte ilumina do é ir a lé m
de lswa ra , é conhe ce r a R e a lida de Impe ssoa l subja cente à A pa rê ncia divina pe ssoa l. P ode mos conve rte r-
nos e m B ra hma n, já que B ra hma n se mpre e stá pre se nte e m nós. Ma s ja ma is pode re mos conve rte r-nos e m
Iswa ra , pois lswa ra e stá a cima da nossa pe rsona lida de huma na e de la se dife re ncia . S e gue -se , porta nto,
que nunca nos torna re mos gove rna nte s do unive rso - pois e ssa é a funçã o de lswa ra . O de se jo de usurpa r a
funçã o de lswa ra é a loucura má xima do e go. N a lite ra tura cristã , e la é simboliza da pe la le nda da que da de
Lúcife r.

V ya sa , o a utor dos B ra hma S utra s, diz a me sma coisa a o a firma r que ningué m pode rá a dquirir o pode r de
cria r, gove rna r ou dissolve r o unive rso, já que e sse pode r pe rte nce unica me nte a lswa ra . E S ha nka ra , em
se u come ntá rio, discute o proble ma da se guinte ma ne ira : “Q ua ndo um home m, a tra vé s da a dora çã o do
B ra hma n qua lifica do (lswa ra ), a lca nça o conhe cime nto do S upre mo G ove rna nte , pre se rva ndo a o me smo
te mpo sua consciê ncia individua l, se u pode r é limita do ou ilimita do? A e sta pe rgunta a lguns re sponde rão
que se u pode r é ilimita do, e cita rã o os te xtos da s e scritura s onde se tra ta da que le s que a lca nça m o
conhe cime nto de lswa ra : 'E le s conquista m o se u próprio re ino', 'T odos os de use s lhe s ofe re ce m a dora çã o’”
'S e us de se jos sã o re a liza dos e m todos os mundos'. Ma s V ya sa re sponde a e ssa pe rgunta qua ndo
a cre sce nta : 'se m o pode r de gove rna r o unive rso'. T odos os outros pode re s de lswa ra pode m se r a dquiridos
pe la s a lma s libe rta s, ma s e sse pe rte nce unica me nte a lswa ra . C omo sa be mos disso? S a be mo-lo porque E le
é prota gonista de todos os te xtos sa gra dos re la tivos à cria çã o. E sse s te xtos nã o fa ze m a me nor re fe rê ncia
à s a lma s libe rta s. E is por que E le é cha ma do 'o e terna me nte pe rfe ito'. A s e scritura s dize m ta mbé m que os
pode re s da s a lma s libe rta s sã o a dquiridos a tra vé s da a dora çã o e da busca de D e us; porta nto, e la s nã o tê m
luga r no gove rno do unive rso. A inda a qui, visto que a s a lma s libe rta s pre se rva m sua consciê ncia individua l,
é possíve l que sua s vonta de s difira m e que , e nqua nto uma de se ja a cria çã o, outra pode de se ja r a
de struiçã o. A única ma ne ira de e vita r e sse conflito é subordina r toda s a s vonta de s a uma vonta de única.
D e ve mos, pois, concluir que a s vonta de s da s a lma s libe rta s de pe nde m da von-ta de do S upre mo
G ove rna nte .”

S e e xiste uma só consciê ncia , um só B ra hma n, que m vê e que m é visto? Q ue m vê B ra hma n como lswa ra , e
que m é jiva ? S ã o e le s dife re nte s ou uma só coisa ?

E nqua nto o home m se e ncontra na s limita çõe s de Ma ya , o único é visto como muitos. T udo o que a
ignorâ ncia pode fa ze r é a dora r a A pa rê ncia ; e lswa ra é o gove rna nte de toda s a s a pa rê ncia s - a ma is
e le va da idé ia que a me nte huma na pode a pre e nde r e o cora çã o huma no a ma r. A me nte huma na é inca pa z
de a pre e nde r a R e a lida de a bsoluta ; tudo o que e la pode fa ze r é infe rir a sua pre se nça e a dora r uma image m
proje ta da . N o proce sso de ssa a dora çã o, a me nte se purifica , a idé ia do e go se dissipa como a né voa , a
sobre posiçã o ce ssa e lswa ra e a a pa rê ncia de mundo se de sva ne ce m na cha ma da consciê ncia
tra nsce nde nta l qua ndo o que vê e o que é visto de ixa m de e xistir - na da ma is e xiste se nã o B ra hma n, o F a to
único, unive rsa l, a te mpora l.

O problema do mal

T oda re ligiã o ou siste ma de filosofia de ve tra ta r do proble ma do ma l - ma s, infe lizme nte , e ste é um proble ma
que e m ge ra l é ma is contorna do do que e xplica do. "Por que ", pe rgunta -se , "D e us pe rmite o ma l, se E le
P róprio é só bonda de ?”

U ma ou dua s re sposta s costuma m se r da da s a e ssa pe rgunta pe lo pe nsa me nto re ligioso ocide nta l. À s
ve ze s nos dize m que o ma l é uma que stã o e duca ciona l e pe na l. D e us nos ca stiga pe los nossos pe ca dos
visita ndo-nos com a gue rra , a fome , os te rre motos, a s ca la mida de s e a s doe nça s. S e rve -se da te nta çã o
(que r dire ta me nte , que r pe la inte rve nçã o do D e mônio) pa ra pôr à prova e forta le ce r a virtude dos home ns
bons. E ssa é a re sposta da da pe lo A ntigo T e sta me nto. N a é poca a tua l, e la re pugna a muita s pe ssoa s e
tomou-se a ntiqua da - e mbora , como ve re mos logo a dia nte , conte nha um ce rto gra u de ve rda de , se gundo a
filosofia do V e da nta .

10
A outra re sposta - hoje ma is ge ra lme nte a ce ita - é que o ma l nã o e xiste e m a bsoluto. S e e nca ra rmos a Vida
sub specie aeternitatis, ve re mos que o ma l ca re ce de re a lida de , que e le é simple sme nte uma inte rpre ta çã o
e rrône a do be m.

A filosofia V e da nta discorda de a mba s a s te se s - da se gunda a té ma is ra dica lme nte que da prime ira . C omo,
pe rgunta e la , o ma l pode muda r-se e m be m pe lo simple s fa to de o conside ra rmos de uma ma ne ira
e spe cia l? A dor e o infortúnio pode m se r suporta dos ma is fa cilme nte se conce ntra rmos nossa me nte e m
D e us - ma s, nã o obsta nte , a mbos sã o e xpe riê ncia s muito re a is, a inda que sua dura çã o se ja limita da . O
V e da nta concorda que o ma l, no se ntido a bsoluto, é irre a l. Ma s le mbra -nos que , de sse ponto de vista ,
ta mbé m o be m é irre a l. A R e a lida de a bsoluta e stá a lé m do be m e do ma l, do pra ze r e da dor, do suce sso e
do insuce sso. T a nto o be m qua nto o ma l sã o a spe ctos de Ma ya . E nqua nto Ma ya e xistir, e le s e xistirã o. N o
inte rior de Ma ya e le s sã o e fe tiva me nte re a is.

N a ve rda de , a pe rgunta "P or que D e us pe rmite o ma l?" e stá e rrone a me nte formula da . É tã o a bsurda como
se pe rguntá sse mos. “P or que D e us pe rmite o be m?" N ingué m hoje pe rgunta ria por que a chuva "pe rmitiu-
uma e nche nte ca ta strófica ; ningué m a cusa ria ou louva ria o fogo porque e le que ima a ca sa de um home m e
cozinha o ja nta r de outro. T a mpouco se pode dize r a propria da me nte que B ra hma n é "bom" e m qua lque r
se ntido pe ssoa l da pa la vra . B ra hma n nã o é "bom" no se ntido e m que C risto o e ra “porque a bonda de de
C risto se e ncontra nos limite s de Ma ya ; sua vida e xpre ssou a luz da R e a lida de re fle tida no mundo re la tivo. A
R e a lida de e m si e stá a lé m de todos os fe nôme nos, me smo o ma is nobre . E stá a lé m da pure za , da be le za ,
da fe licida de , da glória ou do suce sso. S ó pode mos de scre vê -la como “o be m” se a dmitirmos que a
consciê ncia a bsoluta é o conhe cime nto a bsoluto e que o conhe cime nto a bsoluto é a a le gria a bsoluta .

Ma s pode se r que a que stã o nã o se re fira a bsoluta mente a B ra hma n. P ode se r que , ne ssa cone xã o, "D e us"
signifique lswa ra , o G ove rna nte de Ma ya . Isto posto, pode a filosofia V e da nta concorda r com a a firma çã o do
A ntigo T e sta me nto de que D e us é o doa dor da le i, um pa i se ve ro e a lgo impre visíve l, cujos ca minhos nã o
sã o os nossos, cujos ca stigos e re compe nsa s pa re ce m qua se se mpre ime re cidos, um pa i que pe rmite que
ca ia mos e m te nta çã o? A re sposta é sim e nã o. A doutrina V e da nta do K a rma é uma doutrina de justiça
a bsoluta , a utomá tica . A s circunstâ ncia s de nossa s vida s, nossa s dore s e nossos pra ze re s, sã o o re sulta do
de nossa s a çõe s pa ssa da s ne sta e e m incontá ve is e xistê ncia s a nte riore s, de sde o a lvore ce r dos te mpos. D e
um ponto de vista re la tivo, Ma ya é de sprovida de pie da de .

O bte mos e xa ta me nte a quilo a que fa ze mos jus, ne m mais ne m me nos. S e bra da mos contra uma injustiça
a pa re nte , é unica me nte porque o a to que a fe z re ca ir sobre nós e stá profunda me nte se pulta do no pa ssa do,
fora do a lca nce da nossa me mória . N a sce r como me ndigo, re i, a tle ta ou como um a le ija do irre me diá ve l
constitui simple sme nte a s conse qüê ncia s compósita s da s a çõe s de outra s vida s. N ã o de ve mos a gra de ce r
se nã o a nós me smos por e la s. N ã o a dia nta te nta r ba rga nha r com Iswa ra , ou propiciá -Lo, ou re sponsa bilizá -
Lo pe los nossos infortúnios. N ã o a dia nta inve nta r um D e mônio como á libi pa ra a s nossa s fra que za s. Ma ya é
a quilo e m que a tra nsforma mos - e lswa ra re pre se nta simple sme nte o fa to ine xorá ve l e sole ne .

D e um ponto de vista re la tivo, e ste mundo de a pa rê ncia s é um luga r de sola do e como ta l nos le va muita s
ve ze s a o de se spe ro. O s vide nte s, com se u conhe cime nto ma is a mplo, nos dize m a lgo be m dive rso. A ssim
que nos conscie ntiza mos, a inda que va ga me nte , do A tma n, nossa R e a lida de inte rior, o mundo a ssume um
a spe cto muito dife re nte . D e ixa de se r um tribuna l pa ra torna r-se unia e spé cie de a ca de mia de giná stica. O
be m e o ma l, a dor e o pra ze r continua m a e xistir, ma s a sse me lha m-se ma is à s corda s, a os ca va los de pa u
e à s pa ra le la s, que pode m se r usa dos pa ra forta le cer nosso corpo. Ma ya de ixa de se r uma roda de dore s e
pra ze re s a gira r ince ssa nte me nte pa ra toma r-se uma e sca da que nos pe rmite a sce nde r à consciê ncia da
R e a lida de . D e sse ponto de vista , a ve ntura e a de sve ntura sã o a mba s “me rcê s" - va le dize r, oportunida de s.
T oda e xpe riê ncia nos ofe re ce a oportunida de de re a gir construtiva me nte a e la - re a çã o e ssa que nos a juda
a que bra r um e lo da nossa e scra vidã o a Ma ya e nos le va pa ra muito ma is pe rto da libe rda de e spiritua l.
A ssim, S ha nka ra distingue e ntre dois tipos de Ma ya - a vidya (ma l ou ignorâ ncia ) e vidya (be m). A vidya é
a quilo que nos a fa sta do E u re a l e e ncobre o nosso conhe cime nto da V e rda de . V idya é a quilo que nos
a proxima do E u re a l re move ndo o vé u da ignorâ ncia . T a nto vidya como a vidya sã o tra nsce ndidos qua ndo
ultra pa ssa mos Ma ya e a de ntra mos a consciê ncia da R ea lida de a bsoluta .

11
Já se disse que o princípio de Ma ya é a sobre posiçã o da idé ia do e go a o A tma n, a o ve rda de iro E u. A idéia
do e go re pre se nta uma fa lsa pre te nsã o à individua lida de , a se rmos dife re nte s do nosso próximo. S e gue -se ,
pois, que qua lque r a to que contra diga e ssa pre te nsão nos fa rá a dia nta r um pa sso rumo a o corre to
conhe cime nto, à consciê ncia da R e a lida de inte rior. S e re conhe ce rmos a nossa fra te rnida de com os nossos
se me lha nte s; se te nta rmos re la ciona r-nos com e le s since ra me nte , ve rda de ira me nte , ca ridosa me nte ; se ,
política e e conomica me nte , luta rmos por dire itos igua is, por justiça igua l e pe la a boliçã o da s ba rre ira s de
ra ça , cla sse e cre do, e ntã o e sta re mos de sme ntindo a idé ia do e go e ca minha ndo pa ra a pe rce pçã o da
E xistê ncia unive rsa l, nã o-individua l. T oda s e ssa s a çõe s e motivos pe rte nce m à quilo que é conhe cido como
o be m é tico - do me smo modo que os motivos e a çõe s e goísta s pe rte nce m a o ma l é tico. N e sse se ntido, e
só ne sse se ntido, o be m pode se r conside ra do ma is " re a l", ou ma is vá lido, do que o ma l - já que a s má s
a çõe s e os ma us pe nsa me ntos nos e nre da m ma is profunda me nte e m Ma ya , a o pa sso que a s boa s a çõe s e
os bons pe nsa me ntos nos a fa sta m de Ma ya e nos a proxima m da consciê ncia da R e a lida de .

A s pa la vra s "pe ca do" e "virtude " sã o de ce rto modo a lhe ia s a o e spírito da filosofia V e da nta , porque
e stimula m ne ce ssa ria me nte um se ntime nto de posse ssivida de com re spe ito a o pe nsa me nto e à a çã o.
Q ua ndo dize mos "e u sou bom" ou "e u sou ma u”, e sta mos a pe na s fa la ndo a lingua ge m de Ma ya . "E u sou
B ra hma n" é a única a firma çã o que qua lque r um de nós pode fa ze r. S ã o F ra ncisco de S a le s e scre ve u que
"me smo o nosso a rre pe ndime nto de ve se r pa cífico" - que re ndo dize r que o re morso e xce ssivo, ta l como a
a utocompla cê ncia e xce ssiva , simple sme nte nos vincula ma is forte me nte à idé ia do e go, à me ntira de Ma ya.
N unca de ve mos e sque ce r que o comporta me nto é tico é um me io, e nã o um fim e m si me smo. O
conhe cime nto da R e a lida de impe ssoa l é o único conhe cime nto vá lido. F ora disso, nossa ma is profunda
sa be doria nã o pa ssa de ne gra ignorâ ncia e nossa ma is e strita re tidã o é inte ira me nte vã .

A meta suprema

P ode -se obje ta r que a filosofia V e da nta , a e xe mplo de qua lque r outro siste ma de pe nsa me nto re ligioso,
a sse nta numa hipóte se ce ntra l.

C e rta me nte , a me ta supre ma da vida é conhe ce r B ra hm a n - se é que B ra hma n e xiste . Ma s pode mos te r
ce rte za disso? N ã o é possíve l que nã o e xista ne nhuma re a lida de subja ce nte no unive rso? N ã o é possíve l
que e sta vida nã o pa sse de um fluxo de sprovido de significa çã o, que morre e se tra nsforma , e m pe rpé tua
muda nça ?

O que ma is nos a tra i no V e da nta é sua a borda ge m nã o-dogmá tica , se u e nfoque e xpe rime nta l da ve rda de .
S ha nka ra nã o nos diz que de ve mos a ce ita r a e xistê ncia de B ra hma n como um dogma a nte s de pode rmos
ingre ssa r na vida e spiritua l. N ã o - e le nos convida a de scobrirmos por nós me smos.

N a da - ne nhum me stre , ne nhuma e scritura - pode fa ze r e sse tra ba lho por nós. Me stre s e e scritura s sã o
a pe na s e stímulos pa ra o e sforço pe ssoa l. Ma s, como ta is, e le s pode m se r a dmirá ve is. Ima gine que e sta é
uma a çã o judicia l e que você é o juiz. P rocure ouvir impa rcia lme nte a s te ste munha s de a mbos os la dos.
C onside re a s te ste munha s a fa vor de B ra hma n - os vide nte s e os sa ntos que a firma m te r conhe cido a
R e a lida de e te rna . E xa mine sua s pe rsona lida de s, sua s pa la vra s, a s circunstâ ncia s de sua s vida s. P e rgunte a
si me smo: e sse s home ns sã o me ntirosos, hipócrita s ou insa nos, ou e stã o fa la ndo a ve rda de ? C ompa re a s
gra nde s e scritura s do mundo e pe rgunte : e la s se contra dize m uma s à s outra s ou e stã o de a cordo? E ntã o dê
o se u ve re dicto.

Ma s o me ro a sse ntime nto, como insiste S ha nka ra , nã o ba sta . E le é a pe na s um pa sso pre limina r e m dire çã o
à pa rticipa çã o a tiva na busca . A e xpe riê ncia pe ssoal dire ta é a única prova sa tisfa tória da e xistê ncia de
B ra hma n, e ca da um de nós de ve tê -la .

A ciê ncia mode rna e stá muito pe rto de confirma r a visã o de mundo V e da nta . E la a dmite que a consciê ncia ,
e m va ria dos gra us, pode e sta r pre se nte e m toda pa rte . A s dife re nça s e ntre obje tos e cria tura s sã o me ras
dife re nça s de supe rfície , va ria da s disposiçõe s de átomos. O s e le me ntos pode m tra nsforma r-se e m outros
e le me ntos. A ide ntida de é a pe na s provisória . A ciê ncia a inda nã o a ce ita a conce pçã o da R e a lida de a bsoluta ,
ma s ce rta me nte nã o a e xclui. S ha nka ra na da sa bia a re spe ito da ciê ncia mode rna , ma s se u mé todo é
funda me nta lme nte cie ntífico. E le se ba se ia na prá tica do disce rnime nto - disce rnime nto que de ve se r
a plica do a nós me smos e a ca da circunstâ ncia e objeto de nossa e xpe riê ncia , e m ca da insta nte de nossa s
vida s. C om a ma ior fre qüê ncia possíve l - milha re s e milha re s de ve ze s por dia - de ve mos pe rgunta r a nós
me smos:

12
"Isto é re a l ou irre a l, isto é fa to ou fa nta sia , isto é na ture za ou me ra a pa rê ncia ?” D e sse modo nos
a profunda re mos ca da ve z ma is na busca da ve rda de .

T odos nós sa be mos que e xistimos. T odos te mos a pe rce pçã o da nossa própria consciê ncia . Ma s qua l é a
na ture za de ssa consciê ncia , de ssa e xistê ncia ? O disce rnime nto logo nos prova rá que a idé ia do e go nã o é a
re a lida de funda me nta l. E xiste a lgo que e stá a lé m dele . P ode mos cha ma r e sse a lgo de “B ra hma n”, ma s
B ra hma n é a pe na s ma is uma pa la vra , que nã o nos re ve la a na ture za da quilo que e sta mos procura ndo.

B ra hma n pode se r conhe cido como uma substâ ncia ou como a lgo que e xiste ? N ã o no se ntido comum do
ve rbo. S a be r a lguma coisa é obte r o conhe cime nto obje tivo de la , e e sse conhe cime nto é re la tivo,
de pe nde ndo do e spa ço, do te mpo e da ca usa çã o. N ã o pode mos conhe ce r a consciê ncia a bsoluta de sse
modo, porque a consciê ncia a bsoluta é o próprio conhe cime nto. B ra hma n é a fonte de todos os de ma is
conhe cime ntos, a bra nge ndo o conhe ce dor, o conhe cime nto e a coisa conhe cida . É inde pe nde nte do
e spa ço, do te mpo e da ca usa .

N e sse se ntido, a prá tica do disce rnime nto dife re do mé todo da pe squisa cie ntífica . O cie ntista se conce ntra
num de te rmina do obje to de conhe cime nto e e xa mina -o num níve l que ultra pa ssa o ca mpo da pe rce pçã o
se nsoria l, com a a juda de a pa re lhos, da a ná lise química , da ma te má tica e a ssim por dia nte . S ua pe squisa
se a mplia como uma via ge m, a profunda ndo-se ca da ve z ma is no te mpo e no e spa ço. O filósofo re ligioso
procura a niquila r o te mpo e o e spa ço, a s dime nsõe s da idé ia do e go, a fim de re ve la r a R e a lida de que está
ma is próxima e é ma is ime dia ta do que o e go, o corpo ou a me nte .

O filósofo re ligioso procura pe rce be r a quilo que e le é a gora e se mpre - e e ssa pe rce pçã o nã o é um a specto
da própria consciê ncia . O vide nte ilumina do nã o se limita a conhe ce r B ra hma n; e le é B ra hma n; e le é a
E xistê ncia , e le é o C onhe cime nto. A libe rda de a bsoluta nã o é a lgo que de va se r a tingido, o conhe cime nto
a bsoluto nã o é a lgo a se r conquista do, B ra hma n nã o é a lgo que de va se r e ncontra do. S ó Ma ya de ve se r
pe ne tra da , só a ignorâ ncia de ve se r ve ncida . O proce sso do disce rnime nto é um proce sso ne ga tivo. O fa to
positivo, nossa na ture za re a l, e xiste e te rna me nte . N ós somos B ra hma n - e só a ignorâ ncia nos se pa ra de sse
conhe cime nto.

A consciê ncia tra nsce nde nta l, ou a uniã o com B ra hma n, nunca pode rá se r inve stiga da pe los mé todos da
pe squisa cie ntífica , uma ve z que ta l pe squisa de pe nde , e m última a ná lise , da pe rce pçã o se nsoria l, e
B ra hma n e stá a lé m da pe rce pçã o dos se ntidos. Ma s isso nã o que r dize r que e sta mos conde na dos à dúvida
- ou a confia r ce ga me nte na e xpe riê ncia dos vide ntes - e nqua nto nã o tive rmos a tingido pe ssoa lme nte a
Me ta S upre ma . Me smo um pe que no e sforço na me dita çã o e na vida e spiritua l ha ve rá de re compe nsa r-nos
com o conhe cime nto e a convicçã o de que e ste é re a lme nte o ca minho que le va à ve rda de e à pa z - de que
nã o e sta mos simple sme nte nos e nga na ndo ou hipnotizando a nós me smos -, de que a R e a lida de e stá a o
nosso a lca nce . T e re mos na tura lme nte nossos a ltos e ba ixos, nossos mome ntos de ince rte za , ma s se mpre
re torna re mos a e ssa convicçã o. N e nhuma conquista e spiritua l, por me nor que se ja , se rá pe rdida ou
de spe rdiça da .

Métodos e meios

E xiste m muitos ca minhos conduce nte s à consciê ncia tra nsce nde nta l. E m sâ nscrito, e sse s ca minhos sã o
cha ma dos de ioga s, ou mé todos de uniã o com B ra hma n. A s ioga s va ria m de a cordo com o tipo de pe ssoa s.
C om e fe ito, ca da indivíduo a borda rá a R e a lida de de um modo lige ira me nte dife re nte .

Q ua tro ioga s principa is sã o ge ra lme nte re conhe cida s na lite ra tura re ligiosa hindu: K a rma , B ha kti, Jna na e
R a ja . E is um re sumo muito sucinto de sua s ca ra cte rística s:

A K a rma Ioga , como o próprio nome indica , e stá volta da pa ra o tra ba lho e a a çã o. T ra ba lha ndo
a ltruistica me nte pe lo nosso próximo, conside ra ndo ca da a çã o como uma ofe re nda sa cra me nta l a D e us,
cumprindo nosso de ve r se m a nsie da de ou pre ocupa çã o com o suce sso ou o fra ca sso, o e logio ou a
ce nsura , pode mos a niquila r gra dua lme nte a idé ia do e go. A tra vé s do K a rma pode mos tra nsce nde r o K a rma
e vive ncia r a R e a lida de que e stá a lé m de qua lque r açã o.

13
B ha kti é a Ioga da de voçã o - de voçã o a lswa ra , o D e us pe ssoa l, ou a um gra nde me stre : C risto, B uda ,
R a ma krishna . G ra ça s a e ssa de voçã o pe ssoa l, a e sse se rviço a moroso consa gra do a um ide a l
pe rsonifica do, o de voto a ca ba rá tra nsce nde ndo comple ta me nte sua pe rsona lida de . E sta é a ioga do ritua l,
da a dora çã o, dos sa cra me ntos re ligiosos. O ritua l de se mpe nha a qui um pa pe l importa nte , o de uma a juda
física , pa ra a conce ntra çã o - pois os a tos do ritua l, como os a tos da K a rma Ioga , e vita m que a me nte se
dispe rse e m sua s distra çõe s e a juda m a re conduzi-la firme me nte a o se u obje to. P a ra muitos, e ste é o
ca minho má s fá cil de trilha r.

A Jna na Ioga , por outro la do, é ma is a de qua da pa ra a s pe ssoa s cujos inte le ctos vigorosos e a uste ros
de sconfia m do fe rvor e mociona l da a dora çã o. E sta é a ioga do puro disce rnime nto. N ã o re que r ne nhum
Iswa ra , ne nhum a lta r, ne nhuma ima ge m, ne nhum ritua l. V isa uma a proxima çã o ma is ime dia ta do B ra hma n
Impe ssoa l. E sse ca minho pode se r ta lve z ma is dire to, ma s é ta mbé m á rduo e íngre me e só pode se r
pa lmilha do por poucos.

A R a ja Ioga - a ioga da me dita çã o - combina , a té ce rto ponto, a s trê s outra s. N ã o e xclui a K a rma Ioga e
utiliza ta nto o mé todo B ha kti qua nto o Ma na - já que a me dita çã o é uma mistura de de voçã o e
disce rnime nto.

P or te mpe ra me nto, S ha nka ra prope ndia pa ra a Jna na Ioga , o ca minho do puro disce rnime nto - e mbora ,
como e ste livro irá mostra r, ta mbé m fosse ca pa z de gra nde de voçã o. R e núncia , disce rnime nto, a utocontrole
- ta is sã o a s sua s pa la vra s-cha ve s. A lguns pode rã o a cha r sua a uste rida de de ma sia do se ve ra ,
e spe cia lme nte na prime ira pa rte do diá logo; ma s é pre cisa me nte e ssa a uste rida de que forne ce um va lioso
corre tivo pa ra os pe rigos de um se ntime nta lismo fá cil, um e xce sso de otimismo de spre ocupa do, uma
confusã o da ve rda de ira de voçã o com a me ra a utoconipla cê ncia e mociona l. S ha nka ra nã o tinha ilusõe s
qua nto a e ste mundo de Ma ya ; e le conde na se us pra zere s e de le ite s a pa re nte s com bruta l fra nque za . P or
isso me smo e ra ca pa z de de scre ve r tã o e xpre ssiva me nte a comple ta tra nsforma çã o do unive rso que ocorre
dia nte dos olhos do vide nte ilumina do. Q ua ndo se e xpe rime nta B ra hma n, qua ndo toda s a s cria tura s e
obje tos sã o vistos na sua ve rda de ira re la çã o com o A bsoluto, e ntã o e ste mundo é re a lme nte um pa ra íso; e le
na da ma is é se nã o B ra hma n, se nã o consciê ncia supe rior, conhe cime nto e pa z. D e pois de á rduos e sforços,
o discípulo a lca nça e ssa re a liza çã o no “S upre mo D isce rnime nto", e o livro de S ha nka ra se fe cha com a
ma gnifice nte e xplosã o de sua a le gria .

III
A Jóia Suprema do Discernimento

(V ive ka -C huda ma ni)

P rostro-me dia nte de G ovinda , o me stre pe rfe ito, e te rna me nte a bsorto no ma is e le va do e sta do de be m-
a ve ntura nça . S ua ve rda de ira na ture za nã o pode se r conhe cida ne m pe los se ntidos ne m pe la me nte . E la só
é re ve la da a tra vé s do conhe cime nto da s e scritura s.

A senda

É difícil pa ra qua lque r cria tura viva re a liza r o na scime nto numa forma huma na . A força do corpo e a vonta de
sã o a inda ma is difíce is de obte r; a pure za , ma is difícil a inda ; ma is difícil do que e sse s be ns é o de se jo de
vive r unia vida e spiritua l; e o ma is difícil de tudo é a compre e nsã o da s e scritura s. Q ua nto a o disce rnime nto
e ntre o A tma n e o nã o-A tma n, à pe rce pçã o dire ta do próprio A tma n, à uniã o contínua com B ra hma n e à
libe rta çã o fina l - ta is coisa s só pode m se r a lca nça da s a tra vé s dos mé ritos de ce m bilhõe s de e nca rna çõe s
be m-vivida s.

S ó pe la gra ça de D e us pode mos obte r e sse s trê s ra ros be ne fícios: o na scime nto huma no, a a spira çã o à
libe rta çã o e o discipula do junto a um me stre ilumina do.

H á , poré m, a que le s que de a lgum modo conse gue m obte r e sse ra ro na scime nto huma no junto com a força
corpora l e me nta l e com a compre e nsã o da s e scritura s - e nã o obsta nte e stã o de ta l forma iludidos que nã o
luta m pe la libe rta çã o. E sse s home ns sã o suicida s. A pe ga m-se a o irre a l e de stroe m a si me smos.

14
P ois ha ve rá ma ior tolo do que o home m que obte ve e sse ra ro na scime nto huma no junto com a força
corpora l e me nta l e a inda a ssim nã o conse gue , de vido à ilusã o, re a liza r o se u be m supre mo?

O s home ns pode m re cita r a s e scritura s e ofe re ce r sacrifícios a os e spíritos sa gra dos, pode m e xe cuta r ritua is
e a dora r a s divinda de s ma s, e nqua nto nã o de spe rta rem pa ra o conhe cime nto de sua ide ntida de com o
A tma n, ja ma is a tingirã o a libe rta çã o; nã o, ne m me smo a o ca bo de muita s ce nte na s de sé culos.

A s e scritura s de cla ra m que a imorta lida de nã o pode se r conquista da a tra vé s do tra ba lho, ne m da progê nie ,
ne m da rique za , ma s unica me nte pe la re núncia . A ssim, fica cla ro que o tra ba lho nã o nos pode tra ze r a
libe rta çã o.

Q ue o sá bio, pois, re nuncie à busca do pra ze r na s coisa s e xte riore s e lute a rdua me nte pe la libe rta çã o. Q ue
procure um me stre nobre e de a lma e le va da e se a bsorva de todo o cora çã o na ve rda de que lhe é e nsina da.

P e la de voçã o a o re to disce rnime nto e le a sce nde rá à supre ma uniã o com B ra hma n. P e lo pode r do A tma n e le
sa lva rá a sua a lma , que ja z ime rsa na s va sta s á gua s do mundo.

D e ixa que o sá bio, que cre sce u tra nqüilo e que pra tica a conte mpla çã o do A tma n, se de sligue de toda s as
a tivida de s munda na s e se e sforce pa ra corta r os vínculos com o munda nismo.

A a çã o re ta a juda a purifica r o cora çã o, ma s nã o nos dá a pe rce pçã o dire ta da R e a lida de . A R e a lida de é


a tingida por me io do disce rnime nto, ma s nã o, ne m no ma is ínfimo gra u, a tra vé s de de z milhõe s de a tos.

O disce rnime nto corre to re ve la -nos a ve rda de ira na ture za de uma corda e re move o doloroso me do
oca siona do pe la nossa cre nça ilusória de se r e la uma e norme cobra .

U m ce rto conhe cime nto da R e a lida de só pode se r obtido a tra vé s da me dita çã o sobre o e nsina me nto corre to,
e nã o por me io de a bluçõe s sa gra da s, ou de e smola s, ou da prá tica de ce nte na s de e xe rcícios re spira tórios.

O ê xito e m a lca nça r a me ta de pe nde sobre tudo da s qua lifica çõe s da que le que busca . T e mpo e luga r
a de qua dos e outra s circunstâ ncia s fa vorá ve is constitue m outra s ta nta s a juda s pa ra se a tingir a me ta .

Q ue a que le , pois, que de se ja conhe ce r o A tma n, que é a R e a lida de , pra tique o disce rnime nto. Ma s a nte s
de ve a proxima r-se de um me stre que se ja um pe rfe ito conhe ce dor de B ra hma n e cuja compa ixã o se ja tã o
va sta como o próprio oce a no.

O discípulo

O home m de ve se r inte lige nte e sá bio, com gra nde pode r de compre e nsã o e ca pa z de supe ra r a s dúvida s
pe lo e xe rcício da ra zã o. Q ue m possui e ssa s qua lifica çõe s e stá a pto a a dquirir o conhe cime nto do A tma n.

S ó pode se r conside ra do qua lifica do pa ra busca r B ra hma n. o home m dota do de disce rnime nto, cuja me nte
e ste ja a fa sta da de todos os pra ze re s, o home m que possui a tra nqüilida de e a s virtude s a fins e que a spira
a rde nte me nte à libe rta çã o.

N e ste conte xto, os sá bios fa la ra m de qua tro qua lifica çõe s que pe rmite m a lca nça r a me ta . Q ua ndo e ssa s
qua lifica çõe s e stive re m pre se nte s, a de voçã o à R e a lida de se toma rá comple ta . S e e stive re m a use nte s, e la
fra ca ssa rá .

A prime ira é o disce rnime nto e ntre o e te rno e o nã o-e te rno. S e gue -se a re núncia a o gozo dos frutos da a çã o,
ne sta e na outra vida . E m se guida vê m os se is te souros da virtude , a come ça r pe la tra nqüilida de . E , e nfim, o
a nse io de libe rta çã o.

B ra hma n é re a l; o unive rso é irre a l. A firme convicçã o de ssa ve rda de de nomina -se disce rnime nto e ntre o
e te rno e o nã o-e te rno.

A re núncia é o a ba ndono de todos os pra ze re s dos olhos, dos ouvidos e dos de ma is se ntidos, o a ba ndono
de todos os obje tos de pra ze r tra nsitório, o a ba ndono do de se jo de um corpo físico, a ssim como do tipo
supre mo de corpo-e spírito de um de us.

15
A fa sta r a me nte de toda s a s coisa s obje tiva s me dia nte um contínuo disce rnime nto de sua impe rfe içã o e
dirigi-Ia re soluta me nte pa ra B ra hma n, sua me ta - a isto se cha ma tra nqüilida de .

A fa sta r os dois tipos de órgã os se nsoria is - os da pe rce pçã o e os da a çã o - da s coisa s obje tiva s e de ixá -los
re pousa r e m se us re spe ctivos ce ntros - a isto se cha ma a utocontrole . O ve rda de iro e quilíbrio me nta l
consiste e m nã o pe rmitir que a me nte re a ja a os e stímulos e xte rnos.

S uporta r todos os tipos de a fliçã o se m re volta , se m que ixa ou la me nto - a isto se cha ma pa ciê ncia .

U ma firme convicçã o, ba se a da na compre e nsã o inte le ctua l, de que os e nsina me ntos da s e scritura s e de um
me stre sã o ve rda de iros - a isto os sá bios cha ma m de fé , que le va à re a liza çã o da R e a lida de .

C once ntra r o inte le cto re pe tida me nte no puro B ra hma n e ma ntê -lo se mpre fixa do e m B ra hma n - a isto se
cha ma submissã o. O que nã o significa a quie ta r a me nte , como a um be bê , com pe nsa me ntos ociosos.

O a nse io de libe rta çã o é a vonta de de libe rta r-nos dos grilhõe s forja dos pe la ignorâ ncia - come ça ndo com o
se ntime nto do e go e a ssim por dia nte , indo a té o próprio corpo físico - me dia nte a compre e nsã o da nossa
ve rda de ira na ture za .

E mbora e sse a nse io de libe rta çã o possa e sta r pre se nte num gra u le ve e mode ra do, e le se inte nsifica rá
a tra vé s dos mé ritos do me stre e da prá tica da re núncia e de virtude s como a tra nqüilida de , e tc. E da rá os
se us frutos.

Q ua ndo a re núncia e o a nse io de libe rta çã o se a cha m pre se nte s num gra u inte nso, a prá tica da
tra nqüilida de e da s de ma is virtude s frutifica rá e conduzirá à me ta .

Q ua ndo a re núncia e o a nse io de libe rta çã o sã o fra cos, a tra nqüilida de e a s de ma is virtude s constitue m
me ra a pa rê ncia , qua l mira ge m no de se rto.

D e ntre os me ios de libe rta çã o, a de voçã o é supre ma . E mpe nha r-nos since ra me nte e m conhe ce r a nossa
ve rda de ira na ture za - a isso se cha ma de voçã o.

E m outra s pa la vra s, a de voçã o pode se r de finida como a busca da re a lida de do nosso próprio A tma n.
A que le que busca a re a lida de do A tma n, que possui a s qua lifica çõe s a cima me nciona da s, de ve procura r um
me stre ilumina do ca pa z de e nsina r-lhe o ca minho da libe rta çã o e m re la çã o a todos os tipos de se rvidã o.

O mestre

O Me stre é um home m profunda me nte ve rsa do na s e scritura s, puro, livre da luxúria , pe rfe ito conhe ce dor de
B ra hma n. Ma nté m-se continua me nte a poia do e m B ra hma n, é ca lmo como a cha ma cujo combustíve l va i
se ndo consumido, um oce a no de a mor que nã o conhe ce motivos ulte riore s, um a migo de toda s a s pe ssoa s
bondosa s que humilde me nte se confia m à sua dire çã o.

O home m que busca há de a proxima r-se do me stre com re ve re nte de voçã o. E ntã o, de pois de a gra da r-lhe
pe la sua humilda de , a mor e se rviço, pe rgunta rá tudo o que pode se r conhe cido a re spe ito do A tma n.

Ó Me stre , a migo de todos os de votos, curvo-me dia nte de vós. Ó ilimita da compa ixã o, e u ca í no ma r do
mundo - sa lva i-me com e sse s olhos ina lte rá ve is que de rra ma m gra ça se mpite rna , como né cta r.

E stou a rde ndo no incê ndio da flore sta do mundo, incê ndio que ningué m pode a pa ga r. A s má s a çõe s do
pa ssa do impe le m-me da qui pa ra a li como va stos ve ndava is. B usque i re fúgio e m vós. S a lva i-me da morte .
N ã o conhe ço outro a brigo.

E xiste m a lma s pura s que a lca nça ra m a pa z e a ma gna nimida de . E la s tra ze m o be m à huma nida de , como o
re ponta r da prima ve ra . T a mbé m e la s a tra ve ssa ra m o te rríve l oce a no de ste mundo. E a gora , se m ne nhum
motivo e goísta , a juda m os outros a fa ze r a tra ve ssia .

É próprio de ssa s gra nde s a lma s tra ba lha r e sponta ne a me nte pa ra a livia r a s a tribula çõe s de se us
se me lha nte s, ta l como a lua re fre sca e sponta ne a me nte a te rra cre sta da pe los ca nde nte s ra ios do sol.

16
A na u dos vossos lá bios me rgulhou na be m-a ve ntura nça de B ra hma n e impre gnou-se da sua doçura .
D e rra ma i sobre mim, como gota s de né cta r, a s pa la vra s de B ra hma n. E la s purifica m, a ca lma m e sã o
a pra zíve is a o ouvido. S e nhor, o ca lor a rde nte de sta vida munda na me consome como a s la ba re da s de um
incê ndio na flore sta . B e m-a ve ntura do a que le sobre que m vossos olhos re pousa m um insta nte que se ja - é
a ssim que os a ce ita is e de le s vos a propria is.

C omo he i de a tra ve ssa r o oce a no de ste mundo? Q ua l há de se r a minha me ta ? Q ue ca minho he i de se guir?


N ã o conhe ço ne nhum. S e de ge ne roso, S e nhor. S a lva i-me . D ize i-me como pôr te rmo à s misé ria s de sta vida
te rre na . N a da re cuse is.

C re sta do pe la s a rde nte s la ba re da s da flore sta do mundo, o discípulo pronuncia e ssa s pa la vra s. A gra nde
a lma olha pa ra o discípulo que a ssim busca re fúgio e se us olhos e stã o úmidos de lá grima s de mise ricórdia .
Ime dia ta me nte , e le libe rta o discípulo de se us te more s.

O discípulo, que buscou sua prote çã o, é a lgué m que a nse ia pe la libe rta çã o, que cumpriu rigorosa me nte
se us de ve re s, cujo cora çã o se fe z tra nqüilo e que a lca nçou a se re nida de da me nte . C om compa ixã o, o
home m sá bio e sa nto come ça a instruí-lo na ve rda de .

Ó home m prude nte , nã o te ma s! N ã o corre s ne nhum risco. E xiste um me io de a tra ve ssa r o oce a no da vida
munda na . V ou re ve la r-te o mé todo pe lo qua l os sá bios che ga ra m à outra ma rge m.

E xiste um mé todo e fica z de pôr te rmo a o horror de sta vida munda na . P or e le pode rá s a tra ve ssa r o oce a no
do mundo e a lca nça r a supre ma be m-a ve ntura nça .

Me dita r sobre o significa do da ve rda de , ta l como a e nsina m os V e da nta s, conduz à supre ma ilumina çã o. Por
e sse me io, a misé ria da vida munda na é tota lme nte de struída .

F é , de voçã o e uniã o consta nte com D e us a tra vé s da ora çã o - e sta s qua lida de s sã o de cla ra da s pe la s
sa gra da s e scritura s como o me io dire to de libe rta çã o pa ra a que le que busca . À que le que ne la s pe rsiste ,
a dvé m a libe rta çã o do e sta do de se rvidã o da consciência física que foi forja do pe la ignorâ ncia .

P or e sta re s a ssocia do com a ignorâ ncia , o supre mo A ~ que e m ti re side pa re ce e sta r subjuga do pe lo nã o-
A tma n. E ssa é a única ca usa do ciclo de na scime ntos e morte s. A cha ma da ilumina çã o, que se a ce nde pe lo
disce rnime nto e ntre A tma n e nã o-A tma n, consumirá os e fe itos da ignorâ ncia a té sua s própria s ra íze s.

As perguntas

Fala o Discípulo:

Me stre , ouvi a s pe rgunta s que vou fa ze r. B e m-a ve ntura do se re i se pude r ouvir uma re sposta de vossos
lá bios.

O que é , na re a lida de , e ssa se rvidã o? C omo e la começou? E m que se e nra íza ? C omo é o home m que de la
se libe rtou? O que é o nã o-A tma n? Q ue é o supre mo A tma n? C omo disce rnir e ntre e le s? P or fa vor,
re sponde i-me .

Fala o Mestre:

B e m-a ve ntura do é s, de fa to! E stá s pe rto da me ta . G ra ça s a ti, toda a tua fa mília se purificou, porque a nse ia s
por libe rta r-te da se rvidã o da ignorâ ncia e a lca nçar B ra hma n.

O s filhos pode m libe rta r os pa is de sua s dívida s, ma s ne nhuma outra pe ssoa pode libe rta r um home m de
sua se rvidã o: e le próprio de ve fa zê -lo.

O utros pode m a livia r o sofrime nto ca usa do por um fardo que pe sa sobre a nossa ca be ça ; ma s o sofrime nto
que de riva da fome , e tc., só pode se r a livia do por nós me smos.

O home m doe nte que toma re mé dio e obse rva a s re gra s da die ta pode re cupe ra r a sa úde - ma s nã o a tra vé s
dos e sforços de outre m.

17
U ma cla ra visã o da R e a lida de só pode se r obtida a tra vé s de nossos próprios olhos, qua ndo e le s se a brire m
por me io do disce rnime nto e spiritua l - ma s nunca a tra vé s dos olhos de outro vide nte . P or nossos próprios
olhos a pre nde mos a ve r a a pa rê ncia da lua : como pode ría mos a pre nde r isso pe los olhos de outre m?

A s corda s que , de vido à nossa ignorâ ncia , nos a ma rra m a os nossos de se jos la scivos e a os frutos do nosso
K a rma - como pode ria a lgué m a nã o se r nós próprios de sa tá -la s, me smo no curso de inume rá ve is sé culos?

N e m pe la prá tica da ioga ou da filosofia S a nkhya , ne m pe la s boa s obra s, ne m pe lo sa be r nos che ga a


libe rta çã o, ma s unica me nte pe la compre e nsã o de que A tma n e B ra hma n sã o um - e de ne nhuma outra
ma ne ira .

É de ve r de um re i conte nta r o se u povo, ma s ne m todos os que conte nta m o povo sã o a ptos a se r re is.
P orque o povo pode se r conte nta do pe la be le za da forma de uma vina e pe la ha bilida de com que sua s
corda s sã o toca da s.

A e rudiçã o, o discurso be m-a rticula do, a rique za de voca bulá rio e a ca pa cida de de inte rpre ta r a s e scritura s -
ta is coisa s a pra ze m a o e rudito, ma s nã o tra ze m a libe rta çã o.

O e studo da s e scritura s se rá vã o e nqua nto B ra hma n nã o tive r sido e xpe rime nta do. E , de pois que B ra hma n
foi e xpe rime nta do, é inútil le r a s e scritura s.

U ma re de de pa la vra s é como uma flore sta de nsa que obriga a me nte a pe ra mbula r de lá pa ra cá . A que le s,
pois, que conhe ce m e sta ve rda de de ve m tra ba lha r a rdua me nte pa ra vive ncia r B ra hma n.

Q ua ndo um home m foi mordido pe la cobra da ignorâ ncia , e le só pode se r cura do pe la re a liza çã o de
B ra hma n. D e que se rve m os V e da s e a s e scritura s, os a mule tos e a s e rva s?

N ã o se cura uma doe nça pronuncia ndo a pa la vra “re mé dio”. É pre ciso toma r o re mé dio. A libe rta çã o nã o
ve m com o me ro fa to de pronuncia r a pa la vra “B ra hma n”. B ra hma n de ve se r re a lme nte vive ncia do.

E nqua nto nã o pe rmitirmos que e ste unive rso a pa re nte de sa pa re ça da nossa consciê ncia , e nqua nto nã o
e xpe rime nta rmos B ra hma n, como pode mos e ncontra r a libe rta çã o pe la simple s pronúncia da pa la vra
"B ra hma n"? O re sulta do é um me ro ruído.

E nqua nto nã o tive r de struído se us inimigos e toma do posse do e sple ndor e da s rique za s do re ino, o home m
nã o pode toma r-se re i dize ndo simple sme nte : “E u sou um re i.”

U m te souro e nte rra do nã o pode se r de scobe rto a pe na s pronuncia ndo-se a pa la vra “a pa re ça ”. É pre ciso
se guir a s indica çõe s corre -ta s, ca va r, re move r a s pe dra s e a te rra que o re cobre m e e ntã o a propria r-se de le .
D o me smo modo, a pura ve rda de do A tma n, que e stá e nte rra da sob Ma ya e sob os e fe itos de Ma ya , só
pode se r a lca nça da pe la me dita çã o, pe la conte mpla ção e por outra s disciplina s que o conhe ce dor de
B ra hma n pode pre scre ve r - nunca , poré m, por me io de a rgume ntos sutis.

D e ve o sá bio, pois, e xe rce r todos os se us pode re s pa ra obte r a libe rta çã o da se rvidã o do mundo da me sma
forma que toma ria os re mé dios pre scritos contra a s doe nça s física s.

A pe rgunta que hoje formula ste é muito oportuna . E la é re le va nte pa ra os e nsina me ntos da s e scritura s. S e u
significa do e stá oculto na s profunde za s, como no â ma go de um a forismo. T odos a que le s que busca m a
libe rta çã o de ve m fa zê -la .

O uve a te nta me nte , ó home m prude nte , o que te nho a dize r. S e ouvire s, se rá s de ce rto libe rta do dos grilhõe s
do mundo.

D os pa ssos que conduze m à libe rta çã o, o prime iro é o comple to de spre ndime nto de toda s a s coisa s nã o-
e te rna s. E m se guida , ve m a prá tica da tra nqüilida de, do a utocontrole e da pa ciê ncia . E de pois a comple ta
re núncia a toda s a s a çõe s inspira da s pe lo de se jo pessoa l, e goísta .

E ntã o o discípulo de ve ouvir a ve rda de do A tma n e re fle tir a re spe ito de la , e me dita r sobre e la
consta nte me nte , ininte rrupta me nte , dura nte longo te mpo. A ssim, o sá bio a lca nça o e sta do supre mo no qua l
a consciê ncia do suje ito e do obje to se dissolve e só a infinita consciê ncia da unida de pe rma ne ce - e e ntã o
e le conhe ce a be m-a ve ntura nça do N irva na e nqua nto ainda vive ne ste mundo.

18
Atman e não-Atman

E xplica re i a gora o disce rnime nto e ntre o A tma n e o nã o-A tma n. O uve -me , pois. O uve a te nta me nte e de pois
compre e nde a re spe ctiva ve rda de e m tua própria a lma .

O que o vide nte cha ma de corpo ma te ria l compõe -se de sta s substâ ncia s: tuta no, osso, gordura , ca rne ,
sa ngue , pe le e e pide rme . E sse corpo consiste e m pe rna s, coxa s, pe ito, bra ços, pé s, costa s, ca be ça e outra s
pa rte s. S a be -se que e le é a ra iz da ilusã o do "e u" e do "me u".

O s e le me ntos sutis sã o o é te r, o a r, o fogo, a á gua e a te rra . R e unida s, a s pa rte s de sse s e le me ntos forma m
o corpo ma te ria l.

A udiçã o, ta to, visã o, pa la da r e olfa to - e sta s cinco e ssê ncia s dos e le me ntos sã o tudo o que
e xpe rime nta mos. E la s e xiste m pa ra se re m e xpe rime ntada s pe lo indivíduo.

O s se re s iludidos que e stã o a ta dos a os obje tos que e xpe rime nta m pe la forte corda do de se jo, tã o difícil de
rompe r, pe rma ne ce m suje itos a o na scime nto e à morte. S ã o impe lidos de lá pa ra cá pe lo se u próprio ka rma ,
e ssa le i impla cá ve l.

O ce rvo, o e le fa nte , a ma riposa , o pe ixe a a be lha - ca da um de sse s a nima is ca minha pa ra a morte sob o
fa scínio de a pe na s um dos cinco se ntidos. Q ua l nã o há de se r, e ntã o, o de stino que a gua rda o home m
subjuga do pe lo fa scínio dos cinco se ntidos?

O s obje tos pe rce bidos pe los se ntidos sã o a inda ma is forte s e m se us e fe itos ma lé ficos do que o ve ne no da
cobra . O ve ne no só ma ta qua ndo é introduzido no corpo, ma s e sse s obje tos nos de stroe m pe lo simple s fa to
de se re m vistos com os olhos.

S ó a que le que se libe rtou da te rríve l a rma dilha do a nse io de pra ze re s se nsoria is, a os qua is é tã o difícil
re nuncia r, e stá a pto à libe rta çã o - e ningué m ma is, a inda que se ja ve rsa do nos se is siste ma s de filosofia .

A que le s que dize m busca r a libe rta çã o ma s nã o possue m o ve rda de iro e spírito de re núncia te nta m, a inda
a ssim, a tra ve ssa r o oce a no de ste mundo. O tuba rã o do de se jo a pa nha -os pe la ga rga nta , de svia -os
viole nta me nte de sua rota e e le s se a foga m a me io ca minho.

A que le que ma tou o tuba rã o do de se jo se nsoria l com a e spa da da ve rda de ira impa ssibilida de a tra ve ssa o
oce a no de ste mundo se m de pa ra r com ne nhum obstá culo.

S a iba que o home m iludido, que ca minha pe la te rríve l se nda do de se jo se nsoria l, a proxima -se a ca da pa sso
de sua ruína . E sa iba ta mbé m que é ve rda de - que a que le que trilha o ca minho indica do pe lo se u me stre -
se u a migo ma is le a l - e pe lo se u próprio disce rnime nto colhe o fruto supre mo do conhe cime nto de B ra hman.

S e a lme ja s re a lme nte a libe rta çã o, ma nté m os obje tos do gozo se nsoria l à distâ ncia , como um ve ne no, e
continua be be ndo com de le ite , como um né cta r, a s virtude s do conte nta me nto, da compa ixã o, do pe rdã o, da
since rida de , da se re nida de e do a utocontrole .

O home m de ve e sta r continua me nte e mpe nha do e m libe rta r-se da se rvidã o da ignorâ ncia , que nã o te m
come ço. A que le que ne glige ncia e sse de ve r e e stá a pa ixona da me nte e mpe nha do e m a lime nta r os de se jos
do corpo come te um suicídio. P orque o corpo é a pe nas um ve ículo de e xpe riê ncia pa ra o e spírito huma no.

A que le que procura e ncontra r o A tma n a lime nta ndo os de se jos do corpo e stá te nta ndo a tra ve ssa r um rio
a ga rra do a um crocodilo, confundindo-o com uma tá bua .

O a pe go a o corpo, a os obje tos e à s pe ssoa s é fa ta l pa ra a que le que busca a libe rta çã o. Q ue m supe rou
comple ta me nte o a pe go e stá pronto pa ra a lca nça r o e sta do de libe rta çã o.

Ma ta e sse impla cá ve l a pe go a o corpo, à e sposa , a os filhos e a os outros. O s vide nte s que o supe ra ra m
a de ntra m a supre ma mora da de V ishnu, a que le que a tudo impre gna .

E sse corpo que é fe ito de pe le , ca rne , sa ngue , a rté ria s, ve ia s, gordura , tuta no e osso e stá che io de ma té ria
re sidua l e de imundície , e me re ce o nosso de spre zo.

19
Vigília, sono, sono sem sonhos

E ste corpo físico é composto dos e le me ntos ma te ria is, que sã o forma dos pe lo composto quíntuplo de se us
e le me ntos sutis. E le na sce u a tra vé s do ka rma da vida a nte rior e é o ve ículo da e xpe riê ncia pa ra o A tman.
Q ua ndo o unive rso obje tivo e stá se ndo pe rce bido, isso é conhe cido como o e sta do de vigília da consciê ncia .

N o e sta do de vigília da consciê ncia , o home m e ncontra sua ple na a tivida de no corpo. N e sse e sta do e le se
ide ntifica com se u corpo, e mbora e ste ja e fe tiva me nte se pa ra do de le . P or me io dos se ntidos e xte rnos e le
de sfruta os obje tos ma te ria is, como grina lda s, pe rfume s, mulhe re s e a ssim por dia nte , be m como outros
obje tos que proporciona m pra ze r se nsoria l.

D e ve s sa be r que e sse corpo, por me io do qua l o home m e xpe rime nta o mundo e xte rior, é como a ca sa de
um che fe de fa mília .

A s ca ra cte rística s ine re nte s a e sse corpo ma te ria l sã o o na scime nto, o de clínio e a morte . E le e stá suje ito a
va ria da s condiçõe s, como a gordura ou a ma gre za ; e a vá rios e stá gios de de se nvolvime nto, como a infâ ncia
e a juve ntude . É controla do pe los pre ce itos de ca sta e pe los pre ce itos da s qua tro orde ns da vida . E stá
suje ito a vá ria s doe nça s e a dife re nte s tipos de tra ta me nto, como a a dora çã o, a a fronta ou o re spe ito.

S e us órgã os de pe rce pçã o sã o os ouvidos, a pe le , os olhos, o na riz e a língua : por e le s conhe ce mos os
obje tos.

S e us órgã os de a çã o sã o os órgã os voca is, a s mã os, a s pe rna s e os órgã os de e xcre çã o e re produçã o.


E sse s órgã os nos e nvolve m na a çã o.

O órgã o me nta l compre e nde a me nte , o inte le cto, o ego e a na ture za e mociona l. E ste s se distingue m pe las
sua s dife re nte s funçõe s. A funçã o da me nte é e xa mina r os vá rios a spe ctos de um obje to. A funçã o do
inte le cto é de te rmina r a ve rda de ira na ture za de um obje to.

O e go é a a utoconsciê ncia que surge qua ndo o órgã o me nta l se ide ntifica com o corpo. A te ndê ncia da
na ture za e mociona l é a tra ir-nos pa ra a quilo que é agra dá ve l.

A força vita l se divide de a cordo com sua s cinco dife re nte s funçõe s. A -re spira çã o- é a funçã o da força vita l
utiliza da na re spira çã o. A “re spira çã o de sce nde nte ” é usa da na e xcre çã o. A “re spira çã o distributiva ” controla
os proce ssos da dige stã o e da a ssimila çã o. A “re spira çã o difusa ” e stá pre se nte e m todo o corpo, re sistindo
à de sinte gra çã o e unindo-o e m toda s a s sua s pa rte s. A “re spira çã o a sce nde nte ” é usa da na e ructa çã o.
A ssim como o ouro é conhe cido por dife re nte s nome s qua ndo é molda do pa ra dive rsos orna me ntos, a ssim
como a á gua a ssume a forma de onda s, e spuma , e tc., ta mbé m a força vita l única re ce be e sse s cinco
nome s dife re nte s se gundo sua s cinco dife re nte s funçõe s.

O ito grupos compõe m o corpo sutil: cinco órgã os de pe rce pçã o, cinco órgã os de a çã o, cinco funçõe s da
força vita l, cinco e le me ntos sutis e o órgã o me nta l, junto com a ignorâ ncia , os de se jos e o ka rma .

O corpo sutil é composto pe los e le me ntos sutis a ntes que e le s e ntre m e m se us compostos quíntuplos. É a
se de de nossos de se jos. É o ca mpo no qua l os frutos do ka rma sã o e xpe rime nta dos. D e vido à ignorâ ncia
huma na , e sse corpo sutil foi sobre posto a o A tma n desde um te mpo se m princípio.

O e sta do de sonho pe rte nce e mine nte me nte a o corpo sutil. D ura nte os sonhos, e le cria a sua própria
ma té ria e brilha com a sua própria luz. O órgã o me nta l é um de pósito da s nume rosa s impre ssõe s de ixa da s
pe los de se jos que e xpe rime nta mos no e sta do de vigília . N os sonhos, o órgã o me nta l se ide ntifica com a
consciê ncia do e go e e stá à me rcê de ssa s impre ssõe s. P oré m o A tma n pe rma ne ce a lé m, como se mpre , e m
sua própria consciê ncia a uto-ilumina da . D ura nte e sse te mpo, o órgã o me nta l é o se u único invólucro. O
A tma n te ste munha tudo, ma s nã o se de ixa conta mina r por nossa s e xpe riê ncia s onírica s, ma nte ndo-se
e te rna me nte livre e inta cto. N e nhum ka rma cria do pelos corpos que o re cobre m pode conta miná -lo, a inda
que no ma is ínfimo gra u.

O corpo sutil é como unia fe rra me nta a fia da na mã o do ca rpinte iro. E le é o instrume nto de toda a a tivida de
do A tma n, que é infinita sa be doria . P orta nto, o próprio A tma n e stá livre de qua lque r má cula .

20
A s condiçõe s de ce gue ira , fra que za e visã o a guça da pe rte nce m a os olhos e sã o ca usa da s pe la s sua s
qua lida de s e de fe itos. D o me smo modo, a surde z e a mude z sã o condiçõe s dos ouvidos e da língua - ma s
nã o do A tma n, o conhe ce dor.

A ina la çã o, a e xa la çã o, o boce jo, o e spirro, a de sca rga de sa liva e o a ba ndono do corpo por oca siã o da
morte sã o conside ra dos, por a que le s que sa be m, como a s vá ria s funçõe s da força vita l. A fome e a se de
sã o ta mbé m funçõe s da força vita l.

O órgã o me nta l ide ntifica -se com os órgã os da pe rcepçã o e da a çã o, a ssim como com o corpo físico. D e sse
modo, surge o se ntime nto de individua lida de , que leva o home m a vive r e a a gir. S ua consciê ncia é um
re fle xo da infinita consciê ncia do A tma n.

A que le que a cre dita que e stá a gindo ou e xpe rime nta ndo é re conhe cido como o e go, o home m individua l.
Ide ntifica ndo-se com a s guna s, e le pa ssa pe los trê s e sta dos de consciê ncia - a vigília , o sonho e o sono se m
sonhos.

Q ua ndo os obje tos da e xpe riê ncia sã o a gra dá ve is, e le é fe liz. Q ua ndo sã o de sa gra dá ve is, é infe liz. O pra ze r
e a dor sã o ca ra cte rísticos do indivíduo, e nã o do A tma n, que é se mpre be m-a ve ntura do.

O obje to da e xpe riê ncia é digno de a mor - nã o por si me smo, ma s porque se rve a o A tma n. P oré m o próprio
A tma n de ve se r a ma do a cima de toda s a s coisa s.

N o sono se m sonhos, qua ndo nã o há ne nhum obje to de e xpe riê ncia , se nte -se a a le gria do A tma n. Isso é
confirma do pe la nossa própria e xpe riê ncia , a ssim como pe la s e scritura s, pe la tra diçã o e pe la lógica .

Maya

Ma ya , no se u a spe cto virtua l, é o pode r divino de D e us. N ã o te m come ço. C omposta por trê s guna s, é sutil e
e stá a lé m da pe rce pçã o. É dos e fe itos que e la produz que sua e xistê ncia é infe rida pe lo sá bio. É e la que dá
orige m a todo o unive rso.

N ã o é ne m um se r ne m um nã o-se r, ne m uma mistura de a mbos. N ã o é ne m divisíve l ne m indivisíve l, ne m


uma mistura de a mbos. N ã o é ne m um todo indivisíve l ne m uma soma de pa rte s, ne m uma mistura de
a mbos. É e stra nhíssima . S ua na ture za é ine xplicá ve l.

A ssim como a pe rce pçã o de que uma corda é uma corda de strói a ilusã o de se r e la uma cobra , ta mbé m
Ma ya é de struída pe la e xpe riê ncia dire ta de B ra hma n - o puro, o livre , o prime iro se m um se gundo. Ma ya é
composta pe la s guna s - a s força s conhe cida s como ra ja s, ta ma s e sa ttwa . E ssa s força s tê m ca ra cte rística s
distinta s.

R a ja s te m o pode r de proje çã o: sua na ture za é a a tivida de . G ra ça s a e sse pode r, o mundo fe nome na l, que
e stá e nvolvido e m Ma ya , come ça a e voluir. O a pe go, o de se jo e outra s qua lida de s se me lha nte s sã o
ca usa da s por se u pode r, a ssim como a triste za e outra s disposiçõe s da me nte .

A luxúria , a cóle ra , a cobiça , a a rrogâ ncia , o ciúme , o e gotismo, a inve ja e outros vícios simila re s sã o a s
piore s ca ra cte rística s de ra ja s. Q ua ndo um home m é domina do por e la , fica a pe ga do à s a çõe s munda na s.
P or isso ra ja s é a ca usa da se rvidã o.

T a ma s te m o pode r de e ncobrir a ve rda de ira na ture za de um obje to, fa ze ndo-o pa re ce r dife re nte do que é . É
a ca usa da contínua suje içã o do home m à roda de na scime nto e morte . A lé m disso, é e la que torna possíve l
a ope ra çã o do pode r de ra ja s.

U m home m pode se r inte lige nte , ta le ntoso e culto. P ode te r a fa culda de da a uto-a ná lise pe rspica z. Ma s, se
for domina do por ta ma s, nã o pode rá compre e nde r a ve rda de ira na ture za do A tma n, a inda que e la lhe se ja
cla ra me nte e xplica da de vá ria s ma ne ira s. E le toma a a pa rê ncia , que é o produto de sua ignorâ ncia , pe la
re a lida de - e com isso se a pe ga à s ilusõe s. Infe lizme nte , e sse obscuro pode r da te rríve l ta ma s é muito
gra nde .

21
Inca pa cida de de pe rce be r o obje to re a l, ve r a lgo como dife re nte do que e le de fa to é , va cila çã o da me nte ,
toma r a s ilusõe s por re a lida de s - ta is sã o a s ca ra cte rística s de ta ma s. E nqua nto e stive r a pe ga do a ta ma s, o
home m nunca se libe rta rá de la s. E ta mbé m ra ja s irá pe rturbá -lo ince ssa nte me nte .

T a ma s te m ma is e sta s ca ra cte rística s: ignorâ ncia , pre guiça , e ntorpe cime nto, sono, ilusã o e e stupide z. O
home m que se e ncontra sob a influê ncia de ssa s ca ra cte rística s nã o conse gue compre e nde r coisa a lguma .
V ive como um sonâ mbulo ou como uma tora inconscie nte .

S a ttwa é pure za . Me smo qua ndo e stá mistura da com ra ja s e ta ma s, como á gua mistura da com á gua ,
ilumina o ca minho da libe rta çã o. S a ttwa re ve la o A tma n ta l como o sol re ve la o mundo obje tivo.

S a ttwa , qua ndo mistura da com a s outra s guna s, te m e sta s ca ra cte rística s: a usê ncia de orgulho, pure za ,
conte nta me nto, a uste rida de , de se jo de e studa r a s e scritura s, submissã o a D e us, inocê ncia , ve ra cida de ,
continê ncia , a usê ncia de cobiça , fé , de voçã o, a nse io de libe rta çã o, a ve rsã o à s coisa s de ste mundo, e as
de ma is virtude s que le va m a D e us.

S a ttwa no se u e sta do puro te m a s se guinte s ca ra cte rística s: se re nida de , pe rce pçã o dire ta do A tma n, pa z
a bsoluta , conte nta me nto, a le gria e consta nte de voção a o A tma n. G ra ça s a e ssa s qua lida de s, o home m que
busca goza de e te rna be a titude .

Ma ya foi de finida como um composto da s trê s guna s. É o corpo ca usa l do A tma n. O sono se m sonhos
pe rte nce e mine nte me nte a o corpo ca usa l. N e sse e sta do, a s a tivida de s da me nte e dos órgã os se nsoria is
e stã o suspe nsa s.

N o sono se m sonhos nã o há ne nhum tipo de cogniçã o. P oré m a me nte continua a e xistir na sua forma sutil,
como unia se me nte . A prova disso pode se r e ncontra da na e xpe riê ncia de todo indivíduo -a o a corda r, a
me nte a inda se le mbra : “N ã o pe rce bi na da .”

E xiste m o corpo, os órgã os se nsoria is, a força vita l, a me nte , o e go e sua s funçõe s, os obje tos de gozo, os
pra ze re s e todos os outros tipos de e xpe riê ncia , os e le me ntos de nsos e os sutis - e m suma , todo o unive rso
obje tivo e Ma ya , que é a sua ca usa . N a da disso é A tma n.

D e ve s sa be r que Ma ya e todos os se us e fe itos - do inte le cto cósmico a o corpo de nso - nã o sã o o A tma n.


S ã o todos irre a is, qua l mira ge m no de se rto.

O Atman

A gora vou e xplica r-te a na ture za do A tma n. S e a compre e nde re s, e sta rá s livre dos grilhõe s da ignorâ ncia e
a lca nça rá s a libe rta çã o.

H á uma R e a lida de que e xiste por si me sma e que constitui a ba se da nossa consciê ncia do e go. E ssa
R e a lida de é a te ste munha dos trê s e sta dos da nossa consciê ncia e dife re dos cinco invólucros corpora is.

E ssa R e a lida de é o conhe ce dor e m todos os e sta dos de consciê ncia - vigília , sonho e sono se m sonhos. E la
e stá cônscia da pre se nça ou da a usê ncia da me nte e sua s funçõe s. É o A tma n.

A R e a lida de vê tudo pe la sua própria luz. N ingué m pode vê -Ia . E la dá inte ligê ncia à me nte e a o inte le cto,
ma s ningué m lhe dá luz.

A R e a lida de pe rme ia o unive rso, ma s ningué m pode pe ne trá -la . E la brilha por si me sma . O unive rso brilha
com o re fle xo da S ua luz.

G ra ça s à S ua pre se nça , o corpo, os se ntidos, a me nte e o inte le cto se a plica m à s sua s re spe ctiva s funçõe s,
como se obe de ce sse m a o S e u coma ndo.

S ua na ture za é a e te rna consciê ncia . E la conhe ce toda s a s coisa s, da consciê ncia do e go a o próprio corpo.
É o conhe ce dor do pra ze r e da dor e dos obje tos dos se ntidos. C onhe ce tudo obje tiva me nte - ta l como um
home m conhe ce a e xistê ncia obje tiva de um ja rro.

22
E ssa R e a lida de é o A tma n, o S e r S upre mo, o ime moria l, que nunca ce ssa de se ntir infinita a le gria . E le é
se mpre o me smo. É a própria consciê ncia . O s órgã os e a s e ne rgia s vita is funciona m sob o se u coma ndo.

A qui, de ntro de ste corpo, na me nte pura , na câ ma ra se cre ta da inte ligê ncia , no unive rso infinito do cora çã o,
o A tma n re fle te no se u e sple ndor fa scina nte , como o sol do me io-dia . P e la sua luz o unive rso é re ve la do.

E le é o conhe ce dor da s a tivida de s da me nte e do hom e m individua l. É a te ste munha de toda s a s a çõe s do
corpo, dos órgã os se nsoria is e da e ne rgia vita l. P a re ce ide ntifica r-se com todos e ste s, ta l como o fogo
pa re ce ide ntifica r-se com uma e sfe ra de fe rro, ma s nã o a ge ne m e stá suje ito à ma is lige ira muda nça .

O A tma n nã o conhe ce o na scime nto ne m morte . N ã o e volui ne m de clina . É imutá ve l, e te rno. N ã o se


dissolve qua ndo o corpo se dissolve . D e ixa rá o é te r de e xistir qua ndo se que bra o re cipie nte que o conté m?

O A tma n é distinto de Ma ya , a ca usa prime ira , e de se u e fe ito, o unive rso. A na ture za do A tma n é a pura
consciê ncia . O A tma n re ve -la todo e ste unive rso da me nte e da ma té ria . N ã o se pode de fini-lo. D e ntro e
a tra vé s dos vá rios e sta dos de consciê ncia - a vigília , o sonho e o sono - e le ma nté m nossa ininte rrupta
consciê ncia de ide ntida de , ma nife sta ndo-se como a te ste munha da inte ligê ncia .

A mente

C om uma me nte disciplina da e um inte le cto que a lca nçou a pure za e a se re nida de , de ve s conhe ce r o A tma n
dire ta me nte , no te u íntimo. R e conhe ce o A tma n como o E u re a l. D e sse modo a tra ve ssa rá s o oce a no
ilimita do da munda nida de , cuja s onda s sã o o na scime nto e a morte . V ive se mpre no conhe cime nto da
ide ntida de com B ra hma n * sê be m-a ve ntura do.

O home m e stá e m se rvidã o porque confunde o nã o-A tman com o se u ve rda de iro E u. Isto é ca usa do pe la
ignorâ ncia . D a í de corre a misé ria do na scime nto e da morte . P e la ignorâ ncia o home m ide ntifica o A tma n
com o corpo, toma ndo o pe re cíve l pe lo re a l. P or isso e le a lime nta e sse corpo, unge -o e o prote ge
cuida dosa me nte . E nre da -o na s coisa s dos se ntidos como uma la ga rta nos fios do se u ca sulo.

Iludido pe la sua ignorâ ncia , o home m confunde uma coisa com outra . A fa lta de disce rnime nto le va rá o
home m a pe nsa r que uma cobra é unia corda . S e a a panha r com e ssa cre nça , corre rá gra nde risco. A
a ce ita çã o do irre a l como re a l constitui o e sta do de se rvidã o. P re sta a te nçã o a isso, a migo.

O A tma n é indivisíve l, e te rno, o prime iro se m um segundo. Ma nife sta -se e te rna me nte pe lo pode r do se u
próprio conhe cime nto. S ua s glória s sã o infinita s. O vé u de ta ma s e ncobre a ve rda de ira na ture za do A tman,
ta l como um e clipse e ncobre os ra ios do sol.

Q ua ndo os puros ra ios do A tma n e stã o a ssim e ncobe rtos, o home m iludido se ide ntifica com o se u corpo,
que é nã o-A tma n. E ntã o ra ja s, que te m o pode r de proje ta r forma s ilusória s, a flige -o dolorosa me nte .
A corre nta -o com os grilhõe s da luxúria , da cóle ra e da s de ma is pa ixõe s.

S ua me nte toma -se pe rve rtida . S ua consciê ncia do A tma n é de vora da pe lo tuba rã o da tota l ignorâ ncia .
S ubme te ndo-se a o pode r de ra ja s, e le se ide ntifica com os nume rosos movime ntos e muda nça s da me nte e
a ssim é a rra sta do de lá pa ra cá , ora a flora ndo, ora a funda ndo no oce a no ilimita do do na scime nto e da
morte , cuja s, á gua s e stã o che ia s do ve ne no dos obje tos se nsoria is. E ste é um de stino re a lme nte mise rá ve l.

O s ra ios do sol produze m ca ma da s de nuve m. P or e la s o sol é e ncobe rto, e e ntã o pa re ce que só a s nuve ns
e xiste m. D o me smo modo, o e go, produzido pe lo A tma n, e ncobre a ve rda de ira na ture za do A tma n, e e ntã o
pa re ce que só o e go e xiste .

N um dia te mpe stuoso o sol é e ncobe rto por e spe ssa s nuve ns, e e ssa s nuve ns sã o fustiga da s por viole nta s
e gé lida s ra ja da s de ve nto. D o me smo modo, qua ndo o A tma n é e nvolvido pe la s e spe ssa s tre va s de ta 7ms,
o te rríve l pode r de ra ja s fustiga o home m iludido com todos os tipos de a fliçõe s.

A se rvidã o do home m é provoca da pe lo pode r de ta ma s e ra ja s. Iludido por e la , o home m toma o corpo pe lo


A tma n e e xtra via -se no ca minho que le va à morte e a o re na scime nto.

23
A vida do home m ne ste mundo re la tivo pode se r compara da a uma á rvore . T a ma s é a se me nte . A
ide ntifica çã o do A tma n com o corpo, o se u cre scime nto. O s de se jos sã o a s folha s. O tra ba lho é a se iva . O
corpo, o tronco. A s força s vita is sã o os ga lhos. O s órgã os se nsoria is, os re be ntos. O s obje tos dos se ntidos,
a s flore s. O s frutos, os sofrime ntos ca usa dos por vá ria s a çõe s. O home m individua l é o pá ssa ro que come
os frutos da á rvore da vida .

A suje içã o do A tma n a o nã o-A tma n prové m da ignorâ ncia . N ã o te m uma ca usa e xte rna . N ã o te ndo princípio,
pe rdura rá inde finida me nte e nqua nto o home m nã o a lcança r a ilumina çã o. E nqua nto o home m pe rma ne ce r
ne ssa se rvidã o, e la o suje ita rá a um longo corte jo de misé ria s - na scime nto, morte , doe nça , de cre pitude e
a ssim por dia nte .

E ssa se rvidã o nã o pode se r ve ncida ne m pe la s a rma s, ne m pe lo ve nto, ne m pe lo fogo, ne m por milhõe s de


a tos. S Ó a e spa da corta nte do conhe cime nto pode e xtirpá -la . E sta é forja da pe lo disce rnime nto e a guça da
pe la pure za do cora çã o me dia nte a gra ça divina .

O home m de ve cumprir com fide lida de e de voçã o os deve re s pre scritos pe la s e scritura s. Isso lhe purifica o
cora çã o. O home m de cora çã o puro re a liza o supre mo A tma n. D e sse modo, e le de strói sua se rvidã o a o
mundo, a rra nca ndo-a pe la ra iz.

E nvolto e m se us cinco invólucros, a come ça r pe lo corpo físico, que sã o os produtos de sua própria Ma ya, o
A tma n pe rma ne ce oculto, ta l como a á gua de um la go é re cobe rta por um vé u de e spuma .

Q ua ndo se re move a e spuma , a á gua pura é vista cla ra me nte . E la sa cia a se de do home m, re fre sca -o
ime dia ta me nte e torna -o fe liz.

Q ua ndo se re move m todos os cinco invólucros, o puro A tma n é re ve la do como o D e us que ha bita e m nosso
íntimo, como infinita e ge nuína be m-a ve ntura nça , como o E nte supre mo e a uto-ilumina do.

O sá bio que busca libe rta r-se da se rvidã o há de disce rnir e ntre A tma n e nã o-A tma n. S Ó a ssim e le pode
compre e nde r o A tma n, que é o S e r Infinito, a S a be doria Infinita e o A mor Infinito. S Ó a ssim e le e ncontra a
fe licida de .

O A tma n ha bita e m nosso íntimo, livre do a pe go e para a lé m de toda a çã o. O home m de ve se pa ra r e sse


A tma n de todo obje to da e xpe riê ncia , ta l como uma ha ste de e rva é se pa ra da de se u invólucro. E ntã o e le
de ve dissolve r no A tma n toda s a s a pa rê ncia s que constitue m o mundo do nome e da forma . Livre é a a lma
que a ssim pode pe rma ne ce r no A tma n.

O corpo

E ste corpo é um "invólucro físico". O a lime nto possibilita o se u na scime nto; com a lime nto e le vive ; se m
a lime nto, e le morre . E sse corpo consiste e m e pide rme , pe le , ca rne , sa ngue , ossos e á gua . N ã o pode se r o
A tma n, o e te rna me nte puro, o que e xiste por si só.

E le nã o e xistia a nte s do na scime nto e nã o e xistirá de pois da morte . E xiste a pe na s por um bre ve la pso de
te mpo, no inte rva lo e ntre a mbos. S ua na ture za é tra nsitória e suje ita a muda nça . E le é um composto, e nã o
um e le me nto. S ua vita lida de é um simple s re fle xo. É um obje to se nsoria l, que pode se r pe rce bido como um
ja rro. C omo há de se r e le o A tma n, o e xpe rime nta dor de toda s a s e xpe riê ncia s?

O corpo consiste e m bra ços, pe rna s e outros me mbros. E le nã o é o A tma n - pois qua ndo um de sse s
me mbros é a mputa do, o home m pode continua r vive ndo e funciona ndo por me io de órgã os re ma ne sce nte s.
O corpo é controla do por outre m. N ã o pode se r o A tma n, o controla dor.

O A tma n obse rva o corpo, com sua s va ria da s ca ra cte rística s, a çõe s e e stá gios de de se nvolvime nto. Q ue
e sse A tma n, que é a re a lida de pe rma ne nte , te m uma na ture za distinta da do corpo é um fa to que se
e vide ncia por si me smo.

O corpo é um fe ixe de ossos liga dos pe la ca rne . É sujo e che io de imundície s. O corpo nunca pode se r
ide ntifica do com o A tma n, o conhe ce dor, o que e xiste por si só. A na ture za do A tma n é a bsoluta me nte
distinta da do corpo.

24
S ó o home m ignora nte se ide ntifica com o corpo, que é um composto de pe le , ca rne , gordura , ossos e
imundície s. O home m que possui o disce rnime nto e spiritua l sa be que o A tma n, se u ve rda de iro se r, a única
re a lida de supre ma , é dife re nte do corpo.

O tolo pe nsa : "E u sou o corpo.- O home m inte lige nte pe nsa : “E u sou uma a lma individua l unida a o corpo."
Ma s o sá bio, na gra nde za do se u conhe cime nto e disce rnime nto e spiritua l, vê o A tma n como a re a lida de e
pe nsa : "E u sou o B ra hma n."

Ó tolos, pa ra i de ide ntifica r-vos com e ssa ma ssa de pe le , ca rne , gordura , ossos e imundície s. Ide ntifica i-vos
com B ra hma n, o A bsoluto, o A tma n ima ne nte a todos os se re s. S ó a ssim pode re is a tingir a pa z supre ma .

O home m inte lige nte pode se r ve rsa do no V e da nta e na s le is mora is. Ma s nã o te m a mínima possibilida de
de libe rta r-se e nqua nto nã o de ixa r de se ide ntificar com o corpo e os órgã os se nsoria is. E ssa ide ntifica çã o é
produzida pe la ilusã o.

N unca vos ide ntifica is com a sombra proje ta da pe lo vosso corpo, ne m com o se u re fle xo, ne m com o corpo
que ve de s num sonho ou e m vossa ima gina çã o. P or isso nã o de ve is ide ntifica r-vos com e sse corpo vivo.

A que le s que vive m na ignorâ ncia ide ntifica m o corpo com o A tma n. E ssa ignorâ ncia é a ca usa e a orige m do
na scime nto, da morte e do re na scime nto. P or isso deve is e mpe nha r-vos dilige nte me nte pa ra de struí-la .
Q ua ndo vosso cora çã o e stive r livre de ssa ignorâ ncia, já nã o ha ve rá ne nhuma possibilida de de
re na scime nto. T e re is a lca nça do a imorta lida de .

O invólucro do A tma n cha ma do de "invólucro vita l” é composto pe la força vita l e pe los cinco órgã os da a çã o.
O corpo é cha ma do "invólucro físico” e come ça a e xistir qua ndo é re cobe rto pe lo invólucro vita l. É a ssim que
o corpo se e nvolve na a çã o.

E sse invólucro vita l nã o é o A tma n - pois que se compõe me ra me nte dos a re s vita is. S e me lha nte a o a r, e le
e ntra e sa i do corpo. N ã o sa be o que é bom ou ruim pa ra si me smo ou pa ra os outros. É se mpre
de pe nde nte do A tma n.

Purificação

A me nte , a o la do dos órgã os da pe rce pçã o, forma o "invólucro me nta l". É e la que produz a consciê ncia do
“e u” e do "me u". É e la , ta mbé m, que nos pe rmite disce rnir os obje tos. É dota da do pode r e da fa culda de de
dife re ncia r os obje tos nome a ndo-os. É ma nife sta , e nvolve ndo o "invólucro vita l".

O invólucro me nta l pode se r compa ra do a o fogo sa crificia l. É a lime nta do pe lo combustíve l de muitos
de se jos. O s cinco órgã os da pe rce pçã o a tua m como sace rdote s. O s obje tos do de se jo se de rra ma m sobre
e le como um fluxo continuo de obla çõe s. É a ssim que e ste unive rso fe nome na l come ça a e xistir.

A ignorâ ncia nã o e stá e m pa rte a lguma a nã o se r na me nte . A me nte e stá re ple ta de ignorâ ncia , e e sta
produz a se rvidã o do na scime nto e da morte . Q ua ndo, no conhe cime nto do A tma n, o home m tra nsce nde a
me nte , o unive rso fe nome na l de sa pa re ce de sua consciê ncia . Q ua ndo o home m vive no domínio da
ignorâ ncia me nta l, o unive rso fe nome na l e xiste pa ra e le .

N o sonho, a me nte e stá de sprovida do unive rso obje tivo, ma s cria por se u próprio pode r um unive rso
comple to de suje ito e obje to. O e sta do de vigília nã o pa ssa de um sonho prolonga do. O unive rso fe nome na l
e xiste na me nte .

N o sono se m sonhos, qua ndo a me nte nã o e stá funciona ndo, na da e xiste . E sta é nossa e xpe riê ncia
unive rsa l. O home m pa re ce e sta r subme tido a o na scime nto e à morte . Isso é uma cria çã o fictícia da me nte ,
e nã o uma re a lida de .

O ve nto a cumula a s nuve ns, e o ve nto torna a dispe rsá -la s. A me nte cria a se rvidã o, e a me nte ta mbé m
re move a se rvidã o.

A me nte cria o a pe go a o corpo e à s coisa s de ste mundo. C om isso e la a ma rra o home m, ta l como um
a nima l é a ma rra do por uma corda . Ma s é ta mbé m a me nte que cria no home m uma profunda re pugnâ ncia
pe los obje tos dos se ntidos, como por um ve ne no. D e sse modo, e la o libe rta de sua se rvidã o.

25
A me nte , porta nto, é a ca usa da se rvidã o do home m e ta mbé m da sua libe rta çã o. E la produz a se rvidã o
qua ndo é obscure cida por ra ja s, ma s produz a libe rta çã o qua ndo se de se mba ra ça de ra ja s e ta ma s e se
purifica .

Q ua ndo se pra tica o disce rnime nto e a impa ssibilidade , com e xclusã o de tudo o ma is, a me nte se purifica e
ca minha pa ra a libe rta çã o. A ssim, o home m sá bio que busca a libe rta çã o de ve de se nvolve r e ssa s dua s
qua lida de s e m se u íntimo.

O te rríve l tigre cha ma do me nte impura ronda a floresta dos obje tos dos se ntidos. O home m sá bio que busca
a libe rta çã o nã o de ve ir lá .

A me nte do e xpe rime nta dor cria todos os obje tos que e le e xpe rime nta no e sta do de vigília ou de sonho.
Ince ssa nte me nte , e la cria dife re nça s nos corpos, na cor, na condiçã o socia l e na ra ça dos home ns. C ria a s
va ria çõe s dos guna s. C ria de se jos, a çõe s e os frutos da s a çõe s.

O home m é puro e spírito, livre de qua lque r a pe go. A me nte o ilude . A corre nta -o com os grilhõe s do corpo,
dos órgã os se nsoria is e da re spira çã o vita l. C ria ne le a consciê ncia do "e u" e do “me u”. F a z com que
pe ra mbule , inte rmina ve lme nte , e ntre os frutos da s açõe s que e le produziu.

O e rro de ide ntifica r A tma n com nã o-A tma n é a ca usa da roda do na scime nto, morte e re na scime nto do
home m. E ssa fa lsa ide ntifica çã o é produzida pe la mente . P orta nto, é a me nte que ca usa a misé ria da roda
do na scime nto, morte e re na scime nto pa ra o home m desprovido de disce rnime nto e ma cula do por ra ja s e
ta ma s.

P or isso o sá bio, que conhe ce a R e a lida de , de cla rou e sta r a me nte re ple ta de ignorâ ncia . D e vido a e ssa
ignorâ ncia , toda s a s cria tura s do unive rso sã o irre me dia ve lme nte impe lida s de lá pa ra cá , como nuve ns
fustiga da s pe lo ve nto.

P or isso, a que le que busca a libe rta çã o de ve tra ba lha r a rdua me nte pa ra purifica r a me nte . Q ua ndo a me nte
se purificou, a libe rta çã o é tã o fá cil de colhe r qua nto o fruto que ja z a um pa lmo da nossa mã o.

P rocura since ra me nte a libe rta çã o, e tua cobiça dos obje tos se nsoria is se rá a rra nca da pe la ra iz. P ra tica o
de sa pe go e m re la çã o a toda s a s a çõe s. C rê na R e a lida de . D e vota -te à prá tica da s disciplina s e spiritua is,
ta is como ouvir a pa la vra de B ra hma n, re fle tir e me dita r sobre e la . D e sse modo a me nte se libe rta rá do ma l
de ra ja s.

O "invólucro me nta l” nã o pode , pois, se r o A tma n. E le te m princípio e fim, e e stá suje ito à muda nça . É a
mora da da dor. É um obje to da e xpe riê ncia . A que le que vê nã o pode se r a coisa que é vista .

O invólucro do intelecto

A fa culda de do disce rnime nto com se us pode re s de inte ligê ncia , junto com os órgã os da pe rce pçã o, é
conhe cida como o "invólucro do inte le cto”. S ua qua lida de ca ra cte rística é a de se r o a ge nte da a çã o. É e le
que ca usa o na scime nto, a morte e o re na scime nto do home m.

O pode r de inte ligê ncia ine re nte a o "invólucro do inte le cto- é um re fle xo do A tma n, a pura consciê ncia. O
"invólucro do inte le cto" é um e fe ito de Ma ya . E le possui a fa culda de de conhe ce r e de a gir e ide ntifica -se
inte ira me nte com o corpo, os órgã os se nsoria is, e tc.

N ã o te m come ço, ca ra cte riza -se pe la sua consciê ncia do e go e constitui o home m individua l. É o indica dor
de toda s a s a çõe s e e mpre e ndime ntos. Impe lido pe la s te ndê ncia s e impre ssõe s forma da s e m na scime ntos
a nte riore s, e le pra tica a çõe s virtuosa s ou pe ca minosa s e sofre sua s conse qüê ncia s.

O "invólucro do inte le cto" a cumula e xpe riê ncia s pa ssa ndo por muitos ve ntre s de gra u supe rior ou infe rior.
P e rte nce m-lhe os e sta dos de vigília e de sonho. É obje to de dore s e a le gria s.

26
D e vido à sua consciê ncia do "e u" e do "me u", e le se ide ntifica consta nte me nte com o corpo e os e sta dos
físicos, a ssim como com os de ve re s ine re nte s a os dife re nte s e stá gios e orde ns da vida . E sse "invólucro do
inte le cto- brilha com luz inte nsa de vido à sua proximida de do A tma n re spla nde ce nte . É urna roupa ge m do
A tma n, ma s o home m se ide ntifica com e le e va gue ia a o re dor do círculo de na scime nto, morte e
re na scime nto de vido à sua ilusã o.

O A tma n, que é pura consciê ncia , é a luz que brilha no sa ntuá rio do cora çã o, o ce ntro de toda força vita l. É
imutá ve l, ma s torna -se o “a tor e o e xpe rime nta dor” qua ndo é e rrone a me nte ide ntifica do com o "invólucro do
inte le cto”.

O A tma n a ssume a s limita çõe s do "invólucro do inte le cto" porque é e rrone a me nte ide ntifica do com e sse
invólucro, que de le se distingue por comple to. E sse home m, que é o A tma n, conside ra -se se pa ra do de le e
de B ra hma n, que é o único A tma n de toda s a s cria tura s. D o me smo modo, o home m ignora nte pode
conside ra r um ja rro como a lgo dife re nte da a rgila de que e ste é fe ito.

P e la sua na ture za , o A tma n é e te rna me nte imutá ve l e pe rfe ito, ma s a ssume o ca rá te r e a na ture za de se us
invólucros por se r e rrone a me nte ide ntifica do com e le s. E mbora de sprovido de forma , o fogo a ssumirá a
forma do fe rro inca nde sce nte .

Ilusão

O Discípulo:

O u por ca usa da ilusã o, ou por a lguma outra ra zã o, o A tma n pa re ce se r o e u individua l. E ssa e rrône a
ide ntifica çã o nã o te m come ço; e o que nã o te m come ço ta mbé m nã o pode te r fim.

P orta nto, e sse e quívoco sobre a ide ntida de da a lma individua l de ve se r e te rno, e sua pe ra mbula çã o a tra vé s
da roda do na scime nto, morte e re na scime nto há de continua r por todo o se mpre . C omo, pois, pode ha ve r
libe rta çã o? Me stre , te nde a bonda de de e xplica r-me isso.

O Mestre

T ua pe rgunta é oportuna , ó home m prude nte . O uve -me com a te nçã o. U ma coisa que foi produzida pe la
ilusã o e só e xiste na tua ima gina çã o ja ma is pode rá se r a ce ita como um fa to.

P e la sua na ture za , o A tma n é e te rna me nte livre , se m forma e e stá a lé m de qua lque r a çã o. S ua ide ntida de
com os obje tos é ima giná ria , irre a l. D ize mos “o cé u é a zul”, ma s o cé u te m a lguma cor?

O A tma n é a te ste munha , e stá a lé m de qua lque r a tributo, de qua lque r a çã o. P ode se r dire ta me nte pe rce bido
como pura consciê ncia e infinita be m-a ve ntura nça . S ua a pa rê ncia de a lma individua l de corre da ilusã o de
nosso e nte ndime nto e ca re ce de re a lida de . P or sua própria na ture za , e ssa a pa rê ncia é irre a l. Q ua ndo nossa
ilusã o é re movida , e la de ixa de e xistir.

S ua a pa rê ncia de a lma individua l só dura e nqua nto dura a nossa ilusã o, uma ve z que e sse e quívoco re sulta
de uma ilusã o do nosso e nte ndime nto. E nqua nto pe rdura r a ilusã o, a corda pa re ce rá se r uma cobra . F inda a
ilusã o, a cobra de ixa de e xistir.

É fa to que a ignorâ ncia e se us e fe itos e xiste m de sde se mpre . Ma s a ignorâ ncia , e mbora nã o te nha tido
princípio, che ga a o fim com o de sponta r do conhe cime nto. E la é comple ta me nte de struída , com sua s ra ízes
e tudo o ma is, ta l como os sonhos, que se de sva ne cem por inte iro a o a corda rmos. Q ua ndo uma coisa que
a nte s nã o e xistia come ça a e xistir, isso implica que e la e ra ine xiste nte de sde se mpre . Ma s e ssa ine xistê ncia ,
e mbora nã o te nha tido princípio, ce ssa a ssim que tal coisa come ça a e xistir. F ica cla ro, pois, que a
ignorâ ncia , e mbora nã o te nha tido princípio, nã o é e te rna .

V e mos que um e sta do a nte rior de nã o-e xistê ncia pode che ga r a o fim, muito e mbora nã o te nha princípio. O
me smo suce de com a a pa rê ncia de um e u individua l. E ssa a pa rê ncia se de ve a uma fa lsa ide ntifica çã o do
A tma n com o inte le cto e os de ma is invólucros. O A tma n, por sua própria na ture za , é e sse ncia lme nte distinto
e se pa ra -do de le s. A ide ntifica çã o do A tma n com o inte le cto, e tc., é ca usa da pe la ignorâ ncia .

27
E ssa fa lsa ide ntifica çã o só pode se r dissipa da pe lo pe rfe ito conhe cime nto. O pe rfe ito conhe cime nto,
se gundo a s e scritura s re ve la da s, é a compre e nsã o do A tma n como uno com B ra hma n.

E la é a lca nça da por me io de um a bsoluto disce rnime nto e ntre o A tma n e o nã o-A tma n. P or isso de ve o
home m pra tica r o disce rnime nto e ntre o A tma n e o e u individua l.

A ssim como uma á gua ba rre nta re luz crista lina me nte qua ndo o ba rro é re movido, a ssim o A tma n re luz com
puro brilho qua ndo se lhe re move m a s impure za s.

Q ua ndo a s tre va s da irre a lida de se de sva ne ce m, o e te rno A tma n é cla ra me nte re ve la do. P or isso o home m
de ve e mpe nha r-se e m libe rta r o A tma n da s irre a lida de s do e gotismo e da ilusã o.

O “invólucro do inte le cto”, que e stive mos discutindo, nã o pode se r o A tma n pe la s se guinte s ra zõe s: e le e stá
suje ito a muda nça s; a inte ligê ncia nã o é sua na ture za ine re nte ; e le é finito; é um obje to da e xpe riê ncia ; é
tra nsitório. O nã o-e te rno nã o pode , pois, se r o e te rno A tma n.

O invólucro da bem-aventurança

2
O "invólucro da be m-a ve ntura nça ” é o invólucro do A tma n que re ce be um re fle xo do próprio A tma n be m-
a ve ntura do. N o e nta nto, e sse invólucro é uma cria ção da nossa ignorâ ncia . S ua na ture za consiste nos
vá rios gra us de fe licida de que sã o e xpe rie ncia dos qua ndo um obje to de se ja do é conquista do. S ua na ture za
be m-a ve ntura da é se ntida e sponta ne a me nte pe los homens re tos qua ndo e le s colhe m os frutos de sua s
boa s a çõe s. E le e xpre ssa a a le gria que todos os se re s vivos pode m e xpe rime nta r se m fa ze r e sforço a lgum
ne sse se ntido.

O "invólucro da be m-a ve ntura nça - nos é ple na me nte re ve la do no e sta do de sono profundo. É pa rcia lme nte
re ve la do nos e sta dos de vigília e de sonho, qua ndo um obje to de se já ve l e stá se ndo de sfruta do.

E sse “invólucro da be m-a ve ntura nça " nã o pode se r o A tma n pe la s se guinte s ra zõe s: e le te m limita çõe s; é
um e fe ito de Ma ya ; sua na ture za a pra zíve l é se ntida como o re sulta do de boa s a çõe s; e le é do me smo tipo
dos de ma is invólucros, que sã o produtos de Ma ya .

S e re fle tirmos e me dita rmos sobre a ve rda de da s e scritura s, tra nsce nde ndo todos os cinco invólucros da
ignorâ ncia , compre e nde re mos a E xistê ncia funda me nta l - que é o A tma n, a te ste munha , a consciê ncia
infinita .

O A tma n brilha por si me smo, é distinto dos cinco invólucros. É a te ste munha dos trê s e sta dos de
consciê ncia . E le é e xistê ncia , imutá ve l, puro, e te rna me nte be m-a ve ntura do. D e ve se r compre e ndido pe lo
home m de disce rnime nto como o A tma n que ha bita e m se u íntimo.

Atman é Brahman

O Discípulo:

Me stre , se re je ita rmos e sse s cinco invólucros corno irre a is, pa re ce -me que na da má s re sta se nã o o va zio.
C omo, e ntã o, pode ha ve r uma e xistê ncia que o sá bio pode compre e nde r como se ndo una com o se u
A tma n?

O Mestre:

2
A idé ia do e go no home m

28
E is uma boa pe rgunta , ó home m prude nte . T e u a rgume nto é há bil. N o e nta nto, de ve ha ve r uma e xistê ncia ,
uma re a lida de , que pe rce ba a consciê ncia do e go e os invólucros e ta mbé m e ste ja cônscia do vá cuo que é a
a usê ncia de le s. E ssa re a lida de que e xiste por si mesma pe rma ne ce de spe rce bida . A guça a pe rce pçã o de
que pode s conhe ce r o A tma n, que é o conhe ce dor.

A que le que e xpe rime nta e stá cônscio de si me smo. S e m um e xpe rime nta dor, nã o pode ha ve r
a utoconsciê ncia .

O A tma n é a sua própria te ste munha , já que e stá cônscio de si me smo. O A tma n nã o é outro se nã o
B ra hma n.

O A tma n é pura consciê ncia , cla ra me nte ma nife sta como subja ce nte a os e sta dos de vigília , de sonho e de
sono se m sonhos. É e xpe rime nta da inte riorme nte como consciê ncia ininte rrupta , a consciê ncia de que e u
sou e u. É a imutá ve l te ste munha que e xpe rime nta o e go, o inte le cto e tudo o ma is, com sua s vá ria s forma s
e muda nça s. É compre e ndido no fundo do nosso cora ção como e xistê ncia , conhe cime nto e be m-
a ve ntura nça a bsolutos. R e a liza e sse A tma n no sa ntuário do te u próprio cora çã o.

O tolo vê o re fle xo do sol na á gua de um ja rro e pensa que e le é o sol. E nre da do na ignorâ ncia de sua
ilusã o, o home m vê o re fle xo da P ura C onsciê ncia nos invólucros e o confunde com o E u ve rda de iro.

P a ra olha r o sol, de ve s a fa sta r-te do ja rro, da á gua e dos re fle xos do sol na á gua . O sá bio sa be que este s só
sã o re ve la dos pe lo re fle xo do sol, que brilha por si me smo. N ã o sã o o próprio sol.

O corpo, o invólucro do inte le cto, o re fle xo da consciê ncia sobre e le - na da disso é o A tma n. O A tma n é a
te ste munha , a consciê ncia infinita , o re ve la dor de toda s a s coisa s, ma s dife re de toda s e la s, que r se ja m
grosse ira s ou sutis. É a re a lida de e te rna , onipre sente , que a tudo pe rme ia , a ma is sutil da s sutile za s. N ã o
te m inte rior ne m e xte rior. É o E u ve rda de iro, oculto no sa ntuá rio do cora çã o. C ompre e nde ple na me nte a
ve rda de do A tma n. S ê livre do ma l e da impure za , e pa ssa rá s a lé m da morte .

C onhe ce o A tma n, tra nsce nde os infortúnios e a tinge a fonte da a le gria . S ê ilumina do por e sse
conhe cime nto, e na da te rá s a te me r. S e que re s e ncontra r a libe rta çã o, nã o há outro me io de rompe r os
grilhõe s do re na scime nto.

O que pode de struir a se rvidã o e a misé ria de ste mundo? O conhe cime nto de que o A tma n é B ra hma n. É
e ntã o que compre e nde s A que le que é o um se m um se gundo, a supre ma be m-a ve ntura nça .

C ompre e nde B ra hma n e nã o ha ve rá ma is re tomo a e ste mundo - a mora da de todos os infortúnios. D e ve s


compre e nde r a bsoluta me nte que o A tma n é B ra hma n.

E ntã o a lca nça rá s B ra hma n pa ra se mpre . E le é a ve rda de . É e xistê ncia e conhe cime nto. É a bsoluto. É puro
e e xiste por si me smo. É a le gria e te rna , a le gria sem fim. N ã o é outro se nã o o A tma n.

O A tma n é uno com B ra hma n: ta l é a ve rda de supre ma . S Ó B ra hma n é re a l. N a da e xiste se nã o E le . Q ua ndo


O conhe ce mos como a re a lida de supre ma , nã o há outra e xistê ncia se nã o B ra hma n.

O universo

B ra hma n é a re a lida de - a e xistê ncia única , a bsoluta me nte inde pe nde nte do pe nsa me nto ou da idé ia
huma na . D e vido à ignorâ ncia de nossa me nte huma na , o unive rso pa re ce compor-se de dive rsa s forma s.
E le é unica me nte B ra hma n.

U m ja rro fe ito de a rgila na da ma is é do que a rgila . É e sse ncia lme nte a rgila . A forma do ja rro nã o te m
e xistê ncia própria . Q ue é , pois, o ja rro? Me ro nome inve nta do!

A forma do ja rro nunca pode rá se r pe rce bida se pa ra da da a rgila . Q ue é , e ntã o, o ja rro? U ma a pa rê ncia ! A
re a lida de é a própria a rgila .

E ste unive rso é um e fe ito de B ra hma n. N unca se rá outra coisa se nã o B ra hma n. S e pa ra do de B ra hma n, e le
nã o e xiste . F ora d'E le na da e xiste . Q ue m diz que e ste unive rso te m uma e xistê ncia inde pe nde nte continua
se ndo vítima da ilusã o. É como um home m que fa la dura nte o sono.

29
“O unive rso é B ra hma n” - a ssim diz o gra nde vide nte do A tha rva V e da . O unive rso, pois, na da ma is é do que
B ra hma n. S obre põe -se a E le . N ã o te m e xistê ncia própria , fora da sua ba se .

S e o unive rso, ta l como o pe rce be mos, fosse re a l, o conhe cime nto de A tma n. nã o poria te rmo à nossa
ilusã o. A s e scritura s se ria m fa lsa s. A s re ve la çõe s da s E nca rna çõe s D ivina s nã o te ria m se ntido. E ssa s
a lte rna tiva s nã o pode m se r conside ra da s ne m de se já ve is ne m be né fica s por ne nhum indivíduo pe nsa nte .

S ri K rishna , o S e nhor E nca rna do, que conhe ce o se gre do de toda s a s ve rda de s, diz no G ita : “E mbora e u
nã o e ste ja e m ne nhuma cria tura , toda s a s cria tura s e xiste m e m mim. N ã o que ro dize r que e la s e xista m e m
mim fisica me nte . E sse é o me u divino misté rio. Me u S e r suste nta toda s a s cria tura s e lhe s, dá e xistê ncia ,
ma s nã o te m ne nhum conta to físico com e la s”.

S e e ste unive rso fosse re a l, continua ría mos a pe rce bê -lo no sono profundo. Ma s na da pe rce be mos ne sse
e sta do. P orta nto e le é irre a l, a e xe mplo de nossos sonhos.

O unive rso nã o e xiste fora do A tma n. A pe rce pçã o que te mos de le como dota do de e xistê ncia inde pe nde nte
é fa lsa , ta l como a nossa pe rce pçã o do a zul no cé u. C omo pode um a tributo sobre posto te r uma e xistê ncia
qua lque r, fora de se u substra to? S Ó a nossa ilusã o pode produzir e ssa fa lsa conce pçã o da re a lida de
subja ce nte .

N ã o importa o que o home m iludido pe nse e sta r pe rce be ndo; na ve rda de , e le e stá ve ndo B ra hma n, e na da
ma is que B ra hma n. E le vê uma ma dre pé rola e ima gina que e stá ve ndo pra ta . V ê B ra hma n e ima gina que
E le é o unive rso. P oré m e sse unive rso, que é sobre posto a B ra hma n, nã o pa ssa de um nome .

Eu sou Brahman

B ra hma n é supre mo. É a re a lida de - o um se m um se gundo. É pura consciê ncia , livre de qua lque r má cula . É
a própria se re nida de . N ã o te m come ço ne m fim. N ã o conhe ce muda nça s. É a le gria e te rna .

B ra hma n tra nsce nde a a pa rê ncia do múltiplo, cria do por Ma ya . É e te rno, pe rpe tua me nte fora do a lca nce da
dor; é indiviso, ime nsurá ve l, se m forma , se m nome , indife re ncia do, imutá ve l. E le brilha com a S ua própria
luz. E stá e m toda s a s coisa s que pode m se r conhe cida s ne ste unive rso.

O s vide nte s ilumina dos O pe rce be m como a re a lida de supre ma , infinita , a bsoluta , se m pa rte s - a pura
consciê ncia . E n'E le de scobre m que o conhe ce dor, o conhe cime nto e a coisa conhe cida se torna m unos.

E le s O conhe ce m como a re a lida de que nã o pode se r re je ita da (já que E le e stá se mpre pre se nte na a lma
huma na ) ne m a pre e ndida (já que e le e stá a lé m do pode r da me nte e da pa la vra ). S a be m que

E le é ime nsurá ve l, se m princípio, se m fim, supre mo e m S ua glória . E le s compre e nde m a ve rda de : “E u sou
B ra hma n”.

Isso és Tu

A s e scritura s e sta be le ce m a a bsoluta ide ntida de de A tma n e B ra hma n a o de cla ra r re pe tida me nte : "Isso é s
T u.” O s te rmos “B ra hma n” e “A tma n”, no se u ve rda de iro significa do, se re fe re m re spe ctiva me nte a “Isso” e
“T U ”.

N o se u se ntido lite ra l, supe rficia l, “B ra hma n” e “A tma n” tê m a tributos opostos, como o sol e o va ga -lume , o
re i e se u se rvo, o oce a no e o poço, ou o monte Me ru e o á tomo. A ide ntida de de a mbos só é e sta be le cida
qua ndo os compre e nde mos no se u ve rda de iro significado, e nã o num se ntido supe rficia l.

“B ra hma n” pode re fe rir-se a D e us, o sobe ra no de Ma ya e cria dor do unive rso. O "A tma n" pode re fe rir-se à
a lma individua l, a ssocia da com os cinco invólucros que sã o e fe itos de Ma ya . D e sse ponto de vista , e le
possui a tributos opostos. Ma s e ssa a pa re nte oposição é ca usa da por Ma ya e pe los se us e fe itos. P orta nto,
e la nã o é re a l, ma s sobre posta .

30
E sse s a tributos produzidos por Ma ya e se us e fe itos sã o sobre postos a D e us e à a lma individua l. Q ua ndo
sã o comple ta me nte e limina dos, ne m a a lma ne m D e us pe rma ne ce m. S e toma rmos o re ino de um re i e a s
a rma s de um solda do, nã o e xiste m ne m solda do ne m rei.

A s e scritura s re pudia m qua lque r idé ia de uma dua lida de e m B ra hma n. Q ue o home m busque a ilumina çã o
no conhe cime nto de B ra hma n, como ma nda m a s e scritura s. E ntã o a que le s a tributos, que nossa ignorâ ncia
sobre pôs a B ra hma n, de sa pa re ce rã o.

"B ra hma n nã o é ne m o unive rso de nso ne m o unive rso sutil. O mundo a pa re nte é produzido pe la nossa
ima gina çã o na sua ignorâ ncia . E le nã o é re a l. É como ve r na corda a se rpe nte . É como um sonho
pa ssa ge iro- - a ssim o home m de ve pra tica r o disce rnime nto e spiritua l e libe rta r-se da consciê ncia que te m
do mundo obje tivo.

E ntã o, que e le me dite sobre a ide ntida de de B ra hma n e de A tma n e compre e nda a ve rda de .

P e lo disce rnime nto e spiritua l, que e le pe rce ba o ve rda de iro se ntido profundo dos te rmos “B ra hma n” e
“A tma n”, compre e nde ndo a ssim a a bsoluta ide ntida de de a mbos. V ê a re a lida de e m a mbos, e ve rá s que
nã o há se nã o um.

Q ua ndo dize mos: “E sse home m é o me smo D e va da tta que e ncontre i a nte s”, e sta be le ce mos uma ide ntida de
pe ssoa l de sconside ra ndo os a tributos que lhe fora m sobre postos pe la s circunstâ ncia s do nosso e ncontro
a nte rior. D e modo e xa ta me nte idê ntico, qua ndo conside ra mos o e nsina me nto e spiritua l e xpre sso na s
pa la vra s “Isso é s T u”, de ve mos de spre za r os a tributos que fora m sobre postos a “Isso” e "T u".

O home m sá bio dota do de ve rda de iro disce rnime nto compre e nde que a e ssê ncia de B ra hma n e A tma n é a
P ura C onsciê ncia e a ssim pe rce be sua ide ntida de a bsoluta . A ide ntida de de B ra hma n e A tma n é de cla ra da
e m ce nte na s de te xtos sa gra dos.

A ba ndona a fa lsa noçã o de que o A tma n é e sse corpo, e sse fa nta sma . Me dita sobre a ve rda de de que
A tma n nã o é “ne m de nso ne m sutil, ne m ba ixo ne m a lto”, de que e le e xiste por si me smo, livre como o céu,
fora do a lca nce do pe nsa me nto. P urifica te u cora çã o a té che ga re s a o conhe cime nto de que “E u sou
B ra hma n”. R e a liza te u próprio A tma n, a consciê ncia pura e infinita .

A ssim como um ja rro ou um va so de a rgila na da ma is é do que a rgila , a ssim e ste unive rso, na scido de
B ra hma n, e sse ncia lme nte B ra hma n, é a pe na s B ra hma n - pois na da e xiste fora de B ra hma n, na da e xiste
a lé m disso. Isso é a re a lida de . Isso é o nosso A tman. P orta nto, “Isso é s T u”- puro, be m-a ve ntura do,
supre mo B ra hma n, o prime iro se m um se gundo.

P ode s sonha r com luga re s, te mpos, obje tos, indivíduos e a ssim por dia nte . Ma s e le s sã o irre a is. N o e sta do
de vigília e xpe rime nta s e ste mundo, ma s e ssa e xpe riê ncia brota da tua ignorâ ncia . E la é um sonho
prolonga do e , porta nto, irre a l. C omo irre a is sã o e sse corpo, e sse s órgã os, e ssa re spira çã o vita l, e ssa
consciê ncia do e go. Logo, “Isso é s T u” - o puro, o be m-a ve ntura do, o supre mo B ra hma n, o prime iro se m um
se gundo.

P or ca usa da ilusã o, pode s toma r um pe lo outro. Ma s, qua ndo conhe ce s a tua ve rda de ira na ture za , e ntã o só
e ssa na ture za e xiste , na da ma is há se nã o isso. Q ua ndo o sonho te rmina , o unive rso do sonho se
de sva ne ce . P a re ce -te a o de spe rta re s, que é s outro e nã o tu?

C a sta , cre do, fa mília e linha ge m nã o e xiste m e m B ra hma n. B ra hma n nã o te m nome ne m forma , tra nsce nde
o mé rito e o de mé rito, e stá a lé m do te mpo, do e spa ço e dos obje tos da e xpe riê ncia se nsoria l. A ssim é
B ra hma n, e “Isso é s T u”. Me dita sobre e sta ve rda de .

B ra hma n é supre mo. E stá a lé m do pode r de e xpre ssã o da pa la vra , ma s é conhe cido pe lo olho da pura
ilumina çã o. B ra hma n é pura , a bsoluta consciê ncia , a e te rna re a lida de . A ssim é B ra hma n, e “Isso é s T u”.
Me dita sobre e sta ve rda de .

B ra hma n e stá fora do a lca nce da s se is onda s - fome , se de , triste za , ilusã o, de ca dê ncia e morte - que
va rre m o oce a no do mundo. A que le que busca a uniã o com B ra hma n de ve me dita r sobre E le no sa ntuá rio
do cora çã o. E le e stá fora do a lca nce dos se ntidos. O inte le cto nã o pode compre e ndê -lo. E le e stá fora do
a lca nce do pe nsa me nto. A ssim é B ra hma n, e “Isso é s T u”. Me dita sobre e ssa ve rda de .

31
B ra hma n é a ba se sobre a qua l e ste unive rso múltiplo, a cria çã o da ignorâ ncia , pa re ce re pousa r. E le é o S e u
próprio suporte . N ã o é ne m o unive rso de nso ne m o unive rso sutil. É indivisíve l. E stá a lé m da compa ra çã o.
A ssim é B ra hma n, e "Isso é s T u". Me dita sobre e ssa ve rda de .

B ra hma n é livre de na scime nto, cre scime nto, muda nça , de clínio, doe nça e morte . É e te rno. É a ca usa da
e voluçã o do unive rso, da sua pre se rva çã o e dissoluçã o. A ssim é B ra hma n, e “Isso é s T u”. Me dita sobre
e ssa ve rda de .

B ra hma n nã o conhe ce dife re ncia çã o ne m morte . É ca lmo como uma va sta supe rfície de á gua se m onda s.
A ssim é B ra hma n, e “Isso é s T u”. Me dita sobre e ssa ve rda de .

E mbora único, e le é a ca usa do múltiplo. É a ca usa única ; fora d'E le nã o há outra . E le nã o te m ca usa fora de
S i me smo. É inde pe nde nte ta mbé m da le i da ca usa çã o e pe rma ne ce único. A ssim é B ra hma n, e “Isso é s
T u”. Me dita sobre e ssa ve rda de .

B ra hma n é imutá ve l, infinito, impe re cíve l. E stá a lé m de Ma ya e de se us e fe itos. É be m-a ve ntura nça e te rna ,
imorre doura . É puro. A ssim é B ra hma n, e "Isso é s T u”. Me dita sobre e ssa ve rda de .

B ra hma n é a R e a lida de única que a pa re ce à nossa ignorâ ncia como o unive rso múltiplo de nome s, forma s e
muda nça s. C omo o ouro de que se fa ze m nume rosos O rna me ntos, e le pe rma ne ce imutá ve l e m si me smo.
A ssim é B ra hma n, e "Isso é s T u”. Me dita sobre e ssa ve rda de .

N a da e xiste a lé m d'E le . E le é ma ior do que o ma ior. É o e u ma is re côndito, a a le gria pe re ne e m nosso se r. É


a e xistê ncia , o conhe cime nto e a be m-a ve ntura nça a bsolutos. É infinito, e te rno. A ssim é B ra hma n, e "Isso é s
T u". Me dita sobre e ssa ve rda de .

Me dita sobre e sta ve rda de , se guindo os a rgume nto das e scritura s com o a uxilio da ra zã o e do inte le cto.
A ssim fica rá s livre da dúvida e da confusã o e compre e nde rá s a ve rda de de B ra hma n. E ssa ve rda de se
torna rá tã o cla ra pa ra ti qua nto a á gua contida na pa lma da tua mã o.

Devoção

A ssim como um re i é cla ra me nte "conhe cido no me io do se u e xé rcito”, ta mbé m de ve s pe rce be r B ra hma n
como pura consciê ncia , distinto de toda s a s impe rfe içõe s. Insta la -te pa ra se mpre no A tma n. Q ue e ste
mundo ma nife sto se dissolva e m B ra hma n.

B ra hma n re side no sa ntuá rio do cora çã o - a e te rna e xistê ncia , o supre mo, o prime iro se m um se gundo, fora
dos a spe ctos de nsos e sutis de ste unive rso. O home m que ha bita e sse sa ntuá rio, unido com B ra hma n, já
nã o e stá suje ito a o re na scime nto e à morte .

A ve rda de de B ra hma n pode se r compre e ndida inte le ctua lme nte . Ma s a consciê ncia do e go é
profunda me nte a rra iga da e pode rosa porque e xiste desde se mpre . E la cria a impre ssã o de que “e u sou o
a tor, sou e u que m e xpe rime nta ”. E ssa impre ssã o produz a se rvidã o do re na scime nto e da morte . S ó se
pode re movê -la por me io do a rde nte e mpe nho e m vive r consta nte me nte e m uniã o com B ra hma n. O s sá bios
de fine m a libe rta çã o como a re moçã o de toda s e ssa s impre ssõe s e , porta nto, dos de se jos por e la ca usa dos.

É a ignorâ ncia que ca usa a impre ssã o de ide ntida de com o corpo, com os órgã os se nsoria is e com tudo o
ma is que nã o é o A tma n. S á bio é o home m que ve nce u e ssa ignorâ ncia a tra vé s da de voçã o a o A tma n.

C onhe ce o te u ve rda de iro A tma n como a te ste munha da me nte e do inte le cto e da s onda s de pe nsa me nto
que ne le s se origina m. E le va consta nte me nte uma única onda de pe nsa me nto: "E u sou B ra hma n”. D e sse
modo, te libe rta rá s da ide ntifica çã o com o nã o-A tma n.

C e ssa de se guir o ca minho do mundo, ce ssa de se guir o ca minho da ca rne , ce ssa de se guir o ca minho da
tra diçã o. Libe rta -te de ssa fa lsa ide ntifica çã o e conhe ce o ve rda de iro A tma n.

Q ua ndo um home m se gue o ca minho do mundo, o ca minho da tra diçã o e o ca minho da ca rne , o
conhe cime nto da R e a lida de a inda nã o na sce u no se u íntimo.

32
O s sá bios dize m que e sse tríplice ca minho é como unia corre nte de fe rro a ta da a os pé s do home m que
te nta fugir da prisã o de ste mundo. A que le que de la se de se mba ra ça a lca nça a libe rta çã o.

Q ua ndo se me rgulha o sâ nda lo na á gua suja , sua de liciosa fra grâ ncia pode se r sobre puja da pe lo che iro da
suje ira . Ma s, a ssim que se limpa o sâ nda lo, o ma u che iro de sa pa re ce e o a r se e nche de fra grâ ncia
ce le stia l.

A fra grâ ncia ce le stia l do A tma n é sobre puja da pe lo ma u che iro de incontá ve is de se jos pe rniciosos, que sã o
como la ma e m nosso se r.

C omo o sâ nda lo, sua fra grâ ncia e nche rá o a r qua ndo e le se limpa r pe lo consta nte a trito com o pe nsa me nto:
“E u sou B ra hma n”.

A doce fra grâ ncia do A tma n é sobre puja da por inume rá ve is de se jos da s coisa s dos se ntidos. E sse s de se jos
pode m se r de struídos pe la de voçã o a o A tma n; e ntã o a luz do A tma n se toma ma nife sta .

À me dida que se de vota a o A tma n, a me nte se libe rta gra dua lme nte do de se jo de obje tos se nsoria is.
Q ua ndo e la se libe rtou comple ta me nte de todo de se jo, a visã o do A tma n de ixa de se r obstruída .

P e la consta nte de voçã o a o A tma n, a s impure za s da me nte sã o re movida s. T odos os de se jos sã o


oblite ra dos. E mpe nha -te , pois, e m de struir e ssa ilusã o.

T a ma s é ve ncida ta nto por ra ja s como por sa ttwa ; ra ja s é ve ncida por sa ttwa ; sa ttwa é ve ncida qua ndo o
puro A tma n re spla nde ce . P orta nto, fixa -te e m sa ttwa, e mpe nha -te e m de struir e ssa ilusã o.

P e rse ve ra na tua de voçã o, sa be ndo que o corpo ce rta me nte continua rá a vive r e nqua nto tive r de fa zê -lo.
E mpe nha -te com pa ciê ncia e constâ ncia e m de struir e ssa ilusã o.

P e nsa : “E u sou B ra hma n; nã o sou a a lma individua l”, e re je ita tudo o que se ja nã o-A tma n. E mpe nha -te ,
pois, e m de struir e ssa ilusã o cria da no pa ssa do por te u de se jo dos obje tos se nsoria is.

A pre nde a ve rda de da s e scritura s, re fle te sobre e la s e conhe ce , pe la tua própria e xpe riê ncia dire ta , que o
A tma n que ha bita no te u íntimo é o A tma n e m toda s as coisa s. E mpe nha -te , pois, e m de struir e ssa ilusã o
a té se us de rra de iros ve stígios.

O home m sá bio nã o e stá a bsoluta me nte pre ocupa do e m a dquirir e ga sta r. P orta nto, e mpe nha -te e m de struir
e ssa ilusã o pe la consta nte e since ra de voçã o a B ra hma n.

Me dita sobre a ve rda de “Isso é s T u” e compre e nde a ide ntida de do A tma n com B ra hma n. E mpe nha -te e m
de struir e ssa ilusã o e fixa -te no conhe cime nto de que A tma n e B ra hma n sã o um.

C om de sve lo e conce ntra çã o de ve s e mpe nha r-te e m de struir e ssa ilusã o a té que a ide ntifica çã o do A tma n
com e sse corpo ce sse por comple to.

E mbora possa s te r a tingido um e stá gio no qua l o unive rso e sua s cria tura s pa re ça m simple s ima ge ns
onírica s, de sprovida s de re a lida de , a inda a ssim, ó home m prude nte , de ve s e mpe nha r-te consta nte me nte e m
de struir e ssa ilusã o.

N ã o de spe rdice s um só mome nto e m pre ocupa çõe s com os ne gócios de ste mundo ou com a a tra çã o dos
obje tos se nsoria is. Le mbra -te de B ra hma n me smo qua ndo e stive re s dormindo. Me dita sobre o A tma n que
ha bita no te u cora çã o.

Falsa identificação

C e ssa de ide ntifica r-te com e sse corpo físico corruptíve l, na scido da ca rne do pa i e da mã e . C onside ra-o
impuro, como se fosse um pá ria . A lca nça a me ta da vida re a liza ndo a tua uniã o corri B ra hma n.

O a r de ntro de um ja rro é uno com o a r de toda a parte . D o me smo modo, te u A tma n é uno com B ra hma n. ó
home m prude nte , de se mba ra ça -te de toda consciê ncia de se pa ra çã o e a bsorve -te no silê ncio.

33
C ompre e nde que é s uno com o a uto-ilumina do B ra hma n, funda me nto de toda e xistê ncia . R e je ita o unive rso
e o corpo físicos como re cipie nte s de suje ira .

A consciê ncia do “e u” e stá a rra iga da no corpo. F unde e ssa consciê ncia com o A tma n, que é e xistê ncia ,
conhe cime nto e be m-a ve ntura nça a bsolutos. A consciê ncia do corpo sutil constitui outra limita çã o.
D e se mba ra ça -te de la ta mbé m. P e rma ne ce unido com o A bsoluto por todo o se mpre .

A mira ge m do unive rso e stá re fle tida e m B ra hma n, qua l cida de num e spe lho. C onscie ntiza -te de que “e u sou
B ra hma n” e te rá s a lca nça do a me ta da vida .

O A tma n é a re a lida de . É o te u e u ve rda de iro, fundame nta l. É pura consciê ncia , o prime iro se m um
se gundo, a be m-a ve ntura nça a bsoluta . E stá a lé m da forma e da a çã o. C ompre e nde tua ide ntida de com e le .
C e ssa de ide ntifica r-te com os invólucros da ignorâ ncia , que sã o como má sca ra s usa da s por um a tor.

O unive rso de a pa rê ncia s é e fe tiva me nte irre a l. A consciê ncia do e go ta mbé m há de se r irre a l, já que
obse rva mos como e le ve m e va i. Ma s e sta mos igua lme nte cônscios de se r e le a te ste munha , o conhe ce dor
de toda s a s coisa s. E ssa consciê ncia nã o pe rte nce à consciê ncia do e u ne m à s de ma is pe rce pçõe s, que só
e xiste m dura nte um bre ve mome nto.

O A tma n é a te ste munha do e go e de tudo o ma is. E stá se mpre pre se nte , me smo no sono profundo. A s
e scritura s de cla ra m que o A tma n nã o conhe ce na scimento ne m morte , distinguindo-se , pois, dos invólucros
de nsos e sutis.

O A tma n de ve se r ne ce ssa ria me nte imutá ve l e e te rno, já que é o conhe ce dor de tudo o que é mutá ve l. A
nã o-e xistê ncia dos invólucros de nsos e sutis pode se r re pe tida me nte e xpe rime nta da qua ndo sonha mos ou
qua ndo me rgulha mos no sono profundo.

C e ssa , pois, de ide ntifica r-te com e ssa ma ssa de ca rne , o corpo de nso, e com o e go, o invólucro sutil.
A mbos sã o ilusórios. C onhe ce o te u A tma n - a pura , infinita consciê ncia , e te rna me nte e xiste nte no pa ssa do,
no pre se nte e no futuro. A ssim e ncontra rá s a pa z.

C e ssa de ide ntifica r-te com a ra ça , com o clã , com o nome , com a forma e com o modo de vida . T udo isso
pe rte nce a o corpo, a roupa ge m da de ca dê ncia . A ba ndona ta mbé m a idé ia de que é s o a tor da s a çõe s ou o
pe nsa dor dos pe nsa me ntos. T udo isso pe rte nce a o e go, o invólucro sutil. C ompre e nde que é s o S e r que ó
e te rna be m-a ve ntura nça .

O ego

A vida huma na de se rvidã o a o mundo do na scime nto e da morte te m muita s ca usa s. A ra iz de toda s e la s é o
e go, o primogê nito da ignorâ ncia .

E nqua nto o home m se ide ntifica r com e sse e go iníquo, nã o ha ve rá ne nhuma possibilida de de libe rta çã o.
P ois a libe rta çã o é e xa ta me nte o oposto de le .

U ma ve z libe rta do do e clipsa nte de mônio do e go, o home m re conquista sua ve rda de ira na ture za , ta l como a
lua e xibe se u e sple ndor qua ndo libe rta da da s tre va s de um e clipse . E ntã o e le se toma puro, infinito,
e te rna me nte be m-a ve ntura do e a uto-ilumina do.

Q ua ndo a me nte de um home m e stá subjuga da pe la e xtre ma ignorâ ncia , e le cria a consciê ncia do e go a o
ide ntifica r-se com os invólucros. Q ua ndo o e go é comple ta me nte de struído, a me nte se livra dos obstá culos
que impe de m o conhe cime nto da sua unida de com B ra hma n.

O e go é uma se rpe nte pode rosa e morta l, e a s guna s sã o sua s trê s ca be ça s colé rica s. E le ja z e nrodilha do
e m tomo do te souro da be m-a ve ntura nça de B ra hma n, a que m vigia pa ra se u próprio uso. O home m sá bio,
inspira do pe la s sa gra da s e scritura s, de ce pa a s trê s ca be ça s com a e spa da do conhe cime nto e de strói
comple ta me nte a se rpe nte . D e sse modo e le e ncontra o te souro da supre ma be m-a ve ntura nça .

N ã o há e spe ra nça de cura pa ra um home m e nqua nto subsistir qua lque r ve stígio de ve ne no no se u corpo.
A na loga me nte , o a spira nte e spiritua l nã o pode a lca nça r a libe rta çã o e nqua nto subsistir qua lque r ve stígio do
e go no se u se r.

34
D e strói comple ta me nte o e go. C ontrola a s nume rosa s onda s de pe rturba çã o que e le le va nta na me nte .
D isce rne a re a lida de e compre e nde que "E u sou Isso" .

T u é s pura consciê ncia , a te ste munha de toda s a s e xpe riê ncia s. T ua ve rda de ira na ture za é o júbilo. C e ssa
ne ste e xa to mome nto de ide ntifica r-te com o e go, com o a ge nte da a çã o, cria do pe la ignorâ ncia . S ua
inte ligê ncia é a pe na s a pa re nte , um re fle xo do A tma n, que é pura consciê ncia . E le lhe rouba a pa z e a a le gria
no se io do A tma n. A o ide ntifica r-te com e le , ca íste na a rma dilha do mundo - a s misé ria s do na scime nto,
de ca dê ncia e morte .

T u é s o A tma n, o S e r infinito, a pura , imutá ve l consciê ncia que pe rme ia toda s a s coisa s. T ua na ture za é a
be m-a ve ntura nça e tua glória nã o te m má cula . P or te ide ntifica re s com o e go, e stá s a corre nta do a o
na scime nto e à morte . T ua se rvidã o nã o te m outra causa .

E sse e go é te u inimigo. É como um e spinho na ga rga nta de que m e stá come ndo. D e strói e sse inimigo com
a pode rosa e spa da do conhe cime nto e sê livre pa ra usufruir a sobe ra nia de te u próprio impé rio, a be m-
a ve ntura nça do A tma n.

E xa mina toda s a s a tivida de s do e go e o e goísmo que e la s implica m. A lca nça a supre ma re a lida de e libe rta -
te da luxúria . H a bita no silê ncio e usufrui a be m-a ve ntura nça do A tma n. Libe rta -te de toda consciê ncia de
se pa ra tivida de e re a liza e m B ra hma n tua na ture za infinita .

E sse e u pode roso pode se r a rra nca do pe la s ra íze s. Ma s se a me nte o a lime nta r por um mome nto que se ja ,
e le re na sce rá e provoca rá ce m ma le fícios. E le é como uma nuve m ca rre ga da de te mpe sta de na e sta çã o
chuvosa .

C onquista e sse inimigo, o e go. N ã o lhe dê s oportunida de de ixa ndo te us pe nsa me ntos se a pe ga re m a os
obje tos se nsoria is. T a is pe nsa me ntos lhe dã o vida , ta l como a á gua dá vida a um limoe iro re sse quido.

S e te ide ntifica re s com o corpo, a luxúria brota rá e m ti. Libe rta -te da consciê ncia do corpo e fica rá s livre da
luxúria . A ssim, se e stive re s a pe ga do a e sse e go que te m ma nté m se pa ra do de B ra hma n, procura rá s o
pra ze r nos obje tos se nsoria is. E e sta é a ca usa da suje içã o a o na scime nto e à morte .

Desejos

Q ua nto ma is um home m sa tisfa z se us de se jos no mundo obje tivo, ma is e sse s de se jos a ume nta m. Ma s, se
e le os controla r e de ixa r de sa tisfa zê -los, a s se mente s do de se jo se rã o de struída s. Q ue e le a dquira , pois, o
a utocontrole .

Q ua ndo o de se jo se forta le ce , pe rde -se o a utocontrole . Q ua ndo se pe rde o a utocontrole , o de se jo toma -se
ma is forte que nunca . O home m que vive de sse modo ja ma is e sca pa rá à roda de na scime nto e morte .

O de se jo é inte nsifica do qua ndo pe rmitimos que nossos pe nsa me ntos se de more m nos obje tos se nsoria is e
busque m sa tisfa çã o te mporá ria no mundo obje tivo. P ara rompe r a ca de ia do na scime nto e da morte , o
a spira nte e spiritua l de ve re duzir a cinza s a s ca usas do de se jo.

O de se jo que é a lime nta do de ssa s dua s ma ne ira s tra rá a suje içã o à roda de na scime nto e morte . Ma s há
um me io de de struir os trê s o de se jo e sua s dua s causa s. E m qua isque r circunstâ ncia s, se mpre , e m toda
pa rte e a qua lque r re spe ito, de ve s conside ra r tudo como B ra hma n e a pe na s B ra hma n. F orta le ce tua vonta de
de conhe ce r a R e a lida de , e e sse s trê s ma le s se dissolve rã o.

C e ssa de busca r a sa tisfa çã o de te us de se jos no mundo obje tivo e de ixa rá s de compra ze r-te nos obje tos
se nsoria is. C e ssa de compra ze r-te nos obje tos se nsoria is e te u de se jo se rá de struído. Q ua ndo todos os
de se jos de sa pa re ce m, ve m a libe rta çã o. É a cha ma -da-libe rta çã o-e m-vida .

A ssim como a s e spe ssa s tre va s se dissipa m a nte o ra dioso e sple ndor do sol na sce nte , a ssim o a nse io de
vida do e go é inte ira me nte re movido qua ndo a a spira çã o a o conhe cime nto da R e a lida de se inte nsifica .

Q ua ndo o se nhor do dia a sce nde , a e scuridã o de sa pa re ce com sua re de de ma le s. D o me smo modo,
qua ndo se e xpe rime nta a be m-a ve ntura nça a bsoluta , nã o há ma is se rvidã o ne m qua lque r ve stígio de
triste za .

35
D e ixa e ste mundo obje tivo de sa pa re ce r dos te us pe nsa me ntos. D e ixa tua me nte ha bita r na R e a lida de , que é
re ple ta de a le gria . Q ue r e ste ja s conside ra ndo a s a pa rê ncia s e xte riore s ou me dita ndo no te u íntimo, a bsorve -
te re soluta me nte e m B ra hma n. A ssim de ve s pa ssa r o te u te mpo, a té que os re síduos de te us ka rma s
pa ssa dos se e xtinga m.

Recolhimento

Q ue nã o ha ja ne gligê ncia na tua de voçã o a B ra hma n. A ne gligê ncia na prá tica do re colhime nto é a morte -
a ssim fa lou o vide nte S a na tkuma r, filho de B ra hma .

P a ra o a spira nte e spiritua l, nã o há ma ior ma l do que ne glige ncia r o re colhime nto. D a í surge a ilusã o. D a
ilusã o a dvé m a consciê ncia do e go. D o e go ve m a se rvidã o e da se rvidã o a misé ria .

U m home m pode se r culto, ma s se ne glige ncia r a prá tica do re colhime nto e le se volta rá pa ra os e ngodos
dos se ntidos. A s te ndê ncia s pe rniciosa s da sua me nte o se duzirã o ta l como a pe ca dora se duz o a ma nte .

Q ua ndo se a fa sta o ca rriço na supe rfície de um la go, e le re toma ime dia ta me nte a o se u luga r. A ssim Ma ya
toma a a ce rca r-se a té me smo do home m sá bio, se e le de ixa r de pra tica r o re colhime nto.

Q ua ndo a me nte se a fa sta de B ra hma n, se u ide a l, pa ra se a pe ga r, a inda que lige ira me nte , à se nsua lida de
dos obje tos, e la continua a de sce r de vido à ne gligência do re colhime nto, como uma bola a rola r e sca da
a ba ixo.

Q ua ndo a me nte se volta pa ra os obje tos se nsoria is, e la se e nre da nos pra ze re s que de le s de riva m. A
compla cê ncia ne sse s ta is pe nsa me ntos e xcita o de se jo e o home m é impe lido a sa tisfa zê -lo.

P or isso, pa ra o home m dota do de disce rnime nto e spiritua l, pa ra o conhe ce dor de B ra hma n, nã o há morte ,
ma s ne gligê ncia do re colhime nto. O home m que e stá absorto no re colhime nto a lca nça a libe rta çã o.
P orta nto, e mpe nha -te a o má ximo e m pe rma ne ce r a bsorto no A tma n.

P e la ne gligê ncia do re colhime nto, o home m é distra ído da pe rce pçã o de sua na ture za divina . Q ue m a ssim
se de ixa distra ir de ca i - e os de ca ídos che ga m se mpre à ruína . P a ra e le s, é muito difícil o re e rguime nto.

Rejeição das aparências

R e nuncia , pois, a os obje tos se nsoria is, que sã o a ra iz de todos os ma le s. A que le que a lca nçou a libe rta çã o
ne sta vida pe rma ne ce libe rto qua ndo a ba ndona o corpo. O Ya jur-V e da de cla ra que o home m e stá suje ito a o
me do e nqua nto continua r a ve r a mínima dife re nça e ntre e le próprio e B ra hma n.

E nqua nto o home m - me smo se possuir o disce rnime nto - e sta be le ce r a me nor distinçã o e ntre e le e o
Infinito B ra hma n, o me do surgirá ne le . E ssa distinçã o só é vista por ca usa da ignorâ ncia .

A ra zã o, a tra diçã o sa gra da e ce nte na s de te xtos da s e scritura s de cla ra m que o unive rso obje tivo nã o te m
e xistê ncia re a l. A que le que se ide ntifica com e le de pa ra com hoste s a pós hoste s de sofrime ntos.

A que le que se de vota à conte mpla çã o da R e a lida de torna -se livre e a lca nça a glória e te rna do A tma n. Mas
a que le cuja me nte se compra z no irre a l se pe rde rá .

O a spira nte e spiritua l de ve pe rse guir o irre a l que ca usa a se rvidã o. D e ve pe rma ne ce r firme na visã o do
A tma n. le mbra ndo-se de que “e sse A tma n sou e u”. A de voçã o consta nte a B ra hma n e a me dita çã o sobre a
nossa ide ntida de com B ra hma n nos tra rá a le gria e a bolirá a e xpe riê ncia ime dia ta do sofrime nto ca usa do
pe la ignorâ ncia .

A busca dos obje tos se nsoria is re sulta no a ume nto de nossa s te ndê ncia s pe rniciosa s, que se a gra va m ca da
ve z ma is. D e ve mos e sta r cônscios disso por me io do disce rnime nto e spiritua l e a fa sta r o pe nsa me nto dos
obje tos se nsoria is. D e dica -te consta nte me nte à me dita çã o sobre o A tma n.

36
R e cusa a compra ze r-te nos obje tos se nsoria is e a pa z surgirá no te u cora çã o. Q ua ndo o cora çã o e stá e m
pa z, a visã o do A tma n se fa z pre se nte . Q ua ndo o A tma n for pe rce bido dire ta me nte , nossa se rvidã o a e ste
mundo é a niquila da . P orta nto, a re cusa a compra ze r-se nos obje tos se nsoria is é o ca minho da libe rta çã o.

S e o home m for instruído, ca pa z de disce rnir e ntre o re a l e o irre a l, convicto da a utorida de da s e scritura s,
possuído pe la visã o do A tma n e de se joso de libe rta çã o, como pode rá a pe ga r-se como uma cria nça a o que é
irre a l e susce tíve l de provoca r a sua que da ?

N ã o pode ha ve r libe rta çã o pa ra a que le que e stá a pe ga do a o corpo e a os se us pra ze re s. O home m que se
libe rtou e stá livre do a pe go a o corpo e a os se us pra ze re s. O home m a dorme cido nã o e stá de spe rto, e o
home m de spe rto nã o e stá a dorme cido. E sse s dois e stados de consciê ncia sã o opostos um a o outro por
sua s própria s na ture za s.

O home m que conhe ce o A tma n e o vê inte rior e e xte riorme nte como a ba se de toda s a s coisa s a nima da s e
ina nima da s a lca nçou de fa to a libe rta çã o. E le re je ita toda s a s a pa rê ncia s como irre a is e se a bsorve na visã o
do A tma n, que é o S e r A bsoluto, Infinito.

V e r no A tma n, que é único, o princípio de toda s a s a pa rê ncia s, é o ca minho que le va à libe rta çã o de toda
se rvidã o. N ã o há conhe cime nto ma is e le va do do que o de sa be r que o A tma n é único e e stá e m toda pa rte .
O home m compre e nde que o A tma n e stá e m toda pa rte e e m toda s a s coisa s qua ndo re je ita a s a pa rê ncia s
e se de vota consta nte me nte a o A tma n, o S e r E te rno.

Ma s como pode o home m re je ita r a s a pa rê ncia s se vive ide ntifica do com o corpo, se sua me nte e stá
a pe ga da a os obje tos se nsoria is e se e le pe rse gue a sa tisfa çã o de se us de se jos? T a l re je içã o só pode se r
concre tiza da me dia nte um e sforço te na z. P ra tica o disce rnime nto e spiritua l e de vota -te a pa ixona da me nte a o
A tma n. R e nuncia à s re compe nsa s e goísta s que se obté m pe la prá tica de a çõe s e de ve re s. A ba ndona a
busca do pra ze r nos obje tos se nsoria is. D e se ja unica me nte a posse da e te rna be a titude .

D ize m a s e scritura s: "Q ua ndo o home m que ouviu a ve rda de de B ra hma n dos lá bios do se u me stre se torna
ca lmo, a utocontrola do, sa tisfe ito, pa cie nte e profunda me nte a bsorto na conte mpla çã o, e le re a liza o A tma n
no se u próprio cora çã o e vê o A tma n e m toda s a s coisa s”.

P a ra e sse a spira nte e spiritua l a pa ssa ge m a cima pre scre ve a profunda conte mpla çã o do A tma n a fim de
que o A tma n, que e stá e m toda s a s coisa s, possa se r compre e ndido.

A corda e a cobra

É impossíve l, me smo pa ra o sá bio, de sunir o e go de um só golpe - e le e stá por de ma is a rra iga do na


na ture za huma na e pe rdura com se us nume rosos de se jos, a tra vé s de incontá ve is na scime ntos. O e go só é
comple ta me nte a bolido na que le s que se toma ra m ilumina dos gra ça s à re a liza çã o de sua ma is e le va da
consciê ncia tra nsce nde nta l.

Q ua ndo a me nte de um home m é obnubila da pe la ignorância , o pode r de proje çã o, cuja na ture za é a


inquie ta çã o, le va -o a ide ntifica r-se com o e go. O e go o se duz e o pe rturba com os de se jos que sã o se us
a tributos.

É difícil ve nce r o pode r de proje çã o e nqua nto o pode r obnubila nte da ignorâ ncia nã o for comple ta me nte
de struído. Q ua ndo um home m é ca pa z de distinguir tão cla ra me nte e ntre o A tma n e a s a pa rê ncia s e xte rna s
qua nto e ntre o le ite e a á gua , e ntã o o vé u da ignorâ ncia que re cobre o A tma n de sa pa re ce rá na tura lme nte.
Q ua ndo a me nte já nã o é distra ída pe la mira ge m dos obje tos se nsoria is, todo obstá culo à compre e nsã o do
A tma n foi e fe tiva me nte re movido.

Q ua ndo um home m se toma ilumina do pe lo conhe cime nto, surge e m se u íntimo o pe rfe ito disce rnime nto
que distingue cla ra me nte o ve rda de iro S e r, o A tma n, da s a pa rê ncia s e xte riore s. D e sse modo, e le se liberta
dos grilhõe s da ilusã o cria da por Ma ya e de ixa de esta r suje ito à morte e a o re na scime nto no mundo da
muta çã o.

O conhe cime nto de que nós somos B ra hma n é como um incê ndio que consome tota lme nte a de nsa flore sta
da ignorâ ncia . Q ua ndo o home m compre e nde u sua unidade com B ra hma n, como pode a lime nta r qua lque r
se me nte de na scime nto e re na scime nto?

37
Q ua ndo ocorre a visã o da R e a lida de , o vé u da ignorância é re movido por comple to. E nqua nto pe rce be rmos
a s coisa s fa lsa me nte , nossa fa lsa pe rce pçã o nos distra irá e nos fa rá mise rá ve is. Q ua ndo nossa fa lsa
pe rce pçã o é corrigida , a misé ria che ga a o fim.

P or e xe mplo, ve mos uma corda e pe nsa mos que e la é uma cobra . A ssim que pe rce be mos que a corda é
uma corda , nossa fa lsa pe rce pçã o de uma cobra ce ssa e já nã o somos pe rturba dos pe lo me do que e la
inspira . P or isso, o home m sá bio que de se ja libe rta r-se de sua se rvidã o de ve conhe ce r a R e a lida de .

A ssim como o fe rro produz fa gulha s qua ndo e stá e m conta to com o fogo, ta mbé m a me nte pa re ce a gir e
pe rce be r por ca usa de se u conta to com B ra hma n, que é a própria consciê ncia . E sse s pode re s de a çã o e
pe rce pçã o, que pa re ce m pe rte nce r à me nte , sã o irre ais. S ã o tã o fa lsos como a s coisa s vista s na a lucina çã o,
na ima gina çã o e no sonho.

A s modifica çõe s de Ma ya - que vã o da consciê ncia do e go a té o corpo e os obje tos se nsoria is - sã o todas
irre a is. S ã o irre a is porque muda m de mome nto e m mome nto. O A tma n nunca muda .

O A tma n é a consciê ncia supre ma , e te rna , indivisível e pura , o prime iro se m um se gundo. É a te ste munha
da me nte , do inte le cto e da s outra s fa culda de s. É distinto do corpo de nso e do corpo sutil. É o E u re a l, o S e r
inte rior, a a le gria supre ma e e te rna .

A ssim o home m sá bio disce rne e ntre o re a l e o irre a l. S ua visã o libe ra da pe rce be o R e a l. S a be ndo que se u
próprio A tma n é a consciê ncia pura e indivisíve l, ele se libe rta da ignorâ ncia , da misé ria , do pode r da
distra çã o, e me rgulha dire ta me nte na pa z.

Q ua ndo a visã o do A tma n, o prime iro se m um se gundo, é a lca nça da a tra vé s do nirvika lpa sa ma dhi, os la ços
da ignorâ ncia do cora çã o sã o comple ta me nte e pa ra se mpre de sa ta dos.

"T u”, “e u", "isto" - e ssa s idé ia s de se pa ra tivida de tê m orige m na impure za da me nte . Ma s qua ndo a visã o do
A tma n - o supre mo, o a bsoluto, o um se m um se gundo - re spla nde ce no sa ma dhi, toda a consciê ncia de
se pa ra tivida de se de sva ne ce , porque a R e a lida de foi firme me nte a pre e ndida .

Samadhi

O a spira nte e spiritua l dota do de tra nqüilida de , a utocontrole , e quilíbrio me nta l e pa ciê ncia de vota -se à prá tica
da conte mpla çã o e me dita sobre o A tma n que ha bita no se u se r como o A tma n que ha bita e m todos os
se re s. D e sse modo, e le a niquila comple ta me nte a consciê ncia de se pa ra çã o, que brota da s tre va s da
ignorâ ncia , e se re gozija na ide ntifica çã o com B ra hma n, livre dos pe nsa me ntos pe rturba dore s e da s
ocupa çõe s e goísta s.

A que le s que re pe te m os e nsina me ntos a lhe ios nã o e stã o livre s do mundo. Ma s a que le s que a tingira m o
sa ma dhi fundindo o unive rso e xte rior, os órgã os se nsoria is, a me nte e o e go na pura consciê ncia do A tma n -
só e le s e stã o livre s do mundo, com se us grilhõe s e a rma dilha s.

O A tma n único a pa re ce como múltiplo de vido à va rie da de de se us invólucros e xte riore s. Q ua ndo e sse s
invólucros irre a is se dissolve m, só o A tma n e xiste . Q ue o home m sá bio, pois, se de vote à re a liza çã o do
nirvika lpa sa ma dhi pa ra que os invólucros possa m dissipa r-se de sua consciê ncia .

Q ua ndo o home m a ma a B ra hma n com uma de voçã o e xclusiva e consta nte , e le se torna B ra hma n. P or
pe nsa r unica me nte na ve spa , a ba ra ta se tra nsforma e m ve spa .

A ssim como a ba ra ta se tra nsforma e m ve spa porque re nuncia a qua lque r outra a tivida de e nã o pe nsa
se nã o ne sse inse to, a ssim o a spira nte e spiritua l que me dita na re a lida de do A tma n conve rte -se no A tma n
gra ça s à sua consta nte de voçã o.

A ve rda de ira na ture za do A tma n é e xtre ma me nte sutil. E la nã o pode se r pe rce bida pe la me nte de nsa . D e ve
se r conhe cida no e sta do de sa ma dhi, que só pode se r a lca nça do pe la s a lma s nobre s cuja s me nte s se
purifica ra m e que possue m um e xtra ordiná rio pode r de disce rnime nto e spiritua l.

38
A ssim como o ouro que foi purifica do no fogo é e xpurga do de sua s impure za s e re sta ura do e m sua própria
na ture za , a ssim a me nte , pe la me dita çã o, e xpurga a si me sma da s impure za s de sa ttwa , ra ja s e ta ma s e
compre e nde B ra hma n.

Q ua ndo a me nte , a ssim purifica da por me io de ince ssa nte me dita çã o, se funde com B ra hma n, o e sta do de
sa ma dhi é a tingido. N e sse e sta do nã o e xiste consciê ncia de dua lida de . A a le gria pe re ne de B ra hma n é
e ntã o e xpe rime nta da .

Q ua ndo um home m a tinge o sa ma dhi, todos os la ços dos de se jos sã o de sfe itos e e le se libe rta da le i do
ka rma . B ra hma n lhe é re ve la do, inte rior e e xte riorm e nte , se mpre e e m toda pa rte , se m e sforço ulte rior de
sua pa rte .

É ce m ve ze s me lhor re fle tir sobre a ve rda de de B ra hma n do que me ra me nte informa r-se sobre e la na s
e scritura s. E a me dita çã o é ce m ve ze s me lhor do que a re fle xã o. Ma s o nirvika lpa sa ma dhi é infinita me nte
supe rior a tudo isso.

N o nirvika lpa sa ma dhi - e e m ne nhum outro e sta do - a ve rda de ira na ture za de B ra hma n é cla ra e
de finitiva me nte re ve la da . E m qua lque r outro e sta do, a me nte pe rma ne ce instá ve l, che ia de pe nsa me ntos
pe rturba dore s.

P orta nto, pe rma ne ce consta nte me nte a bsorto na consciê ncia do A tma n que ha bita e m te u íntimo. C ontrola
te us se ntidos e de ixa tua me nte tra nqüila . C onquista a cla ra visã o de tua unida de com B ra hma n, de struindo
a ssim a ignorâ ncia cria da por Ma ya de sde um te mpo se m princípio.

Controle interior e exterior

E ste s sã o os prime iros pa ssos no ca minho da uniã o com B ra hma n - controle da lingua ge m, re cusa a a ce itar
dons de sne ce ssá rios, a ba ndono da s a mbiçõe s e de se jos munda nos, contínua de voçã o a B ra hma n.

S ê de vota do a B ra hma n, e se rá s ca pa z de controla r os te us se ntidos. C ontrola os te us se ntidos, e obte rá s o


domínio sobre a tua me nte . D omina a tua me nte , e a consciê ncia do e go se rá dissolvida . D e sse modo, o
iogue : a lca nça uma ininte rrupta re a liza çã o da a le gria de B ra hma n. Q ue a que le que busca se e mpe nhe , pois,
e m e ntre ga r se u cora çã o a B ra hma n.

C ontrola a lingua ge m pe lo e sforço me nta l; controla a me nte pe la fa culda de do disce rnime nto; controla essa
fa culda de pe la vonta de individua l; me rgulha a individua lida de no A tma n a bsoluto e infinito e a lca nça a
supre ma pa z.

O corpo, a e ne rgia vita l, os órgã os se nsoria is, a me nte , o inte le cto e o e go sã o os invólucros de B ra hma n.
Q ua ndo o home m se ide ntifica com qua lque r um de sse s invólucros, e le a ssume sua na ture za e a spe cto.

Q ua ndo e ssa ide ntifica çã o ce ssa , o home m me dita tivo se de spre nde de sse s invólucros e e xpe rime nta
pe rpe tua me nte a ple nitude da e te rna a le gria .

D e spre nde r-se comple ta me nte de todos e sse s invólucros é possuir ta nto a re núncia e xte rior como a inte rior.
E ssa re núncia só pode se r pra tica da pe lo home m dota do de impa ssibilida de . O home m impa ssíve l que
a spira à libe rta çã o pode pra tica r ta nto a re núncia inte rior qua nto a e xte rior.

O a pe go e xte rior é o a pe go a os obje tos se nsoria is. O a pe go inte rior é a a uto-ide ntifica çã o com o e go e com
a s modifica çõe s da me nte . S Ó o home m de sa pa ixona do, a rde nte me nte de vota do a B ra hma n, é ca pa z de
re nuncia r a a mbos.

C onhe ce , ó sá bio, que o home m ne ce ssita de impa ssibilida de : e de disce rnime nto ta l como o pá ssa ro
ne ce ssita de dua s a sa s. S e m e le s, o home m nã o pode a tingir o topo da vinha de onde flui o né cta r da
libe rta çã o. Ja ma is pode rá che ga r a e le por qua isque r outros me ios.

S ó o home m dota do de inte nsa impa ssibilida de pode alca nça r o sa ma dhi. A que le que a lca nçou o sa ma dhi
vive num e sta do de consta nte ilumina çã o. O cora çã o ilumina do é libe rta do da se rvidã o. S ó o home m
libe rta do e xpe rime nta e te rna a le gria .

39
P a ra o home m dota do de a utodomínio, a impa ssibilida de é a única fonte de fe licida de . S e e sta e stive r
combina da com o de spe rta r do puro conhe cime nto do A tma n, o home m torna -se inde pe nde nte de tudo o
ma is. E sta é a porta pa ra a posse da se mpre jove m donze la cha ma da libe rta çã o. S e busca s, pois, o be m
supre mo, pra tica a impa ssibilida de inte rior e e xte rior e conse rva uma consta nte pe rce pçã o do e te rno A tma n.

E vita o de se jo se nsua l como um ve ne no, porque e le é morte . A ba ndona o orgulho de ca sta , fa mília e
posiçã o socia l e a bsté m-te da s a çõe s dita da s pe lo auto-inte re sse . A ba ndona a ilusã o de que é s o corpo ou
qua lque r um dos invólucros - todos e le s sã o irre a is. Ma nté m tua me nte a bsorta no A tma n. E m ve rda de , tu é s
B ra hma n, a te ste munha nã o a grilhoa da pe la me nte , o um se m um se gundo, o supre mo.

F ixa a me nte e m B ra hma n, a tua me ta . N ã o de ixe s que os órgã os dos se ntidos funcione m e xte rna me nte ;
obriga -os a pe rma ne ce re m e m se us re spe ctivos ce ntros. C onse rva o corpo e re to e firme . N ã o te sirva s de
ne nhum pe nsa me nto pa ra a sua ma nute nçã o. D e vota -te comple ta me nte a B ra hma n e compre e nde que tu e
B ra hma n sã o um. B e be ince ssa nte me nte a a le gria de Bra hma n. A s fonte s de ssa a le gria nunca se ca m. D e
que va le m a s coisa s de ste mundo? T oda s e la s sã o de sprovida s de fe licida de .

N ã o pe rmita s que tua me nte se compra za e m qua lque r pe nsa me nto que nã o se ja o A tma n. Isso é um ma l,
uma ca usa de misé ria . Me dita sobre o A tma n, cuja nature za é a be m-a ve ntura nça . E ste é o ca minho da
libe rta çã o.

O a uto-ilumina do A tma n, a te ste munha de toda s a s coisa s, e stá se mpre pre se nte e m te u próprio cora çã o.
E sse A tma n pe rma ne ce se pa ra do de tudo o que é irre a l. C onhe ce -o como se ndo tu me smo e me dita sobre
e le ince ssa nte me nte .

Ma nté m-te e m comunhã o ininte rrupta com o A tma n, livre de todos os pe nsa me ntos pe rturba dore s. D e sse
modo a lca nça rá s a convicçã o de que o A tma n é tua ve rda de ira na ture za .

A ga rra -te à ve rda de de que é s o A tma n. R e nuncia a ide ntifica r-te com o e go ou com qua lque r dos
invólucros. P e rma ne ce comple ta me nte a lhe io a e le s, como se fosse m ja rros de a rgila que bra dos.

F ixa a me nte purifica da no A tma n, a te ste munha , a pura consciê ncia . E mpe nha -te gra dua lme nte e m
a ca lma r tua me nte . E ntã o obte rá s a visã o do infinito A tma n.

O um

Me dita sobre o A tma n como indivisíve l, infinito, como um é te r que a tudo impre gna . C ompre e nde que e le é
se pa ra do do corpo, dos se ntidos, da e ne rgia vita l, da me nte e do e go, limita çõe s imposta s pe la nossa
ignorâ ncia .

O é te r - e mbora e ncha ce nte na s de re cipie nte s, como ja rros e pote s de grã os e a rroz, e pa re ça va ria do e
divisíve l - é na ve rda de um, e nã o muitos. D o me smo modo o puro A tma n, qua ndo libe rta do da s limita çõe s
do e go e da me nte , é um e a pe na s um.
3
T oda s a s coisa s - de B ra hma , o cria dor, a uma simple s folha de e rva - sã o a s forma s e os nome s
a pa re nte me nte dive rsos do A tma n único. S ã o simple s a pa rê ncia s, e nã o o re a l. Me dita , pois, sobre o A tma n
como único e infinito.

O A tma n é o princípio e a re a lida de . E sta a pa rê ncia de um unive rso só é vista a tra vé s da ilusã o dos nossos
olhos. Q ua ndo surge o ve rda de iro conhe cime nto, o A tma n é re ve la do como a própria e xistê ncia , e o
unive rso a pa re nte nã o pode se r visto se pa ra do de le . P ode s confundir uma corda com uma cobra se
e stive re s iludido. Ma s, qua ndo a ilusã o ce ssa , compre e nde s que a suposta cobra nã o pa ssa va de urna
corda . A ssim ta mbé m e ste unive rso nã o é outra coisa se nã o o A tma n.
4
E u, o A tma n, sou B ra hma . S ou V ishnu. S ou S hiva . E u sou o unive rso. N a da e xiste , poré m e u sou.

3
B ra hma , um dos me mbros da trinda de hindu, o cria dor, distinto de B ra hma n, D e us e m se u a spe cto impe ssoa l, a bsoluto.

40
E stou no inte rior; e stou no e xte rior. E stou na fre nte e a trá s. E stou no sul e e stou no norte . E stou e m cima e
e stou e mba ixo.

A onda , a e spuma , o re de moinho e a bolha sã o e sse ncia lme nte á gua . A na loga me nte , o corpo e o e go na da
ma is sã o, na ve rda de , do que pura consciê ncia . T oda s a s coisa s sã o e sse ncia lme nte consciê ncia , pure za e
a le gria .

T odo e sse unive rso a re spe ito do qua l fa la mos e pe nsa mos na da ma is é do que B ra hma n. B ra hma n e stá
fora do a lca nce de Ma ya . N a da ma is e xiste . O s ja rros, os pote s e outra s va silha s dife re m da a rgila de que
sã o fe itos? O home m be be o vinho de Ma ya , fica iludido e come ça a ve r a s coisa s como se pa ra da s uma s
da s outra s, e por isso fa la de “tu” e “e u”.

D ize m a s e scritura s: “O Infinito e xiste onde nã o se vê na da ma is, nã o se ouve na da ma is, nã o se sa be na da


ma is”. N o Infinito, dize m-nos a s e scritura s, nã o e xiste dua lida de - corrigindo a ssim a nossa fa lsa idé ia de
que a e xistê ncia é múltipla .

E u sou B ra hma n, o supre mo, a que le que a tudo impre gna , como o é te r - ima cula do, indivisíve l, ilimita do,
imóve l, imutá ve l. N ã o te nho inte rior ne m e xte rior. S Ó e u sou. S ou o prime iro se m um se gundo. Q ue ma is
e xiste pa ra se r conhe cido?

Q ue ma is há pa ra se r dito? N ã o sou outro se nã o B ra hma n. B ra hma n é e ste unive rso e toda s a s coisa s que
ne le e xiste m. A s e scritura s de cla ra m que na da e xiste fora de B ra hma n. O s home ns ilumina dos pe lo
conhe cime nto de que “E u sou B ra hma n” re nuncia m a o se u a pe go a e ste unive rso a pa re nte . É e fe tiva me nte
ce rto que e sse s ilumina dos vive m e m consta nte uniã o com B ra hma n, a consciê ncia pura , be m-a ve ntura da .

Libertação

R e nuncia a toda s a s e spe ra nça s te rre na s e a todos os pra ze re s físicos, ce ssa ndo de ide ntifica r-te com o
corpo de nso. E m se guida , de ve s ce ssa r de ide ntifica r-te com o corpo sutil. C ompre e nde que é s B ra hma n,
cuja forma é e te rna be m-a ve ntura nça , cuja s glória s sã o de cla ra da s na s e scritura s. D e sse modo, pode rá s
vive r e m uniã o com B ra hma n.

E nqua nto a ma r e sse corpo morta l, o home m pe rma ne ce rá impuro, se rá a me a ça do de toda s a s ma ne ira s
pe los se us inimigos, continua rá suje ito a o re na scime nto, à doe nça e à morte . Ma s se me dita r sobre o A tma n
como a consciê ncia pura e imutá ve l, como a e ssê ncia do be m, e le se libe rta rá de todos os ma le s. E sta
ve rda de ta mbé m é confirma da pe la s e scritura s.

C e ssa de ide ntifica r-te , e rrone a me nte , com todos a que le s invólucros, como o e go, e tc., que re cobre m o
A tma n. S ó B ra hma n pe rma ne ce - supre mo, infinito, imutá ve l, o um se m um se gundo.

O mundo fantasma

Q ua ndo a me nte e stá comple ta me nte a bsorta no S e r supre mo - o A tma n, o B ra hma n, o A bsoluto -, o mundo
da s a pa rê ncia s se de sva ne ce . S ua e xistê ncia nã o pa ssa de um mundo va zio.

O mundo da s a pa rê ncia s é um me ro fa nta sma ; nã o há se nã o uma R e a lida de . E la é imutá ve l, se m forma e


a bsoluta . C omo pode ria se r dividida ?

N ã o há ne m obse rva dor, ne m obse rva çã o, ne m coisa obse rva da . N ã o há se nã o uma R e a lida de - imutá ve l,
se m forma e a bsoluta . C omo pode ria se r dividida ?

N ã o há se nã o uma R e a lida de - como um va sto oce a no no qua l toda s a s a pa rê ncia s se dissolve m. E la é


imutá ve l, se m forma e a bsoluta . C omo pode ria se r dividida ?

4
A trinda de hindu: B ra hma , o cria dor; V ishnu, o prese rva dor; S hiva , o de struidor.

41
N e la , a s ca usa s da nossa ilusã o se de sva ne ce m, ta l como a s tre va s se de sva ne ce m na luz. E la é supre ma ,
a bsoluta , o prime iro se m um se gundo. C omo pode ria se r dividida ?

N ã o há se nã o uma R e a lida de supre ma . E la é a própria na ture za da unida de . N ã o pode se r dividida e m


muitos. S e a multiplicida de é re a l, e nã o a pe na s a pa re nte , por que ja ma is a e xpe rime nta mos no sono se m
sonhos?

O unive rso de ixa de e xistir de pois que de spe rta mos pa ra a supre ma consciê ncia no e te rno A tma n, que é
B ra hma n, de sprovido de qua lque r distinçã o ou divisã o. E m é poca a lguma - se ja no pa ssa do, no pre se nte ou
no futuro - e xiste re a lme nte uma cobra de ntro de uma corda ou uma gota de á gua na mira ge m.

A s e scritura s de cla ra m que e ste unive rso re la tivo nã o pa ssa de uma a pa rê ncia . O A bsoluto é nã o-dua l.
T a mbé m no sono se m sonhos o unive rso de sa pa re ce .

É a nossa ilusã o que sobre põe o unive rso a B ra hma n. Ma s o sá bio sa be que e ste unive rso nã o te m
ne nhuma re a lida de se pa ra da . E le é idê ntico a B ra hman, se u princípio. A corda pode da r a impre ssã o de se r
uma cobra , ma s a ide ntida de a pa re nte e ntre a corda e a cobra só dura e nqua nto pe rsistir a ilusã o.

E ssa ilusã o de ide ntida de te m sua orige m na me nte de nsa . Q ua ndo a me nte é tra nsce ndida , e la de ixa de
e xistir. Q ue tua me nte , pois, se a bsorva na conte mpla çã o do A tma n, a re a lida de , tua e ssê ncia íntima .

União com Brahman

Q ua ndo a me nte a lca nça a pe rfe ita uniã o com B ra hma n, o home m sá bio compre e nde B ra hma n inte ira me nte
no se u cora çã o. B ra hma n e stá a lé m de qua lque r pa la vra ou pe nsa me nto. É a consciê ncia pura , e te rna . É a
supre ma be m-a ve ntura nça . É incompa rá ve l e ime nsurá ve l. E pe rpe tua me nte livre , e stá a lé m de toda a çã o, é
ilimita do como o cé u, indivisíve l e a bsoluto.

Q ua ndo a me nte a lca nça a pe rfe ita uniã o com B ra hma n, o home m sá bio compre e nde B ra hma n inte ira me nte
no se u cora çã o. B ra hma n e stá a lé m da ca usa e do e feito. É a re a lida de que se e ncontra a lé m de todo
pe nsa me nto. É e te rna me nte o me smo, incompa rá ve l, fora do a lca nce de qua lque r conce pçã o me nta l. E le é
re ve la do pe la s sa gra da s e scritura s e ma nife sta -se consta nte me nte e m nós a tra vé s da nossa consciê ncia
e góica .

Q ua ndo a me nte a lca nça a pe rfe ita uniã o com B ra hma n, o home m sá bio compre e nde B ra hma n inte ira me nte
no se u cora çã o. B ra hma n nã o conhe ce de clínio ne m morte . E le é a R e a lida de se m come ço e se m fim. É
como um va sto le nçol de á gua , se re no e se m ma rge ns. E stá a lé m do jogo da s guna s. É o único, o e te rno,
pe rpe tua me nte tra nqüilo.

A bsorve -te na uniã o com te u ve rda de iro S e r e conte mpla o A tma n de infinita glória . Libe rta -te da se rvidã o e
do che iro na use a bundo da munda nida de . E mpe nha -te com te na cida de e a lca nça a libe rta çã o. D e sse modo
nã o te rá s na scido e m vã o ne ste mundo.

Me dita sobre o A tma n, te u ve rda de iro S e r, livre de todos os invólucros e limita çõe s e que é a e xistê ncia , o
conhe cime nto e a be m-a ve ntura nça infinitos, o um se m um se gundo. A ssim te libe rta rá s da roda de
na scime nto e morte .

Desprendimento

O s e fe itos da s a çõe s pa ssa da s fa ze m com que o vide nte ilumina do continue a vive r no corpo - ma s pa ra e le
o corpo é me ra a pa rê ncia , como a sombra de um home m. E , qua ndo a ba ndona r o corpo tra nsforma do e m
ca dá ve r, nunca ma is torna rá a na sce r e m outro corpo.

R e a liza o A tma n, a consciê ncia e a be m-a ve ntura nça pura s e e te rna s. D e spre nde -te comple ta me nte de sse
invólucro, o corpo, que é pre guiçoso e imundo. F e ito isto, nunca volte s a pe nsa r ne le . Le mbra -te de que o
te u próprio vômito é simple sme nte re pugna nte .

42
O home m ve rda de ira me nte sá bio consome a sua ignorâ ncia , com todos os se us e fe itos, no fogo de
B ra hma n - o A bsoluto, o E te rno, o E u re a l. E ntã o e le pe rma ne ce a bsorto no conhe cime nto do A tma n, a
consciê ncia e a be m-a ve ntura nça pura s e e te rna s.

A va ca é indife re nte à grina lda coloca da e m torno de se u pe scoço. O conhe ce dor de B ra hma n é indife re nte
a o de stino de ste corpo, que continua a vive r pe lo efe ito de sua s a çõe s pa ssa da s. S ua me nte e stá a bsorta no
be m-a ve ntura do B ra hma n.

O conhe ce dor de B ra hma n re a lizou se u ve rda de iro S e r, o A tma n, que é a le gria infinita . Q ue motivo ou
de se jo pode e le te r pa ra a pe ga r-se a e sse corpo e alime ntá -lo?

E xpe rime nta r, e m se u próprio cora çã o e no mundo e xte rior, a be m-a ve ntura nça infinita do A tma n - ta l é a
re compe nsa obtida pe lo iogue que a tingiu a pe rfe ição e a libe rta çã o ne sta vida .

Impassibilidade

O fruto da impa ssibilida de é a ilumina çã o; o fruto da ilumina çã o é o a pa zigua me nto do de se jo; o fruto do
de se jo a pa zigua do é a e xpe riê ncia da be m-a ve ntura nça do A tma n, da qua l prové m a pa z.

O s prime iros pa ssos sã o inúte is qua ndo nã o se trilha o ca minho a té o fim. A impa ssibilida de , a supre ma
sa tisfa çã o e a incompa rá ve l be m-a ve ntura nça de ve m suce de r-se na tura lme nte , uma à outra .

S a be -se que o fruto da ilumina çã o é a ce ssa çã o do sofrime nto. U m home m pode come te r muita s má s a çõe s
por ca usa de sua ignorâ ncia . Ma s como pode continuar a fa ze r o ma l qua ndo o disce rnime nto foi de spe rtado
e m se u se r?

A ilumina çã o le va o home m a a fa sta r-se do ma l e do irre a l; o a pe go a e le s re sulta da ignorâ ncia . C ompa ra o


home m que sa be o que é uma mira ge m com o home m que lhe ignora a na ture za . O prime iro se a fa sta de la ;
o se gundo corre pa ra e la a fim de sa cia r a sua se de. O home m que a lca nçou a compre e nsã o já nã o é
a tra ído pe lo mundo da s a pa rê ncia s - e sta é a sua e vide nte re compe nsa .

Q ua ndo se de sfa z o nó da ignorâ ncia do cora çã o, o home m se libe rta de todo de se jo de obje tos ma te ria is.
Q ua ndo isso ocorre , ha ve rá ne ste mundo a lguma coisa ca pa z de le vá -lo a se ntir qua lque r a pe go?

Q ua ndo os obje tos de pra ze r de ixa m de e xcita r o de se jo, a lca nça -se a pe rfe ita re núncia . Q ua ndo a
consciê ncia do e go de ixa de e xistir, a lca nça -se o pe rfe ito conhe cime nto. Q ua ndo a me nte e stá a bsorta em
B ra hma n e de ixa de se r pe rturba da por qua lque r outro pe nsa me nto, a lca nça -se o a uto-re colhime nto.

O home m que pe rma ne ce continua me nte a bsorto na consciê ncia de B ra hma n e stá livre da tira nia do mundo
obje tivo. O s pra ze re s que os outros a cha m tã o irre sistíve is lhe pa re ce m tã o insignifica nte s qua nto o
pa re ce ria m a um be bê ou a um home m profunda me nte a dorme cido. Q ua ndo, por a lguns mome ntos, e sse
mundo se a pre se nta à sua consciê ncia , e le o vê como um mundo de sonhos. E le goza os frutos do mé rito
infinito. T a l home m é ve rda de ira me nte be m-a ve ntura do e e stima do na T e rra .

D iz-se que o home m dota do de a utodomínio é ilumina do qua ndo goza de e te rna be m-a ve ntura nça . E le e stá
inte ira me nte a bsorto e m B ra hma n, sa be que e le próprio é a R e a lida de imutá ve l, que e stá a lé m da a çã o.

Iluminação

O e sta do de ilumina çã o é de scrito como se gue . H á uma consciê ncia ininte rrupta da unida de de A tma n e
B ra hma n. N ã o e xiste ma is ne nhuma ide ntifica çã o do A tma n com se us invólucros. T oda consciê ncia de
dua lida de é oblite ra da . H á consciê ncia pura , unifica da . O home m que se e ncontra firme me nte insta la do
ne ssa consciê ncia é dito ilumina do.

D iz-se que um home m e stá livre já ne sta vida qua ndo se insta lou na ilumina çã o. S ua be m-a ve ntura nça nã o
te m fim. P a ra e le , e ste mundo de a pa rê ncia s foi qua se e sque cido.

43
E mbora sua me nte e ste ja dissolvida e m B ra hma n, e le e stá ple na me nte de spe rto, livre da ignorâ ncia da vida
no e sta do de vigília . E stá ple na me nte cônscio, ma s livre de qua lque r de se jo. T a l home m é conside ra do livre
me smo ne sta vida .

P a ra e le , a s triste za s de ste mundo te rmina ra m. E mbora possua um corpo F inito, e le pe rma ne ce unido com
o Infinito. S e u cora çã o nã o conhe ce a a nsie da de . E sse home m é conside ra do livre já ne sta vida .

E mbora viva no corpo, e ste lhe pa re ce uma simple s sombra que o a compa nha . Já nã o e stá pe rturba do pe lo
pe nsa me nto do "e u" e do “me u”. T a is sã o a s ca ra cte rística s do home m que é livre já ne sta vida .

E le nã o se pre ocupa e m inve stiga r o pa ssa do. N ã o e stá inte re ssa do e m e squa drinha r o futuro. É indife re nte
a o pre se nte . É a ssim que pode s re conhe ce r o home m que é livre já ne sta vida .

O be m e o ma l pa re ce m e xistir no mundo. P e ssoa s e obje tos pa re ce m distinguir-se e ntre si. N o e nta nto ele
e nca ra tudo do ponto de vista da igua lda de , porque vê B ra hma n e m toda s a s coisa s. É a ssim que pode s
re conhe ce r o home m que é livre já ne sta vida .

A boa e má fortuna pode m a dvir. E le e nca ra a a mba s com indife re nça e pe rma ne ce inse nsíve l a e la s. É
a ssim que pode s re conhe ce r o home m que é livre já ne sta vida .

C omo sua me nte e stá continua me nte a bsorta na be m-a ve ntura nça de B ra hma n, e le é inca pa z de distinguir
e ntre o inte rior e o e xte rior. É a ssim que pode s reconhe ce r o home m que é livre já ne sta vida .

A vida pa ssa : e le a vê como um e spe cta dor de sinte re ssa do. N ã o se ide ntifica com o corpo, os órgã os
se nsoria is, e tc. E stá a cima da idé ia do de ve r. É a ssim que pode s re conhe ce r o home m que é livre já ne sta
vida .

P e la a juda da s vívida s pa la vra s da s E scritura s, e le re a lizou sua unida de com B ra hma n. E le nã o a nse ia por
re na sce r. A ssim é que pode s re conhe ce r o home m que e stá livre já ne sta vida .

E le nunca se ide ntifica com o corpo ou com os órgã os dos se ntidos. E le nã o te m o se ntido de posse . A ssim
é que pode s re conhe ce r o home m que e stá livre já nesta vida .

A tra vé s de sua visã o tra nsce nde nta l, e le compre e nde u que nã o há dife re nça e ntre o home m e B ra hma n ou
e ntre B ra hma n e o unive rso - pois e le vê que B ra hman é tudo. A ssim é que pode s re conhe ce r o home m que
e stá livre já ne sta vida .

O home m sa nto pode honrá -lo, o home m ma u pode insultá -lo sua s re a çõe s sã o a s me sma s. A ssim é que
pode s re conhe ce r o home m que é livre já ne sta vida .

R ios de sliza m pa ra o oce a no, ma s o oce a no nã o é pe rturba do. O s obje tos se nsoria is flue m pe la sua me nte ,
ma s e le nã o se nte re a çã o, pois vive na consciê ncia da R e a lida de una . E le é ve rda de ira me nte livre , já ne sta
vida .

A cessação do sonho

A que le que conhe ce u a re a lida de de B ra hma n nã o pode continua r a pe ga do a e ste mundo. A que le que se nte
e sse a pe go nã o conhe ce u B ra hma n: continua iludido e limita do pe los se ntidos.

D e um home m que conhe ce u B ra hma n nã o se pode dize r que a inda e stá a pe ga do a os obje tos se nsoria is
por ca usa da s forte s impre ssõe s e dos ve lhos há bitos de se us de se jos pa ssa dos. N ã o - se us de se jos e
te ndê ncia s fora m va rridos porque e le compre e nde u sua ide ntida de com B ra hma n.

Me smo um home m muito luxurioso nã o se nte de se jo a lgum qua ndo e stá na pre se nça de sua mã e . D o
me smo modo, o home m se libe rta da munda nida de qua ndo compre e nde B ra hma n, a infinita be m-
a ve ntura nça .

A s e scritura s de cla ra m que me smo, o home m a bsorto na me dita çã o e stá cônscio do mundo e xte rior, de vido
à s te ndê ncia s cria da s por se u modo de vida a nte rior. D iz-se que e ssa s te ndê ncia s continua m a ope ra r ne le .

44
E nqua nto o home m e xpe rime nta r pra ze r e dor, sua s te ndê ncia s pa ssa da s ha ve rã o de pe rsistir. T odo e fe ito é
a nte ce dido por uma ca usa . O nde nã o e xiste ca usa , não e xiste e fe ito.

Q ua ndo o home m de spe rta de se u sonho, sua s a çõe s onírica s; se de sfa ze m no na da . Q ua ndo o home m
de spe rta pa ra o conhe cime nto de que e le é B ra hma n, toda s a s ca usa s a cumula da s, toda s a s a çõe s
pra tica da s a o longo de milhõe s e milhõe s de vida s se dissolve m.

E nqua nto e stá dormindo, o home m pode sonha r que e stá pra tica ndo boa s a çõe s ou come te ndo te rríve is
pe ca dos. Ma s, qua ndo o sonho ce ssa , como pode m e ssas a çõe s onírica s conduzi-lo a o cé u ou a o infe rno?

O A tma n é e te rna me nte livre , puro e intocá ve l como o é te r. A que le que re a lizou o A tma n ja ma is se rá
a grilhoa do pe la s sua s a çõe s, se ja m e la s pa ssa da s, pre se nte s ou futura s.

O é te r e nce rra do num câ nta ro nã o é a fe ta do pe lo cheiro do vinho. O A tma n e nce rra do e m se us invólucros
nã o é a fe ta do pe la s proprie da de s de sse s invólucros.

A flecha não se deterá

O Discípulo:

E nte ndo que , de pois de se a lca nça r a ilumina çã o, ne nhuma a çã o pode a fe ta r o A tma n. Ma s, e a s a çõe s
pra tica da s a nte s do de sponta r do conhe cime nto? O conhe cime nto nã o pode ca nce la r-lhe s os e fe itos. A se ta
a tira da contra um a lvo nã o pode se r de svia da .

S uponha mos que confundimos uma va ca com um tigre e lhe de sfe rimos uma fle cha . A fle cha nã o se de te rá
qua ndo de scobrirmos que a va ca nã o é um tigre e a tingirá a va ca .

O Mestre:

S im, te ns ra zã o. A s a çõe s pa ssa da s sã o muito pode rosa s, ca so já te nha m come ça do a produzir se us


e fe itos. E la s de ve m e sgota r o se u pode r a tra vé s da e xpe riê ncia a tua l, me smo no ca so de uma a lma
ilumina da . O fogo do conhe cime nto de strói toda a a cumula çã o dos ka rma s pre se nte s e futuros e dos
ka rma s pa ssa dos que a inda nã o come ça ra m a produzir se us e fe itos. Ma s nã o pode de struir os ka rma s;
pa ssa dos que já come ça ra m a produzir se us e fe itos. N o e nta nto, ne nhum de sse s ka rma s pode re a lme nte
a fe ta r a que le que compre e nde sua ide ntida de com B rahma n e vive continua me nte a bsorto ne ssa
consciê ncia . T a is home ns unira m-se a B ra hma n, o um que e stá a lé m de todos os a tributos.

O vide nte vive a bsorto na consciê ncia do A tma n. E le compre e nde u sua ide ntida de com B ra hma n. B ra hma n
é puro e e stá livre da s qua lida de s que pe rte nce m a os invólucros de nso e sutil. O s ka rma s pa ssa dos
pe rte nce m a e sse s invólucros - nã o pode m, pois, a feta r o vide nte . Q ua ndo um home m e stá de spe rto, de ixa
de e sta r suje ito a o mundo a pa re nte de se us sonhos.

O home m que de spe rtou de ixa de ide ntifica r-se com se u corpo onírico, com sua s a çõe s onírica s ou com os
obje tos do se u sonho, volta ndo a si pe lo simple s despe rta r.

E le nã o te nta a firma r que os obje tos do se u sonho sã o re a is ne m procura possuí-los. S e continua r a busca r
os obje tos do mundo onírico, ce rta me nte a inda nã o te rá de spe rta do do se u sono.

D o me smo modo, a que le que de spe rtou pa ra o conhe cime nto de B ra hma n vive a bsorto na uniã o com o
e te rno A tma n. N ã o vê na da ma is. P or ce rto e le pre cisa come r, a lime nta r e sse corpo e nqua nto vive r ne ste
mundo. Ma s e ssa s a çõe s sã o pra tica da s, por a ssim dize r, de me mória . S ã o como a s a çõe s que
re me mora mos de um sonho.

O na scime nto num corpo é o re sulta do do ka rma . P ode-se dize r, pois, que a s a çõe s pa ssa da s a fe ta m
unica me nte o corpo. O A tma n nã o te m princípio. N ã o se pode dize r que e le na sce u e m de corrê ncia do
ka rma . P or isso, é inse nsa to pe nsa r que o ka rma pode a fe ta r o A tma n.

A s infa líve is pa la vra s da s e scritura s de cla ra m que “o A tma n é nã o na scido, e te rno, nunca suje ito a o
de clínio", C omo supor, e ntã o, que a lgum ka rma a fe te o home m que vive na consciê ncia do A tma n?

45
A s ca usa s a cumula da s de vido à s a çõe s pa ssa da s a fe ta m o home m que se ide ntifica com o corpo. A a lma
ilumina da sa be que e ssa ide ntifica çã o é fa lsa , e por isso nã o é a fe ta da por e sse ka rma .

É tolice pe nsa r a té me smo que a s ca usa s a cumula da s e m conse qüê ncia da s a çõe s pa ssa da s pode m a fe ta r
o corpo. C omo pode e sse corpo se r re a l qua ndo sua existê ncia é me ra me nte ilusória ? C omo pode uma
coisa irre a l te r um na scime nto? C omo pode morre r uma coisa que nunca na sce u? C omo pode m a s a çõe s,
os se us e fe itos, a fe ta r o que é irre a l?

Q ua ndo de sponta o conhe cime nto, a ignorâ ncia e se us e fe itos de sa pa re ce m. O home m ignora nte pode
pe rgunta r: “S e a ssim é , como pode o corpo de uma a lma ilumina da continua r a e xistir?” Ma s qua ndo a s
e scritura s dize m que a continuida de do corpo é ca usa da pe la s a çõe s pa ssa da s, e la s e stã o simple sme nte
e xplica ndo a s coisa s de um modo que o ignora nte possa e nte nde r. N ã o e stã o que re ndo prova r a re a lida de
do corpo e dos de ma is invólucros do ponto de vista de uma a lma ilumina da .

Brahman é tudo

D o ponto de vista da a lma ilumina da , B ra hma n e stá e m toda s a s coisa s - se m princípio, se m fim,
ime nsurá ve l, imutá ve l, o prime iro se m um se gundo. E m B ra hma n nã o há dive rsida de .

B ra hma n é pura e xistê ncia , pura consciê ncia , e te rna be m-a ve ntura nça , e stá a lé m da a çã o, é o prime iro se m
um se gundo. E m B ra hma n nã o há dive rsida de .

B ra hma n é a consciê ncia re côndita , re ple ta de be m-a ve ntura nça , infinita , onipre se nte , o prime iro se m um
se gundo. E m B ra hma n nã o há dive rsida de .

B ra hma n nã o pode se r e vita do, já que e stá e m toda pa rte . B ra hma n nã o pode se r a pre e ndido, já que é
tra nsce nde nte . N ã o pode se r e nce rra do, já que e nce rra toda s a s coisa s. E le é o prime iro se m um se gundo.
E m B ra hma n nã o há dive rsida de .

B ra hma n é se m pa rte e se m a tributos. É sutil, a bsoluto, ima cula do, o um se m um se gundo. E m B ra hma n
nã o há dive rsida de .

B ra hma n é inde finíve l, e stá fora do a lca nce da me nte e da pa la vra , é o prime iro se m um se gundo. E m
B ra hma n nã o há dive rsida de .

B ra hma n é a própria re a lida de ; insta la do na sua própria glória ; pura , a bsoluta consciê ncia , se m igua l, o
prime iro se m um se gundo. E m B ra hma n nã o há dive rsida de .

O s a spira nte s e spiritua is, a s a lma s ma gnâ nima s que se libe rta ra m de todos os de se jos, re cusa ndo todos os
pra ze re s se nsua is, se re na s e a utocontrola da s - compre e nde m e sta supre ma ve rda de de B ra hma n. T a is
a lma s re a liza m a uniã o com B ra hma n e a lca nça m a supre ma be m-a ve ntura nça .

T u ta mbé m de ve s disce rnir e compre e nde r a supre ma ve rda de de B ra hma n. C ompre e nde a ve rda de ira
na ture za do A tma n como a tota lida de de toda a be m-ave ntura nça . D e se mba ra ça -te da s ilusõe s cria da s por
tua própria me nte . D e sse modo, te toma rá s livre e ilumina do e a lca nça rá s a be m-a ve ntura nça .

T ra nqüiliza tua me nte por inte iro e a tinge o sa ma dhi. E ntã o te rá s a visã o de sa nuvia da , disce rnindo
cla ra me nte a ve rda de do A tma n. D os lá bios de te u me stre a pre nde ste a ve rda de de B ra hma n ta l como e la é
re ve la da na s e scritura s. D e ve s a gora compre e nde r e ssa ve rda de de ma ne ira dire ta e ime dia ta . S ó e ntã o te u
cora çã o e sta rá livre de qua lque r dúvida .

C omo pode s sa be r, com ce rte za , que e stá s libe rta do da se rvidã o da ignorâ ncia e compre e nde ste o A tma n,
que é e xistê ncia a bsoluta , pura consciê ncia e e te rna be m-a ve ntura nça ? A s pa la vra s da s e scritura s, o teu
próprio pode r de ra ciocínio e o e nsina me nto do te u me stre pode m a juda r a conve nce r-te - ma s a única prova
a bsoluta é a e xpe riê ncia dire ta e ime dia ta na tua própria a lma .

S e rvidã o e libe rta çã o, conte nta me nto e a nsie da de , doe nça e sa úde re nova da , fome e a ssim por dia nte -
tudo isso sã o coisa s da e xpe riê ncia pe ssoa l. C onhe ce s a ti me smo. O s outros só pode m conje tura r sobre a
tua condiçã o.

46
O s me stre s e a s e scritura s pode m e stimula r a pe rce pçã o e spiritua l. Ma s o discípulo sá bio a tra ve ssa o
oce a no da sua ignorâ ncia pe la ilumina çã o dire ta , pela gra ça de D e us.

O bté m a e xpe riê ncia dire ta me nte . R e a liza D e us por ti me smo. C onhe ce o A tma n como o S e r uno e
indivisíve l e toma -te pe rfe ito. Libe rta a tua me nte de toda s a s pe rturba çõe s e a bsorve -te na consciê ncia do
A tma n.

E sta é a de cla ra çã o fina l do V e da nta : B ra hma n é tudo - e ste unive rso e ca da cria tura . E sta r libe rto é vive r
e m B ra hma n, a re a lida de indivisa . B ra hma n é o um sem um se gundo, como te ste munha m a s e scritura s.

O discípulo se rejubila

O discípulo ouviu a te nta me nte a s pa la vra s do me stre. A pre nde u a supre ma ve rda de do B ra hma n, da qua l a s
e scritura s dã o te ste munho e que é confirma da com a a juda de se us próprios pode re s de ra ciocínio. E ntã o
e le a fa stou se us se ntidos do mundo obje tivo e concentrou sua me nte no A tma n. S e u corpo pa re cia tã o
imóve l qua nto uma rocha .

S ua me nte e sta va tota lme nte a bsorta e m B ra hma n. P ouco de pois e le voltou à consciê ncia norma l. E ntã o, na
ple nitude de sua a le gria , e le fa lou:

O e go de sa pa re ce u. C ompre e ndi a minha ide ntida de com B ra hma n e a ssim todos os me us de se jos se
de sva ne ce ra m. E rgui-me a cima de minha ignorâ ncia e do me u conhe cime nto de ste unive rso a pa re nte . Q ue
a le gria é e sta que e u sinto? Q ue m pode rá me di-la ? T udo o que sinto é uma a le gria ilimita da , infinita .

O oce a no de B ra hma n e stá che io de né cta r - a a le gria do A tma n. O te souro que ne le e ncontre i nã o pode se r
de scrito e m pa la vra s. A me nte é inca pa z de conce bê -lo. Minha me nte ca iu como pe dra de gra nizo na va sta
supe rfície do oce a no de B ra hma n. A o toca r uma gota de le , dissolvi-me e tome i-me um com B ra hma n. E
a gora , e mbora de volta à huma na consciê ncia , e u vivo na a le gria do A tma n.

O nde e stá e ste unive rso? Q ue m o a rre ba tou? T e r-se -á fundido com outra coisa ? A inda há pouco e u o
conte mpla va - a gora e le nã o ma is e xiste . É de ve ra s ma ra vilhoso!

E is o oce a no de B ra hma n, che io de a le gria infinita . C omo posso a ce ita r ou re je ita r a lguma coisa ? E xiste
a lguma coisa se pa ra da ou distinta de B ra hma n?

A gora , fina lme nte e com cla re za , e u se i que sou o Atma n, cuja na ture za é e te rna a le gria . N a da ve jo, na da
ouço, na da conhe ço que e ste ja se pa ra do de mim.

C urvo-me a nte vós, ó gra nde a lma , me u me stre ! E sta is livre de todo a pe go, sois o ma ior de ntre os home ns
sá bios e bons. S ois a pe rsonifica çã o da e te rna be m-a ve ntura nça . V ossa compa ixã o é infinita , um ma r se m
pra ia s.

V ossos olhos sã o che ios de mise ricórdia . U m olha r de le s é como uma torre nte de ra ios de lua r que a livia o
ca nsa ço da minha morta lida de e a dor da minha se rvidã o a o na scime nto e à morte . N um insta nte , pe la
vossa gra ça , e ncontre i e sse te souro ine xa uríve l, indiviso - o A tma n, o e te rno be m-a ve ntura do.

E stou fe liz! R e a lize i o propósito único da vida . O dra gã o do re na scime nto nunca ma is torna rá a a rre ba ta r-
me . O Infinito me pe rte nce . R e conhe ço a minha ve rda de ira na ture za com e te rna a le gria . E tudo isso gra ça s
à vossa mise ricórdia !

N a da me pre nde a e ste mundo. Já nã o me ide ntifico com o corpo físico ne m com a me nte . S ou um com o
A tma n, o imorta l! E u sou o A tma n - infinito, puro, e te rno, pe rpe tua me nte e m pa z.

N ã o sou ne m o que a ge ne m o que sofre a s conse qüê ncia s da a çã o. E stou a lé m da a çã o e sou imutá ve l.
Minha na ture za é pura consciê ncia . S ou a re a lida de a bsoluta , a e te rna bonda de .

N ã o sou e u que m vê , ouve , fa la , a ge , sofre ou goza . E u sou o A tma n e te rno, imorta l, pa ra a lé m da a çã o,


ilimita do, livre - na da ma is que pura , infinita consciê ncia .

47
N ã o sou ne m e ste ne m a que le obje to. S ou A que le que toma ma nife stos todos os obje tos. S ou supre mo,
e te rna me nte puro. N ã o e stou ne m de ntro ne m fora . S ou o infinito B ra hma n, o prime iro se m um se gundo.

E u sou a R e a lida de se m princípio, incompa rá ve l. N ã o pa rticipo da ilusã o do “e u“ e do “tu", do “isto” e do


"isso". E u sou B ra hma n, o um se m um se gundo, a be m-a ve ntura nça infinita , a V e rda de e te rna , imutá ve l.

S ou o S e nhor e o re fúgio de toda s a s coisa s. S ou o de struidor de todos os pe ca dos e impure za s. S ou pura e


indivisíve l consciê ncia . S ou a te ste munha de toda s a s coisa s. N ã o te nho outro se nhor a lé m de mim me smo.
S ou livre do significa do do “e u” e do "me u".

E stou e m todos os se re s como o A tma n, a pura consciê ncia , o princípio de todos os fe nôme nos, inte rnos e
e xte rnos. S ou a o me smo te mpo o fruidor e a coisa usufruída . N os dia s de minha ignorâ ncia , costuma va
pe nsa r ne ssa s coisa s como se pa ra da s de mim me smo. Agora se i que e u sou T udo.

E m mim e stá o oce a no da a le gria , infinito, indiviso. O ve nto de Ma ya sopra sobre e le , cria ndo e dissolve ndo
a s a pa rê ncia s de ste mundo, como onda s.

T oma ndo a a pa rê ncia pe la re a lida de , a s pe ssoa s ima gina m, e m sua ignorâ ncia , que e stou e nce rra do numa
forma corpora l e me nta l. D o me smo modo, ima gina m que o T e mpo, que é indivisíve l e contínuo, e stá
dividido e m ciclos, a nos e e sta çõe s.

Ma s, nã o importa o que a ima gina çã o dos tolos iludidos e ignora nte s possa sobre por à R e a lida de , a
R e a lida de pe rma ne ce ima cula da . A mira ge m do gra nde rio nã o pode molha r a s a re ia s do de se rto.

C omo o é te r, nã o posso se r conta mina do. C omo o sol, sou dife re nte dos obje tos que re ve lo. C omo a
monta nha , pe rma ne ço imóve l. C omo o oce a no, sou ilimita do.

O cé u nã o é confina do pe la s sua s nuve ns. E u nã o sou confina do pe lo corpo. C omo, pois, posso se r a fe ta do
pe los e sta dos de vigília , de sonho e de sono se m sonhos, me ra s condiçõe s corpora is?

Minha forma e xte rior ve m e va i. E la a ge e prova os frutos de sua s a çõe s, de finha e morre . Ma s e u
pe rma ne ço, como uma gra nde monta nha , firme e imóve l pa ra se mpre .

N ã o conhe ço ne m o de se jo, ne m o fim do de se jo - porque sou se mpre o me smo, inca pa z de divisã o. C omo
pode qua lque r a çã o se r possíve l pa ra a que le que é ete rno, unive rsa l e infinito como o cé u? E m que de ve ria
e le e mpe nha r-se ?

S ou de sprovido de órgã os, de forma e de me nte . S ou a lhe io à muda nça . S ou a consciê ncia pura , indivisa .
C omo posso imiscuir-me na a çã o, se ja e la justa ou iníqua ? P or isso a s e scritura s de cla ra m que “o A tma n
pe rma ne ce igua lme nte a lhe io a o be m e a o ma l".

O home m é dife re nte da sua sombra . N ã o importa o que e ssa sombra ve nha a toca r - que nte ou frio, bom
ou ma u -, e le pe rma ne ce comple ta me nte inta cto.

A s proprie da de s dos obje tos obse rva dos nã o a fe ta m a te ste munha que se ma nté m se pa ra da de le s, se m
a pe go. D o me smo modo, a s proprie da de s de um a pose nto nã o a fe ta m a lâ mpa da que a s re ve la .

O sol te ste munha a s a çõe s, ma s é distinto de la s. O fogo que ima toda s a s coisa s, ma s é distinto de la s. A
corda é confundida com urna cobra , ma s continua se ndo uma corda . D o me smo modo e u - o imutá ve l
A tma n, a pura consciê ncia - sou distinto de sta for-ma a pa re nte .

E u nã o a jo ne m fa ço os outros a gire m, nã o e xpe rime nto ne m fa ço os outros e xpe rime nta re m, nã o ve jo ne m


fa ço os outros ve re m. E u sou o A tma n, a uto-ilumina do, tra nsce nde nte .

O sol se re fle te na á gua . A á gua se move e o tolo pe nsa que o sol e stá se move ndo. O A tma n se re fle te nos
corpos físico e me nta l. O s corpos se move m e a ge m, e o tolo pe nsa : "E u a jo, e u e xpe rime nto, e u sou
a ssa ssina do.”

O corpo pode ca ir morto na á gua ou na te rra . E u nã o sou a fe ta do por isso. O é te r contido num ja rro nã o é
a fe ta do qua ndo o ja rro se que bra .

48
A gir ou goza r, se r obtuso ou a stuto ou e mbria ga do, se r livre ou e scra vo - tudo isso sã o condiçõe s
tra nsitória s do inte le cto. E la s na da tê m a ve r com o A tma n, que é B ra hma n, o a bsoluto, o um se m um
se gundo. Q ue r Ma ya pa sse por de z, ce m ou mil tra nsforma çõe s - que tê m e la s a ve r comigo, se nã o
pa rticipo de la s? U ma nuve m pode ma ncha r o cé u?

T odo e ste unive rso - de Ma ya a té a s forma s física s e xte riore s - é visto como me ra sombra de B ra hma n. E u
sou e sse B ra hma n, o prime iro se m um se gundo, sutil como o é te r, se m princípio ne m fim.

E u sou e sse B ra hma n, o prime iro se m um se gundo, o princípio de toda s a s e xistê ncia s. T omo ma nife sta s
toda s a s coisa s. D ou forma a toda s a s coisa s. E stou e m toda s a s coisa s, ma s na da pode a fe ta r-me . S ou
e te rno, puro, imutá ve l, a bsoluto.

E u sou e sse B ra hma n, o prime iro se m um se gundo. Ma ya , a de múltiplos a spe ctos, e stá fundida e m mim.
E stou fora do a lca nce do pe nsa me nto, sou a e ssê ncia de toda s a s coisa s. E u sou a ve rda de . S ou o
conhe cime nto. S ou infinito. S ou a be m-a ve ntura nça a bsoluta .

E stou a lé m da a çã o, sou a re a lida de imutá ve l. N ã o te nho pa rte s ne m forma . S ou a bsoluto. S ou e te rno. N ada
me suste nta , e u me suste nto a mim me smo. S ou o prime iro se m um se gundo.

E u sou a a lma do unive rso. S ou toda s a s coisa s e e stou a cima de toda s a s coisa s. S ou o prime iro se m um
se gundo. S ou pura consciê ncia , única e unive rsa l. S ou a le gria . S ou vida e te rna .

Ma is uma ve z vos sa údo, nobilíssimo se nhor, me u me stre . P e la supre ma ma je sta de da vossa gra ça , e u
a tingi e ste a be nçoa do e sta do. S ou sobe ra no do re ino de mim me smo.

A té a gora e stive sonha ndo. N o me u sonho, va gue i pe la flore sta da ilusã o, de um na scime nto a outro,
a sse dia do por todos os tipos de a tribula çõe s e miséria s, suje ito à re e nca rna çã o, a o de clínio e à morte. O
tigre do e go a ta cou-me crue lme nte , se m ce ssa r. A gora , pe la vossa infinita compa ixã o, ó me stre , a corda ste s-
me do me u sonho. Libe rta ste s-me pa ra se mpre .

S a údo-vos, ó gra nde me stre . V ós sois uno com B ra hma n. S ois uno com a fúlgida Luz que dissipa a s
sombra s de ste mundo.

A jóia suprema

O digno discípulo e ncontrou a a le gria do A tma n no sa ma dhi e de spe rtou pa ra se mpre pa ra a consciê ncia da
R e a lida de . A gora e le se prostra dia nte do se u gra nde me stre . O me stre , infima me nte jubiloso, torna a fa la r-
lhe com a s se guinte s pa la vra s me morá ve is:

N ossa pe rce pçã o do unive rso é uma contínua pe rce pçã o de B ra hma n, e mbora o home m ignora nte nã o
e ste ja conscie nte disso. E m ve rda de , e ste unive rso nã o é outra coisa se nã o B ra hma n. V ê B ra hma n e m toda
pa rte , sob toda s a s circunstâ ncia s, com o olho do espírito e o cora çã o tra nqüilo. C omo pode m os olhos
físicos ve r a lguma coisa ma is que os obje tos físicos? C omo pode a me nte do home m ilumina do pe nsa r e m
a lguma coisa que nã o se ja a R e a lida de ?

C omo pode um home m sá bio re je ita r a e xpe riê ncia da supre ma be m-a ve ntura nça e de le ita r-se com a s
me ra s forma s e xte riore s? Q ua ndo a lua brilha com sua sublime be le za , que m pe nsa ria e m olha r pa ra uma
lua pinta da ?

A e xpe riê ncia do irre a l nã o nos ofe re ce ne nhuma sa tisfa çã o ne m uma fuga da misé ria . E ncontra , pois,
sa tisfa çã o na e xpe riê ncia da doce be m-a ve ntura nça de B ra hma n. D e vota -te a o A tma n e vive fe liz pa ra
se mpre .

Ó nobre a lma , a ssim de ve s pa ssa r os te us dia s - vê o A tma n e m toda pa rte , goza a be m-a ve ntura nça do
A tma n, fixa te u pe nsa me nto no A tma n, o prime iro se m um se gundo.

O A tma n é uno, a bsoluto, indivisíve l. É pura consciê ncia . Ima gina r ne le forma s múltipla s é como ima gina r
ca ste los no a r. S a be , pois, que é s o A tma n, o e te rno be m-a ve ntura do, o prime iro se m um se gundo, e
e ncontra a pa z fina l. P e rma ne ce a bsorto na a le gria que é silê ncio.

49
E sse e sta do de silê ncio é o e sta do de pa z tota l, na qua l o inte le cto de ixa de ocupa r-se com o irre a l. N e sse
silê ncio, a gra nde a lma que conhe ce , e é una com B ra hma n, goza de pura e e te rna be m-a ve ntura nça .

P a ra o home m que compre e nde u o A tma n como se u ve rda de iro se r e que e xpe rime ntou a be m-a ve ntura nça
íntima do A tma n, nã o e xiste a le gria ma is e xce le nte do que e sse e sta do de silê ncio no qua l todos os de se jos
sã o mudos.

N ã o importa o que e ste ja fa ze ndo - a nda ndo, de pé , se nta do ou de ita do -, o vide nte ilumina do cujo de le ite é
o A tma n vive na a le gria e na libe rda de .

Q ua ndo uma gra nde a lma e ncontrou a pe rfe ita tra nqüilida de pe la libe rta çã o da sua me nte de todos os
pe nsa me ntos pe rturba dore s e pe la comple ta re a liza ção de B ra hma n, e ntã o e la já nã o ne ce ssita de luga re s
sa gra dos, disciplina s mora is, hora s fixa s, postura s, instruçõe s ou obje tos pa ra a sua me dita çã o. S e u
conhe cime nto do A tma n nã o de pe nde de circunstâ ncia s ou condiçõe s e spe cia is.

P a ra se sa be r que um ja rro é um ja rro sã o re que rida s; condiçõe s e spe cia is? B a sta que o nosso me io de
pe rce pçã o, os olhos, e ste ja livre de de fe ito. Isso ba sta pa ra re ve la r o obje to.

O A tma n e stá e te rna me nte pre se nte . É re ve la do pe la e xpe riê ncia tra nsce nde nta l, que nã o de pe nde de lugar,
de te mpo ou de ritua is de a utopurifica çã o.

N ã o pre ciso de ne nhuma condiçã o ou prova e spe cia l pa ra sa be r que me u nome é D e va da tta .
A na loga me nte , pa ra um conhe ce dor de B ra hma n, o conhe cime nto de que “e u sou B ra hma n” nã o re que r
ne nhuma prova .

O A tma n, brilha ndo com sua própria luz, ca usa e ste unive rso a pa re nte . Ma s como pode a lguma coisa ne ste
unive rso re ve la r o A tma n? F ora do A tma n, e ssa s a pa rê ncia s sã o de spre zíve is, incorpóre a s, irre a is.

O s V e da s, os P ura na s, toda s a s e scritura s e toda s as cria tura s viva s só e xiste m porque o A tma n e xiste .
C omo pode , pois, qua lque r um de le s re ve la r o A tma n, que é o re ve la dor de toda s a s coisa s?

O A tma n brilha com sua própria luz. S e u pode r é infinito. E stá a lé m do conhe cime nto dos se ntidos. É a fonte
de toda e xpe riê ncia . A que le que conhe ce o A tma n e stá livre de todos os tipos de se rvidã o. É che io de glória .
É o ma ior de ntre os ma iore s.

A s coisa s pe rce bida s pe los se ntidos nã o lhe ca usa m dor ne m pra ze r. N ã o e stá a pe ga do a e la s, ne m
ta mpouco a s e vita . D e le ita ndo-se consta nte me nte no A tma n, e stá se mpre brinca ndo no se u íntimo. E le
e xpe rime nta a doce , e te rna be m-a ve ntura nça do A tma n e se nte -se sa tisfe ito.

A cria nça brinca com se us brinque dos e se e sque ce a té da fome e da dor física . D e ma ne ira a ná loga , o
conhe ce dor de B ra hma n tira se u de le ite do A tma n e se e sque ce de todo pe nsa me nto do “e u" e do “me u”.

E le obté m se u a lime nto fa cilme nte , pe dindo e smola s, se m cuida dos ne m a nsie da de s. B e be no ria cho
límpido. V ive livre e inde pe nde nte . D orme se m me do na flore sta ou no chã o de cre ma çã o. N ã o pre cisa la va r
e se ca r sua s roupa s, porque nã o a s usa . A te rra é a sua ca ma . E le bilha o ca minho do V e da nta . S e u
compa nhe iro é B ra hma n, o e te rno.

O conhe ce dor do A tma n nã o se ide ntifica com se u corpo. P e rma ne ce de ntro de le como de ntro de uma
ca rrua ge m. S e a s pe ssoa s lhe s ofe re ce m confortos e luxos, de sfruta -os e brinca com e le s como uma
cria nça . N ã o tra z sina is e xte riore s de um home m sa nto. P e rma ne ce pe rfe ita me nte de sa pe ga do da s coisa s
de ste mundo.

P ode usa r roupa s ca ra s ou ne nhuma roupa . P ode ve stir-se com pe le de ga mo ou de tigre , ou com puro
conhe cime nto. P ode pa re ce r um louco, ou uma cria nça , ou à s ve ze s um e spírito impuro. A ssim e le va gue ia
pe la T e rra .

O home m conte mpla tivo ca minha sozinho. V ive se m de se jo no me io dos obje tos de de se jo. O A tma n é a
sua e te rna sa tisfa çã o. E le vê o A tma n pre se nte e m toda s a s coisa s.

50
À s ve ze s e le pa re ce um né scio, à s ve ze s, um sá bio. À s ve ze s pa re ce e splê ndido como um re i, à s ve ze s um
imbe cil. À s ve ze s é ca lmo e ca la do. À s ve ze s a tra i os home ns a si, ta l como uma píton a tra i a sua pre sa . À s
ve ze s a s pe ssoa s o ve ne ra m, à s ve ze s o insulta m. À s ve ze s o ignora m. A ssim vive a a lma ilumina da ,
se mpre a bsorta na supre ma be m-a ve ntura nça .

T a l home m nã o te m rique za s, ma s e stá se mpre conte nte . É de sa mpa ra do, ma s dota do de gra nde pode r.
N ã o usufrui na da , ma s e stá se mpre se re gozija ndo. N ã o te m igua l, ma s vê a todos os home ns como se us
igua is.

E le a ge , ma s nã o é limita do pe la a çã o. C olhe os frutos da s a çõe s pa ssa da s, ma s nã o é a fe ta do por e le s.


T e m um corpo, ma s nã o se ide ntifica com e le . P a re ce se r um indivíduo, ma s e stá pre se nte e m toda s a s
coisa s, e m toda pa rte .

O conhe ce dor de B ra hma n, que vive livre da consciê ncia corpora l, nunca é a tingido pe lo pra ze r ou pe la dor,
pe lo be m ou pe lo ma l.

S e o home m se ide ntifica r com os invólucros de nsos e sutis de ntro dos qua is ha bita , e xpe rime nta rá o pra ze r
e a dor, o bom e o ruim. Ma s na da é bom ou ruim pa ra o sá bio conte mpla tivo, porque e le compre e nde u o
A tma n. e se us grilhõe s ca íra m por te rra .

D ura nte um e clipse sola r, o sol é e ncobe rto pe la lua . O ignora nte , que nã o e nte nde o que a conte ce u, diz que
o sol foi tra ga do por um de mônio - ma s o sol nunca pode se r tra ga do.

D o me smo modo, o ignora nte vê o corpo de um conhe ce dor de B ra hma n e ide ntifica -o com e le . E m
ve rda de , e le e stá livre do corpo e de qua lque r outro tipo de se rvidã o. P a ra e le , o corpo nã o pa ssa de uma
sombra .

E le ha bita no corpo, ma s o vê como coisa se pa ra da de le - como a pe le a ba ndona da de uma cobra . O corpo


se move de lá pa ra cá , impe lido pe la força vita l.

U ma tora é ca rre ga da pe lo rio pa ra um luga r ma is ba ixo ou ma is a lto. O corpo do conhe ce dor de B ra hma n,
ca rre ga do pe lo rio do te mpo, goza ou sofre os e fe itos da s a çõe s pa ssa da s.

E m vida s pa ssa da s, e nqua nto a inda pe rma ne cia na ignorâ ncia , e le criou ce rtos ka rma s. N a vida a tua l, e le
a pa re nte me nte goza ou sofre os se us e fe itos. Ma s a gora e le a lca nçou a ilumina çã o e nã o se ide ntifica ma is
com o corpo. S e u corpo se move e ntre obje tos e xte rnos e e le pa re ce goza r ou sofre r os e fe itos da s a ções
pa ssa da s - ta l como um home m que continua ignora nte. N a ve rda de , poré m, e le vive e m B ra hma n e só
ha bita o corpo como um e spe cta dor se re no, de spre ndido. S ua me nte e stá livre de toda pe rturba çã o e
ma nté m-se impa ssíve l, como o e ixo de urna roda .

E le nã o dirige se us se ntidos pa ra os obje tos e xte riore s ne m os re tira . P e rma ne ce como um e spe cta dor,
indife re nte . N ã o de se ja a re compe nsa de sua s a çõe s, porque e stá ine bria do pe lo A tma n - o né cta r da pura
a le gria .

A que le que re nuncia à busca de qua lque r obje tivo, se ja ne ste mundo ou me smo no cé u, e pe rma ne ce
a bsorto no A tma n, é na ve rda de o próprio D e us S hiva. É o e xce le nte conhe ce dor de B ra hma n.

E mbora ha bite no corpo, é e te rna me nte livre . A tingiu a me ta a be nçoa da . É o e xce le nte conhe ce dor de
B ra hma n. Q ua ndo o corpo o a ba ndona , e le se funde com B ra hma n, o um se m um se gundo.

T odo a tor é se mpre a me sma pe ssoa , me smo qua ndo ve stido pa ra de se mpe nha r um pa pe l. O e xce le nte
conhe ce dor de B ra hma n; é se mpre B ra hma n, e na da ma is.

Q ua ndo uma a lma ilumina da a lca nçou a unida de com B ra hma n, se u corpo pode de finha r e ca ir e m qua lque r
luga r, como a folha murcha de uma á rvore . Q ue importa ? P orque e le já se libe rtou da consciê ncia corpora l,
consumindo-a no fogo do conhe cime nto.

A a lma ilumina da vive e te rna me nte cônscia de sua unida de com B ra hma n, o prime iro se m um se gundo. A o
de spoja r-se de ssa roupa ge m de pe le , ca rne e osso, ela nã o pre cisa conside ra r se o luga r, a é poca e a s
circunstâ ncia s sã o a propria dos.

51
E sta r livre do corpo nã o é libe rta çã o. T a mpouco, um home m é libe rta do por forma s e xte riore s de re núncia . A
libe rta çã o consiste e m de sfa ze r o nó da ignorâ ncia no cora çã o.

U ma á rvore ga nha ou pe rde a lguma coisa porque sua folha ca i num fosso e nã o num rio, ou num te rre no
sa gra do e m ve z de num ca mpo a be rto?

A de struiçã o do corpo, dos órgã os se nsoria is, da re spira çã o vita l e do cé re bro é como a de struiçã o de uma
folha , de uma flor ou de um fruto. P oré m o A tma n, como a á rvore , pe rma ne ce de pé . O A tma n nã o é a fe ta do
- e le é o E u re a l, o ve rda de iro S e r, a pe rsonifica çã o da a le gria .

A s e scritura s de fine m o A tma n como “pura consciê ncia ” mostra ndo a ssim que e le é a e te rna ve rda de . S Ó os
invólucros e xte riore s morre m. E le s sã o fe itos de ignorâ ncia e oculta m o A tma n.

“N a ve rda de ”, dize m a s e scritura s, “O A tma n é imorta l”, mostra ndo a ssim que e le pe rma ne ce inde strutível
e ntre a s coisa s que muda m e pe re ce m.

P e dra s, á rvore s, re lva , grã os, pa lha , roupa e toda s a s outra s substâ ncia s, qua ndo que ima da s, sã o re duz ida s
a cinza . O corpo, os se ntidos, a s força s vita is, a me nte e toda s a s outra s ma nife sta çõe s física s, qua ndo
consumida s pe lo fogo do conhe cime nto, torna m-se B ra hma n.

A e scuridã o se funde na luz do sol, o se u oposto. D o me smo modo, e ste mundo a pa re nte se funde e m
B ra hma n.

Q ua ndo se que bra o ja rro, o é te r que e stá de ntro dele torna -se uno com o é te r circunda nte . Q ua ndo os
invólucros sã o de struídos, o conhe ce dor de B ra hma n toma -se B ra hma n.

Q ua ndo se de spe ja le ite no le ite , óle o no óle o, á gua na á gua , e le s se mistura m e m a bsoluta unida de . D o
me smo modo, o vide nte ilumina do, o conhe ce dor do A tma n, toma -se uno com o A tma n.

A que le que se libe rtou ne sta vida a lca nça a libe rta çã o na morte e une -se e te rna me nte com B ra hma n, a
R e a lida de A bsoluta . E sse vide nte ja ma is re na sce rá .

E le sa be que é uno com B ra hma n e consumiu os invólucros da ignorâ ncia no fogo de sse conhe cime nto.
A ssim, e le se tomou B ra hma n. C omo pode B ra hma n e sta r suje ito a o na scime nto?

A na loga me nte , ta nto a se rvidã o como a libe rta çã o sã o inve nçõe s da nossa ignorâ ncia . E la s nã o e xiste m
re a lme nte no A tma n, ta l como um pe da ço de corda continua se ndo corda , que r o confunda mos ou nã o com
uma cobra . A suposta cobra nã o e xiste re a lme nte na corda .

A s pe ssoa s fa la m de se rvidã o e libe rta çã o - re fe rindo-se à pre se nça ou à a usê ncia do vé u da ignorâ ncia.
Ma s, na re a lida de , B ra hma n nã o te m invólucro. P orque nã o e xiste outro se nã o B ra hma n - o prime iro se m
um se gundo. S e houve sse um invólucro, B ra hma n nã o se ria único. A s e scritura s nã o a dmite m dua lida de .

S e rvidã o e libe rta çã o e xiste m a pe na s na me nte , ma s o ignora nte a s a tribui fa lsa me nte a o próprio A tma n - da
me sma forma que a firma m e sta r o sol e scure cido qua ndo e le e stá a pe na s cobe rto por uma nuve m. Ma s
B ra hma n, o prime iro se m um se gundo, a re a lida de imutá ve l, pe rma ne ce inde pe nde nte . E le é pura
consciê ncia .

Ima gina r que o A tma n pode se r e scra viza do ou libe rta do é fa lso. T a nto a se rvidã o como a libe rta çã o sã o
e sta dos me nta is. N e nhum de le s pode se r a tribuído a B ra hma n, a re a lida de e te rna .

P or conse guinte , ta nto a se rvidã o como a libe rta çã o sã o ficçõe s da ignorâ ncia . E la s nã o e stã o no A tma n. O
A tma n é infinito, se m pa rte s, e stá a lé m da a çã o. É se re no, ima cula do, puro. C omo ima gina r a dua lida de e m
B ra hma n, que é inte iro como o é te r, se m um se gundo a re a lida de supre ma ?

N ã o e xiste ne m na scime nto ne m morte , ne m a lma limita da ou e xce lsa , ne m a lma libe rta da ou e m busca da
libe rta çã o - e sta é a ve rda de fina l e a bsoluta .

R e ve le i-te hoje o supre mo misté rio. E sta é a ma is re côndita e ssê ncia de todo o V e da nta , a jóia supre ma de
toda s a s e scritura s. C onside ro-te o me u próprio filho - um ve rda de iro a spira nte à libe rta çã o. E stá s purifica do
de toda s a s má cula s de sta é poca de tre va s e tua me nte e stá livre do de se jo.

52
A o ouvir e sta s pa la vra s de se u me stre , o discípulo prostrou-se dia nte de le com o cora çã o re ve re nte . D epois,
com a bê nçã o do me stre , se guiu se u ca minho, livre da se rvidã o da ignorâ ncia .

O me stre ta mbé m se guiu se u ca minho, le va ndo pure za a todo o mundo, com a me nte ime rsa no oce a no da
e xistê ncia e da a le gria a bsoluta s.

N e ste diá logo e ntre me stre e discípulo, a ve rda de ira na ture za do A tma n foi e xposta de modo que os
a spira nte s à libe rta çã o a compre e nda m fa cilme nte .

P ossa m os a spira nte s e spiritua is à libe rta çã o, que se de se mba ra ça ra m de toda s a s impure za s do cora çã o
pe la prá tica de obra s a ltruística s, que sã o a ve ssos a os pra ze re s munda nos, que se de le ita m na s pa la vras
da s e scritura s, cuja s me nte s e ntra ra m na pa z - possa m e le s a colhe r hospita le ira me nte e ste s e nsina me ntos
sa luta re s!

E à que le s que por ignorâ ncia va gue ia m no de se rto de ste mundo, trilha ndo o círculo da morte e do
re na scime nto, ca nsa dos, se de ntos e oprimidos pe la ca ustica nte misé ria como pe los ra ios a bra sa dore s do
sol - possa m e ste s e nsina me ntos re ve la r B ra hma n, o prime iro se m um se gundo, o doa dor de de le ite s, o
oce a no de né cta r que se e spra ia dia nte de nossos próprios pé s. Q ue e ste s e nsina me ntos de S ha nka ra
coroe m de ê xito os se us e sforços e os conduza m à libe rta çã o.

O m... P a z - P a z - P a z.

IV
Shankara formula e responde a algumas importantes perguntas

P ra sna -U tta ra -Ma lika


“F lorilé gio de pe rgunta s e re sposta s”

Qual a melhor coisa que um aspirante espiritual pode fazer?


C umprir a s instruçõe s do se u guru.

O que deve ser evitado?


A s a çõe s que nos le va m a uma ma ior ignorâ ncia da ve rda de .

Quem é o guru?
O que e ncontrou a ve rda de de B ra hma n e e stá consta nte me nte inte re ssa do na fe licida de de se us
discípulos.

Qual é o primeiro e mais importante dever do homem possuidor da reta compreensão?


Libe rta r-se dos grilhõe s do de se jo munda no.

Como se pode alcançar a libertação?


P e la obte nçã o do conhe cime nto de B ra hma n-

Quem, neste mundo, pode ser chamado de puro?


A que le cuja me nte é pura .

Quem pode ser chamado de sábio?


A que le que pode disce rnir e ntre o re a l e o irre a l.

O que envenena o aspirante espiritual?


A ne gligê ncia dos e nsina me ntos de se u guru.

Para aquele que alcançou o nascimento humano, qual é o objetivo mais desejável?
C ompre e nde r a quilo que é o se u ma ior be m e e sta r consta nte -me nte e mpe nha do e m fa ze r o be m a os
outros.

53
O que ilude um homem como uma bebida inebriante?
O a pe go a os obje tos dos se ntidos.

Quem são os ladrões?


O s obje tos que rouba m a ve rda de de nossos cora çõe s.

O que causa a servidão do desejo mundano?


A â nsia de goza r e sse s obje tos.

Qual é o obstáculo ao crescimento espiritual?


A pre guiça .

Qual a melhor arma para subjugar os outros?


O ra ciocínio corre to.

Onde reside a força?


N a pa ciê ncia .

Onde está o veneno?


N o cora çã o dos ma us.

Que é o destemor?
A impa ssibilida de .

O que mais se deve temer?


S e r possuído pe la sua própria rique za .

O que é mais raro de encontrar na humanidade?


O a mor a D e us.

Quais são os males mais difíceis de extirpar?


O ciúme e a inve ja .

Quem é caro a Deus?


A que le que é de ste mido e a juda os outros a se libe rta re m do me do.

Como se atinge a libertação?


P e la prá tica da s disciplina s e spiritua is.

Quem é mais digno de louvor?


O conhe ce dor de B ra hma n.

Como se desenvolve o poder de discernimento?


P e lo se rviço a um a nciã o.

Quem são os anciãos?


A que le s que compre e nde ra m a ve rda de funda me nta l.

Quem é realmente rico?


A que le que a dora a D e us com de voçã o.

Quem tira proveito da vida?


O home m humilde .

Quem é o perdedor?
A que le que é orgulhoso.

Qual é a tarefa mais difícil para um homem?


Ma nte r sua me nte sob consta nte controle .

54
Quem protege um aspirante?
O se u guru.

Quem é o mestre deste mundo?


D e us.

Como se alcança a sabedoria?


P e la gra ça de D e us.

Como se alcança a liberdade?


P e la de voçã o a D e us.

Quem é Deus?
A que le que nos a fa sta da ignorâ ncia .

Que é ignorância?
O obstá culo à re ve la çã o do D ivino que e stá de ntro de nós.

Qual é a Realidade suprema?


B ra hma n.

O que é irreal?
A quilo que de sa pa re ce qua ndo o conhe cime nto de spe rta .

Há quanto tempo existe a ignorância?


D e sde se mpre .

O que é inevitável?
A morte do corpo.

A quem devemos adorar?


A uma e nca rna çã o de D e us.

O que é libertação?
A de struiçã o da nossa ignorâ ncia .

Em quem não se deve confiar?


N a que le que te m o há bito de me ntir.

Qual é a força de um homem santo?


E le confia e m D e us.

Quem é o homem santo?


A que le que é pa ra se mpre be m-a ve ntura do.

Quem é livre do pecado?


A que le que e ntoa o nome de D e us.

Qual é a fonte de todas as escrituras?


A sa gra da síla ba O M.

Que é que nos transporta através do oceano do mundo?


O s lótus de D e us; e le s nos tra nsporta m como um gra nde na vio.

Quem é escravo?
A que le que e stá a pe ga do a o mundo.

Quem é livre?
A que le que é de sa pa ixona do.

55
Como é o céu que alcançamos?
O cé u que a lca nça mos é o e sta do e m que e sta mos livre s dos de se jos.

Que é que destrói o desejo?


A compre e nsã o de nosso ve rda de iro E u.

Qual é a porta para o inferno?


A luxúria .

Quem vive imerso na felicidade?


A que le que a lca nçou o sa ma dhi.

Quem está desperto?


A que le que disce rne e ntre o ce rto e o e rra do.

Quais são os nossos inimigos?


N ossos órgã os se nsoria is, qua ndo nã o sã o controla dos.

Quais são os nossos amigos?


N ossos órgã os se nsoria is, qua ndo sã o controla dos.

Quem é pobre?
A que le que é á vido.

Quem é totalmente cego?


A que le que é la scivo.

Quem venceu o mundo?


A que le que conquistou a própria me nte .

Quais são os deveres de um aspirante espiritual?


A nda r e m compa nhia do sa gra do, re nuncia r a todos os pe nsa me ntos do "e u" e do "me u", de vota r-se a D e us.

De quem o nascimento é abençoado?


D a que le que nã o pre cisa re na sce r.

Quem é imortal?
A que le que nã o pre cisa pa ssa r por outra morte .

Quando é que um homem está firmado no ideal da renúncia?


Q ua ndo sa be que A tma n e B ra hma n sã o um.

Qual é a ação correta?


A a çã o que a gra da a D e us.

Neste mundo, qual é o maior terror?


O me do da morte .

Quem é o maior herói?


A que le que nã o é a te rroriza do pe la s se ta s la nça da s pe los olhos de uma be la mulhe r.

Quem é pobre?
A que le que nã o e stá conte nte .

Que é mesquinharia?
P e dir a a lgué m que te m me nos do que nós.

A quem devemos honrar?


À que le que na da pe de a ningué m.

56
Quem, neste mundo, está verdadeiramente vivo?
A que le cujo ca rá te r e stá ise nto de de fe ito.

Quem está desperto?


A que le que pra tica o disce rnime nto.

Quem está dormindo?


A que le que vive na ignorâ ncia .

O que rola rapidamente, como gotas de água de uma folha de lótus?


A juve ntude , a rique za e os a nos da vida de um home m.

Quem é considerado tão puro como os raios da lua?


O home m sa nto.

Que é o inferno?
V ive r e scra viza do a os outros.

Que é a felicidade?
O de spre ndime nto.

Qual é o dever do homem?


F a ze r o be m a todos os se re s.

Quais são as coisas desprezíveis desde o momento em que são obtidas?


O pre stígio e a fa ma .

O que é que traz a felicidade?


A a miza de do sa gra do.

O que é a morte?
Ignorâ ncia .

Qual é a coisa mais valiosa?


U ma dá diva conce dida na hora ce rta .

Que doença se prolonga até o homem morrer?


A má a çã o que se procurou e sconde r.

Em que devemos empenhar-nos?


E m continua r a pre nde ndo e nqua nto vive mos.

O que devemos abominar?


C obiça r a s viúva s e a s rique za s de outros home ns.

No que o homem deve pensar dia e noite?


N a tra nsitorie da de de ste mundo. E le nunca de ve a ca le nta r pe nsa me ntos de luxúria .

Que coisa é mais digna de apreço?


A compa ixã o e a a miza de com o sa gra do.

Que coração não conseguireis conquistar, mesmo se o tentardes com todas as vossas forças?
O cora çã o de um tolo ou de um home m que te m me do, ou e stá che io de má goa , ou é inca pa z de gra tidã o.

Quem pode evitar as armadilhas do mundo?


A que le que é since ro e ca pa z de pe rma ne ce r impa ssíve l dia nte do pra ze r e da dor e de todos os outros
pa re s de opostos da vida .

A quem os próprios deuses prestam homenagem?


À que le que é compa ssivo.

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A quem todos o homens respeitam?
À que le que é humilde e fa la a ve rda de , de um modo que fa z o be m a os outros e os toma fe lize s.

Quem é cego?
A que le que come te má s a çõe s.

Quem é surdo?
A que le que nã o ouve o bom conse lho.

Quem é mudo?
A que le que nã o diz pa la vra s a má ve is qua ndo e la s sã o ne ce ssá ria s.

Quem é um amigo?
A que le que impe de se u próximo de fa ze r o ma l.

Qual é o melhor ornamento do homem?


O bom ca rá te r.

Que é que termina tão depressa quanto o relâmpago?


A a miza de com home ns ou mulhe re s ma us.

Quais são as qualidades mais raras neste mundo?


T e r o dom de dize r pa la vra s doce s com compa ixã o, se r e rudito se m orgulho, se r he róico e a o me smo te mpo
ge ne roso, se r rico se m a pe go à rique za - e sta s qua tro qua lida de s sã o ra ra s.

O que deve ser mais deplorado?


A a va re za na opulê ncia .

O que deve ser louvado?


A ge ne rosida de .

Quem é reverenciado pelos sábios?


A que le que é humilde .

Quem conquista a glória para toda a sua família?


A que le que pe rma ne ce humilde qua ndo dota do de gra nde za .

Quem é o senhor deste mundo?


A que le cuja s pa la vra s sã o doce s e be né fica s e que se gue o ca minho da re tidã o.

Quem é que nunca corre nenhum perigo?


A que le que se gue a s pa la vra s dos sá bios e ma nté m os se ntidos sob controle .

Onde devemos viver?


D e ve mos vive r com o sa gra do.

O que um homem sábio deve evitar proferir?


F a lsida de s e pa la vra s má s contra os outros.

De que um homem deve lembrar-se?


D o sa nto nome de D e us.

Quais são os inimigos do aspirante espiritual?


A luxúria e a cobiça .

O que um homem deve proteger de todo dano?


U ma e sposa fie l e se u próprio pode r de disce rnime nto.

Qual é a árvore que realiza todos os desejos?


O s e nsina me ntos do guru.

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