Você está na página 1de 13

Sacoman

ARTIGO MB
de revisão

A Síndrome de Irlen: diagnóstico


e o contexto de intervenção
Mateus Barroso Sacoman

RESUMO – A síndrome de Irlen atinge de 12% a 14% da população


mundial. Mesmo com essa grande incidência, o debate em torno do
diagnóstico, da intervenção e contexto (familiar, escolar, convivência social)
durante todo esse processo é pouco difundido no Brasil, principalmente
no que tange à sociedade civil, embora exista um grande esforço recente
para isso. Portanto, a intenção deste trabalho, através do levantamento
de estudos e materiais sobre o tema, da leitura e análise da bibliografia e
cotejamento das referências encontradas, é determinar as definições e sinais
da síndrome, abordando também as dificuldades geradas por ela nos mais
diversos âmbitos de convivência e explicitar alguns métodos de intervenção,
registrando ainda algumas situações e caminhos para uma reflexão que
contribua para a prática do profissional que lida com todo esse processo.

UNITERMOS: Síndrome de Irlen. Diagnóstico. Intervenção. Contexto.


Aprendizagem.

INTRODUÇÃO des­ta alteração visuoperceptual, além de forne-


A síndrome de Irlen, de caráter hereditário, cer con­tribuições para debates e discussões em
constitui-se numa alteração visuoperceptual, torno do assunto; contribuindo assim para que
originada por um descompasso da aptidão de os diversos profissionais, sejam eles professores,
adaptação à luz que gera alterações no córtex psicopedagogos, psicólogos, entre outros, que
visual, assim como déficits na leitura, entre tantas estão relacionados com a área de educação e
outras dificuldades, interferindo diretamente aprendizagem e também a área médica, saibam
no processo de aprendizagem, afetando o ren- estabelecer o tratamento correto e procedimen-
dimento escolar e as relações interpessoais dos tos a serem desenvolvidos com as pessoas, em
indivíduos com a síndrome. idade escolar ou não, que apresentem indícios
É de extrema importância, portanto, que desta síndrome, para que possam ser adequa-
sejam desenvolvidos trabalhos acadêmicos que damente assistidos, proporcionando assim a
abordem esta temática, apontando os pro­ce­ possibilidade de uma aprendizagem e uma vida
dimentos para a identificação e intervenção satisfatória.

Mateus Barroso Sacoman – Mestre em História pela Correspondência


Unesp e psicopedagogo pela Unifran. Professor do Mateus Barroso Sacoman
de­p artamento de História, Pedagogia e Ciências Centro Universitário de Adamantina (Unifai)
Biológicas do Centro Universitário de Adamantina Rua Nove de Julho, 730 – Centro – Adamantina, SP,
(Unifai), Adamantina, SP, Brasil. Brasil – CEP 17800-000
E-mail: mateussacoman@fai.com.br

Rev. Psicopedagogia 2019; 36(110): 222-34

222
Síndrome de Irlen

Em vista disso, a finalidade deste trabalho Sabe-se que os filhos herdam dos pais e ao me-
é analisar as condições que permitam fazer o nos um precisa ser portador, independentemente
diagnóstico precoce, com o intuito também de dos níveis e intensidades, que podem variar.
fornecer subsídios para o acompanhamento e in- O conjunto de sintomas torna-se mais eviden-
tervenção em indivíduos, neutralizando assim as te em situações que exijam grande demanda de
distorções causadas pela síndrome, contribuindo atenção visual, como nas atividades escolares,
para sanar as dificuldades de aprendizagem. acadêmicas e profissionais que envolvam a ne-
Para que essa ação se efetivasse, foi necessá- cessidade de uma alta carga de leitura por tempo
rio, num primeiro momento, o levantamento de maior. Para Márcia Guimarães3, a síndrome se
estudos sobre o tema e da leitura e análise da manifesta através do desfocamento durante o
bi­bliografia proposta no projeto inicial e, posterior- processo de leitura, fotossensibilidade, restrição
mente, o cotejamento das referências encontradas, do campo periférico, assim como dificuldades na
tendo em conta as questões condutoras para a adaptação a contrastes, por exemplo, figura-fundo.
elaboração do trabalho visando estabelecer as Ressalta ainda a dificuldade em manter a aten-
definições, sinais da síndrome e as dificuldades ção visual e as dores de cabeças frequentes.
geradas por ela – tanto no âmbito escolar quan- Pessoas com síndrome de Irlen, de forma geral,
to na vida em sociedade –, alguns métodos de apresentam grande intolerância à luz, principal-
intervenção, embora existam muitos, e apontar mente à luz branca, fluorescente e faróis. Durante
algumas situações e caminhos, refletindo a pos- o processo de leitura, as páginas brancas se tornam
tura necessária a ser colocada em prática pelo ofuscantes, dificultando a ação de ler e gerando
incômodo. Este, por sua vez, motiva que o proces-
profissional que se prepara para lidar com todo
samento cerebral das informações, que chegam
esse processo. Por outro lado, a intenção também
pela visão, apresente-se de forma distorcida.
é promover e estimular os estudos e o interesse
Todo esse conjunto de acontecimentos gera
pela síndrome de Irlen, que é pouco abordada
um grande desconforto, ocasionando dores de
por trabalhos acadêmicos e pouco discutida pela
cabeça, irritabilidade, distração durante o desem­
sociedade civil.
penho de atividades, dificuldade na visão em
profundidade e de habilidade para detectar as
A SÍNDROME DE IRLEN distâncias corretas entre objetos, contribuindo
Descoberta no ano de 1987 nos EUA pela para que atividades do dia-a-dia como praticar es-
Profª. Helen Irlen, na busca de uma maior com- portes, subir escadas e dirigir veículos se tornem
preensão para o baixo rendimento escolar de árduas, desenvolvendo, consequentemente, uma
algumas crianças que apresentavam quociente série de outros problemas ao andamento normal
de inteligência normal ou, em alguns casos, da vida como frustração, baixa autoestima, insô-
muito elevados, a síndrome de Irlen atinge de nia, etc. As distorções de visão produzem sen-
12% a 14% da população mundial, incluindo sação de que ao redor tudo se move ou fica sem
bons leitores e universitários, tornando-se pro­ foco, mesmo que o centro da visão permaneça em
porcionalmente mais frequente quando há con- foco e, justamente por isso, exames oftalmológicos
comitância com déficits de atenção e dislexia, corriqueiros geralmente não detectam casos de
de 33% a 46% dos casos1. S.I., tendo em vista que o centro de visão na lei-
Segundo Helen Irlen2, a síndrome de Irlen tura permanece nítido.
(S.I.), de base neurológica, consiste em uma
* Importante salientar que o sistema magnocelular, uma
alteração visuoperceptual, originada por um rede de neurônios grandes que controla o sistema motor
desequilíbrio da capacidade de adaptação à luz do olho, é parte primordial na aquisição de informações do
sistema visual sobre o movimento e fundamental durante a
que está associada a alterações no córtex visual, leitura, contribuindo para que os olhos posicionem de forma
assim como déficits do sistema magnocelular*. adequada sobre cada letra, determinando sua ordem.

Rev. Psicopedagogia 2019; 36(110): 222-34

223
Sacoman MB

Não por acaso, estudantes encontram dificul­ Já as alterações da habilidade de resolução


dade em tarefas corriqueiras do ambiente escolar visuoespacial geram uma sensação de desfoca-
como copiar palavras do quadro negro para o ca- mento e de aparente movimentação das letras
derno ou de um livro, a velocidade do andamento que podem pulsar, tremer, vibrar, aglutinar-se
da leitura também se mostra afetada. Na prática ou até desaparecerem, impactando também na
escolar, segundo Guimarães4, são comuns sinto- atenção e, consequentemente, na compreensão
mas como a confusão entre números, percepção de textos.
de distorções visuais em páginas com texto, lei- A restrição de foco, para Guimarães4, restringe
tura de palavras de baixo para cima e inversão o alcance visual e reduz significativamente o
de palavras e letras, espaçamento irregular e número de letras apreendidas, ocasionando uma
dificuldades em se manter na linha durante o leitura, uma visão parcelada das palavras, o que
escrever, além de lentidão e baixa compreensão. exige uma segunda etapa associativa, com muito
Diante do esforço visual, as distorções vi­ esforço, para coerência e compreensão.
suais se instalam dificultando a leitura e A autora lembra ainda que a restrição no al­
podemos observar este fato pela tendência cance focal pode também causar dificuldades na
a esfregar os olhos constantemente, tampar organização do texto em segmentos signi­fi­cativos
ou fazer sombra sobre o papel durante a lei- ou porções sintáticas. E ressalta que, ge­ralmente,
tura, apertar e piscar os olhos, balançar e bons leitores conseguem ampliar, de modo pro-
tombar a cabeça, cansaço após 10 a 15 mi- gressivo, o campo de visão, reconhe­cendo assim
nutos de leitura, preferência pela penum- as palavras familiares pelo conjunto ou lexical-
bra e lacrimejamento, prurido e ardência, mente, de forma a identificar e re­gistrar as pistas
história familiar de dificuldades escolares. visuais necessárias para uma interpretação mais
As dores de cabeça e enxaquecas são uma rápida e correta do significado do texto.
constante na maioria dos pacientes (82%). Em relação às dificuldades na manutenção da
As distorções visuais (desfocamento, li- atenção do foco e com percepção de profundi-
nhas brancas em meio ao texto, palavras dade, Guimarães indica que a primeira, pelo fato
tremendo ou sanfonando, rodando) fazem do texto impresso apresentar-se pouco nítido ou
parte do dia-a-dia e ocorrem sempre que em menor grau de nitidez que o comum e, além
o estudante lê3. disso, sem foco, após certo tempo de leitura, pro­
Nas queixas dos indivíduos com a síndrome, duz estresse visual ou astenopia.
usualmente podem ser encontradas as seguintes A astenopia, que pode variar em intensidade,
manifestações: os problemas na resolução visuoes- é caracterizada pelo desconforto visual associado
pacial e na percepção de profundidade, a fotofobia, à sensação de ardência e ressecamento ocular,
a restrição de alcance focal, dificuldades na ma- forçando um aumento da necessidade de piscar,
nutenção do foco e astenopia. Segundo Guimarães ocasionando olhos vermelhos e lacrimejantes, o
et al.5, a fotofobia pode ser identificada através que leva aos movimentos de apertar e coçar os
das queixas de brilho ou reflexo do papel branco olhos, gerando também mudanças na posição
que rivalizam com o texto impresso, desviando e distância do indivíduo até o papel impresso,
e comprometendo a atenção do indivíduo do disposição para o sono e tornando constantes as
conteúdo que precisa ser lido. Como já citado pausas para descanso visual.
an­teriormente, as luzes fluorescentes são descon­ A segunda dificuldade, que altera a percepção
fortáveis e geram irritabilidade, assim como luz de profundidade, tem grande impacto nas ativi­
solar com incisão direta, faróis de carros e até dades diárias. Essa habilidade de percepção
mesmo postes à noite causam algum incômodo pro­porciona ao ser humano a correta avaliação
aos possuidores da S.I. Juntamente a essa expo- tri­­dimensional, mas neste caso, como apresenta
sição, há o aparecimento de cefaleias. perturbações, atividades como dirigir e estacionar,

Rev. Psicopedagogia 2019; 36(110): 222-34

224
Síndrome de Irlen

descer e subir escadas, atravessar portas e passa- profissionais das áreas de saúde e educação.
relas praticar esportes com bola, de movimentos Guimarães ressalta que a identificação da sín-
em geral, entre tantas outras situações corriquei- drome pode ser feita por esses profissionais
ras – nas quais se torna de extrema importância que estejam capacitados, por meio do teste de
a antecipação visual por motivos de segurança screening ou rastreamento e da aplicação de
e ajuste rápido a novos ambientes –, tornam-se um protocolo padronizado mundialmente conhe-
mais espinhosas, gerando também um estresse cido como Método Irlen, possibilitando assim a
emocional. classificação segundo o grau de intensidade das
Mesmo que apresente diferentes níveis de dificuldades visuoperceptuais.
intensidade, a S.I. exige grande esforço quando Grande parte dos indivíduos com S.I. não tem
o cérebro tem que bloquear todas essas sensações consciência ou percepção de suas distorções
expostas até aqui e, ainda, desenvolver a leitura relacionadas à leitura porque conjecturam que
ou colocar em prática outras habilidades que ne- esse acontecimento seja normal a todas as pessoas.
cessitem da visão para que o indivíduo possa com- Essas distorções normalmente se revelam depois
preender e executar as mais diversas atividades, de um período entre 10 e 15 minutos da ativida-
situar-se, etc. A consequência é um cansaço extra de de leitura e todo esse contexto pode ser um
que tende a aumentar cada vez mais à medida com­plicador para que o indivíduo se manifeste
que a leitura ou outras atividades se prolongam. previamente sobre os sintomas.
Por gerar toda essa carga de estresse, muitas No entanto, com suspeitas ou através de algum
pessoas com S.I. acabam desistindo de ler, outras profissional que identifique, o passo seguinte é o
até chegam a abandonar os estudos, por difi­cul­ encaminhamento a um screener para a realização
dade de compreensão e também pela convivência dos testes iniciais, que, costumeiramente, são
difícil no ambiente escolar, algo que mais à frente realizados em consultórios, onde é determinado
será trabalhado. o grau, a intensidade e se o uso de overlays – as
Importante ressaltar que a S.I. pode existir sobreposições coloridas – poderá contribuir junto
si­multaneamente com outras dificuldades de ao tratamento e qual a cor correta de cada caso
aprendizagem, exigindo assim a busca de uma em específico.
intervenção de caráter multidisciplinar, com a Segundo Eliza Katayama7, obtendo um ganho
ajuda de professores, pedagogos, psicopedago- significativo com o uso de overlays, no Brasil,
gos, psicólogos, fonoaudiólogos, oftalmologistas, pessoas com S.I. são encaminhadas para o Hos-
neurologistas, entre tantos outros que contri- pital de Olhos - Belo Horizonte, onde terão a
buem para solucionar dificuldades na área da opor­tunidade de prosseguir com a intervenção,
saúde e educação. através de uma série de exames específicos e,
Em relação ao diagnóstico, geralmente, como finalmente, a escolha da cor dos filtros que serão
já dito, há a necessidade que uma equipe multi­ colocados em óculos convencionais ou lentes
disciplinar trabalhe em conjunto e, embora o de contato.
processo de intervenção não exija apenas pro- A autora ressalta ainda que as cores das lentes
fissionais especializados, é muito importante nem sempre são iguais a do overlay. Se o pro-
que a detecção seja feita ou, em caso de encami­ blema estiver relacionado principalmente com
nhamentos, melhor analisada por um screener a matemática, percepção de profundidade, ati-
especializado na área. vidades em computador, cefaleia, sensibilidade
Segundo o Conselho Brasileiro de Ortóptica6, luminosa ou direção noturna, as lentes coloridas
no Brasil, essa certificação pode ser obtida nos serão as melhores opções para o tratamento, pois
cursos de Dislexia de Leitura organizados pelo agirão não apenas nas páginas impressas como
Hospital de Olhos Dr. Ricardo Guimarães, na também no ambiente ao seu redor, durante a
cidade de Belo Horizonte, MG, que capacita vida cotidiana.

Rev. Psicopedagogia 2019; 36(110): 222-34

225
Sacoman MB

A INTERVENÇÃO E O CONTEXTO os vocabulários da pessoa atendida. O que fará


Após uma breve explicação sobre o que é, é eliminar a distorções e, por isso, a necessidade
de fato, a síndrome de Irlen, é necessário agora de um grupo de outros profissionais para que,
adentrar no processo de intervenção em si e, além passo a passo, a intervenção seja progressiva e
disso, analisar todo o contexto que envolve indi- efetiva.
víduos com S.I. como, por exemplo, o ambiente O mesmo documento indica ainda que cerca
escolar, a família; de que forma os profissionais de 96.000 crianças e adultos espalhados pelo
podem agir no que se tomou por liberdade cha- mundo usam os filtros coloridos e milhões de
mar de situação extra, no sentido de exterior e crianças com algum grau de S.I. usam os chama-
suplementar à intermediação, ou seja, daquilo dos overlays ou sobreposições coloridas durante a
que não necessariamente trata do processo inci- leitura ou outras atividades. Além disso, Aragão9
sivo de intervenção, mas que o permeia, gerando nos indica a necessidade da aplicação de ques-
condições e situações adequadas para a situação. tionários referentes às atividades diárias, para
Para a tentativa de uma resolução ideal para sua caracterização e avaliação de habilidades
o problema das distorções e do desconforto gerado acadêmicas.
pela luz, o Método Irlen possibilita a detecção de O teste de screening é feito após avaliação
quais comprimentos específicos da luz visível pre- da acuidade visual e sob correção refra-
cisam ser anulados. Pessoas com S.I. confirmada cional atualizada, quando necessária.
passam primeiramente por um processo de escolha Pelo screening verificamos os benefícios,
de diversas opções de cores para os filtros que com a supressão das distorções visuais,
serão usados, com a intenção de serem agentes pela interposição de uma ou mais trans-
facilitadores no desempenho e conforto visual parências coloridas selecionadas indivi-
durante a atividade de leitura. Após a definição, dualmente pelo portador da Síndrome
como o uso pode ser feito de imediato, os resul- de Irlen. Uma vez determinada a trans-
tados de melhora já aparecem. parência ideal, o portador passa a usá-la
Segundo Irlen8, o método aborda os proble- sobre o texto durante a leitura ou cobrindo
mas sensoriais relacionados à sensibilidade à a tela do computador enquanto lê, obtendo
luz, à sobrecarga sensorial, às dificuldades na área benefícios imediatos no conforto visual,
de integração sensorial e percepção de profundi- fluência e compreensão. A neutralização
dade, e os sintomas de desconforto físico, além das distorções facilitará o reconhecimento
de problemas de leitura das palavras lidas, mas obviamente não
As lentes ou filtros utilizados têm gradações permitirá que a pessoa leia palavras que
tênues que, aos nossos olhos, parecem seme- não sabe. Para estes indivíduos, a leitura
lhantes. No entanto, para a pessoa com S.I. oca- sempre foi sinônimo de dificuldade e a
sionará um processo de reações de adaptação que rejeição tornou-se um hábito incorporado
normalizam sua atividade visual, gerando maior – é preciso considerar que pode haver anos
conforto, qualidade visual e consequentemente, de atraso em relação aos leitores regula-
a longo prazo, qualidade de vida. res que puderam adquirir um substancial
Os filtros empregados para o bloqueio espec- vocabulário visual de reconhecimento
tral nas lentes ou óculos têm o intuito também ins­tantâneo. Obviamente, o aprendizado
de cooperar na melhora da percepção de pro- das palavras será facilitado por não mais
fundidade e do ambiente ao redor. Mas, cabe se apresentarem distorcidas – mas a assis-
ressaltar que, segundo o documento publicado tência ao aprendizado será importante e
em A total approach1, o uso de sobreposições sem ela a leitura permanecerá sendo uma
coloridas ou filtros não vai diminuir dificuldades, atividade difícil e estressante. Do mesmo
por exemplo, de caráter fonético, nem aumentar modo, o uso de filtros não será o único fator

Rev. Psicopedagogia 2019; 36(110): 222-34

226
Síndrome de Irlen

necessário para o aperfeiçoamento no de- identificadas. Se a incidência desses pro-


sempenho da leitura, porém nos casos de blemas fosse residual, seria um avanço im-
Síndrome de Irlen a opção pelo tratamento portante para os poucos que sofrem desses
significará um recurso não invasivo, de desencontros nas trajetórias dos olhos. O
baixo custo e alta resolutividade, possibili- que torna essa descoberta espantosa é a
tando a seus usuários uma potencialização elevada incidência dessa síndrome. Esse
dos benefícios aferidos aos seus esforços talvez seja o dado mais precariamente
acadêmicos e profissionais, além de faci- medido nos dias de hoje. Ainda assim, es-
litar o trabalho da equipe multidisciplinar timativas muito preliminares sugerem que
que os assistem4. até 20% da população tem algum problema
Outras ações simples indicadas por profis- desse tipo.10
sionais especializados, que podem muito ajudar Portanto, diagnosticar e cuidar das manifes­­
durante o cotidiano, é um suporte para leitura tações geradas pela S.I. contribuirá a uma
com um ângulo de 30°, evitar objetos e proteções melhora, que pode ser facilmente notada, das
de mesa brilhantes ou de vidros, utilizar a luz di­ficuldades de aprendizagem pela atuação
natural ou, quando impossível, uma luz artificial como agente facilitador no processamento visual
das opções de intervenção, juntamente com as
incandescente. Toda essa preocupação torna-se
ações de outros profissionais como psicopeda-
necessária, logicamente, na busca por uma vida
gogos, fonoaudiólogos, professores que buscam
saudável, mas principalmente porque a S.I. inter-
ajudar no processo de intervenção. E, durante
fere diretamente no desenvolvimento do processo
esse conjunto de ações interventivas, a interdis-
de aprendizagem, gerando grandes dificuldades
ciplinaridade é essencial. Independentemente
e essas dificuldades podem acarretar uma série
da tarefa ou intenção proposta durante esse
de obstáculos para a convivência social.
processo, toda questão do desenvolvimento e
A visão, sem sombra de dúvida, é o sentido
aprendizagem acontece aos poucos.
mais importante durante o processo de aprendi-
Portanto, é preciso compreender e aceitar as
zagem; sua dependência é estimada em cerca de diferenças, é essencial levar em consideração
80% até os 12 anos de idade, e os impactos dos défi- as questões individuais, considerando que, para
cits neurovisuais são muito significativos. Cláudio além de sanar as dificuldades de aprendizagem,
Castro manifesta a importância das ferramentas trabalha-se também na formação de seres hu-
descobertas na história recente para contribuir manos para conviver em sociedade com seus
com o diagnóstico e a intervenção em alunos acertos, limites e dificuldades, sendo necessário
com dificuldades de leitura: respeitar todas as culturas.
Há aparelhos relativamente simples. Con- O profissional que se dispõe a diagnosticar
sistem em uma viseira com um instrumento a síndrome, independentemente de sua área, e
que acompanha a movimentação ocular e posteriormente durante a intervenção, precisa
mais um software apropriado para proces- ser um facilitador e não motivo de dificuldade.
sar os dados captados. Em segundo lugar, É essencial que toda ação seja norteada por
descobriu-se que filtros bloqueando a uma aproximação da realidade das crianças e
transmissão de certas frequências lumino- jovens, ou seja, todas as atividades precisam
sas permitem corrigir a trajetória dos olhos corresponder ao dia-a-dia da criança e sua famí-
obtendo melhor fixação e sincroni­zação lia, sua cultura, seu cotidiano, tornando aquilo
delas. Sendo assim, há terapias efi­cazes e que se está ensinando em algo que realmente
que são pouco dispendiosas. Portanto, esses terá utilidade para ela. Facilitando o processo de
achados científicos abrem uma nova fron- aprendizagem, transformando-o em algo mais
teira, ao identificar e curar alunos cujas difi- prazeroso, apesar de toda a dificuldade presente
culdades de leitura estavam erroneamente com a síndrome.

Rev. Psicopedagogia 2019; 36(110): 222-34

227
Sacoman MB

Quando conseguimos colaborar para ame- Nessas intervenções multidisciplinares, cada


nizar o sofrimento de crianças/adolescente profissional terá uma forma de agir, raciocinar e
e até adultos, seja ela por avaliações, in- tomar decisões. Além disso, há a contrapartida do
tervenções, orientações à família e escola, indivíduo com que se está trabalhando. Os resul-
temos a sensação de que nosso papel vai tados são importantes indicadores, mas é preciso,
além do conhecimento acadêmico (embo- a partir deles, mergulhar em pesquisas e aportes
ra seja ele muito importante). Trata-se de teóricos que poderão ajudar na ação correta a ser
uma crença de que o ser humano é modifi- tomada e, muitas vezes, não existe apenas uma
cável e que, apesar das dificuldades, pode- saída. Mesmo que se obtenham resultados fixos,
mos ser surpreendidos com sua evolução. as formas de intervenção e caminhos a se seguir
Somos mediadores de todo esse processo são variadas. Por isso, é preciso grande rigor,
de busca por respostas. Felizmente não tanto nos estudos quanto na implementação du-
estamos sozinhos! Cada um em sua área, rante todo o processo para sanar as dificuldades
com seu conhecimento e dessa forma mul­ geradas pela síndrome, principalmente no que
tidisciplinar, trabalhamos juntos para que tange ao conteúdo escolar, porque a defasagem
alcancemos mais respostas para mais desse conteúdo é um grande problema, dentre
perguntas que virão na nossa jornada!11 tantos outros, do ensino no Brasil, portanto, além
de agir sobre a S.I., seria necessário um ensino de
Os instrumentos de avaliação são primordiais
qualidade. Mas isso já uma questão que escapa
na busca das raízes da dificuldade da aprendi-
à intenção deste trabalho.
zagem e, posteriormente, para todo processo
Além dos inovadores métodos desenvolvidos
de resolução dessa dificuldade. Caberá ao psi-
por Helen Irlen, nos últimos anos o Programa
copedagogo e aos mais diversos profissionais
de Enriquecimento Instrumental (PEI), desen-
decidir qual o melhor método para cada situação
volvido pelo Prof. Dr. Reuven Feuerstein12, em
dentro de uma vasta gama de possibilidades, mas
Israel, tem contribuído muito para o tratamento
é pre­ciso estar atentos, pois há momentos bem
da síndrome, assim como em outras dificuldades
específicos em que determinados instrumentos
de aprendizagem.
de avaliação precisam ser usados. É importante
No atendimento psicopedagógico tenho
também entender que cada profissional possui
tido resultados significativos com o Pro-
sua matriz teórico-metodológica e que muitas grama de Enriquecimento Instrumental
vezes poderá variar as opções que serão coloca­ (PEI). Trata-se de uma nova tecnologia
das em prática. Desde que se tome o cuidado pedagógica e psicológica, inovadora, cria­
ne­cessário durante todo o processo, observando da pelo Prof. Dr. Reuven Feuerstein em
rigorosamente as indicações teóricas daquilo que Israel que proporciona aos indivíduos
se está praticando, levando em conta também a uma melhor relação com a aprendizagem.
questão ética, sem dúvida, sua validade será real. O de­senvolvimento das potencialidades
Já entrevistando pais que descobriram que das crianças, adolescentes e adultos é foco
seu filho apresentava uma dificuldade no fundamental nesta proposta. Cada um
processamento visual (síndrome de Irlen), deve organizar e transformar o conhe­
percebemos que a vida passava a ser vista cimento adquirido dentro ou fora da escola
por outro ângulo. Isso não implicava na de forma eficiente. (...) A proposta do PEI
resolução total de problemas, mas mais um é ensinar o indivíduo a pensar sobre os
componente importante a ser aliviado, li- próprios processos e assim ganhar auto-
berando os outros canais de aprendizagem nomia. É aprender como aprender. Por
e auxiliando para as outras intervenções isso que o PEI tem funcionado muito bem
multidisciplinares.11 com os disléxicos com síndrome de Irlen.

Rev. Psicopedagogia 2019; 36(110): 222-34

228
Síndrome de Irlen

Em minha experiência no consultório Trabalhar a autoestima do indivíduo que apre­


atendo vários pacientes que usam os fil- senta S.I. é outra atividade essencial, contribuin-
tros espectrais e apresentam dislexia. O do para um processo de intervenção mais satis-
foco do trabalho está em desenvolver e fatório e que acarretará melhora da qualidade
aprimorar as operações mentais que mais de vida do paciente, produzindo efeitos dura-
atrapalham essas pessoas, são elas: o traba- douros, principalmente em relação ao alcance
lho com mais de uma fonte de informação, de diversas competências durante o processo
análise e síntese, o controle da impulsi- de desenvolvimento que irão refletir mais tarde
vidade, representações mentais, precisão na saúde corporal e mental.
e exatidão na coleta de dados, orientação É, portanto, de extrema importância vivenciar
espaço-temporal, dentre muitas outras. E as experiências de aprendizagem durante todo
a mais importante delas: o sentimento de o acompanhamento da intervenção num am-
competência.13 biente, numa relação afetiva, contribuindo para
Outro instrumento importante para a ação um bom desenvolvimento não só dos aspectos
dos profissionais está centrado nos movimentos psicomotores, mas também dos cognitivos e
do corpo em geral, que constituem uma forma de socioafetivos que irão formar o ser humano, um
linguagem, traduzem algo. Por meio deles é pos- sujeito capaz de conhecer sua sociedade, seus
sível observar diversos sinais que podem vir a in-
direitos e deveres para com o próximo, suas po-
dicar algum tipo de dificuldade. Torna-se, então,
tencialidades, seus limites e poder lidar melhor
uma importante ferramenta de análise e de ação
com as frustrações e convivência com o diferente.
efetiva na identificação da S.I. “A aprendizagem
Além da grande possibilidade de métodos e
dramatiza-se no corpo a partir da experiência de
ações durante o processo de intervenção, o pro-
prazer pela autoria13”.
fissional precisa estar atento também à situação
Portanto, quando não há prazer durante o pro­
extra, ao contexto suplementar a todos esses
cesso de aprendizagem, a dificuldade, como, por
procedimentos que podem obstaculizar a busca
exemplo, na leitura de textos será visível atra-
vés do gestual do indivíduo, natural em todos por melhores resultados, mais precisamente: as
os seres humanos durante uma ação que seja dificuldades geradas pelo ambiente escolar para
executada com alguma dificuldade ou esforço. um diagnóstico preciso, a convivência pós-diag­
Pensar que os indivíduos são constituídos pela nóstico e a família.
junção corpo e mente, é entender a necessidade Na verdade, pode-se partir de dois pontos fun-
de trabalhá-los juntos na busca de soluções para damentais sobre essa questão das “barreiras” ge-
sanar as dificuldades de aprendizagem. Mas de radas no ambiente escolar que envolva o indivíduo
nada adiantarão as mais diversas eficientes for- com a síndrome de Irlen e que enfrente dificuldades
mas de identificação e intervenção tanto da S.I. de aprendizagem durante o percurso educacional,
quanto das dificuldades durante o aprender se contribuindo para um diagnóstico tardio.
não houver uma relação de afetividade entre o O primeiro ponto está relacionado aos “pré-
profissional e o indivíduo durante todo o conjunto -conceitos” estabelecidos pelos profissionais do
de ações tomadas. ambiente escolar e isso vai para além do pro-
No que tange ao desenvolvimento infantil, fessor. Infelizmente, ainda é muito comum ligar
crescer e se desenvolver num ambiente onde há a dificuldade de aprendizagem às questões de
o afeto é vital para suas aquisições intelectuais, cunho socioeconômico, ou seja, em outras pala-
motoras, psíquicas, e sociais; possibilitando à vras, já existe uma pré-concepção de que alunos
criança mais segurança e equilíbrio em seu de­ de grupos sociais menos abastados podem vir
senvolvimento nos aspectos citados anterior- a desenvolver alguma dificuldade. Ou então,
mente que podem vir a sofrer interferência pela quando o aluno já apresenta uma dificuldade
síndrome. de aprendizagem, aparentemente detectada,

Rev. Psicopedagogia 2019; 36(110): 222-34

229
Sacoman MB

professores indicam que o principal fator é a ou “pré-conceitos”, pois podem amputar a oportu-
origem social. Assim como um desses fatores po- nidade de uma intervenção digna ou, muitas ve-
dem vir a ser a causa principal de baixa-estima, zes, agravar a situação. Rotular não é o caminho,
falta de vontade para aprender, etc. intervenções satisfatórias só se realizam mediante
Logicamente, todos os casos precisam ser diagnósticos exatos:
estudados e analisados especificamente, mas Aprender é um processo pelo qual o com-
esse “pré-conceito”, muitas vezes, atrapalha portamento se modifica em consequência
um diagnóstico rápido e preciso, embarreirando da experiência. E, para que a aprendiza-
também o desenvolvimento de todo os procedi- gem aconteça, é necessário haver integri-
mentos para proporcionar uma aprendizagem dades básicas das funções psicodinâmicas
satisfatória, quando o aluno passa a ser visto (aspectos psicoemocionais), do sistema
como “diferente” no ambiente escolar. nervoso periférico (canais para a apren-
Ao se estabelecer um diagnóstico precoce dizagem simbólica) e do sistema nervoso
de transtornos de aprendizagem, cria-se central (armazenamento, elaboração e
uma organização de atendimento e es- processamento da informação). Se uma
truturação de apoio que visam suprir as ou mais funções estão comprometidas,
necessidades e o desenvolvimento de estra- crianças, adolescentes ou adultos apre-
tégias compensatórias destes indivíduos. sentam desempenho acadêmico abaixo
(...). Quando uma criança é identificada do esperado e, por isso, são comumente
em situação de risco para transtornos de rotulados como pessoas com problemas
aprendizagem, na idade de 5 a 6 anos, o de aprendizagem. Mas, hoje, quando pro-
prognóstico é mais favorável e o processo fissionais de saúde e educação têm à sua
de reabilitação mais rápido. Isso se relacio- disposição os conhecimentos gerados pelas
na ao fato destas crianças terem adquirido neurociências, já não é possível fazermos
muito menos conteúdo acadêmico e, conse- tal generalização. Afinal, intervenções pre-
quentemente, fazem menos compensação cisas só podem ser realizadas se, a partir
do que aquelas com diagnóstico tardio14. dos sintomas observados, forem feitos diag-
O segundo ponto está centrado no popular nósticos corretos. Primeiramente, portanto,
“achismo”, para além da questão das dificul- é preciso que reconheçamos as diferenças
dades encontradas nas avaliações das matérias entre distúrbio, transtorno e dificuldade, o
aplicadas. Esse “achismo” muitas vezes leva o que acontece com base não só na região
professor a impedir que aluno possa ter a chance cerebral afetada e na função comprometida
de ser avaliado por psicopedagogos ou outros como também nos problemas resultantes
profissionais na descoberta das reais dificulda- de cada condição15.
des de aprendizagem. Por exemplo, associar o Incluída também no contexto do diagnóstico,
de­sempenho escolar apenas ao fato do aluno a família é o eixo-norteador nos primeiros anos
bagunçar em sala de aula. da criança. Embora muitos entrem cedo em cre-
Muitas vezes, a situação acaba permanecendo ches e escolas, o cotidiano da criança, juntamente
inalterada e o aluno, principalmente de famílias com a cultura vivenciada por ela, como um todo,
que tenham menos condições econômicas de podem contribuir positiva ou negativamente para
procurar um profissional e seguir um tratamento, o desenvolvimento nos próximos anos e não só
talvez não tenha a oportunidade de ser melhor na questão da aprendizagem, do conteúdo, mas
avaliado e, consequentemente, ter um processo também como ser humano e cidadão.
de aprendizagem satisfatória. Enfim, é importante Uma família que passa por uma série de di-
tomar extremo cuidado sobre essas avaliações fei- ficuldades como: situação financeira ruim, falta
tas sem aprofundamento, baseadas no “achismo” de harmonia na convivência dos pais, falta de

Rev. Psicopedagogia 2019; 36(110): 222-34

230
Síndrome de Irlen

carinho e atenção, uso de estupefacientes por chamá-los - a contribuição para uma intervenção
pais ou membros que constituam a família, entre satisfatória é grandiosa, gerando um desenvolvi-
outros, contribui negativamente, acrescentando mento saudável em todos os aspectos da vida do
uma série de problemas e dificuldades ao de- indivíduo, mesmo com as dificuldades impostas
senvolvimento da criança, caso não exista um pela síndrome.
acompanhamento adequado por profissionais É importante que as crianças tenham oportu-
ou a própria família não consiga solver as difi- nidade de crescer em uma família harmoniosa – e
culdades e até mesmo identificá-las. isso não quer dizer ausência de conflitos, porque
O panorama exposto anteriormente pode ser eles existem e devem ser resolvidos da melhor
catastrófico numa família cujo algum membro te- maneira possível –, que venha ter a oportunidade
nha a síndrome de Irlen e ainda não se tenha feito de conviver em sociedade, com as situações do co-
o diagnóstico, partindo do ponto que a criança ou tidiano, da sua cultura. É primordial também que
adolescente não estão preparados para conviver exista a chance de explorar novas possibilidades,
com as diversas dificuldades que se desenvolvem “novos mundos”; juntamente com um ambiente,
sem o tratamento adequado, vindo a refletir na escolar e social, que vise o engrandecimento do
aprendizagem e até na convivência em sociedade, indivíduo como um todo, tanto na questão de
resultando na queda do rendimento escolar e nas aprendizagem como na formação de um cidadão,
relações e vínculos de amizades. incluindo aqui o respeito às leis do convívio social
Crianças que venham a sofrer influência de e respeito ao próximo.
problemas enfrentados pela família podem car-
Esse contexto acima deve ser perpassado pelo
regar consigo uma autoimagem ruim, baixa
seguinte ponto-chave: aquilo que se está ensi-
autoestima, falta de empatia (dependendo da
nando precisa ter importância prática na vida da
idade), falta de carinho e respeito com o próximo
criança ou fazer parte da cultura dela, que possa
e com as leis de convívio em sociedade, ou seja,
ter valor prático, aumentando o interesse pelo
vai muito além do reflexo nas questões de apren-
aprender, não apenas as matérias dos parâmetros
dizagem, que sem dúvidas são importantes.
curriculares, mas uma série de outras atividades.
A família é essencial para o desenvolvi-
O ideal seria que os pais oferecessem segu-
mento do indivíduo, independentemente
rança e atenção aos seus filhos, para que a
da sua formação. É no meio familiar que o
criança aceitasse melhor as frustrações que
indivíduo tem seus primeiros contatos com
o mundo externo e aprende os primeiros ocorrerão em muitas outras circunstâncias
valores e hábitos. Tal convivência é funda- na vida. Porém, a realidade é que, em mui-
mental para que a criança se insira no meio tos casos, diante dessa nova circunstância,
escolar sem problemas de relacionamento ocorre uma desorganização emocional,
disciplinar, entre outros. Para que uma em que a ansiedade e a angústia também
criança aprenda, é necessário que se res- tomam conta dos pais e geram sentimentos
peitem várias integridades, como o desen- neles que prejudicam ainda mais o momen-
volvimento perceptivo-motor, perceptivo to de dificuldade vivido pelo filho. Se uma
e cognitivo e a maturação neurobiológica, mãe chora, a outra se coloca de um modo
além de inúmeros aspectos psicossociais, autoritário, ou se o avô passa a exercer
como: oportunidade de experiências, o papel de pai, compreendemos que são
exploração de objetos e brinquedos, assis- reações genuínas diante de um momento
tência médica, nível cultural, etc16. difícil também para os familiares. Porém,
Se sobre os aspectos negativos dos problemas o que não pode ser deixado de lado é o
no contexto extraescolar as dificuldades se tornam efeito das lágrimas e destas atitudes sobre
árduas, nos aspectos positivos - se assim pode-se a família como um todo17.

Rev. Psicopedagogia 2019; 36(110): 222-34

231
Sacoman MB

Por fim, com a intenção de fornecer um maior de origem neuroperceptual. Isolados ou


suporte para diagnóstico e intervenção sobre a em associação, estes sintomas sempre
síndrome de Irlen para os profissionais que se comprometem o desempenho, trazendo
dediquem a ela, é necessário demarcar algumas prejuízos acadêmicos e profissionais sig-
distinções e semelhanças com a dislexia. Na S.I., nificativos. Embora possam ser severos,
segundo Guimarães, ao contrário da dislexia, têm reabilitação rápida quando tratados,
algumas alterações estão ausentes, são elas: difi- ao contrário da dislexia, que sempre exi-
culdade na aquisição da fala e escrita, percepção girá apoio interdisciplinar constante, pelo
auditiva, escrita invertida, pronúncia incorreta, menos até que uma qualificação mínima
escrita espelhada e déficits na compreensão de na lectoescrita seja atingida19.
ordens verbais. Nestes casos, é imprescindível No entanto, é possível encontrar traços co-
a intervenção implementada ou supervisionada muns entre a S.I. e a dislexia como: a confusão
por fonoaudiólogos. entre os números, percepção de distorções visuais
Em relação aos componentes dos quadros de em páginas de texto, leitura de palavras de baixo
déficits de atenção e hiperatividade, prolixidade, para cima, etc. Também sintomas físicos como
impulsividade, falta de autocontrole pessoal cansaço e dores de cabeça são comuns. Do mesmo
ou em grupo, agitação e hiperatividade física, modo, são habituais, como em outras diversas di-
também não se encontram presentes nas raízes ficuldades de aprendizagem, a baixa autoestima,
da síndrome, exigindo, se recomendado for, uma
depressão, frustração, as dificuldades de leitura,
intervenção medicamentosa que pode ser feita
etc. É necessário, portanto, agir com cuidado sob a
por neurologistas, por exemplo.
apresentação desses aspectos para que os motivos
A autora ressalta ainda que, em comorbidade
sejam encontrados e diagnosticados rapidamente,
ou isoladamente, estes distúrbios provocam di-
sem prejuízo ao indivíduo.
versas manifestações semelhantes e, justamente
por esse motivo, é indicado por profissionais e
autores da área o rastreamento da S.I. em crianças CONSIDERAÇÕES FINAIS
que apresentem dificuldades na leitura, fotossen- Parece ser simples e fácil definir como deva
sibilidade e manutenção da atenção aos esforços ser a atuação dos profissionais preparados para
visuais prolongados, como uma forma eficiente lidar com a síndrome de Irlen, atuando no diag-
de evitar equívocos ao diagnosticar a dislexia, nóstico ou na intervenção, assim como na busca
DTA e TDAH ou, ainda, para tentar minimizar para facilitar o processo de aprendizagem do
a medicação em indivíduos em que a agitação e indivíduo, no entanto, não é.
desatenção são advindos do estresse visual e as Todo o acompanhamento precisa constituir
dificuldades geradas para se ajustar às condições uma atividade que engloba uma série de outros
de intensidade luminosa de uma sala de aula, por aspectos, para além dos procedimentos padrões
exemplo, causadas pela síndrome. para a intervenção. Neste caso, os profissionais
Segundo Asefeso18, a síndrome pode ser en- como psicólogos, psicopedagogos, médicos, entre
contrada em condições variáveis e complexas e outros, podem atuar na orientação do professor,
muitas vezes coexiste com outras dificuldades de se o indivíduo estiver em idade escolar ou aca-
aprendizagem, como o caso da dislexia. dêmica, e das pessoas que convivam diariamente
A síndrome de Irlen tem como sintomas com um aluno que possui a S.I.
principais o desconforto visual que se ma- Importante salientar, ainda, a necessidade de
nifesta pelo lacrimejamento, prurido ocular, um trabalho em conjunto (inclusive para identi-
fotofobia, dificuldades de sustentação da ficar se o professor tem lidado com a dificuldade
atenção visual, cefaleias e perda da nitidez do aluno ou do grupo de maneira correta), assim
da leitura com sensação de movimenta- como intervir diretamente, trabalhando com esse
ção das palavras devido a uma distorção indivíduo, mas de forma sempre integrada com o

Rev. Psicopedagogia 2019; 36(110): 222-34

232
Síndrome de Irlen

professor e outros profissionais que venham a auto-reconhecimento, tornando-o uma pessoa


compor o grupo de intervenção. de elevada autoestima; com as ações direciona-
Esse trabalho em conjunto, se bem executa- das tanto para simples gestos do dia-a-dia, como
do, proporciona melhores resultados. O saber atividades educacionais. Essas ações também po-
específico de cada profissional contribui para dem e devem ser implementadas pelos familiares.
que as dificuldades sejam solucionadas. No Outro ponto a ser relatado é a necessidade
entanto, a responsabilidade não pode ser dire- de uma conversa com os pais, saber como a fa-
tamente voltada para apenas um profissional, é mília convive, como é seu cotidiano e como é o
preciso haver uma divisão. E, acima de tudo, é tra­tamento dispensado para com o aluno. Mas é
importante organizar e cuidar das relações de imprescindível não “sufocar” a criança com todo
aprendizagem para que um ambiente favorável um “extra” cuidado. Por isso, a necessidade do
seja gerado para o desenvolvimento do aluno. aluno em se sentir parte do grupo, saber que ele
Por fim, é preciso ter um cuidado – no sentido tem importância e que todos precisam um do ou-
mais simples da palavra: zelar – com este aluno, tro, harmonizando a convivência em sociedade,
visando superar toda a gama de dificuldades trabalhando com as diferenças, individualidades
geradas pela S.I. que este possa vir a enfrentar e conflitos.
em seu cotidiano; demonstrar a importância da Enfim, o processo de diagnóstico e interven-
criança para todo o processo de aprendizagem, ção da síndrome de Irlen não é simples, sem dú-
incluindo a importância dele na sala de aula para vidas, mas norteados pelos pontos discutidos até
professor e amigos. aqui é possível desenvolver um trabalho efetivo
É imprescindível que exista um carinho. para que crianças e adultos possam ter a opor-
Mais do que elogiar, é atuar na melhora do seu tunidade de aprender e viver sem obstáculos.

SUMMARY
Irlen syndrome: diagnosis and interventional context

The Irlen syndrome affects 12% to 14% of the world population. Despite
this high incidence, the debate on the diagnosis, intervention and context
(family, school, social life) during this process are poorly distributed in Brazil,
especially in regard to civil society, although there is a major recent effort
to this. The intention of this work it’s surveying studies and materials of the
subject, reading, analyzing and readback of the references found, and so,
determine the definitions and signs of the syndrome, also addressing the
difficulties created by it in various fields of convivence and explain some
methods of intervention, recording still some situations and ways, to reflect
the professional practice of dealing with this whole process.

KEYWORDS: Irlen Syndrome. Diagnostic. Intervention. Context. Learning.

Rev. Psicopedagogia 2019; 36(110): 222-34

233
Sacoman MB

REFERÊNCIAS com.br/artigos/pocao-magica-na-educacao/
1. Faria LN. Frequência da Síndrome de 11. Mesquita S. Fazendo a diferença… Perguntas
Meares-Irlen entre alunos com dificuldades que precisam ser respondidas [acesso 2019 Jul
de leitura observadas no contexto escolar. 2]. Disponível em: http://fundacaoholhos.com.
[Dissertação de Mestrado]. Belo Horizonte: br/artigos/fazendo-a-diferenca-perguntas-
Universidade Federal de Minas Gerais; 2011. que-precisam-ser-respondidas/
2. Irlen H. The Irlen Revolution. New York: 12. Feuerstein R. La teoria de la modificabilidad
Square One Publishers; 2010. estructural cognitiva. Educación cognitiva.
3. Guimarães MR. Distúrbios de Aprendizado Zaragoza: Meira Editoras; 1994.
Relacionados à Visão. Rev Fund Guimarães 13. Fernández A. Os Idiomas do Aprendente:
Rosa. 2009;4(3):16-9. Análise das Modalidades Ensinantes com
4. Guimarães MR. Síndrome de Irlen. Sín­ Famílias, Escolas e Meios de Comunicação.
dromes Rev Multidiscip Desenvolv Hum. Porto Alegre: Artmed; 2001.
2011;1(4):41-7. 14. Faria LN. A importância do diagnóstico pre­
5. Guimarães MR, Guimarães JR, Guimarães coce dos Transtornos de Aprendizagem.
R, Nogueira MRV, Botelho MR, Guimarães Fun­dação H.Olhos; 2013 [acesso 2019 Maio
MEA. Selective spectral filters in the 10]. Disponível em: http://fundacaoholhos.
treatment of visually induced headaches and com.br/artigos/a-importancia-do-diagnostico-
migraines: a clinical study of 93 patients. T 29. precoce-dos-transtornos-de-aprendizagem/
Headache Med. 2010;1(2):72.
15. Travassos LP. Dificuldade escolares, dis­
6. Conselho Brasileiro de Ortóptica. Dislexia
túrbios de aprendizagem e transtornos de
de leitura – Síndrome de Irlen [acesso 2019
com­ portamento: Prevenção, identificação e
Jul 02]. Disponível em: https://document.
intervenção [acesso 2019 Maio 10]. Dis­
onl/documents/dislexia-de-leitura-sindrome-
po­nível em: http://silvanapsicopedagoga.
de-irlen-dislexia-de-leitura-farao-os.html
blogspot.com/2012/05/dificuldade-escolares-
7. Katayama EMT. Síndrome de Irlen e
abordagem homeopática [acesso 2019 Jul disturbios-de.html
02]. Disponível em: http://docs.bvsalud.org/ 16. Guerra I. Família-escola: Parceria vital. Fun­
biblioref/2019/06/999545/elizasindrome- dação H.Olhos; 2013 [acesso 2019 Maio 10].
irlen-e-abordagem-homeopatica-final-3.pdf Disponível em: http://fundacaoholhos.com.
8. Irlen H. Reading by the Colors: Overcoming br/artigos/familia-escola-parceria-vital/
Dyslexia and Other Reading Disabilities 17. Botelho MR. E a família, como vai? Fundação
Through the Irlen Method. New York: The H.Olhos [acesso 2019 Maio 10]. Disponível
Berkley Publishing Group; 1991. em: http://fundacaoholhos.com.br/artigos/e-
9. Aragão E. A síndrome de Irlen e sua corre­ a-familia-como-vai/
lação com a dislexia; 2012 [acesso 2019 Maio 18. Asefeso A. How to beat adult dislexia.
10]. Disponível em: http://psicopceara.com.br/ Morrisville: Lulu Press; 2011.
wp-content/uploads/2012/12/Painel-01_- 19. Guimarães MR. Onde o prazer de fazer se
S%C3%ADndrome-de-%C3%8Drlem.pdf confunde com o de ser. Fundação H.Olhos;

10. Castro CM. Poção mágica na educação? 2013 [acesso 2019 Maio 10]. Disponível em:
Fundação H.Olhos; 2013 [acesso 2019 Maio http://fundacaoholhos.com.br/artigos/onde-o-
10]. Disponível em: http://fundacaoholhos. prazer-de-fazer-se-confunde-com-o-de-ser/

Trabalho realizado no Centro Universitário de Ada­ Artigo recebido: 28/1/2019


mantina (Unifai), Adamantina, São Paulo, Brasil. Aprovado: 29/5/2019
Conflito de interesses: O autor declara não haver.

Rev. Psicopedagogia 2019; 36(110): 222-34

234