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Mais árvores e menos gente

“Precisamos nos preocupar com a explosão populacional”


Narendra Modi, 15/08/2019

A Revolução Industrial e Energética que teve início no final do século XVIII possibilitou um grande
crescimento demoeconômico, viabilizando a melhoria das condições de vida da maioria da
população mundial. As taxas de mortalidade infantil caíram significativamente enquanto
aumentava a esperança de vida ao nascer. Houve um grande avanço da educação e uma
ampliação e diversificação do consumo. Nada disto seria alcançado sem uma ampla
disponibilidade de energia, pois foram os combustíveis fósseis que possibilitaram os avanços
civilizacionais dos últimos 250 anos.

Mas a queima de carvão, petróleo e gás, junto com o desmatamento, amplificou a emissão de
gases de efeito estufa, fazendo acelerar o aquecimento global. A elevação da temperatura
média da terra vai provocar diversos fenômenos que ameaçam a existência da vida na Terra.
Temperaturas mais altas vão provocar o degelo dos polos, da Groenlândia e dos glaciares,
elevando o nível dos oceanos e ameaçando a vida de mais de 2 bilhões de pessoas que vivem
nas regiões costeiras. Vai também provocar a acidificação dos solos e das águas destruindo a
vida marinha e dificultando a produção de alimentos. As ondas letais de calor vão deixar diversas
partes do Planeta inabitáveis, etc.

Por conta de tudo isto, o Acordo de Paris se comprometeu em manter o aumento da


temperatura a 1,5º Celsius. Porém, conforme mostra o gráfico abaixo, a trajetória das emissões
de CO2 indica que o aquecimento pode ultrapassar 4º C até 2100, o que seria uma catástrofe de
grandes proporções.

Evidentemente, é preciso reverter urgentemente a trajetória ascendente das emissões de CO2.


Para se atingir as metas do Acordo de Paris, as emissões líquidas precisam ser zeradas até
meados do século. Mas, mesmo com emissão zero, a alta concentração do carbono já emitido
pode ser suficiente para atingir temperaturas muito elevadas.

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Portanto, além de reduzir as emissões é preciso sequestrar o carbono da atmosfera. Existem
várias tentativas de fazer isto por meio da geoengenharia. Mas até agora as soluções são caras
e ineficientes.

Mas de acordo com um novo estudo publicado na Revista Science (Bastin et. al. 05/07/2019),
restaurar as florestas do mundo em uma escala sem precedentes é a melhor solução mitigar os
efeitos das mudanças climáticas. Os pesquisadores afirmam que a cobertura de 900 milhões de
hectares de terra - aproximadamente o tamanho dos EUA - com árvores, poderia armazenar até
205 bilhões de toneladas de carbono, cerca de dois terços do carbono que os seres humanos já
colocaram na atmosfera. Ou seja, uma catástrofe climática poderia ser evitada se ao invés de
desmatar houvesse reflorestamento global.

Havia 6 trilhões de árvores no mundo no passado. Mas a humanidade destruiu a metade das
florestas desde o crescimento exponencial da população e da economia. O número de árvores
no mundo hoje em dia está em torno de três trilhões de unidades, segundo o mesmo estudo
citado (Bastin et. al. 05/07/2019). Mas o pior é que os seres humanos estão destruindo 15
bilhões de árvores por ano, enquanto o aparecimento de novas árvores e o reflorestamento é
de somente 5 bilhões de unidades. Ou seja, o Planeta está perdendo 10 bilhões de árvores por
ano e pode eliminar todo o estoque de 3 trilhões de árvores em 300 anos.

Desta forma, é preciso estancar imediatamente a sangria do desmatamento e reverter este


processo plantando árvores que funcionam com sorvedouros de carbono. A humanidade tem o
dever moral (e o instinto de sobrevivência) de repor aquilo que ela destruiu. Ao invés de
continuar a marcha insensata de aumento indefinido do consumo de bens conspícuos, os seres
humanos precisam cortar as taxas de fecundidade e elevar as taxas de reflorestamento e
refaunação da vida selvagem.

A economia mundial precisa perder sua obsessão pelo crescimento e perceber que a
humanidade já ultrapassou os limites da resiliência do Planeta. As atividades antrópicas já
ultrapassaram 4 das 9 fronteiras planetárias, sendo que duas delas, a Mudança climática e a
Integridade da biosfera, são o que os cientistas chamam de "limites fundamentais" e tem o
potencial para conduzir o Sistema Terra a um novo estado que pode ser substancialmente e
persistentemente transgredido. O agravamento destas duas fronteiras fundamentais podem
levar a civilização ao colapso.

Artigo de Mark Kinver (BBC News, 12/09/2019) mostra que um acordo global histórico destinado
a interromper o desmatamento falhou. Uma avaliação da Declaração de Nova York sobre
Florestas (NYDF) diz que ela não cumpriu as promessas-chave. Lançado na cúpula climática da
ONU em 2014, visava reduzir à metade o desmatamento até 2020 e atingir o desmatamento
zero até 2030. No entanto, o desmatamento continua a um ritmo alarmante e ameaça agravar
as mudanças climáticas perigosas. Desde que o NYDF foi lançado há cinco anos, o desmatamento
não apenas continuou, como também acelerou. A quantidade anual de emissões de gases de
efeito estufa resultantes do desmatamento em todo o mundo é equivalente aos gases de efeito
estufa produzidos pela União Europeia. Em média, uma área de cobertura de árvores do
tamanho do Reino Unido foi perdida todos os anos entre 2014 e 2018. A perda de florestas
tropicais representa mais de 90% do desmatamento global, com o hotspot localizado nas nações
da Bacia Amazônica da Bolívia, Brasil, Colômbia e Peru.

O relatório “Protecting and Restoring Forests: A Story of Large Commitments” (Five-Year


Assessment Report, September 2019) mostra que o desmatamento está piorando, cinco anos
depois que países e empresas prometeram impedi-lo. Se existiam dúvidas sobre os números do

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desmatamento (como mostrou Fred Pearce, Yale 360, 09/10/2018), os dados atuais são claros
em mostrar o grau de degradação da cobertura vegetal global.

Portanto, cinco anos após ingressar em um compromisso histórico para parar de cortar as
florestas do mundo, governos e empresas não estão reduzindo a velocidade do desmatamento,
assim como estão rapidamente levando ao desaparecimento de mais árvores. As florestas
continuam sendo desmatadas a um ritmo alarmante (ver gráfico abaixo), impulsionado
principalmente pela expansão agrícola e pela demanda por carne bovina, óleo de palma e soja.
"Estamos perdendo a batalha para impedir o desmatamento", disse Craig Hanson, vice-
presidente do Instituto de Recursos Mundiais.

Plantar árvores e restaurar a vida selvagem é não só um dever ético, mas também uma tábua
de salvação para a própria humanidade. Mas de nada adianta plantar árvores se o ser humano
continuar na sua marcha louca e insensata para colocar mais gente no mundo e gente que vai
aumentar o consumo de água, alimentos, moradia, transporte, lazer e que vai pressionar a
Pegada Ecológica bem acima dos limites da Biocapacidade do Planeta. Como disse Kenneth
Boulding: “um crescimento infinito é incompatível com um mundo finito”.

O fato é que o crescimento das atividades antrópicas tem se dado às custas da biodiversidade e
do empobrecimento dos ecossistemas. Depois de 250 anos de expansão da sociedade urbana-
industrial, o mundo está esbarrando nos limites do crescimento econômico. Como mostrou
Herman Daly (05/09/2014), as atividades humanas já ultrapassaram os seus limites econômicos
planetários e entraram em uma fase de “crescimento deseconômico”. Para estabelecer o
equilíbrio é preciso haver decrescimento até o ponto de intercessão entre as curvas de utilidade
marginal e desutilidade marginal. Depois de restaurado o equilíbrio, a adoção de uma economia
de estado estacionário permitiria evitar se ultrapassar novamente o limite econômico
sustentável. O Estado Estacionário, em um ponto anterior ao crescimento deseconômico, é um
seguro contra o risco de uma catástrofe ecológica.

Mas se houver decrescimento econômico com crescimento da população haverá redução da


renda per capita e um agravamento da crise social, pois as elites econômicas não aceitarão
perdas neste processo de salvar o meio ambiente (ou podem boicotar decisivamente o processo

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de recuperação dos ecossistemas). Portanto, o decrescimento econômico deve ser
acompanhado pelo decrescimento da população.

A redução da população mundial não é nenhuma tarefa impossível. Pelo contrário, basta que a
taxa de fecundidade total (TFT) fique meio filho (0,5) abaixo da projeção média para que a
população mundial apresente grande redução. A projeção média da ONU estima uma população
global de 10,9 bilhões de habitantes em 2100, com a TFT caindo dos atuais 2,5 filhos por mulher
para 2 filhos por mulher no final do século. Contudo, se a taxa ficar meio filho menor, a
população mundial atingiria cerca de 7,5 bilhões de habitantes em 2100, conforme mostra o
gráfico abaixo. E poderia apresentar um declínio muito maior no século XXII.

Para Herman Daly, as atividades humanas já ultrapassaram os limites econômicos do Planeta e


entraram em uma fase de “crescimento deseconômico”. Para estabelecer o equilíbrio é preciso
haver decrescimento até o ponto de intercessão entre as curvas de utilidade marginal e
desutilidade marginal. Depois de restaurado o equilíbrio, que a restauração das 6 trilhões de
árvores e a recuperação da vida selvagem, a adoção de uma economia de estado estacionário
permitiria evitar se ultrapassar novamente o limite econômico sustentável. O Estado
Estacionário, em um ponto anterior ao crescimento deseconômico, é uma “apólise de seguro”
contra o risco de uma catástrofe ecológica.

Referências:
ALVES, JED. A vida secreta das árvores e o déficit de natureza, Ecodebate, 14/12/2018
https://www.ecodebate.com.br/2018/12/14/a-vida-secreta-das-arvores-e-o-deficit-de-
natureza-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/
DALY, Herman. Three Limits to Growth. Resilience, 05/09/2014
http://www.resilience.org/stories/2014-09-05/three-limits-to-growth

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Serge Latouche. Decrescimento: ‘Um crescimento infinito é incompatível com um mundo
finito’, Ecodebate, RJ, 24/11/2011 http://www.ecodebate.com.br/2011/11/24/decrescimento-
um-crescimento-infinito-e-incompativel-com-um-mundo-finito-por-serge-latouche/
Jean-Francois Bastin et. al. The global tree restoration potential, Science, Vol. 365, Issue 6448,
pp. 76-79, 05 Jul 2019: https://science.sciencemag.org/content/365/6448/76
Mark Kinver. World 'losing battle against deforestation', BBC News, 12/09/2019
https://www.bbc.com/news/science-environment-49679883
Narendra Modi. “Population explosion a worry”, TOI, 15/08/2019
http://timesofindia.indiatimes.com/articleshow/70693821.cms?utm_source=contentofinteres
t&utm_medium=text&utm_campaign=cppst
Fred Pearce. Conflicting Data: How Fast Is the World Losing its Forests? Yale 360, 09/10/2018
https://e360.yale.edu/features/conflicting-data-how-fast-is-the-worlds-losing-its-forests
Progress on the New York Declaration on Forests. Protecting and Restoring Forests: A Story of
Large Commitments, Five-Year Assessment Report, September 2019
https://forestdeclaration.org/images/uploads/resource/2019NYDFReport.pdf

José Eustáquio Diniz Alves


Doutor em demografia, link do CV Lattes:
http://lattes.cnpq.br/2003298427606382