Você está na página 1de 86

JOHN STOTT

POR QUE SOU CRISTÃO

TRADUÇÃO
Jorge Camargo

ultimato
Dedicado à memória de Cano Miles Thomson, reitor da St
Nicholas’ Church, em Sevenoaks, Kent, Inglaterra (1987-2000) e
um bom soldado de Jesus Cristo.
SUMÁRIO

Prefácio
1. O Cão de Caça do Céu
2. As Afirmações de Jesus
3. A Cruz de Cristo
4. O Paradoxo da Nossa Humanidade
5. A Chave para a Liberdade
6. A Realização de Nossas Aspirações
7. O Maior de Todos os Convites

Notas
Prefácio
FOI EM 6 DE MARÇO de 1927 que Bertrand Russell fez uma palestra
pública no Battersea Town Hall, no sul de Londres, intitulada “Por que
não sou cristão”. Ela foi um sucesso na época, em parte, por causa da
conhecida eloquência do orador e, em parte, por causa de sua absoluta
transparência. Trinta anos depois, essa palestra foi publicada em uma
coletânea de seus escritos. Foi o capítulo um que deu título ao livro.1
No prefácio, Bertrand Russell escreveu: “Eu penso que todas as
grandes religiões do mundo... são inverídicas e danosas” (p. 11).
Embora tenha tido alguma dificuldade em definir o tipo de “cristão” que
declarou não ser, ele conseguiu demolir, para sua satisfação, os
argumentos tradicionais relacionados à existência de Deus.
Ao escrever este pequeno livro intitulado Por Que Sou Cristão, não
tenho a intenção de rebater os argumentos de Earll Russell ponto a
ponto, pois reconheço seu brilhantismo como matemático-filósofo
ganhador do prêmio Nobel de literatura e defensor da lógica e da
liberdade. Mas reconheço também que há uma defesa a ser feita em
prol do cristianismo que Bertrand Russel nem sequer considerou.
Sou grato a Richard Bewes, vigário da All Souls Church, em
Londres, por ter me convidado em 1986 para pregar quatro sermões
sobre esse assunto. Entre aqueles que mais tarde escutaram as fitas
está meu amigo, o falecido Miles Thomson, que foi vigário da St.
Nicholas Church, em Sevenoaks. Ele insistiu para que eu transformasse
esses quatros sermões em livro, acrescentando-lhes um ou dois
capítulos. Esse livro, ele escreveu na época, “ofereceria uma
introdução mais completa que qualquer dos livretos disponíveis. Ao
mesmo tempo, ele não seria tão pesado ou tão volumoso para um
questionador genuíno que queira pensar profundamente sobre as
implicações de se tornar cristão”.
Assim, tendo cedido à insistência de Miles Thomson, dedico esta
modesta peça literária à sua memória. Milès é a palavra latina para
“soldado”, e Miles foi um bom soldado de Jesus Cristo.
Agradeço aos meus amigos Paul Weston e Roger Simpson por
terem lido o manuscrito deste livro.
Eles fizeram várias sugestões, a maioria das quais eu adotei.
Agradeço também a Stephanie Heald, editora da Inter-Varsity Press,
pela atenção aos detalhes. Além disso, sou extremamente grato a
Francis Whitehead, minha secretária por quarenta e sete anos, por
mais um texto irrepreensível.
Confesso que emprestei livremente a este texto o que escrevi em
outros contextos, especialmente em The Contemporary Christian (Um
cristão contemporâneo).2 Mas amigos e editores me asseguraram que
esse empréstimo não importa, uma vez que minha declaração pessoal
ou minha história neste livro pode ficar em pé com as próprias pernas.

John Stott
Ano-Novo de 2003
CAPÍTULO 1
Pois o Filho do Homem veio buscar e salvar o que estava perdido.
LUCAS 19.10

O Cão de Caça do Céu


A FACILIDADE PARA VIAJAR e a mídia eletrônica têm nos deixado todos
(como nunca antes) cientes da multiplicidade de religiões no mundo.
Se é assim, como é que podemos decidir entre elas? Há uma verdadeira
Babel de vozes competindo por nossa atenção. A qual delas
escutaremos? Somos apresentados a um verdadeiro buffet religioso.
Que pratos escolheremos? Todas as religiões não levam a Deus?
É contra esse pano de fundo pluralista que eu quero responder à
pergunta: “Por que sou cristão?” Alguns leitores esperarão que eu
responda assim: “Sou cristão porque por acaso nasci num país de
maioria cristã. Meus pais eram cristãos nominais, fui para uma escola
de base cristã e recebi uma educação cristã básica”. Em outras
palavras, foram as circunstâncias de meu nascimento, meus pais e
minha educação que determinaram o fato de eu ser cristão. Isso, claro,
é perfeitamente verdadeiro, mas é apenas parte da verdade. E eu
poderia ter repudiado minha herança cristã. Muitas pessoas o fazem.
Além disso, há muitos outros que não tiveram uma educação cristã e
se tornaram cristãos. Assim, essa não é a resposta completa.
Outros podem esperar que eu responda algo assim: “Em 13 de
fevereiro de 1938, perto de completar 17 anos, fiz uma decisão por
Cristo. Ouvi um pregador falando sobre a pergunta de Pilatos: ‘o que
farei com Jesus, chamado o Cristo?’ Até aquele instante eu não sabia
que eu tinha algo a ver com Jesus, que é chamado o Cristo. Mas, em
resposta às minhas perguntas, o pregador mostrou os passos que
conduzem a Cristo. Em particular, ele chamou minha atenção para
Apocalipse 3.20, que registra estas palavras de Jesus: ‘Eis que estou à
porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei e
cearei com ele, e ele comigo’. Assim, naquela noite, ao lado de minha
cama, abri a porta de minha personalidade para Cristo, convidando-o
a entrar, como meu Salvador e Senhor”. Isso também é verdadeiro,
mas constitui apenas um lado da verdade.
O fator mais significativo é outro, e é sobre ele que pretendo
concentrar-me neste capítulo. O fato de eu ser cristão não se deve em
última análise à influência de meus pais e professores, nem à minha
decisão pessoal por Cristo, mas ao “Cão de Caça do Céu”, ou seja, ao
próprio Jesus Cristo, que me perseguiu incansavelmente, mesmo
quando eu estava correndo dele a fim de seguir meu próprio caminho.
Se não fosse pela perseguição graciosa do Cão de Caça do Céu, hoje
eu estaria na lata de lixo das vidas desperdiçadas e descartadas.

FRANCIS THOMPSON
“O Cão de Caça do Céu” — esta é uma expressão notável, criada por
Francis Thompson, cuja história é contada em seu poema, transcrito
por R. Moffat Gautrey no livro This Tremendous Lover (Este amante
tremendo).1
Francis Thompson teve uma infância solitária e sem amor. Fracassou
sucessivamente em suas tentativas de tornar-se sacerdote católico
romano, médico (como seu pai) e soldado. Ele acabou perdido em
Londres, até que um casal de cristãos reconheceu sua genialidade
poética e o resgatou. Durante todos esses anos ele esteve consciente,
tanto de sua busca quanto de ter sido buscado, e o expressou com
mais eloquência em seu poema O Cão de Caça do Céu. Aqui está o
início do poema:

Dele fugi, noites e dias adentro;


Dele fugi, pelos arcos dos anos;
Dele fugi, pelos caminhos dos labirintos
De minha própria mente; e no meio de lágrimas
Dele me ocultei, e sob riso incessante.
Por sobre esperanças panorâmicas corri;
E lancei-me, precipitado,
Para baixo de titânicas trevas de temores abissais,
Para longe daqueles fortes Pés que seguiam, seguiam após
mim.
Mas com desapressada perseguição,
E com inabalável ritmo,
Deliberada velocidade, majestosa urgência,
Eles marcavam os passos — e uma Voz insistia
Mais urgente que os Pés —
“Todas as coisas traem a ti, que traíste a
Mim”.2

De início, R. M. Gautrey sentiu-se ofendido pelo título do poema, O


Cão de Caça do Céu. É apropriado, ele se perguntou, comparar Deus a
um cão de caça? Mas chegou à conclusão de que há bons cães de caça
e maus cães de caça, e que os collies, que vasculham as terras altas
escocesas em busca de ovelhas perdidas, são especialmente
admiráveis. Ele observou também que o tema envolvendo cães que
caçam ovelhas (ou, mais exatamente, de pastores que buscam por
ovelhas) ocorre tanto no Antigo quanto no Novo Testamentos. Assim,
o último versículo do Salmo 23 diz:

Sei que a bondade e fidelidade me acompanharão todos os


dias da minha vida, e voltarei à casa do Senhor enquanto eu
viver.

Gautrey destaca que a palavra hebraica aqui traduzida pelo verbo


brando “seguir” deveria ser traduzida mais vigorosamente; por
exemplo, “bondade e misericórdia têm me caçado, assombrado,
perseguido meus passos todos os dias de minha vida”.3 “Trata-se de
uma caçada, de uma busca paciente, porém determinada; apaixonada,
porém incansável”.4
O próprio Jesus tomou como exemplo a metáfora do pastor:

Qual de vocês que, possuindo cem ovelhas, e perdendo uma,


não deixa as noventa e nove no campo e vai atrás da ovelha
perdida, até encontrá-la? E quando a encontra, coloca-a
alegremente nos ombros e vai para casa. Ao chegar, reúne
seus amigos e vizinhos e diz: “Alegrem-se comigo, pois
encontrei minha ovelha perdida”. Eu lhes digo que, da mesma
forma, haverá mais alegria no céu por um pecador que se
arrepende do que por noventa e nove justos que não precisam
arrepender-se. (Lc 15.3-7)
Gautrey vê o poema dividido em cinco estrofes. A primeira ele
chama de “Voo da Alma”, pois o poeta se enxerga como um fugitivo
das exigências do discipulado. A segunda é a “Busca da Alma”, na qual
a alma busca satisfação em toda parte, mas não consegue encontrá-
la. A terceira estrofe ele chama de “Impasse da Alma”, uma vez que o
poeta descobriu que a vida sem Deus não tem significado. Na quarta
estrofe, “Prisão da Alma”, ele finalmente se entrega ao amor de Cristo,
que lhe diz:

Meu Deus, tu não sabes


O quão pouco digno de qualquer amor tu és!
A quem encontrarás que te ame, ignóbil,
Salva-me, salva só a mim?5

Em cada uma das estrofes ouvimos os passos desse “amante


tremendo”, até que finalmente a caçada termina:

Tudo o que tirei de ti, obstante tirei,


Não por tuas injúrias,
Mas para que tão-somente pudesses buscá-lo em Meus
braços...
Levanta-te, segura a Minha mão, e vem!6

Francis Thompson estava expressando o que é verdadeiro sobre


cada cristão; e isso tem sido verdade em minha vida também. Se
amamos a Cristo, é porque ele nos amou primeiro (1 Jo 4.19). Se
somos de fato cristãos, não é porque tenhamos nos decidido por Cristo,
mas porque Cristo se decidiu por nós. É a busca desse “amante
tremendo” que nos torna cristãos.
Para deixar claro que a iniciativa é de Cristo, eu o convido a olhar
de maneira nova comigo para a conversão de Saulo de Tarso e para as
biografias de três cristãos. Então voltarei rapidamente para nós — para
mim, que estou escrevendo para você, e para você, que está lendo.
SAULO DE TARSO
A conversão de Saulo de Tarso é a mais celebrada em toda a história
da igreja cristã. Algumas pessoas, no entanto, se sentem perturbadas
com ela. “Eu não tive uma experiência repentina na estrada de
Damasco”, dizem. Mas considere. A conversão de Saulo não foi
repentina. Isso o surpreende? É claro, é verdade que de repente uma
luz brilhou no céu, ele caiu no chão e Jesus falou com ele. Mas essa
intervenção imprevista não foi, de modo algum, a primeira vez em que
Jesus falou com ele. Ao contrário, foi o ápice de um longo processo.
Como sabemos isso? Deixe-me citar Atos 26.14: “Todos caímos por
terra. Então ouvi uma voz que me dizia em aramaico: "Saulo, Saulo,
por que você está me perseguindo? Resistir ao aguilhão só lhe trará
dor!’”
A palavra grega kentron poderia ser traduzida como “espora”,
“chicote” ou “aguilhão”. Muito frequentemente, no grego clássico, a
partir de Ésquilo, ela foi usada num sentido metafórico. Do mesmo
modo, no livro de Provérbios, lemos:

O chicote é para o cavalo, o freio, para o jumento, e a vara,


para as costas do tolo! (26.3)

Ao falar com Saulo, Jesus estava se comparando a um fazendeiro


incitando um boi recalcitrante ou a um treinador de cavalos domando
um potro selvagem. A implicação é clara. Jesus estava perseguindo,
cutucando e espetando Saulo. Mas ele estava resistindo à pressão, e
era difícil, doloroso e até mesmo fútil para ele resistir aos aguilhões.
Isso nos leva a uma pergunta natural. Quais eram os aguilhões com
os quais Jesus Cristo estava cutucando Saulo de Tarso? Embora isso
não nos tenha sido dito especificamente, podemos observar algumas
evidências a partir do livro de Atos e de menções autobiográficas nas
cartas do apóstolo.

1. Jesus estava cutucando Saulo em sua mente. Saulo havia sido


educado em Jerusalém aos pés de Gamaliel, provavelmente o professor
judeu mais celebrado de todo o primeiro século da era crista. Assim,
teologicamente, Saulo tinha um ótimo conhecimento do judaísmo e,
moralmente, era zeloso da Lei. De sã consciência naqueles dias, ele
estava convencido de que Jesus de Nazaré não era o Messias. Para ele,
era inconcebível que o Messias judeu pudesse ser rejeitado por seu
próprio povo e então morrer, aparentemente debaixo da maldição de
Deus, uma vez que estava escrito na Lei: “qualquer que for pendurado
num madeiro está debaixo da maldição de Deus” (Dt 21.23). Não, não.
Jesus deve ser um impostor. Desse modo, Saulo via como parte de sua
tarefa opor-se a Jesus de Nazaré e perseguir seus seguidores. Essa era
a sua convicção. Inconscientemente, no entanto, sua mente estava
cheia de dúvidas por causa dos rumores que circulavam acerca de
Jesus: a beleza e a autoridade de seu ensino; a humildade e a
mansidão de seu caráter; seu serviço compassivo pelos pobres; seus
feitos poderosos de cura; e, em especial, o rumor persistente de que
sua morte não havia sido o fim, pois algumas pessoas diziam que o
haviam visto e tocado, e conversado com ele após sua morte. A mente
de Saulo estava em desordem.

2. Jesus estava cutucando Saulo em sua memória. Ele evidentemente


estivera presente no julgamento, diante do Sinédrio, de um líder
cristão chamado Estevão, a quem Lucas descreveu como “homem
cheio de fé e do Espírito Santo” (At 6.5). Isso, então, não era rumor
ou boato, pois Saulo vira com seus próprios olhos a face de Estevão
brilhando como a face de um anjo (At 6.15). Ele ouvira com seus
próprios ouvidos a defesa de Estevão, ao final da qual ele afirmara ver
a glória de Deus e “o Filho do homem em pé, à direita de Deus” (At
7.55,56). E, quando arrastaram Estevão para fora da cidade e o
apedrejaram até a morte, colocaram suas vestes aos pés de Saulo.
Lucas continua sua descrição: “Enquanto apedrejavam Estêvão, este
orava: ‘Senhor Jesus, recebe o meu espírito’. Então caiu de joelhos e
bradou: ‘Senhor, não os consideres culpados deste pecado’. E, tendo
dito isso, adormeceu’ (At 7.59,60)
Saulo deve ter dito para si mesmo: “Há algo inexplicável a respeito
desses cristãos. Eles estão convencidos de que Jesus de Nazaré é o
Messias e têm a coragem de suas convicções; estão preparados para
morrer por elas. Além disso, recusam-se a retaliar seus inimigos; ao
contrário, oram por eles”. Jesus estava cutucando a memória de Saulo.
Ele não conseguia tirar Estêvão da mente.

3. Jesus estava cutucando Saulo em sua consciência. Saulo era um


homem extremamente piedoso, como todos os fariseus eram. Vivia
uma vida irrepreensível e tinha uma reputação sem mancha. Assim
como escreveu em suas cartas, no que diz respeito à justiça da Lei, ele
era irrepreensível (Fp 3.6). No entanto, a piedade perfeita que ele dizia
ter era uma conformidade puramente externa às exigências da Lei.
Exteriormente ele havia obedecido aos preceitos e às proibições da Lei.
Interiormente, no entanto, em sua consciência, ele sabia que era
pecador. Ele poderia ter dito como C. S. Lewis escreveu mais tarde:
“Pela primeira vez examinei a mim mesmo com um propósito
seriamente prático. E ali encontrei o que me assustou: um bestiário de
luxúrias, um hospício de ambições, um canteiro de medos, um harém
de ódios mimados. Meu nome era legião”.7
No caso de Saulo, o último dos Dez Mandamentos o condenava. Ele
poderia lidar bem com os primeiros nove porque eles tinham a ver
somente com suas palavras e obras. Mas o décimo proibia a cobiça. E
a cobiça não é nem uma obra nem uma palavra, mas um desejo, uma
luxúria insaciável. Então, quando se deparou com aquele mandamento,
ele escreveu com dramática imaginação em Romanos 7 que a cobiça o
matou.

Eu não saberia o que é pecado, a não ser por meio da Lei.


Pois, na realidade, eu não saberia o que é a cobiça, se a Lei
não dissesse: “Não cobiçarás”. Mas o pecado... produziu em
mim todo tipo de desejo cobiçoso... Antes eu vivia sem a Lei,
mas quando o mandamento veio, o pecado reviveu, e eu
morri. (Rm 7.7-9)

4. Jesus estava cutucando Saulo em seu espírito. Eu uso a palavra


espírito em referência àquela parte de nossa composição humana que
é ciente da realidade transcendente de Deus. Como um judeu, Paulo
havia crido em Deus, é claro, desde a infância. Havia buscado servir a
Deus na juventude com uma consciência limpa, e ainda assim sabia
que estava separado do Deus em quem cria. Ele acreditava nele, mas
não o conhecia. Estava alienado de Deus. Ele assim o declarou, no
texto que acabei de citar: “quando o mandamento veio... eu morri”.
Mais adiante ele diz que estava “morto em suas transgressões e
pecados” (Ef 2.1), estranho ao Deus doador da vida.

Estes, eu sugiro, eram os aguilhões com os quais Jesus estava


ferindo Saulo de Tarso e aos quais ele estava resistindo, e com os quais
acabava por ferir a si mesmo. Jesus o afligia em sua mente, enchendo-
o de dúvidas sobre se ele era um impostor ou não. Ele o afligia em sua
memória, fazendo-o lembrar-se da face, das palavras, da dignidade e
da morte de Estevão. Ele o afligia em sua consciência, condenando-o
por seus desejos maus. E o afligia em seu espírito, naquele imenso
vácuo de alienação. Desse modo, durante anos Jesus cutucou e picou
Saulo, com o objetivo único de curá-lo. E todo o fanatismo com o qual
Saulo estava perseguindo a Cristo, ao perseguir a igreja, traía sua
inquietação interior. Assim, o episódio da estrada de Damasco, quando
Jesus lhe apareceu, foi o clímax inesperado de um processo gradual.
Saulo finalmente entregou-se àquele contra quem estava lutando e de
quem estava fugindo havia muito tempo.

AGOSTINHO
Passo agora a mencionar algumas biografias cristãs e começo com
o grande pai da igreja primitiva, Agostinho de Hipona. Ele nasceu no
norte da África, no país que hoje chamamos de Argélia, em meados do
século quarto. Ainda adolescente, vivia uma vida promíscua e
dissoluta, escravizado por suas paixões. Ele escreveu em suas
Confissões:

A lodosa concupiscência de minha carne e o manancial


da puberdade levantavam-se como que uma névoa que
obscureciam e ofuscavam meu coração, a ponto de não
discernir a serenidade da dileção da tenebrosidade da
libídine. Uma e outra abrasavam e arrastavam minha
fraca idade pelo declive abrupto de meus apetites,
afogando-me em um mar de torpezas.8
Embora razoavelmente comprometido com seus pecados, Agostinho
dedicou-se também aos estudos, que o levaram primeiro a Cartago e
depois a Roma e a Milão. Em sua mente, tomava lugar uma grande
disputa entre o cristianismo, que àquela altura ele rejeitava, e o
maniqueísmo, o qual abraçara. Nesse redemoinho de vergonha moral
e confusão intelectual, ele se encontrava em extrema miséria. No
entanto, por meio dessa inquietação interior de mente e consciência, e
também por meio das orações e lágrimas de sua piedosa mãe, Mônica,
e dos conselhos carinhosos do bispo Ambrosio de Milão, Jesus Cristo o
estava por certo perseguindo.
Assim como aconteceu com Saulo de Tarso, o clímax se deu
repentinamente com Agostinho de Hipona. Ele foi para o jardim anexo
aos seus aposentos, acompanhado por seu amigo Alípio. Colocou-se
debaixo de uma árvore e deixou que suas lágrimas rolassem
livremente, enquanto clamava: “Até quando, Senhor?”

Assim falava, e eu chorava com amarguíssima contrição


de meu coração. Mas eis que ouço da casa vizinha uma voz,
de menino ou menina, não sei, que dizia cantando, e repetia
muitas vezes: “Toma e lê, toma e lê”... Reprimindo o ímpeto
das lágrimas, levantei- me. Uma só interpretação se me
oferecia: a vontade divina mandava-me abrir o livro e ler o
primeiro capítulo que encontrasse... Por isso, voltei depressa
para o lugar onde Alípio estava sentado, e onde eu deixara o
livro do Apóstolo ao me levantar. Peguei-o, abri-o, e li em
silencio o primeiro capítulo que me caiu sob os olhos: Não em
orgias e bebedeiras, não em imoralidade sexual e depravação,
não em desavença e inveja. Ao contrário, revistam-se do
Senhor Jesus Cristo, e não fiquem premeditando como
satisfazer os desejos da carne (Rm 13.13,14).
Não quis ler mais, nem era necessário, pois, quando
cheguei ao fim da frase, uma espécie de luz de segurança se
infiltrou em meu coração, dissipando todas as trevas da
incerteza. 9

Agostinho atribuiu sua experiência puramente à graça, ou seja, ao


favor gratuito e imerecido de Deus. Ele disse que Deus havia
despertado todos os seus cinco sentidos espirituais — audição, visão,
olfato, paladar e tato:
Tu me chamaste, gritaste por mim, e venceste minha surdez.
Brilhaste, e teu esplendor pôs em fuga minha cegueira.
Exalaste teu perfume, respirei-o, e agora suspiro por ti. Eu te
saboreei, e agora sinto fome e sede. Tocaste-me, e o desejo
de tua paz me inflama.10

Mas Paulo foi homem do primeiro século e Agostinho, do quarto e


quinto. É hora de seguirmos adiante para o nosso próprio tempo e
observar que o Cão de Caça do Céu ainda hoje está em busca de
pessoas.

MALCOLM MUGGERIDGE
Malcolm Muggeridge foi uma figura famosa na segunda metade do
século 20 — crítico literário, personalidade de TV e porta-voz cristão.
Ele descreveu na primeira parte de sua autobiografia como, logo após
haver se formado em Cambridge, passou um tempo em um lugar
remoto no sul da índia:

Eu tinha noção de que, de algum modo, além de buscar, eu


estava sendo buscado. Pegadas deixadas atrás de mim; uma
sombra que me seguia, um Cão de Caça do Céu, tão perto
que eu podia sentir o bafo quente em meu pescoço... Eu
estava em voo também. Caçando e sendo caçado; a
perseguição e o perseguido, a busca e o voo, juntando-se por
fim em uma única imanência ou luminosidade.11

Muggeridge fez de sua experiência a mais dramática, ao expressá-la


em um encontro, usando o pronome da segunda pessoa do singular
mais íntimo, você:

Sim, Você estava ali, eu sei... Por mais que estivesse distante
e por mais rápido que fugisse, ainda sobre meu ombro eu
tinha uma rápida visão Sua no horizonte, e então fugi mais
rápido para mais distante que nunca, pensando
triunfantemente: agora escapei. Mas não, Você estava ali,
vindo atrás de mim... É de tremer quando a fera divina da
caça fica pronta para o seu bote final... Não há escape. 12
C. S. LEWIS
Mas ninguém expressou esse sentimento da busca divina de forma
mais eloquente do que C.S. Lewis (1898-1963), a cujo relato honesto
já me referi. Lewis foi professor em Oxford e em Cambridge, crítico
literário, escritor de ficção infantil e apologista cristão.
Durante algum tempo antes de sua conversão, Lewis estava
consciente de que Deus o perseguia. Em seu livro autobiográfico
Surpreendido pela Alegria, ele usa diversas metáforas que ilustram
isso. Primeiro, Deus foi “o grande Pescador”, brincando com seu peixe,
“e eu nem sonhava que o anzol se cravara na minha língua”.13 A seguir,
ele comparou Deus a um gato caçando um rato. “Agnósticos cordiais
falam sem relutância sobre ‘o homem em busca de Deus’. Para mim,
como eu pensava então, eles podiam muito bem falar sobre o rato em
busca do gato”.14 Em terceiro lugar, ele comparou Deus a uma matilha
de cães de caça: “A raposa fora expulsa da Floresta Hegeliana e agora
corria em campo aberto... desgrenhada e exausta, os cães já no seu
encalço. E quase todos agora (de uma forma ou de outra) faziam parte
da matilha...”15 Finalmente, Deus foi o Divino Jogador de Xadrez,
gradualmente manobrando-o para uma posição impossível. “Minhas
peças estavam em posições extremamente desfavoráveis no tabuleiro.
Logo já não podia acalentar nem mesmo a ilusão de que a iniciativa
cabia a mim. Meu Adversário passou a desfechar seus últimos
lances.”16 Assim, Lewis intitulou seu penúltimo capítulo de “Xeque-
mate”.17 Ele escreveu em palavras memoráveis o momento exato de
sua entrega a Cristo em Cambridge:

O leitor precisa imaginar-se sozinho naquele quarto em


Magdalen, noite após noite, sentindo — sempre que minha
mente se desviava um instante que fosse do trabalho — a
aproximação firme e implacável d’Ele, aquele que com tanta
determinação eu não desejava encontrar. Aquilo que eu temia
tanto pairava afinal sobre mim. Cedi enfim no período letivo
subsequente à Páscoa de 1929, admitindo que Deus era Deus,
e ajoelhei-me e orei: talvez, naquela noite, o mais deprimido
e relutante confesso de toda a Inglaterra. Não percebi então
o que se revela hoje a coisa mais ofuscante e óbvia: a
humildade divina que aceita um converso mesmo em tais
circunstancias. O Filho Pródigo afinal caminhava para casa
com as próprias pernas. Mas quem é que pode respeitar de
fato o Amor que abre os portões a um pródigo que é arrastado
para dentro esperneando, lutando, ressentido e girando os
olhos em torno, à procura de uma chance de fuga?18

Não devemos supor, no entanto, que o Cão de Caça do Céu persiga


somente pessoas especiais como Saulo de Tarso, Agostinho de Hipona,
Malcolm Muggeridge e C. S. Lewis. Multidões de pessoas anônimas têm
testificado por todos os séculos da cristandade o mesmo sentimento
do Cristo batendo à sua porta, cutucando-as com os seus aguilhões ou
perseguindo-as.
Penso que eu mesmo possa testemunhar sobre isso. Na verdade,
pelo fato de estar escrevendo Por Que Sou Cristão, não posso evitar
ser pessoal nem escrever minha própria história. Olhando para trás,
por toda uma longa vida, muitas vezes tenho me perguntado o que me
levou a Cristo. E, como já disse, não foi minha educação nem minha
escolha independente; foi o próprio Cristo batendo à minha porta,
chamando-me a atenção para a sua presença do lado de fora.
Ele fez isso de duas maneiras. A primeira foi por do meu sentimento
de alienação para com Deus. Eu não era um ateu. Eu cria na existência
de Deus — alguém ou alguma coisa em algum lugar, a realidade
suprema por trás e além de todos os fenômenos cósmicos —, mas não
conseguia encontrá-lo. Eu costumava visitar uma pequena capela
escura na escola que frequentava, a fim de ler livros religiosos e recitar
orações. Tudo isso não tinha proveito algum; Deus estava distante e
afastado, e eu não conseguia penetrar na névoa que parecia envolvê-
lo.
A segunda maneira como vi Cristo batendo em minha porta foi pelo
meu senso de derrota. Com o idealismo vibrante da juventude, eu tinha
uma imagem heroica da pessoa que eu queria ser — altruísta e de
espírito público. Mas tinha, ao mesmo tempo, uma imagem clara de
quem eu realmente era — malicioso, egoísta e orgulhoso. As duas
imagens não combinavam. Eu era uma pessoa com altos ideais, mas
sem a mínima disposição de alcançá-los.
Em meio a todo esse sentimento de alienação e fracasso, o Estranho
à porta continuava batendo, até que o pregador que mencionei no início
deste capítulo lançou luz sobre o meu dilema. Ele falou da morte e
ressurreição de Jesus Cristo. Explicou que Cristo havia morrido para
tornar a minha alienação em reconciliação, e havia ressuscitado dos
mortos para tornar a minha derrota em vitória. A correspondência
entre a minha necessidade subjetiva e a oferta objetiva de Cristo
parecia muita próxima para ser uma coincidência. As batidas de Cristo
em minha porta tornaram-se mais altas e mais insistentes. Eu abri a
porta ou ele a abriu? De fato, eu a abri, mas somente a sua persistência
tornou isso possível e até mesmo inevitável.
Eu contei a você a minha história e me pergunto como é a sua. Jesus
nos assegura em suas parábolas que, quer estejamos conscientemente
buscando a Deus, quer não, ele com certeza está nos buscando. Cristo
é como uma mulher que varre a sua casa em busca de uma moeda
perdida; é como um pastor que se arrisca nos perigos do deserto em
busca de apenas uma ovelha que se perdeu; e é como um pai que
sente saudades de seu filho pródigo e deixa que ele experimente as
amarguras de seus desatinos, mas que está pronto, a todo momento,
para correr e encontrá-lo, e dar-lhe as boas-vindas de volta ao lar.
Estou convencido de que em algum momento de nossa vida
sentimos o cutucão de Jesus Cristo e o ouvimos bater na porta, embora
não reconheçamos o que aconteceu. Há muitas maneiras diferentes
como ele nos busca, nos persegue e nos adverte quando estamos no
caminho errado, seguindo na direção equivocada.
Pode ser por meio de um sentimento de culpa e vergonha, quando
lembramos de algo que pensamos, dissemos ou fizemos e ficamos
horrorizados com as profundezas de depravação nas quais somos
capazes de afundar. Ou pode ser por meio da fossa escura da
depressão, ou do vazio do desespero existencial, no qual nada faz
sentido e tudo é absurdo. Ou, ainda, pode ser pelo medo da morte e
do julgamento depois dela.
Podemos positivamente, de tempos e tempos, ficar maravilhados
com o delicado equilíbrio da natureza, ou com algo maravilhoso para o
ouvido, os olhos ou o toque. Ou, ainda, podemos experimentar o
êxtase do amor imerecido ou a dor aguda do amor não- correspondido,
porque sabemos instintivamente que o amor é a maior de todas as
coisas no mundo. É em momentos como esses que Jesus Cristo se
achega a nós e usa a sua mão para bater à porta ou para cutucar.
Se nos tornarmos cientes da incansável busca de Cristo, desistirmos
de tentar escapar dele e nos entregarmos ao abraço desse “amante
tremendo”, não haverá espaço para ostentação em relação àquilo que
fazemos, mas somente para uma profunda ação de graças por sua
graça e misericórdia, e para a firme resolução de passar o tempo e a
eternidade a seu serviço.

CAPÍTULO 2
O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para
pregar boas novas aos pobres. Ele me enviou para proclamar
liberdade aos presos e recuperação da vista aos cegos, para libertar
os oprimidos e proclamar o ano da graça do Senhor.
LUCAS 4.18,19

AS AFIRMAÇÕES DE JESUS
MINHA PRIMEIRA resposta à pergunta “Por que sou cristão?” foi referir-
me ao Cão de Caça do Céu, que me perseguiu, cutucou e aguilhoou
até que eu me entregasse a ele. Minha segunda resposta é “porque
estou convencido de que o cristianismo é verdadeiro, ou melhor, de
que as afirmações de Jesus são verdadeiras”.
Em nossa sociedade tolerante e pluralista, sempre que alguém se
torna um cristão, o comentário condescendente e comum é: “Que bom,
querido! Estou certo de que isso será de grande ajuda para você. As
pessoas precisam do conforto da religião em tempos tão difíceis e
ameaçadores como os nossos”.
Bem, não quero em momento algum negar que a pessoa de Jesus
Cristo representa uma enorme ajuda e conforto para seus seguidores.
Mas ele traz consigo um desafio radical também. Assim, a segunda
razão por que sou cristão não é porque isso é bom, mas porque é
verdadeiro.
Nossa cultura pós-moderna, em reação à autoconfiança da
modernidade, perdeu todo o sentido de segurança e afirma que não há
verdade objetiva ou universal. Toda a nossa compreensão é
culturalmente condicionada, é relativa, e cada pessoa tem sua própria
verdade. Os cristãos, no entanto, têm uma convicção diferente, de que
há uma verdade objetiva.
Um bom exemplo dessa afirmação é o apóstolo Paulo durante uma
de suas provações (At 26). Diante do rei Agripa e tendo recebido
liberdade para falar, Paulo contou a história de sua herança judaica,
sua perseguição à igreja, sua conversão dramática e seu
comissionamento como apóstolo dos gentios. Ele proclamou que o
Messias tinha de sofrer e ser a primeira pessoa a ressuscitar de entre
os mortos.
A essa altura, Festo, procurador da província romana da Judeia,
interrompeu a defesa de Paulo e gritou: “Você está louco, Paulo! As
muitas letras o estão levando à loucura!”
“Não estou louco, excelentíssimo Festo”, Paulo respondeu com
calma. “O que estou dizendo é verdadeiro e de bom senso” (w. 24 e
25). Aliás, isso é sensato exatamente porque é verdadeiro. Eu poderia
dizer o mesmo.
Para começar, sejamos claros, em dizer que as afirmações do
cristianismo são, em sua essência, as afirmações de Cristo. Não tenho
desejo particular de defender o “cristianismo” como um sistema ou a
“igreja” como uma instituição. A história da igreja tem sido uma
história doce e amarga, combinando atos de heroísmo com atos
vergonhosos. Mas não nos envergonhamos de Jesus Cristo, que é o
centro e o cerne do cristianismo.
Na verdade, há muitas pessoas que criticam a igreja e, ao mesmo
tempo, mantêm uma admiração secreta por Jesus. De fato, eu nunca
encontrei ninguém, nem espero encontrar, que não tenha um grande
respeito por ele. Jesus faz um apelo às pessoas do século 21. Ele é um
destemido crítico do establishment. Defendeu a causa dos pobres e
necessitados, e fez amizade com os desprezados da sociedade. Tinha
compaixão das pessoas que os outros desprezavam e rejeitavam. E,
embora tenha sido furiosa e injustamente atacado, nunca retaliou. Ele
disse aos seus discípulos que eles deveriam amar seus inimigos e
praticar o que pregavam. Há muitos motivos para se admirar Jesus.
Sem dúvida, a característica mais marcante do ensino de Jesus é
sua extraordinária auto- centralidade. Na verdade, ele estava
constantemente falando a respeito de si mesmo. Ele falava muito sobre
o reino de Deus, mas acrescentava que viera para inaugurá-lo. Falou
a respeito da paternidade de Deus, mas acrescentou que era o Filho do
Pai.
Nas grandes declarações “eu sou”, que João registra em seu
evangelho, Jesus afirma ser o “pão da vida”, “a luz do mundo”, “o
caminho, a verdade e a vida” e “a ressurreição da vida”. Em outras
passagens, colocou-se como objeto da fé das pessoas. Ele sempre dizia
“Venham a mim” e “sigam a mim”, prometendo que, se elas viessem,
seus fardos seriam aliviados e sua sede, saciada (Mt 11.28; Jo 7.37).
Mais dramáticas ainda eram suas referências ao amor. Ele conhecia e
citou o maior de todos os mandamentos do Antigo Testamento: colocar
Deus em primeiro lugar e amá-lo com todo o nosso ser. Mas agora ele
pedia a seus seguidores que lhe dessem o seu primeiro amor,
acrescentando que, se eles amassem qualquer pessoa — até mesmo
seus parentes mais próximos — mais do que a ele, não eram dignos
dele (Mt 10.37-39).
Essa proeminência do pronome pessoal (“eu-eu-eu-mim-mim-
mim”) é muito perturbadora, especialmente por parte de alguém que
declarava ser a humildade a virtude principal. Isso também coloca
Jesus à parte de todos os outros líderes religiosos do mundo. Eles se
anulavam, apontando para a verdade que ensinavam; Jesus
evidenciava a si mesmo, oferecendo-se a seus discípulos como objeto
de sua fé, amor e obediência. Assim, não há dúvida de que Cristo
acreditava ser único. E é essa autoconsciência de Jesus que precisamos
investigar. Ela possuía três linhas principais, três relacionamentos que
ele afirmava — primeiro, com as Escrituras do Antigo Testamento;
segundo, com aquele que ele chamava de seu Pai; e, terceiro, com o
resto da humanidade, incluindo nós mesmos.

CUMPRIMENTO
Primeiro, com relação às Escrituras do Antigo Testamento, Jesus
afirmava ser o seu cumprimento.
Esse sentido de cumprimento foi um ingrediente essencial de sua
autoconsciência do início ao fim do seu ministério público. Sua primeira
palavra registrada, de acordo com o grego do evangelho de Marcos, foi
peplerotai, “cumprido”. Ele proclamou: “O tempo é chegado
[literalmente, “foi cumprido”]... O reino de Deus está próximo.
Arrependam-se e creiam nas boas novas!”. Ou seja, o reino ou domínio
de Deus, havia muito prometido no Antigo Testamento, por fim
chegara; ele próprio viera para inaugura-lo. Como consequência, se as
pessoas se humilhassem, se arrependessem e cressem nele, poderiam
“entrar no” ou “herdar o” reino, a partir de então.
Considere a seguir o dramático incidente registrado em Lucas 4.14-
21, que ocorreu em Nazaré, sua cidade natal, num certo dia de sábado.
Jesus foi à reunião da sinagoga, como era seu costume. Recebeu o rolo
do profeta Isaías e leu este texto, que está registrado em nosso
capítulo 61 de Isaías:

O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu


para pregar boas novas aos pobres. Ele me enviou para
proclamar liberdade aos presos e recuperação da vista aos
cegos, para libertar os oprimidos e proclamar o ano da graça
do Senhor.
(Lc 4.18,19; cf. Is 61.1,2)

Tendo concluído a leitura, Jesus fechou o rolo, devolveu-o ao


assistente na sinagoga e sentou-se, pronto, como um rabino visitante,
a expor a leitura. Quando a congregação voltou os olhos para ele, ele
a surpreendeu dizendo: “Hoje se cumpriu [peplerotai, novamente] a
Escritura que vocês acabaram de ouvir” (Lc 4.21). Em outras palavras,
ele disse: “se vocês quiserem saber a quem o profeta estava se
referindo, ele estava escrevendo acerca de mim”. Ter dito ser o
cumprimento das Escrituras foi uma afirmação extraordinária.
Então Jesus continuou a afirmar que “as Escrituras... testificam a
meu respeito” (Jo 5.39) e que “Abraão alegrou-se ante o pensamento
de ver o meu dia”(Jo 8.56). Após a sua ressurreição, “explicou-lhes o
que constava a respeito dele em todas as Escrituras”, acrescentando
que “era necessário que se cumprisse tudo o que a meu respeito está
escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (Lc 24.27, 44).
Em particular, Jesus via-se a si mesmo em dois personagens do
Antigo Testamento. O primeiro era “o filho do homem”, uma pessoa
humana na visão de Daniel, que “recebeu autoridade, glória e o reino;
todos os povos, nações e homens de todas as línguas o adoraram. Seu
domínio é um domínio eterno que não acabará, e seu reino jamais será
destruído” (Dn 7.13,14).
Mas ele se via também como o “servo sofredor” de Isaías, que “foi
desprezado e rejeitado pelos homens” e que “levou o pecado de
muitos” (Is 53.3, 12).
Assim, “filho do homem” em Daniel 7 era um título de honra,
enquanto que “servo sofredor” em Isaías 53 era um título de vergonha.
Jesus fez o que ninguém jamais havia feito antes dele. Ele fundiu as
duas imagens para dizer que o Filho do Homem deveria sofrer muitas
coisas (Mc 8.31). Ele insistiu que seria somente por meio do sofrimento
e da morte que ele entraria em sua glória.
Certo dia, conforme registrado por Mateus e Lucas, Jesus fez sua
declaração mais forte e clara: “Mas, felizes são os olhos de vocês,
porque veem; e os ouvidos de vocês, porque ouvem. Pois eu lhes digo
a verdade: Muitos profetas e justos desejaram ver o que vocês estão
vendo, mas não viram, e ouvir o que vocês estão ouvindo, mas não
ouviram” (Mt 13.16,17; cf. Lc 10.23,24)
Em outras palavras, os discípulos estavam realmente vendo e
ouvindo o que os profetas do Antigo Testamento haviam ansiado ver e
ouvir por eles mesmos, mas não puderam. Os profetas viveram em um
tempo de antecipação e os discípulos, em dias de realização.
Essa é uma afirmação altamente significativa, pois muitas pessoas,
incluindo todo o mundo islâmico, estão preparadas para aceitar Jesus
como profeta. Mas ele não pensou nem falou acerca de si mesmo
nesses termos. Em vez de dizer que era mais um profeta na longa
sucessão dos séculos — ou até mesmo o último deles —, Jesus afirmou
ser o cumprimento de toda a profecia. Todas as várias correntes
proféticas do Antigo Testamento convergiram para ele. Fora com a sua
vinda que a nova era havia começado a se manifestar e o reino de
Deus havia por fim chegado.
INTIMIDADE
Em segundo lugar, em relação a Deus, a quem chamava de “Pai”,
Jesus reivindicou a relação única de “Filho”.
Eu, deliberadamente, acrescento o adjetivo “única”, porque o uso
do termo ou título “filho de Deus” não é por si mesmo definitivo. A
expressão é usada nas Escrituras de variadas formas. Anjos sâo
ocasionalmente chamados de “filhos de Deus” (por exemplo, Jó 1.6;
2.1). Do mesmo modo, Adão foi chamado dessa maneira (Lc 3.38).
Assim também foi chamado Salomão (2 Sm 7.14) e Israel como um
todo (Êx 4.22; Os 11.1). Na verdade, o termo veio a ser aplicado a
todos os reis ungidos de Judá, especialmente ao rei davídico que estava
por vir, o Messias (SI 2.7).
Portanto, o título “filho de Deus” em si não é conclusivo. Afinal, nós
que buscamos seguir a Jesus hoje podemos ser chamados filhos e filhas
de Deus. A maneira como Jesus usava o termo, no entanto, era
distintiva. Para começar, ele acrescentou à expressão o artigo definido
“o”, chamando Deus de “o Pai” e a si mesmo de “o Filho”, de fato o
Filho único do Pai (Mt 11.27), de uma maneira absoluta e irrestrita.
Podemos afirmar ser um filho ou uma filha de Deus, mas não
sonharíamos chamar a nós mesmos o filho ou a filha. No entanto, Jesus
o fez e, assim, explicitou que havia entre ele e o Pai uma relação
recíproca única, que lhe permitia dizer: “Ninguém conhece o Filho a
não ser o Pai, e ninguém conhece o Pai a não ser o Filho” (Mt 11.27).
Ele expressou essa intimidade única de relacionamento ao dirigir-se a
Deus como “Abba”, “meu Pai”.
O falecido professor Joachim Jeremias Gottingen (1900-1982)
escreveu acerca do valor desse relacionamento:

Até hoje ninguém produziu um único exemplo no judaísmo


palestino em que Deus é tratado como “meu Pai” por uma
pessoa individual... mas Jesus fez assim... a coisa mais
impressionante é que quando Jesus se dirigia a Deus como
seu Pai em oração ele usava a palavra aramaica “Abba”... Em
nenhum outro lugar na literatura e nas orações do judaísmo
antigo — um tesouro imenso muito pouco explorado — esta
invocação a Deus como Abba é encontrada... Jesus, por outro
lado, sempre a utilizava quando orava... Para uma mente
judaica, teria sido irreverente e, portanto, inimaginável
chamar Deus por essa palavra familiar. Era algo novo, algo
único e jamais visto, que Jesus ousasse dar esse passo e falar
com Deus como uma criança fala com seu pai, simplesmente,
intimamente, seguramente... Abba como uma referência a
Deus é ipsissima vox [a própria voz], uma expressão
autêntica e original de Jesus...1

É claro que não entendemos por completo a autoconsciência de


Jesus. Nem sabemos como ele veio a experimentar a paternidade de
Deus. Mas sabemos que, já aos 12 anos, ele pensava em Deus como
seu Pai e foi capaz de perguntar: “Não sabiam que eu devia estar na
casa de meu Pai?” (Lc 2.49). Sabemos também que o seu
relacionamento íntimo com o Pai continuou por toda a sua vida, mesmo
em meio ao sofrimento (exceto naquele momento horrendo em que
Deus o abandonou na cruz), até suas palavras finais quando morreu,
que foram: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23.46).

AUTORIDADE
Em terceiro lugar, em relação aos seres humanos, Jesus reivindicou
a autoridade de ser o Salvador e Juiz das pessoas.
Uma das coisas mais extraordinárias que Jesus fez em seu ensino
(e tão discretamente que muitas pessoas leem os Evangelhos sem
sequer notar isso) foi colocar-se à parte de todos. Por exemplo, ao
afirmar ser o bom pastor que foi para o deserto buscar suas ovelhas
perdidas, ele declarou que o mundo estava perdido, e que ele não
estava, e que poderia buscá-lo e salvá-lo.
Em outras palavras, Jesus colocou-se numa categoria moral em que
estava só. Todos os demais estavam na escuridão; ele era a luz do
mundo. Todos estavam famintos; ele era o pão da vida. Todos estavam
sedentos; ele era a água viva. Todos eram pecadores; ele podia
perdoar os seus pecados. Aliás, em duas ocasiões específicas ele assim
o fez, e seus observadores ficaram escandalizados. Eles perguntaram:
“Por que esse homem fala assim? Está blasfemando! Quem pode
perdoar pecados, a não ser somente Deus?” (Mc 2.5-7; cf. Lc 7.48,49).
Se Jesus reivindicou autoridade para perdoar o penitente, ele
reivindicou também autoridade para julgar o impenitente. Várias de
suas parábolas dão a entender que ele esperava retornar no fim da
história. Ele disse que naquele dia se assentaria em seu glorioso trono.
Todas as nações estariam diante dele, e ele as separaria umas das
outras como um pastor separava as ovelhas dos bodes. Em outras
palavras, ele determinaria o destino eterno de todos. Assim, ele fez de
si mesmo a figura central do dia do julgamento.
Essas declarações são importantes. Jesus era um carpinteiro e
Nazaré, uma vila desconhecida na periferia do Império Romano.
Ninguém fora da Palestina havia jamais ouvido falar sobre Nazaré. E lá
estava ele, afirmando ser o Salvador e Juiz de toda a humanidade.
As pessoas ficavam impressionadas com sua autoridade. Sentiam
temor e espanto em sua presença. Algumas diziam que ele devia estar
louco. Outras abandonavam tudo e o seguiam.
Portanto, esses são os três relacionamentos principais que Jesus
reivindicou. Em relação às Escrituras do Antigo Testamento, ele foi o
seu cumprimento. Em relação a Deus, o Pai, ele desfrutava da
intimidade única da filiação. Em relação aos seres humanos, ele
reivindicou a autoridade para ser seu Salvador e Juiz. Três palavras
resumem suas afirmações — cumprimento, intimidade e autoridade.
Ele afirmava ser o Cristo das Escrituras, o Filho de Deus e o Salvador
e Juiz do mundo.
Hugh Martin, um estudioso do Novo Testamento, escreveu:

Minha leitura dos evangelhos, depois do mais detalhado


escrutínio e de fazer todas as concessões, é que Jesus nunca
cessou, em palavras e atos, de afirmar o senhorio sobre os
corações e as vidas dos homens. Podemos lamentar por isso,
podemos nos ofender com isso, mas o fato não pode ser
negado. A evidência em todos os nossos documentos é
inquestionável.2

O que fazer, então, com as afirmações de Jesus? Algo que não


podemos fazer (embora muitas pessoas tentem) é ignorá-las. Se as
varremos para debaixo do tapete, elas têm o hábito constrangedor de
aparecer novamente. Elas estão costuradas no tecido dos Evangelhos,
não podemos fingir que não estão ali. Não podemos caracterizar Jesus
como um professorzinho de trivialidades éticas, inofensivo e bom.
A situação é muito simples. As afirmações de Jesus ou são
verdadeiras ou são falsas. Se forem falsas, podem ser deliberadamente
falsas (o que, no caso, nos permite dizer que ele foi um mentiroso ou
impostor) ou podem ser involuntariamente falsas (no caso de ele ter
tido alucinações). Nenhuma dessas possibilidades parece provável.
Jesus odiava a religião pretensa ou a hipocrisia. Ele foi uma pessoa de
tamanha integridade que é muito difícil crer que tenha sido um
charlatão. Quanto ao fato de se ter uma ideia fixa acerca de si mesmo,
certamente há pessoas psicóticas que imaginam ser a rainha de Sabá,
Júlio César, o Imperador do Japão ou alguma outra personalidade. Mas
há algo fatal nessa teoria com respeito a Jesus: o fato de que pessoas
alucinadas não alucinam ninguém mais a não ser elas mesmas. Basta
você estar na presença delas por dois ou três minutos para perceber
que estão fora da realidade, vivendo em um mundo de fantasia. Mas
Jesus não. Ele tem conseguido persuadir (ou iludir) milhões de
pessoas, pela boa razão de que ele parece ser quem afirmou que é.
Não há dicotomia entre o seu caráter e as suas afirmações.
Esse dilema foi vigorosamente expresso por C. S. Lewis:

Um homem que fosse só homem, e dissesse as coisas que


Jesus disse, não seria um grande mestre da moral: seria ou
um lunático, em pé de igualdade com que diz ser um ovo
cozido, ou então seria o Demônio. Cada um de nós tem que
optar por uma das alternativas possíveis. Ou este homem era,
e é Filho de Deus, ou então foi um louco, ou algo pior.
Podemos contra argumentá-lo taxando-o de louco, ou cuspir
nele e mata-lo como um demônio; ou podemos cair a seus
pés e chamá-lo de Senhor e Deus. Mas não venhamos com
nenhuma bobagem paternalista sobre Ele ser um grande
mestre humano. Ele não dos deu esta escolha. Nem nunca
pretendeu.3

Este é o paradoxo de Jesus. Suas afirmações soam como delírios de


um lunático, mas ele não mostra nenhum sinal de ser um fanático, um
neurótico, nem muito menos um psicótico. Ao contrário, ele se
apresenta nas páginas dos evangelhos como o mais integrado e
equilibrado dos seres humanos.
Considere em particular a humildade de Jesus. As suas afirmações
acerca de si mesmo são perturbadoras porque são muito auto
centralizadas. No entanto, em seu comportamento, ele estava vestido
de humildade. Suas afirmações soam orgulhosas, mas ele foi humilde.
Observo esse paradoxo em seu ponto extremo quando ele estava com
os discípulos no Cenáculo, antes de morrer. Ele disse que era o seu
Senhor, professor e juiz, mas apanhou uma toalha, colocou-se de
joelhos e lavou os pés deles como um simples servo. Isso não é único
na história do mundo? Muitas pessoas arrogantes passaram por esta
terra, mas todas se comportaram como tal. Houve também muitas
pessoas humildes, mas que não fizeram grandes afirmações acerca de
si mesmas. É a combinação do egocentrismo e da humildade que é tão
impressionante — o egocentrismo de seu ensino e a humildade de seu
comportamento.
Por que sou cristão? Intelectualmente falando, é por causa do
paradoxo de Jesus Cristo. É porque aquele que afirmou ser o Senhor
dos seus discípulos humilhou-se para ser o servo deles.

CAPÍTULO 3
Mas Deus demonstra seu amor por nós:
Cristo morreu em nosso favor
quando ainda éramos pecadores.
ROMANOS 5.8

A CRUZ DE CRISTO
AS AFIRMAÇÕES DE JESUS se relacionam não somente a quem ele era,
mas também àquilo que ele veio fazer no mundo; não somente à sua
pessoa, mas também à sua missão; não somente à sua vida, mas
também à sua morte.
Qualquer pessoa que investigue o cristianismo pela primeira vez
ficará impressionada pelo destaque extraordinário que os seguidores
de Cristo dão à sua morte. No caso de todos os outros grandes líderes
espirituais, a morte deles é lamentada como fator determinante do fim
de suas carreiras. Não tem importância em si mesma; o que importa é
a vida, o ensino e a inspiração do exemplo deles. Com Jesus, no
entanto, é o contrário. Seu ensino e exemplo foram, na verdade,
incomparáveis; mas, desde o princípio, seus seguidores enfatizaram
sua morte. Vejamos seus três maiores apóstolos, Paulo, Pedro e João:
Paulo: “Pois decidi nada saber entre vocês, a não ser Jesus
Cristo, e este, crucificado” (1 Co 2.2).

Pedro: “Pois também Cristo sofreu pelos pecados uma vez


por todas, o justo pelos injustos, para conduzir-nos a Deus”
(1 Pe 3.18).

João: “Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos


amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou seu Filho
como propiciação pelos nossos pecados” (1 Jo 4.10).

Além disso, quando os Evangelhos foram escritos, os quatro autores


dedicaram uma quantidade de espaço desproporcional à última
semana de vida de Jesus na terra — no caso de Lucas, um quarto; de
Mateus e Marcos, cerca de um terço; e de João, quase a metade.
E a razão para essa ênfase dos apóstolos é que eles a enxergaram
na mente do próprio Jesus. E isso o colocou à parte de outros líderes
religiosos na história, que morreram de causas naturais, idosos, tendo
completado suas missões com sucesso. Maomé morreu aos 62 anos;
Confúcio, aos 72; Buda, aos 80; e Moisés, aos 120. Mas Jesus morreu
a morte horrível da crucificação na faixa dos 30 anos, repudiado por
seu próprio povo. Aparentemente, ele foi um fracasso completo; no
entanto, afirmou cumprir sua missão por meio de sua morte. Aliás,
durante os seus poucos anos de vida na terra, ele ansiava pelo
cumprimento de sua obra.
Portanto, é claro que a morte de Jesus foi central para a sua própria
auto compreensão. Em três ocasiões, distintas e solenes, ele predisse
sua morte, dizendo que “O Filho do homem deveria sofrer muitas
coisas... e... ser morto” (Mc 8.31; cf. 9.31; 10.32-34). Ele via sua
missão como vindo a ser completada por meio de sua morte e,
portanto, a tinha como inevitável. “Ela deve acontecer”, ele disse.
Também se referiu à sua morte como a “hora” para a qual ele viera ao
mundo. A princípio essa “hora” foi sendo retardada, mas por fim ele
pôde dizer: “a hora chegou” (Jo 12.23,24). E, finalmente, na noite de
quinta-feira, enquanto participava da ceia com os doze, ele
deliberadamente deu instruções acerca de seu próprio velório. Eles
deveriam tomar, partir e comer o pão em memória de seu corpo, dado
por eles, e beber o vinho em memória de seu sangue, derramado por
eles. A morte fala conosco a partir de ambos os elementos — o pão
partido e o vinho derramado. Nenhum simbolismo poderia ter sido mais
dramático. Assim, Jesus deu instruções claras sobre como gostaria de
ser lembrado: por sua morte.
Assim, a igreja foi correta ao escolher a cruz como símbolo do
cristianismo. Ela poderia ter escolhido o berço no qual o menino Jesus
foi colocado (como emblema da encarnação), ou a banca do carpinteiro
(afirmando a dignidade do trabalho manual), ou o barco sobre o qual
ele ensinava as pessoas, ou a toalha com a qual ele enxugou os pés
dos discípulos depois de os ter lavado (como símbolo do serviço
humilde), ou o túmulo de onde ele ressuscitou, ou o trono que ele
ocupa hoje (representando sua soberania), ou a pomba, ou o fogo
(como emblema do Espírito Santo). Qualquer um desses poderia ter
sido um símbolo apropriado da fé cristã. Mas a igreja os colocou todos
de lado em favor da cruz, que representa a necessidade e a
centralidade da morte de Jesus.
Assim, vemos a cruz em toda parte. Em muitas igrejas, candidatos
ao batismo recebem um sinal da cruz. Após a morte de algumas
pessoas, a família ergue uma lápide sobre o túmulo, sobre a qual coloca
uma cruz. Na Idade Média, as grandes catedrais da Europa eram
construídas em forma de cruz, com a nave e os transeptos formando
uma enorme cruz. E muitas pessoas declaram sua identidade cristã
usando um crucifixo — as mulheres o penduram no pescoço ou no
brinco, e os homens o trazem na lapela. Na verdade, usar um crucifixo
é um desafio ao compromisso cristão da própria pessoa. O escritor
inglês Malcolm Muggeridge foi alguém assim:

Eu notaria de relance uma cruz [ele escreveu no fim de sua


vida], não necessariamente um crucifixo; talvez dois pedaços
de madeira acidentalmente cruzados, em um poste
telegráfico, por exemplo — e de repente meu coração se
acalmaria. De uma maneira instintiva e intuitiva compreendi
que algo mais importante, mais tumultuoso e mais
apaixonado estava em questão, mais do que nossas boas
causas, por mais admiráveis que fossem... Era, eu sei, um
interesse obsessivo... Eu poderia, por mim mesmo, juntar
pedaços de madeira, ou rabiscar com eles. Esse símbolo, que
era considerado ridículo em minha casa, foi, no entanto, o
foco de desejos e esperanças inconcebíveis... Quando me
lembro disso, um sentimento de meu próprio fracasso cai feito
chumbo sobre mim. Eu deveria tê-lo vestido sobre o meu
coração; carregando-o como um símbolo precioso para nunca
ser torcido em minhas mãos; embora eu caia, ainda carregado
para cima. Ele deveria ter sido meu culto, meu uniforme,
minha linguagem, minha vida. Não tenho desculpas; não
posso dizer que não sabia. Eu sabia desde o princípio e
recusei.1

A escolha da cruz como símbolo supremo do cristianismo foi ainda


mais extraordinária porque na cultura greco-romana a cruz era um
sinal de vergonha. Os romanos reservavam a morte dolorosa e
humilhante da crucificação para os seus piores criminosos e mais
perigosos traidores. Nenhum cidadão romano foi jamais crucificado.
Cícero condenou a crucificação como “a punição mais cruel e
repugnante”.2 E em sua famosa defesa de um velho senador ele insistiu
que “a simples palavra ‘cruz’ deveria ser removida não somente da
pessoa de um cidadão romano, mas de seus pensamentos, seus olhos
e seus ouvidos”.3
Por que então essa ênfase incansável na cruz? Por que Cristo
morreu? Muitos não têm dificuldade em responder a essas perguntas.
Ele morreu, dizem, porque foi um pregador de doutrinas subversivas.
Foi um pensador revolucionário que tanto perturbou os preconceitos
de seus contemporâneos que eles tiveram de dar fim a ele. Morreu
como vítima de mentes pequenas, como mártir para a sua própria
grandeza.
Essa teoria do mártir é verdadeira até certo ponto, mas não
completamente. Ela ignora o fato (que as narrativas deixam claro) de
que Jesus foi para a cruz por vontade própria. “Eu sou o bom pastor”,
ele disse. “O bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas... Ninguém a tira
de mim, mas eu a dou por minha espontânea vontade. Tenho
autoridade para dá-la e para retomá-la” (Jo 10.11, 18).
Mas por que ele foi voluntária e deliberadamente para a cruz? Por
que ele deu a sua vida por nós? Várias razões poderiam ser apontadas,
pois a cruz é um evento muito rico para receber uma simples
explicação. Discutiremos as três principais que a Bíblia apresenta:

Primeiro, Cristo morreu para expiar os nossos pecados.


Segundo, Cristo morreu para revelar o caráter de Deus.
Terceiro, Cristo morreu para conquistar os poderes do mal.

Ou, usando uma simples palavra para cada explicação, a morte de


Cristo foi uma expiação, uma revelação e uma conquista — uma
expiação pelo pecado, uma revelação de Deus e uma conquista sobre
o mal.

CRISTO MORREU PARA EXPIAR OS NOSSOS PECADOS


A cruz de Cristo é a única base sobre a qual Deus pode perdoar
pecados.
Mas por que — um crítico impaciente irá imediatamente se opor —
deveria o nosso perdão depender da morte de Cristo? Por que Deus
simplesmente não nos perdoa sem a necessidade da cruz? “Deus me
perdoará”, Heinrich Heine protestou. “Esse é o seu métier [seu
trabalho, sua especialidade]”.4 Afinal — quem fez a objeção poderia
continuar —, se pecamos uns contra os outros, devemos perdoar uns
aos outros. Então por que Deus não deveria praticar o que prega? Por
que não deveria ser tão generoso quanto espera que sejamos?
Há duas respostas para essas perguntas. A primeira foi dada no final
do século 11, por Anselmo, arcebispo de Canterbury. Ele escreveu em
seu extraordinário livro Wy/ God Became Man (Por que Deus tornou-
se homem): “Vocês ainda não consideraram a seriedade do pecado”.5
A segunda resposta poderia ser: “vocês ainda não consideraram a
majestade de Deus”. Fazer uma analogia entre o nosso perdão pelo
próximo e o perdão de Deus por nós é muito superficial. Não somos
deuses, e sim indivíduos privados, enquanto ele é o Criador do céu e
da terra, e das leis que quebramos. Nossos pecados não são puramente
injúrias pessoais, mas uma rebelião deliberada contra ele. É quando
começamos ver a gravidade do pecado e a majestade de Deus que
nossas perguntas mudam. Já não perguntamos por que Deus acha
difícil perdoar pecados, mas como ele acha possível fazê-lo. Como certo
escritor afirmou, “perdoar é para o homem a mais simples das tarefas;
para Deus é o mais profundo dos problemas”.6
Por que o perdão poderia ser descrito como um “problema” para
Deus? Por causa de quem ele é em seu mais profundo interior. É claro
que Deus é amor (1 Jo 4.8,16), mas seu amor não é um amor
sentimental; é um amor santo. Então, como Deus poderia punir o
pecado (como na justiça ele deve fazer) sem contradizer o seu amor?
Ou como ele poderia perdoar o pecado (como no amor anseia fazer)
sem comprometer sua justiça? Como, confrontado pela perversidade
humana, poderia Deus ser verdadeiro consigo mesmo como santo
Amor? Como ele poderia agir para expressar ao mesmo tempo sua
santidade e seu amor?
Esse é o dilema divino que Deus resolveu na cruz. Quando Jesus
morreu na cruz, o próprio Deus, em Cristo, recebeu o julgamento que
merecíamos, a fim de nos dar o perdão que não merecíamos. A pena
plena do pecado foi paga — não por nós, mas por Deus, em Cristo. Na
cruz o amor e a justiça divinos foram reconciliados.
Toda essa verdade maravilhosa está contida na declaração bíblica
simples e frequentemente repetida: “Cristo morreu por nossos
pecados”. O pecado e a morte são constantemente lembrados e até
mesmo enfatizados através das páginas da Bíblia. De Gênesis 2 (v. 17)
a Apocalipse 21 (v. 8), destaca-se a mesma verdade de que “o salário
do pecado é a morte” (Rm 6.23), ou seja, que ele nos separa de Deus.
Normalmente, o pecado e a morte são nossos. Nós pecamos, e nós
morremos. Mas, quando os apóstolos estão escrevendo a respeito da
cruz, fazem a incrível declaração de que Cristo morreu por nossos
pecados, ou seja, o pecado era nosso, mas a morte (ou a alienação de
Deus), que é o salário do pecado, foi dele. É isso que se chama
expiação “substitutiva”. Ele tomou o nosso lugar, levou os nossos
pecados, pagou a nossa dívida e morreu a nossa morte. E, se
perguntarmos como Cristo morreu a nossa morte, poderemos tão-
somente destacar aquelas três horas da escuridão do esquecimento de
Deus, em que Cristo experimentou a desolação do inferno em nosso
lugar, para que fôssemos poupados dele.
CRISTO MORREU PARA REVELAR O CARÁTER DE DEUS
Se Cristo morreu para expiar os nossos pecados, ele morreu
também para revelar o caráter de Deus. Assim como nós somos
humanos e mostramos o nosso caráter por meio de nossas ações, do
mesmo modo Deus o faz. Ele se mostrou a nós de maneira suprema
ao nos dar seu Filho para morrer em nosso lugar.
Duas vezes em sua carta aos romanos, Paulo escreveu sobre a
demonstração e até mesmo sobre a vindicação do caráter divino de
justiça e amor na cruz. Antes de estudarmos essas duas textos-chaves
separadamente, pode ser útil colocá-los lado a lado:

Deus o ofereceu [Jesus] como sacrifício para propiciação


mediante a fé, pelo seu sangue, demonstrando a sua justiça.
Em sua tolerância, havia deixado impunes os pecados
anteriormente cometidos; mas, no presente, demonstrou a
sua justiça, a fim de ser justo e justificador daquele que tem
fé em Jesus (Rm 3.26,27).

Mas Deus demonstra seu amor por nós: Cristo morreu em


nosso favor quando ainda éramos pecadores (Rm 5.8).

Nesses dois textos Paulo declara que, na morte de Jesus Cristo e


por meio dela, Deus deu uma clara e pública demonstração de sua
justiça e de seu amor.
Vejamos primeiro a justiça de Deus. Homens e mulheres de
sensibilidade moral sempre se mostraram perplexos diante das
aparentes injustiças da providência de Deus. Esse é um dos temas mais
recorrentes da sabedoria e literatura bíblicas, e dominam o livro de Jó.
Por que os ímpios prosperam e os inocentes sofrem? Há evidentemente
a necessidade de uma “teodiceia”, ou seja, uma vindicação da justiça
de Deus, uma defesa perante a humanidade dos caminhos
aparentemente injustos de Deus.
A Bíblia supre essa necessidade de duas maneiras. Ela aponta para
o julgamento final, que acontecerá no futuro, quando todos os erros
serão corrigidos, e ao mesmo tempo aponta de volta para o julgamento
decisivo que ocorreu na cruz. Ali o próprio Deus em Cristo recebeu a
paga por nossos pecados. Assim, a razão para a omissão anterior de
Deus em face do mal não se deveu à sua indiferença moral, mas à sua
espera paciente até que Cristo viesse e tratasse disso por meio de sua
morte. Ninguém pode agora acusar Deus de ser condescendente com
o mal e com a injustiça.
Mas o que dizer do amor de Deus? Como podemos crer no amor de
Deus quando parece haver tantas evidências contrárias a ele?
Pensemos nas tragédias pessoais, nos desastres naturais, na pobreza
e na fome mundiais, na tirania e na tortura, nas doenças e na morte.
Como pode a soma total da miséria ser reconciliada com um Deus de
amor?
O cristianismo não oferece evasivas a essas perguntas angustiantes.
Ele oferece evidência do amor de Deus, que é tão histórica e objetiva
quanto a evidência que parece negá-lo, a saber, a cruz. A cruz nâo
explica a calamidade, mas oferece um bom campo de visão a partir do
qual é possível observá-la e suportá-la.
A fim de entendermos essa questão, precisamos retornar a
Romanos 5.8 e à demonstração do amor de Deus: “Mas Deus
demonstra seu amor por nós: Cristo morreu em nosso favor quando
ainda éramos pecadores”. Essa demonstração é a de “seu próprio amor
por nós”. Ela é única, pois não há nenhum outro amor como esse.
Possui três partes, que juntas compõem um argumento convincente.
Primeiro, Deus deu seu Filho por nós. É verdade que em Romanos
5.8 Paulo afirma simplesmente que “Cristo morreu por nós”. Mas o
contexto nos diz quem esse Cristo, o Messias, era. De acordo com o
versículo 10, a morte de Cristo foi a morte do seu Filho (de Deus).
Assim, ao enviar Cristo, Deus não estava enviando um outro alguém,
uma criatura, um terceiro. Não, ao enviar seu próprio Filho, ele estava
enviando a si mesmo.
Segundo, Deus deu seu Filho para morrer por nós. Teria sido
maravilhoso se Deus tivesse dado seu Filho e, consequentemente, a si
mesmo, somente para tornar-se um ser humano por nós. Mas ele foi
além, foi à “morte de cruz” (Fp 2.7,8), à tortura da crucificação e ao
horror do ser abandonado por Deus e do carregar o pecado. Não
podemos imaginar a dor aterradora dessas experiências.
E, terceiro, Deus deu seu Filho para morrer por nós, ou seja, por
pessoas que Paulo continua descrevendo como “pecadoras”, “ímpias”,
“inimigas” e “impotentes” (Rm 5.6-10). Muito raramente, Paulo
continua, alguém estaria disposto a morrer por um homem “justo”
(cuja justiça é fria, austera e proibitiva), embora por um homem “bom”
(cuja bondade é calorosa, amigável e atrativa) alguém talvez ousasse
morrer. Mas Deus mostra o seu próprio e único amor por nós nisso:
que ele morreu por pessoas pecadoras, sem Deus, rebeldes e
desamparadas como nós.
O valor de um presente de amor é medido pelo que ele custa ao
doador e pelo quanto o presenteado o merece. Um jovem apaixonado
dá à sua amada presentes caros porque considera que ela os merece.
Mas Deus, ao dar seu Filho, deu a si mesmo para morrer por seus
inimigos. Deu tudo àqueles que dele nada mereciam. E essa é a prova
do amor de Deus para conosco. Assim, o que recebemos na morte
substitutiva de Jesus Cristo não é uma solução para o problema da dor,
mas a evidência firme e segura da justiça e do amor de Deus, à luz da
qual podemos aprender a viver e amar, servir, sofrer e morrer.

CRISTO MORREU PARA CONQUISTAR OS PODERES DO MAL


Se Cristo morreu para expiar os nossos pecados e revelar o caráter
de Deus, ele morreu também para conquistar os poderes do mal. Na
verdade, é impossível ler o Novo Testamento sem ser impactado pela
atmosfera de confiança da qual ele está impregnado e que destaca o
alívio que se contrapõe à religião insípida que na maioria das vezes se
faz passar por cristianismo hoje. Não havia derrotismo entre os cristãos
primitivos; eles falavam de vitória. Por exemplo: “Graças a Deus, que
nos dá a vitória por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Co 15.57);
“Em todas estas coisas somos mais que vencedores, por meio daquele
que nos amou” (Rm 8.37).
Vitória, conquista, triunfo, superação — esse era o vocabulário dos
primeiros seguidores de Jesus. Eles atribuíam essa vitória à cruz.
Qualquer observador daquele tempo que tenha visto Cristo morrer
teria escutado com incredulidade a declaração de que o crucificado fora
um vencedor. Ele não havia sido rejeitado por sua própria nação,
traído, negado e abandonado por seus próprios discípulos e executado
sob a autoridade do procurador romano? Imagine-o ali, esticado e
retorcido sobre aquela cruz, privado da liberdade de movimentar-se,
amarrado por cordas, pregado por pregos, impotente, com a aparência
de alguém totalmente derrotado. Se há vitória, é a vitória do orgulho,
do preconceito, da inveja, do ódio, da covardia e da brutalidade.
No entanto, a afirmação cristã é de que a realidade é o oposto da
aparência. O que ah se apresentava (e que em certo sentido era) como
a derrota do bem pelo mal era também, e mais certamente, a derrota
do mal pelo bem. Vencido ali, ele na verdade havia vencido. Esmagado
pelo poder impiedoso de Roma, ele na verdade estava esmagando a
cabeça da serpente (conforme fora predito em Gênesis 3.15). A vítima
era o vencedor, e a cruz ainda é o trono de onde ele governa o mundo.
Com vivida imaginação, o apóstolo Paulo descreve como os poderes
do mal cercaram Jesus e chegaram até bem perto dele na cruz, e como
ele se livrou deles, os desarmou e os tornou um espetáculo público,
triunfando sobre eles na cruz (Cl 2.15). A forma precisa que essa
batalha cósmica ganhou não é explicada. Mas sabemos por certo que
Jesus resistiu à tentação de evitar a cruz e, ao contrário, tornou-se
obediente a ela. Quando provocado com insultos e torturas, ele
recusou-se absolutamente a retaliar, vencendo assim o mal com o bem
(Rm 12.21). Quando as forças conjuntas de Jerusalém e Roma
puseram- se em ordem contra ele, ele recusou qualquer recurso de
poder mundano. Assim, ele descartou desobedecer a Deus, odiar os
seus inimigos ou imitar o uso de poder do mundo. Por meio de sua
obediência, amor e mansidão, ele conquistou uma vitória moral
decisiva sobre os poderes das trevas. Ele permaneceu livre,
incontaminado e inflexível. Essa foi a sua vitória. O diabo não
conseguiu ganhar terreno sobre ele e foi obrigado a se render.
Portanto, não devemos considerar a cruz como derrota e a
ressurreição como vitória. A cruz foi a vitória conquistada e a
ressurreição foi a vitória endossada, proclamada e demonstrada.
Esse tema da vitória por meio da cruz, que os pais da igreja gregos
e posteriormente latinos celebraram, foi perdido por alguns teólogos
medievais, mas recuperado por Martim Lutero, na Reforma. Essa foi
também a tese de Gustav Aulén, um teólogo sueco, em seu influente
livro Christus Victor (1930). Ele estava certo em lembrar a igreja desse
tema até certo ponto negligenciado. Por outro lado, não devemos
cometer o erro contrário, enfatizando demasiadamente o tema do
triunfo e esquecendo os temas da expiação e da revelação. Em
qualquer compreensão equilibrada da cruz, confessaremos Cristo como
Salvador (expiando nossos pecados), como mestre (revelando o
caráter de Deus) e como vitorioso (vencendo os poderes do mal).
Por que sou cristão? Uma razão é a cruz de Cristo. Na verdade, eu
jamais poderia crer em Deus se não fosse pela cruz. É a cruz que dá
credibilidade a Deus. O único Deus em quem eu creio é aquele que
Nietzsche, filósofo alemão do século 19, ridicularizou, chamando-o de
“Deus sobre a cruz”. No mundo real da dor, como adorar a um Deus
que fosse imune a ela?
Em minhas viagens, entrei em vários templos budistas em
diferentes países da Ásia. Permaneci neles em atitude respeitosa diante
de uma estátua de Buda, que tinha as pernas cruzadas, os braços
dourados, os olhos fechados, o fantasma de um sorriso nos lábios,
sereno e silencioso, com um olhar distante na face, desligado das
agonias do mundo. Em cada uma dessas vezes, depois de um tempo
eu tinha de dar as costas. E, em minha imaginação, voltava-me para
aquela figura solitária, retorcida, torturada sobre a cruz, com pregos
lhe atravessando as mãos e os pés, com as costas dilaceradas,
distendidas, a testa sangrando nos pontos perfurados por espinhos, a
boca seca, sedenta ao extremo, mergulhada na escuridão do
esquecimento de Deus.
O crucificado é o Deus por mim! Ele colocou de lado a sua imunidade
para sentir a dor. Ele entrou em nosso mundo de carne e sangue,
lágrimas e morte. Ele sofreu por nós, morrendo em nosso lugar, a fim
de que pudéssemos ser perdoados. Nossos sofrimentos tornam-se
mais suportáveis à luz do Cristo crucificado. Há ainda um ponto de
interrogação no sofrimento humano, mas sobre ele estampamos
ousadamente outra marca, a cruz, que simboliza o sofrimento divino.

“A cruz de Cristo... é a única auto-justificação de Deus em um


mundo como o nosso.”7
CAPÍTULO 4
Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou;
homem e mulher os criou.
GÊNESIS 1.27

O PARADOXO DA NOSSA HUMANIDADE


POR QUE SOU CRISTÃO? Não somente porque o cristianismo explica
quem Jesus foi e o que ele conquistou na cruz, mas porque explica
também quem eu sou. Duas vezes na Bíblia a pergunta é feita e, até
certo ponto, respondida: “Que é o homem?” (SI 8.4; Jó 7.17); ou seja,
o que significa ser um ser humano? Qual a essência da nossa
humanidade?
Há três razoes pelas quais essa pergunta é considerada de grande
importância — pessoal, política e funcional.
Vejamos primeiro a razão pessoal. Perguntar “o que é o homem?”
é uma outra maneira de perguntar “quem sou eu?”. Isso nos capacita
a satisfazer tanto à antiga fórmula grega gnothi seauton (“conhece-te
a ti mesmo”) quanto à busca atual por nossa própria identidade. Não
há campo mais importante para a pesquisa e a busca do que esse.
Até que tenhamos descoberto nós mesmos, não conseguimos
descobrir facilmente nenhuma outra coisa.
Há uma história sobre Arthur Schopenhauer, o filósofo alemão do
pessimismo, que viveu no século 19. Certo dia, ele estava sentado em
um banco na praça de um parque em Frankfurt.
Estava tão maltrapilho e desalinhado (como os filósofos ocidentais às
vezes andam!), que o guarda do parque o confundiu com um mendigo.
Ele lhe perguntou asperamente: “Quem é você?”, ao que o filósofo
respondeu amargamente: “Por Deus, eu gostaria de saber”.
Douglas Coupland faz a mesma pergunta hoje. Ele é o inventor da
agora popular expressão “Geração X” — “X” quer dizer a identidade
desconhecida de sua geração. “As pessoas não têm um nome”, ele
escreve, “elas são uma geração ‘X’”. Então, “o que torna os seres
humanos... humanos?”, ele pergunta. “Nós sabemos qual é o
comportamento dos cachorros: eles fazem coisas de cachorro —
correm atrás de pedaços de pau... colocam a cabeça para fora das
janelas dos carros em movimento.” Assim, conhecemos o jeito de ser
dos cachorros; mas “o que seria exatamente aquilo que os seres
humanos fazem e que é especificamente humano?”1 Novamente, “qual
é o você de você?”, ou seja, “qual é o seu você verdadeiro?”2
Tem-se dado muitas respostas a essa pergunta, especialmente a
que se relaciona à superioridade dos seres humanos. É interessante
observar algumas dessas respostas. O ser humano foi descrito por
Aristóteles como um animal político; por Thomas Willis, como um
animal sorridente; por Benjamim Franklin, como um animal fazedor de
ferramentas; por Edmund Burke, como um animal religioso; e por
James Boswell (o gourmet), como um animal que cozinha.
Outros escritores têm se concentrado em algumas características
físicas como sendo nossas características distintas. Platão falou muito
sobre a postura ereta, de modo que os animais olham para baixo,
enquanto somente os seres humanos olham para o céu. Aristóteles
acrescentou a peculiaridade de que somente os seres humanos são
incapazes de sacudir as orelhas. Um médico de Stuart, no entanto,
ficou muito impressionado com os nossos intestinos, com os seus
“circunlóquios sinuosos, curvas e desvios”. E, então, no final do século
18, Uvedale Price prestou bastante atenção em nosso nariz: “O homem
é, eu creio, o único animal que possui uma projeção marcante no meio
da face”.3
No entanto, nenhuma dessas descrições de nossa distinção é
completa, nem chega ao âmago da questão.
Voltemo-nos agora da importância pessoal para a importância
política da questão sobre a nossa humanidade. O ponto principal de
conflito entre as ideologias rivais de Marx e Jesus continua sendo a
natureza dos seres humanos. “Ideologias... são na verdade
antropologias”, escreveu J. S. Wale; elas são diferentes doutrinas do
homem.4 Ou seja, os seres humanos possuem um valor absoluto, pelo
qual eles devam ser respeitados? Ou o seu valor é somente relativo ao
Estado, por meio do qual eles podem ser explorados? Em uma
linguagem mais simples, as pessoas são servas da instituição ou a
instituição é serva das pessoas?
Por fim, o questionamento sobre a nossa humanidade tem uma
importância profissional. As grandes profissões (por exemplo na área
da educação e do direito) e as chamadas profissões “sociais” (no
trabalho médico, paramédico e social) estão todas preocupadas com o
bem-estar dos seres humanos, sejam eles chamados de pacientes,
alunos ou clientes. E a maneira como os profissionais tratam aqueles
a quem servem depende quase inteiramente da maneira como os
avaliam.
Tendo considerado a importância (pessoal, política e profissional)
de nossa pergunta, retornemos à pergunta em si mesma. A crítica
cristã a grande parte da filosofia e ideologia modernas é que elas são
muito ingênuas em seu otimismo acerca da condição humana ou muito
negativas em seu pessimismo, conquanto ousemos acrescentar que
somente a Bíblia mantém o equilíbrio.
Os humanistas seculares tendem a ser bastante otimistas. Na
verdade, eles declaram que os seres humanos não são nada senão o
produto de forças evolucionárias aleatórias. Mas têm uma confiança
ilimitada naquilo que consideram nosso potencial evolucionário futuro,
especialmente que um dia os seres humanos serão capazes de assumir
as rédeas de sua própria história e controlar o seu próprio destino. Mas
isso é muito otimista. Não leva em consideração o que os cristãos
chamam de “pecado original”, que é uma distorção da auto-
centralidade em nossa natureza e que repetidamente frustrou os
sonhos dos reformadores sociais.
Os existencialistas ateus, por sua vez, vão para o extremo oposto,
o pessimismo, chegando ao desespero. Pelo fato de, segundo eles, não
haver Deus, não há mais valor algum. Embora devamos, de algum
modo, encontrar a coragem para ser, nada tem significado e tudo é,
no final das contas, absurdo — o que é ao menos lógico, já que Deus
está morto. Mark Twain, o famoso sábio americano, embora tenha
vivido muito antes do desenvolvimento do existencialismo, expressou
um tipo de cinismo existencial quando disse: “Se o homem pudesse
cruzar com o gato, isso melhoraria o homem, mas corromperia o
gato!”5 Mas essa ideia é muito pessimista. Não leva em consideração
o amor, a alegria, a beleza, o heroísmo e o auto sacrifício que têm
adornado a história humana.
A minha percepção é que somente o cristianismo autêntico evita
ambos os extremos, pois o que nós precisamos ter, citando J. S. Whale
novamente, é “nem o otimismo fácil dos humanistas, nem o
pessimismo obscuro dos cínicos, mas o realismo radical da Bíblia”.6 As
Escrituras preservam o paradoxo, a saber, a glória e a vergonha de
nossa humanidade, nossa dignidade e nossa depravação.

1. A GLÓRIA
É no primeiro capítulo da Bíblia que ouvimos as palavras
majestosas de Deus:

“Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa


semelhança. Domine ele sobre os peixes do mar, sobre as
aves do céu, sobre os grandes animais de toda a terra e sobre
todos os pequenos animais que se movem rente ao chão.”
Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o
criou; homem e mulher os criou.
(Gn 1.26-27)

Há muita discussão sobre o significado da imagem divina nos seres


humanos. Alguns estudiosos enfatizam que nas culturas do Egito e da
Assíria o rei ou imperador era considerado como “a imagem de Deus”,
representando-o na terra, e que imagens deles eram erigidas em suas
províncias para simbolizar a extensão de sua jurisdição. Em oposição
a esse contexto, Deus confiou uma responsabilidade real aos seres
humanos, nomeando-os para governar sobre a terra e suas criaturas.
No entanto, no desenrolar da narrativa bíblica a imagem divina é
claramente aquela que distingue os seres humanos dos animais, a
saber, o conjunto de qualidades humanas distintas.
Primeiro, temos capacidade de pensamento racional. Os animais
também possuem cérebros, alguns mais rudimentares do que outros,
mas eles não têm “compreensão” ou inteligência (SI 32.9), ao passo
que os seres humanos são capazes de pensar, raciocinar, argumentar
e debater. Somos conscientes de nós mesmos. Temos a habilidade
extraordinária de fazer o que estamos fazendo neste momento, ou
seja, caminharmos para fora de nós mesmos, avaliarmos a nós
mesmos e nos fazermos perguntas acerca de nossa própria identidade.
É verdade que, astronomicamente falando, como um cientista disse ao
outro, o homem é extremamente insignificante. Mas,
astronomicamente falando, como seu colega respondeu, o homem é o
astrônomo! Somos questionadores incansáveis do universo. Como o
arcebispo William Temple certa vez disse, “sou maior do que as
estrelas, pois eu sei que elas estão lá no alto, enquanto elas não sabem
que eu estou aqui embaixo”.
Segundo, temos capacidade de escolha moral. Temos consciência
para discernir entre o bem e o mal, bem como um grau de liberdade
para escolher entre eles. Somos conscientes de uma ordem moral fora
e acima de nós, à qual sabemos que prestamos conta, de forma que
temos um anseio interior de fazermos o que acreditamos que é certo e
um profundo sentimento de culpa quando fazemos o que sabemos que
está errado.
Mas os animais não possuem senso moral. Você pode, por exemplo,
treinar um cachorro (por meio de punições e recompensas repetitivas)
para obedecer às suas ordens e aprender que ele pode sentar-se
somente sobre uma cadeira no corredor. Se, ao entrar na sala, você o
encontrar sentado sobre um assento proibido, ele instintivamente se
encolherá, não porque se sinta culpado (embora pareça), mas porque
sabe que será punido.
Terceiro, temos capacidade de criatividade artística. Quando Deus
nos criou à sua própria imagem, ele nos fez criativos como ele. Somos
“criaturas criativas”. Desenhamos e pintamos, construímos e
esculpimos, sonhamos e dançamos, escrevemos poesias e compomos.
Os seres humanos são imaginativos e inovadores. Apreciamos aquilo
que é belo aos olhos, ao ouvido e ao toque.
Quarto, temos capacidade de nos relacionarmos socialmente. Todos
os animais possuem pares, se reproduzem e cuidam de seus filhotes.
Enquanto alguns são gregários, andando em bandos ou rebanhos,
outros desenvolvem estruturas sociais complexas, como, por exemplo,
abelhas, vespas e formigas. Mas os seres humanos anseiam por
autênticos relacionamentos de amor. O amor não é apenas um
distúrbio das glândulas endócrinas! Todas as pessoas sabem que o
amor é a maior de todas as coisas no mundo. Viver é amar, e sem
amor a personalidade humana se desintegra e morre. Além disso, os
cristãos sabem por que o amor é proeminente — porque Deus é amor
em essência, tanto que, quando ele nos fez à sua imagem, nos deu a
capacidade de amar e de sermos amados.
Quinto, temos capacidade para uma adoração humilde. Tem havido
muita discussão acerca do colapso do marxismo europeu e suas
causas. Muitos creem que isso se deveu ao materialismo exacerbado.
O materialismo não pode satisfazer o espírito humano, quer na sua
forma capitalista, quer na sua forma comunista. Sabemos
instintivamente que há uma realidade transcendente, além da ordem
material, e as pessoas a estão buscando em toda parte. O movimento
da Nova Era é talvez a mais recente evidência dessa busca. Os seres
humanos não vivem — e na verdade não podem viver — só de pão,
Jesus disse, citando o Antigo Testamento (Mt 4.4; Dt 8.3). Ou, como
Dostoyévski escreveu, “o homem deve prostrar-se diante do
infinitamente grande”. Somos mais verdadeiramente humanos quando
estamos adorando a Deus.
Aqui estão cinco capacidades humanas (pensar, escolher, criar,
amar e adorar) que nos distinguem dos animais e que juntas
constituem a imagem de Deus em nós. Não é de se admirar que poetas
e dramaturgos tenham celebrado a dignidade única dos seres
humanos. Hamlet não estava exagerando quando disse de si mesmo:
“Que obra de arte é o homem! Quão nobre em razão! Quão infinito em
suas faculdades!... Em ação age como um anjo! Em apreensão como
um deus! A beleza do mundo! O modelo dos animais”!7
Como eu gostaria que pudéssemos terminar este capítulo e seguir
para o próximo tópico radiantes, com a autoestima intocada! Mas há
um outro lado da nossa humanidade, mais escuro, que gostaríamos de
poder esquecer, mas que se mantém reafirmando a si mesmo e com o
qual, em nossos melhores momentos, ficamos completamente
envergonhados.
Como Mark Twain afirmou, “O homem é o único animal que cora de
vergonha. Ou que precisa corar”.8
2. A VERGONHA
O próprio Jesus falou sobre a vergonha. Talvez a sua declaração
mais expressiva seja esta:

Pois do interior do coração dos homens vêm os maus


pensamentos, as imoralidades sexuais, os roubos, os
homicídios, os adultérios, as cobiças, as maldades, o engano,
a devassidão, a inveja, a calúnia, a arrogância e a insensatez.
Todos esses males vêm de dentro e tornam o homem
“impuro”. (Mc 7.21-23)

Portanto, Jesus não ensinou a bondade fundamental da natureza


humana; ele insistiu em nossa capacidade interior para o mal. Na
verdade, nessa passagem há quatro aspectos da perversidade humana
que merecem a nossa atenção.
Primeiro, a extensão do mal é universal. Notamos que Jesus não
estava descrevendo o segmento criminoso da sociedade, ou alguma
tribo particularmente degradada. Ele estava falando com aquelas
pessoas religiosas e piedosas chamadas fariseus. Ele fez uma
declaração genérica acerca de toda a raça humana, a saber, que do
coração do homem (todos os homens, mulheres e crianças) coisas
ruins brotam.
Segundo a essência do mal é a auto centralidade. Já observamos
isso. Jesus agora apresenta uma lista de treze “maldades” e, quando
as estudamos, notamos que são todas manifestações da auto-
centralidade humana. São pensamentos, palavras e obras dos quais
nos tornamos culpados quando fracassamos em colocar Deus eu
primeiro lugar, nosso vizinho como o próximo da lista e nós mesmos
por último. Certa vez apanhei o dicionário e procurei pelas palavras
compostas com “auto” — palavras como autoafirmação,
autoindulgência, autopromoção, autogratificação, autoglorificação,
autopiedade. Há mais de cinquenta palavras compostas por “auto” que
têm um significado pejorativo. Nós precisamos desse vocabulário rico
para expressar nosso auto centralidade multifacetada.
Terceiro, a origem do mal é o coração humano. Como já foi dito
muitas vezes, “o coração do problema humano é o problema do
coração humano”. Os fariseus, com quem Jesus estava debatendo,
tinham uma visão externa e cerimonial de pureza e corrupção. Eles se
preocupavam em lavar as mãos e os vasos, e em não comer certos
alimentos. Porém Jesus estava enfatizando não o exterior, mas o
interior. O que nos corrompe não é o que vai para dentro de nós (para
o nosso estômago), mas o que sai de nós (do nosso coração).
Alguém poderia quase dizer que Jesus estava nos apresentado ao
freudismo séculos antes de Freud. Mas o que Jesus chamava de
coração não equivale ao que Freud chamava de subconsciente. Ele é
como uma fonte muito profunda. Normalmente o depósito grosso de
barro no fundo não pode ser visto nem é notado. Mas, quando as águas
da fonte são agitadas pelo vento da emoção violenta, a sujeira, de
aparência e cheiros mais malignos — ira, malícia, lascívia, ódio,
crueldade, vingança —, brota das profundezas até a superfície, e
ficamos horrorizados com a visão das maldades de que o nosso coração
é capaz.
Quarto, o resultado do mal é que ele nos degenera. Ou seja, ele nos
torna impuros aos olhos de Deus e incapacitados para a sua presença.
Todos aqueles que já tiveram uma visão, ainda que momentânea, da
santidade de Deus não conseguiram suportar o que viram — como
Moisés na sarça ardente, que “cobriu o rosto, pois teve medo de olhar
para Deus” (Êx 3.6).
Então, essa é a vergonha da nossa humanidade. A maldade humana
é universal em sua extensão, auto centralizada em sua natureza,
interior em sua origem e degradante em seus efeitos. Não se trata
somente do diagnóstico do (compreensivelmente) maior professor de
ética na história; isso é verdadeiro em nossa própria experiência. É
certamente verdadeiro na minha.

3. O PARADOXO
Agora estamos prontos para juntar a glória e a vergonha, a
dignidade e a depravação de nossa humanidade. Os seres humanos
são um paradoxo estranho e trágico. Somos capazes da mais excelente
nobreza e da mais baixa crueldade. Somos capazes de nos comportar
por um momento como Deus, a cuja imagem fomos criados, e no
momento seguinte como bestas, de quem fomos feitos para ser para
sempre distintos. Somos capazes de pensar, escolher, amar e adorar,
mas somos igualmente capazes de odiar, invejar, lutar e matar. Os
seres humanos criaram os hospitais para o cuidado dos doentes, as
universidades para a aquisição de sabedoria e as igrejas para a
adoração a Deus. Mas eles inventaram também as câmaras de
torturas, os campos de concentração e os arsenais nucleares.
Esse é o paradoxo da nossa humanidade. Somos ao mesmo tempo
nobres e ignóbeis, racionais e irracionais, morais e imorais, criativos e
destrutivos, amorosos e egoístas, parecidos com Deus e bestiais.
Não conheço declaração mais eloquente sobre o paradoxo humano
do que aquela feita muitos anos atrás pelo bispo Richard Holloway:

Esse é o meu dilema. Eu sou pó e cinzas, frágil e inconstante,


um conjunto de respostas comportamentais
predeterminadas... cheio de temores, cercado de
necessidades... sou a quintessência do pó e ao pó voltarei...
Mas há algo mais em mim... Eu posso ser pó... mas pó
angustiado, pó que sonha, pó que possui estranhas
premonições de transfiguração, de uma glória aguardada, de
um destino preparado, de uma herança que um dia será
minha... Assim, a minha vida é esticada numa dolorosa
dialética entre cinzas e glória, entre fraquezas e
transfiguração. Eu sou uma pergunta para mim mesmo, um
enigma exasperador... essa estranha dualidade de pó e
glória.9

O paradoxo da nossa humanidade possui várias consequências


práticas — especialmente políticas, psicológicas e pessoais.
Politicamente, o paradoxo (ou a ambiguidade) humano faz da
democracia a melhor forma de governo jamais desenvolvida, pois,
idealmente, a democracia reconhece tanto a dignidade como a
depravação do ser humano. Por um lado, ela reconhece nossa
dignidade humana, pois se recusa a impor as pessoas que nos
governarão sem o nosso consentimento. Ela nos deixa participar do
processo de tomada de decisão. Ela nos trata com respeito, como
adultos responsáveis.
Por outro lado, a democracia reconhece também a nossa
depravação humana, quando se recusa a concentrar poder nas mãos
de poucos, uma vez que isso não é seguro. Assim, faz parte da essência
da democracia dividir o poder e proteger os governantes de si mesmos.
Como Reinhold Niebuhr afirma, “a capacidade do homem para praticar
a justiça torna a democracia possível; mas a inclinação do homem para
a injustiça torna a democracia necessária “.10
Vejamos agora as consequências psicológicas do paradoxo humano.
Todos sabemos que é importante para a nossa saúde mental termos
uma autoimagem equilibrada. Algumas pessoas têm sentimentos
devastadores de inferioridade e uma autoimagem muito pobre. Outras
vão para o extremo oposto. Por exemplo, o americano Carl Rogers,
fundador da “psicoterapia centrada no cliente”, acreditava que o cerne
da nossa personalidade humana é positivo, e que nós, portanto,
precisamos desenvolver um “auto- respeito positivo incondicional”.11
Esse tipo de pensamento floresce no movimento da auto- realização e
tem dominado muitos cristãos, que argumentam que devemos amar a
Deus, ao nosso próximo e a nós mesmos. Mas isso significa que
devemos amar ao nosso próximo como de fato, sendo caídos, amamos
a nós mesmos. Não é uma exortação para amarmos a nós mesmos,
como fica claro a partir dos três argumentos. Primeiro, Jesus falou do
primeiro e do segundo mandamentos, mas não mencionou o terceiro.
Segundo o auto-amor é a essência do pecado (2 Tm 3.2). Terceiro, o
amor que deve caracterizar a nossa vida é o amor ágape, que inclui
sacrifício e serviço, e que, portanto, não pode ser contabilizado para
nós mesmos. Como podemos sacrificar a nós mesmos para servir a nós
mesmos?
O que, então, é uma auto-imagem equilibrada? Se não devemos
nem odiar nem amar a nós mesmos, como respeitar a nós mesmos? É
aqui que entra o paradoxo humano. Precisamos lembrar que os seres
humanos são produto da criação e da queda. Logo, devemos
reconhecer com gratidão tudo em nós que diz respeito à nossa criação
à imagem de Deus e repudiar ou negar, resolutamente, tudo em nós
que diz respeito à queda. Assim, somos chamados tanto à
autoafirmação quanto à autonegação, e precisamos de discernimento
para saber qual das duas é mais apropriada e quando.
A terceira consequência do paradoxo humano é pessoal.
Observamos que Jesus descreve o mal como algo que brota do coração
e causa a nossa degradação. Portanto, está claro, a partir disso, que
temos uma necessidade dupla: de um lado, a purificação da
degradação; do outro, um novo coração, com novos desejos e
aspirações. Para mim, é verdadeiramente maravilhoso que ambos nos
sejam oferecidos no Evangelho. Pois Cristo morreu para nos purificar
e, pela obra interior de seu Espírito Santo, ele pode nos tornar novos.
Essa é a aplicação lógica do Evangelho em resposta ao paradoxo da
nossa humanidade. Eis a quarta razão por que sou cristão.

CAPÍTULO 5
Se o Filho os libertar, vocês de fato serão livres.
João 8.36

A CHAVE PARA A LIBERDADE


A QUINTA RAZÃO POR QUE SOU cristão é que encontrei em Jesus
Cristo a chave para a liberdade.
Muitas pessoas estão preocupadas com a busca pela liberdade. Para
uns, ela é a liberdade nacional, a emancipação de um jugo colonial ou
neocolonial. Para outros, é a liberdade civil, de direitos e liberdades
individuais. E para outros, ainda, é a liberdade econômica, a liberdade
da pobreza, da fome e do desemprego. Mas, para todos nós, ela é a
liberdade pessoal. Até mesmo aqueles que lutam mais arduamente por
aquelas outras liberdades citadas em geral sabem que eles mesmos
não são livres. Eles se sentem frustrados, insatisfeitos e sem liberdade.
Certa vez o célebre novelista britânico John Fowles, quando lhe
perguntaram se havia algum tema especial em seus livros, respondeu:
“Sim. Liberdade. Como alcançar a liberdade. É a minha obsessão, todos
os meus livros falam sobre isso”.1
Liberdade é uma grande palavra cristã. Jesus Cristo é retratado no
Novo Testamento como o supremo libertador do mundo. Ele disse que
viera “libertar os oprimidos” (Lc 4.18). E acrescentou mais adiante: “se
o Filho os libertar, vocês de fato serão livres” (Jo 8.36). Do mesmo
modo, o apóstolo Paulo escreveu: “foi para a liberdade que Cristo nos
libertou” (G1 5.1).
Liberdade é hoje uma palavra moderna para “salvação”. Ser salvo
por Jesus Cristo é ser liberto. No entanto, quando se introduz a palavra
“salvação” em uma conversa ela gera diferentes reações. Alguns
reagem com constrangimento e mudam de assunto o mais rápido
possível. Outros reagem com tédio. Eles bocejam e não ficam
vermelhos, porque para eles os termos “pecados” e “salvação” fazem
parte de um vocabulário religioso tradicional que já se tornou obsoleto
e sem sentido. Um terceiro grupo vive em meio à confusão, porque
não tem ideia de como a palavra “salvação” deveria ser definida. No
entanto, quando se fala em “liberdade”, as pessoas logo demonstram
interesse.
A bela história de B. F. Westcott, um famoso estudioso do Novo
Testamento, ilustra essa confusão. Durante alguns anos ele foi
professor de divindade na Universidade de Cambridge e em 1890
tornou-se bispo de Durham. Conta-se que, enquanto viajava de ônibus
para um determinado lugar, ele foi abordado por uma jovem do
Exército de Salvação. Sem se intimidar com os trajes que denunciavam
sua posição religiosa, a moça lhe perguntou se era salvo. Com um
brilho no olhar, o bispo respondeu: “Bem, minha querida, depende do
que você quer dizer. Você quer dizer sozomenos ou sessmenos ou
sothesomenos?” — usando os tempos presente, passado e futuro do
verbo grego sozo, que significa “salvar”.
Espero que neste capítulo o leitor não se sinta constrangido,
cansado ou confuso, mas que possamos reafirmar e restabelecer essa
grande e gloriosa palavra “salvação”, pois ela é uma palavra bíblica
(nâo pode ser simplesmente rejeitada) e uma grande palavra (inclui
todo o propósito de Deus). Então, deveríamos estar aptos a fazer coro
com Paulo, que escreveu: “Não me envergonho do evangelho, porque
é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê: primeiro do
judeu, depois do grego” (Rm 1.16).
Lembro-me bem de, quando era um cristão recém-convertido, ter
lido esse versículo e ter sido apresentado ao que chamamos de “três
tempos da salvação”. Eles são os seguintes:

Primeiro, fui salvo (ou liberto) no passado da penalidade do pecado por


um Salvador crucificado.
Segundo, estou sendo salvo (ou liberto) no presente do poder do
pecado por um Salvador vivo.
Terceiro, serei salvo (ou liberto) no futuro da presença do pecado por
um Salvador que virá.

Trata-se de uma estrutura simples, que engloba o que a Bíblia quer


dizer por “salvação”. Ela nos capacitará, sempre que a palavra
aparecer, a perguntarmos a nós mesmos que tempo da salvação —
passado, presente ou futuro — está em mente. O fato de que fomos
salvos nos liberta da culpa e do julgamento de Deus. O fato de que
estamos sendo salvos nos liberta da escravidão da nossa própria auto
centralidade. E o fato de que seremos salvos nos liberta de todo o
temor acerca do futuro.

1. DE QUE SOMOS LIBERTOS


Primeiro, então, a salvação significa a libertação da culpa e do
julgamento de Deus. Não somos apenas pecadores, mas pecadores
culpados, e a nossa consciência assim nos diz. Além disso, o nosso
pecado provoca a ira de Deus e nos coloca sob o seu justo julgamento.
Essa é uma linguagem fora de moda para os dias atuais, mas
principalmente porque é mal compreendida. A ira de Deus não significa
que ele seja mal-intencionado, de má índole ou vingativo, mas, ao
contrário, que ele odeia o mal e se recusa a comprometer-se com ele.
Deveríamos ser gratos por haver uma reação considerável na
atualidade contra o ensino de Freud de que os sentimentos de culpa
são patológicos, sintomas de doença mental. Na verdade, alguns são
patológicos, especialmente em algumas formas de depressão, mas
muitos, talvez a maioria, não. Nem toda culpa é falsa culpa. Hoje
muitos psicólogos e psicoterapeutas, mesmo os que não professam
nenhuma fé crista, dizem que devemos assumir nossas
responsabilidades seriamente. Se fracassarmos em fazê-lo, nossa
culpa e nossa necessidade de perdão permanecem.
Ninguém que não tenha sido perdoado é livre. Se eu não tivesse
certeza do perdão de Deus, não poderia olhar para o seu rosto nem,
certamente, para o rosto de Deus. Eu desejaria fugir e me esconder,
como Adão e Eva fizeram no jardim do Éden, pois foi no Éden, e não
no Watergate, que o recurso chamado de “cobertura” foi inventado. Eu
não seria livre, ainda que ansiemos pela liberdade que o perdão traz.
Pouco antes de morrer, em 1988, em um momento de surpreendente
candura, na televisão, Marghanita Laski, uma das principais novelistas
britânicas, atéia, deixou escapar: “o que mais invejo nos cristãos é o
seu perdão; eu não tenho ninguém para me perdoar”.
“Mas”, como Davi clamou no Salmo 130.4, “contigo está o perdão”.
A única maneira de sermos libertos da culpa e do julgamento é por
meio de Jesus Cristo. Quando Cristo entrou em nosso mundo, ele
tornou-se um de nós, assumindo a nossa natureza. Na cruz ele se
identificou com o nosso pecado e a nossa culpa. Com amor sacrificial
total ele pagou a penalidade dos nossos pecados. Nós merecíamos
morrer — ele morreu a nossa morte em nosso lugar. Na terrível
escuridão da cruz ele experimentou os horrores do inferno, a fim de
que pudéssemos ir para o céu. É preciso um coração duro e petrificado
para não se deixar ser tocado por um amor tão maravilhoso.
Segundo a salvação significa a libertação do cativeiro opressor de
nossa própria auto centralidade. Ainda me lembro da revelação que foi
para mim, quando jovem, aprender (principalmente por meio do ensino
do arcebispo William Temple) que pecado é o eu, e salvação é a
libertação do eu. O pecado é uma afirmação rebelde de mim mesmo
contra o amor e a autoridade de Deus e contra o bem-estar do meu
próximo. A ordem de Deus é que o coloquemos em primeiro lugar,
nosso próximo logo em seguida e o eu por último. O pecado é
precisamente o reverso da ordem — eu primeiro, o próximo o seguinte
(quando isso me convém) e Deus em algum lugar (se é que em algum
lugar), num cenário bem distante.
A definição favorita de Lutero para pecador era homo in se
incurvatus (o homem curvado em si mesmo). Em nossos dias, Malcolm
Muggeridge frequentemente falava da “pequena e escura masmorra do
meu próprio ego”. Jesus certa vez disse a alguns crentes judeus: “Digo-
lhe a verdade: Todo aquele que vive pecando é escravo do pecado” (Jo
8.34).
Os cristãos creem que há só uma maneira de se livrar dessa prisão
ou escravidão: por meio de Jesus. Ele não somente morreu, mas
ressuscitou dentre os mortos e agora vive “no poder de sua
ressurreição” (Ef 1.19,20; Rm 8.11). O Jesus vivo, por meio do seu
Espírito, pode entrar em nossa personalidade, estabelecer-se ali como
nosso convidado permanente, subjugar nossos desejos pecaminosos e
transformar-nos à sua imagem de glória em glória (2 Co 3.18). Não
estou afirmando que haja uma libertação completa de nossa auto-
centralidade, mas estou defendendo que há uma transformação
substancial do eu para o não-eu.
Mas temos de estar dispostos a isso. Durante uma missão em uma
universidade canadense, há alguns anos, eu conversei com um jovem
palestrante. Tentei explicar-lhe que, se quisesse aceitar Jesus Cristo,
teria de colocá-lo no centro de sua vida e ele mesmo fora da
circunferência. “Poxa” — ele declarou de repente — “acho que relutaria
muito em fazer essa descentralização!”
Terceiro, a salvação é a libertação de nossos temores paralisantes.
No mundo antigo, as pessoas ficavam paralisadas pelo medo.
Acreditavam que certos “poderes” dominavam suas vidas e seu
destino. Do mesmo modo, muitas pessoas hoje ficam aterrorizadas
pelo medo. Há aqueles temores comuns que sempre flagelaram a
humanidade: medo da doença, da dor, da invalidez, da incapacidade,
do desemprego, das dificuldades financeiras e das privações. Há
também os poderes ocultos, os principados, as potestades das trevas,
dos quais é bom que se tenha um temor saudável. Há ainda os temores
irracionais e supersticiosos. Na Europa, pessoas educadas ainda
cruzam os dedos e batem na madeira. Na África Ocidental, elas
carregam fetiches (fórmulas com poderes sobrenaturais). Na América
do Norte, recusam- se a dormir no décimo terceiro andar de um hotel,
aparentemente sem se darem conta de que ele continua sendo décimo
terceiro andar mesmo se você o chamar de décimo quarto! Educação
e superstição parecem não ser excludentes. Quanto aos britânicos,
uma recente pesquisa de opinião nacional mostrou que a maioria das
pessoas lê duas vezes mais horóscopo do que a Bíblia toda semana.
Menciono de maneira especial o medo da morte. Um autor do Novo
Testamento refere-se a “aqueles que durante toda a vida estiveram
escravizados pelo medo da morte” (Hb 2.15). Se esse escritor estivesse
se dirigindo à nossa sociedade contemporânea, não precisaria mudar
nem uma palavra sequer. Sem Jesus Cristo, o medo da morte e da
decomposição é extremamente difundido. Para nós, no Ocidente,
Woody Allen tipifica esse terror. O medo de morrer tornou-se uma
obsessão para ele. Na verdade, ele ainda conta piadas acerca disso:
“Não é que eu tenha medo de morrer” — ele zomba. “Eu simplesmente
não quero estar lá quando isso acontecer”.2 Mas a maior parte do
tempo ele fica apavorado. Em um artigo de 1977, no Esquire, ele
escreveu: “A coisa fundamental por trás de toda motivação e de toda
atividade é a constante luta contra a aniquilação e a morte. Ela é
absolutamente assustadora em seu terror e transforma as conquistas
de qualquer pessoa em algo totalmente sem sentido”.3
Bertrand Russell tentou revestir de valentia o seu estoicismo, mas
parece não ter tido base para isso: “Eu creio que quando morrer irei
apodrecer, e nada do meu ego sobreviverá”.4 Novamente, ele afirmou
sua convicção de que:

nenhum fogo, nenhum heroísmo, nenhuma intensidade de


pensamento e sentimento pode preservar uma vida individual
para além do túmulo; todos os esforços dos séculos, toda a
devoção, toda a inspiração, todo o brilho do meio-dia de um
gênio humano são destinados à extinção na grande morte do
sistema solar; e toda a recordação da conquista do homem
deve inevitavelmente ser sepultada sob os escombros de um
universo em ruínas.5

Reavaliando esses muitos temores humanos, nenhum parece


superar essa ameaça suprema de extinção pessoal e cósmica, seja a
sua fórmula nuclear, ecológica ou desconhecida. Uma coisa é certa:
ninguém que tenha medo está livre. Jesus Cristo tem a chave da
liberdade, porque ele morreu para nos libertar da culpa, ressuscitou
para nos libertar do eu e foi exaltado para nos libertar do medo. Então,
onde estão as coisas que tememos? Deus as colocou debaixo dos pés
de Jesus Cristo (Ef 1.20-22). Uma vez que as tenhamos enxergado ali,
elas perdem o poder de aterrorizar. O seu encanto foi quebrado. Tenho
aprendido que os temores são como fungos: crescem mais
rapidamente no escuro. Portanto, precisamos trazê-los para a luz,
especialmente para a luz da suprema vitória de Jesus Cristo — sua
morte, ressurreição e exaltação.
Os cristãos receberam uma confiança maravilhosa acerca do futuro,
pois a nossa “esperança” crista (uma expectativa segura) é individual
e cósmica. Individualmente, recebemos a promessa de que teremos
corpos ressuscitados como o corpo de Jesus depois de sua
ressurreição, que terão poderes novos e inimagináveis. No entanto,
nossa esperança para o futuro será cósmica também. Cremos que
Jesus Cristo voltará num evento cósmico de magnificência espetacular.
Ele não somente ressuscitará os mortos, como também regenerará o
universo; ele fará todas as coisas novas. Toda a criação será liberta da
atual escravidão de corrupção e morte. Os gemidos da natureza são as
dores de parto que prometem o nascimento de uma nova terra. Haverá
um novo céu e uma nova terra, que serão o lar de justiça, alegria, paz
e amor (Rm 8.18-25; 2 Pe 3.13).
Assim, a esperança viva do Novo Testamento é uma expectativa
“material”, tanto para o indivíduo como para o cosmos. A pessoa que
crê tem a promessa, não apenas da sobrevivência ou da imortalidade,
mas de um corpo ressurreto, transformado. O destino do cosmos não
é um “céu” etéreo, mas um universo recriado. E a ressurreição de Jesus
é a base de ambas as expectativas.

2. PARA QUE SOMOS LIBERTOS


Vimos que Cristo nos libertou de muitas coisas (o aspecto negativo
da liberdade). Mas, sempre que pensarmos sobre a liberdade, é
importante pensar também no propósito para o qual somos libertos (o
aspecto positivo).
Deixe-me agora desenvolver essa tese, de que a verdadeira
liberdade é a liberdade para se ser um eu verdadeiro como Deus nos
fez e desejou que fôssemos. Comecemos com o próprio Deus. Ele é
único ser que desfruta a perfeita liberdade. Você poderia argumentar
que a liberdade de Deus não é perfeita, que ela por certo não é absoluta
no sentido de que ele seja livre para fazer absolutamente qualquer
coisa. Há algumas coisas que as Escrituras dizem que Deus “não pode”
fazer. Ele não pode mentir, não pode pecar, não pode tentar nem ser
tentado. Assim, a sua liberdade não é absoluta, mas é perfeita, porque
ele é livre para fazer qualquer coisa que queira. Todas as coisas que
Deus não pode fazer dizem respeito à regra geral de que ele não pode
negar ou contradizer a si mesmo (2 Tm 2.13). Ele é sempre e
inteiramente ele mesmo. Não há nada arbitrário, nada mutável, nada
impulsivo em Deus. Ele é sempre o mesmo. Ele nunca muda. Ele é
firme e inabalável. Ele encontra sua liberdade em ser seu verdadeiro
eu como Deus. Se contradissesse a si mesmo, ele se autodestruiria e
deixaria de ser Deus. Mas, ao contrário, ele continua sendo ele mesmo
e nunca se desvia do seu próprio ser. Como seria o inverso, se Deus
por um momento se desviasse de ser inteiramente ele mesmo?
Passemos agora de Deus, o Criador, para todas as suas criaturas, e
descobriremos o mesmo princípio operante. A liberdade absoluta,
ilimitada, é uma ilusão, uma impossibilidade. A liberdade de todas as
criaturas está limitada por sua própria natureza criada. Tomemos o
claro exemplo de um peixe. Deus criou o peixe para viver e crescer no
ambiente aquático. Suas guelras são adaptadas para absorver oxigênio
da água. Eles encontram a sua liberdade de serem eles mesmos dentro
do elemento no qual um peixe encontra sua essência, sua identidade,
sua liberdade. Observe que a água impõe uma limitação ao peixe, mas
nessa limitação está a liberdade. A sua liberdade é ser ele mesmo
dentro dos limites que o Criador lhe impôs. Imaginemos uma daquelas
antigas tigelas esféricas para peixes. Suponhamos que um peixinho
nade dentro dela de um lado para o outro, até que sinta sua frustração
chegar a um ponto insustentável e decida apostar na liberdade
saltando do aquário. Se ele conseguisse cair em uma lagoa num
jardim, sua liberdade aumentaria. Ele estaria na água, mas haveria
muito mais água na qual nadar. Porém, se ele caísse sobre o concreto
ou sobre um tapete, sua aposta por liberdade se tornaria em morte. O
peixe só pode encontrar a liberdade dentro do elemento para o qual foi
criado.
Voltemo-nos agora para os seres humanos. Se os peixes foram
feitos para a água, para que foram feitos os seres humanos? Por certo
a resposta bíblica é que, se os peixes foram feitos para a água, os seres
humanos foram feitos para amar a Deus e o próximo. O amor é o
elemento no qual os seres humanos encontram a sua distintiva
humanidade. Robert Southwell, poeta católico romano do século 16,
escreveu: “Eu vivo, não onde respiro, mas onde amo”6. Ele estava
reproduzindo, de maneira consciente, a declaração de Agostinho de
que a alma vive quando ama, não quando existe. Uma existência
autenticamente humana é impossível sem amor.
Isso nos leva a um paradoxo humano surpreendente. Deixe-me
declará-lo simplesmente assim: a verdadeira liberdade é a liberdade
de ser o meu eu verdadeiro, como Deus me fez e planejou que eu
fosse. Mas Deus me fez para amar, e amar é dar, dar de si. Portanto,
para que eu seja eu mesmo, tenho de negar-me a mim mesmo e dar
de mim em amor a Deus e aos outros. A fim de ser livre, tenho de
servir. A fim de viver, tenho de morrer para a minha própria auto
centralidade. A fim de me encontrar, tenho de perder a mim mesmo
no amor. Li certa vez que Michelangelo expressou esse conceito
maravilhosamente nestas palavras: “Quando sou teu, então, por fim,
sou completamente eu mesmo”. Não sou eu mesmo até que seja teu
(de Deus e dos outros).
Assim, a liberdade é exatamente o oposto do que a maioria das
pessoas pensam que ela seja. Lembro-me de um estudante finlandês
da Universidade de Helsinki, que me disse: “Tão-somente se eu
estivesse livre da responsabilidade para com Deus e para com as outras
pessoas, eu poderia viver para mim mesmo. Então eu seria livre”. Mas
a verdadeira liberdade é o oposto. É a libertação de uma preocupação
com o meu pequeno eu, tolo, a fim de ser livre para amar a Deus e ao
meu próximo.
O próprio Jesus ensinou esse paradoxo fundamental da liberdade.
Ele disse: “quem quiser salvar a sua vida, a perderá; mas quem perder
a sua vida por minha causa e pelo evangelho, a salvará” (Mc 8.35).
Eu costumava pensar que ele estivesse se referindo a mártires e ao
fato de se perder ou ganhar, literal e fisicamente, a vida; mas o
substantivo grego traduzido como “vida” é psyche, que em muitos
contextos é melhor traduzido por “eu”. Ou pode significar “você
mesmo”. Uma tradução moderna poderia ser:
Se você insistir em agarrar-se a si mesmo e viver para si
mesmo, e recusar-se a deixar que o seu ego se vá, você se
perderá. Mas, se você estiver preparado para se perder, para
dar-se a si mesmo por amor a Deus e aos seus semelhantes,
então, nesse momento de completo abandono, quando você
pensar que perdeu todas as coisas, o milagre acontecerá e
você encontrará a si mesmo.

Cristo é a chave para a liberdade, e essa é a quinta razão por que


sou cristão.

CAPÍTULO 6
Eu vim para que tenham vida, e a tenham plenamente.
JOÃO 10.10

A REALIZAÇÃO DE NOSSAS ASPIRAÇÕES


A SEXTA RAZÁO POR QUE sou cristão pode ser declarada de um modo
bem simples: todos os seres humanos possuem vários anseios ou
aspirações, os quais só Jesus Cristo pode satisfazer. Isso não é apenas
uma teoria; é uma afirmação validada por milhões de cristãos, entre
os quais eu espero que eu esteja incluído. Há uma fome no coração
humano que ninguém senão Cristo pode satisfazer. Há uma sede que
ninguém senão ele pode saciar. Há um vazio interior que ninguém
senão ele pode preencher. Como Agostinho escreveu bem no início de
suas Confissões, “nos fizeste para ti, e nosso coração está inquieto
enquanto não encontrar em ti descanso”.1
Mas, à medida que investigamos essa afirmação, geralmente
surgem duas objeções imediatas. A primeira é que Jesus Cristo é
evidentemente uma muleta. “Ele serve” — as pessoas dizem — “para
cães mancos que precisam de ajuda; mas para pessoas sadias,
determinadas, que podem tocar a vida por si mesmas, ele é
inteiramente supérfluo”.
Começo a minha resposta concordando com a crítica. Jesus Cristo é
de fato uma muleta para o aleijado, para ajudar-nos a caminhar
aprumados, assim como ele é também remédio para os doentes
espiritualmente, pão para os famintos e água para os sedentos. Não
negamos essa afirmação; ela é perfeitamente verdadeira. Mas, então,
todos os seres humanos são aleijados, doentes, famintos e sedentos.
A única diferença entre nós não é que alguns são necessitados e outros,
não; é que na verdade alguns reconhecem a sua necessidade,
enquanto outros não, por causa do orgulho.
A segunda objeção que às vezes se levanta é que Jesus Cristo é
uma ficção de nossa própria mente. Algumas pessoas afirmam: “a
crença de que Jesus Cristo supre as nossas necessidades humanas
expõe a crua realidade. Ele não é senão fruto de nossa imaginação.
Você se sente não amado e desprezado e, então, cria sua própria figura
de pai celestial. Você se sente espiritualmente faminto e então inventa
Jesus Cristo como o pão da vida”.
Minha resposta a essa segunda objeção é que o argumento carece
de lógica. O fato de que o alimento satisfaz nossa fome física nos faz
desconfiar da comida? O fato de que o amor nos dá um sentimento de
bem-estar desperta nossa suspeita acerca do amor? Então por que
deveria o fato de que Cristo supre nossas aspirações humanas levantar
suspeitas acerca de Cristo? Não, a correspondência entre nossas
aspirações e a sua realização em Cristo deve-se não à fantasia em
nossa própria mente, mas a uma realidade que Deus estabeleceu. C.
S. Lewis faz uma observação sobre isso com sua costumeira clareza:
“Nossa nostalgia vitalícia, nosso anseio por estarmos reunidos com
algo no universo do qual nos sentimos agora desconectados, nosso
desejo de estar do lado de dentro de uma porta que sempre vimos do
lado de fora — tudo isso não é mera imaginação neurótica, mas o mais
verdadeiro indicador de nossa real situação”.2
Tendo considerado as duas objeções mais comuns que as pessoas
levantam à nossa afirmação de que Cristo supre nossas aspirações
humanas, estamos prontos para olhar mais profundamente para a
afirmação em si. Isso nos leva ao segundo capítulo da carta de Paulo
aos Colossenses: “Pois em Cristo habita corporalmente toda a
plenitude da divindade, e, por estarem nele [em Cristo], que é o
Cabeça de todo poder e autoridade, vocês receberam a plenitude” (w.
9,10).
Algo comum entre essas duas declarações impressionantes (a
primeira acerca de Cristo e a segunda acerca de nós) é a palavra
“plenitude” e a expressão “em Cristo”. Em Cristo a plenitude de Deus
habita permanentemente, e em Cristo (unidos a ele) nós
experimentamos plenitude de vida. Todas as coisas essenciais ao ser
divino estão em Cristo, e todas as coisas essenciais a nós, seres
humanos, estão em nós se estivermos em Cristo. Portanto, ser cristão
não é ser uma pessoa extravagante, condenada à excentricidade
perpétua; é, ao contrário, ser verdadeira e plenamente humano,
experimentar a “plenitude”. Assim, em contrapartida, rejeitar a Cristo
é tornar-se de algum modo subumano, é desprezar as experiências
indispensáveis à autêntica humanidade.
Então, quais são essas experiências, esses anseios humanos? Minha
tese é que os seres humanos possuem três aspirações básicas que só
Jesus Cristo pode satisfazer.

1. A BUSCA POR TRANSCENDÊNCIA


Até pouco tempo atrás, a palavra “transcendência” era considerada
pedante, pouco utilizada e pouco compreendida, restrita a instituições
de ensino teológico, que faziam distinção entre transcendência (“Deus
acima de nós”) e imanência (“Deus conosco e entre nós”).
Na atualidade, porém, particularmente por causa do entusiasmo pela
meditação transcendental, todo mundo tem alguma ideia do que seja
transcendência. A busca por transcendência é a busca por uma
Realidade que esteja acima da ordem material. Ela surge da convicção
de que essa Realidade não pode estar confinada a um teste
laboratorial, espalhada sobre uma lâmina e sujeita a um exame
microscópico. Há algo mais, algo além, algo tremendo que nenhum
instrumento científico é capaz de apreender ou medir.
Um autor que tem dado eloquente expressão a essa perda
contemporânea da transcendência é Theodore Roszak, cujas
declarações são ainda mais contundentes pelo fato de ele não ser um
cristão professo. Seu livro mais conhecido, posterior a The Making of a
Counter Culture (A construção de uma contracultura), publicado em
1968, é provavelmente Where the Wasteland Ends (Onde termina a
terra devastada), publicado em 1972, que tem o subtítulo intrigante
de “Política e Transcendência em uma Sociedade Pós-Industrial”. Ele
lamenta o que chama de “coca- colonização do mundo”.3 Sofremos
hoje — ele diz — de uma “claustrofobia psíquica dentro da visão de
mundo científica”,4 na qual o espírito humano não pode respirar.
Roszak segue castigando a ciência (penso que ele queira dizer
pseudociência) por sua violência reducionista com relação à vida
humana e sua arrogante afirmação de que é capaz de explicar todas
as coisas. Ele fala de seu “espírito desmoralizador”5 e de sua
“desconstrução de mistérios”.6 O mundo materialista da ciência
objetiva não é nem de longe “espaçoso o suficiente para o espírito
humano”.7 Sem transcendência “a pessoa murcha”.8
Quer Roszak tenha percebido, quer não, ele estava concordando
com Jesus, que, citando Deuteronômio, disse que os seres humanos
não “vivem só de pão” (Dt 8.3; Mt 4.4). Em outras palavras, somos
mais do que corpos materiais carentes de comida; somos seres
espirituais carentes de Deus, carentes de transcendência.
Poderíamos citar vários outros exemplos dessa desilusão com o
secularismo e dessa perda de transcendência. O renomado sociólogo
Peter Berger levantou a “simples hipótese” de que a atual onda em
torno do oculto “deve ser compreendida como resultado da repressão
da transcendência na consciência moderna”.9 Richard North,
correspondente de meio ambiente do jornal The Independent, confessa
que “uma grande maioria entre nós simplesmente precisa adorar
algo... estamos nos apaixonando pelo meio ambiente como uma
extensão de, e ao invés de nos termos apaixonado por Deus”.10 Ainda
mais surpreendente é A. N. Wilson. Embora ele afirme que agora tem
“descartado qualquer lealdade religiosa formal”, que ele despreza
como sendo “aquela moribunda combinação de superstição e engano”,
ele reconhece que ainda tem “fortes impulsos religiosos dentro de si”
e que experimenta “sentimentos de humilhação inominada diante dos
mistérios das coisas”.11
Porém mais contundente do que essas confissões individuais é a
derrocada do marxismo. Trevor Beeson escreveu que “as doutrinas
básicas do comunismo não convenceram as mentes, nem satisfizeram
as emoções da intelligentsia ou do proletariado”.12 Aquilo que
Solzhenitsyn chamou de “trator comunista”13 foi incapaz de esmagar o
espírito humano e a sua busca por transcendência.
Assim, onde quer que a transcendência tenha se perdido, as
pessoas anseiam por reencontrá-la. Elas buscam-na por meio de
drogas que expandem a mente e da chamada “consciência elevada”,
das fantasias especulativas da ficção científica, da música e de outras
formas de arte, do sexo (que Malcolm Muggeridge costumava chamar
de “misticismo do materialista”), da ioga e de outras expressões da
religião oriental.
A mais extraordinária de todas as tendências religiosas recentes
talvez seja o surgimento do movimento Nova Era no Ocidente. Trata-
se da mistura bizarra de diversas crenças, incluindo religião e ciência,
física e metafísica, panteísmo antigo e otimismo evolucionista,
astrologia, espiritismo, reencarnação, ecologia e medicina alternativa.
David Spangler, um dos líderes do movimento, é o autor de
Emergence: The Rebirth of the Sacred (Emergência: o renascimento
do sagrado).14 Ele escreve que “desde muito tempo antes” esteve
“consciente de uma dimensão extra” do mundo ao seu redor, a qual,
quando amadureceu, veio a identificar como “uma dimensão sagrada
ou transcendental”. Ele afirma que “o renascimento do senso do
sagrado é o cerne da Nova Era”.15
Nossa reação cristã ao fenômeno Nova Era, bem como a todas as
outras expressões de busca pela transcendência, deveria (é o que me
parece) ser de compreensão. Deveríamos ser capazes de perceber o
que está acontecendo. Quando o apóstolo Paulo esteve diante dos
filósofos em Atenas e respondeu à extrema religiosidade dos cidadãos
atenienses, ele os descreveu como pessoas que buscavam a Deus (At
17.27), tateando na escuridão por seu Criador.
Além disso, os cristãos creem que essa é uma aspiração humana
fundamental, que só Jesus Cristo pode satisfazer, pois, embora o
pecado nos aliene de Deus, Cristo morreu por nossos pecados a fim de
nos reconciliar com Deus (1 Pe 3.18). E, uma vez reconciliados com
Deus por meio de Jesus Cristo, tudo muda. Caminhamos a cada dia
com Deus e vivemos em sua presença. Torna-se natural escutar a sua
voz quando ele fala conosco por meio das Escrituras, e torna-se
igualmente natural falar com ele em oração. Cultivar um
relacionamento pessoal com Deus é básico para o nosso discipulado
cristão. Deus torna-se a grande realidade em nossa vida.
Então, no Dia do Senhor (como o domingo é chamado no Novo
Testamento), nos prostramos juntos diante nele, num misto de
encantamento, amor, surpresa e alegria, que chamamos de adoração.
Assim como vamos nos encontrar com ele, ele vem se encontrar
conosco, em cumprimento à promessa de Jesus de que sempre que
dois ou três se reunissem em seu nome ele estaria entre eles (Mt
18.20). Ele se faz conhecido também por meio de sua Palavra (quando
ela é lida e exposta) e por meio da Santa Ceia (o pão e o vinho, que
representam visivelmente a promessa do seu perdão). Na verdade, a
adoração cristã pública é o ponto máximo da experiência cristã — nem
sempre, é claro. Às vezes os cultos na igreja são um ritual sem
realidade. Mas Jesus condenou esse tipo de formalismo. Citando o
profeta Isaías (29.13), ele disse: “Este povo me honra com os lábios,
mas o seu coração está longe de mim” (Mc 7.6). Porém, quando a
adoração é real, nosso coração e nossa mente são transportados para
além do tempo e do espaço, e nos juntamos a toda a igreja na terra e
no céu em adoração a Deus. Então entendemos o que Jacó quis dizer
quando declarou: “Certamente o Senhor está neste lugar”; e, quem
sabe, não-cristãos, quando entrarem na comunidade, se prostrarão em
adoração conosco, dizendo: “Deus está realmente entre vocês!” (Gn
28.16; 1 Co 14.24,25).
Para mim é uma grande tragédia que muitos homens e mulheres
modernos, na busca por transcendência, se voltem para as drogas,
para o sexo, para a ioga, para as seitas e para a Nova Era, em vez de
voltarem-se para Cristo e para a sua igreja, onde se deveria
experimentar cultos de adoração verdadeiramente transcendentes e
desfrutar de um encontro íntimo com o Deus vivo.

2. A BUSCA POR SIGNIFICADO


Há muita coisa na sociedade contemporânea que não apenas sufoca
o nosso senso de transcendência, como também diminui (e até mesmo
destrói) nosso senso de valor pessoal, nossa crença de que a vida tem
algum significado. Podemos mencionar três tendências.
Primeiro, há o efeito da tecnologia. A tecnologia pode ser
libertadora, é claro, pois liberta as pessoas do trabalho pesado
industrial ou doméstico. Mas ela pode também ser terrivelmente
desumanizadora, fazendo com que homens e mulheres já não se
sintam pessoas, mas coisas, “identificados não por um nome próprio,
mas por um número serial impresso em um cartão (ou, como
poderíamos dizer, convertidos em um código de barras), projetado
para viajar pelas entranhas de um computador”.16
Segundo, há o efeito do reducionismo científico. Alguns cientistas
das mais variadas disciplinas têm argumentado que um ser humano
não é nada mais do que um animal (o “macaco nu” de Desmond Morris,
para ser preciso), ou nada senão uma máquina, programada para dar
respostas automáticas a estímulos externos. Foram declarações como
essas que instigaram o falecido professor Donald Mackay a popularizar
a expressão “adega vazia”, para explicar o significado da palavra
“reducionismo”, e a protestar contra toda tendência de reduzir o ser
humano a um nível inferior ao plenamente pessoal.
Com certeza, nosso cérebro é uma máquina, um mecanismo
altamente complexo. E nossa anatomia e fisiologia são as mesmas de
um animal. Mas essa não corresponde a uma descrição completa de
nossa humanidade. Somos mais do que um corpo e um cérebro.
Quando as pessoas afirmam que não somos “nada mais” que isto ou
aquilo, cometem um erro sério e perigoso.
Terceiro, temos o efeito do existencialismo, de diminuir o senso de
valor das pessoas. Pode-se dizer que os existencialistas radicais se
distinguem dos humanistas em geral por sua decisão de levar o
ateísmo a sério e encarar suas terríveis consequências. Como vimos
no capítulo 4, pelo fato de (no ponto de vista dos existencialistas) Deus
estar morto, tudo o mais morreu com ele. Uma vez que não há Deus,
não há valores ou ideais, leis ou padrões morais, propósitos ou
significados. E, embora eu exista, não há nada que dê a mim ou à
minha existência algum significado, exceto talvez a minha decisão de
buscar a coragem para ser. Somente posso encontrar o significado
desprezando a minha própria ausência de significado. Não há outra
maneira de autenticar a mim mesmo.
Por mais friamente heroica que essa filosofia possa parecer, deve
haver algumas poucas pessoas capazes de realizar o truque mágico de
fingir ter significância quando sabem que não têm nenhuma.
Significância é fundamental para a sobrevivência.
Foi isso que Viktor Frankl descobriu quando, ainda jovem, passou
três anos no campo de concentração de Auschwitz. Ele notou que os
prisioneiros que mais sobreviviam ao sofrimento eram aqueles “que
sabiam que havia uma tarefa esperando por eles para ser realizada”.17
Ele cita a declaração de Nietzsche de que “aquele que tem um porquê
para viver pode suportar quase todos os comos".18
Mais tarde, Frankl tornou-se professor de psiquiatria e neurologia
na Universidade de Viena e fundou a chamada Terceira Escola de
Psiquiatria Vienense. Ele postulava que, além da “vontade de prazer”
de Freud e da “vontade de potência” de Adler, os seres humanos têm
uma “vontade de significado”.19 De fato, “a luta por encontrar um
significado na vida é a força motivacional primária no homem”.20
Assim, ele desenvolveu o que chamou de “logoterapia”, usando
logos não como “palavra” nem “razão”, mas como “significado”. “A
neurose de massa do tempo presente” — ele escreveu — é “o vácuo
existencial”,21 ou seja, a perda do senso de que a vida tem sentido. Às
vezes ele perguntava a seus pacientes: “Por que você não comete
suicídio?” — uma extraordinária pergunta para ser feita por um médico!
Eles respondiam que havia algo (talvez o trabalho, o casamento ou a
família) que fazia com que a vida valesse a pena. Então o professor
Frankl fazia suas reflexões sobre isso.
A falta de sentido leva ao tédio, ao alcoolismo, à delinquência juvenil
e ao suicídio. Comentando sobre a obra de Viktor Frankl, Arthur
Koestler escreveu:

É uma tendência inerente ao homem buscar significados para


cumprir e valores para tornar reais... Milhares e milhares de
jovens estudantes são expostos a uma doutrinação... que
nega a existência de valores. O resultado é um fenômeno
mundial — mais e mais pacientes estão lotando nossas
clínicas com a reclamação de um vazio interior, um senso de
total e extrema falta de significado na vida.22
De acordo com Emile Durkheim, em seu clássico estudo sobre o
suicídio, a maior parte dos suicídios é causada pela anomia, que
poderia ser definida como “ausência de normas” ou “ausência de
significado”. O suicídio “anômico” ocorre quando a pessoa não tem um
alvo na vida ou persegue um alvo inalcançável, seja poder, sucesso ou
prestígio. “Nenhum ser humano pode ser feliz ou sequer existir, a
menos que suas necessidades sejam suficientemente proporcionais aos
seus meios.” 23

Agora eu me aventuro a afirmar que Jesus Cristo pode preencher


essa segunda aspiração humana básica. Ele nos dá um senso de valor
pessoal, porque nos diz quem somos. Para começar, ele tomou do
Antigo Testamento esta grande afirmação que já consideramos:

Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o


criou; homem e mulher os criou. (Gn 1.27)

Isso significa que, como vimos no capítulo 4, o Criador nos capacitou


com um conjunto de faculdades racionais, morais e espirituais que nos
tornam como Deus e distintos dos animais. Os seres humanos são
seres à imagem de Deus, e a imagem divina em nós, embora
maculada, não foi destruída. Portanto, Jesus falou de nosso valor. Ele
disse que temos muito mais valor do que uma ovelha (Mt 12.12) ou
muitos pardais (Mt 10.31; Lc 12.24).
Jesus não somente ensinou isso; ele o mostrou. Toda a sua missão
demonstrou o valor que ele dava às pessoas. Ele tratou a todos —
mulheres e homens, crianças e adultos, pecadores e justos — com
respeito. Ele foi o bom pastor, que perdeu somente uma ovelha e
arriscou-se até a morte para encontrá-la. Assim, ele foi para a cruz,
deliberada e voluntariamente, para dar a sua vida por suas ovelhas.
Nada pode nos convencer de nosso valor pessoal como a cruz de Cristo.
Conforme o arcebispo William Temple declara, “o meu valor é o que eu
represento para Deus, e isso é maravilhoso, pois Cristo morreu por
mim”.24
O ensino de Cristo sobre a dignidade e o valor do ser humano é
muito importante hoje, não somente para nossa própria auto-imagem
e auto-respeito, mas também para o bem-estar da sociedade. Quando
as pessoas são desvalorizadas, tudo na sociedade tende a estragar.
Não há nenhuma liberdade, nenhuma dignidade, nenhuma alegria. A
vida humana parece não valer a pena ser vivida, porque já não é
humana. Mas quando os seres humanos são valorizados como pessoas,
pelo seu valor intrínseco, tudo muda. Por quê? Porque as pessoas têm
importância. Porque cada homem, mulher e criança tem valor e
significado como ser humano feito à imagem e semelhança de Deus.

3. A BUSCA POR COMUNIDADE


A sociedade tecnocrata, que diminui e até mesmo destrói a
transcendência e o significado, destrói também a comunidade humana.
A nossa era é de desintegração social, especialmente no Ocidente. As
pessoas têm notado que é cada vez mais difícil relacionar-se umas com
as outras ou encontrar amor num mundo sem amor. Escolhi três
pessoas muito diferentes como testemunhas dessa realidade.
Parece apropriado começar com Bertrand Russell, uma vez que sua
rejeição ao cristianismo foi o estímulo inicial para este livro. No prólogo
de sua autobiografia ele escreveu com uma franqueza tocante:

Três paixões, simples, porém avassaladoras, têm


governado a minha vida: o anseio por amor, a busca por
conhecimento e a insustentável piedade pelo sofrimento da
humanidade. Essas paixões, como grandes ventos, têm me
varrido de um lado para outro, num trajeto obstinado, sobre
um profundo oceano de angústia, chegando às raias do
desespero. Tenho buscado o amor, primeiro, porque ele me
traz êxtase... e, depois, porque alivia a solidão — aquela
solidão terrível, em que uma consciência trêmula olha por
sobre a curvatura do mundo para o imensurável abismo frio e
sem vida...25

Minha segunda testemunha é Madre Teresa. Nascida na Iugoslávia


de pais albaneses, ela partiu para a índia quando tinha apenas 17 anos.
Em 1948, depois de aproximadamente vinte anos de ensino, ela
abandonou a profissão a fim de servir aos mais pobres dos pobres em
Calcutá e tornou-se cidadã indiana. Assim, a índia foi seu lar por mais
de sessenta anos, e sua voz e visão foram a voz e a visão do Terceiro
Mundo. Eis o que ela escreveu sobre o Ocidente:
As pessoas hoje estão famintas de amor, amor que
compreenda, que é... a única resposta à solidão e à grande
pobreza. É por isso que nós [irmãos e irmãs da ordem a que
pertencia] estamos aptos a ir para países como a Inglaterra,
os Estados Unidos e a Austrália, onde não há fome de pão.
Mas nesses países as pessoas estão sofrendo de terrível
solidão, terrível desespero, terrível ódio, sentindo-se
desprezadas, desamparadas, sem esperança. Elas
esqueceram como sorrir, esqueceram a beleza do toque
humano. Elas estão esquecendo o que é o amor humano...26

Quando li pela primeira vez essa avaliação do mundo ocidental,


fiquei um pouco indignado e a considerei meio exagerada. Mas, desde
então, tenho mudado de opinião. Penso que ela é acurada, ao menos
como uma generalização.
Woody Allen é a minha terceira testemunha. Em toda a sua
aclamada carreira como autor, diretor e ator, ele parece nunca ter
encontrado a si mesmo ou a qualquer outra pessoa. Em seu filme
Manhattan (1979), ele graceja que acha que as pessoas deveriam
“praticar sexo para procriar, como os pombos ou os católicos”, mas
parece incapaz de seguir sua própria receita. Ele confessa que todos
os seus filmes “lidam com a maior de todas as dificuldades —
relacionamentos de amor. Todo mundo encontra essa dificuldade. As
pessoas estão ou apaixonadas, ou a ponto de se apaixonar, ou saindo
de uma paixão, ou procurando um amor ou um meio de evitá-lo.27 O
biógrafo de Allen termina o retrato dele com estas palavras: “Ele está
lutando, como nós certamente estamos lutando, a fim de encontrar a
força para construir uma vida sobre um amor. Como a personagem diz
em Hannah e suas Irmãs, talvez os poetas estejam certos. Talvez o
amor seja a única resposta...’”28
Aqui estão três pessoas de histórias, convicções, temperamentos e
experiências muito diferentes, que, contudo, concordam sobre a
importância vital do amor. Elas falam pela raça humana. Nós também
sabemos instintivamente que o amor é indispensável para a nossa
humanidade. O amor é a razão de ser da nossa vida.
Assim, as pessoas estão procurando o amor em toda parte. Pelo
menos desde os anos 60, alguns têm rompido com o individualismo
ocidental e experimentado estilos de vida comunitários. Outros têm
tentado substituir a família nuclear (típica no Ocidente) pela família
ampliada (tradicional por séculos na Ásia e na África). Outros, ainda,
têm repudiado as antigas instituições do casamento e da família numa
tentativa (vã e tola, acreditam os cristãos) de encontrar a liberdade e
a espontaneidade do amor. Todas as pessoas parecem estar buscando
uma comunidade genuína e os autênticos relacionamentos de amor.
Pois “o amor, o amor muda todas as coisas”, como diz Andrew Lloyd
Webber na música Aspects of Love (Aspectos do amor).
E a nossa sincera afirmação cristã é que somente Jesus Cristo pode
realizar a terceira aspiração humana básica — a busca por amor. Não
estou sugerindo que o amor não exista fora da comunidade cristã, uma
vez que também fora dela o amor une pais e filhos, irmãos e irmãs,
maridos e esposas. Mas há uma dimensão ainda mais profunda de
amor que flui de Cristo, conforme o apostolo João escreveu em sua
primeira carta: “Nisto conhecemos o que é o amor: Jesus Cristo deu a
sua vida por nós”. E, novamente “nisto consiste o amor: não em que
nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou” (1 Jo 3.16;
4.10).
No entanto, infelizmente, há muitas comunidades cristãs que estão
distantes do ideal divino, e outras que de maneira bonita se aproximam
dele. Elas nos capacitam a afirmar que o propósito de Deus não é
apenas salvar indivíduos isolados e, assim, perpetuar nossa solidão,
mas construir uma nova sociedade, uma nova família, até mesmo uma
nova raça humana, que viva uma nova vida e tenha um novo estilo de
vida. O bispo Stephen Neill expressou isso bem:

Dentro da comunhão daqueles que estão unidos pela lealdade


pessoal a Jesus Cristo, o relacionamento de amor alcança uma
intimidade e uma intensidade desconhecidas em qualquer
outro lugar. A amizade entre os amigos de Jesus de Nazaré é
diferente de qualquer outra amizade. Deveria ser a
experiência normal dentro da comunidade cristã... onde ela é
experimentada, especialmente além das barreiras de raça,
nacionalidade e língua, é uma das mais convincentes
evidências da atividade contínua de Jesus entre os homens.29

Aqui está, então, a busca na qual todos os seres humanos estão


engajados. Embora possam não a articular desse modo, podemos dizer
que, ao buscar por transcendência, eles estão buscando a Deus; ao
buscar por significado, eles estão buscando a si mesmos; e, ao buscar
por comunidade, eles estão buscando o seu próximo. Essa é a busca
universal da humanidade — por Deus, pelo próximo e por si mesmo.
Além disso, é nossa afirmação cristã (confiante eu sei, humilde eu
espero) que aqueles que buscam encontrarão — em Cristo e em sua
nova comunidade. Pois ele morreu para nos reconciliar com Deus; ele
demonstrou por meio de sua vida e morte nossa dignidade
fundamental; e ele nos apresenta à sua nova sociedade.
O fato de Cristo realizar as aspirações humanas e, assim, nos levar
à plenitude de vida é mais uma razão por que sou cristão.

CAPÍTULO 7
Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu
lhes darei descanso. Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de
mim, pois sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão
descanso para as suas almas. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo
é leve.
MATEUS 11.28-30

O MAIOR DE TODOS OS CONVITES


TODOS NÓS GOSTAMOS DE RECEBER convites, seja para um jantar,
uma festa, um concerto ou um casamento. Na cultura britânica,
geralmente vem impressa em um dos cantos inferiores do convite (em
francês) a sigla RSVP (Répondez sil vous plait), que quer dizer: “favor
responder”.
Nem todo mundo sabe disso, no entanto. Lembro-me de um casal
que havia fugido da Europa Oriental antes da Segunda Guerra Mundial
e encontrado asilo no Reino Unido. Eles tinham um conhecimento bem
limitado da cultura ocidental. Quando receberam um convite de
casamento que trazia impressa a sigla RSVP, ficaram confusos.
“Mulher” — disse o marido carregando no sotaque — “o que significa
RSVP? Eu não tenho ideia”. De repente, depois de uma longa reflexão,
veio a inspiração: “Mulher” — disse ele — “eu sei o que isso quer dizer:
Rogamos a Vossa Senhoria um Presente!”
O casal pensou que o cartão fosse uma ordem, quando na verdade
tratava-se de um convite. Muitas pessoas cometem o mesmo erro hoje
em relação a Jesus Cristo e ao evangelho. Não se dão conta de que o
evangelho é um convite, gratuito, na verdade o maior convite que
qualquer pessoa jamais poderia receber. Eis a sua essência: “Venham
a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei
descanso” (Mt 11.28).
Com certeza essas palavras estão entre as mais convidativas que
Jesus pronunciou. Não é de se admirar que a multidão “o ouvia com
muito prazer” (Mc 12.37) e todos “estavam admirados com as palavras
de graça que saíam de seus lábios” (Lc 4.22). O convite de Jesus para
que nos acheguemos a ele tem sido imortalizado por músicos,
liturgistas e artistas. Handel, em uma de suas árias mais conhecidas
do Messias, habilidosamente combinou as palavras de Jesus com as
palavras de Isaías: “Ele alimentará seu rebanho como um pastor;
venham a ele”. No século 16, Thomas Cranmer tomou o convite de
Jesus da liturgia alemã do arcebispo Hermann, de Colônia, e o
incorporou a seu livro de orações reformadas, de forma que, todas as
vezes que os fiéis anglicanos participam de um culto de Ceia de acordo
com o Livro de Orações de 1662, são convidados a escutar “as palavras
confortadoras que o nosso Salvador Jesus Cristo diz a todos os que
verdadeiramente voltam-se para ele”, a saber: “Venham a mim, todos
os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso”.
Mais um exemplo vem do artista religioso e ilustrador da Bíblia do início
do século 20, Harold Copping. Ele pintou Jesus numa montanha com
uma grande multidão reunida abaixo dele. Os braços de Jesus estão
estendidos em sinal de boas-vindas, e abaixo deles está escrito:
“Venham a mim”.
Em 1996, recebi de amigos como presente de 75 anos uma viagem
à ilha de South Georgia, no Atlântico Sul, que fica a aproximadamente
1.500 quilômetros a leste das ilhas Falklands. Pousamos em Grytviken,
uma estação norueguesa de pesca de baleias abandonada, onde o
corpo do grande explorador britânico Ernest Shackleton está sepultado.
Bem próximo dali há uma pequena igreja luterana, recentemente
restaurada e agora cercada por pinguins-reis e elefantes-marinhos. A
porta da igreja se abriu ao toque de minhas mãos, e o que você acha
que encontrei? Na parede leste da igreja está escrito em norueguês o
mesmo convite de Jesus: “Venham a mim, todos os que estão cansados
e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso”.
Esse apelo (“Venham a mim”) é a parte mais conhecida da
passagem. Porém ele está ligado em um parágrafo de seis versos, que
precisam ser preservados juntos. Eles contêm dois convites
endereçados a nós, precedidos de duas afirmações que Jesus fez sobre
si mesmo. E nós não estamos em posição de responder aos convites
até que consideremos e aceitemos as afirmações de Jesus. Ele disse:

Eu te louvo, Pai, Senhor dos céus e da terra, porque


escondeste estas coisas dos sábios e cultos, e as revelaste aos
pequeninos. Sim, Pai, pois assim foi do teu agrado. Todas as
coisas me foram entregues por meu Pai. Ninguém conhece o
Filho a não ser o Pai, e ninguém conhece o Pai a não ser o
Filho e aqueles a quem o Filho o quiser revelar. Venham a
mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu
lhes darei descanso. Tomem sobre vocês o meu jugo e
aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração, e
vocês encontrarão descanso para as suas almas. Pois o meu
jugo é suave e o meu fardo é leve. (Mt 11.25-30)

1. DUAS AFIRMAÇÕES
As duas afirmações dizem respeito ao mais importante de todos os
assuntos, o conhecimento de Deus. Seria possível os seres humanos
virem a conhecer a Deus, as criaturas conhecerem o seu Criador? Em
caso afirmativo, como isso seria possível? Jesus responde a essas
perguntas quando diz que o Pai ocultou estas coisas dos sábios e
letrados, e revelou-as aos pequeninos, e que “ninguém conhece o Pai
a não ser o Filho e aqueles a quem o Filho o quiser revelar”. Notamos
de imediato que uma palavra comum a ambas as afirmações é o verbo
“revelar”. Não pode haver conhecimento de Deus sem que ele tenha a
iniciativa de revelar-se.
Primeiro, Deus é revelado somente Jesus por Cristo. Talvez seja útil
irmos direto para a segunda declaração do versículo 27: “Ninguém
conhece o Filho a não ser o Pai, e ninguém conhece o Pai a não ser o
Filho e aqueles a quem o Filho o quiser revelar”. Somente Jesus
conhece a Deus, de modo que só ele pode fazê-lo conhecido. Isso
significa que Deus é completa e finalmente revelado em Jesus Cristo,
e não anula o fato de que há outras revelações inferiores. Por exemplo,
Deus é parcialmente revelado na beleza harmônica do universo criado,
nas exigências morais da consciência humana e nos desenvolvimentos
sucessivos da história. Mas, embora a criação fale da glória de Deus,
da consciência de sua justiça e da história de sua providência e seu
poder, ninguém nos fala de seu amor por seres humanos alienados e
perdidos, ou de seu plano de resgatar-nos e reconciliar-nos consigo, a
não ser Jesus de Nazaré.
Essa é a afirmação de Jesus, como já vimos. E é por isso que todo
questionamento sobre a verdade do cristianismo deve começar com a
pessoa histórica de Jesus. A coisa mais enervante sobre ele é o seu
modo discreto, porém confiante, de proferir suas afirmações
bombásticas. Não havia toque de trombetas, nem orgulho, nem
ostentação. Seus gestos não eram afetados. No entanto, lá está ele,
chamando “o Senhor dos céus e da terra” (o criador e sustentador de
todas as coisas) de seu Pai, e a si mesmo de Filho do Pai (v. 25), de
fato “o Filho” de um modo absoluto; e dizendo que todas as coisas lhe
foram dadas por seu Pai, ou seja, que ele é o herdeiro do universo. E
Jesus finalmente afirma que, assim como só ele conhece o Pai, só o Pai
o conhece; ele é um enigma para todos os outros. Portanto, há entre
eles uma relação de reciprocidade sem paralelos. Essa é a afirmação
múltipla de Jesus, arrebatadora em sua amplitude. Ninguém jamais
ousou fazê-la, mantendo a integridade moral, a sanidade e o equilíbrio.
A segunda afirmação de Jesus é que Deus é revelado somente aos
pequeninos. Os versículos 25 e 26 dizem: “Eu te louvo, Pai, Senhor dos
céus e da terra, porque escondeste estas coisas dos sábios e cultos, e
as revelaste aos pequeninos”.
Por pequeninos, Jesus quis dizer não somente os que têm pouca
idade, mas também os que (independentemente da idade) são
humildes e têm coração de criança. Nas palavras de Jesus,
“pequeninos” são aqueles que o buscam com sinceridade e humildade.
Ele disse que de todos os outros Deus, por iniciativa própria, se oculta.
Por favor, não interprete mal. Não se trata de obscurantismo. Não
é para imitarmos a avestruz e enfiarmos a cabeça na areia. Não é o
caso de sacrificar o nosso intelecto ou negar a importância do
pensamento, pois foi-nos dito: “deixem de pensar como crianças...
mas, quanto ao modo de pensar, sejam adultos” (1 Co 14.20).
Não. Trata-se de, simplesmente, reconhecer as limitações da mente
humana. Quando busca a Deus, ela se debate inutilmente para fora de
suas profundezas. Por definição, Deus é infinito em seu ser, ao passo
que nossa mente, pequena e finita, capaz de conquistas
extraordinárias nas ciências empíricas, é incapaz de descobrir Deus.
Portanto, se ficarmos em nossos pedestais, orgulhosos, com nossos
óculos sobre o nariz, supondo investigar e criticar a Deus e
proclamando a autonomia de nossa própria razão, nunca o
encontraremos. Lidar com Deus desse modo não é apenas
inconveniente, mas também improdutivo, pois, de acordo com Jesus,
Deus se esconde de pessoas que agem assim.
No entanto, se descermos de nossa plataforma e nos humilharmos
diante de Deus; se confessarmos nossa inabilidade de o encontrarmos
por nós mesmos; se nos colocarmos reverentemente de joelhos e
lermos a história de Jesus nos Evangelhos com a mente aberta de uma
criança — Deus se revelará a nós. Seria por estarem falhando nisso
que alguns de meus leitores ainda não encontraram Deus? Seria
porque o têm procurado com a disposição errada? O que se pede de
nós não é que fechemos nossa mente, mas que a abramos; não que a
reprimamos, mas que a humilhemos.
Até aqui temos refletido sobre as duas afirmações de Jesus sobre o
conhecimento de Deus. É como se estivéssemos dando respostas a
duas perguntas fundamentais. Primeiro, quem pode revelar a Deus?
Resposta: somente Jesus Cristo. Segundo, a quem Deus se revela?
Resposta: somente aos “pequeninos”. Deus se oculta de amadores
intelectuais, mas se revela em Cristo àqueles que o buscam com
humildade.
2. DOIS CONVITES
Passemos agora das duas afirmações que Jesus fez para os dois
convites que ele formalizou e continua a formalizar hoje. Aqui está o
primeiro: “Venham a mim, todos os que estão cansados e
sobrecarregados, e eu lhes darei descanso” (Mt 11.28). Esse convite é
endereçado a todos os seres humanos, incluindo nós. Ao fazê-lo, Jesus
deixa de lado a cortesia. Ele nos descreve como “cansados e
sobrecarregados”. Parece nos comparar a bois, padecendo debaixo de
um jugo amarrado ao nosso pescoço e carregando um fardo pesado e
esmagador.
Assim, Jesus presume que todos os seres humanos estão
sobrecarregados, e eu, por exemplo, não duvido de seu diagnóstico.
Há os fardos de nossos temores, ansiedades, tentações,
responsabilidades e solidão. Há o terrível sentimento de que a vida não
tem nem significado nem propósito, que às vezes nos engole. Acima
de todos, há o fardo dos nossos fracassos ou (para dar-lhes o nome
apropriado) nossos pecados, que merecem o julgamento de Deus. Será
que a nossa consciência nunca sente sua culpa? Nossa cabeça nunca
se curva por um sentimento de vergonha e alienação? Será que nunca
clamamos, como o Livro de Oração Comum nos recomenda, que “o
peso de nossos pecados é intolerável”, isto é, que já não podemos
carregá-lo?
Se somos estranhos a todo esse peso, temo que nunca aceitaremos
o convite de Cristo para irmos a ele e sermos aliviados. É para os
cansados que ele promete descanso, como ele mesmo disse em outra
ocasião: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim
os doentes” (Mt 9.12). Em outras palavras, assim como não vamos ao
médico a menos que estejamos doentes, não iremos a Jesus Cristo a
menos e até que reconheçamos o fardo de nosso pecado. O primeiro
passo para nos tornarmos um seguidor de Jesus Cristo é a admissão
humilde de que precisamos dele. Nada nos distancia mais do reino de
Deus do que o nosso orgulho e a nossa auto-suficiência.
Tendo considerado a quem Jesus dirige o seu convite, podemos
considerar aquilo que ele oferece. Ele promete aliviar o nosso jugo,
erguer o nosso fardo, libertar-nos, dar-nos descanso, se formos a ele.
Há alguns anos visitei um grupo de estudantes em Cuba, que vivia
uma desilusão generalizada em relação ao marxismo. Um jovem
descreveu a sua experiência. Ele tornara-se cristão havia quatro
meses. Antes, como a maioria das pessoas em Cuba, ele se sentia
sobrecarregado por privações e pobreza, vazio existencial e alienação,
até que pediu a Jesus Cristo que lhe desse paz e tranquilidade e o
livrasse de seus fardos. Ele recebeu a libertação a partir da promessa
de Mateus 1L28 e mal podia dormir. No dia seguinte, percebeu que
estava diferente. Nenhum medicamento havia sido capaz de lhe dar
tranquilidade. Ele não deixará de ser pobre, mas Jesus Cristo lhe dera
descanso.
E somente Jesus Cristo pode fazer essas coisas. Pois ele é descrito
no Novo Testamento como o supremo carregador de fardos do mundo,
uma vez que carregou o nosso fardo na cruz. Ouça novamente estas
conhecidas palavras da Bíblia:

O Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós.


(Is 53.6)
Pois ele levou o pecado de muitos.
(Is 53.12)
Vejam! É o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!
(Jo 1.29)
Ele mesmo levou em seu corpo os nossos pecados sobre o
madeiro.
(1 Pe 2.24)
Assim também Cristo foi oferecido em sacrifício uma única
vez, para tirar os pecados de muitos.
(Hb 9.28)

Todos esses versículos falam de Jesus Cristo “levando” os nossos


pecados e os levando embora para longe. “Levar pecados” é uma
expressão frequente no Antigo Testamento, que corresponde a
carregar a pena do pecado. A pena é paga pelo pecador ou pelo
substituto providenciado por Deus. Essa é a essência do evangelho.
A boa nova, então, é esta: o Deus Todo- Poderoso nos ama, apesar
de nossa rebelião contra ele; ele veio ao nosso encontro na pessoa de
seu Filho, Jesus Cristo; assumiu a nossa natureza e tornou-se um ser
humano; viveu uma vida perfeita de amor e, mesmo não tendo
pecados de si mesmo, na cruz identificou-se com o nosso pecado e a
nossa culpa. Em duas expressões dramáticas do Novo Testamento
“Deus tornou pecado por nós aquele que não tinha pecado” (2 Co 5.21)
e “Cristo... tornou-se maldição em nosso lugar” (G1 3.13). Naqueles
terríveis três horas da escuridão do esquecimento de Deus, ele
suportou a condenação que merecíamos pelos nossos pecados. Mas
agora, com base na morte substitutiva de Cristo, Deus nos oferece um
perdão pleno e gratuito, bem como um novo nascimento e um novo
começo no poder de sua ressurreição.
Ninguém descreveu de maneira mais dramática que John Bunyan,
em O Peregrino, a alegria por ficar livre do fardo de nossos pecados:
Por este caminho, portanto, corria o sobrecarregado Cristão, mas
não sem grandes dificuldades, por causa do fardo às costas.

Correu assim até alcançar um local íngreme, no alto do


qual erguia-se uma cruz, e pouco abaixo, no vale, um
sepulcro. Vi no meu sonho que assim que Cristão chegou à
cruz, seu fardo, afrouxando, escorregou pelos seus ombros,
caiu-lhe das costas e, tombando, foi descendo até a entrada
do sepulcro, onde caiu, e não mais o enxerguei.
Então ficou Cristão alegre e aliviado, e disse de coração
exultante:
- Ele me deu repouso, pela sua angústia, e pela vida, e
pela morte.
E ali permaneceu algum tempo, olhando e admirando-se,
pois, ficara muito surpreso ao perceber que a visão da cruz o
aliviava assim do seu fardo. Olhou, portanto, e olhou
novamente, até que as fontes da sua cabeça manassem água,
que lhe escorria pelo rosto.
Estando Cristão a olhar e chorar, eis que três Seres
Resplandecentes se aproximaram dele, e o saudaram
dizendo:
- “A paz seja contigo”. E o primeiro lhe disse: - “Os teus
pecados estão perdoados” (Mc 2.5). O segundo o despiu dos
farrapos e o vestiu com nova muda de roupas (Zc 3.3-5). O
terceiro ainda gravou-lhe um sinal na testa, deu-lhe um rolo
com um selo e mandou Cristão observá-lo durante o caminho,
devendo entregá-lo no Portão Celestial. Os três então
partiram. Cristão deu três saltos de alegria, e seguiu
cantando:
Sobrecarregado de pecados até aqui vim
Nem pude aliviar o pesar, pesar sem fim,
Que até aqui trazia.
Ah, lugar ditoso!
Início será de viver venturoso?
Será que aqui o fardo das costas me cairá?
Aqui a amarra que a mim o prende romperá?
Bendita cruz! Bendito sepulcro!
Seja exaltado
O Homem que por mim foi humilhado.1

Tendo considerado a quem o convite de Jesus é endereçado e aquilo


que ele oferece, agora temos uma pergunta que diz respeito àquilo que
ele pede de nós. A resposta pura e simples é: “Nada!” — exceto que
venhamos até ele. Tudo o mais ele fez. A salvação é um dom
absolutamente gratuito e completamente imerecido.
E não há nada que substitua esse achegar-se pessoal a Cristo.
Algumas pessoas são absorvidas pelo aparato externo da religião. Elas
vêm à igreja e são batizadas. Procuram o pastor em busca de
aconselhamento. Leem a Bíblia, juntamente com outra literatura
religiosa. Mas é possível engajar-se em todas essas “vindas” sem vir a
Jesus Cristo. Eu imploro que você não tropece na simplicidade do
convite de Cristo.
Houve um famoso professor de hebraico na Universidade de
Edimburgo de 1843 a 1870. Seu nome era Dr. John Duncan, mas, por
causa de sua familiaridade com a língua e a literatura hebraicas, ele
era afetuosamente chamado por seus alunos de “Rabino Duncan”.
Tamanho era o seu conhecimento das línguas semíticas que seus
alunos tinham como certo que ele fazia suas orações em hebraico. Dois
deles decidiram investigar se de fato era assim. Certa noite, rastejaram
do lado de fora de seu quarto para escutar. Esperavam ouvir grandes
arroubos de misticismo e retórica judaicos. Porém, o que ouviram foi
isto:

Bondoso Jesus, manso e meigo,


Olha por uma pequena criança;
Tem piedade de minha simplicidade,
Permite-me vir a ti.2

Se um professor universitário podia achegar- se a Jesus Cristo como


uma criança, suponho que nós também possamos. Podemos estar
certos de que o Rabino Duncan não encorajou a si nem seus alunos à
infantilidade. Mas ser como criança é algo bem diferente. Jesus exaltou
a virtude da humildade. Ele ensinou que, a menos que nos humilhemos
como crianças, não entraremos no reino de Deus (Mt 18.1-3). Ele
ensinou também, como já observamos, que Deus se revela somente a
“pequeninos”, para humilhar os que buscam pela verdade.3
Se o primeiro convite de Jesus é que “venhamos” até ele, o segundo
é: “Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, pois sou
manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as
suas almas. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt
11.29,30).
Constantemente fico maravilhado com o equilíbrio da Bíblia. A vida
cristã não é simplesmente tomar o jugo e desfrutar do “descanso”.
Não; quando vamos a Jesus, uma maravilhosa mudança acontece.
Primeiro ele alivia o nosso jugo e então encaixa o seu sobre os nossos
ombros. Primeiro ele retira o nosso fardo e então coloca o seu sobre
nós. Mas muitas pessoas, influenciadas pela mentalidade pós-moderna
do “apanhe” e “misture”, querem o descanso sem o jugo; querem se
desfazer do seu fardo, mas não querem receber o de Cristo. Entretanto,
os dois convites de Jesus estão juntos; não temos liberdade para
escolher apenas um deles.
O que então seria o “jugo” de Cristo? Um jugo é como uma barra
horizontal que é colocada no pescoço dos bois, quando estão atrelados
a um arado ou a um carro de boi. Simbolicamente, nas Escrituras, o
jugo expressa submissão a autoridade. Assim, os judeus falavam do
“jugo da Torah”, porque se submetiam à autoridade da Lei de Deus.
Agora, no entanto, Jesus nos convida a tomar o seu jugo sobre nós e,
assim, aprender dele.
Tomarmos o jugo de Cristo sobre nós é entrarmos em sua escola,
tornarmo-nos seus discípulos e submetermo-nos à sua autoridade
instrutora. Isso implica considerá-lo não somente como nosso
Salvador, mas também como nosso mestre e Senhor. O próprio Jesus
coloca isso acima de qualquer questão quando, durante sua última
noite na terra, ele disse aos doze: “Vocês me chamam ‘Mestre’ e
‘Senhor’, e com razão, pois eu o sou” (Jo 13.13). Em outras palavras,
“Mestre” e “Senhor” eram mais que títulos de reverência; davam
testemunho da realidade. Isso inclui colocar cada área de nossa vida,
pública e privada, sob o senhorio soberano de Jesus.
Parece difícil? Jesus insiste que esse é o caminho para a liberdade.
O fardo que perdemos quando nos achegamos a Cristo é pesado,
enquanto o seu fardo é “leve”. Novamente, o jugo que perdemos
quando nos achegamos a Cristo é um desajuste. Ele esfola os nossos
ombros. Mas o jugo que recebemos é “suave”. É um encaixe perfeito.
“Meu jugo é suave e o meu fardo é leve” — como assim? Eu penso que
isso quer dizer que tanto nossa mente quanto nossa vontade
encontram a liberdade sob a autoridade de Cristo. A única autoridade
debaixo da qual nossa mente está genuinamente livre é a autoridade
da verdade. A chamada “liberdade de pensamento”, que afirma ter
licença para crer em qualquer coisa, incluindo mentiras, não se trata
de liberdade intelectual autêntica, mas de sujeição à ilusão e à
falsidade.
Jesus afirmou em outra passagem a seus discípulos: “E conhecerão a
verdade, e a verdade os libertará” (Jo 8.32). Do mesmo modo, a única
autoridade debaixo da qual nossa vontade está realmente livre é a
autoridade da justiça, conforme revelada nos mandamentos de Deus.
“Andarei em verdadeira liberdade”, declara o salmista, “pois tenho
buscado os teus preceitos” (SI 119.45). A razão por que a liberdade se
encontra na obediência aos mandamentos de Deus é que há uma
correspondência fundamental entre a lei de Deus e nossa natureza
moral. As exigências de sua lei não são estranhas a nós, pois tratam
das leis de nossa própria humanidade, escritas pela criação em nosso
coração (Rm 2.15).
Tendo descrito a compatibilidade de seu jugo e de seu fardo, Jesus
continua descrevendo a si mesmo. Ele diz que é “manso e humilde de
coração”. O que Jesus nos oferece é o fardo leve e o jugo suave de um
Mestre bondoso e manso. Debaixo deles encontramos descanso.
Dietrich Bonhoeffer sabia disso. Ele foi executado por ordem
expressa de Heinrich Himmler no campo de concentração de
Flossenburg em abril de 1945. Em seu livro The Cost of Discipleship (O
preço do discipulado) ele escreveu o seguinte:
Somente o homem que segue o comando de Jesus de todo o coração e
sem resistência alguma deixa que o seu jugo repouse sobre ele, sente o seu
fardo leve e, debaixo de sua pressão suave, recebe o poder para perseverar
no caminho certo. O mandamento de Jesus é difícil, indescritivelmente difícil,
para aqueles que a ele resistem. Mas, para aqueles que de bom grado se
submetem a ele, o seu jugo é suave e o seu fardo é leve.4

CONCLUSÃO: RSVP
Vimos as duas afirmações e os dois convites que Jesus fez e
continua a fazer hoje. As afirmações são que somente ele pode revelar
Deus e que ele o faz somente aos “pequeninos”, enquanto que os dois
convites são para que nos acheguemos a ele e tomemos o seu jugo.
Mas notamos que, embora os dois convites sejam diferentes, a
promessa vinculada a eles é precisamente a mesma. Aos que vêm a
Jesus, ele diz: “eu lhes darei descanso”, e aos que tomam o seu jugo
ele promete que “encontrarão descanso para as suas almas”.
Todo mundo procura e anseia por descanso, paz e liberdade. Jesus
nos diz onde podemos encontrar tudo isso — no deixarmos o fardo
junto à cruz e submetermo-nos à sua autoridade instrutora. De fato,
encontramos a liberdade quando deixamos o nosso fardo, mas nâo
quando descartamos Cristo. Estamos de volta ao grande paradoxo da
vida crista. É sob o jugo de Cristo que encontramos descanso, e é no
seu serviço que encontramos liberdade. É quando perdemos a nós
mesmos que encontramos a nós mesmos, e é quando morremos para
a nossa autocentralidade que começamos a viver.
Assim, por que sou cristão? Ficou claro que não há uma razão
preponderante, mas um conjunto de razoes interligadas. Algumas têm
a ver com o próprio Jesus Cristo — suas extraordinárias afirmações
sobre si mesmo, as quais não posso explicar; seu sofrimento e sua
morte, que lançam luz sobre o problema do sofrimento; e sua
incansável busca por mim, em que ele não me permitiria escapar dele.
Outras dizem respeito mais a mim do que a Jesus: ele me ajuda a
compreender-me no paradoxo de minha humanidade e a encontrar a
realização de minhas aspirações humanas básicas. Ainda outras dizem
respeito à necessidade de uma decisão, uma vez que ele nos convida
a virmos a ele para encontrarmos liberdade e descanso.
Resumindo: aquele que afirma ser o Filho de Deus e o Salvador e
juiz da humanidade se coloca agora diante de nós oferecendo
realização, liberdade e descanso, se tão-somente virmos a ele.
Tamanho convite de uma pessoa assim não pode ser rejeitado. Jesus
espera pacientemente pela nossa resposta. RSVP!
Foi há muitos anos que dei minha resposta a Cristo, ajoelhando-me
ao lado de minha cama em um dormitório escolar. Não me arrependi.
Tenho experimentado o que Lord Reith, o primeiro diretor-geral da
BBC, certa vez chamou de “o mistério e a magia do Cristo que mora
em mim” 5

Pergunto se você, meu caro leitor, está pronto a dar o mesmo passo.
Se estiver, talvez queira retirar-se sozinho para algum lugar e repetir
esta oração, tornando-a sua oração:

UMA ORAÇÃO
Senhor Jesus Cristo,
Estou ciente de que, de diferentes maneiras,
tens me buscado.
Eu escutei-te batendo à minha porta.
Eu creio —
que tuas afirmações são verdadeiras;
que morreste na cruz por meus pecados,
e que ressuscitaste em triunfo sobre a morte.
Obrigado por tua oferta amorosa de perdão,
liberdade e realização.
Agora —
Abandono minha autocentralidade
pecaminosa.
Venho a ti como meu Salvador.
Submeto-me a ti como meu Senhor.
Dá-me forças para seguir-te pelo resto
de minha vida. Amém.
Notas
PREFÁCIO
1. RUSSEKLL, Bertrand. Why I Am Not a Christian. Ed. Paul Edwards. George Allen & Unwin,
1957.
2. STOTT, John. The Contemporary Christian. IVP, 1992.

O CÃO DE CAÇADO CÉU


1. GAUTREY, R. Moffat. This Tremendous Lover. Uma exposição de "The Hound of Heaven",
de Francis Thompson. Epworth, 1932.
2. THOMPSON, Francis. The Hound of Heaven. Burns, Oates & Washbourne Ltd, 1893. p. 9.
3. GAUTREY, R. Moffat. Op. cit. p. 29.
4. Id., ibid. p. 30.
5. THOMPSON, Francis. Op. cit. p. 16.
6. Id., ibid. p. 17.
7. LEWIS, C. S. Surpreendido pela Alegria. São Paulo: Mundo Cristão, 1998. p. 230. "Legião"
(que quer dizer uma unidade de aproximadamente 6.000 soldados) foi o nome que o
endemoninhado gadareno deu a si mesmo, porque estava consciente de estar sob o domínio
de um grande número de espírito malignos. Veja Marcos 5.1-20.
8. Agostinho. Confissões. Trad. Frederico Ozanam Pessoa de Barros. Rio de Janeiro: Ediouro.
Livro 2.
ii. p. 145.
9. Id., ibid. Livro 8. xii. p. 155.
10. Id., ibid. Livro 10. xxvii. p. 198.
11. MUGGERIDGE, Malcolm. Chronicles of Wasted Time, parte 1. The Green Stick. Collins,
1972. p. 125.
12. MUGGERIDGE, Malcolm. Jesus Rediscovered. Collins Fontana, 1969. pp. 32, 41.
13. LEWIS, C. S. Surpreendido pela Alegria. São Paulo: Mundo Cristão, 1998. p. 216.
14. Id., ibid. pp. 231.
15. Id., ibid. pp. 229.
16. Id., ibid. p. 221.
17. Id., ibid. p. 217.
18. Id., ibid. pp. 232,233.

AS AFIRMAÇÕES DE JESUS
1. JEREMIAS, Joachim. The Central Message of the New Testament. SCM, 1965. pp. 16,17,
19-21, 30.
2. MARTIN, Hugh. The Claims of Christ; A Study in His Self-portraiture. SCM, 1955. pp. 42,43.
3. LEWIS, C. S. Cristianismo puro e simples. 4. ed. São Paulo: ABU Editora, 1992. p. 29.

A CRUZ DE CRISTO
1. MUGGERIDGE, Malcolm. Jesus Rediscovered. Collins Fontana, 1969. pp. 24,25.
2. Cicero. Against Verres. II. 64.165.
3. Cicero. In Defense of Rabirius. V.16.467.
4. 'Le bon Dieu me pardonnera. C'est son métier.' É o que se diz que Heine teria dito em seu
leito de morte. Citado em DENNEY, James. The Death of Christ (1902). Tyndale Press, 1951.
p. 186.
5. Anselmo. Cur Deus Homo. i. xxi.
6. SIMPSON, Carnegie. The Fact of Christ. Hodder & Stoughton, 1900. p. 109.
7. FORSYTH, P. T. The Justification of God. Duckworth, 1916. p. 32.

O PARADOXO DA NOSSA HUMANIDADE


1. COUPLAND, Douglas. Life After God. Touchstone, 1994. p. 9.
2. Id., ibid. p. 304.
3. THOMAS, Keith. O Homem e o mundo natural (1983; Penguin, 1984), pp. 31,32, 37-39, 43,
166, 172. (THOMAS, Keith. O homem e o mundo natural; mudanças de atitude em relação
às plantas e aos animais. Trad. João Roberto Martins Filho. São Paulo: Companhia das
Letras, 1988.)
4. WHALE, J. S. Christian Doctrine (1941). Fontana, 1957. p. 33.
5. Mark Twain's Notebook. 1894.
6. WHALE, J. S. Op. cit. p. 41.
7. SHAKESPEARE, William. Hamlet, ato II. cena 2.
8. TWAIN, Mark. Título do capítulo 28 de More Tramps Abroad. Chatto & Windus, 1897.
9. HOLLOWAY, Richard. Extrato de uma palestra que ele deu na Conferência de Renovação
Católica de Loughborough em abril de 1978.
10. NIEBUHR, Reinhold. The Children of Light and the Children of Darkness; A Vindication of
Democracy and a Critique of its Traditional Defenders. Nisbet, 1945. p. vi.
11. ROGERS, Carl R. On Becoming a Person. Constable, 1961. p. 87.

A CHAVE PARA A LIBERDADE


1. FOWLES, John. The Magus, ed. rev. (1966). Ed. Triad Partner, 1977. p. 10.
2. McCANN, Graham. Woody Allen, New Yorker. Polity, 1990. pp. 43, 84.
3. Id., ibid. pp. 43, 83.
4. RUSSELL, Bertrand. Why I Am Not a Christian. Ed. Paul Edwards. George Allen & Unwin,
1957. p. 47.
5. ____ . A Free Man's Worship (1902). University
Paperbacks, 1976. pp. 10-17.
6. SOUTHWELL, Robert. "I dye alive". In: NICHOLSON, D. H. S., LEE, A. H. E. eds. The Oxford
Book of English Mystical Verse. Clarendon, 1917. p. 236.

A REALIZAÇÃO DE NOSSAS ASPIRAÇÕES


1. Agostinho. Confissões. Trad. Frederico Ozanam Pessoa de Barros. Rio de Janeiro: Ediouro.
Livro 1. i.
p. 27.
2. LEWIS, C. S. "The Weight of Glory". In: Transposition and Other Addresses. Geofrey Bles,
1949. p. 30.
3. ROSZAK, Theodore. Where the Wasteland Ends. Faber & Faber, 1972. p. 22.
4. Id., ibid. p. 66.
5. Id., ibid. pp. 227,228.
6. Id., ibid. p. 67.
7. Id., ibid. p. 70.
8. Id. ibid. p. xxi.
9. BERGER, Peter L. Facing up to Modernity (1977). Penguin, 1979. p. 225.
10. Citado in: PORRITT, Jonathon, WINNER, David. The Coming of the Greens. Collins, 1988.
pp. 251,252.
11. WILSON, A. N. Against Religion. Chatto Counterblast n. 19. 1991. pp. 3, 20, 44.
12. BEESON, Trevor. Discretion and Valour. Collins, 1974. p. 24.
13. De sua mensagem ao receber o Prêmio Templeton em Londres, em maio de 1983.
14. SPANGLER, David. The Rebirth of the Sacred. Dell, 1984.
15. Id., ibid. pp. 12, 41.
16. TOYNBEE, Arnold. Citado in: The Times. 5 abr. 1969. Veja o seu Experiences. OUP, 1969.
17. FRANKL, Viktor E. Man's Search for Meaning (1959). Washington Square Press, 1963. p.
165.
Originalmente publicado sob o título From Death- Camp to Existentialism.
18. Id., ibid. p. 164.
19. Id., ibid. p. 154.
20. Id., ibid. p. 154.
21. Id. ibid. pp. 167, 204.
22. KOESTLER, Arthur. "Rebellion in Vacuum". In: Protest and Discontent (simpósio). Ed.
Bernard Crick e William Robson. Penguin, 1970. p. 22.
23. DURKHEIM, Emile. Suicide; A Story in Sociology (1897). Tradução para o inglês de 1952.
Routledge & Kegan Paul, 1975. p. 246. (DURKHEIM, Emile. O suicídio; estudos de
sociologia. Editora Martins Fontes, 2000).
24. TEMPLE, William. Citizen and Churchman. Eyre & Spottiswoode, 1941. p. 74.
25. The Autobiography of Bertrand Russell. George Allen & Unwin, p. 13.
26. DOIG, Desmond. Mother Teresa, Her People and Her Work. Collins, 1976. p. 159.
27. McCANN, Graham. Woody Allen, New Yorker. Polity, 1990. p. 22.
28. Id., ibid. p. 248.
29. NEILL, S. C. Christian Faith Today. Pelican, 1955. p. 174.

O MAIOR DE TODOS OS CONVITES


1. BUNYAN, John. O peregrino. São Paulo: Mundo Cristão, 1999. pp. 47,48.
2. In: WESLEY, Charles. Hymns and Sacred Songs. 1742.
3. Posso atestar a veracidade desta anedota porque a ouvi dos lábios do professor James
Stewart, do New College, em Edimburgo. Surpreende-me, portanto, que ela não tenha sido
incluída em The Life of Late John Duncan, escrito por David Brown e publicado em 1872
(Edmonston & Douglas, 2. ed. rev.). No entanto, David Brown escreveu sobre a "simplicidade
infantil do homem" na oração (p. 361).
4. BONHOEFFER, Dietrich. The Cost of Discipleship (1937). Tradução para o inglês SCM, 1959.
p. xxxiii. Publicado no Brasil pela Editora Sinodal, com o título Discipulado
(www.editorasinodal.com.br). (NE)
5. BOYLE, Andrew. Only the Wind will Listen: Reith of the BBC. BBC, 1972. p. 18.