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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ- UFPI

CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E LETRAS- CCHL


DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA E HISTÓRIA- DGH
MONOGRAFIA III

JOVITA ALVES FEITOSA:


Relações de gênero e presença feminina na Guerra contra o Paraguai (1864-1870)

Cleane Maria Alves Rocha

Teresina-PI/ 2011
CLEANE MARIA ALVES ROCHA

JOVITA ALVES FEITOSA:


Relações de gênero e presença feminina na Guerra contra o Paraguai (1864-1870)

Monografia apresentada à Universidade Federal


do Piauí, Centro de Ciências Humanas e Letras,
como requisito à graduação n*o curso de
Licenciatura Plena em História, sob orientação
da Profª Mestre Maria do Socorro Rangel.

Teresina- PI/ 2011


CLEANE MARIA ALVES ROCHA

JOVITA ALVES FEITOSA:


Relações de gênero e presença feminina na Guerra contra o Paraguai (1864-1870)

BANCA EXAMINADORA

___________________________________________________________________
Profª Mestre Maria do Socorro Rangel (Orientadora)

______________________________________________________________________
Profº Mestre Antônio Fonseca dos Santos Neto (examinador)

___________________________________________________________________
Profº Doutor Johny Santana Araújo ( examinador)

_________________________________________________
Local e Data
RESUMO

Este trabalho de pesquisa versa sobre a trajetória pública da mulher-soldado Jovita Alves
Feitosa, suas experiências e sensibilidades e o quadro político e socioeconômico que as
informam. Ao se alistar como voluntário da pátria para a Guerra contra o Paraguai(1864-
1870), disfarçada de homem, Jovita conquista um espaço em dois lugares tradicionalmente
reservados ao monopólio masculino_ a guerra e a hierarquia militar. A partir de então, sua
trajetória é transformada num acontecimento sensacional, num espetáculo, com significativa
cobertura da imprensa da época. Propomos-nos a fazer um retrato falado de Jovita Feitosa, a
partir da análise das imagens e memórias edificadas sobre ela durante e depois da Guerra
contra o Paraguai, discutindo o cenário da guerra e as relações e hierarquias de gênero da
sociedade brasileira do século XIX.

Palavras-chaves: Jovita Feitosa. Guerra contra o Paraguai. Mulher-soldado. Gênero.


ABSTRACT

This work focuses on the public trajectory of female soldier Jovita Alves Feitosa, her
experiences, sensibilities, and the political and socioeconomic that inform them. When she
enlisted as a volunteer of the nation to war against Paraguay (1864-1870), disguised as a man,
Jovita gains space in two traditionally positions reserved to the male monopoly: the war and
the militar hierarchy. Since then, her path is transformed into a sensational event, a spectacle,
with significant press coverage . We propose to make a portrait of Jovita Feitosa, from the
analysis of images and memories built about her during and after the war against Paraguay,
discussing the war scenario and relations and hierarchies of gender of Brazilian society in
the nineteenth century.

Keywords: Jovita Alves against Paraguai, Female Soldier, Gender


A meus pais, pelos ensinamentos insubstituíveis,
amor e confiança a mim dedicados.

A Augusto Rocha pelo apoio incondicional, e por


suportar os momentos de maior ansiedade.
AGRADECIMENTOS

A meus pais, Luís e Cleide, e meu marido, Augusto Rocha, que com muito carinho e apoio,
não mediram esforços para que eu chegasse até esta etapa de minha vida.
À Mestre Maria do Socorro Rangel pela ternura, paciência e incentivo na orientação, que
tornaram possível a conclusão desta monografia.
A todos os professores do departamento de história e geografia da UFPI que foram
importantes na minha vida acadêmica e no desenvolvimento desta monografia, em especial
ao Prof.º Raimundo Nonato Lima dos Santos e à Profª. Elizângela Barbosa Cardoso, pelas
valiosas contribuições a este trabalho.
Aos amigos que de alguma forma partilharam das questões deste trabalho.

Meu muito obrigada!


SUMÁRIO

INTRODUÇÃO .................................................................................................................. 07

1. A GUERRA CONTRA O PARAGUAI ......................................................................... 12

1.1. NAÇÃO, PATRIOTISMO E SIMBOLOGIA DA GUERRA ...................................... 20

2. JOVITA ENTRE OUTRAS: RELAÇÕES DE GÊNERO E PRESENÇA FEMININA


NA GUERRA ....................................................................................................................... 34

2.1. ORDEM E DESLOCAMENTO DOS PAPÉIS SEXUAIS ........................................... 34

2.2. DEBATE SOBRE A PRESENÇA FEMININA EM TEMPOS DE GUERRA ............. 40

2.3. MULHERES-SOLDADOS BRASILEIRAS ................................................................. 58

3. RETRATO FALADO DE JOVITA ALVES FEITOSA ................................................ 66

3.1. IMAGENS DE JOVITA E SUAS FONTES HISTÓRICAS ......................................... 66

3.1.1. A notícia .................................................................................................................. 69


3.1.2. O interrogatório ....................................................................................................... 71
3.1.3. A controvérsia ......................................................................................................... 76
3.1.4. A narrativa histórica...................................................................................................79

3.2. O FIM...............................................................................................................................81

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................ .84

6. REFERÊNCIAS ................................................................................................................ 85
7

INTRODUÇÃO

A tudo quanto me ouça


A todos que estão aqui
Peço palmas para a moça
Que occupa um lugar ali,
Ella vale uma epopéa,
Erguei-vos nobre platéa
Essa Amazona applaudi!
(poeta pernambucano não identificado)1

Em dezembro de 1864 estoura a Guerra contra o Paraguai (1864-1870), um evento


militar sem precedentes na história do Brasil. Estima-se que tenham morrido nos campos de
batalha cerca de 150 a 300 mil soldados2. Marcou transversalmente o auge e a decadência da
Monarquia Brasileira, tendo se configurado numa jogada arriscada da política externa do
Segundo Império, como ponto culminante dos conflitos na região platina.
A sociedade imperial, fortemente estratificada, compunha-se em cerca de 25 a 30% de
escravos. A esmagadora maioria da população poderia ser facilmente enquadrada na categoria
de cidadãos não-ativos, sem direitos políticos, reforçando-se as hierarquias raciais e de
gênero.
Todas as funções atribuídas ao sexo feminino deveriam ser executadas no espaço
doméstico, dentro de casa. O mundo além desses estreitos limites era reservado à exploração
masculina, ou pelo menos essa era a pretensão das convenções sociais estabelecidas.
Obviamente que essa reserva era frequentemente desrespeitada, violada por mulheres
determinadas a se aventurar em território inimigo, a romper com as barreiras da descrição e
do recato que lhes eram exigidos. Jovita Alves Feitosa é uma dessas mulheres. Ao alistar-se
como voluntária do Exército Imperial para a Guerra contra o Paraguai, na condição de
soldado, infringiu todos os códigos de postura e de divisão sexual dos papéis, inscrevendo-se
na história da guerra, do patriotismo e da subversão da hegemonia masculina.

1
Fragmento de poema feito em homenagem a Jovita. Em COARACY, José Alves Visconti. Traços biographicos
da heroína brasileira Jovita Alves Feitosa, ex-sargento do 2º Corpo de Voluntários do Piauhy, natural do Ceará
- por um fluminense. Rio de Janeiro: Typ. Imparcial de Brito & Irmão, 1865, p. 42.
2
VAINFAS, Ronaldo. Dicionário do Brasil imperial. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008, p.322.
8

E é sobre Jovita Alves Feitosa, filha de Maximiniano Bispo de Oliveira e dona Maria
Alves Feitosa3, nascida no dia 08 de março de 1848, no povoado de Brejo Seco/Ceará, que
versa este trabalho.
Em julho de 1865, contando com apenas dezessete anos de idade, Jovita irá
protagonizar uma trama histórica que nasce de sua iniciativa pessoal, mas ganha um espaço
significativo na campanha de arregimentação de voluntários, propaganda e memória da
Guerra contra o Paraguai. Percorreu difíceis caminhos de Jaicós, onde morava com um tio a
cerca de sete meses, à capital Teresina (380 km), a pé e em companhia de uma tropa de
“voluntários” que também se alistaria naquela cidade.
Convencida de que como mulher não teria a chance de ocupar o posto de soldado do
2º Batalhão de Voluntários do Piauí, Jovita fez o que achou necessário para realizar seu
intento. Logo que chegou a Teresina, disfarçou-se de homem, cortando os cabelos no estilo
“militar”, amarrando os seios e usando um chapéu de couro. Com essa indumentária,
apresentou-se ao presidente da província, Sr. Franklin Dória, ofereceu-se como voluntário da
pátria e foi aceita como tal.
Seu disfarce durou pouco tempo. No mesmo dia em que conseguiu ludibriar o
presidente da província, fazendo-se passar por homem, Jovita e seu disfarce chamaram a
atenção de uma mulher no mercado local. A mulher não identificada teria notado as orelhas
furadas de Jovita e desconfiada daquele soldado, resolvera apalpar-lhes os seios, que apesar
de atados por uma cinta, acabaram sendo revelados.
O disfarce cai por terra, Jovita é denunciada como farsante, detida e conduzida a
interrogatório, por dois soldados. Em prantos, tenta convencer a todos, e em especial o
presidente da província, que sabe atirar e que tem o necessário para seguir como voluntária da
pátria: coragem e disposição para aprender o que fosse preciso para enfrentar o inimigo.
Convence Franklin Dória a engajá-la como 1º sargento do 2º Corpo de Voluntários do Piauí,
tamanha era sua convicção e patriotismo.
A partir desse momento podemos comprar ingressos para o espetáculo que se tornou a
trajetória de Jovita. Transformada em heroína do batalhão piauiense, antes mesmo de ter
concretizado seu desejo de lutar nos campos de batalha na região platina, Jovita passa por um
processo de transmutação de sua imagem, mitificação de seus feitos. Transforma-se em
modelo de patriotismo e coragem. Ela é aclamada na partida do 2º Batalhão de Voluntários
rumo à corte, recebida com festa por onde passou, pelo Maranhão, Paraíba e Recife. Foram

3
Existem versões contrastantes sobre os sobrenomes dos pais de Jovita, questão discutida no cap.II, p. 28.
9

muitas homenagens na forma de espetáculos teatrais, presente valiosos, poemas e até, ampla
comercialização de sua fotografia usando fardamento militar, prática semelhante ao que hoje
conhecemos como agenciamento da imagem das chamadas celebridades.
Agora incorporada ao 2º Batalhão de Voluntários como mulher, Jovita passa a usar um
saiote por sobre o fardamento militar. Sua feminilidade precisa ser resguardada. A soldado
Jovita, mulher do século XIX, não podia aparentar virilidade, mas tinha seu patriotismo
reconhecido. A descrição física mais completa que temos de Jovita foi feita por Coaracy,
jornalista fluminense que teve a oportunidade de entrevistá-la no Rio de Janeiro.

As photographias se reprodusião todos os dias e é raro quem não possua um


retrato da voluntária do Piauhy. Vimo-la também: - é um tipo índio, tem
estatuta mediana, maneiras simples, e sem affectação, despedida d’aquella
gravidade, que impõe um respeito profundo, bem proporcionada, rosto
redondo, uma cutis amarellada, cabelos curtos, crespos, e de um negro
acaboclado, mãos de homem e seccas, pés grandes. Seus olhos negros,
cheios de luz, tornão-a sympática, seus lábios fechados com alguma graça
occultão dente alvos, limados e pontiagudos. Uma serenidade d’alma
estende-se pelo seu todo, e mesmo lhe assegura uma confiança, que a
tranquilisa.4

Ao que parece Coaracy não tem a intenção de romantizar a imagem de Jovita. Em


alguns momentos aproxima-a de um estereótipo masculino, mencionando detalhes como
“mãos de homens e pés grandes”, traços não muito lisonjeiros para uma mulher.
A presença de Jovita no batalhão é, a um só tempo, motivo de celebração, espanto e
constrangimento. Uma única mulher no meio de um batalhão de “voluntários” homens.
Talvez o soldado mais voluntário de todos, aquele (a) que além de não ter o dever cívico de se
alistar como soldado, terá que travar uma batalha pessoal para realizá-lo. Para muitos Jovita
perdeu essa batalha, já que uma semana depois de desembarcar no Rio de Janeiro, mais
precisamente no dia 16 de janeiro de 1865, Jovita foi dispensada do seu batalhão de
voluntários, teve seu alistamento revogado por uma portaria da Secretaria de Estado dos
Negócios da Guerra, sob a alegação de ausência de lei que autorizasse a presença de uma
mulher no Exército Brasileiro.
O mundo totalmente novo vivido por Jovita em pouco menos de três meses cai por
terra. Ela tenta voltar para casa, mas não é bem recebida por sua família. Retorna ao Rio de

4
COARACY, José Alves Visconti. Traços biographicos da heroína brasileira Jovita Alves Feitosa, ex-sargento
do 2º Corpo de Voluntários do Piauhy, natural do Ceará- por um fluminense. Rio de Janeiro: Typ. Imparcial de
Brito & Irmão, 1865, p. 23.
10

Janeiro e se envolve afetivamente com o engenheiro Guilherme Noot, com quem passa a
conviver numa casa de praia.
Entre seu alistamento, no dia 09 de julho de 1865; seu embarque rumo à corte no dia
10 de agosto; seu desembarque no Rio de Janeiro no dia 09 de setembro e sua dispensa
definitiva do batalhão de voluntários, no dia 16 de setembro do mesmo ano, existem muitos
registros sobre Jovita, prevalece um tempo psicológico longo. Muita coisa é dita sobre ela, seu
patriotismo e sobre seu desejo de autonomia5.
Contudo, depois da dispensa definitiva de Jovita, de frustrados seus planos de lutar
pela pátria como um valoroso soldado, prevalece um silêncio, um domínio do não- dito. Não
temos data de seu regresso ao Piauí, nem de seu posterior retorno à corte, de quanto tempo
teria vivido ao lado de Guilherme Noot, muito menos em que condições. Do dia 16 de
setembro ao dia 10 de outubro de 1867, quando ocorre o desfecho trágico da trajetória de
Jovita, que realiza contra si seu último ato de coragem, suicidando-se com uma punhalada no
peito, existe um vazio em sua memória.
A imagem que se construiu de Jovita, a qual também fora incorporada por ela em
alguns momentos, é rememorada de muitas maneiras: na sua nomeação como patrona da
Academia Tauaense de Letras (cadeira nº. 13) 6, na outorga de seu nome a avenidas e ruas de
Fortaleza- CE, Recife-PE, Duque de Caxias- RJ, e do Residencial Jacinta Andrade- PI7.
Temos ainda, a maratona Jovita Feitosa, que acontece nos aniversários de Jaicós; o romance
histórico Jovita: missão trágica no Paraguai, de autoria do escritor piauiense Assis Brasil8 e
o romance histórico Jovita ou a voluntária da morte, do fluminense José Alves Visconti
Coaracy9.
Seguindo os ensinamentos de Georges Duby10, entendemos que para que todos
estejam em condições de acompanhar o espetáculo, se faz necessário apresentar primeiro os
atores, montar um cenário, fazer uma breve exposição de nosso objeto de pesquisa e
estabelecer conexões entre este e o leitor. É o que tentamos fazer nessa introdução. O cenário,
a Guerra contra o Paraguai, será melhor apresentado no primeiro capítulo, A Guerra contra o

5
Do contato que teve com Jovita, Coaracy concluiu que “a palavra liberdade dominava-lhe tanto o espírito
quanto lhe horroriza a palavra cativeiro”. Op.cit., p. 33.
6
Ver < http://academiatauaense.blogspot.com/2007/06/jovita-alves-feitosa.html>. Acesso em 24 de outubro de
2009.
7
Projeto do Programa de Desenvolvimento Habitacional de Teresina, fomentado pelo município
8
BRASIL, Assis. Jovita : missão trágica no Paraguai. Rio de Janeiro: Notrya, 1994.
9
Diante da carência de informação sobre a tipografia em que foi impresso, resta-nos apresentar os dados que
temos sobre o texto de Coaracy. _ COARACY, José Alves Visconti. Jovita ou a voluntária da morte. Rio de
Janeiro, 1867, 91 pags.
10
DUBY, Georges. O domingo de Bouvines: 27 de julho de 1214. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1993, p. 25.
11

Paraguai. A nossa protagonista e sua trajetória no seio da guerra será revisitada ao longo de
todo o trabalho, mais especificamente nos capítulos II e III, Jovita entre outras: relações de
gênero e presença feminina na guerra, e Retrato Falado de Jovita Alves Feitosa,
respectivamente.
Por fim, Coaracy, no desenlace da apresentação de seus “Relatos Biographicos da
heroína brasileira Jovita Feitosa”, fez a seguinte declaração: “A geração futura nos fará
justiça”.11 Estamos aceitando o convite de Coaracy e esperamos corresponder, ao menos em
parte, suas expectativas sobre a geração futura.

11 11
COARACY, José Alves Visconti. Traços biographicos da heroína brasileira Jovita Alves Feitosa, ex-
sargento do 2º Corpo de Voluntários do Piauhy, natural do Ceará- por um fluminense. Op.cit.
12

CAPÍTULO I

1. A GUERRA CONTRA O PARAGUAI

O século XIX marca um período de grande agitação política na história do Brasil.


Apesar de considerada a forma mais segura para ordenar o Brasil independente de 1822, a
Monarquia Constitucional não se estabelecera sem controvérsias, conflitos, constantes
tensões. A impopularidade e desconfianças que assombraram o governo de D. Pedro I,
acusado de defender interesses portugueses em detrimento da lealdade devida á nova nação e
as diversas rebeliões e levantes do período regencial, denotam o difícil caminho rumo à
consolidação do império brasileiro.
Só na década de 1850, vinte e oito anos após a independência, sob a liderança de D.
Pedro II, o Brasil alcançou certa estabilidade política; os ânimos acirrados do debate entre
liberais e conservadores foram apaziguados e experimentava-se certa prosperidade
econômica12. De 1854 a 1858 foram realizados significativos investimentos em infraestrutura,
com a construção das primeiras estradas de ferro e linhas telegráficas, redes de navegação e
iluminação a gás das cidades.13
A sociedade imperial, fortemente estratificada, compunha-se em cerca de 25 a 30% de
escravos. A esmagadora maioria da população poderia ser facilmente enquadrada na categoria
de cidadãos não-ativos, sem direitos políticos, reforçando-se as hierarquias raciais e de
gênero. Nas palavras de Eric Hobsbawm, as mulheres, neste contexto e em todo o mundo,
14
eram consideradas “seres humanos de segunda classe” , careciam totalmente de direitos de
cidadania. Padrões normativos sócio-culturais ditavam os comportamentos femininos
adequados, dentre os quais não havia espaço para a atuação e associação política ou para o
trabalho fora do âmbito familiar.

O século XIX levou a divisão das tarefas e a segregação sexual dos espaços
a seu ponto máximo. Seu racionalismo procurou definir estritamente o lugar
de cada um. Lugar das mulheres: a maternidade e o lar a delimitam
totalmente.

12
BETHELL, Leslie; CARVALHO, José Murilo de. O Brasil da independência a meados do século XIX. IN:
BETHELL, Leslie (Org.), História da América Latina: da independência a 1870. São Paulo: Editora da USP,
2001.
13
SCHWARCZ, Lília Moriz. As barbas do imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo:
companhia das Letras, 1998.
14
HOBSBAWM, Eric J. A era dos impérios. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988, p. 282.
13

(...) A iconografia, a pintura reproduzem à saciedade, esta imagem


tranquilizadora da mulher sentada, em sua janela ou sob uma lâmpada,
eterna Penélope, costurando interminavelmente. Rendeira ou remendeira, eis
os arquétipos femininos.15

Todas as funções atribuídas ao feminino deveriam ser executadas no espaço


doméstico, dentro de casa. O mundo além desses estreitos limites era reservado à exploração
masculina, ou pelo menos pretendia-se que assim fosse. Obviamente que essa reserva era
frequentemente desrespeitada, violada por mulheres determinadas a se aventurar em território
inimigo, a romper com as barreiras da descrição e do recato que lhes eram exigidos. Jovita
Alves Feitosa é uma dessas mulheres. Ao alistar-se como voluntária do exército imperial para
a Guerra do Paraguai, na condição de soldado, infringiu todos os códigos de postura e de
divisão sexual dos papéis, inscrevendo-se na história da guerra, do patriotismo e da subversão
da hegemonia masculina.
Cenário da construção da personagem Jovita Feitosa, a guerra pode ser tomada como
um evento complexo capaz de agrupar uma multiplicidade de sentimentos e ressentimentos,
suscetível de análise por diversas áreas do conhecimento. O alemão Carl Von Clausewitz
(1790-1831), militar de carreira e autor do clássico Da guerra, conceitua a guerra como “um
ato de violência com o qual se pretende obrigar o nosso oponente à nossa vontade” 16. Sua
análise vai muito além de tal conceito ao situar a guerra como um instrumento da política,
como produto de um pensamento político que deve possuir objetivos definidos racionalmente
e clareza sobre os resultados pelos quais se deve lutar. Richarde Betts retrata essa relação
entre guerra e política como o “problema Clausewitiano”.

(…) problema Clausewitziano: como fazer da força um instrumento racional


da política, ao invés de assassinato sem propósito – como integrar política e
guerra. E isso exige a junção interdisciplinar da gramática militar e da lógica
política, nos termos próprios de Clausewitz, um matrimônio que é
freqüentemente pervertido na prática pelos que se identificam mais com uma
metade da união do que a outra.17

Nas Américas do século XIX se estabeleceu uma relação íntima entre a guerra e a
idéia de nação. Essa relação é evidenciada pela Guerra Civil dos Estados Unidos (1861-65) e
a guerra da Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai) contra o Paraguai (1865-70), que
15
HOBSBAWM, Eric J. A era dos impérios. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988, p. 282.
16
CLAUSEWITZ, Carl Von apud LUIGI, Bonanate. A Guerra. São Paulo: Estação Liberdade, 2001.
17
BETTS, Richard K. Should Strategic Studies Survive?. World Politics. Baltimore, 90(1): p. 7-33, 1997
14

transcorreram à custa de muito sangue derramado; assim como fora nas lutas pela unificação
política da Itália e da Alemanha18.
Em sua dissertação de mestrado Jonas Tenfen intitula a guerra como “musa das
nações”19, algo que “inspira, respira, transpira”20 nacionalidade. Em alguns momentos é
extremamente difícil discernir se a guerra fomenta a nacionalidade ou se a nacionalidade
carece da guerra para se fortalecer. É impossível precisar o quanto a existência ou mesmo
invenção de um inimigo comum afeta o ideal de nação e cidadania, projetando-se nesta
relação política entre a guerra e as transformações sócio-culturais infringidas por ela à
população em geral.
Nesse sentido a guerra carece para sua compreensão a observância não apenas de
elementos técnico-militares, mas também político-sociais. São as conexões entre a política
implementada pelo Estado e a sociedade. É nessa relação que localizamos o aspecto humano
da guerra, o engajamento maior ou menor da população, a opinião pública e de particulares. É
aí que a imagem e significado da participação de Jovita Alves Feitosa na Guerra do Paraguai
foram construídos e constantemente reconstruídos desde agosto de 1985 até os dias atuais,
dentro de um contexto onde se dá a reinvenção dos símbolos e heróis nacionais, da memória
da nação:

(...) a guerra serviu também como poderoso instrumento de construção da


identidade brasileira. Antes dela, nenhum episódio havia unido tantos
brasileiros contra um inimigo comum.(...) Os símbolos nacionais, bandeira e
hino, foram valorizados. O hino era tocado por ocasião do embarque de
tropas, a bandeira auriverde tremulava à frente dos batalhões e nos mastros
dos navios.21

A guerra a que nos reportamos possui diversas designações, sendo conhecida na


bibliografia argentina e uruguaia como a Guerra da Tríplice Aliança; no Paraguai, como
Guerra Grande; e no Brasil, como Guerra do Paraguai. Quanto a esta última designação,
talvez seja produto da propagação da idéia de que o Brasil nunca desejou ou agiu com a
intenção de provocar essa guerra, tendo sido compelido pelo Paraguai à mais dura campanha
militar de sua história.

18
BETHELL, Leslie. O imperialismo britânico e a Guerra do Paraguai. Estudos Avançados. V.9, n.24, São
Paulo, maio/ago. 1995.
19
TENFEN, Jonas. Musa à nação: lembranças da guerra no imaginário nacional. Santa Catarina: Anuário de
Literatua. ISSNe: 2175-7917, vol.15, n.1, 2010, p. 299.
20
Idem, ibidem.
21
CARVALHO, José Murilo de. D. Pedro II. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 122-123.
15

Desde a independência, a monarquia constitucional brasileira enfrentou uma série de


conflitos e rebeliões que demandaram o emprego de força militar. As revoltas do período
regencial(1831-1840), algumas com proposta separatista, como a Farroupilha(1835-1845) e a
Sabinada (1837-1838), foram contidas em nome da unidade nacional. Em termos de política
externa, as Guerras da Cisplatina, inicialmente entre as metrópoles Espanha e Portugal,
resultaram numa guerra entre Brasil e Argentina pelo domínio da província Cisplatina22.
Guerra infrutífera, sem vencedores, já que a região disputada tornou-se um país livre, a
República Oriental do Uruguai, em 1828, subscrita a paz.
A partir de dezembro de 1864, a Guerra contra o Paraguai se revelaria o maior conflito
internacional a colocar a prova a monarquia brasileira, com uma escala de mobilização e
perdas humanas e materiais nunca experimentada23. Mas, como dito, essa guerra era “do
Paraguai”, o Brasil apenas teria reagido à inesperada agressão de Solano López. Esse foi o
discurso institucional recorrente antes e depois da guerra, prolatado nos manifestos do
governo imperial, nas correspondências com os governos provinciais. A Circular do
Ministério Brasileiro ao governo argentino, redigida pelo Conselheiro José Maria da Silva
Paranhos é uma boa mostra da exclusiva responsabilização do Paraguai:

Não: o governo imperial, cônscio de seus direitos, e certo do civismo do


povo brasileiro, nunca quis ver nos excessivos armamentos paraguaios mais
do que o triste resultado da política meticulosa d’esse governo, e do regimen
anormal em que ainda permanece a República. Esperou sinceramente que o
tempo e suas benévolas intenções determinassem por fim a conversão
d’aquelle governo aos dictames da razão, da justiça internacional
(....)
O conflito com o governo de montevidéo foi, como se vê, um pretexto e uma
occasião que o governo paraguayo aproveitou para levar a effeito seus
projetos de guerra.
(...)
Os factos referidos põem em toda a luz o plano há muito premeditado por
esse governo, e o alvo a que elle se dirige; mas há outra prova não menos
significativa de seus maléficos intentos. Esta prova é a expedição militar que
elle enviou ao território de Mato Grosso...
A vista de tantos e taes actos de provocação, a responsabilidade da guerra
sobrevinda entre o Brasil e a República do Paraguay pesará exclusivamente
sobre o governo da Assumpção.24

22
VAINFAS, Ronaldo. Dicionário do Brasil imperial. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008.
23
ARAÚJO, Johny Santana. “Um grande dever nos chama”: a arregimentação de voluntários para a Guerra do
Paraguai no Maranhão. Imperatriz-MA: Ética, 2008, p. 17.
24
CÂMARA DOS DEPUTADOS. História da Guerra do Brasil contra as Repúblicas do Uruguay e Paraguay.
Rio de Janeiro: Typ. Perseverança, vol.II, 1870, p.67-68. Disponível em: <
historiar.net/images/pdfs/Guerra_do_Paraguai_vol_2.pdf >. Acesso em 03 de junho de 2011.
16

O sequestro do vapor Marquês de Olinda (11/11/1864), e não a invasão do Uruguai, é


considerado o estopim da guerra. Seria ingênuo de nossa parte esperar que, em busca de apoio
popular e internacional, o Império Brasileiro fosse dividir a responsabilidade da guerra,
quando podia perfeitamente negá-la. Esse discurso era reforçado pela imagem de ordeiro de
que Dom Pedro II se revestia, afinal como afirmou a própria Condessa de Barral, “O
imperador não é belicoso e prega muito mais tudo o que contribua ao progresso e bem-estar
de seu povo”25.
O governo brasileiro posava de sereno até demais, como nesse trecho de relatórios
documentados pela Câmara dos Deputados no decorrer da guerra.

Duas vezes o Paraguay offendeu gravemente o Brasil. O Brasil pela


excessiva moderação de seus governos compostos quase sempre de homens
de paz, soffreu tudo quanto os dictadores d’aquella República, Lopes pai e
Lopes filho, premeditaram e realizaram para nos hostilizar de modo
descommunal.26

Para todos os efeitos o império era liderado por homens “civilizados”, devotos da
razão, da paz e do progresso, em oposição a Solano Lopes retratado como a personificação do
mal. Os paraguaios, assim como seu líder, eram pintados como modelos de incivilidade e
selvageria. Apesar das dificuldades para a decodificação desse manuscrito, vale a pena
transcrever alguns trechos da Proclamação bélica do 23º Batalhão de Guardas Nacionais do
Município de Batalha-PI, de 21 de abril de 1865, que bem representa esse sentimento de
emulação.

Com as armas! Como sabeis as insolentes Republicas de Uruguay e


Paraguay nos atirarão a hira [...]27 chamando-nos ao campo de batalha, cuja
guerra [...] mas obrigados a aceitar a bem da dignidade e honra de nossa
chara Pátria, tão traiçoeiara e violentamente aggredida; em vista, Srs., de
que, dignos camaradas, considerais bem a saber a crítica situação em que nos
achamos actualmente [...] com deshumanos e fereozes inimigos, de cujo[...]
tão tristes e lamentáveis nos chegão notícias todos os dias do sul do Império,
onde os nossos queridos irmãos tem sido victimas da horrosa carniçaria e
deshonras, que devem indignar e exaltar a [...] o brasileiro contra os
selvagens e inimigos estrangeiros, sem civilidade e o menor sentimento de
pudor.28

25
DEL PRIORE, Mary. Condessa de Barral:a paixão do imperador. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008, p. 173.
26
CÂMARA DOS DEPUTADOS. Op. Cit, p. 69.
27
As reticências entre colchetes representam uma palavra não decodificada.
28
MACHADO, José Amaro. Proclamação bélica do 23º Batalhão de Guardas Nacionais do Município de
Batalha-PI, 21de abril de 1865. Teresina-PI: Casa Anísio Brito, manuscrito Cod. 001, nº 23.
17

Essa conjunção de idéias, inicialmente discurso institucional, ganha as ruas, espraia-se


por todas as províncias através da imprensa, sobre o que voltaremos a falar adiante. A imagem
assustadora de paraguaios selvagens era uma caricatura usual na propaganda da guerra, em
especial nas campanhas de alistamento de voluntários. Esse tipo de arma ideológica não era
exclusividade do império, o jornal paraguaio Cabichui, como exemplo, publicou charges
retratando o Exército Brasileiro como um bando de macacos29, fazendo alusão ao número de
escravos e negros forros de suas fileiras.
A Guerra contra o Paraguai foi o conflito militar de maior repercussão e mais
sangrento da América Latina ao longo do século XIX30. Estima-se que tenham morrido nos
campos de batalha cerca de 150 a 300 mil soldados31. Marcou transversalmente o auge e a
decadência da Monarquia Brasileira, tendo se configurado numa jogada arriscada da política
externa do Segundo Império, como ponto culminante dos conflitos na região platina.
A Guerra contra o Paraguai teria suscitado o “aglutinador ideológico” que Eric
Hobsbawm atribui ao imperialismo do século XIX32. O surgimento de um inimigo externo
promoveu a aclamação de uma “dignidade nacional”, um sentimento de unidade e
pertencimento a uma comunidade que se coloca acima de todos - a nação.
Por outro lado, no desenrolar do conflito, o Segundo Império acabou gerando o quadro
político e as forças que iriam derrubá-lo. A vedação do tráfico negreiro e a posterior abolição
da escravatura alienaram o apoio das elites agrárias. O aumento da dívida externa afetou
sobremaneira as finanças públicas. O Exército, uma espécie de ficção institucional antes da
Guerra do Paraguai, saiu do conflito fortalecido, lançando novas personagens no cenário
político brasileiro. Os novos representantes da soberania nacional, “logo foram chamados
pelos partidos aos seus seios para a galvanização de prestígios e para o sacrifício das fileiras
da frente, nos choques políticos”33, alimentando-se o corporativismo militar que fortaleceria o
republicanismo.
Não dá pra precisar o momento exato em que o segundo império começa a declinar,
nem tão pouco elaborar uma equação matemática com a resultante “República” capaz de
abordar a complexidade sociopolítica do Brasil da segunda metade do século XIX. Mas, não

29
ALMEIDA, Fabiana Aparecida de. Vivendo a Guerra do Paraguai: memórias de um voluntário da pátria.
Disponível em:< WWW.historiamilitar.com.br/Artigo5RBHM3.pdf >. Acesso em 29 de junho de 2011, p. 6.
30
DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita guerra: nova história da Guerra do Paraguai. São
Paulo: Companhia das Letras, 2002, p.17.
31
VAINFAS, Ronaldo. op. cit, p.322.
32
HOBSBAWM, Eric J. A era dos impérios. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988, p.106.
33
SODRÉ, Nelson Werneck. Panorama do Segundo Império. 2 ed. Rio de Janeiro: Graphia, 1998, p.193.
18

resta dúvida de que a variável “Guerra contra o Paraguai” ocupou um papel de destaque nesse
momento da história nacional.
Contudo, talvez pelo posterior triunfo do modelo republicano, a importância da Guerra
contra o Paraguai é um tema pouco explorado, condenado ao esquecimento pela historiografia
brasileira. Seu papel na formação sociopolítica do Brasil tem sido negligenciado. Não é de se
surpreender que muitos eventos da história européia ocupem espaço muito superior nos livros
didáticos e grades curriculares de ensino superior que a Guerra contra o Paraguai. Dentro das
discussões historiográficas sobre a Guerra contra o Paraguai, destaca-se o debate sobre o
tenso quadro político sob o qual ganha repercussão o conflito.
Apontam-se como marcos iniciais o aprisionamento do navio brasileiro Marquês de
Olinda, em 12 de novembro de 1864 e a invasão de Mato Grosso, em 1º de dezembro do
mesmo ano, pelas forças paraguaias. Por outro lado, apesar da posterior aliança firmada entre
Brasil e Uruguai, podemos considerar também como marco inicial da guerra a invasão do
território uruguaio, em 12 de outubro de 1864.
Contudo, o clima de tensão na região da Bacia do Prata ( Argentina, Paraguai e
Uruguai) já assumira contornos históricos . A região já havia sido transformada em objeto de
disputa entre espanhóis e portugueses, com a Guerra da Cisplatina (1825-1828), que resultara
na independência do Uruguai. Permanecia ativo um rastro de pólvora deixado pra trás.

Os episódios de 1864 no Uruguai só fizeram aguçar um quadro de tensões


muito antigo na região platina, que envolvia o controle da “banda oriental”
do rio da Prata, gerando ora conflitos, ora alianças entre grupos brasileiros -
sobretudo rio-grandenses - e facções argentinas e uruguaias, ao que se
somariam as pretensões de Solano Lopez às vésperas da guerra.34

O Brasil ansiava pela livre navegação no Prata, principal acesso às províncias do sul
do império, muitas vezes dificultada pelas desconfianças que as recém formadas repúblicas
latinas nutriam sobre supostas pretensões imperialistas da monarquia brasileira. Litígios sobre
fronteiras políticas se arrastavam entre Brasil e Paraguai, como bem acentua Doratioto, “a
falta de definição de limites era um elemento visível de tensão entre o Paraguai e o
império”35. Além disso, acirravam-se as rivalidades entre brasileiros e o governo Uruguai,
acusado de negligenciar os direitos dos cidadãos brasileiros na região fronteiriça, situação
descrita por Doratioto.

34
VAINFAS, Ronaldo. Dicionário do Brasil imperial. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008, p. 323.
35
DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita guerra: nova história da Guerra do Paraguai. São
Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 44.
19

Em sessão da câmara no mês de abril de 1864, o deputado conservador


Ferreira da Veiga interpelava o ministro dos Negócios Estrangeiros em
plenário sobre a situação de cidadãos brasileiros residentes no Uruguai. O
deputado descrevia súditos do império encontrados decapitados nas estradas
uruguaias, com o documento de nacionalidade na boca como ultraje, ao
passo que outros eram açoitados. Enquanto isso, vindo do Rio Grande do sul,
o general Souza Neto trazia uma representação forma dos pecuaristas dessa
província e de outros instalados no Uruguai, ao governo brasileiro,
denunciando desordens na fronteira e buscando o apoio armado oficial. 36

As explicações para a guerra estariam nas questões da geopolítica regional. Doratioto


refuta a versão de que a Inglaterra seria a maior responsável pela trama da guerra, contestando
a idéia de que os países latinos diretamente envolvidos teriam sido meros fantoches
manobrados pelos ingleses, especialmente o Brasil imperial. Desse modo, seria negado a estes
países o papel de protagonistas, sujeitos ativos de sua própria história, como se fossem
incapazes de tomar políticas a partir de interesses próprios.

Para o revisionismo, estes dois países (Argentina e Brasil) teriam sido


manipulados por interesses da Grã-Bretanha, maior potência capitalista à
época, para aniquilar o desenvolvimento autônomo paraguaio, abrindo um
novo mercado consumidor para os produtos britânicos e fornecedor de
algodão para as indústrias inglesas. Como resultado, o leitor desavisado, ou
os estudantes que aprenderam por esta cartilha, podem ter concluído que a
história do nosso continente não se faz ou não se pode fazer aqui.37

Não se trata de negar a existência de interesses imperialistas contrariados pela


autonomia paraguaia, especialmente em relação ao fornecimento de matéria prima e mercado
de consumo à Grã-Bretanha38, mas de perceber a Guerra que afetou um contingente humano
inestimável (soldados, mães, esposas, viúvas, toda uma geração) em quatro nações diversas,
como um evento complexo, conectado a múltiplos interesses.
Ironicamente, Brasil, Argentina e Uruguai, outrora centros políticos de hostilidades
mútuas, passam a constituir a Tríplice Aliança contra o Paraguai. O Tratado da Tríplice
Aliança foi motivado pela invasão paraguaia de Corrientes, na Argentina, e pela subida de
Flores ao poder no Uruguai. O tratado foi assinado em 1º de maio de 1865, quando então
passa a acontecer a Guerra da Tríplice contra o Paraguai.

36
DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Op.cit, p.51.
37
Idem, ibidem, p.87-88.
38
Para León Pomer a “chave da coisa está na Inglaterra”. POMER, León. Paraguai: Nossa guerra contra esse
soldado. são Paulo:Global, 1997.
20

1. NAÇÃO, PATRIOTISMO E SIMBOLOGIA DA GUERRA.

Não é nossa intenção aprofundar o debate sobre as questões que levaram à Guerra, ou
mesmo o debate das vertentes historiográficas que vem tecendo interpretações a cerca desta:
historiografia tradicional, revisionista e novas versões. Mas, retornar à questão levantada no
início deste capítulo, qual seja, as relações entre a política de Estado implementada pelo
Brasil Império durante a guerra do Paraguai e a sociedade brasileira à época. O aspecto
humano da guerra e o impacto provocado por esta de modo a forjar uma heroína num espaço
quase que exclusivo de aclamação da virilidade masculina.
Lilia Moritz Schawarcz nos revela uma Guerra cujo significado vai muito além da
geopolítica regional ou de interesses ingleses39. Para José Murilo de Carvalho trata-se de um
acontecimento histórico fundamental à definição de uma política nacional própria dos estados
envolvidos, da necessidade de afirmação de uma identidade e soberania nacional. “A Guerra
do Paraguai foi o fator mais importante na construção da identidade brasileira no século
passado. Superou até mesmo as proclamações da Independência e da República”40.
Comparando os três grandes acontecimentos da história do Brasil: Independência,
Guerra contra o Paraguai e Proclamação da República, José Murilo de Carvalho aponta a
guerra como o evento de maior participação popular, capaz de criar um forte elo entre a
comunidade e a nação, despertando sentimentos patrióticos autênticos por todo o Brasil.

A independência provocou forte mobilização em apenas alguns pontos do


País, Rio de Janeiro, Bahia, Pará. As grandes lutas internas, desde a
Confederação do Equador até as da Regencia, foram localizadas e muitas
vezes separatistas.(...) A Proclamação da República, por sua vez, foi o que se
sabe. Em contraste a guerra pôs em risco a vida de milhares de combatentes,
produziu um inimigo concreto e mobilizou sentimentos poderosos.
Indiretamente, afetou a vida de boa parte dos brasileiros, homens e mulheres,
de todas as classes e em todas as partes do País.41

Apesar dos diversos conflitos internos ocorridos durante o período regencial, como a
Cabanagem(1835-1840), Balaiada(1838-1841), a tentativa separatista farroupilha(1835-1845),
além da Guerra da Cisplatina, contra a Argentina (1825-1828), em 1864 o Brasil não gozava
de um Exército organizado capaz de guardar seu vasto território. Mesmo a superioridade

39
SCHWARCZ, Lília Moritz. As barbas do imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo:
Companhia das Letras, 1998, p. 297
40
CARVALHO, José Murilo de. Pontos e bordados: escritos de história e política. Belo Horizonte: Editora
UFMG, 1998, p. 332.
41
CARVALHO, José Murilo de. Pontos e bordados: escritos de história e política. Belo Horizonte: Editora
UFMG, 1998, p. 332
21

demográfica não seria suficiente para a contenção da ofensiva paraguaia. As carências


enfrentadas pelo Exército brasileiro eram de ordens diversas, desde força moral a suprimentos
básicos de armamento, municiamento e gêneros alimentícios. O recrutamento militar era
considerado um ato infamante, o forte estigma se devia também à prática comum de engrossar
as fileiras do Exército com indivíduos considerados vagabundos, forasteiros, pequenos
criminosos42, a escória da sociedade. Para um cidadão comum, alistar-se seria como se nivelar
a essa gente vil.

Apreendido o Marquês de Olinda e caracterizada a política de enfrentamento


do Paraguai em relação ao Brasil, o governo imperial mobilizou os modestos
efetivos do Exército espalhados pelo país, insuficientes para travar uma
guerra. O serviço militar era considerado um castigo, uma degradação, quer
pelos soldados do Exército serem compostos por aqueles vistos como
desclassificados pela elite, quer pelas más condições de vida nos quartéis.
Neles, havia punições corporais para as faltas cometidas pelos soldados; a
remuneração era a mesma desde 1825, quando a moeda valia o dobro em
relação a 1865; a tropa recebia apenas uma refeição por dia; as acomodações
nos quartéis eram péssimas e o armamento antiquado.43

Outro problema que irá assombrar as forças militares brasileiras é a ausência de apoio
logístico. A dificuldade de reconhecimento demográfico e de condições para a promoção do
recrutamento militar e ainda os problemas de locomoção e comunicação dentro do território
nacional são graves obstáculos à organização e gestão de recursos do Exército. O conde de
Suzannet, viajante que esteve no Brasil na década de 1840, relatou um episódio ilustrativo
dessa situação:

Existe em Ouro Preto uma carta manuscrita da Província de Minas. Solicitei


uma cópia de tal carta, que era necessária para minha viagem. O embaraço
foi grande: alguns dos pontos que eu pretendia visitar não estavam
marcados, e tive de recorrer às cartas de Arrowsmith, Spix e de Brué para
completar as lacunas. Exprimi em seguida ao presidente minha opinião sobre
a negligência em que se encontravam serviços tão úteis a uma boa
administração. Em um país onde tudo se assemelha à aventura, me
respondeu esse funcionário, é impossível obter indicações exatas. O governo
brasileiro não tem meios de organizar o serviço administrativo como deveria,
pois ele deve consagrar seus recursos a prevenir revoltas, ou as reprimir.44

42
MENDES, Fábio Faria. A economia moral no recrutamento militar no Império Brasileiro. São Paulo: Revista
Brasileira de Ciências Sociais, vol.13, n.38, 1998. Disponível em: <
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-69091998000300005&lang=pt >
43
BECKER, Klaus. Alemães e descendentes - do Rio Grande do Sul- na Guerra do Paraguai. Canoas: Hilgert &
Filhos, 1968, pp.45-6.
44
SUZANNET, Comte de. (1844), "Le Brésil en 1844. Situation morale, politique, commerciare et financière".
Revue des Deux Mondes, VII, 1844, p.84.
22

Ora, se dentro do território nacional havia séria defasagem em relação ao mapeamento


cartográfico, imaginemos as dificuldades enfrentadas pelo Exército Brasileiro em seu
deslocamento pela região de fronteira com o Paraguai e gerenciamento do avanço e
localização das tropas nas ofensivas realizadas ao longo da guerra.
Mesmo diante de todas essas barreiras, o Exército Brasileiro se consolidara, e para
alguns historiadores, nascera na Guerra contra o Paraguai. O recrutamento de guardas
nacionais por todo o império e a criação dos Corpos de Voluntários da Pátria, pelo Decreto nº
3.371, de 07 de janeiro de 1865, renovaram as Forças Armadas Imperiais. O decreto instituiu
algumas normas de incentivo ao voluntariado:

Art. 2º- Os voluntários, que não forem Guardas Nacionais, terão, além do
soldo que recebem os voluntários do Exército, mais 300 réis diários e a
gratificação de 300$000, quando derem baixa, e prazo de terras de 22.500
braças quadradas nas colônias militares ou agrícolas.

Art. 9º- Os voluntários terão direito aos empregos públicos de preferência,


em igualdade de habilitações, a quaisquer outros indivíduos.45

Também há previsão de pensão para o voluntário que ficasse “inutilizado” e para os


familiares, em caso de morte do voluntário em guerra. Por todo o império foram formados
batalhões de voluntários, entre eles o 22º Corpo de Voluntários do Maranhão, o 26º Batalhão
de Voluntários do Ceará, o 9º Batalhão de voluntários do Rio Grande do sul, o 17º Batalhão
de Minas Gerais. O 2º Batalhão de Voluntários da Província do Piauí, onde consta o registro
da presença da soldado Jovita Feitosa, foi dissolvido no 24º Batalhão na 4º divisão do
Exército durante a guerra.46
A divulgação do decreto através da imprensa e de ofícios circulares dirigidos aos
postos de comando da Guarda Nacional em todas as localidades difundiu o grito de “socorro à
pátria”. No Piauí podemos localizar uma vasta correspondência em resposta à convocação do
voluntariado militar na Casa Anísio Brito (Arquivo Público do Estado do Piauí). São diversos
manuscritos em que autoridades policiais e comandantes da Guarda Nacional respondem às
instruções para o alistamento de voluntários e de guardas nacionais. Temos a carta do Quartel
do Comando Superior Substituto de Jaicós, assinada por Marcos Ferreira Gomez, num tom
ufanista que bem exemplifica o discurso presente em vários desses códices.
45
ARAÚJO, Johny Santana. Op.cit., p. 195.
46
CHAVES, Monsenhor. Obra Completa. Teresina: Fundação Cultural Monsenhor Chaves, 1998, p. 227
23

(...) Cumpre dizer a V. Exª que, a cerca das mencionadas instruções


addicionais nem uma dúvida, e nem um embaraço me ocorrem a cerca da
matéria de que trata as instruções de 11 de março; assim como que não
pouparei esforços nem sacrifícios para bem desempenhar os importantes
deveres que nas actuaes circunstâncias me impõe o bem commum, a
salvação da dignidade nacional, atrozmente aggredida pela selvageria do
Paraguay.47

A Imprensa desempenhou um papel fundamental para a substituição da perspectiva


infamante do alistamento militar por uma perspectiva nobre e heróica. O governo imperial
usou os jornais e periódicos para a mobilização de voluntários à guerra, conclamando ideais
patrióticos e impulsionando a formação de um sentimento de nacionalidade.

O ideário nacionalista do século XIX impregnou as páginas dos jornais no


mundo, um fenômeno que não foi diferente no Brasil, o que de certa forma
convencionava ser meio direto para expressar os signos de identidade da
nação, signos esses que poderiam criar um sentimento de inclusão ou de
exclusão, mas que ajudariam a definir as relações entre o império e seus
súditos ou cidadãos.48

A construção e divulgação de uma imagem aterradora do inimigo da pátria foram


fundamentais para se conferir um caráter de unidade à nação 49. União não só pelo amor à
pátria, mas pelo horror ao inimigo comum.
No contexto da guerra a criação e profusão de símbolos capazes de associar a guerra
ao ideal de nacionalidade e cidadania são o foco central da propaganda imperial, incorporada
pelos governos provinciais, imprensa e intelectuais50. Palavras ou frases de ordem são
proclamadas por todo o império: bravura, amor à pátria, selvagens inimigos estrangeiros,
defender a dignidade da Pátria ultrajada, levar a civilização à barbárie.
Citando os exemplos da Grã- Bretanha, Estados Unidos e Índia, Hobsbawm explica
que no âmbito das “tradições inventadas”, temos uma série de novos símbolos e acessórios
criados pelos Estados nacionais. Dentre eles destacam-se o hino nacional, a bandeira nacional
e a construção de personagens figurativas da nação. Essa nova simbologia estaria apoiada

47
Correspondência do Quartel do Comando Superior Substituto em Jaicós/ Presidente da Província. Casa Anísio
Brito, Teresina, Seção de Códices, livro.001, nº 73, 17 de maio de 1865.
48
ARAÚJO, Johny Santana.. Op. Cit., p. 49.
49
CARVALHO, José Murilo de. Pontos e bordados: escritos de história e política. Belo Horizonte: Editora
UFMG, 1998, p. 334.
50
CARVALHO, José Murilo de. Pontos e bordados: escritos de história e política. Belo Horizonte: Editora
UFMG, 1998,p.334.
24

numa série de práticas também inventadas e com a função precípua de promover valores
difusos como “patriotismo”, “lealdade”, “dever”, o ideal de cidadania. Estas “práticas
inventadas” estariam normalmente associadas a rituais de promoção dos tais símbolos
nacionais.

(...) embora o conteúdo do patriotismo britânico ou norte-americano fosse


evidentemente mal definido, mesmo que geralmente especificado em
comentários associados a ocasiões rituais, as práticas que o simbolizavam
eram praticamente compulsórias – como, por exemplo, o levantar-se para
cantar o hino nacional na Grã-Bretanha, o hasteamento da bandeira nas
escolas norte-americanas.51

Destaque para a bandeira nacional, que em tempos de guerra deverá ser protegida com
a própria vida. O discurso do Presidente da província do Piauí, Franklin Dória proferido no
embarque do 1º de Voluntários da Pátria rumo ao cenário da guerra ( em 14 de maios de
1865), é exemplificativo de rituais que atribuíam um caráter sagrado à bandeira, inclusive
com a participação de representantes da ordem religiosa.

As bênçãos da igreja acabam de santificar esta bandeira, que em boa ora vos
é destinada. Sinto-me possuído do mais ardente júbilo cabendo-me a fortuna
de confiá-la a vossa guarda. Contemplai-a, porém, um momento e refleti em
sua sublime significação, bem como nos deveres a que ela vos liga.
Este é o símbolo de nossa nacionalidade e de nossa união. Ainda não faz
meio século que o ilustre fundador do Império, de volta do Ipiranga,
outorgou-o a nossa Pátria. Se falta-lhe o prestígio da antiguidade, sobre-lhe o
esplendor das glórias que nele se resumem. Compreendeis, portanto, o valor
deste penhor que tenho de entregar-vos. Além do culto do patriotismo,
comum a todos os brasileiros, esta bandeira reclama de vós, como soldados,
uma veneração especial. Sois responsáveis por ela perante o Deus dos
Exércitos e perante a nação inteira. Afiança-me vossa natural bravura que a
defendereis no mais duro das refregas e que o inimigo não logrará arrancá-la
de vossas mãos, Se não depois de vos ter arrancado a vida.52

Do lado Paraguaio, a valorização da bandeira como um símbolo sagrado da nação


também pode ser vislumbrada num episódio militar registrado pelo Diário Oficial de 21 de
junho de 1866 (Rio de Janeiro):

51
HOBSBAWM, Eric. Introdução: a invenção das tradições. IN: HOBSBAWM, Eric; RANGER, Terence
(Orgs.). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997, p.19.
52
CHAVES, Monsenhor. Op. Cit., pp. 102-103.
25

O General Osório mandou entregar ao Visconde de Tamandaré a lança e


parte de uma bandeira paraguaia.
Essa bandeira foi tomada pela ordenança do capitão ajudante do General
Osório, e o paraguaio que a trazia no combate sucumbiu pelejando
valentemente, empregando, depois de ter caído por terra, os últimos
momentos em despedaçar a bandeira, para que não caísse em poder do
inimigo.(...)
Quando o paraguaio caiu atravessado pela estocada, o brasileiro intimou-lhe
que se rendesse; ele, porém, em vez de responder, pôs-se a romper com os
dentes a bandeira que lhe tinha sido confiada.53

No Brasil, o próprio Dom Pedro II, se tornara um símbolo patriótico, celebrado como
o voluntário nº 1 da Pátria.
Apesar da promoção intensa dos símbolos nacionais na imprensa e nos espetaculares
cerimoniais de saudação às tropas que embarcavam rumo à guerra, a resistência foi uma
constante. O fato de existir certo consenso sobre um momento entusiástico do alistamento
militar voluntário no início da guerra, não significa que se trata de um período sem qualquer
resistência.
A província de Minas Gerais que já em 1830 contava com cerca de 730.282
(setecentos e trinta mil e setecentos e setenta e oito) habitantes54, teria enviado
aproximadamente 4.090 (quatro mil e noventa) voluntários para guerra55, enquanto que a
província do Piauí, com uma média de 200.000 ( duzentos mil ) habitantes durante a guerra,
enviou cerca de 3.800 (três mil e oitocentos) voluntários aos campos de batalha56. Os mineiros
teriam sido mais resistentes aos clamores nacionais e ao recrutamento forçado?
Considerando que esses números cobrem toda a guerra e que com o passar da euforia
inicial recorreu-se ao recrutamento forçado, podemos imaginar que dentro dessa estatística,
sob a insígnia de “voluntários da pátria” incluem-se muitos soldados involuntários.
Adversários políticos e inimigos pessoais de figuras importantes nos cenários locais
eram coagidos a alistarem-se como “voluntários”. Também estavam presentes muitos negros
libertos e escravos posteriormente intitulados “voluntários a pau e corda”, pelos
republicanos57. Sem falar no recrutamento forçado de criminosos não condenados, forasteiros,

53
PIMENTEL, Joaquim S. Azevedo. Episódios Militares. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 1978.
54
MELLO FILHO, Marcelo S. B.;SANTOS JÚNIOR, José Maria dos; RODARTE, Mário M. Sampaio. Nem
desconcentração espacial nem ruralização: o processo de ocupação demográfica, na província de Minas Gerais,
entre as décadas de 1830 e 1870, p.7-9. Disponível em: <
www.cedeplar.ufmg.br/seminarios/seminario_diamantina/2006/D06A017.pdf > Acesso em: maio de 2011.
55
DUARTE, General Paulo de Queiroz. Os voluntários da Pátria na Guerra do Paraguai. Rio de Janeiro:
Biblioteca do Exército, 1981, V. I, p. 217.
56
CHAVES, Monsenhor. Op.cit., p. 226.
57
VAINFAS, Ronaldo. Op. Cit., p. 325.
26

viajantes, homens que não conviviam com suas esposas ou que tivessem deflorado mulheres
jovens sem o devido casamento, a que chama atenção Araújo. O mesmo autor elenca algumas
formas identificadas de resistência ao serviço militar:

[...] Escondiam-se das autoridades, fugiam das prisões, reagiam


violentamente aos recrutadores, fingiam problemas de saúde, utilizavam de
documentos falsos, casamentos precipitados e falsas alegações de serem
escravos ou membros da Guarda Nacional.58

Num primeiro momento o casamento era uma forma de se furtar ao serviço militar,
quando era dada preferência ao recrutamento de solteiros. O prolongamento da guerra acabou
com essa prerrogativa dos casados.
No Piauí, se de um lado existem indícios de grande entusiasmo patriótico e militar,
enfatizados por Monsenhor chaves e Odilon Nunes, de outro subsiste a oposição ao sacrifício
como sugere a seguinte correspondência dirigida ao Presidente da Província Franklin Américo
de Meneses Dória, assinada por José Aguiar do distrito de São José:

[...] Vou empregar todos os meios ao meu alcance a fim de ver se obtenho
satisfazer o pedido de V. Exª., reunindo alguns voluntários para o serviço da
guerra, não sei porém, se terei esse gosto, porque, como V. Exª. Terá
observado, o povo Piauhyense é demasiadamente medroso para sahir da
Província; e agora, por causa do recrutamento, todos os homens que estão
nas circunstâncias de marcharem, refugiarão-se nos Mattos.59

Talvez esse tipo de discurso fosse uma forma de justificar de antemão um eventual
fracasso na mobilização de “voluntários”, mas de qualquer forma a fuga e ocultamento nas
matas era uma maneira comum de se defender do “voluntariado” forçado, por todo o império.
Se até mesmo os guardas nacionais, considerados reservas do Exército a partir do decreto nº
602, de 19 de setembro de 185060, refugiavam-se nas matas para escapar à designação61, que
dirá a população sem patentes, em grande parte rural, com uma rotina consagrada na
trivialidade.

58
ARAÚJO, Johny Santana de Araújo. Op.cit., p.141.
59
Correspondência Comarca de São José/ Presidente da Província. Casa Anísio Brito: Seção de Códices, livro
001, nº 07, 13 de março de 1865.
60
BRASIL. Decreto nº 602, de 19 de setembro de 1865. Disponível em: <
www.camara.gov.br/Internet/InfDoc/conteudo/colecoes/Legislacao>. Acesso em junho de 2011.
61
Correspondência do presidente da província/ autoridades militares, Ofício nº 72, Livro 3, 14 de set. de 1865,
Seção de Códices, APEM, São Luís Apud ARAÚJO, Johny Santana de. Op. Cit., 148.
27

Além do temor ao inimigo “cruel” e “selvagem”, existia o medo das grandes


epidemias que devastavam os batalhões antes mesmo do corpo a corpo: o cólera, a varíola,
disenterias, doenças causadas por má alimentação, condições precárias de higiene, consumo
de água poluída, insuficiência de agasalhos e vestimentas adequadas.
Outra questão que assombrou a campanha de voluntários no decorrer da guerra foi o
descumprimento das regalias concedidas pelo decreto 3.371, de 07 de janeiro de 1865, já
mencionado. A indenização em dinheiro e terras e o direito de preferência na ocupação de
cargos público, prometidos aos “voluntários” que retornassem à pátria, eram comumente
descumpridos, ignorados. O que num dado momento foram atrativos para servir à nação em
guerra se transformou em grande decepção para aqueles que retornavam com toda sorte de
traumas que uma guerra tão dura pode gerar. Sem falar nos milhares que não retornaram. O
desabafo do voluntário piauiense Belarmino Castelo Branco é muito rico do ponto de vista
das sensibilidades, desse sentimento de decepção e desamparo.

Não tendo, senhores, a necessária habilitação afim de escrever para um


público ilustrado, conservei-me silencioso por algum tempo, porém ferido
pela mais negra ingratidão, obrigado por uma força irresistível e não
podendo suportar calado tantas injustiças, resolvi com as minhas rudes
expressões fazer-vos ciente do quanto sofrem aqueles que, ouvindo o
reclamo de sua Pátria, por ela derramaram o seu sangue generoso em
longínquas terras de um país estrangeiro.
[...]
Naqueles dias tudo eram flores, tudo eram garantias.
Eu os vi embarcarem para a Campanha cobertos de benções, de vivas e
louvores.
Tudo suportamos sem desesperar, porque era em favor de nossa Pátria.
Treze vezes, em combate, minha vida arrisquei por este ingrato país.
De volta daquela campanha na qual gastei cinco anos de minha vida
pugnando pela honra nacional, baldo de recursos, falta de meios para
subsistir com decência e dignidade, dirige-me a S. Exª. O Sr. Dr. Manoel do
Rêgo Barros Souza Leão, Presidente desta Província, pedindo-lhe um
emprego, baseando-se no Decreto nº 3.371 de 07 de janeiro de 1865, o qual
manda dar a preferência aos Voluntários da Pátria sobre outro qualquer
indivíduo com igualdade de habilitação.
Tudo debalde...62
[...] E eis agora a sua situação; depois de haver triunfado das balas inimigas

Por um tempo Berlamino Castelo Branco hesitou em tornar público seu protesto, sua
insatisfação com o tratamento outorgado aos heróis nacionais pela própria nação. Ao revelar a
angustia e a mágoa que se encontrava no “recôndito de seu foro íntimo, Berlamino passa por

62
Jornal O Amigo do Povo, 31 de março de 1871 Apud CHAVES, MONSENHOR. Op.cit.,p. 239.
28

uma “rememoração dolorosa”, produzindo um exemplo interessante dentro das relações


possíveis entre memória e (res)sentimentos63.
Trata-se de um discurso movido pelo ressentimento, pelo rancor, pelas marcas de
sofrimento e desamparo tatuadas não só pelo inimigo nas trincheiras, mas também pelo
abandono da nação. Nosso voluntário, arrisco-me a dizer, sente-se traído pela pátria-mãe
como um órfão abandonado a própria sorte. Em nenhum momento questiona a validade do
sacrifício a que se submetera, mas defende que assim como o voluntário acolheu e protegeu a
pátria, ela deveria fazer o mesmo em relação aos seus heróis, seus salvadores. Clama por
justiça do mesmo modo que a nação um dia clamou por patriotismo, fazendo uso, inclusive,
do mesmo simbolismo nacionalista: “ouvir o reclamo de sua pátria”, “tudo suportar em favor
da pátria”, da “honra nacional”.
Apesar de conceitos sobre os quais todos julgamos ter uma noção, Nação,
Nacionalismo, Patriotismo e simbologia nacional são conceitos difíceis de se precisar. Talvez
porque não seja possível ou mesmo interessante reduzir estes conceitos tão múltiplos de
sentimentos e interesses a uma fórmula exata. Eric Hobsbawm vem em nosso socorro ao
discutir a idéia de nação, “protonacionalismo” e patriotismo. Em sua elaboração conceitual as
nações seriam “fenômenos duais, constituídos essencialmente pelo alto, mas que, no entanto,
não podem ser compreendidas sem serem analisadas de baixo, ou seja, em termos de
suposições, esperanças, necessidades, aspirações e, interesses das pessoas comuns”64.
Dessa forma a nação seria uma espécie de simbiose entre a ordem política oficial,
emanada de um Estado organizado, e as aspirações coletivas, os sentimentos das pessoas
comuns em relação à ordem estabelecida. Jovita pode ser situada nesse entremeio, entre a
propaganda estatal para a guerra e a recepção desta pelas camadas populares. Era fundamental
para a obtenção de “bons” resultados na Guerra contra o Paraguai, torná-la um projeto
coletivo. Daí a importância de se construir e reforçar ícones, símbolos nacionais com os quais
todos pudessem se identificar.
Schwarcz, ao discutir a relevância dos sistemas simbólicos de uma sociedade conclui:

A criação de símbolos não é gratuita e arbitrária; não se faz no vazio social.


Ao contrário, os símbolos são reelaborados em razão do contexto cultural em

63
BRESCIANE, Stella; NAXARA, Márcia(Orgs.)Memória e (res)sentimento: indagações sobre uma questão
sensível. Campinas: Editora da Unicamp, 2001.
64
HOBSBAWM, E. J. Nações e Nacionalismos desde 1780: programa, mito e realidade. Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 1990, p. 20.
29

que se inserem, além de que o maior ou menor sucesso de sua manipulação


encontra-se diretamente vinculado a uma ‘comunidade de sentidos’.65

A Guerra contra o Paraguai é um contexto cultural mais que válido em grau de


impacto social. A comunidade de sentidos de que fala Schwarcz fora arquitetada através dos
discursos de intelectuais, parlamentares, governantes locais, veiculados principalmente pela
imprensa. Uma pequena amostra desse processo é dada pelo trecho retirado do jornal
piauiense A Imprensa, uma autentica nota de apoio ao governo imperial:

Nós o reconhecemos, rendemos justiça às boas intenções do governo e


mesmo sabemos que nunca houve época em que elle fosse mais digno de
desempenhar a missão de anjo tutelar da nação, do que a actual.
E’ assim: attesta-o sobre todo o empenho cheio de vigor e sabedoria com que
ele toma a peito vingar a nação dos ultrajes que infligiu-lhe o dictador do
Paraguay; attesta-o a guerra que sustenta com esta república, em que sua
dedicação corresponde (?) ao heróico patriotismo dos brasileiros.66

Associada a esse aparato de propaganda deve-se acentuar a receptividade da população


em relação ao ideal patriótico promovido, decerto despertar de sentimentos e ressentimentos
em relação à ofensiva paraguaia, sem aviso prévio.
Essa publicação é uma pequena amostra do movimento promovido pela imprensa em
apoio à guerra, ao governo imperial. Os periódicos foram peças chaves no “jogo de sedução”
das paixões patrióticas. Atuavam como meios de integração nacional, sendo comum
encontrarmos, por exemplo, no jornal piauiense A Imprensa, sequências de transcrições de
publicações feitas pelo jornal maranhense O Paiz, e pelo Jornal do Comércio, com circulação
na corte. Isso promovia certo reconhecimento das questões políticas e sócio-culturais de
outros centros, em especial do Rio de Janeiro. Mesmo com atrasos, quando as notícias
chegavam, chegavam através dos periódicos. Nos livros de manuscritos do Arquivo Público
do Estado do Piauí é comum encontrarmos depoimentos de governantes locais afirmando que
tomaram conhecimento de comunicados e decretos oficiais através de sua publicação nos
jornais.

65
SCHWARCZ, Lília Moritz. As barbas do imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo:
Companhia das Letras, 1998, p.20.
66
Jornal A IMPRENSA, Teresina- PI, 27 de julho de 1865, Anno I, nº 1.
30

É nesse universo dos sentimentos que o patriotismo ganha forma, sendo tratado por
Hobsbawm como uma “religião cívica”67 necessária aos Estados nacionais em formação. Uma
religião voltada ao culto dos deveres cívicos e à construção de modelos de cidadania, de
lealdade à nação. Nada como uma guerra externa para o exercício de tal cidadania, não
existindo prova maior de lealdade à pátria que o alistamento voluntário nas forças armadas.
Kujawski levanta um conceito de Patriotismo ainda mais subjetivista, revelando certo
ufanismo na percepção dessa relação entre o sujeito e a pátria.

Patriotismo é o meu amor à pátria como a mim mesmo. Nada de grande e


essencial se faz na história sem o amor à pátria, e não somente na política e
na sociedade, como na poesia, nas artes, e no pensamento. Na vibração
patriótica, meu projeto pessoal se soma ao projeto coletivo e se alarga e
enriquece com este. Na vida dos grandes homens o seu melhor eu é a
pátria.68

Em momentos de elevada “vibração patriótica”, os projetos e vivências particulares


seriam suplantados pelos interesses da nação. É uma perfeita idéia de sacrifício patriótico.
Mas como se opera a sedução de indivíduos comuns a ponto de se exigir deles os maiores
sacrifícios, incluindo-se a própria vida, em nome de uma realidade abstrata como a nação? De
acordo com Hobsbawm69, essa mobilização é possível a partir da elaboração de uma
linguagem composta de práticas e comunidades simbólicas voltadas à construção de uma
identidade nacional a partir da auto-afirmação, e ao mesmo tempo, da diferenciação em
relação a outras entidades políticas.
A sedução dos “nacionais” é operacionalizada através da função didática dos cerimoniais e
liturgias, num esforço educativo para a propagação das “virtudes” cívicas e morais. É um
processo de aprendizagem sobre como ser “brasileiro”, e gira em torno dos símbolos
nacionais: bandeira, hino, forças armadas e heróis nacionais.
Pierre Bourdier definiu o poder simbólico como um poder de “fazer ver” e “fazer
crer”, reforçando o argumento de que esse poder tem a aptidão para criar um vínculo coletivo,
através de uma linguagem própria.

Os símbolos são os instrumentos por excelência da integração social:


enquanto instrumentos de conhecimento e de comunicação, eles tornam

67
HOBSBAWM, E. J. Nações e Nacionalismos desde 1780: programa, mito e realidade. Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 1990, p. 106.
68
KUJAWSKI, Gilberto de Mello. Patriotismo e Nacionalismo. São Paulo: Massao Ohno Editor, 1997, p.15.
69
HOBSBAWM, Eric. Introdução: a invenção das tradições. IN: HOBSBAWM, Eric; RANGER, Terence
(Orgs.). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997, p.19
31

possível o consensus acerca do sentido do mundo social que contribui


fundamentalmente para a reprodução da ordem social: a integração lógica é a
condição da integração moral.70

Mas não podemos nos enganar, essa linguagem é complexa e envolve um contexto
sociopolítico de despertar de comoção, sentimentos e ressentimentos diversos. Segundo Pierre
Ansart, os ressentimentos, quando partilhados por um grupo, trazem certa coesão a esse
grupo, produzindo um sentimento de identificação coletiva.

(...) Os ressentimentos, os sentimentos compartilhados de hostilidade, são


um fator eminente de cumplicidade e solidariedade no interior de um grupo,
e suas expressões, as manifestações (as “explosões de sentimento”, como diz
Nietzsche) podem ser gratificantes. O ódio recalcado e depois manifestado
cria uma solidariedade afetiva que, extrapolando as rivalidades internas,
permite a reconstituição de uma coesão, de uma forte identificação de cada
um com seu grupo.71

Em menor escala podemos comparar tal gestão de ressentimentos à comum


aproximação de familiares diante de uma tragédia com um ente querido. É como se a união
diante de uma mágoa trouxesse certo conforto. Compartilhar ressentimentos pode ser uma
forma de suportá-los mais facilmente, mesmo na esfera pública, como numa guerra externa. A
solidariedade afetiva pode ser uma arma de defesa poderosa, e o “poder simbólico” é
importante aliado na sua promoção.
Em relação à Guerra contra o Paraguai, foi constatada uma grande mobilização de
voluntários da pátria nos dois primeiros anos da guerra, com manifestações patrióticas nas
diversas províncias do vasto território brasileiro. Os cerimoniais de verdadeira adoração e
sacralização dos símbolos nacionais estavam sempre presentes nos espetáculos públicos de
celebração da partida dos batalhões brasileiros rumo aos campos de batalha e na recepção dos
sobreviventes que retornariam como heróis.
Na província do Piauí, Monsenhor Chaves descreve bem uma mistura de tensão e
entusiasmo diante da possibilidade de lutar pela “nação”.

70
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998, p.10.
71
ANSART, Pierre. História e memória dos ressentimentos. IN: BRESCIANI, Stella; NAXARA, Márcia
(Orgs.). Memória e (res)sentimento: indagações sobre uma questão sensível. São Paulo: Editora da Unicamp,
2004, p. 21-22.
32

Mas a cidade só se convenceu realmente da dura realidade quando chegou a


ordem para seguir o Corpo de Guarnição. Agora, sim, a guerra nos atingia
em cheio. Com o batalhão partiram as esperanças, os anseios e os cuidados
de Teresina, que já se acostumara a considerá-lo coisa sua, fazendo parte
integrante da sua vida. Foi, pois, com a mais viva emoção que os
teresinenses assistiram aos últimos preparativos do Corpo que ia embarcar
para o sul. A cidade em peso acompanhou comovida os exercícios de fogo,
os combates simulados, as marchas forçadas do batalhão que se adestrava
para a guerra.
Na véspera da partida algo de indefinível pairava sobre Teresina. A tropa
dormiu aquartelada. Naquela noite em muitos lares havia lugares vazios
cujos donos nunca mais voltariam a preenchê-los.
Centenas de olhos não se fecharam numa vigília de ansiedade, de incerteza e
sofrimento.
Pela madrugada já a Praça da Constituição regurgitava de povo. Ninguém
queria faltar àquela despedida.
Cedo, ainda, o Batalhão, precedido de sua própria banda, abalou do quartel
de linha para, antes do embarque, pedir a bênção da padroeira da cidade, N.
Senhora do Amparo. No patamar da igreja foi celebrado o Santo Sacrifício
da Missa, a que todos assistiram com a mais viva devoção.
Terminada a missa, o Sr. Presidente, o Dr. Franklin Dória, dirigiu a palavra
aos soldados, em vibrante discurso, parabenizando-os pela honra que lhes
era concedida de defenderem, no campo de batalha, a dignidade da Pátria
ultrajada. Em seguida a multidão abriu ala até o porto e os soldados
passaram recebendo do povo a mais delicada demonstração de simpatia, de
saudade, de esperanças de um breve e feliz retorno.
(...)
Eram 08 horas da manhã do dia 10 de março de 1865. Para nós havia
começado a guerra.72

Trata-se de um ritual de gestão de sentimentos e temores, informado pelo discurso


religioso católico de celebração e preparação espiritual dos soldados; e pelo discurso cívico,
entoado pelo presidente da província e representado pela simbologia do fardamento, da
bandeira e execução do hino nacional. A multidão traz um elemento de legitimidade à
violência institucionalizada da guerra, ao mesmo tempo em que glorifica o sacrifício daqueles
que se lançam em socorro da nação. A gestão dos ressentimentos se tornou uma estratégia
bastante eficaz na mobilização do apoio popular à guerra, fomentada pela publicação de
discursos acalorados que proclamavam o dever de todos os nacionais em vingar a honra da
pátria ultrajada, a honra de suas mulheres violentadas, de seus irmão mortos e saqueados.
A nação passa a ser representada como uma grande família, uma irmandade, cujos
laços sanguíneos podem ser substituído pelo sentimento patriótico. Discutindo o papel da
Guerra contra o Paraguai na construção de um sentimento nacional, José Murilo de Carvalho

72
CHAVES, Monsenhor. op.cit., p.101.
33

afirmara que “na música e na poesia popular o patriotismo foi exaltado, a pátria passou a
disputar com a família a lealdade dos jovens, o Brasil passou a ser uma realidade concreta.”73
Ao ser interrogada sobre os motivos de sua atitude belicosa, Jovita afirmara que “seu
maior desejo é bater-se com os monstros que tantas affrontas tem feito às suas irmãs de Matto
74
Grosso, é vingar-lhes as injúrias ou morrer nas mãos d’esses tigres sedentos” . Trata-se de
uma declaração que corrobora perfeitamente essa idéia de irmandade nacional e do
ressentimento denotado no desejo de vingança.
O fato de uma jovem habitante da pequena cidade de Jaicós-PI ter sido atingida por
essa avalanche de patriotismo é um importante demonstrativo da eficácia do movimento de
gestão de sentimentos do governo imperial. Essa eficácia não seria possível se inexistisse um
ambiente receptivo para a construção do inimigo, de um lado, e a do cidadão ideal, de outro.
José Murilo de Carvalho, em estudo sobre os “tipos de cidadania”, conceitua-a como
“a maneira pela qual as pessoas se relacionam com o Estado”, incluindo-se aí o serviço militar
no Exército, na Armada, e na Guarda Nacional75. No mesmo estudo o autor chega à conclusão
de que a idéia oitocentista de cidadania brasileira teria sido forjada predominantemente de
cima para baixo, numa “cultura política súdita”, baseada em sistemas de lealdade. O controle
político seria exercido através desses sistemas, que como quaisquer outros, possuíam fendas.
Historicamente o serviço militar figurava como uma atividade marginalizada,
reservada à escória da sociedade, com exceção dos altos postos, obviamente. Assim como as
mulheres do século XX, os soldados do serviço militar “não eram cidadãos ativos: a lei
proibia que praças de pré votassem”76. A Guerra contra o Paraguai representa um momento de
excepcionalidade, operando-se a revalorização do Exército, a partir do desenvolvimento de
uma retórica patriótica em torno deste. Era necessário transformar o imaginário popular de
modo a tornar glorioso e honrado o sacrifício patriótico de servir à nação em tempos de
guerra.

73
CARVALHO, José Murilo de. Cidadania: tipos e percursos. Revista Estudos Históricos, 1996, n. 18, p.351.
74
Jornal A Imprensa. Teresina, 27 de julho de 1865, Anno 1, nº 01.
75
CARVALHO, José Murilo de. Cidadania: tipos e percursos. Revista Estudos Históricos, 1996, n. 18, p. 338.
76
CARVALHO, José Murilo de. Cidadania: tipos e percursos. Op.cit., p. 349.
34

CAPÍTULO II

2. JOVITA ENTRE OUTRAS: RELAÇÕES DE GÊNERO E PRESENÇA


FEMININA NA GUERRA

Ao grito da guerra
Lá surge da Serra Jovita gentil,
Só tem do seu sexo
O mimoso perfil
(Jornal do Comércio - RJ, 1865)77

2.1. ORDEM E DESLOCAMENTO DOS PAPÉIS SEXUAIS

A trajetória de Jovita Feitosa, suas experiências e sensibilidades, o quadro político e


socioeconômico que as informam a simbologia da guerra e o ideal patriótico discutidos no
primeiro capítulo; a memória e a imagem edificadas durante e depois da guerra interagem de
diversas formas, como um circuito elétrico no qual se encontram diversas correntes essenciais
para a compreensão do mito Jovita. Em se tratando de história, esse circuito não pode ser
pensado como um sistema fechado, devem ser consideradas as suas fissuras, aberturas, de
modo a possibilitar uma pluralidade de abordagens, de questões e propostas de exploração.
Como articula Maria Odila Leite Dias, os estudos das mulheres em sociedade
correspondem a um “domínio inóspito para quem sofre de ansiedade cartesiana”78. Jovita
Feitosa é prova de que não existe uma “condição feminina” que não possa ser violada, que
não existe definição com enquadramento perfeito do ser feminino ou do ser masculino,
tampouco de suas relações. A “despeito dos condicionamentos culturais”, as mulheres como
indivíduos são também “agentes de si mesma”79.
Também Natalie Davis em “Nas margens”80 dá mostras de como as mulheres em
diferentes culturas constroem desvios pelas margens sociais, elaborando estratégias de uso das
hierarquias e simbolismos sexuais a seu favor, elegendo discursos e lugares em que poderiam
exercer influência, gozar de maior liberdade, de mais poder. Sobre as experiências das três
77
Em MATOS, Kelma. Jovita Feitosa. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2001, p. 9.
78
DIAS, Maria Odila Leite. Teoria e método dos estudos feministas: perspectiva histórica e hermenêutica do
cotidiano. In: COSTA, Albertina de Oliveira; BRUSCHINI, Cristina (Orgs.). Uma questão de gênero. Rio de
Janeiro: Editora Rosa dos Tempos/ Fundação Carlos Chagas, 1992, p. 39.
79
Idem, ibidem, p. 40.
80
DAVIS, Natalie Zemon. Nas margens: três mulheres do século XVII. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
35

mulheres que estudou, a católica Marie de L’Incarnation, a judia Glikl bas Judah Leib e a
protestante Maria Sibylla Merian, conclui:

Cada qual a sua maneira, essas mulheres apreciaram ou adotaram uma


posição marginal, reconstituindo-a como um centro localmente definido.
Para Glikl o mais importante eram as conexões e a Gemeinde judaicas. Para
Marie eram o convento das ursulinas e o pátio de ameríndias e francesas na
mata canadense (...). Para Maria Sybilla eram uma colônia labadista na
fronteira da Holanda e depois os rios e florestas tropicais do Suriname (...).
Em cada um dos casos a pessoa se libertou um pouco das restrições das
hierarquias européias, deixando-as de lado.81

Não se trata de romantismo ou de uma fuga desesperada da vitimização, mas da


percepção e uso das brechas desvendadas e criadas nos sistemas de dominação cultural, na
“dominação masculina”. As possibilidades de uso e manipulação das convenções contra o
próprio sistema que as institui, a liberdade e o poder que podem existir por trás de um lugar à
primeira vista aprisionante, como um convento ou um fardamento militar. Nessa direção, Dias
levanta a importância, particularmente para o pesquisador - ou pesquisadora - de se explorar
trajetórias como a de Jovita Feitosa.

Libertar-se de categorias abstratas e de realidades universais como a


“condição feminina” é uma preocupação que decididamente enfatiza o
interesse em desconstruir valores ideológicos e em perseguir trilhas do
conhecimento histórico concreto que, reduzindo o espaço e o tempo a
conjunturas restritas e específicas, permitem ao estudioso a re-descoberta de
papéis informais, de situações inéditas e atípicas, que justamente permitem a
reconstituição de processos sociais fora de seu enquadramento estritamente
normativo. Documentar o atípico não quer dizer apontar o excepcional, no
sentido episódico ou anedótico, mas justamente encontrar um caminho de
interpretação que desvende um processo até ali invisível, por força da
tonalidade restrita das perguntas formuladas tendo em vista estritamente o
normativo.82

Dias defende a necessidade de uma história concreta, casuística, com um olhar para
além das fronteiras socionormativas, capaz de dar suporte à história das mulheres e das
desigualdades e tensões que a perpassam83. Documentar o atípico seria uma forma de

81
DAVIS, Natalie Zemon. Nas margens: três mulheres do século XVII.op.cit., p. 196.
82
DIAS, Maria Odila Leite. Op.cit., p. 40.
83
Michel Foucault, amplamente citado na historiografia que pensa o feminino, o masculino e suas relações, com
sua ênfase na desnaturalização de quaisquer objetos culturais, intelectuais, no desmantelamento de conjecturas
fixas e imóveis sobre esses objetos e na existência de fontes diversas de poder nas micro-relações, “nos
36

desestabilizar, desnaturalizar as relações de poder, as hierarquias que atravessam as relações


de gênero. A recusa historiográfica à idéia de uma “condição feminina” imponente e
intransponível, representada por relatos e descrições apenas de modelos que se encaixam nos
padrões normativos, opera no sentido de problematizar essas relações desiguais.
Jovita Feitosa e a áurea mítica construída sobre ela transitam por dois universos, o
masculino e o feminino, como uma heroína virginal que pretende usurpar o monopólio
masculino da violência, da guerra, rompendo com a idéia de qualquer “condição” inviolável84.
A história contada sobre ela e a lenda que se edifica nestes discursos não confrontam sua
identidade feminina, o fato de ser mulher, mas as restrições, as amarras que se tornaram
obstáculo ao seu intento patriótico. Por isso, as imagens sobre Jovita, embora não a
identifiquem com a idéia recorrente de “sexo frágil”, disseminada em relação às mulheres,
também não questiona a estrita divisão sexual dos papéis e espaços sócio-políticos do século
XIX, tal como retratada por Michelle Perrot:

O século XIX levou a divisão das tarefas e a segregação sexual dos espaços
ao seu ponto mais alto. Seu racionalismo procurou definir estritamente o
lugar de cada um. Lugar das mulheres: a Maternidade e a Casa cercam-se
por inteiro.[..] “Ao homem, a madeira e os metais. À mulher, a família e os
tecidos”, diz um texto operário(1867). A lista dos “trabalhos de mulheres” é
codificada e limitada. A iconografia, a pintura reproduzem à saciedade essa
imagem reconfortante da mulher sentada, à sua janela ou à sua lâmpada,
eterna Penélope, costurando interminavelmente.85

Jovita não fica sentada em sua janela enquanto a guerra acontece, não quer ficar de
fora desse grande evento nacional. Recusa-se a permanecer no anonimato diante de toda a
mobilização provocada pela guerra. Deseja transgredir as barreiras do espaço doméstico e
vingar a honra de suas compatriotas e da própria nação.
Ela perdeu a mãe para a cólera-morbo aos doze anos de idade. Foi entregue pelo pai
aos cuidados do tio Rogério, mestre de música de Jaicós, para que, segundo Coaracy, pudesse

sentimentos, no amor, na consciência, no instinto”, revelou novas formas de se perceber as relações de gênero,
os conflitos e tensões em que se inserem._ O´BRIEN, Patrícia. A história da cultura de Michel Foucault. In:
HUNT, Lynn. A nova história cultural. São Paulo: Martins Fontes, 2006, p. 49.
84
Na lição de Michel Foucault a sexualidade é produzida historicamente e o “próprio sexo, distinto da
sexualidade, tornou-se um produto do discurso, não a coisa em si. _ O´BRIEN, Patrícia. A história da cultura de
Michel Foucault. In: HUNT, Lynn. A nova história cultural. São Paulo: Martins Fontes, 2006, p. 56.
85
PERROT, Michelle. Os excluídos da história: operários, mulheres e prisioneiros. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1988, p.186.
37

se dedicar ao ofício do tio86. Foi separada de seus irmãos que ficaram com o pai, apesar das
suas dificuldades operacionais para cuidá-los e dos limites financeiros que a família
enfrentava.
Em relação à identidade dos pais de Jovita existe um impasse. No depoimento tomado
pelo Chefe de polícia José Manoel de Freitas, em Teresina, Jovita teria afirmado que seus pais
se chamavam Maximiniano Bispo de Oliveira e Maria Rodrigues de Oliveira87. Qual a origem
então do nome Antônia Alves Feitosa, como nossa personagem, que ganhou o apelido de
Jovita ainda criança, se apresenta? Por quais motivos Jovita teria sobrenomes completamente
diferentes dos de seus pais? Nessa primeira versão podemos ser levados a pensar que Jovita
não era filha “legítima” do casal.
Mas, esse impasse não termina aí. Coaracy traz em seus relatos biográficos a versão
dada no interrogatório policial, mas deixa uma nota com a seguinte afirmação: “no
interrogatório a que procedemos particularmente disse-nos que era filha de Maximiniano
Bispo de Oliveira e de Maria Alves Feitosa”88.
Essa segunda versão que Jovita teria dado ao jornalista explica a origem de seu
sobrenome, junto ao de sua mãe. Mas, por outro lado, nos revela que a mãe de Jovita não
possuía o sobrenome de Maximiniano, o que era praxe em casamentos do século XIX89.
Talvez o casal não tivesse realizado uma cerimônia oficial e se tratava do que hoje chamamos
de união estável, tipo de relação que no século XIX era definida como concubinato90.
Isso explicaria o fato de Jovita possuir apenas os sobrenomes de sua mãe, e
possivelmente o fato de ter ficado sob a guarda de um tio da linhagem materna, e não com o
pai, depois da morte da mãe. Mas qual das duas versões dadas por Jovita seria a verdadeira? A
versão oficial prolatada ao chefe de polícia José Manoel de Freitas ou aquela relatada em
particular ao memorialista Coaracy?
Esse tipo de pergunta é tão inevitável quanto o reconhecimento de que só podemos
trabalhar com possibilidades, com as mencionadas acima e, ou outras consideradas pelo leitor.

86
O jornalista fluminense José Alves Visconti Coaracy (1837-1892) realizou um trabalho de entrevistas com
Jovita Feitosa, tendo tomado seu depoimento em uma das salas do Quartel de Campo da Aclamação, já no Rio
de Janeiro. Realizou também um levantamento de notícias publicadas sobre ela pela imprensa brasileira_
COARACY, José Alves Visconti. Traços biographicos da heroína brasileira Jovita Alves Feitosa, ex-sargento do
2º Corpo de Voluntários do Piauhy, natural do Ceará, por um fluminense. Rio de Janeiro: Typ. Imparcial de
Brito & Irmão, 1865, p.19. Documento que faz parte do acervo do Projeto Brasiliana da USP. Disponível em: <
www.brasiliana.usp.br >.
87
Idem, ibidem, p. 11.
88
Idem, ibidem, p. 18-19.
89
GRAZIANO, Cristina Castelan Minatto. A adoção do nome do cônjuge ou companheiro após a celebração da
união. Disponível em: www.siredoc.org.br/artigos. Acesso em setembro de 2011.
90
BACK, Caroline Bourdot. A fronteira entre o namoro e a união estável. Disponível em:
www.casadaculturajuridica.com.br/art06.html. Acesso em: setembro de 2011.
38

Órfã de mãe, com um pai ausente e muito provavelmente sem um noivo, Jovita é retratada
como alguém que tem um vácuo no coração, um vazio a ser preenchido, alguém que poderia
ser facilmente inspirada pelo “demônio da solidão”91.
Acreditamos que as relações sociais, principalmente as familiares cumprem um papel
importante na trajetória pública de Jovita, no modo como se sente livre para desafiar a ordem
imposta, mostrando certo desapego com a vida e as relações que pretende deixar para trás.
Marcha do Piauí em direção ao palco da guerra sem “demonstrar” qualquer remorso ou
incerteza.
Numa espécie de prefácio de seus relatos biográficos sobre Jovita, o fluminense José
Alves Visconti Coaracy, que teve a oportunidade de colher testemunho direto de Jovita,
manifesta sua profunda admiração por ela, saindo em defesa de seu talante.

Antes de Começar

Levantem-se embora os Espíritos Mofadores condemnando estas paginas,


inspiradas pelo sentimento nacional; nós unicamente nos contentamos de ter
lançado no olvido o nome de uma Brasileira, cujo patriotismo
expontaneamente gerado em seu peito, e amaldiçoado pelos indiferentes, foi
concentrar-se em sua alma para reviver em melhores tempos.
A geração futura nos fará justiça.
Do autor.92

O texto de Coaracy pode ser considerado uma verdadeira ode a Jovita, representada
como uma brasileira com “B” maiúsculo, como faz questão de frisar logo na abertura de seu
registro. Uma “Brasileira” que se opõe aos “Espíritos Mofadores”, e que apesar das
declarações de seu valor patriótico sofre discriminação em relação a seu sexo, à sua atitude
“varonil”.
O jornalista profetiza um reconhecimento futuro da resposta de Jovita ao chamado da
nação e também do seu trabalho de registro sobre a heroína, ao afirmar que os sentimentos
despertados em Jovita e por Jovita seriam revividos em “melhores tempos”. Sua memória
seria revisitada e o trabalho memorialista de Coaracy ocuparia um espaço significativo nesse
processo, como o que ocorre nesta pesquisa, quase século e meio depois.

91
COARACY, José Alves Visconti. Traços biographicos da heroína brasileira Jovita Alves Feitosa, ex-sargento
do 2º Corpo de Voluntários do Piauhy, natural do Ceará, por um fluminense. Op.cit., p.11 e 21.
92
Idem, ibidem, p. 6.
39

Levanta a voz contra aqueles que se contrapõem à atitude bélica de Jovita, contra
aqueles que a “amaldiçoaram” por invadir espaços baluartes da masculinidade- a guerra, o
exército. Por se mostrar viril, mantendo contudo sua feminilidade, nossa personagem provoca
uma verdadeira confusão nos limites da masculinidade e feminilidade, desmonta a aparente
fixidez destes conceitos e causa desconforto, insegurança sobre uma noção fantasiosa de
estabilidade da(s) identidade(s) sexual(is).
O Jornal do Comércio, da corte, publicou em 27 de agosto de 1865, um comentário
assinado pelo pseudônimo de “O Admirado”, com o seguinte teor: “Será possível que o belo
sexo de algumas províncias esteja dando o exemplo, oferecendo-se para o serviço da guerra e
alguns Srs. Oficiais do efectivo serviço ainda empregados nas fortalezas e comissões outras,
que podem ser substituídos pelos reformados!!!”93. O exemplo de Jovita é aplaudido ao
mesmo tempo em que figura como um episódio vexatório para aqueles que se furtavam ao
serviço militar.
A observação de Dias sobre o perigo de transformação do atípico numa narrativa
episódica ou numa anedota é salutar à nossa preocupação sobre como conceber a trajetória de
Jovita Feitosa, tão propícia a ser tratada como um episódio isolado e desconectado da história
das mulheres ou da história da “guerra”. Apesar de atípica, a trajetória de Jovita não será neste
trabalho concebida como um episódio isolado e a-histórico.
Todo o esforço de construção de um sistema explicativo que envolve a Guerra contra o
Paraguai; as sociedades brasileira e piauiense da segunda metade do século XIX; as memórias
do indivíduo Jovita; os estudos feministas e de gênero que nos trouxeram até aqui; são
essenciais para a compreensão da atipicidade da trajetória de Jovita Feitosa.
Para Joan Scott, “gênero” pode ser uma ferramenta teórico-metodológica para a
discussão de quaisquer temáticas, incluindo-se a guerra. Ela concebe “gênero” como uma
categoria de análise94, e não como descrição de diferenças sexuais tidas por naturais. Nesta
perspectiva, construiu uma nova e multifacetada definição para este conceito:

Minha definição de gênero tem duas partes e várias subpartes. Elas são
ligadas entre si, mas deveriam ser analiticamente distintas. O núcleo
essencial da definição baseia-se na conexão integral entre duas proposições:
o gênero é um elemento constitutivo de relações sociais baseado nas
diferenças percebidas entre os sexos, e o gênero é uma forma primeira de
significar as relações de poder. Mudanças na organização das relações

93
Jornal do Comércio, 27 de agosto de 1865. Em MATOS, Kelma. Op.cit, p. 20.
94
SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil para a análise histórica. Recife: S. O. S CORPO, 1996.
40

sociais correspondem sempre a mudanças nas representações de poder, mas


a direção da mudança não segue necessariamente um sentido único.95

Estudar a trajetória de Jovita no centro de uma rede de relações que se desenrolam no


contexto da Guerra contra o Paraguai é, de certo modo, fazer uma análise da guerra sob uma
perspectiva de gênero.

2.2. DEBATE SOBRE A PRESENÇA FEMININA EM TEMPOS DE GUERRA

A presença feminina em projetos de guerra ainda é tema pouco explorado pela


historiografia. O imaginário da guerra é geralmente sobre homens na linha de frente, corpos
de soldados estendidos nas zonas de combate, generais altivos traçando e ordenando
estratégias militares... Em relação às mulheres, no máximo nos deparamos com a imagem de
esposas e mães se despedindo em vida ou chorando a morte de seus homens.
A Revolução Francesa com sua pretensa Declaração Universal dos Direitos do
Homem e do Cidadão posterga a forte participação das mulheres na luta que derrubou o
Antigo Regime, excluindo-as do gozo dos direitos proclamados em seu art. 1º- “os homens
nascem e são livres e iguais em direitos”. Como aduz Michelle Perrot, “As mulheres não eram
consideradas indivíduos, mas sim membros de uma família, a qual era representada pelo pai,
que o Código de Napoleão transforma no pilar da sociedade civil”96.
Pelos códigos sociais, religiosos e morais dominantes no séc. XIX, à mulher cabe o
silêncio. Ela supostamente não precisa e nem deve falar, já que para isso já foram eleitos
homens hierarquicamente superiores: o pai, o marido, e na ausência destes o irmão mais
velho, o filho, etc.
A intransigência em relação à tomada da palavra pública pelas mulheres é uma
questão presente na imprensa da revolução. Ecoam muitas vozes ordenando o retorno aos
afazeres e cuidados domésticos e algumas poucas vozes em defesa da cidadania feminina.
Elisabeth Badinter em “Palavras de Homens” reúne uma série de publicações (1790 a 1793)
na França Revolucionária que discutem a extensão ou não dos direitos prolatados na
Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão às mulheres 97. Uma publicação em especial

95
Ide, ibidem, p. 11.
96
PERROT, Michelle. Mulheres Públicas. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1998, p. 71.
97
. BADINTER, Elisabhet (Org). Palavras de Homens (1790-1793 ) /. Condorcet; Prudhomme; Guyomar...[et
al.]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991.
41

nos chamou a atenção, “Sobre a mulher soldada”, de autor desconhecido. Vale transcrever um
trecho instigante à nossa análise.

As mulheres nada têm a fazer no exército. Não cessemos de lhes repetir:


Cidadãs! Só estás bem na casa paterna, e sob o teto marital, à cabeceira do
leito de vossos parentes deficientes ou decrépitos, ao pé do berço de uma
família nascente. Em qualquer outro lugar estaríeis deslocadas. Deixai-nos as
armas e os combates; vossos dedos delicados são feitos para segurar a
agulha, e semear de flores o caminho espinhoso da vida, para vós, o
heroísmo consiste em carregar o peso do lar e as labutas domésticas. Vossa
tarefa não é massacrar o inimigo cruel: tendes outra mais doce, que consiste
em fazer gente feliz, em fazer amar as virtudes republicanas, em trançar
coroas cívicas para o patriota vitorioso, ou em queimar perfumes sobre as
cinzas de nossos defensores mortos nos campos da glória. A República
espera de vós algo bem acima de uma vitória: sois vós companheiras fiéis do
homem, que dareis à geração que vai nascer os costumes antigos dos quais
não podemos prescindir se quisermos permanecer livres e nos mostrar
dignos da mais bela de todas as revoluções. 98

Esse discurso nos revela, a contragosto, a existência de um movimento feminino na


Revolução Francesa que reivindicava o direito às armas, à participação armada nos conflitos
nacionais, à autodefesa. Movimento este certificado pela petição assinada por 320 mulheres
pedindo permissão à Assembléia Legislativa para organizar uma Guarda Nacional Feminina
em 1792, sob a liderança de Pauline Léon.99
Este é também um relato riquíssimo sobre a normatização dos papéis sexuais
convenientes à sociedade do fim do século XVIII e século XIX, e nos leva a inquirir quantas
vezes discursos consoantes com o conselho acima citado, dotado de uma forte coerção
sociocultural, foram igualmente proferidos a nossa heroína. Apesar do clamor patriótico que
até certo ponto abraçou o esforço de Jovita para combater na Guerra contra o Paraguai,
existem indícios de que a recepção desse esforço nem sempre foi calorosa ou sequer tolerante.
Os espetáculos de aclamação de Jovita se tornaram parte importante da campanha
imperial para o alistamento voluntário, campanha esta que teve como primeiro protagonista o
próprio Imperador D. Pedro II, que surpreendeu a todos com a sua atitude de assumir o papel
de “voluntário número um”100. Partiu em direção ao conflito no dia 7 de julho de 1865, na
companhia do ministro da guerra Ângelo Ferraz, futuro barão de Uruguaiana.

98
Idem ,ibidem, p. 129.
99
MORIN, Tania Machado. Práticas e representações das mulheres na Revolução Francesa_ 1789-1795.
Dissertação de Mestrado em História Social da USP, 2009, P. 103.
100
Expressão empregada por SCHWARCZ, Lília Moritz. Op.cit, p. 295.
42

Partindo da leitura de Joaquim Nabuco e Oliveira Lima, Schwarcz conclui que


“ninguém imaginava tanto arrojo de um monarca cuja postura civil e avessa à mais
rudimentar experiência da guerra poderia expô-lo a perigos inúteis”101. Contrariando esse
arquétipo de civilidade pacífica, o monarca vestiu-se para o combate, elegantemente como
esperado102. O “arrojo” do imperador também teria incentivado a campanha particular de
Jovita. Pouco depois de ter sido dispensada do seu posto de 1º sargento e frustrada sua
intenção de combater os inimigos paraguaios diretamente, Jovita lembraria, em nova
entrevista concedida ao escritor fluminense Coaracy, com muita admiração, e um outro tanto
de frustração, a partida de D. Pedro II.103
Quanto ao papel representado por Jovita, sua saída da província do Piauí e suas
paradas espetaculares nas províncias do Maranhão, Paraíba, Pernambuco e Bahia, podem ser
considerados momentos importantes na promoção da campanha pelo alistamento voluntário
daqueles considerados aptos ao serviço militar104. O Diário de Pernambuco registrou a
recepção calorosa que os maranhenses dedicaram a Jovita:

Os maranhenses fizerão a esta patriota, que mais tarde será uma heroína, as
maiores ovações.
(...)
O empresário do S. Luiz, Vicente Pontes de Oliveira, mal fundeou o vapor,
annunciou em honra della; e tamanho foi o enthusiasmo que em pouco
menos de três horas foram vendidos todos os camarotes e cadeiras, sendo a
concorrência ao espectaculo espantosa. A elle assistio Jovita em trajos
militares e de um camarote adornado com a bandeira nacional.
A distincta artista D. Manoela, vestida de guerreira e empunhando o
estandarte nacional, recitou a poética poesia do Sr. Moniz Barreto, e em
seguida cantou ela, acompanhada pela orchestra, com todos os artistas da
companhia, fardados a voluntários, o hymno da composição do maestro
Francisco Libanio Colás e letras do poeta Juvenal Galeno.
Por essa occasião o povo pedio o comparecimento em scena da heroína, o
que, o que ella satisfez. Vivas, bravos e flores partirão de todos os angulos
do teatro.
D. Manoela, abraçando-a, e dando-lhe um osculo, tira-lhe o boné, colloca-
lhe na cabeça uma côroa de louros, e lança-lhe ao pescoço um cordão e um
crucifixo de ouro; e, findo que foi o espectaculo, é ella conduzida à casa pelo
povo ao som de vivas e música.105

101
Ide, ibidem, p. 299. _ No primeiro capítulo deste trabalho, referenciamos a imagem de pacifismo, serenidade,
racionalidade e progresso de que se reveste D. Pedro II e por conseguinte o próprio Segundo Império Brasileiro.
102
SCHWARCZ expõe uma série de retratos de D. Pedro II pouco antes de sua partida e com a indumentária de
guerra. Op.cit., p. 295, 299 e 300.
103
COARACY, José Aves Visconti. Traços biographicos da heroína brasileira Jovita Alves Feitosa, ex-sargento
do 2º Corpo de Voluntários do Piauhy, natural do Ceará- por um fluminense. Op.cit., p. 25.
104
Campanha iniciada com a publicação do Decreto nº 3.371, de 07 de janeiro de 1865, tema
105
COARACY, José Alves Visconti. Traços biographicos da heroína brasileira Jovita Alves Feitosa, ex-sargento
do 2º Corpo de Voluntários do Piauhy, natural do Ceará- por um fluminense. Op.cit., p. 35-36.
43

De Jaicós, na província do Piauí, até o Rio de Janeiro, consideradas as diversas


paradas militares, Jovita teve que lidar com as ovações, as críticas, a curiosidade popular, e
muito provavelmente, com as desconfianças de seus colegas voluntários ou recrutas. Esse
relato de sua recepção no Maranhão é prova do quão espetacular é sua aparição no cenário da
Guerra contra o Paraguai. Glorificadas com uma “coroa de louros”, Jovita e sua trajetória são
literalmente transformadas numa peça teatral concorrida e lucrativa.
Mas, a realidade é que Jovita precisou fugir de casa para tentar realizar seu intento de
“vingança à honra das brasileiras e da pátria”, decerto porque sabia não contar com o apoio do
seu tio nesta empreitada. Superado este primeiro empecilho ao seu projeto, seria necessário
TRAJETORIA DIFICIL
QUE A JOVITA TEVE enfrentar muitos outros: cortou os cabelos, amarrou os seios, disfarçou-se de homem por saber
QUE ENFRENTA PARA
REALIZAR SEU
SONHO que não seria aceita como voluntária e também, provavelmente, para resguardar-se de
violência sexual. Seu projeto foi efetivamente rejeitado, e ao tentar retornar ao lar do qual
antes precisou fugir, as portas estavam fechadas para ela. Seu tio, único suporte familiar que
lhe restara, rejeitou-a.
Segundo Kelma Matos, tio Rogério foi um importante amparo para Jovita. Sob sua
proteção ela teria aprendido a ler, caçar, costurar e tocar106. No interrogatório conduzido pelo
chefe de polícia da província do Piauí, quando perguntada sobre seu modo de sustento, Jovita
respondera que vivia de suas costuras107, firmando que não representava um peso para o tio e
que poderia ter somado esforços contra a crise financeira do pai, apontada como causa
principal de sua separação do restante da família e de sua partida para Jaicós. Apesar de suas
habilidades, o retorno para a família não aconteceu. Seria este desligamento uma motivação a
mais na decisão de ir à guerra?
Para além do mundo familiar, privado, os eventos que contam de sua recepção na
capital do Império, o apoio da imprensa e aclamação de Jovita como heroína do Exército
Brasileiro, tudo levava a crer que a 1º sargento Jovita, de alguma forma, triunfara no seu
intento militar. Mas, a decisão do ministro da Guerra Polidoro da Fonseca Quintanilha
Jordão, que impediu o embarque de Jovita com seu batalhão para o palco da guerra, faz seu
esforço parecer o ensaio de uma peça, cuja apresentação foi frustrada no último minuto.
A lição que fica é que mesmo num tempo de inversões como numa guerra ou numa
revolução, as mulheres, e tudo que se refere a elas, continuam a ser tratadas com acentuado

106
MATOS, Kelma. Jovita Feitosa. Fortaleza: Demócrito Rocha, 2001, p. 13.
107
COARACY, José Alves Visconti. Traços biographicos da heroína brasileira Jovita Alves Feitosa, ex-sargento
do 2º Corpo de Voluntários do Piauhy, natural do Ceará- por um fluminense. Op.cit., p. 17.
44

conservadorismo. As mudanças associadas a estas conjunturas parecem não incluir os


códigos de conduta que regem aquilo que se define como o “universo feminino”, e esta
permanência pode ser justificada inclusive como um lugar de conforto, um lugar para o qual
os homens, legítimos porta-vozes das questões nacionais, podem retornar ao fim de sua peleja
diária; um lugar onde não existem controvérsias ou disputas porque a palavra dos homens é a
lei maior.
Cabe à mulher proporcionar esse conforto, os consolos necessários à autoridade
patriarcal: a tranqüilidade, a concórdia, os cuidados com a alimentação e higiene do lar. É
comum se pensar e dizer que, se o homem não tem vontade de voltar para casa, envolvendo-
se com álcool e outras mulheres em ambientes externos (bar, botequim) é porque a esposa não
cumpriu com suas “obrigações”, é porque o lar não é acolhedor, aconchegante como
deveria108.
Nas palavras de Michelle Perrot, “o militar, o religioso, o político, como as três ordens
da Idade Média, constituem três santuários que fogem às mulheres. Núcleos de poder, são os
centros de decisão, real ou ilusória, ao mesmo tempo que símbolos da diferença dos sexos”109.
Toda uma rede de discursos é articulada para demarcar o “ser feminino ideal”, para
definir os espaços e lugares que poderiam ser vivenciados pelas mulheres do século XIX. A
Igreja celebra o culto da Virgem Maria, virginal, pura, ícone de brandura e resignação que
exerce o papel mais tradicional na divisão dos sexos, o de mãe. A “mãe é o ponto geométrico”
dos diversos cultos e representações das mulheres110, apesar de não existir enquanto
individualidade, sujeito autônomo, mas sim condicionada aos papéis que exerce no seio de
uma família; considerando-se a multiplicidade de formas e a fluidez que o conceito de família
pode assumir, como um processo em permanente transformação111.
A exclusão das mulheres dos postos hierarquicamente superiores da Igreja Católica e a
sua aceitação sujeita à reclusão em conventos é uma pequena mostra da simbologia que
institucionaliza as hierarquias e desigualdades de gênero, reservando os postos públicos de
comando aos homens. Cabe à mulher o papel de manter a chama da fé acesa em seus lares, o
culto familiar.
Guacira Lopes Louro fala da forte influência da moral cristã católica na educação das
mulheres, dos modelos dicotômicos apresentados: Eva ou Maria. O modelo mariano

108
MATOS, Maria Izilda Santos. Âncora de Emoções: corpos, subjetividades e sensibilidades. São Paulo:
Edusc, 2005, p. 70.
109
PERROT, Michelle. Mulheres Públicas. Op.cit., p. 117.
110
PERROT, Michelle. Os Excluídos da história: operários, mulheres e prisioneiros. Op.cit., p. 183.
111
Maria Odila Leite da Silva chama atenção para o perigo de se tomar construções como a “família” como
instituições e não como processos em permanente mudança_ DIAS, Maria Odila Leite da Silva.
45

representa “o recato e o pudor, a busca constante de uma perfeição moral, a aceitação de


sacrifícios, a ação educadora dos filhos e filhas”112.
Já a mulher que se afasta do espaço doméstico, do recato, da obediência cega, da
subordinação aos homens de sua vida: pai, marido, irmão, filho; será condenada como fonte
de todos os pecados, sofrerá julgamento compulsório pelo desmantelamento da ordem moral,
dos papéis sexuais tão caros à manutenção das hierarquias de gênero, pela violação das leis
patriarcais. Ironicamente “Eva”, nome hebraico, significa simplesmente “viver”. Para a
mulher do século XIX, “viver” sob seu próprio arbítrio é o maior dos pecados.
Mas, e Jovita, onde se encaixa? Jovita não pode ser Eva, nem tampouco Maria. É
muito mais real e complexa que qualquer modelo acabado, que qualquer arquétipo de
significados e valores pré-constituídos. O apelo patriótico livrou Jovita, pelo menos no
período em que esteve em evidência, do estigma de pecadora. Estava violando as leis do
patriarcado com o apoio da imprensa e da instituição mais patriarcal de todas_ o Exército.
Mesmo assim, sua trajetória é polêmica, o apelo patriótico não foi capaz de dirimir todas as
desconfianças e inquietações em relação à presença de uma mulher junto a um Batalhão
militar.
Algumas condições foram impostas : Jovita não podia se afastar de um certo ideal de
feminilidade, daí o saiote por cima do fardamento militar, o fardamento fino de pano azul
ofertado pelo comerciante Boaventura José Coimbra de Sampaio, e os discursos que se
referiam a ela como “anjo dos Voluntários do Norte”, “nova Judith”113. Como preceitua
Elisabeth Badinter, a identidade feminina constituída em oposição à virilidade máscula leva à
imaginação de um modelo feminino ideal pautado na pureza, ingenuidade, delicadeza,
bondade...114
A coragem, a bravura e porque não dizer, a virilidade de Jovita, devia ser ornamentada
pelo realce de qualidades típicas de um modelo feminino ideal, representado como um anjo
guardião, símbolo de pureza, bondade, compaixão, sacrifício...
Em “Sobre os gêneros do desejo”115, Teresinha Queiroz discute os medos que a
possibilidade de rompimento das fronteiras de gênero desperta em culturas diversas ao longo
do século XIX, como uma questão para além de limites políticos. O medo da feminização dos

112
LOURO, Guacira Lopes. Mulheres na sala de aula. In: PRIORE, Mary Del. História das mulheres do Brasil.
7. ed. - São Paulo: Contexto, 2004, p. 447.
113
CHAVES, Monsenhor. op.cit., p. 241.
114
BADINTER, Elisabeth. XY: sobre a identidade masculina. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993, p. 9.
115
QUEIROZ, Teresinha. Sobre os gêneros do desejo. In: CASTELO BRANCO, Pedro Vilarinho. História e
masculinidades_ a prática escriturística dos literatos e as vivências masculinas no início do século XX.
Teresina: EDUFPI, 2008.
46

homens e da masculinização das mulheres, de quaisquer comportamentos, manifestações que


abalassem o equilíbrio da divisão dos papéis e hierarquias sexuais. O medo exacerbado “do
enfrentamento de tudo aquilo que foge da prescrição e da norma”116.
Nessa perspectiva Queiroz nos apresenta a tensa relação entre o literato piauiense
Clodoaldo Freitas e a escritora francesa George Sand. Esta personifica o antimodelo feminino
para o literato, um exemplo aterrador de como a mulher pode masculinizar-se, partilhando de
práticas e sensações que deveriam ser experimentadas apenas pelos homens da época. George
Sand tinha ainda o poder de feminizar os homens, manipulando-os, fazendo com que a
desejassem e a admirassem por sobre quaisquer normas de conduta. Para Clodoaldo Freitas o
“horror dos horrores” era “uma mulher com potência viril emasculando os homens e os
transformando em nervosos sissies.”117
Essa angústia advém de certa desterritorialização que o contato com o diferente, com o
“antimodelo” pode causar. É como se o sujeito sofresse a retirada do solo abaixo dos seus pés,
o desaparecimento ou enfraquecimento daquilo que tinha por mais sólido, as “diferenças
sexuais”, as normas de conduta que marcam a construção de sua subjetividade desde seus
primeiros contatos e relações.
No modelo sociocultural de masculinidade ocidental, a virilidade é uma elementar
marcante. Para Bourdieu, existe toda uma carga simbólica que significa a virilidade,
associando-a com a “capacidade reprodutiva, sexual e social, mas também com a aptidão ao
combate e ao exercício da violência (sobretudo em caso de vingança)”. A virilidade é
comumente significada como não-feminilidade. È instrumento da “dominação masculina”,
que segundo Bourdieu precisa ser analisada tomando-se em consideração a atuação de
instituições tradicionais como a família, o Estado, a Igreja e a escola, no processo de
naturalização de papéis sexuais socialmente, simbolicamente construídos.118
Na perspectiva do Estado, os exemplos de discriminação da mulher e o esforço na
construção de um espaço de subordinação à “dominação masculina” são diversos. Até o ano
de 2005, o Código Penal Brasileiro tipificava o crime de adultério em seu artigo 240. O que
pode denotar a tipificação criminal do adultério numa sociedade em que apenas o adultério
cometido pela mulher é duramente censurado, sendo o adultério masculino corriqueiramente
aceito e algumas vezes culturalmente estimulado? O Código Civil Brasileiro de 1916, que
vigorou até o ano de 2002, tratava a mulher como relativamente incapaz, equiparando-a a

116
QUEIROZ, Teresinha. Sobre os gêneros do desejo. Op.cit., p. 7.
117
Sissies refere-se à princesa austríaca Sissy e atualmente assume significado de delicado. QUEIROZ,
Teresinha. Sobre os gêneros do desejo. Op.cit., p. 11.
118
BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. 5ª Ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007, p. 64.
47

menores de 18 (dezoito) anos, pródigos, ébrios habituais, viciados em tóxicos, deficientes


mentais, pessoas sem desenvolvimento mental completo.
Foi necessária a edição do “Estatuto da Mulher Casada”, em agosto de 1962, para se
garantir alguns direitos à mulher, mas não sem lhe impor sujeições e conceder a representação
legal da família ao marido, reforçando o pátrio poder. A família, sagrada ou não, representaria
o patriarcado privado. O Estado, uma espécie de patriarcado público.

Art. 233. O marido é o chefe da sociedade conjugal, função que exerce com
a colaboração da mulher, no interesse comum do casal e dos filhos.Compete-
lhe:

I - A representação legal da família;

II - a administração dos bens comuns e dos particulares da mulher que ao


marido incumbir administrar, em virtude do regime matrimonial adotado, ou
de pacto antenupcial.

III - o direito de fixar o domicílio da família ressalvada a possibilidade de


recorrer a mulher ao Juiz, no caso de deliberação que a prejudique;

IV - prover a manutenção da família, guardadas as disposições dos

Art. 240. A mulher assume, com o casamento, os apelidos do marido e a


condição de sua companheira, consorte e colaboradora dos encargos da
família, cumprindo-lhe velar pela direção material e moral desta.119

Quanto ao papel da escola, a socióloga paulista Maria Thereza Crescenti Bernardes


demonstrou que a idéia de instrução feminina formal no Brasil Imperial foi sempre muito
controversa. Tomando como base o documento_ “Poliantéia comemorativa da inauguração
para o sexo feminino do Imperial Liceu de Artes de Ofícios, Rio de Janeiro, 1881”120, no qual
foram reunidos cento e trinta e um depoimentos de letrados brasileiros sobre a educação
feminina, figurando dentre eles quatro mulheres. Nesse universo de erudição, prevalece a
idéia de que a educação da mulher é uma contribuição à dignificação da família, da nação e
do mundo, como revela o texto de Moreira de Azevedo:

Se a mulher é o primeiro livro em que o menino estuda deve ela aprender


para poder ensinar e preparar-se para ser mestra desde o berço da criança que
a chamará de mãe, pois é sublime para o homem confessar que bebeu com o

119
BRASIL. Lei 4.121, publicada em 27 de agosto de 1962. Disponível em:<
http://www010.dataprev.gov.br/sislex/paginas/42/1962/4121.htm>. Acesso em junho de 2011.
120
BERNARDES, Maria Thereza Caiuby Crescenti. Mulheres de ontem?: Rio de Janeiro, século XIX. São
Paulo: T. A. Queiroz, 1998, p. 21.
48

leite a instrução que possui, poder repetir com Lamartine: “o que sei devo-o
a minha mãe!”.121

Apesar da importância do apoio dado à instrução da mulher, esse apoio não é dado por
e para ela mesma, é pautado ora na maternidade ora no dever de tornar a vida dos homens
mais prazerosa: “entristece-me ver uma senhora formosa, mas obtusa. Seja embora
simplesmente simpática; saiba, porém, um pouco de gramática. Quando entrar numa sala a
todos saiba dirigir a fala”(Arthur Azevedo)122.
Nesses discursos masculinos a mulher não é vista por seu valor e necessidades
próprias. Educá-la só se justifica em função do melhor exercício de seus papéis tradicionais, é
só mais uma forma de discipliná-la, de tentar conter a sua individualidade. Ela não precisa de
instrução para o próprio desfrute, mas para que possa ser uma mãe melhor, uma
acompanhante melhor, como se sua existência estivesse sempre condicionada à maternidade,
ao universo masculino.
É o que se reproduz em diversas frentes de propagação das hierarquias e poder nas
relações de gênero. Ocorre que, para além do discurso, temos as mulheres reais, mulheres que
sentem, desejam, cogitam, ponderam, resistem, que desacatam mandamentos, como as
padeiras e quitandeiras que desafiavam o fisco, e por consequente a ordem na cidade de São
Paulo, no século XIX123; como a mulheres-soldados que violaram o espaço público da guerra
considerado monopólio masculino.
A educação feminina na Teresina do fim do século XIX e início do século XX, era
dedicada especialmente ao aprendizado de atividades domésticas, aliando-se ao discurso
histórico de normatização dos papéis sexuais, como depõe Pedro Vilarinho Castelo Branco.

A casa continuava a ser o espaço reservado à mulher, por isso sua educação
voltava-se preferencialmente para o aprendizado de atividades como
cozinhar, cuidar da casa, dos filhos, costurar, bordar e outros serviços
domésticos quase sempre ensinados pela própria mãe. (...) As oportunidades
de acesso à educação formal eram poucas e, dificilmente, passavam do
aprendizado da leitura e da escrita. Raramente elas freqüentavam a escola
por mais de dois ou três anos letivos.124

121
BERNARDES, Maria Thereza Caiuby Crescenti. Mulheres de ontem?: Rio de Janeiro, século XIX. São
Paulo: T. A. Queiroz, 1998, P. 31.
122
Idem, ibidem, p. 27.
123
DIAS, Maria Odila leite da Silva. Quotidiano e poder em São Paulo no século XIX. Op.cit.
124
CASTELO BRANCO, Pedro Vilarinho. Mulheres plurais.Teresina: Edições Bagaço, 2005, p. 69/71.
49

No Piauí Republicano, as escolas normais, que representavam uma abertura do


mercado de trabalho às mulheres, através do magistério, possuíam em sua grade curricular
disciplinas como trabalhos de agulha, higiene e educação moral125, transformando as
normalistas em vetores da ordem sexual, de uma educação marcadamente sexuada.
A atuação dessas diversas frentes na instituição e consolidação de normas nas relações
de gênero produz uma aparente naturalidade das diferenças sexuais ao mesmo tempo em que
revela o seu processo de construção. Em tempos de guerra a ordem é estremecida, os homens
são enviados ao front e as mulheres acabam assumindo postos até então inapropriados ao seu
“sexo”, sem falar nas mulheres-soldados.

2.2. A RETAGUARDA FEMININA

Antes de iniciarmos a discussão sobre a retaguarda feminina em tempos de guerra,


vale explicar o deslocamento temporal que fazemos ao trazer para o debate a experiência
feminina das duas grandes guerras mundiais, no século XX, quando nosso foco está sob a
experiência de Jovita Feitosa na Guerra contra o Paraguai, no século XIX. Trata-se de uma
tentativa de expor experiências femininas da guerra que revelem as continuidades e a lenta e
difícil inserção das mulheres em verdadeiros templos de culto à masculinidade e virilidade: a
hierarquia militar e a Guerra. Um esforço de se quebrar o gesso discursivo que apresenta
Jovita como um fato episódico, desconectado da experiência feminina da guerra, guerra aqui
em sentido amplo.
Por outro lado, esse debate que faz uso de múltiplas temporalidades para pensar a
participação das mulheres na guerra, não pode desconsiderar as particularidades das distintas
experiências históricas. Inexistindo, neste trabalho, qualquer intenção de suplantar as
especificidades de cada contexto sócio-político.
Na memória da guerra as mulheres são meras figurantes, exercem papéis pouco
expressivos, pouco celebrados, mesmo diante de uma vitória. Na história construída sobre a
guerra paira um silencio aterrador sobre a experiência beligerante para as mulheres, como se
elas fossem invisíveis, como se não tivessem suportado e dividido o peso dos conflitos e de
seus efeitos sobre a nação.

125
PERRO, Maria do Amparo Borges. Educação e sociedade no Piauí Republicano. Teresina: Dissertação de
Mestrado da Universidade Federal do Piauí, 1996, p. 106/108.
50

Como preceitua Michelle Perrot, estudando as duas grandes guerras do séc XX, “em
tempo de guerra, os homens estão na frente de batalha, as mulheres na retaguarda” 126. Essa
presença feminina na retaguarda, assumindo funções até então restritas ao universo
masculino, inclusive novas profissões como “chefes de família, operárias de fábricas de
munições, condutoras de bondes elétricos e, até, auxiliares do exército”, foi marcante e
impossível de se silenciar totalmente, até pela profusão de novas tecnologias de registro e
divulgação dos conflitos em suas diversas frentes 127.
No entanto, a responsabilidade social de assumir essas novas funções estava cercada
por certa misoginia e resistência refletidas em contratos de trabalho que obrigavam por vezes
“as mulheres a assinarem, no momento de sua contratação, a sua futura carta de demissão”,
para logo que a guerra terminasse128. Outra evidência desta tensão se explicita na má
reputação das mulheres que compunham o corpo feminino auxiliar do exército britânico
durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). São acusadas de “desonrar o uniforme do
rei, banhado com o sangue dos soldados, de renegar o seu sexo e de macaquear os homens
numa paródia de mau gosto”129.
Apesar de uma maior “liberdade” que as mulheres da retaguarda militar conquistam ao
sair do confinamento doméstico, ao fim do conflito são tratadas como meras substitutas,
obrigadas a devolver o lugar que pelo tempo “necessário” foram autorizadas a usurpar.

(...) Quando a guerra acabou, auxiliares e substitutas devolveram o lugar e


voltaram àquele lar que lhes pintavam como um ideal e um dever urgente.
Longe de serem instrumentos de emancipação, as guerras, profundamente
conservadoras, recolocam cada sexo em seu lugar, reiterando as
representações mais tradicionais da diferença dos sexos.130

Com base no texto acima, ao fim da guerra, as mulheres tiveram que retornar às velhas
tarefas domésticas. Este retorno é explicado como uma necessidade do ideal de reconstrução
da ordem que exige que elas retornem e preparem o lar para a recepção de seus heróis, dos
“verdadeiros” heróis da nação. O empenho dessas mulheres torna-se tão dispensável quanto
negligenciável.

126
PERROT, Michelle. Mulheres públicas. Op. Cit., p. 93.
127
THÉBAUD, Françoise. A Grande Guerra_ o triunfo da divisão sexual. In: DUBY, Georges; PERROT,
Michelle(orgs.). História das mulheres do ocidente. Vol. 5, Porto: Edições Afrontamento, 1991, p. 32.
128
Ide, ibidem, p. 41.
129
THÉBAUD, Françoise. Op.cit., p. 44.
130
PERROT, Michelle. Mulheres Públicas. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1998, p. 97.
51

Françoise Thébaud declara que a questão feminina, a luta pelo sufrágio feminino
figurava no centro da discussão pública na Europa quando estourou a Primeira Guerra
Mundial131. A partir de 1914, o movimento feminista assume uma nova postura, uma postura
altruísta, de adiamento de suas causas em prol da causa nacional, como podemos inferir de
alguns depoimentos mencionados por Thébaud:

Marguerite Durand, que volta a publicar, durante as duas últimas semanas de


agosto de 1914, o seu célebre jornal La Fronde, e Mrs. Fawcett, no Common
Cause de 14 de agosto, escreveram a mesma coisa: Mulheres, o vosso país
precisa de vós, sejamos dignas de ser cidadãs, quer o nosso objetivo (o
direito de voto) seja reconhecido ou não. Como Jane Misme, directora de La
Française, órgão principal do feminismo moderado, no seu primeiro número
de guerra: Enquanto durar a provação que faz sofrer o nosso país, não será
permitido a ninguém falar aqui dos seus direitos; agora só para com ele,
deveres.132

Mesmo no decorrer da guerra, triunfa a mentalidade conservadora, sendo a guerra,


inclusive, concebida mesmo como um evento capaz de afirmar a virilidade masculina, sua
hegemonia, recolocando “dramaticamente cada sexo em seu lugar”133. Se considerarmos o
que foi dito no documento acima, esta concepção promove um retrocesso nas relações entre
os sexos, calando as vozes que bradam ou murmuram contra a ordem e as restrições
femininas, em nome da nação, de um ideal de unidade que se fortalece diante de um inimigo
externo comum.
Existe uma relação paradoxal entre uma aparente emancipação feminina possibilitada
pela desordem social, pela ausência dos homens na sua função precípua de provedores do lar
e da indústria militar, e certo reacionarismo posterior, em que as mulheres são relançadas ao
espaço privado.
Na memória da guerra prevalece o desejo de se retornar ao status quo ante, sepultar a
“desordem” social e com ela a emancipação feminina conquistada na retaguarda da guerra. È
o “triunfo da divisão sexual”. As mudanças foram oportunas, provisórias e não ocorreram sem
forte resistência. “Nas fábricas de material de guerra a mão-de-obra feminina é o último
recurso após a contratação de civis.134

131
THÉBAUD, Françoise.op.cit., p. 35.
132
Citado por THÉBAUD, Françoise.op.cit., p. 36.
133
PERROT, Michelle. Os excluídos da história: operários, mulheres e prisioneiros. Op.cit., p. 184.
134
THÉBAUD, Françoise. Op.cit, p. 38-39.
52

Tal resistência à mão-de-obra feminina na máquina de guerra nos dá pistas da forte


rejeição ao alistamento das mulheres. A mobilização feminina, mesmo no século XX, sofrera
forte rejeição. Na
Alemanha, o alistamento das mulheres fora “recusado pelas autoridades civis”, na França, a
135
escritora Mme Jack de Bussy teve recusada sua “Liga das Alistadas” . Essa forma de
mobilização feminina, transgressora da ordem dos papéis sexuais, temida como forma de
masculinização das mulheres, resulta em críticas infamantes. As mulheres que se oferecem
em sacrifício por suas nações são marcadas por uma má reputação, são acusadas e
equiparadas a “lésbicas viris, mulher-homem perigosas e desavergonhadas, com desvio
congênito para o aspecto e o psiquismo masculinos”, como concluiu o psiquiatra alemão
Krafft- Ebing 136.
A ausência dos homens, enviados ao front, e a consequente flexibilização do controle
sobre as mulheres, que se tornam mão-de-obra necessária em meados da Primeira Grande
Guerra, ao mesmo tempo em que lhes permite certa mobilidade, gera um verdadeiro pavor da
corrupção dos papéis sexuais tradicionais, insegurança sobre a hegemonia e a própria
identidade masculina. Medo que o caos e a desordem atingissem os únicos lugares de conforto
capazes de alimentar o desejo de sobrevivência: o lar, os braços da mulher idealizada...
Afinal, como preconiza Michelle Perrot, “desde toda a eternidade, associa-se guerra e
virilidade, paz e feminilidade” 137.
Para este trabalho interessa, sobretudo, a observação de que as vivências das mulheres
na guerra continuam sendo tratadas como um anexo, um capítulo à parte da guerra, pouco
relevante para a compreensão do acontecimento, sem valor diante do panteão cívico de
ilustres heróis, líderes políticos, célebres generais e comandantes. Essa visão leva à existência
de grandes e profundos abismos, lacunas na compreensão e reconstrução da tessitura histórica
dos conflitos. Não dá pra historicizar um acontecimento de um plano privativamente
masculino ou exclusivamente feminino sem grandes perdas. Nem tampouco se desconsiderar
as relações de poder no seio das relações de gênero e do respectivo acontecimento.
Com a história da guerra contra o Paraguai não foi diferente e os discursos sobre este
evento, em geral, se limitam a indiferentes estatísticas e baixas demográficas. Trabalhos
extensos como a obra “Maldita Guerra”138 de Doratioto, pouco se atém ao caráter social da
guerra, aos homens, mulheres e crianças para além de uniformes e estratégias militares. O

135
Idem, ibidem, p. 40.
136
Idem, ibidem, p.44.
137
PERROT, Michelle. Mulheres Públicas. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1998, p. 136.
138
DORATIORO, Francisco. Op.cit.
53

foco se mantém sobre a política externa e as relações diplomáticas que resultaram no conflito
e alianças estratégicas, e nos episódios militares, as grandes batalhas e sua preparação 139.
Contudo, Maria Teresa Dourado atesta a existência de uma verdadeira legião de
mulheres junto aos destacamentos militares em marcha, “várias brasileiras e paraguaias- entre
mães, esposas, prostitutas, viúvas, enfermeiras, soldadas, andarilhas, vivandeiras, residentas,
destinadas, comerciantes, prisioneiras e escravas140”; contrapondo-se à solene memória da
Guerra contra o Paraguai que pouco ou nada revela sobre a presença feminina nas diversas
frentes do conflito.
Do lado paraguaio, no entanto, a obra de Fernando Lóris Ortolan nos oferece um
quadro geral sobre a idealização da mulher paraguaia e de seus pretensos papéis socioculturais
no século XIX:

O modelo ideal de conduta era muito severo para a mulher. As normas


espanholas e a presença da Igreja Católica consideravam as mulheres como
seres frágeis e desse modo, necessitavam da família. Sua reputação dependia
profundamente da valorização social que se construía através da castidade,
as virtudes femininas, e da fidelidade ao homem.141

Na guerra essa aparente fragilidade é deixada de lado e surgem novas representações


das mulheres paraguaias, retratadas como “guerreiras espartanas, vistas como exemplo para
142
toda a sociedade, como motivação e difusão patriótica” . As mulheres foram consideradas
como força real de reserva diante do agravamento da situação do contingente militar
paraguaio, tendo sido fundado inclusive um “batalhão feminino e criados postos de sargentas,
integradas diretamente às guarnições militares e com uma estrutura similar à dos soldados”
143
.

139
Essa tendência historiográfica pode ser percebida noutras obras já discutidas no primeiro capítulo deste
trabalho, dentre elas: BETHELL, Leslie. O imperialismo britânico e a Guerra do Paraguai. Estudos Avançados.
V.9, n.24, São Paulo, maio/ago. 1995. / POMER, León. Paraguai: Nossa guerra contra esse soldado. São
Paulo:Global, 1997. / SODRÉ, Nelson Werneck. Panorama do Segundo Império. 2 ed. Rio de Janeiro: Graphia,
1998./ CÂMARA DOS DEPUTADOS. História da Guerra do Brasil contra as Repúblicas do Uruguay e
Paraguay. Rio de Janeiro: Typ. Perseverança, vol.II, 1870, p.67-68. Disponível em: <
http://historiar.net/images/pdfs/Guerra_do_Paraguai_vol_2.pdf >. Acesso em 03 de junho de 2011.
140
DOURADO, Maria Teresa Garritano. Mulheres Comuns, senhoras respeitáveis: a presença feminina na
Guerra do Paraguai. Campo Grande: Ed. UFMS, 2005, p. 10.
141
ORTOLAN, Fernando Lóris. Dócil, elegante e caridosa: representações das mulheres paraguaias na
imprensa do pós-Guerra do Paraguai. Tese de Doutorado_ Universidade Federal do Paraná. Curitiba, 2010, p.
61.
142
ORTOLAN, Fernando Lóris. Sob o olhar da imprensa e dos viajantes: mulheres paraguaias na Guerra do
Paraguai_1864-1870. Disponível em: < www.fazendogenero.ufsc.br/7/artigos >. Acesso em: julho de 2011., p.
1.
143
ORTOLAN, Fernando Lóris. Dócil, elegante e caridosa: representações das mulheres paraguaias na
imprensa do pós-Guerra do Paraguai. Op. cit., p. 66.
54

O primeiro passo é dado no sentido de criar uma imagem condizente com o grau de
coragem e sacrifício que tal demanda exigia. Daí a importância da alegoria de guerreiras
prontas pra socorrer a nação sob o fogo cruzado, da valorização da força e ímpeto das
mulheres paraguaias em substituição ao ideal feminino de fragilidade e delicadeza. Destaque
para a atuação da imprensa na construção desse arquétipo da mulher paraguaia/espartana com
a freqüente veiculação dessa imagem ilustrada144.
Nessa esfera de maior receptividade da mulher paraguaia nos empreendimentos de
guerra, sua participação e vivência do conflito teria sido “intensa e longamente registrada pela
historiografia paraguaia”145, diferentemente da realidade brasileira, como declara Maria
Teresa Garritano Dourado. A autora identifica dois grandes grupos de mulheres paraguaias
que viveram, sofreram a guerra de modo direto: as residentas e as destinadas. Sobre as
destinadas, nos detalha:

Parentes de réus políticos, desertores e traidores da pátria, que, por isso,


eram castigadas e obrigadas a marchar pelo interior do país por pertencerem
a famílias de conspiradores, inclusive pelas faltas de amigos e conhecidos,
tendo que seguir uma escolta que sempre as levava para regiões mais difíceis
de serem alcançadas pelos aliados e obrigadas a cultivar os campos.146

É uma infeliz inversão da ordem. A mulher do século XIX a quem tão comumente é
negada a capacidade de responder por si mesma ou por sua família, de tomar decisões
importantes, especialmente no que tange à política, sendo para tanto nomeados os homens de
sua vida, agora é forçada a responder pelas decisões e atos políticos destes homens, numa
forma de escravidão ainda mais cruel. Algumas ao menos tiveram seus nomes e faces
celebrizados como Carmelita Gill, Dorotea Duprat de Lasserre, Olívia Corbalan e Pancha
Garmendia147.
Já as residentas, cujos parentes figuravam como aliados de López, marchavam ao lado
dos batalhões acompanhando filhos adolescentes, maridos, pais e irmãos. Serviam ao Exército
carregando ou preparando munição, cuidando dos feridos em batalhas, combatendo como
soldadas e, em troca sofriam as mais diversas privações.
Dionísio Cerqueira relata em “Reminiscências da Campanha do Paraguai”.

144
Idem, ibidem. p. 67.
145
DOURADO, Maria Teresa Garritano. Mulheres Comuns, senhoras respeitáveis: a presença feminina na
Guerra do Paraguai. Op.cit., p. 28.
146
Idem, ibidem, p. 32-33.
147
DOURADO, Maria Teresa Garritano. Mulheres Comuns, senhoras respeitáveis: a presença feminina na
Guerra do Paraguai. Op.cit., pp. 32-33
55

Estas mulheres não tinham medo de coisa alguma. Iam às linhas avançadas
mais perigosas, levar a comida aos maridos. Nas linhas mais encarniçadas de
atiradores, via-se estas infelizes se aproximarem dos feridos, rasgarem suas
saias em ataduras, para lhes estancarem o sangue, montá-los na garupa de
seus cavalos e conduzi-los em meio à balas, para os hospitais. Algumas
trocavam as amazonas por bombachas nos dias de combate e as pontas de
suas lanças se salientavam nas laterais de seus regimentos.148

Dionísio destaca a força e coragem desse exército invisível que marcha rumo às
campanhas militares, fazendo a diferença em diversas situações difíceis e arriscadas. Contudo,
se mesmo os regimentos militares oficiais, nos dois lados do conflito, passavam por toda a
sorte de provações, má alimentação, doenças e ausência de
cuidados médicos, imaginemos suas acompanhantes, que não gozavam de quaisquer direitos
institucionais149. Muitas vezes alimentavam-se de restos e sem acesso a cuidados médicos ou
medicamentos, ficavam totalmente vulneráveis ao cólera, à malária e diarréias . Sobre as
“acompanhantes” do Exército Brasileiro, Alfredo Taunay relata:

Quartel General de Tuiuty, 28 de novembro de 1866


Ordem do dia n.7.
Quando os Exércitos estiverem acampados, competiria especialmente ao
Inspector:........12º relacionar todas as mulheres existentes no acampamento,
segundo os corpos a que pertencerem, a fim de que se proceda à inspeção,
logo que para isso houver ordem; providenciando para que nos dias de
combate concorrão ellas aos hospitais de sangue para serem incumbidas dos
serviços em que possam ser aproveitadas, conforme já se ache estabelecido,
e cumprindo que dirija imediatamente participação das que se recusarem
àquelles serviços, para serem expelidas dos acampamentos.
Finalmente, determina o mesmo Exmo. Sr. que só as mulheres cazadas (sic)
que, acompanharem seus maridos na campanha, se abone d’ora em diante
meia ração de etapa quando não tiverem filhos, mas se os tiverem abonar-se-
lhes-há uma ração inteira.
Coronel João de Souza da Fonseca Costa, Chefe do Estado Maior.
Coronel Francisco Gomes de Freitas, Deputado do Ajudante General.
(...)
Nesse mesmo dia 28 morreram algumas mulheres, mais desamparadas ainda
do que os outros doentes, mais despidas de qualquer socorro e, por causa de
sua natural fraqueza, mais assignaladas com o estigma da última miséria.150

148
CERQUEIRA, Dionísio. Reminiscências da Campanha do Paraguai. Rio de Janeiro, Gráfica
Laemmert Ltda, 1948, p. 3.
149
DOURADO, Maria Teresa Garritano. História das mulheres na Guerra do Paraguai: fome e doenças sob a
ótica do poder patriarcal. Fazendo Gênero 8 – Corpo, Violência e Poder, Florianópolis, de 25 a 28 de agosto de
2008, p. 3.
150
TAUNAY, Alfredo D’Escragnolle. A Retirada da Laguna. São Paulo: Biblioteca do Exército, 1959, p.37/50.
56

Para com a nação em guerra, apenas deveres, como chegou a defender Jane Misme,
diretora do principal órgão do feminismo moderado francês (La Française), por ocasião da
Primeira Guerra Mundial (1914-1918)151. Na fala dos coronéis brasileiros João de Souza da
Fonseca e Francisco Gomes de Freitas, as mulheres deveriam ser aproveitadas como um
sapato velho e gasto, antes de ser descartado. Apenas as esposas tinham algum direito à
alimentação. E como ficavam as irmãs, as concubinas e prostitutas? Essas mulheres eram
enviadas aos hospitais de sangue em socorro de seus soldados, mas quem as socorreria?
Taunay descreve o desamparo, mas ignora a outra face desse desamparo: toda a força
necessária para superá-lo ou para suportá-lo, insistindo numa presunção de fragilidade
feminina natural.
Não surpreende que a brasileira de maior destaque na Guerra contra o Paraguai tenha
sido Ana Néri, senhora respeitável, enfermeira formada, viúva do oficial de marinha capitão-
de-fragata Isidoro Antonio Néri, capaz de aliar força, coragem e os instintos maternais tão
caros ao seu sexo, afastando definitivamente qualquer traço de virilidade, foi aclamada como
a “mãe dos brasileiros152, símbolo de caridade e paz. Acompanhou os três filhos combatentes
até o Paraguai, em 1865, seguindo com o 40º Batalhão de Voluntários da Pátria, comandado
153
por seu irmão, Joaquim Maurício Ferreira . Ao fim do conflito, teve baixa familiar de um
filho e um sobrinho, e o reconhecimento do governo imperial pela valorosa participação em
várias batalhas importantes como em Corrientes, Humaitá e Assunção, através da concessão
de uma pensão e uma medalha de prata154.
Mas o memorialista General Azevedo Pimentel também faz questão de exaltar outro
modelo de heroísmo patriótico, oposto à simbologia maternal que atravessa a imagem de Ana
Néri: a mulher varonil, a virtude marcial em contraste com os ideais de paz, benevolência e
feminilidade. Esse outro modelo é representado por Florisbela, mais uma mulher-soldado
negligenciada pela historiografia da guerra e, porque não, nacional.

Quem no exército não conheceu a intrépida soldada que no 29º Corpo de


Voluntários da Pátria armava-se com a carabina do primeiro homem que era

151
Trecho citado neste trabalho, p.48.
152
DORATIORO, Francisco. Op. Cit., p. 190.
153
DORATIORO, Francisco. Op.cit., p. 190.
154
COSTA, Francisco Féliz Pereira. História da guerra do Brasil contra as Repúblicas do Uruguay e Paraguay.
Rio de Janeiro: Livraria de A. G. Guimarães, 1870, V. IV, p. 628.
57

ferido, e entrava em seu lugar na fileira, sustentando o combate até o fim da


luta, largando então a arma agressiva, para tomar as da caridade, e dirigir-se
aos hospitais de sangue?
(...)
Florisbela tinha a desventura de ser uma trasnviada, sem nome, nem família;
mas se alguma mereceu o nome de heroína, ela deveria de figurar no 1º
plano – cum laude.
Vê-la com lábios enegrecidos pela ação de morder o cartucho, era o mesmo
que ter diante de si o anjo da vitória. Ela entusiasmava-nos!
(...)
Não tinha a virtude de Ana Néri, é verdade, nem os recursos de sua valente
educação; mas sobrava-lhe o valor varonil, e disputou-o, braço a braço, com
os inimigos da Pátria, a cuja glória fê-los sucumbir, sempre que se mediram
com ela!155

O relato do General Pimentel é tão entusiástico quanto estereotipado. Ele lança


Florisbela na memória da guerra, mas não perde a oportunidade de ressaltar que se trata de um
modelo “transviado”. A mulher varonil gera fascínio, mas também e principalmente espanto,
medo da confusão de identidades e papéis sexuais culturalmente definidos, centros de
estabilidade das relações de poder e hierarquias nas relações de gênero. Apesar de todos os
feitos de Florisbela, o memorialista deixa claro que o modelo correto, aquele que deve ser
seguido é o da “mãe de todos os brasileiros”, Ana Néri, é o da mulher caridosa e delicada em
oposição à mulher agressiva, que pode ser subversiva e até perigosa, como atestaram os
paraguaios em mãos de Florisbela. Talvez também para justificar sua admiração por
Florisbela, o general faz questão de revelar que depois das batalhas ela deixa sua
agressividade de lado e assume a forma adequada ao seu sexo, a de mulher caridosa,
dedicando-se aos feridos.
As mulheres paraguaias também pegaram em armas. Existem registros de mulheres
combatentes como Francisca Cabrera156 e até mesmo da formação de um batalhão feminino
com postos de “sargentas”, como já mencionado. Casos como estes e a atuação de Florisbela
demonstram que os anseios de Jovita não eram absurdos ou inviáveis, as mulheres poderiam
se tornar hábeis no uso da carabina e da baioneta. Mas, oficialmente a nação não estava
preparada para uma mulher “viril”. As Forças Armadas Brasileiras só as receberiam sob a
simbologia de primorosos anjos da guarda, no exercício de sua função maternal, de cuidar,
amparar e sanar as dores e o sofrimento dos soldados feridos nos campos de batalha.

155
PIMENTEL, Joaquim Silvério de Azevedo. Episódios militares. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1978,
p. 19-20.
156
ALCALA, Guido Rodriguez (Org.), 1991, p. 66 apud DOURADO, Maria Teresa Garritano. Mulheres
comuns, senhoras respeitáveis_ a presença feminina na Guerra do Paraguai. Op.cit., p. 37.
58

2.3. MULHERES-SOLDADOS BRASILEIRAS

Examinado , inscreve-se artilheiro


O camponez intrépido, trigueiro,
De membros e maneiras tão gentis,
Que para logo desconfiam todos
Da sua compostura, dos seus modos,
Do seu porte e seus trajes varonis.

Eis se descobre a civica fallacia


E o bello ardil, a temerosa audácia
Abre um sulco de augurios no porvir
Cinge um curto saiote a vivandeira,
Que, agora, de espingarda e cartucheira,
Nos "Periquitos" lestos vae servir.

Encarniça-se a lueta horrendamente.


Quiteria, sempre indomita e fremente,
Caminha na vanguarda das legiões.
Salta impecilihos, mofa de emboscadas,
Accommette trincheiras, paliçadas,
Quadrados, contingentes, esquadrões.
( Carlos D. Fernandes) 157

Uma série de discursos e saberes institucionalizou a imagem da mulher como o “sexo


frágil”, físico, mentalmente, e até do ponto de vista da “alma”. Essa aparente fragilidade é
contestada por trajetórias como a de Jovita Feitosa, Maria Quitéria, Anita Garibaldi e uma
verdadeira legião de soldados renitentes, mas demasiadamente camufladas para serem notadas
pela história.
Jovita não está só em sua empreitada. Apesar de reconhecidamente um lugar de
monopólio masculino, a guerra, em especial aquelas com certo apelo patriótico, despertaram
em várias mulheres anseios libertários. Um desejo de se libertar das restrições ao seu sexo, de
romper com as fronteiras da feminilidade para lutar pela glória nacional, ou, inversamente, de
usar o ideal de libertação nacional para libertar-se de suas amarras.
A oportunidade de fazer algo “grandioso”, fora da jurisdição doméstica, não foi um
vislumbre exclusivo de Jovita. As mulheres-soldados, invisíveis nos anais da história, formam
um exército que combate em duas frentes: contra os inimigos nacionais, e contra as restrições
ao seu sexo; pela consolidação de certas fronteiras nacionais, ao mesmo tempo que pela
derrubada das rígidas fronteiras simbólicas nas relações de gênero.

157
Poema Virgo Praedicanda. Revista América Brasileira, setembro de 1923, anno II, n. 21. Projeto Brasiliana:
acervo digital da USP.
59

Jovita Feitosa, Maria Quitéria, Anita Garibaldi fazem parte desse exército
negligenciado pela historiografia, um exército fora dos padrões normativos de
comportamento, tratado e relatado num sentido episódico, como uma anedota pouco relevante
para a compreensão dos grandes acontecimentos históricos. As mulheres-soldados são
apresentadas como um anexo curioso à história da guerra, como uma espécie de fábula
patriótica, que não carece de qualquer aprofundamento. Michelle Perrot, em As mulheres ou
os silêncios da história, fala numa espécie de alegoria de submissão que atravessa a memória
da atuação feminina no espaço público.

No teatro da memória, as mulheres são uma leve sombra. A narrativa


histórica tradicional lhes dá pouco espaço, justamente na medida em que
privilegia a cena pública - a política, a guerra - onde elas aparecem pouco.
A iconografia comemorativa lhes é mais aberta. (...) Mas alegorias ou
símbolos, elas coroam os grandes homens ou se prostram a seus pés,
relegando um pouco mais no esquecimento as mulheres reais que os
apoiaram ou amaram e as mulheres criadoras cuja efígie lhes fazia
sombra.158

As mulheres reais com trajetórias que divergem desse modelo alegórico de


subordinação feminina e celebração da virilidade masculina são relegadas ao esquecimento
uma vez que, “interessa-se pouco pelas mulheres singulares, desprovidas de existência e mais
à mulher, entidade coletiva e abstrata, à qual atribuem-se caracteres de convenção”159. Nossas
atípicas soldados conseguiram um espaço na memória da guerra, mas um espaço tímido
diante de sua intrepidez. Devem se contentar com a repetição de um simples, curto e
incompleto relato descritivo de seus feitos, sem qualquer análise ou crítica, uma narrativa que
fica entre a idéia de história complementar e a mitologia.
Continuamos a pensá-las como casos excepcionais que não nos revelam nada sobre o
seu tempo, como se estivessem criado um mundo particular para a sua rebeldia. Contra essa
perspectiva, José Murilo de Carvalho afirma que “por ser parte real, parte construído, por ser
fruto de um processo de elaboração coletiva, o herói nos diz menos sobre si mesmo do que
sobre a sociedade que o produz”160. É a partir dessa orientação que pensamos Jovita e
entendemos que as outras mulheres-soldados devem ser estudadas, como “agentes de si
mesmas”, mas dentro de um contexto sócio-político que atua como chave explicativa mesmo

158
PERROT, Michelle. As mulheres ou os silêncios da história. São Paulo: EDUSC, 2005, p. 33.
159
PERROT, Michelle. As mulheres ou os silêncios da história. Op.cit., p. 34-35.
160
CARVALHO, José Murilo de. A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo:
Companhia das Letras, 1990, p. 14.
60

da atipicidade das mulheres-soldados, de sua aceitação e, ou rejeição coletiva, e da


constituição da memória de suas trajetórias.
Não temos como fazer uma análise das trajetórias e das memórias constituídas de
várias mulheres-soldados neste momento. Mas, apresentaremos alguns casos que podem
contribuir à reflexão sobre Jovita, que podem nos revelar outras faces da mulher-soldado,
mesmo que para isso tenhamos que tratá-las sem a investigação e a pesquisa de que tanto
carecem. Vamos começar pela mulher-soldado Maria Quitéria.
Maria Quitéria, heroína da independência da Bahia e do Brasil, primeira mulher a
assentar praça nas Forças Armadas Brasileiras, em 1822, participou ativamente e com honras
de diversas batalhas pró- independência. Não se conteve diante da campanha de
arregimentação de voluntários nos conflitos pela independência, diga-se de passagem,
campanha muito mais tímida que a da Guerra contra o Paraguai. Desejando alistar-se, e assim
como Jovita, órfã de mãe e sem o consentimento do pai, teve que fugir de casa. Obteve apoio
na casa de sua irmã Teresa e de seu cunhado, José Cordeiro de Medeiros. Usou roupas de
Medeiros e cortando os cabelos, disfarçou-se de homem, conseguindo alistar-se como soldado
Medeiros, inicialmente no Corpo de Artilharia e, posteriormente ao de Caçadores.161
Maria Quitéria, nascida provavelmente em 1792 em Arraial de São José de
Itapororocas- BA, ficou conhecida pela sua destreza no manejo de armas, na montaria e pela
sua disciplina. Duas semanas depois de se alistar, teve sua identidade descoberta e o pai no
seu encalço para que retornasse à sua vida corriqueira. O major Silva de Castro, reconhecendo
suas habilidades como bom soldado, tutelou sua desobediência e “não permitiu” seu
desligamento.162
A bravura de Maria Quitéria foi acolhida pelo serviço militar brasileiro, mas revelada
sua identidade feminina passou a usar um saiote sobre o fardamento militar e foi incorporada
ao Batalhão dos Voluntários de D. Pedro I. Encerrada a guerra foi condecorada pessoalmente
pelo Imperador, com a insígnia de “Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro”, como
reconhecimento de sua bravura e coragem. Foi recompensada ainda com o soldo de “Alferes
de linha”.163
O site oficial do Exército Brasileiro faz questão de ressaltar que Maria Quitéria não se
deixou levar “pela vaidade e pelo fulgor da glória que conquistara”, e ao fim da guerra,

161
Disponível em: < http://www.exercito.gov.br/web/ingresso/linha-do-tempo?> ; <
http://www.brasil.gov.br/sobre/historia/personagens-historicos/maria-quiteria-1792-1853 > Acesso em julho de
2011.
162
Disponível em: <http://www.brasil.gov.br/sobre/historia/personagens-historicos/maria-quiteria-1792-1853>
Acesso em julho de 2011.
163
Disponível em: < http://www.exercito.gov.br/web/ingresso/linha-do-tempo>. Acesso em julho de 2011.
61

“recolheu-se ao silêncio do lar, e terminou falecendo num “doloroso anonimato”164. Afinal,


como observa Davis, “ não se pode fugir totalmente dos centros e hierarquias”165.
Para que a ordem seja restituída, a mulher-soldado precisa retornar a seu status quo
ante, ao silêncio que lhe é prescrito para que recupere seu lugar nas sombras dos grandes
eventos históricos. Maria Quitéria casou-se, teve uma filha, ficou viúva, terminou como uma
mulher convencional do século XIX, no anonimato. Mas não sem antes provar sua coragem e
rebeldia, sem mostrar que era capaz de driblar com maestria as fronteiras impostas nas
relações de gênero, desmascarando sua suposta “naturalidade”.
Como forma de recompensar o anonimato e o esquecimento a que foi relegada, a
trajetória de Maria Quitéria, exilada da história oficial da independência do Brasil, foi
registrada em algumas homenagens em sua memória.

No ano do centenário do falecimento da valorosa mulher-soldado, o então


Ministro da Guerra determinou, por intermédio do Aviso nº 408, de 11 de
maio de 1953, que em todos os estabelecimentos, repartições e unidades do
Exército, fosse inaugurado, no dia 21 de agosto de 1953, o retrato da insigne
patriota.
Finalmente, em 28 de junho de 1996, Maria Quitéria de Jesus, por decreto do
Presidente da República, passou a ser reconhecida como Patrono do Quadro
Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro.166

Esse tipo de reconhecimento, no entanto, não é suficiente, para retirar a imagem de


Maria Quitéria dos anexos destinados a fatos “curiosos” da história, anedotas tão mal
explicadas que alimentam as muitas dúvidas, inclusive dúvidas sobre a própria autenticidade
de suas trajetórias. Ainda assim é preciso reconhecer que a decisão do Ministro de Guerra ao
menos abriu um espaço, ainda que tímido, na história das Forças Armadas Brasileiras,
obviamente, no Quadro Complementar de Oficiais, do qual Maria Quitéria foi nomeada
patrona.
Não é simples coincidência o reconhecimento de Maria Quitéria num quadro
complementar. Mesmo com todas as manifestações de destreza militar e patriotismo, uma
mulher não pode ser recepcionada no Quadro oficial de oficiais. Seu lugar deve ser situado
numa posição meramente complementar a um papel e espaço que é, e deve continuar sendo,
monopólio masculino.

164
Idem, ibidem.
165
DAVIS, Natalie Zemon. Nas margens:três mulheres do século XVII. Op.cit., p. 196.
166
Maria Quitéria. Disponível em: < www.exercito.gov.br/web/guest/maria-quiteria-quadro-complementar-de-
oficiais> . Acesso em agosto de 2011.
62

Cécile Dauphin, Arlette Farge, Michelle Perrot et.al., em A história das mulheres,
cultura e poder das mulheres: ensaio de historiografia, discutem a recorrência historiográfica
da perspectiva de complementaridade nas relações de gênero, uma acepção que considera a
existência de um equilíbrio quase que perfeito na divisão dos papéis sexuais, suplantando os
conflitos e a constante tensão correntes nas relações de poder, na “simbologia da dominação”,
acabando por tornar-se parte dessa simbologia.

O tema da complementaridade funcionará tão bem que vai impor a imagem


definitiva de uma divisão dos espaços, dos tempos, dos gestos cotidianos,
dos rituais entre homens e mulheres e apresentar um modo equilibrado de
papéis e tarefas, nem antagônicas nem concorrentes: a vida social, assim,
parece organizada em torno de dois pólos aparentemente equivalentes – a
autoridade masculina de um lado, os poderes femininos do outro.167

Ao contrário de Maria Quitéria, que teve apoio no retorno à família, pôde se casar, ter
filhos, constituir família, mesmo depois de violar todos os códigos de conduta feminina,
incluindo-se a desobediência reiterada a seu pai; Jovita não foi acolhida no retorno ao lar, não
teve a chance de regresso ao silêncio e à banalidade da vida no campo, às suas tarefas
domésticas e corriqueiras. Após ser dispensada de seu posto de 2º sargento, Jovita se deparou
com portas fechadas. Foi rejeitada pelo tio e esquecida por seus compatriotas. Depois da
aclamação e da glória, restou-lhe o desamparo.
Esse desamparo, dentro de uma perspectiva que considera uma história das
possibilidades, em que “a história também pode fazer uso do verossímil”168, pode ter marcado
profundamente o destino de Jovita, o destino que ela tomou em suas mãos quando decidiu
fugir de casa. Seu fim trágico, um suposto suicídio com uma punhalada no peito, episódio
sobre o qual voltaremos a falar adiante, é bastante enigmático. A parte mais obscura de sua
trajetória pessoal, inclusive pela contingência de não mais estar no centro político das
atenções.
Jovita pagou um preço alto pelas suas contravenções sociais, por ter demonstrado que
a guerra pode ser um lugar para mulheres, que uma mulher pode ser tão patriota e destemida
quanto quaisquer homens. Contudo, exceto pela parte final de suas trajetórias pessoais, Jovita
Feitosa e Maria Quitéria tem muito em comum: a fuga, a desobediência, o disfarce, a

167
DAUPHIN, Cécile; FARGE, Arlette; PERROT, Michell et. al. A história das mulheres, cultura e poder das
mulheres: ensaio de historiografia. Niterói: Gênero, v.2, n. 1, 2001, p.11.
168
GINZBURG, Carlo. Provas e possibilidades à margem de ‘Il ritorno de Martin Guerre’, de Natalie Zemon
Davis. In: GINZBURG, Carlo; CASTELNUOVO, Enrico; PONI, Carlo. A micro-história e outros ensaios. Rio
de Janeiro: Bertrand, 1991, p.197.
63

revelação de suas identidades; o alistamento mesmo depois da revelação; o uso do saiote por
sobre o fardamento militar; a celebração de suas demonstrações de patriotismo e bravura; e a
conservação de um certo padrão de feminilidade. São tantos pontos em comum que até nos
levam a inquirir se Jovita já tinha ouvido falar de Maria Quitéria e, se usou seu exemplo como
motivação.
Deixando a defesa da Monarquia Brasileira, representada pelos esforços de Maria
Quitéria no Primeiro Império, e de Jovita no segundo Império, passamos a considerar a
trajetória de outra mulher-soldado brasileira de grande repercussão: Anita Garibaldi. Do lado
oposto, na Guerra dos Farrapos contra a monarquia brasileira, ela triunfou junto ao imaginário
vitorioso da República de dois países: Brasil e Itália. Ficou conhecida como “heroína dos dois
mundos”169, pela participação em lutas políticas no Brasil e na Itália ao lado de Giuseppe
Garibaldi.
Ana Maria Ribeiro da Silva (1821-1849) nasceu em Laguna, Santa Catarina. Em 1835,
aos quinze anos, casou-se com o sapateiro Manoel Duarte de Aguiar. Conheceu Giuseppe
Garibaldi na tomada de Laguna, em 1837, abandonou a pacata vida ao lado de seu marido
sapateiro e seguiu ao lado do guerrilheiro, participando de várias batalhas com armas em
punho. Na batalha de Curitibanos, em 1839, foi capturada pelas forças imperiais, mas
conseguiu fugir atravessando o rio Canoas a nado, para se reencontrar com Garibaldi em
Vacaria.170
Em 1841, Anita, Giuseppe e seu primeiro filho, Menotti, partiram pra Montevidéu. Lá
o casal oficializou a relação, contraindo matrimônio, e passou a integrar as batalhas pela
independência uruguaia. Em 1847, Anita foi enviada à Itália para sondar a receptividade em
relação ao seu marido, sob o qual pesava uma sentença de morte. “Segue lutando ao lado dele
pela unificação da Itália, dando provas de grande bravura, em episódios como a batalha do
Gianicolo”171. Mas, no dia 04 de agosto de 1849, após derrota contra as tropas franco-
austríacas em Roma, fugindo para a Suíça, Anita Garibaldi cai doente e morre aos 28 anos.172
Sobre a família constituída ao longo dos doze anos ao lado de Garibaldi, relata
Cadorin:

169
Jornal o Albor. Centenário da República Catarinense, 08-05-1938, p.01. In: ELÍBIO JÚNIOR, Antônio
Manoel. A fabricação de uma heroína: Anita Garibaldi. Revista Esboços, v.6, n.6, 1998. Disponível em: <
www.periodicos.ufsc.br/index.php/esbocos/article/view/519 >.
170
Disponível em: < www.mundofisico.joinville.udesc.br > . Acesso em agosto de 2011.
171
Disponível em: < www.mundofisico.joinville.udesc.br > . Acesso em agosto de 2011.
172
Idem, ibidem.
64

Além de Menotti, o único filho brasileiro, Anita teve mais outros três filhos,
que nasceram enquanto residente em Montevidéu. Em 30 de novembro de
1843 nasceu Rosita. Em 22 de fevereiro de 1845 nasceu a filha Terezita e em
4 de fevereiro de 1847 nasceu o filho caçula Ricciotti. Rosita veio a falecer
ainda criança, conforme será narrado na seqüência. Menotti e Ricciotti
cresceram e tornaram-se oficiais do Exército Italiano, tendo ambos lutado ao
lado do pai Giuseppe, anos mais tarde, no segundo período das guerras pela
unificação italiana. Casaram-se e tiveram diversos filhos, quase todos
militares. Alguns chegaram ao posto de general. Terezita casou-se na Itália e
teve 16 filhos.173

Ana Maria, ou Aninha, como era chamada por seus familiares, transformou-se na
revolucionária catarinense Anita Garibaldi, assim como um dia Antônia Alves Feitosa se
transformou na 1º sargento Jovita Feitosa e Maria Quitéria passou a ser a “soldado Medeiros”.
As três passaram por um processo de construção de uma nova imagem, não totalmente
divorciada de suas experiências anteriores, mas que irrompe o espaço público, foge da
categoria globalizante “mulher” e das regras de recato, discrição, silêncio, submissão,
resignação e mansidão prescritas a ela, e assim ganham materialidade, individualidade.
Michelle Perrot traz à discussão as dificuldades para se fazer a história de uma
perspectiva que corrobore e analise a presença feminina nas suas individualidades, já que nas
fontes que não as negligenciam totalmente, elas são reveladas em grupos: “fiandeiras,
caçadoras clandestinas, arruaceiras dos tumultos alimentícios ou religiosos - e não como
pessoas, como se elas não o fossem, o que coloca o problema de seu reconhecimento
individual”174. No mesmo sentido, Dias afirma que “as mulheres raramente apresentam a
individualidade de personagens históricos. São forças outras, misteriosas, desconhecidas, às
vezes perigosas”175. Maria Quitéria, Jovita Feitosa e Anita Garibaldi são sujeitos concretos,
que inscreveram sua individualidade e personalidade na história da guerra, na história do
Brasil, obtendo algum reconhecimento individual, embora não o devido espaço nos canais
críticos de discussão das relações de gênero e dos eventos históricos dos quais são parte e
produto, ao mesmo tempo. Ainda não.

173
CADORIN, Adilcio. Anita Garibaldi, a guerreira das Repúblicas. Florianópolis- SC, 1999. Disponível em: <
http://www.paginadogaucho.com.br/bibli/anita-14.htm >. Acesso em agosto de 2011.
174
PERROT, Michelle. As mulheres ou os silêncios da história. Op.cit., p. 12.
175
DIAS, Maria Odila Leite da Silva. Quotidiano e Poder em São Paulo no século XIX. 2º Ed. São Paulo:
Brasiliense, 1995, p. 40.
65

CAPÍTULO III

O que me espanta é a força


De um feminil coração,
E’ ver n’um peito de corça
Brío, valor de leão!
E sob a forma delgada
De uma mulher delicada
Vêr um’alma alimentada
Do fogo de uma explosão!

Isto, sim, isto é sublime!


Vale arcos triunphaes!
E’ grande arrostar o vime
Nortadas e vendavaes!
E’ cousa que maravilha
Partir risonha à guerrilha
Ingenua, modesta filha
Qual desinvolto rapaz!

(Poeta pernambucano não identificado)176

3. RETRATO FALADO DE JOVITA ALVES FEITOSA

1. IMAGENS DE JOVITA E SUAS FONTES HISTÓRICAS

A publicidade e notoriedade alcançadas pela imagem que se construiu de Jovita


durante e depois da Guerra contra o Paraguai, seu patriotismo subversivo e as manifestações
de apoio e de reprovação, que revelam os estereótipos próprios de uma cultura machista
predominante na sociedade brasileira do século XIX, marcam transversalmente as diversas
versões construídas sobre Jovita.
Podemos dividir essas versões em dois grupos: o grupo dos textos e testemunhos
publicados no calor do acontecimento, quando Jovita põe abaixo as barreiras do espaço
doméstico, conquistando uma vida pública; e o grupo dos textos e rememorações posteriores,
inseridos na memória da Guerra contra o Paraguai, do patriotismo e das mulheres-soldados
brasileiras.

176
Poema em homenagem a Jovita. Em COARACY, José Alves Visconti. Op.cit, p. 40.
66

Neste capítulo, o diálogo entre esses dois grupos, as continuidades e reconfigurações


presentes nos discursos sobre Jovita nos levam à montagem deste “retrato falado”, sem,
contudo, qualquer pretensão de aprisionamento de sua imagem. Pelo contrário, propomos aqui
a elaboração de um desenho feito com as diversas cores e texturas pré-existentes sobre Jovita,
sem linhas definidas, mas com pontilhados que reconhecem as diversas possibilidades de
abordagens e questões a serem exploradas no interior e através da trajetória de Jovita Feitosa.
A escassez de textos sobre Jovita, por ela mesma, é certamente a lacuna mais difícil de
ser compensada. Como pensar o sujeito Jovita, seus anseios, desejos, angústias, como
adentrar no campo das sensibilidades, ouvir sua voz sem ter acesso a sua fala?
Só nos resta seguir o conselho de Jim Sharpe que inspirado em autores como Carlo
Ginzburg e Natalie Davis defende o uso imaginativo da fonte, a interação entre pesquisa e
imaginação como forma de se ampliar nossa visão do passado177. Paul Ricouer, no mesmo
sentido, preceitua que “a imaginação organiza a lacuna entre dois tempos”, o passado e o
presente, as pretensões do tempo presente em relação ao passado, num movimento que
mantém este último vivo 178.
Temos de um lado, Jovita como um “guia” histórico que nos conduz pelo universo
político e sócio-cultural da Guerra contra o Paraguai179; e de outro lado, a Jovita indivíduo,
mulher, e o modo como suas escolhas e experiências, enfim, sua trajetória marca e é marcada
por esse acontecimento histórico. Em alguns momentos essas duas facetas são inseparáveis.
Localizamos dois importantes registros da fala de Jovita. O primeiro deles tem caráter
oficial, trata-se do interrogatório policial a que foi submetida logo que descoberta sua
identidade feminina, conduzido pelo chefe de polícia da província do Piauí, José Manoel de
Freitas. O segundo registro foi realizado pelo fluminense José Alves Visconti Coaracy180 e
possui um tom jornalístico, por vezes maravilhado com a trajetória pública de Jovita e com
seu espírito de vanguarda. Coaracy afirma ter tomado depoimentos diretos de Jovita, em
entrevistas particulares, logo que ela desembarcou no Rio de Janeiro, no dia 09 de setembro
de 1865, e depois logo após sua dispensa do serviço militar, o que ocorreu em 16 de setembro
do mesmo ano.

177
SHARPE, Jim. A história vista de baixo. In: BURKE, Peter(org.). A escrita da história: novas perspectivas.
São Paulo: Editora UNESP, 1992, p. 59.
178
Ver SILVA, Vanuza Souza. Paul Ricouer: por uma discussão da narrativa. Ver. Veredas da História. Ano
III, Ed. 1, 2010, p. 9.
179
Ver ROMEIRO, Adriana. Um visionário na corte de D. João V: revolta e milenarismo nas Minas Gerais.
Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2001, p. 16.
180
Vide segundo capítulo deste trabalho, pp. 4-5.
67

O interrogatório policial e os relatos biográficos de Coaracy são as duas fontes


primeiras sobre Jovita. O interrogatório serviu de base para as primeiras notícias veiculadas
pela imprensa sobre a nossa “voluntária da pátria”. Sobre os relatos biográficos de Coaracy,
temos a impressão, com base no levantamento bibliográfico realizado181, que esta é a fonte
catalisadora da edificação posterior de uma memória sobre Jovita, somada a cobertura feita
pela imprensa da época. Coaracy teve, inclusive, a preocupação de transcrever o
interrogatório policial e as notícias de maior repercussão publicadas nas províncias do Piauí,
Maranhão e Pernambuco, sobre a trajetória de Jovita.
A historiografia que em regra trata a trajetória pública de Jovita como uma trama
suplementar à história da mobilização de voluntários da pátria, no âmbito da Guerra contra o
Paraguai, ou como um “caso curioso”, nas palavras de Monsenhor chaves, não se dedica à
análise ou crítica dessas fontes, limitando-se à sua reprodução.
A reprodução e venda de fotografias de Jovita e a cobrança de ingressos para vê-la em
espetáculo produzido em sua homenagem no Maranhão são indicativos de um caráter
lucrativo assumido pela imagem de patriotismo e heroísmo de que se reveste 182. Segundo
Coaracy, “as photographias se reprodusião(sic) todos os dias, e é raro quem não possua um
retrato da voluntária do Piauhy”183.
Esse traço mercantil da imagem de nossa personagem, que provavelmente serviu de
incentivo à propaganda de seu heroísmo e sua transformação num mito, símbolo de bravura e
determinação, é, nestes textos negligenciado, empurrado para debaixo do tapete, esquecido.
Fala-se na ampla venda de fotografias e na lotação de espetáculos apenas como manifestações
de apreço, curiosidade ou admiração popular por seu desprendimento em relação aos códigos
de comportamento impostos à mulher do século XIX, sem atentar que por trás desses
empreendimentos existiam pessoas que lucravam, ganhavam mais que a oportunidade de
conhecer a heroína do momento.
Refletindo sobre a importância do acontecimento sensacional, Georges Duby conclui
que seu “inestimável valor” reside nos “seus efeitos de ressonância, em tudo aquilo cuja
explosão provoca a ascensão desde as profundezas do não-dito”, na sua capacidade de gerar
“torrentes de discursos”, na idéia de que a excepcionalidade do acontecimento lança lentes de
aumento sobre tudo que o circunda, que o informa, sobre códigos de conduta e mentalidades
181
Ver CHAVES, Monsenhor. op. cit./ DOURADO, Maria Teresa Garritano. Mulheres Comuns, senhoras
respeitáveis: a presença feminina na Guerra do Paraguai. Op. Cit./ DORATIOTO, Francisco Fernando
Monteoliva. op. cit., p. 116./ NUNES, Odilon. Pesquisas para a história do Piauí. Teresina: FUNDAPI/ Fund.
Mons. Chaves, 2007, v. IV.
182
Ver capítulo II, pp. 9-10.
183
Coaracy, José Alves Visconti. Op.cit., p.23.
68

tão incorporados ao cotidiano, que de outro modo não seriam percebidos, “permaneceriam nas
trevas”184.
Uma explosão pode solapar o estado estabelecido das coisas ou ao menos estremecer
as bases que naturalizam padrões de comportamento, desigualdades e hierarquias de gênero,
classe e raça. A trajetória de Jovita Feitosa, enquanto acontecimento histórico sensacional, é
demasiado subversiva para a sociedade brasileira do século XIX, é desconcertante para os
discursos que firmavam a natureza frágil, ordeira, submissa das mulheres; para os padrões de
feminilidade e masculinidade impostos por esses discursos, sobre os quais já nos debruçamos
com mais afinco no segundo capítulo deste trabalho.
Contudo, não cansamos de repetir, a trajetória de Jovita não pode ser mais pensada
como uma anedota ou episódio isolado, desconexo. Pelo contrário, sua compreensão carece de
sua inserção no quadro histórico da Guerra contra o Paraguai e das experiências pessoais que
constituem Jovita enquanto sujeito da história. Sujeito que pensa, que sente, que se ressente,
que é influenciado, que exerce influência, que é patriota, mas que também pode tem motivos
outros, talvez íntimos, para somar ao seu patriotismo e deixar tudo para trás. Assim como
Jacques Le Goff, acreditamos na “singularidade e independência relativa do indivíduo”185.
As várias versões sobre Jovita se conservam muito próximas em suas diferenças. Em
regra, o foco se mantém sobre sua demonstração de patriotismo e na transformação de sua
experiência pessoal num espetáculo. Os usos da imagem de Jovita durante o processo de
arregimentação militar são informativos de um caráter propagandista para a campanha de
alistamento voluntário. Os textos e publicações do período (1865-1870) são informados por
um simbolismo patriótico do qual Jovita passa a fazer parte, como um ícone nacional
oportuno e irreverente ao mesmo tempo. Esse plano de ideias irá marcar intensamente o
retrato mais conhecido de nossa personagem, um retrato que permanece na superfície do
sujeito Jovita, mas que deixa escapar alguns sinais que podem nos ajudar a pensá-lo.

3.1.1 A NOTÍCIA

No grupo de textos contemporâneos à Jovita Feitosa, destacamos a publicação do


jornal piauiense A Imprensa, apresentando a nova “voluntária da pátria” à província, tornando
pública sua iniciativa. É um texto instigante que toca em diversas questões importantes a

184
DUBY, Georges. O domingo de Bouvines: 27 de julho de 1214. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1993, pp. 10-11.
185
LE GOFF, Jacques. O desejo pela história. In: ensaios de ego-história. Rio de Janeiro: Edições 70, 1987, p.
180.
69

cerca da imagem de Jovita, questões que já vínhamos discutindo, como o simbolismo


patriótico, a simbologia da “dominação masculina”, e as conexões entre nossa personagem e
outras mulheres-soldados brasileiras. Por sua importância para este retrato, optamos pela
transcrição em inteiro teor do comunicado.

VOLUNTÁRIOS DA PÁTRIA

- Voluntária da Pátria: Apresentou-se nessa cidade uma interessante rapariga


de 17 annos de idade, de typo índia, natural do Inhamuns, vinda de Jaicós,
d’esta província, trajando vestes de homem rude, e offereceu-se ao Exm.
presidente como_ Voluntário da Pátria. Aceito como tal e pouco depois_ na
rua, ou na casa do mercado, descoberto, o seu sexo, é levado à polícia e
interrogado: confessa o seu disfarce envergonhada _ chora, porque teme não
poder mais seguir seu intento, e pede encarecidamente que a acceitem como
voluntário. Seu maior desejo, diz Ella, é ‘bater-se com os monstros que
tantas affrontas tem feito às suas irmãs de Matto Grosso, é vingar-lhes as
injúrias ou morrer nas mãos d’esses tigres sedentos’. Fazendo-se-lhe sentir a
fraqueza do seu sexo, só lamenta não ser acceita.
Sua Exc. Accedeo a tão ardentes desejos.
Hoje a vimos de saiote e farda com insígnias de 1º sargento. Mostra-se
satisfeita e resoluta sempre. Não lhe causam emoção os perigos da guerra.
Talvez que a nossa voluntária faça actos de bravura, e qual outra Maria
Quitéria de Jezus (sic) da guerra da independência da Bahia, venha a
merecer, como aquella mereceu do primeiro reinado, uma banda official e a
venera de uma ordem honorífica.186

A narrativa, ao tempo em que revela e evidencia aspectos de um acontecimento,


lançando efeitos de luz sobre a face do nosso personagem, no prisma multilateral que o
compõe, silencia outras, num jogo de interesses e limites próprios do discurso
(contemporâneo ou não) e, inclusive, daquele que resulta desta pesquisa. Portanto, “pensar a
constituição da narrativa significa refletir também o que é silenciado, o que não é dito”187.
A omissão do nome, elemento básico de distinção188, da “rapariga de 17 annos, natural
de Inhamuns, vinda de Jaicós”, é indicativa de um processo de transmutação de Jovita na
“voluntária da pátria”, ícone nacional, modelo de patriotismo a ser seguido. Possivelmente
essa omissão seja parte de um processo de dissolução do sujeito Jovita, enquanto
singularidade, para que então, todos os brasileiros “aptos” ao serviço militar pudessem se
identificar com o “voluntarismo em defesa da pátria”.

186
A Imprensa. Teresina, 27 de julho de 1865, Anno I, nº 01. Disponível no Núcleo de Pesquisa, Documentação
e Memória- NUPEM, da UFPI.
187
SILVA, Vanuza Souza. Op.cit., p. 12.
188
GINZBURG, Carlo. A micro-história e outros ensaios. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1991, p. 174.
70

Sua trajetória ganha novas configurações, deixa de pertencer exclusivamente a Jovita e


ganha sentido para “os voluntários da pátria”, para a campanha de alistamento voluntário; mas
também, como efeito colateral, imprevisível e indesejável, para outras mulheres que
ansiavam pelo rompimento das fronteiras do espaço doméstico ou que já se colocavam fora
dos padrões esperados de feminilidade.
A despersonificação de nossa heroína deve ter funcionado ainda como modo de vexar
aqueles que apesar de considerados aptos ao serviço militar, usavam de diversos artifícios
para evitá-lo. Homens que se embrenhavam nas matas para escapar ao recrutamento ou, nas
classes mais elevadas, enviavam escravos em seu lugar. Bastava que tomassem conhecimento
que uma jovem de apenas 17 anos se mostrava mais valente e destemida, lutando até mesmo
contra a “fraqueza” atribuída ao seu sexo. Essa fraqueza que lhe é imputada e que ela lamenta
que obstaculize seu intento. Lamenta as restrições à sua condição de mulher e sua insatisfação
sutilmente registrada no depoimento sugere que ambiciona uma chance de fazer contraprova à
debilidade física, moral e até espiritual reputada ao seu sexo.
Depois de conquistar a insígnia de 1º sargento, mostra-se sempre “satisfeita” e
“resoluta”, reforçando a imagem da (o) patriota que não recua, que não se intimida diante do
inimigo; da mulher que pode galgar novos espaços sócio-culturais.
A notícia destacada acima termina com uma nota de apoio à “ voluntária da pátria”,
acolhida pela província do Piauí e comparada à outra heroína do panteão cívico nacional,
Maria Quitéria. O redator do jornal A imprensa, ao fazer tal comparação, declara que Jovita
não está só em seu intento, na sua postura desafiadora dos papéis prescritos às mulheres, em
seu desejo de autonomia.

3.1.2. O INTERROGATÓRIO

A decisão de Jovita de se alistar como voluntária da pátria, usando vestes masculinas,


fazendo-se passar por um rapaz, se tornou um caso de polícia. Para nós, indício significativo
de seu traço subversivo. O interrogatório policial, instrumento oficial de registro da fala de
Jovita, deve ser lido considerando-se sua essência intimidadora. Ser detido e levado a
interrogatório policial é uma situação que deixaria a maioria das pessoas no mínimo
apreensivas, se não atemorizadas. Sentir-se intimidado pode levar ao desenvolvimento de
autoproteção, que levam à ponderação sobre as palavras ditas. Não é exatamente um momento
em que se cogita liberdade comunicativa, a começar pelo estrito direcionamento das
perguntas.
71

O auto de perguntas e respostas é bastante extenso, por isso resolvemos dividi-lo em


partes. Feita a abertura do interrogatório, intitulado “auto de perguntas a um voluntário da
pátria, que foi conhecido ser mulher”, segue-se com uma série de perguntas preliminares
voltadas à identificação de Jovita. Já que esse processo de identificação é algo que temos feito
desde a introdução desse trabalho, passaremos ao segundo momento do interrogatório, quando
se investiga os motivos de Jovita para se alistar como voluntária da pátria.
O chefe de polícia da província do Piauí, José Manoel de Freitas, investiga se não
existiriam motivos escusos por trás da atitude de Jovita. Imagina que talvez Jovita, como
muitas mulheres que seguiam os batalhões no desenrolar da guerra, estaria se submetendo
àquela situação vexatória motivada por um relacionamento íntimo com outro voluntário ou
“recrutado da pátria”, o que podemos inferir, não sem constrangimento, desse trecho do
interrogatório:

« Perguntado se não era amazia de algum dos voluntários com quem veio?
Respondeu que não linha relações com esses homens, e quê os acompanhou
somente porque vinhão (sic) também para a capital, tendo por muitas vezes
declarado-lhes, 'quando indagarão da sua viagem—que se ia apresentar
como voluntária da pátria.
« Perguntado porque tomou roupa de homem, mudando assim o seu traje
natural? Respondeu que tomou roupa de homem, porque as pessoas a quem
declarava sua intenção, dizião-lhe que, como mulher não poderia ser aceita
no exército. E então como fosse grande o desejo que tem de seguir para a
guerra cortou seus cabellos com uma faca, pedindo depois a urna mulher que
os aparasse bem rente, e tomou roupas de homem; foi assim apresentar-se ao
Exm. Sr. presidente da província, e rogou-lhe que a mandasse alistar como
voluntária da pátria.
«Perguntado porque chorava quando se vio na presença da autoridade?
Respondeu que chorava porque se via em trajes de homem em presença de
muitas pessoas e teve vergonha disso; e mais chorava também porque
suppunha que sendo descoberta não seria aceita para a guerra.189

Apesar da tentativa de enquadrar Jovita no estereótipo da mulher que vive em função


de um modelo masculino, ela se mostra segura e deixa claro que combater como voluntária da
pátria na Guerra contra o Paraguai se trata de um desejo seu. Sempre que inquirida sobre o
motivo de sua atitude, Jovita apresenta como única motivação um forte desejo de vingar a
pátria ultrajada, desejo de “bater-se com os monstros que tantas affrontas tem feito às suas

189
COARACY, José Alves Visconti. Traços biographicos da heroína brasileira Jovita Alves Feitosa, ex-sargento
do 2º Corpo de Voluntários do Piauhy, natural do Ceará- por um fluminense .Op.cit, p. 17.
72

irmãs de Matto Grosso, vingar-lhes as injúrias ou morrer nas mãos d’esses tigres sedentos”
190
. A fala de Jovita não deixa escapar qualquer outra motivação. A unicidade e a consistência
de seu discurso exerceram um papel fundamental na credibilidade alcançada pela áurea mítica
que circunda a imagem de nossa personagem e impressionam ainda hoje.
Para Mircea Eliade o mito “vivo” é aquele que fornece modelos para o comportamento
humano, “sua função soberana é revelar os modelos exemplares de todos os ritos e de todas as
actividades humanas significativas”191. Dentre essas atividades podemos situar as guerras
nacionais e a sacralização dos ideais de cidadania e patriotismo necessários ao guarnecimento
das fileiras armadas incumbidas de socorrer a defesa da nação, sem falar no uso da força nos
recrutamentos. Ainda segundo Mircea Eliade, o modelo mitificado se torna parte de uma
“história sagrada”192. As narrativas entusiásticas sobre Jovita e seu heroísmo, a sua celebração
como “anjo dos voluntários do norte”, “Nova Judhit”193, símbolo de resistência e salvação dos
sitiados, são indícios desse processo194.
Dentro do conceito de mito elaborado por Girardet, podemos pensar o mito Jovita
como “fabulação do real que exerce também uma função explicativa, fornecendo certo
número de chaves para a compreensão do presente”195.
Nesse sentido, a áurea mítica será outro elemento marcante do retrato falado de
Jovita. Atravessa a narrativa que a referencia, desde os escritos e comentários
contemporâneos a ela, até a convocação de sua memória, no tempo presente, por ocasião do
dia internacional das mulheres196, do aniversário de 171 (cento e setenta e um) anos da cidade
de Jaicós197, ou na sua nomeação como patrona da Academia Tauaense de Letras (cadeira nº.
13) 198.
Voltemos ao interrogatório. Depois de averiguar a motivação de Jovita, o chefe de
polícia se dedica à verificação de suas habilidades marciais, de sua capacidade para enfrentar

190
A Imprensa. Teresina, 27 de julho de 1865, Anno I, nº 01.
191
ELIADE, Mircea. Aspectos do mito. Rio de Janeiro: Edições 70, 1963, p. 14.
192
Idem, ibidem, p. 13.
193
Judite é um dos livros deuteronônicos do antigo testamento da Bíblia católica. O livro relata a história de uma
piedosa religiosa viúva judia que sai da cidade cercada pelos assírios e dirige-se ao acampamento do exército
inimigo, com sua beleza envolve o comandante Holofernes, que se embriaga durante um banquete e tem sua
cabeça cortada por Judite. Disponível em: < http://pistasdahistoria.blogspot.com/2010/05/judite-uma-viuva-
surpreendente.html >
194
Discurso pronunciado pelo Capelão militar, Padre Domingos Elias da Costa Morais. Jornal A Imprensa,
Teresina, 09 de setembro de 1865. In: CHAVES, Monsenhor. op.cit., p. 241.
195
GIRARDET, Raoul. Mitos e mitologias políticas. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p.13.
196
Em < http://www.arturbruno.com.br/artigos/texto.asp?id=447> . Acesso em 31 de outubro de 2009.
197
Ver < www.jaicós.com/fp171jovita.html >. Acesso em 31 de outubro de 2009.
198
Ver < http://academiatauaense.blogspot.com/2007/06/jovita-alves-feitosa.html>. Acesso em 24 de outubro de
2009.
73

uma guerra nas frentes de combate ou ocupando-se de tarefas ditas “próprias” do seu sexo, o
que sugerem as perguntas seguintes:

« Perguntado se sabia atirar, e se tem disposição para soffrer os trabalhos da


guerra? Respondeu que não sabia carregar a arma, mas que sabe atirar, e
tinha disposição para aprender o necessário e também para supportar os
trabalhos da guerra, e até para matar o inimigo.
« Perguntado se o governo á não aceitasse como soldado, se está disposta a
seguir sempre pára o sul, afim de occupar-se em trabalhos próprios do seu
sexo? Respondeu que em ultimo caso aceitará isso, porem que o seu desejo
era seguir como soldado, e tomar parte nos combates, como voluntária da
pátria.
(...)
« E nada mais respondeu e nem lhe foi perguntado: deu-se por findo este
auto de perguntas, depois de lido e o achando conforme, assigna com o juiz,
e rubricado pelo mesmo; do que dou fé. Eu Raymundo Dias de Macedo,
escrivão, o escrevi e assigno.—Antonia Alves Feitosa.199

Jovita sabia atirar e tinha em evidência algo que provavelmente faltava a muitos
homens nas fileiras dos exércitos que combatiam na Guerra contra o Paraguai: disposição,
vontade de fazer parte da verdadeira carnificina que foi a Guerra. Sua determinação,
“resolução inabalável”, causa admiração ao Presidente da Província do Piauí, Franklin Dória,
que a alistou provisoriamente e contra todas as convenções militares e até morais da época,
mas também a legiões de brasileiros que acompanharam sua trajetória pública através da
imprensa e das cerimônias de recepção do 2º Batalhão de Voluntários do Piauí.
Jovita demonstra firmeza em suas respostas e esta postura indica que mostrar-se
consciente desta firmeza é imprescindível para que sua atitude seja levada a sério. Afirma ter
condições para “supportar” as agruras da guerra. Apresenta-se como alguém que “sabe o que
quer”, e assim será muitas vezes retratada. Coaracy, o mais devoto admirador de Jovita,
divulga que ela “fêz votos de tomar as armas para bater os inimigos, e de nunca abandoná-las
senão nessa hora extrema em que ella também soltasse o último alento de vida. Que ella se
compenetrou de todo esse sentimento. Teve coragem bastante para o sacrifício.”200
Essa admiração, em grande parte, advém da idéia de fragilidade do sexo feminino. O
que causa espanto é uma manifestação irrefutável de coragem vinda de onde se espera medo,
recato, delicadeza, vulnerabilidade, estereótipos que exercem certo controle sobre o ideal de

199
COARACY, José Alves Visconti. Traços biographicos da heroína brasileira Jovita Alves Feitosa, ex-sargento
do 2º Corpo de Voluntários do Piauhy, natural do Ceará- por um fluminense Op.cit.,p. 20.
200
COARACY, José Alves Visconti. Traços biographicos da heroína brasileira Jovita Alves Feitosa. Op.cit., p.
9.
74

feminilidade no século XIX. O próprio Coaracy favorece a idéia de que Jovita é corajosa e
destemida, “apesar de ser mulher”, e que ela, inclusive, tem que travar uma batalha pessoal
contra a “fragilidade” de seu sexo, antes de qualquer ato de bravura.

Tal era o poder da vontade, que ella procurava sobrepujar o melindre da sua
natureza fraca querendo atirar-se aos perigos da guerra entre os gritos dos
combatentes.
(...)
E’ sobremodo notável que no sexo feminino, onde naturalmente se aninhão o
medo e o pavor, appareça esta excepção à regra geral, encarando com
verdadeiro denodo e coragem os rigores de uma guerra!201

O Jornal Diário de Pernambuco , também transcrito por Coaracy em seus relatos


biográficos, declara mais tarde que Jovita se saiu muito bem no treinamento militar, e que
circulavam comentários de que havia se tornado o “sargento do corpo mais prático nos
manejos das armas”202.
Quando perguntada sobre a possibilidade de seguir para a guerra em ocupações ditas
“próprias” do seu sexo, Jovita respondeu ao chefe de policia, no dia 09 de julho de 1865, que
em último caso o faria. Ocorre que em outro momento, por volta do dia 16 de setembro de
1865(data da dispensa oficial de Jovita do posto de 2º sargento), Coaracy registrou outra
resposta, bem diferente, talvez mais espontânea, à mesma pergunta.
Em entrevista com Jovita, depois de frustrados seus esforços para servir à pátria como
soldado na guerra, Coaracy indaga por que ela não seguia para a guerra prestando os serviços
“próprios do seu sexo”, e obtém a seguinte resposta: “_ Não, nesse caso não vinha, podia ficar
na minha terra, onde faria tudo isso, e de mais. O Imperador também já foi para a guerra...”203.
Parece-nos muito coerente. Para ser uma mulher padrão do século XIX, que exerce os
papéis que lhes são socialmente prescritos, os cuidados com o lar, com o bem- estar e saúde
daqueles com quem convive, Jovita não precisaria sair de casa. Nem tampouco percorrer
70(setenta) léguas a pés, sob muitas dificuldades, passar por detenção e interrogatório policial,
enfrentar mais de 30 dias de viagem a vapor da província do Piauí até a corte.
Além de tudo isso, nossa personagem também se submeteu ao julgo popular. Sua
atitude subversiva, como era de se esperar, não agradou a todos. Mesmo com o entusiasmo

201
Idem, ibidem, p. 20.
202
Jornal Diário de Pernanbuco. In: COARACY, José Alves Visconti. Traços biographicos da heroína
brasileira Jovita Alves Feitosa. Op.cit., p. 34.
203
COARACY, José Alves Visconti. Traços biographicos da heroína brasileira Jovita Alves Feitosa. Op.cit., p.
25.
75

patriótico que marca o princípio da guerra, na trajetória de Jovita Feitosa, a fama e a infâmia
seguem lado a lado204. Sua presença no Exército Imperial é tão aclamada quanto
constrangedora. Sobre o que poderemos pensar melhor a partir de alguns pronunciamentos
mais críticos em relação aos feitos de Jovita.

3.1.3 A CONTROVÉRSIA

A possibilidade de Jovita seguir para o centro da guerra como soldado, apesar das
aclamações e espetáculos populares que protagoniza, nunca foi unanimidade. A primeira
oposição enfrentada foi a do tio, única família presente em sua vida naquele momento.
Jovita fugiu de casa, deixou uma vida para trás, e ao fim do espetáculo em que se
transformara seu desejo de lutar pela pátria, sua ansiedade por autodeterminação, se viu sem
qualquer apoio familiar. No retorno para a província do Piauí, fora mal recebida e achou por
bem retornar ao Rio de Janeiro, onde passaria seus últimos dias de vida.
Além dos problemas familiares, temos alguns pronunciamentos desfavoráveis aos
propósitos de nossa heroína. De certo, estes que vieram a público são apenas uma mostra
entre as diversas opiniões divulgadas ou não, sobre o acontecimento sensacional que foi a
trajetória pública de Jovita Alves Feitosa.
Alfredo D’ Escragnolle Taunay, o Visconde de Taunay, não deixou de expressar seu
descontentamento com a possibilidade de incorporação de Jovita ao quadro das Forças
Armadas Brasileiras, na função de soldado, apoiando veementemente a decisão do ministro da
guerra que impede sua partida para os campos de batalha.

Chegaram os retratos do Viegas, o meu antigo inspetor, e da interessante


Jovita que me pareceu muito engraçada nos seus trajes de primeira
Sargenta.
Entretanto Polidoro, como homem de muito juízo e bom senso, fez muito
bem não consentindo na partida daquela patriota como soldado. O papel de
enfermeira para a mulher que queira dedicar-se é o mais elevado e nobre
possível; concilia a dedicação e a conveniência, a abnegação e a dignidade.
A piauiense devia considerar tudo isso e em lugar de seus instintos
belicosos, lembrar-se de que para uma mulher é mais nobre sanar feridas do
que as abrir.205

204
Na concepção de Renato Janine Ribeiro, fama e infâmia dizem respeito ao aspecto público assumido pela
imagem do sujeito. – RIBEIRO, Renato Janine. A glória. In: CARDOSO, Sérgio et. al. os sentidos da paixão.
São Paulo: Companhia das Letras, 1935, p. 108.
205
TAUNAY, Alfredo D’Escragnolle. A Retirada da Laguna. São Paulo: Biblioteca do Exército, 1959, p.119.
76

O argumento de Taunay, apresentado com um acréscimo de ironia, é de que instintos


belicosos não são compatíveis, ou pelo menos, não são convenientes a uma mulher. Ele
parece estar muito desconfortável com esta mulher tornada pública que se afasta das
simbologias de abnegação, recato, mansidão e clemência. Para este conservador, a dignidade
da mulher estaria ligada a esse padrão de comportamento. Instintos belicosos e valentia
poderiam promover a dignidade de um homem, mas quando relacionados a uma mulher, a
tornam indigna. A imagem de uma mulher-soldado é, para Taunay, segundo seu relato, uma
visão cômica, engraçada, mas também assusta, quebra com a imagem idealizada da mulher
serena e delicada.
O Jornal do Comércio, de grande circulação na corte do século XIX,se tornou um
espaço privilegiado de celebração e crítica da soldado Jovita. Em 14 de setembro de 1865, um
artigo assinado pelas iniciais J.M.C, critica severamente a atitude de Franklin Dória em
alistar Jovita como voluntária da pátria:

A ofensa mais grave à dignidade dos homens que se prezam e à daqueles que
militarão é sem dúvida a presença da jovem Jovita Alves Feitosa nas fileiras
do segundo batalhão de voluntários do Piauhy. A mulher poderá servir
quando muito para fornecer um ou outro cantil d’água, mas não poderá
jamais lançar mão de um sabre e bater-se quando se apresentam as
ocasiões.206

É marcante a presunção de J.M.C. Mostra-se extremamente ofendido com a presença


de uma mulher-soldado nas Forças Armadas Brasileiras, afirmando categoricamente que o
alistamento de Jovita é a mais grave afronta à dignidade masculina, dos homens comuns, e
principalmente dos militares. Talvez J.M.C seja dos círculos militares e esteja defendendo o
monopólio masculino de sua função, definindo precisamente que à mulher cabe o papel de
servi-lo, uma função, no máximo, auxiliar. Jovita atraiu muita atenção, recebeu diversos
presentes por onde passou, entre eles, um crucifixo e cordão de ouro em São Luís do
Maranhão, um anel de brilhantes na Paraíba e diversos uniformes finos. Nesses lugares ficou
hospedada em casas de autoridades locais, com mais conforto que a maioria dos voluntários.
Esse destaque pode também ter provocado desconforto e ciúmes.
A mais importante nota de desaprovação da atitude de Jovita, do ponto de vista oficial,
é publicada pelo ministro da Guerra, General Polidoro da Fonseca Quintanilha Jórdão, em
portaria da Secretaria dos Negócios da Guerra, transcrita a seguir:

206
Jornal do Comércio, 14 de setembro de 1865. Em MATOS, Kelma. Op.cit., p.21.
77

Illm. Sr.

Não havendo regulamentos militares que permitia às mulheres terem parca


nos Corpos do Exército, nem nos da Guarda Nacional, ou de Voluntários da
Pátria; não pode acompanhar o corpo sob o comando de V. S. com o qual
veio da Província do Piauhy a voluntária Jovita Alves Feitosa na qualidade
de praça do mesmo corpo, mas sim como qualquer outra mulher das que se
admitem a prestar junto aos Corpos em campanha os serviços compatíveis
com a natureza do seu sexo, serviços cuja importância podem tornar a
referida voluntária tão digna de consideração, como de louvores o tem sido
pelo seu patriótico offerecimento: o que declaro a V. S. para seu
conhecimento e governo.207

Na ausência de lei estabelece-se uma proibição, quando que o raciocínio jurídico


poderia ser exatamente o contrário: se não tem lei que proíba é lícito. Na inexistência de
regulamentação, o peso da decisão recai sobre as convenções morais estabelecidas. E mais
uma vez, ouvimos que, de acordo com essas convenções, “instintos belicosos” são
incompatíveis com a “natureza” feminina. A atitude de Jovita é um verdadeiro atentado a essa
tal natureza.
Mas, Jovita não se rendeu à primeira recusa, e, segundo Coaracy, enviou
correspondência apelando para “os sentimentos generosos do nobre ministro da guerra,
208
sollicitando que revogasse a ordem do Quartel General” . Esse pedido, o Sr. ministro teria
respondido em carta direcionada a Jovita, sobre a qual Coaracy tece os seguintes comentários:

Dignou-se a responder-lhe em uma carta que lhe dirigio, concebida nos


termos os mais dóceis e convincentes, mostrando-lhe o preceito da lei. Ahi
revelou o seu pesar, manifestando que a sua compleição e o seu sexo era a
rasão para não poder supportar as fadigas de uma campanha, e que o seu
sacrifício em bem do Paiz seria inútil, visto haverem numerosos deffensores.
Contudo, não deixava de apreciar e louvar a viva prova que dava do seu
patriotismo, offerecendo-lhe os meios de que necessitasse para que,
recolhendo-se a sua família, tivesse a felicidade de que é digna.209

O tom muda em relação aos pronunciamentos anteriores. De acordo com os


comentários de Coaracy, não se trata de reparar um ultraje aos demais voluntários, mas sim de

207
Em COARACY, José Alves Visconti. Traços biographicos da heroína brasileira Jovita Alves Feitosa.
Op.cit., pp. 26-27.
208
Idem ibidem., p. 27.
209
Em COARACY, José Alves Visconti. Traços biographicos da heroína brasileira Jovita Alves Feitosa.
Op.cit., p.29.
78

uma medida protetiva em relação à “natureza” frágil de Jovita. Mas, será que todos aqueles
que sucumbiram e que sucumbiriam às fadigas da guerra, que não as suportaram ou não as
suportariam, que derramaram seu sangue nos campos de batalha, foram inúteis?

3.1.4 A NARRATIVA HISTÓRICA

Encontramos breves relatos sobre Jovita em diversas fontes que se propõe a estudar a
Guerra contra o Paraguai. Na historiografia piauiense destaca-se a dedicação de Monsenhor
Chaves, que nos fez uma primeira apresentação de Jovita, com a transcrição de notícias de
jornais da época e de documentos oficiais. Ele faz referência a Jovita em dois momentos
diferentes: no capítulo em que fala da Guerra conta o Paraguai em âmbito nacional210 ,e em
espaço privilegiado dentro do capítulo que trata da participação do Piauí na Guerra contra o
Paraguai211.
Monsenhor Chaves retrata Jovita como uma “pobre e ingênua matutinha”212,
provavelmente porque, como ela mesma relatou no interrogatório policial, lia e escrevia mal.
Ainda assim enaltece seu heróico patriotismo. Num dado momento, Chaves refere-se a Jovita
como um mito efêmero, que nasce com a publicidade e a “curiosidade” que provoca e morre
com a sua dispensa definitiva. Afirma que tal dispensa culminou na imediata “desmitização”
de Jovita213. Mas, se isso fosse tão patente, será que ele estaria falando sobre ela em diversos
momentos de sua obra, quase dois séculos depois de sua morte, usando, inclusive, o mesmo
discurso que acentua seu heroísmo patriótico?
Num dado momento Chaves chega a afirmar que “às autoridades militares superiores
não interessavam mitos e sim soldados”214. Mas, pensando de outro modo, por estarmos em
outro tempo e numa outra inteligência histórica – nem melhor, nem pior, só diferente,
podemos chegar à conclusão de que mitos como Jovita podem trazer muitos soldados para
engrossar as fileiras do exército. Um mito que motiva batalhões inteiros e promove o
alistamento de diversos voluntários tem o poder de se multiplicar nas figuras de todos aqueles
que influenciou com seu exemplo. Desse modo, mas vale um mito em cartaz, que um único
soldado em marcha.

210
CHAVES, Monsenhor. op.cit, p.105.
211
Idem, ibidem, p.203-243.
212
Ide, ibidem, p. 242.
213
Idem, ibidem, p. 241.
214
Idem, ibidem.
79

Contudo, é em Monsenhor Chaves que encontramos um verdadeiro panorama sobre a


trajetória de Jovita, pronto pra ser explorado. O autor não se limita a um relato passageiro e
infundado, pelo contrário, tem a preocupação e o importante cuidado de registrar
minuciosamente suas fontes, disponibilizando-as para nós.
A obra Jovita Feitosa, da cearense Kelma Matos215, também teve um papel
indispensável neste trabalho. A autora realizou um valoroso trabalho de pesquisa e
levantamento de documentos e publicações sobre Jovita. A partir da transcrição do
interrogatório policial ao qual Jovita foi submetida, e de publicações do Jornal do Comércio,
Kelma retrata uma Jovita destemida, determinada, bem distante da imagem de “matutinha
ingênua” retratada por Monsenhor Chaves.
Maria Teresa Dourado, por sua vez, ajudou muito a pensar a trajetória de Jovita ao
suscitar o debate sobre a exclusão das mulheres na história da guerra, em especial da Guerra
contra o Paraguai. Chama a atenção para o exército de mulheres que marcha penosamente ao
lado dos batalhões de soldados: mães, esposas, viúvas, prostitutas, andarilhas, vivandeiras,
residentas, destinadas, prisioneiras e descendentes dos combatentes216. Um exército invisível,
exilado da história da guerra.
Dourado se refere a Jovita como o “caso mais conhecido de alistamento de voluntários
da Pátria”217 e destaca o papel da imprensa em tal repercussão. De forma rápida tece
observações sobre a exploração da imagem de Jovita como exemplo de coragem e sobre as
polêmicas suscitadas pela sua presença num corpo militar218.
Um detalhe em especial na abordagem de Maria Teresa Dourado nos chamou a
atenção: apesar de existir um tópico intitulado “Patriotas”, no segundo capítulo, no qual
inicialmente cogitamos que encontraríamos Jovita, a autora resolveu enquadrá-la num outro
tópico, no mesmo capítulo, intitulado “Andarilhas e Vivandeiras”. Como conceitua a própria
autora, andarilhas e vivandeiras “eram mulheres que acompanhavam o exército para vender
víveres, bebidas e objetos de necessidades; muitas delas eram também prostitutas”219. Como a
mulher-soldado Jovita Feitosa se enquadraria nessa definição? Para nós, trata-se de um
enquadramento forçado que carece de explicação.

215
Formada em serviço social e doutora em educação, é professora da Unifor- Universidade de Fortaleza.
MATOS, Kelma. Op.cit.
216
DOURADO, Maria Teresa Garritano. Mulheres comuns, senhoras respeitáveis: a presença feminina na
Guerra do Paraguai. Op.cit., p. 8.
217
Idem, ibidem, p. 95.
218
Idem, ibidem, p.95-98.
219
DOURADO, Maria Teresa Garritano. Mulheres comuns, senhoras respeitáveis: a presença feminina na
Guerra do Paraguai. Op.cit., p. 89.
80

Da leitura do título “Patriotas”, pode-se imaginar que essa insígnia fora reservada às
senhoras de elite do patriotismo, às mães, esposas e viúvas de oficiais importantes, como D.
Rosa Maria Paulina da Fonseca, mãe de Manuel Deodoro da Fonseca e de mais setes oficiais
condecorados na Guerra contra o Paraguai, e Ana Justina Ferreira Néri, enfermeira, e viúva do
oficial da marinha capitão-de-fragata Isidoro Antonio Néri, sobre as quais se concentram
todas as atenções.
Odilon Nunes resume a importância de Jovita na campanha de alistamento de
“voluntários da pátria” em dois parágrafos. Trata-se de um simples comentário para reforçar o
o sacrifício dos “voluntários” piauienses que lutaram na Guerra contra o Paraguai e o elevado
percentual de mobilização da província do Piauí em relação às demais províncias do império
brasileiro220.
Equiparáveis à abordagem de Odilon Nunes são os relatos feitos por José Murilo de
Carvalho221 e Francisco Doratioto222, evocando o exemplo de Jovita como testemunho do
entusiasmo patriótico presente nos primeiros momentos da guerra. Nessas versões a imagem
de Jovita é completamente despedida de suas experiências, de seu passado, de suas
singularidades e contradições enquanto sujeito, mesmo porque, essas questões não fazem
parte da proposta desses autores, nessas obras. O que prevalece, depois desse desnudamento, é
a imagem da “patriota”, é o mito Jovita.

3.2. O FIM

Torpes, desvirtuaram-lhe as idéias!


Cuspiram-lhe na face mil insultos!
Mataram o futuro da criança
Que em outro país teria cultos!
(...)
A pátria a venerou! Almas zoófitas
Que a existência da luz negam convictos
Mediram-na por si, sendo ela um anjo
Mediram-na por si- eles precitos!

A farde lhe despiram, e a circundaram


De tudo o que a lisonja há inventado;
Tanto, que o mais sagaz dela obteve,
Como ela amou a pátria, ser amado.
(...)
Respeito! Já purgou os seus delírios,
A morte é dura pena, nobilita!

220
NUNES, Odilon. Pesquisa para a história do Piauí. V. 4, Teresina: FUNDAPI/ Fundação Mons. Chaves,
2007, p. 228.
221
CARVALHO, José Murilo de. D. Pedro II_ ser ou não ser. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 123.
222
DORATIORO, Francisco. Op.cit., p. 116.
81

Brasil, o teu cocal cinge de crepe,


Mais um herói morreu_

Morreu Jovita

(poeta Rangel de Sampaio)223

A ordem emitida pela Secretaria dos Negócios da Guerra, no dia 16 de setembro de


1865, recusando Jovita como voluntária da pátria, afasta-a do espaço público da guerra.
Depois disso não localizamos registros sobre sua vida. O interesse da imprensa e todas as
atenções, que durante três meses se voltaram para a aparição pública de Jovita, afastaram-se
Cerca de dois anos depois da dispensa de Jovita, o Jornal do Comércio publica a
notícia de sua morte. No dia 09 de outubro de 1867, Jovita teria se suicidado, com uma
punhalada no peito, na casa da Praia do Russel, nº 43, pertencente a Guilherme Noot.
Divulgou-se como motivo, o abandono de Guilherme Noot, que teria partido para a sua terra
natal, a Inglaterra, deixando apenas um bilhete de despedida.224
Esse seria um dos desfechos da trajetória de Jovita, para a historiografia mais
tradicional, seu fim. Mas, a partir dos novos espaços de discussão historiográfica e de novas
perguntas, localizamos outras possibilidades para nossa personagem. Além da memória que a
mantém viva na forma de homenagens, encontramos uma narrativa alternativa que manifesta
certa crença em seu discurso, que acredita que Jovita seria mesmo capaz de desafiar a ordem
imposta e cumprir com a sua promessa de morrer pela pátria. Essa idéia é um triunfo para a
nossa personagem.
Essa narrativa, curiosamente, está numa coleção do Ministério da Educação e da
Cultura, voltada à Educação de Adolescentes e Adultos ( Coleção Brasil, Série As Figuras,
nº8), que traz Jovita Feitosa como um importante exemplo de cidadania e heroísmo, criando
uma versão provavelmente baseada nos primeiros planos de Jovita, quando esta resolveu se
alistar disfarçada de homem. É um exercício de imaginação que revela a sobrevivência de
uma imagem de Jovita, no imaginário da República, ao lado de personagens como Tiradentes,
também objeto desta coleção. E, se não tivessem descoberto o disfarce de Jovita?

Outra personagem feminina de grande importância na Guerra do Paraguai


foi Jovita Alves Feitosa.
(...)
223
Disponível em: < http://books.google.com.br/books?id=-vOXJXYSB-
kC&pg=PA109&lpg=PA109&dq=Coaracy,+romance+Jovita+> . Acesso em outubro de 2011.
224
Em MATOS, Kelma. Op.cit., PP. 49-50.
82

Fardada entre seus companheiros militares, sua verdadeira identidade passou


despercebida. Era um espírito forte entregue a um grande ideal. (...) Jovita
Alves Feitosa lutou como os melhores combatentes. Seu posto era sempre o
mais avançado, sua dedicação digna de nota. Tinha um corpo franzino, mas
tudo suportou, perigos, caminhadas, durezas do mau tempo...
As lutas em que se empenhou foram muitas e variadas. Até utilizou espadas
e punhais em alguns dos perigosos encontros.
Foi promovida a anspeçada, cabo, furriel, sargento do seu valoroso Batalhão
de Voluntários da Pátria.
Seu desejo de chegar ao fim se cumpriu. Não foi obrigada a voltar. Agiu.
Nos combates deixou bem nítida a lembrança de sua valentia.
E tombou como merecia, no campo de batalha. Morto em defesa da Pátria.
Por ser mulher não foi desligada do exército. Quando homem, ela já estava
pó demais ligada às forças armadas, à perigosa vida de militar.
A morte apenas serviu para colocá-la definitivamente entre os nossos
maiores heróis. Jovita é um soldado que não deu baixa!225

Talvez, a morte não seja o fim, mas um recomeço, no qual Jovita ganha um espaço no
imaginário da Guerra contra o Paraguai e no imaginário da pátria.

225
CARDOSO, Lucio. Rosa da Fonseca, A preta Ana e Jovita. Editora Edanee, Coleção Brasil, Série As
Figuras,V.3, nº 8, s/d.
83

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Pesquisar a trajetória de Jovita Alves Feitosa foi uma experiência quase tão intensa
quanto a própria trajetória. Uma grande oportunidade como aprendiz de historiadora e
também como pessoa. Chegamos ao fim deste trabalho com a consciência de que não
podemos escolher uma imagem de Jovita, dentre todas as que nos foram apresentadas.
Talvez, nesse momento, depois de pensar sobre os diversos retratos de Jovita,
tenhamos condições para percebê-la como uma mulher comum, mas não menos intensa. O
acontecimento excepcional que foi a trajetória de Jovita vivida em três meses, entre seu
alistamento como voluntária da pátria e sua dispensa do serviço militar, não pode defini-la,
como se os dezessete anos vividos anteriormente e os dois anos vividos em anonimato entre
sua dispensa e sua morte fossem menos importantes. Afinal, como defende Hobsbawm,
homens e mulheres são moldados por seu passado e seu presente, suas crenças e ações 226. Às
crenças e ações poderíamos acrescentar relações, sentimentos, ressentimentos e causas
frustradas.
Não temos a pretensão de concluir esta pesquisa, pelo contrário, quanto mais nos
aproximamos de Jovita e de sua memória, mais temos convicção de que existem ainda muitas
possibilidades de abordagens históricas de sua trajetória e das marcas que a frustração pode
ter deixado em sua vida. Dentre essas possibilidades localizamos diversas representações
literárias de Jovita, na forma de poemas, prosas e romances históricos. Preferimos ver esse
texto como um ponto de partida, não como o final.

226226
HOBSBAWM, Eric j. Pessoas extraordinárias_ resistência, rebelião e Jazz. São Paulo: Paz e Terra, 1998,
p. 8.
84

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