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Urbanização, marginalidade e dependência: Manuel Castells e Aníbal Quijano

entre Europa e América Latina (1950-1970)

Nilce Aravecchia Botas*


(nilcearavecchia@usp.br; nilce_aravecchia@hotmail.com)
Docente, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Universidade de São Paulo (FAUUSP)

Ana Claudia Veiga de Castro**


(anacvcastro@gmail.com)
Docente, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Universidade de São Paulo (FAUUSP)

Eixo Temático História


S8.6 Ibero América em um contexto global: redes, imaginários e relações trans-
migradas
Trabalho elaborado para apresentação no 8º Congresso Conselho Europeu de Pesquisas
Sociais na América Latina, organizado pelo Instituto de Ibero América, Universidade de
Salamanca, que será celebrado em Salamanca, de 28 de junho a 1º de julho de 2016

Resumo
O conceito de “marginalidade urbana” do peruano Anibal Quijano, e o con-
ceito de “urbanização dependente” do espanhol Manuel Castells, são formu-
lados no início da década de 1970, no âmbito de um amplo debate das ciên-
cias sociais e da história cultural urbana na América Latina, buscando enten-
der e analisar as formas peculiares da urbanização no subcontinente. Este tex-
to pretende discutir a importância do trânsito desses intelectuais entre a Eu-
ropa e a América Latina, como exemplares do processo de produção do co-
nhecimento que tomou por base empírica a cidade latinoamericana.
Marginalidade, dependência, Anibal Quijano, Manuel Castells, Cidade Latino-
americana

Abstract
The concept "urban marginality" of the Peruvian Anibal Quijano, and the
concept "dependent urbanization" of the Spanish Manuel Castells, are both
formulated in the early 1970s, as part of a broad discussion of the social sci-
ences and urban cultural history in Latin America, trying to understand and
analyze the peculiar forms of the urbanization in the subcontinent. This pa-
per discusses the importance of the traffic of these intellectuals between Eu-
rope and Latin America, as exemplary of the knowledge production process
that took as empirical object the Latin American city.
Marginality, dependence, Anibal Quijano, Manuel Castells, Latin American
City

1
Urbanização, marginalidade e dependência: Manuel Castells e Aníbal Quijano
entre Europa e América Latina (1950-1970)

1. Introdução
Os avanços tecnológicos e o desenvolvimento econômico que marcaram as dé-
cadas que se seguiram ao Segundo pós-Guerra, levaram Eric Hobsbawn a chamar as dé-
cadas de 1950 e 1960 de a “Era de Ouro do Capitalismo” – algo denominado por outros
autores de “modelo fordista-keynesiano”, organizado sob um conjunto determinado de
práticas de controle, tecnologias, hábitos de consumo e configurações político-
econômicas. Mas segundo o historiador inglês, somente o distanciamento histórico per-
mitiria divisar as profundas contradições que marcaram aqueles anos dourados do Esta-
do de Bem Estar-Social: o crescimento econômico em nível mundial fez-se acompanhar
de crescimento populacional acelerado, e uma expansão urbana decorrente do intenso
êxodo rural produziu territórios ocupados de forma desordenada, com intensificação das
desigualdades socioeconômicas entre países ricos e pobres. Além disso, a ação política
dos partidos socialdemocratas que ocuparam o poder nos países europeus mais ricos,
revelou-se como a melhor sustentação do sistema capitalista, em troca da oferta de um
bom padrão de consumo para as classes trabalhadoras, sem significar nenhuma trans-
formação estrutural nas bases do sistema. Tais contradições começaram a se tornar mais
perceptíveis ao final da década de 1970 quando, depois da deflagração da crise do petró-
leo, esse modelo de crescimento apresentou seus sinais de insustentabilidade econômica,
ambiental, política e cultural (HOBSBAWN, 1998: 253-81).
Na América Latina, por outro lado, onde um Estado de Bem-Estar Social chegou
a ser ensaiado em alguns países, mas sem de fato conseguir se efetivar, essas transforma-
ções e reajustes do capitalismo teriam efeitos ainda mais perversos. As cidades latino-
americanas, a maioria delas vivendo processos de expansão demográfica sem um lastro
de industrialização efetivo, veriam suas margens se estenderem imensamente, ao acolher
pobres rurais expulsos de um campo que se mecanizava. Periferias surgiam da noite para
o dia, e os pobres urbanos, as chamadas camadas populares, transformavam-se rapida-
mente em camadas marginais do processo de modernização. O processo ganharia desde
então formulações conceituais e programáticas elaboradas, tornando-se um tema da Aca-
demia e dos institutos de pesquisa e planejamento.
O conceito de “marginalidade urbana” do peruano Anibal Quijano, e o conceito
de “urbanização dependente” do espanhol Manuel Castells, são formulados no início da
década de 1970, no âmbito de um amplo debate das ciências sociais e da história cultural
urbana na América Latina, buscando dar conta de entender e analisar as formas da urba-
nização no subcontinente. Este texto pretende discutir a importância do trânsito desses
intelectuais entre a Europa e a América Latina, como exemplares do processo de produ-
ção do conhecimento que tomou por base empírica a cidade latinoamericana. Neste con-
texto, tanto o Peru de Belaúnde Terry (1963-1968) quanto o Chile de Salvador Allende
(1970-1973), tornaram-se polo das discussões que tensionariam as relações entre centro e
periferia, fazendo com que o Terceiro Mundo deixasse sua exclusiva condição de objeto
empírico, para transformar-se em lócus de produção teórica que influenciaria a sociologia
em todo o mundo.

2. Castells e a questão urbana na América Latina


Nascido em Hellín, Albacete, em 1942, Castells inicia seus estudos em Direito e
Estudos Econômicos na Universidade de Barcelona em 1958. A Espanha, naquele mo-
mento, vivia uma das contradição que marcou grande parte do mundo capitalista ociden-

2
tal durante a “Era de Ouro”: os regimes totalitários. A linha dura do regime franquista
levou ao exílio o militante da Frente Obrera de Catalunya, que acabou terminando seus
estudos em Direito Público e Economia Política na Universidade de Paris. Graduado em
1964, obtém seu doutorado em Sociologia na Escola de Altos Estudos em Ciências Soci-
ais de Paris em 1967, mas a identificação do jovem sociólogo com as revoltas de maio de
1968 inviabilizariam sua permanência em Paris.
Por intermédio de seu ex-orientador, Alain Turraine, Castells passaria dois anos
no Chile, ministrando aulas de sociologia. Primeiramente como convidado da FLACSO
(Faculdade Latinoamericana de Ciências Sociais) e depois do CIDU (Centro de Investi-
gaciones em Desarrollo Urbano da Universidad Catolica), o errante espanhol firma a par-
tir daí vínculos duradouros com a América Latina, a despeito de retornar à França em
1970, tornando-se professor na escola onde estudara. É justamente no intenso vai-e-vem
entre a Europa e a América, deslocando-se entre França, Espanha, Chile e EUA, que
Castells sedimenta seus conhecimentos e se consagra como um dos mais influentes teóri-
cos da sociologia urbana. Para essa trajetória certamente contribuiu seu contato com os
intelectuais latinoamericanos que também frequentavam os meios acadêmicos desses paí-
ses.
De 1970 a 1973, enquanto a Espanha ainda estava sob a ditadura de Franco e a
França respirava os desdobramentos do tumultuado maio de 1968, o Chile experimenta-
va o socialismo democrático de Salvador Allende. Esse curto período foi o suficiente pa-
ra que convergissem para esse país inúmeros intelectuais de esquerda que sofriam com
perseguições de governos autoritários em seus países de origem. Castells trabalha ali co-
mo assessor do Governo Allende, intensificando sua percepção empírica sobre os pro-
blemas urbanos, diretamente relacionada a suas formulações teóricas de fundo marxista.
Castells formara-se no ninho dos debates mais acirrados acerca da herança mar-
xista, em uma Paris dos anos 1960 onde se sobressaíam as elaborações estruturalistas
com base na obra de Louis Althusser. Seu orientador, Touraine, esforçava-se para exata-
mente construir uma contraposição ao que julgava ser demasiado hermético e determi-
nista no estruturalismo marxista, buscando nos movimentos sociais e em sua dimensão
histórica um potencial transformador. É nessa perspectiva que se inicia o trabalho de
Castells, que conta ainda com a condição da institucionalização da pesquisa urbana na
França1. Mas a crítica ao hermetismo teórico do estruturalismo encontraria na América
Latina seu grande objeto empírico, já que a possibilidade de superação de condições de
subdesenvolvimento do continente apresentava-se aos intelectuais marxistas como con-
dição excepcional para aliar a base teórica à ação política.
É neste sentido que as precárias condições de habitabilidade dos pobres nas me-
trópoles latinoamericanas serão objeto atrativo para a compreensão dos problemas urba-
nos gerados pelas contradições do sistema capitalista. Nesse processo, as cidades latino-
americanas tornam-se instrumento empírico fundamental para Castells, que da relação
entre teoria e realidade histórica, extrairia seu conceito de “urbanização dependente” no
início da década de 1970.

3. Os pobres na cidade latinoamericana


No momento em que Castells chega ao Chile em 1970, já há naquele país uma
sedimentação dos estudos urbanos e sociológicos, sob influência do pensamento elabo-
rado no interior da Cepal (Comissão Econômica para América Latina e o Caribe) sediada
em sua capital, para onde confluíram estes e outros intelectuais. Alguns autores vêm de-
monstrando como a América Latina, desde a segunda metade do século XIX até meados
do século XX, constituiu-se num fabuloso campo de realizações para profissionais de


1 Sobre os debates sobre cidade na França ver PAQUOT, LUSSAULT & BODY-GENDROT, 2000.

3
inúmeros países que transitaram pelo continente, seja por motivos estritamente profissi-
onais, seja pela condição de exilados em casos de perseguição política ou religiosa (LI-
ERNUR, 2002; GORELIK, 2005; BALLENT, 2004). Entre eles, Adrián Gorelik (2005)
destacou o protagonismo alcançado pela “cidade latinoamericana” como objeto de refle-
xão e de propostas para os intelectuais das mais diversas áreas. Do ponto de vista da so-
ciologia urbana, o olhar recairá no que era então considerado a maior debilidade da cida-
de latinoamericana: a precariedade da moradia dos pobres urbanos.
É possível identificar como desde a década de 1950, nos diversos campos disci-
plinares, começam a surgir elaborações que partiam do olhar específico sobre os assen-
tamentos urbanos caracterizados pela precariedade edilícia e urbana. O imaginário extraí-
do das favelas, das barriadas e das vilas-miserias, servia tanto para as formulações de arqui-
tetos desejosos de se contraporem às soluções genéricas e universais que estavam no cer-
ne dos principais movimentos de arquitetura do século XX, quanto para artistas que, no
embate com aquela realidade, passavam a tomá-la como a sua matéria de reflexão e ela-
boração cultural.
No campo da arquitetura, tais elaborações reivindicavam uma nova identidade,
contra o que se julgava ser os inconvenientes da massiva reconstrução europeia no Se-
gundo pós-Guerra baseada em parâmetros estabelecidos nos Congressos Internacionais
de Arquitetura Moderna (CIAM) (LIERNUR, 2002: 42-43). Entre estas críticas, por
exemplo, os escritos e experimentos do arquiteto inglês John Turner no Peru, no contex-
to do governo de Belaúnde Terry2. Belaúnde, também arquiteto, reunira inúmeros inte-
lectuais nas esferas administrativas, numa tentativa de coadunar reflexões acadêmicas
com a elaboração de políticas públicas, e nesse processo a problemática dos pobres ur-
banos, nas cidades em franca expansão, convertia-se em "questão social" a ser enfrentada
em seu conjunto3. O Peru, e mais precisamente a localização da pobreza na região me-
tropolitana de Lima, também seria um mote para a literatura de Julio Ramón Ribeyro,
que escreve em 1959 o conto “Ao pé da escarpa” (2007), a partir das observações da
vida limenha naquela década, fazendo coro a uma geração de escritores debruçados so-
bre o novo mundo urbano4.
Pode-se aferir desse modo que a ideia de marginalidade social, mesmo que ain-
da que não fosse assim nomeada, já fazia parte, desde a década de 1950, da realidade
que se reverte em proposta de solução habitacional, ou que se expressa por meio da
literatura. Não parece arriscado supor que esse ambiente cultural peruano, que divisa a
pobreza urbana e sua localização na cidade de distintas formas, tenha sido fundamental
para as elaborações de Aníbal Quijano, o sociólogo peruano que no âmbito da Cepal
buscará trazer subsídios para formular o conceito de “marginalidade urbana” na década
de 1960. Quijano buscaria uma precisão sociológica à problemática da localização da po-
breza nas metrópoles do Terceiro Mundo, para entender as consequências do fenômeno
dos grandes assentamentos humanos caracterizados pela precariedade urbana e habitaci-
onal.

4. Aníbal Quijano e a teoria da marginalidade


Formado no início dos anos 1960 na Universidad Nacional Mayor de San Mar-
cos, em 1964 Anibal Quijano obtinha seu doutorado nessa mesma instituição, tendo an-
tes passado pela FLACSO, em Santiago do Chile, onde era professor desde 1962. Em
1967, Quijano retorna ao Chile como pesquisador na Universidad de Chile, tornando-se

2 Suas ideias ganhariam o mundo a partir do livro Todo el poder para los usuarios, publicado em 1977.
3 Para um aprofundamento no governo de Belaúnde Terry, cf. HUAPAYA ESPINOZA, 2013.
4 Angel Rama já notou como a literatura latinoamericana vive um boom “urbano”, deixando para trás o

ensaísmo e o regionalismo que a caracterizará até os anos de 1930. Ramon Ribeyro é um exemplo desta
literatura “encravada no mundo urbano”, como sintetiza o crítico uruguaio (RAMA, 2001).

4
em 1969 professor da Escuela Latinoamericana de Economía (Escolatina). Mas é como
pesquisador do Programa de Investigaciones sobre Urbanización y Marginalidad da Divi-
são de Assuntos Sociais da Cepal, atividade que desempenha entre 1966 e 1971, que o
pensamento de Quijano se encontra ao de Castells.
Em 1966, no ano em que chega a Cepal, o sociólogo peruano publica o texto
“Notas sobre o conceito de marginalidade social”, escrito para uma “discussão interna”
do órgão. Tratava-se de uma espécie de levantamento não sistemático sobre o termo
“marginalidade” na teoria sociológica (QUIJANO, 1978). Como não parecia haver muita
clareza conceitual sobre os significados que o termo carregava, Quijano se propunha a
elencar trabalhos e formas de uso do mesmo, a fim de produzir subsídios para uma ree-
laboração mais precisa do conceito. O sociólogo reconhecia ao menos duas matrizes às
quais o termo parecia se ancorar. Uma, ligada à “teoria da personalidade marginal”, de-
senvolvida pela sociologia de Chicago – inicialmente na obra de Robert Park – que reco-
nhecia a marginalidade como uma marca da personalidade de um indivíduo. A outra ma-
triz, a qual o próprio Quijano se ligava, correspondia a uma “teoria da situação social
marginal” – desenvolvida separadamente da anterior e que se inscrevia numa problemáti-
ca distinta – vinculando o conceito preferencialmente aos grupos sociais e não aos indi-
víduos.
O sociólogo mostra neste texto como a questão da habitação tomara a frente nas
preocupações sociais, talvez por ser o elemento mais visível do problema, convertendo o
“problema da moradia no problema nacional por excelência” em diversos países latino-
americanos daí em diante (QUIJANO, 1978: 19). Mas ao notar que o problema da preca-
riedade da habitação não era exclusivo das áreas fisicamente marginais, podendo ser en-
contrado no centro das cidades – sabe-se como os cortiços/vencindades/conventillos eram
uma realidade muito presente em todas as capitais latino-americanas desde o início do
século XX –, tornava-se inevitável admitir que a questão não era apenas de moradia, mas
sim de um conjunto de precariedades urbanas e urbanísticas históricas. Desse modo, diz
Quijano, “a primitiva conotação física da marginalidade tornou-se um conceito cada vez
menos claramente delimitado” (QUIJANO, 1978: 19), agregando por extensão, a partir
disso, os próprios habitantes, fazendo com que essa população – moradora da periferia
ou do centro – fosse ela mesma entendida como marginal.

5. Entre a urbanização dependente e a marginalidade urbana


Ao publicar o texto “La formación de un universo marginal en las ciudades de
América Latina” em 1971, na revista Espaces et Societés, em Paris, o sociólogo peruano
contribui para consagrar a versão hegemônica do termo “marginalidade” na América La-
tina, propondo tratar-se de um “novo extrato formado da população marginalizada pelo
conjunto do corpo social” (QUIJANO, 1973: 141). Tal artigo ganharia proeminência ao
ser incluído na coletânea Imperialismo y urbanización en América Latina organizada por Ma-
nuel Castells em 1973, consagrando essa versão do conceito.
Assim como o Perú de Belaúnde Terry no final da década de 1950 e início dos
1960 fora propício para a intelectualidade pensar as características, os processos e a loca-
lização da constituição de uma pobreza urbana, o Chile de Allende, nos primeiros anos
da década de 1970, configurou-se como ponto de apoio para os trabalhos que pretendi-
am maior rigor sociológico. Foi nesse contexto que a teoria da “marginalidade urbana”
encontrou seu objeto empírico também já revertido em teoria: a “cidade latinoamerica-
na”. Outro resultado desse movimento teórico-empírico seria o conceito de "’urbaniza-
ção dependente” por Manuel Castells, cujas formulações são publicizadas na mesma co-
letânea, sob o título: “La urbanización dependiente en América Latina”. Os dois traba-
lhos, juntamente aos outros artigos do livro, faziam parte de um esforço maior de pensar
o processo de urbanização na América Latina em suas várias perspectivas. Nessa mirada,

5
a cidade latinoamericana vista em relação às investidas imperialistas, indicava uma cone-
xão direta entre “marginalidade” e “dependência”.
A ideia de “dependência” havia sido gestada desde o início da década de 1960 na
Universidade de Brasília, a partir de um grupo de estudos marxistas que contava com a
presença dos brasileiros Theotônio dos Santos e Ruy Mauro Marini, o norte-americano
André Gunder Frank, entre outros. Em contraposição ao marxismo convencional e tam-
bém ao que consideravam ser a visão dualista presente na CEPAL, esses intelectuais re-
cusavam a dicotomia centro-periferia e o passado colonial dos países latinoamericanos
como as causas centrais do subdesenvolvimento5. Contrapunham-se também à ideia de
que a passagem do subdesenvolvimento ao desenvolvimento seria um estágio a ser ven-
cido na escala de evolução das nações a partir da ação coordenada do Estado. Em conse-
quência, seria impossível uma aliança entre burguesia nacional e proletariado para a supe-
ração do atraso econômico e social – o que para a CEPAL era preconizado como condi-
ção do desenvolvimento. Com o Golpe Militar de 1964 no Brasil, parte desses intelectu-
ais se transferiu para o Chile, onde passaram a se dedicar às interpretações da dependên-
cia em diálogo direto com os integrantes da CEPAL. Esse debate, foi ganhando corpo
desde 1966 até culminar na obra que disseminaria a ideia para amplos espectros do meio
acadêmico, o livro Dependência e Desenvolvimento na América Latina, de Fernando Henrique
Cardoso e Enzo Faletto, publicado em 1973.
Esse também o ano de lançamento da coletânea organizada por Castells. Fernan-
do Henrique Cardoso e Manuel Castells já haviam se encontrado anteriormente em Paris,
mas é a partir da efervescência chilena que o problema da dependência torna-se o debate
sociológico mais influente na América Latina, nos mais diversos campos disciplinares.
Para Castells uma sociedade poderia ser caracterizada como dependente quando a articu-
lação de sua estrutura social, em níveis econômico, político e ideológico, expressasse re-
lações assimétricas com outra formação social que ocupasse o primeiro posto na hierar-
quia das relações de poder entre ambas (CASTELLS, 1973: 16).
Importante destacar que essa interpretação de Castells pressupunha claramente a
manutenção do imperialismo como categoria analítica, diferentemente de outras análises
da dependência6. Assim, em “La urbanización dependiente en América Latina”, o espa-
nhol lançava mão do conceito de marginalidade para se referir ao que seriam as especifi-
cidades da urbanização em um capitalismo periférico, em situação de subordinação aos
países centrais, desde a colonização. A industrialização dependente, ao passo que estrutu-
rava o desenvolvimento econômico periférico a partir das dinâmicas do centro da eco-
nomia capitalista, produzia uma massa de empregados de forma precária no setor de ser-
viços, o que revelava, do ponto de vista estrutural, um “desemprego disfarçado”. A essa
primeira característica da “urbanização dependente” somavam-se outras duas: a grande
concentração de população sem o desenvolvimento equivalente da capacidade produti-
va7; e a relação dessas população com a sua localização no espaço8 (CASTELLS, 1973:
12-14).


5 Em realidade, eles defendiam que desenvolvimento e subdesenvolvimento eram posições estruturais den-

tro da economia mundial que atravessavam, de diversas maneiras, todos os países.


6 Bresser-Pereira identifica ao menos três interpretações da dependência: a superexploração, que admitia a

existência de uma burguesia nacional e do imperialismo; a dependência associada, para a qual a burguesia
local era subordinada às elites dos países ricos e, portanto, não podiam ser caracterizadas como "nacio-
nais", assim como a relação entre países ricos e pobres não podia ser caracterizada de "imperialismo"; a
nacional-dependente, que pressupunha oscilação nos interesses das elites, de acordo com as condicionantes
históricas, ora nacionalistas, ora internacionalistas (BRESSER-PEREIRA, 2010).
7 Migrantes provenientes do êxodo rural que não eram absorvidos pelos sistema econômico das cidades,

traçavam suas estratégias de sobrevivência inserindo-se no setor de serviços, desempenhando toda a sorte
de atividades (CASTELLS, 1973: 12).

6
Para Castells, a segregação intraurbana e a constituição de vastas zonas marginais
em um processo de urbanização selvagem representavam o fato mais surpreendente des-
se mecanismo e que por isso demandava um entendimento profundo, a partir da análise
do percurso histórico que levaria à urbanização dependente, saindo da colonização e
chegando à subordinação imperialista (CASTELLS, 1973: 15). O autor buscava interpre-
tar as condições em que chegava a urbanização na América Latina nos anos 1970. Depois
do que teria sido o ensaio desenvolvimentista da substituição de importações, a nova ur-
banização dependente seria resultado da mais recente investida do imperialismo, que
provocara a modernização do aparato produtivo dos países dependentes, com inserção
de novas tecnologias que novamente impediram a absorção satisfatória da mão-de-obra
local. Nesse processo, às contradições sociais clássicas viria a se adicionar um novo anta-
gonismo entre as massa urbanas “integradas” e sob o controle dos monopólios, e o setor
“marginal” composto por massas cada vez mais afetadas pela decomposição interna da
sociedade nacional, que do ponto de vista da urbanização produzia espaços cada vez
mais desiguais (CASTELLS, 1973).
A base estruturalista da análise de Castells revela-se na interpretação do Estado
como simples agente mediador entre a burguesia local e os monopólios internacionais.
Como agente de salvaguarda dos interesses do novo sistema de dominação, o Estado
ficaria impedido de estabelecer mecanismos de planejamento capazes de estabelecer uma
lógica própria das aglomerações da sociedade dependente, sob pena de romper com a
lógica geral do sistema. Castells é exemplar no esforço de dialogar com os demais autores
interessados em renovar o marxismo, e que mantinham um movimento pendular entre a
América Latina e a Europa, sobretudo a França, com inflexões aos EUA. Seu objetivo
era relacionar os problemas próprios da urbanização latinoamericana com os conceitos
de dependência e marginalidade em debate no interior do grupo do qual fazia parte.
Ao mesmo tempo, Quijano se esforçava no mesmo sentido, por meio de suas
reflexões. Em seu texto, indagava: quem eram os marginais, e qual seu significado social?
Se sempre houvera “pessoas excluídas mais ou menos permanentemente do mercado de
trabalho dominante, e que em razão de seus parcos recursos não acederia aos bens de
consumo e aos serviços”, estes também sempre haviam sido “indivíduos isolados ou
reunidos em pequenos grupos, dispersos e atomizados”, mas nunca antes tais “margi-
nais” teriam formado um extrato social específico9. “Hoje, ao contrário”, completava, “o
processo compromete vastos conjuntos que não estão mais isolados e dispersos”, sendo
portanto um problema concernente a toda a sociedade, e não apenas aos setores margi-
nais. (QUIJANO, 1973: 141).
Quijano defendia haver uma nova estratificação no corpo social que sem “espa-
ço” para se dispersar – inclusive espaço físico –, fazia do reagrupamento uma conse-
quência, na medida em que o déficit habitacional estrutural os obrigava a se concentra-
rem em zonas determinadas. Decorreria daí uma “promiscuidade física imposta”, levan-
do ao surgimento de relações de sociabilidade específicas para sua própria sobrevivência.
O artigo buscava compreender essas formas de agrupamento, nas suas relações econômi-
cas e sociais, nas suas relações com os setores hegemônicos e nos processos de organiza-
ção dos interesses em jogo (QUIJANO, 1973: 142-143).


8 Destinados a habitar as áreas mais novas das cidades, zonas de expansão periférica, migrantes acabavam

por padecer dos resultados de uma ocupação desordenada e sem infraestrutura suficiente, caracterizando
um processo de segregação urbana (CASTELLS, 1973: 14).
9 Eram os denominados lumpen-proletariado, que a literatura comumente descreveu como aqueles que for-

mavam uma subcultura caracterizada pela vagabundagem, a anomia, a solidão e a miséria. A presença des-
tes em quaisquer sociedades se deveria a fatores psicológicos individuais mas também ao estreitamento de
certos setores de trabalho urbano.

7
Tentando formular hipóteses para o funcionamento desse novo extrato, Quijano
desenha um grande panorama sobre a “economia dos marginais”, entendida como “polo
marginal da estrutura econômica global", sem nenhuma função central, mas interdepen-
dente do núcleo central hegemônico. Do ponto de vista do emprego, os artesãos, as pe-
quenas empresas de serviços e o pequeno comércio seriam marginalizados pelas relações
hegemônicas de produção. E toda a nova mão de obra que se apresentava ao mercado de
trabalho, por crescimento demográfico ou por migração rural, acabaria se marginalizando
por falta de trabalho no núcleo hegemônico (QUIJANO, 1973: 145).
Ao discorrer sobre o mercado de emprego marginal, Quijano joga luz na mobili-
dade de empregos dos marginais, refletindo sobre suas formas de ingressos e de consu-
mo. Buscando definir qual o nível de participação dos marginais no mercado nacional e
urbano de bens e serviços, o sociólogo nota que este consumo dependeria de benefícios
sociais, sendo o Estado obrigado “a intervir como mediador para regular os efeitos polí-
ticos das desigualdades econômicas do sistema” (QUIJANO, 1973: 148). Nota-se assim
outro ponto de diálogo entre os dois autores em tela.
Quijano reconhece nas ações do Estado sobre os marginais reflexos de políticas
internacionais que “sombreiam as doutrinas de desenvolvimento comunitário e participa-
ção popular”10. As política públicas são apresentadas em sua ambiguidade: pois a despei-
to de melhorarem as condições de vida do grupo marginal, serviriam também para con-
trapô-los aos trabalhadores urbanos organizados, estratégia das burguesias locais para
manipular os “marginais” em eleições, isolando grupos proletários organizados. Essa re-
lação paternalista do Estado com tais marginais teria como consequência ainda fazer de-
saparecer as organizações autônomas que surgiram nas invasões das cidades. Assim, co-
mo conclusão, Quijano notava que quanto mais heterogênea a população marginal, mais
controlada pelos de fora; quanto mais homogênea, menos controlada pelos de fora e
com maior coesão social. (QUIJANO, 1973: 157)
Pode-se então dizer que as elaborações de Quijano, a partir do olhar empírico
sobre as condições da marginalidade urbana na América Latina, encontravam o desejo de
revisão do marxismo presente na França no final da década de 1960, por meio de Manuel
Castells. Este compartilhava com seu orientador Alain Touraine a visão de que era neces-
sário olhar mais detidamente para a realidade dos trabalhadores urbanos em suas organi-
zações sociais, pois a experiência do cotidiano operário na cidade, ensejando espaços de
sociabilidade, parecia ter potencial de transformação social superior à organização sindi-
cal burocratizada. Depositavam-se as fichas numa revisão do marxismo que escapasse à
ortodoxia e fugisse às burocracias partidárias, buscando uma renovação em novas formas
de organização que assumiam os movimentos sociais, pautados na identificação de ne-
cessidades comuns. Foi nesse campo de preocupações que os marginais latino-
americanos puderam ser compreendidos como novos personagens, que por não serem
integrados completamente, representariam um potencial rompimento com o sistema.

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