Você está na página 1de 4

Há 30 anos, o jornalista e advogado baiano Carlos Alberto Caó de Oliveira inscrevia na

história brasileira as bases para o combate ao racismo e à discriminação racial. Ele se


dedicou a promover a democracia, levando em conta a situação da população negra no
país. Falecido ontem (4), aos 76 anos, é lembrado como ícone da luta antirracista por ter
incluído na Constituição de 1988 o racismo como crime inafiançável e imprescritível e
por, no ano seguinte, ter aprovado a Lei 7.716, que ficou conhecida como Lei Caó, em
sua homenagem.

A lei tornou crimes a discriminação racial e as diversas formas de preconceito, com


penas de prisão que hoje variam de dois a cinco anos, além de multa. Antes, vigorou por
30 anos, a Lei Afonso Arinos, de 1951, pouco efetiva, por não prever punição a esses
crimes.

No Congresso Nacional, os debates e as mobilizações para a aprovação das matérias não


foram fáceis. A jornalista Norma Nery, à época, correspondente do jornal Zero Hora,
em Brasília, conta que, durante a Assembleia Constituinte, testemunhou o empenho do
deputado em convencer os colegas. “Tivemos uma convivência estreita e lembro que
Caó enfrentou muita dificuldade para aprovar aquela emenda e depois a lei”, recorda.
“Ele ia atrás de um por um. O deputado ia para comissão, ele ia atrás, contava os votos.
Teve todo um trâmite porque havia muita resistência, ninguém acreditava em racismo,
houve um duro trabalho de convencimento”.

Carlos Alberto Caó incluiu o racismo entre os crimes inafiançáveis quando foi deputado
constituinte.Reprodução TV Brasil

No próprio discurso, no dia de aprovação da emenda, por 521 votos a favor e três
contrários, em 2 de fevereiro de 1888, Caó convocou parlamentares a construir uma
democracia em que a população negra estivesse representada, depois de três séculos de
escravidão.

“É indispensável que tenhamos em conta de que a construção do Estado Democrático se


inicia pela superação das discriminações raciais, pela superação dessa tentativa de
classificar o homem pela cor da pele no mercado de trabalho”, declarou, na tribuna, ao
então deputado Ulysses Guimarães. E desafiou os parlamentares a enfrentarem o status
quo. “Em nome desta nação dinâmica, heterogênea, pluricultural e plurirracial, peço aos
senhores e a este plenário, onde a nação brasileira está desigualmente representada, que
fujamos aos apelos, às pressões e à coerção que o Estado patrimonial brasileiro tem
feito sobre a Nação”.
A deputada federal Benedita da Silva (PT), que junto com Carlos Alberto divide a
autoria e a mobilização em favor da Lei Caó, conta que o ex-deputado se parecia com o
ativista e ex-senador Abdias Nascimento, também do PDT, incansável na defesa da
população negra brasileira. “Ele era um homem muito inteligente, gozador, vivia
puxando aquela barbicha, tinha posturas duras, como Abdias, mas, sobretudo, foi uma
pessoa comprometida com a luta do movimento negro, em defesa da liberdade de
imprensa e dos direitos dos trabalhadores”, lembra.

Ela ainda dividiu atuação com ele em outros momentos históricos, como a defesa dos
direitos da população quilombola, e também do rompimento das relações entre Brasil e
África do Sul, na época em que vigorava o apartheid (regime que separava brancos e
negros) e Nelson Mandela estava preso.

Muito antes de propor a emenda na Constituinte e a lei que recebeu seu nome, Caó foi
influenciado pelas discussões sobre a questão racial dentro de sindicatos e partidos
políticos, lembra a pesquisadora Elisa Larkin, diretora do Instituto de Pesquisas e
Estudos Afro-Brasileiros (Ipeafro). “Antes, a esquerda, em sua grande maioria,
inclusive, os sindicatos, afirmavam que a questão não era racial, era social, econômica,
de classe, e que esse debate dividia a classe operária”.

A autuação de Caó, no entanto, se tornou “um divisor de águas”, explica, a partir da


compreensão de que, sem levar em conta o racismo, uma boa parte da população ficava
para trás. “Quando eu conheci Caó, ele tinha acabado de se convencer disso e levou a
discussão para as entidades de direitos humanos pelas quais transitava”. Naquela época,
o PDT foi um dos primeiros partidos políticos a compreender a importância do tema e
elegeu Caó por dois mandatos.

Antes de chegar ao Congresso Nacional, Caó teve uma carreia brilhante pelos mais
prestigiados jornais da época, chegando ao cargo de editor de economia do Jornal do
Brasil. “Lembro-me dele também como um dos primeiros jornalistas negros na
televisão brasileira, na época, na TV Tupi, como comentarista de economia,
conceituadíssimo”, recordou Nery.

Nessa época, entre 1970 e 1980, assumiu ainda a presidência do Sindicato dos
Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro, por duas vezes, para onde
levou o debate sobre a discriminação no mercado de trabalho, tema discutido até hoje
pela entidade. Paralelamente, participou das articulações que deram origem à Central
Única dos Trabalhadores (CUT). Caó foi ativista desde jovem e, ainda na Bahia, chegou
a assumir a vice-presidência da União Nacional dos Estudantes (UNE), antes de
combater a ditadura e ser perseguido.

Desde a Lei Caó, apesar de entraves, o país tem avançado para punir a injúria racial e
acabar com o racismo institucional, acrescentou o advogado Humberto Adami,
presidente da Comissão da Verdade da Escravidão Negra, da Ordem dos Advogados do
Brasil e ex-ouvidor da Secretaria Nacional de Políticas de Igualdade Racial. Um
exemplo, citou, é o Estatuto da Igualdade Racial, de 2010, do senador Paulo Paim (PT),
também ex-deputado constituinte.
As causas da morte de Caó não foram divulgadas e a família optou por uma cerimônia
de despedida discreta, sem informar local e horário do velório e do enterro ocorridos
hoje (5).

Lei que define crimes de racismo


completa 25 anos
Outras legislações importantes na luta contra o preconceito racial foram criadas, como o
Estatuto da Igualdade Racial (2010).(Joca Duarte/Creative Commons)

Brasília – Foi criada há exatos 25 anos a Lei 7.716, que define os crimes resultantes de
preconceito racial. A legislação determina a pena de reclusão a quem tenha cometidos
atos de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência
nacional. Com a sanção, a lei regulamentou o trecho da Constituição Federal que torna
inafiançável e imprescritível o crime de racismo, após dizer que todos são iguais sem
discriminação de qualquer natureza.

Leia mais:

A lei ficou conhecida como Caó em homenagem ao seu autor, o deputado Carlos
Alberto de Oliveira. A partir de 5 de janeiro de 1989, quem impedir o acesso de pessoas
devidamente habilitadas para cargos no serviço público ou recusar a contratar
trabalhadores em empresas privadas por discriminação deve ficar preso de dois a cinco
anos.

É determinada também a pena de quem, de modo discriminatório, recusa o acesso a


estabelecimentos comerciais (um a três anos), impede que crianças se matriculem em
escolas (três a cinco anos), e que cidadãos negros entrem em restaurantes, bares ou
edifícios públicos ou utilizem transporte público (um a três anos). Os funcionários
públicos, tratado na lei, que cometerem racismo, podem perder o cargo. Trabalhadores
de empresas privadas estão sujeitos a suspensão de até três meses. As pessoas que
incitarem a discriminação e o preconceito também podem ser punidas, de acordo com a
lei.

Apesar da mudança no papel, os negros ainda sofrem racismo e frequentemente se veem


em situação de discriminação. Para o coordenador nacional de Articulação das
Comunidades Negras Rurais e Quilombolas (Contaq), no campo legislativo pouca coisa
mudou desde que a escravidão foi abolida, em 1888. “A realidade continua a duras
penas. Desde o começo, muitos foram convidados para entrar no Brasil, o negro foi
obrigado a trabalhar como escravo”, disse, citando leis como a da Vadiagem, a
proibição da capoeira e o impedimento à posse de terras.

De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios, divulgada em


setembro de do ano passado, 104,2 milhões de brasileiros são pretos e pardos, o que
corresponde a mais da metade da população do país (52,9%). A diferença não é apenas
numérica: a possibilidade de um adolescente negro ser vítima de homicídio é 3,7 vezes
maior do que a de um branco, de acordo com estudo do Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada (Ipea).

De 1989 para cá, outras legislações importantes na luta contra o preconceito racial
foram criadas, como o Estatuto da Igualdade Racial (2010) –, e a Lei de Cotas (2012),
que determina que o número de negros e indígenas de instituições de ensino seja
proporcional ao do estado onde a universidade esta instalada. “Essas são ações muito
importantes de reparação. Tem alguns fatores que a gente ainda precisa quebrar para
que o negro tenha direitos e oportunidades reais”, acredita Biko.

Para denunciar o crime de racismo ou injúria racial, o cidadão ainda não tem à
disposição um telefone em todo o Brasil. Mas unidades da Federação têm criado os seus
próprios, como o Distrito Federal (156, opção 7) e Rio de Janeiro (21-3399-1300).
Segundo Biko, é importante saber quem é de onde são as pessoas que cometem tal
crime. “Sem dúvida, quando mais espaço de denúncia a gente tiver, mais reforça a luta
conta a esse processo de segregação racial que a gente ainda vive nesse país”, avalia.