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DESAFIOS EDUCACIONAIS DOS MUNICÍPIOS DO TERRITÓRIO DE

IDENTIDADE DO SUDOESTE BAIANO DIANTE DA EMENDA


CONSTITUCIONAL N. 95/2016
Sandra Márcia Campos Pereira – UESB
sandra.campos@uesb.edu.br
José Jackson Reis dos Santos – UESB
jackson_uesb@yahoo.com.br
Relva Lopes Chaves Soares – UESB
relva.lc@hotmail.com
Maria Iza Pinto Amorim Leite – UESB
izamarcos@yahoo.com.br
EIXO 10. Políticas públicas, gestão democrática e financiamento: propostas e
resistência
Introdução
O Plano Nacional de Educação (PNE), Lei 13.005/2014, os Planos Estaduais de
Educação (PEE) e os Planos Municipais de Educação (PME) representam a participação
da sociedade no campo educacional, entendendo que as políticas públicas são espaços de
disputas.
Embora não haja consenso sobre o PNE ser resultado da ampla participação da
sociedade, por meio das conferências de educação que o antecederam, sobretudo, a
Conferência Nacional de Educação (Conae), defendemos o discurso de que as vozes
pronunciadas nos debates educacionais nesses espaços se materializam no plano, com
maior ou menor intensidade.
Diante desta questão, este trabalho tem por objetivo discutir os desafios da gestão
educacional dos municípios a partir do retrocesso imposto pela Emenda Constitucional
(EC) 95/2016, ao alterar “[…] o Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, para
instituir o Novo Regime Fiscal, e dá outras providências” (BRASIL, 2016).
Este texto é parte da pesquisa em desenvolvimento realizada pelo Grupo de
Pesquisa em Política e Gestão da Educação Básica (GEPPEB), possuindo por objetivo
analisar como a EC 95/16 impactou a materialização dos PME do Território de Identidade
do Sudoeste Baiano.
A pesquisa em desenvolvimento justifica-se pela necessidade e relevância em
acompanhar a efetivação dos PME, considerando que escolas, profissionais de educação
e estudantes estão nos municípios, ou seja, são nesses locais que a educação se materializa
e, consequentemente, o PNE, conforme Dourado (2017), é o epicentro das políticas
educacionais.
Metodologia
Esta é uma pesquisa de natureza qualitativa em que realizamos análise documental
por meio dos planos municipais de educação do Território de Identidade do Sudoeste
Baiano, além de revisão bibliográfica.
A abordagem metodológica apoiou-se, também, na proposta do ciclo de políticas
criado por Stephen Ball e Richard Bawe. Entre os cinco contextos apresentados pelos
autores, exploramos, neste trabalho, dois deles: os contextos de influência e o de produção
de texto. A escolha por esses dois contextos justifica-se pelo limite de caracteres do texto
para se adequar às normas deste evento e também em razão da pesquisa encontrar-se em
fase inicial. Para análise dos dados, utilizamos noções essenciais do pensamento
foucaultiano, quais sejam: poder, saber, vontade de verdade, discurso.
Resultados e discussão
Por sua natureza e importância, a educação é sempre um campo de disputas e
embates, sofrendo influência de discursos produzidos por diversos sujeitos e instituições,
possuindo sentidos diferentes a depender do lugar ocupado por seus enunciadores. É
nessa arena que se insere o contexto de influência, pois localizamos nele as vozes de
organismos internacionais, do Estado, de organizações científicas, organizações sindicais,
entre outras possíveis.
Os saberes produzidos nestes espaços institucionais, segundo Foucault (2012), são
discursos autorizados, pois são produzidos por instituições que, na ordem do discurso,
têm permissão para proferi-los. Para Foucault (2004), o poder é exercido em rede, em que
todos o exercem e ao mesmo tempo sofrem seus efeitos. Ele só existe em relação.

Os discursos em circulação e em disputa influenciam a política educacional a


partir da vontade de verdade produzida pelo contexto político, econômico, histórico,
social, permitindo a enunciação dos discursos que serão materializados nas leis ou no
contexto da produção de texto. Os discursos são atravessados pela vontade de verdade.
O segundo contexto, presente neste trabalho, é o da produção de textos, em que os textos
políticos representam a política.

Para cumprir o objetivo de nosso trabalho, discutimos os PNE, PEE e PME. A Lei
13.005/14 ao aprovar o PNE estabelece prazo de um ano para que estados, distrito federal
e municípios aprovem seus respectivos planos de educação. Diante do estabelecido, a
grande maioria dos entes federados aprovaram seus planos, como determinado pela lei.
Entre os vários ganhos expressos no PNE, destacamos o financiamento, questão
presente em sua meta 20. Esta estabelece o percentual de 10% do PIB brasileiro a partir
do quinto ano de aprovação do plano, além de parte dos royalts do petróleo. Ao contrário
do PNE de 2001, este assegura recursos para proporcionar a materialização das metas
estabelecidas.
Todavia, com o cenário político delineado com o golpe político em 2016, é
aprovada nesse mesmo ano a Emenda Constitucional n. 95, que congela os gastos no setor
social por 20 anos. Considerando que a orientação para os municípios elaborarem seus
PME era seguir o alinhamento do PNE, portanto, ampliando o investimento na área, a EC
95/16 pode comprometer a materialização dos PME em todo o país. Como nosso foco é
o Território de Identidade do Sudoeste Baiano, em que muitos municípios dependem, em
seus orçamentos, de repasses do governo federal, as consequências para a área social,
sobretudo nesse estudo para educação, podem trazer retrocessos às políticas educacionais
dos municípios, comprometendo o avanço que muitos apresentaram.
O Território de Identidade do Sudoeste Baiano é formado por vinte e quatro
municípios. Para termos uma ideia das consequências dessa EC para a educação dos
municípios deste território, apresentamos aspectos econômicos deles, a partir do
documento intitulado Perfil dos Territórios de Identidade (BAHIA, SEI, 2015). Este
afirma que, ao observar as receitas municipais do TI do Sudoeste Baiano para o ano de
2012, verifica-se dependência fiscal dos municípios de transferências do governo federal,
principalmente do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) e Fundo de
Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb). Entre os 24 municípios deste Território
de Identidade, Vitória da Conquista e de Licínio de Almeida são os que apresentam o
maior valor relativo de receita própria.
Conclusão
O movimento de produção do PNE expressa a participação e disputa de várias
instituições interessadas, resultando, em documento, que expressa avanços no campo
educacional, principalmente ao assegurar as fontes de financiamento. Esse movimento é
acompanhado pelos entes federados em seus respectivos planos. Todavia, a EC 95 ameaça
as conquistas conseguidas, uma vez que a meta 20 é fundamental para a realização das
demais.
Diante do exposto, fica evidenciado que as gestões municipais têm grandes
desafios para materializar seus PME, uma vez que ampliar o acesso e melhorar a
qualidade da educação exigem aumentar investimentos. No tocante ao TI do sudoeste
baiano, devido às condições socioeconômicas da região, o futuro do PME é preocupante.
Não havendo mudanças na atual conjuntura política do país, em que educação deixe de
ser vista como privilégio de segmentos com poder econômico ou que seja entendida como
ameaça à manutenção do grupo que se encontra no poder, teremos retrocessos em toda
área social e, especificamente, na educação e os planos de educação não passarão de
cartas de intenções.
Palavras-chave: Política Educacional; EC 95/2016; Foucault.
Referências

BAHIA. Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia. Perfil dos


Territórios de Identidade da Bahia. Salvador, 2015.

BRASIL. Plano Nacional de Educação. Lei 13.005 de 25 de junho de 2014. Brasília,


2014.

_____. Emenda Constitucional N. 95 de 15 de dezembro de 2016. Brasília, 2016.


DOURADO, Luiz Fernandes. Plano Nacional de Educação: epicentro das políticas de
estado para a educação brasileira. Goiania: Editora da Imprensa Universitária. ANPAE
2017.

FOUCAULT, M. Microfísica do poder. 19 ed. São Paulo: Graal, 2004.


______. A ordem do discurso. 22 ed. São Paulo: Loyola, 2012.