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ESTUDOS DE
PSICANÁLISE
ISSN - 0100-3437

Publicação do
Círculo Brasileiro de Psicanálise

Estudos de Psicanálise Belo Horizonte-MG n. 47 p. 15 – 204 julho/2017


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ESTUDOS DE
PSICANÁLISE

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Os artigos são de total responsabilidade dos autores.

F IC HA C ATA L O G R Á F IC A

ESTUDOS DE PSICANÁLISE. Belo Horizonte. Círculo Brasileiro de Psicanálise,


n. 47, jul. 2016. 204 p.

Semestral. ISSN: 0100-3437 – 28 x 21cm

1. Psicanálise – periódicos
Revista Estudos de Psicanálise
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R. Senhor dos Passos, 235/1001 - Centro
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Praça Tobias Barreto, 510/1208
São José Ed. Centro Médico Odontológico
49015-130 - Aracaju - SE
Tel.: (79) 3211-2055
E-mail: <cps@infonet.com.br>
Site: <www.circulopsicanalitico-se.com.br>
Sumário
11 Editorial

AU T O R A C O N V I DA DA E A R T I G O C O R R E L AT O
15 Mito e alteridade infantil
Myth and chilhood alterity
Dominique Ottavi
Tradução: Marília Etienne Arreguy

25 Receitas pseudopedagógicas para infantilizar a cultura


Pseudo-pedagogical recipes to infantilize the culture
Marília Etienne Arreguy

P S I C A NÁ L I S E : G Ê N E R O E T R A N S E X UA L I DA D E S
35 Ainda a psicanálise no campo da sexuação!
Yet psychoanalyis in the field of sexuation
Ana Maria Sigal

47 Transexualidades – psicanálise e mitologia grega


Transexualities – psychoanalysis and Greek mythology
Anchyses Jobim Lopes

73 O rabisco como ofício – a plasticidade na construção


de uma clínica social para analisandos transexuais
Scribble as a craft – plasticity on building
of a social clinic for transexual analysands
Fernanda Ribeiro de Freitas

83 Transexualidades e mudanças discursivas


Transexualities and discursive changes
Paulo Roberto Ceccarelli

91 Buck Angel, transexualidade e gênero


– algumas considerações psiqueeranalíticas sobre os sexos de Angel
Buck Angel, transexuality and gender
– psiqueeranalytical considerations on the sex of Angel
Roberta de Oliveira Mendes

111 Em busca do tempo sensível: Os ruídos paradoxais


da sexualidade na ampliação da escuta da identidade de gênero
In search of sensible time: paradoxical noises of sexuality
on the expansion of a psychoanalytic listening from gender identity
Rodrigo Zanon de Melo

CLÍNICA E TEORIA PSICANALÍTICA


129 Questões sobre os tempos
Questions about the times
Anna Amélia de Faria

135 A construção do caso em saúde mental como meio


de sustentar o discurso do analista na instituição
The construction of the case in mental health as a way
of sustain the analyst’s discourse in the institution
Breno Ferreira Pena
141 O desafio do feminino no século XXI
The challenge of the feminine in the 21st century
Edilene Freire de Queiroz
Elizabete Regina Almeida de Siqueira
Pauleska Asevedo Nóbrega

149 As peles de Almodóvar ou Existe alguém aí dentro?


The skins of Almodóvar or Is anyone there?
Isabela Cribari

157 Temporalidade e narrativas de si: efeitos da descontinuidade


e da continuidade na historia de um adolescente em situação de rua
Temporality and self-narratives: effects of discontinuity
and continuity in the story of a teenager living on the streets
Julia Coutinho Costa Lima
Luciane De Conti

165 É campo minado! Saca aonde pisa, meu chapa


It‘s a minefield! Watch your steps, fella
Luciana Knijnik

175 O enigma das paixões e suas vicissitudes amorosas


The enigma of passions and the variations of love
Maria das Mercês Maia Muribeca

181 A psicanálise e o século:


a persistência do movimento psicanalítico
Psychoanalysis and the century:
the persistence of the psychoanalytic movement
Martín Mezza

187 Atemporalidade e existência: ser um psicanalista


Timelessness and life: being a psychoanalyst
Ricardo Azevedo Barreto

193 Normas de publicação

197 Roteiro de avaliação dos artigos


Editorial
Após mais de uma década, tendo a honra de ser eleito uma segunda vez para administrar
o Círculo Brasileiro de Psicanálise, é com muita gratidão a todos que sucederam após o primeiro
mandato — Cibele Prado Barbieri, Deborah Pimentel, Stetina Trani de Meneses e Dacorso, Ricar-
do Azevedo Barreto — que herdo a continuidade de seu esforço e sua dedicação. Considero o CBP
uma sociedade virtual. Isto é, não possui sede fixa nem normas que regem as filiadas. O CBP existe
enquanto se presentifica reunindo-se em sua Ágora, que se congrega parincipalmente ao redor de
uma mesma história, na participação das reuniões em defesa do saber freudiano face a tentativas
espúrias de monopolização, dos congressos e da Estudos de Psicanálise, que já recebeu alguns arti-
gos para seu próximo número, o 48º.
Segundo as avaliações do SciELO (Scientific Electronic Library Online) a Estudos de Psica-
nálise, com mais de 500.000 acessos desde o início de sua versão digital, é uma das duas revistas
psicanalíticas brasileiras mais acessadas da PEPSIC (Periódicos Eletrônicos em Psicologia), uma
das fontes da Biblioteca Virtual em Saúde — Psicologia da União Latino-Americana de Entidades
de Psicologia (BVS-Psi ULAPSI). A Estudos também alcançou, segundo a Plataforma Sucupira da
CAPES, a avaliação em psicologia e em interdisciplinaridade de B2, e em letras/linguística de A2.
Agradeço a todos os autores, editores, coeditores e funcionários que participaram desde o primei-
ro número em 1969.
Supomos que esse excelente resultado não seja apenas a questão qualidade dos autores e a
dedicação dos editores, mas da forma como as sociedades psicanalíticas são formadas e mantidas.
Comparado ao número de participantes das instituições universitárias, mesmo que se tenha em
conta candidatos e alunos, o número de membros do Círculo Brasileiro de Psicanálise parece ser
insignificante: poucas centenas em oposição a dezenas ou centenas de milhar. Tanto quanto saiba-
mos jamais a Estudos contou com alguma verba pública. Tudo que temos advém das sofridas men-
salidades dos membros e alunos. Para justificar a importância das sociedades psicanalíticas, que
em sua união conseguem uma proeza admirável que é o sucesso da Estudos, repetiremos o que foi
aqui escrito há doze anos, no que era ainda o segundo número digital. Em breve serão vinte e um.
Apesar de todos os narcisismos e querelas históricas, ficou claro o quanto as sociedades
psicanalíticas são, ou tentam ser, entidades democráticas nas quais os próprios membros são os
donos. Autogestão, propriedade dos meios de produção, participação direta nas assembleias: ter-
mos que os arúspices da globalização vaticinam como ultrapassados, antieconômicos e impediti-
vos para a competição. Ainda bem que no mundo das cadeias do ‘fast — fast-food’, ‘fast-religion’ e
‘fast-university’ — a psicanálise está onde sempre esteve: na contramão.
O Círculo Brasileiro de Psicanálise lealmente segue o mesmo trajeto: na contramão. Sentido
radical que surgiu na obra Freud, desde que se opôs às hipóteses de degeneração cerebral e incom-
preensibilidade para os sintomas histéricos. Hipóteses que hoje se mantém ainda mais forte sobre
a suposta égide da neurociência, que, apesar de muitos pesquisadores e correntes honestas, serve
de ideologia para o organicismo e a medicalização maciça pela indústria farmacêutica, uma das
mais lucrativas do planeta.
A radicalidade descoberta do inconsciente a partir da histeria, foi seguida por outra: a
importância da primeira infância e sua sexualidade. Até hoje a psicanálise constituí a única prá-
tica teórico-clínica que enfatiza o valor da sexualidade infantil tanto para a criança como para a
compreensão do adulto. É o reencontro com a criança dentro nós que exige para a transmissão
da psicanálise, ao contrário da universidade, além de cursos teóricos e supervisões clínicas, a
análise pessoal.
A obra freudiana se coloca na contramão dos processos de desumanização e violentação,
que dogmatizam informações técnicas como saberes absolutos e verdades acabadas. Informações
que servem para ocultar o deslizamento do sofrimento social em individual, com a finalidade de
dopá-lo, tendo hoje as crianças como vítimas principais da medicalização.
O objetivo da instituição psicanalítica deve, dentro do possível, aprofundar os saberes sem-
pre provisórios do desejo, do inconsciente, da sexualidade infantil e da subjetividade. Nada mais
coerente a uma sociedade virtual que, para tal fim, use o mundo virtual e o serviço os instrumen-
tos digitais mais avançados. Questão já muito debatida e controversa quanto à prática clínica, mas
essencial para a difusão do saber e o diálogo entre psicanalistas. e para a difusão do saber freudia-
no a todas pessoas interessadas.
É com vaidade não muito sutil que novamente tenho o prazer de citar um trecho da Carta
de Princípios do Círculo Brasileiro de Psicanálise, documento redigido há mais de vinte e cinco
anos:

A Psicanálise é a ciência do Inconsciente, entendido no sentido do texto freudiano, que se


marca por sua radicalidade e onde se desenvolve uma metodologia à investigação deste ob-
jeto. Isto nos coloca no espaço do inacabamento. [...] Na Instituição Psicanalítica a produção
científica se faz sobre os restos inanalisáveis, fazendo destes traços secretos uma condição de
formação permanente. Este processo desenvolve-se com os pares e pela criação de um espa-
ço de palavra sobre o que permanece não dito. Nesta Instituição Psicanalítica não propicia a
fixação de identificações imaginárias. A Instituição Psicanalítica testemunha a permanente
passagem para o tornar-se, que dá lugar para o inacabamento, através da produção teórica, da
prática clínica e institucional.

Anchyses Jobim Lopes


Presidente
Biênio 2017-2019
LUIZ FERNANDO PINTO
Membro fundador do Círculo Psicanalítico da
Bahia, participou ativamente da construção
da história institucional do CBP. Foi aluno da
primeira turma de Formação de Psicanalistas
dando origem ao CPB como instituição volta-
da para a transmissão da psicanálise.
Médico, psiquiatra, membro da Socieda-
de Brasileira de Médicos Escritores (SOBRA-
MES/BA), artista plástico e psicanalista, sua
habilidade criativa como psicanalista e artista
não será esquecida.

Imagem:
<http://www.circulopsibahia.org.br/lfp/lfpabertura.jpg>
Autora convidada e artigo correlato Dominique Ottavi – Tradução: Marília Etienne Arreguy

Mito e alteridade infantil1


Myth and chilhood alterity
Dominique Ottavi
Tradução: Marília Etienne Arreguy

Resumo
A discussão sobre o valor pedagógico dos contos (de fadas) é pouco explorada e menos ainda
esclarecida. O conto, ligado ao folclore e ao mito, seria supostamente exclusivo à superação
do infantil nas crianças. Dominique Ottavi vai além da simples asserção acerca das funções
cognitivas e maturacionais do uso dos contos. A autora resgata a crítica de Wittgenstein ao
preconceito em relação a um certo primitivismo dos contos nas posições de autores clássicos
nesse domínio, como Van Gennep e Frazer, e seu destino prioritário à infância, rebaixando
seu valor. A autora recorre, então, ao conceito de “inquietante estranheza”, de Sigmund Freud,
para demonstrar a função de medo, imposta à infância como forma de controle pela via da
alteridade, o que também, de certo modo, afeta o infantil nos adultos.

Palavras-chave: Mito, Alteridade, Infantil, Pedagogia, Psicanálise.

Enquanto o mito é, hoje em dia, no senso co- de as práticas escolares correntes serem su-
mum, similar à mentira e à ‘mistificação’, pa- portadas por uma ou mais teorias, seja lite-
rece ponto pacífico que o conto,2 semelhante rárias, seja psicológicas, seja antropológicas
a isso, entretanto, convenha às crianças. O justifica o recurso a esse patrimônio? Somos
uso pedagógico do conto seja falado, seja forçados a constatar que, frequentemente, o
lido ou, mais frequentemente, contado com hábito é tomado como justificativa, sem fa-
a ajuda de álbuns com base numa evidência, lar desse preconceito pernicioso segundo o
e o conto, uma vez transmitido na socieda- qual a experiência da ficção permite distin-
de dos adultos pela tradição oral, está de al- guir o falso do verdadeiro: argumento de vis-
gum modo refugiado na escola.3 Se, nos anos ta curta, que denega todo valor à metáfora e
1980, particularmente após os trabalhos de à poesia. Responsabilizar os educadores por
Bruno Bettelheim, a psicanálise tirou uma esse aspecto frágil na justificação das práti-
utilidade educativa disso,4 qual o fundamen- cas seria de muito má-fé, sobretudo nesse
to desse tipo de atividade hoje em dia? O fato período de desaparecimento da formação.

1. Artigo original: OTTAVI, D. Mythe et altérité enfantine. Le Télémaque 2011/2, n. 40, p. 33-42. DOI 10.3917/tele.040.0033.
Tradução, resumo e abstract estabelecidos por Marília Etienne Arreguy, psicanalista, pesquisadora do Programa de Pós-Gra-
duação em Educação da Universidade Federal Fluminense. E-mail: <mariliaetienne@id.uff.br>.
2. Aqui e na maior parte do texto a autora se refere aos contos de fadas e não aos contos num sentido literário mais
amplo. (N.T.).
3. Ele faz parte da junção da literatura infantil ao “enquadramento educativo e social” do qual fala Alain Vergnioux num artigo
recente, intitulado La littérature de jeunesse à l’école, des fictions “sur mesure” [A literatura da juventude na escola, ficções “sob
medida”], La lettre de l’enfance et de l’adolescence, 79, 2010, p. 41-46.
4. BETTELHEIM, B. The Uses of Enchantment [Os usos do encantamento], tr. fr. La Psychanalyse des contes de fées [A psica-
nálise dos contos de fadas], Paris: Robert Laffont, 1976. Publicado em português em 1980 pela Editora Paz e Terra, o livro já
conta com diversas edições. (N.T.).

Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 15–24 | julho/2017 15


Mito e alteridade infantil

Seria também se livrar, em larga escala, de as passagens entre essas noções. Fundamen-
um problema de raízes complexas, que nós talmente, não há diferença entre o que res-
gostaríamos de desemaranhar um pouco. salta do mito, do conto, da lenda, e, quando
A convicção de uma adaptação recíproca há diferenças, elas são mais de ordem literá-
do conto à criança não contém outro pre- ria e histórica. A esse respeito, a classificação
conceito, a saber, que a infância estaria sob de Arnold Van Gennep permanece válida,
o império da fantasia, de uma lógica primi- mesmo se não permitir classificar com cer-
tiva, em que a infância estaria do lado de teza os objetos encontrados. A fábula, em
uma alteridade ultrapassada ou enfurnada? primeiro lugar, é sem dúvida o gênero mais
Uma ideologia que reúne a criança, o primi- afastado da mitologia, mesmo que esta possa
tivo, as sobrevivências está sempre presente lhe fornecer seus temas. Ela põe em cena os
na cultura contemporânea e faz com que o animais intencionalmente, com o objetivo de
que não ‘convém’ mais aos adultos seja dado reflexão e edificação. O conto, que Van Gen-
a convir ainda à criança em virtude de sua nep estima corresponder às representações
natureza, de modo que esse imaginário, esse do mundo da infância, será não localizado,
amálgama define em parte a alteridade in- caracterizado por sua indiferença moral. A
fantil. Se as ciências humanas fizeram justiça lenda, ao contrário, tem frequentemente
ao pensamento primitivo e se elas venceram um aspecto etiológico. Ela tem relação com
os aspectos mais regressivos do pensamento um lugar como exemplo. O mito faz inter-
racial colocando em evidência o interesse no vir personagens divinos e pode apresentar
pensamento ‘selvagem’, notoriamente através uma ligação com os fenômenos naturais.
da obra de Claude Lévi-Strass, teriam, para Van Gennep evoca também o problema da
tanto, esclarecido essa relação do mito com crença e adianta que cremos nos mitos, não
a infância? Ainda além de seu uso educativo, nas lendas, nos contos ou nas fábulas. Vemos
o conto endereçado às crianças e, mais em que essas distinções instituem limites poro-
geral, o recurso ao imaginário são de algum sos entre esses gêneros. A noção de ‘folclore’
modo órfãos de justificação. Se parece intui- (etimologicamente Volkskultur) é suposta,
tivamente irracional confinar a educação das em Van Gennep, transcender essas diferen-
crianças a um pragmatismo estreito, pode- ças instáveis em proveito da ideia de criações
mos nos satisfazer com práticas rotineiras, devidas à cultura popular. Essas definições
mesmo que elas não pareçam prejudiciais? deixam intocada a questão de saber por que
Sem pretender responder completamente transmitimos narrativas às quais não cremos
à questão do ‘porquê’ dos contos na escola, jamais e por que se instituiu uma proximi-
queremos reunir alguns elementos de refle- dade entre infância e imaginário folclórico,
xão para tomar distância em relação a essa enquanto até mesmo o conto, em nossa so-
dita harmonia preestabelecida entre infância ciedade racional e industrial, ocupa um lu-
e contos. gar residual e é frequentemente considerado
como o inverso da razão.
Algumas definições
Mas, diremos, há grandes diferenças entre O valor educativo do conto
mito, lenda, conto e mesmo no conto para em face às ciências humanas ambivalentes
crianças. Essas nuances são importantes, James Frazer (1854-1941), o criador d’O
mas nós não as consideraremos como cen- Ramo de ouro5 e um dos fundadores da an-
trais para pensar o estatuto atual do conto e
do mito. É necessário adotar algumas defi- 5. Sir James Frazer, Le Rameau d’or (1911-1915), édition fr.
par Nicole Belmont et Michel Izard, Robert Laffont, coll.
nições para não ter que parar em problemas Bouquins, 1981-1984. Frazer, Sir James George. O ramo de
de fronteira e para, ao contrário, considerar ouro. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1982. (N.T.).

16 Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 15–24 | julho/2017


Dominique Ottavi – Tradução: Marília Etienne Arreguy

tropologia, viu seguidamente criticada sua quando esses modos de vida mudam e pro-
ambivalência a respeito de seu objeto. De um gridem. Mas há ainda outra evolução, aquela
lado, ele realizou uma somatória universal e que vai do mito em direção ao conto, o con-
insubstituível de mitos, de outro lado, consi- to contado ‘por prazer’, que agrada os indi-
derou que se tratava de testemunhos de um víduos transmitir e constitui o patrimônio
estado passado da civilização. Por exemplo, cultural do povo. É assim que os contos, para
a propósito da Création et évolution dans Van Gennep, mantêm a lembrança de uma
les cosmogonies primitives6 [Criação e evo- moral antiga em que predomina a influência
lução nas cosmogonias primitivas], em que de fenômenos naturais e que eles também
ele passa em revista as narrativas de criação comportam uma ‘moral realista’ que man-
a partir da argila e o totemismo (ou narra- tém um valor pedagógico seja qual for o sis-
tivas de descendência a partir dos animais), tema ético que teoricamente esteja superpos-
ele revela um princípio de organização na to à vida prática.10 O valor do conto vem de
oposição entre criação e evolução. Cada con- sua relação universal com uma vida simples,
cepção será um reflexo dos “tateamentos do frustrada e das imagens e dos sentimentos
espírito humano nas sombras do abismo do que ela suscita na humanidade inteira. Essa
passado”,7 e “cada uma foi, resguardadas to- arte popular contém, portanto, uma moral
das as proporções, a grotesca antecipação da adequada a uma boa parte da existência, cuja
teoria moderna da evolução”.8 Esse ‘presen- lição pode ser transmitida por intermédio de
tocentrismo’ foi criticado notadamente por um prazer.
Ludwig Wittgenstein, que o acusou de ser As teorias mais recentes que subenten-
um inglês conformista que não pode enten- deram um uso não somente educativo, mas
der nada de mitologia: “Que incapacidade de ainda escolar do conto romperam com esses
compreender outra vida que não seja a ingle- pontos de vista tão diretamente evolucionis-
sa de seu tempo!”.9 Essa crítica é severa e ao tas. Utilizado no ensino literário, o conto é
mesmo tempo justa, pois Frazer permanece analisado formalmente por Vladimir Propp,
mesmo assim um grande descobridor do que lança luz sobre estruturas constantes:
pensamento mítico, ainda que suas próprias esquemas e funções da narrativa organizam
declarações não permitam compreender a a diversidade das mitologias, permitindo a
coerência de sua abordagem. memorização, a transmissão e mesmo a pro-
O próprio Arnold van Gennep não esca- dução.11 A pedagogia pode esperar aí ganhar
pa do ponto de vista evolucionista: para ele, em exatidão, pois os objetivos pedagógicos
o folclore é útil, pois está ligado às ativida- podem ser libertados desse evolucionismo
des de um povo. Em relação às necessidades ao usar o imaginário do conto e talvez ter
materiais e modos de vida, ele se torna inútil como objetivo a maestria dessas estruturas,
abrindo a via para a análise da narrativa em
6. Do original Sir James George Frazer. Creation and Evo- geral.
lution. In: ______. Primitive Cosmogonies and Other Pieces. Quanto à teoria psicanalítica, representa-
London: Macmillan, 1935. (N.T.). da nesse domínio principalmente por Bruno
7. Tradução livre.
8. Sir James Frazer. Essais et souvenirs [Ensaios e lembran- Bettelheim ([1976] 2007) e sua obra Psicaná-
ças]. Librairie orientaliste Paul Geuthner: 1936. p. 28. Tra- lise dos contos de fadas, ela se revelou parti-
dução livre. Não encontrei tradução em português deste
livro na internet. (N.T.).
9. WITTGENSTEIN, L. Remarques sur le rameau d’Or de 10. Arnold van Gennep, La formation des légendes [A for-
Frazer (1936, 1967) [Observações sobre O ramo de ouro, mação das lendas], Flammarion, 1912, p. 19. Não foi locali-
de Frazer], Philosophica, III, 2001. Versão em português zada tradução em português deste livro na internet. (N.T.).
em PDF, disponível em: <https://www.psicanaliseefiloso- 11. PROPP, V. Morphologie du conte [Morfologia do conto],
fia.com.br/adverbum/Vol2_2/observacoes_ramo_de_ouro. 1928. PROPP, V. Morfologia do conto maravilhoso. São Pau-
pdf>. Acesso em: 27 maio 2017. (N.T.). lo: Forense Universitária, 2006. (N.T.).

Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 15–24 | julho/2017 17


Mito e alteridade infantil

cularmente fecunda ao mostrar como, para podem ter seu escopo limitado ao mundo da
além da moral, da lógica, da verdade, a ficção infância e da educação, mesmo que lhes cai-
dos mitos e contos mantinha uma relação ba organizar as passagens e os papéis sociais.
com o inconsciente. A superação dos fan- O mito impregna a sociedade vivente ou
tasmas e dos conflitos inconscientes é para desaparece enquanto tal. A ele não se pode
Bettelheim uma verdadeira função do con- atribuir uma função parcial nem educativa,
to, simultaneamente sobre o plano subjetivo menos ainda se for a favor de traços deixados
e sobre o plano da cultura. Essa abordagem por uma evolução à qual o antropólogo recu-
explica e justifica o fato de que transmiti- sa o caráter civilizador.14
mos os contos sem querer emendá-los e sem Se a infância se tornou o último bastião
adaptá-los ao tempo presente. É esse tipo de da legitimidade das narrativas cujo desa-
abordagem que a antropóloga contemporâ- parecimento dá uma terrível nostalgia, isso
nea Nicole Belmont utiliza para dar conta não ocorre sem duplicidade. A transmissão
da existência dos contos e da permanência dessas narrativas se apresenta como uma
de sua transmissão, assim como de sua uti- concessão feita a esse paraíso perdido. A
lidade pedagógica. Esse empréstimo se esta- gratuidade, o charme, o prazer se adaptam
belece a partir da ideia de que a catharsis12 mais ou menos por certa proximidade com
operada pelo conto sobre o plano psicológi- a utilidade da leitura ou dos ‘objetivos cog-
co é um elemento das transposições entre as nitivos’. Ao lado desse utilitarismo, o antigo
idades da vida e entre os papéis sociais estu- esquema evolucionista, por outro lado, con-
dados pelos antropólogos do ponto de vista tinua a existir, considerando o imaginário
das sociedades. como uma reserva de ideias desatualizadas,
Sobre Claude Lévi-Strauss, sem nos enga- à margem do mainstream15 da história. Isso
jarmos na recapitulação de sua obra, pode- torna a associar a infância a uma alteridade
mos dizer que sua antropologia tem a especi- enterrada ou ultrapassada. Cultura popular
ficidade de introduzir um grão de areia nessa ancestral, lenda ingênua, estrutura da nar-
relação. Com efeito, ela resiste à explicação rativa de ficção e mesmo inconsciente, ali
dos mitos por sua função; e é bem a função são toleradas zonas obscuras ou primitivas
que interessa à escola quando faz dessas nar- do pensamento assim como a alteridade in-
rativas um objeto educativo: sabedoria práti- fantil, a alteridade do primitivo em relação
ca, lógica da narrativa, superação das fanta- ao universo civilizado, racional, dos adultos
sias, afetos, tudo isso convergindo em direção evoluídos, sérios e dominantes.
à ideia de utilidade. A aposta no pensamento
mítico para Lévi-Strauss vai bem além: para O caminho do conto rumo à infância
ele, o mito e suas estruturas organizam o O processo pelo qual o conto se viu histori-
real, que é feito tanto de relações econômicas camente anexado ao domínio da infância é
e materiais dos homens para com seu meio
ambiente, quanto das palavras mesmas que 13. LÉVI-STRAUSS, C. Mythologiques. Paris: Plon, I, Le cru
eles utilizam para disso falar, além dos afe- et le cuit (1964); II, Du miel aux cendres (1967); III, L’Origine
des manières de table (1968): IV, L’Homme nu (1971).
tos que se ligam às significações, aos grandes LÉVI-STRAUSS, C. Mitológicas - 4 v. [O cru e o cozido, v.
interditos que eles encenam. Não há espaço 1 (1964); Do mel às cinzas, v. 2 (1967), A origem dos modos
entre o mundo e o mito que permitiria fazer à mesa, v. 3 (1968); O homem nu, v. 4 (1971)]. São Paulo:
Cosac Naify, 2012.
disso uma pedagogia e de lhe atribuir efei- 14. LÉVI-STRAUSS, C. Race et histoire [Raça e história], Pa-
tos.13 Estruturas e significações, por essa ra- ris, Denoël-Gonthier, 1975.
zão, concernem à sociedade em geral e não LÉVI-STRAUSS, C. Raça e história. In: ______. Antropolo-
gia estrutural II. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1976. cap.
XVIII, p. 328-366. (N.T.).
12. Em grego, no original. Catarse. (N.T.). 15. Em inglês no original. Via convencional. (N.T.).

18 Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 15–24 | julho/2017


Dominique Ottavi – Tradução: Marília Etienne Arreguy

conhecido, embora para tanto não seja per- aspectos trágicos neles, já que é em Perrault
feitamente compreendido. A salvação das que Chapeuzinho Vermelho se faz irreme-
tradições orais antes de seu desaparecimento diavelmente comer pelo lobo. O recurso a
coincide com os tempos modernos, em que esse personagem indica também outro traço
se desenrola o processo, posto em evidência dessa literatura: tanto em Perrault quanto em
por Phillipe Ariès,16 da ‘descoberta’ da infân- Grimm, a literatura popular e a oralidade são
cia, da especificidade de suas necessidades, reavaliadas de uma forma paradoxalmen-
em que a sociedade e suas artes lhe dão espa- te ‘moderna’ em face de uma cultura sábia,
ço. Nesse sentido, a relação da criança com clássica, por um humanismo centrado sobre
o conto é mais antiga que sua relação com a a herança greco-latina, como se essa cultura
escola, e ela é portadora de questões. tivesse se tornado de tacada pesada demais
A fixação do patrimônio oral marca de de se suportar.21
imediato uma relação da criança com o con- A transcrição do oral ao escrito, a fixação
to.17 Jakob e Wilhelm Grimm começaram em patrimonial dos contos e seu endereçamen-
torno de 1806 a reunir o que estimaram ser to à infância vão, portanto, pareados. É de
os vestígios da antiga mitologia germânica, notar também que a transcrição dos Contos,
subsistentes nas tradições populares orais. de Perrault, tem um lugar importante para
Eles contribuíram para a coleção de Cle- a contadora, introduzindo, assim, uma dis-
mens Brentano e Achim Von Arnim, Le cor tância da escrita em relação a sua fonte. A
enchanté de l’enfant [O coro/canto encantado criança ali está, com o povo, frente uma au-
da criança18]. tenticidade e, ao mesmo tempo, frente a uma
Persuadidos de que é preciso evitar redi- cultura ‘dominada’ que clama por vingança,
gir de forma literária e reescrever os contos, isso posto sob uma forma elaborada pelos
eles publicaram sua própria coletânea – Les sábios linguistas.
contes de l’enfant et de la maison [Contos ma- O endereçamento do conto à infância é,
ravilhosos infantis e domésticos19], de 1812 a portanto, de alguma maneira impuro, pois
1819. Quanto a Perrault, ele redigiu os con- significa, antes de mais nada, a reivindica-
tos – Les contes de ma mère l’Oye20 [Os contos ção de um ‘outro’ da cultura, esquecido, des-
de minha mãe Oye] para seus filhos. Ele lhes prezado pelas elites religiosas e políticas. É
deu uma forma literária, que tem a reputação assim que um poeta como William Butler
de ter traído a autenticidade das narrativas, Yeats pôde desenvolver a ideia de haver uma
contudo, negligenciando a suavizar certos proximidade entre as crianças, o povo, os po-
bres e os marginais. Os simples de espírito
que veem rodas de elfos em roupas coloridas,
16. Vide ARIÈS, P. História social da criança e da família. os transmissores domésticos de lendas irlan-
Rio de Janeiro: LTC, 2011. (N.T.). desas, são os primeiros mestres em poesia:22
17. Encontraremos essas referências históricas especialmen-
te em Nicole Belmont, Poétique du conte [Poética do conto],
Gallimard, 1999, bem como no catálogo Figures futur 2004,
jeunes et nouveaux illustrateurs de demain [Figuras do fu-
turo 2004, jovens e novos ilustradores do amanhã], Centre
de Promotion du Livre de Jeunesse Seine Saint Denis, 2004,
que apresenta, especialmente, diversas versões do conto 21. Deixamos de lado aqui os contos de Madame d’Aulnoye,
Chapeuzinho Vermelho, do qual [surge] uma diretamente nos quais o teor educativo e moral é muito mais explícito.
saída da literatura oral. Não foram encontrados os textos de A autora não especificou a bibliografia de Madame Marie-
Nicole Belmont em português na internet. (N.T.). Catherine d’Aulnoy. (N.T.). Vide breve biografia em portu-
18. Não encontrado em português na internet. (N.T.). guês em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Marie-Catherine_
19. IRMÃOS GRIMM (1812-1815). Contos maravilhosos d%27Aulnoy>. Acesso em: 27 maio 2017.
infantis e domésticos. São Paulo: Cosac Naify, 2015. (N.T.). 22. William Butler Yeats. Enfance et jeunesse resongées [In-
20. PERRAULT, C. Les contes de ma mère l’Oye. Paris: Bar- fância e juventude repensadas], Paris: Mercure de France,
bin, 1697. (N.T.). 1990. Texto em português não encontrado. (N.T.).

Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 15–24 | julho/2017 19


Mito e alteridade infantil

Já alguns que são consagrados ao estudo das lizadora, enquanto a empregada das crianças
visões e das crenças desses camponeses se lhes dá uma versão não suavizada, ou seja,
perguntam se somos nós, ainda pouco nu- longe de proteger o sono, o homem de areia
merosos, que somos as exceções na ordem da arranca os olhos das crianças desobedientes.
natureza, ou as pessoas primitivas e bárbaras, Nicole Belmont pousa nessa história a evoca-
sempre inumeráveis, e se não é aquele que ção ao horror da castração e a culpa quanto
tem as visões e ouve vozes o homem normal ao desejo de ver a cena primitiva. Os mons-
e são.23 tros aquáticos zoomorfos, raptores de crian-
ças, evocam a fantasia de um nascimento in-
As crianças, depositárias de um saber vertido, quando eles levam suas vítimas para
mítico minorado, se tornam destinatárias o fundo das águas. Os seres puramente ver-
privilegiadas disso a partir da pedagogia bais como a Babou, feiticeira dos contos do
inspirada na psicanálise, como lembramos Midi da França, são a quintessência do medo
previamente. A presença não eliminável de e prescindem de atributos pelo tanto que
angústias, conflitos e fantasias que a teoria mobilizam os impulsos psíquicos dos sujei-
psicanalítica lança luz nos contos, não so- tos. Assim, as narrativas nas quais não acre-
mente fala de seu escopo educativo, mas ain- ditamos são revestidas de bastante potência
da fornece um apoio à antropologia. É assim para cativar a memória, mobilizar os afetos e,
que, para pensar a relação da infância com como diz Bettelheim, elas contribuem, assim,
o mito, Nicole Belmont se perguntou “como para fazer [a criança] crescer, para liberar o
provocamos medo nas crianças”.24 Para res- psiquismo do império de suas angústias.
ponder à questão de saber por que e como A última função do mito é garantir, sob
certas narrativas são endereçadas às crianças essa forma de folclore devotado à infância,
para lhes causar medo e para então esclarecer um processo de maturação e uma espécie de
o laço entre a transmissão desse patrimônio gestão do inconsciente. Há uma passagem da
imaginário e aquele da infância, ela recorreu infância ao infantil, pela qual terrores e fantas-
ao esquema de interpretação de Bruno Bet- mas são ‘tratados’ pedagogicamente aquém
telheim. A autora evocou diversos tipos de da idade adulta. A infância, que deve ser psi-
personagens assustadores através dos quais quicamente superada, se encontra assimilada
podemos reencontrar medos primitivos. Por ao infantil, cujo destino é ser ultrapassado.
exemplo, entre os seres “antropomorfos” des- Há, portanto, no conto uma alteridade
se folclore, ela detalhou o caso do homem de que uma visão ‘política’ como a de Yeats as-
areia. Trata-se de um personagem dos Con- simila a uma cultura dominada e que uma
tos noturnos, de Hoffmann, apresentado de concepção evolucionista persistente confina
forma ambivalente: a mãe do narrador conta na infância em nome de certo primitivismo
a história de uma maneira neutra e tranqui- provido de uma imaginação fértil. Enfim,
certo funcionalismo atribui prioritariamente
à infância a tarefa de domesticar os afetos.
23. Tradução livre. William Butler Yeats. Les croyances Não há aí certa redução da potência dos
aux fées en Irlande [As crenças em fadas na Irlanda]. In:
______. Prose inédite [W. B. Yeats, Prosa inédita], comentá- contos, e uma relegação a uma subcultura,
rios e artigos reunidos e publicados por John P. Fraye et Col- ou uma ‘pré-cultura’, em detrimento da com-
ton Johnson, traduzidos sob a direção de Jacqueline Genet preensão daquilo que ali está verdadeira-
e Elisabeth Hellegouarc’h, Presses Universitaires de Caen,
1989. Bibliografia em português não encontrada. (N.T.). mente em jogo?
24. Nicole Belmont, Comment on fait peur aux enfants
[Como nós provocamos medo nas crianças]. La Lettre de Rumo a uma experiência fundamental
l’enfance et de l’adolescence, 56, 2004. Esse texto é uma versão
abreviada de um artigo publicado em Mercure de France, O recurso a Freud em si mesmo pode nos
em 1999. Texto em português não encontrado. (N.T.). colocar sobre a via da compreensão da po-

20 Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 15–24 | julho/2017


Dominique Ottavi – Tradução: Marília Etienne Arreguy

tência do conto, no que possui de uma ‘al- pode liberar. No conto de Hoffmann, o fol-
teridade’ em relação a outras narrativas e a clórico homem de areia, mais que existe e é
outras utilizações da linguagem e da ficção. um perigo ‘real’, nos informa sobre isso. Ao
Alteridade cuja percepção é a fonte da tenta- contrário do conto puramente lúdico, o con-
tiva dos românticos para salvar o patrimônio to de visada mítica, diremos, introduz uma
popular oral e que não se reduz talvez a um dúvida sobre a realidade da coisa de que fala.
caráter primitivo ou infantil. Daí sua potência “estranhamente inquietan-
Freud (1919) fala, ele também, da história te” para Freud, a qual ele reporta pela análise
aterrorizante do homem de areia dos Contos, dessa famosa noção. O estranho inquietan-
de Hoffmann, no texto O estranho.25 Ele cha- te é paradoxalmente familiar: é a irrupção
ma atenção sobre o princípio que permanece na realidade cotidiana de alguma coisa que
em obra na Psicanálise dos contos de fadas, de transtorna porque se trata do retorno do re-
Bettelheim, a saber, a superação das fantasias calcado. Essa coisa, muito bem conhecida e
ao colocá-las a distância, graças à linguagem esquecida, não se deixa ignorar, donde [sur-
e à ficção; assim, [destaca-se] o complexo de ge] uma emoção sui generis, o Unheimlich.26
castração, presente na narrativa de defenes- Quando a empregada da criança detalha o
tração. Mas tomando a narrativa ao pé da suplício das vítimas do homem de areia, não
letra, Freud vê ali ainda outro ensinamen- estaria ela a descrever um cadáver com as ór-
to. Nesse conto formulado por Hoffmann, o bitas ocas e cheias de terra, um cadáver real?
universo da lenda está misturado ao romance O narrador, ao tornar real a ameaça que
com uma intriga policial ‘real’. O pai do he- plana sobre o herói, não evacua a esperança
rói foi verdadeiramente assassinado por um de retorno ao normal, ao familiar, ao racio-
homem que continua a perseguir o filho, que nal? Esses elementos convergem no sentido
foi, por isso, levado ao suicídio. Durante sua da dúvida quanto ao tema da realidade, o
infância, esse filho testemunha discussões que faz dessa narrativa uma obra excepcio-
entre o pai e o futuro assassino. Ele conce- nalmente cativante. Ele põe em cena uma
be, então, uma angústia que se alimenta nas ameaça vital anunciada e expressa em todo
histórias da babá a respeito das transgressões seu horror pelo mito, que não fala apenas
do homem de areia, que arranca os olhos de da fantasia, mas também da realidade e da
suas vítimas para alimentar seus filhotes, per- fronteira sutil entre o pensamento elabora-
sonagem associado à perseguição homicida. do, o universo da civilização e o ‘outro’ da
Esse aspecto da narrativa não é considerado ameaça e da morte. Com certeza, Freud dá
por Freud como um acréscimo puramente li- crédito à ideia de que as fantasias e a etiolo-
terário ou como uma racionalização do mito, gia da obsessão levam à infância do herói, e
mas como um complemento justificado que que seu presente mobiliza os estratos passa-
reforça sua significação. A saber que o mito, dos da sua personalidade. Isso não impede
mesmo que tenha um papel na resolução de colocar em evidência que essa narrativa
dos conflitos interiores e no domínio das particularmente potente, baseada sobre ele-
fantasias, contém [também] um elemento mentos míticos, não resolve nem ultrapassa
absolutamente real: ele não libera somente, nada, mas fala do reverso da vida, por isso é
ele atrai a atenção sobre aquilo de que não se estranhamente inquietante.
Ludwig Wittgenstein também ultrapas-
25. FREUD, S. (1919) L’inquiétante étrangeté [O estranho]. sou, de outro ponto de vista, a ideia de que a
In: ______. L’  inquiétante étrangeté et autres essais. Paris:
Gallimard, 1985. Este artigo foi publicado no Rio de Janeiro
pela Imago Editores e consta na edição standard brasileira
das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 17.
Temdiversas reedições em português. (N.T.). 26. Em alemão no original. (N.T.).

Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 15–24 | julho/2017 21


Mito e alteridade infantil

existência do mito se explicaria inteiramente cante, é exatamente o que está na origem des-
por uma função social ou psíquica, função se acontecimento.27
subentendida por um processo de supera-
ção do primitivo, do infantil ou mesmo do Para Wittgenstein, a pesquisa das causas
inconsciente. de tal costume resultaria num labirinto de fa-
Sua crítica de Frazer, a quem ele censu- tos – admitindo que possamos reconstituí-los
ra, como assinalamos, pela pesquisa das ori- – que não tocaria no essencial: as palavras,
gens, do pré-histórico, o leva a recusar a ten- os gestos, os sinais, se referem não apenas a
tativa de explicar os mitos ou relatá-los por uma lógica causal mas também à realidade
outra coisa senão [apenas] eles mesmos. Ele dos afetos, às emoções fundamentais como
expõe, por exemplo, a propósito da narrativa a da “majestade da morte” que Wittgenstein
inaugural d’O ramo de ouro (Frazer, 1982), vê ser celebrada nesse ritual pagão. Estamos
a história do rei sacerdote da Diane de Nemi, lidando aqui com uma experiência dos limi-
na Itália, que, ao renunciar de nela encontrar tes,28 com uma manifestação de realidades
um sentido é que temos alguma chance de contraditórias, não com uma representação,
apreender sua realidade. Um extrato antigo mas com uma organização do medo. Por ou-
da religião romana, cuja origem é anterior à tro lado, não é necessário ‘acreditar’ no que
famosa educação de Roma pela Grécia, apre- quer que seja para se submeter à emoção que
senta um rei, uma figura religiosa com desti- está no cerne do ritual. Wittgenstein, de cer-
no trágico, residindo na floresta de Nemi. O ta forma, dobra o mito sobre si mesmo para
acesso a esse título é obtido pelo assassinato ligá-lo mais a uma experiência do que a uma
do rei precedente, o que supõe, então, uma crença, livrando, assim, o mito de qualquer
vigilância constante para ser conservada essa traço de “primitivismo”.
honraria e, ao mesmo tempo, a vida. Isso dá A alteridade do imaginário mítico está,
lugar a uma evocação lírica de Frazer, que para nós, confinada no universo infantil, a
imagina a vida desse personagem persegui- ponto de aparecer como uma característi-
do, armado, alerta ao menor barulho de fo- ca da infância e de marcá-la com o selo da
lhas, à espera de eliminação por seu sucessor. alteridade. Entretanto, aquilo de que falam
O rito, assim como a narrativa que o evoca, os mitos, mesmo que eles possam ter uma
apresenta um enigma. Reencontrar seu sen- função educativa, não se reduz a um estrato
tido ou sua explicação mágica não acrescen- superado ou infantil do pensamento, mesmo
taria em nada para Wittgenstein, que prefere que sua existência sobreviva, e mesmo que
reter, antes de mais nada, o caráter “estranho sua ligação ao inconsciente seja inegável. O
e apavorante” da narrativa, incluindo a nar- “bastante bem conhecido” do qual as bar-
rativa de Frazer: reiras do familiar (Heimlich) nos protegem
ressurge necessariamente com um cortejo de
Quando Frazer começa a nos contar a histó- emoções e de terrores para os quais o adulto
ria do rei da floresta de Nemi, ele o faz com contemporâneo está frequentemente mui-
um tom de que ele sente, e de que ele quer to pouco preparado. Nosso mundo racional
nos fazer sentir que alguma coisa estranha e com seu universo material aparentemente
assustadora está prestes a acontecer. Mas a
verdadeira resposta à questão ‘por que isso é
27. Tradução livre. WITTGENSTEIN, L. Remarques sur le
produzido?’ é a seguinte: porque é estranho e rameau d’or, de Frazer (1936, 1967). Philosophica, III, 2001,
assustador. Isso quer dizer que o que nos faz p. 28. Cf. nota 9.
perceber o evento como assustador, grandio- 28. Fazemos alusão a Philippe Sollers: L’écriture et l’expérien-
ce des limites [A escrita e a experiência dos limites]. Paris:
so, horrível, trágico, etc., como alguma coisa Seuil, 1971, que fez da transgressão uma característica do
que não é nem um pouco trivial e insignifi- texto. Texto não encontrado em português. (N.T.).

22 Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 15–24 | julho/2017


Dominique Ottavi – Tradução: Marília Etienne Arreguy

dominado, suas normas comportamentais Abstract


sem dúvida mais severas que se queira ad- The discussion about the educational value of
mitir, deixa de algum modo a emoção fora the short stories (fairy tales) is not so exploi-
da cultura. Essa experiência dos limites es- ted and even less clarified. The short stories,
tranhamente inquietante, que a mitologia linked to the myth and to the folklore, is su-
implementa, também se apresenta através pposed to be exclusively devoted to the overta-
da arte, como Freud demonstrou bem.29 king of the infantile in the childhood. Domini-
Talvez, então, antes de transformar o conto que Ottavi goes far from the simple assertion
em objeto escolar provido de objetivos bem about the cognitive and maturational use of
delimitados, seria sábio relançar a reflexão the short stories. The author rescues the Wit-
sobre a educação estética em geral, sobre o tgenstein’s critiques to a certain “primitivism”
que, de maneira radicalmente ‘inútil’, e para on the classical author’s, as Van Gennep and
além das ‘explicações’, produz a experiência e Fraze’s positions in the domain of short stories,
a experimentação no domínio dos afetos. E, and their priority destiny to the childhood,
de modo ainda mais relevante, sobre a natu- underestimating their value. Then the author
reza da pedagogia: uma prática que não pode rescue the freudian’s concept of “uncanny” to
nem deve se dispensar de uma reflexão sobre show the fear’s function of short stories, impo-
os seus princípios, mesmo apesar de que ela sed to childhood as a condition to control chil-
estaria de acordo com o preço das tradições. dren bias the alterity, that’s also, in a certain
way, affects the childish in adults.

Keywords: Myth, Alterity, Infantile, Educa-


tion, Psychoanalysis.

Referência

BETTELHEIM. B. A psicanálise dos contos de fadas


(1976). 21. ed. Tradução de Arlene Caetano. São Pau-
lo: Paz e Terra, 2007.

Recebido em: 03/05/2017


Aprovado em: 22/05/2017

Sobre a autora

Dominique Ottavi
Professora de Ciências da Educação na Université Pa-
ris X – Nanterre.

Endereço para correspondência

E-mail: <dominique.ottavi@u-paris10.fr>
29. A estranheza se manifesta, por outro lado, voluntaria-
mente na arte contemporânea, como mostra, por exemplo,
o filme Oncle Boonmée, celui qui se souvient de ces vies an-
térieures [Tio Boonmée: aquele que lembra de suas vidas
passadas], do diretor tailandês Apichatpong Weerasethakul
(2010), premiado no Festival de Cannes. Título não encon-
trado em português na internet. (N.T.).

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Mito e alteridade infantil

24 Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 15–24 | julho/2017


Marília Etienne Arreguy

Receitas pseudopedagógicas
para infantilizar a cultura1
Pseudo-pedagogical recipes
to infantilize the culture

Marília Etienne Arreguy

Resumo
O presente texto parte do encontro com a autora Dominique Ottavi (2011) e da tradução de
seu texto Mythe et altérité enfantine, bem como da orientação de formandos em pedagogia,
que defendem a importância do uso dos contos de fadas no processo de aprendizagem. Ottavi
põe em cheque a asserção aparentemente indubitável sobre o uso pedagógico dos contos de
fadas, tomada de modo recorrente pelas famílias e professores como forma de promover o
‘desenvolvimento’ da criança. Seguindo as deduções teóricas da autora, ao criticar uma espécie
de postulado take for granted na educação infantil, ou seja, o recurso aos contos de fadas como
privilegiado meio psicopedagógico, evidencia-se sua função de incutir medo, repressão se-
xual e preceitos morais datados; algo que carece de maior reflexão. É pertinente levantar certa
desconfiança a respeito do mundo encantado e aterrorizante dos contos, uma vez que podem
servir como forma de alienação e de encobrimento das angústias dos próprios adultos. A falá-
cia de apostar em uma suposta “primitividade” do pensamento infantil parece preconizar, de
forma subterrânea e inconsciente, um infantilismo na própria cultura.

Palavras-chave: Contos de fadas, Medo, Primitivismo, Pedagogia, Psicanálise.

As questões teóricas colocadas pela professo- fábulas e os contos feéricos são importantes
ra Dominique Ottavi (2011) no artigo Mythe para o desenvolvimento infantil.
et altérité enfantine [Mito e alteridade infan- No entanto, essa aposta pedagógico-lite-
til], a respeito do uso pedagógico dos con- rária tem base numa espécie de pensamento
tos de fadas, merecem ser mais discutidas arcaico, cujo fundo mitológico edulcorado
nos meios escolar e psicanalítico. Nos cursos pode também ser uma forma privilegiada de
de pedagogia ditos mais progressistas, que alienar crianças num dado imaginário cultu-
adotam o brincar e o lúdico como ícone da ral. Além do conteúdo das histórias mágicas
formação ligada ao ‘aprender com prazer’, to- e feéricas, a repetição incessante de certos
ma-se como dado o fato de que os mitos, as contos em diferentes arranjos com final feliz,

1. Agradeço ao querido colega de pós-doutorado Cristóvão Giovani Burgarelli pelos preciosos comentários e apoio na fina-
lização deste texto.

Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 25–34 | julho/2017 25


Receitas pseudopedagógicas para infantilizar a cultura

mais as lições de moral ali explícitas e implí- nem mesmo para os adultos mais esclareci-
citas, parecem reforçar uma inconsciência dos e contemporâneos?
sobre coisas que realmente poderiam trazer Com efeito, ainda se cultua e se faz apolo-
algum conhecimento sobre a cultura ou so- gia corrente às histórias fantásticas de prínci-
bre o próprio desejo. pes e princesas que, por vezes, ganham tons
O sujeito fica, então, fortemente aderido de mandato ao imaginário infantil dado seu
ao imaginário fantasístico em detrimento de caráter prescritivo no campo inconsciente.
formas sublimatórias da pulsão de saber e de É óbvio que os contos de fadas possuem
pensar. No entanto, seria dada como inques- seu valor literário e artístico. Essas histórias,
tionável a ‘eficácia’ dos contos para a elabora- mais do que distraem, atraem as crianças tor-
ção dos afetos. nando-as presas a certas fantasias compulsi-
No texto Além do princípio de prazer, vas, logo, deixando livre o tempo dos adultos
Freud ([1920] 1996) teorizou sobre o proces- para gozarem de seus próprios interesses.
so pelo qual a criança busca integrar afetos Essa forma de ‘se livrar’ das crianças talvez se
traumáticos através de brincadeiras repetiti- constitua ironicamente como o maior ‘valor
vas. cultural’ dos contos de fadas.
O brincar, quando ligado a um trauma No limite, esses contos também distraem
severo, é representado por uma ‘compulsão os próprios adultos, incapacitados de enfren-
à repetição’, que, de algum modo, permite tar um mundo profano, mais próximo da rea-
a atuação e, concomitantemente, a simboli- lidade factual com todos seus desvelos. Tam-
zação do desejo de separação e, até mesmo bém não é à toa o grande sucesso de novelas
de morte, em relação aos pais, rivais e “maus e filmes de comédia romântica ‘enlatada’, cujo
objetos” (Klein, [1957] 1991). pano de fundo moralista repete o script do in-
A integração desses afetos destrutivos, terdito, que acentua a falta e aguça o desejo se-
contudo, pode ser demasiadamente custosa guido de resolução apaziguadora no ‘final feliz’.
ao universo infantil, na medida em que des- Em consonância a isso, enfatizo, não em
pende um quantum de energia que vai além oposição, estão os filmes de terror e as his-
da intensidade suportável pela economia tórias estranhamente familiares que metem
psíquica infantil. pavor em todos os que as escutam, mesmo
Meu argumento prossegue no sentido de sabendo que são apenas ficções e, ao mesmo
distinguir o que é um recurso próprio da tempo, costumam gerar um prazer sadoma-
criança – ainda que seja através de uma atua- soquista no espectador. A atratividade pelo
ção agressiva e/ou destrutiva na brincadeira (a)bjeto representada na ‘diversão’ com os
e no jogo – da escolha de dar um privilégio cult movies é a forma privilegiada em que a
à pulsão de morte por parte dos adultos com indústria cultural captura o gozo do sujeito
o uso pedagógico de histórias miraculosas e/ pela via da angústia, veiculando uma forma
ou atemorizantes. catarse geradora de alienação3.
Por que seria tão importante legitimar a Um pouco intuitivamente, venho pen-
educação com base em histórias altamente sando sobre a relação entre o consumo de
idealizadas? certos ‘produtos’ culturais e a sociedade ca-
Seria possível abrir mão de educar através pitalística globalizada. A discussão aparece
do medo de e do apego a coisas que, embo- em cursos de formação de professores na
ra estranhamente familiares (Freud, [1919] Universidade Federal Fluminense tanto no
1996),2 não existem ou não fazem sentido nível da graduação quanto no mestrado e
doutorado, muitas vezes, para transmitir a

2. Uma criança é espancada (1919). ESB, v. 17. 3.Vide Arreguy, 2012; Arreguy, 2014/1.

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Marília Etienne Arreguy

leitura psicanalítica acerca da ‘crueldade’ das falaciosamente na alma feminina desde tem-
pulsões humanas (Freud, 1919a; Derrida, pos imemoriais, pela via tanto do mito quan-
2001) e abordar a ‘desconstrução’ (Derrida, to da tragédia.
2004) de estereótipos humanistas ancora- Essa forma de ‘tocar o terror’ nas mulhe-
dos em certa ‘obrigatoriedade’ de dar aulas res vem sendo consolidada pelas religiões e,
divertidas, com ênfase em ilusões (psico)pe- de certo modo, também comparece com sua
dagógicas – já bastante criticadas por Lajon- moral e contribui para o uso pseudopeda-
quière (2009) – expressas, por exemplo, na gógico dos contos de fadas, com demasiada
expectativa atribuída ao objetivo formativo ênfase na consolidação de estereótipos de
de ‘lidar’ melhor com os alunos, na nostalgia gênero. Nossas meninas são criadas ouvindo
da palmatória (Arreguy, 2014a), na crença, essas historinhas de fadas em parte para con-
independentemente do gênero, no amor ro- tinuarem a acreditar em uma espécie eufe-
mântico (Freire Costa, 1999), e, mais fre- mismo quanto ao amor romântico, baseado
quentemente, numa suposta certeza de que numa ilusão coletiva em relação ao que seria
é preciso colocar limites nas crianças. Procu- o casamento perfeitamente idealizado.
ro, então, desmistificar essas ideias prontas, Na contracorrente dessa lógica, Charles
junto às hipóteses da psicanálise, apoiada no Albert (1980) produziu um escrito anarquis-
pensamento de nosso “mestre” em desiludir, ta contundente, intitulado O casamento bur-
Sigmund Freud. guês; o amor livre, que ataca frontalmente as
Com o propósito de não levantar direta- ilações piegas sobre as benesses do modelo
mente as tão conhecidas e perenes ‘resistên- de casamento monogâmico pequeno bur-
cias à psicanálise’, de forma lúdica, transfe- guês. O autor critica abertamente o mercan-
rencial e implicada, costumo dizer brincan- tilismo e a hipocrisia no amor forjado pela
do que tenho vontade de processar judicial- instituição do casamento enquanto interesse
mente o Walt Disney, com a consciência de de classe. Embora pintado como idílico nos
que o genial desenhista se esmerou na arte bastidores, muitas vezes a vida marital fun-
encantadora de alienar o desejo de crianças. ciona como uma peça de terror atuada pelo
É evidente que não se poderia culpar o casal nos bastidores de suas disputas íntimas.
artista, tampouco La Fontaine, os Irmãos A repressão desses fatos é difundida em
Grimm, ou a quem quer que escreva e rees- forma de uma ilusão romântica, que preco-
creva, encene ou desenhe contos de fadas. niza a vivência simbólica desses afetos pela
Porém, em minha experiência clínica, vejo via dos contos de fadas. Típicos da narrativa
nitidamente o quanto, e por quanto tempo, de Perrault, esses contos remetem aos inter-
uma mulher pode demorar para sair, e talvez ditos da liberdade sexual em prol da prospe-
jamais saia, da ilusão do príncipe encantado. ridade econômica fundada na relação mono-
Trata-se do que Colette Dowling (2012) gâmica em que o ‘reino’ do lar cabe ao re-
chamou, na década 1980, de “complexo de cato das mulheres, ou seja, à sua prioridade
Cinderela”.4 Esse complexo não se trata sim- na abdicação das pulsões em função de seus
plesmente de uma psicopatologia de uma ou príncipes salvadores.
outra garota que foi abusada ou que possui Nos contos, ao mesmo tempo em que se
um “falso self” iludido por uma consciência cria um final feliz embutido em uma série
frágil. Ele representa o ideal do ego (Freud, de preceitos morais, veicula-se uma gama
[1921] 1996) de grande parte das mulheres, de medos que interditam a sexualidade in-
incutido de forma contínua, fantasística e fantil de forma a preencher uma ideologia
puritanista mal parada. Por exemplo: a bela
adormecida “furou o dedinho e sangrou” na
4. Ver também Silva (2017). adolescência, então, teve que ficar “100 anos”

Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 25–34 | julho/2017 27


Receitas pseudopedagógicas para infantilizar a cultura

dormindo, ou seja, sem amor, logo, sem sexo. adulta. A mãe boa, que morre rapidamente na
Na ‘lição’ dos contos é melhor, portanto, história de Branca de Neve e sai de cena na da
para a menina ‘se preservar’ da vivência ati- Bela Adormecida, é muito menos expressiva
va da sexualidade uma vez que essa escolha do que a malvada. A boa índole está restri-
seria determinada por um destino funesto, ta às jovens e a uma que outra fada, mas as
tal como fora narrado há séculos, nos temas fadas boas jamais estão desacompanhadas de
escritos em sua versão clássica por homens, sua versão maligna. Essas histórias seriam,
desde as fábulas de La Fontaine, até os contos então, também um tratado sobre a relação de
dos Irmãos Grimm e as histórias de fadas de homens e mulheres com a feminilidade: seu
Perrault. preço, seu fascínio, a magia magnética de sua
Nas palavras de Corso & Corso (2006), há beleza, seus poderes e perigos (Corso; Cor-
toda uma forma de definir papeis de gênero so, 2006, p. 76).
na alusão à posição feminina nos contos de
fadas. São muitos os indícios dessas alegorias
à maldição feminina nos contos. Marile-
Tão lisonjeiros são esses contos para a beleza na Chauí (1984) já deslindara essas bases
e os dons de suas jovens personagens femini- repressivas da construção das histórias di-
nas, que quem os aprecia mal percebe o quan- tas ‘infantis’ em seu livro feminista clássico
to o julgamento é inclemente relativo ao resto Repressão sexual: essa nossa (des)conhecida.
das mulheres. Tantos elogios, em verdade, O jogo de palavras já no título dá uma no-
ocultam um número proporcional de críti- ção de que algo é dito, mas não dito, pois
cas e preconceitos para com o sexo feminino, camufla a realidade. Ela analisa a repressão
cuja face perigosa é explicitada com requin- sexual das mulheres em diversos contos de
tes, principalmente na figura da madrasta da fadas, desvelando seu conteúdo subliminar,
Branca de Neve. De acordo com esses relatos, dissimulado em metáforas que interditam a
a jovem extrai seus encantos do fato de que autonomia da experiência sexual nas mulhe-
ainda é inocente, portanto não sabe usar os res. ‘Morder a maçã’, ‘furar o dedo’, ‘perder o
ardis típicos da fêmea humana. Carente de sapatinho’, ‘ficar presa na torre’ sugerem qua-
poder formal, a mulher sempre foi vista ma- se que invariavelmente o interdito da perda
quinando formas sutis de exercê-lo, e esses da virgindade a ser punida (Freud, [1916]
são seus feitiços. [...] No conto da Bela Ador- 1996).
mecida, a velha fada, com seu mau humor Essas críticas não são novas, porém não
invejoso e nocivo, exemplifica o que resta de menos importante seria atualizá-las. Antes
uma mulher quando a juventude a abandona. da filósofa, o “enfant terrible” da psicanálise,
Os atrativos femininos seriam uma arma pri- Sándor Ferenczi (1906; 1932), já havia de-
vilegiada de conquista de posição para uma nunciado a hipocrisia no trato dos adultos,
mulher, como o envelhecimento a privaria pais e professores para com as crianças. Ele
destes, a mulher necessitaria recorrer a outros apontou os aspectos traumáticos relaciona-
feitiços, os da bruxa. Um homem pode amar dos ao que chamou de “desmentido”,5 ou seja,
apaixonadamente uma princesa adormecida, quando a criança, vítima de um abuso sexual
aprisionada e passiva, mas quando a mulher (que podemos ampliar para toda e qualquer
desperta e perde a beleza inocente da juven-
tude, resta a visão da sua verdadeira alma:
poderosa, perigosa e ardilosa. Vemos então 5. Ferenczi faz uma nova leitura da Verneinung (Freud,
que, sob uma capa de elogio, essas histórias [1938] 1996). O que é traduzido na obra de freudiana como
“denegação” ou “recusa”, ligada ao fetichismo, em Ferenczi
contêm um aviso de que todo cuidado é pou- (1932) aparece com outra roupagem conceitual enquanto
co com mães, sogras ou todo o tipo de mulher “desmentido” do trauma pela hipocrisia de um terceiro.

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Marília Etienne Arreguy

forma de violência por parte de um adulto), é importante falar a partir da pergunta feita
vê seu pedido de acolhimento e ajuda des- pela criança, de acordo com a etapa de de-
qualificado por um terceiro, outro adulto, a senvolvimento cognitivo (e também emocio-
quem ela recorre para contar o que sofreu. nal) em que se encontra.
Esse adulto, normalmente a mãe, um(a) pro- Acontece que, frequentemente os pró-
fessor(a) ou irmã(o) mais velho(a), ao invés prios adultos, pais e professores, têm mais
de legitimar seu relato, o desmente, como se dificuldade em lidar com a ‘verdade’ da pró-
não fosse verdade ou como se o fato relatado pria sexualidade do que as próprias crianças
pela criança não tivesse valor. poderiam vir a ter. Mentem para as crianças
Pois então, nos contos não se passaria sobre aquilo que não têm coragem de abor-
algo semelhante, quando, em vez de se falar dar pelo prejuízo daquilo que em si mesmos
sobre os perigos e os prazeres da sexualida- não querem saber.
de humana, cria-se uma aura de ilusões, por Assim, torna-se mais fácil lidar com a
um lado, de modo a inventar um mundo mentira, com o segredo e com formas ilu-
romântico idealizado praticamente impossí- sórias do que falar mais abertamente não só
vel de se realizar e, por outro, a fim de me- sobre a sexualidade, mas também sobre polí-
ter medo e controlar o excesso pulsional de tica, sobre as falácias do amor e tantas coisas
uma forma adaptativa hegemônica? A insis- que se faz, que se vê ou se descobre os outros
tência na educação via contos de fadas não fazendo, mas não se quer assumir, denunciar
seria uma forma de desmentir a singulari- ou enfrentar.
dade das paixões humanas pela via de uma Acaba sendo mais fácil e ‘conveniente’ aos
falsa universalidade da experiência? Não se- próprios adultos educar através de anedo-
ria simplesmente mais honesto falar para as tas literárias ou religiosas, com um alto grau
crianças, sem grandes mistificações, sobre as imaginário, na medida em que asseguram as
implicações, complexas e, porventura trági- crenças e o modo de viver próprio do mundo
cas, do erotismo, por exemplo, tratando da adulto. Nesse sentido, o conto de fadas é um
incomensurabilidade entre o gozo feminino prato cheio, pois com sua aura estética re-
e masculino? presenta recalques, desmentidos e forclusões
É patente que a criança não vai enten- coletivas de forma lúdica e, supostamente,
der uma linguagem adulta demasiadamente inofensiva.
teórica. Aliás, há também adultos que não Não se trata aqui de ‘censurar’ a leitura ou
acompanhariam um nível de interlocução o recurso aos contos de fadas. No entanto,
formal, pois permanecem num estágio cog- cabe criticar uma certa renúncia à realidade
nitivo pré-operacional ou operacional con- cotidiana, mesquinha, ou seja, de um nível
creto (Piaget, 1967) ou, mais provavelmen- de problemas da esfera microfamiliar, assim
te, porque têm bloqueios neuróticos quando como o apagamento de discussões históricas
se trata de falar da sexualidade. mais amplas, já que implicam se defrontar
Mas, como preconizou Freud ([1907] com espinhosos fatos políticos. Afinal, as
1996) em um texto curto intitulado O es- metáforas propostas enquanto véu espesso
clarecimento sexual das crianças, é possível da realidade cotidiana nos contos de fadas
atuar com mais franqueza na educação in- não se restringem à interdição da sexualida-
fantil usando uma linguagem apropriada a de feminina.
cada idade ou ao desenvolvimento cogniti- Em termos específicos, por que acaso a
vo e cultural de cada criança, de cada turma, maioria de nossos jovens de 20 a 30 anos não
principalmente, respeitando a necessidade e sabe sequer o que foi a ditadura militar bra-
o desejo que as crianças exprimem em saber sileira de 1964 a 1984? Por que os jovens não
sobre o tema que quiserem levantar. Ou seja, querem saber de política e se dizem apolíti-

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Receitas pseudopedagógicas para infantilizar a cultura

cos (Arreguy, 2017)? Por que tantos grupos Nesse sentido, os contos são tidos como úteis
têm ódio aos homossexuais ou às mulheres para construir o medo infantil longe de uma
que, francamente, se prostituem? Por que ameaça de fato. Diz-se: “quando fechamos
não observar que suas próprias mães podem o livro ou acabamos a história, a criança se
viver décadas em casamentos infelizes sim- acalma, pois sabe que aquilo não é real” (sic).
plesmente por conta de uma dependência No entanto, como coloca Ottavi (2011),
financeira? ao evocar Freud e Wittgenstein, o terror que
Simultaneamente, numa espécie de nega- corre por baixo dos contos de fadas é absolu-
ção da realidade, jovens idolatram filmes ro- tamente duradouro, pois se adere ao Real de
mânticos com roteiro de contos de fadas, fil- nossas angústias. Ora, mais uma vez, não se
mes gore, cult movies e jogos de guerra, em que trata aqui de dizer que as crianças não devem
uma catártica economia de gozo é irrefutável. ter medo ou que poderiam viver num mun-
Questionar a idolatria aos contos de fadas, do hiper-realístico em que não haveria uma
portanto, é uma forma de ampliar uma visão capa imaginária compartilhada como forma
crítica sobre a sociedade em que vivemos. de composição ontológica face ao Real.
Em tempos de avanço de projetos em que Contudo, a importância de questionar o
se restringe a liberdade de professores em fa- uso pedagógico de histórias ilusórias, seja de
lar sobre aquilo que sabem e percebem opres- teor atenuado, seja explicitamente trágicas é
são histórica e sistêmica, traduzido no senso saber o porquê de tratar as crianças como se
comum como a nova ‘escola da mordaça’, é, elas fossem sempre incapazes de fazer face à
portanto, fundamental demonstrar as mais realidade incontornável, como se portassem
diversas formas de mistificação da realidade exclusivamente certo primitivismo no pen-
sobretudo as adotadas no meio educacional. samento.
Se falar em política e sexualidade é tratar de Embora se deva preservar as crianças, não
ideologia, o que então representaria ensinar se pode reforçar sua ingenuidade com base
através dos contos de fadas? em ilusões pseudorromânticas ou pseudo-
Sem “jogar fora o bebê junto com a água terroríficas, pela prerrogativa de camuflar fa-
do banho”, podemos creditar às crianças, aos tos constitutivos de sua história, pela via tan-
jovens e aos adultos uma capacidade de in- to de segredos de família quanto de histórias
terpretar e tomar posições autônomas tanto oficiais em geral tendenciosas.
quanto às formas literárias mais ilusórias de Apostar todas as fichas nessa forma de sa-
conceber a realidade quanto às bandeiras po- ber pode aprofundar um infantilismo cultu-
líticas mais ‘radicais’ em relação à história da ral na medida em que acaba por tornar ipso
humanidade. O que não se pode fazer é im- facto as crianças ignorantes, não no sentido
pedir o acesso às formas plurais de conhecer, de estúpidas, mas insistentemente incons-
retomando práticas de queimar os livros ou cientes e alienadas de aspectos subjetivos,
amordaçar as pessoas, tampouco idiotizar a sociais e históricos dos quais muitas vezes
cultura ao dar prioridade quase exclusiva à acabam sendo alijadas.
manutenção de crenças e fantasias mirabo- Dito de outro modo, podemos indagar:
lantes. por que as famílias inventam tantas menti-
Do mesmo modo que vivemos ‘ondas fas- ras para lidar com seus filhos? Muitos pais e
citoides’ de tempos em tempos, construímos professores têm dificuldade em falar franca-
uma cultura infantil que precisa ‘temer’ para mente com as crianças, impondo-lhes uma
poder aceder a uma certa realidade moral série de segredos sub-reptícios por vezes tão
supostamente livre de falhas. É comum ouvir traumáticos quanto a realidade escamotea-
pais de crianças pequenas afirmarem: “mas as da, ou mais, pois privam a criança da própria
crianças têm realmente que ter medo” (sic). capacidade de confiar nos adultos.

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Marília Etienne Arreguy

É comum observar, por outro lado, mães falsas que se pode receber das massas, ou dos
que falam de coisas indizíveis na frente de maus mestres, mas também dos pais e do en-
seus filhos, como se eles não estivessem ou- torno”. “Desaprender” (des-dicere [des-dizer])
vindo, como se fossem surdos ou como se é uma das tarefas importantes da cultura de si
fossem incapazes de qualquer nível de com- (Foucault, 2017, p. 56).7
preensão. Essa postura subestima o poten-
cial cognitivo e desqualifica a afetividade das Por que então ‘martelar’ tantas novelas,
crianças. Fingir que as crianças não ouvem fábulas e contos de fadas na cabeça das crian-
ou não entendem nada mais parece que uma ças e, ainda mais, dos adultos? Num período
projeção da própria incapacidade adulta de pós-revolucionário – haja vista o feminismo,
lidar com seus próprios afetos e, sobrema- as lutas anticorrupção, antiguerras, pró-eco-
neira, com seus maiores temores. logia, pró-minorias – certos pseudossaberes
Com inspiração nas palavras de Maurice são postos como formas ilustradas e canôni-
Blanchot (1973, p. 70), diríamos que os adul- cas de pós-verdades.
tos se unem às crianças em seus medos: Ainda que não se possa, nem se deva abo-
lir tais histórias de monstros e fadas, quiçá
Entre eles, o medo, o medo comum partilha- belas e encantadoras, talvez sua repetição ad
do e, pelo medo, o abismo do medo acima do infinitum dê mais trabalho para ‘desapren-
qual eles se unem sem poder, morrendo, cada dê-las’ do que realmente tragam desenvolvi-
um, só, de medo.6 mento psíquico e coletivo.

Ao acreditar que as crianças têm que ter


medo por intermédio de fantasias terrifican-
tes construídas com base em histórias fabu-
losas, perde-se a chance de criar uma edu-
cação emancipatória, crítica e menos injusta
em relação à abertura para elaborações éticas
acerca das dores e dos sofrimentos que, cer-
tamente, terão que confrontar na realidade.
No aclamado curso sobre a parresia – a co-
ragem do dizer verdadeiro – Foucault (2017)
remonta às origens gregas do “cuidado de si”
como condição de “governança” do outro, ou
seja, como prática coletiva que permite a go-
vernabilidade. Para que haja chances de um
verdadeiro “cuidado de si” como prática de
liberdade, antes de tudo, é preciso se afastar
das falsas aprendizagens.
Em suas palavras:

A prática de si deve permitir se desfazer de


todos os maus hábitos, de todas as opiniões
7. Tradução livre de “La pratique de soi doit permettre de se
défaire de toutes les mauvaises habitudes, de toutes les opi-
6. Tradução livre de “Entre eux, la peur, la peur partagée en nions fausses qu’on peut recevoir de la foule, ou des mauvais
commun et, par la peur, l’abîme de la peur par-dessus lequel maîtres, mais aussi des parents et de l’entourage. “Désappren-
ils se rejoingnent sans le pouvoir, mourant, chacun, seul, de dre” (de-discere) est une des tâches importantes de la culture
peur” (Blanchot, 1973, p. 70). de soi” (FOUCAULT, 2017, p. 56).

Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 25–34 | julho/2017 31


Receitas pseudopedagógicas para infantilizar a cultura

Abstract ARREGUY, M. E. De “mortos-vivos” a “não mortos”:


The present text is based on the meeting with pensamento mágico, violência e insurgência nos pro-
testos atuais. Educar em Revista, Curitiba, n. 64, p.
the author Dominique Ottavi (2011) and the 117-135, abr./jun. 2017. Disponível em: <http://revis-
translation of his text Mythe et altérité enfan- tas.ufpr.br/educar/article/view/50025/32180>. Aces-
tine, as well as the orientation of trainees in so em: 05 jun .2017.
pedagogy, who defend the importance of the
use of fairy tales in the learning process. Otta- ARREGUY, M. E. La diversion avec le re-
gard du sacrifice abject dans les cult movies.
vi puts into question the seemingly undoubted Topique, 2014/1, n. 126, p. 167-185. Disponível em:
assertion about the pedagogical use of fairy ta- <https://www.cairn.info/revue-topique-2014-1-pa-
les, which is recurrently taken by families and ge-167.htm>. Acesso em: 05 jun. 2017.
teachers as a way of promoting the “develop-
ment” of the child. Following the theoretical BLANCHOT, M. Le pas au-delà. Paris: Gallimard,
1973.
deductions of the author, in criticizing a kind
of postulate take for granted in Children’s edu- CHAUÍ, M. Repressão sexual: essa nossa (des)conheci-
cation, that is, the use of fairy tales as a pri- da. São Paulo: Brasiliense, 1984.
vileged psychopedagogical means, it is evident
its function of instilling fear, sexual repression CORSO, D. L.; CORSO, M. Fadas no divã. A psicaná-
lise nas histórias infantis. Porto Alegre: Artmed, 2006.
and dated moral precepts; something that
needs further reflection. It is pertinent to rai- DERRIDA, J. Estados-da-alma da psicanálise: o im-
se a certain mistrust regarding the enchanted possível para além da soberana crueldade. Tradução
and terrifying world of short stories, since they de Antonio Romane Nogueira e Isabel Kahn Marin.
can serve as a form of alienation and cover-up São Paulo: Escuta, 2001.
of the anguish of the adults themselves. The
DOWLING, C. Complexo de Cinderela (1982). Tradu-
fallacy of betting on an alleged “primitiveness” ção de Amarylis Eugênia F. Miazzi. 3. ed. São Paulo:
of infantile thought seems to preach, in a sub- Melhoramentos, 2012.
terranean and unconscious way, a infantilism
in one’s own culture. FERENCZI, S. Confusão de línguas entre os adultos
e a criança (1933). São Paulo: WMF Martins Fontes,
1992. p. 97-106. (Obras completas, 4).
Keywords: Fairy tales, Fear, Primitivism, Pe-
dagogy, Psychoanalysis. FERENCZI, S. Freud e a pedagogia (1906). São Paulo:
Martins Fontes, 2011. p. 39-44. (Obras completas, 1).

FOUCAULT, M. Dire vrai sur soi-même. Conférences


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32 Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 25–34 | julho/2017


Marília Etienne Arreguy

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FREUD, S. Uma criança é espancada: uma contri- Professora pesquisadora do Programa de Pós-
buição ao estudo da origem das perversões sexuais Graduação em Educação na Faculdade de Educação
(1919). In: ______. Uma neurose infantil e outros da Universidade Federal Fluminense (UFF).
trabalhos (1917-1918). Direção-geral da tradução de Psicanalista. Membro da Association Internationale
Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 195- des Interactions de la Psychanalyse - Paris. Autora
218. (Edição standard brasileira das obras psicológi- de diversos artigos e do livro Os crimes no triângulo
cas completas de Sigmund Freud, 17). amoroso: violenta emoção e paixão na interface de
psicanálise e direito penal (2011).
KLEIN, M. Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-
1963). Rio de Janeiro: Imago, 1991. (Obras completas Coordena o Grupo Alteridade Psicanálise e
de Melanie Klein, 3). Educação - GAP(E)/CNPq/UFF. Atualmente faz
pesquisa pós-doutoral com bolsa da CAPES na
LAJONQUIÈRE, L. Infância e ilusão (psico)pedagógi- Universidade de Paris 8 - Saint-Denis.
ca - escritos de psicanálise e educação. Petrópolis: Vo-
zes, 1999. Endereço para correspondência
E-mail: <mariliaetienne@id.uff.br>
LE MONDE. Jacques Derrida. Cahier Du “Monde”,
12 oct. 2004. Disponível em: <http://medias.lemon-
de.fr/medias/pdf_obj/sup_pdf_derrida_111004.pdf>.
Acesso em: 05 jun. 2017.

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Receitas pseudopedagógicas para infantilizar a cultura

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Psicanálise: gênero e transexualidades Ana Maria Sigal

Ainda a psicanálise no campo da sexuação!1


Yet psychoanalyis in the field of sexuation

Ana Maria Sigal

Resumo
Este texto revisa alguns conceitos freudianos em relação à sexualidade e o gênero. Retoma os
progressos da ciência e as novas formulações epistemológicas que nos aportam à teoria do
caos, da complexidade, das teorias dissipativas, para pensar a psicanálise fora dos sistemas
de causa e efeito da física tradicional e nos convida a pensar em sistemas complexos, dinâ-
micos, não lineares, em desordem, sistemas nos quais as variáveis interatuam com diversas
alternativas. Questiona o lugar que as teorias do gênero vêm a ocupar na psicanálise. Estas,
no lugar de oferecer ferramentas diferenciadas que agregassem e nos obrigassem a repensar
alguns elementos a ser elaborados em função de questões da época em que foram produzidos,
vêm ocupar um lugar na teoria, empobrecendo-a ou desqualificando-a. Essa dificuldade não é
necessariamente produto das teorias do gênero e sim da forma como a psicanálise se apropria
delas. Retoma os elementos próprios da sexuação, como Édipo, identificações, sexualidade
infantil e castração simbólica, para ressituá-los à luz da contemporaneidade e diferenciá-los
da identidade de gênero. Necessita trabalhar a sexualidade na diversidade e se apropria do
conceito de diferença não oposicional.

Palavras-chave: Identidade de gênero, Sexuação, Diferença, Diversidade.

A única maneira de manter a psicanálise viva lhando-a e aprofundando-a que conseguire-


é pensar novas formas de produção do co- mos avançar. Faz-se necessário retrabalhar a
nhecimento que possam incorporar o novo e obra freudiana à luz dos progressos da ciên-
reorganizar o já conhecido dentro dos para- cia, da filosofia, da antropologia, da sociolo-
digmas que nos caracterizam como especifi- gia, da economia, das artes e da cultura em
cidade científica. Para dar conta da ideologi- geral.
zação que se infiltra no campo psicanalítico e É nesta trilha que apresentarei este traba-
das novas questões que se nos apresentam, é lho porque – a partir de novas leituras, das
necessário não tomar a teoria como um cor- questões com que nos confronta a transmis-
po morto, coagulado ou estagnado. É traba- são, da clínica que apresenta novos modos

1. Palestra pronunciada na VII Jornada de Psicanálise do CBP-RJ - NeoSexualidades: novas escutas, Hotel Mirador, Rio de
Janeiro, 28 nov. 2015.
A teoria das estruturas dissipativas ou teoria do caos estuda a aparição de estruturas coerentes, auto-organizadas em
sistemas isentos de equilíbrio. Trata-se de um conceito de Ilya Prigogine, que recebeu o prêmio Nobel de Química “[...]
por uma grande contribuição à acertada extensão da teoria termodinâmica a sistemas isentos de equilíbrio, que só podem
existir em conjunção com seu entorno”. A expressão “estrutura dissipativa” busca representar a associação entre as ideias de
ordem e de dissipação. O novo fato fundamental é que a dissipação de energia e de matéria, que poderia se associar à noção
de perda e evolução para desordem, se converte, longe do equilíbrio, em fonte de ordem. <https://en.m.wikipedia.org/wiki/
Estructura_disipativa>.

Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 35–46 | julho/2017 35


Ainda a psicanálise no campo da sexuação!

de expressar a patologia, ou simplesmente a ferente, oferecem-nos postulados que abrem


partir de uma subjetividade que assume no- novos modos de entender os fenômenos dos
vos devires – um incômodo se me fez pre- quais teremos que dar conta.
sente: percebo no campo da psicanálise certa
confusão para pensar o modo como se in- Sobre os novos paradigmas da ciência
corporam os novos conhecimentos. Entendo A partir do século XVI foram surgindo gran-
que se trata de ampliar o pensamento, mas des transformações nos processos de legiti-
sem descaracterizar aquilo, em nosso saber, mação do conhecimento. As cisões da igreja
que se tem construído no decorrer dos últi- e o advento do protestantismo ocorreram
mos 100 anos. pela negativa de alguns grupos em aceitar
Hoje me ocuparei especialmente dos efei- que existisse uma única leitura possível das
tos produzidos no nosso campo pela incor- escrituras. De uma subversão religiosa de-
poração dos estudos que provêm das teorias correu, naturalmente, uma subversão no
do gênero. Estas, no lugar de oferecer ferra- campo social e da ciência, a partir da qual
mentas diferenciadas que agregassem e nos não mais se pode falar de verdades únicas.
obrigassem a repensar alguns elementos A epistemologia clássica adaptou seu
a ser elaborados em função de questões da ideal de teoria científica à concepção da geo-
época em que foram produzidos, vêm ocu- metria euclidiana: a teoria ideal é um siste-
par um lugar na teoria, empobrecendo-a ou ma dedutivo com uma definição de verdade
desqualificando-a. Essa dificuldade não é incontestável baseada em uma conjunção de
necessariamente produto das teorias do gê- axiomas, de modo que a verdade se desloque
nero, e sim da forma como a psicanálise se por caminhos definidos de inferência válida,
apropria delas. que se propagam por todo o sistema. Se o cri-
Quando o novo invade e não se imbrica tério de univocidade das ciências empíricas
necessariamente com aquilo que é propria- foi, para filósofos como Comte, requisito de
mente psicanalítico, quando o que chega de toda ciência, um grande avanço se promoveu
fora tenta dar uma explicação totalizadora na história do pensamento a partir das colo-
dos elementos que, na psicanálise, poderiam cações de Dilthey, que diferencia ciências do
ser revisados a partir de sua própria metodo- espírito e da natureza, com diversas metodo-
logia, estamos no caminho errado. Perdemo- logias e formas de pesquisa.
nos nas lutas científicas de poder e não ne- Hoje não interessa promover o conceito
cessariamente acrescentamos. Uma psicaná- de univocidade como se procurava nos sis-
lise com a qual temos sido sempre solidários temas galileanos e newtonianos. Até mesmo
vem, há anos, questionando-se sobre o lu- no campo das ciências exatas, a pluralidade
gar que os fenômenos histórico-sociais têm de hipóteses é admitida. Já dizia Poincaré,
na formação do inconsciente e do supereu. um matemático do começo do século XX,
Pensar de que modo esses fenômenos inci- que a crença de que as verdades científicas
dem no inconsciente não o descaracteriza são certezas só pode ser admitida numa
como aquele que, segundo suas próprias leis, mente ingênua.
determina nossas condutas desejantes. O método clínico, que é o método cientí-
Na época em que Freud elaborou o arca- fico por excelência no campo da psicanálise,
bouço científico sobre o qual desenvolveria guarda pouca conexão com a ciência “fisicis-
seu modelo metapsicológico, as ciências es- ta” do século XIX. A verdade do paciente é
tavam impregnadas pelos modelos da termo- sempre conjectural. Inclusive no campo da
dinâmica e pelos modelos deterministas de medicina podemos dizer que não há enfer-
causa-efeito. Hoje os novos paradigmas cien- midades, mas sim enfermos, partindo-se da
tíficos nos permitem pensar de um modo di- impossibilidade de assumir qualquer tipo

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Ana Maria Sigal

de certeza. Conservar a singularidade se faz O século XVIII propunha-se a eliminar


fundamental na pesquisa psicanalítica. o impreciso, as complexidades. Hoje as teo-
À revolução copernicana, que desloca a rias de Edgar Morin e seus contemporâneos
Terra do lugar de privilégio, une-se a ferida esforçam-se para incorporar o aleatório e a
narcísica que promove a psicanálise ao reco- complexidade. Pensemos na revolução que
nhecer que a consciência não é o elemento traz a teoria do caos para a compreensão de
central que se deve analisar para entender as diversos fenômenos.
determinações que impulsionam os cami- Ela nos convida a pensar em sistemas
nhos psíquicos do homem. Como tínhamos complexos, dinâmicos, não lineares, em de-
anunciado, hoje em dia se faz necessário re- sordem, sistemas nos quais as variáveis inte-
pensar o modo como operavam na psicanáli- ratuam com diversas alternativas de soluções
se os postulados científicos da época, na for- e que têm sua origem em modelos muito
ma como aparecem, por exemplo, na cons- simples. As interferências e o acaso em seu
trução do Projeto para uma psicologia cien- trajeto transformam seu comportamento em
tífica (1895), assim como incorporar novos imprevisível, gerando desordens aparentes
modelos científicos para pensar a psicanálise. de difícil explicação e entendimento.
Penso que tais modelos vão afetar funda- Situações imprevistas criam ordens des-
mentalmente as concepções de sexualidade conhecidas, supostas desordens que na rea-
que encontramos em vários escritos freudia- lidade criam novas formas de ordenamento.
nos. Diante de novos paradigmas, há quem A lógica com que costumávamos analisar
considere nulos os anteriores, outros pro- certos trajetos históricos na vida dos sujeitos
põem uma nova forma de organização do pode se transformar à luz da teoria do caos e
conhecimento, outros ampliam ou questio- das estruturas dissipativas, pois não nos cabe
nam os postulados ideológicos que corres- pensar o curso da vida dos sujeitos a partir
pondiam às visões da época. Assim, os novos de uma relação de causa-efeito. A sobrede-
conhecimentos – tanto os internos à teoria terminação freudiana pode adquirir um
como os que vêm da teoria de gênero – pre- novo sentido uma vez que estamos sempre
cisam ser postos à prova e modificados ou expostos à criação de novas inscrições psí-
reinventados. Esses avanços da epistemolo- quicas que são produto do acaso.
gia não ocorrem sem consequências e afetam A partir dessas ideias, o mundo já não se
tanto as ciências duras como as sociais. organiza por dualidades dicotômicas ou cau-
Em diversos campos do conhecimento, sa-efeito: abrem-se as diversidades, nas quais
desde a matemática até as ciências sociais, uma aparente desorganização está dando
há novas formas de entender os processos e origem a uma nova organização que pode
as leis que regem o conhecimento. No século ser entendida, na psicanálise, como a possi-
XX, nenhum conceito se ressignificou com bilidade de criação permanente de inscrições
tanta profundidade como o de “complexo”. em um inconsciente que será considerado
De um uso comum e científico que tinha como um sistema aberto.
perdido suas raízes e o relacionava ao com- Em relação à sexualidade, termo que nos
plicado ou emaranhado ao difícil de enten- ocupa neste momento, podemos pensar em
der, retomou seu sentido originário e passou um mundo de diversidades, no qual os tra-
a significar uma nova perspectiva para de- ços identificatórios vão formando conjuntos,
signar o ser humano, a natureza e as nossas ensembles, que permitem tantas combina-
relações com ela. Assim o termo “complexo” ções quantas singularidades existirem.
designa hoje uma forma de compreensão do Uma fala que se tornou símbolo dessa teo-
mundo na qual tudo se encontra entrelaçado ria nos diz: “O bater das asas de uma borbo-
como uma trama composta de finos fios. leta no Brasil pode ocasionar um tornado no

Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 35–46 | julho/2017 37


Ainda a psicanálise no campo da sexuação!

Texas” (Edward Lorenz, meteorologista do As teorias de gênero, em especial no que se


MIT, 1972). As figuras investidas libidinal- refere à sexualidade, alertam e desqualificam
mente, que circulam a curta ou longa distân- a psicanálise em relação a certos postulados
cia dos sujeitos, podem produzir transfor- intrínsecos à elaboração teórica, porque os
mações inesperadas segundo a forma como tomam por valores ideológicos da época em
os traços identificatórios são incorporados, que foram produzidos, e não como verda-
formando conjuntos absolutamente impen- deiros postulados teóricos – o que não deixa
sados nos sujeitos de destino. de ser parcialmente verdadeiro mas é insufi-
A teoria das estruturas dissipativas tem ciente para invalidar essas construções, a ser
como ponto de partida o não equilíbrio. Para revisitadas para uma melhor discriminação.
Freud haveria sempre um passado que daria É nessa nova espiral que podemos confirmar
sentido à história presente e ao sintoma; a que certos elementos da construção teórica
questão estava em encontrar os determinan- se mantêm como pilares indiscutíveis.
tes inconscientes do passado que retornavam A partir da separação entre procriação e
no recalcado. O papel do acaso abre-nos ca- prazer como fenômeno socioeconômico de-
minho para a neogênese. Elementos imprevi- corrente da revolução industrial, a mulher
síveis na história criam novas configurações ocupou um novo lugar como força de traba-
inconscientes. À psicanálise interessa traba- lho e se recolocou no espectro dos meios de
lhar nas abordagens cruzadas entre aconteci- produção. Em consequência dessa mudança
mento, inscrição do acontecimento, retorno já não se destina a um único papel, o da re-
do acontecimento, relato do acontecimento. produtora alheia ao prazer e ao gozo sexual,
abrindo-se-lhe o acesso a uma nova subjeti-
Psicanálise e teorias do gênero vidade e permitindo-nos constatar o quan-
O que seria necessário manter para perma- to certos lugares destinados ao feminino na
necer no campo da psicanálise? Será que as teoria psicanalítica eram intrínsecos não à
teorias de gênero viriam a dar conta da tota- feminilidade e sim aos valores da época.
lidade de nossas questões no que se refere ao No que se refere à teoria da sexuação te-
modo sexuado de estar no mundo? mos – de Freud a Lacan e de Melanie Klein
A psicanálise corre o risco de se transfor- a Laplanche, Green ou Winnicott – uma di-
mar em sociologia ou antropologia se não versidade de aportes que permitiram a cada
tomarmos os cuidados necessários para pen- um construir suas próprias abordagens, que
sar o que é específico de seu campo. diferem entre si, algumas por estarem im-
As teorias de gênero, que nos proporcio- pregnadas de elementos ideológicos diver-
nam hoje valiosos elementos críticos para sos, outras por retrabalharem, de uma forma
repensarmos nossos postulados, têm seu al- nova, conceitos metapsicológicos da própria
cance limitado a algumas questões: de Stoller teoria. Mas todas elas se mantêm dentro da
a Judith Butler, desta a Beatriz Preciado en- psicanálise ao priorizar o deslocamento que
contramos diferenças fundamentais. Desses sofre o Eu e a consciência em favor da enun-
aportes aos de Foucault e às lutas feministas ciação do conceito de inconsciente.
teremos um amplo leque para rever a ques- O que é inegociável para manter nossa
tão, sem necessidade de aderir como verdade especificidade teórica é considerar o deslo-
última a nenhuma delas. camento que faz a psicanálise, de uma con-
O elemento central que essas teorias tra- cepção ptolomaica de um Eu possuidor da
zem se refere ao modo de produção do co- verdade ao recentramento do inconsciente
nhecimento, que sempre está imerso num como espaço estrangeiro que deixa ao sujei-
meio histórico-cultural determinante na to à mercê de um desconhecido de si. Outro
compreensão da própria produção científica. elemento inegociável é o deslocamento que

38 Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 35–46 | julho/2017


Ana Maria Sigal

Freud produz nos Três ensaios ([1905] 1988) ferência aos elementos inconscientes na for-
ao demolir o preconceito de uma sexuali- mação da identificação sexual, como matriz
dade pré-orientada instintualmente no ho- da subjetividade, ainda que a identidade de
mem, em benefício de uma pulsão que só gênero seja mais influenciada por elementos
encontraria seu objeto de maneira totalmen- socioculturais da época.
te aleatória na sua história individual, objeto O lugar do desejo do outro, assim como
esse essencialmente vicariante e contingente a implantação do objeto fonte da pulsão, diz
(Laplanche, 1987, p. 117). Essa substitui- respeito ao inconsciente do adulto que se
ção tira o sujeito do campo da pura biologia debruça diante da criança para lhe oferecer
e o constitui na sua própria diferença, fora do uma matriz pela qual circulará o caminho de
determinismo biológico, a partir da valori- sua sexuação. Esses caminhos estão defini-
zação da fantasia e da linguagem. O terceiro dos, em parte, pelas elaborações edípicas. No
deslocamento é o que ressitua a sexualidade que se refere aos caminhos da identificação e
infantil como trilha pela qual transita a for- ao Édipo, sem dúvida, há no texto freudiano
mação da subjetividade. desenvolvimentos que decorrem de valores
Identifico epistemologicamente os con- axiológicos da época. Freud produz a teoria
ceitos com os quais trabalho – inconsciente, da primazia do falo numa época de surgi-
pulsão e sexualidade infantil – para mani- mento do feminismo, quando estão em ques-
festar minha ideia de que há pilares da teo- tão valores relacionados ao papel da mulher
ria psicanalítica que podem mudar, mas há que se defende da valorização androgênica.
constituintes básicos que se mantêm vigen- Não podemos negar que também intervêm
tes. Mesmo pensando em diversas concep- elementos da própria história de Freud.
ções metapsicológicas segundo as diversas Novas leituras nos obrigam a rever esses
escolas, impõe-se a radicalidade do incons- postulados e reconsiderar os caminhos dos
ciente no campo do desejo, e o modo em que processos identificatórios, mas não necessa-
se transita pelo caminho da sexuação na ins- riamente anulá-los ou desconsiderá-los.
crição da alteridade. Já Deleuze e Guattari (1985), no Anti-
Qual é a questão? Penso que a adesão ma- Édipo, questionavam o caminho da sexua-
ciça às teorias de gênero nos posiciona em lidade em Freud, ridicularizando a “imbecil
uma psicanálise do Eu, na qual tudo o que dialética” binária dos sexos e formulando
temos a dizer sobre sexualidade infantil, teorias de fluxos e devires. Nem por isso a
Édipo e perversidade polimorfa depende de psicanálise deixou de produzir teoria, tam-
elementos puramente conscientes, históricos pouco de se perguntar sobre questões que
e sociais, e não de modos inconscientes de essa filosofia nos oferecia ao eliminar a lógica
elaborar as identificações, a proibição do in- binária.
cesto, o encontro com o adulto que seduz e Podemos questionar a primazia do falo
implanta seu próprio desejo a partir de seu que Freud formula no ano 1923, já que essa
inconsciente. concepção – tal como explicitei no artigo de
Ao tentar anular os efeitos deletérios pro- 1997 sobre A organização genital infantil – in-
duzidos por uma concepção hierárquica do corre em erros epistemológicos sérios, como
fálico, corremos o risco de apagar as marcas analisar o sujeito a partir do masculino to-
da diversidade sexual e dos processos identi- mado como universal.
ficatórios. É possível percorrer outros caminhos a
Devemos considerar que o problema da partir do texto “Sobre a transposição da pul-
diferença e da diversidade sexual ultrapas- são e em particular do erotismo anal” no qual
sa os limites da pura interrogação sobre os Freud (1917) desenvolve com precisão as
papéis sociais e culturais da época e faz re- equações simbólicas, sem atribuir um lugar

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Ainda a psicanálise no campo da sexuação!

de valor maior a nenhuma delas. Pênis, be- as oposições não podem ser pensadas num
bês, cocôs, presentes, dinheiro estão entrela- binário, visto que ele não encerra o campo
çados por um signo igual, e nenhum deles é semântico da diferença; é possível pensá-la
o referente último que se prioriza diante dos como relação, apenas no movimento, no
outros. jogo.
Conceitos como inveja do pênis, o supe- Situar a inveja como uma constelação pre-
reu feminino e a mulher no lugar da histérica sente nas teorias sexuais infantis não justifica
não são as referências únicas para entender o colocar no destino da feminilidade adulta a
caminho da sexuação, ainda que Freud se in- mulher como histérica. Entender que o ter-
cline pela primazia do falo. Tanto o caminho ceiro aparece como rival, porque na estru-
para a masculinidade como o caminho para tura se presentifica como aquilo que separa,
a feminilidade apresentam novos paradoxos não justifica certas deduções que valorizam
se não partimos da ideia única de primazia o falo como o que todos desejam ter na vida
fálica, abrindo-nos a percepção da potência adulta, nem como aquilo que, sendo porta-
do feminino. do pelo pai como metáfora, tenha a função
Pensar na inveja do pênis como aquilo salvadora para que a criança possa entrar na
que se deseja ter pode estar marcado pela neurose.
diferença, mas não necessariamente por ser Também na época do Édipo, o menino
mais ou melhor. Há uma “diferença não opo- quer ter um filho na barriga e coloca bonecas
sicional”, como nos diz Derrida, que é cada embaixo da camiseta simulando uma barriga
vez menos pensada em relação a estruturas em identificação com a mãe e, se não fosse
binárias; estamos numa época de policro- cortado pelos gritos que dizem: “Menino não
matismo, assim como do polimorfismo da pode” ou “Desejar isso é coisa de mulher”,
sexualidade. O sistema binário, que ofere- muitos homens teriam mais espaço para
ce uma verdade positiva diante de uma não elaborar uma sexualidade adulta mais livre
verdade na diferença, não é a modalidade e menos ameaçada pelo temor de ser o que
instituída para pensar feminino-masculino, não se deve.
ativo-passivo se pretendemos abrir caminho Talvez a crença de um homem machista se
para analisar o campo da diversidade. produza por formação reativa, como modo
Numa entrevista a Elisabeth Roudinesco de esconder a fraqueza que poderia ser vis-
intitulada “Políticas da diferença” ao falar ta como feminina, valorizando o priapismo,
sobre o que há de universal na différance, o que coloca o homem em uma situação de
Derrida diz que essa noção permanente medo do fracasso se não cum-
prir sua função. Pensemos que os fenômenos
[...] não é uma distinção, uma essência ou de atribuição de gênero acontecem antes dos
uma oposição, mas um movimento de espa- 3 anos e têm a ver com a ‘identidade de gêne-
çamento, um ‘devir-espaço’ do tempo, um ro’, mais influenciada pelos elementos socio-
‘devir-tempo’ de espaço, uma referência à culturais de imitação e cópia.
alteridade, a uma heterogeneidade que não Sem embargo, Laplanche (1987) é radical
é primordialmente oposicional (Derrida; e nos diz que a atribuição de gênero também
Roudinesco, 2004, p. 34). se faz a partir da mensagem enigmática do
outro, sendo sempre marcada pela sexuali-
É uma relação com o outro, sem que seja dade inconsciente do adulto. No modelo que
necessário, para que ela exista, congelá-la se oferece à criança para imitação, Laplanche
ou fixá-la numa distinção de opostos. A dif- (1987) nos diz que se transmitirá o que a
férance é cunhada por Derrida para dar con- cultura nos oferece como modelo, porém
ta da temporalização e do espaçamento, pois mediatizado pela forma como esses adultos

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Ana Maria Sigal

interpretam o que é ser homem e ser mu- te, sem se considerar a castração como ele-
lher. Ou seja, para Laplanche, a identidade mento central, e a inveja está ligada ao seio.
de gênero responde também a elementos in- Há ainda outros elementos de alto interesse
conscientes e conscientes transmitidos pelo como o fantasma infantil da figura combina-
entorno como mensagens endereçadas à da, na qual homem e mulher possuem todos
criança e que ela deverá decifrar. os atributos.
Trata-se, então, de considerar que há pro- Na teoria kleiniana a castração aparece
cessos estruturantes como o Édipo, mas que como reativa na mulher, por fracasso na con-
estão definidos pela singularidade do per- quista de sua feminilidade e em sua capaci-
curso subjetivo. Não há lugares vazios, e sim dade de ter bebês; admite-se a ideia de que
encarnados nos processos identificatórios e a vagina é representável antes da puberdade,
de amor objetal. As teorias sexuais são váli- e o supereu, tanto feminino como masculi-
das como fantasias imaginárias elaboradas no, é mais ligado aos elementos sadomaso-
pelo infans para dar conta de suas questões quistas do sujeito no primeiro ano de vida.
na relação com o outro, na qual a castração A despeito dessas contribuições, sem dúvi-
aparece como diferença – mas não necessa- da essa teoria tem outros problemas sérios,
riamente porque o falo tem um valor axioló- fundamentalmente por seu excessivo apoio
gico maior – e abrem um espectro à diversi- no biológico, através do qual praticamente
dade. Não somente a diferença sexual, mas trabalha com o conceito de instinto e não de
também a questão ‘de onde vêm os bebês’ é pulsão.
um elemento importante que propulsiona a Até aqui, algumas questões gerais. Agora
elaboração das teorias sexuais infantis. pretendo escolher um recorte: vou me refe-
Lembremos que nos Três ensaios Freud rir às formas pelas quais opera o desejo in-
([1905] 1988) nos fala da perversidade poli- consciente do outro na formação específica
morfa, na qual o desejo caminha por trilhas da sexuação e frisarei o modo como a cul-
diversas. Os caminhos do erótico não se di- tura e a identidade de gênero se oferecem
ferenciam na dicotomia binária feminino- como padrões valorizados no recorte social.
masculino, mas descrevem uma situação na Proponho, então, manter a diferença entre
qual diversos órgãos são libidinizados sem identidade de gênero e identidade sexual,
apelar necessariamente para a diferença se- ambas marcadas pelo discurso do adulto.
xual. Boca, ânus, pele, ouvido não se diferen-
ciam entre feminino e masculino e, na per- Identidade de gênero
versidade polimorfa, todo órgão é passível de Trabalhamos o conceito psicológico de iden-
ser erotizado. tidade de gênero como modelo mimético da
Melanie Klein e sua escola – na qual, a identificação primária tingido pela atribuição
começar por ela, quem teoriza são majori- de gênero, na qual ainda não reconhecemos
tariamente mulheres – manifesta posições a existência da relação de objeto. Para a de-
culturais nas quais o supervalorizado é o finição conceitual da identificação primária
seio, ao deslocar para o Édipo propriamente nos referimos ao Vocabulário (Laplanche;
dito a herança dessa relação de objeto pri- Pontalis, 1986) que nos diz ser um modelo
mária, pela qual o pênis resultaria investido de constituição do sujeito sobre o modelo do
dos atributos decorrentes da resolução dessa outro, que não é secundário a uma relação
fase primitiva. Essas teorias trabalham com a previamente estabelecida. Trata-se de uma
pré-história do edípico, o Édipo precoce, no identificação direta e imediata que se situa
qual o significante fundamental é a mãe com antes de toda catexia de objeto. Essa forma
seu objeto supridor – o peito – e se atribui de ver o processo de identidade, no qual a
ao Édipo um lugar absolutamente diferen- sexualidade é só mais um dos traços, é reto-

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Ainda a psicanálise no campo da sexuação!

mada por vários autores e descrita de formas mento iatrogênico que não oferece uma rede
diversas. de sustentação para a construção do ser, ain-
Para Freud, o modelo básico é o da incor- da não sexuado.
poração oral – forma mais primitiva de laço A não ser em raríssimos casos de bisse-
afetivo com um objeto, em que objeto e su- xualidade orgânica, nascemos com um sexo
jeito não se diferenciam. biológico, o qual não nos obriga a assumir a
A imitação, como nos diz Jean Florence sexuação correspondente. Nesse caso anato-
(1994, p. 128), mia não é destino.

[...] é um efeito secundário no nível do Eu Identidade sexual:


que se desenvolve no plano da representação a identificação como processo de sexuação
pré-consciente do corpo, e pela via das aqui- Neste caso, faz-se presente a matriz iden-
sições do jogo mimético das atitudes sociais, tificatória do outro, pela qual o indivíduo
das adaptações perceptivas e motoras de Eu humano se constitui em sujeito sexuado.
corporal. Entendemos a identificação como resultado
de um processo inconsciente que marcará a
A identidade sempre será da ordem do Eu, sexuação.
pode ser parte dos aspectos inconscientes do A criança se identifica com o objeto do
Eu ou do pré-consciente, mas não do incons- desejo do outro, como resposta às demandas
ciente em sentido estrito, ainda que funde de amor registradas no campo imaginário.
suas raízes no inconsciente. A identidade é Caminho estritamente psicanalítico que in-
anterior a todo reconhecimento da diferença clui o processo edípico e seus destinos, no
anatômica dos sexos. Aqui a teoria do gênero qual as identificações secundárias decorrem
tem uma determinação fundamental e opera da dissolução desse complexo, entendido se-
segundo modelos oferecidos pelo cultural, gundo novos modelos, que compõem diver-
modelos cambiantes no decorrer da história, sos traços identificatórios tanto com o objeto
do lugar do homem e da mulher e dos mo- de amor quanto com o objeto de identifica-
delos que se oferecem. A identidade de gêne- ção em toda a complexidade que Freud nos
ro é anterior aos processos de identificação oferece ao formular o Édipo ampliado.
secundária decorrentes do Édipo e em geral Devemos ter em conta que os processos
considerada numa perspectiva dual. narcísicos e identificatórios operam com tra-
Essa situação com o outro do espelho ços do objeto ou do sujeito, possibilitando
pode ser feminina ou masculina para cada inúmeros modelos possíveis, tantos quantas
sexo, mas é atributiva em função de padrões combinatórias o sujeito é capaz de fazer.
sociais. Glitter e cor-de-rosa para meninas; As distinções entre identidade e identi-
armas, espadas e azul para os meninos – atri- ficação, e suas correspondências com o Eu
buídos pela diferença de órgão – têm mais e o inconsciente não são tão puras assim,
um valor ontológico de ser e existir que de e as apresento aqui simplesmente para um
verdadeira relação com o destino da sexua- primeiro modelo de compreensão – porque
lidade. sabemos do enraizamento do Eu no incons-
Nesses casos entra em jogo tanto a atri- ciente, ou seja, dos aspectos inconscientes do
buição parental quanto a atribuição social. Eu, assim como não desconhecemos que o
Determina-se pela aparência externa que inconsciente se apropria de cenas pré-cons-
marca um lugar para o começo da constru- cientes e conscientes para construir suas fan-
ção da subjetividade na criança. Por isso, a tasias, incorporando elementos do gênero.
lei alemã, que deixa em branco a atribuição Mas para manter a radicalidade do in-
de gênero, pode se apresentar como um ele- consciente, faz-se necessário retomar os

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Ana Maria Sigal

conceitos de pulsão e de conflito como ele- seja, de metabolização – para serem incorpo-
mentos vigentes e estruturantes da metapsi- radas ao campo da psicanálise e que traba-
cologia. Não é possível manter um dos ter- lhemos com o conceito de diversidade e não
mos (sexo) do lado da anatomia e o outro somente de diferença.
(gênero) do lado da psicologia-antropologia. Metabolizar significa desconstruir e re-
O que proponho é trabalhar com o ensemb- construir produzindo um novo conhecimen-
le e não anular uma pela outra, trabalhar no to. Esse processo é tão radical que nos leva
entrecruzamento, na complexidade de ideias a reconsiderar elementos centrais da teoria
que encontramos na teoria psicanalítica do psicanalítica – como o lugar da primazia do
gênero incorporada à teoria estrutural-vi- falo e a inveja do pênis – a ser reposiciona-
vencial dos processos inconscientes. dos, tanto em seus conteúdos quanto no dis-
Faz-se necessário retomar os escritos psi- curso à luz dos aportes da teoria de gênero,
canalíticos, freudianos e pós-freudianos para sem um valor axiológico de supremacia hie-
discriminar: rárquica, e sim como elementos que introdu-
• O que corresponde a elementos de ideo- zem diferença.
logização da cultura que produzem postula- Essa nova reconsideração dos elementos
dos que põem em questão formulações teó- em jogo no Édipo não anula a necessidade
ricas próprias da psicanálise; e de manter o complexo de Édipo como um
• O que faz parte de um inconsciente or- elemento fundamental de passagem na linha
ganizado pelos intercâmbios desejantes e da sexuação e das identificações secundárias.
seus diferentes sistemas – tendo em conta Ainda que possa não ser o elemento único
como opera a segunda tópica, como funcio- que define e o paradigma central da teoria
nam os enraizamentos do Eu no inconscien- da subjetivação, o complexo tem suas raízes
te e como devem ser reconsiderados dentro fundamentais na introdução do terceiro e
de uma nova compreensão do Édipo, que numa primeira escolha de objeto que muda
propõe um esquema menos familiarista. quando a significação sexual dos genitais dos
Revalorizaria como elementos da estru- pais entra em jogo.
tura edípica mais interessantes a proibição Se não fazemos trabalhar a teoria psica-
do incesto, a interdição do gozo do corpo da nalítica à luz dos avanços científicos, filosófi-
criança pelo adulto, assim como sua renún- cos, sociais e culturais, somos os primeiros a
cia a um gozo absoluto, em vez de aceitar que dar às teorias cognitivistas e ao naturalismo
a primazia do falo seria o elemento organi- biológico um espaço para questionar a psica-
zador do Édipo ou o complexo de castração nálise. Não se trata de uma defesa corporati-
– com seu aspecto de angústia de castração vista de nosso saber trabalhar com uma teo-
no menino e inveja do pênis na menina – ria que se reformula, mas – em acordo com
como elemento que propulsiona a entrada e Hornstein (1993, p. 12) – de entender a neo-
as identificações secundárias na implosão do gênese como um elemento fundamental que
complexo. aporta elementos histórico-vivenciais que
O falo pode entrar na teoria como um ele- nos permitem mudar nossa posição como
mento a ser invejado pela diferença. Deseja- sujeito no decorrer da vida.
se o que não se tem, desde que consideremos Uma escolha diferente não é sempre a apa-
também que na diferença o menino deseja ter rição de uma identificação recalcada. Pode
atributos que a menina tem, e não necessa- ser uma nova constelação criada a partir de
riamente pelo valor hierárquico, que respon- novas vivências tanto no registro das repre-
da a um elemento valorizado pela cultura. sentações como dos afetos. Devemos recon-
Proponho, assim, que as teorias de gêne- siderar o valor das determinações infantis
ro sofram um processo de antropofagia – ou para não transformá-las num fatalismo que

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Ainda a psicanálise no campo da sexuação!

interpreta monotonamente a repetição; há Referências


permanente criação de subjetividade, nem
tudo ficou marcado pelo passado. Assumir
uma nova escolha de objeto sexual nem sem- ABBAGNANO, N. Historia da filosofia. Lisboa:
Presença, 1979.
pre é “sair do armário”. Às vezes é criação de
nova subjetividade. ALONSO, S.; FUKS, M. A construção da masculini-
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Recebido em: 10/10/2015


Aprovado em: 20/02/2016

Sobre a autora

Ana Maria Sigal


Psicanalista. Integrante
da equipe fundadora do Curso de Psicanálise
do Instituto Sedes Sapientiae (1976).
Membro do Departamento
de Psicanálise, professora do Curso de Psicanálise.
Cofundadora e coordenadora do curso Clínica
Psicanalítica: Conflito e Sintoma, do Instituto Sedes
Sapientiae.
Autora de vários livros.
Representante do Departamento de Psicanálise
do Sedes Sapientiae no Movimento Articulação
das Entidades Psicanalíticas Brasileiras.

Endereço para correspondência

E-mail: <anasigal@terra.com.br>

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Ainda a psicanálise no campo da sexuação!

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Anchyses Jobim Lopes

Transexualidades – psicanálise e mitologia grega


Transexualities – psychoanalysis and Greek mythology

Anchyses Jobim Lopes

Resumo
A transexualidade como desafio à psicanálise por reduzi-la em terapia de ego e por aparente-
mente estar além do modelo edípico. Conceituação e diferenças entre: identidade de gênero,
expressão de gênero, escolha objetal e investimento genital. Descrição e análise de mitos e
divindades gregas: Tirésias, Cenis ou Ceneu, Ífis Hermafrodito e Afrodito. A construção da
identidade de gênero, expressão de gênero, escolha objetal e investimento genital de acordo
com vários autores, principalmente Robert Stoller e Jacques André.

Palavras-chave: Transexualidade, Identidade de gênero, Mitologia grega, Stoller, André.

Nosso insight dessa fase precoce, pré-edipiana, nas meninas,


nos chega como uma surpresa,
tal como a descoberta, em outro campo,
da civilização minoica-micênica
por detrás da civilização da Grécia.
Sigmund Freud. Sexualidade feminina (1931)

Introdução: transexualidade Os portadores de uma identidade de gê-


e o desafio à psicanálise nero contrária à de seu sexo biológico ori-
Ao início de 2015 alguns candidatos, hoje ginal apresentam vários tipos de problemas.
em sua maioria membros efetivos do CBP- Principalmente se das classes menos favore-
RJ, criaram o Grupo de Trabalho de Neo e cidas e oriundos de bairros ou cidades mais
Transexualidades (GTNTrans) do CBP-RJ. afastadas: discriminação social, rejeição pela
Como consequência, ao final de 2015, ocor- família, condenação de religiosos e outros
reu a VII Jornada de Psicanálise do CBP-RJ mais. Bem diferente dos transexuais glamo-
– NeoSexualidades: novas escutas. Há aproxi- rosos incensados pela mídia. Mas no que
madamente um ano a maior parte dos mem- toca a psicanálise há de fato vários questio-
bros do grupo passou a frequentar uma ins- namentos à teoria e prática tal como propôs
tituição de abrigo, em sua maioria, a pessoas Freud e como até hoje escrevem alguns de
transexuais, em situação de vulnerabilidade seus seguidores.
social. Coordenando esse grupo de trabalho A identidade de gênero pode ser completa
e tendo acompanhado por algum tempo as ou parcialmente oposta ao sexo biológico de
visitas, houve como resultado que a leitura nascimento. Há vários matizes, mas que, em
de muitos dos textos de psicanalistas sobre sua quase totalidade, são ego sintônicos. Ao
transexualidade encontrou-se diante do fogo contrário do que vários psicanalistas defen-
cerrado da realidade. deram em livros ou artigos, não há sinais de

Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 47–72 | julho/2017 47


Transexualidades – psicanálise e mitologia grega

psicose. Nenhuma semelhança com o caso ministas. Ainda em vida de Freud a revisão
Schreber, no qual a mudança de sexo, princi- do modelo de pensar primeiro a sexualidade
palmente na fase mais aguda de sua doença, masculina e dela derivar as explicações para
era imposta por forças externas, numa expe- a sexualidade feminina era exigido por mui-
riência vivida como completamente executa- tos. Revisão ainda mais urgente, na medida
da contra sua vontade, foracluída e egodis- em que as estatísticas sobre a passagem de
tônica. pessoas nascidas no sexo masculino para o
Tornou-se real o desafio à psicanálise. feminino são em torno até de quatro a sete
Em primeiro lugar porque são pessoas que, vezes mais frequentes que do as nascidas no
em sua maioria, necessitam não de um tra- sexo feminino passam ao masculino.1 O que
tamento psicanalítico para identidade de gê- nos leva à conclusão de que é a sexualidade
nero, mas de terapia de apoio e, mais ainda, masculinaque é construída e deve ser pensa-
de recursos assistenciais, médicos e inclusão da como uma diferenciação da feminina.
social. A psicanálise parece ficar reduzida Todas as três faces do desafio devem ser
à terapia de ego, problema debatido na jor- enfrentadas. O desafio freudiano surgiu ao
nada de 2015 (Sigal, 2015). Supridas essas final do século XIX, quando teorias biologi-
necessidades, a terapia poderia ser mais pro- zantes eram tidas como absolutas e verdadei-
funda, abarcando dependências químicas, ras, e qualquer sintoma de histeria produto
depressão e um parco caso de psicose sem de uma degeneração cerebral. E Freud não
sintomas schreberianos de mudanças cor- aceitou que tais sintomas fossem orgânicos
porais impostas e delirantes. Mas nada que e estivessem além de uma compreensão psi-
sequer fosse pensável como uma terapia para cológica. Quando de fora se tenta impor um
o retorno à identidade de gênero conforme limite à psicanálise, maior o desafio de esten-
ao do sexo biológico. der os limites da psicanálise para além desse
Em segundo lugar, também ficaram pa- suposto limite.
tentes advertências sobre o desafio que a Mais do que isso. O fenômeno transexual
transexualidade representa para a psicanáli- pode ser encarado como o mais recente des-
se enquanto modelo teórico clínico. A iden- dobramento da revolução sobre o conheci-
tidade de gênero se estabelece num momen- mento da sexualidade humana iniciado por
to pré-edípico muito precoce e muito antes Freud. Como veremos a seguir, separado o
da escolha de objeto. O centro do paradigma prazer da reprodução, tudo mais no que con-
psicanalítico em suas vertentes teórica (re- cerne aos vários componentes da sexualida-
calque, supereu), clínica (resistência, trans- de humana pode ser descolado de qualquer
ferência) e de teoria da cultura (mito totê- naturalismo biologizante. As discussões so-
mico, assassinato do pai primevo) é todo ele bre identidade de gênero apenas seguem a
focalizado no Édipo. Assim, em qualquer das lógica da trajetória iniciada pelos Três en-
direções a transexualidade seria não apenas
inabordável pela psicanálise, mas um grande
desafio ao núcleo do pensamento freudiano, 1. Segundo o DSM-V (Manual diagnóstico e estatístico de
transtornos mentais 5. edição, 2015) a proporção de tran-
como, por exemplo, afirma Birman (2016). sexuais do sexo masculino original em relação aos do fe-
Ou não? minino original vai até 4,5 e 6.1 para 1. Em comunicação
Por fim, em terceiro lugar, há um desafio pessoal durante a jornada do Espaço Brasileiro de Estudos
Psicanalíticos-RJ O sexo que habito, em junho de 2016, o
anterior ao surgimento da importância da palestrante convidado Dr. Sergio Zaidhaft, professor da
transexualidade. Desafio que surgiu há mui- Faculdade de Medicina da UFRJ, que trabalha e pesquisa
tas décadas, feito por dentro dos seguidores diretamente no hospital universitário da UFRJ no atendi-
mento a transexuais, informou que a proporção não é de
do paradigma psicanalítico, por muitos pen- quatro ou cinco para um (números que dispúnhamos na
sadores da cultura e, principalmente, por fe- época), mas de sete para um.

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Anchyses Jobim Lopes

saios sobre a sexualidade (Freud, 1905). Da ca, Freud propôs para a espécie humana uma
famosa frase de Terêncio – “sou um homem: disposição bissexual inata. Postulado contro-
nada do que é humano me é estranho” – po- verso até hoje, mas que iniciou a ideia de que
demos parodiar: ‘somos psicanalistas: nada não é biologicamente inata a ligação entre a
do que é da sexualidade humana pode nos pulsão e seu objeto. O que para a psicanálise
ser estranho’. passou a ser descrito como escolha objetal,
Se a clínica individual é parca, sigamos hoje, para um público muito maior é cha-
a trajetória freudiana de atacar as áreas das mando de ‘orientação sexual’. O afeto mais
maiores criações humanas, tal a literatura e profundo e/ou a excitação sexual são atraí-
a arte. Ou o estudo da mitologia enquanto dos para que outra metade da humanidade,
repositório decantado da experiência de cen- ou para toda ela?
tenas de gerações humanas. Seguindo de modo bem diverso os pas-
Como nos deixou Freud em O interesse sos de Freud, Alfred Kinsey complexificou
científico da psicanálise: imensamente todos os rótulos. Hétero, homo
ou bissexual, estatisticamente são percenta-
Em primeiro lugar, parece inteiramente pos- gens. Em ambos os extremos do quadro,
sível aplicar os pontos de vista psicanalíticos apenas uma minoria está nos cem por cento
deduzidos dos sonhos a produtos da imagi- das experiências sexuais exclusivas. Por mais
nação étnica, como os mitos e os contos de que as pesquisas e os achados de Kinsey se-
fadas. [...] Não se pode aceitar como primeiro jam criticados, as dissociações trazidas pelos
impulso para a construção de mitos um an- conceitos de pulsão e objeto começaram a
seio teórico por encontrar uma explicação irreversivelmente sair do divã, e do armário.
para os fenômenos naturais ou para elucidar O que Freud dificilmente poderia ter in-
observâncias e práticas de culto que se torna- tuído foi que, ao longo de um século, essas
ram ininteligíveis. A psicanálise procura esse primeiras dissociações formariam uma bola
impulso nos mesmos ‘complexos’ psíquicos, de neve. Na primeira metade do século XX
nas mesmas inclinações emocionais que des- duas guerras mundiais dizimaram a popula-
cobriu como sendo a base dos sonhos e dos ção masculina, e o ‘sexo frágil’ teve a força
sintomas (Freud, [1913] 1996, p 187). de assumir posições de comando. A partir
dos anos 1950 se intensifica o movimento
Definições atuais: por enquanto feminista, que com o surgimento dos anti-
Há mais de século em Os três ensaios sobre a concepcionais explode nos anos 1960. Nada
sexualidade Freud (1905) separou sexualida- do que se supunha atavicamente masculi-
de de reprodução. Em realidade apenas tirou no ou feminino em comportamento de fato
o véu de algo que sempre foi conhecido por o é: vestuário, linguagem, papéis sociais, a
pessoas de algum bom senso e experiência. incapacidade mental das mulheres para o
Ao longo da vida os seres humanos têm um aprendizado superior e o voto universal, até
número infinitamente maior de relações se- mesmo de ir para a guerra não apenas como
xuais que seria necessário para a reprodução enfermeiras. Isto é, tudo que hoje se rotula
da espécie. de ‘expressão de gênero’, o é por transmissão
Mesmo na época vitoriana, para qualquer cultural e não biológica.
mulher ou homem com algum discernimen- Após a primeira separação entre sexuali-
to (cujos olhos não estivessem vendados pela dade e reprodução, da segunda entre sexua-
religião e pelos discursos político-jurídicos) lidade e orientação sexual, da terceira quan-
era possível observar o divórcio entre o que to aos rótulos de expressão de gênero, mais
se falava abertamente e o que na realidade se recentemente ocorreu uma quarta. O termo
praticava. Em uma sequência bastante lógi- ‘transexual’ foi criado em 1949 pelo psiquia-

Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 47–72 | julho/2017 49


Transexualidades – psicanálise e mitologia grega

tra americano David Oliver Caudwell e di- Parecia completa a separação da sexua-
fundido a partir dos anos 1960 pelo endo- lidade humana em três componentes, que
crinologista e sexólogo também americano podem coincidir com o que se convenciona-
Harry Benjamin. A midiatização da cirurgia va denominar masculino e feminino, ou até
realizada em 1952, que transformou Georges mesmo podem estar completamente separa-
Jorgensen em Christine Jorgensen, dos. Transexuais seriam aqueles que passa-
riam inteiramente dos três de um lado, para
[...] provocou um aumento significativo das os três do outro. Então surgiu uma crítica à
demandas por tratamento vai contribuir para transexualidade por um viés completamente
a reflexão sociológica sobre a identidade se- diferente do religioso. No desejo dos transe-
xual e a construção da categoria de gênero. xuais de passar inteiramente de identidade
Surgimento do que Harry Benjamin chamará e expressão de gênero de um sexo haveria o
de ‘fenômeno transexual’ (Arán et al., s.d.). desejo da manutenção do objeto sexual que
era do mesmo sexo que o do nascimento.
A partir dos anos 1960 a expressão “iden- Assim, seria apenas um modo do binarismo
tidade de gênero” começou a ser usada. tradicional e bem definido entre dois sexos.
Remete ao sentimento individual de alguém Mesmo alguns psicanalistas questionaram se
se considerar homem ou mulher. passar completamente ao sexo oposto tam-
Tanto na psiquiatria quanto na psicanálise bém não seria uma forma extrema de repú-
o primeiro grande pesquisador sobre transe- dio ao homoerotismo. Uma lógica que seria
xualidade foi Robert Stoller. A partir de uma seguida por fundamentalistas religiosos em
vasta quantidade de observações clínicas, países onde homossexualismo, principal-
entre elas, o relato de terapias mal sucedidas mente masculino, é punido em muitos casos
para mudar orientação ou identidade se- com pena capital, como o Iran. Mas naquele
xual, Stoller publicou vários artigos e livros. país quem quiser se transexualizar o estado
Destaca-se como o mais importante A ex- financia a cirurgia. Curiosamente é o país
periência transexual (Stoller, 1982). Livro onde ocorre o maior número de cirurgias de
pouquíssimo reeditado em inglês e nunca redesignação sexual (Wikipedia, 2017).
mais em português. Mas esse e outros livros Essa lógica binária é inerente a um con-
de Stoller até hoje são referência obrigatória ceito idealizado de transexualidade. Embora
em todos os trabalhos psicanalíticos sobre muitos transexuais desejem se transformar
transexualidade e, até mesmo, fora da psica- na mulher ou homem ‘perfeitos’, a obser-
nálise. Inclusive no hoje clássico Problemas vação mais cuidadosa revela muitos casos
de gênero (2010), da filósofa pós-estrutura- menos ‘puristas’. Foi quando, por exemplo,
lista Judith Butler. Geralmente Stoller é tido começou a se descobrir situações como a
como o introdutor do termo “identidade de de um homem casado e com filhos, que se
gênero” em um congresso de psicanálise em tornou transexual feminino (homem para
Estocolmo no ano de 1963. Foi desse modo mulher), a fim de continuar casado com a
que das designações ‘orientação sexual’ e ‘ex- esposa. Contudo, mesmo aqui estamos ainda
pressão de gênero’, foi incluído um terceiro no discurso psicanalítico clássico do Édipo
termo: ‘identidade de gênero’ embora fre- e da escolha objetal. Mas mais recentemen-
quentemente confundido com orientação te surgiu, por exemplo, um caso de homem
sexual. A confusão não se deu à toa. O objeto trans (mulher para homem), que, além de
inicial das pesquisas era a homossexualida- não ter seios ou formas femininas, se tornou
de. A transexualidade seria apenas um caso possuidor de todos os estereótipos masculi-
extremo, um pouco além do travestismo, tal- nos: musculoso, careca, de bigode e cavanha-
vez uma psicose. que, tatuado, até com certo aspecto agressi-

50 Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 47–72 | julho/2017


Anchyses Jobim Lopes

vo. Contudo manteve genitais femininos. E de expressão de gênero, mas desprovidas de


a observação que muitos transexuais passam qualquer malformação congênita genital,
completamente de um sexo ao outro quanto cromossomial ou hormonal. Assim como
à identidade e expressão de gênero, inclusive Kinsey demonstrara que entre os dois ex-
físicas, mas sem desejo, ou até aversão, a ci- tremos da escolha objetal, isto é, um grande
rurgias genitais. número de seres humanos se situava no in-
Surge, assim, um quarto item. Quando se tervalo entre hetero e homossexualidade ab-
fala de sexo biológico, fala-se de cromosso- solutas, com ou sem transexualidade muitos
mas e genitais. Mas se os cromossomas não seres humanos também se situam no inter-
podem ser mudados, os genitais podem ou valo, tanto psíquico e social, entre os extre-
não. E os que não desejam cirurgias de rede- mos binários masculino e feminino: também
signação de gênero, o fazem não somente de- são classificados de intersexuais.
vido aos limites das técnicas cirúrgicas atuais. Em terceiro lugar, intersexualidade tam-
Enquanto muitos transexuais têm horror e bém pode designar os transexuais, em que
nenhum prazer com seus genitais de nasci- identidade e expressão de gênero não coin-
mento e buscam avidamente a cirurgia, ou- cidem com seu sexo genital. Os dois últimos
tros não. De modo que, além de ‘identidade usos do termo “intersexual” hoje são super-
de gênero’ (se alguém se considera homem ou postos pelos novos termos “não binário” e/
mulher), de ‘expressão de gênero’ (o quanto ou “queer”.
e de que modo alguém se considera e social- Parece que a sexualidade humana, cuja
mente se comporta como masculino ou femi- separação entre reprodução e sexualidade já
nino), ‘orientação sexual’ (o quanto alguém havia sido feita por Freud, ainda não termi-
ama e tem prazer com o sexo oposto, com o nou de ser decomposta em todos seus com-
mesmo sexo, ou os dois), também hoje foi in- ponentes. Por enquanto.
cluída a qualificação do ‘sexo biológico’, me- Sintetizou Sigal:
lhor seria ‘sexo genital’ (preferir os próprios
genitais como masculinos ou femininos). Em relação à sexualidade, termo que nos ocu-
Ao se ter uma visão menos purista e idea- pa neste momento, podemos pensar em um
lizada da experiência transexual, menos cal- mundo de diversidades, no qual traços identi-
cada no binarismo tradicional e mais na ob- ficatórios vão formando conjuntos, ensembles,
servação humana, as classificações tremem. que permitem tantas combinações quantas
Mas não o furor classificatório. Mesmo para singularidades existirem (Sigal, 2015, p. 7).
as dissonâncias surgem novos rótulos, por
exemplo: o de intersexualidade. Termo con- Os mitos gregos, que serão analisados de
fuso, que pode ser utilizado nos textos de três acordo com as definições acima, mostram a
diferentes formas. Primeiro, para classificar antiguidade com que tais ensembles já eram
pessoas que nasceram com alterações físicas conhecidos. Para uma ponte com as discus-
e/ou cromossômicas, que as tornam porta- sões atuais sobre transexualidade, esta análi-
doras em seu corpo de características de am- se será acrescida de um dado muito impor-
bos os sexos. Nesses casos as alterações inde- tante: a mudança de gênero tem de ser vo-
pendem de possuir ou não qualquer caracte- luntária. Não imposta à força, nem produto
rística transexual na acepção atual do termo. de uma psicose, como no caso Schreber.
Até pouco eram rotuladas de hermafroditas,
designação hoje tida como estigmatizante. Mitos gregos antigos
Num segundo sentido, oposto ao pri- e transexualidade contemporânea
meiro, o termo “intersexual” também pode Personagem de origem antiquíssima, Tirésias
denotar pessoas de determinadas escolhas participa de vários mitos gregos. De acordo

Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 47–72 | julho/2017 51


Transexualidades – psicanálise e mitologia grega

com a definição atual do termo, Tirésias não sexo de Siprites não foi voluntária, logo não
poderia ser classificado como transexual. se trata de transexualidade no sentido atual.
Verdade que viveu sete anos como mulher. O mito de Hermafrodito (Hermaphroditos)
E parece que aproveitou bastante. Tanto que ou Hermafrodita é citado por vários psica-
mais tarde os deuses o consultaram para nalistas. O relato utilizado quase sempre é
dirimir a dúvida de qual dos sexos obtinha o das Metamorfoses, de Ovídio. Essa versão,
mais prazer. Mas a mudança de sexo foi im- a mais recente e única detalhada que che-
posta contra sua vontade, uma punição. Fora gou até a contemporaneidade, conta a his-
causada por acidentalmente ter se defron- tória que Hermafrodito era um rapaz mui-
tado com o casal de serpentes copulando. to belo, que ao se banhar num lago, tem o
Há variações do mito: ou as separou, ou as corpo fundido com o de uma Náiade por
feriu, ou matou a serpente fêmea. Mas sete ele apaixonada – Salmacis. Ela pedira aos
anos depois Tirésias deparou-se novamente deuses para nunca mais dele se separar e
com um casal de serpentes e teve a conduta tem seu desejo realizado com a fusão de
oposta. Assim, voltou a ser homem. Tirésias ambos os corpos num ser intersexual. O
não teve a menor dúvida em voltar ao sexo poeta narra a história como Hermafrodita
masculino. E como teve uma vida extrema- sendo a vítima dessa transformação. Torna-
mente longa, passou a maior parte de sua se uma criatura enfraquecida que, por vin-
existência, e mesmo depois dela no Hades, gança, amaldiçoa o lago. Desse modo, todo
como homem. Bissexual, mas sua identidade aquele que ali se banhasse seria igualmen-
de gênero sempre foi masculina. te transmutado em um ser intersexual:
As serpentes na mitologia grega indicam
ser um mito ctônico, extremamente antigo e [...] quem quer que chegue a esta fonte como
anterior ao panteão olímpico. “A cobra, aci- homem, dela saia só metade homem e quem
ma de tudo, parece estar associada a Gaia, a tocar nestas águas perca metade de seu vigor
Terra”, divindade primordial, em um bestiá- (Ovídio, 1983, p. 76).
rio que associa adivinhação e dupla sexuali-
dade (Brisson, 2002, p. 144-145). Mas dupla O mito de Hermafrodita contado por
sexualidade difere do conceito atual de tran- Ovídio é uma narrativa do início do primeiro
sexualidade, que, em princípio, é o desejo de século de nossa era. Época já completamen-
pertencer permanente e completamente a te dominada pelo patriarcado, para o qual
apenas um sexo, oposto ao que se foi nomea- toda característica feminina num homem o
do ao nascer. denigre. Há evidências literárias e artísticas
Muito menos conhecida é a transforma- de que o mito originário teria características
ção do cretense Siprites (Siproites). Os textos opostas. A soma do masculino e do femini-
mais antigos foram perdidos, e só se conhe- no seria dotada do simbolismo da fertilidade
ce a citação nas Metamorfoses, de Antonino e seria o dom de deuses. Pela classificação
Liberal (Liberalis, 1968, p. 31, 109). Tendo acima descrita, Hermafrodita não seria um
ido à caça, teve o azar de ver a deusa virgem transexual, mas intersexual. E na versão de
Artemis se banhar. Como punição foi trans- Ovídio a transformação foi uma violência
formado em mulher. Teve melhor sorte que imposta de modo que ficaria fora de ambas
Acteon, que pelo mesmo motivo foi trans- as classificações: trans e intersexualidade.
formado por Artemis em veado e estraçalha- Entretanto, a análise de vestígios mais ar-
do por seus próprios cães de caça. E uma das caicos do mito revela atributos que podem
versões para a cegueira de Tirésias teria sido a fornecer dados valiosos para a compreensão
punição por ter visto nua outra deusa virgem, psicanalítica da transexualidade. Após a nar-
Palas. Assim como Tirésias, a mudança de rativa e a discussão dos mitos transexuais,

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retornaremos a esses mitos intersexuais. O mito de Cenis e Ceneu


Apesar do forte patriarcado que veio a se O poema épico Ilíada (Homer, 2011) atri-
estabelecer nos séculos seguintes, há evidên- buída a Homero constitui o mais antigo e ex-
cias de que antes ou ao início do período co- tenso documento literário grego. Datando do
nhecido como Grécia Arcaica (século VIII a início da Grécia Arcaica, por volta do século
480 a.C.), o papel da mulher e do feminino VIII a.C., sendo que Heródoto situa Homero
tenha tido mais relevo, principalmente nas no século IX a.C., o épico também é o funda-
ilhas e na costa da oriental do mar Egeu. Mas dor da literatura ocidental. Narra uma mistu-
desde o início prevaleceu o patriarcado, que ra de mitos originários do período micênico,
se exacerbou mesmo à medida que a cultura e fatos talvez reais que teriam ocorrido por
evoluía em muitas áreas. Para o patriarcado volta dos séculos XIII e XII a.C. Já na Ilíada o
uma passagem do masculino ao feminino ou nome de Ceneu (Caeneus) aparece pela pri-
mesmo a aquisição de características con- meira vez. Segundo Martin Nilsson, renoma-
sideradas femininas é negativa e vista com do filólogo e mitógrafo sueco, os heróis mí-
horror. Todos os mitos acima não apenas re- ticos mais antigos seriam aqueles cujo nome
forçam essa crença como também mostram terminam em eus (Nilsson, 2008, p. 26-27).
sua intensificação ao longo dos séculos. Ao início do poema Nestor, rei de Pilos,
Apenas as histórias de personagens da aconselha Agamemenon e Aquiles a fazer as
mitologia grega que fizeram o caminho opos- pazes. Velho demais para combater, Nestor
to, do feminino ao masculino, apresentam liderava suas tropas guiando seu carro de
características positivas. Ao menos nos mi- combate. Acentuando a autoridade que lhe
tos que chegaram até os dias de hoje, o que é dava a idade e experiência, Nestor cita os
atestado por dois mitos: Ceneu e Ífis. Ambos grandes guerreiros e heróis do passado que
podem ser assimilados ao que atualmente é conhecera.
definido como transexualidade e identidade
de gênero. O primeiro, Ceneu é um perso- Nunca havia visto, e nunca mais verei, ho-
nagem já conhecido na Grécia Arcaica, mito mens como Pirítoo e Driante, pastor de seu
cujas raízes se perdem em época imemorial povo, e Ceneu e Exádio e o divino Polifemo,
e citado ou descrito em vários textos e com e Teseu, filho de Ageu, que lembravam aos
algumas variantes interessantes. Fragmentos imortais. Os homens mais fortes que a terra
que ao longo de oito séculos revelam um havia gerado, e com os mais fortes combate-
ciclo complexo e permitem ilustrar várias ram, a tribo de bestas selvagens que morava
interpretações psicanalíticas sobre a tran- nas montanhas, as quais deram um terrível
sexualidade de uma personagem cujo sexo fim (Homer I, 2011, p. 9, tradução nossa).
biológico é feminino em direção à identidade
de gênero masculina. O segundo mito é o de A tribo de bestas selvagens será poste-
Ífis. Deste os relatos são bem mais recentes, riormente conhecida como a dos centauros.
provavelmente da época helenística, quando O episódio será símbolo da vitória da civi-
Alexandria era a capital do ocidente, e da lização contra a barbárie. Na época clássica
época romana. Dele só possuímos duas des- da Grécia a centauromaquia será esculpida
crições, singelas e românticas. Mas a men- em Atenas por Fídias nos frisos do Partenon.
ção de uma deusa – Leto em um dos relatos No livro seguinte da Ilíada também é men-
pode significar que o mito original seja bem cionado “ [...] Leonteu, parceiro de Ares, fi-
mais antigo. A história de Ífis também pos- lho do magnânimo Corono, filho de Ceneu”
sui conteúdo que nos permite refletir sobre (Homer II, 2011, p. 37, tradução nossa).
discussões a respeito da transexualidade em O segundo grande poeta da Grécia Arcaica
questões diferentes das do mito de Ceneu. foi Hesíodo. Contemporâneo ou pouco pos-

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Transexualidades – psicanálise e mitologia grega

terior a Homero, além de várias obras per- No desejo de Cenis os gregos certamente en-
didas, nos deixou dois pilares da mitologia tendiam tanto a invulnerabilidade no sentido
grega: Teogonia, também conhecido como corrente do termo quanto uma invulnerabili-
genealogia dos deuses, e Os Trabalhos e os dade sexual (Delcourt, 1953, p. 131, tradu-
dias. Durante a Antiguidade outro dos tex- ção nossa).
tos reconhecidos como de Hesíodo era mais
um longo poema genealógico, conhecido O especialista em pensadores pré-socráti-
como Catálogo de mulheres. Infelizmente cos e mitologia grega G. S. Kirk descreve um
não esteve entre os manuscritos escolhidos terceiro sentido desse desejo. Uma palavra
para sobreviver à Idade Média. Os eruditos que em vários idiomas se refere não apenas
modernos o consideraram apócrifo e datado ao corpo mas também ao sentimento e ao
do século VI a.C., mais de um século após amor próprio. Cenis
a morte de Hesíodo. Nos últimos cem anos
muitos fragmentos e relatos do Catálogo de [...] pediu para ser tornada atrôtos, ‘que não
mulheres foram redescobertos, e vários es- pode ser ferida’, e ser tornada em homem. Su-
pecialistas consideram uma obra autêntica ponho que atrôtos originalmente significas-
de Hesíodo. Era um catálogo mitológico das se ‘impenetrável’ em um sentido fisiológico,
mulheres mortais que haviam mantido re- e que a transformação de sexo era a melhor
lações sexuais com os deuses, e dos descen- forma de conseguir isso. Mas naquela época
dentes dessas relações. Segundo o helenista muito antiga também podia ser compreen-
Ziogas (2013), seria o contraponto femini- dido num sentido literal como ‘invulnerável’
no na literatura de Hesíodo, em oposição [...] (Kirk, 1973, p. 201, tradução nossa).
à Ilíada como épico e fonte de genealogias
masculinas. E foi assim que Cenis (ou Cenide) se tor-
Entre os relatos que chegaram até nós está nou Ceneu, impenetrável e invulnerável, em-
o de Flégon, de Trales, escritor grego roma- bora não totalmente invencível, desguarne-
nizado do século II de nossa era. É ele que cendo e sobrepujando os heróis que não con-
nos conta segundo Hesíodo, bem como es- seguiam eliminá-lo com suas espadas e lan-
critores e poetas mais tardios que utilizaram ças, e que só poderiam matá-lo por sufocação.
o mesmo tema, a surpreendente origem do A história da transformação de Cenis em
herói Ceneu: Ceneu no Catálogo das mulheres também é
Os mesmos autores (isto é, Hesíodo, relatada, de modo mais extenso e com mais
Dicearco, Clitarco, Calímaco, e alguns ou- detalhes, por um outro autor, um pouco
tros) narram que na terra dos lápidas uma posterior a Hesíodo, mas ainda na Grécia
filha chamada Cenis nasceu para o rei Elato. Arcaica: Acusilau (Akusilaus) de Argos, es-
Poseidon uniu-se a ela e lhe prometeu que critor e mitógrafo que viveu no século VI
faria o que ela desejasse, e ela pediu que a a.C. Sua obra nos é conhecida apenas através
transformasse em homem e a tornasse in- de uns poucos fragmentos de papiro e resu-
vulnerável. Quando Poseidon realizou seu mos de autores posteriores.
pedido, seu nome foi mudado para Ceneu O fragmento 40 de Acusilau nos conta
(Hesiod, 2007, p. 248-249). que:
Mesmo para a época antiga o verbo
‘unir’ é um eufemismo. Forçar, abusar, Poseidon uniu-se a Cenis filha de Elato. Pos-
violar são mais adequados. Propor a reali- teriormente, uma vez que ela não queria ter
zação de um desejo ou conceber um filho um filho dele ou de ninguém mais, Poseidon
com poderes sobre-humanos, uma com- a transformou num homem (Ceneu) invulne-
pensação divina. rável, que tinha uma força maior que todos

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Anchyses Jobim Lopes

os homens de seu tempo, e quando qualquer narrativa da origem de Ceneu e da batalha


um tentava lhe ferir com ferro ou bronze, ele dos lápidas contra os centauros. Só que essa
mantinha-se firme. Esse Ceneu tornou-se rei contação de histórias teria ocorrido no pri-
dos Lápidas e estava acostumado a guerrear meiro ano da guerra de Troia. Ao contrário
contra os centauros. Mais tarde ele erigiu sua do relato de Homero que situaria Nestor no
lança na praça do mercado, e exigiu que ela décimo e último ano da guerra.
fosse reconhecida como se fosse um deus.
Isso desagradou os deuses, e Zeus tendo vis- Em vosso tempo, o único que pode despre-
to isso, lançou contra ele os centauros, eles o zar o ferro e se mostrar a salvo de qualquer
enfiaram solo abaixo de onde ele estava, co- ferimento, foi Cicno. Eu, porém, vi, outrora,
locaram uma rocha acima como lápide, e ele Ceneu [...], ser golpeado mil vezes, sem que
morreu (Acusilaus of Argos, 2017). seu corpo tivesse sofrido dano algum. [...] E,
para tornar ainda mais maravilhoso o que ha-
O episódio de Ceneu sendo sepultado via nele, nascera mulher. [...] A filha de Elato,
vivo parece ter sido tema de certa relevância Cenide, célebre por sua formosura era a mais
na arte grega antiga. Dois exemplos chega- bela das donzelas da Tessália [...] era cobi-
ram até os dias atuais. Um relevo de bronze çada, em vão, por numerosos pretendentes.
da cidade de Olímpia datado ao redor de 630 [...] Cenide não se casou. Certo dia, quando
a.C. e um vaso por volta de 570 a.C. Este últi- andava pela praia deserta, foi violentada pelo
mo, conhecido como vaso François, um vaso deus do mar [...]. Depois de ter se deleitado
de mais de 60 centímetros com uma dúzia com aquele novo amor, disse Netuno: ‘Não
de cenas mitológicas e mais de cento e vinte te será recusado qualquer pedido. Escolhe o
figuras, é a fonte única de alguns mitos anti- que queres’. [...] ‘Quero muita coisa, pois mui-
gos. Ambas as obras mostram Ceneu sendo to grande foi a afronta que me fizeste’, disse
socado de pé terra a dentro por dois ou três Cenide. ‘Quero não poder jamais sofrer igual
centauros (Carpenter, 1994, p. 165, 176). violência. Faze com que eu deixe de ser mu-
Se repudiou na forma feminina ter filho lher, e ter-me-ás dado tudo’. Ao pronunciar
de um deus, em sua forma masculina deixou as últimas palavras, sua voz se tornara mais
um filho – Corono – que participou da expe- grave; essa voz podia ser confundida com a
dição dos argonautas em busca do velocínio de um homem; e era, de fato. Eis que o deus
de ouro. Outra aventura clássica da mitolo- do mar profundo anuíra a seu pedido, e, além
gia grega, que foi relatada pelo único e ex- disso, concedera-lhe o dom de jamais ser feri-
tenso poema épico que nos chegou da épo- do e de não morrer pela ação das armas. [...]
ca alexandrina: Argonáutica de Apolônio de (Ovídio, 1983, p. 221-222).
Rodes (século III a.C.). Por sua vez, Corono
também deixou descendência. Depois de revelar a origem de Ceneu,
A mais extensa fonte sobre o mito de Nestor passa a uma longa narrativa da bata-
Cenis/Ceneu que chegou até nossa época lha entre os lápidas e os centauros. Estes, que
data do início do Império Romano. Está nas eram filhos de Íxion com uma nuvem criada
Metamorfoses, de Ovídio, obra completada à semelhança de Hera, haviam sido convida-
por volta do ano 8 d.C. Embora acrescente dos para as bodas de Pirítoo (Pirithous), rei
algumas invenções suas, Ovídio teve acesso dos lápidas, com Hipodâmia, mas, tomados
a autores gregos arcaicos e das épocas clás- pela luxúria e a violência, após terem se em-
sica e helenística que não chegaram até nós. briagado, tentaram raptar e violar a noiva e
No livro XII o poeta latino utiliza o mesmo outras mulheres. Na realidade tanto Pirítoo
Nestor da Ilíada, que maravilha a mesma como o pai dos centauros ou eles próprios
plateia de guerreiros sitiando Troia, com a eram filhos de Íxion. Isso na genealogia mais

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Transexualidades – psicanálise e mitologia grega

comum dos centauros em geral. Várias outras que sobrevoou o acampamento dos gregos,
filiações foram descritas na mitologia grega. soltou um grande e retumbante grito, voan-
Entre elas, a do sábio Quíron, também meio do embora.
homem meio cavalo, preceptor dos heróis, Vírgilio, o poeta nacional romano, uma
do deus da medicina e, em algumas versões geração anterior ao autor das Metamorfoses,
do mito, de Dioniso, seria filho de Cronos e também acrescentou à história de Ceneu
a ninfa Filira. Desconhecida a ligação genea- algo de sua própria imaginação. Entrando
lógica de Cenis/Ceneu com Íxion, que tam- no Mundo das Sombras, Enéias chega aos
bém é um(a) lápida, até mesmo a filha de um Campos de Lágrima, onde se escondiam
reis dos lápidas. os que um amor cruel e rude matara (quos
Ceneu luta ferozmente na centauromá- duros amor crudeli tabe peredit). Entre eles
quia. De saída mata cinco centauros. Então Ceneus, antes um jovem, agora uma mulher,
outro deles, Latreu, revela a origem do guer- sua forma original restaurada pelo Destino
reiro: (Virgil, 1998, p. 536-537, tradução nossa).

E tu, Ceneu, vou ter de te aturar? Ao meu Considerações


olhar tu serás sempre uma mulher, sempre sobre o mito de Cenis e Ceneus
Cenis. Esqueceste do teu nascimento e da O tema da violação por um deus é caracterís-
desgraça pela qual ganhaste tua recompen- tico da mitologia grega. Para conseguir seu
sa – a que preço ganhaste a falsa semelhan- intento, frequentemente se transformavam
ça com um homem. Lembre-se tanto de teu ou raptavam, ou os dois ao mesmo tempo.
nascimento, quanto ao que te submeteste. Vá Formas de não deixar à escolhida, alguns
pegar o fuso [de uma roca de fiar] e o nove- casos ao escolhido, qualquer alternativa.
lo de lã. [...] Deixe a guerra para os homens Embora nesse caso Poseidon não tenha utili-
(Ovídio, 1984, p. 214-215, tradução nossa). zado desses artifícios, o mito de Cenis é bem
claro quanto ao aspecto brutal da violação.
Furioso, Ceneu investe com sua espada Desde Hesíodo os textos dão claramente a
e fere de morte Latreu. Os demais centau- entender que se trata de uma jovem muito
ros se unem e inutilmente tentam matá-lo. nova, virgem em idade núbil, e um homem
Surge, então, o episódio, já mencionado, muito mais velho. Em se tratando de um
que possui muitas variantes. Os centauros o deus, logo imortal, a associação com a figura
socam, com pedras e troncos de abeto (pi- paterna se torna ainda mais nítida. Mesmo
nheiro), para dentro da terra, mas ele perma- na concisão dos fragmentos de Hesíodo e
nece rigidamente ereto, ou até a cintura, ou de Acusilao, o pedido de Cenis a Poseidon
completamente, com tal força que teria ido ecoa como uma surpresa ao leitor e como
diretamente para o Tártaro. Ou o próprio um repúdio ao deus, que Ovídio soube mui-
Ceneu, dentro da terra, teria permanecido to como bem explorar em literatura. Para
eternamente vivo, mas imóvel ou teria dado um ouvinte ou leitor de Acusilao da Grécia
fim a sua vida. Além de tudo, Ceneu era fi- Arcaica a rejeição a Poseidon soaria imensa.
lho de Elato, que em grego significa abeto ou Como uma mortal recusava-se a ter o filho
pinheiro. de um deus! Resta a dúvida de que, se não ti-
Ovídio foi bastante fiel ao mito de Ceneu vesse ocorrido fisicamente um abuso sexual,
como um todo. Contudo acrescentou um fi- como não ocorreu no mito de Ífis, Cenis te-
nal, depois do sepultamento vivo do herói, a ria assim mesmo pedido a algum deus ou
partir de sua própria imaginação. Conta que deusa a mudança de sexo.
do local onde fora enterrado Ceneu surgiu A atitude dos centauros nas bodas de
um pássaro maravilhoso de asas douradas, Piritoo e Hipodâmia é uma revivência am-

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pliada da cena de violação por Poseidon. mo que Freud demonstrou ser inerente a to-
Mais que todos os outros convidados, Ceneu dos os seres humanos. Ainda por cima por
possui motivos próprios para reagir com fú- uma criatura que hoje nada mais seria que
ria à tentativa de violação de uma virgem, uma figura paterna mitificada, o que muito
ampliada em estupro coletivo. É um helenis- exacerbou a ferida narcísica do defloramen-
ta, e não um psicanalista, quem comenta que to. Além da defesa contra um novo trauma,
“o centauro zomba de Ceneu e traz de volta tendo seu amor próprio ferido em seu pró-
uma experiência traumática” (Ziogas, 2013, prio ser, Cenis pediu para se tornar homem.
p. 204, tradução nossa). Apesar de ocorrido Tal como em um sintoma neurótico ou em
muitos anos depois, é a reedição do trauma um sonho, o significante em grego foi image-
de sua violação por Peseidon que acaba con- ticamente desmembrado em seus vários sig-
duzindo à própria destruição de Ceneu pe- nificados. Assim, fisicamente impenetrável e
los centauros. Como deixou escrito Virgílio, invulnerável, o homem Ceneus compensaria
Ceneu havia sido um dos que “um amor a ferida em seu corpo, mas também a ferida
cruel e rude matara”. em sua psiché, no movimento em que a pul-
Na Grécia Arcaica há outro modelo femi- são é o elo entre corpo e mente. Cenis fora
nino, muito mais conhecido do que Cenis. ferida no núcleo de seu ser, tanto pelo vio-
Também são de Hesíodo, na Teogonia e em lento ataque à figura idealizada de um objeto
Os trabalhos e os dias, os primeiros relatos paterno bom, quanto ao limite e imunidade
da mulher causadora de todos os males: do corpo em relação ao mundo externo, no
Pandora. Também há menção ao mito na que Freud descreveu com o eu corporal sen-
Ilíada. Junto com a tradição judaico-cristã, a do o modelo para o eu psíquico. Era impe-
greco-romana é um dos dois pilares da cultu- rioso que Ceneu, de modo ativo, buscasse re-
ra ocidental contemporânea. Ambas as tra- forço narcísico transformando masoquismo
dições são patriarcais e destinam o feminino em sadismo, projetando-o em direção a um
ao papel do masoquismo, da culpabilização fazer compulsivo e violento. E como a maio-
pela origem do mal, e a submissão ao ho- ria dos frutos do patriarcado, negando sua
mem é o preço da queda. E dessa justificativa angústia de castração.
desenvolvida pelos homens uma sistemática Símbolos fálicos pertenceram ao mito
de negar a maior angústia de seu sexo: a cas- original e outros foram sendo associados ao
tração. A organização social, aquela que acua longo dos séculos por diversos autores. A efi-
as mulheres para situações passivas, em que cientíssima espada usada no combate contra
a violência sexual é uma realidade e um sím- os centauros. O sepultamento ereto dentro
bolo extremo, é apenas um resultado. da terra, realizado por troncos da mesma
Em seu princípio, encontramos da prima- árvore do nome de seu pai. Sobre o culto
zia do falo e, por detrás dela, o que ela dis- ímpio a sua lança, à qual exigia juramento,
simula ou nega: a dominação exercida pela não é um psicanalista, mas outro helenista e
angústia de castração na psique masculina. tradutor do grego quem comenta: “[...] não
se tem de ser um freudiano para indagar
[...] Sofrimento feminino e dominação viril sobre as possíveis implicações fálicas nisso”
formam um velho par, um dos sexos exigindo (Celoria, 2005, p. 153).
do outro, o “fraco” que ele represente sozinho Surge uma dúvida. Ao longo de toda a
a ferida (André, 1996, p. 111). mitologia grega deuses violaram, pelos mais
diversos meios e formas, mulheres mortais
A violação de Cenis foi uma ferida (atrô- e até divinas. Por que apenas Cenis pede a
tos) passivamente infligida. Dessa forma, transformação em homem? Há algo mais no
todo prazer é imposto, reforça o masoquis- mito que poderia até indicar que, mesmo

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Transexualidades – psicanálise e mitologia grega

sem ser violada, Cenis, cedo ou tarde, dese- sa lhe disse que, quando do parto, proteges-
jaria ser Ceneu? Poderíamos justificar essa se a criança fosse qual fosse o sexo. Nasceu
dúvida apenas pelo pouco ou nada que res- uma menina. Com a cumplicidade da ama,
tou de outros mitos femininos arcaicos, in- Teletusa mentiu para o marido dizendo ser
vocando helenistas como Blundell (1996) e um menino, que convenientemente recebeu
Ziogas (2013) para justificar que quase tudo o nome de Ífis, que pode ser usado por am-
que temos da Grécia Arcaica é o que sobre- bos os sexos. E, assim, Ífis foi sendo criada
viveu à tradição patriarcal. Que o Catálogo e crescia como um belo menino. Aos treze
das mulheres resulta de fragmentos de toda anos Ligdus arranjou-lhe como futura noiva
uma extensa tradição feminina, oposta àque- uma bela menina da mesma idade: Iante, fi-
la patriarcal representada por Homero, que lha de Telestes. Ífis e Iante passaram a con-
foi aos poucos sendo destruída pela censura viver e estudar juntas. E se apaixonaram.
dos homens através dos séculos. Tal como Sem saber quem era em realidade seu noivo,
ocorreu com a poesia de Safo? Essa justifi- Iante ansiava pelas núpcias. Enfim, a data
cativa historicista não nos basta. É realidade do casamento foi marcada. E em belos ver-
que toda interpretação imposta ao mito foi sos Ovídio descreve o amor e o desespero de
feita apenas tomando as imagens de Cenis Ífis. Sua mãe dizia-se doente e inventou todo
adulta. Ora, em psicanálise há que atingir a tipo de outras desculpas, conseguindo adiar
primeira infância. Impossível pelos dados várias vezes a cerimônia. Até que não houve
que temos sobre esse mito. Logo, é também mais jeito. Então, levou Ífis ao templo de Ísis
verdade que, por enquanto, estivemos mais e em prantos invocou a deusa.
no psicologismo da psicanálise de ego de um
mito, que na psicanálise propriamente dita. A estátua pareceu balançar, a deusa pareceu
Mas isso pode ser relevado com o estudo de sacudir seu altar, as portas do templo estre-
outro mito. meceram, brilhava a coroa com o crescente
[...] feliz com o presságio favorável, a mãe
O mito de Ífis e Iante saiu do templo. A seu lado caminha Ífis, mas
Também consta das Metamorofoses, de com passos maiores que de costume, desapa-
Ovídio, a versão mais conhecida da história recera a palidez de seu rosto, maior parecia
de Ífis e Iante. Quando a cretense Teletusa es- sua força, mais dura está a própria expressão
tava grávida, seu marido Ligdus a advertiu de [...] O dia seguinte desvenda o vasto mundo
que só queria um bebê menino. Pertenciam com seus raios, quando à cerimônia nupcial
a uma família livre mas pobre. A criação de Vênus, e Juno e Himeneu e todos chegam, e
uma menina daria muito mais trabalho e Ífis, o rapaz, toma para si a sua Iante (Ovídio,
nenhum reconhecimento social e, embora 2004, p. 244, adaptação nossa).
não estivesse dito, ainda seria necessário um
dote para casá-la. Afinal era esse o costume. A história de Ífis foi novamente contada
Ligdus decreta que, se nascesse uma menina, cerca de dois séculos depois por Antonino
ela deveria ser morta. Em muitas sociedades Liberal (Antoninus Liberalis), gramático
antigas (e algumas contemporâneas) o infan- grego do século II, em seu livro Metamorfoses
ticídio era aceitável, tanto de bebês que apre- (Liberalis, 2005). Trata-se de um resumo
sentassem anormalidades, quanto do sexo muito curto, também ambientado em Creta,
feminino, mesmo sem anomalias. mas mudam todos os nomes dos persona-
Teletusa estava desesperada, mas em um gens. Ífis é Leucipo, sua mãe Galatea e seu
sonho, à meia-noite apareceu-lhe a deu- pai Lampro. Liberal não cita o amor e o casa-
sa Ísis, acompanhada pelos deuses Anubis, mento com Iante. E o episódio da mudança
Bubastis, Apis, Harpócrates e Osiris. A deu- de sexo se dá no santuário da deusa Leto.

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Anchyses Jobim Lopes

Contudo, o curto texto de Liberal fornece Considerações sobre o mito de Ífis e Iante
dados importantes. Cita que a história foi ti- Uma história da época helenística, que pode
rada do segundo livro das Metamorfoses, de ter sido baseada em um mito mais antigo, e
Nicandro de Cólofon, poeta, prosador e mé- reciclada por autores da época romana, ante-
dico grego do século II a.C. Possivelmente a cipa mais de dois milênios um debate atual.
mesma fonte que também inspirou Ovídio. Ao contrário de Cenis, que até a idade adul-
É provável que Liberal, e não Ovídio, tenha ta era e se mostrava como mulher, Ífis des-
mantido os nomes originais do mito. E como de o nascimento fora criada e se mostrava
bom erudito da época helenística, que reci- como menino. Mais do que isso, utilizando
clava e embelezava todos os mitos antigos, o termo contemporâneo, sua identidade de
mas pouco criava de novo, é bem aceitável gênero sempre foi masculina. Assim como
que Nicandro deva ter se inspirado em nar- em sua expressão cultural de gênero sempre
rativa ou narrativas mais antigas. foi a de um menino ou um rapaz. Seu amor
Outra indicação de que se trata de histó- por Iante sequer pode ser classificado como
ria bem mais antiga se refere à deusa Leto. homoerótico. O desespero de Ífis diante do
Na mitologia grega Leto é filha de um Titã, casamento se dá por não poder consumá-lo
ente da segunda geração das divindades, an- como homem, e que seria desmascarada por
terior aos deuses do Olimpo. Na verdade, Iante e pela sociedade. Não se tratava de um
uma ponte entre essas duas gerações, uma conflito distônico ao eu.
vez que Leto com Zeus concebeu Apolo e Pode o desejo consciente ou inconsciente
Artêmis, o que pode indicar que a história dos pais moldar a identidade de gênero de
tenha se originado na Grécia Arcaica ou an- um bebê em oposição ao seu sexo biológico?
tes. Horace Gregory (2009, p. 228), poeta e Pela história de Ífis, pode. Parece até um dos
tradutor de Ovídio, defende que a deusa Ísis textos mais radicais dos teóricos que defen-
fora colocada porque tudo ligado ao Egito dem a construção social do gênero, e até mes-
estava na moda ao final da república romana mo dos que defendem que a identidade de
e início do império. Reflexo da sedução que gênero possa ser completamente adquirida.
Cleópatra VII tivera entre romanos célebres No mito de Ceneu prevalecem todos os
e na própria cidade de Roma, onde residiu estereótipos de uma cultura patriarcal guer-
longo tempo. reira: sadismo, violentação sexual, a violência
Uma curiosidade adicional é que um edi- física. Uma variedade de símbolos fálicos e o
tor do século XVII disse possuir um manus- assassinato de seres dotados de um pênis ain-
crito e uma peça não publicada de William da maior que o de Ceneu: os centauros, que
Shakespeare. Ou era mentira, ou o manus- por sua vez terminam por levá-lo à destrui-
crito acabou sendo perdido. Foram inúme- ção. Numa interpretação contemporânea,
ras as atribuições à autoria do poeta inglês deixando de ser mulher, Ceneu se tornou uma
após sua morte. Duas peças foram aceitas, caricatura do masculino. Nos textos que che-
duas provavelmente perdidas para sempre. garam até nós, mesmo o de Ovídio, a narra-
A autoria da peça em questão, da qual só o tiva provém de um observador externo. Não
título é conhecido, foi recusada pela maio- há sutileza ou interioridade dos personagens.
ria dos especialistas. Mas uma das maiores Somos nós, de milênios depois, que fazemos
fontes de inspiração de Shakespeare foram interpretações psicologizantes. Ao masculi-
as Metamorfoses, de Ovídio, na tradução no a cultura patriarcal parece ter o cacoete
de Arthur Golding. O título da peça perdi- de negar sentimentos e hipertrofiar o com-
da, uma comédia, era Ífis e Iante, ou o casa- portamento num compulsivo e sádico fazer.
mento sem um homem (Iphis and Ianthe, or O mito de Ífis se mostra o oposto. Teletusa,
Marriage without a Man). num ato desesperado, salva seu bebê. Mesmo

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Transexualidades – psicanálise e mitologia grega

que tenha sido por puro narcisismo, há o O feminino surge sempre como prote-
ato de preservação da vida. A narrativa de tor e guardião da pulsão de vida no mito
Ovídio é permeada de comentários senti- de Ífis. É a deusa quem aconselha contra a
mentais e eróticos. morte do bebê. A mesma que, tal como pro-
metera, teatralmente conserta tudo. Não um
Iante ansiava pelo dia das núpcias e do ma- deus distante e violentador. Ísis ou Leto, mais
trimônio combinado, e acredita que será seu parecem uma avó bondosa aconselhando a
homem quem ela julga ser homem. Ífis ama-a filha. E é Teletusa quem salva sua própria fi-
sem a esperança de a poder possuir, e por isto lha. É a paixão por outra mulher – Iante que
mesmo a amava mais ainda [...] (Ovid, 1984, descortina a Ífis a doce desespero do primei-
p. 55, tradução e adaptação nossa). ro amor. Causa da angústia de castração que
conduz Ífis à aquisição de um genital mascu-
Através dos pensamentos de Ífis, o poeta lino. Juno, a deusa do casamento é a primei-
nos mostra o diálogo silencioso dela consigo ra na série de divindades que aparecem na
mesma, em que nos descortina sua paixão e cerimônia.
seu desespero: Nesta história o feminino se caracteriza
na aparência de um comportamento passivo
É a esperança que causa o amor, é a esperan- e de espera, que em realidade ao longo do
ça que o alimenta. A realidade tirou-te a es- tempo se revela ativo e eficaz. Uma espera
perança. Não é um guardião severo quem te que é conter no interior de si o desejo até que
afasta do teu terno abraço, não é o zelo de um seja possível a pulsão surgir no mundo exter-
marido desconfiado, não é ela quem recusa no. O oposto do fazer compulsivo, primeiro
teus pedidos (Ovid, 1984, p. 57, tradução e gestar e amadurecer até o fazer. A história de
adaptação nossa). Ífis é descrita pelo poeta num discurso lite-
rário sobre sentimento e pensamento como
Sem dúvida Ovídio, autor de vários livros interiores. Sobre o mito de Ceneu nos apro-
sobre o amor e o erotismo, pertence a uma priamos das palavras de Jacques André:
época psicologicamente muito mais sofistica-
da que a de Homero. Contudo é também seu A via masculina é de uma dupla transforma-
mérito descrever por dentro os sentimentos ção: da passividade primária em atividade e
de um ser humano, sua interioridade, não do pavor em prazer (André, 1996, p. 108).
apenas e exterioridade de um Hesíodo, ou
do próprio Ovídio quando descreve o mito E para o mito de Ífis aproveitamos outras
de Ceneu. Ífis nos revela seu ser, não apenas palavras do mesmo autor:
um compulsivo fazer. Mais que um falo, hu-
manamente deseja um pênis. Mais que para A via feminina permanece no terreno da pas-
se satisfazer, para satisfazer a quem ama. sividade [...] mas transita do pavor ao gozo.
Apesar da violência máxima que o destino [...] ou seja, a ligação íntima entre a passivida-
lhe brindou, ameaçada de morte ao nascer, o de e o interior (André, 1996, p. 108).
desejo de Ífis é quase todo de pulsão de vida.
Aparente contrassenso que deseja se trans- O mito de Ífis também conduz ao cerne
formar fisicamente em homem, mas não para do pensamento freudiano. Ao contrário do
obter as características estereotipicamente mito de Ceneu, dele podemos direcionar
associadas pelo patriarcado ao masculino, para o objeto da psicanálise: a primeira in-
tais a violência e o sadismo. Não deseja ser fância. E para questionar o próprio relato da
um guerreiro, mas um bom marido. Seria história, que evade de um discurso sobre o
uma visão muito feminina do masculino? desejo inconsciente. Seu pai conscientemen-

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Anchyses Jobim Lopes

te a rejeita e ameaça de morte se for menina. das. Talvez em função da repressão cultural
Sua mãe conscientemente a deseja menino judaico-cristã, que culminou na destrui-
desde o início. Socialmente pelo noivado ção de milhares de estátuas e templos ao fi-
passou de menino a homem. A grande dife- nal da Antiguidade. Os vestígios da origem
rença em relação entre as discussões de áreas mais remota dos mitos foram ofuscados por
não psicanalíticas é que o desejo dos pais de um dos relatos literários mais famosos de
Ífis é consciente e, para a psicanálise, só o de- Ovídio. Conto que deve ter sido inspirado
sejo inconsciente teria tal poder de moldar a em versões tardias, provavelmente da época
identidade de gênero de um bebê. helenística, originadas de uma tradição mais
antiga de divindades intersexuais.
Os mitos de Afrodito e Hermafrodita Já mencionamos o relato de Ovídio nas
Autores gregos antigos (Aristófanes e Metamorfoses da conhecida é a história de
Filocoro) e o romano Lévio mencionam Hermafrodita (OVID, I, 1984, p. 198-205).
uma deusa chamada Afrodito (Aphroditos). Filho de Afrodite e de Hermes, teria nascido
Dela também foram encontradas estátuas e um menino extremamente bonito. Passeando
pequenas esculturas compondo uma figura pelos bosques encontrou um lago onde vivia
com seios e formas femininas, algumas vezes a náiade Salmacis que foi por ele tomada de
barbadas, outras não, num gesto de levantar paixão. Mas ela não lhe despertou nenhum
as saias com as mãos e mostrar genitais mas- interesse. Acreditando que Salmacis tivesse
culinos em ereção. Com esse gesto também ido embora, Hermafrodita se despiu e foi se
afastariam influências malignas e mal olha- banhar no lago. Foi quando a náiade firme-
do. A relação entre Afrodito e Hermafrodita mente o abraçou. Enquanto ele lutava por
é confusa. Mas, ao contrário de Afrodito, se desvencilhar, ela invocou os deuses para
Hermafrodita jamais é representado com nunca mais separá-los. Seu desejo foi conce-
barba. Outros autores (Teofrasto e Alcifrão) dido, e seus corpos se misturaram numa for-
mencionam o culto a uma estatura e um ma intersexual. Hermafrodito, aflito e enver-
templo do Hermafrodito. Desde o século V gonhado, fez então seu próprio voto, amaldi-
a.C. sobreviveram vestígios, associados a es- çoando o lago de forma que todo aquele que
tas divindades, de ritos nupciais e de fertili- ali se banhasse seria igualmente transmuta-
dade com práticas travésticas. do, como ele próprio num semi-homem pri-
Deixaremos de lado deusas associadas à fi- vado de metade de sua força.
gura de uma grande mãe, como Cibele, em que A representação artística das hermas e es-
os sacerdotes são descritos como afeminados tátuas de Afrodito, e da estátua mais famosa
e se castravam. Deusas como Cibele e Agdistis de Hermafrodita, também não são represen-
parecem ter uma origem oriental diversa. tações transexuais, no senso estrito como
O nome Hermafrodita é explicado de for- hoje definimos. Não se trata da passagem da
ma mais corriqueira como a combinação dos identidade de gênero do sexo do nascimento
nomes de seus pais, Hermes e Afrodite. Mas à do sexo oposto, mas de entidades que ao
também pode significar ‘herma de Afrodite’. mesmo tempo combinam características fí-
Herma era um pilar quadrado ou retangular sicas e de expressão de gênero de ambos os
de pedra, terracota ou bronze sobre o qual se sexos, isto é, intersexuais. A mais conhecida,
colocava uma cabeça do deus Hermes, que que pode ter inspirado Ovídio, é a do ‘her-
era um deus fálico. Com o tempo passou a mafrodita dormindo’, uma estátua em bron-
nomear esse tipo de estátua com a cabeça ze de um escultor grego do século II a.C., da
ou busto de qualquer outro deus ou deusa. qual três cópias em mármore da época roma-
As origens mais antigas de Afrodito e de na chegaram até nossa era. A mais conheci-
Hermafrodito ficaram hoje quase esqueci- da foi encontrada nas ruínas das termas de

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Transexualidades – psicanálise e mitologia grega

Diocleciano e hoje se encontra no museu do mentares. Apenas o extremo de um amplo


Louvre. O corpo é inspirado nas representa- espectro, desde o binarismo absoluto, que
ções de Vênus. Visto por detrás com contor- seria mantido na transexualidade completa,
nos, tez e nádegas femininas. De frente com até uma relativização que idealmente com-
pequenos seios, mas com genitais masculinos. binaria em proporções iguais às característi-
Como nos mitos de Tirésias e Siprites, a cas de ambos os sexos. De qualquer modo, o
transformação do Hermafrodito de Ovídio mito de Hermafrodita relatado por Ovídio,
também aconteceu contra sua vontade. Tanto pela transformação lhe ter sido imposta con-
que motivou lançar uma maldição. E não se tra sua vontade, permanece fora desses rótu-
tratou em uma mudança completa, ou quase, los. Já os resquícios, que apontam na direção
para o sexo oposto ao biológico de nascença. de cultos a entidades intersexuais mais anti-
Também por isso hoje deve ser rotulado de gas, na Grécia, podem fornecer pistas impor-
intersexual. Na literatura latina, e provavel- tantes para a compreensão psicanalítica das
mente na helenística tardia, em vez de repre- questões colocadas pelas transexualidades.
sentar a união das forças de ambos os sexos Um conhecido e excelente egiptólogo ama-
como nos cultos mais antigos, é uma criatura dor, ao escrever sobre vários deuses egípcios
enfraquecida. Representação patriarcal de possuidores de características do que hoje se
que toda característica feminina num ho- denomina de intersexualidade, afirma que:
mem o denigre. Bem como a advertência
de que, se uma mulher toma a iniciativa em A mitologia nos ensina que a constituição an-
amor e sexo, o resultado será funesto. drógina, isto é, uma combinação das caracte-
A transição entre as estátuas e os cultos aos rísticas masculinas e femininas, era atributo
deuses Afrodito e Hermafrodita, e o persona- não só de Mut mas também de outras divin-
gem de Ovídio, está bem documentada pelo dades, tais como Ísis e Hathor [...]. Ensina-
historiador Diódoro Sículo, grego do século -nos, mais, que outras divindades egípcias
I a.C. Anterior a Ovídio, Diódoro inicia sua tais como Neith de Saís de quem se originou,
extensa obra pelo relato dos mitos que teriam mais tarde, a Atenas dos gregos foram ori-
precedido a história como hoje a definimos. ginariamente concebidas como andróginas,
isto é, como hermafroditas, e que o mesmo se
Alguns dizem que Hermafrodito é um deus dava com muitos dos deuses gregos, especial-
que em certas épocas aparece aos homens [...] mente aqueles que eram associados a Dioní-
possuindo o corpo delicado e belo de uma sio, mas também a Afrodite, que mais tarde se
mulher, mas que também possui a qualida- limitou a representar uma deusa feminina do
de masculina e o vigor de um homem. Mas amor. A mitologia explica que o acréscimo de
outros dizem que tais criaturas de dois sexos um falo ao corpo feminino é uma representa-
são monstruosidades e que raramente vêm ao ção da primeva força criadora da natureza, e
mundo, pois possuem o dom de predizer o que todas essas divindades hermafroditas são
futuro, algumas vezes para o mal, outras para expressões da ideia de que somente a combi-
o bem (Diodorus Siculus, v. II, 1994, p. 361, nação dos elementos masculino e feminino
tradução nossa). poderá de fato simbolizar a perfeição divina
(Freud, [1910] 1978, p. 144, tradução nossa).
Considerações sobre
os mitos de Afrodito e Hermafrodito Segundo Freud as teorias sexuais infan-
No quadro de definições propostas ao início, tis explicam a criação dessas divindades in-
intersexualidade diferiria de transexualida- tersexuais. Há uma época em que o genital
de. Mas a observação mostra que também masculino é compatível com a imagem ma-
podem ser vistas como fenômenos comple- terna. Freud já narrara que o pequeno Hans,

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Anchyses Jobim Lopes

por exemplo, já havia dito para a sua mãe sido uma mãe primeva. Ou ao menos que
que ela “[...] era tão grande que tinha um na conspiração de filhos do pai primevo, as
pipi igual ao de um cavalo”. Mas a lógica do mulheres não teriam sido apenas objeto pas-
criador da psicanálise sempre vai na direção sivo da cobiça masculina. A lógica de Totem
de que o órgão a ser universalmente atribuí- e tabu continua sendo falocêntrica, embora
do pelas crianças deve ser o pênis. Não deixa permita um tênue aceno de crítica sobre a
de ser coerente no universo clínico limita- precedência histórica e a heteronormativida-
do de Freud, cuja única experiência de uma de do patriarcado.
protoanálise infantil fora com um menino Mas o fundador da psicanálise era um
já em plena fase fálica. Que sem o saber era homem e, se revolucionário em muitos as-
bem freudiano ao validar que a imagem de pectos, em outros um homem do seu tem-
que tinha de sua mãe era a de um Afrodito po. Eentre todas as mulheres que vieram a se
do início do século XX. Mas é hoje corrente dedicar à psicanálise no século XX, Melanie
a crítica de que a lógica freudiana em atri- Klein foi a maior causadora da reversão do
buir universalidade ao sexo masculino, re- falocentrismo freudiano. Resumindo, em
baixando o feminino ao papel de um homem uma de suas principais obras ela escreve ter
castrado, reflete a ideologia do patriarcado. encontrado na clínica muito mais resistência
Ideologia tão penetrante que um menino de e dificuldade na interpretação e resistência
cinco anos, extremamente inteligente e pers- quanto a inveja do seio, do que em relação
picaz, negava e recalcava todas as observa- ao Édipo (Klein, 1975, p. 179). Isso equivale
ções concretas em oposto. dizer que na clínica o seio materno prece-
Por outro lado, representações mais anti- de o pênis do pai. Klein, tal Freud, sempre
gas do Hermafrodita, e mesmo a estátua do abonou a ideia de que a ontogênese segue a
Hermafrodita deitado, apesar de uma criação filogênese, a construção de cada ser humano
tardia da Antiguidade, podem ser interpre- segue as etapas do processo de antropogêne-
tadas nos dois sentidos. Um ser com atribu- se da humanidade. Logo, antes da lei pater-
tos de ambos os sexos sem dúvida pode ser o na e do nome-do-pai, isto é, do patriarcado,
produto da negação da castração. Só que em precede uma função materna e o matriarca-
sentido inverso, a atribuição de um pênis a do. Não por menos a psicanalista e filósofa
uma mulher também a direciona no sentido feminista Julia Kristeva coloca Klein entre as
na atribuição da característica feminina mais três mulheres do século XX que considera as
proeminente – o seio – a um homem. E mes- maiores detentoras da genialidade feminina.
mo sendo necessário, diante da realidade, re- É de Melanie Klein a descoberta de que há
conhecer que os seres humanos só possuem no inconsciente ao início da primeira infân-
uma das metades dessas divindades interse- cia uma figura semelhante ao Hermafrodita.
xuais, o mesmo raciocínio implica que um Trata-se da fantasia dos pais combinados,
ser superior e além dos humanos deveria ter mais precisamente, dos seus órgãos sexuais
atributos de ambos os sexos. Como escreveu firmemente unidos em um ato sexual perma-
Freud, a perfeição divina, a representação da nente. Explicação de muitas fantasias e so-
primeva força criadora da natureza, deve ser nhos, pesadelos acima de tudo, nos quais se é
intersexual. perseguido por figuras como as de contos de
Freud não se deu conta da contradição fadas, como ogros, gigantes muito gordos ou
inerente a sua descrição das figuras com- monstros. A interpretação das imagens reve-
binadas de ambos os sexos nas mitologias la características de ambos os sexos. Embora
egípcia e grega, e a nulidade do papel das se trate de uma figura persecutória que cos-
mulheres em seu texto logo posterior Totem tuma surgir até em crianças de poucos meses
e tabu. O pai primevo também poderia ter de vida, pode contribuir para a emergência

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Transexualidades – psicanálise e mitologia grega

de quadros psicóticos se for recorrente e socializantes, pode continuar a existir uma


acompanhada de intensa ansiedade. busca ardente pelos aspectos maternais dos
Mas fora o próprio Freud quem descre- homens ou pelos aspectos masculinos das
vera que uma das principais características mulheres. De fato, a união dos pais perma-
do sagrado é ser possuidor do mana, poder nece dentro da personalidade e a maturidade
terrível e mortal, como o dos deuses gregos, consiste em uma capacidade crescente de to-
que, se aparecerem em sua plenitude aos hu- lerar, acolher e valorizar ambos os aspectos,
manos, os fulminam. E se interpretarmos abraçados juntos dentro do self (Hinshe-
a figura dos pais combinados como criada, lwood, 1992, p. 405).
pela inveja e voracidade do bebê, a partir da
deturpação da imagem mais antiga, onde A imagística divina mais antiga de
predominaria o lado benéfico do mana? Na Afrodito é mais que um grande desmenti-
imagem de uma ‘mãe’2 contendo tudo que de do da castração simbolizado pelo “véu” que
mais idealizado e desejado por um bebê. Em encobre seus genitais masculinos em ere-
termos kleinianos, algo ainda detentor do ção. Assim como a de Hermafrodito não é
objeto mais cobiçado – o seio – e todos os tão somente a de uma fantasia fetichista, de
outros objetos parciais emanados e associa- uma mulher com pênis ou de um homem
dos ao seio: pênis, fezes, calor, cheiro, voz, e com seios. Isto é, tão somente a de uma ima-
sabe-se mais o quanto. gem que negue a castração como o quer a
O psicanalista kleiniano Donald Meltzer interpretação mais comum do travestismo,
mostrou como, mesmo em textos de Melanie por exemplo. Mas uma imagem anterior ao
Klein, embora a autora vacile, há uma dire- Édipo, mesmo de um Édipo muito precoce
ção em considerar “esta figura combinada como postulava Klein. Uma imagem prenhe
como núcleo do ego e da força do ego [...]” de narcisismo, ainda não ferida pela per-
(Meltzer, 1978, p. 115). cepção da dicotomia sexual e pelo binaris-
Mais tarde R. D. Hinshelwood, professor mo. Porém, trata-se da imagem primeva, tal
de estudos psicanalíticos da Universidade de como discorria Klein sobre a imagem com-
Essex, definirá em seu Dicionário do pensa- binada da mãe que contém o pênis do pai e
mento kleiniano (1992): não o inverso. Imagem que, ao contrário do
que pontifica o velho patriarcado, antecede
Gênero: Os objetos parciais “mãe”, “pênis”, ao falo e será a origem de dons sempre asso-
“seio”, “mamilo”, etc. surgem primeiramente ciados ao feminino.
como objetos que povoam a fantasia incons- Se, por um lado, o totemismo é a simbo-
ciente e são mais tarde atribuídos a membros lização no concreto da lógica fálica, Totem
da família. É importante lembrar que, embora e tabu contém um aceno na direção opos-
a atribuição social de gêneros à mãe e ao pai ta à heteronormatividade e ao patriarcado.
reais parece classificar os objetos parciais en- Escreve Freud que a união dos irmãos contra
tre os pais [...] a criança não faz isso. Antes o pai primevo
da socialização e da aceitação mais consciente
destes atributos de gênero, o bebê experien- [...] pode ter-se baseado em sentimentos e
ciará esses objetos parciais em qualquer um atos homossexuais, originados talvez durante
dos genitores e, depois, apesar das atitudes o período da expulsão da horda. Aqui tam-
bém pode ser encontrado o germe da insti-
2. Entre aspas, porque não é uma pessoa nem um objeto tuição do matriarcado, descrita por Bachofen
parcial um pouco mais integrado. Pode até mesmo ser pré [1861] que foi, por sua vez, substituída pela
-objetal. Algo como o que Winnicott descrevia que o pró-
prio bebê, em sua onipotência e fusão, achava que era mera
organização patriarcal da família (Freud,
criação sua. [1913] 1978, p. 144).

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Anchyses Jobim Lopes

Algumas construções psicanalíticas Consideremos agora essa possibilidade: o


sobre identidade de gênero que Freud pensou que fosse uma qualidade
Embora Freud tenha sempre defendido a elementar, “protesto masculino” ou “repúdio
bissexualidade, para ele o único órgão sexual à feminilidade” nos homens, ao invés de ser
reconhecido pela criança nos dois sexos era o o reflexo de uma força biológica, é uma ma-
órgão masculino. A menina apenas descobre nobra defensiva, inteiramente não biológica,
que é um menino com um pênis muito pe- contra um estágio primitivo de proximidade
queno. Mutilação da qual sua mãe não a de- e identificação com a mãe. Comparativamente
fendeu. E da qual meninos e homens passam em mulheres, anterior à inveja do pênis em
o resto da vida se defendendo. Durante déca- meninas, existe um estágio de feminilidade pri-
das Freud postulou que a libido era masculi- mária (Stoller, 1982, p. 11, grifos do autor).
na, ou seja, a sexualidade humana se ordena
segundo o falo, conceito ambíguo, por mais O desafio de Stoller ao primado freudiano
que se tente distingui-lo de pênis. Ainda em do masculino torna-se mais grave, na medi-
vida de Freud surgiram muitas críticas a essa da em que acabou por afirmar o seu oposto,
criação do feminino, um tanto parecida com um imprinting feminino primário. Embora
a do Gênesis, em que a mulher surge de um pioneiro em muitos temas audaciosos à sua
simples pedaço do homem, privilegiado mo- época, o psicanalista americano deixou in-
delo da criação primeira. completas muitas de suas ideias mais ousa-
Ao longo do progresso da psicanálise no das. Observações pessoais e o aprofunda-
século XX, o maior movimento de inver- mento bibliográfico sobre transexualidade,
são do falocentrismo freudiano derivou de bibliografia da qual Stoller foi pioneiro e
Melanie Klein. Haja vista o impacto da leitura leitura indispensável até hoje, permitiram
do artigo sobre o Édipo precoce nos textos de que separássemos feminilidade primária de
Freud Sexualidade feminina e Feminilidade. identificação feminina primária e desdo-
Possuindo vasto material clínico, Klein pos- brássemos o conceito de imprinting como
tulou que, como objeto o seio da mãe de ocorrendo em dois momentos.
muito antecede o pênis do pai, a importân- Por feminilidade primária incluímos tan-
cia das fases pré-edípica e da mãe como se- to o seio bom kleiniano, mas ainda como
dutora primeira. Ideias que Freud em gran- pré-objetal ou mesmo anobjetal, associada à
de parte incorporou naqueles dois textos. descrição de Winnicott de que através dessa
Ao reestudar a sexualidade a partir da forma de relação, denominada de elemento
pulsão e dos destinos da pulsão, em sua con- feminino puro, mãe e bebê em conjunto es-
ferência sobre Feminilidade ([1932] 1996), tão sendo, e o bebê crê que o seio é criação
também admitira que a equação entre ativi- sua. Ser é conter dentro de si e gestar, depois
dade e masculinidade, bem como seu corre- uma alternância entre um cuidar ativo e uma
lato lógico, feminilidade e passividade, não passividade criativa. Colocar-se como espera
procedia. E que que permita ao bebê desabrochar sua singula-
ridade: ser em oposição a um posterior fazer.
Existe apenas uma libido, que tanto serve às Conter, gestar, cuidar, qualidades que se-
funções sexuais masculinas, como às femini- rão sempre vistas como femininas. De um fe-
nas. À libido como tal não podemos atribuir minino que surge como protetor e guardião
nenhum sexo (Freud, [1932]1996, p. 130). da pulsão de vida, que possui acesso privi-
legiado a tudo que é interior, como ao sen-
Se a libido não é privilegiadamente mascu- tir dentro de si a subjetividade, tal como no
lina e se o objeto primeiro é o seio, é fácil com- mito de Ífis. Características que serão sempre
preender a dedução de Robert Stoller para que: depois associadas ao feminino, embora não

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Transexualidades – psicanálise e mitologia grega

se trate ainda de um feminino binário, isto é, inicial da identidade de gênero feminina: ‘ser
que exista em oposição a um masculino. como a mãe’. A semelhança com a etologia,
Entre a mãe e seu bebê há momentos de Stoller denominou de impriting, termo cuja
fusão winnicottiana, em que o bebê acha tradução correta em português seria ‘cunha-
que a ‘mãe’ (seio) é criação sua. Que se al- gem’. Momento em que é colocada a placa,
ternam com momentos em que já há objeto antigamente de metal, hoje de borracha, no
parcial fora, mas oralmente incorporado. Por carimbo, que doravante marcará todo o ser
longos momentos não há o contato de duas e todo o fazer.
peles, porque ainda não há separação entre Em um terceiro momento, após o ápice
dois seres diferentes. Aos poucos, aumenta da identificação feminina primária, concor-
a alternância com momentos cada vez mais damos com a leitura de Stoller feita pelo co-
longos, em que já existe um contato de pele lega Rodrigo Zanon, que o responsável pelo
entre duas individualidades separadas. Mas processo desidentificatório seria a entrada
mesmo através da visão inicial, o seio bom do um terceiro constituindo o início do pro-
já se constitui como o núcleo inicial do ego. cesso edípico clássico freudiano. Nesse ter-
Na possibilidade de constituir o ser, te- ceiro momento também ocorre um segundo
mos a metáfora da constituição da matéria tempo do imprinting, em que a identifica-
de que é feito um carimbo. Que ainda não ção feminina primária pode ser recalcada e
possui a placa de metal ou plástico com os ressignificada em identificação masculina,
dizeres que nomeiam seu uso, mas primei- transformando a identidade de gênero fe-
ro tem de ser feito bem sólido para ser uti- minina em identidade de gênero masculina.
lizado. Se não se consolidar a feminilidade Assinale-se que esse terceiro, essa função ‘pai’,
primária, teríamos o âmago para as psico- não se refere necessariamente ao pai bioló-
ses e os autismos. Tal uma bandeira ou es- gico. Pode até mesmo ser feita pela própria
taca, o falo não pode ser fincado no barro. mãe, igualmente biológica ou não, através da
Não há significante que se estabilize. Não há imago consciente e inconsciente que dentro
totem que fique em pé. O que dá para en- de si traz da função paterna. E que o segundo
tender, mas não para justificar, a confusão tempo do imprinting também pode ocorrer
de tantos psicanalistas, seja por preconcei- em sentido oposto, reforçando a identidade
to disfarçado, seja por falta de observação de gênero feminina. Também nesse caso em
clínica, entre casos de transexualidade e direção oposta à fusão materna original, e
sintomas de um psicótico como Schreber. sim de um feminino como possibilidade de
Já a identificação feminina primária seria conter e gerar a diferença, assim como apro-
um momento posterior. Identificação com a fundar a singularidade e a interioridade. Um
mãe, já reconhecida como um objeto parcial segundo tempo do imprinting em que a pri-
mais integrado e já nomeado com o signifi- meira cunhagem da placa do carimbo pode
cante ‘mã’ em todos os idiomas. Momento ser reforçada ou substituída. Mas sem dúvida,
em que o movimento labial de sucção do tanto o reforço da identidade de gênero femi-
seio, que se afasta ou se recusa, e cuja ausên- nina quanto a translação em identidade de
cia é reconhecida e preenchida pelo bebê por gênero masculina seriam fruto do primeiro
um som que forma o primeiro significante. momento de entrada na triangulação edípica.
Já ocorre um reconhecimento de que o con- Por sua vez, um segundo tempo da trian-
tato de pele prolongado é entre dois seres gulação edípica seria o definidor da escolha
distintos. Ocorre a passagem de um envelope objetal. Em realidade muitas vezes seria um
ao outro. Como descreveu Freud, já que não momento mais lógico do que cronológi-
se pode ter, passa-se a ser como. O objeto co. Algumas crianças antes dos dois ou três
metamorfoseia-se em identificação. Núcleo anos, ainda de passagem pela identificação

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Anchyses Jobim Lopes

feminina primária e antes das expressões de por truques como fechar com os dedos o
gênero serem impostas, já apresentam es- narizinho do bebê turrão, obrigando-o a
colhas objetais definidas para a vida inteira. abrir a boca, para enfiar-lhe uma colherada
Um número provavelmente maior de crian- de comida. A tudo isso soma-se a “confusão
ças exibem vários tipos e graus de objetos, de línguas” tão famosa descrita por Ferenczi.
desde a bissexualidade até escolhas objetais Sempre se referindo a adultos não perversos,
nítidas ao final da primeira infância e latên- André coloca como inevitável, e em sua es-
cia. Que podem ser confirmadas ou refeitas magadora parte inconsciente, que a sexuali-
na adolescência ou no início da idade adulta. dade adulta do adulto seja percebida e trau-
Um modelo com vários momentos de fazer mática ao bebê ou criança pequena.
e refazer a escolha objetal facilita a com- Assim, ocorre uma inevitável e humana
preensão dos vários graus da bissexualidade combinação universal de narcisismo e trau-
proposta por Freud e pesquisada por Kinsey. ma na qual os genitais biológicos podem ser
Referendadas pela observação de que na investidos ou repudiados. As protuberân-
prática há desde crianças com uma escolha cias do corpo (Freud) e as bordas de todos
objetal precoce e bem definida e até muitos os orifícios (Lacan) podem ser investidas em
‘pequenos Hans’ que, segundo Freud, era o vários graus, ou não. Todas dependem de in-
“paradigma de todas as perversões”. Dessa vestimento narcísico e fantasias inconscien-
forma as escolhas objetais podem apresentar tes e conscientes da mãe e cuidadores, sendo
todas as combinações possíveis em relação à reforçada por manipulações genitais diretas.
identidade de gênero. Da mesma forma que Protuberâncias podem ser investidas ou não.
podem até mesmo se expressar de modo va- As bordas podem variar mais ainda. O sexo
riável ao longo da vida em pessoas cuja iden- genital torna-se um quarto item em todas as
tidade de gênero está em concordância com combinatórias possíveis com: a identidade
o sexo biológico, também podem ou não de gênero, a expressão de gênero e a escolha
mudar no caso de transexuais. objetal.
Em paralelo ao feminino primário e à
identificação feminina primária, existe um Conclusão
quarto item: o investimento narcísico e trau- Os mitos de Ceneu e Ífis tratam de uma
mático nos genitais. Apesar de os genitais questão bem delicada sobre transexualidade:
biologicamente serem passíveis de alto grau a do feminino em masculino. Quatro a sete
de sensibilidade no bebê, esta pode ser in- vezes mais rara que seu oposto. Observando
centivada ou recalcada tanto pela manipula- alguns casos, Stoller descreveu bebês do sexo
ção concreta quanto pelas fantasias incons- feminino para os quais uma mãe deprimida
cientes da mãe e outros cuidadores. era incapaz de fornecer uma identidade de
André (1996) escreveu muito sobre a gênero consonante ao sexo biológico de nas-
manipulação concreta de adultos não per- cimento. Autores posteriores, ou repetiram
versos, francamente ativa e necessária para essa hipótese, ou se calaram sobre o assunto.
limpeza e higiene de bebês e crianças peque- Seja qual for a validade da tese stolleriana,
nas. Cuidados exacerbados por muitos que uma explicação única sempre se mostra in-
cuidam de crianças, colocando-as em total suficiente para qualquer aspecto da natureza
posição de passividade, desde seios e mama- humana.
deiras que literalmente invadem o bebê até Ao mito de Ceneu podemos invocar as
cuidados de limpeza em que ele sofre de uma ideias de André. Para esse autor, seja por esti-
manipulação tão intensa que literalmente ele mulação genital, seja através do reto, é muito
é arrombado (tradução correta de effraction, pouco crível que um bebê do sexo feminino
termo muito usado por André). Passando de seis meses ou mais não tenha percepção

Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 47–72 | julho/2017 67


Transexualidades – psicanálise e mitologia grega

da estimulação vaginal. Contudo, a manipu- que seu apaixonamento é por um garoto. Só


lação corpórea excessiva, indo até ao arrom- quando a realidade externa se impõe, a cum-
bamento (effraction), provocaria trauma e plicidade familiar é obrigada a se submeter
fixação reativos na direção oposta: recusa ao social.
à penetração e passividade genital. Se fosse O declínio de mitos de divindades inter-
relato de um caso clínico, poderíamos in- sexuais ou femininas, e de sua redução à his-
terpretar que o segundo momento do im- tória do personagem Hermafrodito, ilustram
printing não foi de reforço ao feminino, mas bem a imposição do patriarcado. Do qual
em direção à mudança da identidade de gê- vários pensadores colocaram a obra Freud
nero masculina. A recusa de Cenis já adul- como sendo uma versão laica modernizada.
ta dos pretendentes, assim como a violação Mas o desenvolvimento kleiniano pode ser
por Poseidon, encaixou na neurose infantil visto como o pêndulo da balança virando
de tal modo que seu desejo explicitado ao em sentido oposto. Ainda mais por criar o
deus era de se tornar invulnerável em todos arcabouço para a observação e o estudo de
os sentidos. bebês e crianças na primeira infância. Várias
Ao mito de Ífis pode-se pensar nos casos teorias psicológicas, tal a psicologia analíti-
em que o desejo consciente ou inconsciente ca, abordaram a importância da integração
dos pais por um menino é forte ao ponto de de elementos femininos e masculinos para a
sobrepor-se ao sexo biológico. No filme fran- maturidade e realização em ambos os sexos.
cês Tomboy (Sciamma, 2011), a protagonis- Mas, por sempre refutarem a sexualidade
ta, biologicamente uma menina de dez anos, infantil descrita por Freud e seus derivados
apresenta uma identidade e uma expressão como a amnésia infantil e o recalque, perma-
de gênero claramente masculinas, além de neceram como teorias demais especulativas
moldar em massa de brinquedo um falo para e superficiais. A observação de transexuais
que possa vestir calção e nadar. Já na cena e o estudo de intersexuais permite que se
inicial em que o pai com o menino em seu compreenda a conjugação, ou não, de com-
colo, ensina a criança a dirigir o carro, pas- ponentes de ambos os sexos a partir de toda
sando depois por cenas em que o incentiva a herança teórico-clínica criada a partir dos
a beber cerveja ou jogar pôquer, fica cla- Três ensaios sobre a sexualidade.
ro o desejo manifesto por um primogênito Por último, o desafio que as transexuali-
homem. Ainda mais que a segunda filha é dades impuseram à psicanálise atingindo o
uma muito feminina garotinha de seis anos. núcleo edípico de seu paradigma, bem como
Associa-se uma linguagem de dúbios duplos o risco de reduzi-la à terapia de ego, tal como
sentidos, que revelam ao espectador o desejo descreveram Sigal e Birman, pode ser provi-
inconsciente do pai. E desde o início o es- soriamente respondido. A conceituação de
pectador sofre um estranhamento de como um terceiro momento após o ápice da identi-
tanto o pai quanto a mãe, grávida do terceiro ficação feminina primária constitui a entrada
filho, tomam como absolutamente normais no processo edípico freudiano. Momento em
as condutas da ‘filha’. São pais afetuosos, apa- que a identidade de gênero é confirmada ou
rentemente um bom casamento de pessoas ressignificada. Ao mesmo tempo que permi-
de classe média baixa, sem pruridos do ‘po- te o desenvolvimento de uma ideia tão rica
liticamente correto’. A Ífis contemporânea como a do imprinting de Stoller, despatolo-
conquista até as atenções de uma namora- giza identidades de gênero diversas do sexo
da. Nada indica um relacionamento lésbi- biológico e permite que a terapia psicanalíti-
co, mas um primeiro amor de um menino ca clássica seja postulada, quando obstáculos
pré-adolescente despertado por uma menina se interpõem ao desenvolvimento completo
um pouco mais velha, que não tem dúvida dessas identidades.

68 Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 47–72 | julho/2017


Anchyses Jobim Lopes

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70 Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 47–72 | julho/2017


Anchyses Jobim Lopes

Sobre o autor

Anchyses Jobim Lopes


Médico e bacharel em filosofia pela UFRJ.
Mestre em medicina (psiquiatria) e em filosofia pela
UFRJ.
Doutor em filosofia pela UFRJ.
Psicanalista e membro efetivo do Círculo Brasileiro
de Psicanálise - Seção Rio de Janeiro (CBP-RJ).
Professor do curso de formação psicanalítica do
Centro de Estudos Antonio Franco Ribeiro da Silva
do CBP-RJ.
Supervisor clínico do Centro de Atendimento
Psicanalítico (CAP) do CBP-RJ. Coordenador do
Grupo de Trabalho Sobre Neo e Transexualidades
(GTNTrans) do CBP-RJ.
Um dos editores da revista Estudos de Psicanálise,
do CBP.
Presidente do CBP-RJ 2000-2004, 2008-2012
e 2014-2018.
Presidente do Círculo Brasileiro de Psicanálise
(CBP), 2004-2006 e 2017-2019.
Ex-professor assistente do quadro principal do
Departamento de Psicologia da PUC-RJ e adjunto
da Faculdade de Educação da UCP.
Professor titular III dos cursos de graduação
em psicologia e de especialização em teoria
e clínica psicanalítica da UNESA.

Endereço para correspondência

E-mail: <anchyses@terra.com.br>
Página: <http://www.anchyses.pro.br>

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Transexualidades – psicanálise e mitologia grega

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Fernanda Ribeiro de Freitas

O rabisco como ofício


– a plasticidade na construção de uma clínica social
para analisandos transexuais
Scribble as a craft
– plasticity on building of a social clinic
for transexual analysands

Fernanda Ribeiro de Freitas

Resumo
Este é um relato acerca das atividades do Grupo de Trabalho sobre Neo e Transexualidades
(GTNTrans). São constatações da autora que não correspondem necessariamente às visões
do restante do grupo. Somos sete psicanalistas muito investidos tanto na teoria psicanalítica
quanto na prática clínica e acreditamos que a psicanálise pode ir muito além dos consultórios
e auxiliar cada vez mais indivíduos em sofrimento – independentemente da sua classe social
ou dos recursos físicos dos locais de atendimento. Não há respostas definitivas, pois ainda não
sabemos aonde queremos chegar. Apenas sabemos do nosso desejo de seguir em frente.

Palavras-chave: Transexualidade, Transferência, Contratransferência.

Introdução o nome da instituição na qual atendemos.


O Grupo de Trabalho de Neo e Transexuali- Também me refiro a todos os residentes no
dades (GTNTrans), em atividade desde ju- gênero masculino. Há poucos fragmentos de
lho de 2015, é composto por Anchyses Jobim caso não somente para proteger a identida-
Lopes (coordenador), Roberta de Oliveira de dos participantes, mas também porque o
Mendes, Rodrigo Zanon de Melo, Ana Paula objetivo aqui é relatar a experiência clínica
Perissé, Fernanda Ribeiro de Freitas, Fatima com todas as subversões à técnica clássica. O
Barcellos e Tania Stein Cynamon. O trabalho termo “reunião” substitui o que denomina-
não seria possível sem o holding e o espaço ríamos normalmente sessão.
transicional criados pelos integrantes e sem
uma coordenação tão acolhedora quanto A formação do grupo
corajosa. Há uma imensa vontade de traba- Tudo começou do interesse simultâneo pelo
lhar, aprender e cooperar. Nossa percepção tema por parte de alguns candidatos a psica-
das diferenças mútuas sem a contaminação nalista do CBP-RJ. Uma candidata nos apre-
de juízos de valor nos possibilita ouvir e ver- sentou o trabalho do trans-homem e ativista
balizar nossas impressões e, assim, crescer Buck Angel, e outra colega entrou em conta-
juntos. to com Problema de gênero, obra da filósofa
Em respeito à confiança que nos foi de- Judith Butler. Logo em seguida, o grupo, que
positada, não cito em nenhum momento ainda não estava formalmente constituído,

Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 73–82 | julho/2017 73


O rabisco como ofício – a plasticidade na construção de uma clínica social para analisandos transexuais

sugeriu o tema das transexualidades para nos deparamos com uma audiência em que
a jornada do CBP-RJ daquele ano, que foi a maioria se dividia entre visível incômodo e
prontamente aceito pelo presidente da nossa total perplexidade e desconhecimento sobre
sociedade. teorias psicanalíticas a esse respeito.
A necessidade de formalizar um grupo Continuamos com nossas reuniões sema-
de trabalho foi consequência da percepção nais, mas sabíamos que faltava algo. Nosso
de que o tema fazia aflorar conflitos prova- conhecimento sobre o indivíduo transexual
velmente muito arcaicos – não só em nós era indireto, pois vinha através de diferen-
mesmos como também naqueles com quem tes teóricos. Havia também os resultados
dividíamos a questão. Recordo-me de uma de nossas elaborações teóricas hipotéticas a
supervisão coletiva em que surgiu o assunto. partir de autores que não traziam o tema ex-
A partir daí até o final da reunião, não houve plicitamente.
mais nem supervisão, nem possibilidade de Mas, e o sujeito singular da clínica? Depois
sugestões para a jornada. O que se viu foi um de doze meses não houve demanda de indi-
enorme conflito entre discursos inflamados víduos transexuais nem em nossos consultó-
que impediam qualquer argumentação mais rios particulares, nem na clínica social ofere-
moderada. Ficou claro que, sem um espaço cida por nossa instituição. Com base nas re-
só nosso, não haveria pesquisa adequada, e a sistências de colegas de ofício relatadas, é fá-
produção de trabalhos para a jornada daque- cil supor a razão da falta de demanda clínica.
le ano estaria comprometida. Em agosto de 2016 fui apresentada a uma
Como tudo em nossa história até agora, instituição que abriga indivíduos da comu-
o GTNTrans é resultado de um desejo, mas nidade LGBTQI em situação de vulnerabili-
sem parâmetros preestabelecidos. Em re- dade. Propus que nosso grupo fizesse visitas
trospectiva, é muito interessante perceber semanais à instituição por aproximadamen-
as transformações. Primeiramente, abando- te dois meses para que as pessoas tomassem
namos o modelo professor-aluno por um conhecimento do que era psicanálise e, de-
formato extremamente democrático. Todos pois desse tempo, quem quisesse prosseguir
contribuíamos com referências bibliográfi- na experiência poderia escolher entre nós o
cas das mais diversas: além de Judith Butler, profissional de sua preferência. A partir de
tivemos contato com Donald D. Winnicott, então, a análise seria feita no consultório.
Robert Stoller, Joyce McDougall, Marcia No entanto, não considerei alguns fatores
Arán, Catherine Millot, Beatriz Preciado, fundamentais: primeiramente, o plano sur-
Jean Laplanche, entre outros. Foi um pe- giu exatamente no momento da minha con-
ríodo muito rico, de trocas teóricas impor- versa com a direção da casa. O encontro não
tantes. A formação do grupo também foi fora planejado, e não tive tempo hábil para
essencial para a solidificação da confiança e entrar em contato com meus colegas. Eu não
a admiração mútuas, preparando os partici- sabia se a proposta seria aceita pelo grupo de
pantes para os desafios que se apresentariam trabalho nem se seria factível. Tudo isso im-
posteriormente. As decisões sempre foram plicaria uma ampla flexibilidade em relação
tomadas de forma horizontal. ao enquadre psicanalítico. Felizmente o gru-
Além da elaboração de cinco trabalhos po de trabalho recebeu a novidade de braços
apresentados na jornada daquele ano, pro- abertos.
duzimos trabalhos para um congresso abor- Foi emocionante ver a disponibilidade
dando questões de gênero. Nesse evento per- de todos. Experimentei em mim e testemu-
cebemos que o incômodo com o tema não nhei em meus colegas o que Luís Claudio
era privilégio de nossa instituição. No con- Figueiredo (2003) denomina “transferência
gresso (em que gênero era um dos subtemas) primordial”: a aceitação do paciente em aná-

74 Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 73–82 | julho/2017


Fernanda Ribeiro de Freitas

lise, a disponibilidade para se tornar supor- com nossos fantasmas internos, nossas pre-
te da transferência – o que acontece sempre concepções – tanto sobre a vida cotidiana
que um analista aceita um novo analisando. quanto sobre a prática clínica. A extrema
Só que, nesse caso especificamente tanto precariedade do ambiente, refletida nos re-
paciente quanto setting, quanto enquadre sidentes, tornava a experiência bem mais de-
demandavam uma boa dose de criatividade safiadora.
e flexibilidade dos profissionais. Ouso di- Dito de outra forma, embora esteja mui-
zer que, para aceitar tamanho desafio sem to mais difundida na contemporaneidade,
criar empecilhos, ocorreu em todos nós uma a psicanálise continua sendo privilégio de
transferência ‘mais-que-primordial’. quem tem possibilidades financeiras. Mesmo
No primeiro encontro entre o grupo de que o advento da clínica social tenha apro-
trabalho e os residentes, alguns elementos ximado os profissionais das classes menos
se destacaram: a reiteração constante da di- favorecidas, essas pessoas ainda têm casa,
ferenciação entre o grupo e os indivíduos alguma fonte de renda e o mínimo de edu-
participantes. Ao mesmo tempo, a prefe- cação formal.
rência da maioria por encontros coletivos.1 No entanto, acreditamos que fatores como
A situação financeira extremamente precá- elaboração psíquica, o espaço de escuta e a
ria impossibilitaria atendimento em nossos ajuda ao indivíduo na descoberta do próprio
consultórios particulares embora não co- desejo não podem nem devem ser privilégio
brássemos as sessões. Soubemos que alguns de poucos. Mas como proceder, como ajudá
– poucos – já faziam atendimento psicoló- -los diante de tamanha carência de recursos
gico individual, mas eram encontros men- – não só deles. Nós também não encontra-
sais que dependiam de sua disponibilidade mos suporte teórico-clínico que desse conta
financeira para locomoção, por isso muitas da demanda que se nos apresentava.
vezes não aconteciam. Também ficaram per-
ceptíveis as questões concernentes ao uso de As reuniões
drogas. Uma parcela do grupo é constituída Marion Minerbo (2012) citando a tese de
por analfabetos funcionais. doutorado de Eliana Borges Pereira Leite
Talvez pela curiosidade, o primeiro con- (2005) A escuta e o corpo do analista, faz uma
tato contou com a participação da maioria analogia entre os ofícios do ator e do analis-
dos residentes e foi repleto de acolhimento. ta. Enquanto o primeiro busca elementos
Nós pudemos explicar que nossa proposta em sua memória emocional para dar corpo
era apenas ouvir, sem juízos de valor, sem e vida ao personagem criado pelo autor, o
impressões preestabelecidas. Falando, eles segundo tem sua memória, sua imaginação
poderiam ouvir as próprias palavras e, con- e seus pensamentos inconscientes afetados
sequentemente, organizar o pensamento, pela fala do analisando.
nomear seus sentimentos e conter a agres- No entanto, quando esses elementos nos
sividade. Ali decidimos em conjunto que as remetem a vivências arcaicas e nos fazem
reuniões aconteceriam uma vez por semana lidar com nossas próprias experiências in-
e durariam 90 minutos com adesão faculta- conscientes de abandono, tudo fica um pou-
tiva. co mais complicado. Mas, como dito ante-
Quanto aos profissionais, em maior ou riormente, todo o processo vem sendo cos-
menor proporção, todos tivemos que lidar turado de forma intuitiva, e a elaboração é
sempre a posteriori.
De nosso segundo encontro com os re-
1. Creio que atualmente preferência por encontros coletivos
no primeiro momento era também a expressão de uma sidentes tenho duas impressões marcantes.
certa defesa dos indivíduos diante do desconhecido. Primeiro, há naquele grupo uma percepção

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O rabisco como ofício – a plasticidade na construção de uma clínica social para analisandos transexuais

de gradação em termos de sofrimento direta- Quando nos reconheciam, e estavam


mente ligada à identidade de gênero de quem acordados, muitas vezes resistiam a parti-
o expressa. Melhor dizendo, sempre que um cipar. Cruzavam a sala sem contato visual,
homossexual cisgênero fala de suas dificul- saíam da casa justificando um compromis-
dades psíquicas ou cotidianas, é seguido do so inadiável ou ficavam um pouco conosco,
seguinte comentário: “Se, para você, que é mas iam embora logo em seguida.
cisgênero, é difícil, imagine como é para os Entendemos esse processo como análogo
transexuais”. Apesar de racionalmente fazer ao que experimentamos no consultório: para
sentido, imagino que apenas num ambiente nos aceitar de verdade, eles precisavam estar
que acolha transexuais em sua maioria seja seguros de que não os abandonaríamos, que
possível a expressão aberta dessa opinião. A não poderiam destruir o objeto bom – ex-
segunda impressão marcante é que, na maio- periência recorrente ao longo de suas vidas.
ria dos discursos, o afeto está diretamente as- Além disso, havia a desconfiança pelo fato de
sociado à compensação financeira. Você vale não pedirmos nada em troca. Não cobramos
o quanto custa – literalmente. pelo nosso tempo, não exigimos sua atenção –
Reproduzo a seguir o trecho de um diálo- apenas estamos disponíveis. Tudo muito novo
go que ilustra essa afirmação, que ocorreu no para indivíduos que sempre tiveram que ofe-
nosso segundo encontro, mas com frequên- recer em troca muito além do que recebiam.
cia se repete na fala dos residentes de alguma Conforme fomos sendo aceitos na casa,
maneira. outro tipo de resistência se apresentou: algu-
mas vezes eles se recusavam a participar por-
Residente: Se eu pudesse, criava uma lei proi- que estavam entorpecidos – seja por álcool,
bindo quem não tem condição financeira de seja por drogas. Quando o assunto pôde ser
ter filhos. As crianças querem lápis de cor, abordado pelo grupo, percebemos o desper-
celular e, se são pobres, não têm nada disso. tar de uma transferência positiva, visto que
Eu sempre quis uma caixa de lápis de cor da eles se sentiam constrangidos de nos receber
Faber Castell. Era caro. Minha mãe não tinha nesse estado.
dinheiro pra comprar. Deixamos claro que não faria a menor
Analista: Quando ouço celular, lápis de cor, diferença. Nós os aceitávamos como eram
eu ouço afeto. Mesmo que não seja da mar- em toda a sua subjetividade. Se não qui-
ca que a criança quer, se ela ganha o objeto sessem participar, não haveria problema,
que pediu, se sente amada. Um adulto prestou mas não estar absolutamente sóbrios não
atenção nela. Eu ouço pedido de carinho no era condição sine qua non para sua adesão.
que você fala. Você teve algum adulto impor- Posteriormente tivemos algumas experiên-
tante na sua infância? cias de escuta de indivíduos entorpecidos.
Residente: Uma vez eu ganhei da professora Seus traumas são tão intensos, que muitas
da escola uma caixa de canetinha de glitter. de suas falas mais marcantes só se tornaram
possíveis nesse estado.
Atribuímos essa forma de encarar as re- Havia também – e há até hoje, apenas com
lações afetivas ao fato de muitos deles tra- menos frequência – aqueles que praticam o
balharem na prostituição desde cedo. Sendo que denominamos em tom de brincadeira
assim, acabam reconhecendo seu valor de “sonoterapia”: esses indivíduos permanecem
forma bastante concreta. dormindo no mesmo cômodo em que são
Nos primeiros meses, não era raro chegar- realizadas as reuniões. Apesar do barulho ao
mos a casa e todos ainda estarem dormindo seu redor, aparentemente não despertam.
ou não se lembrarem de onde éramos: De al- Vemos algumas possíveis justificativas
guma igreja? Partido político? Sindicato? para esse comportamento (levando em conta

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Fernanda Ribeiro de Freitas

que certamente há mais opções): a primeira é neuroses clássicas. Com poucas exceções,
o sono velado. Lembrando que muitos deles eles parecem ter tido um ambiente suficien-
são egressos das ruas, nossas vozes e nossa temente bom no começo da vida. No entan-
presença trazem a segurança de um envelope to, dificuldades inimagináveis e total desam-
sonoro (Anzieu, 2016). paro, obviamente deixam suas marcas. Esses
Outra possibilidade é usarem o sono indivíduos são invisíveis. São os últimos
como ferramenta de investigação do nosso numa escala de valor social.
trabalho até que se sintam confortáveis para
no futuro participar ativamente das reuniões. Transferência
Outros já confessaram que nossa presença e contratransferência
lhes transmite segurança. Mesmo que este- Cada encontro é diferente e único – como
jam dormindo em outro cômodo, ter certeza qualquer sessão psicanalítica. Mas às vezes
de que estamos na casa lhes dá a sensação de o enquadre é bastante heterodoxo. Essas ex-
acolhimento. periências são muito ricas em termos da es-
Nas falas, como ocorre em qualquer ses- cuta e da prática clínica. Por exemplo, certa
são no consultório, aparecem sonhos, memó- vez um residente teve três psicanalistas à sua
rias e impressões diversas. Em comum entre disposição ao mesmo tempo. O indivíduo
os residentes há um histórico de abandono, dispôs de mais de uma hora de nossa escuta,
idealização materna e um sentimento precá- e foi interessante observar posteriormente o
rio de self, no sentido winnicottiano do termo. impacto de sua fala em cada um de nós.
Em nossos encontros não aparece o dis- O primeiro profissional expressou angús-
curso estereotipado do transexual difundido tia na possibilidade de ter um analisando em
pelo senso comum. Há indivíduos mais ou sua prática tradicional com um núcleo psicó-
menos integrados psiquicamente, que so- tico tão evidente. O segundo ouviu um dis-
frem, sentem e, em sua maioria, ainda não curso de alegria e sonhos românticos, e o ter-
entraram em contato com o próprio desejo. ceiro ouviu um relato de profunda tristeza.
Atribuo a fala mais honesta e subjetivada Interpreto as diferentes escutas como re-
ao fato de perceberem nossa disponibilida- sultado das diferentes relações estabelecidas
de para a escuta. Um deles já expressou que entre cada profissional e o mesmo residente.
em nossa presença – diferentemente do que E me pergunto se o mesmo não ocorre na
ocorre em outras interações sociais com pes- escuta analítica tradicional, em que apenas
soas de fora de seu universo – não se sente uma escuta valida o discurso. Além disso, a
como um animal no zoológico, onde os visi- fala do residente pode mesmo conter os três
tantes o observam a distância e não se preo- elementos simultaneamente: traços psicóti-
cupam efetivamente com seu bem-estar. cos, romantismo e tristeza, percebidos por
Ainda não identificamos em nenhum dos cada um de nós a partir de nossas vivências,
participantes a psicose de Schreber, descrita nossas fantasias e nossos suportes teóricos.
por Freud. Há aqueles que gostariam da ci- Vale lembrar que na contratransferência o
rurgia de redesignação genital, há outros que analista não se apresenta como tábula rasa.
preferem manter a genitália de nascimento Ele se despe de conceitos preconcebidos e
porque ela é fonte de prazer. Há também aque- juízos de valor e empresta sua subjetividade,
les que rejeitam a própria genitália, mas não sua imaginação e suas fantasias. Emprestar
têm muita clareza do que fazer a esse respeito. a subjetividade não é o mesmo que descar-
Mas, até agora, todos os participantes verba- tá-la.
lizam consciência de sua anatomia original. Marion Minerbo, comentando Marilia
Quanto à organização psíquica, em sua Aisenstein (2011), observa que o prefixo
maioria, encontramos patologias fora das “contra” em alemão significa tanto “oposi-

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O rabisco como ofício – a plasticidade na construção de uma clínica social para analisandos transexuais

ção” quanto “próximo” (“eu me apoio contra Os discursos explicitamente tristes, por ve-
a parede”). A autora argumenta que o termo zes grotescos, foram acompanhados – em am-
“contratransferência” seria mais bem tradu- bientes diferentes da casa – por um odor pú-
zido como “cotransferência”. Fazendo uso do trido. O envelope olfativo (Anzieu, 2016) que
“se apoiar contra a parede”, os conceitos de acompanhava os discursos trágicos nos reme-
oposição e sustentação pela proximidade fí- teu às nossas próprias posições arcaicas. Foi di-
sica são simultâneos. fícil metabolizar a experiência. Nessa reunião
A autora elabora da seguinte maneira: o ambiente na instituição estava particular-
mente tenso, com a iminência do encerramen-
Se não houvesse parede, eu não poderia me to das atividades e a consequente volta dos re-
apoiar contra ela – se não houvesse contra- sidentes às ruas. Felizmente isso não ocorreu.
transferência, a transferência não teria onde Outra experiência tão desafiadora quanto
se apoiar e não poderia se desenvolver; é nes- dolorosa foi a morte de uma das residentes.
se sentido que entendo que o analista tem de Foi num domingo, no sofá da própria casa,
‘assumir a paternidade e a responsabilidade’ na presença de vários deles. Fomos avisa-
pela transferência (Minerbo, 2012, p. 47, as- dos imediatamente, e era uma das primeiras
pas da autora). pessoas que conhecemos na casa. Nós sabía-
mos de suas dificuldades e vínhamos perce-
E conclui que: bendo seu lento e constante movimento de
aproximação conosco. Enquanto na clínica
O termo contratransferência tem um sentido particular lidamos com a morte de parentes
bem mais complexo do que simplesmente de e amigos do analisando a partir de sua reali-
reação emocional à transferência (no sentido dade psíquica, ali tivemos que lidar com vá-
de ação e reação) (Minerbo, 2012, p. 47). rios lutos, tanto deles quanto nossos – como
grupo e individualmente.
Algumas de nossas reações contratransfe- Além disso, desde que comecei as ativi-
renciais vivenciadas até aqui dão uma ideia dades nessa instituição, senti algo se trans-
da plasticidade da técnica nessa experiência. formar na minha clínica particular. Percebi
Em virtude da situação precária da institui- uma calma maior para lidar com o sofrimen-
ção, uma das integrantes do grupo de traba- to psíquico de meus analisandos. Mas essa
lho teve a iniciativa de arrecadar fundos para escuta mais tranquila não é menos implica-
comprar mantimentos e material de limpeza da. Com o tempo me dei conta de que minha
para a casa. Nós já levamos bombons de pre- escuta vem se tornando, na verdade, cada vez
sente de Natal, já assamos uma torta salga- menos onipotente.
da e um bolo, já compramos medicamentos Teoricamente é fácil dizer que na contra-
numa emergência e, numa sessão especifi- transferência devemos controlar o ímpeto de
camente, nos foi solicitada ajuda financeira ajudar, sugerir soluções para os problemas
para necessidades individuais e não para a dos analisandos, mas antes dessa experiência
instituição como um todo. eu confesso que tinha que estar particular-
Considero que essa mesma reunião tenha mente alerta nesse sentido. Falas tão caren-
sido a mais difícil até o momento. Além da tes, muitas vezes pouco integradas, me pos-
questão do dinheiro, foi uma das primeiras sibilitaram a introjeção do poder da escuta,
em que houve demanda explícita de escuta do poder do espaço de fala. Cada analisando
individual. Posteriormente nos demos conta vai seguir seu caminho, no seu tempo, no seu
de que as impressões foram similares: todos ritmo. Meu trabalho é estar por perto para
nós sentimos um desconforto intenso, pro- ouvir e pontuar o que for necessário. Mas,
fundo nas falas dos residentes. acima de tudo, ouvir.

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Fernanda Ribeiro de Freitas

O parágrafo anterior parece um parado- é raro que ao final de um encontro alguém


xo diante do relato sobre nossas contribui- confesse que pôde verbalizar determinado
ções concretas à casa. Uma psicanalista do fato de sua vida pela primeira vez.
nosso grupo definiu muito bem o impacto Além disso, pudemos observar algumas
desse tipo de ajuda: eles recebem esse tipo de mudanças na rotina da instituição, que in-
auxílio como a terra seca do sertão recebe a terpretamos como maior integração psíqui-
primeira chuva. Sua situação é tão absoluta- ca. Há a preocupação de que o espaço esteja
mente precária, que os mantimentos, os re- minimamente limpo para nos receber. E o
médios ou a contribuição para o almoço do almoço ocorre muitas vezes entre meio-dia
dia não são objetivamente percebidos; são e meio-dia e meia, no final da nossa reunião,
imediatamente absorvidos. Ou seja, enten- coisa que não ocorria meses atrás.
demos que nesse quadro, nossas contribui-
ções efetivas sanam demandas da ordem da O enquadre
necessidade – tanto quanto o seio satisfaz a Depois desse relato, o leitor pode se pergun-
fome do bebê na sua fantasia de onipotência. tar se o que fazemos é psicanálise. Quanto ao
Na perspectiva da transferência, a expe- setting, vamos até o analisando. É verdade,
riência tem sido ainda mais rica. Há quem mas indivíduos tão arredios em decorrência
trabalhe a madrugada inteira e, apesar do de uma sucessão de traumas não concorda-
cansaço, permaneça acordado para a re- riam em experimentar a psicanálise – pelo
união. Há quem nos proteja de residentes menos inicialmente – num consultório tra-
que saem do enquadre e tentam seduzir um dicional mesmo que fossem pagos para isso.
dos profissionais. Eles percebem e pontuam Além da questão financeira, muitos deles
quando algum de nós não comparece à reu- não suportam o preconceito explícito que
nião e demonstram alívio e alegria quando sofrem em ambientes predominantemente
retornamos. cisgênero.
Assim como já perceberam que não pe- Um dos residentes já expressou que fica
dimos nada pelo seu tempo, alguns fazem na janela observando a vida, aqui compreen-
questão de verbalizar que também não que- dida como a rotina normal de pessoas que
rem nada além de nós mesmos. Não pude circulam livremente pelos espaços públicos
comparecer às reuniões por algumas sema- sem serem notadas ou estigmatizadas. Para
nas seguidas e, pouco antes disso, havia pro- indivíduos tão marginalizados, a análise fora
metido levar um bolo. Os dois eventos não do seu ambiente pode ativar fantasias de rela-
tinham nenhuma relação, mas recebi um re- ção de poder em que o analista é muito mais
cado: eu poderia voltar, mesmo sem o bolo. que o suposto saber; ele é quase um tirano.
Percebendo que não seríamos destruídos Dito isso, minha aposta é que no futuro
facilmente, atualmente as falas comparecem muitos deles desejem e consigam frequentar
cada vez mais continuadas, possibilitando nossos consultórios normalmente. O analista
uma escuta mais ordenada. Também tem se não pode desejar pelo analisando, mas pode
apresentado uma demanda crescente de escu- torcer e ajudá-lo a encontrar as ferramentas
tas individuais. Eles deixam claras suas prefe- adequadas para que ele chegue aonde quiser.
rências por determinado profissional: “Ela é Um segundo questionamento: a troca fi-
tão atenta. Realmente escuta o que a gente diz”. nanceira é essencial para a relação analítica.
Essa mudança também nos impõe um É verdade. Mas numa situação tão precária,
novo desafio: se um residente percebe que o talvez a maior demonstração possível de
profissional de sua preferência está ocupado comprometimento seja a presença do indi-
com outro indivíduo, é comum que nem par- víduo nos encontros. Além do mais, para
ticipe da reunião daquele dia. Também não alguém tão acostumado a relações em que

Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 73–82 | julho/2017 79


O rabisco como ofício – a plasticidade na construção de uma clínica social para analisandos transexuais

o dinheiro é peça central, se relacionar e se biente suficientemente bom no começo da


comprometer sem pagar pode efetuar mu- vida, mas esse ambiente foi se perdendo ou
danças de paradigma: no lugar de valer o degradando ao longo do tempo. A partir da
quanto custam, relações podem passar a va- puberdade, na impossibilidade de mascarar
ler o quanto são realmente. sua verdadeira identidade de gênero, foram
Também se pode argumentar que, sem desvalorizados, expulsos de casa e excluídos
o enquadre tradicional, não é possível a re- dos ambientes sociais. Desde então, vivem a
lação transferencial. Se admitirmos que há maior parte do tempo em guetos.
transferência na vida cotidiana com diferen- Acredito que oferecemos a escuta a par-
tes figuras de poder e também com pares, tir de um universo bastante desconhecido de
por que duvidar dessa possibilidade no en- quem fala. E esse choque cultural e socioeco-
quadre aqui descrito? nômico propicia a abertura de novas possi-
A transferência não aparece em todos os bilidades tanto subjetivas quanto concretas.
residentes, e o mesmo ocorre na clínica tra- Utilizar o analista como um espelho pode
dicional. Alguns fazem transferência com operar mudanças bastante significativas.
determinado analista, outros claramente Como argumentei anteriormente, acredito
transferem para o grupo de profissionais que o impacto vá muito além disso, mas se
como um todo. Não pode haver gradação esse fosse o único efeito do nosso trabalho
nem juízo de valor quanto ao que nos é ofe- com esses indivíduos, eu já ficaria satisfeita.
recido em termos transferenciais. Nem no
setting tradicional, nem num trabalho tão he- O apoio mútuo
terodoxo como este. O que importa é como Com tantos desafios, obviamente precisamos
nós, profissionais, administramos a nossa de intenso apoio. Nossa rotina às quartas-
contratransferência. Quanto a isso, acredito feiras consiste em reunião na instituição, al-
ter exposto o processo de forma clara nos pa- moço com nosso coordenador e supervisão
rágrafos anteriores. coletiva na sede do CBP-RJ. O coordenador
E seriam possíveis a elaboração, a associa- frequentou as reuniões durante os primeiros
ção livre e a descoberta do desejo na análise meses, mas atualmente ele e duas outras in-
com indivíduos semianalfabetos? O processo tegrantes não vão às reuniões regularmente,
analítico é a descoberta do desejo e da verda- e o grupo está completo no horário da super-
de de cada um. Ou seriam traumas, instân- visão coletiva.
cias e envelopes psíquicos apenas resultado Esse formato tem seu valor porque, quan-
da alfabetização? do quem não frequenta a instituição nos
Eduardo Rozenthal defende que, se há lin- escuta, não está contaminado pela contra-
guagem, há possibilidade de psicanálise – até transferência. Eles estão prontos para nos
mesmo com pacientes psicóticos.2 Partindo receber e nos ajudar a elaborar a experiência.
dessa premissa, não há dúvidas de que seja Nossa gestão horizontal implica não obrigar
possível o encontro com o desejo e a subje- ninguém a nada. Todos se esforçam na mes-
tividade de cada um, independentemente da ma medida oferecendo o que podem em de-
educação formal. terminado momento. Fora isso, temos uma
Certa vez fui questionada quanto ao relação pessoal muito próxima, o que possi-
que realmente contribuímos num grupo bilita buscar ajuda e trocar ideias a todo tem-
tão precário. Percebemos em suas falas que po. Aliás, isso não é só uma possibilidade – é
muitos até receberam cuidados de um am- o que de fato acontece. E, obviamente, todos
nós estamos em análise pessoal.
Acima de tudo, o que garante a perma-
2. Fala em palestra proferida no CBP-RJ, em 2014. nência desse trabalho é o fato de compare-

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cermos às reuniões em grupo. Tanto pelo partir de notícias de jornal e internet. Infeliz-
efeito de acolhimento e até de alegria que a mente são raríssimas as informações enviadas
nossa presença assim opera na casa, quanto pelas mais de trezentas ONGs LGBT brasilei-
pelo apoio mútuo de alguém que vive a mes- ras. A realidade deve certamente ultrapassar
ma experiência e entende o que isso repre- em muito tais estimativas, sobretudo nos últi-
senta. O grupo de trabalho opera num movi- mos anos, quando policiais e delegados cada
mento de transferência e contratransferência vez mais, sem provas e sem base teórica, des-
mútuas. É uma experiência tão gratificante cartam preconceituosamente a presença de
quanto impactante. Nesse caso, nenhuma homofobia em muitos desses “homocídios”
análise, nenhuma supervisão é tão impor- GGB, 2014, p. 2).
tante nesse momento quanto o apoio dos
pares. A Associação Nacional de Travestis e
Transexuais (ANTRA) recentemente publi-
Conclusão cou que até 16/06/2017 foram registrados 73
Estatísticas indicam que somos o país que assassinatos de pessoas trans. No entanto, a
mais mata transexuais no mundo. A forma- ONG admite que esses dados são baseados
lização da identidade de gênero transexual é em fatos noticiados pela imprensa.
um processo caro e demorado. Muitos des- Também já li que mais de 90% dos
ses indivíduos permanecem com seu nome transexuais trabalham na prostituição.
de batismo. Outros, por terem sido expulsos Pessoalmente, não confio nesses dados.
muito cedo de casa ou terem vivido nas ruas, Primeiramente, não temos informação sobre
nem possuem documentação. Aqui falamos o nível socioeconômico dos entrevistados
de indigentes. Sendo assim, imagino que a nem onde foram feitas as pesquisas: em suas
violência contra os transexuais seja ainda residências? Em casas noturnas? Em univer-
maior do que nos mostram dados oficiais. sidades? No comércio? Em quantos estados
Por exemplo, uma das pesquisas mais recen- do país? Ou teriam se restringido apenas aos
tes sobre o assunto é relativa a 2014: locais de prostituição? Por outro lado, consi-
derando os relatos do grupo – limitado tanto
O Brasil continua sendo o campeão mundial em quantidade quanto em espectro socioe-
de crimes motivados pela homo/transfobia: conômico – de pessoas que atendemos, a
segundo agências internacionais, 50% dos as- prostituição aparece inicialmente como uma
sassinatos de transexuais no ano passado fo- oportunidade de exercício da feminilidade.
ram cometidos em nosso país. Dos 326 mor- Posteriormente, para algumas delas – não
tos, 163 eram gays, 134 travestis, 14 lésbicas, 3 todas – pode representar uma posição social
bissexuais e 7 amantes de travestis (T-lovers). degradante.
Foram igualmente assassinados 7 heterosse- Este artigo não pretende generalizar as
xuais, por terem sido confundidos com gays vivências transexuais, apenas descreve expe-
ou por estarem em circunstâncias ou espaços riências com um grupo limitado e específico.
homoeróticos (GGB, 2014, p. 1). Nem todos os transexuais fazem uso de dro-
gas. Nem todos os transexuais foram aban-
O mesmo relatório do Grupo Gay da donados pela família. Nem todos os transe-
Bahia admite: xuais trabalham na prostituição.
A intenção é discorrer sobre a plasticida-
A subnotificação destes crimes é notória, indi- de da experiência clínica com analisandos
cando que tais números representam apenas transexuais atendidos em nossa clínica so-
a ponta de um iceberg de violência e sangue, cial. É um relato sobre afeto – transferência e
já que nosso banco de dados é construído a contratransferência, se preferir.

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O rabisco como ofício – a plasticidade na construção de uma clínica social para analisandos transexuais

A meu ver, o ofício da psicanálise se apre- Abstract


senta como uma construção afetiva, de sentir The following pages describe the activities of
com, que tem como suporte construções teó- GTNTrans, a work group about neo and tran-
ricas. É uma relação entre humanos, portan- sexualities. They reflect the author’s view and
to há que cuidar para que o analisando não at times may not speak on behalf of the rest of
seja encaixado deliberadamente na teoria. the team. We are seven psychoanalysts highly
A omissão de aportes teóricos especí- invested in psychoanalytic theory as much as in
ficos sobre a transexualidade tem uma ra- clinical practice who believe in the social possi-
zão: Desde que comecei o trabalho clínico bilities of Psychoanalysis, way beyond the tradi-
com esses indivíduos, não consigo associar tional setting. There are no definitive answers,
a experiência a nenhuma das teorias sobre as we still don’t know where we are heading. We
transexualidade que conheço. Vejo ali indi- are only sure of our will to carry on.
víduos em sofrimento psíquico que se bene-
ficiam desse espaço de escuta. Cada um na Keywords: Transexuality, Transference,
sua singularidade, cada um com suas marcas Counter-transference.
traumáticas bem particulares. A transexuali-
dade é apenas mais um elemento de cada um Referências
deles. Em termos psíquicos, sua identidade
de gênero não os define, não é o principal.
ANZIEU, D. The wrapping of sound e The olfactory
Talvez seja apenas resistência minha; talvez wrapping. The skin-ego. London: Karnac, (2016).
daqui a algum tempo eu perceba que estou
equivocada. Não tem problema. Ainda bem FIGUEIREDO, L. C. Elementos para a clínica contem-
que neste momento podemos contar com as porânea. São Paulo: Escuta, 2003.
brilhantes elaborações teóricas de Rodrigo
MINERBO, M. Transferência e contratransferência.
Zanon e Anchyses Lopes em nosso grupo de São Paulo: Casa do Psicólogo, 2012.
trabalho.
Minha sensação é que estamos cons- ROCHA, P. S. (Org.). Cata-ventos. invenções na clínica
truindo um grande e infinito jogo do rabisco psicanalítica institucional. São Paulo: Escuta, 2006.
(Winnicott, 1994). Psicanalistas e residen-
WINNICOTT. D. W. Psychoanalytic explorations.
tes. Rabiscando juntos. Cada risco é comple- London: Karnac, 1989. Disponível em: <http://do-
tado por outra pessoa. E, quando o papel fica cplayer.com.br/16308600-Assassinato-de-homosse-
pequeno demais, colamos mais uma folha. xuais-lgbt-no-brasil-relatorio-2014.html/>. Acesso
Assim, nenhuma palavra, nenhuma inten- em: 24 jun. 2016.
ção, nenhuma sugestão ou nenhum sinal são
Recebido em: 10/04/2017
esquecidos. Aprovado em: 18/05/2017
A posteriori vamos perceber aonde isso
tudo nos levou. Agora só não podemos parar Sobre a autora
de rabiscar.
Fernanda Ribeiro de Freitas
Licenciada em Letras: Português/Francês pela UERJ.
Psicanalista.
Membro efetivo do Círculo Brasileiro
de Psicanálise – Seção Rio de Janeiro (CBP-RJ).
Participante do Grupo de Trabalho sobre Neo e
Transexualidades (GTNTrans) do CBP-RJ.

Endereço para correspondência

E-mail: <fernandafreitas.psi@gmail.com>

82 Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 73–82 | julho/2017


Paulo Roberto Ceccarelli

Transexualidades e mudanças discursivas


Transexualities and discursive changes

Paulo Roberto Ceccarelli

Resumo
O texto traz reflexões sobre as consequências das mudanças discursivas das últimas décadas
para a compreensão das sexualidades. A partir do momento em que o discurso hegemônico
sobre as relações entre sexo, gênero, desejo e prática sexual começaram a ser reavaliados, as
expressões da sexualidade que, até então, eram consideradas patológicas receberam outra es-
cuta. O texto centra-se nas transexualidades e nos movimentos recentes de despatologização
das identidades trans. Para o autor, quando os psicanalistas começaram a ouvir as dinâmicas
pulsionais e os movimentos identificatórios que subjazem às identidades trans, sem teorizá-las
como um desvio, as transexualidades passaram a ser entendidas como mais uma manifestação
da sexualidade.

Palavras-chaves: Transexualidades, Pulsão, Mudanças discursivas.

Há trabalho suficiente para se fazer nos próximos cem anos,


nos quais nossa civilização terá de aprender a conviver
com as reivindicações de nossa sexualidade.
Freud, [1898] 1969, p. 305.

Introdução com as representações e os papéis sociais do


Quando estamos diante de um sujeito que sexo, homem/mulher; finalmente, a sexuali-
se diz homem ou mulher, trabalhamos com dade indica a ‘orientação sexual’, sendo a he-
definições e classificações, cujas bases rara- terossexualidade considerada a ‘normal’, pois
mente questionamos. Essas bases, entretan- em ressonância com preservação da espécie.
to, são abaladas quando o sujeito que está Por parecerem óbvios, tais posicionamen-
diante de nós diz ser mulher, embora, anato- tos são aceitos como evidências em si, e uma
micamente, seja um homem (ou vice-versa). parte significativa da produção acadêmico-
Muitas vezes, tomados por um sentimento científica se apoia neles, sem levar em conta
de estranheza (Unheimlich), indagamos so- a construção histórica que os sustenta e sua
bre a “saúde psíquica” do sujeito em questão. função ideológica: há séculos, o discurso do-
Na cultura ocidental, sexo, gênero e se- minante vem determinando as sexualidades
xualidade são, na maioria dos contextos, lícitas e as proibidas, as relações entre homens
tratados como características ‘naturais’ dos e mulheres e como suas sexualidades devem
indivíduos e de seus corpos: os genitais de- ser, seus lugares no tecido social, o que in-
finiam o sexo em sua perspectiva biológica, clui as hierarquias de poder e as relações de
macho/fêmea; o gênero está relacionado trabalho (Foucault, 1984, 1985a, 1985b).

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Transexualidades e mudanças discursivas

Ao mesmo tempo, se pesquisarmos sobre gonizada pelas escolhas de objetos, as quais


a “história das práticas sexuais” (Gregersen, são tributárias das vicissitudes do sexual.
1983) descortinamos um cenário curioso: o Seus elementos constitutivos começam bem
quanto essa história é repetitiva, para não di- antes do nascimento da criança, no lugar que
zer monótona. Em todas as culturas encon- ela ocupa no narcisismo daqueles/as que lhe
tramos as mesmas manifestações da sexua- deram um “berço psíquico” (Ceccarelli,
lidade, que subjazem às chamadas ‘identida- 2002).
des sexuais’. Por conseguinte, a sexualidade adulta,
O que a cultura ocidental, com a sua ten- marcada pela polimorfia do sexual infantil,
dência a patologizar as subjetividades que dentro das singularidades que lhe são pró-
fogem aos padrões socialmente construídos, prias, é construída desde os primeiros dias
denomina de ‘desvios’ – perversões; traves- de vida, constituindo o núcleo mais profun-
tismos; transexualidades; bissexualidades; e do de cada um:
até a algumas décadas atrás as homossexuali-
dades – está presente desde sempre em todos [...] há sem dúvida algo inato na base das per-
os grupamentos humanos e em algumas ou- versões, mas esse algo é inato em todos os
tras espécies animais, recebendo explicações seres humanos (Freud, [1905] 1976, p. 174).
e destinos de acordo com a visão da sexuali-
dade da cultura em questão. Entre os elementos presentes nos proces-
Todas as culturas são interpeladas pelo sos de subjetivação estão, além dos aspectos
enigma do sexual e criam dispositivos para intrapsíquicos, os ideais culturais nos quais
lidar com as demandas pulsionais: são os dis- o bebê se encontra inserido quando do seu
cursos sobre a sexualidade. Eles representam nascimento e que outrora pertenciam ao
artefatos culturais tributários do momento mundo exterior (Freud, [1914] 1974). Faz
sócio-histórico no qual emergem. parte desses ideais aquilo que o imaginário
Na cultura ocidental, o ‘saber’ sobre a se- social define como masculino e feminino, ou
xualidade construído pela ordem religiosa, seja, os de atributos de gênero.
jurídica ou médica, esteve sempre atrelado Nascemos ‘sexualmente indiferenciados’,
aos interesses do Estado e às classes domi- pois,
nantes. Esse ‘saber’ determina os desejos e as
práticas sexuais ‘normais’ e as ‘patológicas’, [...] no psiquismo, não há nada pelo que o
além de oferecer ‘cura’ às últimas. Com isso, sujeito possa situar-se como ser de macho ou
criaram-se dispositivos que ditam as regras ser de fêmea. [...] O que se deve fazer, como
referentes ao uso da libido e aos prazeres do homem ou mulher, o ser humano terá sempre
corpo (Ceccarelli; Salles, 2011). que aprender, peça por peça, do Outro (La-
can, [1964] 1985, p. 194).
O sexual e a sexualidade
As ‘manifestações da sexualidade’, isto é, os Nessa perspectiva, é possível que, devido
destinos do sexual, ganharam uma nova às variáveis presentes na construção de psi-
compreensão com os aportes freudianos. O cossexualidade, sexo e gênero não se sobre-
sexual, polimorfo e perverso, é o recalcado; ponham.
o inconsciente que se manifesta em suas pro- Nas últimas décadas, os estudos de gêne-
duções (Ceccarelli, 2016). ro, as teorias queer e as teorias críticas têm
Com Freud aprendemos que a maneira produzido uma desconstrução do sistema
como o indivíduo vivencia a sua sexualidade, hegemônico sexo/gênero, denunciando a
é o resultado de um percurso identificatório ideologia que o sustenta, ao mostrar que não
tendo por enredo a dinâmica edípica prota- existem “[...] relações de coerência e conti-

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Paulo Roberto Ceccarelli

nuidade entre sexo, gênero, prática sexual e Outro caminho, indicado ao longo da
desejo” (Butler, 2003, p. 38). obra de Freud, sugere que masculinidade e
O sexual tem recebido novas leituras, feminilidade ‘são pontos de chegada e não de
sugerindo que as possibilidades de subjeti- partida’. E mais ainda: o ponto de chegada é
vação são inúmeras e levando a uma reava- sempre uma construção tributária da parti-
liação dos discursos seculares relativos aos cularidade dos processos identificatórios e
atributos sociais de gênero (Bertini, 2009; do lugar que o recém-nascido, candidato a
Butler, 1993, 2003, 2004, 2009; Fraisse, sujeito, ocupa no desejo do Outro. O caráter
1996; Laqueur, 1992). incerto da masculinidade e da feminilidade,
Tudo isso tem levado a uma revisão do assim como a dificuldade de definir mascu-
que o Outro nos ensina sobre o ‘que se deve lino e feminino, rompe com a realidade ana-
fazer, como homem ou mulher’, trazendo re- tômica. A significação dessas noções nada
percussões na compreensão tanto nas cons- tem de natural: são apenas convenções cul-
truções identitárias quanto nas ‘orientações turalmente construídas. Elas são resultado
sexuais’. de processos bem mais complexos que pre-
Geneviève Fraisse (1996, p. 91) observa: disposições e determinações instintuais e ge-
neticamente herdadas (Freud, [1930] 1974).
Pensar a alteridade é, então, pensar o dife- Desde 1952, quando ocorreu na
rente, a relação, o conflito. Isto é mais difícil, Dinamarca a primeira cirurgia, oficialmente
evidentemente, do que pensar a diferença dos comunicada, de ‘mudança de sexo’, retrata-
sexos apoiada em invariantes culturais, antro- da no filme A garota dinamarquesa (2015),
pológicas ou psicanalíticas ou, ainda, graças a construção identitária conhecida como
a boas intenções sobre a complementaridade ‘transexualismo’ e, mais recentemente, ‘tran-
natural dos sexos, e a boa consciência sobre a sexualidade’ vem tomando consistência e
perenidade do mal feminino. ganhando visibilidade em todo o mundo:
as reivindicações dos sujeitos trans têm sido
Identidades trans e mudanças discursivas cada vez mais ouvidas, garantindo-lhes um
As considerações aqui apresentadas nos le- reconhecimento social (Ceccarelli, 2013).
vam a perguntar sobre como escutar os su- No Ocidente, as leituras contemporâneas
jeitos que não se enquadram nos universais do sexual têm produzido reposicionamentos
de sexo e de gênero (as identidades sexuais, em relação aos elementos presentes nas cons-
as chamadas ‘orientações sexuais’ e as cate- truções identitárias e nas aquisições das refe-
gorias de masculino e feminino). Seriam eles rências sociais de gênero. Se, até bem pouco
portadores de algum ‘transtorno’ (transtorno tempo, algumas manifestações do sexual,
de identidade, disforia de gênero, problemas tais como as homossexualidades, levavam a
com a atribuição fálica, e assim por diante)? acaloradas discussões psicológicas e médico
Tal posição se baseia, ainda que implici- -legais sobre os ‘desvios’ que elas encerravam
tamente, na existência de uma concordância e, por extensão, inúmeras propostas de trata-
entre a anatomia e o sentimento de identida- mento e cura eram oferecidas, na atualidade
de sexual, ou seja, entre sexo e gênero. Parte- as instituições, inclusive psicanalíticas, que
se do princípio de que existe algo inato no ser impeçam o acesso desses sujeitos as suas fi-
humano que faz com que a anatomia deva leiras correm o risco de ser processadas por
coincidir com as categorias sociais de homem homofobia (Ceccarelli, 2012).
e mulher. Nessa perspectiva, as transexuali- As identidades trans têm nos levado a
dades deveriam ser tratadas como uma per- revisar alguns dos pressupostos teórico-clí-
versão ou uma psicose, pois escapam à lógica nicos da psicanálise, para não insistirmos
fálica sustentada pelas fórmulas de sexuação. em modalidades rígidas de subjetivação que

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Transexualidades e mudanças discursivas

ditam o normal e o patológico, produzindo moções pulsionais recalcadas ligadas à bisse-


uma nova ordem repressiva (Ceccarelli; xualidade constitucional despertado por esse
Levy, 2012). Colocar a psicanálise como de- encontro.
tentora de um saber que lhe outorga o direito Os movimentos de despatologização das
de ditar os caminhos ‘normais’ de subjetiva- identidades trans levaram a uma mudança
ção, equivale a transformá-la em um discur- política: cada vez mais, esses sujeitos vêm ga-
so fundamentalista. nhando visibilidade e apoio legal, sobretudo
Um dos aspectos que torna tão descon- no que diz respeito aos direitos do cidadão.
certantes as discussões sobre as transexuali- Desde a Resolução n.º 1.482/97, do CFM,
dades é que elas tocam diretamente as bases de 10 de setembro de 1997, que autorizou, ‘a
imaginárias responsáveis pelos movimentos título experimental’, a ‘cirurgia de transgeni-
identificatórios presentes nas construções talização’, o movimento trans não parou de
identitárias. O(A) transexual, com sua rei- crescer. Na época, a Resolução entendia que
vindicação identitária, nos coloca uma ques- “o paciente transexual é portador de um des-
tão raramente evocada: como sabemos que vio psicológico permanente da identidade
somos homem ou mulher? sexual”, [o que faz do transexualismo uma
E mais: de onde vem a ‘certeza’, a ‘con- doença]. E em 2008, reconhecendo que a
vicção delirante’, de estarmos diante de uma “[...] discriminação é determinante no pro-
mulher ou de um homem? Tal certeza é ‘na- cesso de sofrimento e de adoecimento a que
turalmente’ apoiada pelas referências obje- estão sujeitos os transexuais”, o Ministério da
tivas – sobretudo o sexo anatômico – que a Saúde baixou uma portaria garantindo a rea-
pessoa à nossa frente exibe. Ora, essas refe- lização do “processo cirúrgico transexualiza-
rências são abaladas quando a ‘mulher’, ou dor” – no âmbito do Sistema Único de Saúde
o ‘homem’, nos revela ser (anatomicamente) (SUS).
um homem, ou uma mulher. Se, em um primeiro momento, como vi-
Quando, à luz das teorias atuais da inter- mos, o transexualismo foi visto como uma
face sexo/gênero, os psicanalistas, mesmo patologia, hoje o debate se centra na des-
os mais recalcitrantes, começaram a ouvir patologização, ou a não patologização, das
as dinâmicas pulsionais e os movimentos transexualidades, que ainda aparecem nos
identificatórios que subjazem às identida- manuais de psiquiatria como “problema de
des trans, sem teorizá-las como um desvio e, identidade sexual”. Esse ponto central das
principalmente, sem se sentirem ameaçados reivindicações trans foi longamente contem-
pelo retorno de suas moções pulsionais re- plado no I Colóquio Internacional sobre a
calcadas, as transexualidades passaram a ser Transexualidade - Trans-identidades, gênero
entendidas como mais uma manifestação da e cultura - realizado entre os dias 9 e 12 de ju-
sexualidade. nho de 2010, em Havana, com participantes
O encontro com um sujeito que se diz de vários países.1
transexual, por mais bem preparado e des- Os movimentos de despatologização
pojado de preconceito que o interlocutor das identidades trans (travestis, transexuais
possa estar, evoca a dimensão subjetiva in- e transgêneros), bem como a militância
consciente daquele(a) a quem o(a) transe- para que essas identidades sejam retira-
xual se dirige, provocando, não raro, um sen- das dos catálogos das doenças mentais de
timento de estranheza, pois “[...] complexos uma vez por todas, continuam: a Stop Trans
infantis que haviam sido recalcados revivem
uma vez mais por meio de alguma impres-
1. <http://www.legrandsoir.info/1er-Colloque-Internatio-
são” (Freud, [1919] 1996, p. 310). Esse sen- nal-Trans-identites-Genre-et-Culture-a-La-Havane-la-
timento de estranheza se deve ao retorno de transsexualite-n-est-pas-une-maladie.html>.

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Paulo Roberto Ceccarelli

Pathologization, uma campanha internacio- modalidades de cirurgias estéticas que po-


nal lançada em 2012 que lutou nesse sentido, dem ser tão mutilantes, ou até mais, que a
contou, no Brasil, com o apoio dos Conselhos transgenitalização.
Federal e Regionais de Psicologia.2 A questão é de peso e está longe de rece-
E a mais recente e emblemática aqui- ber consenso. Penso que, por enquanto, de-
sição de reconhecimento das identidades vemos estar abertos a todos os argumentos e
trans data de fevereiro de 2013: a decisão do ouvir todas as partes envolvidas no debate.
Ministério da Saúde em colocar no cartão Só assim poderemos progredir no diálogo e
de saúde desses sujeitos o nome social, em alcançar uma posição que responda, dentro
vez do nome de batismo. Espera-se, assim, do possível, às reivindicações elencadas.
contribuir para a diminuição da segregação Por estar cada vez mais participando de
social da qual são vítimas esses sujeitos, res- debates sobre o tema em várias capitais do
guardar sua dignidade como assegura o art. País e como consultor ad hoc do CFP a res-
1º, § III da Constituição Federal de 1988, as- peito de assuntos que tratam da sexualidade
segurando-lhes, ao mesmo tempo, o pleno em geral e, recentemente, sobre a despato-
direito ao acesso à saúde e à cidadania. logização das identidades trans, tenho tido
Tais mudanças repercutiram diretamente uma experiência muito interessante: discu-
na ‘visão’ que se tinha desses sujeitos, abrin- tir essa questão com os sujeitos diretamen-
do caminho à novas conquistas e promo- te implicados nela – travestis, transexuais,
vendo políticas públicas de saúde e inserção transgêneros – o que, sem dúvida, produz
social de sujeitos trans, o que levou à mu- uma mudança de perspectiva. Passei a me
dança do modo de designar esses sujeitos: se, perguntar sobre até que ponto os ‘critérios
num primeiro momento, falava-se de tran- de diagnóstico’ limitam nossa escuta desses
sexualismo, a mudança para transexualida- sujeitos.
de, ou transexualidades, no plural, retrata Entretanto, ainda que não se possa negar
um avanço importante. O sufixo “ismo”, em os grandes avanços em termos de direitos do
transexualismo, sugere, como foi o caso para cidadão trazidos por essas mudanças discur-
homossexualismo, uma conotação patológi- sivas em torno das transexualidades, o de-
ca. Já em transexualidade, como em homos- bate atual sobre o livre acesso à cirurgia de
sexualidade, o sufixo “dade” significa “modo transgenitalização exige prudência, por im-
de ser”. plicar não apenas o sujeito interessado, mas
Alguns membros de movimentos de des- a sociedade como um todo, e as relações in-
patologização das identidades trans advo- terpessoais (um sujeito que, após a cirurgia,
gam pelo acesso livre e irrestrito à cirurgia adquire as características do sexo feminino e
de transgenitalização, como um direito do altera o seu nome, pode legalmente se casar
cidadão para adequar o corpo à sua identida- com um homem? Ela deveria falar a seu côn-
de subjetiva. Para eles/elas, a exigência de ter juge sobre sua condição anterior? O cônjuge
a identidade caucionada por uma autoridade tem o direito de saber para poder escolher
exterior institucionalmente investida de po- se quer, ou não, se casar com um transexual?
der – psiquiatras, psicólogos, psicanalistas – Não dizer sobre o passado configuraria um
parece absurda e ditatorial. Afinal, alegam, ato criminoso? No âmbito trabalhista e pre-
ninguém precisa de um expert para lhe dizer videnciário, a questão é polêmica posto que,
que ele/ela é, de fato, homem ou mulher. E, para a mulher, o tempo da aposentadoria não
muito menos, para se submeter às inúmeras é o mesmo). Nessa perspectiva cabe pergun-
tar: o “direito” à cirurgia deve ser outorgado
2. Em: <http://www.crpsp.org.br/portal/midia/fiquedeo- ao sujeito pelo fato de ele/ela se posicionar
lho_ver.aspx?print=true&id=365>. subjetivamente como transexual? Questão

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Transexualidades e mudanças discursivas

delicada e geradora de discussões espinho- Abstract


sas. The text brings reflections on the consequen-
ces of discursive changes of the last decades for
Para concluir the understanding of the sexualities. From the
Quando nos dispomos a ouvir os sujeitos moment, the hegemonic discourse on the re-
cujas vivências identitárias e sexuais diver- lations between sex, gender, desire and sexual
gem das ‘tradicionais’ sem tentar classificá-los practice began to be reassessed; expressions of
como desviantes; quando procuramos en- sexuality that until then were considered pa-
tender seus percursos pulsionais e seus ca- thological received another listening. The text
minhos identificatórios, somos levados a re- focuses on transsexualities and recent move-
pensar nossos instrumentos classificatórios e ments of de-pathologization of trans identities.
nos perguntar com qual ouvido escutamos e For the author, when psychoanalysts began to
em que medida os diagnósticos nos servem listen to the drive dynamics and identificatory
de defesa contra o retorno da nossa própria movements that underlie trans identities, wi-
sexualidade recalcada. thout theorizing them as a deviation, transse-
Quando procurarmos entender de forma xualities came to be understood as just ano-
mais detida as dinâmicas pulsionais que sus- ther manifestation of sexuality.
tentam as múltiplas expressões da sexualida-
de humana, somos levados a concluir que os Keywords: Transexualities, Drive, Discursive
discursos sobre a sexualidade são criações changes.
tributárias do momento sócio-histórico da
cultura na qual emergem, e que nunca re-
fletem a verdade do sujeito. Os processos Referências
identificatórios que nos constituem são in-
separáveis da organização simbólica da cul- BERTINI, M.-J. Ni d’Eve ni d’Adam - Défaire la diffé-
tura. Além disso, testemunham as inúmeras rence des sexes. Paris: Max Milo, 2009.
possibilidades de subjetivação capazes de
“humanizar” o bebê humano, desfazendo, BUTLER, J. Bodies that matter: on the discursive limits
assim, a ideia de uma natureza intrínseca e of sex. New York: Routledge, 1993.
reguladora, e denunciando BUTLER, J. Le transgenre et “les attitudes de révol-
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[...] um instrumento que por muito tempo res et mélancolie: s’entretenir avec Judith Butler. Paris:
serviu para obrigar-nos a aceitar as formas de Campagne-Première, 2009.
sociabilidade tradicional marcadas pelo dis-
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positivo de Gênero e pelo discurso de ordem versão de identidade. Rio de Janeiro: Civilização
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Ao que tudo indica, estamos, aos poucos, temporaneidade: reflexões sobre as novas formas de
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Paulo Roberto Ceccarelli

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Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 83–90 | julho/2017 89


Transexualidades e mudanças discursivas

90 Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 83–90 | julho/2017


Roberta de Oliveira Mendes

Buck Angel, transexualidade e gênero


– algumas considerações
psiqueeranalíticas sobre os sexos de Angel
Buck Angel, transexuality and gender
– psiqueeranalytical considerations
on the sex of a certain Angel

Roberta de Oliveira Mendes

Resumo
O trabalho se propõe a fazer uma reflexão sobre sexo, gênero e transexualidade à luz da psica-
nálise e das teorias queer, a partir das narrativas e da corporeidade de Buck Angel, conforme
tornadas públicas pelo documentário Mr. Angel, de Dan Hunt (2013). Em especial, o trabalho
investiga a inscrição corporal “PerVert”, que o ativista transexual tatuou nas costas, reencon-
trando a potência subversiva e a imanência criativa da sexualidade infantil perverso-polimor-
fa e da matriz bissexual da constituição subjetiva.

Palavras-chave: Transexualidade, Identidade de gênero, Psicanálise e teorias queer, Sexualidade


perverso-polimorfa, Bissexualidade psíquica.

Minha vagina faz parte


da minha masculinidade.
Buck Angel

Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis.


Eu consisto, eu consisto, amém.
Clarice Lispector.
A lucidez perigosa.

Introdução um homem inteiramente comum. Quando


Robert J. Stoller, psiquiatra e psicanalista a recepcionista anunciou o paciente por seu
norte-americano, conta que seu primei- nome de registro feminino, o psicanalista
ro contato com um homem trans foi sur- experimentou um sentimento de estranhe-
preendente e perturbador. E não porque o za. “Embora as teorias pudessem explicar
referido paciente manifestasse algum com- o bizarro, elas não podiam explicar a natu-
portamento caricato ou aberrante, mas ralidade”, concluiu (Stoller, 1993, p. 19).
justamente pelo fato de que a pessoa à sua Com essa reflexão, Stoller punha em
frente lhe pareceu, sob todos os aspectos, questão a pertinência nosográfica do fenô-

Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 91–110 | julho/2017 91


Buck Angel, transexualidade e gênero– algumas considerações psiqueeranalíticas sobre os sexos de Angel

meno da transexualidade, fosse às fieiras da O(s) sexo(s) de Angel


psicose, segundo as correntes de inspiração Diz-se que a expressão “sexo dos anjos” sur-
psiquiátrica, e/ou da perversão, como suge- giu de um incidente histórico ligado à queda
rido pelo viés da sexologia. do Império Bizantino. Na ocasião, o impera-
Ao me deparar com a figura pública de dor Constantino XI tentava resistir à invasão
Buck Angel, autointitulado a man with a pus- otomana à Constantinopla, contando com
sy (um homem com vagina), senti que havia um exército cristão que representava ape-
nele, como nos propõe o setting analítico a nas um décimo do contingente do exército
todo instante, algo de uma singularidade que inimigo. Enquanto isso, os membros do alto
se enunciava para além dos rótulos das inte- clero, dos quais o imperador esperava apoio,
ligibilidades preestabelecidas. estavam inacessíveis, reunidos em um curio-
Foram os debates em torno de sua narrativa so concílio que se propunha a refletir, justa-
e corporeidade no âmbito da instituição que mente, sobre o sexo dos anjos.
deram ensejo à criação do Grupo de Trabalho É curioso constatar quão mobilizadora
de Neo e Transexualidades (GTNTrans),1 do parece ser a questão da diferença sexual na
CBP-RJ, em julho de 2015, bem como à esco- humanidade, a ponto de gerar indagações
lha do tema NeoSexualidades: novas escutas, cosmogônicas e metafísicas dessa natureza,
da VI Jornada de Psicanálise do CBP-RJ, em como se a estabilidade de um sistema de ca-
2015. tegorizações fosse posto em risco em caso de
Nos encontros do GTNTrans tivemos haver entes, mesmo que imaginários, excep-
contato não apenas com autores psicanalistas cionados dele.
a pensar a transexualidade, como também Se a indagação do clero custou o cetro ao
com as críticas e contribuições à psicanáli- imperador, podemos pensar que, hoje em
se feitas por pensadores desconstrutivistas dia, o debate pluri- e interdisciplinar em tor-
do movimento queer, notadamente Judith no das identidades de gênero, longe de ser
Butler e Beatriz Preciado (atualmente Paul sinônimo de uma inutilidade diletante, é a
B. Preciado). Por essa razão, as especulações possibilidade de fazer ruir o império da lógi-
teóricas desenvolvidas no presente trabalho ca binária e falocêntrica, e suas repercussões
são de filiação psiqueeranalítica, numa ten- limitadoras na escuta clínica.
tativa de condensação das ideias metaboliza- Uma das mais proeminentes teóricas do
das ao longo da primeira fase dos referidos movimento queer norte-americano, Judith
estudos. Butler (2013) chama a atenção para o fato de
Após apresentar os principais dados pú- que o conceito de diferença sexual é
blicos da biografia de Buck Angel, serão te-
cidas algumas considerações sobre os con- [...] um locus em que a relação entre o bioló-
ceitos de sexo e gênero; em seguida, sobre a gico e o cultural é lançada e relançada, onde
transexualidade à luz da psicanálise, para, ao talvez possa ou mesmo tenha que ser lançada,
final, indagar quanto à pertinência da inscri- não podendo, em sentido estrito, ser respon-
ção “PerVert” (perverso/pervertido) tatuada dida (Butler, 2013, p. 186, tradução nossa).
nas costas do Sr. Angel.
O conceito de diferença sexual seria, se-
1. O Grupo de Trabalho de Neo e Transexualidades gundo a autora, um conceito de fronteira en-
(GTNTrans) do CBP-RJ é composto por Fernanda Freitas,
Rodrigo Zanon, Roberta Mendes, Tânia Cynammon, tre dimensões psíquicas, somáticas e sociais,
Fátima Barcelos e Ana Paula Perissé sob a orientação de em que esses territórios se interpenetram,
Anchyses Jobim Lopes. Vale dizer que, desde agosto de sem se equivaler inteiramente, mas sem ser
2016, juntou-se a dimensão clínica aos estudos teóricos,
mediante a escuta analítica de indivíduos tranvestigêneres também rigorosamente distintos um do ou-
em situação de risco. tro.

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Roberta de Oliveira Mendes

Assim, ao discutirmos também o(s) cipalmente do documentário Mr. Angel, de


sexo(s) de Angel, devemos ter desde já em Dan Hunt (2013) e complementadas por
mente que a discussão a que nos empenha- outros vídeos de entrevistas, palestras e sua
mos permanecerá saudavelmente em aberto. participação em eventos voltados para o de-
Buck Angel se define como um homem bate e a conscientização em torno da questão
trans, isto é, um transexual feminino. Ou de gênero.
seja, uma pessoa a quem foi atribuído o sexo Nascido nos Estados Unidos, na
feminino como evidência biológica no nas- Califórnia, em 1962, foi registrado como
cimento, por ser portador de cromossomos Susan, aparentemente, a segunda de três
XX e genitália externa não ambígua femi- filhas de uma família de classe média,
nina, mas que se percebe intimamente e se Buck diz ter se sentido um menino des-
apresenta socialmente como pertencente ao de sempre, a despeito de ter um corpo de
gênero masculino. menina.
Para quem não está acostumado com o Podemos cogitar que, ao constatar a in-
tema, pode parecer confuso no começo. Mas congruência entre seu corpo e seu senti-
depois complica. Na realidade, complexifica. mento de si, Buck tenha realizado uma cisão
Buck Angel não se deixa enquadrar facil- defensiva não psicótica de seu Eu, tal como
mente em nenhuma categoria, sobretudo as descrito por Freud no caso dos meninos en-
de lógica binária, isto é, as que se restringem lutados pela morte do pai (Freud, [1927]
à concepção disjuntiva e opositora de polos 2016). Isto é, apenas uma corrente em seu
referentes pretensamente invariantes ho- psiquismo não reconhecia a realidade bio-
mem/mulher, masculino/feminino. lógica de seu corpo (como veremos adiante,
Nem mesmo o catálogo de inteligibilida- ocorreu em algumas ocasiões, inclusive com
des revisto e ampliado pelo desconstrutivis- risco para a sua saúde):
mo das teorias queer parece ter um espaço
inequívoco para ele. Tanto é assim que Buck [...] havia outra que se dava plena conta desse
sofre diversos tipos de discriminação dentro acontecimento; [...] a corrente ligada ao de-
da própria comunidade LGBT(QI),2 por não sejo e a ligada à realidade coexistiam uma ao
corresponder às tentativas de tipificação do lado da outra (Freud, [1927] 2016, p. 320).
que seria um transexual. Recusando-se a ser
uma abstração ambulante e empenhado em Digamos que “no conflito entre a percep-
ser ‘si-mesmo’, Buck questiona e reenuncia ção indesejada” (ser biologicamente uma
com e em seu corpo múltiplos (pre)concei- mulher) e “a força do desejo contrário” (ter
tos, confirmando a máxima de que, na práti- um corpo masculino que correspondesse
ca, a teoria é outra. ao seu sentimento de si), ele “[...] chegou a
Acompanhemos um pouco de seu per- um compromisso, tal como só é possível sob
curso. o domínio das leis inconscientes de pensa-
mento: o processo primário” (Freud, [1927]
She was a boy:3 infância 2016, p. 317), que permite a coexistência
e adolescência de Angel conjuntiva e não opositiva de realidades di-
Vale esclarecer que as informações biográfi- versas.
cas sobre Buck Angel foram colhidas prin- Nos momentos em que esse sentimento
de identidade gozava do beneplácito da acei-
2. LGBT(QI): Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais tação familiar, ele se sentia uma criança feliz
(Queer e Intersexuados). e brincalhona. Portanto, considera ter tido
3. She was a boy é o título de uma canção de autoria da
cantora israelense Yael Naïm em parceria com David uma infância feliz, na medida em que seus
Donatien. pais permitiram que ele crescesse como um

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Buck Angel, transexualidade e gênero– algumas considerações psiqueeranalíticas sobre os sexos de Angel

clássico tomboy,4 vestindo-se a maior par- Apresentou uma puberdade tardia, vin-
te do tempo como um menino e desempe- do a desenvolver seios e menstruar já depois
nhando papéis masculinos em jogos e brin- dos 14 anos. Em diversas ocasiões, refere-se
cadeiras. à cena de sua primeira menstruação: estava
No referido documentário, sua mãe relata em um jogo de futebol com amigos e, per-
que uma vez o viu tentar urinar em pé, por cebendo o sangue a lhe descer pelas pernas,
volta dos quatro anos de idade e, ao inda- achou que tivesse se machucado. Não lhe
gá-lo quanto ao que estava fazendo, a então ocorreu que pudesse ter ficado menstruado,
menina respondeu que “estava fazendo xixi pois não se pensava como uma menina.
como seu pai”. Buck diz sempre ter “se espe- A menstruação lhe foi traumática, ao
lhado no pai”, homem de uma masculinida- confrontá-lo incontornavelmente com a
de estereotipada de cowboy americano. realidade de que seu corpo era, de fato, “de
Se, por um lado, seus pais aceitavam e, em mulher” e ganhava, para seu desespero e à
certa medida, encorajavam seus comporta- sua revelia, cada vez mais contornos femi-
mentos masculinos nos limites da casa, por ninos. Stoller comenta que, de fato, é co-
outro, forçavam-no a se vestir como uma mum nos transexuais femininos que sintam
menina fora dela, o que exasperava Buck maior urgência de empreender interven-
enormemente. ções corporais “[...] após a puberdade e seu
Indício dessa aceitação tácita de sua odiado desenvolvimento de menstruação e
masculinidade pela família é o próprio de características femininas secundárias”
apelido Buck, que lhe foi dado na infância. (Stoller, 1982, p. 224).
Curiosamente, o termo “buck”, em inglês, Foi, portanto, apenas na adolescência que
tanto designa o macho de alguns animais, Buck passou a enfrentar diversos problemas
tais como certos tipos de antílopes e coelhos, relacionais e profundo sofrimento psíquico
quanto é uma gíria para se referir informal- em razão de sua rejeição à imagem inequivo-
mente a dinheiro, um dos clássicos equiva- camente feminina que seu corpo ia adquirin-
lentes fálicos na equação simbólica freudia- do. A partir desse momento se intensificou
na. também o discurso contraditório da família
Buck Angel não apenas veio a alçar o ape- quanto a permitir que ele fosse masculino
lido de infância como seu prenome civil ao em casa e a exigir que assumisse uma per-
longo de seu processo jurídico de redesigna- formance feminina na rua. Ele passou a ter
ção, como também o incorporou há alguns muita raiva do próprio corpo, esmurrando
anos na forma de uma tatuagem de cabeça de os seios para que parassem de crescer.
antílope, logo acima de sua região pubiana. Data desse período uma das poucas his-
Em geral, Buck fala pouco de seu contex- tórias familiares que Buck relata detalhada-
to familiar, limitando-se a dizer que seu pai mente ao longo do documentário. Conta, vi-
era um homem severo e que, de modo geral, sivelmente emocionado, que, por volta dos
as demonstrações de afeto em casa não eram 14 anos, teve um desempenho excepcional
muito expansivas. Nenhum comentário es- em atividades de corrida na escola, motivo
pecífico sobre características de humor ou pelo qual foi convidado pelo técnico de atle-
comportamento da mãe, nem de sua relação tismo a integrar a equipe feminina em uma
com ela é feito por Buck no documentário. competição intermunicipal. Foi, em suas pa-
lavras, das poucas coisas em que se destacou
como mulher.
No entanto, seu pai condicionou sua par-
4. Tomboy: termo corrente em língua inglesa para designar
meninas de comportamento e aparência socialmente ticipação no evento à melhora de suas notas.
percebidos como masculinos. Como Buck não conseguiu o desempenho

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acadêmico esperado, o pai o impediu de destrutividade de Buck a partir do momento


competir. em que seu falso self, isto é, a suposta iden-
Mesmo sem termos maiores informa- tidade feminina, passa a dominar a cena.
ções sobre a dinâmica familiar de Buck, não Isso porque, em sua infância, ele podia sem
nos parece infundado especular que havia maiores empecilhos ou dificuldades alternar
um investimento ativo por parte da família as apresentações masculinas (verdadeiro self)
em sua masculinidade, ainda que de forma com as femininas (falso self). Desse modo,
inconsciente, bem como um contrainvesti- seu falso self, na verdade, assegurava que seu
mento igualmente inconsciente em tudo o verdadeiro self pudesse emergir, sempre que
que o identificava como “mulher”. Da mesma em condições ou ambientes favoráveis, mes-
forma, a referência ao tratamento distante e mo que como uma vida secreta.
comedido do pai e a uma certa inibição das No entanto, como lembra Winnicott
expansões afetuosas entre os membros da fa- ([1960] 1983), quando as condições para a
mília levam a crer que a seguinte condição emergência do verdadeiro self são ameaça-
favorecedora de suas identificações femini- das, organizam-se novas defesas “[...] contra
nas não tenha se configurado: a expoliação do self verdadeiro”, e a ideia do
suicídio nesse contexto pode surgir como
[...] a menina precisa ouvir de seu pai expres- uma tentativa “[...] de destruição do self to-
sões de apreço e valor por sua feminilidade tal para evitar o aniquilamento do self ver-
e pela feminilidade da mãe dela – sua espo- dadeiro (Winnicott, [1960] 1983, p. 131).
sa. Precisa ouvir sua mãe expressar valor e
respeito pelo pai, bem como pela identidade Transicionando:
sexual de sua filhinha, assim como também um homem pra chamar de Eu
atribuir valor a sua própria vida sexual como Buck ressaltou em múltiplas ocasiões a im-
mulher (Mcdougall 2001, p. 12). portância crucial da terapia no seu longo e
gradual percurso de conciliação entre seu
Buck relata que dos 16 aos 28 anos se sen- corpo, seu sexo, seu gênero e sua sexualida-
tiu uma pessoa perdida. Contrariando seu de. No entanto, não há em suas entrevistas
sentimento íntimo de ser um homem, seu nenhuma menção clara à orientação clínica
corpo era o de uma mulher. Tampouco se da referida terapia.
identificava com a imagem da lésbica butch Ele conta que na década de 1970 não ha-
com que o nomeavam. Passou a ter compor- via escuta para os indivíduos transsexuais.
tamentos autodestrutivos, envolvendo-se Segundo ele, o próprio conceito de transe-
com álcool e drogas e cortando-se reiterada- xualidade ou transgeneridade não estava
mente nos braços. amplamente em voga no meio psi como um
Tais condutas se agravaram particular- todo, mesmo na Califórnia, uma das unida-
mente com sua bem-sucedida atividade des federadas mais liberais e progressistas
como modelo fotográfico feminino, tanto é dos Estados Unidos. O máximo que lhe era
que tentou suicídio por duas vezes, o que lhe concedido pelos terapeutas e psiquiatras que
rendeu algumas internações psiquiátricas. consultava era ser classificado como uma
Quanto mais reconhecimento e sucesso ele mulher muito masculinizada, uma lésbica
obtinha com a imagem feminina, mais se in- butch, um indivíduo com desequilíbrios psí-
tensificava sua autodestrutividade. quicos de contornos esquizofrênicos ou, no
Se, como diz Stoller, a transexualidade, em mínimo, borderline.
alguns casos, parece representar “a expressão Nesse contexto, cabe refletir com Márcia
do ‘verdadeiro self” do indivíduo (Stoller, Arán que, certamente, pelo fato de os transe-
1982, p. 2), podemos compreender a auto- xuais serem comumente

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Buck Angel, transexualidade e gênero– algumas considerações psiqueeranalíticas sobre os sexos de Angel

[...] confrontados com várias questões de na- te, que integrasse sua vagina à sua autoima-
tureza existencial, se é que podemos nos ex- gem e assumisse para si mesmo a singulari-
pressar assim, sintomas considerados ‘narcí- dade de seu gozo.
sicos’ ou ‘limítrofes’ muitas vezes fazem parte Buck não estava disposto a ceder de seu
dessa configuração subjetiva por uma questão prazer sexual em nome de corresponder a
contingente (Arán, 2006, p. 61, grifo nosso). uma imagem do que deveria ser um homem,
resultando disso a montagem personalíssima
Até que um dia, quando contava por volta de seu corpo.
de 30 anos de idade, uma terapeuta o ouviu. Joel Birman (1999, p. 23) nos lembra que
Acolheu sua fala de que se sentia um ho-
mem, dizendo que acreditava nele e, o que [...] o corpo não é nem o somático nem tam-
lhe foi ainda mais significativo, que era tam- pouco o organismo, mas ultrapassa em muito
bém como o percebia. Sua condição ganhou o registro biológico da vida, sendo marcado
um nome: transexualidade (ou, na época, pelas pulsões.
transtorno de identidade de gênero).5 E seu
modo de ser, uma possibilidade. Em outras palavras,
Somente a partir daí teve efetivamente
início sua transição. Ao acompanhamen- [...] um corpo não se define pela sua substân-
to psicoterápico somaram-se, ao longo dos cia, nem pelos seus órgãos, nem mesmo por
anos, as seguintes intervenções corporais: suas funções, mas pelo seu movimento, pelo
doses regulares de bloqueadores de hormô- conjunto de seus afetos intensivos (Arán,
nios femininos; injeções de testosterona; 2006, p. 34).
maciças sessões de musculação e uma dupla
mastectomia. Buck menciona que a cirurgia Angel diz ser até hoje cobrado por seg-
de remoção das mamas foi o passo mais sig- mentos da própria comunidade trans a rea-
nificativo e libertador de sua transição, pois lizar a neofaloplastia. Alguns se recusam a
os seios eram o que mais “traíam” estetica- reconhecer sua condição transexual, jus-
mente sua indesejada condição biologica- tamente por conta da ausência da cirurgia
mente feminina. de transgenitalização. Segundo essa ótica,
Conta que, certo dia, ao se masturbar, ele teria apenas mudado de gênero, deven-
acabou por se questionar se realmente que- do, portanto, ser considerado um indivíduo
ria correr o risco de fazer a cirurgia de trans- transgênero, por ter passado a adotar uma
genitalização, tendo em vista a péssima re- performance social masculina, sem, no en-
lação risco/benefício de tal procedimento, tanto, ter mudado de sexo.
já que seus resultados tanto estética quanto Toda essa polêmica relança para Buck a
funcionalmente eram (e ainda são) bastante pergunta: afinal, o que faz de um homem
precários, podendo tornar o indivíduo intei- um homem? É preciso ter um pênis para ser
ramente anorgástico. um homem? E se alguém que se identifique
No entanto, a decisão de renunciar à ci- como homem, nascido biologicamente com
rurgia não foi tomada sem angústia e foi, em pênis, vier a perdê-lo por conta de um aci-
seu entendimento, um dos efeitos mais rele- dente, um incêndio ou qualquer outra fata-
vantes de sua terapia, por permitir, finalmen- lidade, deixará de ser ou de se sentir um ho-
mem por causa disso?
5. Atualmente, o DSM classifica a transexualidade não mais Com sua verve habitual e denunciando a
como um transtorno de identidade, mas como uma disforia arbitrariedade dos símbolos, Buck costuma
de gênero. Vale lembrar que há um crescente movimento
por parte de vários setores da sociedade em prol da dizer que, pelo mesmo valor de uma cirurgia
despatologização da transexualidade. faloplástica, compraria para si um falo muito

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mais vistoso e funcional, igualmente valida- gãos produtores’ da coerência do corpo como
do socialmente: uma caminhonete 4x4! propriamente humano (Preciado, 2014, p.
Em resposta às mencionadas críticas da 130-131).
comunidade trans, Buck Angel se descre-
ve como alguém socialmente “binário”, mas Vejamos a seguir como Buck Angel, não
de corporeidade queer, no sentido de que se apenas a partir de sua montagem corporal
identifica integralmente como indivíduo do mas também de suas vivências, tende a ilus-
sexo – e não apenas do gênero! – masculino, trar concretamente a ideia da performativi-
a despeito de conservar o genital feminino. dade do sexo e do gênero.
Com isso, Buck sustenta o caráter per-
formativo tanto do sexo quanto do gênero, Uma sublimação pela pornografia?
em franca e radical ressonância com as con- Outras desconstruções
cepções desconstrutivistas de Judith Butler Como a maioria das pessoas trans, Buck
(2015), para quem nada seria definido pela Angel também teve dificuldades de se en-
anatomia. Tanto o sexo quanto o gênero se- gajar num mercado formal de trabalho,
riam construções discursivas. acabando por desempenhar alguns serviços
Em outras palavras: o ser humano, único temporários como auxiliar de produção em
animal pulsional e linguageiro, não seria cap- filmes de entretenimento adulto.
turável por nenhuma determinação natural, Após se decidir a não abrir mão de seu
mas por discursos naturalizadores como os prazer genital e manter sua vagina, Buck
que engendram a construção de uma dife- Angel se lançou como ator e produtor de fil-
rença sexual sobre uma lógica binária, opo- mes pornôs, apresentando-se pioneiramente
sitora e disjuntiva, ao invés de sobre uma di- como “um homem com vagina”.
versidade conjuntiva de gêneros plurais. Segundo ele, foi surpreendente observar
Desse modo, a atribuição do sexo à crian- que o público consumidor de seus filmes
ça com o nascimento seria era predominantemente o de homens gays,
o que significava o reconhecimento indis-
[...] um ato performativo, não porque o corpo cutível de sua masculinidade, tendo em vis-
não exista como materialidade, mas porque ta que, mesmo nas ocasiões em que se fazia
ele só pode existir dentro de um discurso que penetrar vaginalmente por outros homens,
o laça e o molda. as cenas eram percebidas pelo público como
uma prática inequivocamente homossexual.
Os corpos seriam, assim, “constituídos no Note-se que, com isso, Buck Angel faz cair
ato da descrição” (Salih, 2015, p. 125, grifo por terra as teorias que afirmam (i) que o in-
nosso). divíduo transexual é necessariamente aquele
De maneira provocadora, Beatriz que tem horror, desprezo ou um completo
Preciado denuncia a ausência de naturalida- desinvestimento de seus genitais, bem como
de da lógica atributiva: (ii) as teorias que falam do desejo homos-
sexual como evitativo do confronto com a
A mesa de atribuição da masculinidade e da “castração”, enquanto marca incontornável
feminilidade designa os órgãos sexuais como da diferença sexual (genital).
zonas geradoras da totalidade do corpo, sen- Da mesma forma, afirma provocadora-
do os órgãos não sexuais meras zonas perifé- mente que, nas cenas em que tem sua vagina
ricas. [...] Assim, então, os órgãos sexuais não penetrada pelo pênis de uma mulher trans,
são somente ‘órgãos reprodutores’, no sentido seja por qual perspectiva for, trata-se, ines-
de que permitem a reprodução sexual da es- capavelmente, de uma cena de sexo heteros-
pécie, e sim que são também, e sobretudo, ‘ór- sexual, tanto por se tratar de algo que se dá

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Buck Angel, transexualidade e gênero– algumas considerações psiqueeranalíticas sobre os sexos de Angel

entre uma pessoa de apresentação de gênero transmissíveis e de trato ginecológico para


feminina e outra de apresentação de gênero homens trans. Nesse contexto, vale lembrar
masculina, como por se dar entre um pênis que Buck Angel passou a atuar nesse seg-
e uma vagina, pouco importando que quem mento após ter precisado se submeter a uma
tenha a vagina seja o homem e quem tenha o histerectomia de emergência, por conta, ao
pênis seja a mulher. que parece, da já mencionada cisão defensiva
Relata que sua atividade na indústria por- de seu ego. Isso porque ele próprio relata que
nográfica foi se imbuindo cada vez mais de tomou hormônios masculinos e inibidores
um propósito ativista, com o objetivo de tra- de seus hormônios femininos por anos a fio,
zer visibilidade para os homens trans, figu- sem nenhuma consideração aos efeitos que
rando-os como pessoas sexualmente ativas isso poderia trazer a seus órgãos internos,
e engajadas em múltiplas formas de expres- notadamente seu útero e ovários, chegando
são sexual, contribuindo para desconstruir o a “esquecer” que os tinha.
decantado estereótipo da hipossexualidade Como pudemos observar, Buck Angel
transexual. exerce uma forma sublimada de pornografia,
Ademais, é seu entendimento que seus o que, num primeiro momento, pode asso-
filmes contribuiriam para o enriquecimento mar paradoxal.
das fantasias sexuais de quem assiste, já que, No entanto, devemos ter em mente que
ao lado da fantasia mais corriqueira da mu-
lher com pênis, que permite a inclusão sexual [...] sublimar não significa dessexualizar.
de mulheres trans e travestis no imaginário Muito pelo contrário, aliás. A sublimação e o
de muitos, diversas pessoas se surpreendem erotismo são derivações de Eros, afirmações
de se sentirem excitadas pela figura de um da vida e maneiras de tornar a existência pos-
homem com vagina, em suas múltiplas pos- sível e suportável (Birman, 1999, p. 171).
sibilidades de intercurso sexual.
Atualmente, Buck vem produzindo Sua pornografia teria, assim, aproprian-
uma série documental intitulada Sexing the do-nos dos dizeres de Birman, verdadeiro
Transman,6 que consiste em entrevistas com efeito de uma “sublime ação”, implicando “a
indivíduos transvestigêneres, binários ou ruptura com o imperialismo do falo” e “[...]
não, a respeito de suas fantasias e atividades entreabrindo a subjetividade para a possibi-
sexuais pré- e pós-transição, seguidas de ce- lidade do erotismo e da criação” (Birman,
nas de masturbação e/ou de sexo com outres 1999, p. 172).
parceires. Outros aspectos sobre a criatividade su-
A meu ver, esse projeto traz uma preciosa blimatória de Angel serão oportunamente
contribuição aos estudos referentes à monta- abordados no item referente à discussão da
gem fantasística do corpo erógeno, ao ilus- perversão. Antes, no entanto, precisamos ter
trar que, tanto as modificações corporais são em mente algumas noções sobre o desenvol-
determinadas por fantasias inconscientes, vimento dos conceitos de sexo e gênero na
quanto que, uma vez efetivadas, tais modifi- psicanálise.
cações corporais alteram, por sua vez, a posi-
ção de gozo do sujeito da fantasia. Algumas referências
Por fim, é relevante mencionar seu tra- sobre sexo e gênero na psicanálise
balho como educador sexual no campo da Sabemos que a distinção conceitual entre
prevenção e combate a doenças sexualmente sexo e gênero não é contemporânea às teo-
rizações freudianas. No entanto, Person &
6. Uma tradução possível seria “sexualizando o trans Ovesey (1999) chamam a atenção para o fato
homem”. de a psicanálise ter sido a primeira teoria ge-

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ral da personalidade que tentou explicar as na verdade, é possível reconhecer em Freud


origens e o desenvolvimento da masculinida- “uma classificação segundo o gênero”, uma
de e da feminilidade nos indivíduos, levando espécie de percepção da criança de uma dis-
em consideração as consequências psíquicas tinção entre o pai e a mãe, que começaria
da diferença anatômica entre os sexos. em uma etapa anterior à castração, portanto,
Aliás, é curioso observar em que ambiên- “sem levar em conta a anatomia”, e sim uma
cia teórica Freud estava imerso ao desenvol- diferença de papéis, funções, comportamen-
ver suas considerações iniciais sobre a se- tos sociais e vestimentas entre as figuras pa-
xualidade. Como observa Thomas Laqueur rentais.
(2001), a própria noção de um dimorfismo Dessa forma, pode-se pensar que a
sexual com base no modelo reprodutivo, isto apreensão dos gêneros pela criança se faria,
é, a construção da ideia de dois sexos como a rigor, “sem levar em conta o órgão sexual”,
efetivamente distintos, baseada na assimetria franqueando a interpretação de que “[...] o
anátomo-fisiológica das respectivas funções que distingue os gêneros não é o sexo anatô-
reprodutoras, só se deu no século XIX. mico [...]”, assim como “[...] inversamente, o
Até o século XVIII, a ideia reinante era a de sexo anatômico não garante, a priori, o gêne-
um isomorfismo sexual, correspondendo os ro” (Ceccarelli, 2013, p. 64).
corpos macho e fêmea a versões hierarquiza- O próprio Freud ([1924] 2016, p. 302),
das do mesmo sexo. Ora, as teorizações freu- aliás, utiliza o caso clínico de “um paciente
dianas acerca da fase fálica e as subsequen- homem para ilustrar sua análise do maso-
tes construções em torno das consequências quismo feminino, o que mostra como gêne-
psíquicas da distinção anatômica entre os ro não se confunde nem com posição sexual,
sexos parecem aplicar ao campo individual nem com sexo anatômico”7.
essa passagem da concepção de um isomor- Retornemos a Freud. Partindo sempre do
fismo para a de um dimorfismo sexual cultu- modelo masculino, o fundador da psicaná-
ralmente elaborada no âmbito filogenético. lise propunha que o menino tomaria a mãe
Assim, para Freud, a criança inicialmente como primeiro objeto amoroso, rivalizan-
creria haver apenas um órgão sexual (iso- do, consequentemente, com o pai. A partir
morfismo), que seria necessariamente, talvez da descoberta da diferença anatômica entre
por uma questão de autorreferência do autor, os sexos, as experiências pretéritas de perda
o masculino. pelo menino (nascimento, seio, fezes) seriam
Se, por um lado, o desenvolvimento da reativadas numa nova angústia: a de que pu-
criança de ambos os sexos seria amplamen- desse vir a perder seu pênis, objeto privile-
te equivalente nas fases pré-fálicas (isomor- giado de seu investimento narcísico.
fistas), a descoberta da distinção anatômica O menino renunciaria à mãe como objeto
entre eles (dimorfismo) acarretaria diferen- amoroso para preservar o seu pênis, deslo-
tes repercussões no menino e na menina, cando seu investimento libidinal para outras
inclusive no que diz respeito à travessia dos mulheres e identificando-se com o pai. A an-
respectivos Édipos. gústia de castração, ensejada pelo conheci-
Note-se, no entanto, que Freud não aban- mento da diferença anatômica entre os sexos,
dona inteiramente a ideia de uma hierarquia teria, então, para o menino o condão de re-
entre os sexos resultante da corrente isomor- solver seu complexo de Édipo, conduzindo-o
fista, restando à menina a posição do sexo à masculinidade heterossexual. Note-se que,
“inferior”, porque castrado e eternamente apesar de admitir a existência de um Édipo
marcado pela inveja do pênis.
No entanto, Paulo Roberto Ceccarelli 7. Trecho extraído dos comentários ao texto O problema
(2013) chama a atenção para o fato de que, econômico do masoquismo (Freud, [1924] 2016, p. 302)

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Buck Angel, transexualidade e gênero– algumas considerações psiqueeranalíticas sobre os sexos de Angel

negativo (homossexual) no menino, Freud ção da menina com o modelo feminino da


não teoriza a fundo quanto às suas possíveis mãe seria conturbada pela própria depre-
consequências psíquicas, limitando-se quase ciação advinda do reconhecimento da mãe
sempre a abordar a questão da ambivalência como castrada.
resultante das correntes terna e hostil do me- Segundo Person & Ovesey (1999), Karen
nino com relação ao pai no assim chamado Horney e Ernest Jones chegaram a propor a
complexo paterno. existência de uma feminilidade heterosse-
Para a menina, o caminho seria todo ele xual primária, e não secundária, nas mulhe-
mais tortuoso, já que seu Édipo positivo (he- res, calcada na percepção e elaboração das
terossexual) seria, na realidade, precipitado sensações vaginais e no desejo libidinal (em
(e não resolvido) pelo complexo de castra- vez de narcísico) por um pênis. Com isso, se,
ção, não tendo, portanto, uma força clara e por um lado, tentavam positivar um modelo
suficientemente potente que impelisse à sua biológico especificamente feminino, por ou-
resolução. Ademais, além de o Édipo na me- tro lado, atrelavam ainda mais radicalmente
nina ser complicado pela mudança de objeto a heterossexualidade à biologia.
sexual; a menina precisaria operar também Podemos observar o quanto as teorizações
uma mudança da zona erógena predominan- freudianas e aquelas de seus opositores, por
te do clitóris (tomado como um vestígio fáli- mais inovadoras que fossem, acabavam por
co) para a vagina. sofrer a influência limitadora dos paradigmas
Assim, toda menina teria uma fase edí- cultural e cientificamente válidos à época.
pica homossexual inicial, ao tomar a mãe Por exemplo, Laplanche (2001, p. 155-157)
como primeiro objeto libidinal. No entanto, nos lembra que, a Sexualtheorie, de Freud,
ao se dar conta da diferença anatômica en- não se propunha a ser uma teoria dos sexos
tre os sexos, a menina se perceberia castra- ou dos gêneros (uma Geschlechtstheorie), mas
da. A menina reconheceria forçosamente a antes uma teoria do sexual, ou seja, de uma
inferioridade de seu clitóris em relação ao sexualidade essencialmente não procriadora
invejado pênis, o que deixaria nela não ape- e, portanto, alheia às questões da sexuação.
nas uma profunda ferida narcísica, mas uma De fato, a sexualidade foi concebida como
rancorosa decepção com a mãe, a quem a sendo marcadamente infantil, tributária das
menina viria necessariamente atribuir a res- pulsões parciais, logo mais ligada à fantasia
ponsabilidade por não lhe transmitir um pê- que ao objeto por sua vocação autoerótica.
nis (diferentemente do menino, para quem a Sua expressão seria notadamente oral, anal e
ameaça de castração estaria sempre ancora- paragenital.
da no pai). No entanto, essa concepção revolucioná-
Tal complexo de castração poderia ter três ria da sexualidade humana como sendo fun-
encaminhamentos típicos na menina: damentalmente infantil e perverso-polimor-
• a inibição sexual ou neurose; fa se construiu em clara tensão com a ideia
• um complexo de masculinidade, não de uma organização libidinal que desembo-
necessariamente acompanhado de uma es- caria no primado da genitalidade sobre as
colha de objeto homossexual; demais zonas erógenas, ao mesmo tempo em
• uma feminilidade “normal” – leia-se he- que o caráter contingente do objeto pulsio-
terossexual – se possível coroada pelo nasci- nal parecia ter de, pouco a pouco, ceder vez
mento de um filho, substituto ideal do falo, à possibilidade de estabilização das relações
principalmente quando menino. com “objetos totais”, preferencialmente hete-
Aos seus olhos, diferentemente do meni- rossexuais.
no, que teria no pai, ao final do Édipo, seu Preciado (2011) chama a atenção para
modelo identificatório “natural”, a identifica- esse engodo da heterossexualidade como

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norma, tanto em sua acepção normatizante pacientes que a identidade de gênero seria
como normalizadora, das quais sequer nosso resultado de fatores ambientais, deslocando
genial Freud conseguiu escapar de todo. o eixo da determinação pela natureza (na-
Elx denuncia que ture) para a cultura (nurture), esquecendo,
no entanto, de contemplar a dimensão do
[...] a (hetero)sexualidade, longe de surgir inconsciente tanto dos pais quanto do bebê
espontaneamente de cada corpo recém-nas- na formação do núcleo identitário de gênero.
cido, deve se reinscrever ou se reinstruir atra- Em 1968, Robert Stoller integrou pela pri-
vés de operações constantes de repetição e de meira vez o termo “gênero” em uma teori-
recitação dos códigos (masculino e feminino) zação especificamente psicanalítica, no âm-
socialmente investidos como naturais (Pre- bito de um estudo clínico sobre indivíduos
ciado 2011, p. 26). transexuais. Para ele, sexo estaria no campo
da anatomia, ao passo que gênero estaria
Assim, a contaminação implícita das teo- no campo do sentimento social ou psíquico
rias freudianas iniciais pela lógica reproduti- da identidade sexual. Importaria, portanto,
va, dismórfica e heteronormativa do século compreender como se daria a transmissão-
XIX foi o que, de certa forma, estreitou por constituição do gênero no sujeito, sobretudo
longo tempo o horizonte de duas de suas quanto esse gênero se manifesta em desacor-
concepções mais radicalmente originais: a do com os fatores biológicos.
pulsionalidade do animal humano e a se- Diferentemente da teoria freudiana, que
xualidade infantil perverso-polimorfa. Esses partia da posição do sujeito em relação ao
conceitos serão objetos de prolíficas releitu- primeiro objeto libidinal, Stoller (1984) le-
ras, como veremos a seguir. vava em consideração o primeiro “objeto” de
Por enquanto, consideremos que é por identificação. Assim, a feminilidade passava
conta justamente da ênfase na genitalida- a ser primária, vez que tanto o menino como
de e de suas implicações teóricas que as a menina teriam a mãe como primeiro obje-
ideias freudianas se interseccionam com to de identificação, na fase fusional do bebê.
os debates em torno do sexo e do gênero. Segundo essa teoria, o menino é que pas-
Mas, para compreendermos isso, é neces- saria a ter dificuldades no percurso de assun-
sário antes acompanhar brevemente como ção de sua masculinidade, já que, para tanto,
se deu a separação dos conceitos de sexo e teria de se desidentificar da mãe.
gênero. Note-se que, apesar de dar ênfase às
Foi Money, psicólogo e sexólogo neoze- comunicações inconscientes entre o psi-
landês, no âmbito de seus estudos com in- quismo dos pais e o do sujeito em consti-
divíduos intersexuados ou de outra forma tuição, Stoller não despreza a dimensão da
comprometidos quanto ao reconhecimento biologia, chegando mesmo a falar do con-
inequívoco de suas genitálias externas por ceito de imprinting, tributário da etologia,
causas congênitas ou acidentais, quem, em como um mecanismo atuante no processo
1955, primeiro propôs a distinção entre sexo, de constituição subjetiva. O imprinting,
enquanto referente bio-anátomo-fisiológico, tal como o conceito de imitação explora-
e gênero. Quanto ao gênero, distinguiu ainda do psicanaliticamente por Gaddini (vide
a função de gênero, relacionada ao compor- Ribeiro, 2010), seria algo da ordem de um
tamento socialmente observável do indiví- vestígio biológico na genealogia das iden-
duo, da identidade de gênero, relacionada ao tificações, sendo anterior às incorporações
sentimento de si. e às introjeções.
Money sustentou polemicamente e com À propósito de identificações, Joyce
consequências trágicas para alguns de seus Mcdougall nos lembra que

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Buck Angel, transexualidade e gênero– algumas considerações psiqueeranalíticas sobre os sexos de Angel

[...] o aspecto egossintônico das escolhas e mente se apresentou como mais enigmática
práticas sexuais revela a presença de podero- para os teóricos da psicanálise, carecendo de
sas identificações – e contraidentificações – estudos mais aprofundados.
com objetos introjetados de um tipo altamen-
te complexo (Macdougall, 2001, p. 192). Transexualidade, notadamente
a feminina, à luz da psicanálise
Podemos acrescentar, com Laplanche A questão da transexualidade nos interroga
(2015) que não apenas o aspecto sexuado, e implica enquanto enigma. Com referências
mas principalmente o aspecto sexual dos que remontam à mitologia grega e mesmo a
pais se infiltram na designação do gênero e, outras tradições culturais do ocidente e do
consequentemente, nas identificações que oriente, o trânsito de corpos entre o espec-
influenciam na assunção de uma identida- tro das apresentações masculina e feminina
de de gênero pelo sujeito. Afinal, o sujeito mostra sua persistência fantasmática no in-
se identifica não apenas com a imagem que consciente humano.
consegue capturar do outro mediatizada pela No entanto, há um certo consenso no
sua própria fantasia, como também com o sentido de identificar a transexualidade, tal
que imagina ser o objeto do desejo do outro. como ora se afigura, como um fenômeno es-
Nesse sentido, tritamente moderno, pois somente graças à
ascensão do biopoder e à evolução das tec-
[...] a psicossexualidade do sujeito é uma solu- nologias biomédicas de intervenções cor-
ção – ou se preferirmos um sintoma, no senti- porais, a fantasia de mudança de sexo pôde,
do psicanalítico do termo: uma formação de enfim, ser objetivada no corpo.
compromisso – frente às múltiplas variáveis Como qualquer manifestação de subjeti-
com as quais o bebê tem que lidar desde seu vidade, a transexualidade existe no tempo e
nascimento (Ceccarelli, 2013, p. 19). põe em questão os pontos de tensão entre
as individualidades e os pactos de pertenci-
O que em todo caso não se pode esque- mento de uma sociedade. Podemos perceber
cer em psicanálise é que nem a anatomia seu apelo ao inconsciente cultural no esforço
nem o ambiente determinam integralmente de elaboração do tema, eis que há uma proli-
o sujeito, havendo sempre margem para a feração de livros, filmes e séries, não apenas
criatividade. Em outras palavras, se, por um ensaísticos e documentais, mas também fic-
lado, os fatores contingentes, congênitos ou cionais sobre o assunto.
acidentais têm clara participação na cons- Também os debates em torno das ques-
tituição subjetiva, “[...] é evidente que o es- tões de gênero proliferam em múltiplos cam-
sencial acontece em outro lugar, na maneira pos de produção de saber e cada vez mais se
como o sujeito os vê, os considera, os inves- beneficiam, não apenas com o diálogo, mas
te” (Bonnet, 1999, p. 48). É essa investigação com o efetivo protagonismo da comunidade
em torno da singularidade, da contribuição LGBT (QI).
criativa do sujeito na solução encontrada A psicanálise, por sua vez, como já men-
para sua existência psíquica através da tran- cionado, vai também se deixando atravessar
sexualidade que nos interessa. pelas discussões em torno das teorias do as-
A seguir, veremos que, tal como a sexuali- sim chamado terceiro feminismo, sofrendo
dade feminina permaneceu um enigma para suas críticas e amadurecendo com e a partir
Freud, sendo objeto de uma significativa re- delas.
leitura na fase final de sua obra, o que infeliz- Atualmente, por exemplo, mesmo que
mente não será possível explorar no presente ainda refletindo uma posição conservadora,
trabalho, a transexualidade feminina igual- vale ressaltar que o Dicionário de psicanálise,

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de Elisabeth Roudinesco e Michel Plon de- sexualidade masculina, por fugir ao escopo
dica um verbete ao “transexualismo” e, ain- do nosso trabalho. Apenas devemos ter em
da mais notavelmente, ventila a questão da mente que Stoller (1982) deu ênfase aos fa-
transexualidade no próprio verbete dedica- tores ambientais e transgeracionais para a
do à bissexualidade, conceito desde sempre constituição da identidade sexual em detri-
central da psicanálise. mento dos fatores anatômicos, contribuin-
De fato, em seus Três ensaios sobre a teo- do para descolar a suposta coerência entre
ria da sexualidade ([1905] 1996), Freud reco- anatomia, identidade de gênero e orientação
nhece “[...] uma predisposição originalmente sexual.
bissexual, que, no curso do desenvolvimento, Vale notar, no entanto, que o próprio fato
vai se transformando em monossexualidade” de haver uma etiologia específica e diferen-
(Freud [1905] 1996, p. 134) e a ilustra justa- ciada para a transexualidade masculina e fe-
mente com um caso de transexualidade: minina em Stoller permite entrever o quanto
sua teoria ainda é influenciada por uma con-
A doutrina da bissexualidade foi exprimida cepção essencialmente binarista.
em sua mais crua forma por uma porta-voz Stoller teve clinicamente um menor con-
dos invertidos masculinos: ‘um cérebro fe- tato com transexuais femininos, o que o le-
minino num corpo masculino’. Entretanto, vou a concluir que a manifestação da tran-
ignoramos quais seriam as características de sexualidade feminina seria menos frequen-
um ‘cérebro feminino’. A substituição do pro- te que a manifestação da transexualidade
blema psicológico pelo anatômico é tão inútil masculina, reforçando sua hipótese de que
quanto injustificada (Freud, [1905] 1996, p. a construção da masculinidade seria, em si,
135). mais problemática do que a da feminilidade.
Sua hipótese geral é de que a garotinha
Essa recusa a um determinismo anatô- transexual é designada e tratada ao nascer
mico é talvez precursora da pensabilidade normalmente como menina por seus pais.
queer. Aliás, em que pesem as críticas à psi- Talvez seus pais preferissem ou tivessem a
canálise, Judith Butler reconhece textual- expectativa de um filho do sexo masculino,
mente o seguinte: mas não necessariamente.
A menina transexual nasceria de uma
[...] não há melhor teoria para apreender os mãe feminina (em contraste com a mãe de
mecanismos da fantasia, percebidos não ape- histórico bissexual do transexual masculi-
nas como um apanhado de projeções em uma no), mas que, em algum ponto de sua relação
tela interior, mas como parte da própria re- inicial com a filha, se tornaria adoentada ou
lacionalidade humana. É com base nessa re- deprimida.
velação que podemos compreender como a Assim, ao invés de desfrutar de uma sim-
fantasia é essencial para uma experiência do biose excessivamente prolongada e não con-
corpo próprio, ou do de outrem, enquanto flitiva com a mãe, como na hipótese etiológica
generificado (Butler, 2013, p. 15, tradução do menino transexual, a menina transexual
nossa). não seria objeto de nenhum investimento
expressivo, seja narcísico, seja libidinal, por
Como vimos, Stoller foi, na psicanálise, o parte da mãe, sendo levada a uma formação
primeiro a pensar um modelo de causação egoica, portanto defensiva, precoce. Devido à
específico para a transexualidade, mormen- carência de investimento, a menina acabaria
te a masculina. Em que pese sua relevância se voltando para o pai, em quem encontraria
e originalidade, não adentraremos a discus- um modelo identificatório. Ao desenvolver
são em torno da origem stolleriana da tran- qualidades e maneirismos tidos como mas-

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Buck Angel, transexualidade e gênero– algumas considerações psiqueeranalíticas sobre os sexos de Angel

culinos, seria inconscientemente encorajada Além de Stoller, Lacan se pronunciou ex-


a fazê-lo, tanto pelo pai, que a tomaria como pressamente sobre o “transexualismo”, no-
companheira de atividades, como pela mãe, tadamente o masculino, situando-o, inicial-
para quem a menina pouco a pouco repre- mente, no campo estrutural das psicoses.
sentaria um substituto masculino de um pai A psicanalista francesa Catherine Millot
que se vinha mostrando indiferente ou reati- (1992), de filiação lacaniana, não parece
vo ao precário estado emocional da mãe. alocar os transexuais femininos (os homens
Diferentemente do menino transexual, a trans) propriamente no espectro das psico-
garotinha transexual entraria em uma dinâ- ses, considerando o recurso às intervenções
mica edípica, tomando a mãe por objeto e cirúrgicas ou o apelo ao “Outro da ciência”
rivalizando/se identificando com o pai. Isso, (Millot, 1992, p. 122) exatamente como
de certa forma, aproximaria a transexuali- suplência ao Nome-do-Pai pela via do real,
dade feminina de uma homossexualidade estabilizando e prevenindo uma possível de-
acentuadamente masculinizada. Stoller des- flagração da psicose. A transexualidade teria,
carta um gozo perverso-travestista no tran- sob esse ponto de vista, a mesma função do
sexual feminino, por entender que a adoção estilo ou sinthoma reconhecido à escrita de
da aparência masculina não traria em si mes- Joyce.
ma nenhuma excitação sexual ao indivíduo. Millot chama a atenção para a fala de um
Em que pesem as tentativas de cataloga- cirurgião que operava transexuais femini-
ção de suas causas, Stoller reconhece que a nos: “[...] elas querem ser como todo mundo,
etiologia da transexualidade feminina não ou seja, homens” (Millot, 1992, p. 89), re-
é de forma alguma clara. No entanto, ao su- lançando, assim, toda a questão da centrali-
por uma depressão materna em sua origem, dade fálica.
parece reconhecer-lhe um caráter um pouco Como contraponto as posições psicana-
mais defensivo e, portanto, uma matriz mais líticas, podemos citar as opiniões de Gerald
conflitiva do que na transexualidade mascu- Ramsey (1998), um psicólogo norte-ameri-
lina. Retornaremos à suposta questão defen- cano com larga experiência de consultoria
siva da transexualidade feminina na discus- em comissões de avaliação de redesignação
são referente à perversão. sexual. Ramsey diz categoricamente que, a
No mais, conquanto muitas vezes se re- seu ver, os transexuais “não são normais”,
ferisse à transexualidade como um com- embora possam ter uma vida “próxima do
portamento “aberrante”, Stoller (1982, p. normal” com o devido “apoio médico e psi-
39) criticava frontalmente o uso do termo cológico” (Ramsey, 1998, p. 48). Descarta
transexualismo como diagnóstico, alertan- também os fatores ambientais na emergência
do para o fato de que “[...] os indivíduos que dos quadros de transexualidade.
experienciam qualquer um desses estados se Mostrando ainda sua filiação ao pensa-
assemelham menos do que se diferenciam”. mento médico, Ramsey diferencia os transe-
Ele também considerava um erro grossei- xuais operados e pré-operatórios (binários)
ro tentar filiar a transexualidade à psicose, daqueles que não desejam necessariamente
esclarecendo que a crença que o transexual implementar mudanças físicas em seu corpo
possui de se encontrar “no corpo errado” não (não binários), considerando que os primei-
tem natureza delirante, já que ele não desco- ros terão melhores chances de ser acolhidos
nhece a realidade do corpo. Simplesmente socialmente do que os segundos, já que estes
esse corpo não seria “[...] o corpo de sua rea- últimos parecerão se mover no registro de uma
lidade psíquica, que responde à representação “escolha” mais do que de uma “compulsão”.
de sua identidade sexuada” (Ceccarelli, Com isso, Ramsey chama a atenção para
2013, p. 165, grifo do autor). um dos aspectos mais ambivalentes da ques-

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tão diagnóstica em torno da transexualida- dade, parece que o verdadeiro teste recai na
de. Ao mesmo tempo em que o diagnóstico possibilidade de indivíduo ser capaz ou não
patologiza a condição transexual, ele, de cer- de se ajustar à linguagem do diagnóstico.
ta forma, isentaria o sujeito de “culpa” aos Outra questão que certamente contribui
olhos da sociedade. para a baixa procura da psicanálise para in-
Atualmente, a transexualidade deixou divíduos que apresentam um quadro pre-
de ser considerada um transtorno de iden- coce de transexualidade, a exemplo do que
tidade de gênero (Classificação Estatística ocorre com as crianças autistas, é o temor
Internacional de Doenças e Problemas de uma certa margem de culpabilização por
Relacionados à Saúde – CID-10) para figurar parte dos pais.
como disforia de gênero, conforme última Vale dizer que há um esforço crescente
edição do Manual diagnóstico e estatístico de entre os psicanalistas para repensar as teo-
transtornos mentais – DSM V. rias, de modo a desconstruir qualquer laivo
Curiosamente, o referido manual ele- aprioristicamente patologizante de suas for-
ge como indícios diagnósticos, sem o dizer mulações, seja a partir de novos alcances ao
claramente, três formações privilegiadas do conceito de feminilidade em Freud (Birman,
inconsciente, a saber: a representação do in- 1999); de releituras do assim chamado últi-
divíduo como pertencente ao sexo oposto mo Lacan, centrado no real (Cossi, 2015); ou
em seus sonhos, suas fantasias e suas brin- ainda com base na retomada de uma radica-
cadeiras. lidade pulsional a partir da profícua revisão
Apesar de o reconhecimento de algo da de Deleuze e Guatarri (Peixoto Jr, 2010).
ordem do inconsciente aparentemente ficar É de fato revolucionário considerar que o
implícito no diagnóstico, a realidade é que masculino a que Buck Angel dá corpo seria
poucos indivíduos atravessados pela questão um exemplo categórico da assunção da femi-
da transexualidade chegam aos consultórios nilidade (não do feminino), calcada no de-
de orientação psicanalítica. samparo, conforme a entende Birman.
Um dos fatores que desfavorece a procu- Em entrevista veiculada na revista Carta
ra de análise pelos transexuais é a obriga- Capital (2015), Buck Angel afirma que sua
toriedade de comprovação de atendimento ideia do que é ser homem é ser
psicoterápico por profissional credenciado
(psicólogo) como critério de acesso às inter- [...] vulnerável, amoroso, amar a mim mesmo
venções hormonocirúrgicas. Tais terapeutas e entender que somos humanos. Eu acho que
teriam que, a partir de laudos, comprovar temos de retreinar os homens para que sejam
que o paciente seria legalmente elegível aos mais respeitosos. Não é só porque você é um
programas de modificação corporal. Assim, homem que é a coisa mais importante desse
o escopo da terapia se torna viciado por uma mundo, e acredito que muitos homens pen-
finalidade prescritiva, de lógica médica, le- sem assim.
vando a que muitos transexuais adequem
seu discurso ao que é descrito nosografica- Parece com isso ilustrar a seguinte coloca-
mente como “transexualidade verdadeira”, e, ção de Birman:
portanto, mascarando as diversidades e sin-
gularidades individuais. Enquanto pelo falo o sujeito busca a totaliza-
Judith Butler (2013, p. 93) alerta que “[...] ção, a universalidade e o domínio das coisas
apesar de a suposta meta do diagnóstico ser e dos outros, pela feminilidade o que está em
a de constatar se o indivíduo poderia se ajus- pauta é uma postura voltada ao particular,
tar de forma bem-sucedida a viver de acordo ao relativo e ao não-controle sobre as coi-
com as normas do outro gênero”, na reali- sas. Por isso mesmo, a feminilidade implica

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Buck Angel, transexualidade e gênero– algumas considerações psiqueeranalíticas sobre os sexos de Angel

a singularidade do sujeito e as suas escolhas vimento queer fez com o impropério que lhe
específicas, bem distantes da homogeneidade dá nome, tatuando-o nas costas.
abrangente da postura fálica. A feminilidade Curiosamente, Buck diz que diversas
é o correlato de uma postura heterogênea que pessoas confundem o “PerVert” (perverti-
marca a diferença de um sujeito em relação a do/perverso) de sua inscrição corporal com
qualquer outro (Birman, 1999, p. 10). “PerFect” (perfeito). Poderíamos especular
se essas pessoas acaso não trairiam pelo ato
Agora que estamos um pouco mais fami- falho a nostalgia inconsciente pelas posições
liarizados com as questões do sexo, do gê- pulsionais sacrificadas em favor da assunção
nero e da transexualidade, vejamos o que a de um único sexo.
psicanálise teria a nos dizer quanto a se Buck Afirma, mais radicalmente freudiano que
Angel seria ou não um perverso, conforme o próprio Freud, que, para ele, ser perverso é
sua tatuagem destaca. simplesmente estar em contato com e exer-
cer livremente a própria sexualidade em to-
“Pervert”: será que ele é? das as suas potencialidades, sem nenhuma
Como vimos, a sanha classificatória pode restrição além da consensualidade dxs outr-
muitas vezes deslocar perigosamente a le- xs adultxs com quem se relacione.
gítima pergunta “quem é” o transexual, in- Nisso parece convergir com a ideia da
teressada em escutá-lo a partir de sua sin- perversão enquanto marca pulsional da se-
gularidade, para “o que é” um transexual, xualidade infantil perverso-polimorfa, di-
como uma forma de objetificá-lo ao desejo vergindo, por outro lado, diametralmente da
de um conhecimento que se pretenda to- classificação de perversão proposta por Joyce
talizante. Mcdougall (2001), para quem só deveriam
Quanto a Buck Angel há quem diga, mes- ser considerados perversos, na acepção aber-
mo entre o público leigo, que seu corpo, ex- rante do termo, justamente os atos que des-
tremamente musculoso, é, como um todo, considerassem o consentimento do outro,
fálico; como também seria fálico o próprio tomado na relação sexual estritamente como
uso que faz de sua vagina enquanto vantagem objeto, sem qualquer reconhecimento à sua
competitiva no segmento de mercado porno- alteridade. Segundo esse entendimento, se-
gráfico. Essas críticas parecem ter como pano riam exemplos paradigmáticos de perversão
de fundo a ideia de que Buck Angel recusaria a pedofilia, a necrofilia e o bestialismo.
por meio desses procedimentos sua ausência Podemos observar que o termo “per-
de pênis, portanto, sua “castração”. A própria versão”, intrinsecamente plurívoco, é con-
comunidade LGBT(QI) o acusa por vezes de sequentemente equívoco em sua utilização
“fetichizar” mediante seu comportamento a conceitual. Há, por um lado, uma pecha
transexualidade feminina. negativa e derrisória em seu emprego so-
Há ainda quem diga que seu discurso de cial, com conotações claramente doentias ou
empoderamento da vagina deve ser tomado, socialmente indesejáveis, a oscilar entre as
em uma visão estritamente falocêntrica, bi- práticas sexuais tomadas como aberrantes e
narizante. Em “psicanalês” seria algo como repulsivas até os extremos da sociopatia, do
uma manifestação da inveja do pênis, não assassino desafetado e sem culpa:
reconhecendo a potência subversiva do des-
construtivismo de sua proposta. [...] na perversão o sujeito manipula sempre o
Foi de tanto ser xingado de “pervert” (si- outro como objeto para o seu gozo, mediante
nônimo de pervertido, degenerado, aberran- o qual pode incrementar sua posição fálica.
te), que Buck Angel decidiu se apropriar or- Não podendo reconhecer o outro na sua dife-
gulhosamente do termo, assim como o mo- rença, o sujeito considera o outro na perver-

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são como um objeto a ser predado e depreda- conforme o grau de inventividade do gesto
do, mera carne a ser canibalizada, para que se criador.
possa expandir o território de sua onipotên- Por outro lado, como o próprio Buck
cia (Birman, 1999, p. 45). afirma, sua prática sexual tende para o reco-
nhecimento da alteridade de seus parceirxs,
Por outro lado, há uma tentativa de posi- tendo como condição a consensualidade, fa-
tivação das saídas perversas, enquanto amar- zendo com que, sob essa outra ótica, ele não
rações defensivas contra a psicose ou ainda se enquadre no conceito de perversão.
como possibilidade de existência psíquica Se admitirmos, com Stoller (1982), que a
para o sujeito. transexualidade de Buck Angel poderia ser
Mcdougall é uma das maiores expoentes vista como a expressão de seu verdadeiro self,
dessa corrente, esforçando-se para realçar ainda que necessariamente mediada pelo seu
“[...] a singularidade das montagens sinto- falso self social, também o retiramos do es-
máticas naquilo que elas possuem de cria- pectro da perversão reconhecido por aquele
ções enquanto tentativas de cura de si mes- autor, para quem a perversão seria um com-
mo e de evitação do sofrimento psíquico”, no promisso firmado à custa de um eu primitivo
que constituiriam técnicas de “sobrevivência que nunca mais seria visto, tendo em vista a
psíquica” (Ferraz, 2015, p. 29). defesa perversa ser “profunda e eroticamente
Justamente para contornar a conotação agradável” (Stoller, 1982, p. 2).
negativa do termo perversão é que ela pro- De fato, o autor entende que
põe alternativamente a utilização de “neos-
sexualidades”. [...] o desenvolvimento da masculinidade ou
Buck Angel poderia talvez ser classificado da feminilidade nos transexuais é como nas
como um perverso segundo a primeira teoria pessoas normais – nas quais esse desenvolvi-
da perversão em Freud, conquanto se permi- mento é mais frequentemente o resultado de
te realizar concretamente fantasias profun- forças não conflitivas do que nos casos de de-
damente recalcadas no ideário neurótico. sordens familiares de identidade genérica (as
Dessa forma, sua sexualidade apontaria para perversões) (Stoller, 1982, p. 4).
o pulsional, no sentido daquilo que aponta
para o que é “universalmente humano e ori- Como vimos, compreender Buck Angel
ginário” (Freud, [1905] 1996, p. 180). como perverso ou não depende fundamen-
Vale lembrar que, para Freud, as pulsões talmente do referencial teórico adotado. Se,
em si mesmas conforme sua proposta, nos despimos de
preconceitos e categorizações quanto ao ter-
[...] seriam designadas de perversas (no senti- mo e o abraçamos em sua humanidade, in-
do mais lato) se pudessem expressar-se dire- dagamos provocadoramente e com ele: por
tamente, sem desvio da consciência, em pro- que não ser?
pósitos da fantasia e em ações (Freud, [1905]
1996, p. 157). (In)conclusões
Ao longo de sua vida, Buck Angel atravessou
Nesse contexto, cabe refletir que a subli- intensos conflitos entre sua autoimagem,
mação e a cultura remontam justamente à seu sentimento de si e o olhar desaprova-
força das pulsões parciais (perversas), quan- dor dos outros, até engendrar em seu cor-
do estas, em lugar de ser recalcadas, encon- po uma montagem singular que, ao mesmo
tram um outro destino, um agenciamento tempo que representa sua sexuação psíqui-
criativo, podendo, então, ser integradas à ca, permite-lhe acesso aos seus modos de
realidade, ornando-a ou modificando-a, gozar.

Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 91–110 | julho/2017 107


Buck Angel, transexualidade e gênero– algumas considerações psiqueeranalíticas sobre os sexos de Angel

De fato, os efeitos de seu percurso tera- Acreditamos que, por provocação das
pêutico parecem ter sido, entre outros, per- teorias queer e das novas correntes filosóficas
mitir-lhe alinhavar fantasisticamente uma de viés desconstrutivistas e de pensamento
imagem corporal integrada, viabilizadora complexo, a própria psicanálise pode, enfim,
de seu modo próprio de gozar; o fortale- reabilitar como válida a pensabilidade pro-
cimento de um espaço egoico de onde ele posta no modo de atuação do processo pri-
pode enunciar um modo singular de ser, mário, onde as diferenças não são oponíveis,
permitindo que seus conflitos intrapsíqui- disjuntivas ou mutuamente excludentes,
cos e intersubjetivos se tornem gradativa- mas, ao contrário, onde se realizam conjun-
mente menos ameaçadores e, ainda, o re- ções díspares, amigas da complexidade dos
curso a algumas formas bastante peculiares paradoxos.
de sublimação. Esse é o “raciocínio” da pulsão, essa “a lei
Entre os muitos conceitos da psicanálise dos objetos parciais” para os quais
que sua corporeidade e atividade sexual nos
convidam proficuamente a revisitar estão [...] nada falta, nada pode ser definido como
certamente o caráter perverso-polimorfo da falta, e as disjunções no inconsciente nunca
sexualidade humana; os conceitos de pulsões são exclusivas, mas objeto de um uso propria-
parciais e relações de objeto; o autoerotismo; mente inclusivo que é preciso analisar (Pei-
o narcisismo; a bissexualidade psíquica cons- xoto Jr., 2010, p. 28).
titucional do ser humano (ou as “N” sexuali-
dades de Deleuze); a imagem (inconsciente) Para Jô Gondar (2014), “[...] as teorias
do corpo, nesta incluindo-se a montagem queer denunciam a contingência histórica
fantasística da corporeidade assim como as da redução binária das sexualidades”, o que
repercussões das modificações corporais nas configura uma importante contribuição para
posições fantasísticas que subjazem ao gozo a psicanálise e para a cultura.
e, como vimos, até mesmo o conceito de su- Em contrapartida, a psicanálise também
blimação. teria uma contribuição a fazer, a saber, lem-
Patrícia Porchat (2014) nos exorta a que, brar da dimensão trágica de cada modo de
se a psicanálise pretende exercer sua voca- sexuação: “[...] binária ou múltipla, sexuali-
ção subversiva, é preciso repensar a teoria de dade é conturbação [...], um território de im-
modo que passe e uma questão em aberto” (Gondar,
2014 p. 65). A cada um, portanto, o preço
[...] as posições de sexuação não reproduzam inafiançável de ser si mesmo.
os gêneros existentes em sua maneira clássica, Se caberia a cada um “[...] encontrar os ca-
espelhos do dimorfismo sexual. Mesmo por- minhos de seu desejo e seus modos próprios
que a psicanálise não tem que reproduzir o de situar-se quanto ao sexo” (Gondar, 2014,
discurso da maioria e, sim, permitir o discur- p. 66), Buck Angel parece ter encontrado os
so do singular (Porchat, 2014, p. 134). seus. Mais do que isso, parece ter compreen-
dido que a vida se trata de percurso, mais do
Adaptando o que Marco Antonio que de pontos de chegada. Coloca-se do lado
Coutinho Jorge disse a respeito da luta pela do devir, ao enunciar que a transição é um
despatologização das homossexualidades, processo permanente, tal como a vida: um
podemos consentir que também a(s) transe- fluxo dinâmico e contínuo. Põe-se em mar-
xualidade(s) é/são “subversiva(s), pois mani- cha e transita pelas múltiplas potências dos
festa(m), em ato, a existência no ser falante espaços possíveis e nos leva a passeio pelas
de uma liberdade absoluta em relação ao na- possibilidades tantas de inexplorados espa-
tural” (Jorge, 2013, p. 24). ços potenciais.

108 Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 91–110 | julho/2017


Roberta de Oliveira Mendes

Abstract BUTLER, J. Problemas de gênero: feminismo e


The present article reflects on sex, gender and subversão da identidade. Tradução de Renato
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blic by Dan Hunt’s documentary “Mr. Angel”. 2004.
Moreover, the article addresses the inscription
CECCARELLI, P. R. Transexualidades. 2. ed. São
of “PerVert”, that the said transexual activist
Paulo: Casa do Psicólogo, 2013.
displays in a tattoo, rediscovering the subver-
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Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 91–110 | julho/2017 109


Buck Angel, transexualidade e gênero– algumas considerações psiqueeranalíticas sobre os sexos de Angel

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Sobre a autora
PERSON, E. S.; OVESEY, L. Teorias psicanalíticas de
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e Eduardo Seincman. In: CECCARELLI, P. R. (Org.). Advogada e bacharel em direito
Diferenças sexuais. São Paulo: Escuta, 1999, p. 121- pela Universidade Federal do Ceará (UFC).
150. Mestre em Direito de Integração Europeu
(Magister des Europäischen Rechts, Legum Magister
PORCHAT, P. psicanálise e transexualismo: des- – LL.M.Eur.) pela Universidade de Würzburg,
construindo gêneros e patologias com Judith Butler. Alemanha.
Curitiba: Juruá, 2014. Psicanalista e membro efetivo do Círculo Brasileiro
de Psicanálise - Seção Rio de Janeiro (CBP-RJ).
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110 Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 91–110 | julho/2017


Rodrigo Zanon de Melo

Em busca do tempo sensível:


os ruídos paradoxais da sexualidade
na ampliação da escuta da identidade de gênero
In search of sensible time:
paradoxical noises of sexuality
on the expansion of a psychoanalytic listening from gender identity

Rodrigo Zanon de Melo

Resumo
A ampliação da escuta sobre a diversidade da identidade de gênero enquanto não patológicas.
Comentários sobre Jean Laplanche, Jacques André, Paulo Ribeiro e Pierre Fédida abordando a
relação entre sexo, gênero e alteridade. O paradoxo da relação inicial da sexualidade traumá-
tica, mas estruturante, do encontro assimétrico adulto e infans. A ligação entre feminilidade
primária e identificação feminina primária. A necessidade da ampliação da escuta sobre essas
questões. Reflexões a partir de um caso em que a transexualidade se apresentava como ma-
nifestação estruturante/identitária junto a uma sintomatologia além da psicanálise clássica:
Édipo, recalque e representação.

Palavras-chave: Identidade de gênero, Alteridade, Teoria da sedução generalizada, Trauma,


Feminilidade primária, Transexualidade, Transferência, Contratransferência, Tempo sensível.

Aí está a rocha, ou antes,


aí está a fechadura cuja chave se perdeu.
Mas antes de ter sido perdida pelo próprio sujeito,
no processo de recalcamento, foi, mais profundamente,
perdida pelo outro, o outro adulto,
o outro da sedução originária.
Perdida para sempre para a criança
Jean Laplanche

Introdução: tradução, feminilidade primá- psíquica. Assim, trabalha a possibilidade das


ria e o estranho na transferência origens da pulsão e do inconsciente como
Em seu trabalho sobre a teoria da sedução produtos da inoculação da sexualidade do
generalizada (1988) Laplanche descreve o outro, a partir do recalcamento originário,
encontro inicial traumático entre o adulto e implicando o trabalho de representação sim-
o infans, tendo como principal objetivo atri- bólica da criança ao procurar metabolizar os
buir a preeminência do outro na constituição elementos heterogêneos advindos do campo
Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 111–128 | julho/2017 111
Em busca do tempo sensível: os ruídos paradoxais da sexualidade na ampliação da escuta da identidade de gênero

do mundo adulto – significantes enigmáti- [...] Ainda, a primeira inscrição não necessi-
cos e desconhecidos dos próprios adultos – ta de uma tradução, ela é pura e simples im-
que projetam sobre a criança um discurso plantação. As mensagens adultas enigmáticas
marcado pela sexualidade. Não se trata da suportam uma espera, um remanejamento,
sedução perversa de um abusador, e sim da um deslocamento, sendo que alguns de seus
sedução entendida num sentido lato, a sedu- aspectos são traduzidos, enquanto que ou-
ção generalizada, já que nenhum adulto está tros elementos são excluídos da tradução e
imune aos efeitos de seu próprio inconscien- tornam-se inconscientes (Laplanche, 1999
te ao lidar com a criança em pleno estado de apud Neto; Paula, 2013, p. 157).
desamparo.
Essas mensagens são, em um mesmo mo- Além de Laplanche, outros dois autores
mento, enigmáticas e traumáticas, não tanto conseguiram resgatar sob outros prismas a
pelo simples fato de que a criança não possui relação entre sexo, gênero e primazia da alte-
o código delas e teria de adquiri-lo, mas por- ridade. Trata-se de Jacques André e Paulo de
que o mundo do adulto é infiltrado por signi- Carvalho Ribeiro, que têm como caracterís-
ficantes inconscientes e sexuais dos quais ele tica comum o fato de trabalhar com a ideia
mesmo não possui o código (André, 1996). de feminilidade nas origens da formação do
Isso produziria um difícil trabalho de sim- psiquismo.
bolização, sempre parcial, deixando sempre Jacques André dá um tratamento à femi-
um resto intraduzível, deformado, que dará nilidade ampliando o conceito, levando o
lugar à fantasia inconsciente. pensamento psicanalítico rumo às origens
Em um primeiro momento, essas mensa- femininas da psicossexualidade em geral.
gens ficariam implantadas no corpo da crian- Para o autor, a feminilidade é a principal
ça sem a apropriação do eu; em um segundo simbolização da violência e da penetração,
momento, através do trabalho tradutivo, se- que marcam os momentos originários do
ria instaurado o recalque originário, cujos psiquismo, por isso mesmo, tornando-se
restos não traduzidos formariam a pulsão e o recalcado por excelência tanto nos homens
inconsciente. É a partir do modelo tradutivo quanto nas mulheres, tendo como principal
que o autor reformula o conceito de gênero, agente recalcante dessa feminilidade origi-
sem deixar de fora a sexualidade, o incons- nária o discurso falocêntrico.
ciente e a temporalidade do a posteriori, sem Ribeiro, seguindo o pensamento de
cair no discurso das divisões corpo-mente e André, desenvolveu seu conceito de ‘identi-
biológico-sociólogo, alertando para o peri- ficação feminina primária’ tendo como ideia
go que representaria pensar em gênero sem central a organização da ação traumática
sexualidade. O pensamento laplancheano e invasiva da sexualidade inconsciente do
recupera a sexualidade, tão importante na adulto sobre a criança, através de uma pri-
obra freudiana e problematiza o conceito de meira identificação feminina que, segundo
gênero implicando o efeito traumático da ele, funcionaria como uma formação nar-
constituição psíquica. císica ainda hesitante entre a unificação e a
dispersão.
De acordo com o modelo de tradução – des- Em um artigo passado,1 trabalhamos uma
tradução – retradução laplancheano, a men- faceta clínica, um caso de transexualidade
sagem do outro é retraduzida, seguindo uma
direção temporal alternadamente retrogres- 1. MELO, R. Z. Quando o Édipo não é o destino: pensando
siva e progressiva, pois o sujeito tende a in- o fenômeno transexual como possibilidade identificatória e
de existência psíquica, artigo publicado na revista Estudos
terpretar seu passado, que apela para uma de Psicanálise, Belo Horizonte, n. 45, p. 149-165, jul. 2016.
tradução, em vista de sua situação presente Publicação semestral do Círculo Brasileiro de Psicanálise.

112 Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 111–128 | julho/2017


Rodrigo Zanon de Melo

masculina, (sexo biológico masculino iden- des.3 Essa experiência fundamentou nossa
tidade de gênero feminina) onde a identida- posição despatologizante sobre o caráter das
de de gênero, apareceria como tentativa de transexualidades e das múltiplas possibilida-
“solução” (Ceccarelli, 2013) diante de uma des de manifestações de identidades de gê-
sintomatologia limítrofe. nero.
No caso apresentado lançamos luz sobre Na maioria de nossas observações feitas
a identidade de gênero como possibilidade durante os encontros, os conflitos não esta-
estruturante/identitária. Essa perspectiva vam atrelados diretamente à manifestação da
estruturante aparecia como um retorno à identidade gênero e muitas vezes passavam
“identidade de gênero nuclear” (Stoller, ao largo da questão como demanda apre-
1982), em uma tentativa de identificação pri- sentada pelos moradores da instituição. Esse
mária (identificação pré-edípica) recalcada fato nos leva a desconsiderar cada vez mais
no inconsciente originário. o determinismo nosológico dos transtornos
No caso em questão utilizamos os concei- ou disforias de gênero.
tos de Robert Stoller, que também trabalhou No DSM-V (Manual Diagnóstico
a ideia de feminilidade primária em seu im- e Estatístico de Transtornos Mentais /
portante trabalho A experiência transexual Associação Psiquiátrica Americana) a
([1975] 1982). O autor trouxe a ideia de uma transexualidade está descrita como disfo-
identidade de gênero núclear (atraumática) ria de gênero. Já no CID 10 (Classificação
passada da mãe para o bebê em uma relação Internacional de Doenças) a transexualida-
simbiótica inicial pelo mecanismo de imprin- de é definida como: Transexualismo (F-64.0)
ting, importando o conceito da etologia e uti- Transtorno de identidade sexual. Categoria:
lizando-o para caracterizar as impressões e Transtornos da identidade sexual (F64).
os sinais que a criança recebe da mãe nos pri- Nosso pensamento despatologizador não
meiros instantes de vida. A completa “iden- exclui a possibilidade da existência de sofri-
tidade genérica” para o autor compreende mento ou de conflito no sujeito em vivenciar
primeiramente a formação da identidade sua identidade de gênero, independente-
de gênero nuclear. Esse núcleo de identida- mente da forma pela qual seja manifestada.
de genérica compreende o sentimento de ser Isso nos remete novamente ao pensamen-
menino ou de ser menina. A formação des- to inicial:
se núcleo se dá sem conflitos o que faz que
este tenha caráter tão fixo. Para Stoller, fato- Violência e trauma na clínica dos primórdios
res biológicos, psicológicos e biopsíquicos podem ter um sentido estruturante ou mor-
(condicionamento e imprinting) contribui- tífero: estruturante por se relacionarem à di-
riam para a formação da identidade genérica mensão pulsional dos cuidados maternos e ao
(Cossi, 2011). confronto entre o mundo adulto e o mundo
Outro fator que nos motivou a ampliar infantil que impele a atividade de representa-
a visão sobre a questão foi partir do conta- ção; mortíferos se relacionados à desmedida
to pessoal em encontros com moradores de e ao excesso – de presença ou ausência (Zor-
uma instituição de acolhimento LGBT(QI)2 nig, 2008, p. 336).
composto em sua maioria por transgêneros
e nas discussões com colegas em um grupo
do qual faço parte, sobre as neossexualida-

3. Grupo orientado por Anchyses Jobim Lopes e composto


por Ana Paula Perissé, Fátima Barcellos, Fernanda Ribeiro
2. Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros (Queer e de Freitas, Roberta de Oliveira Mendes, Rodrigo Zanon de
Intersexuados). Melo e Tânia Stein Cynamon.

Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 111–128 | julho/2017 113


Em busca do tempo sensível: os ruídos paradoxais da sexualidade na ampliação da escuta da identidade de gênero

A injunção paradoxal assimétrica da vio- A segunda característica – a sedução in-


lência e do trauma estruturante/constituinte fantil – é retomada pela forma imatura como
será reverberada no sinistro da transferência, a criança se encontra na cena, ou seja, ela
no trabalho da “inquietante estranheza” re- não compreende o que lhe acontece. O autor
tomada por Fédida (1998) em seu trabalho: ressalta a experiência traumática da sedução
A angústia na contratransferência ou o sinis- na criança que se situa numa etapa anterior
tro (a inquietante estranheza) da transferên- à irrupção da sexualidade, numa etapa pré-
cia, tendo como modelo outro paradoxo, o sexual. Somente em um segundo tempo é
estranho/familiar de Freud em seu ensaio O possível sua ressignificação.
estranho (Das Unheimlich), de 1919. Segundo Laplanche, a imaturidade, a
Segundo Fédida (1985, p. 178 apud ‘impotência sexual inerente às crianças’ fo-
Fontes, 2001, p. 18) “[...] é na transferência ram avaliadas por Freud em relação a uma
e pela transferência que se enuncia repetiti- espécie de escala de desenvolvimento, com-
vamente no presente o impronunciável do portando etapas (níveis): nível de reação
infantil”. somática, nível de ressonância afetiva, nível
de compreensão psíquica, tudo isto fazendo
Laplanche: uma abordagem apenas um: é na sua totalidade psicossomáti-
pela teoria da sedução generalizada co-afetiva que a criança pode ou não integrar
Ao escrever seu ensaio Da teoria da sedu- adequadamente o que lhe acontece.
ção restrita à teoria da sedução generalizada Na terceira característica, a passividade es-
(1988), Laplanche teve como temas centrais sencial da criança, o autor ressalta que a passi-
a primazia do outro e a simultaneidade assi- vidade esconde algumas questões como “quem
métrica adulto criança. O autor se baseou a seduz quem”. Para responder a essa questão,
teoria da sedução restrita freudiana (abando- Laplanche sugere que a passividade da sedução
nada em “a neurótica 1897”) tendo como ob- não teria relação com uma passividade com-
jetivo explicar a gênese do aparelho psíquico portamental ou gestual e sim com a dificul-
sexual do ser humano pelo caráter relacional dade da criança em compreender, ou melhor,
e não a partir de origens biológicas. simbolizar a mensagem que lhe é proposta.
Assim, com o objetivo de ampliar essa A quarta característica essencial da sedu-
noção de sedução freudiana e construir sua ção restrita– o encadeamento de cenas –des-
teoria da sedução generalizada, Laplanche creveria as relações entre as várias cenas de
inicia seu artigo retomando quatro caracte- sedução através de relações de contiguidade,
rísticas essenciais da teoria abandonada por semelhança e diferença no processo de sim-
Freud em 1897: (a) o adulto enquanto agente bolização em que umas cenas se simbolizam
obrigatório da sedução; (b) a sedução infan- em relação às outras. Laplanche aponta a fa-
til; (c) a passividade essencial da criança e lha freudiana em buscar uma cena originá-
(d) o encadeamento das cenas. ria, e essa busca acabou contribuindo para o
Sobre a primeira característica, Laplanche abandono da neurótica freudiana em 1897.
apontou que o adulto incriminado por Freud Ainda em sua discussão sobre a teoria da
era um adulto ‘perverso’, no duplo sentido sedução restrita, Laplanche apresenta três
que vai ser estabelecido mais tarde, nos Três aspectos complementares – um aspecto tem-
ensaios: apresenta um desvio quanto ao ob- poral, um aspecto tópico e um aspecto tra-
jeto, pedófilo, até mesmo incestuoso, desvio dutivo –, que se aplicam no que ele denomi-
quanto ao fim. O que Laplanche procurou nou três níveis de sedução: sedução infantil,
explorar nas cenas descritas por Freud foi a sedução precoce e sedução originária.
sedução denotando agressão, irrupção, in- É a partir de uma forma precisa dessa hie-
trusão e violência. rarquia das seduções que deve ser reconstruí-

114 Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 111–128 | julho/2017


Rodrigo Zanon de Melo

da, sob sua forma generalizada, a teoria da restrita”, apresenta uma grande força e pon-
sedução, que explica através do mecanismo tos de fraqueza:
do recalcamento, da constituição e da per-
manência de um inconsciente, assim como Sua força reside: (1) na trama fechada que
do efeito da pulsão que lhe é indissociável. liga a teoria aos dados tirados da experiência
Segundo Laplanche a sedução infantil se analítica; (2) no fato de pôr em jogo, já de for-
refere a um primeiro Freud, em que o agente ma rigorosa e doravante intransponível, estes
sedutor é o próprio pai, como em sua neuró- três fatores da racionalidade analítica – tem-
tica, em que o agente sedutor seria o pai da poralidade do après-coup, localização tópica
histérica. A sedução precoce se refere a um subjetiva, laços tradutores ou interpretativos
período de recalcamento teórico, em que o entre os cenários e as cenas; (3) na capacidade
pai perverso cede lugar à mãe, que passa a explicativa do modelo, amplamente transpo-
ser a sedutora na relação pré-edipiana. nível e extensível no campo da psicopatologia;
Então, após esse percurso, o autor chega (4) na capacidade evolutiva do modelo: o que
à sedução generalizada em 1964/1967 traba- designamos, de passagem, como “esboços”
lhando com a ideia de que existem signifi- para desenvolvimentos futuros. Os pontos
cantes enigmáticos de origem inconsciente, fracos, inversamente, são aqueles onde uma
além de uma outra ideia, que inclui na sedu- teoria restrita corre o risco de ser bloquea-
ção originária situações de sedução “[...] que da numa concepção restritiva (Laplanche,
em nada revelam atentado sexual”. 1988, p. 112-113, grifo nosso).
Esse ponto de seu trabalho é muito im-
portante, pois deixa claro que não se trata- Diante de seu despreparo, a criança assu-
va de sedução perversa, (pedofílica) de um me uma posição passiva frente às insinuações
abusador, mas de uma sedução no sentido e iniciativas sexuais do adulto. Assim sendo,
lato, a sedução generalizada, “[...] porque a ela experimenta a sedução de forma traumá-
relação adulto-infans ultrapassa, em sua ge- tica. Os sentimentos de angústia e aflição pa-
neralidade, em sua universalidade, a relação ralisam a criança não permitindo que ela aja
pais-criança” (Laplanche, 2015, p. 192). de maneira ativa em relação à sedução, a qual
Nenhum adulto está imune aos efeitos adquire contornos de uma agressão traumá-
de seu próprio inconsciente ao lidar com a tica, a irromper o eu da criança gerando a
criança em pleno estado de desamparo a par- ameaça de transbordamento e, sobretudo, de
tir dos restos não traduzidos das mensagens aniquilamento.
enigmáticas propostas à criança pelo adulto. Apesar de seguir o modelo da “confusão
O trauma seria o resultado a posteriori das de linguagens”, de Ferenczi, vemos no seu ar-
mensagens sexuais vindas do adulto e tam- tigo Confusão de linguagem entre os adultos
bém do resultado dos restos não traduzidos. e a criança um verdadeiro prefácio da teoria
São os restos não traduzidos que consti- da sedução generalizada.
tuem os objetos fonte da pulsão e podem ser Segundo Ferenczi:
comparados a uma espécie de ruído sexual, de
cartilagem ou osso pulsional não triturável pela Assim seduções incestuosas produzem-se ha-
máquina tradutiva. Do ponto de vista laplan- bitualmente: um adulto e uma criança amam-
cheano, essa é a garantia “inexpirável” da inefi- -se; a criança tem fantasias lúdicas, como
cácia comunicativa da mensagem e de sua rea- desempenhar um papel maternal em relação
lidade própria, que deve ser situada justamente ao adulto. O jogo pode assumir uma forma
aquém e além da comunicação (Ribeiro, 2000). erótica mas conserva-se, porém, sempre no
A teoria de Freud anterior a 1897, que nível da ternura. Não é o que se passa com
Laplanche designa como “teoria da sedução os adultos se tiverem tendências psicopatoló-

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Em busca do tempo sensível: os ruídos paradoxais da sexualidade na ampliação da escuta da identidade de gênero

gicas, sobretudo se seu equilíbrio ou seu au- tecimentos separados, no tempo, por um
todomínio foram perturbados por qualquer momento de mutação que permite ao sujeito
infortúnio, pelo uso de estupefacientes ou de reagir de forma diferente da primeira experi-
substâncias tóxicas. Confundem as brinca- ência (Laplanche, 1988, p. 111).
deiras infantis com os desejos de uma pessoa
que atingiu a maturidade sexual, e deixam- No primeiro tempo que o autor denomina
-se arrastar para a prática de atos sexuais sem como “o do terror”, o sujeito não preparado
pensar nas consequências (Ferenczi, [1933] se confronta com uma ação sexual altamente
1992, p. 101-102). significativa, mas que no momento não pode
ser assimilada. Assim sendo, deixada em es-
Laplanche aponta seu modelo teóri- pera, essa lembrança não é em si mesma pa-
co como diferente do modelo ferencziano. togênica nem traumatizante.
Segundo Laplanche em sua teoria da sedu- A segunda cena é que dará o aspecto trau-
ção generalizada ocorreria uma inadequação mático ou, segundo Laplanche (1988, p. 112),
de linguagens: não se trataria de uma vaga
“confusão”, mas, muito precisamente, de uma Devido às novas possibilidades de reação do
inadequação de linguagens: inadequação da sujeito, é a própria lembrança, e não a nova
criança ao adulto, inadequação do adulto ao cena que funciona como fonte de energia libi-
objeto fonte que age nele. dinal interna autotraumatizante.
Essas mensagens enigmáticas suscitam
um trabalho de domínio e de simbolização Laplanche retoma a ideia da sedução
difícil ou até impossível deixando para trás abandonada por Freud para afirmar a impor-
restos inconscientes a que o autor denomi- tância do outro e a possibilidade de conceber
nou de “objetos-fontes”. Diferentemente da a pulsão e o inconsciente como produtos da
confusão de línguas proposta por Ferenczi, o inoculação da sexualidade pelo outro. E dei-
que estaria em jogo nessa situação seria uma xa claro que não se trata de sedução perversa
inadequação de linguagens, inadequação da de um adulto abusador, por isso a expressão
criança ao adulto. E um fator primordial seria “sedução generalizada”.
a inadequação do adulto ao objeto-fonte que O pai, grande personagem da sedução
age nele mesmo. Mensagens enigmáticas que infantil, cederia lugar à mãe, essencialmente
são excitações implantadas concretamente na relação dita “pré-edipiana”. A sedução é
na periferia do corpo, excitações “somáticas” aí veiculada pelos cuidados corporais desti-
resultantes desses restos não traduzidos de nados à criança, como veremos no trabalho
excitações prévias. de André As origens femininas da sexualida-
Segundo Laplanche, seria preciso ir mais de (1996) sendo um passo fundamental não
longe do que Ferenczi, pois a “linguagem da somente no que diz respeito à questão tem-
paixão” só é traumatizante na medida em poral (trata-se dos primeiros meses), mas
que um sentido “de si mesmo é ignorado”, também na categoria da realidade em que é
isto é, que essa manifestação do inconsciente preciso situar os fatos de sedução. Tratava-
é irredutível somente às potencialidades po- se mais exatamente não de pura realidade
lissêmicas de uma linguagem em geral. fatual, mas da efetividade, categoria que nos
Laplanche manteve o pensamento do leva além da contingência e da peripécia: tra-
trauma em dois tempos de Freud em sua teo- ta-se de uma sedução necessária, verbo que
ria da sedução. Assim: marca o caráter obrigatório da ação materna
inscrita na própria situação.
[...] nada se inscreve no inconsciente huma- Laplanche apresenta o termo “generaliza-
no senão na relação de ao menos dois acon- ção” como forma de questionamento teóri-

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Rodrigo Zanon de Melo

co e inicia dando luz à questão passivo-ati- No entanto, Laplanche afirma que a co-
vo atribuindo a Freud o grande mérito e a municação circula não só pela linguagem do
audácia de colocá-los na origem tanto das corpo mas também pelo código ou a língua
pulsões quanto do desenvolvimento da vida social: são as mensagens do socius, entre as
sexual. A confrontação adulto-criança en- quais se destacam as de designação de gêne-
globaria uma relação essencial de atividade ro. Perante elas a criança também terá que
-passividade, ligada ao fato inelutável de que exercer a função tradutiva, já que chegam da
o psiquismo parental é mais “rico” que o da mesma forma carregando o enigma, aquilo
criança. Diferentemente dos cartesianos, não recalcado do adulto que as enuncia (Alonso,
se trata de maior “perfeição” porque essa ri- 2016).
queza do adulto também pode ser conside-
rada imperfeição: a clivagem de seu próprio O gênero o sexo e o sexual
inconsciente. “Sim, o gênero precede o sexo. Mas ao
Nenhum adulto (desconhecendo sua pró- invés de organizá-lo, é organizado por ele”.
pria clivagem e sua sexualidade inconscien- (Laplanche, 2015, p. 168). Assim Laplanche
te) está imune aos efeitos de sua sexualidade (2016), em seu trabalho intitulado Sexual - a
inconsciente ao lidar com a criança em de- sexualidade ampliada no sentido freudiano
samparo. 2000-2006, lança seu olhar sobre a questão
Laplanche retoma a cena originária freu- do gênero apresentando a tríade sexo-gêne-
diana colocando-a em um lugar principal: ro-sexual.
Para o autor, o gênero seria uma mani-
Querer situá-la, como o faz Freud, ao mesmo festação plural; o sexo seria regido pela ló-
nível da sedução, no saco sem fundo das fan- gica fálica dual (presença/ausência, fálico/
tasias originárias, é esquecer este fato essen- castrado), e o sexual, múltiplo e polimorfo,
cial: a cena do coito entre os pais é ela mesma se fundamenta no recalque, no inconscien-
sedução para a criança, no sentido de sedução te, na fantasia e seria o objeto da psicanálise.
originária (Laplanche, 1988, p. 119). Assim, o sexual seria o resíduo inconscien-
te do recalque-simbolização do gênero pelo
Esses significantes enigmáticos podem sexo. A preocupação do autor estaria sobre
ser concretos como o próprio seio materno, um possível abandono do sexual, descoberta
assim o autor questiona o investimento se- freudiana fundamental.
xual inconsciente da mulher em seu órgão
aparentemente natural de lactação. Sabe-se que em alemão existem dois termos.
Há certamente, Geschlecht, que significa o
Podemos supor que este investimento “per- “sexo sexuado”, mas há também o sexual ou
verso” não é percebido, suspeitado, pelo bebê, o Sexual. Quando fala da sexualidade amplia-
como fonte deste obscuro questionamento: que da, a sexualidade dos Três ensaios, Freud refe-
quer ele de mim? (Laplanche, 1988, p. 119). re-se sempre ao Sexual [em alemão: sexual].
Seria impensável que Freud intitulasse sua
Então, na condição temporal tradutiva, obra inaugural: “Três ensaios sobre a teoria
as mensagens enigmáticas do adulto são do sexuado ou da sexuação”. A Sexualtheorie
traduzidas em dois tempos, reproduzindo o não é uma Geschlechtstheorie (Laplanche,
traumático. Laplanche postula que as mensa- 2015, p. 156)
gens transmitidas pelos pais para as crianças,
muitas delas veiculadas pelos cuidados cor- O autor desvincula o complexo de cas-
porais, seguem o código do apego, e a partir tração do complexo de Édipo, estabelecendo
delas pode surgir a pulsão. uma relação direta da castração com a desco-

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Em busca do tempo sensível: os ruídos paradoxais da sexualidade na ampliação da escuta da identidade de gênero

berta da diferença anatômica dos sexos, a fim e Paulo de Carvalho Ribeiro relacionam a
de enfatizar o efeito organizador e recalcante feminilidade e, por isso, essa passagem pela
da lógica binária. Se o gênero é organizado teoria laplancheana é tão importante para
e simbolizado pelo sexo, então o código de que se entenda as teorias desses autores.
tradução deve ser buscado ao lado do sexo.
A anatomia perceptível funcionaria como Jacques André
esqueleto de um código, que é o da lógica e a qualidade feminina da alteridade
fálica. Somente no interior do complexo de Tendo como base o trabalho de Laplanche
castração a diferença de gêneros passa a ser Teoria da sedução generalizada (1988),
diferença de sexos. Assim sendo, o código de Jacques André desenvolve em seu livro As
tradução se daria pela lógica fálica. origens femininas da sexualidade (1996)
Sob a diferença binária dos sexos, a di- uma interessante teoria da feminilidade de-
versidade dos atributos passa a diferença dos nunciando o primado fálico e a função re-
sexos em um discurso baseado na contradi- calcante que ele exerce sobre a feminilidade
ção: fálico/não fálico, tornando a realidade primária na criança. Assim, a feminilidade
da criança marcada por uma contradição estaria presente em todos os sujeitos inde-
ou polaridade. Um sexo marcado e outro pendentemente do gênero e seria recalcada
não. Estruturando seu desejo no que seria na formação do inconsciente a partir do re-
significante do sexo, o falo, que passa a ter calque originário. Esse fato/Isso excluiria a
um valor simbólico. O que estaria em che- importância da alteridade na constituição do
que seria a tradução e os modos de se lidar psiquismo.
com a alteridade nas origens. A alteridade é Na situação de desamparo originária, de
de fundamental importância na instauração passividade originária, “[...] a feminilidade
da sexualidade. seria a própria qualidade da alteridade ou,
É interessante esse entendimento do autor mais exatamente, a abertura (amorosa) para
ao apontar que a criança tem acesso à dife- esta” (André, 1996, p. 11). Por isso, a femini-
rença dos gêneros desde muito cedo, distin- lidade porta um devir que pode levar as sub-
guindo homem e mulher, porém essa distin- jetivações a conviverem melhor com esse de-
ção não seria feita pela diferença dos genitais samparo, a abrir-se a ele e a sua fundamental
e sim pela oposição de comportamentos, alteridade.
função, gestos e lugares sociais. Esse trata- Assim, o território da feminilidade corres-
mento simbolizante das mensagens associa- ponde a um registro psíquico que se opõe ao
das à designação do gênero, essa conforma- do falo na tradição psicanalítica. Enquanto
ção num todo coerente é o que chamamos de pelo falo o sujeito busca a totalização, a uni-
assunção de um sexo. O sexo é a forma com a versalidade e o domínio das coisas e dos ou-
qual a criança consegue traduzir o excesso e a tros, pela feminilidade o que está em pauta é
multiplicidade das identificações que lhe fo- uma postura voltada para o particular (sin-
ram designadas passivamente como se carac- gular). A feminilidade implica a singularida-
teriza no processo da sedução generalizada. de do sujeito e as suas escolhas específicas,
A alteridade, assim, se conecta à passivi- bem distantes da homogeneidade abrangen-
dade da criança frente ao adulto e à passivi- te da postura fálica.
dade do Eu frente à sedução generalizada e,
consequentemente, a “estrangereidade inter- Na vida psicossexual, assim como na teoria,
na” que o ameaça. Essa passividade essencial a descoberta do primado do falo encobre de
da criança frente ao adulto é chamada por sombras uma alteridade para a qual o femi-
Laplanche de “situação antropológica funda- nino oferece uma representação eletiva (An-
mental”. É a essa situação que Jacques André dré, 1996, p. 63, grifo nosso).

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Rodrigo Zanon de Melo

No Rascunho M (1897) Freud fez a se- O autor trabalhou o feminino como a ero-
guinte afirmação: “Pode-se suspeitar que o tização desse desamparo. A feminilidade, as-
elemento essencialmente recalcado é o femi- sim, se mostra como
nino” (Freud, [1886] 1889). A feminilidade
sempre foi um paradigma para a psicanálise. [...] a revelação do que existe de erógeno
E Freud nunca negou sua dificuldade em no desamparo, a sua face positiva e criati-
teorizar sobre a feminilidade: va, isto é, o que este possibilita ao sujeito
nos termos de sua possibilidade de se rein-
Os senhores, agora, já estão preparados para ventar permanentemente (Birman, 1999, p.
saber que também a psicologia é incapaz de 52).
solucionar o enigma da feminilidade (Freud,
[1933/1932] 1996, p. 125). Assim, a feminilidade estaria em uma ín-
tima relação com a constituição do sujeito
Em seu trabalho Análise terminável e in- psicossexual, como potência identificatória,
terminável (1937) Freud afirma que a femini- podendo ser explorada como:
lidade seria marcada pelo horror, já que sua
emergência colocaria em questão o referen- (1) Uma crítica à centralidade da ideia do
cial fálico. Um ponto muito importante foi Édipo e do complexo de castração na psica-
apontado pelo autor: esse horror atribuído nálise; (2) uma releitura da ideia de corpo
à feminilidade atingia igualmente homens e erógeno na teoria freudiana com o objetivo
mulheres. Para ele a oposição entre masculi- de fundamentar metapsicologicamente a
no e feminino, entre homens e mulheres se- ideia de um excesso pulsional, pressupos-
ria construída em torno da figura do falo. Ter to fundamental para que se possa pensar a
ou não ter o falo e seus atributos; seria essa multiplicidade das experiências subjetivas;
a questão que dividiria o mundo dos sexos e (3) uma abordagem dos processos de sub-
gêneros. jetivação que toma como base referências
Sobre esse horror seguimos o pensamen- extraídas da estética, em que a diferença se
to de Birman (2002, p.13): expressa como singularidade (Áran, 2009, p.
663, grifo nosso).
[...] impõe-se uma outra leitura da palavra
horror a que Freud se referia, já que o su- J. André trabalhou a feminilidade sob
jeito pode assumir em face do sentimento duas perspectivas: na constituição do apa-
de horror diferentes posturas e conferir-lhe relho psíquico e na teorização psicanalítica
diversos destinos psíquicos bastante diferen- sobre o psiquismo. Uma questão fundamen-
ciados. tal levantada por ele seria como especificar
[...] a ligação intrínseca entre sedução e femini-
É o desamparo humano que está em pauta lidade.
pela mediação da construção fálica. Trata-
-se, pois, para o sujeito de se defrontar com Compreender o que articula necessariamen-
o imponderável e o indizível, na medida te o seduzido com o feminino pressupõe
em que ele não pode dominar inteiramen- que abandonemos o registro da psicopato-
te o curso das coisas, do mundo e do outro logia, em favor da máxima generalidade: a
pela postura arrogante do eu. É a assunção do ser humano; que deixemos o inventário
subjetiva disso tudo que se pretende com a das práticas perversas da sedução em prol
experiência psicanalítica e que se condensa da “sedução originária”, segundo a expres-
na aventura enigmática em direção à femi- são de Jean Laplanche (André, 1996, p. 97,
nilidade. grifo nosso).

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Em busca do tempo sensível: os ruídos paradoxais da sexualidade na ampliação da escuta da identidade de gênero

J. André atribui significativa importância que encobre e nega a existência de um prazer


ao pai sedutor. A feminilidade precoce tanto tipicamente feminino relacionado ao desejo
dos meninos como das meninas depende das de penetração. O sexo masculino, contra-
marcas deixadas pelo desejo inconsciente de riamente em sua simbolização fálica, é para
penetração do pai. Em nosso ponto de vis- todo mundo o ‘mesmo’, quer se o tenha ou
ta, desejo (de penetração) de um adulto se- não. O falo é o primado de um sexo, apenas
xualmente maduro, independentemente do um, sem outro senão sua própria ausência.
gênero, relacionado à assimetria inicial. Não A feminilidade precoce tanto das meni-
se trata de uma sedução pedofílica, mas se nas como dos meninos depende do pai e das
baseia no conceito de sedução originária e marcas de seu desejo inconsciente de pene-
generalizada de Laplanche. tração. O momento inaugural da vida psi-
Esse desejo inconsciente do pai desperta- cossexual do bebê estaria relacionado a uma
ria as zonas erógenas “cloacais” nas meninas dupla alteridade: a do outro e a do incons-
(vagina, ânus e uretra) e anal nos meninos. ciente do adulto.
Situações prototípicas de uma posição femi- Assim sendo, devido à passividade ini-
nina. Jacques André sustenta a hipótese de cial dada à prematuridade da criança, a vida
uma excitação vaginal precoce – que pode psicossexual não começa pelo “eu introjeto”,
ser causada pela estimulação da parede re- tampouco por um “eu me alimento e aprovei-
to-vaginal pelo trânsito fecal – com uma to isso para sugar”, mas por um ele implanta,
complementaridade das representações pul- ele intromete; e sem saber o que faz. Assim,
sionais penetrantes do pai e as representa- a criança nesse momento é tomada pela tor-
ções receptivas que elas induzem na criança. menta do sexual, muito além do que sua
Tal conjunção entre feminilidade e sedução “resposta” autoerótica lhe permite aplacar.
originária se assenta, portanto, sobre outra J. André afirma que nesse momento “a
conjunção, a saber, a da feminilidade com o criança é penetrada por efração”. O autor de-
‘dentro’, com o interior. termina que a conjunção entre a “criança se-
O autor descreve também a importân- duzida é uma criança-cavidade, uma criança
cia de Karl Abraham como interlocutor de orificial” (André, 1996).
Freud na questão da feminilidade. Segundo No desamparo inicial vivenciado pelo
Abraham a menina já teria o conhecimento bebê (Hilflosigkeit), a passividade que J.
da vagina antes da puberdade apontando a André associa à feminilidade é uma “passi-
frigidez das mulheres. vidade pulsional” que não tem nenhuma re-
Assim pensava Abraham (1924 apud lação com uma simples negação da atividade
André, 1996, p. 35): ou com um suposto “silêncio” psíquico ou
fisiológico da vagina. Segundo André (1996,
Dois sintomas neuróticos impuseram-me a p. 106) “a passividade impõe a ideia de uma
hipótese de um estádio primitivo – digamos, espécie de clivagem entre duas pessoas em
vaginal-anal: a frigidez e o vaginismo. Por to- uma mesma cena psíquica: o agente e o pa-
das as experiências psicológicas, não posso ciente”.
acreditar que a frigidez repouse simplesmen- O autor define a passividade pulsional
te no fato de faltar a passagem da libido do como:
clitóris para a vagina. Deve haver um inter-
dito aí, diretamente fundamentado em uma [...] gozar daquilo que (lhe) acontece, partici-
localização (grifo do autor). par com gozo daquilo que (em você) penetra,
faz intrusão – isso quer dizer a ligação íntima
A inveja do pênis na teoria freudiana des- entre a passividade e o dentro (André, 1996,
considera a vagina como um buraco, fato p. 122).

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Rodrigo Zanon de Melo

Para o autor a passividade precede a ati- da situação traumática de sedução (Ribeiro,


vidade e a atividade é uma “elaboração-dis- 2000, p. 246).
tanciação” da primeira como no fort-da freu- Enquanto o psiquismo se constituir a par-
diano. tir da ação do outro sobre um corpo inicial-
mente fragmentado e indefeso, o sexual sem-
Para ele (e para Freud igualmente), a passivi- pre será dominado por fantasias de penetra-
dade tem precedência sobre a atividade, sen- ção na forma tanto ativa quanto passiva.
do que esta última surge como uma “elabora-
ção-distanciação” da primeira, como ilustra, A identificação feminina primária
por exemplo o “jogo da bobina”. Entre o que A partir do pensamento de J. André, Paulo
ele denomina “ser invadido originário” [être Ribeiro (2000) ampliou a sedução originária
effracté originaire] e o “ser penetrado femi- para além das vivências penetrantes ao corpo
nino” [être pénétré féminin], algum grau de e ao psiquismo da criança. Ele incluiu a in-
elaboração já se encontra presente, mas não tensidade e a utilização metafórica da crian-
o suficiente para evitar que a feminilidade so- ça como objeto penetrante pela mãe. Em seu
fra, pela proximidade que continua a manter conceito de identificação feminina primária,
com esses primeiros elementos nucleares do a ação traumática e invasiva da sexualidade
inconsciente, os mais intensos efeitos do re- inconsciente do adulto sobre a criança é orga-
calcamento (Ribeiro, 2000, p. 244). nizada primariamente por uma identificação
feminina, que “[...] funciona como uma for-
J. André (1996) contemplou em seu traba- mação narcísica ainda hesitante entre a uni-
lho, além da passividade da criança perante ficação e a dispersão” (Ribeiro, 2000, p. 47).
o adulto sedutor, a situação de masoquismo Essa identificação primária ocorre devi-
originário que lhe é correlativa. Associando do a uma “afinidade intransponível” entre
o masoquismo com a feminilidade: tendo a sedução originária e a feminilidade, bem
como hipótese concernente à psicogênese da como devido à identificação primária à mãe.
feminilidade como elaboração da posição de Constitui a primeira representação da passi-
submissão à intromissão naturalmente pas- vidade da criança diante da efração que ca-
siva da criança face à intromissão do sexual racteriza a situação traumática de sedução.
adulto, sustenta, por associar gozo e pene- Segundo o trabalho de J. André, a fanta-
tração/invasão, o caráter ao mesmo tempo sia feminina de ser penetrado se apresenta
necessário e primitivo do vínculo entre ma- como uma tradução sexuada das exigências
soquismo e feminilidade. Associou a femi- do objeto-fonte da pulsão. Considere-se que
nilidade ao masoquismo primário em uma essa explicação da conjunção entre o sedu-
conjunção de dor e excitação sexual, tendo zido e a feminilidade permanece num plano
suas raízes na violência originária e invasiva estrutural da antecipação e delineamento do
dos primeiros tempos da sedução, evocando “ser-penetrado” da feminilidade pelo “ser-
como primária a figura de um masoquismo invadido” da sedução (Ribeiro, 2000). Aqui
orificial, dado à penetração e à invasão. ao conceber a sedução originária como uma
Para Ribeiro, como veremos a seguir, J. relação de penetração, podemos pensar no
André concebe a explicação para o caráter fundo concreto, corporal em que se assenta
de necessidade da tríade feminilidade-pas- a constituição psíquica.
sividade-masoquismo, à qual poderíamos O Eu se constitui através da identificação
acrescentar um quarto termo: o recalcado. com um outro. Essa identificação participa
No final das contas, tudo decorre do fato de da delimitação de um corpo recalcado ori-
que a feminilidade primitiva é a primeira re- ginário e da formação do Eu, é uma identi-
presentação da passividade da criança diante ficação passiva, que se dá à revelia do sujeito

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Em busca do tempo sensível: os ruídos paradoxais da sexualidade na ampliação da escuta da identidade de gênero

em formação. O recalque originário estaria certamente, por ser uma forma de assunção
relacionado diretamente à formação da tó- de identidade, trabalha a favor da estabiliza-
pica do eu e do inconsciente primário. Já o ção e coesão do Eu) e a feminilidade ligada
recalque secundário se refere à força de res- às origens fragmentadas e invasivas do psi-
significação que o gênero e a diferença dos quismo.
sexos têm sobre o eu (incluindo a formação
do supereu) além das interdições edípicas re- Podemos concluir, então, que tanto a mas-
lacionadas ao incesto e ao parricídio. culinidade quanto a feminilidade secundária
A hipótese de Ribeiro se caracteriza por são constituídos como uma superação defen-
um primeiro tempo do recalcamento da fe- siva e denegativa desse estado primitivo do
minilidade primária correspondendo ao eu. O mecanismo de sua formação depende,
processo pelo qual a criança é moldada de naturalmente, do estabelecimento de uma
acordo com a feminilidade consciente e in- oposição entre penetrante e penetrado, mas
consciente da mãe. Para a criança essa femi- apóia-se principalmente no recalacamento da
nilidade não se opõe à diferença anatômica posição penetrado por meio de um superin-
dos sexos nem se relaciona a ela. vestimento fálico de todas as representações
Nesse primeiro tempo, penetrar e ser pe- penetrantes. Por meio desse recalcamento,
netrado, ter e ser o objeto coalescem numa constitui-se a posteriori à natureza efetiva-
experiência única, na qual passivo e ativo, mente pulsional da relação de penetração e
masoquista e sádico não são pares de opos- do estado do eu penetrante/penetrado que
tos, mas vivências homogêneas de um gozo lhe é correlato (Ribeiro, 2005, p. 254).
sem oposição.
O segundo tempo coincide com a desco- A articulação entre feminilidade, recalca-
berta da diferença anatômica dos sexos, sua do e a alteridade faz com que o conflito psí-
incidência sobre a diferença dos gêneros e quico guarde sempre relações com os gêne-
o imperativo de se posicionar perante essas ros. Afinal, entre o que J. André denomina
diferenças. Esse é o momento em que a fe- “ser invadido originário” e o “ser penetrado
minilidade primária se sexualiza (nos dois feminino” alguma elaboração certamente
sentidos do termo) e passa a ser comparada, existe, mas não o suficiente para impedir que
avaliada e medida a partir do padrão fálico a feminilidade sofra os mais intensos efeitos
(Ribeiro, 2000). do recalcamento.
A feminilidade primária se constituiria Portanto, o deslocamento da lógica fálico/
como uma primeira e necessária representa- castrado para o penetrante/penetrado pro-
ção da passividade da criança diante da si- posta como deslocamento da segunda etapa
tuação traumática e da sedução invasiva. O da formação da identidade de gênero estaria
feminino se torna o recalcado por excelência relacionada à qualidade da internalização da
para ambos os sexos articulando, assim, a fe- alteridade, articulando feminilidade, alteri-
minilidade e a alteridade. dade e recalcamento.
O outro sexo, para qualquer um, homem
ou mulher, é sempre o sexo feminino, já que Do estranho da sexualidade ao estranho
está pré-inscrito no psicossoma da crian- na transferência: uma escuta sensível
ça pela efração sedutora originária do ou- O paradoxo do duplo aspecto do ambien-
tro (do adulto), e em que, ao ser penetrado, te inicial, o narcisamento necessário para a
ele repete o gesto e mantém o enigma dessa constituição do aparelho psíquico e a vio-
efração. Faz a diferenciação entre a feminili- lência do traumático da sexualidade incons-
dade secundária tal como aparece nas iden- ciente do adulto estavam presentes na fala da
tificações dos sujeitos do sexo feminino (que, paciente atendida por mim, a partir do con-

122 Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 111–128 | julho/2017


Rodrigo Zanon de Melo

flito, “desejo e impossibilidade em se transe- potência psicótica (alucinatória) dos proces-


xualizar”. sos ativados do estrangeiro da sexualidade:
Pensando em um inédito porém possí-
vel diálogo entre as teorias de Laplanche e O problema da transferência, da autoconser-
Fédida no encontro dessa estranha/familiar vação do eu nela, o da significação da morte
assimetria sexual traumática da teoria da se- na autoconservação, e, poderíamos acrescen-
dução generalizada, de Laplanche, ao sinis- tar, o problema da intolerância à efração se-
tro da inquietante estranheza da transferên- xual (Fédida, 1988, p. 40).
cia, trabalhado por Fédida, recorremos ini-
cialmente a Freud, que em 1919 publicou seu Segundo o autor a contratransferência,
ensaio O estranho [Das Unheimlich]. O autor respondendo à assimetria da situação analí-
aponta que o estranho [Unheimlic] é de algu- tica, designa ao analista um lugar de recep-
ma forma uma “subespécie” de heimlich, do ção e de produção das transferências.
familiar (que é também o oculto, o secreto). A transferência, então, alcançaria um es-
Freud aponta para a dimensão infantil tágio anterior à sedução generalizada traba-
presente no estranho – o pensamento mági- lhada por Laplanche, um estágio fusional em
co e a repetição – que, junto com o retorno que não é possível nenhum tipo de represen-
do recalcado, são elementos sempre presen- tação de diferença, ou seja, em que não se fez
tes na experiência do estranho. possível ainda a constituição de um “eu-pe-
le” capaz de proporcionar a transição entre o
Toda familiarização do representável no pen- eu corporal e o eu psíquico, portanto não se
samento implica em ressimetrizar a situação pode pensar em ambiente e bebê separados.
analítica (e, portanto, em aboli-la) na crença Nos primórdios, o bebê está imerso em
da “relação interpessoal” (Fédida, 1988, p. um “berço de sensações”. São as sensações
81). que ocupam o primeiro plano. A autossen-
sualidade como descrita por Tustin (1990).
Na sedução originária, o enigmático in- Uma fase do desenvolvimento que antecede
traduzível fica em estado selvagem, o que o autoerotismo: “[...] O ego primário é um
nos remeteria à “inquietante estranheza” no ego autossensual” (Tustin, 1990, p. 42).
trabalho freudiano.
Segundo Fédida (1988) analista e ana- Talvez pudéssemos dizer que a existência
lisando são remetidos à inquietante estra- da criança nos seus primórdios resume-se a
nheza da transferência. Pensando na trans- isto: o absolutismo de excitações decorrente
ferência como fenômeno do Unheimlich, a de uma radical abertura ao mundo (Ribeiro,
situação analítica corresponderia ao analista 2000, p. 211).
sustentar essa posição de estranho íntimo
onde ele ocuparia esse lugar de sítio do es- Como descrito na ocasião da apresenta-
trangeiro. Assim, sua posição de estranho ção do caso clínico,4 um estranhamento me
íntimo ofereceria ao paciente a revivescência acometeu em algumas circunstâncias dos
de suas experiências arcaicas. atendimentos, desde o primeiro encontro
A dimensão corporal da transferência é em que a imagem andrógina e a fala para-
fundamental para esse retorno às experiên- doxal e confusa da paciente me lançaram em
cias anteriores à aquisição da palavra. Fédida um sentimento de profunda dificuldade e
denomina essa experiência de “regressão um desejo inicial de não seguir com os aten-
alucinatória na transferência”.
O autor trabalha com a ideia do
Unheimlich constituído na transferência pela 4. Caso apresentado em um artigo anterior já citado.

Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 111–128 | julho/2017 123


Em busca do tempo sensível: os ruídos paradoxais da sexualidade na ampliação da escuta da identidade de gênero

dimentos. Fui acometido por uma sensação Ao analista cabe


“estranha” de violência contratransferencial.
Violência que me era projetada ou evacuada [...] encontrar palavras que sejam equiva-
em uma comunicação radical da paciente. E lentes simbólicos do tocar e que exerçam as
também em seu corpo eram as tentativas in- funções do Eu corporal e do Eu psíquico que
glórias de representação, através dos inúme- não receberam no passado as estimulações
ros cortes na pele. Como um estranho senti- suficientes a seu desenvolvimento (Anzieu,
do no corpo pela minha paciente. [1985] 2000, p. 129).
O trânsito entre corpo e psiquismo, tão
inescapável e universal quanto a situação Cabe situar nesse espaço de transição en-
antropológica fundamental adulto-criança tre fusão e a primeira representação de di-
proposta por Laplanche persiste por toda ferença o processo tradutivo, o primeiro in-
a vida, por isso sua compreensão é impres- terdito, primeiro espaço de separação é onde
cindível para percebermos a importância se dá a primeira significação da identidade
das relações entre o psíquico e o sensorial de gênero como núcleo. Nesse estágio ocor-
(Campos, p. 126, 2016). Observamos aqui reria o que Stoller definiu como “identidade
uma aproximação do conceito de Eu-pele e de gênero nuclear” e sua vivência aconflitual.
a tradução ao recalque originário proposto Essa distinção entre eu-corpo e eu-ins-
por Laplanche. tância permite a Laplanche estabelecer dois
O Eu-pele é uma realidade tipo fantas- tempos do recalque originário e o efeito do a
mática, fornecedora do espaço imaginário, posteriori que se produz entre eles. Segundo
que compõe a fantasia, o sonho, a reflexão o autor no primeiro tempo já teríamos um
e cada organização psicopatológica, que eu-corpo que coincide com a superfície.
se apoia sobre um envelope em sua ori- Assim, podemos pensar que entre o eu-
gem sobretudo tátil e sonoro. Uma estru- corporal e o primeiro tempo do recalque ori-
tura intermediária do aparelho psíquico. ginário seria o da construção de um eu-pele
Intermediária estruturalmente entre a in- momento de transição entre o eu-corporal e
clusão mútua dos psiquismos na organi- o eu-psíquico. O recalque primário precisa
zação fusional primitiva e a diferenciação do secundário (efeito do a posteriori) para se
das instâncias psíquicas, que corresponde à consolidar.
segunda tópica freudiana (Anzieu, 2000).
A primeira integração no bebê normal, a O primeiro tempo seria o da inscrição das
introjeção de uma primeira pele psíquica. mensagens segundo o autor:
Forma o espaço sonoro, primeiro espaço Sob a camada fina da consciência ou ‘sob a
psíquico, a primeira harmonia, antecipan- pele’. Num segundo tempo a mensagem é re-
do sua própria unidade como self através da vivificada do interior. Ela age como um corpo
diversidade de seus sentidos. estranho interno que é preciso a todo preço
A técnica de escuta que o autor aponta em integrar, controlar (Laplanche, 2015, p.195).
seu livro consiste em:
Há um campo sensorial entre o corpo
[...] restabelecer o envelope sonoro que, ele biológico e o corpo erógeno, e a sensorialida-
próprio, duplica o envelope tátil primário; em de é uma abertura ao erógeno possibilitan-
mostrar ao paciente que ele pode me “tocar” do os investimentos libidinais. Cartografia
emocionalmente; em realizar equivalentes somatopsíquica ressaltando a importância
simbólico dos contatos táteis enfraquecidos, da experiência tátil no que se refere à cons-
‘tocando-o’ através de palavras verdadeiras e trução da imagem de um envoltório cutâneo.
plenas” (Anzieu, 2000, p. 180). Envoltório que separa o dentro e o fora com

124 Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 111–128 | julho/2017


Rodrigo Zanon de Melo

as experiências de sustentação e de contor- tado com a irrupção violenta dos afetos do


no do corpo, fundamentais para que se efe- paciente e dos seus próprios, permitindo-lhe
tive a discriminação entre o eu e o não eu reinstaurar a situação analítica caso esteja
e, consequentemente, a constituição egoica perturbada ou momentaneamente destruí-
(Campos, 2016). da, formando o lugar de ressonância e de
O modelo de recalcamento originário tradução em palavras de tudo o que pode ser
proposto por Laplanche reserva para a crian- experimentado no tratamento.
ça o lugar de tradutor. Laplanche descreve o Segundo Ivanise Fontes:
ser humano como autotradutivo, e o recalca-
mento originário é apenas o momento pri- A partir do fluxo primitivo de sensações não
meiro e fundador de um processo que dura coordenadas passa-se por essa “produção
toda a vida. A criança receberia as mensa- de formas” até chegar a ter um corpo que as
gens passivamente e ativamente tentaria tra- contenha – essa é a experiência do tornar-se
duzi-las. humano. Observamos então que a percepção
Aqui preferimos seguir o pensamento analítica durante o tratamento é transferen-
de Ribeiro (2000) e Bleichmar (1994 apud cialmente uma recepção dessas formas, que
Ribeiro, 2000) que, diferentemente de se tornam figuráveis pela linguagem, e graças
Laplanche, consideram o adulto importante a qual podem ser engendradas novas formas.
no processo narcisante (tradutor originário). A situação analítica é feita para acolher essas
Silvia Bleichmar (1994) sugere uma saída sensações, e é preciso que a sensação seja in-
que nos parece integrar esse duplo aspecto terpretada. Seu retorno como memória cor-
do materno: o caráter de “duplo comutador” poral se deve ao fato de que não fora anterior-
que a mãe possui. Ela aponta que nas origens mente representada, tornando-se assim uma
do psiquismo há dois movimentos: aquele inquietante estranheza (Fontes, 2001, p. 25).
que funda a pulsão sob o modo da pulsão
de morte, objeto fonte excitante que deve O sujeito transexual, tal o caso citado,
encontrar canais de derivação, de ligação, e pode chegar à clínica movido por questões
aquele que proporciona as ligações mesmo conflituosas e tentativas sintomáticas de so-
antes da instalação do ego do incipiente su- lução, que o impossibilitam de traçar seu
jeito psíquico, mesmo antes, consequente- percurso de transexualização, causado por
mente, do recalcamento originário, criando questões arcaicas referentes à impossibilida-
os pré-requisitos de sua instalação. de representacional. Então, a confiabilidade
Segundo Fédida (1998), garantir a situa- proporcionada por uma escuta afetiva, sensí-
ção analítica ou reinstaurá-la corresponde vel e ativa, em que a assimetria inicial poderá
para o analista à tarefa de manter essa posi- ser revivenciada com uma escuta acolhedora
ção de estranho íntimo que é, de certa forma, da ternura, favorece/possibilita contenção e
a condição temporal da essencial dissimetria. desconstrói o desmentido da inadequação de
O analista atua como um ambiente capaz de linguagens do originário.
ressonância com o estado da criança, de con-
tinência das energias dessa angústia, de me- Considerações finais
tabolização e de ‘meta/forização’ dos afetos Retirar as manifestações de gênero do âm-
confundidos, que tendem a transbordar na bito patológico não significa negar a escuta
criança. do sujeito quando ele apresenta um confli-
A contratransferência equivale a um dis- to em expressar sua identidade de gênero. A
positivo inerente à situação analítica e ade- ampliação da escuta apresentada no presente
quado ao enquadre do tratamento. Evita que trabalho apreendeu possíveis atravessamen-
o analista se encontre diretamente confron- tos conflitivos ou ruídos que impossibilitam

Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 111–128 | julho/2017 125


Em busca do tempo sensível: os ruídos paradoxais da sexualidade na ampliação da escuta da identidade de gênero

o sujeito de exercer sua manifestação de gê- É difícil tentar encerrar ou resumir uma
nero sem conflitos. Segundo Laplanche esses temática tão ampla no percurso teórico aqui
conflitos estão inteiramente ligados à de- estruturado, já que a singularidade de cada
signação do gênero pelo outro, ou seja, pe- sujeito está acima de qualquer teoria. Assim
las pessoas que compõem o ambiente social sendo, nosso objetivo é abrir possibilidades
no qual o bebê se encontra. E provém desse frente ao sujeito que sofre, pensando uma
pequeno socius familiar a função designati- escuta que propicie ao analisando a vivência
va espontânea que resultará na formação de sensível dos primórdios constituinte e em
uma identidade de gênero feminina ou mas- um momento posterior à vivência da identi-
culina. Formação a partir de um conjunto dade de gênero.
complexo de atos, linguagens e comporta- Deixando um campo reflexivo em aberto
mentos significantes em torno da criança. para novas aventuras pela temática, reafir-
Pensando assim, a possível manifestação mamos a necessidade de uma escuta clínica
conflituosa do gênero atrelada à tradução/re- para além da zona de conforto da técnica
calque originário da sexualidade assimétrica clássica/interpretativa, um mergulho pela
e enigmática recalcada e a posteriori, e sua experiência transferencial, do inquietante si-
resignificação sendo feita por um discurso nistro. E dele aos buracos negros atualizados
binário, reduzindo assim a pluralidade sub- nas angústias sensíveis contratransferenciais.
jetiva a uma lógica excludente: com ou sem
o falo. Conhecemos a história do homem que perde
A assunção de um sexo se torna o fator suas chaves, à noite, e procura por elas junto
principal do recalcamento secundário, em a um poste de luz. A um transeunte que se
que elementos vindos do outro participam inquieta, querendo saber se foi ali mesmo que
da constituição psíquica e instalam no bebê elas foram perdidas, ele responde: “Não, mas,
uma dimensão de alteridade, em torno da pelo menos, aqui está claro”. Para além do cír-
qual toda a sexualidade inconsciente irá se culo de luz que cerca o poste começa o conti-
organizar (Ribeiro, 2015, p. 172). nente negro; e a zona de sombra onde se encon-
A temporalidade do a posteriori, como tram as chaves (Jacques André, 1996, p. 61).
nos sugere Ribeiro (2011), é fundamental
para escaparmos ao paradoxo de ter que
levar em consideração as experiências dos
bebês ‘antes que eles tenham um ego’ e, ao
mesmo tempo, compreender como essas ex-
periências são determinantes na constituição
dessa mesma instância. Portanto, a qualida-
de da alteridade e, consequentemente, sua
internalização está diretamente ligada às pri-
meiras relações mãe (ambiente) e bebê.
Em outras palavras, um recalque origi-
nário suficientemente bom, isto é, um efe-
tivo desprendimento do objeto primordial,
pressupõe que a problemática primária ego/
não ego tenha sido suficientemente bem
desenvolvida. Então a problemática da se-
dução pode ser principalmente considera-
da no registro da fantasmática da sedução
(Roussillon [1995] 2005, p. 149).

126 Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 111–128 | julho/2017


Rodrigo Zanon de Melo

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Janeiro: Imago, 2006. p. 13-163. (Edição standard bra- Aprovado em: 18/05/2017
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Sobre o autor
FREUD, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade
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sobre a teoria da sexualidade e outros trabalhos (1901- Psicólogo.
1905). Direção-geral da tradução de Jayme Salomão. Psicanalista.
Rio de Janeiro: Imago, 2006. p. 128-229. (Edição stan- Membro efetivo do Círculo Brasileiro
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Acesso em: 14 jun. 2017.

128 Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 111–128 | julho/2017


Clínica e teoria psicanalítica Anna Amélia de Faria

Questões sobre os tempos


Questions about the times

Anna Amélia de Faria

Resumo
O artigo apresenta algumas formas de considerar o tempo, distendendo-o da condição de uni-
dade linear. O tempo, na antropologia social estruturalista de Edmund Leach, chega como pa-
radoxo para evidenciá-lo enquanto repetição e transformação. A máquina de tempo, direcio-
nada a provocar futuro, é apresentada na historicização realizada pelos antropólogos Manuela
Carneiro da Cunha e Eduardo Viveiros de Castro, que articulam a noção de vingança produ-
zida pelos Tupinambá. Em Sigmund Freud e Jacques Lacan, o inconsciente é uma instância
de inscrição; através desta há constituição e memória, pois tempo agencia transformações for-
madoras, a partir das marcas fundamentais pelas quais o sujeito do inconsciente se constitui
enquanto ser de fala, agido e efeito nesses traços. Hibridações de tempo transitam na cultura,
nas culturas, e variam de acordo com a lente epistemológica de interação, intenção e alcance.

Palavras-chave: Tempo, Psicanálise, Cultura.

A Cláudia Bergmann,
amiga atemporal

O tempo nos tempos das culturas que a passagem do tempo é um fato, e que
São várias modalidades de compreender os ele não espera por ninguém. Por isso, diz-se
tempos. Não há um tempo exclusivo, por necessário se preparar para não padecer por
isso optei pela grafia no plural. Os tempos irresponsabilidade ou ignorância. Com isso,
são medidas de organizações singulares ou os mais velhos, talvez mais padecidos dessas
coletivas, aparecem nos efeitos que produ- questões, revelam a importância de ser pre-
zem percepção, e os mais óbvios são vistos vidente. Existe o discurso em que o tempo
nas mudanças no corpo da criança, do jo- aparece como medidor e enquadre, que jus-
vem, do adulto, do idoso e noutras transfor- tificaria uma ação urgente e efetiva, para não
mações ao longo da vida, como nas doenças sofrer determinadas e deterministas conse-
ou nos acidentes. quências.
O tempo ressurge nos conselhos decla- Então, nas palavras de conselho, aponta-
rados pelo sujeito que se lembra da impor- se para o tempo que carrega o signo inexorá-
tância de se adequar a ele, nos perigos e nas vel e traiçoeiro da transformação através de
ameaças ou nas suas virtudes curativas: com situações e das imagens por ele cambiadas.
o tempo, a dor passa. Há reconhecimento Atadas a essa ideia de transformações dispo-
do tempo nas advertências às crianças e jo- níveis nas culturas, surgem formas para se
vens referindo-se à necessidade de se man- lidar com o tempo e reconhecer seus movi-
ter em algum enquadramento. Vale lembrar mentos.

Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 129–134 | julho/2017 129


Questões sobre os tempos

O antropólogo Edmund Leach, no tex- Na época da gloriosa antropofagia indí-


to Dois ensaios a respeito da representação gena, ao apresar um inimigo que ficaria por
simbólica do tempo (2010), escreveu sobre o meses ou até anos no território do captor
problema da natureza dessa palavra/concei- (Cunha; Castro, 2009, p. 79), o submetido
to buscando o entendimento alinhado às ex- recebia escarificações comemorativas e um
periências cotidianas. Em seguida, descreve novo nome, amarrado com cordas grossas na
uma série de objetos que irão contá-lo: re- cintura e tendo pelo tempo em que estivesse
lógios, rádios e observatórios astronômicos, prisioneiro, uma mulher e comida; morto,
revelando-os enquanto produtos da moder- cerimonialmente, no terreiro de preferência
nidade, referindo-se ao tempo enquanto da pancada da ibipapema, “espada de madei-
experiência lógica e vinculada a uma po- ra” que lhe devia esfacelar o crânio e deveria
pulação. O tempo possui um comum como cair, face sobre a terra. Nada de seu corpo
resultado de compreensão de grupos. Ele seria perdido, e ele seria refeição para mui-
se refere ao modo inglês de experimentar to amigos, colaboradores e parentes. Duas
o tempo e de sua lógica contraditória, que regras balizavam o modo de servi-lo, para
apresenta tanto o movimento similar ao de não haver desperdício, entretanto aquele que
um metrônomo – com suas batidas e tique- iria matá-lo não comeria nenhuma parte do
taques –, quanto o tempo processador de morto. As vísceras seriam cozidas e servidas
mudanças. às crianças, partes outras seriam moqueadas
Esse autor deriva formas elementares de para serem consumidas com farinha e em
estar com o tempo: (a) dos repetidos fenôme- outras épocas; e, se a carne fosse pouca, era
nos da natureza; (b) das irreversíveis mudan- possível fazer um caldo de um pé ou de uma
ças da vida. Noto que essa irreversibilidade mão.
pode ser questionada por outros modos de Cunha e Castro tomaram como epígrafe
experimentar a vida ao longo do tempo. A um fragmento escrito do historiador e diplo-
experiência produzida pela psicanálise seria mata militar Visconde de Porto Seguro, nas-
um exemplo de salto desse binarismo. cido no início do século XIX.
Há vários modos de estar com o tempo,
e conforme o antropólogo, o entendimen- A vingança, ainda além dos umbrais da eter-
to dos ingleses o concebe entre a repetição nidade, se por um lado não prova bons dotes
e a irreversibilidade. Porém, outros estudos de coração, descobre que estes povos, ou an-
e disciplinas reconhecem o tempo noutros tes, seus antepassados, tinham ideias superio-
ordenamentos, e a psicanálise borra essas res às do instinto brutal dos gozos puramente
determinações tão marcadamente divididas. positivos do presente (Cunha; Castro, 2009,
Os antropólogos Manuela Carneiro da p. 77).
Cunha e Eduardo Viveiros de Castro produ-
ziram no artigo Vingança e temporalidade: Essa era a forma plena da morte em ter-
os Tupinambá (Cunha; Castro, 2009) con- reiro, que muito escandalizava os jesuítas e
catenações sobre a temporalidade resultante governantes do século XVI. Devido às gran-
da vingança e do ritual antropofágicos. Os des pressões, os índios abdicaram mais fa-
antropólogos alinham vários textos, em sua cilmente do canibalismo do que do ritual da
maioria, do século XVI. Escritos feitos pe- morte antropofágica em terreiro.
los jesuítas Inácio de Loyola, Thevet, Léry, O guerreiro capturado agia em confor-
Cardim de descrições do ritual dos indíge- midade com o script. Amarrado e subjuga-
nas. Vingança e temporalidade expõem mo- do, desafiava os seus opositores com amea-
dalidades em que grupos criam, segundo ças: “Meus parentes me vingarão” (Cunha;
eles, ritos ao tempo. Castro, 2009, p. 86).

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Anna Amélia de Faria

O padre Anchieta, ao presenciar essa No circuito dos valores, as culturas produ-


trama, declarara estupefato ante a atitude zem rituais nos quais as questões do tempo
da vítima: “[...] mais parecia que ele estava se ativam. No início deste artigo, referi sobre
para matar os outros que para ser morto” as variações do tempo, que podem estar re-
(Cunha; Castro, 2009, p. 86); dizia que ele lacionadas a outras possibilidades de com-
não poderia mais sair daquela situação, mas preensão, mais singularizadas, subjetivas,
os seus iriam vingá-lo. “Com isso, o inimigo individualizadas.
torna-se o guardião da memória” (Cunha; Sigmund Freud, ao criar a psicanálise,
Castro, 2009, p. 93). da prática à teoria, construiu uma cartogra-
Para um guerreiro Tupinambá, a maior fia do sujeito, de suas instâncias psíquicas e
tristeza seria ser comido pela terra, pois a seus tempos, incluindo aí, nessa iridescên-
morte em terreiro era uma morte valorosa. E cia, a vida psíquica das crianças e os enten-
ser comido em uma situação de captura era dimentos ligados aos processos psíquicos.
uma satisfação e uma honra, além de uma Ele formou uma espécie de etnografia desse
tecnologia temporal. universo, que é de cada um. Para validar sua
descoberta, se implicou e declarou seus im-
Não se trata de haver vingança porque as pes- pedimentos e suas limitações. Fato, com sua
soas morrem e precisam ser resgatadas do criação, operou radicalmente uma transfor-
fluxo destruidor do tempo; trata-se de morrer mação no ocidente e além.
para haver vingança, e assim haver futuro. É Em Além do princípio do prazer ([1920]
uma mnemotécnica mas é mobilizada para a 2010), logo após falar sobre as neuroses trau-
produção de um futuro. A vingança é a he- máticas, Freud enceta outra concatenação
rança deixada pelos antepassados, e por isso sobre a importância do jogo. Associando as
abandonar a vingança é romper com o pas- guerras dos Tupinambá e as concatenações
sado; mas e sobretudo não ter mais futuro dos europeus, penso que, se a primeira re-
(Cunha; Castro, 2009, p. 93). velava um futuro, a segunda trouxe a ferida
emblematizando um passado.
Essas contendas servem para evidenciar Walter Benjamin, em O narrador, traz nas
alguns vínculos com o tempo, ainda em sin- primeiras linhas “[...] a arte de narrar está em
tonia com Cunha e Castro, que explicitaram vias de extinção” (Benjamin, 1985, p. 197) e
que a guerra era para produzir presente e relata que os combatentes chegavam mudos
futuro, seguindo uma linhagem tradicional, da Primeira Guerra Mundial, não traziam
o que foi um grande problema para a Igreja. ensinamentos nem coisas para contar, esta-
Como poderia a Igreja se conformar, tendo vam tomados pelo terror, pelo medo e pela
seu mundo religioso voltado ao perdão e angústia.
vendo os índios motivados pela vingança? No final do conflito, observou-se nos
Sua guerra produzia simbolicamente a en- combatentes um mutismo, pois voltaram
tidade tempo, tempo de sentido no futuro e dos campos de batalha não mais ricos, e sim,
auferidor de razão suficiente para o orgulho, mais pobres em experiência comunicável
para a manutenção do ritual, para não sentir (Benjamin, 1985, p. 198). A guerra não era
a tristeza e a frieza da terra, e manter existên- algo que os incluía ou conferia um pertenci-
cia no corpo do outro como alimento. mento. A guerra desmoralizava. A situação
deixava os soldados em pânico. Tal como
Noutra visada de tempo ocorre com os histéricos, era uma dor atre-
Na vertente dos estudos antropológicos e lada à reminiscência.
históricos, o tempo é um marcador desen- Por vezes, não se entendia em nome do que
volvido nas culturas e de diversos modos. a guerra se afirmava, logo borrava a potência

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Questões sobre os tempos

afirmativa da transmissão, porque o que ou ma. As palavras do sujeito moderno eviden-


quem motivava instava-se alhures do enten- ciam a ruptura com a tradição amplificada,
dimento horizontal e possível. Benjamin re- plena de sentido, em que era orgulho e glória
latou que os camponeses e os marujos eram ser morto por um outro sujeito valoroso.
os experts na arte de narrar. Um, devido ao Na modernidade, o sentido se fragmen-
périplo; outro, devido à observação sistemá- ta, e o sujeito erige-se na condição, possibi-
tica detentora de transformações, menores lidade e tentativa desesperada para produzir
ou não, mas suficientes para fazer ver a força sentido. Não é à toa que o nascimento da psi-
daquele que atestava narrativamente o curso canálise date desse período.
das modificações. “A memória é a mais épica de todas as fa-
Benjamin conta que a modernidade fez culdades” (W. Benjamin).
colapsar a narrativa, evidenciando sua mor- Modernidade, momento simultâneo ao
te, criando condições para o aparecimento de produção de corpos/empresas, funcio-
do romance, gênero distinto das lendas, da nais, positivos e com finalidades concretas.
tradição oral com sua poesia épica, dos con- Freud, ao ouvir os doentes dos nervos, ates-
tos de fada. O narrador do romance é o indi- tou uma razão outra. Uma outra instância
víduo separado, enormemente perplexo. rebelde sobrevinha e se afirmava, dissente,
portanto, dos determinismos moralizantes e
Cada manhã recebemos notícias de todo mun- funcionais. Reconheceu, então, sentido na-
do. E, no entanto, somos pobres em histórias quele que, submetido ininterruptamente a
surpreendentes. A razão é que os fatos já nos privações, não deixava de produzir sentido.
chegam acompanhados de explicações. Em ou- Freud se tornou uma espécie de narrador
tras palavras: quase nada do que acontece está camponês, aquele que fica, que observa cer-
a serviço da narrativa e quase tudo está a ser- tas coisas que, ao social maior, eram invisí-
viço da informação (Benjamin, 1985, p. 203). veis: doidos, crianças, brinquedos, histéricas,
neto, carretel, bloco mágico. E criou a possi-
Benjamin entende a informação enquan- bilidade de desenhar um aparelho psíquico
to comunicação que está sujeita a uma da- regido por um inconsciente, atemporalmen-
tação, a uma psicologia, uma pedagogia. A te insistente, em que negação e morte não se
narrativa prescinde de explicação e, por isso, apresentam.
pode ser repetida, agida. Eis aí uma outra máquina de tempo, que
Talvez a narrativa esteja mais próxima da- nos faz onde não sabemos e corrobora que
quilo que Lacan denominou como sendo a o sujeito irá ter de parir a possibilidade de
palavra “[...] a palavra plena é a que faz ato” fala plena. Na trama do brincar, há uma sin-
(Lacan, [1953-1954] 1993, p. 129); nada gularização do acontecimento, que deixa ver
próxima à explicação, mas ligada a um acon- o sujeito intenso e capaz de adentrar poeti-
tecimento ígneo e, articulada à linguagem, camente na linguagem, acontecimento não
pode ser repetida sem perdas. redentor e não capaz/incapaz de eliminar o
Ainda no primeiro seminário, Lacan afir- mal-estar, mas necessário e operatório para
ma que a fala aponta para direções estabe- conjugar potência e experiência.
lecidas em diferenças, a fala produtora de No fort-da (fort = foi embora; da = está
mudanças entre sujeitos e aquela voltada à aqui), o garoto de dezoito meses de idade,
informação, ao conhecimento, ao apelo que, seu neto, manda um carretel amarrado a
em última instância, tende realizar o acordo uma linha para longe e, depois, puxa-o de
sobre o objeto. volta; articula, assim, um modo para se pre-
Encontro, em Benjamin e Lacan, ideias parar para a ausência e presença do O, viven-
análogas, ao conjurar as palavras dessa for- do, significativamente, em um outro meio, o

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Anna Amélia de Faria

da linguagem, as questões ligadas ao desa- ficar a compulsão à repetição, tornando-a


parecimento e à reaparição (Freud, [1920] inofensiva e até útil. Mais uma vez, Freud é
2010, p. 171-172). peremptório ao dizer que as questões de aná-
Para Lacan, a criança adentra no territó- lise nunca poderão ser tratadas como even-
rio sígnico reinvestindo em um objeto ainda to histórico, pois possuem um poder atual,
desvitalizado, algo que será possuidor de sig- referindo-se à importância de dar tempo ao
nificado e significante, e o transformará em paciente para ele lidar e elaborar suas ques-
objeto de função simbólica, um objeto des- tões, efetivando a necessária superação.
vitalizado, que já é um signo (Lacan, [1953- Paradoxos. Há transformação na vida dos
1954] 1993, p. 206). sujeitos com a psicanálise, e o que era ran-
Refletirei sobre os tempos concatena- queado exclusivamente como sofrimento
dos agora em um outro escrito freudiano, pode, em um indeterminado prazo, passar
Recordar, repetir, elaborar ([1914] 2010), em a ser arranjado à sabedoria. Segundo Freud
que são reveladas as questões dos tempos/ [é ([1914] 2010, p. 205) “[...] apenas experiên-
revelada a questão dos tempos] para os su- cia e o prejuízo tornam alguém sábio”.
jeitos em análise. Nem por isso, focalizando o tempo cole-
No texto, o conceito de a posteriori foi ata- tivo ou singular, o mal se evade, pois ele é
do ao tempo de compreensão. não apenas efeito, mas condição de existir;
também em nós habitam vários tempos: de
No caso de um tipo especial de vivências mui- ancestrais, dos sintomas, dos relógios.
to importantes, que têm lugar nos primórdios
da infância e que na época foram vividas sem
compreensão, mas depois, a posteriori, en-
contraram compreensão e interpretação, em Abstract
geral não é possível despertar a lembrança The article presents some ways of considering
[...] (Freud, [1914] 2010, p. 198). the time, schism it from the condition of li-
near unity. Time, in Edmund Leach’s struc-
Na repetição, Freud é taxativo quando turalism social anthropology, comes as a pa-
escreve que o que não é lembrado é atuado. radox to evidence it as repetition and trans-
Ele, sujeito, não o reproduz como lembran- formation. The time machine, directed to
ça, mas como ato; ele o repete naturalmen- provoke future, is presented in the historici-
te, sem saber que o faz. Freud declara que zation made by the anthropologists Manuela
a compulsão à repetição é um modo de re- Carneiro da Cunha and Eduardo Viveiros de
cordar. No repetir, repisa, repassa algo ainda Castro, who articulate the notion of reven-
não solucionado. Individualmente, o sujeito ge produced by the Tupinambá. In Sigmund
se aferra a uma sina que lhe escapa. Freud and Jacques Lacan, the unconscious is
Freud ([1914] 2010) indica a análise e a an instance of inscription; Through this there
transferência como componentes colabora- is constitution and memory, since time agen-
dores para transformação, pois a transferên- cy formative transformations, from the fun-
cia não se volta ao analista, mas para todos damental marks by which the subject of the
os âmbitos da situação presente. Com isso, unconscious is constituted as being of speech,
a resistência ativa a repetição. Quanto maior action and effect in these traits. Time hybrids
for a primeira, maior será a segunda. No en- pass in culture, in cultures, and vary accor-
tanto, no período da análise, uma transfe- ding to the epistemological lens of interac-
rência positiva irá ajudar que a repetição se tion, intention and reach.
converta em lembrança. Por isso, o manejo
da transferência é fundamental para modi- Keywords: Time, Psychoanalysis, Culture.

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Questões sobre os tempos

Referências Sobre a autora

Anna Amélia de Faria


Psicanalista. Psicóloga. Especialista
BENJAMIN, W. O narrador. Considerações sobre a
em psicologia clínica.
obra de Nikolai Leskov. In: ______. Obras escolhidas,
Pós-doutora em artes visuais pelo Programa
magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense,
de Pós-Graduação em Artes da Universidade
1985. p. 197-221.
de Brasília (PPG-ARTES/UnB).
Doutora em letras e linguística
CUNHA, M. C.; CASTRO, E. V. Vingança e tempo-
pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).
ralidade: os tupinambá com Eduardo Viveiros de
Mestre pelo PPComunicação/UnB.
Castro. In: CUNHA, M. C. Cultura com aspas e outros
Professora adjunta do curso de psicologia
ensaios. São Paulo: Cosac Naify, 2009. p. 77-99.
da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública.
Membro relator do Comitê de Ética em Pesquisa
FREUD, S. Além do princípio de prazer. (1920) In:
com seres humanos (CEP) da Escola Bahiana
_______. História de uma neurose infantil: (“O ho-
de Medicina e Saúde Pública (EBMSP).
mem dos lobos”): além do princípio do prazer e ou-
CV: <http://lattes.cnpq.br/2687127397748968>
tros textos (1917-1920). Tradução de Paulo César de
Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p.
Endereço para correspondência
161-239. (Obras completas, 14).
E-mail: <anna.annamelia7@gmail.com>
FREUD, S. Recordar, repetir e elaborar (1914). In:
______. Observações psicanalíticas sobre um caso
de paranoia relatado em uma autobiografia (“o caso
Schereber”), artigos sobre técnica e outros textos (1911-
1913). Tradução Paulo César Souza. São Paulo:
Companhia das Letras, 2010. p. 193-209. (Obras com-
pletas, 10.).

LACAN, J. A báscula do desejo. In: ______. O semi-


nário, livro 1: os escritos técnicos de Freud (1953-1954).
3. ed. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller.
Tradução de Betty Milan. Rio de Janeiro: Zahar, 1993.
cap. XIII, p. 189-203. (Campo Freudiano no Brasil).

LEACH. E. R. Dois ensaios a respeito da representa-


ção simbólica do tempo. In: ______. Repensando a
antropologia. São Paulo: Perspectiva, 2010. p. 191-209.

Recebido em: 06/05/2017


Aprovado em: 20/05/2017

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Breno Ferreira Pena

A construção do caso em saúde mental


como meio de sustentar o discurso
do analista na instituição
The construction of the case in mental health
as a way of sustain the analyst’s discourse in the institution

Breno Ferreira Pena

Resumo
A proposta deste artigo é demonstrar a possibilidade da presença do discurso do analista na
instituição por meio da construção do caso em saúde mental. Para tanto, é preciso envolver
toda a equipe e trabalhar a partir de um furo no saber, no qual se procura escutar as especifi-
cidades de cada caso e as possibilidades singulares de intervenção.

Palavras-chave: Construção do caso, Instituição, Discurso do analista, Saúde mental.

A construção do caso em saúde mental é um ser um discurso, tem que ser uma estrutu-
dispositivo clínico da psicanálise em exten- ra simbólica que dá um lugar ao psicótico e
são e tem como proposta possibilitar uma es- este é um dever dos enfermeiros e de todas as
cuta clínica de toda a equipe de saúde mental outras pessoas que entram na relação com os
na instituição, com o objetivo de construir a psicóticos (Viganó, 2012, p. 74).
direção do tratamento de pacientes psicóti-
cos. A construção se dá por meio do discurso Há, portanto, a expectativa de que a cons-
do analista que, ao fazer furo no saber insti- trução do caso em saúde mental seja um tra-
tuído, procura criar disponibilidade para que balho de vários, que envolva toda a equipe,
a escuta clínica aconteça na equipe da insti- frente à singularidade de cada paciente. A
tuição. lógica dessa construção pressupõe a descon-
Para o psicanalista italiano Carlo Viganó, sideração de hierarquias, onde todos devem
referência internacional sobre o tema, a cons- ser vistos como operadores da construção.
trução do caso em saúde mental é a melhor Uma proposta, portanto, que não se faz com
forma de fazer valer a presença do discurso um saber instituído ou aprendido nos li-
do analista na instituição. A construção do vros. Toda a equipe deve se abrir ao novo e
caso possibilitará à equipe, caso ela queira à singularidade para escutar o paciente e se
escutar o paciente, aprender com ele e inter- surpreender com ele e, então, favorecer suas
vir para que cada paciente, à sua maneira e invenções, que possibilitam também sua es-
de acordo com suas especificidades, consiga tabilização ao lhe dar um lugar no Outro:
construir um lugar no Outro.
Não é o sujeito que “deve” respeitar as insti-
O que pode substituir o manicômio não são tuições, mas a instituição que será respeitada
puramente as estruturas externas, tem que só se tiver vontade de dar ao sujeito uma re-

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A construção do caso em saúde mental como meio de sustentar o discurso do analista na instituição

presentação, um lugar no vínculo social (Vi- topologia borromeana. Ele toma a inconsis-
ganó, 2012, p. 101). tência do Outro como ponto de partida do
falasser e o Nome-do-Pai como um quarto
E, como frisa o autor, foi a clínica de termo, equivalendo ao sinthoma, que articu-
orientação lacaniana que criou as condições la os três registros: real, simbólico e imaginá-
essenciais para esse trabalho de construção rio (Lacan, [1975-1976] 2007).
do caso em saúde mental. Condições que co- A questão passa a ser os modos de gozo
meçam a ser traçadas já no primeiro ensino e a versão do pai frente à inconsistência do
de Lacan, mas que ganham plena possibili- Outro, mas de maneira absolutamente sin-
dade a partir do seu segundo ensino. gular em cada caso. O enfoque, portanto,
No início de seu ensino, Lacan ([1955- não está mais na estrutura, mas no retorno
1956] 1985) retoma as análises freudianas do gozo sobre o sujeito:
sobre o caso Schreber. Demonstra que o
psicótico, por não entrar no ordenamento Essa nova clínica é essencialmente uma clíni-
fálico, apesar de habitar a linguagem, não é ca que trata do estatuto do gozo, das modali-
habitado por ela, como acontece com o neu- dades de retorno do gozo, que não se limitam
rótico. A ele falta o significante Nome-do- aos fenômenos típicos da psicose como na
Pai, que foi foracluído. Para o psicótico as alucinação auditiva ou nos fenômenos de lin-
palavras são como as coisas e, assim, ele não guagem. São também aspectos de retorno do
faz trocas, doações, que se estabelecem pelo gozo no corpo ou no ato, no agir. Há também
jogo simbólico. retorno do gozo nos afetos e ao mesmo tem-
Para Lacan o significante Nome-do-Pai, po, essa clínica do retorno do gozo é também
que serve como ponto de basta e metaforiza o uma clínica que tem a vantagem de ser uma
desejo do Outro na neurose, não existe na psi- forma que o sujeito encontra de tratar o retor-
cose. A falta desse significante transforma o no do gozo (Zenoni, 2000, p. 42).
Outro em um Outro absoluto. E é por isso que
o psicótico põe o Outro como persecutório. Há, portanto, uma tentativa do psicótico
Há, no entanto, no psicótico um movi- de criar saídas, invenções próprias para lidar
mento para inventar saídas diante da amea- com esse Outro que o invade como gozo do
ça que vem do Outro. Basta ouvi-lo, segun- Outro. Lacan mesmo já apontara, desde seus
do Lacan ([1955-1956] 1985). Assim, Lacan primeiros seminários, a necessidade de escu-
passa a escutar esses pacientes e afirma que é tar as invenções do psicótico. Mas a partir da
preciso lhes dar a palavra e tornar-se secretá- clínica do Real seu ensino foca o retorno do
rio do alienado. gozo por meio das tentativas do psicótico de
No primeiro ensino de Lacan, todavia, é se defender desse Outro que goza dele:
preciso ressaltar que, apesar de toda a sua
contribuição para o tratamento da psicose, Então, o interesse prático e clínico dessa nova
há ainda uma perspectiva de déficit para essa teoria é de nos permitir encontrar o sujeito
estrutura. O psicótico não possui o signifi- psicótico no processo do seu autotratamento
cante Nome-do-Pai, que organiza as cadeias e de poder nos apoiar sobre o que ele próprio
simbólicas, sustenta o gozo fálico e dá a pos- inventa, seja para prolongar isso, seja para
sibilidade do sujeito de se representar, mes- deslocá-lo (Zenoni, 2000, p. 42).
mo que parcialmente, na linguagem.
No entanto, com a segunda clínica, que Para Viganó (2012) é possível propor, de
privilegia o Real – aquilo que não para de forma esquemática, três das saídas mais co-
não se inscrever –, Lacan avança na clínica muns, encontradas pelo psicótico para lidar
com as psicoses, a partir da perspectiva da com o Outro.

136 Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 135–140 | julho/2017


Breno Ferreira Pena

• A primeira é a autodefesa. Isso acontece cutar, a equipe certamente se surpreenderá


quando o Outro se torna absoluto, e o psi- e encontrará maneiras, com a construção do
cótico acredita que o Outro pode destruí-lo. caso, de se fazer Outro para o paciente, mas
Assim, ele se anula na tentativa de não rece- um Outro barrado, que quer aprender com ele.
ber os signos do Outro. Tranca-se no quarto, Notar pequenas diferenças é um modo de
tampa os ouvidos, troca a noite pelo dia, etc. favorecer que o psicótico traga suas inven-
• A segunda operação é a autoconstrução. ções, muitas vezes secretas, para o nível da
Nela o psicótico faz uso da linguagem para palavra e encontre um lugar simbólico no
inventar saídas, utiliza-se de atos com valor mundo, modo de alcançar a estabilização.
simbólico ou mesmo do delírio para regular Segundo Figueiredo (2005), é preciso
a presença do Outro, na tentativa de cons- considerar as manifestações do sujeito do
truir uma existência simbólica com tal ope- inconsciente para a construção do caso na
ração. direção do tratamento, em pelo menos três
• Como terceira saída, Viganó sugere que referências do termo.
os pacientes que estão em atendimento mui- • O sujeito do gozo, que diz respeito à par-
tas vezes fazem uma adesão ao Outro, quan- te pulsional do sujeito, suas relações com o
do passam a se preocupar com a equipe que gozo, que podem ser avassaladoras ou mes-
o atende, por exemplo, se todos voltaram mo uma forma de enlaçamento social.
bem para casa, etc. No entanto, mesmo pro- • O sujeito da palavra, que pode surgir a
curando saídas para lidar com o Outro que o qualquer momento na fala do paciente, por
invade e o persegue, o psicótico o faz sempre meio de um trabalho de elaboração, que, até
sozinho. mesmo disperso, deve ser escutado, acolhido
A produção psicótica geralmente não e acompanhado.
consegue reconhecimento no Outro, não • O sujeito do ato, que aponta uma afir-
faz laço social. Essas produções, no entanto, mação. Esta pode se dar por uma passagem
invenções do psicótico frente ao retorno do ao ato, não só como ruptura com o simbó-
gozo, são fundamentais para o tratamento. lico, mas também como possibilidade de o
A partir delas e com a segunda clínica sujeito se afirmar em uma recusa – não! – ou
de Lacan, os psicanalistas podem propor a mesmo como fruto de um produto do traba-
construção do caso em saúde mental como lho nas oficinas.
direção do tratamento. Isso constitui uma O importante a frisar é que recolher as
forma de escutar tais movimentos de cons- manifestações sempre evanescentes do sujei-
trução do paciente, por meio de um discur- to, no dia a dia do usuário, vai produzindo
so, que favorece a estabilização e o laço social com a construção do caso um saber como
ao lhe permitir encontrar um lugar no mun- síntese, que funciona como norte para as in-
do simbólico. tervenções da equipe.
Para a construção do caso em saúde men-
tal, portanto, deve-se estar atento aos modos Esse três modos de apresentação do sujeito
de gozo do psicótico, como ele é invadido servem como bússola para nossa intervenção
pelo gozo do Outro e como ele dá tratamento e fornecem os elementos significantes que
a isso, quais são suas invenções. recolhemos na construção de cada caso (Fi-
Assim, como ressalta Di Ciaccia (2003), gueiredo, 2005, p. 7).
é um trabalho de vários, e é indispensável a
participação de toda a equipe. A equipe que De toda maneira, o advento de uma escu-
convive com o paciente deve estar disposta ta clínica na equipe, essencial para recolher
a escutá-lo, reconhecer pequenas diferenças as manifestações do sujeito do inconscien-
em seu dia a dia. Com tal disposição para es- te para a construção do caso, só ocorrerá a

Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 135–140 | julho/2017 137


A construção do caso em saúde mental como meio de sustentar o discurso do analista na instituição

partir da presença do discurso do analista Um ponto essencial para a construção


na instituição. Esse discurso possibilitará a do caso em saúde mental é a diferenciação
construção do caso em saúde mental, que in- da construção com a interpretação, pois na
dicará a direção do tratamento em cada caso. construção do caso procura-se evitar a todo
custo a interpretação. A interpretação visa
Discurso do analista um sentido e influencia a equipe a criar sua
a → S própria verdade sobre o sujeito, em vez de
S2 S1 escutá-lo para se fazer um Outro furado, que
quer aprender com ele.
A partir do discurso do analista e ao se posi- Para isso, é fundamental aprender a lín-
cionar como objeto a, o psicanalista/pesqui- gua do psicótico. Não é se colocar como um
sador faz furo no saber da equipe e possibi- Outro avaliador e possivelmente persecu-
lita a construção do caso para a direção do tório, mas se oferecer como um Outro que
tratamento. pode estar ao lado do paciente. Essa disponi-
Viganó (2012), todavia, propõe a utiliza- bilidade favorece a construção de um Outro
ção desse mesmo discurso por meio dos pró- que o reconheça pela palavra.
prios operadores, mas não exatamente do Além disso, como ressalta Figueiredo não
mesmo modo que o analista o utiliza. seria possível pensar na interpretação para a
À esquerda em cima, no lugar de agente construção do caso, já que:
do discurso está o a, representando o sinto-
ma do paciente com seu gozo em questão e A finalidade da construção deve ser justamen-
suas saídas singulares frente a esse modo de te a de partilhar determinados elementos de
gozo. cada caso em um trabalho conjunto, o que
À direita em cima, no lugar do outro do seria impossível na via da interpretação (Fi-
discurso está S, o operador do serviço, como gueiredo, 2004, p. 78).
sujeito dividido, causado e disponível à escu-
ta para a construção do caso. O operador é Outro aspecto é que a construção do caso
que vai aprender com o psicótico, surpreen- em saúde mental deve sempre garantir um
der-se com suas invenções e favorecê-las ou ponto de vazio, pois não visa uma verdade
não, dependendo da direção do tratamento, totalizante sobre o paciente. Pelo contrário,
mas sobretudo escutá-las para criar a possi- o caso sempre fica aberto a novas reconstru-
bilidade de fazer-se Outro para ele. ções, o que favorece uma escuta pronta a se
Abaixo e à direita, no lugar da produção, surpreender sempre com o paciente e suas
está S1 representando a instituição, ou me- invenções. Além disso, só a posteriori po-
lhor, o efeito do discurso do analista sobre a de-se confirmar ou refutar a construção do
própria instituição. caso. Isso se dá pelas respostas inconscientes
Abaixo e à esquerda, no lugar da verdade, do paciente diante da direção do tratamento.
está S2, que representa o saber inconsciente que, Por último, cabe destacar que o envolvi-
por estar no lugar da verdade, se torna inacessí- mento da equipe é outro ponto estrutural
vel a qualquer conexão com o S1 da instituição. para que possa haver a construção do caso
O discurso do analista move a construção em saúde mental. É preciso que a equipe
do caso em saúde mental, mas não existe uma esteja disposta a dar algo de si, para favo-
forma definida, fechada, para tal construção. recer esse processo que não termina com a
É preciso respeitar as especificidades de cada construção do caso, mas que se inicia com
equipe e de cada paciente. Há, porém, pelo ela. A equipe com uma proposta clínica se
menos três pontos nevrálgicos a destacar em volta para escutar o paciente, debruça-se so-
sua realização. bre suas invenções, o que exige suportar a

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Breno Ferreira Pena

própria castração, o não saber, em prol das mas pelo encontro com uma política que
produções do sujeito. sustenta o discurso do analista na instituição.
Como já propunha Lacan ([1955-1956]
1985) no início do seu ensino, é preciso
testemunhar, ou seja, ser testemunha das Abstract
construções do psicótico para favorecer sua The purpose of this article is to demonstrate
estabilização. Isso, portanto, requer antes de the possibility of the analyst’s discourse at the
tudo uma equipe disposta a fazê-lo. Há que institution through the construction of a men-
haver o desejo de se colocar a trabalho em tal health case. Therefore, there is the necessity
uma construção que prescinde da hierarquia of engaging the whole team and work through
e possibilita a todos da equipe poder emergir the knowledge gap, which allows one to listen
como “autoridade clínica”. to the specificities of each case and the unique
Isso se daria por um momento, mas o que possibilities of intervention.
de fato ocupa esse lugar e propõe a direção
do tratamento é a própria construção do Keywords: Construction of the case,
caso feita por todos: Institution, Analyst’s discourse, Mental health.

O que caracteriza a construção do caso na


equipe de saúde mental, e diverge do trabalho
mais específico do psicanalista, é exatamen-
te o fato da equipe ser heterogênea em sua
composição – diferentes profissionais e refe-
rências teórico-técnicas, diferentes níveis de
formação. Mas é justamente por meio desse
trabalho “coletivo” que a discussão do caso
deve ir na direção do “aprendiz da clínica”, ao
seja, colher das produções do sujeito os indi-
cadores de seu tratamento, e não, ao contrá-
rio, impor o modelo da reabilitação em sua
dimensão pedagógica e moral, como aconte-
ce com frequência (Figueiredo, 2004, p. 83).

Como ressalta Lacan ([1958] 1998), o


analista dirige não o paciente, mas o trata-
mento. E, para fazê-lo, é fundamental que
tenha uma orientação, que se daria em três
níveis: o tático, o estratégico e o político, que
Lacan destaca como o mais importante, pois
é o nível que decide uma guerra.
A política, na perspectiva do tratamento,
seria a do analista, ou seja, a política do falta
-a-ser, que também deve orientar a constru-
ção do caso clínico em saúde mental. Uma
política orientada pelo objeto a, que visa que
o sujeito circunscreva algo do Real do seu
sintoma, propriamente neurótico ou como
produção psicótica, não pela compreensão,

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A construção do caso em saúde mental como meio de sustentar o discurso do analista na instituição

Referências Sobre o autor

Breno Ferreira Pena


Psicólogo e graduado em administração
DI CIACCIA, A. D. Inventar a psicanálise na insti-
de empresas.
tuição. In: ______. Uso da psicanálise. Rio de Janeiro:
Psicanalista e sócio do Círculo Psicanalítico
Contra Capa, 2003. p. 33-38.
de Minas Gerais (CPMG).
Pós-graduado em gestão de pessoas pela Fundação
FIGUEIREDO, A. C. A construção do caso clíni-
Getúlio Vargas (FGV).
co: uma contribuição da psicanálise à psicopatolo-
Mestre e doutor em psicologia pela PUC Minas.
gia e à saúde mental. Revista Latinoamericana de
Professor adjunto da graduação em psicologia
Psicopatologia Fundamental, São Paulo, ano VII, n. 1,
da Universidade Federal do Pará (UFPA).
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Professor e orientador de pesquisa no Programa
de Pós-Graduação em Psicanálise da Universidade
FIGUEIREDO, A. C. Uma proposta da psicanálise
Federal do Pará (UFPA).
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VIGANÒ, C. Novas conferências. Belo Horizonte:


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ZENONI, A. Psicanálise e instituição: a segunda clíni-


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Instituto Raul Soares, Belo Horizonte, IRS/FHEMIG,
ano I, n. 0, p. 12-93, 2000.

Recebido em: 17/05/2017


Aprovado em: 23/05/2017

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Edilene Freire de Queiroz, Elizabete Regina Almeida de Siqueira e Pauleska Asevedo Nóbrega

O desafio do feminino no século XXI


The challenge of the feminine in the 21st century

Edilene Freire de Queiroz


Elizabete Regina Almeida de Siqueira
Pauleska Asevedo Nóbrega

Resumo
Este artigo se propõe a refletir sobre o enigma do feminino e compreender os fatores que aí
estão envolvidos de forma estrutural e/ou contingente. A questão do feminino é um campo de
pesquisa de acesso difícil porém desafiante. O primeiro tempo da reflexão nos levará a extrair
do texto freudiano as vicissitudes do feminino. O fato de Freud ter poucos escritos sobre o
tema não quer dizer que eles não contenham verdades que continuam atuais, justamente por
serem estruturais. O segundo tempo de reflexão será voltado para as produções do século XX,
tendo Lacan como autor principal. E por fim, propomos uma discussão sobre o que quer uma
mulher no século XXI, abordando questões atuais vinculadas ao desejo de ter filho, de poder
ser mãe. Concluímos que a fase pré-edípica instaura uma condição estrutural de mulher para
mulher que a alteridade do masculino não consegue suplantar. Permanece dessa relação arcai-
ca uma semente que se reatualiza em diferentes contextos: na maternidade, na escolha do(a)
parceiro(a) amoroso(a).

Palavras-chave: Sexualidade feminina, Fase pré-edípica, Gozo feminino, Paixão maternal.

A situação analítica, no âmbito do ultrapri- so difícil. Não basta Freud nos endereçar aos
vado, e a mídia, no âmbito do extrapúblico, poetas nem Lacan convocar as analistas. O
continuam reabrindo indagações sobre o exercício de entender o feminino é também
tema do feminino. Se a pergunta o que quer o exercício de entender as relações humanas,
uma mulher fez questão a Freud no século sobretudo as mais arcaicas.
XIX, é também ela que nos impulsiona agora Este artigo se propõe a compreender os
a buscar respostas minimamente aproxima- fatores que aí estão envolvidos de forma es-
tivas sobre o que quer uma mulher no século trutural e/ou contingente. O primeiro tem-
XXI. Teria ela aberto mão do amor do outro po da reflexão nos levará a extrair do texto
e do Outro? Teria ultrapassado o desampa- freudiano as vicissitudes do feminino. O fato
ro? Por que não declina do desejo de filho? de Freud ter poucos escritos sobre o tema
Isso significa que revisitar o enigma do fe- não quer dizer que eles não contenham ver-
minino nos coloca como Atlas, com o desa- dades que continuam atuais, justamente por
fio permanente de continuar produzindo um serem estruturais. O segundo tempo de re-
saber sobre as mulheres. Afinal, como nos flexão será voltado para as produções do sé-
diz Freud ([1931] 1969, p. 276), a questão do culo XX, tendo Lacan como autor principal.
feminino é um campo de pesquisa de aces- E, por fim, propomos uma discussão sobre o

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O desafio do feminino no século XXI

que quer uma mulher no século XXI, abor- que o primeiro é do domínio materno – mas
dando questões atuais vinculadas ao desejo com a promessa de oferecer alguma coisa
de ter filho e ao poder de ser mãe. para se colocar no lugar daquilo que lhe foi
interditado.
As vicissitudes do feminino em Freud Por ser secundário, Freud ([1931] 1985,
O modelo freudiano de análise do tema são p. 263) considera que “[...] o complexo de
as relações de objeto e a economia pulsional. Édipo não dá conta do feminino”. Faz-se,
E nesse campo ele destaca como essencial a portanto, necessário ir aquém do Édipo se se
fase pré-edipiana, considerada originária, deseja alcançar o enigma da marca do femi-
decisiva e o primeiro tempo da castração nino.
no feminino. O Édipo já é considerado uma Entendemos, então, que Freud trata o fe-
tentativa de resposta aos enigmas propostos, minino considerando três tempos:
entre outros, por um primeiro tempo, viril, 1. A fase pré-edípica, considerada pri-
de masturbação sem fantasia. mordial, caracteriza-se pelo investimento li-
A primeira relação mãe e filha é marcada bidinal ativo e intenso no phalus, vivida com
pela intensidade dos investimentos, pelo ex- fantasias masturbatórias dirigidas à mãe, ob-
cesso em decorrência da potência materna. jeto primordial. A interdição dessa atividade
A experiência de satisfação clitoridiana põe masturbatória provoca um ressentimento,
em evidência o phalus como uma potência que entendemos ser de ordem estrutural na
inerente a todos. mulher.
Essa experiência de satisfação é “estraga- 2. A fase negativa do Édipo, na qual a me-
da” pela mãe ao proibir a masturbação, como nina deprecia a mãe e se ressente mais uma
assim se refere Freud ([1931] 1985). E o pro- vez por ser castrada. Renuncia ao primeiro
duto é um ressentimento permanente e sine objeto, ao mesmo tempo que desloca sua
die, considerado a base da estrutura histérica. potência fálica para o outro sexo, mas não
Essa proibição gera um conflito estrutu- completamente. Guardará para sempre sua
ral entre a virilidade clitoridiana proibida e libido ativa, e sua sexualidade se dará nessa
o ideal de ultrapassagem, tendo como objeto tensão entre a satisfação clitoridiana e vagi-
de satisfação a vagina, mais de acordo com a nal. As fantasias das mulheres expressas no
vocação reprodutiva da mulher. texto Bate-se numa criança, corroboram isso,
O olhar libidinoso da mãe para um outro pois ora são ativas, ora são passivas.
permite que a menina desloque a potência Freud ([1931] 1969, p. 276) afirma que
fálica para o outro sexo e, com isso, saia do
campo do igual e instale a diferença. Isso não [...] a psicanálise nos ensina a lidar com uma
acontece sem consequência. Se inicialmente libido única, a qual, é verdade, possui objeti-
a mãe “estragou” a experiência de satisfação vos (isto é, modalidades de satisfação) tanto
clitoridiana proibindo-a, agora é a filha que ativos quanto passivos.
deprecia a mãe, e se instala pela rivalidade um
segundo ressentimento: ter nascido castrada. 3. A fase positiva do Édipo, quando se
O pai agalmatizado pela presença desse volta para o pai, suprassumindo as fases an-
a mais, que é o phalus, convocará para si o teriores. A menina troca de objeto, faz uma
agenciamento dessa castração até então atri- alteração na economia libidinal assumindo
buída ao Outro primordial (a mãe) contra uma posição objetal passiva, na qual deixa de
quem a menina ressentida e desiludida tra- ser o agente da satisfação, para ficar na po-
tará de, sistematicamente e das mais diversas sição de ser amada. Qualquer das posições
formas, dizer ’não’. Portanto, o pai como ter- que possa assumir é uma reação secundária
ceiro é agente secundário da castração – já e defensiva diante da constatação da diferen-

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Edilene Freire de Queiroz, Elizabete Regina Almeida de Siqueira e Pauleska Asevedo Nóbrega

ça dos sexos, pois, segundo Freud ( [1931] continuar no modelo de binarismos mascu-
1969, p. 279) lino/ativo e feminino/passivo. Ou seja, se-
guiu os ensinamentos de Freud de não redu-
[...] não devemos desprezar o fato de os pri- zir o suplementar do feminino em relação ao
meiros impulsos libidinais possuírem uma in- masculino ao par complementar ativo/passi-
tensidade que lhes é própria, superior a qual- vo. A posição de ser objeto para o homem
quer outra que surja depois e que pode ser ver- não quer dizer uma posição passiva. Fazer-se
dadeiramente chamada de incomensurável. de objeto fetiche para o homem não diz tudo
da mulher. Ela espera ser adorada para além
Portanto, a marca estrutural da sexuali- disso.
dade feminina é o ressentimento, vivido em Com essas colocações, ele abre caminho
duas temporalidades: na fase pré-edípica e para pensar na homossexualidade feminina
na fase negativa do Édipo. e considerar que a transexualidade mascu-
Em outro artigo (Queiroz, 2007), tra- lina pode auxiliar a “decifrar” a sexualidade
tando sobre o desmentido (Verleugnung), feminina.
realçamos, consoante Frej (2003), que todas Nessa direção Lacan (1972) deu um al-
as noções freudianas se constroem num pro- cance novo à questão do feminino quando
cesso de suprassunção, que dá a sua obra um formulou a lógica da sexuação. Ou seja, ele
caráter dialético. Há sempre uma vivência abordou a diferença sexual a partir da hete-
anterior na qual se apoiam as posteriores; há romorfia do gozo feminino e do gozo mas-
sempre pulsões originais das quais derivam culino. O gozo masculino mantém de certo
as secundárias. modo a questão edipiana proposta por Freud
“Essa necessidade de Freud de compreen- no sentido de que está regido pela castração
der os processos psíquicos numa temporali- e pela lógica fálica; já o gozo feminino seria
dade do après coup gera em alguns contextos, não-todo submetido à castração e, portanto,
incompreensões” (Queiroz, 2007, p. 57), não diz respeito à falta. Ele é mais radica e
como o equívoco de tratar a questão do femi- diz respeito ao gozo suplementar que faz li-
nino pela via edípica, quando o fundamen- mite ao simbólico.
tal, o elemento fundante do feminino está É interessante lembrar que algumas revis-
no pré-edípico, que gera um ressentimento tas e jornais brasileiros costumavam incluir
originário que se desdobra em dois tempos nas suas edições um suplemento feminino.
e indica que a sexualidade feminina está im- Diziam respeito a algo a mais que não fazia
pregnada da relação com a mãe. parte da lógica “masculina” e da ordenação
simbólica que regia a publicação. No nosso
O gozo feminino em Lacan entender é disso que se trata quando Lacan
Lacan (1988) tratou o tema da sexualidade fala de um gozo suplementar e não comple-
feminina olhando para os pontos obscuros mentar. Trata-se de um gozo do corpo, que
e misteriosos que cercam o gozo feminino, está para além do falo e que Lacan (1975, p.
no qual se deve levar em conta a oposição 98) interpreta como “[...] une face de l’Autre,
entre o gozo clitoridiano e a satisfação vagi- la face Dieu, comme supportée par la jouis-
nal e considerar as implicações de se pensar sance féminine”.1
a bissexualidade relacionada à duplicação da Lacan (1975) concebe o gozo feminino
anatomia que repudia o quantum afetivo ad- como radicalmente Outro, por isso conside-
vindo da combinação entre organismo e su-
jeito que dá sentido ao inconsciente.
Lacan (1988) também se preocupou em 1. “[...] uma face do Outro, a face de Deus, como suportada
discutir a pulsão ativa feminina em vez de pelo gozo feminino”. (Tradução nossa).

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O desafio do feminino no século XXI

ra que a Mulher tem parentesco com Deus e Ama-se para se consolar do impossível da
que seu gozo é do campo do mistério, devido harmonia de uma relação biunívoca. Ou seja,
à sua relação com essa alteridade radical. o amor vela que há do Um e não do Dois. No
O inconsciente não sabe nada do femini- ato sexual cada Um goza só e de maneira dife-
no excluído do fálico, porque nele só há um rente. No ato de fazer amor o homem, na po-
significante – o falo – para dizer o sexo. Daí sição masculina, goza calado, pouco afeito às
nasce a impossibilidade de escrever a relação palavras de amor. A mulher, na posição femi-
sexual porque falta um dos termos da rela- nina, demanda que o homem com quem está
ção: a mulher. lhe diga palavras de amor, elemento intrínse-
O resultado dessa leitura é que não há co ao seu gozo mais erotômano do que feti-
relação sexual que possa se escrever entre o chista. Cada um ama segundo seu fantasma.
homem e a mulher. O corolário é a dedução O ‘des-encontro’ dos sexos é estrutural e
de um impossível, já que os gozos não coin- não acidental ou secundário. O que quer di-
cidem e não se complementam.Essa é uma zer que não é apenas o “destino” de alguns.
lógica no mínimo curiosa para não dizer Está para-todos. Há uma descalagem intrín-
problemática, paradoxal: escrever – anão re- seca entre homens e mulheres. Podem-se
lação – o que não há. É evidente que se trata amar, até mesmo fazer amor, mas mesmo
da dedução de uma impossibilidade: S(A). assim jamais escreverão uma relação: uma
A linguagem não alcança o Real como o que proporção.
não cessa de não se escrever. Se assim não Por isso, Lacan (1975) precisa a diferença
fosse, haveria o Universal do Todo. E o que a sexual a partir da diferença entre os gozos.
psicanálise demonstra em cada experiência Do lado masculino das fórmulas, situa a ló-
de análise é que não há um saber universal gica do todo e da exceção – lembremo-nos
sobre o real que diz respeito a cada ser falan- de que Freud a deduziu do universal edípico
te, mas o Um a Um, que toca a cada ser em sustentado numa exceção (o pai da horda),
sua singularidade. é a lógica do Édipo; do lado feminino, situa
Lacan (1975) não nega a existência do ato outra lógica, a do não-todo fálico.
sexual, do qual participam homem e mulher. A falta de uma exceção feminina, ou seja,
O que ele de fato diz é que o ato sexual não de uma Mulher toda regida pela lógica fálica
faz rapport, proporção entre os dois sexos. impede a formarção do conjunto de todas as
Eles não se complementam, a relação não é mulheres, por isso ele afirma que A mulher,
bionívoca; é o amor que faz o laço. como universal, não existe. Elas só existem
Nas palavras de Lacan (1975, p. 59). “[...] uma a uma numa série aberta. O que a faz
ce qui suplée au rapport sexuel en tant qu’ine- não-toda fálica é a experiência de Outro
xistant, c’est précisément l’amour”.2 gozo diferente do gozo fálico, do qual tam-
E acrescenta: bém participa.
Esse Outro gozo é uma experiência de ar-
Nous ne sommes qu’un. Chacun sait bien sûr rebatamento cujo modelo nos deu M. Duras
que ce n’est jamais arrivé entre deux qu’ils ne com Lol. V. Stein. E podemos fazer algumas
fassent qu’un... C’est de là que part l’idée de aproximações à questão da “loucura das
l’amour3 (Lacan, 1975, p. 61). mães” ou da “selvageria materna” ou ainda da
“paixão maternal” no que de radical e ímpar
existe nesse gozo de ser mãe, que a aproxima
2. “[...] o que supre a falta de relação sexual é precisamente de Deus no mistério da criação, da perversão
o amor”. (Tradução nossa). no que há de cruel, violento e excessivo e da
3. “Nós não somos senão um. Cada um está bem certo que
isso jamais chegou entre dois que eles não fazem um. É psicose pela exaltação maníaca ou depressiva
disso que parte a ideia de amor.” (Tradução nossa). que a maternidade muitas vezes suscita.

144 Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 141–148 | julho/2017


Edilene Freire de Queiroz, Elizabete Regina Almeida de Siqueira e Pauleska Asevedo Nóbrega

Talvez seja essa a razão de a mulher não Kristeva (s/d) fala de uma “paixão mater-
declinar do poder de ser mãe. Vamos ver isso nal”, que diz respeito a um impulso arcaico
nos discursos de mulheres que, impossibili- transmitido de mãe para filha. Se, como vi-
tadas de gerar, por questões de infertilidade, mos em Freud, a marca estrutural da sexua-
insistem em adotar procedimentos invasivos lidade feminina é o ressentimento vivido em
e arriscados. E quando nem isso resolve, de- duas temporalidades, na fase pré-edípica e
mandam adoção. na fase negativa do Édipo, podemos também
entender como marca estrutural essa paixão
Loucura e paixão maternal maternal, herança dessa relação.
A pesquisa de doutorado realizada por Dufourmantelle ([2001] 2016, p. 18) é
Edineide Silva (2016) mostrou que a de- mais radical ao usar a expressão “selvageria
manda por adoção constitui o ultimo recur- materna” para indicar essa propensão ar-
so para ter um filho. A pesquisa doutoral de caica e pré-histórica constituída no espaço-
Sheila Speck (2014) mostra que a evolução tempo pré-edípico, um território de pulsões
de crianças em período de estágio de con- caóticas e violentas.
vivência decorre em grande parte da rela- Segundo a autora, a selvageria designa
ção da candidata a adotar com o pretenso não somente a crueldade, que faz a mãe ser
adotado. Mesmo nos casos de casais, a figu- capaz de um infanticídio, mas também a ca-
ra paterna pouco interfere ou decide nesse pacidade de sacrificar a vida pelo filho, mos-
processo. trando que está aí a raiz do amor e do ódio,
Nessa mesma direção são os resultados como o sentimento de amódio que domina a
apontados por Carolina Albuquerque (2016), relação mãe-bebê.
que analisou a especificidade do laço entre a Assim, cada mulher porta uma semente
criança e os pais no caso de adoção tardia. que a liga à sua mãe e que se reatualiza nes-
Ela constatou que as crianças maiores ten- se desejo/poder de ser mãe. Se o corpo falha
dem a se aproximar com mais facilidade da na função de procriar, se a medicina falha na
figura masculina, e isso causa uma profunda oferta de recursos para reverter a infertilida-
decepção nas mulheres, gerando quadros de- de, à justiça se apela e se reinvidica esse poder.
pressivos ou levando as mulheres a desistir Lou-Andreas Salomé (1980) observa que
da adoção, ou seja, a devolver a criança. a maternidade é que permite à mulher viver
Essas três pesquisas põem uma questão o seu melhor e mais feminino: ela vai além
importante quanto ao lugar de filho para as de si mesma, partilha o mistério da criação.
mulheres. Se a maioria das mulheres deseja Nesse ponto Lacan dialoga com Salomé ao
engravidar para ter um filho e para tal são aproximar o gozo feminino do gozo místico.
capazes de se submeter a procedimentos in-
vasivos e dolorosos, o fato de não consegui- Considerações finais
rem engravidar não as impede de continuar Se, de um lado, essas reflexões abrem cami-
a reinvidicar o “poder de ser mãe”. nhos para se avançar na compreensão do fe-
Sublinhamos aqui o “poder de ser mãe” minino, de outro, permanece o mistério de
diferente do que acontece com o homem. um gozo que leva a mulher a viver no exces-
O lugar ocupado pelo homem nas deman- so, bordejando a loucura. Devastação, ma-
das de adoção por casais heterossexuais é ternidade, sacrifício, sublimação são alguns
sustentar o desejo da mulher. E são raros os atributos que a ela se ligam, mas que jamais
que falam do desejo de ser pai. Em alguns esgotam o feminino.
casos ser mãe torna-se um imperativo, pois A fase pré-edípica instaura uma condi-
elas carregam tal desejo desde sempre e não ção estrutural de mulher para mulher que
podem abrir mão dele. a alteridade do masculino não consegue

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O desafio do feminino no século XXI

suplantar. Permanece dessa relação arcaica Referências


uma semente que se reatualiza em diferentes
contextos: na maternidade, na escolha do(a)
parceiro(a) amoroso(a). ALBUQUERQUE, C. M. M. O processo de filiação de
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Não é por acaso que as esfinges são sem- dans le cadre du Programme de Master et Doctorat
pre femininas. Elas estão ali como enígmas. de Psychologie Clinique de l’Université Catholique du
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ANDREAS-SALOMÉ, L. L’amour du narcissisme.


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This article proposes to reflect on the enigma BENHAÏM, M. La folie des mères (1998). Paris: Imago,
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“esperado” filho biológico. Mémoire de master soutenu
difficult access field of research but challen- dans le cadre du Programme de Master et Doctorat
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second time of reflection will be focused on sujet des enfants de rue au Brésil. 2003. 314 f. Tese
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the leader author. And finally, we propose a U.F.R. Des Lettres, des Sciences de l’Homme et des
Sociétés, Paris, 2003.
discussion about what a woman wants in the
21st century, approaching current issues rela- FREUD, S. Conferência XXXIII: Feminilidade (1933
ted to the desire of have a child, to be a mo- [1932]). In: ______. Novas conferências introdutó-
ther. We conclude that the pre-oedipal phase rias sobre psicanálise e outros trabalhos (1932-1936).
establishes a structural condition from woman Direção-geral da tradução de Jayme Salomão. Rio
de Janeiro: Imago, 1969. p. 139-163. (Edição stan-
to woman that the otherness of the masculi- dard brasileira das obras psicológicas completas de
ne cannot supplant. This archaic relation re- Sigmund Freud, 22).
mains a seed that is re-established in different
contexts: in the maternity, in the choice of the FREUD, S. Sexualidade feminina (1931). In:
loving partner. ______. O futuro de uma ilusão, o mal-estar na ci-
vilização e outros trabalhos (1927-1931). Direção-
geral da tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro:
Keywords: Female sexuality, Pre-oedipal Imago, 1969. p. 257-279. (Edição standard brasilei-
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146 Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 141–148 | julho/2017


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la com a ’Université de Rennes et l’Université catholi-
que de l’Ouest - Angers. 2014.

Recebido em: 05/05/2017


Aprovado em: 20/052017

Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 141–148 | julho/2017 147


O desafio do feminino no século XXI

Sobre as autoras (Bacharelado e Licenciatura) em Psicologia pela


Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), com
Edilene Freire de Queiroz ênfase na Clínica Psicanalítica. Foi professora da
Pós-doutora (Laboratoire de Psychopatholie Clinique, Especialização em Saúde Mental pela Fundação de
Université de Aix-Marseille I), Doutora em Psicologia Ensino Superior de Olinda (FUNESO). Professora
Clínica (PUC SP), Professora titular e membro do visitante da Especialização em Saúde Mental na
Programa de Pós-graduação em Psicologia Clínica e Zenith – Clínica, Cursos e Consultoria pelo Instituto
Coordenadora da Linha de Pesquisa Psicopatologia de Ensino Superior Múltiplo (IESM). Foi Psicóloga
Fundamental e Psicanálise (UNICAP). Psicanalista, Clínica das Faculdades de Ciências Médicas (FCM).
Membro da Associação Universitária de Pesquisa em Colaboradora da Escola Brasileira de Psicanálise,
Psicopatologia Fundamental, Membro do Grupo de Delegação Paraíba (EBP-DPB). Desenvolveu pesqui-
Trabalho “Psicopatologia e Psicanálise” da Associação sas nas seguintes áreas temáticas da Psicologia Clínica
Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia e da Psicanálise: saúde mental/psicose, urgência sub-
(ANPEPP), Brasil, Bolsista de Produtividade nível jetiva, família, interface entre a primeira e a segunda
PQ-2 do Conselho Nacional de Desenvolvimento clínica lacanianas. Atualmente, trabalha em pesquisas
Científico e Tecnológico (CNPQ) do Ministério da sobre as psicopatologias do corpo e metapsicologia do
Ciência e Tecnologia do Brasil. Membro do Conselho corpo, tendo estudado a relação corpo e transferência
Científico das seguintes revistas: Psicologia Clínica de Freud a Lacan e, recentemente, a relação corpo e
da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), feminino em psicanálise, mais especificamente, sobre
Brasil; Revista Latinoamericana de Psicopatologia o conceito lacaniano de devastação.
Fundamental da Associação Universitária de Pesquisa
em Psicopatologia Fundamental; Tempo Psicanalítico; Endereço para correspondência
Psicologia Ciência e Profissão; Revista Estudos de
Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de Edilene Freire de Queiroz
Campinas (PUCCAMP), Brasil; Psicologia em Estudo; E-mail: <edilenefreiredequeiroz@gmail.com>
Alethéia. Autora de A clínica da perversão (2014) de
diversos artigos publicados em revistas científicas in- Elizabete Regina Almeida de Siqueira
dexadas. Desenvolve pesquisas na área de Psicologia E-mail: <betesiqueira1@gmail.com>
Clínica e Psicanálise, com ênfase em Tratamento e
Prevenção Psicológica, investigando, principalmente Pauleska Asevedo Nóbrega
sobre: psicanálise, psicopatologia, perversão e atual- E-mail: <pauleskanobrega@hotmail.com>
mente em metapsicologia do corpo e sobre o tema da
adoção e filiação.

Elizabete Regina Almeida de Siqueira


Psicanalista. Graduação e licenciatura em Psicóloga
pela Faculdade de Ciências Humanas de Olinda,
Doutora e Mestre em Psicologia Clínica pela
Universidade Católica de Pernambuco. Professora do
Programa de Pós-graduação em Psicologia Clínica da
Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP).
Membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da
Associação Mundial de Psicanálise. Autora de Corpo
escrito: um estudo sobre nomeações e marcas corporais
(2014) e de vários artigos publicados em revistas inde-
xadas e livros coletivos. Desenvolve pesquisas na área
de Psicanálise, investigando, sobre novos sintomas e
sua relação com o declínio do Simbólico e atualmente
sobre o campo das Psicoses ordinárias.

Pauleska Asevedo Nóbrega


Doutoranda e Mestre em Psicologia Clínica pela
Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP),
na linha de pesquisa Psicopatologia Fundamental
e Psicanálise, Especialista em Saúde Mental pelas
Faculdades Integradas de Patos (FIP), Graduada

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Isabela Cribari

As peles de Almodóvar
ou Existe alguém aí dentro?1
The skins of Almodóvar or Is anyone there?

Isabela Cribari

Resumo
Este artigo apresenta leituras para a paixão humana, debruçando-se em uma metapsicologia
do corpo (e seu telos, no tempo). Traça um percurso que vai além do componente corpóreo
e avança sobre o estudo do corpo libidinal a partir da linguagem – esse corpo sutil, imaterial,
mas também um corpo. O estudo das paixões em Descartes, Espinosa, Freud e Lacan, a partir
da produção cinematográfica de Pedro Almodóvar. Busca compreender esse pathos pela leitura
dos mitos de Psiqué e Eros, e das Danaides, para dar um corpo unificado a esses pensamentos.
Além disso, busca partir da compreensão desse ponto inicial, arcaico, esse arcké, da origem
de todas as coisas, de um passado comum ou sentimento primitivo e busca reflexões sobre a
contemporaneidade, pois o contemporâneo é também o arcaico – e isso inclui as paixões. A
paixão é a busca desse sentimento arcaico e idealizado de satisfação total. A ética da psicanálise
consiste em cessar essa saudade do pai protetor, da mãe que a tudo supre e satisfaz para se lidar
com esse desamparo, com essa falta. Fazer bem o luto dessa fantasia infantil. Deslocar-se, corpo &
alma, nesse tempo morto, portanto. Telos, corpus, cronos, psique, eros, arcké, pathos. Trata
desse pathos específico, aquele do qual cuida a psicanálise – o da inscrição do amor no
corpo –, buscando compreender o amor também como patologia que habilita a psicanálise em
seu objeto, de modo que pouco importem as peles, mas importe quem, de fato, habite dentro dela.

Palavras-chave: Psicanálise, Paixão, Corpo, Cinema, Almodóvar.

Hello! Relax
Olá! Relaxe
Is there anybody in there? I’ll need some information first
Tem alguém aí? Vou precisar de algumas informações
Just nod if you can hear me primeiro
Apenas acene se puder me ouvir Just the basic facts
Is there anyone at home? Apenas coisas básicas
Tem alguém em casa? Can you show me where it hurts.
Você pode mostrar onde dói?2
Come on now
Vamos lá
I hear you’re feeling down
Ouvi dizer que você está se sentindo deprimido
Well, I can ease your pain
Bem, eu posso aliviar sua dor
And get you on your feet again
E te pôr em pé de novo

1. A primeira parte deste trabalho é um vídeo, que pode ser visto nos endereços:
<https://www.youtube.com/watch?v=fpkpgFvJuIQ> ou <https://vimeo.com/216714433>.
2. Comfortably Numb. In: GILMOUR, David; WATERS, Roger. The Wall, 1979.

Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 149–156 | julho/2017 149


As peles de Almodóvar ou Existe alguém aí dentro?

O tema da paixão encontra um fértil ca- contingência entre o corpo e a alma. E que,
minho na filosofia, na mitologia, na litera- sem a ressonância orgânica no corpo, o amor
tura e no cinema, além da psicanálise. Espi- -pensamento não se satisfaz, não existe. En-
nosa e Descartes, por exemplo, são leituras tão, o corpo é o índice da paixão que vem a
obrigatórias para esse tema, donde se pode afetar a alma.
perceber que, embora as vítimas do amor ro- É, portanto, impossível não pensar com
mântico o prefiram de outra natureza, para mais propriedade – aqui e ali, outra vez e
a filosofia, o amor é só um pensamento, por sempre – no mito de Psiqué e Eros; a fonte
mais confuso ele se apresente. provável da solução de todos os males ou so-
Esse racionalismo, que tem representa- frimentos psíquicos, a panaceia, enfim, que
ção em Descartes (embora seja em Espinosa todos buscamos (sempre com um dos pés no
que atinja seu ponto mais elevado), define o outro lado do abismo, como Psiqué, derrota-
amor como uma confusa “paixão da alma”, da pela falta de fé, tentando se atirar no rio),
essa paixão primitiva e para quem a sua an- porque talvez não acreditemos tanto assim
tecipação para aquilo que é o objeto do nosso na felicidade como a personagem não acre-
desejo não se pode jamais dissociar do seu ditou no Amor e traímos, conscientemente
componente orgânico, ou seja, o corpo hu- ou não, esse pensamento segundo a segundo,
mano. Espinosa (2010) vai mais além: a pai- todos os dias – talvez por uma única razão:
xão é também razão; o pensamento é tam- a obra e graça de Voluptas – o prazer – filho
bém algo que se sente, um sentimento. desse casal mitológico e enigma para todos
Se seguirmos pelas visões românticas os nossos males também. Por que o homem
desde a rebeldia de Caliban até o domínio deseja tanto o prazer? Ou por que o homem
da alma em Próspero, em A tempestade, de deseja tanto? E por que se culpa tanto de de-
Shakespeare, cuja lição é que a razão é su- sejar sem medidas?
perior às paixões, assim como virtudes ven- Qual seria a medida certa do desejo para
cem vícios, e o civilizado vence o selvagem, ‘o bom uso das paixões’? Os estoicos acredi-
ou seja, que os impulsos humanos podem ser tavam ser necessária a extirpação das paixões
controlados, como faz Próspero ao final da e a resignação do destino. Os epicuristas, ao
peça, do mesmo modo ainda somos tentados contrário, acreditavam ser o prazer o supre-
a “escolher um dos lados” e a não compreen- mo bem da vida humana, sendo necessário
der o homem em sua unidade, mas sempre que cedêssemos o mais possível e a qualquer
em sua dicotomia. preço aos desejos. Já os eudemonistas, para
Ora, Shakespeare, que, segundo Harold quem a felicidade, e não o prazer, era o ob-
Bloom, inventou o humano, nos explica que jetivo maior da vida, achavam ser necessário
nossas paixões, nossos sentimentos e pen- que escolhêssemos os desejos a ser satisfei-
samentos acontecem ao mesmo tempo e, tos. Conforme cada um desses entendimen-
quando Hamlet olha para a figura de Clau- tos havia uma forma de lidar com as paixões
dio rezando, está movido por paixão, razão e e com sua relação corpórea sem, entretanto,
sobretudo pela mais apaixonada das razões: negar a existência dessa estreita relação.
a loucura. Ainda em As paixões da alma, (no art. 40,
De alguma forma, René Descartes, em Qual é o principal efeito das paixões), Descar-
Paixões da alma, sentencia o amor aos do- tes (2012) aponta um caminho: o principal
mínios da carne, do tangível, do território. efeito de todas as paixões nos homens é que
Do que pode ser contido, medido, pesado, incitam e dispõem a sua alma a querer coisas
quantificado. Podemos compreender ainda para as quais elas lhes preparam o corpo.
que esse pensamento-paixão não poderá se No cinema a paixão é tema recorrente, e
manifestar senão por uma estreita relação ou é no cinema de Pedro Almodóvar que é re-

150 Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 149–156 | julho/2017


Isabela Cribari

presentada como um corpo vivo, em carne Não só no cinema de Almodóvar, mas


e alma, em gozo. Numa entrevista recente, quando pensamos na paixão de Cristo somos
Almodóvar revela também o seu telos e o remetidos imediatamente para o sofrimento
que determina o seu modo de fazer cinema: de Cristo, um sofrimento também físico, e
“O essencial é isto: sobreviver e manter a não para o amor de Cristo. Por aí podemos
paixão”. O significante paixão. A frase ficou entender esses barroquismos, esses excessos,
dando voltas na minha cabeça. “Sobreviver e enfim, o kitsch, e ainda mais a escatologia,
manter a paixão”. Ou ainda: manter a paixão que se apresenta em toda a obra almodova-
e sobreviver. riana e tem origem notadamente religiosa,
Lacan ([1972-1973] 1986) diz que o signi- da prática ritualista das religiões, sobretudo.
ficante é a causa material do gozo, e podemos Assim, a partir das aulas dos ritos de tau-
dar índices de vida a um corpo tanto quanto romaquia das primeiras cenas de Matador,
mais gozo haja nesse mesmo corpo: “[...] a em que o touro traz a metáfora antropomór-
substância corporal é aquilo de que se goza”, fica, endereço correto do mito de Teseu, do
diz ele. Para isso, ele criou apalavra “corpsi- Minotauro e do labirinto, vemos o corpo si-
ficar”. Lacan ([1972-1973] 1986) questiona tiado para as experimentações da morte, do
que um corpo possa ser conceituado pelas prazer e do êxtase. Ou até mesmo podemos
funções orgânicas, mas isso sugere pouco: pensar num outro corpo, como em Carne
“Um automóvel, ou mesmo um computador, trêmula, em que os quatro anjos (justiça,
segundo as últimas notícias, é também um temperança, fortaleza e prudência) no alto
corpo, mas não é óbvio, digamos, que um de La Puerta de Alcalá, em Madri, parecem
corpo seja vivo”, diz ele. se suicidar (como diz Isabel, a personagem).
Talvez não seja tão óbvio assim, não em Referindo agora o corpo territorial, o cor-
pleno século XXI, neste século do cinema po social, a própria Espanha, perdida ainda
de Almodóvar, em que exatamente essas pelos ecos do seu totalitarismo, Almodóvar
paixões – compreendidas sobretudo como cria uma ilha própria de mitos para falar de
pathos, outro conceito discutido por Descar- sua corpolatria e sobremaneira inaugurar
tes – é que dirigem a ação dos seus perso- sua própria voz, a sua própria linguagem.
nagens-máquinas, em que ele os dirige para A dor e o prazer, a religiosidade, o divino,
o desfiladeiro de um sofrimento insuportá- em Pedro Almodóvar, têm a mesma subs-
vel, justo numa sociedade contemporânea tância e falam a mesma língua. Basta ver
em que tudo (a publicidade, a comunicação uma cena no último terço de Carne trêmu-
de massa, o mundo pop de sua personagem la. Há um plano especialmente valioso para
ninfomaníaca Sexilia, em Labirinto de pai- a compreensão da dimensão do corpo e da
xões, por exemplo) nos faz crer na realização paixão na obra de Almodóvar. Na cena, a
completa de todos os desejos. O mundo do personagem Elena está deitada com Victor,
orgasmo ululante. e seus corpos sugerem, juntos, um coração.
Em Almodóvar, a paixão (que vem do O diretor comentou numa entrevista que na
grego pathos) sugere esse arrebatamento cena estava especialmente interessado em re-
com cheiro de catástrofe, a paixão e os seus gistrar os rostos “porque os rostos tomados
excessos. Poderíamos esteticamente acusá-lo pelo prazer se assemelham muito aos rostos
de alguns barroquismos, mais ainda no que de dor e os gritos de prazer ressoam como
ela sugere filosoficamente no seu significado: gritos de sofrimento”.
uma passagem, um assujeitamento, algo que A linguagem é uma das fontes que a psi-
foge exatamente ao controle, e a isso o corpo canálise compreende como marca da con-
está condenado, que é sofrimento, que se di- traposição entre o corpo biológico e o corpo
ferencia, portanto do amor. que tem a marca do desejo inconsciente e se-

Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 149–156 | julho/2017 151


As peles de Almodóvar ou Existe alguém aí dentro?

xual, naquilo que Freud apontou como me- tor, da mãe que a tudo supre e satisfaz e lidar
tapsicologia do corpo, em que a pulsão tem com o desamparo, com a falta. Fazer bem o
sua fonte principal: a excitação do corpo (a luto dessa fantasia infantil, deslocar-se desse
tensão). E é exatamente por isso que a pulsão tempo morto.
pode atingir o seu alvo. Para Freud, o cor- Portanto, a paixão, além do seu compo-
po passa a ser, então, o corpo libidinal, não nente corpóreo, teria seu telos no tempo, por
demarcado somente pela visão cartesiana ou isso a impossibilidade de viver no tempo
clínica. atual o que, subjetivamente ou alucinada-
A psicanálise, portanto, trata exatamente mente, se viveu no arkhé da vida do sujeito.
desse corpo transformado e alterado pela O tempo é o tempo do desejo, o tempo sub-
linguagem. O eu almodovariano parte de jetivo. O mundo tem outro tempo. E nós te-
uma linguagem que se presta para uma leitu- mos vários.
ra também psicanalítica, que é uma das bases Mas nem a filosofia, nem a psicanálise fo-
que Freud (2011) utilizou em O ego e o id (de ram tão claras ao definir a paixão e suas (im)
1923) para definir o eu como uma dimensão possibilidades, quanto o professor Levy, per-
corporal. sonagem criado pelo cineasta Woody Allen,
Mas essa leitura psicanalítica da obra do que é assumidamente de grande influência
diretor espanhol é feita também na contra- para Almodóvar, no filme Crimes e pecados:
mão, a partir da sátira da própria psicanálise
ou do ambiente psicanalítico. Em Labirinto Podem notar que o que nos move quando
das paixões, a figura de uma psicanalista, em- nos apaixonamos é um estranho paradoxo.
penhada em explicar a ninfomania de uma O paradoxo consiste no fato de que, quando
paciente, termina por encarnar um dos mais nos apaixonamos, procuramos reencontrar
cômicos personagens da filmografia de Al- todas ou algumas daquelas pessoas de que
modóvar. O diretor, certa vez, explicou que gostávamos quando éramos crianças. Por um
ali a intenção era demonstrar que algumas lado, queremos que o ser amado corrija to-
vezes os comportamentos não têm mesmo das as faltas que os pais ou irmãos cometeram
uma explicação (assim como as paixões). contra nós. Portanto, esse amor contém em si
O uso do flashback no cinema tem uma uma contradição. O desejo de voltar ao passa-
função na maioria das vezes explicativa. do e o desejo de transformar o passado (grifo
Quase sempre emocional. A psicanálise uti- nosso).
liza-se mais ainda de flashbacks, do uso do
passado para a explicação do presente. É essa busca pelo ponto inicial, da pele
De fato, buscar uma explicação para algo mais colada aos ossos, da origem de todas as
é buscar uma origem para algo. Ou, como di- coisas, da figura arquetípica da Grande Mãe,
ziam os gregos, o arkhé, o ponto inicial, mas e não do pai, em Almodóvar, que dá a tônica
também o princípio sagrado e indemonstrá- ao seu cinema, e todos os seus filmes pode-
vel. A esse desejo se juntam o temor diante riam ter o título de um deles, Labirinto das
do mistério, além de que esse sagrado é fasci- paixões, como disse Frédéric Strauss (2008).
nante e dionisíaco, o que provoca possessão Almodóvar apresenta personagens que
e êxtase. É sempre uma relação com o princí- buscam uma fusão física, amniótica, como
pio. Resumindo, é buscar, portanto, um pai, em Carne trêmula ou um fusionamento psí-
uma mãe, um sentimento primitivo. E o que quico, que pode ser visto com o olhar terno
é a paixão senão a busca desse sentimento ar- do romantismo, como em Fale com ela. E é
caico e idealizado de satisfação total? isso que garante à obra do diretor espanhol
Para Freud (2006) a ética da psicanálise essas suas muitas peles, porque a sua fala se
consiste em cessar essa saudade do pai prote- baseia em certa espetacularização do corpo,

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Isabela Cribari

a sua fala trágica ou melodramática como em sem saber se há realmente alguém dentro,
A flor do meu segredo, de um Almodóvar ain- abaixo da pele e além do desejo, da paixão.
da instável; ou como no filme De salto alto, Para Lacan ([1953] 1998, p. 302), “a fala é
no quase fantasmagórico show de travestis um dom de linguagem, e a linguagem não é
ou, ainda ali, com a personagem Rebeca se imaterial. É um corpo sutil, mas é corpo”. E
confessando diante das câmeras de televisão, essa fala sutil, mas ainda um corpo, em Al-
o que se transforma também numa espeta- modóvar, tem essa função caprichosa da hip-
cularização do sofrimento da alma, geral- nose (ele dirige os seus atores assim mesmo,
mente arrebatadas pela paixão. Ou ao ponto como se os estivesse hipnotizando, revelou
mais extremo, no recente A pele que habito, a numa das suas entrevistas), mas especial-
versão almodovariana do Frankenstein, assu- mente porque uma fala também revela uma
midamente de terror porém asséptico como voz, uma voz específica. Um diretor, num set
um bisturi, em que o corpo, o objeto do de- de filmagens, é como um deus. Um criador.
sejo, “se constrói” a partir do próprio desejo, Aquele é o habitat mais natural para quem
em que o corpo é o palco principal. E nesse dirige uma cena.
filme o médico é o deus que constrói o corpo E Pedro Almodóvar sabe muito bem dis-
imune à dor, mesmo que para isso seja um so. E entende que funcionamos – pessoas,
pouco pele de animal, um porco, como é o espectadores e atores – a partir de poderosas
caso – o que nos leva direto a Nietzsche e o vozes em off, inconscientes. Em A flor do meu
seu conceito de super-homem, e ser humano segredo, por exemplo, a impressionante se-
é só uma passagem, parte da travessia que se quência do suicídio de Leo ganha força exa-
inicia no animal. tamente por causa de voz da mãe da perso-
Em A pele que habito, em nome da pai- nagem, das entranhas de uma secretária ele-
xão Almodóvar nos oferece uma bricolage do trônica, que resgata Leo do meio dos mortos.
corpo. Ele quer nos perguntar: “Você deseja A mãe se queixa da saúde, e Leo pensa: “Se
algo? Você deseja mesmo isso? Por que dese- me mato agora, minha mãe morre também”.
ja tanto?” E nos responder: “Ora, então ‘faça Portanto, é uma voz, esse off, que a salva.
você mesmo! – “do it yourself ” – o conceito Mas não há melhor exemplo da sacraliza-
americano, panaceia moderna do consumo ção dessa voz do que na primeiríssima cena
desenfreado. de A lei do desejo. A cena mostra um rapaz
Na cena, à semelhança de uma linha de (um miché, um prostituto, algo assim) se
montagem, o corpo, ao receber um rosto masturbando, ouvindo a voz em off de um
logo uma identidade, destacam-se, em cores diretor, que ordena e conduz tudo.
fortes, exatamente os quadrantes da gargan- Almodóvar, inclusive, define um pouco o
ta, da traqueia, da fala, ou seja, é só ali que o cineasta como uma figura oral, e o trabalho
ser se completa, que o corpo está vivo, como com a voz é uma de suas obsessões. A voz,
distingue Descartes. para ele, no set, inclusive, é símbolo de auto-
E o filme faz lembrar o Moisés, de Miche- ridade. Alteridade. O pleno controle, que o
langelo. O grande artista renascentista, ao vitimiza, não só aos atores, mas a ele próprio,
terminar obra tão perfeita, não pediu a ela porque é uma voz apaixonada. “Só sei traba-
que se movesse, que piscasse os olhos, que lhar me tornando vítima de minha própria
sonhasse, que criasse uma conta no Facebook. paixão pelo trabalho [nesse caso, pathos, pai-
Nada. Simplesmente pediu: “Fala, Moisés”. xão do amor]”.
Nesse caso, a fala é, portanto, o índice da O filósofo François Regnault (1999) tem
existência do sujeito. Matéria, carne, granito um texto que apresenta o amor como uma
e pele de cada Almodóvar, Moisés e Fran- doença. Para ele, é apropriado falar em doen-
kenstein, criadores e criaturas que somos, ça, para o caso da paixão do amor, quando

Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 149–156 | julho/2017 153


As peles de Almodóvar ou Existe alguém aí dentro?

alguma coisa da alma suporta alguma coisa maduro e a criança na vida psíquica do adul-
do corpo ou quando alguma coisa do corpo to”, exatamente como a paixão.
suporta alguma coisa da alma. Para encerrar com Almodóvar, tudo pa-
De novo, o velho Descartes (2012) que diz rece ser como nas aulas de tauromaquia, no
que o amor é um tipo de paixão que depende seu filme Matador, quando o personagem
do corpo e que o controle das paixões não Diego, o toureiro, diz que é necessário matar
passa pela vontade, o que nós entendemos o touro com a espada. Mas também com o
por controle dos desejos; portanto, para ele, coração.
as paixões tendem à patologia. A psicanálise cuida em especial dessa res-
E, assim, para completar o giro pela cir- sonância orgânica, de como o amor afeta o
cunferência, voltando a Psiqué, Eros e o seu corpo. O efeito do gozo, do sintoma, o efeito
filho Voluptas, mencionados no início deste do sujeito “em” um corpo unificando todos
artigo, falta refletir o que a paixão na con- os seus tempos. É desse pathos, portanto, de
temporaneidade tem a ver com a mitologia, que cuida a psicanálise, da inscrição do amor
a filosofia de Espinosa e Descartes, com Sha- no corpo.
kespeare, com o que foi descrito por Freud, E é compreender o amor também como
Lacan, cada um no seu tempo e distante do uma patologia que habilita a psicanálise ao
nosso, e com o cinema atual de Almodóvar, tratamento desse mesmo amor, de modo
utilizado aqui para dar um corpo unificado a que pouco importam as peles, mas importa
esses pensamentos. quem, de fato, habita dentro dela.
Mas aí será necessário antes entender
“[...] de quem e do que somos contemporâ-
neos? E, acima de tudo, o que significa ser
contemporâneo?”, questões do filósofo vivo
portanto de nosso tempo, Giorgio Agamben
(2009).
Para ele “[...] a contemporaneidade é uma
singular relação com o próprio tempo, que
adere a este e, ao mesmo tempo dele toma
distâncias”, e questionando “[...] o que vê
quem vê o seu tempo”, aprofunda seu concei-
to: “[...] contemporâneo é aquele que man-
tém fixo o olhar no seu tempo, para nele per-
ceber não as luzes, mas o escuro”.
E para explicar essa percepção do escuro,
recorre à neurofisiologia, às células da reti-
na (off-cells), que são ativadas no escuro e
que nos permitem analogicamente perceber
o escuro do nosso tempo “Contemporâneo
é aquele que recebe em pleno rosto o facho
de trevas que provém do seu tempo”. Mas o
contemporâneo pode ser também o arcaico,
como a paixão e todo pensamento sobre ela.
Segundo Agamben (2009), a origem é
contemporânea ao futuro histórico e “[...]
não cessa de operar neste, como o embrião
continua a agir nos tecidos do organismo

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Isabela Cribari

Abstract Referências
This article presents interpretations for hu-
man passion, addressing the metapsychology
of the body (and its telos, in time). It traces
AGAMBEN, G. O que é o contemporâneo? e outros en-
a course that goes beyond the corporeal com- saios. Santa Catarina: Argos, 2009.
ponent, and advances into a study of the li-
bidinal body within language - this subtle, DESCARTES, R. As paixões da alma. São Paulo: La-
immaterial body, but that is also nonetheless fonte, 2012.
- a body. A study on the passions in Descartes,
ESPINOZA, B. Ética. Belo Horizonte: Autêntica, 2010.
Spinoza and Freud, and Lacan, from the cine-
matographic production of Pedro Almodóvar. FREUD, S. Moisés e o monoteísmo, esboço de psicaná-
The work seeks to understand this pathos by lise e outros trabalhos (1937-1939). Direção-geral da
analyzing the myths of Psyche and Eros, as tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago,
well as Danaids, in order to provide a unified 1996. (Edição standard brasileira das obras psicológi-
cas completas de Sigmund Freud, 23).
approach to these thoughts. The intention of
the article is to begin with an understanding of FREUD, S. O ego e o id (1923). In: ______. O ego e
this ancient, initial idea, this arché, of the ori- o id e outros trabalhos (1923-1925). Direção-geral da
gin of all things, of a common past or primitive tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago,
feeling, and pursue reflections on contempora- 1996. p. 27-71. (Edição standard brasileira das obras
psicológicas completas de Sigmund Freud, 19).
neity, since the contemporary is also the an-
cient – and this includes passions. Passion is LACAN, J. Função e campo da fala e da linguagem
the search for this archaic, idealized feeling of em psicanálise (1953). In: ______. Escritos. Tradução
total satisfaction. The ethics of psychoanalysis de Vera Ribeiro. Revisão técnica de Antonio Quinet e
are involved in bringing to an end this longing Angelina Harari. Preparação de texto de André Telles.
Rio de Janeiro: Zahar, 1998. p. 238-324. (Campo Freu-
for a protective father, for a mother who su- diano no Brasil).
pplies and satisfies everything as to deal with
this helplessness, with this lack. Mourning this LACAN, J. O seminário, livro 20: mais, ainda (1972-
childlike fantasy does us good. Accordingly, 1973). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller.
move on, body & soul, within this dead time. Tradução de M. D. Magno. 2. ed. rev. Rio de Janeiro:
Zahar, 1985. (Campo Freudiano no Brasil).
Telos, corpus, chronos, psyche, eros, arché,
pathos. This article addresses this specific pa- LACAN, J. Radiofonia (1970). In: ______. Outros es-
thos, that which psychoanalysis takes care of - critos. Tradução de Vera Ribeiro. Versão final de An-
that which is inscribed with love in the body -, gelina Harari e Marcus André Vieira. Preparação de
and also seeks to understand love as a patho- Texto de André Telles. Rio de Janeiro: Zahar, 2003. p.
400-447. (Campo Freudiano no Brasil).
logy that enables psychoanalysis in its object,
such that it is not the skins that are important, NEUMANN, E. Eros e Psiqué. São Paulo: Cultrix, 2017.
but rather whoever inhabits them.
NIETZSCHE, F. Assim falava Zaratustra. Rio de Ja-
Keywords: Psychoanalysis, Passion, Body, Ci- neiro: Vozes, 2011.
nema, Almodóvar. REGNAULT, F. Je rougis, je pâlis à sa vue. Maladies
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ne, 1991.

SHELLEY, M. W. Frankenstein. Rio de Janeiro: Ediou-


ro, 1996.

Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 149–156 | julho/2017 155


As peles de Almodóvar ou Existe alguém aí dentro?

STRAUSS, F. Conversas com Almodóvar. Rio de Janei- Sobre a autora


ro: Zahar, 2008.
Isabela Cribari
Psicanalista associada ao Círculo Psicanalítico
Filmografia de Pernambuco e coordena a programação científica
daquela instituição desde 2015. Psicóloga pela
Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
A FLOR do meu segredo. Direção: Pedro Almodóvar. Atua no Hospital Agamenon Magalhães, no Recife,
Espanha e França: El Deseo S.A. e Ciby, 1995. (1h 47 com ênfase aos serviços especializados a mulheres
min). Tradução de: La flor de mi secreto. vítimas de violência, além do seu consultório
particular. É também cineasta, pesquisadora da
A PELE que habito. Direção: Pedro Almodóvar. Pro- cultura popular e autora de livros, com especialização
dução: Augustin Almodóvar e Pedro Almodóvar. Pro- em Economia da Cultura (UFRGS, 2010).
dutora: El Deseo S.A e Fox Film do Brasil. Espanha,
2011. (1 h 57 min). Tradução de: La piel que habito. Endereço para correspondência

CARNE trêmula. Direção: Pedro Almodóvar. Produ- E-mail: <isabela.cribari@gmail.com>


ção: Augustin Almodóvar. Produtora: El Deseo S.A. Es-
panha, 1997. (1 h 39 min). Tradução de: Carne trémula.

CRIMES e pecados. Direção: Woody Allen. Produ-


ção: Robert Greenhut. Produtora: Orion Pictures
Corporation. EEUU, 1989.

DE SALTO alto. Direção: Pedro Almodóvar. Produ-


ção: Augustin Almodóvar. Espanha e França: El De-
seo S.A, Ciby 2000, Canal + e TF1 Films Production.
1991.

LABIRINTO das paixões. Direção: Pedro Almodóvar.


Produção: Pedro Almodóvar. Espanha: Alphaville
S.A., 1982.

MATADOR (1986). Direção: Pedro Almodóvar. Pro-


dução: Andres Vicente Gomez. Produtora: Television
Espanhola (TVE) / Compania Iberoamericana de TV.
Espanha.

Recebido em: 15/05/2017


Aprovado em: 25/05/2017

156 Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 149–156 | julho/2017


Julia Coutinho Costa Lima e Luciane De Conti

Temporalidade e narrativas de si:


efeitos da descontinuidade e da continuidade
na historia de um adolescente em situação de rua
Temporality and self-narratives:
effects of discontinuity and continuity
in the story of a teenager living on the streets

Julia Coutinho Costa Lima


Luciane De Conti

Resumo
Partindo do valor temporal da continuidade presente na contribuição de D. Winnicott – tanto
no âmbito do processo de desenvolvimento do self quanto no estabelecimento do espaço tran-
sicional – chegou-se a uma aproximação com a ideia de narrativas de si como capacidade de
dar sentido às próprias experiências de um modo pessoal. O artigo discute a importância des-
sa capacidade e os efeitos de sua fragilização através da discussão do caso de Leonardo/Bruno,
um adolescente em situação de risco nas ruas em seus atendimentos com uma psicóloga numa
instituição de acolhida. A relação transferencial surgiu como elemento propiciador para que o
tempo passado se tornasse presente, favorecendo a produção de sentidos novos e a aquisição
de um lugar na própria história.

Palavras-chave: Temporalidade, Narrativas de si, Adolescentes em situação de rua, Relação


transferencial.

No quadro teórico da psicanálise, Donald trauma pode ser entendida como uma ‘des-
Winnicott ([1945] 2000, [1960] 1983, 1975) continuidade’ de cuidados do meio ambien-
foi um dos autores que deu destaque ao tema te. Diferentemente da tradição freudiana
da vivência da temporalidade. Seria possível que, apesar de sofrer modificações ao lon-
mesmo afirmar que “[...] toda a sua teoria go da sua obra, mantém o fator econômico
repousa no valor temporal da continuidade” como essencial para a força patogênica do
(Vertzman et al., 2007, p. 68). Essa conti- trauma, onde o que estaria em jogo é a inca-
nuidade é sobretudo referente à sensação de pacidade do aparelho psíquico de processar
fluxo temporal, não sendo entendida mera- e ligar, através de representações, o excesso
mente como numa linha cronológica. Para pulsional (perigo interno) (Zornig; Levy,
Winnicott, a continuidade temporal vai ser 2006).
pedra angular da constituição de si. Para Winnicott, é justamente o estabe-
Nesse sentido, é importante apontar lecimento dos cuidados ambientais que dá
também que Winnicott se insere em uma as bases para o sentimento de continuidade
‘linhagem’ de psicanalistas (junto com Fe- da existência, o qual protege os sujeitos dos
renczi e Bowlby) para quem a questão do excessos tanto pulsionais quanto externos.

Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 157–164 | julho/2017 157


Temporalidade e narrativas de si: efeitos da descontinuidade e da continuidade na historia de um adolescente em situação de rua

Apenas na ruptura dessa continuidade resi- do desenvolvimento do self, dos processos


de o potencial traumático. por meio dos quais o self se constitui. Nes-
Na trajetória profissional de Winnicott, se sentido, deve-se lembrar que Winnicott
uma experiência parece ter sido marcante considerava um sentimento de continuida-
para respaldar essa ênfase no papel dos cui- de no tempo como uma conquista. Ou seja,
dados ambientais no desenvolvimento do um eixo central da abordagem de Winni-
sujeito: sua experiência com as crianças que cott é a tentativa de compreensão do modo
foram retiradas de casa durante a Segunda como a criança – por meio da relação com
Guerra Mundial. um adulto-cuidador e da segurança gerada
Em virtude dos bombardeios alemães a pelo cuidado – passa a apreender a realidade,
Londres, o governo britânico planejou a eva- com uma apreciação de tempo e de espaço
cuação de crianças para o interior e convi- que lhe são concernentes, que fazem sentido
dou os psicanalistas Winnicott e Jonh Bowby na sua experiência pessoal e capacitam-na a
para ser consultores psiquiátricos do esque- agir e a criar no mundo.
ma de evacuação e desenvolver medidas vi- Nessa via de entendimento, pode-se des-
sando diminuir os danos e traumas a essas dobrar também sua concepção das narrati-
crianças. Eles ficaram responsáveis pela saú- vas de si no tempo. Para Winnicott ([1945]
de mental de uma série de crianças que vi- 2000), nos primórdios da vida, um bebê não
viam o impacto da guerra e foram afastadas pode ser pensado como um isolado, ele está
da família para viver no interior. ainda indistinto do ambiente circundante, na
Todo o acompanhamento a elas conti- maioria das vezes, representado pela mãe.
nuou no pós-guerra e possibilitou a sua pos- Nesse momento de dependência abso-
terior elaboração teórica da experiência no luta, em que o self ainda não está integrado
livro Privação e delinquência (1987), cuja como uma unidade, o tempo é vivido como
primeira parte intitula-se Crianças sob estres- um tempo contínuo, ainda não é percebido
se: experiência em tempos de guerra. como tempo de experiências pessoais. Para
As ideias e o modelo conceitual gerados se constituir, o self precisa ultrapassar essa
a partir dessa experiência têm se mostrado relação de dependência absoluta e se dife-
férteis a ponto de poderem ser ampliados e renciar. Esse processo de diferenciação, que
de servir de recurso teórico para outros con- é extremamente complexo, segue sendo aju-
textos em que crianças se encontram em si- dado pela ação da mãe, através da continui-
tuação precária do ponto de vista familiar e dade de seus cuidados e das falhas relativas
social, como testemunhou Gorayeb (2006) na adaptação que ela vai permitindo que o
sobre sua experiência com supervisão de ins- bebê experimente (Winnicott, [1960] 1983,
tituições em São Paulo. [1963] 1983).
O modo particular de compreender a di- O sentimento de tempo contínuo vem a
mensão da temporalidade aparece em dife- ser construído a partir da continuidade nes-
rentes aspectos da abordagem winnicottiana: sa relação de cuidado. E as experiências al-
em primeiro lugar pode-se dizer que a im- ternadas de satisfação (momentos em que
portância da temporalidade para esse autor a mãe supre as necessidades do bebê) e de
está presente na forma como define o próprio separação (momentos de espera de reencon-
modo de existência do self. O self é entendido tro) vão pautando continuidades e descon-
não como uma estrutura, mas sim como uma tinuidades e, assim, vão contribuindo para
experiência, um sentimento de continuidade o processo de integração do self. Portanto,
de ser, ou de existência continuada no tempo. pode-se entender por que Winnicott consi-
Outro elemento que dá relevo à noção derava o tempo como a quarta dimensão da
de temporalidade na sua obra é a descrição integração (Davis; Wallbridge, 1982).

158 Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 157–164 | julho/2017


Julia Coutinho Costa Lima e Luciane De Conti

Nessa fase, a mãe – ou o cuidador de re- subjetiva, remete às narrativas de si no tem-


ferência – teria como função apresentar gra- po.
dualmente o mundo objetivo ao filho. É no Poder construir uma narrativa de si re-
contato com a mãe que surgem as primeiras pleta de vivências nas quais o próprio sujei-
interações entre criança e ambiente. O bebê to ocupa um papel privilegiado no mundo
experimenta, conjuntamente, um objeto do é um dos elementos que dá consistência à
mundo real e o investimento afetivo e subje- experiência do self (Verztman et al., 2007).
tivo sobre esse objeto. O objeto seria, então, Ou seja, a possibilidade de construir uma
simultaneamente objetivo e subjetivo, en- narrativa de si na qual o sujeito se perceba
contrado e criado. Assim, inicia-se a matriz como criador, narrativa em que, o que o su-
da criação e do relacionamento com a rea- jeito narra lhe concerne. Nesse ato narrativo
lidade. Com isso, inicia-se também a expe- os eventos vão ter relação com suas próprias
riência de sentir-se real. ações, seus sentimentos, seus pensamentos,
Sentir-se real e ser capaz de apreciar a rea- enfim, com seu tempo.
lidade externa em sua dimensão espaço-tem- Outro elemento que dá relevo à noção de
poral é possível graças à continuidade dessas temporalidade na obra de Winnicott é perce-
experiências compartilhadas no tempo. A bido quando tomamos o conceito de espaço
essa capacidade Winnicott chama “realiza- transicional. Na leitura de Benilton Bezerra
ção”. Com ela, o sujeito vai situar-se na tem- Jr (2007) e de Jurandir Freire Costa (2004),
poralidade que rege a realidade – aquela na é a dimensão da temporalidade que oferece
qual os eventos ocorrem em relações de an- as condições pelas quais o espaço transicio-
terioridade, posterioridade ou simultaneida- nal se estabelece e torna possível a percepção
de. Ele vai poder dispor de suas experiências dos fenômenos que nele se dão. O espaço
em uma linha temporal que organiza passa- transicional, ou espaço intermediário, vai ser
do, presente e futuro. adotado por Winnicott como uma área de
Tomando esses conceitos, pode-se afirmar continuidade que representa a união entre o
que é a partir do sucesso da realização, que se mundo interno e o espaço externo, entre o eu
inaugura a construção de uma história de si. e o não eu.
É a partir dessa base que uma narrativa de si Na definição de Costa (2004, p. 97) “Es-
vai poder fazer sentido para o sujeito. paço transicional é o campo potencial de
Verztman et al. (2007, p. 67) corroboram interação, no qual determinados fenômenos
essa ideia: psicológicos podem advir”.
Essa noção de transicionalidade é explo-
Essa sequência temporal, que organiza os rada através dos conceitos de objetos transi-
acontecimentos, serve para ancorar o que o cionais e de fenômenos transicionais, que se
self foi, é e será, sem que ele seja destituído estendem por todo o “território” intermediá-
de sua unicidade e continuidade. Todas as ex- rio entre mundo externo e realidade interna,
periências são sentidas como reais. A relação englobando o campo da experiência cultu-
com os objetos do mundo adquire intensida- ral, o brincar, a criatividade e a apreciação
de e significância. artística.
Assim, a área intermediária do espaço
Desse momento em diante, além da capa- transicional torna-se o principal elemento na
cidade de poder situar-se numa cronologia descrição dos sujeitos, pois lá onde o com-
compartilhada, os eventos vividos vão poder portamento do ambiente é ativo e variável,
ser rearrumados segundo os valores subje- ele faz parte do desenvolvimento pessoal do
tivos que imprimiram em cada trajetória de indivíduo e tem que ser incluído nas análises
vida particular. Essa vivência temporal, que é deste último.

Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 157–164 | julho/2017 159


Temporalidade e narrativas de si: efeitos da descontinuidade e da continuidade na historia de um adolescente em situação de rua

Nesse sentido, o conceito de espaço po- tro de referência municipal para infância e
tencial dá margem a outro aspecto da vida, adolescência em situação de rua). Lá se rea-
que é a variabilidade, a mudança. Nesse es- lizavam atendimentos psicológicos e sociais,
paço intermediário há uma área de manobra, oficinas com educadores, tendo como obje-
uma área livre que não é tão fixa e constan- tivo a reinserção familiar. Nessa época o Pá-
te como as dimensões da realidade externa, tio oferecia atendimentos durante o dia, mas
nem possui o potencial herdado que organi- não funcionava como abrigo. Leonardo esta-
za e dá estrutura ao mundo interno, tornan- va na rua desde os sete anos de idade.
do-o também fixo e constante. A variedade Ele chegou trazido por outros meninos
e a variabilidade são produto das inúmeras do grupo da rua que já frequentavam o Pá-
possibilidades existentes no campo das expe- tio. No início foi muito difícil o contato com
riências do indivíduo no ambiente (Winni- ele, que tinha acessos de raiva e destruía os
cott, 1975). objetos físicos da instituição, mas nunca se
A importância dessa capacidade de narrar envolvia em brigas com outras pessoas. Ele
a própria história e os efeitos de sua fragiliza- se isolava das atividades, em alguns momen-
ção podem ser ilustrados pela história de um tos permanecia chupando dedo, não aceita-
adolescente que vivia em situação de risco va que o tocassem. Um aspecto importante:
nas ruas. Leonardo não era seu verdadeiro nome, seu
O nosso contato com essa história se deu nome de batismo. Mas era o nome pelo qual
a partir da experiência da primeira autora, era conhecido pelos outros meninos com
desenvolvida durante três anos, como super- quem convivia na rua. Ele se recusava a di-
visora institucional em um serviço público zer o seu nome real à equipe, mas um dia
de acolhida e atendimento a crianças e ado- contou – como se fosse uma brincadeira de
lescentes em situação de rua.1 adivinhação – que seu nome verdadeiro po-
A partir desse caso esperamos poder re- deria ser um destes três: Leandro, Leonardo
fletir ao final sobre os efeitos da continuida- ou Bruno.
de, vivida através do atendimento e da rela- Leonardo também não falava de nenhu-
ção transferencial, num contexto de extrema ma referência à família, sequer a uma comu-
descontinuidade e desenraizamento. Pode- nidade. Parecia haver uma forte ruptura com
remos acompanhar a tessitura de algo novo, sua história, seu passado, com os traços e as
de uma narrativa de si onde antes só parecia memórias de si, compondo uma desconexão
haver retraimento e desconexão. entre tempos, espaços, uma desconexão afe-
tiva.
A história de um adolescente E, assim, se passaram os primeiros seis
em situação de rua meses de acompanhamento. Foram seis me-
Esse é o caso de Leonardo2/Bruno, que tinha ses de descontínuas idas e vindas ao Pátio.
14 anos quando chegou ao Pátio (um cen- Leonardo não frequentava diariamente, mas
sempre reaparecia. A equipe, de todo modo,
permaneceu continuamente acolhendo-o.
1. Uma apresentação e reflexão mais detalhadas desta
experiência de supervisão com equipes multiprofissionais, Ao final desse período, Leonardo começou
no contexto da assistência social, foi construída em um a participar mais das oficinas com os edu-
artigo (Lima; Mello, 2012), que tematiza inclusive o cadores, e iniciou um vínculo mais próximo
espaço da supervisão como suporte para elaboração de
anseios e mobilizações emocionais que surgem na relação com Patrícia (uma das psicólogas da equipe).
dos profissionais com crianças e adolescentes em situação Um dia ele pôde contar para ela o seu nome,
de risco. que era Bruno! E falar também da sua pasta,
2. Os nomes são fictícios, de modo a preservar a identidade
dos sujeitos. A duplicidade de nomeação do adolescente documentos que o Conselho Tutelar manti-
será esclarecida adiante. nham numa pasta com seu nome.

160 Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 157–164 | julho/2017


Julia Coutinho Costa Lima e Luciane De Conti

A partir daí, a equipe conseguiu informa- semana. E pediu aos técnicos do abrigo que
ções sobre a família e soube das mudanças falassem com Patrícia, pois “ela sabe sobre
pelas quais tinham passado durante o tempo mim”.
em que Bruno estava na rua. Os dados que Nesse ponto Bruno iniciou um movi-
constavam no Conselho Tutelar eram de que mento que pode ser pensado como histori-
ele vinha de uma família que residia numa cização. Passou a contar a sua história, o que
cidade do interior do estado, a 70 km do mu- lembrava de sua ida para a rua, falava de seus
nicípio sede do Pátio. irmãos. Falou também do que imaginava so-
Segundo o conselheiro tutelar, quando bre o desejo dos pais, “Será que minha mãe
Bruno era pequeno, seu pai – que costumava não me quer mais?”.
beber – espancava Bruno e seus irmãos me- Quando a sua certidão de nascimento foi
nores. Estes foram retirados da convivência encontrada, Bruno e Patrícia leram e fala-
familiar pelo Conselho Tutelar e levados a ram sobre as famílias e os nomes de famílias,
um abrigo – em outra cidade – quando Bru- avós, mãe, pai. Bruno parecia começar a se
no tinha menos de 7 anos e de onde ele fugiu inserir em uma organização genealógica,
para a rua. Também foi informado de que, temporal e identificatória. Num dos atendi-
durante o tempo em que Bruno estava na mentos com Patrícia, pediu os brincos que
rua, o pai parou de beber, estava trabalhando ela estava usando: “Vamos fazer igual a uma
como relojoeiro e conseguiu reaver a guarda herança que passa de geração para geração,
dos filhos, junto com a mãe. Além disso, no- de pai para filho”. Ao que ela respondeu per-
vos irmãos tinham nascido. guntando se ele já havia ganhado algo como
Durante uns dois meses Patrícia e os as- herança. E, assim, Bruno começou a contar
sistentes sociais da equipe trabalharam apos- uma história sobre como ganhou do pai uma
tando na sensibilização para o retorno à fa- medalha do exército, contando também so-
mília, com visitas domiciliares e atendimen- bre sua relação com o pai.
tos com o adolescente. Mas Bruno (que nesse Outro elemento interessante nesse pro-
período já começava a se apresentar com seu cesso foi o surgimento de uma relação com o
nome de batismo) continuava se recusando a futuro. Começaram a ter existência as ideias
voltar para casa. de prospecção e identificação com perspec-
Por outro lado, começou a se interessar tivas futuras. Num dia em que Patrícia inicia
bastante por essa história de sua família, se perguntando os motivos de alguns de seus
referindo ao tema constantemente nos aten- comportamentos violentos, ele fala: “Quan-
dimentos com Patrícia. Nessa época Bruno do eu crescer e estiver igual a você, talvez eu
já estava com 15 anos. Porém, o acompanha- não precise mais de violência”. E prosseguiu
mento no Pátio teve que ser interrompido comentando as semelhanças e diferenças que
por causa de uma medida de internação. Ele percebia entre eles.
cumpriu sete meses de medida socioeducati- Assim, pode-se notar que há um futuro
va em regime fechado, por causa de um ato imaginado, “quando eu crescer”, bem como
infracional cometido. a possibilidade de falar de si, de simbolizar
Após essa interrupção de sete meses, a atos e sentimentos disruptivos como a agres-
Vara da Infância determinou que ele fos- são, por exemplo. Esse período durou cerca
se encaminhado a um abrigo como medida de cinco meses. Durante esse processo Bru-
de proteção e que voltasse a ser atendido no foi construindo projetos para sua vida, se
no Pátio. Assim, Bruno retornou ao Pátio, e aproximando da ideia de voltar para casa, de
foi combinado um acompanhamento con- rever a família, no que teve êxito.
junto pelas equipes do projeto e do Abrigo. Patrícia e a assistente social da equipe rea-
Ele passou a frequentar o Pátio uma vez por lizaram visitas domiciliares, atendimentos à

Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 157–164 | julho/2017 161


Temporalidade e narrativas de si: efeitos da descontinuidade e da continuidade na historia de um adolescente em situação de rua

família e atendimentos conjuntos com a pre- houvesse um espaço, como o da supervisão


sença de Bruno. Um trabalho foi feito para institucional, para que fossem falados, iden-
facilitar o retorno dele para casa. Esse tra- tificados, reconhecidos e respeitados. Por
balho inclusive buscou ouvir as resistências exemplo, seria possível perguntar a ela o que
e as dificuldades apresentadas pelos pais no significava viver uma relação de dependên-
contato com o filho, que para eles era agora cia com um adolescente tão desamparado e
um adolescente. sem referentes.
Um novo tempo na história de Bruno se A relação transferencial nesses casos ga-
inaugurou. Passou a viver novas experiên- nha contornos importantes também porque,
cias, conflitos, ciúme dos irmãos menores, quando algumas dessas capacidades consti-
provocações aos pais. Mas agora, nesse novo tutivas – como confiar no ambiente, usar os
tempo de vida ele passou a ter um espaço fenômenos transicionais, brincar – não pu-
próprio, de pertencimento e de busca de vín- deram ser adquiridas no processo de desen-
culo. volvimento, elas precisarão ser vividas, pela
primeira vez na transferência.
Considerações finais Zeferino Rocha (2010) lembra também
Gostaria de finalizar discutindo alguns pon- que, nesses casos, o que está em jogo é criar
tos relevantes a partir desse caso. Primeira- condições para que, na análise, algumas ex-
mente apontar a centralidade da enunciação. periências possam terminar de acontecer,
Construir uma narrativa sobre si não é in- possam ser vividas e significadas. Aqui o
diferente às condições de enunciação, nesse tempo adquire uma nova dimensão, mais do
caso, sobretudo é dependente do outro que que ressignificação do passado, sua significa-
recebe essa palavra: para Bruno, o falar de si ção, abrindo novas perspectivas de futuro e
só teve significância na relação com Patrícia. novos sentidos.
Foi para ela – em sua escuta interessada – Daí a importância da figura real do ana-
que ele se contou. lista. E daquilo que Winnicott ([1956] 2000)
O valor da relação transferencial – enten- chamou “adaptação suficientemente boa do
dida como um plano de compartilhamento analista”, que possibilita que, pela primeira
afetivo que favorece a produção de sentidos vez na vida do paciente, haja o desenvolvi-
ou a elaboração da experiência emocional mento e a integração do ego, e o início da
(Kupermann, 2008, Figueiredo, 2009) – capacidade de uso dos objetos. Agora o ego
tem que ser enfatizado para compreender- poderá viver impulsos do id e sentir-se real
mos as possibilidades de Bruno se apropriar ao fazê-lo.
de sua história e construí-la. Winnicott também coloca que nesse está-
Num contexto de atendimento institucio- gio uma das características da transferência
nal, em que os movimentos transferenciais é que, como analistas, devemos permitir que
de Bruno em relação a Patrícia (com sua bus- o passado do paciente se torne presente, isto
ca de ligação, identificação, reconhecimento) é, nessa fase, o presente é o passado. É o que
fossem ignorados, talvez ele não tivesse con- parece ter sido de certa forma experimenta-
seguido sair da desconexão, tampouco viver do por Bruno na relação com Patrícia.
o processo de “realização”, com apreciação Winnicott ([1956] 2000, p. 395) afirma:
de tempo e espaço e chegar à constituição de
narrativas de si. [...] o comportamento do analista [...] por ser
Por outro lado, a sustentação de todo suficientemente bom em matéria de adapta-
esse processo teria sido muito dificultada ção à necessidade, é gradualmente percebido
se os movimentos contratransferenciais de pelo paciente como algo que suscita a espe-
Patrícia fossem também negados, ou não rança de que o verdadeiro eu poderá final-

162 Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 157–164 | julho/2017


Julia Coutinho Costa Lima e Luciane De Conti

mente correr os riscos implícitos em começar Outro aspecto fundamental a ser destaca-
a experimentar viver. do é a possibilidade de articulação entre as
noções de temporalização da experiência,
Ser suficientemente bom em matéria de narrativas de si e identidade. onde a tempo-
adaptação à necessidade implica uma pre- ralidade da narrativa realiza uma tessitura da
sença constante, que cuide e sustente a situa- experiência viva do tempo.
ção no tempo. E, assim, uma nova qualidade da expe-
Outra característica específica desse jogo riência se afigura: a experiência se torna ex-
transferencial é o papel crucial da instituição periência pessoal, assim como o tempo se
em si. Ela provê um lugar de cuidados (in- torna tempo humano quando narrado. Isto
clusive os cuidados físicos mais primários: é, através da narração, o tempo se integra à
alimentação, banho, descanso) e de relações ação, conferindo significado à experiência e
significativas, em que vários profissionais de tornando a vida, uma história de vida.
uma equipe estão lá para acolhê-lo. Patrícia
era não apenas a analista de Bruno, mas uma
psicóloga do Pátio, membro e representante Abstract
da instituição como um todo. Starting from the temporal value of the conti-
Com isso tudo, podemos destacar o va- nuity present on the contribution of D. Win-
lor da continuidade para o processo de mu- nicott – both in the process of developing the
dança nas narrativas de si. A sustentação da self and on the establishment of transitional
continuidade no acolhimento de Bruno, com space –We have arrived at an approximation
a manutenção de seu lugar na instituição, a with the idea of the self-narrative as the ability
manutenção dos vínculos constituídos, além to construct meaning to their own experience
da sistematicidade dos atendimentos com in a personal way. The article seeks to discuss
Patrícia, parece ter ofertado espaço livre para the importance of this ability and the effects
que ele iniciasse e experimentasse algo novo, of its embrittlement trough the discussion of
algo que não tinha antes. the Leonardo/Bruno case, a teenager living on
Sabemos que, para Winnicott, a continui- the street, on his meetings with a psychologist
dade é pedra angular da constituição de si, in a shelter institution. The transferential rela-
participa do processo de constituição subje- tionship arrived as a propitiation element for
tiva, desde o princípio, com a confiabilidade the past to become the present, favoring the
dos cuidados da figura materna. Daí pode-se production of new senses and the aquisition of
entender que a continuidade que se valoriza a place on his own story.
não é igual a uma estabilidade imutável e ári-
da, na qual todas as condições têm que se man- Keywords: Temporality, Self-narratives, Tee-
ter as mesmas, mas sim uma continuidade nager living on the streets, Transferential re-
viva, permeada pela segurança nas relações. lationship.
E relações não são estanques; podem se
modificar, mas o elemento facilitador seria
que a mudança fosse paulatina e possível de
ser lidada pelo sujeito, diferentemente de um
rompimento brusco.
Assim, entendemos que um elemen-
to-chave aí é a continuidade da figura com
quem se mantém um vínculo significativo, a
importância desse alguém que siga como re-
ferência ao longo de todo o processo.

Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 157–164 | julho/2017 163


Temporalidade e narrativas de si: efeitos da descontinuidade e da continuidade na historia de um adolescente em situação de rua

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introdução à obra de D. W. Winnicott. Rio de Janeiro:
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Recebido em: 15/05/2017
FIGUEIREDO, L. C. As diversas faces do cuidar: no- Aprovado em: 30/05/2017
vos ensaios de psicanálise contemporânea. São Paulo:
Escuta, 2009.
Sobre as autoras
GORAYEB, R. O observador engajado. Winnicott: os
sentidos da realidade. Revista Coleção Memória da Julia Coutinho Costa Lima
Psicanálise, Donald W. Winnicott - Os espaços de tran- Psicóloga pela Universidade Federal
sição, São Paulo, n. 5, p. 78-83, 2006. de Pernambuco (UFPE).
Mestre em saúde coletiva pela Universidade
KUPERMANN D. Presença sensível: cuidado e cria- do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
ção na clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Civilização Doutora em psicologia pela Universidade Federal
Brasileira, 2008. de Pernambuco (UFPE).
Associada do Círculo Psicanalítico de Pernambuco.
LIMA, J. C. C.; MELLO, S. C. L. Análise de uma ex-
periência de supervisão no contexto das políticas so- Luciane De Conti
ciais. Revista Psicologia Clínica da Pontifícia Univer- Bacharel e licenciada em psicologia pela
sidade Católica do Rio de Janeiro. v. 24-2, p. 43-53, Universidade Federal do Rio Grande do Sul
2012. (UFRGS).
Mestre e doutora em psicologia do desenvolvimento
ROCHA, Z. Freud entre Apolo e Dionísio: recortes filo- pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul
sóficos, ressonâncias psicanalíticas. São Paulo: Loyola, (UFRGS), com doutorado sanduíche na Université
2010. de Nantes, França.
Professora adjunta e pesquisadora do Departamento
VERZTMAN, J.; PINHEIRO, T.; JORDAO, A.; MON- de Psicanálise e Psicopatologia e da Pós-Graduação
TES, F.; BARBOSA, M. Patologias narcísicas e doen- em Psicanálise, Clínica e Cultura do Instituto de
ças autoimunes: a vivência da temporalidade. Psychê, Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande
Revista de Psicanálise, ano XI, n. 21, p. 63-84, 2007. do Sul (UFRGS).

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no infantil. O meio ambiente e os processos de matura-
ção (1965). Porto Alegre: Artes Médicas, 1983. p. 38-54. Julia Coutinho Costa Lima
E-mail: <juliacoutinholima@gmail.com>
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164 Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 157–164 | julho/2017


Luciana Knijnik

­­É campo minado! Saca onde pisa, meu chapa1


It‘s a minefield! Watch your steps, fella

Luciana Knijnik

Resumo
É com a dinâmica pulsional que estamos sempre nos deparando. Fluxos de vida e de morte
atravessam a história da sociedade em que vivemos, assim como a trajetória dos sujeitos que
recebemos no consultório. A clínica mostra que, em grande parte, as queixas atuais dizem de
um mal estar invasor e difícil de definir, um vazio em bloco e sem nome. Algo de um desam-
paro primordial, uma anestesia, uma incapacidade de sentir. Diante disso, consideramos que
a problematização do narcisismo e suas formas mortíferas será útil para a compreensão dos
modos de constituição das subjetividades contemporâneas nos desafios e interrogações que
ensejam para o processo analítico.

Palavras-chave: Narcisismo de vida, Narcisismo destrutivo, Resistência, Psicanálise.

Estrela, estrela
Como ser assim
Tão só, tão só
E nunca sofrer
Vitor Ramil

Para onde vão os trens, meu pai?


Para Mahal, Tamí, para Camirí,
espaços no mapa, e depois o pai ria:
também para lugar algum, meu filho,
tu podes ir e ainda que se mova o trem,
tu não te moves de ti.
Hilda Hilst

Em seu artigo intitulado Alguns impasses da 2015, p. 38). Entendemos que, ao incluir o âm-
clínica psicanalítica contemporânea e a sua bito da política no território da psicanálise, a
operacionalização pelo desejo do analista, a autora não se refere à política partidária, mas
psicanalista mineira Eliana Mendes diz: “[...] à política como forma de vida em sociedade.
à psicanálise cabe abrir o espaço para a pala- Gilson Iannini e Vladimir Safatle (2015)2
vra, para o discurso ético e político” (Mendes, afirmam:

1. O título é um trecho da música Campo minado, da banda Bandaliera (1991).


2. Ver mais em <http://revistacult.uol.com.br/home/2015/12/a-psicanalise-e-as-formas-do-politico/>.

Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 165–174 | julho/2017 165


­­É campo minado! Saca onde pisa, meu chapa

Se a psicanálise tem consequência para o pen- [...] no consultório clínico falamos daqueles
samento político, é por ela trazer uma con- pacientes cujas dinâmicas psíquicas se apre-
cepção nova de conflito, de diferença e de sin- sentam pautadas pelo mecanismo da cliva-
gularidade com implicações sobre a economia gem, mais do que pelo recalcamento, e cuja
de relações entre sujeito e sociedade. Pois des- característica é a de ser uma reação básica à
de seu início, a psicanálise nunca se conten- atitude do outro da relação primordial (o ob-
tou em ser apenas uma clínica do sofrimento jeto primitivo) que pode ser dupla: ou a falta
psíquico [...]. Não por acaso, Freud assinalava de ligação ou um excesso de fusão. No meca-
que a linha que separa a psicologia do indi- nismo da clivagem, como salientado por Gre-
víduo da psicologia social é uma linha tênue. en (2001), o retorno dos elementos segregados
se acompanha de grave ameaça de desampa-
Nesse caldeirão social em que a dinâmica ro, o que é diferente do recalcamento, na qual
pulsional toma corpo, há forças que visam a o retorno do reprimido dá origem ao sinal de
construção, o laço, a manutenção da vida e angústia (Lazzarini; Viana, 2010, p. 270).
a criação e, junto delas, há forças que agem
em outra direção. Não podemos subestimar Diante disso, consideramos que a proble-
a grandeza das forças mortíferas que põem matização do narcisismo e suas formas mor-
golpes em cena, em maior ou menor escala. tíferas é útil para a compreensão dos modos
Golpes de Estado, com o uso das forças ar- de constituição das subjetividades contem-
madas, do Legislativo e do Judiciário. Golpes porâneas.
nos fluxos de vida, como beber e dirigir, es- Para o psicanalista André Green (2001
quecer os documentos no último dia de ins- apud Lazzarini; Viana, 2010) os pacientes
crição do processo seletivo, escolher os pio- narcísicos podem ser definidos como indiví-
res parceiros. duos cuja capacidade de fantasiar é uma for-
Cabe perguntar, até quando, enquanto ma de preenchimento do vazio. Segundo ele,
Nação, seremos dominados por forças silen- nota-se um retardo afetivo intenso, expresso
ciosas que impedem nosso progresso, esma- pela aversão aos desejos sexuais e orais (como
gando e dominando grande parte da popula- a anorexia, por exemplo). Nesses casos, o pa-
ção enquanto uma pequena parcela triunfa ciente se constitui imerso na vergonha de
e goza. ser um sujeito pulsional. Insuportável será
É com a dinâmica pulsional que lidamos ainda a submissão ao desejo, à lei, ao limite,
em nível macro ou micro. A força mortífera, às humilhantes manifestações de seu corpo.
em nossa clínica, se manifesta de muitas for- Os fluídos corporais são vividos como
mas, seja no masoquismo, no sentimento in- sujeira e ameaça ensejando hábitos de lim-
consciente de culpa, nas reações terapêuticas peza. As mãos são lavadas seguidamente, os
negativas ou na resistência ao tratamento. pés precisam roçar o capacho antes de entrar
Pode a clínica psicanalítica produzir alguma na sala, o sexo é precedido e sucedido pelo
diferença na trajetória daqueles que cami- banho. Em extensão, não será somente o
nham rente ao desfiladeiro? corpo a solicitar a limpeza. Livre de sujeiras
Como afirmam Lazzarini & Viana (2010), precisará estar também a palavra. A palavra
a clínica mostra que, em grande parte, as também virá enfeitada e perfumada. Uma
queixas atuais dizem de um mal-estar inva- correção gramatical que eleva o sujeito à as-
sor e difícil de definir, um vazio em bloco e cese asseando o vocabulário de terminolo-
sem nome. Algo de um desamparo primor- gias chulas e populares. Instala-se uma busca
dial, uma anestesia, uma incapacidade de pela purificação, visando ser aquele que não
sentir. Estamos de acordo com as autoras necessita de nada, que não é contaminado,
quando afirmam que, que controla seu corpo.

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Luciana Knijnik

Se, em sua fantasia, controla as manifes- Nenhum sujeito sofre mais ao se ver na
tações corporais para não ser rebaixado, na vala comum. Para ele não basta ser um, mas
cena analítica não será diferente. Tentará único, sem ancestral, sem sucessor. Precisa
dominar o analista com a coerência de seu se destacar na multidão, ter o melhor proje-
discurso lógico. Diminuirá a importância to, produzir uma obra genial, ser o belo. Ten-
do trabalho reclamando do pagamento, so- tativas fracassadas de evitar perceber que se
licitando diminuir a frequência das sessões, vê no reles do chão.
criticando a decoração da sala, questionando O autor esclarece igualmente que, no nar-
o método psicanalítico. Tentará, com todos cisismo (quando as relações se dão de modo
os meios, fazer do analista o desvalido. suficientemente bom), o objeto, na fantasia
Seguindo a descrição de Lazzarini & Via- ou na realidade, entra em conflito com o Eu,
na (2010) compreendemos que nessas pato- na medida em que a sexualização do Eu tem
logias o sentido e o valor do eu é compro- como efeito transformar o desejo pelo objeto
metido, já que o sujeito investe o próprio eu, em desejo pelo Eu. Lembra ainda que o dese-
visando uma redução ao nível zero de tensão. jo é o movimento através do qual o sujeito é
No plano das relações objetais a escolha de descentrado, ou seja, a busca pelo objeto de
objeto de tipo narcísico assume uma forma satisfação implica o sujeito na experiência de
defensiva que privilegia os mecanismos de que seu centro não está mais nele mesmo.
recusa, com limitada elaboração psíquica. Nesse sentido, o bem-estar oriundo da
Ainda que mais próximos da condição neu- experiência de satisfação remete à tentativa
rótica, ao se descompensar, tendem à negati- de se reunir ao objeto para reconstruir, por
vidade, apresentando sintomas psicossomá- meio da unidade, seu centro. Desse modo,
ticos, pânico e comportamentos aditivos. o desejo aponta para consciência de separa-
ção espacial e da dissincronia temporal com
Fluxos de vida, fluxos de morte o objeto, “[...] criadas pela postergação ne-
Para alargar nossa compreensão acerca da cessária à experiência de satisfação” (Green,
negatividade, optamos por seguir a constru- 1988, p. 23).
ção do pensamento de André Green no clás- Como nem tudo são flores, diversos fato-
sico Narcisismo de vida, narcisismo de morte res irão se opor à plena realização do desejo
(1988). sobre essa matriz simbólica primária, como
André Green (1988, p. 11) afirma que o princípio de realidade, por exemplo. Dian-
“[...] o narcisismo opõe uma das mais aferra- te disso, quais seriam os meios de lidar com
das resistências à análise”. Por isso, considera essa impossibilidade de realização plena do
fundamental entendermos as relações entre desejo?
narcisismo e pulsão de morte, chamada por A primeira vivência de falta é solucionada
ele de narcisismo negativo. pela realização alucinatória do desejo, sendo
Segundo ele, em alguns casos, o narcisis- assim uma ilusão reparatória da falta do ob-
mo está no âmago do conflito, expressando- jeto. Apesar de ser um tanto imperfeita, essa
se em estruturas e transferências narcísicas. solução continua sendo uma execução psí-
Para ele, os narcisistas são pessoas feridas e quica muito apropriada. O bebê não dispõe
carentes. Ele sabe que o pai não foi o homem de meios para pensar que seu choro chamou
escolhido pela mãe, outrossim aquele que a atenção da mãe, mas estabelece uma rela-
restou, o prêmio de consolação. Ele intui ser ção de causa e efeito entre a realização aluci-
apenas um joguete para a mãe, está a servi- natória do desejo e sua satisfação.
ço das necessidades dela, é a peça maleável, Quando as necessidades vitais são garan-
a companhia. Frente à decepção com ambos tidas, em situações novas de falta, soluções
os pais, o objeto que lhe resta é ele mesmo. inéditas serão engendradas. A identificação é

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­­É campo minado! Saca onde pisa, meu chapa

a mais fundamental delas, na medida em que preenchível e da dissincronia temporal inter-


o próprio Eu torna-se o objeto, misturando- minável pode fazer o descentramento resul-
se a ele. O mecanismo da identificação com- tar em ressentimento, ódio e desespero.
porta variações e é inicialmente narcísica.
Nessa ocorrência, o Eu se sintetiza com um [...] o retraimento para a unidade, ou a confu-
objeto indiferenciado, ou seja, o objeto está são do Eu com um objeto idealizado, não estão
mais próximo de uma variante do Eu do que mais ao alcance. É então a busca ativa não da
da alteridade. unidade, mas do nada; isto é, de uma redução
Quando o modo de funcionamento narci- das tensões ao nível zero, que é a aproxima-
sista se mantém para além da fusão com o ob- ção da morte psíquica (Green, 1988, p. 25).
jeto, o Eu é submetido a seguidas desilusões.
O narcisismo possibilita a mimese do de-
A alteridade não reconhecida inflige ao Eu in- sejo através da saída que permite evitar que
cessantes desmentidos sobre o que se supõe o descentramento obrigue a investir o objeto
que o objeto seja e provoca inevitavelmente a que possui as condições de acesso ao cen-
decepção sempre renovada quanto ao que se tro. O Eu adquiriu uma certa independência
espera dele. A tal ponto que o Eu nunca pode migrando o desejo do Outro para o desejo
contar com o objeto para reencontrar essa uni- do Um. Contudo, a mimese pode se inver-
dade-identidade que lhe garante encontrar seu ter, anular as injunções do modelo do desejo
centro por ocasião de uma experiência de sa- quando a realização unitária do narcisismo
tisfação sempre insaciada (Green, 1988, p. 22). fracassa. Resulta, desse modo, na mimese
do não desejo, ou seja, desejo de não desejo.
O prejuízo para o Eu é inegável, já que, Com o descarte do centro sua procura é anu-
tendo fracassado a experiência de desloca- lada. Agora, o centro tomado como meta de
mento na direção de um objeto substituto, plenitude tornou-se vazio, lacuna de centro.
que repare as feridas do objeto originário, Conclui-se, assim, que
toda sequência dos deslocamentos atualizará
o fracasso inicial. Se todo contato com o ob- [...] a procura da satisfação prossegue então
jeto só faz acentuar o descentramento (seja fora de qualquer satisfação – como se esta ti-
pela separação espacial, seja pela separação vesse realmente ocorrido – como se tivesse en-
temporal) a ego-sintonia do Eu só pode ser contrado seu bem no abandono dessa busca
buscada nos investimentos do Eu por suas (Green, 1988, p. 26, grifo nosso).
próprias pulsões. Assim, Green descreve o
percurso na direção do narcisismo positivo, Green (1988, p. 26) introduz, desse modo,
como decorrência da neutralização do objeto. a figura, não da depressão, mas do neutro,
Desse modo, o Eu, mesmo que precaria- uma anorexia do viver, em que a morte é a
mente (o Eu nunca substitui plenamente o figura do Ser absoluto. O autor alerta ainda
objeto), adquire certa independência. Mes- que não há um camuflado desejo de morte
mo que alguma ilusão de prazer de existir na relativo ao objeto, pois ele “[...] foi morto na
solidão seja vivida, ela será limitada. E, as- aurora deste processo que deve ser atribuído
sim, será necessário que o Eu se nutra com ao narcisismo de morte”.
um novo investimento dirigido a outro obje- Ao par prazer-desprazer Green (1988)
to idealizado, com o qual se fundirá, do mes- introduz um terceiro modo, o neutro, efeito
mo modo que com o objeto primeiro. da realização alucinatória do desejo, modelo
Ao longo da existência, as produções do da atividade psíquica. Para ele, a metáfora do
narcisismo de vida nunca são integralmente retorno ao inanimado, presente em Além do
exitosas. O efeito da distância espacial não princípio de prazer (Freud, [1920] 2010), é o

168 Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 165–174 | julho/2017


Luciana Knijnik

congelamento do Eu em busca da anestesia e do depreciá-los e diminuir sua importância.


da inércia na morte psíquica. Um beco sem O trabalho da artista plástica brasileira
saída, que possibilita alcançar o objetivo e o Alice Miceli, intitulado Cambodjiana, in-
sentido do narcisismo de morte. teressa para pensarmos o terreno em que o
analista se move. São onze imagens sobre
O narcisismo destrutivo em Rosenfeld uma mesma área: um gramado com uma
Para Rosenfeld (1988), narcisismo e pulsão árvore no centro, uma paisagem falsamente
de morte estão diretamente relacionados no calma e tranquila, pois o que se vê é um cam-
trabalho de Freud. Conforme sua observa- po minado, impenetrável a não ser visual-
ção, no desenvolvimento comum, os impul- mente. A fotógrafa adentra o campo minado
sos instintivos vividos na esfera das relações orientada por um técnico.
objetais são reconhecidos e dirigidos aos ob- Para Agnaldo Farias (2015),
jetos. Já nas situações patológicas, em que se
faz presente uma grave desfusão, uma orga- [...] se cada foto equivale à morte do retrata-
nização narcisista destrutiva tende a se de- do, aqui cada passo pode significar a morte
senvolver. Tal organização onipotente exerce do fotógrafo. Se cada foto é um produto con-
um poder destrutivo contra a vida aniqui- densado da memória, cada campo desses traz
lando as ligações entre objetos e o self, partes a memória viva de um conflito, a lembrança e
do self ou mesmo contra objetos bons, visan- a presença da morte.

Primeira foto da série Cambodjiana, em que a artista, guiada por um técnico,


começa a entrar num campo minado (foto: Cortesia da artista)
Fonte: <http://www.select.art.br/alice-miceli-paisagens-assassinas/>.

Foto número 11, a última da série Cambodjiana, com o ponto de vista mais próximo a que se pode chegar no
campo minado, sem se desviar, sem explodir (foto: Cortesia da artista)
Fonte: <http://www.select.art.br/alice-miceli-paisagens-assassinas/>.

Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 165–174 | julho/2017 169


­­É campo minado! Saca onde pisa, meu chapa

A analista anda igualmente às cegas, guia- Nas primeiras sessões um paciente que
da pela intuição, pela técnica e pela escuta. seguidamente tentava se mostrar superior
Não está só. Formam um par a desarmar aos demais, falando sobre as relações com-
minas terrestres, a povoar desertos, a trazer petitivas que se estabelecem em seu trabalho
para a profundeza da pele lembranças impe- (o chefe, os colegas, a disputa por projetos)
netráveis. No fio da navalha, ousam dar um me conta a fábula do sapo e do escorpião. O
passo a mais na direção da ampliação da vida paciente fala do trabalho, mas nós sabemos
em terreno fértil. que é a possível relação analítica que está em
Certos pacientes resistem muito ao tra- questão na medida em que esse rapaz está
tamento. Seus impulsos destrutivos sem li- predisposto ao ataque, sem perceber que
gação dominam toda a personalidade. Na afundará junto ao inocular seu veneno.
relação com o analista tentam afirmar sua Rosenfeld (1988, p. 144-145) nos alerta
superioridade desperdiçando e destruindo o para a importância de reconhecer e distin-
trabalho, a compreensão e a satisfação des- guir entre
te. Não é de admirar que, com esses anali-
sandos, seguidamente algo é trabalhado em [...] a operação de uma organização defensi-
análise, para em seguida se desfazer do lado va narcisista, que é ativa, crônica e bastante
de fora. Situação em que se percebe um certo organizada, e uma força mortífera mais sub-
empenho, ainda que inconsciente, em agir de -reptícia e oculta, que pode ser uma resistên-
modo completamente diferente do que fora cia paralisadora crônica, impedindo a análise
pensado junto com o analista. É comum no- de avançar por muitos anos.
tarmos também que o paciente adote com-
portamentos autodestrutivos como meio de O narcisismo mortífero, age de modo se-
tentar comprovar que a análise não está fun- melhante à pulsão de morte, como uma força
cionando. Não há dúvida de que seu senti- oculta e silenciosa que se opõe a todo pro-
mento de superioridade ligado ao controle e gresso e pode estar por trás da organização
à contenção de partes de si mesmo o defende defensiva narcisista.
da temida dependência do analista. Mudar ou receber ajuda assume nesse
Nesse cenário, a perda de qualquer objeto caso a conotação de fracasso, vivenciado
de amor, inclusive o analista, aparenta ser in- como algo errado ou como malogro da orga-
diferente ou até uma vitória. Em tais pacien- nização narcisista destrutiva que fornece ao
tes o desejo de morrer ou de se recolher em paciente seu sentimento de superioridade.
um estado de vazio e apatia, poderia ser visto O sujeito imerso nesse funcionamento relata
como expressão da pulsão de morte (pulsão como uma atitude que atesta seu total fracas-
primária para morte). so o fato de ter solicitado a opinião de um
Entretanto, de acordo com Rosenfeld,3 há colega mais experiente em um projeto. Um
uma destrutividade ativa dirigida pelo self e furo em sua superioridade calcada na crença
direcionada não apenas contra objetos, mas de que não precisa de ninguém.
contra partes do próprio self. Para o autor, a É preciso estarmos atentos para perceber
idealização de aspectos destrutivos do self e que as partes narcisistas destrutivas do self
a submissão a eles pode ser chamada de nar- podem estar ligadas a uma estrutura ou or-
cisismo destrutivo. Tais aspectos destrutivos ganização psicótica, cindida do restante da
capturam a positividade do self, opondo-se personalidade. Dominada por uma parcela
a qualquer relação libidinal com o analista. onipotente, ela cria um mundo sem sofri-
mento, sustentando, assim, o não investi-
3. Para Green (1988), Rosenfeld foi um dos poucos kleinia- mento em qualquer relação objetal. Fantasia
nos a tentar integrar as pulsões de destruição à sua teoria. ainda enredos complexos com diálogos, ce-

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Luciana Knijnik

nas e personagens. Como um esteta, elege as da psicanálise (Botella; Botella, 2003, p.


próprias cores e tonalidades, cria seu mundo 425).
particular.
Para Rosenfeld a atitude clínica deve ser O percurso até aqui realizado é efeito das
de ajudar o paciente a reencontrar a parte sa- questões que a prática clínica suscita. Uma
dia e dependente do self, além da tomada de prática sedenta, que absorve de imediato as
consciência das partes onipotentes e destru- contribuições do aprofundamento concei-
tivas cindidas do self. A revelação desse pro- tual.
cesso mostrará que ele contém os impulsos Em nossa amizade com a teoria produzi-
invejosos e destrutivos isolados do self, já que mos um lugar para o que está sendo vivido,
essa parte só pode se manter toda poderosa questionamos, agregamos, ouvimos de outro
em isolamento. modo. Investigamos, colocamos as ferra-
Assim, o paciente poderá perceber que mentas em ação, liberamos o pensamento,
aguçamos a sensibilidade e permitimos o
[...] é dominado por uma parte infantil e oni- encontro, em nossa amizade com a escuta
potente de si mesmo que não só o arrasta para clínica.
a morte, como também o infantiliza e o impe- Apostamos em uma clínica que opera na
de de crescer, mantendo-o afastado de objetos contramão da lógica neoliberal dominante
que poderiam ajudá-lo a crescer e a se desen- em seu pressuposto de extrair mais produ-
volver (Rosenfeld, 1988, p. 147). tividade do sofrimento. Uma escuta que é
sempre política, já que o sintoma é também
A delicada costura social, “histórico, localizado e específico”
No campo do saber analítico, teoria e prática (Koltai, 2017).4
andam de braços dados, Somos poeira de estrela. Forças mortífe-
ras visíveis na dinâmica planetária operam
[...] a teoria e a prática, o pensamento e o psi- também no diminuto universo de cada um.
quismo do analista, fazem parte do objeto de O homem que está diante de nós é também
estudo (Botella; Botella, 2003, p. 425). o do subsolo, doente, mau, desagradável e
doente do fígado.
Entendemos, assim, que a teoria psica- Diz ele:
nalítica é inseparável da prática. Pouco im-
porta se o conhecimento sobre os processos [...] mas, apesar de tudo, não me trato por
psíquicos inconscientes é oriundo do que se uma questão de raiva. Se me dói o fígado, que
passa na sessão ou das ferramentas concei- doa ainda mais (Dostoiévski, 2000, p. 15).
tuais disponíveis na vasta literatura já produ-
zida. Importa mesmo que o conhecimento Ouvimos o homem que não é sedento
seja útil para o psicanalista em seu ofício, na de liberdade, e a partir dele recolocamos a
experiência da sessão em que questão do que pode a análise. Uma possível
resposta passa pelo desejo, que sustentará o
[...] participam os dois inconscientes, o do processo analítico. Desejo não somente do
analista e o do analisando, o que organiza analisando, mas também do analista de levar
uma unidade profunda entre o instrumento seu trabalho adiante, desde que tenha expe-
de observação (o psiquismo do analista), o
objeto de estudo (o psiquismo do paciente) e
a relação recíproca entre os dois, funcionando 4. Ver mais em: <https://lavrapalavra.com/2017/05/19/a-
-psicanalise-e-o-neoliberalismo-entrevista-com-caterina-
ambos em estado de regressão; é esse conjun- koltai-christian-dunker-maria-rita-kehl-nelson-da-silva-jr
to que forma o verdadeiro objeto de estudo -paulo-endo-e-rodrigo-camargo/>.

Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 165–174 | julho/2017 171


­­É campo minado! Saca onde pisa, meu chapa

renciado a própria análise como “[...] um Abstract


poderoso dispositivo de emancipação subje- It is the drive‘s dynamic that we are always
tiva” (Kehl, 2017).5 Essa emancipação leva facing. Flows of life and death go over our so-
não ao isolamento em um mundo particular, ciety‘s history, as well as the trajectory of ones
mas ao laço social, erigido no calor do con- we receive in our psychological rooms. Psycho-
tato, na generosidade, na solidariedade, e no logical clinics shows that, most of the times,
amor. nowadays complaints are about an intrusive
Como no rock Campo minado, da emble- bad feeling and really hard to define, a mas-
mática banda gaúcha Bandaliera (1991): sive chunk of emptiness with no name. Such
a primordial loneliness, a sort of anaesthesia,
Tudo em riba, é só prosseguir an incapacity of feeling. Having said that, it‘s
Sem essa de recolher considered crucial to make narcissism and its
Abre o jogo sai por aí mortal forms problematic in order to unders-
Cante um rock fique legal tand the paths that build contemporary sub-
A vontade é um instrumento jectivity in the confrontation and doubts that
Que a telepatia sacou leads toward the analytical process.
Acho bom ir mentalizando
Pra não chutar o detonador Keywords
Acho bom ir mentalizando Life‘s narcissism, Destructive narcissism, Re-
Pra não chutar o detonador sistance, Psychoanalysis.
É campo minado
É campo minado
Saca aonde pisa meu chapa
Desdobra esse lance
Dá uma pernada
Pra lá do arame farpado
É campo minado
É campo minado
Saca aonde pisa meu chapa
Desdobra esse lance
Dá uma pernada
Pra lá do arame
Pra lá do arame farpado

5. Ver mais em: <https://lavrapalavra.com/2017/05/19/a-


-psicanalise-e-o-neoliberalismo-entrevista-com-caterina-
koltai-christian-dunker-maria-rita-kehl-nelson-da-silva-jr
-paulo-endo-e-rodrigo-camargo/>.

172 Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 165–174 | julho/2017


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vista com Caterina Koltai, Christian Dunker, Maria

Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 165–174 | julho/2017 173


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Maria das Mercês Maia Muribeca

O enigma das paixões


e suas vicissitudes amorosas
The enigma of passions and the variations of love

Maria das Mercês Maia Muribeca

Resumo
A moção pulsional desregrada das paixões mais arcaicas pode enfermar o campo das emoções
no humano, situando-o numa seara de desrazões que o aprisiona numa relação de dependên-
cia patológica com o objeto do desejo e o impulsiona aos atos mais tresloucados e aos crimes
mais bizarros. O impulso de efetuar a passagem do silêncio das fantasias ao ato só acontece
no lugar da proibição, onde existe o desejo. Nas relações passionais, observamos, como disse
Piera Aulagnier, que “[...] o objeto do desejo para o Eu se converte numa fonte exclusiva de
todo prazer e se transporta para o registro das necessidades”. Nesses casos, há uma impossibi-
lidade, por parte do sujeito, de se desvencilhar do objeto de sua paixão, ou seja, de redirecionar
o foco de seu desejo para outro gozo, de sorte que ele responderá, de alguma maneira, aos
vários desfechos dessa embriaguez alucinatória. Assim, nessa eterna dialética do desejo, não
há um terreno estável para pisar quando se trata das paixões mais mundanas. Enfim, quando
o inconsciente se põe a escrever sobre a subjetividade humana a coisa se desenha por si só.
Portanto, nada humano se trata de certezas e verdades absolutas, mas áreas de reflexão. Somos
sustentados, provisoriamente, por construções de sentido que, a qualquer momento, se dissi-
pam para dar surgimento a novas configurações.

Palavras-chave: Desejo, Paixão obsessiva, Crimes passionais.

Na compulsão amorosa
a pessoa não se apaixona pelo outro,
mas sim pelo significado
que ela própria dá a ele.
Wimer Bottura

Cena inicial pletamente destroçada pelo disparo de uma


Adentrando na cena do crime, fomos en- arma de fogo. Não era preciso fazer muitas
volvidos por intensa emoção ao visualizar o especulações para entender que se tratava de
corpo de uma mulher que jazia sobre a cama um crime passional. O autor do crime havia
de um dormitório mal iluminado. Na pare- feito vários disparos na mulher e, depois de
de, escrito com sangue, podíamos ler: “Se um pequeno intervalo de tempo, em que es-
não é minha, não é de ninguém”. Mas, essa creveu seu bilhete de despedida na parede
não era a única visão fúnebre. Do outro lado, e sorveu mais alguns tragos de seu uísque,
ao pé da cama, numa poça de sangue estava completou sua obra sendo também homici-
o cadáver de um homem com a cabeça com- da de si mesmo.
Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 175–180 | julho/2017 175
O enigma das paixões e suas vicissitudes amorosas

Cenas como essas nos fazem pensar no Como propôs Jean Laplanche (1992), esse
que induz um ser humano a se apaixonar confronto do infante com o mundo adulto,
de maneira tão compulsivamente patológi- que lhe envia mensagens impregnadas de
ca, ardentemente visceral, sinistramente ob- significações sexuais inconscientes, é uma si-
sessiva, a ponto de sequestrar o ser amado, tuação antropológica fundamental de caráter
mantê-lo em cárcere privado, assassiná-lo universal, à qual todo ser humano deve se sub-
e, depois, como ato final, cometer suicídio. meter para se converter em um ser pulsional.
Por que, sob a égide da paixão, queremos nos Nesse sentido, o fator biológico da eta-
apossar do objeto amado? Como se arma e pa prematura da constituição do humano
desarma o jogo do desejo erótico nas rela- dá lugar às primeiras situações de perigo e
ções? Qual o termômetro da percepção en- ao imperativo categórico de ser protegido e
tre o saudável e o patológico nas afinidades amado, induzindo-o a uma constante e ine-
amorosas? vitável busca desse outro enigmático da se-
Acreditamos que as pulsões desregradas dução originária. Isso implica para o infante
das paixões mais arcaicas podem enfermar o reconhecer a onipotência daquele que exerce
campo das emoções no humano, situando o a função materna, colocação imprescindível,
sujeito numa seara de desrazões que o apri- na qual o binômio mãe-filho conforma uma
siona numa relação de dependência patoló- unidade que resulta inseparável.
gica com o objeto do desejo e o impulsiona No entanto, faz-se mister que ambos se
aos atos mais tresloucados e aos crimes mais submetam à operação diferenciadora e sin-
bizarros. A tentação de sair do silêncio das gularizante da separação para que a criança
fantasias ao ato só acontece no lugar da proi- possa devir uma alteridade. E é precisamente
bição, onde existe o desejo, por conseguinte, nesse processo de separação versus indivi-
no campo das vicissitudes da paixão, peca- duação que ocorrerá a acareação do sujeito
se tanto pelo excesso quanto pela escassez. com a falta. A partir dessa cisão, o ser humano
A falta desse sentimento retira o humano tentará incansavelmente recuperar uma míti-
da veia poética, mas seu transbordamento o ca completude perdida, sem embargo sofrerá
leva a desembocar num estágio de loucura sempre as marcas do desencontro, susten-
alucinatória do desejo. tando uma falta que lhe é básica e essencial.
Dito isso, valemo-nos da psicanálise para Estamos diante de um ser marcado pela
entender que a sexualidade abrange toda a falta, que vive uma eterna busca, como con-
pulsionalidade, em suas mais diversas ex- sequência do desejo de encontrar a plenitu-
pressões. O sexo não se restringe ao ato em de, o que nos remete ao Banquete, de Platão
si, mas engloba uma dimensão fantasmática, (1996), quando Aristófanes relata que, nas
que supõe um jogo de encobrimento e des- origens da humanidade, Zeus decidiu dividir
velamento da existência do desejo. o Andrógino em duas metades, condenando
-as a uma infindável caça em prol de capturar
O ser humano e a prioridade sua alma gêmea. Assim, quando o encontro
do outro em sua existência acontecia, a atração entre eles era imediata
O ser humano é constituído pelo desampa- e, com muito erotismo, desejavam restaurar
ro ao emergir num mundo repleto de sig- a velha perfeição, entrelaçavam-se e tenta-
nificantes enigmáticos, dependendo, por vam se fundir um no outro. No entanto, a fu-
completo, de outra pessoa para a satisfação são era sempre momentânea. Assim, a cada
de suas necessidades. Portanto, é desde o al- novo encontro segue um novo desencontro.
vorecer da existência, que o lactante carece Condenados a não entender mais do gozo um
da prioridade do outro adulto em sua exis- do outro, começaram a viver na incompletu-
tência. de de seu desejo de ser outra vez um só ser.

176 Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 47 | p. 175–180 | julho/2017


Maria das Mercês Maia Muribeca

Um ser de desejo Esse fenômeno de atração é desencadeado


Cada qual ama precisamente o que lhe falta, pela ativação dos feromônios e da ocitocina,
asseverou Schopenhauer (1993). Nessa ver- elevando ao ápice a química do tesão, mas
tente, o ser humano é um ser de desejo cuja especialmente pela urgência e pelo ardor
satisfação é sempre ilusória e efêmera. Essa das carências que projetamos no outro. Ou
insatisfação vem desde muito cedo, quando seja, o outro é apenas objeto de nossos an-
ele percebe que seu primeiro objeto de amor seios e fruto de nossas idealizações, portanto
é proibido e incestuoso. projetamos algo de dentro para fora de nós
Esse obstáculo condena a raiz do desejo a mesmos para ser reintroduzido de fora para
uma interminável busca: nunca encontra em dentro, delimitando, com isso, um perímetro
seus objetos amorosos o substituto adequa- de ilusões amorosas já preconcebidas com as
do do objeto inicial do desejo a que/ao qual ferramentas de nossas fantasias mais arcaicas.
um dia teve que renunciar. Portanto, a espe- Na paixão, o sujeito alimenta a utopia de
rança de completude tem como fundamento haver preenchido um imenso vazio com a
uma perda original, colocada por Freud em aquisição de um objeto amoroso. O objeto
termos de objeto perdido de uma satisfação do desejo, nas relações passionais, adquire
primeira e origem de um profundo e perma- a dimensão de um objeto não só de prazer,
nente anseio por seu retorno, o qual recebe o mas de necessidade no sentido de uma com-
nome de desejo. pulsividade.
Nesse aspecto, o desejo desliza sua visce- Nesse sentido, Piera Aulagnier (1984) ob-
ralidade sob a alameda da exigência perma- serva que, nas relações passionais, o objeto
nente de plenitude, alimentando sua susten- do desejo para o Eu se converte numa fonte
tabilidade numa balaustrada de durabilidade exclusiva de todo prazer e se transporta para
infinita e irrevogável. Destarte, todo desejo o registro das necessidades. Portanto, o ter-