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PATOLOGIAS EM ALVENARIA ESTRUTURAL DE BLOCOS VAZADOS DE CONCRETO

ENGENHARIAS
PATOLOGIAS EM ALVENARIA ESTRUTURAL DE BLOCOS VAZADOS DE CONCRETO

João de Jesus dos Santos


Doutor em Estruturas em Engenharia Civil pela Pontifícia Universidade do Rio de
Janeiro (PUC-Rio), Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
paraduc@yahoo.com.br

Bianca Cardoso Figueiredo


Graduada em Engenharia Civil pelo Centro Federal de Educação Tecnológica Celso
Suckow da Fonseca (CEFET-RJ),
Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
bianca.figueiredo@live.com

RESUMO

Este artigo aborda a alvenaria estrutural e suas principais patologias, apresentando


medidas de prevenção, recuperação e reforço estrutural. Para isso, foi realizado um
estudo sobre problemas que tornavam o edifício suscetível ao desenvolvimento de
patologias. Identificou-se que a principal patologia desse sistema construtivo são as
fissuras, cujas origens são diversas, ressaltando a importância do conhecimento método
executivo correto e o acompanhamento de toda a concepção do empreendimento,
desde a elaboração do projeto até seu acabamento.

Palavras-chave: Alvenaria estrutural. Patologias. Reforço estrutural.

PATOLOGHIES IN CONCRETE STRUCTURAL MANSORY

ABSTRACT

This article approaches the structural mansory system and its main pathologies, presenting
possible measures of prevention, rehabilitation and reinforcement. Therefore, a study
was carried out on problems that made the building susceptible to the development
of pathologies. It has been identified that the main pathology of this constructive
system is fissures and their origins are diverse, and can happen even for more than one
reason, emphasizing the importance of knowing the correct executive method and the
monitoring of the whole conception of the enterprise, from the project until its finishing.

Keywords: Structural mansory. Pathologies. Structural rahabilitation.

1 INTRODUÇÃO

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João de Jesus dos Santos e Bianca Cardoso Figueiredo

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Para concepção do projeto de um edifício, é necessário ter definido o sistema
estrutural a ser adotado. Essa escolha baseia-se no uso da edificação, no custo da
execução e nos recursos disponíveis.
Como opção de sistemas estruturais, temos o sistema totalmente estruturado, no
qual os elementos são previamente dimensionados, e podem ser de concreto armado,
madeira, aço, paredes de concreto, alvenaria estrutural e mistas.
O sistema de alvenaria estrutural, mostrado na Figura 1, é um conjunto coeso
formado por peças justapostas, os blocos estruturais, ligadas por uma argamassa
estrutural, com presença de graute e armação, obrigatórias na horizontal e opcionais na
vertical. E, como todo sistema construtivo, está sujeita a desenvolver patologias.

Figura 1 - Estrutura em alvenaria estrutural

Fonte: (Elaborada pela autora. 2017).

2 ALVENARIA ESTRUTURAL

A alvenaria estrutural, no geral, é um sistema estrutural com custo inferior ao


sistema convencional de concreto armado, pois apresenta uma redução no orçamento
devido à retirada de pilares e vigas maior que o aumento do custo da execução da
alvenaria. No entanto, é necessária a análise de alguns aspectos técnicos e econômicos
do projeto para se optar por esse tipo de estrutura, de modo que essa situação não se
inverta e seja adotado um sistema mais oneroso que a estrutura convencional. Dentre os
aspectos, estão a altura do edifício, o arranjo arquitetônico e o tipo de uso.
Segundo Kalil (2011), em relação à altura da edificação, a alvenaria estrutural é

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adequada a edifícios até 20 pavimentos. Para estruturas com número de pavimentos
muito superior a 20, mesmo que a resistência dos blocos seja adequada quanto à
compressão, as ações horizontais começariam a produzir tensões de tração significativas,
o que exigiria a utilização de armadura e graute. E se o número de pontos sob essas
condições for muito grande, a economia da obra estará irremediavelmente comprometida
(RAMALHO e CORRÊA 2008). Para o caso especifico de alvenaria estrutural não armada,
essa limitação de altura é de 8 pavimentos (KALIL, 2011).
O graute é aplicado nos vazados dos blocos com dois objetivos: o primeiro seria
proporcionar a integração da armadura com a alvenaria, no caso de alvenaria estrutural
armada ou em armaduras apenas de caráter construtivo. O segundo objetivo seria o fato
de aumentar a resistência aos esforços de flexão, compressão e cisalhamento (SAMPAIO,
2010). Para tanto, deve ter características no estado fresco que garantam o completo
preenchimento dos furos e não pode ter retração que provoque o descolamento do
mesmo das paredes dos blocos ou segregação dos elementos constituintes (NBR 15961-
2:2011).
Em uma análise conjunta com os projetistas de estrutura e de instalações,
devem ser definidas algumas questões, como os blocos a serem utilizados, os níveis e
a espessura das lajes, se haverá pilotis ou não, como serão os shafts, caixas de escada
e elevador, caixas d’água, barriletes, varandas, sacadas, chaminés, garagens e demais
detalhes, arquitetônios ou não, que possam necessitar de tratamento específico (TAUIL
E NESSE, 2010).
É a partir da geometria que são analisadas as ações das cargas verticais
(permanentes e acidentais) e das cargas horizontais (cargas de vento) (TAUIL E NESE,
2010). Portanto, deve-se evitar formas L, U, T e X em planta, pois encarecem a estrutura
e dificultam os cálculos. A distribuição das paredes resistentes pela área da planta deve
ser equilibrada a fim de se obter uma simetria externa da edificação, com o intuito
de garantir a estabilidade do edifício em relação às cargas horizontais, diminuindo o
surgimento de esforços de torção (KALIL, 2011).

3 PATOLOGIAS E CUIDADOS PARA EVITÁ-LAS

Pode-se afirmar que há patologia em todo sistema ou subsistema quando esse


apresenta problemas, falhas ou defeitos que comprometam uma ou mais funções do
edifício, ou seja, quando não atende algum requisito de desempenho, especialmente

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aqueles exigidos por legislação específica, regulamentação ou normalização
técnica.
Para tal desempenho, é necessário introduzir o uso de normas técnicas aplicáveis
na aquisição e no emprego de materiais, na contratação de serviços e na construção em
geral, uma vez que é exigência prevista no artigo 39, item VIII do Código de Defesa do
Consumidor, que os produtos e serviços ofertados no mercado de consumo devem estar
em acordo com as Normas da ABNT ou de qualquer outra entidade credenciada pelo
CONMETRO, Conselho Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial
(FALCÃO BAUER, 2000).
De acordo com Falcão Bauer (2000), as anomalias mais comuns encontradas em
edifícios de alvenaria estrutural são eflorescências, infiltrações de água e fissuras. Sendo
esta última destacada por ele e Mamede (2016) como a principal patologia desse sistema
construtivo, decorrentes de erros de projetos, má execução, exemplificado na Figura 2,
problemas com materiais e uso dos proprietários, podendo decorrer até mesmo por
mais de um motivo, ressaltando a importância do conhecimento do correto método
executivo e o acompanhamento de toda a concepção do empreendimento, desde a
elaboração do projeto até seu acabamento.

Figura 2 - Rasgo na alvenaria para passagem de conduíte

Fonte: (Elaborada pela autora, 2017).

Com o objetivo de atender os requisitos de desempenho técnico das edificações


especificados na NBR 15575 (2013), para estruturas em alvenaria estrutural armada de

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blocos de concreto, deverão ser tomados cuidados especiais nas fases de concepção e
projeto, como a conceituação dos projetos arquitetônicos e estrutural; conhecimentos
técnicos adquiridos com base em experiência nacional, visando à adequação e
concepção dos projetos de fundação e estrutural; normalização técnica existente quanto
à especificação dos materiais constituintes e procedimento de execução (FALCÃO BAUER,
2000).
Quanto aos projetos, cada um deve ser elaborado conforme exigências e
necessidades específicas de implantação da edificação, uma vez que estas variam
conforme as características econômicas, culturais e sociais da população alvo. Quando
um projeto não atende à exigência respectiva ao seu caso ou apresenta incompatibilidade
com outros, pode-se afirmar que este torna o empreendimento suscetível a desenvolver
patologia.
No que tange o projeto de arquitetura, na sua concepção são levados em
consideração principalmente a geometria do prédio e a modulação da alvenaria, vertical
e horizontal. A geometria e a volumetria de uma edificação informam quais serão as
paredes portantes, de contraventamento e de vedação. A geometria aponta também
a necessidade de juntas de dilatação e de juntas de controle. Segundo a NBR 15961-1
(2011), devem ser previstas juntas de dilatação no máximo a cada 24 m, com o objetivo de
absorver os movimentos que possam surgir na estrutura, provenientes, principalmente
da variação de temperatura e retração. Já as juntas de controle tem a finalidade de
prevenir o aparecimento de fissuras provocadas por variação de temperatura, retração,
variação brusca de carregamento e variação da altura ou da espessura da parede.
De acordo com Mamede (2016), os fatores para prever juntas de controle são o
cuidado com a retração dos blocos, fachadas ensolaradas (orientação), solicitar revisão
do projeto com o arquiteto, buscar colocar juntas nas áreas úmidas e, ao posicionar as
juntas ao lado das aberturas das janelas, tomar cuidado com o apoio das vergas.
No caso da fachada, o projeto deve contemplar o uso de beirais, pingadeiras e juntas
“frisadas”, que evitam o contato direto da água com a alvenaria e, consequentemente,
a penetração da umidade.
Para a escolha do tipo de fundação e posterior elaboração de seu projeto, é
realizado o estudo do solo, para conhecimento mínimo de suas propriedades. Decidido
o melhor tipo de fundação, o calculista e o arquiteto devem adotar medidas que
aumentem a flexibilidade do edifício, como juntas na estrutura e desvinculação de
paredes (MAMEDE, 2016).

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O projeto executivo é o responsável por apresentar as características gerais
da estrutura, como número de pavimentos, faixa de resistência dos blocos, graute,
argamassa e prismas ocos e cheios por pavimento, as idades de rompimento para
controle das resistências, resistência do concreto e demais informações que o calculista
julgue pertinente.
O projeto de modulação da alvenaria é de extrema importância para a alvenaria
estrutural, uma vez que está relacionado à estabilidade da edificação e a outros
componentes que, no futuro do projeto e da obra, comporão toda a edificação pronta
para uso (TAUIL E NESE, 2010).
Os projetos de instalações devem ser lançados com base no projeto de modulação
da alvenaria e ser compatível com o projeto de elevação, para que as caixas elétricas
e telefônicas coincidam com o furos nos blocos (PEDREIRA DE FREITAS et al, 2010) e
as prumadas hidrossanitárias sejam localizadas em shafts, uma vez que é proibida a
passagem de tubulações que conduzam fluidos dentro de paredes com função estrutural
(NBR 15961-2, 2011).
Deve-se ter cuidado com a utilização das laterais de vão de porta para instalação
de interruptores e cantos do perímetro para descida do sistema de SPDA (Sistema de
Proteção Contra Descargas Atmosféricas), pois são pontos normalmente grauteados.
Isso impossibilita o embutimento das caixas elétricas e, para o caso do SPDA, deve ser
adicionada uma segunda barra de aço para a função.
Com relação à qualidade dos materiais devem ser tomados cuidados com os
critérios de qualificação técnica dos fabricantes de blocos de estruturais e Qualificação
técnica dos fabricantes e especificação técnica, mediante Normas Técnicas e Cadernos
de Encargos (acordo-prévio). Por exemplo, no caso de blocos vazados de concreto deve-
se, com base na norma NBR 6136, especificar a resistência à compressão, a umidade, a
absorção de água e as características dimensionais (FALCÃO BAUER, 2000).
Já para a argamassa de assentamento e grautes deve-se, com base na norma NBR
8798, especificar a dosagem, a retenção de água e a resistência à compressão.
Durante a obra, deve ser verificada a resistência da alvenaria através de ensaios
de blocos, prismas ou paredes, graute e argamassa (PEDREIRA DE FREITAS et al, 2010).
A resistência característica do elemento de alvenaria obtida nos ensaios deve ser
maior ou igual ao especificado no projeto estrutural. A forma de controle das resistências
depende da probabilidade relativa de ruptura da alvenaria em função da razão entre a
resistência especificada em projeto e a obtida nos ensaios (NBR 15961-2:2011).

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A execução da estrutura deve seguir um procedimento de mapeamento de
laje, da transferência das linhas de eixo, marcação da alvenaria para enfim iniciar sua
elevação. Este ultimo requer uma correta distribuição de blocos e uso de escantilhão, de
forma a assegurar a correta modulação e prumo das paredes. Quando chegar na quinta
ou sexta fiada, recomenda-se preencher com graute os furos dos blocos indicados em
projeto, repetindo o processo ao chegar na penúltima fiada.
A última fiada é feita com bloco canaleta e é sempre armada e grauteda. O
grauteamento deve ser feito antes do início da forma, para evitar que os blocos sejam
quebrados durante a execução da mesma ou saia da posição assentada ao se for
concretada junto com a laje.
Os esforços de encaixe da forma e batidas na montagem podem provocar
pequenos deslocamentos na ultima fiada que formam pequenas fissuras na argamassa
com o bloco, muito suscetíveis às patologias.
Os ferros de graute devem subir por toda a altura do ponto de graute, ficando
como arranque para o pavimento de cima, a menos que o ponto exista apenas naquele
mesmo pavimento, nesse caso ele deve ir até o bloco canaleta.
As paredes devem ser executadas apenas com blocos inteiros. Em situações de
interfaces, como pilar-parede e parede de vedação-parede estrutural, recomenda-se o
uso de telas, que podem ser aplicadas retas ou dobradas em “L” (PEDREIRA DE FREITAS
et al, 2010). Elas também são usadas para amarração de paredes, e principalmente
para bonecas de portas, que, se estiverem sem tela, correm o risco dos blocos soltarem
conforme elevação dos demais pavimentos, que fazem a estrutura daquele pavimento
resistir a um maior esforço de compressão.
A laje de cobertura, por ficar mais exposta ao sol, tende a se movimentar mais
que o restante do edifício (PEDREIRA DE FREITAS et al, 2010). As lajes estarão expostas
a grandes intensidades de radiação solar, e caso não sofram um processo cuidadoso de
cura, apresentarão grande retração de secagem, com efeitos diretos sobre as paredes do
último pavimento (MAMEDE, 2016).
Essa movimentação gera fissuras (Figura 3), e para minimizá-las, são previstas em
projeto juntas de dilatação com 2 cm preenchidas com isopor (PEDREIRA DE FREITAS et
al, 2010), que podem absorver tanto as movimentações resultantes da retração quanto
as movimentações térmicas (MAMEDE, 2016).

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Figura 3 - Dilatação térmica da laje de cobertura

Fonte: (Pedreira de Freitas et al, 2010).

Além disso, na junta da ultima fiada com a laje de cobertura é colocado um


material para evitar a ligação entre os elementos, permitindo a livre movimentação da
laje, conforme mostrado nas Figuras 4 e 5.

Figura 4 – Material redutor de atrito entre última fiada de blocos e a laje de cobertura

Fonte: (Pedreira de Freitas et al, 2010).

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Figura 5 – Junta separada por manta

Fonte: (Elaborada pela autora, 2017).

Nas fachadas, os frisos são detalhes construtivos feitos para esconder as pequenas
fissuras que em certos casos são inevitáveis. Sua posição depende do sistema construtivo
adotado para as lajes, desde que haja revestimento (PEDREIRA DE FREITAS et al, 2010).

4 RECUPERAÇÃO ESTRUTURAL

A recuperação e o reforço estrutural tem como objetivo restabelecer as condições


originais da estrutura, tratando as patologias desenvolvidas.
De modo geral, para que isso ocorra, deve-se primeiro identificar a patologia,
avaliando as possíveis causas para corrigi-la e finalmente tratar a patologia.
Como dito no tem 3, as patologias mais comuns no sistema de alvenaria estrutural
são as eflorescências, infiltrações de água e fissuras.
Para que ocorra eflorescência, são necessários sais solúveis, presença de água
e pressão hidrostática. Portanto, Falcão Bauer (2000) afirma que, para evitar essa
anomalia, deve-se eliminar uma dessas três condições e para tal é necessário identificar
a origem de cada uma delas.
Identificada e tratada a causa da infiltração e secado o revestimento, pode ser
feita a remoção da eflorescência através da escovação da superfície e, se necessário,
reparo da região com pulverulência (FALCÃO BAUER, 2000).
A umidade responsável pelo desenvolvimento de patologias tem duas prováveis
origens, o solo e as precipitações.

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Os sintomas de infiltrações devido à umidade de precipitação são, no geral,
visíveis nos cantos dos tetos e no entorno das janelas.
O tratamento para esse tipo de patologia passa, inicialmente, pela eliminação
da umidade por um processo adequado, devendo também atuar sobre as causas para
impedir novo umedecimento das áreas afetadas.
A recuperação do componente trincado só pode ser feita após se chegar a um
diagnóstico seguro e saber até que ponto está comprometida a estrutura.
Entendido que a fissuração não compromete a segurança da estrutura, deve-se
analisar os diversos aspectos de desempenho da estrutura e questões como o estágio de
avanço do movimento que deu origem à trinca, possibilidade de adoção de um reparo
definitivo ou provisório e o melhor período para a execução do mesmo, para então
definir o processo de recuperação, que será condicionado pela movimentação prevista
da trinca (THOMAZ, 1989).
No caso de estruturas mistas, isto é, alvenaria estrutural com pilares e vigas de
concreto, Thomaz (1989) afirma que os destacamentos entre pilares e paredes poderão
ser recuperados com uso de material flexível no encontro entre as peças. Nas paredes
revestidas, quando há retração da alvenaria, poderá ser empregada uma tela metálica
leve, como a tela de estuque, inserida na nova argamassa a ser aplicada, transpassando
o pilar aproximadamente 20 cm para cada lado. Nesse tipo de recuperação a tela poderá
ser fixada na alvenaria com pregos ou cravos de metal e deverá estar medianamente
distendida. A alvenaria e o pilar deverão ser chapiscados após a colocação da tela.
Nas paredes longas com fissuras intermediárias, Thomaz (1989) recomenda a
criação de juntas de movimentação nos locais de ocorrência das fissuras.
A recuperação de fissuras ativas, desde que os movimentos não sejam muito
pronunciados, poderá também ser tratada pela pintura da parede. Nesse caso, a pintura
deve ser reforçada com tela de nylon ou polipropileno, com aproximadamente 10 cm de
largura, requerendo-se a aplicação de seis a oito demãos de tinta. Sempre que possível,
no entanto, a recuperação deve ser efetuada com selantes flexíveis (poliuretano, silicone
etc.).
Nas lajes de cobertura apoiadas em alvenaria portante, além de melhorar
a isolação térmica da cobertura, pode ser feito o escoramento da laje, a remoção da
ultima junta de assentamento e a introdução, nessa junta, de material deformável.
Quando o escoramento da laje for impossível, pode ser feita a raspagem da junta até
uma profundidade aproximada de 10 mm e depois preenchê-la com selante flexível

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(THOMAZ, 1989).
As fissuras provenientes da concentração de tensões só serão eficientemente
recuperadas caso se consiga uma melhor distribuição das tensões no trecho de parede
carregado. Assim, para o caso de cargas concentradas transmitidas por vigas, há
necessidade de escorar-se a viga e construir sob a mesma um coxim de distribuição.
Na região de abertura de porta ou janela, o comprimento de apoio da verga deverá ser
aumentado, podendo-se introduzir entre a verga e a alvenaria chapas de aço ou então
colocar uma segunda verga com comprimento maior que a já existente sobre a mesma.
A recuperação das paredes trincadas e o reforço das alvenarias portantes podem
ser feitas com a introdução de armaduras nas paredes, ancoradas com argamassa rica
em cimento e posicionadas perpendicularmente à direção das fissuras.
A forma mais simples de reforçar a estrutura em alvenaria estrutural é através
do aumento da quantidade dos pontos grauteados ao longo da parede. Isso pode ser
feito através da quebra do bloco imediatamente abaixo do bloco canaleta e acoplando
uma fôrma de madeira para despejar o graute. Visitas devem ser deixadas conforme
procedimento normal de execução para inspeção.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A alvenaria estrutural é um sistema relativamente simples, composto basicamente


por blocos estruturais, argamassa, armadura e graute, mas com boa capacidade portante,
que se deve a combinação dos seus elementos e a forma como interagem um com o
outro.
Assim como os demais sistemas estruturais, esse sistema possui vantagens e
desvantagens, estando a seu favor, principalmente, a economia proporcionada em
função do baixo preço dos materiais e a velocidade de execução.
No entanto, sua adoção deve levar em conta o tipo de uso da edificição e o padrão
do empreendimento. Outro ponto importante a ser analisado ainda é a relação do custo
com o número de pavimentos dos prédios para a viabilidade da adoção desse sistema.
Além disso, esse sistema requer uma atenção redobrada durante a execução da
alvenaria, a conferência do serviço logo após sua execução e o acompanhamento real do
controle tecnológico, através de ensaios de prismas, bloco, graute e argamassa.
Outro fator que precisa de atenção é a elaboração dos projetos. Sendo o cálculo
estrutural, a base para garantir a segurança da estrutura, se faz necessário também que

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isso seja expresso de forma clara e simples em projetos executivos, de modo que não
deixe margem para interpretações erradas.
Essas medidas devem ser tomadas a fim de se evitar o desenvolvimento de
patologias, que comprometem o desempenho da edificação quanto aos seus requisitos
especificados por norma para habitabilidade, de forma a preservar a segurança e bem
estar dos moradores.

REFERÊNCIAS

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 15961: Alvenaria estrutural —


Blocos de concreto Parte 1: Projeto. Rio de Janeiro, 2011.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 15961: Alvenaria estrutural —


Blocos de concreto Parte 2: Execução e controle de obras. Rio de Janeiro, 2011.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 15575: Desempenho de


edificações habitacionais. Rio de Janeiro, 2013.

BAUER, L.A. Falcão. Materiais de construção. 5ª Ed. Rio de Janeiro: LTC, 2000. v.1 p429-
439.

KALIL, Silvia Maria Baptista. Alvenaria Estrutural. São Paulo: Pontifícia Universidade
Católica, 2011.

MAMEDE, Fabiana. Projeto em alvenaria estrutural. Especialização em engenharia das


estruturas.
São Paulo: Universidade de Lins. Notas de aula, abril 2016.

PEDREIRA DE FREITAS, Augusto G. et al. Caderno de Recomendações: Alvenaria


Estrutural. Revisão 2, 2010. Diponível em:< http://www.pedreira.eng.br/>. Acesso em:
1 de maio de 2016.

RAMALHO, Marcio A.; CORRÊA, Márcio R. S. Projeto de Edifícios de Alvenaria Estrutural.


1ª Ed. São Paulo: Pini Ltda., 2008.

SAMPAIO, Marliane Brito. Fissuras em Edifícios Residenciais em Alvenaria Estrutural.


São Paulo: Universidade de São Paulo, 2010.

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TAUIL, Carlos Alberto; NESSE, Flávio José Martins. Alvenaria Estrutural. 1ª Ed. São Paulo:
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THOMAZ, E. Trincas em edifícios: causas, prevenção e recuperação. São Paulo: Editora


Pini, 1989.

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