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O Império Comercial de J. G.

Araújo e seu legado


para a Amazônia (1879-1989).

Dra. Marcia Eliane Alves de Souza e Mello


Universidade Federal do Amazonas

2010

1
Sumário

1.1 Introdução ............................................................................3

1.2 Os intrincados laços comerciais da família Araújo


............................................................................................. 6

1.3 Ascensão da empresa J. G. Araújo em meio a Grande Crise da


Borracha .............................................................................19

1.4 A consolidação do Império J. G. Araújo ...............................34

1.5 Considerações finais............................................................ 41

1.6 Fontes ............................................................................... 43

1.7 Referencias Bibliográficas...................................................44

2
O Império Comercial de J. G. Araújo e seu legado
para a Amazônia (1879-1989).

1.1 Introdução

No verão de 1990, o centro da cidade de Manaus vivenciou um


trágico acontecimento. Um incêndio de grandes proporções atingiu
diversas lojas situadas na zona comercial histórica da cidade, mais
precisamente um quarteirão da rua Marechal Deodoro e Eduardo Ribeiro,
entre elas estava o “Armazéns de Ferragens J.G. Araújo”, um dos ícones
empresariais mais dinâmico e longevo do Amazonas. Muitos cidadãos que
presenciaram o acontecimento lamentaram, mais tarde1, a perda da
memória empresarial contida nos arquivos daquela empresa, fundada em
1879. Todavia, o que desconheciam eles, era que o prejuízo se deu apenas
no que circunscrevia ao patrimônio arquitetônico do prédio (construído nos
finais do século XIX) e das remanescestes mercadorias e instalações das
lojas. A empresa J. G. Araújo e Cia Ltda., que desde os finais dos anos 80,
vinha diminuindo suas atividades e encerrando várias filiais, havia doado e
transferido todo o seu acervo documental e contábil, um ano antes do
referido sinistro, para a Universidade Federal do Amazonas, que por sua
vez, colocou-o sob a guarda do recém criado Museu Amazônico2.

1
Tais impressões ainda se podem ser lidas em blogs e sites como o de
jmartinsrocha.blogspot.com/2009/.../j-g-Araújo.html. Acessado em 20 de agosto de 2010.
2
Cabe aqui ressaltar o empenho particular da Prof. Vânia Nóvoa Tadros, docente no
departamento de História da UFAM, que intermediou a transferência, bem como, de todo

3
Cumpre aqui ainda registrar, que o gesto magnânimo feito pelo Sr.
Agesilau de Souza Araújo, neto do fundador da empresa, o comendador
Joaquim Gonçalves de Araújo, não somente garantiu que fosse preservada
a memória da empresa, bem como, permitiu que uma vez ficando em
Manaus, o acervo inédito pudesse ser pesquisado pela comunidade
científica local, e até mesmo estrangeira. Haja vista a importância que
tais documentos possuem, possibilitando o estudo da história
socioeconômica da região e da sua interface com outras localidades, no
Brasil e no exterior3.
Salva a documentação da empresa, restava então iniciar a sua
organização e tratamento documental com base nas normas arquivisticas,
a fim de poder criar as condições necessárias para disponibilizá-la para as
investigações futuras. É nesse momento, em 1990, que ainda acadêmica e
finalista do curso de História, tivemos o nosso primeiro contato com a
documentação da empresa, na qualidade de bolsista do Instituto Euvaldo
Lodi (IEL), que em convênio com a Universidade do Amazonas, apoiou o
projeto de organização do acervo do J.G. Araújo.
Mais tarde, em 1995, já como docente do departamento de História,
participei do projeto de pesquisa sobre a implantação e o desenvolvimento
da empresa J. G. Araújo, que teve em sua primeira etapa o objetivo de
elaborar um histórico sobre a estrutura administrativa e organizacional da
empresa. Com base na documentação pesquisada, pudemos perceber que
a resposta a bem sucedida fundação e posterior sobrevivência da empresa
por mais de um século, tinha como chave a forma como se teciam os laços
familiares e empresariais dos membros da família Gonçalves Araújo.

o corpo docente que participou e acompanhou o transporte de todo o gigantesco acervo


que ocupava várias salas em mais de 3 andares do antigo prédio da Marechal Deodoro.
3
Tal gesto deveria ser imitado por outras empresas e instituições públicas e privadas,
que descartam seus arquivos antigos, para dar espaço à tecnologia, comprometendo não
somente a sua própria história, mas também, causando prejuízos aos pesquisadores do
futuro.

4
E assim, partindo desta observação, que inicio esta memória
empresarial, de Joaquim Gonçalves de Araújo, cujo nome se perpetuou
como “J. G. Araújo”, e que foi nas sábias palavras do Professor Samuel
Benchimol, “o maior dos Jotas”4, não apenas por sua projeção e
importância como líder na comunidade comercial, onde fundou um império
nos anos 20 e 30, como pela sua inserção na sociedade como benemérito
e patrono de causas sociais, estando portanto, muito a frente do seu
tempo.
Desta feita, iremos considerar num primeiro momento, a
reconstituição e composição familiar dos Gonçalves Araújo e os
subseqüentes laços comerciais, formadores basilares da estruturas da
empresa. E num segundo momento, a diversificação e sobrevivência da
empresa após a crise da economia da borracha, como fatores importantes
para explicação de sua dinâmica secular.

4
Alusão a forte presença portuguesa nos negócios da região, onde predominavam no
nome das firmas comerciais a letra J, de João, José e Joaquim. (BENCHIMOL, Samuel.
Manáos-do-Amazonas. Memória empresarial. volume I. Manaus: Governo do Estado,
1994. pg.8-14)

5
Foto 1: Joaquim Gonçalves de Araújo
Fonte: Álbum de 1920. Acervo CCPA.

1.2 Os intrincados laços comerciais da família Araújo

As estreitas ligações da região Amazônica com Portugal desde os


tempos coloniais mantiveram um número considerável de portugueses
vivendo no Pará e no Amazonas, antes mesmo do advento da economia da
borracha. De tal sorte, que era comum a vinda de jovens portugueses de
poucos recursos, mas com forte espírito empreendedor, que iniciavam,
através de parentes, suas atividades no ramo comercial. Adquirindo um
emprego num armazém ou firma importadora, esperando a partir deste
conseguir a sua ascensão financeira, como bem exemplifica Bárbara

6
Weinstein para o caso do Pará5, mas, que também descreve com precisão
o caso bem sucedido de Joaquim Gonçalves de Araújo.
As reconstituições das atividades comerciais aqui descritas se
apoiarão em fontes primárias diversificadas incluindo os jornais de época,
por vários motivos, entre eles, que os registros das casas comerciais só
irão ter inicio legal, em 18766, com a criação das Juntas e Inspetorias
Comerciais, cuja representação funcionava em Belém. Só mais tarde com
o advento da república, em 1891, será instalada em Manaus a Junta
Comercial do Amazonas (JUCEA)7. No entanto, por causa de um incêndio
ocorrido em 1945, todo o acervo anterior a 1925 foi perdido, sendo
impossível analisar as razões comerciais originais.
Assim, partindo das informações contidas em artigo publicado na
imprensa de Manaus em 19578, o registro do primeiro membro da família
Gonçalves e Araújo, data de 1863, quando chegou a Manaus, Bernardo
Gonçalves de Araújo, com apenas 17 anos, nascido em Alvarães, aldeia
portuguesa da região de Vianna do Castelo. Na cidade, Bernardo
trabalhou por dois anos para um comerciante, também português, quando
aprendeu a lidar com o comércio de panificação.
Em 1865, estabeleceu-se por conta própria, abrindo uma loja com
crédito conseguido na praça. O progresso de sua firma fez com que em
1868, Bernardo chamasse para auxiliá-lo seu irmão José Gonçalves de
Araújo, vindo junto com ele seu primo, também José, de Estela, aldeia do
Conselho de Póvoa do Varzim, que por ser homônimo e para diferenciar os

5
WEINSTEIN, Bárbara. A Borracha na Amazônia: expansão e decadência (1850-
1920). São Paulo: Hucitec, 1993. pg. 78-9.
6
Decreto nº. 6384 de 30 de novembro de 1876, pelo qual foram criados as primeira
sete juntas comerciais. Sendo a 2ª Junta Comercial em Belém com jurisdição nas
províncias do Pará e Amazonas.
7
Criada pela Lei nº. 29, de 14 de dezembro de 1891. Funcionando inicialmente nas
dependências da Associação Comercial do Amazonas (ACA).
8
“Cooperação dos portugueses no desenvolvimento econômico do Amazonas”. IN: A
Crítica de 21 de junho de 1957.

7
nomes, acresceu Rozas, passando a chamar-se José Gonçalves de Araújo
Rozas.
Através de anúncios veiculados pelo jornal “Amazonas” de 1871,
fica patente a sociedade entre os irmãos Bernardo e José Gonçalves de
Araújo, com a loja de mercearia “Flor de Manaus”, sob a razão social
Bernardo Gonçalves Araújo & Irmão, localizada na travessa da
Imperatriz (atual rua da Instalação). A loja vendia produtos dos mais
variados gêneros, como por exemplo: chapéus de feltro, calçados, tabaco,
além de um grande sortimento de comestíveis, queijo, vinhos do Porto,
chouriça, chá verde, feijão, lagosta e peixe enlatados, amêndoas, nozes,
figos e passas, entre outros9.
Em manuscritos de maio de 1872, encontramos o registro de uma
outra firma com a razão social Bernardo Gonçalves de Araújo & Cia.,
fornecedora de materiais utilizados na construção da nova Igreja
Matriz10. Eram sócios desta firma, Bernardo Gonçalves de Araújo e
Francisco Bento de Sá, e localizava-se o estabelecimento na rua Brasileira,
canto do largo da Imperatriz (atual rua 7 de setembro) .
Em janeiro de 1875, inicia-se a dissolução da sociedade com
Francisco Bento de Sá11, ficando este responsável pelo ativo e passivo da
firma, e Bernardo G. de Araújo, reembolsado de seu capital e lucros12. Em
junho do ano seguinte, Bernardo enfrenta problemas de saúde e decide
voltar para Portugal. Contudo, antes de sua partida, deu sociedade em sua
firma Bernardo Gonçalves de Araújo & Irmão à seu primo Manuel
Gonçalves de Araújo13. Liquidando a firma comercial anterior, passou a
nova a chamar-se, Bernardo Gonçalves de Araújo, Irmão & Cia.,

9
Jornal Amazonas, 29/06/1871;
10
Arquivo Público do Amazonas (APAM), Manuscrito 1872, número 2. Maio e Julho de
1872.
11
Jornal O Amazonas, 03/01/1875. Chamada dos credores e devedores da empresa para
quitação de suas dívidas.
12
Jornal O Amazonas, 03/02/1875. Anúncio da liquidação da empresa assinado em
20/01/1875.

8
podendo todos os sócios responder por ela em todas as transações
comerciais. Comercializava esta firma com gêneros e produtos diversos,
e ainda com vinhos verde e do Porto, vindos de Portugal em
consignação14.
Estas informações além de demonstrar a diversificação das
atividades comerciais de Bernardo, indicam também que foi um
comerciante bem relacionado na praça de Manaus e fora dela, e que o seu
sucesso atraiu para o Brasil os demais parentes. Sendo possível
identificar em 1876, vivendo no Amazonas 12 membros da família: os
irmãos José Gonçalves de Araújo Rozas (comerciante), Manoel Gonçalves
de Araújo (comerciante) e Joaquim Gonçalves de Araújo, e seus primos:
Antônio Gonçalves de Araújo (caixeiro), João Gonçalves de Araújo,
(caixeiro), Bernardo Gonçalves de Araújo (comerciante e proprietário),
José Gonçalves de Araújo (comerciante e proprietário), José Gonçalves de
Faria (caixeiro), Manoel José de Faria (caixeiro), Luiz José de Faria
(caixeiro), Antonio José de Faria (caixeiro) e Joaquim José de Faria15.
Quanto à José Gonçalves de Araújo Rozas, segundo o artigo supra
citado, pouco tempo depois de sua chegada teria montado uma pequena
casa comercial que transacionava com produtos da região16. E, em 1871,
teria mandado vir de Portugal, para auxiliá-lo na lida comercial seu irmão
Joaquim Gonçalves de Araújo, de apenas 11 anos, que seria mais tarde
conhecido pela epíteto de “J.G.”17. Este aqui chegando, teria preferido

13
Jornal O Amazonas, 05/07/1876. Anúncio da nova sociedade assinado em 27/06/1876.
14
Jornal O Amazonas, 27/08/1876.
15
Informação retirada de um manifesto assinada em agosto de 1876, publicado no Jornal
“O Amazonas” de 19 de janeiro de 1877. Não assinam o manifesto Bernardo Gonçalves
de Araújo e Joaquim José de Farias, o primeiro provavelmente por já se encontrar em
Portugal para onde se retirou em julho de 1876, e o outro por residir em Coari, onde
faleceu em dezembro de 1876.
16
“Cooperação dos portugueses no desenvolvimento econômico do Amazonas”. IN: A
Crítica de 21 de junho de 1957
17
BITTENCOURT, Agnello. Dicionário Amazonense de Biografias. Vultos do passado.
Rio de Janeiro: Conquista, 1973. pg,. 273. Nascido no conselho de Povoa do Varzim,
norte de Portugal, em 14 de fevereiro de 1860, onde seus pais eram lavradores.

9
trabalhar para outros patrões, e com a idade de 15 anos teria feito sua
primeira viagem para o Alto Rio Negro, travando contatos na região.
Entretanto, tais informações não puderam ser confirmadas por outra
documentação. O Almanaque Comercial de 1873 que apresenta uma
relação dos estabelecimentos comerciais de Manaus, não registra
nenhuma casa comercial de propriedade de José Rozas, talvez por ser
ainda modesta, o mesmo não ocorrendo com seu primo Bernardo G. de
Araújo, que nele desponta com o registro de suas duas casas comerciais. É
bem provável que José Rozas tenha trabalhado para terceiros ou até
mesmo para um parente mais próspero até que pudesse estabelecer-se
por conta própria.
Em contrapartida, podemos afirmar com certeza, que em fevereiro
de 1877, José Rozas então com 21 anos, comprou o estabelecimento
comercial de Joaquim Rodrigues Varela, recebendo a nova firma a
denominação de “José Gonçalves de Araújo Rozas”18. Era uma loja de “
fazendas de retalho”, ou seja, uma loja de pequeno porte que vendia à
varejo gêneros de “secos e molhados”, situada à rua Frei José dos
Inocentes.
Somente dois anos mais tarde, em 1879, que Joaquim Gonçalves
de Araújo, torna-se sócio de seu irmão José Rozas, passando a firma a
girar com o nome de Araújo Rozas & Irmão. Dados contidos no balanço
da casa comercial de José Gonçalves de Araújo Rozas19, feito justamente
para a entrada do novo sócio, demonstram que José Rozas era possuidor
de um ativo de cerca de 8 contos de réis.
Os livros razão e caixa nº 1, apontam como capital inicial da nova
sociedade o valor de R$ 3:618$753. Deste valor 80% corresponde à
importância em mercadorias e móveis de José Rozas, e não são
contabilizados nesta conta de capital os valores da dívida ativa (R$

18
Jornal Amazonas, de 9 de fevereiro de 1877.
19
Museu Amazônico, Livro Diário 1, Balanço da Firma de 23 de fevereiro de 1879.

10
4:329$916)20. Não temos informações que possam responder com
precisão os motivos desta sociedade, mas acreditamos que, pelo menos
nesta fase inicial da empresa não se pode desprezar a importância de José
Rozas.
Cartas enviadas à Araújo Rozas & Irmão no ano de 1879,
informam-nos que a firma de José Rozas fornecia mercadorias para
clientes de diversas localidades do interior, tais como: Santo Antônio do
Iça, São Gabriel, Tabatinga, Codajás, Vila de Moura, Benevides, Forte de
São Joaquim (rio Branco), e até para uma comissão de limites na
Venezuela21. Eram aviamentos na sua grande maioria destinados ao
consumo doméstico e não comercial. Podemos ainda identificar, que 11
dos 18 correspondentes do interior, constavam no balanço supra citado
na relação de devedores, significando portanto, que José Rozas já fazia
aviamentos para o interior no ano de 1878, e que portanto não foi a
entrada de seu irmão na firma que abriu os contatos com o interior, no
máximo ampliou os mesmos.
Dentre os vários contatos que José Rozas mantinha com o interior,
pela correspondência de 1879 , identificamos alguns parentes, como seu
primo Luiz José de Farias (Codajás), Manoel José de Faria (Moreira), José
Gonçalves de Faria (Tauapessassu), e até mesmo seu sogro, o tenente
Antônio José de Souza Lobato, que servia no Forte de São Joaquim, no
Rio Branco. É possível que estes laços familiares tenham proporcionado
ao jovem comerciante português a ampliação de sua clientela no interior,
conquistada, talvez, pela intermediação de seu sogro com outros militares,
consumidores de produtos extra-regionais, e pela venda à crédito de
produtos de primeira necessidade. Neste sentido são significativas as
cartas do tenente Francisco Eduardo Benjamim, de Tabatinga, que se
referem às mercadorias recebidas como sendo de extrema necessidade

20
Museu Amazônico, Livro Razão 1. (1879-1880), Livro Caixa (1879-1883).
21
Museu Amazônico – Série correspondências (1879-1886).

11
para o cliente, mas onde podemos observar também, as reclamações
quanto aos preços e qualidade dos produtos enviados22. Contudo, esta e
outras cartas são ilustrativas de como se estabeleciam as relações de
dependência entre aviados e aviadores.
A década de 1880 foi marcada por uma expansão das atividades
comerciais da firma tanto na região Amazônica quanto no exterior.
Registram-se nas cartas comerciais de 1881 que diversos produtos
regionais foram enviados através de Araújo Rozas & Irmão para serem
vendidos no Pará, como: castanha, pirarucu, borracha fina e sarnamby.
Encontramos dentre estas cartas, algumas de seus primos Luiz e Manoel
José de Farias que viviam no interior do Amazonas, e que formavam a
rede familiar e comercial dos Gonçalves Araújo. Os registros dos livros
contábeis também apontam para importações de diversos gêneros vindos
de Portugal a partir desta data.
Assim é que, sob a indicação de Bernardo Gonçalves de Araújo &
Irmão, em 1881, a firma José Joaquim das Neves & Filho, estabelecida em
Lisboa, passou a fornecer mercadorias para Araújo Rozas & Irmão,
como também a enviar informações a respeito da cotação de algodão,
couros verdes, couros secos e cacau23. Contudo, as relações com esta
firma deterioraram-se em 1882. E os irmãos Araújo foram levados a
buscar outros parceiros em Lisboa, como José Francisco Collares, que
em fins de 1882 lhes oferece seus serviços.
O ano de 1884 destaca-se as transações comerciais com Lisboa,
quando a firma Antônio H. Salgado d’Araújo passou a oferecer seus
serviços com condições idênticas as oferecidas aos comerciantes do Pará -
por meio de conta corrente com juros recíprocos que eram descontados
dois meses depois da data, enquanto outras firmas sacavam com 30 dias

22
Museu Amazônico – Série correspondências (1879-1886). Carta de 06 de abril de 1879.
23
Museu Amazônico – Série correspondências (1879-1886). Carta de 29 de agosto de
1881.

12
após o vencimento. Este ano marcou também o início dos negócios com a
firma M. Pinheiro Ribeiro & Cia., através de Francisco Gonçalves de
Araújo, tio de José Rozas, que remetia pôr consignação, mercadorias
como: roupas, azeite, vinho, sardinha e outros gêneros. Foram enviados
em 1885 e 1886 para esta firma, a fim de serem vendidos em Lisboa,
diversas peles de couro de bois .
É interessante observar que a partir da década de 1890, teve um
significativo aumento nos bens imóveis da firma, período este em que seu
ativo se apresenta em estabilização, após um período de grande
crescimento. Confrontando-se os dados contidos nos livros contábeis com
os recibos de Imposto Predial, teremos para o ano de 1889 somente o
registro de uma casa e um terreno na rua 10 de julho24. Enquanto em
1892, fazem parte do patrimônio da firma: uma casa na rua São
Vicente; uma na rua Henrique Martins; uma na rua Espírito Santo ; uma
na rua Deodoro; quatro quartos na rua 10 de Julho; um Chalé e uma
casa na rua 10 de julho; uma casa com roçinha na rua São Vicente;
terrenos na rua Tenreiro Aranha, na rua Doutor Moreira e na rua 10 de
Julho. Assim, em menos de três anos os bens imóveis representam cerca
de 10% do ativo de Araújo Rozas & Irmão. Sem constar neste cálculo
uma fazenda que só foi adquirida em 1893, denominada “Adelaide”, em
homenagem a esposa de Joaquim Gonçalves de Araújo.
Se nos negócios as atividades cresciam e se diversificavam. Na vida
familiar, também ocorriam mudanças significativas. Em fevereiro de
1893, Joaquim Gonçalves de Araújo, casou em Manaus, com D. Maria
Adelaide da Silva, filha do Dr. Agesilau Pereira de Silva, integrante da elite
política, onde foi presidente da Província do Amazonas (1877-1878), e

24
Museu Amazônico. Série documentos de ordem imobiliária e territorial - Recibos de
imposto predial.

13
também “notável advogado e jurisconsulto”, conforme atesta Agnello
Bittencourt25. Firmando assim mais um elo com a comunidade local.
É possível, que com o crescimento dos negócios na região
Amazônica, tenha aumentado a necessidade de controlar o transporte das
mercadorias. Isto explicaria o registro de fretamento de várias
embarcações na década de 1880, além da efetiva compra em 1889, de
um Batelão e de uma Lancha, chamada: Caracarahy .
O ano de 1892 é marcado pelo surgimento de uma nova empresa
ligada aos irmãos Araújo. Informações anteriores consideravam que
somente em 1896 surgia um novo estabelecimento com a mudança da
razão social da firma existente, o que não é o caso, pois na análise que
efetuamos fica comprovado que a firma Araújo Rozas & Cia. iniciou
suas atividades em 1892, portanto, foi contemporânea de Araújo Rozas
& Irmão durante 4 anos, até a extinção desta última, como veremos
adiante.
A nova firma Araújo Rozas & Cia, nasceu da compra de empresa
“Rodrigues Vieira & Cia”, feita em março de 1892 por Araújo Rozas &
Irmão. O estabelecimento comercial adquirido era filial de uma firma do
Pará, e funcionava em Manaus como um estabelecimento de “vendas pôr
grosso”, ou seja, atacadista, com armazém de estivas (miudezas, fazendas
e ferragens), e também agente da Cia. Brasileira, de navegação à vapor.
Desde 1879 temos registro das transações comerciais que esta empresa
fazia com Araújo Rozas & Irmão. Servindo por exemplo, de
intermediária no envio de produto regional para o Pará.
Constam no balanço de encerramento da firma Rodrigues Vieira &
Cia. (1892) como bens de raiz , um terreno na praça do Visconde do Rio
Branco e um prédio situado na rua Deodoro nº 24. Com a compra desta
firma, o prédio da Rua Deodoro passou sediar as duas firmas “Araújo

25
BITTENCOURT, Agnello. Dicionário Amazonense de Biografias. p. 33-34.

14
Rozas & Irmão” e “Araújo Rozas & Cia.” até 1893, quando um novo
imóvel foi adquirido na Rua Deodoro nº 25, e passou a ser a sede de
Araújo Rozas & Irmão. Em 1895 a firma Araújo Rozas & Cia.
funcionava com um armazém na Rua Deodoro nº 23 e com mais um
depósito fechado na mesma rua no nº 22. .
Na abertura da firma Araújo Rozas & Cia. em abril de 1892
integravam a sociedade os sócios majoritários: José G. de Araújo Rozas e
Joaquim Gonçalves de Araújo, e os minoritários Otelo Fernandes Sá
Antunes (negociante e parente da família da esposa de Joaquim) e
Francisco Leite da Silva (ex-sócio da firma Rodrigues Viera & Cia.). Tal
composição foi alterada em 1895, com a saída de Otelo Antunes,
entrando para a sociedade em 1896, João Marinho Campos. Neste último
ano é interessante notar que outros dois nomes aparecem participando
dos lucros da empresa, sem, contudo serem identificados como sócios no
capital da mesma, são eles: Manoel Gonçalves de Araújo (irmão de José
Rozas) e João N. Hermes d’ Araújo.
A caracterização das atividades da firma Araújo Rozas & Irmão,
conforme seu Alvará de Licença de 1885, era de “um estabelecimento de
secos e molhados” que vendia à miúdo, funcionando em um prédio
alugado na rua da Independência (atual rua Frei José dos Inocentes). Em
1891, aparece nos registros de Imposto de Indústria e Profissões, como
uma “loja e armazém” no mesmo endereço26. Quando um prédio na Rua
Marechal Deodoro foi comprado em 1892, a firma passou a ter sede
própria.
Contudo, a mudança operada não foi apenas física, também se
observa uma diversificação em suas atividades, que obteve licença para
atuar em 1894 com um “escritório de menmissão e consignações “. A
firma destacava-se nos negócios de exportação de castanha e piaçava

26
Museu Amazônico. Série documentos de ordem imobiliária e territorial.

15
para outros estados do Brasil, enquanto as importações se concentravam
em produtos de aviamento de diversa natureza, indo do sal ao açúcar,
passando pela bolacha, tecidos, armas materiais de construção, entre
outros.
A firma Araújo Rozas & Irmão teve suas atividades comerciais
suspensas em 1896, passando a desempenhar todas as atividades
mercantis de 1896 a 1904 a firma Araújo Rozas & Cia. Entretanto, seus
bens só vão ser incorporados pela última firma em 1903, quando então
foi extinta oficialmente. Consideramos assim que a empresa funcionou
inicialmente com duas fases distintas: Fase 1: 1879-1896 (Araújo Rozas &
Irmão) e Fase 2: 1892-1904 (Araújo Rozas e & Cia.) Período em que vai
se firmar como uma grande casa aviadora e recebedora de produtos
regionais.

Analisando os dados contidos no quadro 1, além de observarmos um


aumento significativo no ativo da firma Araújo Rozas & Irmão nos anos
seguintes a sua criação, também destacamos como interessante que em
1883 o item “mercadorias” responde por 25,12% de seu ativo, enquanto
nos anos seguintes está porcentagem decresce vertiginosamente,
passando para 3,06% em 1889 e 1,97% em 1895. Enquanto, no mesmo
período se observa o contrário quanto às “dívidas ativas”, que saltam de
54,47% em 1879, para 95,62 % em 1889, e 67,12% em 1895.

16
QUADRO 1
ARAÚJO ROZAS & IRMÃO
ANO ATIVO MERCADORIA DEVEDORES CREDORES IMÓVEIS
1879 709,76 205,71 386,63 73,10 não possui
1883 20.285,37 5.095,85 14.640,89 13838,74 não possui
1889 117.341,84 3.595,89 112.210,81 54.417,57 899,32
1893 70.204,33 698,90 59.065,81 24.865,09 7.016,93
1895 69.039,52 1.364,27 46.342,66 30.728,33 7.676,00
OBS. Os dados contidos nos quadros estão expressos em libra esterlinas, com o
objetivo de minimizar as oscilações da moeda nacional durante o período.

Ao contrário de Araújo Rozas & Irmão, que registrou em 1895


cerca de 10% de seu ativo comprometido em bens de raiz, a firma Araújo
Rozas & Cia. acrescentou ao patrimônio da empresa somente mais alguns
imóveis em Manaus (quadro 2). Todavia, é possível observar sua
dinamização pelos bens adquiridos nesta nova fase em outras localidades.
Assim temos um depósito de vinhos em Portugal (1899); uma fazenda
denominada “São Salvador” (com gado cavalar, vacum, bovino, uma casa
e mais um batelão) (1899) e outra de “Santa Adelaide” (1903); um vapor
“Solimões” (1899); vapor “Áquila” (1900); lancha “Carolina” (1903); três
seringais no rio Negro e um no rio Branco (1903), entre outros.

QUADRO 2

ARAÚJO ROZAS & CIA


ANOS ATIVO MERCADORIA DEVEDORES CREDORES IMÓVEIS

1892 18.932,09 9.078,39 7.639,30 5.612,63 161,87


1896 85.812,48 31.100,37 31.968,88 26.283,17 1.274,09
1901 206.558,05 18.036,27 81.309,47 55.851,36 1.921,26

17
Pelos livros contábeis observa-se que as atividades comerciais com o
interior começam a ter um registro mais específico, principalmente a partir
de 1896, quando passa a ser descriminada a atuação por região, como
“Interior”, “rio Branco” e “rio Negro”. Assim, podemos identificar que a
região que concentrava a maior parte das dívidas ativas era o rio Negro,
com cerca de 90% . Em 1899 já se registra uma seção de ferragens e
drogas, e provavelmente uma secção de exportação a partir de 1900.
Estes dados indicam claramente um restruturamento interno na firma, que
está em plena expansão. Por volta de 1899 consta ainda que a firma
Araújo Rozas & Cia era sócia da firma Armindo Marius & Cia. na qual
entrou com um capital de R$ 20:000$000.
No que se refere ao comércio exterior, os contatos com firmas na
Europa e Estados Unidos intensificam-se na virada do século, de forma
que podemos citar com base no movimento de vapores, onde a firma
registrava os fornecedores e as mercadorias recebidas, que eram mantidas
transações comerciais com: Manchester, Hamburgo, New York, Paris,
Liverpool, Lisboa, Porto, Gênova, entre outros.
No final do século XIX é evidente a prosperidade dos irmãos José
Rozas e Joaquim Gonçalves de Araújo. Sabemos que José Rozas foi
confirmado em outubro de 1895, como cônsul da Venezuela, com exercício
no Estado do Amazonas27. Joaquim Gonçalves de Araújo, em 1899 já
possuindo o título de Comendador, além de sócio na firma citada,
gerenciava uma Companhia de Seguros instalada na rua Guilherme
Moreira, a Companhia Amazonense. Sobre os demais membros da família
temos algumas informações adicionais como o falecimento de João
Gonçalves de Araújo em meados da década de 1880. Sobre Bernardo
Gonçalves de Araújo & Irmão temos informações seguras de que seus
imóveis em Manaus foram alugados e os valores remetidos para Portugal

27
Relatório das repartições de Estatística. Pg. 21

18
até 1886. Sobre José Gonçalves de Araújo, o primo homônimo, sabemos
que fundou em 1893, em sociedade com Francisco Gonçalves de Araújo, a
firma Araújo & Cia., conhecida por “O Mandarim”, especializada em
artigos para homens, e que funcionou por mais de 50 anos em Manaus.

Foto 2 : Fachada da firma J.G. Araújo rua Eduardo Ribeiro


Fonte: Álbum vistas de Manaus. c. 1910.

1.3 Ascensão da empresa J. G. Araújo em meio a Grande Crise da


Borracha.

Em setembro de 1904 a firma Araújo Rozas & Cia. encerra suas


atividades com a retirada do sócio José Gonçalves de Araújo Rozas28. A
firma então, passa ter nova razão social, e denominar-se J. G. Araújo e
Cia, cuja sociedade era composta pelos irmãos Joaquim Gonçalves de

28
Desconhecemos os motivos da dissolução da sociedade, e o destino que teve José
Gonçalves de Araújo. Acreditamos, porém, que tal como ocorreu com muitos outros

19
Araújo (sócio majoritário) e Manuel Gonçalves de Araújo e seus primos
Antônio Gonçalves de Araújo, e Antônio José de Faria29. Tem inicio então a
terceira fase da empresa que vai de 1904 a 1925, que sob a liderança de
Joaquim G. Araújo, na época com 44 anos, irá se lançar em diversas
atividades, tanto comerciais quanto sociais, dando inicio a construção de
sua imagem associada a da empresa, que passa a ter o seu nome
definitivamente.
Já na primeira década do século XX, a economia da borracha nativa,
extraída quase que exclusivamente dos seringais amazônicos, iria
experimentar sua primeira crise econômica, pela baixa súbita dos preços
dos produtos, causada pela oferta no mercado externo de uma produção
em larga escala de borracha plantada proveniente do oriente, ocorrida
entre 1907 e 1908. Após um pequeno período de “euforia” (1910-1912),
onde o consumo do produto manteve os preços do mercado em alta, a
despeito da entrada em larga escala do produto plantado. A denominada
“ a grande crise” iniciada em 1913, quando os preços da borracha
sofreram sensível queda, e não mais recuperaram os valores do período
áureo onde a exclusividade do produto nativo impunha a elevação dos
preços no mercado mundial30.
Para além dos problemas econômicos vivenciados pela conjuntura
mundial, onde a borracha que era o principal produto exportador do
Amazonas sofreria um grande impacto negativo. O estado também sofreu
no final da década de 1910 com os problemas políticos, onde a sucessão
política viveria uma conturbada eleição.

comerciantes portugueses abastados, depois de alcançada a prosperidade almejada,


tenha voltado a Portugal para gozá-la no convívio dos seus conterrâneos.
29
Em 1892, Antonio José de Faria era sócio de uma Olaria que funcionava em Cacau
Pireira, e em 1895 fez uma hipoteca à firma de Araújo Rozas e Cia., quando passa a
figurar como único proprietário da Olaria. Em anúncio de 1906 do Armazém Rozas (de
propriedade da firma J.G. Araújo) é citada a venda de tijolos e telhas da Olaria de Cacau
Pireira.
30
LOUREIRO, Antônio. A Grande Crise. (1908-1917). Manaus: T. Loureiro e Cia, 1985.
p. 14-15

20
E nessa conjuntura político-econômica, que a cidade que havia sido
modelo de desenvolvimento urbano, com água encanada e telefonia
(desde o Império), rede de esgotos (1895), energia elétrica (1896), entre
outras melhorias31, irá sofrer um grande revés na vivência urbana. A
chamada “crise do lixo”, que já vinha se manifestando já há alguns anos,
ganhou contornos insuportáveis, em 1909. Os problemas causados pelo
grande afluxo de pessoas, atraídas pela economia da borracha, Manaus
passou de 52 mil habitantes em 1900, para cerca de 80 mil habitantes em
1908. Somando-se ao descuido dos governantes. Prejudicando não
somente os cidadãos comuns expostos as doenças, causadas pela
insalubridade bem como os comerciantes que viam seus negócios
associados negativamente a uma imagem de descuido e abandono.
É assim que nos relata, em 1906, um visitante da cidade num jornal
carioca:
a impressão que se tem ao chegar em Manáos (sic) é deplorável,
parece uma cidade em abandono. O capim cresce exhuberantemente
nas ruas, a cidade está cheia de lixo e a falta de asseio é terrível
(...). Que o comércio está em penúria, até mesmo casas fortes
32
como: Andresen, Tancredo Porto e Araújo Rozas

Dessa forma, em 1909, devido o agravamento das condições do lixo


que atraía moscas e outros animais, além do fétido que invadia a cidade,
agravada nos dias quentes, denunciado por vários médicos sanitaristas. O
empresário J. G. Araújo se dirigiu às autoridades municipais e ofereceu a
solução para o problema. Dispôs-se a importar da Inglaterra um forno
crematório automático, que se alimentava da própria combustão do lixo, a
preço de fábrica, sem ônus para a prefeitura de seu transporte e
instalação. E ainda conseguiu que a fábrica inglesa enviasse um técnico

31
LOUREIRO, Antônio. A Grande Crise. P. 33
32
Jornal Amazonas de 04 de janeiro de 1906, reproduzindo artigo veiculado na Gazeta
de Noticias do Rio de Janeiro, edição de 4/01/1906. APUD: TADROS, Vânia Maria Tereza
Novoa. A conveniência da imagem: J.G. Araújo e o exercício do Poder econômico
na Amazônia (1887-1940). Paper datilografado. São Paulo: USP, 1995. p. 14.

21
que ficou em Manaus seis meses, assessorando na montagem da máquina
e construção do pavilhão para o seu acondicionamento33. O aparelho era
um dos melhores da época, e funcionou durante muitas décadas na
cidade. De tal sorte, que podemos observá-lo em fotos originais inseridas
num inquérito sobre o serviço de lixo e limpeza pública apresentado pelo
Dr. Celso Dantas, Delegado Federal de Saúde, em 1943, ao Diretor do
Departamento Nacional de Saúde34 .

Foto 3: “Vista ao longe do forno de incineração estando bem visível a sua chaminé”

Foto 4: “Parte do forno de incineração onde o lixo é depositado diretamente.”

33
BITTENCOURT, Agnello. Dicionário Amazonense de Biografias. p. 275
34
CALDAS, Celso. Serviços de lixo e limpeza pública de Manáus. Inquérito sanitário
apresentado pelo Exmo Sr. Dr. João de Barros Barreto Diretor Geral do DNS pelo
delegado federal de saúde da 2ª região. Manaus: datilografado, 1943. pg. 8-13.V

22
Foto 5: Incinerador tipo Hersfall, instalado em Manaus há mais de 30 anos e em
funcionamento.

Outra questão problemática que envolvia a cidade e que teve a


solução devido à interferência direta do comendador Araújo, foi a
construção do Asilo de Mendicância. Com um número alarmante de
pedintes, em 1909, a cidade via os mendicantes se aglomerando nas
portas das igrejas e comércios locais. A prefeitura buscando dar solução ao
problema inicia a construção de um internato a fim de recolher os
desvalidos e proibir a mendicância. O que de fato, conseguiu fazer,
inaugurando-o em 30 de janeiro de 1910, graças à ajuda da empresa J. G.
Araújo, que além de auxiliar a prefeitura nas despesas da construção,
passou também a mantê-lo, e assim o fez por mais de meio século, sendo
este mais um dos grandes gestos beneméritos do comendador Araújo35.
Num tempo em que não existiam planos de saúde ou mesmo
previdência social ao trabalhador, se podia observar nos registros de
entrada de doentes da beneficente portuguesa, inúmeros pacientes
estrangeiros ou nacionais, cujo tratamento ou internação eram custeados
pela firma J. G. Araújo36. Igualmente, se observava o seu apoio na

35
BITTENCOURT, Agnello. Dicionário Amazonense de Biografias, p. 274-5.
36
Infelizmente, os primeiros registros da mais antiga instituição de saúde de Manaus
desapareceram. Motivados pela necessidade de abrir espaço para outras atividades, os

23
educação de vários jovens na cidade. Nesse sentido, o colégio D. Bosco,
dos salesianos, recebia subsídios regulares da empresa J. G. Araújo.
Mantendo o comendador inúmeros meninos como seu benfeitor.
Voltando ao lado empreendedor de J.G Araújo e de seus resultados
para o incremento da região. Podemos observar sua inserção nas
atividades promotoras de desenvolvimento comercial e industrial, como
por exemplo, sua participação na diretoria na Associação Comercial do
Amazonas, atuando de forma a auxiliar nas questões emergentes no
cenário econômico no qual se viam envolvidos todos os grandes
empresários locais. Com a reestruturação da Associação Comercial em
1908, promovida por seu presidente Waldemar Scholz, foi estabelecida
uma contribuição para manutenção da entidade. E a empresa J. G. Araújo
figurava na lista de empresas contribuintes de 1% sobre vales em ouro
comprados pelo banco do Brasil37. Joaquim Gonçalves Araújo foi eleito
entre outros tantos cargos na ACA, para segundo vice-presidente em
1913/14 e presidente em 1914. Todavia teve que se afastar da
presidência, voltando a assumir novamente o cargo em 1926.
Participou também da fundação da Câmara Portuguesa de
Comércio e Indústria de Manaus, em 1916, cuja presidência logo foi
assumida por J. G. Araújo, tendo por vice-presidente outro importante
conterrâneo José Claúdio Mesquita38. A instituição tinha como objetivo
estreitar as relações comerciais entre os dois países, e “fazer progredir as

livros foram descartados. No entanto, tive o prazer de pesquisar no seu acervo em 1988,
ainda completamente intacto, com todos os livros desde 1873 até aquela data. Hoje, o
mais antigo registro remonta a década de 60, e não sabemos se ainda irão resistir a mais
uma ação provocada pela “modernidade”. Nos livros de registros pude observar os
inúmeros pacientes cujos leitos eram pagos pela firma J. G. Araújo.
37
LOUREIRO, Antonio. A Grande Crise. p. 45
38
Grande defensor do plantio da borracha foi o idealizador e fundador do seringal Miry
nas cercanias de Manaus, como um projeto pioneiro de plantio da seringa.

24
exportação dos produtos comerciais e industriais portugueses para o
39
importante mercado do Amazonas” .
Não é nossa intenção aqui discorrer profundamente sobre o impacto
e os efeitos na economia regional do declínio da economia da borracha, a
partir da década de 1920. Já sobejamente estudada tanto por
pesquisadores brasileiros como Samuel Benchimol, Djalma Batista e
Roberto Santos, bem como estrangeiros, como Bárbara Weinstein, só para
citar alguns.

Nosso escopo nesse trabalho é resgatar através da memória


empresarial da firma J. G. Araújo e de seus proprietários, como já
afirmamos anteriormente, não somente a sua história no período do
fausto, mas, principalmente, compreender a sua sobrevivência após o
período de retração econômica, observar sua dinâmica e capacidade
empresarial, e através dela contribuir com as gerações futuras, como é
possível superar as adversidades e manter-se bem sucedido.

Enquanto a participação e prestígio do Comendador Joaquim de


Araújo crescia no meio da classe empresarial amazonense. Também
crescia a sua participação nas atividades tanto comerciais quanto
industriais. Consolidando-se na fase inicial da empresa, no século XIX,
como vimos como grande casa aviadora, dominante do comércio interior,
aquela que fornecia as condições de negociação da seringa com as casas
exportadoras, que eram dominadas por empresas estrangeiras. Também
foi entre os anos de 1914 a 1916 que a empresa assumiria a liderança
entre os estabelecimentos locais no recebimento da borracha (quadro 3).

39
Revista da Associação Comercial do Amazonas (ACA), número 98, de 10 de agosto de
1916.

25
QUADRO 3
Movimento do recebimento de Borracha da empresa J.G. Araújo (1910-1916).
Valor em £
Qtd borracha Valor em £
Ano atualizada
recebida em Kg corrente
(1992)
1910 766.952 502.353 25.765.685
1911 928.431 382.513 19.619.091
1912 1.054.492 400.706 19.818.918
1913 1.019.321 290.506 14.368.426
1914 1.335.549 275.123 13.607.583
1915 1.725.907 145.181 5.744.812
1916 1.997.211 479.330 16.191.767
Totais 8.827.863 2.475.712 115.116.282
OBS: Valores em libras esterlinas correntes e atualizados.
FONTE: Índice de Great Britain Price Indez (Fonte: BENCHIMOL, 1994)

Embora a tônica da empresa fosse à virada do século XX, o


recebimento da borracha vinda dos seus agentes do interior, e a
exportação do produto fosse ainda tímida. A diversificação da empresa já
dava os seus passos, envolvendo-se no atendimento ao mercado externo,
a empresa passa a exportar outros produtos como a castanha, pirarucu e
tartaruga para a Inglaterra, Alemanha, Espanha e E.U.A. Bem como para
os estados brasileiros, exportando piaçaba, tucum, salsa, copaíba, couro
de animais e de peixes, etc40. E em 1916, assumiria o sexto lugar de
grande exportador de borracha.
Em 1910, junto a outros acionistas, participa da criação da empresa
Jutahy S.A, atuante no rio Jutaí41, passando a acionista majoritário da
empresa. Em 1913, a empresa recebeu menção honrosa na Exposição

40
DIAS, Ednéia M. J. G. um estudo da importância de uma empresa comercial na
economia da região amazônica. Boletim informativo do Museu Amazônico. Manaus,
v.3. n.3. jul/dex. 1992. p-7-15.
41
MUSEU AMAZONICO, Registro de acionista - mov. de ações- Emp. Jutahy S. A. (1910-
1917.)

26
Nacional de Borracha realizada no Rio de Janeiro42. E funcionou
seguramente até a década de 30.
Destacamos ainda que a empresa J. G. Araújo e Cia (1904-1925),
durante seu funcionamento abriu várias filiais. Numa época em que muitas
empresas estavam fechando suas portas, ou transferindo-se para outras
regiões, a estratégia de J.G. Araújo, além da diversificação dos negócios
conforme iremos relatar foi descentralizar sua empresa. Criando filiais em
Iquitos (Peru), Porto Velho (rio Madeira), Santa Izabel ( rio Negro) e Vista
Alegre ( rio Branco). Expandindo sua empresa para regiões onde pudesse
assegurar o controle das transações comerciais diretamente com o
produtor, e assim, garantir não só o acesso aos produtos regionais, bem
como evitar a concorrência.
Outra estratégia consistia na compra de propriedades fora de
Manaus, apostando na expansão de novos negócios, como lotes de terras
e fazendas no Rio Branco. Instalando-se a empresa na região, do que
hoje é o atual estado de Roraima, em meados da década de 1910, detinha
a empresa o monopólio do transporte fluvial entre o rio Branco e Manaus,
e já manifestava o seu interesse na atividade pecuária, que iria ganhar
um grande incremento nas décadas seguintes.

42
Revista da ACA, nº 68 e 69, de 1914.

27
Foto 6: Fachada dos “Armazéns Rosas” de J. G. Araújo. Av. Eduardo Ribeiro.
Fonte : Álbum de 1920. Acervo CCPA.

Foto 7 Fachada dos “Armazéns Rosas” de J. G. Araújo. Rua Marechal Deodoro.


Fonte : Álbum de 1920. Acervo CCPA.

28
Duas grandes ações merecem destaque neste período, primeiro que
foi a entrada da empresa J.G Araújo na industrialização da borracha, visto
ter sido a pioneira no beneficiamento e industrialização da borracha no
Amazonas, enquanto as demais empresas estavam voltadas para a
exportação do produto bruto e não em transformá-lo em produto acabado.
Assim em 1922, foi fundada a Usina “Rosas” na Rua Joaquim Sarmento.
A outra ação veio no rastro da nova tecnologia, com o advento do
cinema, instigado por seu jovem filho Agesilau, amante da fotografia, e
aliado ao seu grande senso de marketing, em 1920, J. G. Araújo contrata
o cineasta português Silvino Santos, residente em Manaus43. E junto às
demais secções já em funcionamento na empresa (exportação, estivas,
fazendas e ferragens) abriu uma secção cinematográfica na empresa, cuja
direção deixou a cargo de Silvino Santos, até 1934, quando foi desativada.
O interesse pela fotografia de Agesilau Araújo proporcionou mais
tarde, a abertura de uma loja, a Manaus Arte, especializada em
equipamentos cinematográficos e fotográficos. E é de sua autoria a
organização de um álbum de fotografias originais, que trata da
comemoração da inauguração da linha de navegação portuguesa Manaus-
Hamburgo, oferecido à Direção geral dos Transportes Marítimos do Estado
do Amazonas pela casa J. G. Araújo em agosto de 1920, com diversas
fotos da empresa, que devido a sua originalidade e ineditismo
reproduzimos algumas abaixo (fotos 8 a 10)44:

43
SOUZA, Marcio. Silvino Santos. O cineasta do ciclo da borracha. Rio de janeiro:
Funarte, 1999. p. 77-80.
44
Álbum comemorativo 1920. Acervo do Centro Cultural Povos da Amazônia.

29
Foto 8: Sessão de ferragens e tecidos da Firma J. G. A.
Fonte : Álbum de 1920. Acervo CCPA.

Foto 9. Sala de estivas e miudezas da Firma J. G. A.


Fonte : Álbum de 1920. Acervo CCPA.

30
Foto 10: Depósito de mercadoria da firma J. G. Araújo. Na Rua Joaquim Sarmento
Fonte: Álbum de 1920. Acervo CCPA.

Sem dúvida nenhuma, a obra de maior impacto de Silvino Santos em


pareceria com Agesilau de Araújo foi o longa-metragem No país das
Amazonas, feito para ser apresentado no Centenário da Independência,
no Rio de Janeiro em 1922, como uma propaganda da empresa e do
potencial da região. Como podemos verificar pelas sinopses apresentadas
pelos jornais da época:

Inicia-se com vários aspectos da cidade de Manaus, vendo-se em


pleno funcionamento seu belo porto com dois grandes paquetes de
longo curso atracados ao flutuante e outros pequenos de cabotagem,
os armazéns da Manaus Harbour em carga e descarga, os principais
estabelecimentos comerciais e industriais e outros. Daí, o espectador
se transporta aos grandes lagos do Amazonas... pesca do peixe-boi e
do pirarucu e o beneficiamento da carne destes habitantes das águas
amazônicas... mixira e mantas secas ao sol... extração da balata do

31
Rio Branco e o preparo do látex. Termina esta parte com a exibição
de um grupo de índios e índias peruanas, terrivelmente... decotadas,
segundo a legenda do filme. Essa primeira série finaliza mostrando o
que são os esplêndidos campos de criação do Rio Branco. (Estado
do Pará, Belém, 28.12.1922)45

Vêem-se os pescadores do pirarucu e do peixe-boi, os trabalhos dos


castanhais, os seringueiros, a vida rústica do sertanejo do extremo
norte, as nossas riquezas florestais, os rios, as feras fluviais e as
aves pulcras e elegantíssimas; o castanheiro colosso com as suas
saborosíssimas amêndoas dependuradas e coroado de orquídeas...
Depois vamos até Porto Velho no Madeira, até a divisa com a Bolívia,
e vemos então a famosa estrada dos trilhos de ouro, a Madeira -
Mamoré... Oferece a fita aspectos de Maués... o preparo do
guaraná... desde a sua colheita até a modelagem das figuras que tão
apreciáveis já se tornaram nos centros civilizados... Vamos subir o
Rio Branco, onde a beleza do filme requinta na delicadeza de sua
confecção... Depara-se-nos a Pedra Pintada, mole de granito que
tem a altura de 150 metros... O espetáculo mais impressionante
está para o fim. O regresso da expedição a Manaus, numa frágil
embarcação a vapor, por sobre cachoeiras perigosíssimas, constitui a
parte épica do filme. (A Imprensa, Manaus, 16.12.1922)

Com o aporte da firma J. G. Araújo foi possível que o dispendioso


longa-metragem fosse filmado nas seguintes locações: Manaus (AM); Rio
Madeira (AM); Rio Purus (AM); Ayapuá (AM); Maués (AM); Porto Velho
(RO); Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (RO); Rio Branco ( RR). E depois

45
Informações sobre filmes brasileiros produzidos entre 1897 a 2007 (longas-metragens,
curtas-metragens, cinejornais e filmes domésticos). A presença de registros não
pressupõe existência de materiais no acervo da Cinemateca Brasileira.
http://cinemateca.gov.br/cgi-bin/wxis.exe/iah/

32
para a edição do filme foi montado um laboratório completo com os
melhores equipamentos disponíveis, capaz de produzir reduções e
viragens na imagem, além de muitas películas apropriadas para suportar o
forte calor da região46. De acordo com a pesquisadora Selda Vale, foi o
“primeiro longa metragem rodado inteiramente no Amazonas, o mais
expressivo documento visual da Amazônia dos anos 20”47 , sendo um
sucesso onde foi exibido, em diversas capitais brasileiras, esgotando as
lotações. Na Exposição do Centenário foi o único a merecer a medalha de
ouro. E por ter versões em francês, inglês e alemão, foi também exibido
na Europa e Estado Unidos.

Foto 11: Capa do folheto de divulgação do filme. Rio de janeiro, 1923.


Fonte: VALE, Selda. Eldorado de Ilusões.

46
VALE, Selda. Eldorado de Ilusões. Cinema e sociedade : Manaus (1897/1935).
Manaus: Edua, 1996. pg. 145 e passim
47
VALE, Selda. Verbete Silvino Santos. Enciclopédia do cinema brasileiro, Pag 497

33
1.4 A consolidação do Império J. G. Araújo.

Em 1925 inicia a última fase da empresa na qual estará a frente o


seu criador. Com 65 anos de idade, J. G. Araújo reorganiza a empresa e
prepara a sua sucessão. Funda então uma nova empresa, a J. G. Araújo
e Cia. Ltda.(1925-1989), cujos sócios cotistas são sua esposa e seus
filhos, por ordem crescente: Joaquim Gonçalves de Araújo (180 cotas);
Agesilau de Araújo (60 cotas); Aloysio de Araújo (40 cotas); Maria
Adelaide (40 cotas); Aleth de Araújo (20 cotas) e Adelaide de Araújo (20
cotas). A gerência dos negócios estava a cargo do sócio majoritário
Joaquim Gonçalves de Araújo, e na sua ausência respondia o sócio
Agesilau de Araújo e/ou Aloysio de Araújo48. A empresa tinha como
objetivo: o comércio, comissões e consignações, importação e
exportação, compra e venda de mercadorias e gênero industriais.
Embora assinalasse já o futuro comando da empresa aos filhos, e os
houvesse educado para isso nas melhores escolas da Europa, Agesilau de
Araújo possuía cursos de comércio feitos na Suíça e Inglaterra e Aloysio de
Araújo se formara em arquitetura e engenharia pela Escola Politécnica de
Zurique (Suíça)49. Não prescinda o comendador J. G. de Araújo de ser
assessorado por um colegiado de seis procuradores, que atuavam também
durante sua ausência e viagens ao exterior50.
A composição de uma empresa familiar, apoiada no trabalho
dedicado de seus membros, tenha talvez sido a grande força da empresa,
aliada é claro ao tino empresarial do seu fundador e a sua capacidade de
superar os obstáculos, investindo sempre na região. O que proporcionou a

48
JUCEA, Registro de Contrato Social da firma J.G. Araújo e Cia Ltda. 30 de junho de
1925.
49
BITTENCOURT, Agnello. Dicionário Amazonense de Biografias. p. 274
50
BENCHIMOL, Samuel. Manáos-do-Amazonas. Memória empresarial. pg. 10 .
Aloysio Araújo também projetou a atual sede da Associação Comercial e o prédio do
Atlético Rio Negro Clube.

34
empresa J. G. de Araújo sua sobrevivência após a retração da economia
da borracha.
A Usina Rosas, que marcou a entrada da empresa na dinâmica a
industrialização, necessitava ser ampliada, de forma que foi transferida
para novas instalações na Vila Rosas, onde passou a funcionar com a
denominação de Fábrica Brasil Hévea (1926). Construída sob a
supervisão de Aloysio de Araújo, em amplo terreno, na ilha do Caxangá ao
lado da antiga penitenciária da sete de setembro (onde hoje funciona o
supermercado Makro).

FOTO 12: Fábrica Brasil Hévea


Fonte: Guia turístico e comercial de Manaus. 1932.

35
FOTO 13: Fábrica Brasil Hévea
Fonte: Álbum Municipal de Manaus. 1929.

A fábrica foi um marco na cidade, aparecendo em muitas fotografias


e álbuns que ilustram a cidade desta época (foto 12 e 13), pelo seu
imponente prédio. Com o objetivo de beneficiar a borracha e produzir
lâminas de crepe e artefatos, visando o mercado nacional, foi a maior
fábrica brasileira do gênero e o primeiro grande empreendimento industrial
local. Nela funcionava um fábrica de sola para calçados, um curtume, que
aproveitava os couros vindos do baixo Amazonas e do rio Branco, uma
serraria elétrica, com sistema hidráulico próprio, e uma vila operária, com
casas para os operários da fábrica. Num prédio de três andares, foram
instalados no térreo os escritórios e depósitos, e também onde as
máquinas para a lavagem da borracha bruta, acionada por motores
ingleses e alemães, e os tanques para lavagem; no primeiro andar,
funcionava a secção de embalagem, e no segundo uma grande estufa de
secagem. Em 1930 a fábrica já produzia além da borracha lavada e crepe
de borracha, também válvulas, tapetes, passadeiras e chinelas a cores51.

51
REVISTA da ACA, nº134, 18.06.1926 e nº 139, de 25.11.1926; nº170 10.02.1930

36
A grande depressão econômica iniciada no ano de 1929 nos Estados
Unidos, cujos efeitos repercutiram por todo o mundo, também atingiu a
região amazônica. Afetando tanto os exportadores, com a queda dos
preços da borracha devido ao aumento dos estoques mundiais do produto,
quanto o comércio local, com a redução do consumo. Efeitos que se
prolongaram até 1934, quando o preço do quilo da borracha havia
atingindo valores muito baixos.
Então, há pedido da Associação Comercial, em 1934, o Estado do
Amazonas autorizou a exportação da borracha na forma de pelas (vide
foto 14)52 para outros estados do Brasil, visto que o pólo industrial de São
Paulo vinha consumindo crescentemente o produto, adquirido do Pará e do
Acre, por conta da proibição do Amazonas de exportar produtos que não
fossem beneficiados e encaixotados53. De acordo com Loureiro, a indústria
nacional de borracha possuía 40 fábricas, estabelecidas em São Paulo, Rio
de Janeiro, Rio Grande do Sul, Pará e Amazonas, sendo que a firma J. G.
Araújo Cia e Ltda, era a única do Amazonas presente nesta listagem.

Foto 14: Armazém de Borracha nº 1, da Firma J. G. Araújo

52
Produto ainda bruto sem beneficiamento.
53
LOUREIRO, Antonio. Tempos de Esperança. (1917-1945). Manaus: Gráficas Cardoso,
1994. pg. 49

37
São ainda exemplos de diversificação empresarial do grupo J. G.
Araújo, a abertura da firma Manacapuru Industrial Ltda. (1929-1959).
Inicialmente, fazendo parte da sociedade por cotas: Aloysio de Araújo
(50%); Joaquim Gomes Loureiro (25%) e Antônio Dias Couto (25%). A
firma operava como uma serraria em Manacapuru, contando com o
maquinário e uma embarcação. Como operou com prejuízo até 1932,
assumiu a empresa, o comendador Joaquim Gonçalves de Araújo, com
75% das cotas da serraria, e Joaquim Gomes Loureiro com 25%, e a partir
de então, começa a operar com lucro. Tornando-se a empresa, em 1933,
numa fábrica de pregos, com serraria em Manacapuru, outra em Manaus,
duas lanchas, e um batelão.
Em 1935 a empresa participa da exposição do Centenário
Farroupilha, onde foi premiada. Com o falecimento do sócio Joaquim
Loureiro, em 1936, a firma se dissolve e é reorganizada, passando a
serem sócios: Aloysio de Araújo, Antonio Gomes Loureiro e Joaquim
Gonçalves de Araújo. Torna-se exportadora de madeiras na década de 40.
Em 1955, com 43 empregados, foi encerrada as atividades de serraria,
mantendo somente a fábrica de pregos em Manaus, na Rua Izabel, para
onde foi transferido o escritório. Em 1959 encerra suas atividades54.
Os investimentos da empresa no setor da pecuária foram enormes,
tanto em bens de raiz, como as fazendas adquiridas no Rio Branco, quanto
em criação cavalar e vacum. Iremos citar aqui dois exemplos de fazendas
adquiridas na década de 1920: Fazenda Serra da Lua: possuía uma área
de 977.622.500m2. Em 1932, esta fazenda contabilizava 1.039 cabeças de
gado bovino e 282 cabeças de gado cavalar. Fazenda Flechal: cuja área

54
Museu Amazônico. Documentos diversos da empresa Manacapuru Industrial Ltda.

38
equivalia a uma extensão de 1.127.497.500m2. Em 1932 esta fazenda
possuía 16.593 cabeças de gado bovino e 1880 cabeças de gado cavalar55.

Foto 15: Embarcação empregada no transporte de gado.


Fonte: Álbum de 1920. Acervo CCPA.

Dentre as diferentes atividades que atuava a empresa, destacamos a


área de fabrico de massas e panificação, através da Fábrica Rosas
(1929), antiga fábrica Bijou, situada na av. 7 de setembro; a área de
farmácia, com a Drogaria Rosas, que se manteve no grupo empresarial
até 1989. Na década de 30 o grupo J. G. Araújo adquiriu em Parintins o
controle acionário da Sociedade Japonesa de Maués, criando a empresa
Companhia Industrial Amazonense S.A (1936), que atuava na cultura
da Juta, e que chegou a ter filiais em Manaus, Itacoatiara, Santarém,
Belém e Recife. Nessa mesma época a J. G. Araújo Cia Ltda, possuía ainda
uma fábrica de Conservas; uma usina de beneficiamento de Castanha;

55
SOUZA, Antonio Klinger da Silva. COMÉRCIO, ACUMULAÇÃO E PODER: A empresa J.G
Araújo & Cia. Ltda em Boa Vista do Rio Branco. Dissertação de Mestrado em andamento.
UFAM/ PPGSCA. 2010. Cap. 2. pg. 56. Mimeo.

39
uma oficina mecânica, com caldearia e usinagem de peças e uma
tipografia.
Ainda temos a Vila Rosas (1931-37), em Manaus, onde funcionava
o laboratório Rosas, que produzia a partir do pau rosa, a essência que era
muito importante na fabricação de perfumes, estando subordinada à
empresa J.G. Araújo, cuja cota em 1932, foi limitada a 10,4 toneladas do
produto, o que correspondia a 13% do total permitido56. Mais tarde, ainda
no campo da extração do pau rosa, adquiriu a Empresa Industrial
Agrícola Ltda (1939-1952), pioneira na produção do pau rosa em
Parintins (1926), passando então a sociedade a ser gerida por Agesilau de
Araújo (majoritário) e Neusa Souza de Araújo, com direito a denominação
e cessão de direito de consorcio de essências vegetais. Em 1940 a
empresa controlava a plantação de 1.178 pés de pau rosa, tendo em seu
patrimônio ainda a lancha Hydra. Em 1950 começou a dar prejuízo sendo
então dissolvida em 195257.
Em 1942, observamos um aditivo interessante na cláusula 30 do
contrato primitivo, de 1925, da empresa J.G. Araújo Cia Ltda. Onde era
acrescentado aos objetivos da sociedade: o comércio de compra e venda
de ouro e pedras preciosas58. Em 1946, ocorreu a abertura da filial do Rio
de Janeiro, além daquelas já existentes. Por fim, a empresa atuava na
área de transportes fluviais, com a firma Sociedade de Comércio e
Transportes Ltda (1947), que possuía uma frota de mais de 50
embarcações. Mesmo com toda a diversificação comercial e industrial, os
negócios com a borracha não haviam cessado. Criada a J. G. Araújo
Borracha e Gomas S.A (1944). Sucedida mais tarde pela Macapá
Comércio e Industria agrícola extrativa S.A (1953), que cuidava da
industria extrativa de borracha, em Sena Madureira (Acre).

56
Revista da ACA, nº 176, de 20 de maio de 1932.
57
Museu Amazônico. Documentos diversos da empresa Industrial Agrícola Ltda.

40
1.5 Considerações finais.

No ano de 1940, faleceu o comendador Joaquim Gonçalves de


Araújo, em Lisboa, com 80 anos. Com o seu trabalho e capacidade
administrativa, por quase 70 anos, deixava constituído um império
comercial e industrial na Amazônia, que sobreviveria ainda muitos anos
após a morte de seu criador. Levando o nome de J. G. Araújo a ser
respeitado não apenas na região, mas, fora dela. Deixando mais do que
um legado mercantil para a região, mas, sobretudo, um exemplo de
perseverança, competência na gestão dos negócios, reinventando, se
atualizando, diversificando, e apostando nas riquezas desta região.
É bem verdade que quando em 1989, seus descendentes começaram
a encerrar várias atividades da empresa, que ainda estavam em
funcionamento: como os supermercados Pag e Lev (seção de estivas), a
Importadora Tropicália, as Drogarias Rosas e o escritório de compras no
Rio de Janeiro, visando preservar o patrimônio adquirido. A empresa já
não possuía o gigantismo de outrora. Entretanto, os tempos eram outros,
a região havia passado por várias modificações e de incremento a
economia, do pós-guerra à Zona Franca e por fim o Plano Collor.
Somando-se a isso, a família que nos anos 40 e 50 havia perdido
vários membros importantes da gestão da empresa, como Aloysio de
Araújo, Joaquim de Souza Araújo e Felipe de Araújo. Também sentia a
mudanças dos ventos, se podemos assim dizer, a forte concorrência e a
ausência de sucessores capazes de cobrir todas as frentes, levou a
empresa a reduzir suas ações. Mas, acreditamos que embora não fosse
mais a potência que havia sido nos anos 20 e 30. A empresa J. G. Araújo
escreveu sua história nesta cidade. E para tanto, não pode ser esquecida.

58
JUCEA, Aditivo ao contrato. De 24/12/1942.

41
Como bem, defendia o Dr. Agnello Bittencourt, em 1973, “o governo do
Amazonas está a dever à sua memória, uma estátua de bronze erguida
em uma das praças de Manaus – coração de um povo agradecido”59.
Esperamos ter com este trabalho contribuído um pouco mais para que a
memória de J. G. Araújo continue viva, e seu legado possa ser conhecido,
pelas gerações vindouras.

59
BITTENCOURT, Dicionário Amazonense de Biografias. p. 276

42
1.6 Fontes

Arquivo Público do Amazonas (APAM):

Manuscrito 1872, número 2. Maio e Julho de 1872.

Associação Comercial do Amazonas (ACA):

Revista da ACA, nº 68 e 69, de 1914.

Revista da ACA Nº 98, de 10 de agosto de 1916.

REVISTA da ACA, nº134, 18.06.1926 e nº 139, de 25.11.1926;

REVISTA da ACA nº170 10.02.1930

Revista da ACA, nº 176, de 20 de maio de 1932.

Centro Cultural Povos da Amazônia (CCPA):

Álbum vistas de Manaus. c. 1910.

Álbum comemorativo 1920.

Guia turístico e comercial de Manaus. 1932

Instituto Geográfico Histórico do Amazonas (IGHA):

Jornal O Amazonas, 03/01/1875.


Jornal O Amazonas, 03/02/1875.
Jornal O Amazonas, 05/07/1876.
Jornal O Amazonas, 27/08/1876.
Jornal O Amazonas de 19/01/1877.
Jornal O Amazonas, de 9 /02/1877.
Jornal A Crítica de 21 de junho de 1957

43
Junta Comercial do Amazonas ( JUCEA):

Registro de Contrato Social da firma J.G. Araújo e Cia Ltda. 30 de junho de 1925.

Museu Amazônico. Acervo J. G. Araújo:

Documentos diversos da empresa Industrial Agrícola Ltda.

Documentos diversos da empresa Manacapuru Industrial Ltd.

Documentos diversos da Fábrica Rozas.

Livro Diário 1, Balanço da Firma de 23 de fevereiro de 1879.


Livro Razão 1. (1879-1880), Rozas & Irmão e Cia.
Livro Caixa (1879-1883). Rozas & Irmão e Cia.
Registro de acionista - mov. de ações- Emp. Jutahy S. A. (1910-1917.)
Série correspondências (1879-1886)
Série documentos de ordem imobiliária e territorial - Recibos de imposto predial.

1.7 Referencias bibliográficas

ALVES, Márcia Eliane dos Santos. História em microconexões: os


intricados laços comerciais da família Araújo. In: Amazônia em cadernos.
Manaus: Museu Amazônico/ UFAM. v. 2, n. 2/3, p. 243-249, dez.
1993/1994.

BENCHIMOL, Samuel. Manáos-do-Amazonas. Memória empresarial.


volume I. Manaus: Governo do Estado, 1994.

CALDAS, Celso. Serviços de lixo e limpeza pública de Manáus.


Inquérito sanitário apresentado pelo Exmo Sr. Dr. João de Barros Barreto
Diretor Geral do DNS pelo delegado federal de saúde da 2ª região.
Manaus: datilografado, 1943. pg. 8-13.V

44
DIAS, Ednéia M. J. G. um estudo da importância de uma empresa
comercial na economia da região amazônica. Boletim informativo do
Museu Amazônico. Manaus, v.3. n.3. jul/dex. 1992. p-7-15.

LOUREIRO, Antônio. A Grande Crise. (1908-1917). Manaus: T. Loureiro e


Cia, 1985.

LOUREIRO, Antonio. Tempos de Esperança. (1917-1945). Manaus:


Gráficas Cardoso, 1994.

SANTOS, Roberto. História econômica da Amazônia (1850-1920).


São Paulo: T. A. Queiroz, 1990.

SOUZA, Marcio. Silvino Santos. O cineasta do ciclo da borracha. Rio de


janeiro: Funarte, 1999.

SOUZA, Antonio Klinger da Silva. COMÉRCIO, ACUMULAÇÃO E PODER: A


empresa J.G Araújo & Cia. Ltda em Boa Vista do Rio Branco. Dissertação
de Mestrado em andamento. UFAM/ PPGSCA. 2010. Cap. 2. pg. 56.
Mimeo.

VALE, Selda. Eldorado de Ilusões. Cinema e sociedade : Manaus


(1897/1935). Manaus: Edua, 1996.

VALE, Selda. Verbete Silvino Santos. Enciclopédia do cinema


brasileiro.

TADROS, Vânia Maria Tereza Novoa. A conveniência da imagem: J.G.


Araújo e o exercício do Poder econômico na Amazônia (1887-
1940). Paper datilografado. São Paulo: USP, 1995.

WEINSTEIN, Bárbara. A Borracha na Amazônia: expansão e


decadência (1850-1920). São Paulo: Hucitec, 1993.

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