Você está na página 1de 433

UNIVERSIDADE DA AMAZÔNIA

PRO-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO, PESQUISA E EXTENSÃO


PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ADMINISTRAÇÃO

DIANA CRUZ RODRIGUES

ENFRENTAMENTO DAS DESIGUALDADES NA POLÍTICA ESTADUAL DE


CIÊNCIA, TECNOLOGIA E INOVAÇÃO NO PARÁ:
ABRANGÊNCIA E CONFORMAÇÕES EM TECNOLOGIA ASSISTIVA E
TECNOLOGIA SOCIAL

BELÉM-PA
2019
DIANA CRUZ RODRIGUES

ENFRENTAMENTO DAS DESIGUALDADES NA POLÍTICA ESTADUAL DE


CIÊNCIA, TECNOLOGIA E INOVAÇÃO NO PARÁ:
ABRANGÊNCIA E CONFORMAÇÕES EM TECNOLOGIA ASSISTIVA E
TECNOLOGIA SOCIAL

Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação


em Administração (PPAD) da Universidade da
Amazônia (UNAMA), como requisito parcial
para obtenção do título de doutora em
Administração.

Linha de pesquisa: Gestão do Desenvolvimento.

Orientador: Prof. Dr. Mário Vasconcellos


Sobrinho.

Co-orientadora: Profa. Dra. Ana Maria


Vasconcellos.

BELÉM-PA
2019
Autorizo a reprodução e divulgação total ou parcial deste trabalho, por qualquer
meio convencional ou eletrônico, para fins de estudo e pesquisa, desde que citada a
fonte.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


Nazaré Soeiro

CRB2/ 961

338.98115
R696e Rodrigues, Diana Cruz.

Enfrentamento das desigualdades na política estadual de ciência,


tecnologia e inovação no Pará: abrangência e conformações em
tecnologia assistiva e tecnologia social. / Diana Cruz Rodrigues. –
Belém, 2019.
432 f.; il.: 21 x 30 cm.

Tese (Doutorado) – Universidade da Amazônia, Pró-Reitoria de


Pós-graduação, Pesquisa e Extensão, Programa de Doutorado em
Administração, 2019.

Orientador: Prof. Dr. Mário Vasconcelos Sobrinho.

1. Política pública- análise. 2. Política de ciência, tecnologia e


inovação. 3.Desigualdade. 4. Tecnologia assistiva. 5. Tecnologia
social. I. Sobrinho, Mário Vasconcelos. II. Título.
DIANA CRUZ RODRIGUES

ENFRENTAMENTO DAS DESIGUALDADES NA POLÍTICA ESTADUAL DE


CIÊNCIA, TECNOLOGIA E INOVAÇÃO NO PARÁ:
ABRANGÊNCIA E CONFORMAÇÕES EM TECNOLOGIA ASSISTIVA E
TECNOLOGIA SOCIAL

Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação


em Administração (PPAD) da Universidade da
Amazônia (UNAMA), como requisito parcial
para obtenção do título de doutora em
Administração.

Linha de pesquisa: Gestão do Desenvolvimento.

BANCA EXAMINADORA:

Data de aprovação: ___/___/_____

_________________________________________
Prof. Dr. Mário Vasconcellos Sobrinho – Orientador.
Universidade da Amazônia – UNAMA.

_________________________________________
Profa. Dra. Luciana Rodrigues Ferreira – Examinadora Interna.
Universidade da Amazônia – UNAMA.

_________________________________________
Prof. Dr. Mauro Margalho Coutinho – Examinador Interno.
Universidade da Amazônia – UNAMA.

_________________________________________
Profa. Dra. Maria das Graças Ferraz Bezerra – Examinadora Externa.
Museu Paraense Emílio Goeldi – MPEG.

_________________________________________
Profa. Dra. Maria Caramez Carlotto – Examinadora Externa.
Universidade Federal do ABC - UFABC.

BELÉM-PA
2019
AGRADECIMENTOS

Ao Programa de Pós-Graduação em Administração (PPAD) da Universidade da Amazônia


(UNAMA) pela oportunidade de aprendizado acadêmico, profissional e pessoal que tive
nestes anos. À todos os professores que participaram e participam deste programa pela
generosidade e dedicação para formar pesquisadores para este campo na Amazônia. Aos
secretários e pessoal de apoio, em especial ao Igor e a Simone pela atenção, diligência e
carinho na convivência cotidiana do programa. Em especial, agradeço ao meu orientador,
Prof. Dr. Mário Vasconcellos Sobrinho, pela confiança, sensibilidade e compromisso com
minha trajetória acadêmica, e suas diversas atividades desde o mestrado, sabendo dar
autonomia e apoio no desenvolvimento de minha história.
Ao Programa de Pós-Graduação em Política Científica e Tecnológica (PPGPCT) da
Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) pela oportunidade de participar deste como
aluna especial. Foi um semestre rico de aprendizados a quem agradeço a professores,
secretários e colegas discentes. Em especial, agradeço aos professores Rafael Dias e Milena
Serafim pela paciência e generosidade com que me aceitaram para realização de estudo
dirigido e me guiarem pela estrada dos estudos sociais da C&T.
Aos amigos com quem compartilhei esta caminhada da pós-graduação. No PPAD, com todos
os colegas do programa com que realizei disciplinas, atividades e trabalhos, além de
compartilhar aprendizados e “perrengues”, risos e choros. Em especial, agradeço a todos os
amigos da turma de doutorado de 2015. Aos amigos que encontrei pelo caminho dos cursos e
eventos, que sempre tenhamos reencontros, em especial a Raquel Sobral, Catherine Rojás e
Maria do Carmo Meirelles. Aos amigos do grupo de pesquisa Gesdel, que dividem a mesma
estrada pelo compartilhar das dificuldades, desafios e conquistas, pelos risos que fizeram com
que a caminhada ficasse mais leve e colorida, em especial a Herena Correa de Melo, Hilmar
Chaves, Josevana Lucena, Michelle Bouth, Rosinele de Oliveira e Irene Costa Freitas.
Às organizações e pessoas que me receberam durante a pesquisa e proporcionaram
informações e aprendizados essenciais. Em especial, agradeço às organizações, Secretaria de
Estado de Ciência, Tecnologia e Educação Profissional e Tecnológica (SECTET) e a
Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Pará (FAPESPA) pela abertura ao diálogo e a
informações imprescindíveis a esta pesquisa, bem como a todos os servidores que se
envolveram com o tema da política de CT&I e me ajudaram em especial a Rosenilda Freitas,
Carlos Cristiano Cardoso, Márcia Luana Souza, Leonardo Freitas, Denílson Pinheiro e
Geovana Pires. Agradeço também a todos os pesquisadores que me receberam,
compartilharam seus conhecimentos e colaboraram para desenvolvimento desta pesquisa, sem
os quais este trabalho não seria possível.
À minha família e amigos, pelo apoio e carinho de sempre. Em especial aos meus pais que
sempre me incentivaram a estudar, à minha mãe, Tereza Cruz Rodrigues, pelo suporte e
presença constante, e ao meu pai, Carlos Rodrigues, pelo cuidado e confiança. Aos meus avôs
e avós, tios e tias, primos e primas, sempre de algum modo presentes com suas lições e
alegrias.
À Deus.

O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento


de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.
RESUMO

O objetivo desta tese é compreender como tem sido articulado e efetivado o enfrentamento
das desigualdades no processo da política de ciência, tecnologia e inovação (CT&I).
Problemas relacionados as desigualdades vêm sendo crescentemente debatidos na literatura
sobre política de CT&I em função dos impactos da aceleração da mudança tecnológica sobre
as assimetrias na distribuição de recursos e capacidades. Contudo, no processo da política de
CT&I, enfoques direcionados para o enfrentamento das desigualdades (distributivos) ainda
são marginais, sendo preponderante uma orientação de justiça social utilitarista-agregativa. A
abordagem analítica envolveu a mobilização teórica-metodológica do quadro de referência de
coalizão de defesa e da análise de discurso, de modo a propiciar o entendimento de como
diferentes enfoques discursivos orientam a articulação das políticas para enfrentamento das
desigualdades e, portanto, conformam ações a serem efetivadas. O recorte de análise partiu do
contorno da política estadual de CT&I no Pará, em um contexto subnacional e periférico, e
neste foram selecionados os casos da política de fomento a tecnologia assistiva (TA) e
tecnologia social (TS). Ambos os processos de política analisados foram finalisticamente
direcionados e a maioria dos projetos financiados alcançou o desenvolvimento de produtos
e/ou atividades disponibilizados para públicos-alvo, por canais de distribuição públicos (por
financiamento governamental ou por meios gratuitos). Enfoques alinhados com um discurso
de CT&I orientado para a sociedade tenderam a ter maior alcance para enfrentamento das
múltiplas dimensões de desigualdades. Porém, estes apresentaram dificuldades devido a maior
divergência com as práticas sociais institucionalizadas, especificamente tensões discursivas
nas práticas de desenvolvimento tecnológico e de política. Para além das disputas na agenda
entre as pautas tradicionalmente agregativas e distributivas, a emergência das pautas
distributivas na política, mesmo em posições marginais, resulta em desestabilização nos
discursos predominantes (C&T auto orientada e CT&I orientada para o mercado), os quais
tendem a se reorganizarem em enfoques discursivos responsivos a tais pautas, estabelecendo
posições reformistas que atuam em disputas discursivas dentro destas pautas, buscando uma
menor abrangência de mudanças nas práticas sociais em vigor.

Palavras-chave: Análise de Política Pública. Política de Ciência, Tecnologia e Inovação.


Desigualdade. Tecnologia Assistiva. Tecnologia Social.
ABSTRACT

This thesis aims to understand how the confrontation with inequalities in the science,
technology and innovation (ST&I) policy process has been articulated and effected. Problems
related to inequalities have been increasingly debated in the ST&I policy literature due to the
impacts of accelerating technological change on asymmetries in the distribution of resources
and capacities. However, in the ST&I policy process, approaches to coping with (distributive)
inequalities are still marginal, with a prevailing utilitarian-aggregative social justice
orientation. The analytical approach involved the theoretical-methodological mobilization of
the advocacy coalition framework and the discourse analysis, in order to provide an
understanding of how different discursive approaches guide the articulation of policies to
confront inequalities and, therefore, shape actions to be taken. The research design originated
from the state ST&I policy process in Pará, in a subnational and peripheral context. From this
policy framing, we selected the cases of assistive technology (AT) and social technology (ST)
fostering policy. Both policy processes which were analyzed were finalistically targeted and
most of the funded projects achieved the development of products and/or activities made
available to target audiences, through public distribution channels (by government funding or
by free means). Approaches aligned with a society-oriented ST&I discourse tended to be
broader in addressing multiple dimensions of inequality. However, they presented difficulties
due to greater divergence from institutionalized social practices, specifically discursive
tensions in the technological development and policy process practices. In addition to disputes
between traditionally aggregative and distributive agendas, the emergence of distributive
agendas in policy processes, even in marginal positions, results in destabilization in
mainstream discourses (self-oriented S&T and market-oriented ST&I), which tend to
reorganize themselves in discursive approaches responsive to such distributive agendas,
establishing reformist positions that act in discursive disputes within these agendas, seeking a
smaller range of changes in current social practices.

Keywords: Policy Analysis. Science, Technology and Innovation Public Policy. Inequality.
Assistive Technology. Social Technology.
LISTA DE FIGURAS

Figura 1 - Diagrama de fluxos da abordagem de coalizões de defesa. 49


Figura 2 - Três dimensões de análise de discurso propostas por Fairclough. 69
Figura 3 - Elementos de análise de práticas sociais. 71
Figura 4 - Os 10 elementos da abordagem do pensamento sistêmico de tecnologia
assistiva. 212
Figura 5 - Mapeamento dos núcleos que compõem a rede nacional de pesquisa e
desenvolvimento em tecnologia assistiva no Brasil. 227
Figura 6 - Rede de relações entre núcleos de tecnologia assistiva cadastrados na
RNPDTA e unidades de vínculo de coordenadores de projetos do edital nº
010/2013 da FAPESPA. 291
Figura 7 - Linha do tempo das principais ações no processo de política estadual de
tecnologia social no Pará, de 2012 a 2014. 336
Figura 8 - Linha do tempo das principais ações no processo de política estadual de
tecnologia social no Pará, de 2015 a 2017. 345
Figura 9 - Posições discursivas em temáticas para enfrentamento das desigualdades a
partir das orientações discursivas na política de CT&I. 393
LISTA DE GRÁFICOS

Gráfico 1 - Índice de desigualdade em variáveis relacionadas a recursos humanos em


CT&I entre Unidades Federativas (UF) do Brasil, no período de 2002 a
2016. 136
Gráfico 2 - Número de projetos aprovados no edital nº 010/2013 da FAPESPA, de
acordo com os tipos de deficiência atendidos. 262
LISTA DE QUADROS

Quadro 1 - Pressupostos do quadro de referência de coalizões de defesa. 48


Quadro 2 - Delineamento de subsistemas na política de CT&I no Pará por níveis de
análise. 65
Quadro 3 - Principais normas sociais da ciência propostas por Robert Merton. 79
Quadro 4 - Concepções e limites de abordagens de CT&I para um enfoque socialmente
orientado. 102
Quadro 5 - Programas por linha de ação da CT&I para desenvolvimento social no plano
de ação de CT&I 2007-2010. 120
Quadro 6 - Matriz de referência de discursos da política de CT&I a partir de uma visão
de convergência internacional. 124
Quadro 7 - Ações do programa ciência, tecnologia e inovação para o desenvolvimento
do PPA 2008-2011 do Governo do Estado do Pará. 144
Quadro 8 - Linhas temáticas ou áreas de aplicação indicados como prioritários ou
estratégicos em editais selecionados da FAPESPA no período de 2007 a
2011. 155
Quadro 9 - Seleção de editais lançados pela FAPESPA identificados com menções
explícitas a temáticas voltadas a redução desigualdades, inclusão social ou
atendimento específico de grupos sociais vulneráveis, no período de 2008 a
2011. 156
Quadro 10 - Ações do programa ciência, tecnologia e inovação para o desenvolvimento
sustentável do PPA 2012-2015 do Governo do Estado do Pará. 160
Quadro 11 - Ações do programa CT&I para o Desenvolvimento Sustentável do PPA
2012-2015, por municípios com execução relatada em 2015. 167
Quadro 12 - Linhas temáticas ou áreas de aplicação direcionados em editais selecionados
da FAPESPA no período de 2012 a 2015. 170
Quadro 13 - Seleção de editais lançados pela FAPESPA identificados com menções
explícitas a temáticas voltadas a redução desigualdades, inclusão social ou
atendimento específico de grupos sociais vulneráveis, no período de 2012 a
2015. 171
Quadro 14 - Ações do Programa Ciência, Tecnologia e Inovação Para o Desenvolvimento
do PPA 2016-2019 do Pará. 178
Quadro 15 - Linhas temáticas ou áreas de aplicação direcionados em editais selecionados
da FAPESPA no período de 2012 a 2015. 184
Quadro 16 - Seleção de editais lançados pela FAPESPA identificados com menções
explícitas a temáticas voltadas a redução desigualdades, inclusão social ou
atendimento específico de grupos sociais vulneráveis, no período de 2016 a
2017. 185
Quadro 17 - Chamadas públicas lançadas pela FINEP específicas a temática de
tecnologia assistiva até 2018. 229
Quadro 18 - Chamadas públicas lançadas pelo CNPq específicas a temática de tecnologia
assistiva, até 2018. 231
Quadro 19 - Paradigmas de Prestação de Serviços na Política de Tecnologia Assistiva. 241
Quadro 20 - Proposição de concepção para desenvolvimento e provisão de tecnologia 244
assistiva, a partir de um alinhamento entre a orientação discursiva do modelo
social de deficiência e da CT&I socialmente orientada.
Quadro 21 - Informações gerais dos projetos aprovados no edital nº 010/2013 da
FAPESPA. 263
Quadro 22 - Informações sobre resultados dos projetos aprovados no edital nº 010/2013
da FAPESPA. 267
Quadro 23 - Informações de vínculos institucionais e associações de coordenadores de
projetos aprovados no edital nº 010/2013 da FAPESPA. 272
Quadro 24 - Grupos de pesquisa no Estado do Pará no DGP/CNPq com linhas temáticas
de tecnologia assistiva e projetos do edital nº 010/2013 da FAPESPA com
coordenadores associados. 275
Quadro 25 - Elaborações sintéticas da concepção, desenvolvimento e avaliação de
produtos e ações de tecnologia assistiva em relação a interação com pessoas
com deficiência (PcD) e outras organizações a estas associadas. 278
Quadro 26 - Matriz de dimensões para análise de tecnologia social, conforme Dagnino
(2014). 309
Quadro 27 - Proposição de posições discursivas no processo da política de tecnologia
social no domínio da CT&I. 317
Quadro 28 - Chamadas públicas lançadas pela FINEP específicas a temática de
tecnologia assistiva até 2018. 328
Quadro 29 - Informações gerais dos projetos fomentados no âmbito da política estadual
de tecnologia social. 347
Quadro 30 - Informações sobre resultados e produtos dos projetos de tecnologia social
fomentados. 352
Quadro 31 - Informações de vínculos institucionais, associações e parcerias nos projetos
de tecnologia social fomentados. 357
Quadro 32 - Grupos de pesquisa com sede no Estado do Pará no DGP/CNPq com linhas
temáticas sobre tecnologia social. 359
Quadro 33 - Elaboração sintética da concepção, desenvolvimento e avaliação de
tecnologia social nos projetos apoiados pela SECTET, 2015-2017. 362
Quadro 34 - Conceitos de tecnologia social estabelecidos em documentos da política
estadual de TS no Pará. 372
LISTA DE TABELAS

Tabela 1 - Dispêndios em C&T e P&D no Brasil, de 2002 a 2016 (em milhão de reais). 135
Tabela 2 - Quantidade de recursos humanos em CT&I no Brasil, de 2002 a 2016. 135
Tabela 3 - Projetos de P&D financiados por meio do FUNTEC do governo do Estado
do Pará, de 1997 a 2006. 140
Tabela 4 - Modalidades de Projetos de CT&I financiados por meio do FUNTEC do
governo do Estado do Pará, de 1995 a 2006 (em R$ 1,00). 140
Tabela 5 - Editais lançados pela FAPESPA com modalidade de fomento no formato de
bolsa ou auxílio, por categorias, no período de 2008 a 2011. 153
Tabela 6 - Editais lançados pela FAPESPA com modalidade de fomento no formato de
projeto, por categorias, no período de 2008 a 2011. 153
Tabela 7 - Previsão orçamentária e recursos financeiros aplicados em programas no
âmbito da CT&I do PPA 2012-2015 (em R$ 1.000,00). 165
Tabela 8 - Editais lançados pela FAPESPA com modalidade de fomento no formato de
bolsa ou auxílio, por categorias, no período de 2012 a 2015. 168
Tabela 9 - Editais lançados pela FAPESPA com modalidade de fomento no formato de
projeto, por categorias, no período de 2012 a 2015. 169
Tabela 10 - Metas por objetivo do programa temático de Ciência, Tecnologia e Inovação
do PPA 2016-2019 do Estado do Pará. 175
Tabela 11 - Recursos financeiros programados totais e aplicados nos anos de 2016 e
2017 por região de integração no programa de Ciência, Tecnologia e
Inovação do Pará (em R$ 1,00). 176
Tabela 12 - Editais lançados pela FAPESPA com modalidade de fomento no formato de
bolsa ou auxílio, por categorias, no período de 2016 a 2017. 182
Tabela 13 - Editais lançados pela FAPESPA com modalidade de fomento no formato de
projeto, por categorias, no período de 2016 a 2017. 183
Tabela 14 - Indicadores de C&T para Brasil, Região Norte e Pará, em 2014. 187
Tabela 15 - Distribuição percentual da população com pelo menos uma das deficiências
investigadas por Idade e Tipo de Deficiência no Brasil, censo 2010 (%). 217
Tabela 16 - Proporção da população com pelo menos uma das deficiências investigadas
por Região no Brasil, censo 2000 e 2010 (%). 218
Tabela 17 - Distribuição percentual da população de 15 anos ou mais de idade sem ou
com, pelo menos, uma deficiência investigada por nível de instrução no
Brasil, censo 2010 (%). 218
Tabela 18 - Distribuição percentual do nível de ocupação da população de 10 anos ou
mais de idade, por sexo e tipo de deficiência investigada no Brasil, censo
2010 (%). 219
Tabela 19 - Distribuição das instituições que compõem a Rede Nacional de Pesquisa e
Desenvolvimento em Tecnologia Assistiva por região no Brasil. 227
Tabela 20 - Percentual de projetos de TA por tipo de desenvolvimento. 234
Tabela 21 - Distribuição de projetos de TA por estado e Distrito Federal no Brasil. 235
Tabela 22 - Projetos de tecnologia assistiva por tipo de participação específica do
público-alvo no âmbito da PNITA 2011-2013. 236
Tabela 23 - Resultados gerais de projetos de TA em termos de introdução no mercado
e/ou disponibilidade ao público-alvo. 238
Tabela 24 - Dificuldade(s) para desenvolvimento dos projetos de TA. 238
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

ACDA - Associação de Assistência à Criança Deficiente da Amazônia.


ACESSAR - Núcleo de Tecnologia Assistiva Acessar.
ADA - American with Disabilities Act.
ADC - Análise de Discurso Crítica.
AEE - Atendimento Educacional Especializado.
ALEPA - Assembleia Legislativa do Pará.
APL - Arranjo Produtivo Local.
BASA - Banco da Amazônia.
BIOPARÁ - Programa Paraense de Incentivo ao Uso Sustentável da Biodiversidade.
BPC - Benefício de Prestação Continuada.
C&T - Ciência e Tecnologia.
CAPES - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior.
CAT - Comitê de Ajuda Técnica.
CD - Coalizão de Defesa.
CDPcD - Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência da ONU.
CENSIPAM - Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia.
CEPAL - Comissão Econômica para a América Latina e Caribe.
CEPLAC - Comissão Executiva de Planejamento da Lavoura Cacaueira.
CER - Centro Especializados em Reabilitação.
CESUPA - Centro Universitário do Estado do Pará.
CF - Constituição Federal.
CIDID - Classificação Internacional das Deficiências, Incapacidades e Desvantagens.
CIF - Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde.
CIIC - Centro Integrado de Inclusão e Cidadania.
CNCTI - Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação.
CNPq - Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico.
CNRTA - Centro Nacional de Referência em Tecnologia Assistiva.
CONADE - Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência.
CONCITI - Conselho Estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação.
CONFAP - Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa
CONSECTET - Conselho Estadual de Ciência, Tecnologia e Educação Profissional e
Tecnológica.
CONTEC - Conselho Estadual de Ciência e Tecnologia.
CPATU - Centro de Pesquisa Agroflorestal do Trópico Úmido.
CT&I - Ciência, Tecnologia e Inovação.
CTDS - Coordenadoria de Tecnologia para Desenvolvimento Social.
CTI - Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer.
CTS - Ciência, Tecnologia e Sociedade.
DCR - Programa de Desenvolvimento Científico e Tecnológico Regional.
DCT - Diretoria de Ciência e Tecnologia.
DECIT - Departamento de Ciência e Tecnologia da Secretaria de Ciência, Tecnologia e
Insumos Estratégicos (SCTIE) do Ministério da Saúde (MS).
DEPIS - Diretoria de Políticas e Programas para inclusão Social.
DGP - Diretório de Grupos de Pesquisa.
DTS - Diretoria de Tecnologia Social.
ELETROBRAS - Centrais Elétricas Brasileiras S.A.
ELETRONORTE - Centrais Elétricas do Norte do Brasil S.A.
EMATER-PA - Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Pará.
EMBRAPA - Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária.
ENCTI - Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação.
ESCT - Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia.
EUA - Estados Unidos da América.
EUSTAT - Empowering Users Through Assistive Technology.
FAEPA - Federação da Agricultura e Pecuária do Pará.
FAMEP - Federação das Associações de Municípios do Pará.
FAP - Fundações de Amparo à Pesquisa.
FAPEAM - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas.
FAPESPA - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Pará.
FBB - Fundação do Banco do Brasil.
FCAP - Faculdade de Ciências Agrárias do Pará.
FECOMERCIO - Federação do Comércio do Estado do Pará.
FIEPA - Federação das Indústrias do Estado do Pará.
FINEP - Financiadora de Estudos e Projetos.
FIOCRUZ - Fundação Oswaldo Cruz.
FMI - Fundo Monetário Internacional.
FNDCT - Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico.
FUNDEB - Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação Básica.
FUNTEC - Fundo Estadual de Ciência e Tecnologia do Pará.
GEP - Governo do Estado do Pará.
HEART - Horizontal European Activities in Rehabilitation Technology.
IAN - Instituto Agronômico do Norte.
ICT - Instituição de Ciência e Tecnologia.
IDESP - Instituto de Desenvolvimento Econômico, Social e Ambiental do Pará.
IDIS - Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social.
IEC - Instituto Evandro Chagas.
IFPA - Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará.
INCUBITEC - Incubadora Tecnológica de Desenvolvimento e Inovação de Cooperativas e
Empreendimentos Solidários.
INPA - Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia.
INPI - Instituto Nacional da Propriedade Industrial.
IPEAN - Instituto de Pesquisa e Experimentação Agropecuária do Norte.
IPI - Imposto sobre Produtos Industrializados.
ITS - Instituto de Tecnologia Social.
LABTA - Laboratório de Tecnologia Assistiva.
MCT - Ministério da Ciência e Tecnologia.
MCTI - Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.
MCTIC - Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações.
MEC - Ministério da Educação.
MF - Ministério da Fazenda.
MMA - Ministério do Meio Ambiente.
MPEG - Museu Paraense Emílio Goeldi.
MPOG - Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão.
MS - Ministério da Saúde.
NAC - Núcleo de Articulação e Cidadania do Governo do Estado do Pará.
NEDETA - Núcleo de Desenvolvimento em Tecnologia Assistiva e Acessibilidade.
NTA - Núcleo de Tecnologia Assistiva.
OCDE - Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico.
OEPAS - Organizações Estaduais de Pesquisa Agropecuária.
OMC - Organização Mundial do Comércio.
OMS - Organização Mundial da Saúde.
ONG - Organização não-governamental.
ONU - Organização das Nações Unidas.
OS - Organização Social.
P&D - Pesquisa e Desenvolvimento.
PACTI - Plano de Ação em Ciência, Tecnologia e Inovação.
PBDCT - Plano Básico de Desenvolvimento Científico e Tecnológico.
PBQP - Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade.
PCT - Parque de Ciência e Tecnologia.
PGPTA - Programa de Apoio a Pós-Graduação e à Pesquisa Científica e Tecnológica em
Tecnologia Assistiva.
PIB - Produto Interno Bruto.
PIBIC - Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Cientifica.
PIBIC Jr - Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Cientifica Junior.
PINTEC - Pesquisa de Inovação do IBGE.
PITCE - Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior.
PLACTS- Pensamento Latino Americano em Ciência, Tecnologia e Sociedade.
PNDPD - Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência.
PNITA - Pesquisa Nacional de Inovação em Tecnologia Assistiva.
PNTA - Pesquisa Nacional sobre Tecnologia Assistiva.
PPA - Plano Plurianual.
PPSUS - Programa de Pesquisa para o SUS.
PPTA - Programa Paraense de Tecnologias Apropriadas.
PRODEPA - Empresa de Tecnologia da Informação e Comunicação do Estado do Pará.
PRONEX - Programa de Apoio aos Núcleos de Excelência.
PSDB - Partido da Social Democracia Brasileira.
PT - Partido dos Trabalhadores.
PTA - Programa de Apoio às Tecnologias Apropriadas.
RHAE - Programa de Formação de Recursos Humanos em Áreas Estratégicas.
RI - Região de Integração.
RNP - Rede Nacional de Pesquisa.
RNPDTA - Rede Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento em Tecnologia Assistiva.
RTS - Rede de Tecnologias Sociais.
RTS-PA - Rede Paraense de Tecnologias Sociais.
SAF - Sistemas Agroflorestais.
SAGRI - Secretaria de Estado da Agricultura.
SBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.
SEASTER - Secretaria de Estado de Assistência Social, Trabalho, Emprego e Renda.
SEBRAE/PA - Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Estado do Pará.
SECIS - Secretaria de Ciência e Tecnologia para Inclusão Social.
SECT - Sistema Estadual de Ciência e Tecnologia.
SECTAM - Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente.
SECTET - Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Educação Profissional e
Tecnológica.
SECTI - Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação.
SEDAP - Secretaria Estadual de Desenvolvimento Agropecuário e de Pesca.
SEDECT - Secretaria de Estado de Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia.
SEDEME - Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Mineração e Energia.
SEDUC - Secretaria de Estado de Educação.
SEGOV - Secretaria de Estado de Governo.
SEICOM - Secretaria de Estado de Indústria, Comércio e Mineração.
SEINFRA - Secretaria Especial de Estado de Infraestrutura e Logística para o
Desenvolvimento Sustentável.
SEMA - Secretaria de Estado de Meio Ambiente.
SEPED - Secretaria de Políticas e Programas de P&D.
SESPA - Secretaria de Estado de Saúde Pública.
SETUR - Secretaria de Estado de Turismo.
SIP - Sistema Paraense de Inovação.
SIPAM - Sistema de Proteção da Amazônia.
SIPI - Sistema Paraense de Inovação.
SNDCT - Sistema Nacional de Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia.
SNI - Sistema Nacional de Inovação.
SNPD - Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência.
SOFTEX - Programa Nacional de Software para Exportação.
SUAS - Sistema Único de Assistência Social.
SUS - Sistema Único de Saúde.
TA-Tecnologia Assistiva.
TIB - Tecnologia Industrial Básica.
TIC - Tecnologia de Informação e Comunicação.
TRIPS - Acordo Comercial Relativo aos Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual.
TS - Tecnologia Social.
UEAFTO - Unidade Ensino-Assistência de Fisioterapia e Terapia Ocupacional.
UEPA - Universidade do Estado do Pará.
UF - Unidade Federativa.
UFOPA - Universidade Federal do Oeste do Pará.
UFPA - Universidade Federal do Pará.
UFPR - Universidade Federal do Paraná.
UFRA - Universidade Federal Rural da Amazônia.
UNIFESSPA - Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará.
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO 24

1 ANÁLISE DE POLÍTICAS PÚBLICAS: DIRECIONAMENTOS


TEÓRICOS E METODOLÓGICOS 33
1.1 Análise de políticas públicas 34
1.1.1 Estado, governo e sociedade na análise de política pública 36
1.2 O quadro de referência de coalizão de defesa 45
1.2.1 Pressupostos, categorias e focos analíticos principais 47
1.2.2 O subsistema da política e a coalizão de defesa como conceito central 49
1.2.3 Categorias externas que condicionam o subsistema e atuação das coalizões de
defesa 54
1.2.4 Trajetórias de mudanças e processos de aprendizado no subsistema de política 56
1.2.5 Considerações da aplicação do quadro de referência de coalizão de defesa na
orientação de pesquisa 59
1.3 Apontamentos sobre a construção do percurso teórico e metodológico: o
ofício de entrelaçar os conceitos chaves e os métodos nesta pesquisa 63
1.3.1 Delineamento do subsistema da política e dos casos na pesquisa 63
1.3.2 A análise de discurso como suporte à identificação de coalizões de defesa 66
1.4 Direções para próximos capítulos 71

2 POLÍTICA CIENTÍFICA, TECNOLÓGICA E DE INOVAÇÃO:


CONJUNTURA E ORIENTAÇÕES DISCURSIVAS 73
2.1 Concepções da política científica, tecnológica e de inovação na perspectiva
dos processos de convergências internacional 74
2.1.1 A institucionalização da política de C&T e a constituição da “C&T como
motor do progresso” 78
2.1.2 Contestações ao discurso predominante e aberturas para a constituição de
discursos alternativos 83
2.1.3 Ascensão das políticas de inovação e do discurso da C&T como fonte de
estratégia competitiva 88
2.1.4 Novas e velhas contestações e as possibilidades da uma virada pós-competitiva
na política de CT&I 94
2.2 Concepções da política de CT&I no Brasil: convergências &
especificidades 106
2.2.1 Institucionalização da política de C&T no Brasil e o discurso do
desenvolvimento via crescimento 107
2.2.3 A crise da política de C&T no Brasil e o período de transição 110
2.2.4 Consubstanciação da política de CT&I no Brasil e o discurso do
desenvolvimento via inovação tecnológica 113
2.2.5 A construção de alternativas conceituais na política de CT&I no Brasil e a
emergência de uma política de C&T para desenvolvimento social 118
2.3 Composição de uma matriz de referência dos discursos da política de
CT&I 122

3 A POLÍTICA ESTADUAL DE CT&I NO PARÁ: CONTEXTO E


ENFOQUES RECENTES 127
3.1 Apontamentos da institucionalização da CT&I no Pará e de uma política
estadual de CT&I 128
3.1.1 Primeiras iniciativas: Jardim Botânico do Grão-Pará e Museu Paraense 128
3.1.2 Expansão difusa na primeira metade do século XX 130
3.1.3 Desenvolvimento e conformações à institucionalização da política científica e
tecnológica nacional 131
3.1.4 Institucionalização de processos de descentralização na política de CT&I 133
3.1.5 Institucionalização da política científica e tecnológica estadual no Pará 138
3.2 Política estadual de CT&I em perspectiva no PPA 2008-2011 141
3.2.1 Programa ciência, tecnologia e inovação para o desenvolvimento 143
3.2.2 Editais e execução do fomento estadual na FAPESPA 151
3.3 Política estadual de CT&I em perspectiva no PPA 2012-2015 157
3.3.1 Programa ciência, tecnologia e inovação para o desenvolvimento sustentável 158
3.3.2 Editais e execução do fomento estadual na FAPESPA 168
3.4 Política estadual de CT&I em perspectiva parcial no PPA 2016-2019 172
3.4.1 Programa temática de ciência, tecnologia e inovação 173
3.4.2 Editais e execução financeira FAPESPA 182
3.5 Panorama da orientação de justiça social e das ações para enfrentamento
das desigualdades na política estadual de CT&I no Pará 186
3.5.1 Seleção de temas para aprofundamento da pesquisa 191

4 TECNOLOGIA ASSISTIVA: ORIENTAÇÕES DISCURSIVAS E


CONJUNTURA DA POLÍTICA NACIONAL 194
4.1 A garantia de direitos humanos às pessoas com deficiência e a tecnologia
assistiva: aspectos conceituais e históricos de conformação de políticas 195
4.1.1 Breve histórico sobre a conformação de garantia de direitos para pessoas com
deficiência 195
4.1.2 Políticas para tecnologia assistiva: conceitos e perspectivas 203
4.2 Tecnologia assistiva no Brasil: cenário de ações a partir da política de
CT&I no governo federal 217
4.2.1 A tecnologia assistiva nos planos da pasta ministerial da CT&I 220
4.2.2 Plano Nacional de Direitos da Pessoa com Deficiência "Viver Sem Limites" e
as ações a partir do Centro de Nacional de Referência em Tecnologia Assistiva 223
4.2.3 Principais editais nacionais para fomento a tecnologia assistiva 227
4.2.4 Pesquisa Nacional de Inovação em Tecnologia Assistiva 232
4.3 Composição de posições discursivas para desenvolvimento e provisão de
tecnologia assistiva no âmbito da política de CT&I 239

5 TECNOLOGIA ASSISTIVA NA POLÍTICA ESTADUAL DE CT&I NO


PARÁ 247
5.1 Antecedentes 248
5.2 O fomento a tecnologia assistiva na política estadual de CT&I no Pará: o
edital nº 010/2013 da FAPESPA 252
5.2.1 Concepção de tecnologia, especificamente de tecnologia assistiva 253
5.2.2 Quem produz conhecimento e tecnologia 254
5.2.3 Protagonistas e atores da política 254
5.2.4 Modelo de inovação 257
5.2.5 Escopo priorizado 258
5.2.6 Apontamentos sobre interdiscursividade no edital nº 010/2013 259
5.3 Projetos desenvolvidos e as ações materiais das pesquisas fomentadas em
tecnologia assistiva 261
5.3.1 Caracterização geral dos projetos 261
5.3.2 Produtos e alcances materiais 265
5.4 Atores políticos e inter-relações sociais 270
5.5 Práticas dos projetos e as tensões em orientações discursivas no campo de
tecnologia assistiva 285
5.6 Coalizões de defesa para tecnologia assistiva a partir do processo da
política estadual de CT&I no Pará: limites, avanços e possibilidades para o
enfrentamento das desigualdades 287

6 TECNOLOGIA SOCIAL: ORIENTAÇÕES DISCURSIVAS E


CONJUNTURA DA POLÍTICA NACIONAL 294

6.1 Construções conceituais sobre tecnologia social 294


6.1.1 Tecnologia apropriada como uma proposta de primeira geração da C&T para
inclusão social 296
6.1.2 Emergência do marco analítico-conceitual de tecnologia social a partir dos
estudos sobre ciência, tecnologia e sociedade 299
6.1.3 Outras posições discursivas sobre tecnologia social 310
6.2 Tecnologia social no Brasil: cenário e principais ações de fomento a partir 318
da política de CT&I no governo federal
6.2.1 A tecnologia social nos planos da pasta ministerial da CT&I 318
6.2.2 Principais editais nacionais de fomento a tecnologia social 326
6.3 Considerações das posições e disputas discursivas no âmbito da política de
tecnologia social no domínio da CT&I 330

7 TECNOLOGIA SOCIAL NA POLÍTICA ESTADUAL DE CT&I NO


PARÁ 332
7.1 Criação da diretoria de tecnologia social e a RTS-PA: ênfase à estratégia
de articulações entre atores sociais 333
7.1.1 O documento de referência do I Fórum Paraense de Tecnologias Sociais 337
7.1.2 Principais atores políticos, ações materiais e interações sociais 342
7.2 Conformação da CTDS e os primeiros fomentos: ênfase à estratégia de
fomento a via projetos de C&T 344
7.2.1 Caracterização dos projetos fomentados e enquadramentos em tecnologia social 346
7.2.2 Produtos e alcances materiais 350
7.2.3 Atores políticos e inter-relações sociais 355
7.3 Busca de institucionalização do fomento à tecnologia social pela resolução
CONSECTET nº 003/2017 370
7.3.1 Concepção de tecnologia, especificamente de tecnologia social, e quem produz
conhecimento e tecnologia 371
7.3.2 Protagonistas e atores da política 372
7.3.3 Modelo de inovação 373
7.3.4 Escopo priorizado 374
7.3.5 Apontamentos sobre interdiscursividade 374
7.4 Coalizões de defesa para tecnologia social a partir do processo da política
estadual de CT&I no Pará: limites, avanços e possibilidades para o
enfrentamento das desigualdades 378

8 CONCLUSÃO 383
8.1 Articulações no processo de política para enfoques de enfrentamento das
desigualdades: limitações e potencialidades para formação de coalizões de
defesa 384
8.1.1 O papel de atores em posições chaves: os empreendedores e os intermediários
de políticas (policy brokers) 384
8.1.2 Alinhamento e disseminação de crenças: desafios de estabilização de discurso
para coesão na coalizão de defesa 387
8.1.3 Mobilização e coordenação não-trivial de ações coletivas 389
8.1.4 Tensões e ambiguidades em coalizão de defesa nascente ou minoritária 391
8.1.5 Disputas discursivas: sobreposição dos desafios dos processos formativos e das 392
dificuldades da conformação discursiva no jogo da política
8.2 Outros apontamentos para estudos futuros 393
8.3 Considerações conclusivas 394

REFERÊNCIAS 397

APÊNDICE A - Quadro de editais lançados diretamente pela FAPESPA no


âmbito do fomento estadual de CT&I, no período de 2008 a 2011 414

APÊNDICE B - Quadro de editais lançados diretamente pela FAPESPA no


âmbito do fomento estadual de CT&I, no período de 2012 a 2015 418

APÊNDICE C - Quadro de editais lançados diretamente pela FAPESPA no


âmbito do fomento estadual de CT&I, no período de 2016 a 2017 421

APÊNDICE D - Descrição de procedimentos para coleta e geração de dados


para pesquisa 423
24

INTRODUÇÃO

A perspectiva da desigualdade enquanto espaço de múltiplas dimensões se situa em


um debate sobre desenvolvimento que não se restringe à dimensão econômica, mas visa o
amplo enfrentamento das dinâmicas sociais que geram pobreza e exclusão social
(BARBOSA, 2012; LEVITAS, 2005; SEN, 2001). No âmbito destas dinâmicas de
desigualdades, a discussão de efeitos das mudanças tecnológicas nos sistemas de produção e
distribuição das sociedades contemporâneas vem crescendo, seja pelos debates iniciados pelos
movimentos de justiça ambiental e exclusão digital que, posteriormente, se expandiram no
campo da Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS) (SENKER, 2003; WETMORE, 2007;
COZZENS et al., 2008; THOMAS; JUAREZ; PICABEA, 2015; VASEN, 2016); seja pela
inflexão, principalmente a partir da década de 1980, da elevação das desigualdades de renda e
riqueza em países desenvolvidos, apontada por pesquisas econômicas (AUTOR, 2014;
PIKETTY; SAEZ, 2014).
Atkinson (2014) ao colocar foco na redução das desigualdades de rendas e privações
nas sociedades contemporâneas ressalta os efeitos da aceleração das mudanças tecnológicas e
o crescente impacto destas nas direções da distribuição da renda e riqueza. Por isso, o autor
preconiza que as medidas de políticas públicas para enfrentamento destes problemas sociais
não podem se restringir aos setores de redistribuição fiscal e seguridade social, mas precisam
envolver ação intersetorial, com destaque ao papel das políticas científicas.
Especificamente no campo das políticas de ciência, tecnologia e inovação (CT&I),
Wetmore (2007) nos lembra que a noção do desenvolvimento científico e tecnológico poder
exacerbar desigualdades existentes ou criar novas desigualdades na sociedade não é recente.
Mas, embora haja crescimento de debates sobre o tema, as políticas de CT&I que
permanecem sob um mainstream de racionalidade agregativa (COZZENS, 2007), ainda não
têm situado a questão de desigualdades como preocupação central, seja em países
desenvolvidos, seja naqueles considerados em desenvolvimento.
No Brasil, país marcado historicamente por elevadas desigualdades territoriais e
sociais, temáticas de desigualdades, pobreza e exclusão social povoam os discursos políticos
em diversas áreas. Apesar de serem ao longo do tempo centros ordenadores de análises e
proposições em políticas sociais, essas temáticas têm entrado no processo da política de CT&I
de forma marginal (FONSECA, 2009; SERAFIM, 2008).
Percebemos uma maior permeabilidade aos debates sobre desigualdades territoriais de
capacidades de CT&I, preocupação presente em narrativas dos membros da comunidade de
25

pesquisa, particularmente em regiões periféricas do país, que veem nestas capacidades


condições necessárias à consecução dos processos de catching up1 tecnológico e projetos de
desenvolvimento.
Os aspectos das desigualdades sociais, principalmente pronunciados por suas conexões
com pobreza e exclusão social, conquistam espaço no processo de política de CT&I mais
gradualmente. Preocupações já presentes em movimentos de tecnologias apropriadas
ganharam espaço na política de CT&I brasileira com a emergência de uma coalizão de defesa
da tecnologia para inclusão social, fundamentada por uma participação social mais plural e
direcionada a construir soluções para problemas associados à pobreza e à exclusão social
(DIAS, 2009). Mas, este movimento mantém-se distante de conseguir maior penetração no
núcleo da agenda de CT&I (DIAS, 2009; FONSECA, 2009).
Esses exemplos de diferentes enquadramentos de questões relativas às desigualdades
na política de CT&I, incorporando-se por caminhos e formas heterogêneas nos discursos e nas
práticas políticas, se prefiguram na proposição de dois desafios nacionais na atual Estratégia
Nacional de CT&I (ENCTI 2016-2022), um referente a “reduzir assimetrias regionais na
produção e no acesso à CT&I”, e outro correspondente a “desenvolver soluções inovadoras
para a inclusão produtiva e social”. Percebemos, assim, um cenário de política pontuado por
diferentes enfoques sobre as relações entre CT&I e desigualdades, os quais, então, têm
implicações no processo de definição dos focos de ação e dos desenhos de programas e
instrumentos.
Divergências entre concepções discursivas sobre a conformação do problema, sobre os
enfoques analíticos das causas e efeitos e sobre as soluções propositivas não são novidades na
articulação política sobre desigualdades ou de temas correlatos, como pobreza e exclusão
social. Para Townsend (1979), toda a política pública é permeada por determinado conceito da
situação problema a ser enfrentada e por explicações específicas sobre suas causas e efeitos.
Desta base cognitiva desenvolve-se diferentes possibilidades de recomendações de focos e
instrumentos de ação, bem como a forma de medição dos seus aspectos chaves.
Em sentido similar, Levitas (2005) defende que a matriz dos conceitos e das
formulações explicativas das situações problemas que orienta uma ação política tem
significados e modelos cognitivos formulados e contestados como parte do processo de

1
Catching up corresponde ao processo de emparelhamento ou alcance por seguidores de níveis de desempenho
de líderes, usualmente aplicado ao processo de convergência ou alcance em países em desenvolvimento ou
economias de industrialização tardia de níveis de desenvolvimento econômicos ou tecnológicos similares
àqueles de economias avançadas em países desenvolvidos (como alcance de níveis de renda, produtividade ou
acumulação tecnológica em setores industriais) (VIOTTI, 2008).
26

politics. Deste modo, entendemos que se torna essencial esclarecer as definições conceituais e
analíticas utilizadas em cada política pública para que possamos compreender a abrangência e
direção dos problemas sociais tratados e, por consequência, suas implicações em termos de
resultados a serem alcançados.
Diante do exposto, reconhecemos a relevância do debate sobre desigualdades na
política de CT&I, especificamente em relação a seus efeitos distributivos na sociedade.
Contudo, também assinalamos ser ainda uma temática negligenciada e em que encontramos
diferentes enfoques de discursos, seja sobre a abrangência das desigualdades reconhecidas,
seja sobre as formas propostas para seu enfrentamento. Por isso, ao buscarmos contribuir com
este tema, propomos analisar como vêm sendo articuladas abordagens para o enfrentamento
das desigualdades na política de CT&I e suas implicações quanto a abrangência e direções de
ação.
Este objetivo toma forma em nossa questão orientadora de pesquisa: como tem sido
articulado e efetivado o enfrentamento das desigualdades no processo da política de CT&I?
No âmbito desta pergunta geral, direcionamos três perguntas específicas e correlacionadas,
quais sejam: (i) como emergem e se articulam no processo da política da CT&I diferentes
enfoques para enfrentamento das desigualdades? (ii) qual abrangência destes enfoques e as
direções (e disputas) discursivas desenvolvidas para enfrentamento das desigualdades na
política de CT&I? (iii) em que medida se efetivam (resultados da política) no processo de
política os distintos enfoques para enfrentamento das desigualdades?
Formulado nosso conjunto norteador das questões de pesquisa, coube-nos definir uma
instância de aplicação. Ao considerar uma sensibilidade de pesquisa necessária às
especificidades do contexto de aplicação e, reconhecendo a forte heterogeneidade social e
territorial no Brasil, entendemos ser adequado a proposta de estudo do processo de política de
CT&I em nível subnacional, particularmente em situação periférica.
A priori, poderíamos conceber territórios periféricos como aqueles que reuniriam
circunstâncias mais acentuadas a instigar o enfrentamento das desigualdades, seja em termos
de condições desiguais em ativos de CT&I, seja no direcionamento da CT&I para superação
de condições sociais e econômicas precárias, assim, também propícios à análise da inter-
relação de demandas territoriais e sociais. No entanto, reconhecemos em outros estudos de
políticas no âmbito da descentralização e governos subnacionais, que a suposição de maior
sensibilidade a demandas locais, controle democrático e participação social em governos
locais tende a ingenuidade (ARRETCHE, 1996; NUNES, 1996; AFFONSO, 2000).
27

Arretche (1996) ressaltou que, apesar das instituições de âmbito local, ao serem
dotadas de poder efetivo, poderem incentivar à participação política e controle das ações de
governo por parte dos cidadãos ao estarem “mais próximas” destes, esta associação somente
se realiza uma vez que se construam e desenvolvam instituições políticas cuja natureza e
formas de funcionamento sejam compatíveis com tais princípios democráticos. Em sentido
similar, Nunes (1996) evidenciou que a proximidade do cidadão do poder descentralizado é
ambígua, pois, por um lado, reconhece factível que o poder descentralizado se torne
democratizado e sirva de palco à maior participação popular. Por outro lado, tal poder
também é identificado como possível lugar de reprodução de poder político de oligarquias
tradicionais locais que, ao procurar afirmar seus privilégios, perpetuam uma lógica de
desenvolvimento desigual e assimétrico (NUNES, 1996).
Desta forma, compreendemos que a análise de casos subnacionais na política de CT&I
auxilie a elucidar as dinâmicas que tais processos têm gerado neste domínio de política
específico (inclusive em termos de redução ou ampliação de desigualdades), particularmente
após ciclos de indução à descentralização promovidos pelo governo federal no país desde a
década de 1980. Além disso, a análise de casos subnacionais em territórios periféricos (o que
inclui também a característica de serem menos estudados na perspectiva agregativa da política
de CT&I) podem retratar circunstâncias diferenciadas ou acentuadas em relação à política de
CT&I nacional. Assim, consideramos que possa contribuir, de forma mais abstrata, para o
conhecimento de uma maior diversidade de processos desta política; e, de forma mais
aplicada, ao proporcionar conhecimentos seja para a busca de uma melhor coordenação
federativa desta política, seja constituir bases de conhecimentos endógenas a esses contextos
para discussão e construção local da política de CT&I que ilumine suas especificidades.
Neste cenário, movimentos de descentralização das políticas de CT&I no país
começaram a partir da década de 1980, sob indução do governo federal, sendo que a esfera
subnacional principal desta indução correspondeu aos governos estaduais. A descentralização
promoveu a institucionalização do processo de política na esfera estadual para CT&I na maior
parte dos estados em situação periférica do país, onde tal processo de construção institucional
não havia se constituído de forma endógena anteriormente. Contudo, as condições resultantes
desta descentralização, principalmente no que tange as capacidades institucionais,
administrativas e orçamentárias entre os estados, são muito desiguais (CGEE, 2010). Ao
considerar as desigualdades, seja de capacidades de CT&I, seja dos elementos constituintes de
processos de políticas estaduais no Brasil, reforçamos a compreensão que casos de pesquisa
no âmbito da política de CT&I em contexto subnacional, especificamente em estados
28

periféricos, podem oferecer elementos distintivos para análise de como ocorre a articulação
sobre o enfrentamento das desigualdades e em que medida tem sido efetivado.
Entre os contextos de políticas estaduais no país, selecionamos especificamente o
estado do Pará, na região norte do Brasil. O estado do Pará em termos de indicadores
convencionais de CT&I (indicadores mantidos pelas agências de fomento nacional, como
aqueles apresentados na tabela 14) pode ser caracterizado em uma posição periférica
nacionalmente, por se manter recorrentemente abaixo da média do país. Por exemplo, em
2014, em termos de dados sobre recursos humanos em CT&I, o Pará tinha 2.653
pesquisadores doutores cadastrados em grupos de pesquisa, que representa 1,89% do total
nacional; 1.885 docentes de pós-graduação sctrito sensu, 2,21% do montante nacional; 157
bolsistas de produtividade em pesquisa, 1,11% do nacional; e 84 pessoas contratadas em
atividades internas de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) empresarial, 0,11% do nacional.
No entanto, estando em situação periférica, em geral, o estado do Pará também assume
posições na mediana desses indicadores no país (posições mais recorrentes estão entre a 12ª,
13ª e 14ª de 27 unidades federativas), representando, assim, uma composição intermediária de
constituição dos quadros institucionais científicos, que embora não atuem de forma central
nacionalmente, conseguem engrenar dinâmicas relativamente aderentes ao contexto científico
nacional. Neste sentido, no âmbito da região Norte, a qual reúne os menores indicadores de
CT&I nacionais, o Pará tende a situar-se de forma central, ao apresentar os maiores
indicadores científicos regionais. Ao comparar os mesmos indicadores anteriormente citados,
em 2014, para os três primeiros indicadores o Pará era o estado com maior quantidade destas
categorias de recursos humanos, detinha: 38,66% de pesquisadores doutores da região;
46,19% dos docentes de pós-graduação sctrito sensu; 62,57% dos bolsistas de produtividade
em pesquisa.
Deste modo, compreendemos que os atores políticos estaduais, particularmente
pesquisadores, tenham tanto uma ponderável participação nas relações intergovernamentais
do domínio da CT&I (que em condição periférica inclui a emulação de modelos institucionais
representativos da política nacional); quanto alcancem uma densidade de atuação no âmbito
estadual que permita interação e expressão política que conforme interesses e discursos a
partir de mescla das influências nacionais (e internacionais) e das experiências cognitivas do
cotidiano de práticas científicas locais com certa maturidade. Portanto, esta pesquisa se
configura enquanto a análise sobre como tem sido articulado e efetivado o enfrentamento das
desigualdades no processo da política de CT&I no âmbito do governo estadual do Pará, região
Norte do Brasil.
29

Ao partir da concepção que no processo de política pública há distintos enfoques e


abordagens analíticas sobre desigualdades, compreendemos também que estes sejam
orientados normativa e instrumentalmente por diferentes perspectivas de justiça social (SEN,
2001; COZZENS, 2007). Este debate sobre diferentes abordagens normativas, conceituais e
analíticas relacionadas às desigualdades privilegia aspectos cognitivos e ideacionais do
processo de política. Neste horizonte, utilizamos como referencial para análise de política
(policy) associada a seu processo político (politics), o quadro de referência de coalizão de
defesa, proposto originalmente por Sabatier e Jenkins-Smith (1993).
A noção de coalizão de defesa tem por base que a agregação dos atores individuais em
torno de determinados objetivos políticos ocorre, primariamente, pelo compartilhamento de
crenças políticas e coordenação das estratégias de ação em torno destas. Assim, as coalizões
de defesa representam a unidade de organização coletiva dos atores individuais em distintas
organizações e níveis governamentais em torno da defesa e promoção de determinadas
convicções e objetivos em um processo de política pública (SABATIER, 1993).
Ao ter como elemento chave no processo de organização coletiva o compartilhamento
de crenças e ideias entre os atores políticos, o quadro de referência de coalizão de defesa é
caracterizado enquanto perspectiva que enfatiza os processos cognitivos e ideacionais nas
políticas públicas (FARIA, 2003). Deste modo, entendemos que os distintos enfoques e
abordagens sobre desigualdades e sobre política de CT&I compõem crenças e racionalidades
dos atores políticos, as quais são construídas e compartilhadas por estes no processo de
política, podendo ser articuladas enquanto distintas coalizões de defesa. Neste sentido, este
quadro analítico favorece a percepção dos vínculos entre crenças na concepção de políticas,
como estas são instrumentalizadas em programas e projetos, bem como as implicações em
termos de resultados e impactos (efeitos distributivos).
No capítulo um (1) desta tese, nos debruçamos sobre este referencial de coalizão de
defesa no âmbito das políticas públicas, e na elaboração do percurso teórico-metodológico
proposto para a pesquisa. Na construção deste entrelaçamento entre orientação teórica e
metodológica para o processo de pesquisa, dois aspectos são realçados para abordagem
analítica. O primeiro aspecto refere-se à concatenação do referencial teórico à análise de
discurso, como abordagem analítica que propicie discernir as crenças da política por meio da
identificação dos discursos, enquanto representação da visão de mundo dos atores políticos
sobre a temática em estudo. Diante desta concatenação, o capítulo dois (2) é dedicado ao
exame das orientações discursivas na política de CT&I, tanto em conjuntura de convergência
internacional, quanto pelo recorte específico da conjuntura da política no Brasil. O segundo
30

aspecto corresponde ao delineamento dos casos de processos de política para análise. Para
tanto, partimos de uma aproximação geral ao processo de política de CT&I no governo do
estado do Pará, apresentada no capítulo (3). Este delineamento inicial visou, por um lado,
proporcionar um panorama desta política, realçando seus principais direcionamentos de
agenda, proposições estratégicas e enfoque em termos de concepções sobre desenvolvimento
e justiça social. Por outro lado, procuramos distinguir os enfoques distributivos na agenda, no
que tange a identificação dos temas específicos de fomento dirigidos para enfrentamento das
desigualdades no processo da política. Essa caracterização de temas para enfrentamento das
desigualdades foram fundamentais para permitir o aprofundamento da pesquisa por meio da
delimitação dos casos específicos de análise, sendo selecionados os temas de tecnologia
assistiva e de tecnologia social.
Os capítulos quatro (4) e cinco (5) são dedicados às análises relacionadas à tecnologia
assistiva. No capítulo 4, abordamos a conformação de orientações discursivas no campo de
tecnologia assistiva, considerando suas interações e tensões com os discursos gerais da
política de CT&I. Assim como examinamos a conjuntura da política de fomento à tecnologia
assistiva nacional. Após esta contextualização ao tema de tecnologia assistiva, no capítulo 5,
fazemos a análise do processo de política estadual de fomento à tecnologia assistiva, com
vistas ao estudo da conformação de coalizão de defesa neste e de elucidação das principais
limitações e avanços quanto ao enfrentamento das desigualdades.
De forma similar, os capítulos seis (6) e sete (7) são dedicados à análise sobre
tecnologia social. No capítulo 6, focamos nas origens e orientações discursivas em torno da
temática de tecnologia social e um recorte de sua conjuntura na política nacional. No capítulo
7, apresentamos a análise sobre o processo de política estadual de fomento à tecnologia social,
examinando seus principais atores, estratégias de institucionalização e perspectivas em
relação a conformação de coalizões de defesa, com vistas a verificar limitações e avanços no
enfrentamento das desigualdades.
Por fim, na conclusão encerramos nossa análise ao propor alguns apontamentos sobre
as articulações das coalizões de defesa nos processos de política para enfrentamento das
desigualdades analisados e no bojo do quadro de referência teórico adotado. Especificamente
no que tange a discutir condições limitantes e potenciais para formação de coalizões de
defesa. Assim como, exploramos alguns outros apontamentos sobre limitações desta pesquisa
e sugestões para estudos futuros.
31

Lugar da Pesquisadora e Interesses do Conhecimento

Este tópico foi incluído na introdução para dar espaço a breves esclarecimentos sobre
a relação da pesquisadora com o campo de pesquisa escolhido, a política de CT&I. Além de
um momento de explanação aos leitores, constitui-se em um exercício de reflexão pessoal
sobre escolhas e interesses de atuação no campo, e por isso em sua redação tomo a primeira
pessoa do singular.
Embora me entenda no campo hoje enquanto preponderantemente vinculada com o
esforço de pesquisa, essa não foi a identificação predominante durante a maior parte de minha
trajetória profissional. Atuei por doze (12) anos no gerenciamento de projetos de pesquisa
(dois iniciais como bolsista em um projeto específico, e outros 10 em fundação de apoio de
uma universidade pública), sendo assim formada em meio a cultura universitária própria da
política científica e tecnológica, com seus mitos e dilemas.
Ao entrar no mestrado, meu interesse de pesquisa foi na direção de um tema
ascendente no campo: a inovação tecnológica como promessa de desenvolvimento,
particularmente para a Amazônia. Ao analisar a tentativa de constituição de uma rede de
inovação, baseada na parceria entre universidade, empresa de base tecnológica e
agroindústrias locais, houve avanços tecnológicos, esperanças, planos, ajustes técnicos,
investimentos e obstáculos observados. Mas, diante do fracasso da formação da rede, concluí
a dissertação com mais dúvidas e inquietudes sobre a temática do que corroborações. No
intervalo de alguns meses entre o mestrado e doutorado, voltei ao campo como practitioner,
trabalhando em um arranjo de núcleos de inovação tecnológica, período de rica experiência
(esforços, expectativas e projetos) também a nutrir minhas inquietações.
No doutorado, o meu foco converteu-se propriamente ao campo de política pública,
reforçado pela experiência ainda no mestrado de intercambio em outro programa de
administração pública e governo. Assim, me propus a olhar para política de CT&I na busca de
encontrar respostas as minhas inquietações, com o acréscimo da instigação de meu orientador
de incorporar uma discussão de governança à pesquisa. Apesar de partir de certa ingênua
desconfiança das políticas de CT&I (estariam estas equivocadas ou seriam insuficientes à
realização do potencial científico e tecnológico para desenvolvimento na região?), a
reflexividade da investigação sobre o processo de política na CT&I perante minhas vivências
tem sido uma trajetória desafiante e envolvente, marcante às escolhas de direção da pesquisa
aqui apresentada.
32

Entre os aspectos que podem ser evidenciados por mim, dois considero principais: o
primeiro é a escolha do tema de desigualdades, que de início capturou meu interesse por ter
uma presença recorrente em narrativas dos atores regionais, mas que ao me aventurar em
leituras mais profundadas desta temática, abriu as janelas para uma abrangência e
complexidade instigantes. De alguma forma associada a este aspecto, está a proposição do
estudo em âmbito subnacional, reconhecidas as heterogeneidades brasileiras, dar atenção
específica ao escopo do processo de política de CT&I em contextos locais e periféricos,
também pouco estudados no âmbito da pesquisa no país, como na Amazônia, adquiriu um
sentido próprio de oportunidade para construir conhecimento localmente contextualizado, em
que busquei dar lugar de escuta e diálogo com atores locais sobre suas crenças e dilemas, ao
mesmo tempo, em que deu lugar de fala e reflexão a esta pesquisadora local em formação.
De forma geral, meu interesse de pesquisa ainda parece ser o mesmo de buscar
compreender as relações entre a C&T e concepções de desenvolvimento na sociedade, mas
tem se desenvolvido em um caminho que veio a se concretizar na análise de ações e
experiências para o enfrentamento das desigualdades na política estadual de CT&I do Pará.
Na esteira desse interesse, está presente o desejo de dar visibilidade a uma perspectiva
distributiva na CT&I e na essencialidade de contribuir a um desenvolvimento social.
33

1 ANÁLISE DE POLÍTICAS PÚBLICAS: DIRECIONAMENTOS TEÓRICOS E


METODOLÓGICOS

O objetivo desta pesquisa refere-se a compreender como têm sido constituídos e


efetivados enfrentamentos de desigualdades na política pública de CT&I em contexto
subnacional, especificamente em situação periférica, por meio da análise do caso da política
de CT&I no estado do Pará, região norte do Brasil. Neste capítulo, o passo inicial que
daremos nesta direção será tratarmos do referencial teórico e percurso metodológico que
orientou a análise do processo de política pública de CT&I.
Estudos sobre políticas de CT&I têm recebido uma atenção restrita, seja no campo de
Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia2 (ELZINGA; JAMISON, 1995; DIAS, 2009;
PREMEBIDA; NEVES; ALMEIDA, 2011); seja no campo de Políticas Públicas, cujo foco no
Brasil volta-se para as áreas mais usualmente reconhecidas como políticas sociais, que
Höfling (2001) identifica como as de educação, saúde, seguridade social, habitação e
saneamento.
Esta observação de certo distanciamento de análises de políticas CT&I, mesmo no
campo de Políticas Públicas, é, ao mesmo tempo, acompanhada pela proximidade com que
nós, pesquisadores, vivenciamos as ações desta e nesta política em nosso dia-a-dia. Neste
sentido, ao iniciar este capítulo sobre políticas públicas, ressaltamos a postura reflexiva que
nos é implicada ao analisarmos as políticas públicas em geral (e a de CT&I em particular)
constantemente de um duplo lugar, uma vez que ao exercer o papel de analista da política,
consequentemente, exercemos o de ator político. No caso da política de CT&I, este
imbricamento reflexivo torna-se ainda mais realçado.
Começamos o capítulo por uma breve introdução ao campo de políticas públicas e de
conceitos chaves da análise de processo de política. Posteriormente, nos detivemos de modo
mais detalhado na apresentação do quadro de referência da coalizão de defesa e sua discussão
em termos de adequação ao objeto empírico em pesquisa, a política de CT&I. Por fim,
delineamos direcionamentos do percurso teórico e metodológico para o desenvolvimento da
pesquisa.

2
O chamado campo de "Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia" (ESCT), também conhecido como "Ciência,
Tecnologia e Sociedade" (CTS) se refere à reunião de múltiplas abordagens e metodologias das ciências sociais
(sociologia, antropologia, políticas públicas, entre outras), na perspectiva interdisciplinar, com enfoque nas
diversas interações entre ciências e tecnologias nas sociedades (PREMEBIDA, NEVES, ALMEIDA, 2011).
34

1.1 ANÁLISE DE POLÍTICAS PÚBLICAS

A análise de política pública (policy analysis) se constituiu enquanto um campo a


partir de contribuições advindas de múltiplas disciplinas, como ciência política, economia e
administração pública, que buscam interpretar causas e consequências da ação do governo
(HAM; HILL, 1993; SOUZA, 2006; FARAH, 2011). A proposta de emergência do campo
centrado no estudo das políticas públicas surgiu, a partir da década de 1950, pela busca de
integração da pesquisa entre o sistema político e o governo, com orientação à política pública
(WEIBLE, 2017). À época, o olhar tradicional do campo da Ciência Política tendia a ver as
políticas públicas como output do sistema político, estando seu foco disciplinar no processo
de decisão política (FARIA, 2003). Enquanto o campo da Administração Pública
compreendia a política pública (já politicamente decidida) como input do processo de gestão
governamental (FARAH, 2011). Assim, o movimento da análise de políticas públicas se
ancora ao colocar a política pública como unidade de análise focal, direcionando-se
gradativamente para entender a dinâmica do processo da política pública (policy process)
(FARIA, 2003), seus diferentes atores, formas e regras de interações e organização, ideias e
crenças políticas e principais eventos ou etapas.
Alicerçada nesta consubstanciação interdisciplinar, a literatura sobre análise de
política examina a política pública enquanto integrada às demais dimensões do processo
político3. A análise de política estabelece um foco sobre a política pública (policy), enquanto
conteúdo e configuração de ações governamentais, reconhecendo nesta a interpenetração das
demais dimensões políticas, seja do processo de “jogo” político, de negociação e exercício de
poder para tomada de decisões na sociedade (politics); seja do sistema político-institucional
estabelecido para organizar a sociedade política de um território (polity) (FREY, 2000;
SOUZA, 2006).
Esta interdependência é pronunciada no cerne entre policy e politics (FREY, 2000).
Toda política pública, ao envolver a tomada de decisão sobre diferentes valores, preferências
e interesses na sociedade, carrega atrelada a si um processo político para escolha de ação em
meios a múltiplas e concorrentes alternativas. Porquanto, o processo político da tomada de
decisão (politics), condicionado por um determinado sistema político (polity), perpassa todo o

3
Frey (2000) ressalta a diferenciação de conceitos ou dimensões de política na literatura de análise de política,
que embora relacionados ao mesmo termo “política” em português, possuem termos específicos na língua
inglesa: “policy” enquanto a dimensão material da política, referente aos conteúdos concretos e configuração dos
programas políticos em resposta aos problemas da sociedade; “politics” como dimensão do processo político de
decisão, frequentemente de caráter conflituoso de exercício de poder; e “polity”, sendo a ordem juridicamente
delineada do sistema político do território, a que Souza (2006) irá denominar de sociedade política.
35

processo de construção de uma política pública (policy), desde a identificação dos problemas
a serem enfrentados, a formulação, a implementação e a avaliação desta política4. Uma vez
articulada uma política pública, esta pode moldar e produzir efeitos nos recursos (simbólicos
ou materiais) mobilizados neste próprio processo político.
Um dos delineamentos sobre análise de política pública mais referenciados é o
proposto por Dye (1992), cujo enfoque se baseia em três (3) aspectos chaves: o primeiro, é a
descrição do conteúdo da política (sob a questão orientadora “o que os governos fazem?”); o
segundo, a análise dos impactos de forças econômicas, sociais e políticas sobre a definição
deste conteúdo no contexto dos arranjos institucionais e processos políticos existentes
(“porque os governos fazem?”) e; o terceiro, a investigação das consequências destas políticas
na sociedade (“qual diferença isso faz?”).
Serafim e Dias (2012) acrescentam mais um aspecto aos três básicos formulados por
Dye (1992) que se refere à “como os governos fazem?”. Este se dirige para o processo
político em que as políticas públicas são conformadas. Dye (1992) define políticas públicas
como qualquer ação que o governo decide fazer ou não fazer. Desta forma abrangente, o autor
ressalta, como também observam Serafim e Dias (2012), que a análise das políticas públicas
deve abordar não somente o que o Estado realiza, enquanto sua dimensão mais visível, mas
também aquilo que deixa de realizar, ou seja, o que decide não fazer. A não-ação (ou a não-
decisão) pública é uma expressão de política e de exercício de poder de grupos interessados
em manter um status quo (BACHRACH; BARATZ, 1962; SERAFIM; DIAS, 2012).
Consideramos pertinente explicitar a não-ação enquanto parte do processo da política
pública. Isto porque o objetivo desta pesquisa é voltado a identificar e analisar políticas e
programas de enfrentamento das desigualdades em meio a um domínio de política pública
(CT&I), cuja lógica é preponderantemente agregativa. Assim, a não existência de programas e
ações para enfrentamento das desigualdades ou sua existência somente marginal também se
constitui em uma escolha de ação política a ser analisada.
Também realçamos outro traço da análise de políticas que se refere a, por um lado,
assumir caráter descritivo e explicativo da política pública, o qual acaba por se constituir em
campo científico e de produção de conhecimento sobre a temática; por outro lado, também
adotar caráter normativo para a política (DYE, 1992; SERAFIM; DIAS, 2012). Este caráter

4
Farah (2011) ressalta que a incorporação do campo da Administração Pública no movimento da análise de
política pública reflete uma inflexão da disciplina pelo reconhecimento do administrador público não mais como
executor “livre de valores” das políticas sancionadas, mas enquanto sujeito também participante de sua
formulação e de atuação decisiva (com poder) sobre sua efetividade, rompendo assim com a dissociação entre
Administração e Política inicialmente construída no campo.
36

normativo se expressa pelo exame da ação pública, como nos moldes do segundo e terceiro
aspecto proposto por Dye (1992), ao buscar discernir impactos (ou a falta deles) da política,
bem como propor recomendações diante destes.
Neste sentido, Singer (1990) retrata que a produção de conhecimento sobre um
processo de política pública pode influenciar tomadores de decisão sobre necessidade de
mudanças no conteúdo ou configuração do processo da política. Embora este processo de
influência seja complexo, pois é mediado por outros fatores (tais como interesses econômicos,
valores sociais e projetos políticos), o conhecimento gerado a partir da análise da política se
constitui como um subsídio potencial para uso por atores políticos no próprio processo da
política pública (SINGER, 1990). Desta forma, fica o reconhecimento da necessidade de
reflexividade dos analistas de política nestas atuações.
A partir destes apontamentos conceituais iniciais da análise de política, elucidamos
três (3) pontos básicos, mas relevantes em relação às pesquisas sobre políticas de
enfrentamento das desigualdades, que são: (1) o entrelaçamento entre a política pública e seu
processo político (policy e politics), que reconhece o exercício de poder na conformação de
decisões; (2) a abrangência da ação política de modo a incluir sua parte menos visível, a não-
ação e; (3) seu traço normativo5, como elemento relevante para habilitar a análise dos
conteúdos e formatos de políticas públicas associados a noções de justiça social, as quais se
relacionam conceitos de desigualdades e suas formas de enfrentamento.

1.1.1 Estado, Governo e Sociedade na Análise de Política Pública

Outro aspecto importante das construções conceituais no campo se refere ao espaço do


governo e às relações entre Estado e sociedade nos enfoques teóricos sobre políticas públicas.
Pelos conceitos até o momento apresentados, categorias como governo e Estado aparecem
com destaque no campo de políticas públicas, no entanto, essa configuração não tem
permanecido estática ao longo do tempo. Embora inicialmente as análises de política pública,
como os conceitos expressos até o momento, estivessem centradas no escopo do Estado,
sendo o governo (enquanto uma das instituições estatais proeminentes) compreendido como
“produtor, por excelência, de políticas públicas” (SOUZA, 2006), a partir dos anos de 1980,

5
Compreendemos que esse traço normativo é acentuado em estudos sobre a instância de avaliação de políticas
públicas (SCRIVEN, 1991; SPINK, 2001; DAHLER-LARSEN, 2012), contudo não pretendermos neste
momento aprofundar na literatura própria à avaliação de políticas, visto que esta é entendida aqui enquanto uma
instância específica do processo geral de política pública, nosso escopo principal no capítulo. Posteriormente
retomaremos a discussão de atributos normativos e de práticas sociais de avaliação de política de CT&I.
37

ocorre um certo deslocamento analítico e metodológico sobre o papel do Estado e o lócus


governamental nas políticas públicas (MELO, 2002, SOUZA, 2006; FARAH, 2011). A
compreensão da dinâmica destas mudanças na relação Estado e sociedade para as políticas
públicas e implicações às suas análises demanda contextualizar as constantes conformações
sociais e históricas destas categorias.
Deubel (2002) compreende que o Estado, em sua concepção moderna de Estado-
Nação, é um conjunto de instituições historicamente conformado, por um lado, por um
processo de construção cultural e idearia de Estado (centrado inicialmente na Europa),
enquanto uma instância de poder e de mediação social; e, por outro lado, pelas características
específicas de cada sociedade, com seus contornos econômicos, sociais, militares (entre
outros), em um determinado tempo e espaço.
Tal processo de formação histórica permite a concepção de variedades distintas de
modelos de Estado ao longo do tempo. Deubel (2002) ressalta as diferenças de conformação
entre os Estados-Nações surgidos gradualmente na Europa, por meio de respostas forjadas às
crises dos feudos, e a importação e adaptação de características desses modelos pelas elites
latino-americanas em seus processos de independência política. Para o autor, nos países
latinos americanos ocorreu uma “hibridização” das características de modelos de Estado
norte-ocidentais com aspectos endógenos das relações sociais constituídas naqueles
territórios, o que resultou em um processo mais centralizado de autoridade e reduzida
integração da população neste.
Além das diferenças de características entre Estados, Deubel (2002) também ressalta
que cada Estado em si não deve ser visto como uma entidade homogênea, mas composto por
múltiplos segmentos com posições variáveis, condicionados por aspectos históricos e sociais,
constituintes das disputas pelo exercício de poder estatal. Deste modo, para Deubel (2002), o
Estado se evidenciaria como um centro de interações complexas pela mobilização de atores
públicos e privados, com diferentes interesses. Neste conceito de Estado, dinâmico e
heterogêneo, reconhece-se aderente o entendimento de seu governo enquanto um lócus onde
se desenvolvem disputas por interesses, preferências e ideias, conforme refletido por Souza
(2006).
Ao considerar esta concepção de Estado e governo, há dois movimentos analíticos que
consideramos relevantes mencionar sob o ponto de vista da análise de políticas públicas, um
corresponde aos enfoques teóricos sobre as relações entre Estado e a sociedade, e outro sobre
o papel e espaço do Estado nas abordagens de políticas públicas.
38

Deubel (2002) assinala três enfoques teóricos sobre a relação Estado e sociedade no
campo de políticas públicas:
- teorias centradas na sociedade: preceituam que são as relações de forças na sociedade
que definem as ações do Estado, minimizando o impacto de instituições e agentes públicos
estatais; entre estas estariam correntes teóricas distintas, como enfoques marxistas e
estruturalistas, pluralistas, elitistas e da escolha pública;
- teorias centradas no Estado: apresentam visão de certa independência deste em
relação à sociedade, ao dar ênfase ao papel dos agentes estatais, políticos e burocratas, na
seleção de demandas da sociedade e na provisão de serviços públicos, de modo a minimizar a
influência de atores no entorno social, como os enfoques decisionistas do modelo racional e
incremental;
- teorias intermediárias ou híbridas: de desenvolvimento mais recente, buscam explicar
a ação e políticas públicas ao considerar a interdependência de fatores externos ao Estado
(centrados na sociedade) e elementos internos ao Estado (centrados no Estado), de forma que
assumem uma perspectiva mais horizontal entre Estado e sociedade; entre as abordagens desta
corrente são citadas as neocorporativistas, neoinstitucionalistas e teorias de redes, como redes
de políticas, comunidades de políticas e coalizões de defesa.
O movimento analítico de enfoque híbrido demonstra a complexidade das relações
entre Estado e sociedade, o qual não pode, segundo Serafim e Dias (2012), ser traduzida de
modo unidirecional e linear, pois o Estado é tanto produto, quanto catalisador das relações
sociais. Esta é a perspectiva adotada nesta pesquisa, que entendemos conciliar-se com uma
compreensão de “autonomia relativa” do Estado, pela qual se reconhece um espaço e uma
capacidade específica de atuação estatal, sendo, porém, permeável a influências da sociedade
(SOUZA, 2006). Todavia, Souza (2006) lembra que a margem da “autonomia relativa” e o
grau de desenvolvimento das “capacidades” dependem de diversos fatores (políticos,
econômicos, culturais...) e mudam em diferentes momentos históricos de cada país.
Delineado o posicionamento sobre a relação entre Estado e sociedade, um segundo
movimento analítico refere-se, então, ao papel do Estado nas abordagens conceituais e
explicativas de políticas públicas. Para Farah (2011), embora a construção teórica sobre
políticas públicas tenha originalmente se concentrado em um lócus governamental, as
mudanças na relação entre Estado e sociedade, a partir das décadas de 1970 e 1980,
provocaram ampliação das abordagens de análise de políticas públicas para além do espaço do
Estado. Organizações não governamentais, movimentos da sociedade civis e entidades do
setor privado, passaram a ser inseridas no processo de formulação, implementação e avaliação
39

de políticas públicas (FARAH, 2011). O que para a autora concretizou no campo uma
redefinição da noção de "público", incluindo não somente ações no âmbito governamental,
mas em redes mais profusas de atores sociais e novas articulações intergovernamentais
(diferentes níveis de governos e relações supranacionais) na constituição de ações de interesse
público.
Melo (2002) corrobora com as análises sobre os deslocamentos analíticos no campo de
políticas a partir das mudanças na própria agenda pública. O autor realça esse deslocamento
da agenda pública no Brasil a partir da década de 1980, caracterizando-o como produto do
encontro do projeto reformista da redemocratização e ampliação de direitos aos cidadãos, e os
constrangimentos ao modus operandi do Estado pelo projeto neoliberal e do novo
gerencialismo público. Neste contexto houve a ascensão de questões como descentralização e
o papel de governos subnacionais, participação social, accountability e a redefinição do mix
governamental e privado na provisão de bens e serviços públicos (MELO, 2002; SOUZA,
2006).
Contudo, embora o deslocamento analítico e de agenda pública seja reconhecido,
Souza (2006) pondera que, apesar das limitações à estrutura do Estado e constrangimentos
existentes aos governos, estes continuam a tomar decisões sobre situações-problema a serem
priorizadas na agenda governamental e a desenhar ou modificar políticas para enfrentá-las. Ou
seja, mesmo que ocorra maior presença dos atores de instâncias da sociedade civil e
empresarial no processo de política pública, e que estes estejam responsáveis por parte das
ações públicas, o espaço e as capacidades das instâncias governamentais continuam relevantes
à análise de políticas públicas, e ainda preponderantes em diversos domínios de políticas.
Além desta ponderação, cabe nos reportarmos a Dagnino (2004) para assinalar que o
deslocamento da agenda pública e seu consequente movimento analítico não ocorrem alheios
a disputas próprias do jogo político (politics). Para a autora, o encontro dos dois projetos
políticos6 distintos em torno da mesma agenda pública resultou em uma confluência
perversa7, uma vez que, embora ambos defendessem como ponto focal o incentivo à
participação da sociedade civil nas ações públicas, apresentavam interesses políticos
contrapostos: por um lado, um projeto construído a partir da transição democrática, em que a
participação da sociedade civil nas decisões do Estado objetivava a ampliação de direitos

6
Dagnino (2004) designa de projeto político o conjunto de crenças, concepções de mundo, e representações da
sociedade, que orienta a ação política dos diferentes sujeitos.
7
Dagnino (2004) interpreta que esta confluência perversa foi construída por meio da opacidade das distinções
entre os projetos políticos, resultado de uma crise discursiva pelo uso do mesmo conjunto de termos (em
particular em sua análise os de “sociedade civil”, “cidadania” e “participação”) com sentidos deslocados ou
ressignificados, em torno do qual havia uma disputa político-cultural.
40

sociais; e, por outro lado, um projeto gerado a partir dos preceitos neoliberais do consenso de
Washington, cuja a participação da sociedade civil visava a transferência para esta de parte
das responsabilidades sociais do Estado, reduzindo seu papel de garantidor de direitos. Deste
modo, apesar de conformarem uma agenda pública com pauta à primeira vista similar, o
conteúdo e sentido das relações propositivas entre Estado e sociedade destes projetos políticos
eram conflitivos.
Diante destes movimentos, uma das consequências que podemos ressaltar para as
abordagens analíticas de políticas públicas foi uma abertura para contemplar arranjos com
maior diversidade de atores (incluindo organizações não-governamentais e empresariais), e
maior complexidade de interações e formas de disputas. Exemplo destes novos arranjos são
abordagens que utilizam conceitos de redes, comunidades e coalizões de políticas até
enfoques teóricos sobre situações de ações públicas não centrados no Estado, como o quadro
de referência de análise institucional e desenvolvimento de Elinor Ostrom (WEIBLE, 2017).
Além disso, de forma geral, Weible (2017) tem realçado o desenvolvimento de uma maior
variedade de abordagens analíticas em termos de priorização para o escrutínio de diferentes
atividades (agenda, formulação, implementação e avaliação), escopos (estabilidade e mudança
em política, inovação e difusão de políticas) ou elementos (instituições, ideias, eventos) do
processo de política.
Em termos conceituais, estes movimentos levaram a uma maior amplitude à
concepção do fenômeno da política pública. Weible (2017) define como decisões deliberadas
(de ações ou não-ações) de um governo ou de uma autoridade equivalente (comunidade,
associação, corporação...) na direção de objetivos específicos, que podem se concretizar de
forma explícita (por estatutos, leis regulações, programas de governo e decisões executivas) e
por meios implícitos (regras-em-uso e práticas sociais).
Por essa conceituação mais fluida de política pública proposta por Weible (2017),
entendemos que a diversidade e a complexidade com que os diferentes processos de política
pública podem se configurar nos diferentes contextos territoriais, sociais e políticos é
significativamente relevante para as análises. No entanto, tal diversidade não pode ser
assumida a priori para todos os processos de política sob análise, uma vez que a extensão e a
direção da possível diversidade das formas de interações, atores e eventos no processo
demandam a investigação empírica do fenômeno e contexto específico em estudo.
A complexidade dos processos de política pública empíricos e a variedade das
abordagens analíticas requerem sensibilidade do pesquisador em identificar as dimensões e a
extensão do processo de política pública focais em seu programa de pesquisa, com vistas a
41

construção dos encadeamentos entre fenômeno empírico e abordagem analítica apropriados.


As múltiplas abordagens teóricas desenvolvidas procuram explicar partes do processo de
política pública ou um conjunto delimitado de seus elementos e relações, de modo que cada
teoria8 propicia uma descrição e explicação parcial da complexidade do processo, havendo
tanto sobreposições entre enfoques teóricos, como importantes diferenças (WEIBLE, 2017;
HEIKKILA; CAIRNEY, 2017).
Um exemplo da diversidade de enfoques teóricos poderia ser observado em Dye
(1992) ainda na década de 1980, em que o autor levantou nove modelos teóricos para orientar
perspectivas sobre a análise de políticas: (1) o institucionalismo (perspectiva da política
pública como resultado institucional); (2) os estágios heurísticos do processo de política
(perspectiva da política pública como ciclo de atividades políticas); (3) teoria de grupos
(perspectiva da política pública como um equilíbrio entre grupos); (4) teoria das elites
(perspectiva da política pública como preferência das elites); (5) racionalismo (perspectiva da
política pública como ganho social máximo); (6) incrementalismo (perspectiva da política
pública como variações sobre o passado); (7) teoria dos jogos (perspectiva da política pública
como escolha racional em situações competitivas); (8) teoria da escolha pública (perspectiva
da política pública como tomada de decisão coletiva por indivíduos auto interessados e; (9)
teoria de sistemas (perspectiva da política pública como resultado de um sistema).
Passadas três décadas da publicação de Dye, um exemplo mais recente pode ser
encontrado em Sabatier e Weible (2017) que ao publicarem uma antologia sobre teorias do
processo de políticas públicas ressaltaram sete (7) enfoques teóricos, os quais, embora seja
possível rastrear pontos embrionários nos enfoques citados acima, trouxeram substanciais
mudanças e refinamentos ao campo: (1) quadro de referência de múltiplos fluxos; (2) teoria
do equilíbrio interrompido; (3) teoria do feedback da política pública; (4) quadro de referência
das coalizões de defesa; (5) quadro de referência das narrativas de políticas; (6) quadros de
referência da análise institucional e desenvolvimento e dos Sistemas Sociais-Ecológicos e; (7)
Modelos de inovação e difusão de políticas.
Apesar de não ser nosso intuito fazer uma meta análise dos principais enfoques
teóricos atuais sobre o processo de política pública, ao olharmos os aportes contemplados em
Dye (1992) e em Sabatier e Weible (2017), podemos verificar uma dinâmica de renovação
teórica e vislumbrar algumas tendências e contornos atuais.

8
O termo teoria será usado em sentido genérico para designar um escopo específico de pesquisa, com
pressupostos, conceitos, propostas de relações, hipóteses ou proposições causais (WEIBLE, 2017).
42

Em termos da vertente neoinstitucionalista, há predominância de enfoques


neoinstitucionais para compreensão do processo de política a partir dos efeitos das regras e
normas sobre o comportamento dos atores e organizações, como na abordagem da análise
institucional e desenvolvimento e nas explicações das mudanças nas políticas da teoria do
equilíbrio interrompido.
Sob outro prisma, Faria (2003) destacou a emergência de uma vertente analítica de
enfoque cognitivo sobre o processo de política, cuja racionalidade dos atores está direcionada
às variáveis relacionadas às ideias e conhecimento, como é o caso do quadro de referência de
coalizão de defesa, das redes de políticas, comunidades epistêmicas e do policy learning.
A abordagem dos estágios heurísticos do ciclo do processo da política teve forte
influência no desenvolvimento teórico do campo, surgindo tanto enfoques dedicados a
aprofundar estudos sobre instâncias específicas do processo, como o quadro de referência de
múltiplos fluxos centrado na identificação de problemas e conformação da agenda; quanto
enfoques integrais críticos à visão sequencial que buscam uma interpretação mais sistêmica e
interacional ao processo, como o quadro de referência de coalizão de defesa.
Quanto ao escopo dos enfoques, Heikkila e Cairney (2017), ao fazer uma meta análise
das teorias contidas em Sabatier e Weible (2017), ressaltam dois focos. O primeiro referente
as atividades de conformação de agenda e formulação (quadro de referência de múltiplos
fluxos, quadro de referência das narrativas de políticas e modelos de inovação e difusão de
políticas). O segundo corresponde a mudança de política, este seja por um refinamento do
incrementalismo pela teoria do equilíbrio interrompido, seja por outras abordagens sistêmicas
como o quadro de referência de coalizão de defesa e das narrativas de políticas.
Em relação a características sobre a racionalidade9 de atores, entre os enfoques
teóricos contemplados em Sabatier e Weible (2017), todos têm assumido ou, pelo menos são
compatíveis, com um modelo de racionalidade limitada, orientada por atalhos heurísticos
distintos (regras-em-uso, sistemas de crenças, ou emoções), no entanto os aportes de análise
institucional e desenvolvimento e dos modelos de inovação e difusão de políticas também são
compatíveis com modelos de racionalidade mais abrangentes, nos moldes da escolha racional
(HEIKKILA; CAIRNEY, 2017).

9
A noção de racionalidade dos atores neste parágrafo está em uma perspectiva geral e de múltiplas
possibilidades conceituais, entendida como o processo pelo qual se estabelece que um sujeito eleja objetivos e
meios de ação na sociedade, que pode em alguns enfoques teóricos tender um conceito de racionalidade mais
pura (que se opõe objetivamente a uma ideia de irracionalidade); e em outros enfoques teóricos ser adotada
enquanto conceito relativo, como o processo operado na consciência do sujeito de diversos modos (eletivo,
instrumental, ...), desenvolvido a partir de um contexto social, histórico e cultural específico, produzindo lógicas
de ação distintas (GOMES; MAGALHÃES, 2008).
43

Ao ter por referência esse conjunto diverso de enfoques teóricos, consideramos cinco
(5) características do desenho de pesquisa para escolha da abordagem a ser adotada.
(1) A primeira característica se refere ao espaço focal de ação pública. Uma vez que a
pesquisa se aplica ao domínio da CT&I, anteriormente já observamos que o principal espaço
de produção de políticas públicas de CT&I no Brasil é o governamental (DIAS, 2009), bem
como o principal responsável pelo fomento à C&T também são os órgãos e empresas estatais
(MCTIC, 2018a). Por isso nossa escolha segue uma abordagem que contempla a análise de
processos de política pública a partir da estrutura governamental do domínio da política
existente, enquanto lócus de interação entre os múltiplos atores políticos envolvidos, sendo
estes governamentais e não-governamentais.
(2) A segunda característica corresponde ao nível de análise da política. Ao
estabelecermos o foco sobre o processo da política pública de CT&I em nível subnacional,
especificamente na esfera estadual, o recorte da pesquisa reflete um nível meso de análise,
podendo abranger aportes teóricos com conceitos de subsistema, redes ou comunidades de
política.
(3) A terceira característica remete à definição da abrangência do processo de política
a ser analisado, com vistas a identificar a necessidade de um aporte a uma instância específica
(como de conformação da agenda) ou de enfoque mais extenso ou integral. O objetivo desta
pesquisa é analisar não somente como têm sido articuladas ações para o enfrentamento das
desigualdades na política de CT&I, mas também como têm sido efetivadas. Assim,
reportamos as observações de Bozeman e Sarewitz (2011) que valores públicos tendem a ser
articulados simbolicamente enquanto justificativas em instâncias de configuração da agenda e
formulação no domínio da C&T, contudo, tornam-se mais voláteis no processo de
implementação, pois tendem a perder espaço de atenção cognitiva dos pesquisadores e serem
deslocados frente a objetivos concorrentes, como aqueles de produtividade científica
estritamente concebidos nos indicadores institucionalizados (número de publicações, patentes,
licenciamentos de tecnologias, mestres e doutores formados, etc.). Deste modo,
compreendemos relevante que o escopo de análise permita uma visão integrada do processo
de política, tanto em suas instâncias de agenda e formulação, como de implementação e
avaliação.
(4) A quarta característica se relaciona às análises sobre a evolução da política de
CT&I em que foram enfatizados que a concepção e crenças sobre a C&T influencia a
orientação e instrumentos operados na política de CT&I, principalmente pela posição
preeminente ou mesmo dominante que pesquisadores tendem a ocupar no processo da
44

política, em sua definição de agenda, formulação, implementação e avaliação (ELZINGA;


JAMISON; 1995; DAGNINO, 2007; DIAS, 2009; VELHO, 2011). Entendemos, portanto,
que seja um cenário de política adequado a análise de aspectos cognitivos pela relevância das
crenças e concepções de C&T sobre os desenhos de programas e instrumentos priorizados. O
próprio problema de pesquisa estando sob a temática de desigualdade também é apropriado a
abordagens cognitivas, em termos de compreender as concepções de desigualdades associadas
aos atores políticos no domínio, e como constroem a identificação e caracterização de
problemas a estas relacionados que conformam suas propostas de ação (TOWNSEND, 1979;
LEVITAS, 2005) na política de CT&I.
(5) Por fim, a quinta característica concerne ao escopo do enfoque teórico. A ideia de
enfrentamento das desigualdades em política, de forma geral, implica em alguma medida na
intenção de operar uma mudança no processo da política pública, alterando alguma dimensão
do status quo. Especificamente, a política de CT&I tende a apresentar racionalidade
utilitarista, com foco agregativo, a qual conduz a uma negligência em relação as suas
consequências distributivas (COZZENS, 2007), principalmente quando amparada em
concepções de neutralidade da ciência e determinismo tecnológico (DAGNINO, 2007). Deste
modo, de acordo com a literatura sobre política de CT&I, entendemos que a perspectiva de
desenvolvimento de políticas propostas para enfrentamento das desigualdades, neste domínio,
se caracterizem enquanto alguma forma de mudança no processo de política.
Ao considerar estes cinco (5) aspectos que escolhemos adotar o quadro de referência
de coalizão de defesa10. De forma sintética, este quadro de referência teórico enfoca a análise
do processo da política em uma perspectiva sistêmica, abordando como centralidade da
racionalidade dos atores seu sistema de crenças, com ênfase à pesquisa sobre mudanças e
aprendizados em políticas públicas em nível de subsistema (meso análise). Na próxima seção,
desenvolvemos uma revisão de literatura sobre o quadro de referência de coalizões de defesa
para análise de políticas públicas, com vistas a sua aplicação propositiva na pesquisa.

10
Livre tradução de Advocacy Coaliton Framework, sendo que o termo advocacy coalition identificamos
traduzido tanto por “coalizão de defesa” conforme em Souza (2006), Dias (2009), Souza e Secchi (2014),
Capella e Brasil (2015), e Vicente (2015), quanto por “coalizão que advoga” como em Dias (2009). Optamos
nesta tese pelo uso da tradução por "coalizão de defesa" por ser o mais frequentemente encontrado na literatura
do campo de políticas públicas no Brasil.
45

1.2 O QUADRO DE REFERÊNCIA DE COALIZÃO DE DEFESA

O quadro de referência de coalizão de defesa (CD) surgiu na década de 1980 por


trabalhos pioneiros de Paul Sabatier e Hank Jenkins-Smith. Conforme Jenkins-Smith et al.
(2017), a perspectiva principal no desenvolvimento original da abordagem era compreender o
processo de mudança em política públicas, particularmente pela investigação sobre o papel da
informação técnica e científica e da dinâmica de aprendizados, em situações de política com
considerável conflito ideológico entre os atores políticos (divergência entre os sistemas de
crenças).
Ao elaborar o quadro de referência, Jenkins-Smith et al. (2017) indicam que os autores
também procuraram superar algumas questões que consideravam na análise de política
públicas à época que englobavam três (3) aspectos. (1) Constituir uma alternativa para a
abordagem tradicional de mudança na política centrada nas instituições de governo
(executivo, legislativo e judiciário) e em poucas formas de interação política (lobby e voto),
muitas vezes sob um modelo de racionalidade dos atores com predomínio da escolha racional.
(2) Superar limitações do modelo de estágios heurísticos do ciclo de políticas, por
considerarem que fragmenta a análise do processo de política pela sua divisão e proposta
sequencial de fases de definição de agenda, formulação, implementação e avaliação, e não
fornecia suporte explicativo adequado ao processo de mudança em uma perspectiva de longo
prazo. (3) Prover síntese entre os aspectos bottom-up e top-down no processo de políticas11.
Ham e Hill (1993) estabeleciam as duas perspectivas (top-down e bottom-up) como
abordagens alternativas que iluminam distintos fatores da complexidade da interação humana
na política, um dos objetivos da abordagem de CD era propor uma visão integradora e
dinâmica das perspectivas.
As respostas a essas questões estão principalmente na proposta de agregar os atores
políticos pelo conceito de coalizão de defesa e da unidade de análise primária partir do nível
de subsistema da política. Isso em razão de que, por um lado, o conceito de coalizão de defesa

11
Conforme Ham e Hill (1993), a literatura de processos top-down para implementação de políticas preocupa-se
com os problemas relacionados à capacidade de intervenção do topo de um sistema político perante níveis locais
de execução por meio de ações de formulação e controle da política. As principais críticas deste modelo
baseiam-se na natureza ambígua do processo de política, cujos interesses contraditórios estão presentes dentro e
entre cada nível de ação, rompendo com uma visão implicitamente normativa e linear de uma direção do
processo de política de esferas centrais para locais. As abordagens chamadas bottom-up foram desenvolvidas
para enfocar a análise de políticas tomando como ponto de partida as ações dos atores locais e a natureza do
problema enfrentado (HAM; HILL, 1993; SOUZA, 2003). No entanto, as abordagens bottom-up também
enfrentam questionamentos, principalmente em condições de atuação de atores dominantes em níveis centrais ou
políticas verticalmente estruturadas (HAM; HILL, 1993; SOUZA, 2003).
46

concentra sua atenção no entendimento da ação coletiva no processo da política pelo


agrupamento de atores que possuem um mesmo conjunto normativo de crenças,
independentemente de suas afiliações organizacionais ou posições na estrutura institucional
(SABATIER; WEIBLE, 2007). Assim, os diferentes membros de coalizões, em geral,
perpassam as diversas instâncias e esferas do processo de política, o que proporciona um
sentido de transversalidade da coalizão por todo o processo da política, habilitando o analista
a perceber pela atuação dos diferentes atores de uma coalizão a interpenetração destas
instâncias e esferas na conformação do processo geral da política.
Por outro lado, a noção de subsistema da política, além de não encerrar nenhum
recorte a atividades específicas do processo de política (definição de agenda, formulação,
implementação, avaliação), busca situar o processo da política por um nível intermediário12
por recorte substantivo (domínio da política) e territorial (SABATIER; JENKINS-SMITH,
1993). Embora o recorte territorial possa implicar em foco maior na ação dos atores em
determinado nível de política, a orientação sistêmica do quadro de referência pressupõe inter-
relações entre o subsistema em análise, outros subsistemas e o sistema de política global, que
os compreende. Ao conjecturar estas inter-relações e o mapeamento de membros da coalizão
que influenciam o subsistema independente de sua posição institucional, o desenho da
abordagem visa propiciar a leitura de processos top-down e bottom-up coincidentes no
subsistema.
Ao considerar estes direcionamentos, Sabatier e Weible (2007) sintetizam que a
abordagem de CD foi desenvolvida para descrever e analisar processos de políticas públicas
(policy process) que envolvam conflitos, com a emergência e interação de atores com
distintos sistemas de crenças sobre a política e em diferentes níveis de governo. Além disso, a
abordagem enfoca situações em que se observe papel relevante da ação de especialistas e
pesquisadores, e disputas com uso de informações técnicas e científicas, em busca de
mudanças na política (JENKINS-SMITH et al., 2014; WEIBLE et al., 2011). Isso porque,
havia uma preocupação particular de Sabatier e Jenkins-Smith com o uso político da análise
de políticas públicas e, mais especificamente, com a lacuna de pesquisas no campo de
políticas públicas sobre os efeitos do uso de informações técnicas e científicas e da
participação de especialistas (experts) no processo de políticas e no aprendizado de atores

12
Capella e Brasil (2015) indicam que o subsistema é uma unidade de análise de posição intermediária, como
redes e comunidades, situada entre uma visão macro de sistema (escopo de decisões de amplo impacto na
estrutura de poder no sistema político e na sociedade) e uma perspectiva micro (processos de decisões em escopo
mais delimitado, em níveis mais localizados e restrito número de participantes).
47

(SABATIER; WEIBLE, 2007). A seguir, discutiremos mais detalhadamente as categorias


básicas e focos analíticos do quadro de referência.

1.2.1 Pressupostos, categorias e focos analíticos principais

O quadro de referência de CD foi construído com a noção de programa de pesquisa


científica que apresenta um núcleo central essencial (conjunto de pressupostos e de categorias
conceituais básicas) e, a partir deste núcleo, proporciona suporte para múltiplos escopos e
eixos auxiliares de proposições explicativas (SABATIER; WEIBLE, 2007; JENKINS-
SMITH et al., 2017). Estas proposições auxiliares envolvem variáveis, hipóteses de relações e
de trajetórias de mudanças em políticas, as quais, devem adquirir definições operacionais e
conceituais mais precisas em relação ao contexto e temática da política pública em estudo
(JENKINS-SMITH et al., 2014, JENKINS-SMITH et al., 2017).
Assim, a abordagem apresenta um formato de plataforma de pesquisa compartilhada
que estabelece uma direção integrada básica de investigação, ao mesmo tempo em que
proporciona o desenvolvimento de estudos em múltiplos desenvolvimentos teóricos, no
sentido de resolver “quebra-cabeças”13 do processo de política pública (JENKINS-SMITH et
al., 2014; JENKINS-SMITH et al., 2017).
Os pressupostos cobrem as concepções fundamentais sobre os principais conceitos e
escopos a serem explorados no quadro de referência. Seus elementos contemplam, em
particular, o direcionamento a uma perspectiva cognitiva do processo de política, centrada
sobre atores políticos individuais, cuja ação coletiva é coordenada pelo compartilhamento de
um sistema de crenças, conformando uma coalizão para sua defesa, que disputa com outras
coalizões (outro sistema de crenças) a definição de objetivos, preferencias e enfoque de
problemas e soluções sobre o conteúdo e configuração em um domínio de política. Deste
modo, a ênfase do processo de politics para definição de policy está na disputa de crenças e
ideias. Sintetizamos os pressupostos da abordagem de CD no quadro 1, enquanto diretrizes
gerais que fundamentaram sua proposição.

13
Tradução livre da expressão “puzzles of the policy process”.
48

Quadro 1 – Pressupostos do quadro de referência de coalizões de defesa


Elemento Pressuposto Propriedades
I- Subsistemas contêm incontáveis componentes que interagem de
Representa a unidade de forma não-trivial, delimitado por uma área substantiva de processo
análise primária para de política e um território.
Subsistema
compreensão dos II- Subsistemas são semiautônomas, com alguma sobreposição ou
de política
processos de política encadeamento uns com os outros.
pública. III- Subsistema da política pressupõe a existência de alguma
autoridade efetiva ou potencial.
O conjunto relevante de I- A composição de atores em um subsistema pode incluir, além de
atores de um subsistema atores de abordagens tradicionais (executiva, legislativo e
Atores de judiciário), representantes empresariais e de organizações sem fins
inclui qualquer pessoa
um lucrativos, mídia e pesquisadores.
que regularmente busca
subsistema
influenciar temas dentro II- A extensão e consistência da influência e envolvimento de cada
do subsistema. ator em um subsistema varia.
I- Dois sistemas de racionalidade orientam o indivíduo, a lógica das
consequências (busca de benefícios individuais) e a lógica da
Indivíduos possuem adequabilidade às regras sociais, sendo esta evidenciada pelo
Racionalida
racionalidade limitada e sistema de crenças individual.
de dos
capacidade de agência
atores II- O sistema de crenças atua como heurística da racionalidade do
relativa.
ator para simplificar a complexidade da realidade e orientar a
assimilação de estímulos.
O agrupamento de atores I- O agrupamento de atores por crenças, em vez de filiações por
em uma ou mais organizações (mais convencionais), é instrumental à análise de
coalizões de defesa é mudança na política, por tenderem a ser mais estáveis ao longo do
Coalizões tempo.
baseado no
de defesa
compartilhamento de II- O agrupamento por crenças também propicia enfoques de
crenças e na coordenação desenvolvimento analítico sobre a coalizão e ação coletiva interna
de ação coletiva. (coesão, interação, deserção).
Políticas e programas são I- Coalizões desenvolvem teorias causais para descrever e explicar
constituídos de forma a um problema-objeto de política, de acordo com seu sistema de
Políticas e
refletir abordagens crenças.
programas
conceituais e analíticas
públicos II- No processo de politics, coalizões disputam as teorias causais
do sistema de crenças de
uma ou mais coalizões. que prevaleceram no conteúdo e desenho da policy.
Os sistemas de crenças I- As representações causais sobre atributos de um problema e
incorporam concepções alternativas políticas têm como fonte importante as informações
Informação técnicas e científicas.
de relações causais
técnica e
moldadas por II- A forma como informações técnicas e científicas são usadas em
científica
conhecimentos sobre a debates e negociações, integradas ou desviadas dos sistemas de
realidade empírica. crença de coalizões é relevante para análise do processo da política.
A análise de processos I- Os processos de políticas são contínuos e dinâmicos,
de políticas requer incorporando aprendizados sobre falhas e sucessos.
Mudança estudos de longo prazo II- A explicação de trajetórias de mudança em políticas públicas
em políticas para revelar trajetórias de requer atenção a sequência de eventos ao longo do tempo, que
mudança e aprendizados conformam alterações incrementais ou radicais.
dos atores.
Fonte: Adaptado pela autora a partir de Jenkins-Smith et al. (2014).

O quadro de referência construído a partir destes pressupostos, enquanto plataforma


integral do programa de pesquisa, foi representado na forma de um diagrama de fluxos (figura
1) com cinco (5) categorias: (1) o subsistema da política, como unidade central de análise; (2)
49

os parâmetros relativamente estáveis do sistema; (3) os eventos dinâmicos externos,


compreendendo elementos externos que afetam o subsistema; (4) as estruturas de
oportunidades de coalizões de longo prazo e; (5) as restrições e recursos de curto prazo dos
atores, como elementos mediadores da forma como eventos externos podem ser mobilizados
por coalizões para suas atuações no subsistema.

Figura 1 – Diagrama de fluxos da abordagem de coalizões de defesa

Fonte: Jenkins-Smith et al. (2017). Tradução livre da autora.

Como já indicado nos pressupostos, o subsistema da política é a categoria estabelecida


como unidade de análise principal da abordagem, onde atuam os atores de coalizões, mediante
suas crenças e recursos, estabelecendo estratégias para influenciar as decisões governamentais
(regras institucionais, alocações de recursos, nomeações), e, portanto, os produtos e resultados
de políticas públicas (JENKINS-SMITH et al., 2014).

1.2.2 O subsistema da política e a coalizão de defesa como conceito central

O subsistema da política situa-se em um nível meso de análise, o que implica não


somente na delimitação de fronteiras “verticais” permeáveis no subsistema, com atenção para
as articulações entre macro e microssistemas, como também a delimitação de suas fronteiras
"horizontais" entre diferentes setores de políticas públicas. Weible, Sabatier e McQueen
(2009) ao conceituarem subsistemas como partições semiautônomas de um sistema político
50

mais abrangente (macro sistema) ressaltam que, uma vez que os problemas enfrentados pelas
políticas crescentemente expandem seus limites para além de concepções tradicionais, o
delineamento de subsistemas requer uma percepção das estruturas de poder e
interdependências14 entre distintos subsistemas, que podem influenciar no comportamento de
coalizões.
Neste sentido, a definição do escopo do subsistema, é tarefa fundamental para
aplicação da abordagem. Sabatier (1993) concebe subsistema de política como um conjunto
de atores que são envolvidos com um problema de política pública. Sabatier e Weible (2007)
propõem duas dimensões para auxiliar o delineamento de um subsistema e, portanto, para o
mapeamento de atores no âmbito decisório de um problema de política: dimensão funcional e
substantiva referente ao tema ou domínio setorial da política; neste âmbito, é preciso
direcionar atenção a sobreposições ou encadeamentos de possíveis intersetorialidades (e.g.
entre domínios de “ciência e tecnologia” e “educação”) e; dimensão territorial correspondente
a localizar as organizações e instituições políticas principais em foco, neste caso com cuidado
sobre aspectos intergovernamentais, observando encadeamentos entre diferentes níveis de
governo que atuam sobre a mesma temática e território.
Estas duas dimensões, substantiva e territorial, devem orientar a identificação dos
atores políticos em ação no subsistema. Cabe ressaltarmos que o quadro de referência de CD
não restringe o perfil dos atores políticos ao chamado “triângulo de ferro”, enquanto
legisladores, agentes do executivo e líderes dos grupos de interesses organizados. Ao
contrário, expande a visão para os diversos atores que se envolvem nas disputas no processo
da política, de modo tanto a incluir outros possíveis perfis como pesquisadores e consultores,
jornalistas e membros da mídia, e agentes do judiciário; quanto em considerar possíveis
formas de interação e conflito que se estabelecem (CAPELLA; BRASIL, 2015).
É preciso mencionar, conforme Schlarger (2007), que embora a unidade de análise
principal do enfoque seja o subsistema de política, que proporciona uma visão integral do
processo de política, a unidade de observação primária se refere aos atores políticos que tanto
delimitam o subsistema, quanto compõe as coalizões que nele interagem. E são as coalizões
de defesa, enquanto heurística15 agregadora da ação dos diversos atores no subsistema, o

14
Weible; Sabatier e McQueen (2009) observaram três (3) status de relações de interdependências entre
subsistemas: competitiva, simbiótica e independente.
15
Como cada subsistema pode ter centenas de atores políticos, a operacionalização da descrição e análise do
subsistema pela ação dos atores políticos no processo de política demandava alguma forma de simplificação, a
qual no quadro de referência foi operada pelo conceito de coalizão de defesa para agrupamento destes atores
(JENKINS-SMITH et al., 2017).
51

conceito principal que tem sido articulado nas aplicações da abordagem (SCHLAGER, 2007;
JENKINS-SMITH et al., 2017).
As coalizões de defesa são conceituadas como um conjunto de atores que
compartilham crenças essenciais no âmbito da política e coordenam suas ações de forma não
trivial, com o objetivo de influenciar o subsistema da política (SABATIER, 1993; JENKINS-
SMITH et al., 2017). A coalizão de defesa é um conceito básico para operacionalização do
quadro de referência de CD, sendo, segundo Sabatier (1993), alternativa de agregação de
atores em ação na política mais adequada para análises de longo prazo, em comparação com a
agregação convencional referente a afiliações de organizações e instituições formais. Para o
autor, organizações tendem a ser em grande número nas políticas, podem ter uma atuação
significativamente variável no longo do tempo (inclusive com extinção ou criação de novas),
e serem fragmentadas por nível governamental, o que as torna mais voláteis e de difícil
monitoramento no longo prazo. Além disso, o acompanhamento de atores políticos
individuais importantes no processo de política que se movimentam entre organizações torna-
se difícil, ao mesmo tempo em que uma única organização pode comportar atores individuais
com diferentes projetos políticos, não sendo recomendável assumir visão homogênea desta
em relação à política (SABATIER, 1993).
Por isso, Sabatier (1993) considera que as coalizões de defesa conferem uma forma de
agregação com um foco mais gerenciável à análise do processo de política, por atribuir um
sentido de unidade baseada no conjunto de crenças e valores que orientam as ações dos atores
perante à política. Assim, a coalizão de defesa agrega atores individuais de distintas
organizações e níveis governamentais que compartilham determinados objetivos e convicções
políticas. Ao identificar e mapear membros de uma coalizão e monitorar os recursos
mobilizados por essa, não se perde de vista a noção de vínculos desses indivíduos às
organizações e instituições relevantes na política.
Pelo conceito de coalizão acima indicado, duas características são realçadas em
relação a agregação de atores: o compartilhamento de crenças e a coordenação de ações.
Destas características, o sistema de crenças que se mantém como elemento teórico que
estrutura a composição da coalizão, estando o elemento de coordenação coletiva associado e
condicionado àquele (LEIFELD, 2013). Assim, em sentido similar, Jenkins-Smith et al.
(2014) indicavam que os principais pontos de investigação sobre coalizões visam examinar
sua formação e estabilidade ao longo do tempo, preponderantemente baseados no
compartilhamento de crenças, mas também contemplam outros fatores, como a forma pela
qual recursos são adquiridos, a existência de oponentes em comum entre membros, a adesão
52

de membros preponderantemente por interesses e capacidade de influência, e o


desenvolvimento de confiança entre membros.
Para Leifeld (2013), essa ênfase sobre o sistema de crenças como fator agregador das
coalizões tem distinguido o quadro de referência de CD na literatura de análise de política.
São baseadas em seus sistemas de crenças que as coalizões incorporam proposições causais
(teorias causas) sobre os problemas a serem enfrentados nas políticas (atributos, causas e
consequências), definem objetivos, prioridades e públicos alvos, avaliam a eficácia de
instrumentos de intervenção e selecionam estratégias de ação.
Deubel (2002) caracteriza as coalizões como comunidades de política que competem
entre si pelo domínio conceitual e material de um ou mais temas da política, e realça uma
noção de interações de atores na abordagem que reforça um sentido de integração (consenso)
interna na coalizão e de propensão ao conflito externo com outras coalizões, em função da
dinâmica de compartilhamento ou dissenso às crenças da política em um subsistema. Assim, a
identificação e evidenciação das crenças da política de atores do subsistema é o passo
fundamental para operacionalização do quadro de referência.
Contudo, os pesquisadores não devem pelo conceito de coalizão assumir
homogeneidade de crenças e na coordenação de seus membros. Weible, Sabatier e Mcqueen
(2009) e Sabatier e Weible (2007) mencionam pesquisas que retratam coalizões como tendo
um núcleo essencial mais permanente de atores e crenças principais, e uma periferia mais
difusa de crenças e objetivos secundários e membros com menor sentido de pertencimento.
Sabatier (1993) também adverte que não se deve pressupor que todos os membros de
uma coalizão tenham a mesma crença, mas sim que a maioria destes demonstrem substancial
consenso sobre as crenças essenciais da política, podendo ocorrer menor nível de
concordância interna sobre aspectos secundários. Outra ressalva é que, apesar dos atores
buscarem traduzir seu escopo de crenças essenciais profundas na construção e estabilização
das crenças da política, nem sempre as correspondências são exatas, pois diferenciações
substantivas nos subsistemas de políticas podem conduzir a distintas formas de percepção da
intervenção estatal entre diferentes domínios de políticas (SABATIER; WEIBLE, 2007).
Esta noção se relaciona à estrutura hierárquica proposta no sistema de crenças do
quadro de referência, a qual seria formada por três níveis (WEIBLE; SABATIER;
MCQUEEN, 2009; SABATIER, 1993): (i) crenças essenciais profundas, representam o nível
mais abrangente e estável, referente a valores normativos e ontológicos gerais aplicáveis a
múltiplos subsistemas, como exemplo, as crenças relacionadas a projetos políticos (crenças
liberais ou conservadoras); (ii) crenças essenciais da política, que correspondem as
53

orientações normativas e empíricas condizentes ao subsistema da política, sendo as


normativas relacionadas a diretrizes básicas e valores prioritários; e as empíricas referentes a
análises sobre o problema em identificação, a proposição de causas sobre estes e alternativas
de soluções (políticas preferenciais); estas crenças são um nível meso, com um escopo
moderado por especificidades do subsistema quanto temática e abrangência territorial, assim,
embora sejam de difícil mudança, são mais prováveis de serem ajustadas do que as crenças
profundas e; (iii) aspectos secundários ou auxiliares, referem-se a diretrizes sobre um
subconjunto temático ou sobre meios instrumentais específicos de decisão, implementação ou
controle do subsistema de política para alcance de determinados resultados desejados; estes
apresentam um escopo mais específico em termos substantivos e territoriais,
predominantemente baseados em vivências empíricas e mais propenso a aprendizados e
mudanças.
Apesar de ainda manter a proposição da diferenciação entre as crenças essenciais da
política e os aspectos secundários destas, Jenkins-Smith et al. (2017) admitem que alguns
estudos aplicados tem demonstrado certa dificuldade metodológica de distingui-las no
conjunto crenças dos atores, bem como de sustentar a hierarquia proposta entre elas, pela qual
os atores políticos tenderiam a mais facilmente alterar suas crenças em aspectos secundários,
antes de questionar as crenças essenciais. Portanto, enquanto mantenham a hipótese desta
estrutura hierárquica, os autores consideram possível metodologicamente reunir crenças da
política e aspectos secundários em uma mesma categoria, interligando-as, dependendo do
escopo focal da pesquisa.
A análise da disputa entre (e, portanto, a evidenciação de) sistemas de crenças em um
subsistema de política, em geral, segue métodos de análises textuais16. Sabatier e Jenkins-
Smith (1993) utilizam o método de análise de conteúdo para examinar a mudança longitudinal
em crenças de elites com base na abordagem de coalizões de defesa. A análise de conteúdo e
práticas de codificação continuam sendo as mais recorrentemente usadas, constatando
também o uso, em menor frequência, de surveys e análise de discurso (JENKINS-SMITH et
al., 2017). Weible et al. (2011) destaca o uso de abordagens de narrativas políticas, aqui
entendidas similares ao conceito de discursos políticos, podem oferecer análises sistemáticas
que expandem o quadro de referência de coalizão de defesa, ao associar os pressupostos de

16
Peräkylä (2005, p. 871) ao tratar de análises de textos e conversas direcionadas por um projeto democrático de
ciência comprometido com a justiça social destaca métodos de análise de narrativas, análise de discurso e análise
de conversação.
54

racionalidade limitada e do sistema de crenças com uma interpretação da construção social de


como coalizões articulam e se engajam em determinadas direções estratégicas.
Assim, pelo quadro de referência, as coalizões de defesa, orientadas por seus sistemas
de crenças e de acordo com seus recursos e estratégias, são quem assumem o protagonismo de
movimentos para mudança ou manutenção da estabilidade em um subsistema de política,
sendo os processos de aprendizados uma das formas destas mudanças ocorrerem, ao
moldarem o sistema de crenças dos atores na política. Processos de mudança e aprendizados
foram os dois focos analíticos realçados na construção e aplicação do referencial teórico desde
sua origem (SABATIER; JENKINS-SMITH, 1993; JENKINS-SMITH et al., 2014). No
entanto, processos de mudanças e aprendizados no subsistema tem suas trajetórias
influenciadas ou mediadas também por elementos externos a este, sejam relacionados ao
macrossistema ou a outros subsistemas de políticas, por isso, antes de entrarmos nestas
temáticas, retomaremos as demais quatro (4) categorias do diagrama de fluxos do quadro de
referência.

1.2.3 Categorias externas que condicionam o subsistema e atuação das coalizões de


defesa

Além da categoria de subsistema de política, o quadro de referência acomoda


categorias externas a este, que o influenciam. Sob a denominação de “parâmetros
relativamente estáveis” estão reunidas variáveis estruturais do macrossistema, que
condicionam o subsistema da política, incluindo estruturas sociais, econômicas e
institucionais e que compõem atributos estáveis da área problema foco do processo da
política.
A categoria de “eventos dinâmicos externos” é composta por eventos externos ao
subsistema, mas submetidos a uma maior propensão a mudanças, como aspectos relacionados
a condições sociais, econômicas e políticas de ocorrência no curto e médio prazo,
circunscrevendo mobilização de opiniões públicas, mudanças tecnológicas, e alterações em
cargos eleitorais e em composição de coalizões no governo. Esta categoria tanto afeta o
subsistema da política, quanto pode ser também mais facilmente afetada por este.
Entre o subsistema da política e as duas categorias externas mencionadas, o quadro de
referência de CD apresenta duas categorias de mediação ou intermediárias. Uma se refere a
estruturas do sistema político que condicionam oportunidades de longo prazo que afetam as
coalizões, contemplando conceitos relacionados ao grau de consenso necessário para
55

mudanças políticas de maior amplitude; bem como, o grau de abertura do sistema político e
intensidade de clivagens sociais neste.
A categoria corresponde a aspectos relativamente duradouros de um regime político e
institucional que afetam oportunidades de obtenção de recursos de poder pelos atores no
subsistema, criando maior facilidade ou dificuldade para atuação destes (SABATIER;
WEIBLE, 2007). A noção de consenso necessário para mudanças substantivas sugere que
quanto maior o grau de consenso requerido para a concretização de mudanças desejadas na
política, mais incentivos as coalizões de defesa terão para serem inclusivas a novos membros,
e buscarem compartilhamento de informação com oponentes, minimizando a percepção de
risco frente aos opositores (SABATIER; WEIBLE, 2007). O conceito de abertura do sistema
político envolve o número de instâncias de tomada de decisão a ser percorrida para uma
mudança substantiva, e, por fim, as clivagens sociais sobrepostas associam-se a distintas
facilidades de acesso dos diferentes atores sociais a tais instâncias (SABATIER; WEIBLE,
2007).
Cabe indicarmos que esta categoria intermediária foi acrescentada ao quadro de
referência originalmente proposto por Sabatier e Jenkins-Smith (1993), de forma a tornar a
abordagem mais sensível aos diferentes regimes e culturas políticos, em resposta às críticas de
que o quadro de referência inicial implicitamente se vinculava a prerrogativas do sistema
político norte-americano, onde as primeiras aplicações empíricas da abordagem foram
realizadas (SABATIER; WEIBLE, 2007).
A outra categoria intermediária é a de restrições e recursos de curto prazo dos atores,
que busca estabelecer como os eventos externos dinâmicos resultam em oportunidades
específicas de curto prazo para mudanças no subsistema da política, de acordo como forem
articuladas e aproveitadas pelas coalizões (JENKINS-SMITH et al., 2014).
Ao analisar as categorias da abordagem, Sabatier e Weible (2007) e Jenkins-Smith et
al. (2014) ressaltaram que esta tem passado por um aprofundamento e maior delineamento
das categorias e relações teóricas originais, inclusive com acréscimos (como é o caso de
estruturas de oportunidades de coalizões de longo prazo). Se, por um lado, ao abranger um
conjunto de múltiplas relações entre categorias relativamente amplas, tem implicado à
abordagem uma considerável complexidade teórica; por outro lado, proporciona uma
plataforma de desenvolvimento teórico que permite contribuições específicas em sua
construção coletiva.
Neste sentido, Jenkins-Smith et al., (2014) indicam que o quadro de referência tem
tendido crescentemente a receber contribuições específicas de pesquisas que enfocam um ou
56

poucas categorias teóricas ou de relações entre estas, em vez da aplicação do quadro integral.
Esta noção de plataforma, também concede flexibilidade para aplicação do quadro de
referência de CD em diferentes contextos empíricos.

1.2.4 Trajetórias de mudanças e processos de aprendizado no subsistema de política

Compreender os processos de mudanças e o papel do aprendizado nestes foi um


escopo central na elaboração do quadro de referência por Sabatier e Jenkins-Smith (1993).
Enquanto o escopo de análise em processos de mudança tem permanecido como objetivo
central de aplicação do enfoque, o aprendizado orientado para a política, embora reconhecido
como uma trajetória para a mudança, tem sido o conceito básico da abordagem menos
desenvolvido nas pesquisas aplicadas (JENKINS-SMITH et al., 2017).
Em termos de processos de mudanças em subsistemas de políticas, o quadro de
referência de CD focaliza a compreensão de sua trajetória sob o pressuposto que entender o
processo de evolução de uma política pública requer entender a sequência de eventos nela
decorridos ao longo do tempo (JENKINS-SMITH et al., 2017). Este pressuposto implica na
tendência da abordagem de realizar análises com perspectiva de longo prazo sobre o processo
de política, com a recomendação inicial de Sabatier e Jenkins-Smith (1993) de 10 anos ou
mais. Contudo, Jenkins-Smith et al. (2017) ressalvam que esta recomendação não deve ser
vista de forma literal, mas ponderada pelos objetivos da pesquisa e as características do
processo de política empírico a ser analisado, com o discernimento que a sequência de
processos temporais são necessários para o entendimento do conteúdo e configuração de uma
política pública em determinado momento e espaço.
A perspectiva temporal do quadro de referência de CD baseia-se no entendimento que
uma política pública é tanto um processo contínuo, como proposto originalmente por
Lindblom (sem início e sem fim), quanto conformada pela interpenetração das ações de
definição de agenda, formulação, implementação e avaliação, que podem ser desenvolvidas
em paralelo no mesmo subsistema de política (WEIBLE; SABATIER; MCQUEEN, 2009;
JENKINS-SMITH et al., 2017). Por exemplo, na política de CT&I, uma avaliação de um
programa tecnológico pode ser realizada, ao mesmo tempo em que uma nova chamada
pública em determinada temática científica esteja sendo formulada, ou seja, a avaliação de
falhas e sucessos de um programa gera aprendizados que influenciam decisões de atores
política na formulação ou implementação em outro programa ou atividade no subsistema da
política pública.
57

Neste sentido, entendemos a crítica da abordagem de CD ao modelo de estágios


heurísticos esteja relacionada principalmente a tendência de visão linear e sequencial de fases
independentes no processo de política e à ênfase descritiva destas fases, sem trazer em seu
bojo perspectivas explicativas próprias. A abordagem sistêmica de CD busca romper com
esses pressupostos ao proporcionar uma visão integrada, mas como observam Weible,
Sabatier e McQueen (2009), pode incorporar os conceitos17 das ações de conformação de
agenda, formulação, implementação e avaliação na sua operacionalização, não mais vistos
enquanto fases independentes e sequenciais, e sim como atividades interpenetradas e
geralmente ocorrendo de forma constante e concomitante no subsistema de política, sendo
esta.
Em termos de caracterização das mudanças na política, Jenkins-Smith et al. (2017)
assinalam dois enfoques analíticos, um quanto a sua direção, em relação a que sentido de
demandas e concepções o conteúdo e a configuração da política estão sendo modificados; e
outro no tocante a distinção de sua extensão mudança, ou seja, entre mudanças maiores (em
questões normativas ou substantivas) ou alterações menores em instrumentos ou de volume
marginal no subsistema.
São quatro (4) as trajetórias de mudanças em políticas públicas conceituadas pelo
quadro de referência de CD (JENKINS-SMITH et al., 2017): (1) as advindas de alterações ou
perturbações externas tanto dos parâmetros relativamente estáveis, quanto nos eventos
dinâmicos; (2) as baseadas em eventos internos e ações dos atores no subsistema; (3) as
geradas por meio de processos de aprendizados orientados à política e; (4) as promovidas por
acordos negociados entre coalizões previamente em forte oposição, em geral, facilitadas por
organizações intermediárias.
Como indicado por Jenkins-Smith et al. (2017), embora, pelo menos, uma dessas
trajetórias seja considerada necessária à mudança da política, a ocorrência por si só de uma
delas não é apontada como suficiente, sendo comum haver combinação destas na efetivação
de processos de mudança. Cabe também ressaltarmos que os efeitos de eventos externos não
podem ser analisados isoladamente, pois é necessário averiguar suas inter-relações com
fatores de mediação e variáveis internas do subsistema.
17
Em termos gerais, os conceitos de atividades são concebidos aqui de modo comum à literatura de análise de
política, como em Giest e Howlett (2013), Serafim e Dias (2012) e Souza (2006): Conformação de agenda como
a atividade de percepção ou reconhecimento de problemas, incorporando-os enquanto prioridade de ação
pública; formulação como a atividade de desenvolver opções de soluções, conforme preferências dos vários
atores políticos, e o processo de tomada de decisão entre estas para adoção em política para enfrentar o problema
definido; implementação sendo o conjunto de ações efetivadas da solução formulada, alterando a distribuição de
bens e serviços na sociedade; e, avaliação como a análise e monitoramento dos resultados e consequências da
política, atribuindo valor público a esta, o que pode conduzir a sua continuidade, melhorias ou extinção.
58

Outro âmbito importante de análise associada às mudanças no quadro de referência diz


respeito a relações entre trajetórias de mudanças na política e localização dos efeitos na
estrutura do sistema de crenças. Mudanças de maior amplitude no subsistema da política, se
relacionam a modificações no nível das crenças essenciais da política, que são mais difíceis de
ocorrer e geralmente requerem combinações de fatores externos e internos de mudanças;
enquanto que mudanças menores se referem a alterações em crenças secundárias ou
auxiliares, e podem seguir trajetórias de aprendizado (JENKINS-SMITH et al., 2017).
Além de tratar das diferentes fontes de mudanças, outra proposição do quadro de
referência aborda especificamente a mudança em contexto de relações intergovernamentais no
subsistema da política. É proposto que os atributos básicos da política constituídos em um
programa governamental, em jurisdição específica, não serão revisados significativamente
enquanto a coalizão que o instituiu permanecer dominante na jurisdição, exceto quando
alterações são impostas por jurisdição hierarquicamente superior (SABATIER; JENKINS-
SMITH, 1993; JENKINS-SMITH et al., 2014). Para Jenkins-Smith et al. (2017), apesar de
alguns estudos empíricos corroborarem esta argumentação, há poucas pesquisas
desenvolvidas por meio do quadro de referência com este enfoque.
O aprendizado orientado para a política, como anteriormente mencionado, foi um dos
elementos conceituais mobilizados dentro da ênfase teórica do quadro de referência voltado
para o entendimento da natureza e das relações causais subjacentes aos processos de mudança
e estabilidade da política.
De acordo com Sabatier e Jenkins-Smith (1993), o aprendizado orientado para a
política é concebido como mudanças duradouras no pensamento, ou de intenções
comportamentais, dos atores em coalizões que resultam de vivências e do desenvolvimento de
novas informações e conhecimentos, os quais conduzem ao reforço ou à necessidade de
revisão de preceitos do sistema de crenças do indivíduo ou de uma coletividade. Assim, o
aprendizado está associado ao sistema de crenças de uma coalizão, seja sobre os problemas e
soluções que devam ser direcionados no subsistema da política, seja quanto as estratégias e
instrumentos a serem utilizados para alcance de objetivos (JENKINS-SMITH et al., 2014).
Para Sabatier e Weible (2007), o impacto de aprendizados advindos da política é mais
frequentemente encontrado em modificações de aspectos secundários do sistema de crenças
de uma coalizão, ou seja, de menor abrangência. Assim como, em termos de processos, tende
a se caracterizar por efeito cumulativo de maior prazo, influenciado por ações de pesquisa
aplicada e pelo papel do debate técnico sobre aspectos críticos de políticas públicas
(SABATIER; WEIBLE, 2007).
59

Jenkins-Smith et al. (2017) elencam quatro (4) fatores analíticos enfatizados no quadro
de referência que influenciam em processos de aprendizados dos atores políticos: (1) atributos
do espaço de interação dos atores (características institucionais dos arranjos, grau de abertura
à participação, normas de conduta e regras de interação); (2) nível de conflito entre
coalizões18; (3) atributos de estímulo de aprendizado (tipos de informação, fontes de
credibilidade, experiências que os atores estão expostos) e; (4) atributos dos atores (crenças
extremas ou moderadas, recursos de acesso a informações, estratégias). Os autores também
realçam como agenda de pesquisa no quadro de referência o estudo do papel e características
de atores com atuações excepcionais ou em posições chaves na coalizão, como os
empreendedores de políticas e os intermediários de políticas (policy brokers) para a promoção
de aprendizados e mudanças nos processos de políticas.
Apresentada essa visão geral do quadro de referência de CD em termos de seus
pressupostos, categorias, conceitos e escopos principais de análise, na próxima seção, faremos
uma discussão sobre sua aplicação ao problema específico desta pesquisa de tese.

1.2.5 Considerações da aplicação do quadro de referência de coalizão de defesa na


orientação de pesquisa

A questão direcionadora desta pesquisa de tese corresponde a compreender como têm


sido articulados e efetivados enfrentamentos de desigualdades no processo da política de
CT&I em contexto subnacional, especificamente em situação periférica, que em termos
aplicados será desenvolvida sobre a política estadual de CT&I no Pará. Como indicado
anteriormente, cinco (5) características do fenômeno de pesquisa nos conduziram a adotar o
quadro de referência de CD: (1) enfoque a situações de ação pública em lócus governamental;
(2) nível de meso análise que atenda a configuração subnacional; (3) visão integrada do
processo de política pública; (4) ênfase aos elementos cognitivos ou ideacionais (crenças,
conhecimento e representações de mundo) e; (5) escopo orientado à percepção de conflitos
em torno de mudanças ou manutenção de status quo no processo da política. Entendemos que
estas foram evidenciadas na apresentação do quadro de referência na seção anterior, no

18
Jenkins-Smith et al. (2017) propõe que um nível de conflito intermediário seria o mais provável de favorecer
processos de aprendizados entre coalizões, uma vez que cria algum grau de demanda de informações (que um
nível baixo de conflito não tende a promover), porém sem elevada ameaça (característico de alto nível de
conflito), que propicia uma conduta suficientemente receptiva de atores de coalizões distintas a trocarem
informações.
60

entanto, há duas observações na aplicação do quadro de referência nesta pesquisa que


devemos distinguir.
Entre as características acima mencionadas do quadro de referência, a que
consideramos principal em termos substantivos da pesquisa se refere ao seu enfoque analítico
estar baseado nos aspectos cognitivos e ideacionais do processo da política. Por um lado, este
enfoque proporciona uma sensibilidade adequada para a análise de questões de enfrentamento
(ou não) das desigualdades em processos de políticas públicas, as quais envolvem conteúdos
normativos no que tange a convicções e princípios sobre justiça distributiva. Este enfoque
permite centrar a investigação no vínculo entre as convicções e ideias de atores políticos sobre
o enfrentamento de desigualdades (quais as proposições analíticas sobre o problema de
desigualdade no que tange a causas, consequências e alternativas de soluções) e as ações
formuladas e efetivadas no subsistema da política (programas governamentais, gastos
orçamentários, resultados e impactos da política).
Por outro lado, este enfoque sobre as ideias e conhecimentos, além de ser reconhecido
como elemento chave na leitura do processo de política em geral (FARIA, 2003; SABATIER;
WEIBLE, 2017; SOUZA, 2006), especificamente também está alinhado ao que Elzinga e
Jamison (1995) chamaram de uma virada cognitiva nos estudos sociais da C&T, a partir dos
anos 1980, e que se mantém em ativa ao se fundamentar na compreensão que as concepções
de C&T e das relações conceituais e explicativas estabelecidas entre ciência, tecnologia e
sociedade por parte dos atores políticos conformam o próprio processo da política de ciência,
tecnologia e inovação, como veremos em maiores detalhes no próximo capítulo.
Deste modo, esperamos que a partir do quadro de referência de CD seja viável tanto
identificar possíveis coalizões de defesa no subsistema da política que articulam problemas e
soluções relacionados ao enfrentamento das desigualdades, quanto analisar a abrangência
(conceitual e material) destas ações de enfrentamento das desigualdades.
Contudo, cabe indicarmos que em artigos de revisões do quadro de referência de CD,
como em Jenkins-Smith et al. (2014) e Jenkins-Smith et al. (2017), foi assinalada como uma
das agendas atuais de pesquisa o aprofundamento e reconsideração sobre a proposta do
modelo de sistema de crenças. Jenkins-Smith et al. (2014) ressaltaram a necessidade de uma
orientação teórica e metodológica mais profunda para a conceitualização das crenças
essenciais, principalmente as crenças profundas, articulando o quadro de referência com
abordagens específicas sobre a concepção de visões do mundo ou aspectos ideológicos na
política. Enquanto Jenkins-Smith et al. (2017) indicaram que análises empíricas têm sugerido
a possibilidade de agregar as crenças essências com as auxiliares da política, em virtude de
61

aplicações do quadro de referência não terem corroborado a existência de uma relação


necessariamente hierárquica entre estas, bem como mantêm o direcionamento a buscar
aprofundamento em outras abordagens como de orientação cultural, normativa ou narrativa.
Assim, recorrer a um aporte específico para orientação substantiva sobre a constituição
de crenças na política consideramos condizente com a proposta do quadro de referência
enquanto plataforma de pesquisas, e representa uma prática relativamente frequente nas suas
aplicações, conforme Weible, Sabatier e McQueen (2009), contanto que seja compatível com
seus pressupostos. Neste sentido, decidimos que a aplicação do quadro de referência de CD
nesta pesquisa será combinada com uma orientação de análise de discurso, com vistas a dar
maior suporte a concepção sobre sistemas de crenças e de representação de mundo, bem como
sobre os processos de mudanças em crenças individuais a partir de dinâmicas coletivas. Ou
seja, como tais sistemas de crenças e representacionais são constituídos por, e constituem,
relações sociais.
Cabe esclarecermos que, pela concepção original do quadro de referência de CD, a
unidade de observação primária é o ator político individual, e a partir da análise destes atores
individuais e suas crenças expressas, chega-se à agregação destes em coalizões de defesa. Por
isso, Hajer e Laws (2006) indicam que o conceito de crenças está vinculado a uma visão de
ênfase individual no processo de política, enquanto que a concepção de discursos e narrativas
atuam em um espaço mais inter-relacional (na interação discursiva do indivíduo com outros
atores nas ações coletivas), sendo a primeira mais ampla em termos de ordenação social.
Neste decurso, tanto Hajer e Laws (2006) quanto Weible et al. (2011) realçaram que
abordagens narrativas têm expandido e aperfeiçoado o quadro de referência de CD ao associar
os pressupostos de racionalidade limitada e do sistema de crenças com uma interpretação da
construção social sobre como coalizões se articulam e se engajam em determinadas direções
estratégicas.
Desta forma, compreendemos ser aplicável a integração do quadro de referência
também às abordagens discursivas, viabilizando uma leitura das inter-relações entre as
crenças dos atores individuais e as representações sociais constituídas na política de CT&I em
níveis mais abrangentes de análise, ou seja, permitindo a construção de pontes mais explícitas
entre atuações (e crenças) de atores individuais locais em níveis micro e meso de análise, e a
influência nestes de movimentos mais amplos de ordenação política e social.
Para tanto, escolhemos o enfoque de análise de discurso (AD) especificamente em sua
vertente denominada de Análise de Discurso Crítica (ADC), para esta integração em função
das características do problema de pesquisa que está relacionado com o enfrentamento das
62

desigualdades. Van Dijk (2001) argumenta que, embora ADC apresente múltiplas abordagens,
a reunião destas em uma perspectiva compartilhada tem como foco a análise de questões de
justiça social, com objetivos relacionados a explicar, expor e resistir às desigualdades sociais.
Magalhães, Martins e Resende (2017), corroboram com esta visão ao indicar que desde seu
desenvolvimento inicial, na década de 1980, a ADC tem se definido como um enfoque crítico
voltado ao estudo de problemas sociais, em particular em situações que práticas discursivas
desempenham papel relevante na produção, reprodução ou superação de desigualdades.
Entendemos também que a ADC se conforma a fundamentos do quadro de referência
de CD, seja em relação à centralidade deste ao enfoque cognitivo e ideacional, cujo exame
poderá ser orientado e operacionalizado pela análise de discursos (maior detalhamento na
próxima seção); seja pela perspectiva sobre processos de mudança na política, presente como
ponto de atenção na abordagem de CD, e que ao poder se configurar como possibilidades de
transformação social, também é preocupação norteadora na ADC.
Além desta integração ao quadro de referência da análise de discurso, outra distinção a
ser indicada é que nossa aplicação não tem como foco principal explicitamente testar
hipóteses específicas desenvolvidas no âmbito deste quadro de referência, principalmente
enquanto proposições teóricas gerais19 como formuladas em Sabatier e Jenkins-Smith (1993),
e revistas e ampliadas em outras publicações, como em Weible, Sabatier e McQueen (2009) e
em Jenkins-Smith et al. (2017). Nosso objetivo primário está em iluminar uma prática situada
de política para enfrentamento das desigualdades em CT&I e, assim, também servir como
instrumento para informar as coalizões de defesa, auxiliando no aprendizado do processo de
política. Contudo, considerações sobre contribuições teóricas no âmbito das discussões sobre
o quadro de referência advindas da análise do fenômeno empírico no que tange a categorias e
relações teóricas evidenciadas ou não no processo de política no contexto em estudo serão
realizadas em apontamentos na conclusão.
Este direcionamento atende a nossa compreensão e intenção de pesquisa de que seja
valorizado um enfoque finalístico sobre a necessidade de uma maior sensibilização na política
de CT&I para seus efeitos distributivos, ainda escassamente discutidos. Entendemos que, por
meio da articulação do quadro de referência de CD, seja possível propor a identificação de
diferentes articulações sobre enfrentamento das desigualdades no processo desta política

19
Cabe esclarecermos que estamos considerando uma diferenciação entre quadro de referência (framework),
teoria e modelo como proposto por Schlager (2007), seguindo a linha de proposição de Elinor Ostrom, para a
qual os quadros de referência provem plataformas com fundamentos para organização da pesquisa (um conjunto
de variáveis, seus conceitos e relações gerais entre estas) com uma linguagem metateórica (comum a diferentes
teorias), mas sem prover explicações ou predições específicas, estas seriam caracterizadas como teorias e
modelos teóricos, que podem ser desenvolvidas a partir destes quadros de referência.
63

estadual de CT&I, bem como, instigar maiores debates por parte das coalizões e atores
políticos, no sentido tanto de chamar atenção aos impactos, limites e potencialidades da
política, quanto sobre a necessidade e oportunidades de promover refinamentos dos modelos e
instrumentos conceituais, analíticos e metodológicos adotados em seus programas
governamentais.

1.3 APONTAMENTOS SOBRE A CONSTRUÇÃO DO PERCURSO TEÓRICO E


METODOLÓGICO: O OFÍCIO DE ENTRELAÇAR OS CONCEITOS CHAVES E OS
MÉTODOS NESTA PESQUISA

Apresentado o quadro de referência de CD e feitas ponderações de sua aplicação nesta


pesquisa, nesta seção avançaremos para elaborações do percurso teórico-metodológico,
explicitando esforços de desdobramento de conceitos chaves em direção a sua
operacionalização no campo de investigação. Em especial, nosso foco está em conceber os
delineamentos necessários às três categorias básicas para esta pesquisa: o subsistema da
política, coalizão de defesa e sistema de crenças.

1.3.1 Delineamento do subsistema da política e dos casos na pesquisa

Como indicado, a categoria de subsistema da política é a unidade de análise principal


do quadro de referência de CD, assim seu delineamento empírico serve de recorte ou fronteira
para o foco da pesquisa. Em termos conceituais, Sabatier (1993) sugeriu a delimitação de
subsistema da política a partir de duas dimensões: territorial e funcional/substantiva. Contudo,
embora seja estabelecido tais dimensões e estipulado que o espaço de análise de subsistema
seja de amplitude meso ou intermediária, este delineamento ao fenômeno específico de
pesquisa não é desprovido das relações problemáticas próprias do acoplamento entre a ideia
conceitual e os aspectos empíricos do fenômeno em estudo, nos termos realçados por Ragin
(1992a).
Neste sentido, usamos o conceito de casing de Ragin (1992a) como processo
metodológico para fazer o delineamento de subsistemas da política enquanto casos na
pesquisa. A partir da literatura de pesquisa orientada por caso20, Ragin (1992a; 2009) propõe

20
Ragin (1992b) e Byrne (2009) reconhecem que o termo caso é um constructo metodológico básico nas
ciências sociais, por isso submetido a uma pluralidade de concepções usado em múltiplos métodos, com distintas
abordagens e foco. Na publicação de Ragin e Byrne (2009), um conjunto de métodos que usam alguma definição
64

que casing é o processo de constituir (delimitar e declarar) o caso de pesquisa, pelo “encaixe”
de ideias (categorias teóricas e abstratas) e evidências (dados empíricos e especificidades) do
fenômeno em análise. Desta concepção, Byrne (2009) direciona o conceito de casos enquanto
sistemas complexos delimitados de forma substantiva pela combinação de evidências
empíricas e categorias teóricas.
Uma característica central da proposta de casing de Ragin (1992a) é sua natureza de
processo, a qual implica no reconhecimento de constantes operações metodológicas pelo qual
este entrelaçamento teórico-empírico ocorre à medida que a pesquisa avança. Para o autor, o
casing pode ocorrer em quaisquer fases do processo de pesquisa, sendo mais comum no início
e no fim. Assim, o delineamento do caso geralmente é declarado no início da pesquisa de
forma a prover identidade teórica-empírica provisória ou tentativa, mas apresenta certa fluidez
no decorrer desta, podendo sofrer delimitações posteriores por acoplamentos e ajustes
sucessivos das ideias teóricas com os dados empíricos, até seu encerramento (RAGIN,
1992a). Nesta mesma perspectiva, Ragin (1992a) pondera que os casos são múltiplos na
maioria dos esforços de pesquisa, em virtude dos conceitos e dados empíricos poderem estar
ligados de muitas maneiras diferentes.
Pela aplicação do casing na pesquisa atual no delineamento de subsistema da política,
percebemos duas principais configurações, subsequentes e sobrepostas, de casos (e
subsistemas de políticas): um delineamento inicial geral que procurou delimitar o subsistema
da política estadual de CT&I no Pará e, a partir deste, a identificação e delineamento posterior
específico de subsistemas de política vinculados às temáticas para enfrentamento das
desigualdades selecionadas para estudo em maior profundidade.
A delimitação inicial do subsistema da política estadual de CT&I no Pará, seguiu
operacionalmente as dimensões propostas por Sabatier (1993), conforme segue: (i) dimensão
territorial teve como diretriz a noção convencional21 de unidade federativa, referente ao estado
do Pará e as respectivas organizações de políticas localizadas no âmbito de seu governo

de caso como critério central ao desenho da pesquisa são denominados de métodos baseados em caso ou
pesquisas orientadas por caso (case-based methods ou case-oriented research), em alternativa a pesquisas
orientadas por variáveis (variable-oriented research). Embora ambas as alternativas de métodos articulem casos
e variáveis, a diferença para estes autores está na primazia conferida a cada instância no delineamento da
pesquisa, ou seja, na pesquisa orientada por caso, a definição do caso (ao invés de relações causais entre
variáveis) é o ponto de partida prevalente para a concepção do desenho da pesquisa.
21
Uma vez que buscamos analisar o processo político em uma esfera subnacional, consideramos que adotar a
divisão convencionalizada na organização política de divisão das unidades federativas seja apropriado à
pesquisa, contudo, reconhecemos que é uma fronteira empírica instrumental em relação ao caso (RAGIN, 1992),
que não necessariamente corresponde a admitir que a atuação de coalizões nos processos de política ocorra
plenamente no território convencionalmente delimitado, uma vez que determinados dados ou eventos podem ter
ocorrência concentrada em partes do território, enquanto outros o extrapolam.
65

estadual e; (ii) a dimensão funcional e substantiva corresponde aos atores e organizações


envolvidos no processo de política associado à temática de CT&I, cujo enfoque de
identificação esteve sob as principais organizações do governo estadual responsáveis por
programas desta temática nos planos plurianuais e do complexo de ensino superior e pesquisa.
Esta configuração foi a base para uma análise dos principais conteúdos e linhas
temáticas presentes em diretrizes e fomentados por instrumentos nesta política, na qual
buscamos discernir as ações para enfrentamento das desigualdades existentes. Por este
contorno, objetivamos uma primeira aproximação ao fenômeno de pesquisa, de forma a
proporcionar uma visão global do processo de política estadual e situar ações para o
enfrentamento de desigualdades nele, percebendo a abrangência e diversidade de dimensões
de enfrentamento existentes e sua extensão no conjunto de investimentos e ações do
subsistema da política.
A partir desta perspectiva geral, selecionamos duas temáticas específicas de
enfrentamento das desigualdades para estudo aprofundado, enquanto um nível de análise
subsequente. Deste modo, fizemos a delimitação para cada subsistema de política específico
às temáticas, em que procuramos identificar as coalizões defesa, por meio de seus sistemas de
crenças e seus recursos e estratégias mobilizados nas ações coletivas. Neste âmbito que
buscamos avançar nas respostas à questão de pesquisa sobre como ocorreram as articulações
entre atores nestas temáticas e a abrangência conceitual e material das ações promovidas.
Estes dois contornos de delimitação de subsistemas no âmbito da política paraense de
CT&I são esboçados no quadro 2.

Quadro 2 – Delineamento de subsistemas na política de CT&I no Pará por níveis de análise


Contorno de casos de
Descrição
análise
Este contorno de análise relaciona-se ao processo da política de CT&I
desenvolvida no âmbito do governo estadual do Pará, tendo como referência as
Subsistema de política
diretrizes do processo da política (Plano Diretor de CT&I, Plano Plurianual),
estadual de CT&I
relatórios institucionais das principais organizações e dados de execução
finalística.

Subsistemas de políticas Este contorno de análise corresponde a programas ou temáticas subsetoriais


estaduais de CT&I selecionados no processo estadual de CT&I no Pará, que englobem projetos e
temáticas com escopo atividades voltados para o enfrentamento de desigualdades. Seu escopo para
voltado ao enfrentamento mapeamento dos atores políticos envolverá analisar dos respectivos desenhos de
de desigualdades programa, planos, instrumentos, projetos (e respectivos relatórios) ou eventos.
Fonte: Elaborado pela autora (2019).
66

Nesse desenho, temos dois níveis de análise de casos para estudo, um referente a uma
análise de contextualização e caracterização do subsistema da política estadual de CT&I, que
será o enfoque desenvolvido no capítulo 3; e, outro relacionado a análise mais aprofundada
dos subsistemas de políticas para enfrentamento das desigualdades, sendo os casos
selecionados os do subsistema da política de tecnologia assistiva (enfoque do capítulo 4) e do
subsistema da política de tecnologia social (enfoque do capítulo 5), com vistas a permitir
compreender como essas temáticas têm sido articuladas e efetivadas. Neste nível mais
detalhado de análises em que centraremos na identificação de coalizões de defesa,
operacionalizada a partir da percepção de crenças essenciais da política entre os atores
políticos em atuação nessas temáticas, e as distintas formas de coordenação de suas ações
coletivas.

1.3.2 A análise de discurso como suporte à identificação de coalizões de defesa

Coalizão de defesa é a categoria chave para agregação de atores políticos e


entendimento da ação coletiva destes no processo de política público pela ótica do quadro de
referência de CD. Pelo conceito anteriormente apresentado, as duas características principais
de uma coalizão de defesa relacionam-se ao compartilhamento de crenças sobre a política e a
existência de uma coordenação coletiva entre seus membros. Neste sentido, nossa análise de
coalizões procurou, por um lado, distinguir as crenças em atributos e instrumentos da política
de CT&I dos atores políticos e, por outro lado, compreender como estes se articulavam e
mobilizavam recursos no processo da política.
Pelo enfoque de ênfase cognitiva do quadro de referência, discernir as crenças dos
atores políticos é um ponto fundamental à pesquisa, e para nos auxiliar nesta atividade
optamos pelo método de ADC, como anteriormente indicado. Especificamente, a ADC é
comumente associada a autores como Fairclough, Wodak e van Dijk (CHILTON, 2007). Para
Fairclough (2005), a ADC não pretende fazer a análise de discurso por si, mas busca integrar
a análise de práticas discursivas e não discursivas para compreender as relações sociais, em
particular entender como mudanças nos discursos interagem com mudanças em elementos não
discursivos para transformação social. O autor (2007) destaca que os processos
governamentais e políticos são substancialmente baseados em uso de recursos de linguagem, e
que mudanças de direções e orientações em agências do governo tendem a se relacionar a
mudanças no uso da linguagem, ou seja, toda mudança social também possui uma faceta
discursiva. Um exemplo se refere à internalização de novos conjuntos de termos como
67

demonstrado na análise da reforma de orientação neoliberal na Inglaterra em que Fairclough


(2007) verificou a mudança de denominação de “beneficiário” ou “usuário” de serviços
públicos para “cliente” ou “consumidor” em discursos políticos.
Consoante à abordagem da AD, Fairclough (2001) ao desenvolver uma teoria social
do discurso, o assume enquanto prática social, e articula uma relação dialética entre o discurso
(prática social) e a estrutura social. Neste sentido, o discurso não somente é representação da
realidade, mas também apresenta efeitos constitutivos nesta, corroborando o pressuposto do
quadro de referência de CD sobre a capacidade das crenças dos atores políticos, a partir do
processo de politics, conformar o conteúdo negociado da política pública.
Assim, Fairclough (2008) defende que a mudança no discurso é parte da mudança
política, e a mudança política pode ser parcialmente compreendida em termos de efeitos
construtivos de disputas discursivas no processo de política. Porém, a mudança na política
não é somente a mudança no discurso, pois há outros elementos sociais também relevantes,
daí a importância indicada pelo autor em integrar o exame detalhado de textos (enquanto
prática social discursiva) com análise de práticas sociais não discursivas (programas e ações
efetivamente postos à prática) para compreensão da mudança social (FAIRCLOUGH, 2005).
Nesta perspectiva, segundo Fairclough (2001) em sua teoria social do discurso, o
discurso apresenta três funções: a construção de identidades e posições sociais do sujeito
(função identitária), a construção de relações sociais entre sujeitos (função relacional), e a
construção de sistemas de conhecimentos e crenças coletivas (função ideacional). Esta
terceira função do discurso entendemos se relacionar com o discernimento de sistemas de
crenças no âmbito do processo de política. Em sentido similar, em análises de discurso no
âmbito de políticas públicas, Taylor (1997) realça a relação entre texto, contexto e
consequências. A autora argumenta que a análise de discurso ao tratar de aspectos de
linguagem e significado pode ser aplicada para explorar contextos históricos no campo da
política, rastreando como problemas foram construídos e definidos: diferenças de
terminologias refletem contextos históricos específicos e seus elementos econômicos, sociais
e culturais, com implicações nas formas pelas quais conceitos são propostos, aplicados e
compreendidos.
Além disso, as contradições e conflitos de interesse do contexto também são refletidos
como discursos concorrentes que buscam pautar questões específicas na agenda, moldando a
forma como a política torna-se enquadrada nos conteúdos e linguagem dos documentos
políticos (TAYLOR, 1997). A noção de discursos concorrentes é enfatizada por Taylor (1997)
referente a uma faceta do processo da política como arena de conflitos sobre significados e
68

objetivos, no que remete a denominação de politics do discurso. A interação entre texto,


contexto e consequências também pode ser orientada a análise de resultados e impactos da
política, o que está vinculado a outro objetivo da presente pesquisa de averiguar a efetividade
de enfrentamento de desigualdades no processo da política de CT&I em termos de forma,
direção e intensidade das intervenções públicas.
Assim, entendemos que o método da ADC adere aos objetivos de operacionalizar o
exame do sistema de crenças das coalizões, bem como propicia mecanismos de diálogo entre
aspectos conceituais (práticas discursivas) e materiais (práticas não discursivas como
exercício de recursos materiais e estratégias de ação, assim como produtos e resultados da
política) no subsistema de política, consoante a questão de pesquisa proposta nesta tese. Para
tanto, algumas orientações próprias da ADC devem ser agregadas ao percurso teórico-
metodológico da pesquisa, as quais tratamos nesta seção.
Como mencionado anteriormente, a perspectiva da ADC traz uma conformação mais
detalhadamente entrelaçada entre estrutura social e as relações político-sociais advindas da
agência individual dos atores políticos que o aporte do quadro de referência de CD, cujo foco
está mais sobre esta última. Em uma perspectiva geral da análise de discurso, Gill (2002)
estabelece que o termo discurso é empregado para se referir a todas as formas de fala e textos
que, apesar da existência de diferentes abordagens, apresenta duas características básicas
compartilhadas: (1) a compreensão que a linguagem é construtiva e construída das/nas
relações sociais, havendo uma preocupação com a orientação da ação do discurso, entendido
enquanto prática social e; (2) uma ênfase à concepção que a fala e o texto são organizados
retoricamente, no sentido em que ao se relacionar a uma visão de mundo social caracterizado
pelo conflito, a natureza retórica do texto atribui uma finalidade persuasiva à organização
textual e ao exercício deste.
Nesta concepção de discurso enquanto prática social22, no âmbito da ADC, Fairclough
(2001) concebe que o discurso apresenta três dimensões para sua análise: uma diretamente
reconhecida que é o texto em si (linguagem oral, escrita ou visual); outra sendo a prática
discursiva (enfoque interacionista que toda linguagem/texto possui uma faceta de interação
entre sujeitos sociais) e; a prática social, que engloba a prática discursiva e demais elementos

22
Conforme Chouliaraki e Fairclough (1999) práticas sociais se referem a formas e maneiras habituais, em
tempos e espaços particulares (contextualmente situadas), pelas quais pessoas aplicam recursos, materiais ou
simbólicos, para agirem, e interagirem, conjuntamente no mundo. De forma geral, para Dahler-Larsen (2012) a
concepção de ações humanas enquanto prática social implica em tomar sobre estas uma perspectiva analítica
social e historicamente contextualizada, enfatizando seus aspectos interacionais e potencialmente contestáveis.
69

ou circunstancias não discursivas, sejam materiais, institucionais e organizacionais. Na figura


2, apresentamos graficamente estas três dimensões.

Figura 2 – Três dimensões de análise de discurso propostas por Fairclough

Fonte: Fairclough (2001).

Neste sentido, Fairclough (2001) define itens de exame para cada dimensão: (i)
análise do texto, denominada de dimensão descritiva, envolve o exame de itens de
vocabulário, gramática, coesão e estrutura textual; (ii) análise da prática discursiva, dimensão
analítica que busca vincular a análise de elementos textuais com um nível mais amplo de
práticas sociais dos atores, em termos da produção, distribuição e consumo dos textos em
análise. Seus itens de investigação contemplam a força dos enunciados constituídos, coerência
dos textos e intertextualidade e; (iii) análise da prática social, dimensão também analítica,
representa o lócus da interpretação de discursos que integra a análise das práticas discursivas
com práticas não discursivos de caráter econômico, político, cultural ou social, de acordo com
a orientação teórica social do pesquisador. Considerado o direcionamento da ADC para a
relação entre discurso e poder, Fairclough (2001) indica esta instância como correspondente à
reflexão dialética entre a prática social e estrutura social, recorrendo a itens de pesquisa de
ideologia23 e hegemonia24.

23
Fairclough (2001) adota o conceito de ideologia enquanto significações e construções da realidade (enquanto
mundo natural e de relações e identidades sociais) que são concebidas em múltiplas dimensões de formas e
sentidos das práticas discursivas e que contribuem para a produção, reprodução ou transformação de relações de
dominação.
24
Fairclough (2001, p. 122-123) indica que adota o conceito de hegemonia baseado em Gramsci em que
corresponde ao exercício de poder sobre uma sociedade que envolve tanto liderança quanto dominação de outras
forças sociais em domínios econômicos, políticos, ideológicos e culturais, porém somente é alcançado de forma
parcial e temporária, enquanto um equilíbrio instável. Neste cenário, os pontos de instabilidade do exercício de
poder representam os espaços de “lutas hegemônicas” para “construir, manter ou romper alianças e relações de
dominação/subordinação”.
70

Para Resende e Ramalho (2006) esta concepção de discurso enquanto prática social,
implica em considerá-lo como um modo de ação e representação historicamente situado, que
tanto é constituído socialmente como também é constitutivo de identidades sociais, relações
sociais e sistemas de conhecimento e crença. Portanto, todo texto (linguagem em uso) é visto
como produção social e historicamente situada que dizem respeito a nossas crenças, práticas,
ideologias, atividades, relações interpessoais e identidades. Essa concepção corresponde a
compreender que, por um lado, estruturas sociais organizam a produção discursiva nas
sociedades e, por outro, cada enunciado novo é uma ação individual sobre tais estruturas, que
pode tanto contribuir para a continuidade quanto para a transformação de formas recorrentes
de ação (RESENDE; RAMALHO, 2006).
Resende e Ramalho (2006) ainda ressaltaram que a vertente da ADC, em particular a
partir do trabalho de Chouliaraki e Fairclough (1999), reforçou a visão do discurso como um
momento constituinte das práticas sociais, que tem conduzido a uma menor centralidade da
análise no discurso em si, para uma abordagem mais interativa deste discurso nas práticas
sociais. Desta orientação analítica emerge a necessidade das análises dos textos serem
precedidas e integradas por análises das conjunturas sociais e políticas que os situem. Neste
sentido, realçamos duas diretrizes para pesquisa das autora, conforme expresso abaixo. A
primeira se refere a necessidade de considerar duas faces ou camadas de análise, uma
referente à conjuntura social sobre o problema em estudo e as práticas sociais específicas
relacionadas a este; e outra correspondente a análise textual, que poderiam envolver uma
diversidade de estratégias linguísticas quanto aos significados identitários, acionais ou
representacionais. A segunda se refere as práticas sociais apresentam quatro elementos ou
processos inter-relacionados que englobam o discurso (a expressão de processos de
significação ou proposição de significados sociais), a ação material, as relações sociais
(incluindo as interações e disputas de poder), e o fenômeno mental em indivíduos
(constituição e transformação de crenças, valores e desejos internos). Nesta concepção,
representada na figura 2, há uma descentralização da análise do discurso no âmbito da prática
social, e a explicitação de interações deste com outros elementos.
71

Figura 3 – Gráfico dos elementos de análise de práticas sociais.

Fonte: Adaptada pela autora a partir de Resende e Ramalho (2006).

Esta abordagem sobre práticas sociais ressalta uma perspectiva de discurso em


articulação e internalização com os demais elementos, estabelecendo assim as relações entre
discursos, enquanto ação e representação social, e crenças, enquanto fenômeno cognitivo
individual, que consideramos relevante ao entendimento do compartilhamento de crenças em
coalizões de defesa e a constituição de discursos políticos para ação coletiva destas. Bem
como, as interações entre processos de concepção conceitual e de significação de políticas
(por meio de crenças e discursos) e processos de realização material nestas (por meio de ações
materiais e relações sociais) são também realçados. Estas interligações entre processos de
concepção conceitual e realização material estão diretamente associadas a questão de pesquisa
de entender como têm sido articuladas ações para enfrentamento das desigualdades no
processo de política de CT&I e a abrangência conceitual e material que tais ações tem
alcançado.

1.4 DIREÇÕES PARA PRÓXIMOS CAPÍTULOS

Neste capítulo, focamos na apresentação de conceitos e quadro de referência voltados


à discussão e justificação da orientação teórica e suas interações para construção do percurso
metodológico da pesquisa. Consideramos relevante informar as diretrizes de análise de
política que nos orientaram no decurso desta tese para examinar a política de CT&I a partir de
um processo de politics que seja sensível a percepção de diferentes crenças e concepções da
relação entre CTS.
72

Ao considerar as categorias conceituais do quadro de referência de CD e as


orientações da ADC, antes de analisarmos o processo de política estadual de CT&I do Pará,
buscaremos fazer um exame da trajetória e conjuntura desta política de CT&I em uma
perspectiva de contextos de convergência internacional e de conformação de especificidades
nacional. Nesta trajetória, focaremos na investigação das principais concepções, atributos e
práticas situadas deste domínio de política, com vistas a conceber as principais orientações
discursivas neste, as quais são constitutivas e constituídas das/pelas crenças e ações dos atores
políticos. Este exame, objeto do capítulo 2, também comporá o que no quadro de referência
de CD foi denominado de parâmetros relativamente estáveis do sistema, principalmente no
que tange a expressar os atributos básicos da área e valores socioculturais nela enraizados por
seus atores políticos preponderantes.
Uma vez compreendida, em termos gerais, a trajetória da política de CT&I e seus
principais atributos e orientações discursivos é que contextualizaremos e caracterizaremos o
processo de política de CT&I do governo do estado do Pará no capítulo 3. Entendemos que,
assim, teremos uma visão mais situada deste e de sua interação com outros âmbitos da
política, ou seja, de como processos de ordenação política e social mais amplos interferem nas
práticas sociais estabelecidas e nas ações e crenças de seus atores políticos.
73

2 POLÍTICA CIENTÍFICA, TECNOLÓGICA E DE INOVAÇÃO: CONJUNTURA E


ORIENTAÇÕES DISCURSIVAS

Neste capítulo, procuramos fazer uma revisão de literatura sobre política de CT&I
direcionada a compreender a conjuntura e as principais orientações discursivas deste domínio
de política. Nosso foco está em proporcionar uma conjuntura do processo da política, que em
termos gerais, ilumine alguns parâmetros relativamente estáveis do contexto no qual o
subsistema de política, a ser analisado, está situado e; em termos específicos componha uma
matriz de referência de suas orientações discursivas principais, com vistas a auxiliar-nos na
identificação de crenças dos atores no processo da política em análise nesta tese.
Do ponto de vista da análise de conjuntura para compreensão dos parâmetros
relativamente estáveis, enfocamos a identificação dos atributos básicos do domínio da política
(CT&I) e das percepções sobre a questão da desigualdade e desenvolvimento no âmbito das
relações entre CTS. Neste sentido, a nossa revisão de literatura buscou contemplar a trajetória
histórica de conformação de políticas, considerando seus principais atores políticos e
concepções e atributos sobre CTS e práticas do processo de política. Nossa ênfase sobre as
concepções e atributos da política parte da noção já exposta, qual seja, que a política pública é
constituída enquanto tradução negociada de enfoques conceituais e analíticas de seus atores
políticos.
Assim, a partir da nossa reconstituição desta trajetória do processo da política pela
revisão de literatura, também procuramos distinguir diferentes orientações discursivas deste,
ao discernir noções normativas e abordagens conceituais e analíticas para proposição de uma
matriz de referência de discursos, a qual entendemos que nos auxiliará na identificação de
crenças de atores políticos e seu compartilhamento em coalizões de defesa. Neste sentido,
buscamos abranger tanto aspectos considerados como de crenças auxiliares da política
(regras, instrumentos e práticas estabelecidos na definição de agenda, formulação,
implementação e avaliação no âmbito da política de CT&I); quanto aspectos relacionados às
crenças essenciais da política (concepção de C&T, de modelo de inovação, de quem produz
conhecimento e tecnologia na sociedade; de quem são os protagonistas legitimados e do
escopo de política priorizado), estendendo até a visão do papel da C&T em um projeto de
desenvolvimento da sociedade (interações entre C&T e desenvolvimento e o enfoque sobre
desigualdades).
Cabe indicarmos que, diversos foram os termos identificados em nossa revisão de
literatura para distinguir tais concepções e visões representacionais sobre atributos da política
74

de C&T e de problemas relacionados as desigualdades, como paradigma (VELHO, 2011),


modelo cognitivo (DAGNINO, 2007; SERAFIM, 2008), racionalidade (DIAS, 2009), cultura
da política (ELZINGA; JAMISON, 1995) e discurso (LEVITAS, 2005; VIOTTI, 2008).
Embora estes termos possam ter conceitos e operacionalidades analíticas próprias, o ponto
comum que encontramos entre eles foi que abordaram a interpretação do processo da política
a partir de um primado das ideias (FARIA, 2003). E, como anteriormente mencionado nesta
pesquisa, nós seguiremos adotando para análise das concepções expressas e orientadoras da
ação coletiva, o conceito de discurso a partir da ADC, para dialogar com as elaborações
cognitivas e ideacionais, enquanto instâncias de interpretação, representação e ação no mundo
pelos atores políticos.
O roteiro de revisão da literatura que constitui esse capítulo tem, portanto, três (3)
seções: (1) a seção inicial perpassando as concepções de política de CT&I em uma
perspectiva mais abrangente de convergência internacional, proporcionando contextualização
mais geral; (2) a segunda seção, em que adotamos um recorte mais específico para voltarmos
nossa atenção às características distintivas da política de CT&I no Brasil, averiguando suas
aderências e singularidades à trajetória de convergência internacional e; (3) a terceira seção,
em que elaboramos proposta de composição da matriz referencial dos principais discursos
identificados.

2.1 CONCEPÇÕES DA POLÍTICA CIENTÍFICA, TECNOLÓGICA E DE INOVAÇÃO NA


PERSPECTIVA DOS PROCESSOS DE CONVERGÊNCIAS INTERNACIONAL

Inicialmente, esclarecemos que o que denominamos de política científica, tecnológica


e de inovação, refere-se a três atividades diferentes: ciência, tecnologia e inovação, para as
quais cabem algumas elucidações. Neal, Smith e McCormick (2008, p. 6) entendem que
ciência corresponde às atividades que buscam o conhecimento e entendimento da realidade
por meio de método sistemático específico (qual seja o método científico). Enquanto
tecnologia relaciona-se aos esforços, baseados no conhecimento existente, de criação e de
engenharia para alcançar resultados materiais específicos (NEAL; SMITH; MCCORMICK,
2008). Por fim, a inovação, neste contexto de política, seria o desenvolvimento, especialmente
por meio da aplicação dos conhecimentos científicos e tecnológicos, dos novos produtos,
75

serviços ou processos e sua introdução para aplicação na sociedade (COZZENS; BOBB;


BORTAGARAY, 2002)25.
Ao considerar essas diferentes atividades, Cozzens, Bobb e Bortagaray (2002) definem
a política científica e tecnológica, como consistindo de três áreas: (1) uma concernente a
políticas de pesquisa que contempla ações públicas para fomento a criação de novos
conhecimentos; (2) outra referente às políticas de inovação que incluem a ações públicas para
incentivar o desenvolvimento e introdução na sociedade de novos produtos ou processos com
base nos conhecimento científicos e tecnológicos existentes e; (3) a área de políticas de
formação de recursos humanos que procura assegurar profissionais (pesquisadores e
engenheiros) para atuar nas duas primeiras. Implicitamente transpassando estas áreas, estão as
políticas e processos regulatórios (COZZENS, 2007), que estabelecem regras,
enquadramentos e prioridades nas ações de pesquisa (científica ou tecnológica), inovação e
formação de recursos humanos.
Atualmente há certa naturalização na consideração conjunta de ciência e tecnologia
(C&T) em processos de política pública, e mais recentemente um crescente movimento de
acréscimo e explicitação da inovação (CT&I) nestes. Por isso, propomos como passo inicial
da aproximação conceitual à política de CT&I, situar como decorreu sua evolução e
compreender como se construiu as inter-relações entre estas atividades, ao mesmo tempo em
que se moldaram suas distinções analíticas.
Embora a Revolução Científica, no século XVII, e a Revolução Industrial, iniciada no
século XVIII, tenham se instaurado de forma relativamente independente, passaram por um
processo de fecundação recíproca, particularmente com advento da segunda Revolução
Industrial, de modo que a associação sistemática entre ciência e tecnologia se materializa, e
crescentemente se acentua no decorrer da segunda metade do século XX (DAGNINO, 2008).
A interpenetração entre ciência e tecnologia ocorre em mútuo sentido. Por um lado, o
impulso na acumulação de capital proporcionado pelo progresso técnico, seja por aumento de
produtividade, seja por geração de novos produtos, serviços e negócios, conduz a uma
mudança técnica26 que cada vez mais incorpora conhecimentos científicos e desenvolvimento
tecnológico. A aceleração atual deste processo de incorporação em inovações de
25
Neste âmbito, Neal, Smith e McCormick (2008, p. 6) ainda introduzem dois conceitos frequentemente
articulados: pesquisa e desenvolvimento. Pesquisa enquanto processo de estudo sistemática através do qual
proposições teóricas e metodológicas científicas são desenvolvidas e avaliadas para aumentar o conhecimento ou
entendimento em determinada temática. E, desenvolvimento como o uso sistemático do conhecimento, advindo
da pesquisa, aplicado à produção de materiais úteis, recursos, sistemas ou métodos, incluindo projeto e
desenvolvimento de protótipos e processos.
26
Mudança técnica, ao ser caracterizada pela intensa apropriação de conhecimento científico e desenvolvimento
tecnológico, passa a ser recorrentemente denominada de inovação tecnológica.
76

conhecimentos científicos resulta em substanciais pressões pela redução do tempo e das


instâncias de mediação entre a emergência de um novo conhecimento e de uma inovação no
sistema capitalista contemporâneo, enfraquecendo o sentido de cortes temporais e espaciais
que diferenciavam a realização da pesquisa básica e aplicada27 (DAGNINO, 2008).
Por outro lado, ao mesmo tempo em que o conhecimento científico produz novas
tecnologias, estas tecnologias também engendram as bases (instrumentais, informacionais
etc.) pelas quais se constroem novos conhecimentos científicos, de forma que a cada vez mais
tecnologia é incorporada no fazer científico (LATOUR; WOOLGAR, 1997). Essas
vinculações conduzem a um paulatino processo de conexão entre ciência e tecnologia, e ao
tratamento conjunto dessas atividades no âmbito político (DAGNINO, 2008).
Assim, em um contexto de já considerável interpenetração entre ciência e tecnologia
no final da II Guerra Mundial, é que ocorre a institucionalização enquanto área de política
pública explícita em diversos Estados-nações das chamadas políticas científicas e
tecnológicas, sendo produto da interação gradual de diferentes iniciativas científicas,
industriais e políticas desenvolvidas desde o século XVII até ganhar maior reconhecimento
governamental no século XX (ELZINGA; JAMISON, 1995).
Para Velho (2011), a origem de institucionalização da política C&T28 é atribuída a
emergência de uma percepção pública sobre a ciência orientada pela crença que, os avanços
do conhecimento científico em suas diversas disciplinas, podem superar limitações e resolver
problemas das sociedades, até então sem solução. Essa crença teria sido fortemente
influenciada pelo desempenho dos esforços científicos e tecnológicos voltados às indústrias
de defesa e atividades militares do período entre Guerras e da II Guerra Mundial, como
exemplo expressivo o Projeto Manhattan. Portanto, a ciência assumia espaço de atenção dos
governos, com vistas a dirigir os resultados das pesquisas para seus objetivos, principalmente
sob amparo dos modelos normativos e institucionais desenvolvidos nos Estados Unidos da
América (EUA) e no Reino Unido, países vitoriosos da II Guerra Mundial.

27
A distinção entre pesquisa básica e pesquisa aplicada foi desenvolvida no âmbito da concepção da cadeia
linear de inovação, como etapas separadas tanto por uma dimensão temporal, quanto por uma dimensão espacial
(DIAS, 2005). A pesquisa básica seria uma etapa inicial, cujo objetivo é obter conhecimento sobre determinada
temática, sem considerações de uso ou aplicações especificas em termos de produtos ou processos, sendo
desenvolvida por universidades e institutos de pesquisa (NEAL; SMITH; MCCORMICK, 2008). A pesquisa
aplicada seria desenvolvida a partir da pesquisa básica (como etapa posterior) para atender alguma necessidade
reconhecida específica, sendo preponderantemente desenvolvida dentro de empresas e seus laboratórios (NEAL;
SMITH; MCCORMICK, 2008), principalmente no contexto de países de capitalismo central.
28
Embora Velho (2011) utilize em todo seu artigo o termo geral de política de CT&I para tratar da evolução
histórica do campo, nós adotaremos inicialmente o termo de política de C&T para o primeiro momento,
passando a explicitar CT&I, somente quando entendemos que ocorre a inserção de políticas específicas para
inovação neste domínio político.
77

Concernente a tal motivação de institucionalização, cabe mencionarmos as duas faces


complementares ressaltadas por Neal, Smith e McCormick (2008) sob enfoque da política
científica: a da Ciência para Política (Science for Policy) e a da Política para a Ciência (Policy
for Science)29. A primeira faceta confere um sentido de política meio à C&T, ao focar no uso
do conhecimento para melhorar a tomada de decisão pública e superar problemas em outras
áreas de políticas, como saúde, meio ambiente e energia. Uma vez legitimado o fomento à
C&T pelos benefícios potenciais contidos nesta primeira dimensão (ciência para política), a
segunda face corresponde ao desenvolvimento de uma política para regular, subsidiar e
supervisionar a condução da ciência, no que tange ao financiamento e à constituição de
estruturas para busca sistemática de conhecimento na sociedade.
A institucionalização de políticas para C&T após a II Guerra Mundial também é
marcada por um processo de difusão internacional desta, pois, como ressalta Velho (2011), há
um movimento de implantação deste domínio de política em diferentes países com adoção de
visões similares, em termos de organização institucional, foco, instrumentos e formas de
gestão, que estão associados com o próprio conceito dominante de ciência, o qual tende a ser
também internacionalmente disseminado. Por conseguinte, a autora propõe que a política de
C&T comporta um processo de convergência internacional, sendo orientada pelas concepções
dominantes sobre a ciência e o fazer científico e tecnológico, em cada período.
Contudo, cabe ressalvarmos que, embora Velho (2011) proponha um predomínio
global do que denominou de paradigma da política de CT&I em cada período temporal na
trajetória histórica da política, os períodos de enquadramento e a intensidade do predomínio
de cada concepção sofrem variações pelos distintos processos de difusão e interação social
nos contextos específicos de cada país. Assim, a trajetória conceitual da política de CT&I,
vista pela perspectiva de convergência internacional, por um lado, procura mostrar os
movimentos similares em diferentes países a partir dos processos de influência e difusão
internacionais; por outro lado, devido ao seu amplo nível de abstração, perde sensibilidade às
características específicas de cada país. Por isso, a perspectiva geral desta seção, não dispensa
um olhar sobre os processos nacionais específicos, de modo que na seção seguinte, faremos
elucidação sintética da trajetória de concepções no contexto brasileiro. Como ponderam

29
Estas duas faces da política científica foram originalmente mencionadas em um relatório da OCDE para
aconselhamentos dos países membros sobre política pública de ciência e tecnologia de 1961 (KING, 1972).
78

Elzinga e Jamison (1995), embora encontremos certa convergência internacional30 na política


de C&T, cada país desenvolve padrões de interação e de processos de política distintivos.
Por fim, cabe esclarecermos que a ascensão e predominância de uma concepção na
política (bem como na C&T) em determinado período, não implica na automática supressão
de concepções anteriores, as quais podem permanecer sendo articuladas por parte de atores no
campo. Neste sentido, a visão da trajetória temporal que empreendemos visa subsidiar a
compreensão de como distintas concepções de política de CT&I foram se conformando ao
longo dos períodos, de modo a compor distintas crenças e concepções atuais.

2.1.1 A institucionalização da política de C&T e a constituição da “C&T como motor do


progresso”

Na proposta de paradigmas da política de CT&I apresentada por Velho (2011), a


primeira concepção identificada foi a da “ciência como motor do progresso”, distintivo da
fase de institucionalização da política e presente nos modelos normativos e institucionais
dominantes à época do final da II Guerra Mundial, particularmente dos EUA e Reino Unido.
Estes modelos foram extensamente difundidos entre governos de outros países
industrializados e, mesmo entre os países ditos em desenvolvimento em seus respectivos
processos de institucionalização de política de C&T, com apoio da atuação de organismos
internacionais, principalmente a Organização para Cooperação e Desenvolvimento
Econômico (OCDE) e a Organização das Nações Unidas para a Educação e a Ciência e a
Cultura (UNESCO) (VELHO, 2011).
Entre as características de concepção de ciência deste período está a defesa da
autonomia da ciência, sob influência da abordagem sociológica de Robert Merton, na qual a
comunidade científica deve atuar como ator dominante da política (VELHO, 2011). Conforme
Sismondo (2010), Robert Merton adota uma abordagem funcionalista-estrutural da sociedade,
onde a ciência figurava entre suas instituições fundamentais, tal como a religião e o Estado.
Nesta perspectiva, a ciência enquanto instituição específica e unificada, demandava uma
determinada estrutura e norma social para cumprimento de sua função, entendida como a de
garantir a ampliação do conhecimento certificado à sociedade (SISMONDO, 2010). Pelo foco
normativo da visão funcionalista, para se garantir o funcionamento adequado da ciência e a

30
Elzinga e Jamison (1995) ressaltam especificamente a proeminência do progresso técnico baseado em ciência,
e a globalização da produção do conhecimento com agendas de pesquisas orquestradas por corpos e
organizações internacionais.
79

entrega de conteúdo certificado à sociedade, era necessário assegurar o atendimento do


comportamento e conduta do cientista a uma estrutura e normas sociais estabelecidas, que por
suas características, a seguir expostas, excluiu dos limites da análise sociológica o conteúdo
em si produzido pela ciência (VELHO, 2011; SISMONDO, 2010).
As quatro (4) as normas mais relevantes da estrutura social que comporia o
denominado ethos da ciência proposto por Robert Merton seguem expostas no quadro 3. No
bojo destas normas sociais da ciência está a noção de neutralidade da ciência que,
acompanhada de certa confusão entre a abordagem normativa (como os cientistas deveriam
agir) e a descritiva (como os cientistas efetivamente agem), tornou obscuro a percepção das
inevitáveis influências sociais no fazer científico (DAGNINO, 2008).

Quadro 3 – Principais normas sociais da ciência propostas por Robert Merton

Normas Descrição

Representa que o critério para avaliação de uma reivindicação científica não pode
relacionar-se à identidade de quem formula tal reivindicação, independente da origem
étnica, nacionalidade, religião ou classe (entre outras características pessoais). Esta
Universalismo norma supõe uma impessoalidade científica, sendo o conhecimento produzido verificado
somente por critérios de objetividade científica (normas cognitivas sobre regras de
evidências e estruturas teóricas de domínio de cientistas especialistas em temáticas). Um
exemplo de prática baseada nesta norma está nas avaliações por sistemas de peer review.

Reconhece que o conhecimento científico é coletivamente produzido, uma vez que todo o
desenvolvimento científico atual se baseia extensamente em resultados de diversas
pesquisas anteriores. Nesta perspectiva de construção coletiva, o conhecimento científico
Comunismo
é entendido como um bem comum, que deve ser amplamente publicizado para permitir o
acesso ao máximo de outros cientistas, os quais a partir deste poderão continuar
expandindo o conhecimento.

Refere-se a regra de conduta pela qual o cientista deve se eximir de seus interesses
Desinteresse pessoais ao desenvolver suas atividades científicas, uma vez que tais tipos de interesses
eram as causas fundamentais de comportamentos de fraudes.

Tendência da comunidade científica de questionar sistematicamente novas reivindicações


Ceticismo
até que se tornem bem estabelecidas, ao passar por diferentes tipos de arranjos
Organizado
institucionais de avaliação.
Fonte: Adaptado pela autora a partir de Sismondo (2010).

Para Dagnino (2008), a origem da ideia de neutralidade da ciência localiza-se nas


condições de surgimento da ciência, em um contexto de contraposição ao pensamento e
conhecimento de base religioso, o qual não seria neutro ou inseparável de suas práticas sociais
e crenças pretéritas. Com a ascensão e predomínio da orientação positivista da ciência, este
entendimento de neutralidade foi reforçado pela alegada necessidade (e possibilidade) de
80

supressão da subjetividade dentro dos limites de uma objetividade científica guiada por uma
lógica própria, autônoma dos processos sociais e conceitos valorativos (DAGNINO, 2008).
Relacionada ao conceito de neutralidade da ciência, estava a concepção de
determinismo tecnológico31, pelo qual a mudança tecnológica é considerada determinante da
mudança social, uma vez que o nível de desenvolvimento tecnológico estabelece os limites
potenciais do que uma sociedade pode produzir ou fazer (DAGNINO, 2008; AULER;
DELIZOICOV, 2001). Esta noção está associada a tese de que o progresso tecnológico
percorre um caminho linear progressivo, de forma que uma tecnologia apresenta uma
configuração de funcionamento e nível de eficiência ótimos definidos por características
internas, independente de influências e relações sociais a serem estabelecidas (AULER;
DELIZOICOV, 2001).
A visão da ciência como livre de valores, enquanto base de sua concepção, busca
desvincular a produção científica (e a tecnológica relacionada) dos seus contextos sociais,
políticos e econômicos, o que conduz a um movimento de “despolitização” da ciência e da
própria política de C&T, a qual pende a uma postura tecnocrática32 (DAGNINO, 2008;
ELZINGA; JAMISON, 1995). Estas crenças sobre o ethos da ciência e concepções
deterministas da tecnologia tiveram forte difusão não somente entre a comunidade de
pesquisa, como também influenciaram a concepção de ciência e de política de CT&I do senso
comum, legitimando socialmente a posição de cientistas e pesquisadores, enquanto grupo
dominante no domínio da política (DAGNINO, 2008).
A direção destas normas de funcionamento da ciência orientou as práticas de produção
e avaliação científicas e tecnológicas centradas nos próprios cientistas, enquanto únicos atores
da sociedade devidamente treinados e disciplinados àquelas (VELHO, 2011). Assim, Velho
(2011) indica que nesta concepção de política de C&T, o Estado era o principal financiador da
expansão do conhecimento científico, visto como bem comum, e delegava aos cientistas
(membros habilitados da sociedade) as funções de seleção de pesquisas (geralmente por meio
de conselhos científicos), produção, e avaliação, por meio de revisão de pares. Deste modo, a
autora assevera que a comunidade científica exercia grande poder na distribuição de recursos,

31
Contrapõe-se à noção de determinismo tecnológico tanto a visão de determinismo social, quanto a visão da
adequação sociotécnica, que serão posteriormente descritas.
32
Para Auler e Delizoicov (2001), a perspectiva tecnocrática de tomada de decisão está baseada em dois axiomas
do que denomina de cientificismo, o da superioridade teórica do conhecimento científico sobre outras formas de
conhecimentos para explicar a realidade, e o da superioridade prática do conhecimento científico para propor
soluções a problemas situados desde o campo técnico ao campo social e ético. Este tipo de concepção, portanto,
não admite a existência de ambiguidades e controvérsias (inclusive científicas) na resolução de problemas na
sociedade, bem como tal intolerância a ambiguidades reduz a propensão a práticas democratizantes ou
participativas na busca de soluções aos problemas sociais ou tecnológicos (AULER; DELIZOICOV, 2001).
81

e prestava contas preponderantemente a si própria, não havendo instrumentalizado na política


meios de controle social direto por outros atores sociais.
Elzinga e Jamison (1995) corroboram com este protagonismo de pesquisadores,
indicando prevalência da cultura acadêmica ou científica na articulação da política de C&T
deste período, cujos membros assumiram posições estratégicas como direção de agências e
conselhos de pesquisa, consultores especialistas (experts) em políticas, e gestores de grandes
projetos, laboratórios e programas de P&D financiados.
Especificamente sobre a concepção do sistema de avaliação implantado na política (o
qual enfatizava um nível micro, sobre projetos e desempenho de pesquisadores), Fonseca
(2009) argumenta que a adoção do modelo de avaliação por pares na política de C&T
conformou uma confusão entre a avaliação de resultado das pesquisas, com a avaliação de
resultados e impactos da política pública. Pois, tal sistema centrou-se na primeira forma de
avaliação, em que cientistas articulam maior domínio, e obscureceu resultados e impactos
quanto a verificação dos supostos benefícios sociais alcançados pelo fomento e ação pública
(FONSECA, 2009).
Isso relaciona-se a outra característica da relação entre C&T e sociedade deste
período, que se referiu ao modelo conceitual de desenvolvimento de inovação, chamado
modelo da cadeia linear de inovação. O enfoque da cadeia linear da inovação tem como
referencial o relatório “Science: The Endless Frontier” entregue em 1945 ao presidente Henry
Truman por Vannevar Bush, à época diretor do Escritório de Pesquisa e Desenvolvimento
Científico do governo norte-americano (DIAS, 2005; VELHO, 2011).
O modelo da cadeia linear de inovação sugere que o processo de inovação percorre
uma trajetória linear iniciada na geração de conhecimento científico por meio da pesquisa
básica, posteriormente passando pela pesquisa aplicada, para, então, transcorrer o
desenvolvimento tecnológico e sua incorporação pela inovação tecnológica em produtos e
serviços a serem produzidos e difundidos na sociedade, sendo que tal inovação promoveria o
crescimento econômico e, por sua vez, resultaria em melhoria do bem estar social
(DAGNINO; THOMAS, DAVYT, 1996; DIAS, 2005; VELHO, 2011).
Para Dias (2005), esta concepção subordinou a inovação e o desenvolvimento
tecnológico à ciência, particularmente ancorando o papel da pesquisa básica ao alcance de
objetivos mais amplos de desenvolvimento nacional. Além disso, cada elemento da cadeia era
visto como correspondendo a dimensões temporais distintas, com lógicas próprias e fronteiras
institucionais específicas, em que a concretização de uma etapa seria condição necessária e
suficiente para a consolidação do elemento seguinte, de modo que a ciência era o ponto de
82

partida para alcance do desenvolvimento social, em uma visão mecanicista e mediante uma
determinação praticamente automática (DIAS, 2005).
Decorrente do modelo linear, a racionalidade da política de C&T assume uma ênfase
na oferta de conhecimento científico, o qual ao seguir o fluxo linear seria, por suposto,
transferido a cada elemento até atingir os setores produtivos (racionalidade ofertista). Desta
forma, o escopo da política estava focado na política científica, e seus principais instrumentos
visavam o fortalecimento de capacidades de pesquisa, como fomento à infraestrutura,
formação de recursos humanos e projetos de pesquisa (DIAS, 2005, VELHO, 2011).
Nesse âmbito, ao considerar a combinação das concepções de neutralidade da ciência
e de determinismo tecnológico, características de uma abordagem positivista, assim como do
modelo linear de geração de inovação, o papel da C&T estava associado a um projeto de
desenvolvimento da sociedade para o qual proveria conhecimentos certificados e soluções
técnicas para problemas sociais e de intervenção por meio de políticas públicas (SALOMON,
1995). Essa concepção universalista e determinística de C&T era funcional dentro de um
modelo de desenvolvimento também difundido nos anos de 1950, que tem entre seus
proponentes Rostow33, para quem a trajetória de desenvolvimento econômico seria descrita
por uma trajetória única e linear composta por uma sequência de etapas históricas34, que seria
comum a todos os países (MACEDO, 2007). Macedo (2007) defende que este modelo de
desenvolvimento teve forte influência na política externa norte-americana no período da
Guerra Fria, em particular na promoção de intervenções modernizantes junto a países
periféricos (até então não industrializados), para as quais haveria uma condição vantajosa pela
disponibilidade de um acervo já acumulado de tecnologia, desenvolvido nos países
industriais.
Nesta concepção, a C&T permanece fundamentalmente direcionada a uma perspectiva
de desenvolvimento entendida enquanto produto imediato e automático do crescimento
econômico, proporcionado pela industrialização e produção em massa. Para Cozzens (2007),
tal visão conduziria a uma orientação de justiça social fortemente agregativa, que tendia a
negligenciar as consequências distribucionais nas políticas de C&T (e de outros domínios de
políticas). No âmbito de estudos e projetos de intervenções de desenvolvimento, a orientação
agregativa focava o alcance de altos níveis de crescimento econômico como a estratégia mais
33
Macedo (2007) faz uma revisão crítica da perspectiva de desenvolvimento econômico defendida por Rostow,
citando como sua principal obra o livro "As etapas do desenvolvimento econômico" de 1961.
34
Rostow propunha uma trajetória com cinco (5) etapas históricas dos países em direção à maturidade
econômica e tecnológica que contemplaria, partir de uma etapa inicial (1) de sociedade tradicional, a passagem
por fases de (2) precondições para o arranco (take-off), (3) o arranco, (4) a marcha para a maturidade, até alcance
da (5) era do consumo em massa (MACEDO, 2007).
83

adequada para o combate à pobreza absoluta, mesmo reconhecendo que o receituário de tal
estratégia poderia elevar níveis de desigualdade na sociedade, considerado, à época, um efeito
colateral que deveria ser tratado posteriormente (RAVALLION, 2005; 2014).
Especificamente no domínio da política de CT&I, a ausência de preocupação distribucional
reforçada pela noção da neutralidade da ciência conduzia à crença, mencionada por Cozzens
(2007), de que cabe a esta política produzir riqueza, e às demais políticas distribuí-la.
Cabe recordarmos, entretanto, que embora a política de C&T tivesse seu processo
decisório centrado em atores da comunidade científica, não implica afirmar que a C&T desse
período era efetivamente alheia à interferência social, ou seja, a interesses econômicos e
políticos de grupos sociais, que orbitavam em torno do sistema político ou aos quais os
próprios cientistas pertenciam (CARLOTTO, 2013). Carlotto (2013) exemplifica o próprio
sistema de financiamento público da ciência estabelecido como explicado por expectativas
políticas e econômicas predominantes na sociedade sobre resultados da C&T, como o foi
preponderante, por exemplo, na área de defesa dos EUA.
Na década de 1960 emergem questionamentos sobre algumas concepções chaves até
então utilizadas, como a de neutralidade da ciência e do determinismo tecnológico,
impulsionados tanto pela compreensão da construção social da ciência e das trajetórias
sociotécnicas, quanto pela percepção de consequências negativas imprevistas do
desenvolvimento tecnológico. Tais questionamentos sobre o conjunto de concepções
desenvolvidas, que entendemos como o discurso predominante da política de C&T até então,
introduzem um período que desestabilização deste e abertura para a constituição e disputas de
discursos alternativos.

2.1.2 Contestações ao discurso predominante e aberturas para a constituição de


discursos alternativos

Este período de acordo com a evolução histórica proposta por Velho (2011)
corresponde as décadas de 1960 e 1970 no contexto internacional da política de C&T. Embora
Velho (2011) apresente este período como um segundo paradigma (“ciência como solução e
causa de problemas”) no domínio da política, na perspectiva da constituição de disputas
discursivas, nós compreendemos que houve uma desestabilização na hegemonia do discurso
da ciência como motor do progresso, por críticas aos seus fundamentos, de modo que abriu-se
oportunidades para desenvolvimento de discursos alternativos até uma nova estabilização da
política em um novo discurso dominante.
84

Elzinga e Jamison (1995) ao fazer a análise da política de C&T pelas culturas políticas,
haviam identificado que o ambiente da política no período anterior tendia a uma
"despolitização" em função das concepções de neutralidade e valores tecnocratas associados a
cultura acadêmica prevalecente. Contudo, os autores também observaram, a partir da década
de 1960, um período intermitente de repolitização, com maior abertura a outras culturas no
domínio da política em nível internacional, em particular enfocando os EUA, Canadá e
Europa ocidental, destacaram a incidência da cultura burocrática, empresarial e de
movimentos sociais.
Este movimento de questionamento do discurso predominante até então é realçado por
Velho (2011), por um lado, enquanto relacionados à intensificação da degradação ambiental e
de seus efeitos na vida cotidiana das sociedades (poluição do ar, água e solo por substâncias
tóxicas), a permanente concentração de renda e movimentos de trabalhadores que perdiam
empregos pela intensificação tecnológica industrial. O que para a autora conduziu a uma
contestação da visão unicamente positiva dos impactos da C&T na sociedade e, portanto, da
legitimidade da suposta autonomia da ciência, de modo a propiciar um contexto de
problematização da relação entre C&T e sociedade e da necessidade de avaliação sobre o
conteúdo em si da ciência. Estes questionamentos, por outro lado, estabeleceram as bases para
emergência do campo de Estudos Sociais da C&T e contestações internas na comunidade
científica dos fundamentos de neutralidade e determinismo da C&T (VELHO, 2011).
Os estudos sobre a construção social da C&T, principalmente desenvolvidos a partir
de microanálises e com foco na conformação do conteúdo da ciência elaborado coletivamente
e negociado entre os cientistas, evidenciaram que os imperativos das relações sociais,
econômicas e políticas forjam o ambiente em que é gerado o conhecimento científico e
tecnológico, de modo que características fundamentais deste contexto social (incluindo
valores e interesses de grupos sociais dominantes) são internalizadas ao conhecimento, para
que este torne-se funcional àquele (DAGNINO, 2008).
Esta compreensão de construção social da C&T opunha-se tanto à concepção de
neutralidade da ciência, quanto também à noção de determinismo tecnológico, pois pressupõe
a tecnologia como um construto sociotécnico, o qual apresenta características de natureza
técnica consubstanciadas a condições sociais de seu desenvolvimento, como aspectos
econômicos, relações de poder, disponibilidade de recursos, regras institucionais, entre outros
(DAGNINO, 2008). Deste modo, o contexto da sociedade (econômico, social, político,
cultural, ambiental) em que uma tecnologia é desenvolvida influi no conteúdo tecnológico em
si projetado, e não somente em sua forma de uso. Nestas bases conceituais, há possibilidades
85

de desenvolvimentos tecnológicos alternativos, responsivos a distintas condições e contextos


sociais; assim como, a relação entre desenvolvimento tecnológico e mudança social não pode
mais ser considerada linear e de direção única, mas um imbricamento de influências mútuas.
No entanto, cabe mencionarmos que tais proposições sobre a não neutralidade
científica ainda se desenvolveram enquanto campo de contestações no decorrer deste período.
Mas, esta perspectiva de questionamentos e proposições da construção social da C&T conduz
a sensibilização de outros atores políticos quanto a necessidade de controle social da C&T em
um movimento no sentido de sua politização (ELZINGA; JAMISON, 1995).
Velho (2011) destacou neste movimento uma confrontação à elevada autonomia dos
cientistas na definição de suas agendas de pesquisa, as quais deveriam ser aproximadas por
sinais de relevância de atores da sociedade. No entanto, a racionalidade de geração de
inovação permaneceu ainda concebida de forma linear, alterando-se somente o sentido
direcional sugerido, que passava a ser normativamente proposto como “demand pull”, ou seja,
seria a sociedade, por seus meios instrumentalizados (notadamente os mecanismos de
mercado em países capitalistas) que deveriam orientar os desenvolvimentos tecnológicos e
científicos necessários.
Entretanto, para efetividade desta vinculação da agenda de pesquisa de C&T às
demandas de outros atores e mecanismos sociais externos à ciência, pronunciou-se enquanto
alternativa na política à necessidade de criar incentivos aos pesquisadores a atenderem
demandas da sociedade, preponderantemente do setor industrial, estabelecendo-se a noção de
Política de C&T vinculacionista (VELHO, 2011).
Esta característica do vinculacionismo também foi emulado no contexto dos países
periféricos latino americanos. Segundo Dagnino, Thomas e Davyt (1996), as empresas locais
nestes países apresentavam limitadas trajetórias tecnológicas, seja pela industrialização
baseada na substituição de importação (foco em produtos e serviços existentes), com a
aquisição de pacotes tecnológicos, muitas vezes das matrizes de multinacionais instaladas,
seja pelas políticas e condições macroeconômicas periféricas, desfavoráveis à inovação (juros
elevados, dependência econômica e tecnológica). Portanto, a difusão e articulação interna da
concepção do “demand pull” nestes países, diante de uma realidade de ausência de demandas
empresariais sobre o sistema de C&T local, levou a realçar o papel vinculacionista da política
de C&T, onde a promoção de interações entre as universidades e institutos de pesquisas e o
setor produtivo ficou a cargo dos primeiros, os quais deveriam produzir C&T com foco na
realização de transferências tecnológicas (DAGNINO; THOMAS; DAVYT, 1996). Na
86

próxima seção, quando tratarmos especificamente da trajetória da política no Brasil,


voltaremos ao conceito de vinculacionismo.
Ao considerar este cenário da política de C&T, Velho (2011), assinala que a ênfase do
processo de política de C&T voltou-se à política tecnológica, e, apesar da comunidade
científica atuar como ator principal na condução e implementação da política, passou a
exercer uma autonomia restrita nos países centrais, uma vez que ocorreu o fortalecimento de
outros atores, em especial dos burocratas e políticos, participantes já tradicionais de outras
áreas de políticas.
Neste período, também observamos iniciativas de desenvolvimento tecnológico
alternativos, associadas a movimentos sociais ou a contextos periféricos, que Thomas, Juarez
e Picabea (2015) irão denominar de uma primeira geração de tecnologias para inclusão social.
Os autores destacam três (3) proposições conceituais de tecnologias concebidas a partir de
1960, senão vejamos. Em primeiro lugar, as tecnologias democráticas, cuja ideia surgiu de
questionamentos que tecnologias geradas para produção em larga escala, implicavam na
internalização de conceitos amparados em decisões centralizadoras, verticais e autoritárias.
Por isso, sua proposta caracterizava-se por um desenvolvimento tecnológico voltado a
pequena escala, com processos de tomada de decisões em nível comunitário e uso discreto de
recursos naturais. Em seguida, as tecnologias intermediárias focadas no desenvolvimento de
pequenas indústrias focadas no atendimento a mercados locais, com tecnologias maduras e
uso intensivo de materiais primas e mão-de-obra disponíveis principalmente em países
considerados subdesenvolvidos, o que pretendia também resolver problemas de desemprego.
A terceira se refere as tecnologias apropriadas, conceito mais amplamente difundido entre
estes, baseava-se na noção de seleção de tecnologias focalizadas em características e
necessidades das comunidades de usuários. Seus atributos chaves correspondiam a
tecnologias maduras, de baixo custo e intensidade de conhecimento científico e tecnológico,
cujas instalação e equipamentos fossem simples e intensivas em mão-de-obra, geralmente
aplicada a escalas reduzidas, como comunitária ou familiar.
Parte dessas concepções de composição e intervenção tecnológicas traziam em seu
bojo discussões de projetos de desenvolvimento sobre um enfoque de sistema centro-periferia,
como aquelas articuladas pela Comissão Econômica para a América Latina e Caribe
(CEPAL), que questionavam a noção de trajetória única e estágios comuns de
desenvolvimento (MACEDO, 2007). Thomas, Juarez e Picabea (2015) realçam que, nas
décadas seguintes, o conceito de tecnologias apropriadas passou a ser incorporado em
intervenções de projetos de desenvolvimento, financiados por agências multilaterais ou
87

governamentais, e programas de assistência internacional a países classificados como


subdesenvolvidos. Contudo, em geral, esses projetos receberam críticas por assimilar um
modelo de implementação top-down de transferência tecnológica e uma noção ortodoxa de
eficiência que limitavam o desenvolvimento produtivo ao inibir inovações e o aproveitamento
de conhecimentos e tecnologias dos atores sociais locais, tendendo a consolidar uma
dependência tecnológica de países periféricos a trajetórias centrais (THOMAS; JUAREZ;
PICABEA, 2015). Deste modo, não obstante essas concepções trouxessem contestações ao
modelo de desenvolvimento de trajetória única e linear, ainda carregavam uma noção
tecnológica neutra e determinista.
As reivindicações contrárias a neutralidade científica e determinismo tecnológico, bem
como as repercussões de impactos negativos de tecnologias na sociedade implicavam em
contestações aos modelos de interação entre a C&T e o desenvolvimento. Era preciso
considerar que o avanço no desenvolvimento científico e tecnológico não necessariamente
coincidiria com o progresso social e moral (SALOMON, 1995). O entendimento das
interações entre C&T com o desenvolvimento da sociedade precisava incorporar novos
modelos analíticos, com elementos estruturais e conjunturais, que o afastasse de visões mais
simplistas de linearidade e determinismo, trazendo em seu bojo a complexidade efetivamente
envolvida nestas relações.
Por fim, em termos de procedimentos de avaliação da política de C&T, embora o
processo de avaliação por pares tenha permanecido como o principal mecanismo, as
contestações sejam de impactos negativos de tecnologias, seja pela necessidade de
atendimento a demandas, provocaram o desenvolvimento de novas metodologias e
instrumentos de avaliações tecnológicas. Sediadas em geral por unidades governamentais,
estes instrumentos visavam identificar setores com demandas de conhecimentos (estudos e
prospecções tecnológicas), ou analisar resultados e impactos de programas tecnológicos.
Godin (2003) também reportou, a partir de 1960, um maior desenvolvimento de
estatísticas e indicadores para a política de C&T. Esta procura em construir e manter séries de
dados e indicadores de C&T foi empreendida principalmente pela National Science
Foundation (NSF) dos EUA e pela OCDE, e inicialmente teve como foco uma abordagem
conceitual de input-output, com dados sobre financiamento e recursos humanos (formação e
ocupação de cientistas e pesquisadores), de um lado; e de produção científica e tecnológica,
principalmente traduzidas em termos de publicações científicas, patentes e balanço de
pagamentos tecnológicos, por outro lado (GODIN, 2003). O autor assinala que a iniciativa de
concepção destes sistemas de informações de C&T principalmente nos EUA buscou
88

responder a um conjunto de ações regulatórias legislativas sobre órgãos executivos e as


políticas públicas implementadas. Embora percebemos estas iniciativas como um esforço em
estabelecer mecanismos de avaliação do valor público da política, uma vez que a proposição e
elaboração destes indicadores eram realizadas por pesquisadores, membros da própria da
comunidade científica, em posição central na política, consideramos que houve uma
conformação destes sistemas de informações à representação interpretativa do status quo da
política.

2.1.3 Ascensão das políticas de inovação e do discurso da C&T como fonte de estratégia
competitiva

Na década de 1980, observamos a ascensão à condição hegemônica de um novo


discurso na política, em um contexto marcado pela ascensão e fortalecimento do pensamento
neoliberal e aprofundamento dos processos de globalização e financeirização da economia
capitalista. Do ponto de vista econômico, nesta conjuntura de um regime de acumulação
baseado na predominância do capital financeiro, ocorre como indicado por Dagnino (2008)
uma intensificação de constrangimentos sobre o Estado e os setores produtivos da economia
para acelerar o retorno sobre os investimentos de capital, os quais são impelidos, entre outras
estratégias, a buscar reduzir, assim, as dimensões temporais e espaciais entre a produção de
conhecimento científico e tecnológico e sua apropriação por meio de inovações tecnológicas.
Carlotto (2013) também lembra que já se tem neste momento uma consolidação da
organização profissional da pesquisa científica e tecnológica, cuja ordenação das relações
sociais, principalmente a partir do assalariamento e de uma gestão hierarquizada, viabiliza
maior controle entre investimento e resultado, bem como maior direcionamento econômico.
Para a autora, esta organização profissional vincula-se mais estreitamente ao processo de
mercantilização da ciência, do que o alicerçamento e instrumentos jurídicos, como de
propriedade intelectual. Neste tocante, Velho (2011) também ressalta o fato de, em países de
capitalismo central, grande parte dos pesquisadores já trabalharem fora do sistema acadêmico.
Do ponto de vista da administração pública, este movimento repercutiu por meio do
modelo da Nova Administração Pública (NAP), associada às ideias do gerencialismo, baseou-
se na incorporação de práticas de gestão do setor privado e de uma cultura empreendedora,
com ênfase a valores de eficiência administrativa e competitividade, nas práticas de
organizações públicas (PAULA, 2005). Segundo Paula (2005), o gerencialismo surgiu nos
movimentos neoliberais de reforma do Estado iniciados no Reino Unido (durante mandatos da
89

primeira ministra Thatcher) e nos EUA (governo Reagan), o qual preconizava a redução da
estrutura do Estado e de seus gastos com bem-estar social; bem como a transposição de suas
práticas para uma lógica empresarial e de mercado, de origem em abordagens funcionalistas,
que enfatizava aspectos técnicos e obscurecia aspectos políticos da gestão.
Mediante difusão destes preceitos de reformas de Estado e na administração pública,
com forte presença de recomendações de organismos multilaterais internacionais nos moldes
do consenso de Washington, tornam-se recorrentes em diversos países ações de privatização,
desregulamentação econômica e financeira, e a redução de gastos estatais em funções de bem-
estar social como estratégia de controle fiscal, como condição para atrair e manter
investimentos estrangeiros diretos, por meio de elevados níveis de retorno do capital.
Em termos mais específicos da relação entre C&T e sociedade, destacamos que houve
no período um aumento de consenso em torno de que a inovação baseada no conhecimento
científico e tecnológico constituía fator crítico para a competitividade e o crescimento
econômico em mundo globalizado, com contínua difusão por agências internacionais,
destaque à OCDE, com a disseminação de ideias associadas à economia do conhecimento35
(CARLOTTO, 2013). Viotti (2008) identifica que a construção de um discurso da inovação
tecnológica como fator fundamental no desenvolvimento econômico e social, sobrepôs-se à
percepção da estreita ligação entre o conceito de inovação então formulado, com base na
perspectiva schumpeteriana, e a apropriação privada dos benefícios da C&T.
Esse movimento também aprofundou a desconstrução das noções mertonianas de
ciência e das especificidades desta como uma esfera social e cognitiva diferenciada
(CARLOTTO, 2013). Para Velho (2011), a concepção da ciência como socialmente
construída, cujo conteúdo em termos de foco, direção e uso são sujeitos à análise e avaliação,
se tornava cada vez mais aceita, e, embora com debates ainda controversos entre os cientistas,
avançou em constituir certo consenso entre analistas da política e da C&T, tomadores de
decisão, burocratas e políticos, inclusive porque sua abordagem conceitual e analítica tende a
atender melhor as posições argumentativas e interesses desses atores no processo de disputa
da política frente à comunidade científica.

35
Segundo Powell e Snellman (2004) a economia do conhecimento envolve setores de produção e serviços
baseados em atividades intensivas em conhecimento que contribuem para a aceleração do avanço científico e
tecnológico, bem como apresentam processos de obsolescência mais rápidos. Os autores reconhecem que o
termo engloba diferentes abordagens e focos de pesquisa, ressaltando três correntes: uma com foco em indústrias
intensivas em C&T, e o conhecimento enquanto fonte de inovação e produtividade; a segunda enfoca análises de
possíveis diferenciações econômicas em termos de novas formas e arranjos organizacionais e tipos de trabalhos
na economia conhecimento; e, por fim, a terceira linha concentra-se de forma mais estreita em uma orientação
gerencial sobre o papel do aprendizado e inovação contínua em empresas.
90

A partir do fortalecimento da visão de construção social da ciência, Velho (2011)


ressaltou mudanças na concepção de locais e de atores sociais em que a produção de
conhecimento e tecnologia vem a ser reconhecida na política. Neste sentido, novas
abordagens explicativas da relação da C&T e sociedade são desenvolvidas, entre estas, o
modelo dos Sistemas Nacionais de Inovação (SNI), contrapondo-se ao modelo linear de
inovação, ganhou notório destaque. Viotti (2003) situa a emergência da abordagem sistêmica
da inovação durante a década de 1980 e início de 1990 em um contexto de debate sobre os
diferenciais de desenvolvimento econômico e tecnológico de países de industrialização
avançada, particularmente EUA, Japão e Europa.
Esse aporte sistêmico do SNI prescreve que inovações assumem diferentes formatos
(produtos ou processos, incrementais ou de ruptura) e não ocorrem em uma sequência
perfeitamente linear, pois possuem múltiplas fontes (pesquisadores, engenheiros,
concorrentes, usuários, regulação) que podem incidir em qualquer etapa do processo inovativo
(pesquisa, desenvolvimento tecnológico e mercadológico, difusão) e, por isso, se
desenvolvem por meio de variadas formas de interação entre os diversos atores, apresentando
um fluxo multidirecional e com ciclos de retroalimentação (OECD, 1997). Nesta perspectiva,
o conceito de sistema nacional de inovação, como expresso nos termos da OECD36 (1997), se
baseia na premissa que o desempenho inovativo de um país depende em larga escala de como
os vários atores interagem na produção, distribuição e aplicação de diferentes tipos de
conhecimento, enquanto elementos de um sistema institucional de criação e uso coletivos de
conhecimento e tecnologia.
Como noção fundamental deste modelo de inovação está a centralidade da empresa
como lócus do processo inovativo e a concepção que conhecimentos científicos e
tecnológicos necessários a mudança técnica no processo produtivo são elementos endógenos a
este, ou seja, requerem que os atores empresariais se apropriem destes para produzir a
inovação, em seu contexto de atuação (OECD, 1997). Deste modo, a eficácia da ação política
de promoção da inovação não está mais em somente produzir um "estoque" de conhecimentos
científicos e tecnológicos em universidades e institutos de pesquisa, mas transita para a ênfase
sobre os canais de interações entre estes e as empresas, que proporcionem que tais
conhecimentos sejam absorvidos ou, preferencialmente, coproduzidos por estas.

36
A OECD/OCDE foi uma das agências multilaterais que exerceu papel proeminente na ampla difusão entre
países desenvolvidos e em desenvolvimento do modelo analítico de sistemas de inovação como base para
proposição de políticas de inovações e indicadores a ela associados (GODIN, 2009; CARLOTTO, 2013).
91

Além da centralidade das empresas (e assim do mercado), responsáveis pela


organização da produção e da inovação, o SNI realça o papel de dois outros atores no
processo inovativo, os governos e as universidades e institutos pesquisa, como canais
institucionais para obtenção de fontes externas de conhecimento pelas empresas (OECD,
1997). Assim, o recorte analítico do modelo concentrou-se sobre a atuação de três (3)
categorias de atores: as instituições de pesquisa (e.g. universidades e laboratórios de
pesquisa), responsáveis pela produção de conhecimento; o Estado, responsável por regular os
processos de produção, fluxos de difusão e reprodução de conhecimentos; e as empresas,
responsáveis pela absorção ou coprodução destes conhecimentos e tecnologias, e a realização
de processos inovativos em si.
Neste contexto, a emergência da inovação enquanto foco de ação do Estado nas, então,
políticas de CT&I, e a primazia do papel das empresas nesta, conferiu um novo foco ao
processo de política, que se voltou a programas de incentivo e gestão da inovação tecnológica,
cuja ênfase não mais concentra-se na pesquisa científica no interior do processo de avanço
tecnológico, mas progressivamente abrange a capacidade de gestão e comercialização da
pesquisa (VELHO, 2011; CARLOTTO, 2013). Houve a construção de instrumentos para
política que enfatizassem a parceria entre o setor público e o setor privado, e acrescentam-se
novas modalidades de fomento voltadas às empresas para que implementassem processos
inovativos tecnológicos, legitimadas como ator relevante no processo da política (VELHO,
2011; CARLOTTO, 2013). A política de inovação, enquanto cerne desta construção
discursiva que se tornava predominante na política, passou a se afirmar de forma cada vez
mais explícita, reconfigurando paulatinamente a denominação do domínio da política de C&T
para CT&I.
Essa aproximação da política de CT&I do setor privado também estava encadeado
com movimentos mais amplos da administração e políticas públicas, como os preceitos do
gerencialismo, ao buscar transpor o ethos empresarial para organizações públicas, incluindo
em ambientes acadêmicos, como as universidades, laboratórios e institutos públicos de
pesquisa (DIAS, 2009). A importação de tal ethos empresarial à política também teve
rebatimento nas práticas de avaliação, Velho (2011) indica que, embora o sistema de revisão
por pares tenha continuado a ser amplamente utilizado, gradualmente ocorreu um alargamento
destas para incorporar atores e interesses de fora do sistema científico, com avanços no
desenvolvimento de metodologias para análise de impactos econômicos e sociais de
tecnologias, e novos instrumentos de prospecção tecnológica.
92

Godin (2004) ressaltou o acréscimo às estatísticas e indicadores do domínio da política


de surveys de inovação, em particular o modelo desenvolvido pela OCDE (Manual de Oslo),
com substancial difusão internacional. Estas surveys específicas sobre inovação, surgiam
principalmente do processo de contestação dos presumidos efeitos lineares da conversão da
produção científica (publicações) e produção tecnológica (patentes) em proporcionais
inovações na sociedade. Por isso, seu foco foi voltado em mensurar, de alguma forma mais
direta, as inovações tecnológicas em produtos e processos realizadas em empresas, e as
possíveis interações destas com demais atores (em particular dentro das três categorias
priorizadas pelo modelo de sistemas de inovação) durante o processo inovativo.
Se olharmos para a concepção de projeto de desenvolvimento, fundamentado na
interação C&T e sociedade a partir da abordagem de sistemas de inovação, percebemos a
rejeição ao conceito de linearidade e o afastamento do sentido de determinismo tecnológico.
Contudo, como expõem Cozzens et al. (2008), sua articulação está sobre um projeto de
competitividade, direcionamento para a obtenção de desenvolvimento econômico e
indicadores agregados.
Por um lado, observamos na abordagem de SNI um esforço em elucidar os fatores e
mecanismos interacionais que habilitam os atores sociais a apropriarem-se de conhecimentos
científicos e tecnológicos para promoção de mudanças técnicas, e como estas interações
moldam trajetórias tecnológicas na sociedade. Esta perspectiva favorece uma visualização em
termos comparativos dos diferentes sistemas nacionais (bem como regionais, estaduais, etc.),
e busca explicar como maiores ou menores capacidades e intensidades de fazer científico,
desenvolvimento tecnológico ou desempenho inovativo são desenvolvidas (COZZENS,
2008).
Assim, a abordagem proporciona uma visão de desigualdades em uma dimensão
geográfica (podendo ser aplicado a múltiplas escalas), e busca oferecer soluções para
aumentar a capacidade do desenvolvimento científico, tecnológico e inovativo de países
(setores, regiões...) que propiciem um catching up dessas áreas aos padrões científicos,
tecnológicos e inovativos de regiões consideradas mais desenvolvidas (COZZENS, 2008;
VIOTTI, 2008). Esta lógica baseia-se na ideia que uma maior capacidade inovativa permitiria
um progresso técnico que promoveria maior agregação de valor e competitividade na base
produtiva da sociedade, que, por sua vez, constitui condições promotoras de um crescimento
econômico sustentado, com preservação ambiental e bem-estar social (VASEN, 2016).
Sua ênfase à competitividade e aos fundamentos na economia do conhecimento
conduz a propor soluções salientariam a necessidade de incentivos ao direcionamento a
93

setores de maior intensificação tecnológica, e a adoção de critérios de qualidade científica e


tecnológica que sobressaiam a ideia de internacionalização com foco em países centrais, e
alcance de padrão de “excelência ou classe mundial” (COZZENS; PEREIRA, 2008).
Por outro lado, a centralidade nas empresas implica em uma substancial restrição do
foco de atenção da abordagem frente a diversidade de grupos sociais existentes nas
sociedades. Cozzens et al. (2008) observaram que, apesar do aporte de sistemas de inovação
aludir a existência de múltiplos atores envolvidos na produção de conhecimento e sua
conversão em inovação, sua ênfase analítica e práticas narrativas raramente consideram outras
categorias de atores, além das três anteriormente mencionadas (empresas, governo e
instituições do complexo de C&T) como, por exemplo, organizações relacionadas a
movimentos sociais.
A abordagem de sistemas de inovação, ao ter o foco nas empresas como
direcionadoras principais do desenvolvimento de processos inovativos, legitima os
mecanismos de mercado como referência para estes. Cozzens (2008) propõe que, a priori,
estratégias de desenvolvimento tecnológico e inovação podem ser dirigidos para conceber
produtos e serviços adequados a diferentes níveis de rendas e apropriadas as heterogeneidades
de grupos sociais e condições ambientais, entretanto, tendo o mecanismo de mercado como
base de incentivo destes, na prática, têm produzido resultados mais restritos. Um exemplo é
que a maior parte do desenvolvimento tecnológico e inovação ancorada em empresas tendem
a ser destinada a consumidores de faixas de renda alta ou média e alta, e, quando o caso,
somente em fases posteriores de difusão alcança versões para baixa renda (COZZENS, 2008).
Tal situação é ressaltada por Cozzens e Pereira (2008) enquanto a distinção entre necessidade
e demanda (expressa por necessidade ou desejo combinado à capacidade de aquisição), sendo
que a ênfase em mecanismos de mercado provoca um desenvolvimento tecnológico e de
inovações responsivo predominantemente a demanda, e, assim, amplie o gap entre o
atendimento destas e de necessidades sociais mais amplas.
Para Cozzens (2007), o padrão dominante de justiça social na política de CT&I sob
esta concepção é uma combinação de orientação utilitarista com princípios liberais associados
à valorização da propriedade intelectual, enquanto mecanismo de política de inovação. A
concepção utilitarista defende a intervenção e o investimento do Estado em P&D, justificado
pelo seu potencial de geração de benefícios, particularmente relacionado ao crescimento
econômico, bem como por reconhecer que falhas de mercado (como aquelas relacionadas a
incerteza e ao imediatismo) reduziriam os investimentos privados a níveis abaixo do “ótimo”
social. Ao mesmo tempo que, a racionalidade liberal, neste âmbito bastante influenciadora das
94

legislações de propriedade intelectual, busca estabelecer mecanismos de mercado para


estímulo ao desenvolvimento de P&D privado. Cozzens (2007) ressalta que, desta
combinação, emerge uma orientação agregativa que tanto induz a uma presença de
investimentos governamentais na área de C&T (custos por mecanismo predominante público),
quanto mantém mecanismos de distribuição de benefícios da inovação baseados no mercado
(apropriação predominantemente privada via propriedade intelectual).
Outra restrição é que esta visão focal voltada ao mercado e empresas, combinada à
perspectiva agregativa do desenvolvimento econômico prevalecente, apesar de incentivar
convergências da política de CT&I com políticas industriais, tem como consequência
restringir suas convergências e interações com políticas sociais. A internalização pelos demais
grupos sociais não focais de benefícios gerados pelo aumento de competitividade e inovação
tecnológica seria predominantemente pelo transbordamento de efeitos positivos à sociedade
da geração de empregos e qualificação, o que aumentaria a renda paulatinamente, e por novas
oportunidades de negócios e melhorias de produtos ou serviços (VASEN, 2016).
Deste modo, o papel nucleador da empresa na política é reforçado, mas distancia o
olhar de concepções políticas com enfoque mais distributivo, pois negligencia-se a atenção a
dimensões de desigualdades sociais e seus efeitos cumulativos37 em um mesmo território
(COZZENS, 2008). Assim como, entendemos que a ênfase de um projeto de desenvolvimento
baseado na competitividade ainda mantém uma visão indireta da relação entre avanço da C&T
e promoção de desenvolvimento social (enquanto redução da pobreza, exclusão social e
desigualdades), pois este permanece pressuposto como transbordamento a partir da concepção
de desenvolvimento econômico.

2.1.4 Novas e Velhas Contestações e as Possibilidades da uma Virada Pós-Competitiva


na Política de CT&I

Embora a questão de enfrentamento das desigualdades e de enfoque específico ao


desenvolvimento social não seja, em geral, preocupação central no mainstream no campo de
políticas de CT&I, a considerar sua ênfase de orientação econômica agregativa, Wetmore
37
Cozzens (2008) usa o termo vantagens acumuladas para referir-se a dinâmicas de desigualdades sobrepostas
(verticais e horizontais) que conduzem a concentração de recursos e oportunidades para pessoas que já possuem
múltiplas formas de vantagem social (por exemplo, maior renda, qualificação ou acesso a informação
privilegiada). No campo da sociologia da ciência, Merton (1968) já havia usado o termo de vantagens
cumulativas também para analisar desigualdades nos sistemas de distribuição de recompensa, comunicação e
alocação de recursos na ciência, denominando de Efeito Mateus (the Matthew Effect), um conjunto de processos
sociais de seleção que levam a concentração de recursos científicos a pesquisadores ou instituições com maior
prestígio.
95

(2007) distingue um aumento de discussões neste tópico reforçado por debates sobre justiça
ambiental, exclusão digital e aumento de desigualdades de rendas em países de
industrialização avançada, principalmente a partir de meados da década de 1990.
Sinalizações de uma ampliação de espaço alcançado por estas discussões, embora
ainda circunscrito, são encontradas no campo dos estudos sociais de C&T em edições
especiais sobre a temática como em “Science, Technology & Human Values” sobre tecnologia
e desigualdades (2003, v. 28, n. 1), na “Science and Public Policy” sobre ciência, política
pública e injustiça social (2007, v. 34, n. 2) e o uso do conhecimento para coesão e inclusão
social (2012, v. 39, n. 5), e em “Technological Forecasting & Social Change” sobre
consequências distribucionais de tecnologias emergentes (2012, v. 79, n. 2).
Da perspectiva do campo de estudos sobre desigualdade e pobreza, a aceleração das
mudanças tecnológicas e o crescente impacto destas nas direções da distribuição da renda e
riqueza nas sociedades têm levado às políticas científicas, tecnológicas e de inovação a se
tornarem eixos explicativos relevantes em pesquisas sobre desigualdades (ATKINSON, 2014;
AUTOR, 2014). De modo que, Atkinson (2014) propôs que as medidas em termos de
políticas públicas para enfrentamento de desigualdades e privações nas sociedades
contemporâneas não podem se restringir a setores de redistribuição fiscal e seguridade social,
mas devem envolver uma ação intersetorial, com destaque ao papel das políticas científicas.
Neste contexto, que observamos um novo momento de busca de maior politização da
política de CT&I no sentido proposto por Elzinga e Jamison (1995), ou seja, de emergência de
novas (e antigas) contestações ao discurso hegemônico e desenvolvimento de políticas e
discursos alternativos. Velho (2011) compreende movimentos de construção do que possa a
ser um novo paradigma para a política de CT&I, a partir de 2000, que denomina de “Ciência
para o Bem da Sociedade”, embora ainda em um estágio de desenvolvimento ainda
“especulativo” e “preliminar”.
Vasen (2016) propõe um olhar similar ao buscar analisar a possibilidade de estar
sendo desenvolvida uma inflexão pós-competitiva na política de CT&I. Seu exame da política
baseia-se na identificação de marcos teóricos e conceituais que estabelecem como prioridade
de atenção e ação finalística os objetivos sociais sobre os econômicos. Apesar do autor
concluir que ainda não se tenha alcançado um marco alternativo sistemático e coerente para a
política (o que em nossa perspectiva de disputas discursivas podemos traduzir enquanto
ascensão de um novo discurso a uma posição prevalente), é constatado um extenso
movimento de tomada de consciência das limitações das abordagens convencionais da política
de CT&I para direcionar questões de interesse social.
96

As duas perspectivas, de Velho (2011) e Vasen (2016), exploram a construção de


concepções alternativas de política que enfoquem o desenvolvimento de CT&I enfatizando
seus aspectos e objetivos sociais. Contudo, Velho (2011) desenvolve uma perspectiva mais
abrangente e mesmo propositiva sobre pontos comuns do que seria uma nova de concepção de
C&T e da política de CT&I em ascensão, enquanto Vasen (2016) analisa discursos
alternativos específicos referentes a estratégias de políticas de CT&I, realçando suas
similaridades, mas também suas distinções, e realçando aplicações com tendência reformistas.
Entre os traços gerais comuns, Velho (2011) preconiza que o foco da política de CT&I
assume um propósito propriamente de direção finalística (e não mais sobre uma atividade-
meio: pesquisa, tecnologia ou inovação), o bem-estar social, orientado pela ampla
participação social na definição de objetivos e instrumentos da política, que devem ocorrer
não somente em nível nacional, mas em diferentes escalas decisórias regionais e locais. Vasen
(2016) também identificou entre os discursos examinados a centralidade dos objetivos sociais,
que deslocam metas relacionadas a crescimento econômico e competitividade, as quais
embora continuem oportunas em alguns discursos, não são mais o horizonte finalístico de
ação e legitimação dos investimentos públicos.
À luz desta ênfase aos aspectos sociais, há um aprofundamento do exame da não
neutralidade da C&T e suas implicações. Conforme Dagnino (2008), uma vez que se
reconhece que os valores sociais dominantes de determinada sociedade são incorporados ao
processo e aos produtos do fazer científico e tecnológico, as características deste
conhecimento são intrinsecamente funcionais à dinâmica desta sociedade específica, e,
portanto, tornam-se disfuncionais a contextos e valores sociais, econômicos, políticos e
culturais predominantemente diferentes. Este aprofundamento das implicações de efeitos
constitutivos de tecnologias em contextos sociais diferentes de sua origem, resultam na
proeminência da participação social nas atividades da CT&I.
Este enfoque é retratado por Velho (2011) refletido em uma nova acepção de ciência,
em que, apesar dos pesquisadores terem papel destacado, amplia-se para integrar a
participação de múltiplos atores, incorporando leigos e conhecimentos locais (tradicionais ou
populares), por meio de uma construção de conhecimento predominantemente interdisciplinar
e em diferentes arranjos e locais, em uma orientação pós-positivista. Configura-se, assim, uma
nova concepção de ciência que admite desenvolvimentos alternativos de conhecimentos e
tecnologias e convive com diferentes formas de saberes.
De forma similar, Jasanoff (2002) lembra que as tecnologias não podem mais ser
consideradas enquanto meros artefatos físicos, mas como objetos social e materialmente
97

estabilizados em redes heterogêneas de atores, instituições e normas, discursos e elementos


não-humanos. Deste modo, tecnologias nunca são desenvolvidas em espaços moralmente
neutros, mas concebidos e empregados dentro de noções de riqueza e autoridade configuradas
em contextos sociais e culturais específicas (JASANOFF, 2002).
Neste sentido, a relação entre CT&I na sociedade continua a seguir modelos
interativos de desenvolvimento inovativo, porém estes deixam de ter foco na empresa, de
forma a ampliar a possibilidade de escolhas e influências de racionalidades alternativas de
múltiplos atores sociais, criando, assim, um conjunto potencialmente mais abrangente de
atores na interação e processos mais complexos (VELHO, 2011). Vasen (2016) e Thomas,
Juarez e Picabea (2015) ressaltam algumas concepções de CT&I que trazem novos enfoques,
como de pesquisa e inovação responsável, grassroots, inovação social e tecnologia para
inclusão social.
Abordagens participativas correspondem à emergência de uma governança da CT&I
mais representativa do e para o público geral, como observado por Vasen (2016). Esta
articulação da participação social é direcionada a propiciar uma sensibilização a distintos
contextos sociais de produção de CT&I e de interação entre CT&I e desenvolvimento, neste
caso trazendo uma contestação ao atributo da convergência nas concepções de
desenvolvimento (JASANOFF, 2002).
Jasanoff (2002) discorre que a concepção de convergência em políticas de
desenvolvimento refere-se à tendência destas de assumir que o futuro das pessoas deve
convergir a uma única forma desejável de vida, mesmo que suas trajetórias passadas tenham
seguido cursos radicalmente diferentes. E, este padrão para convergência tem sido moldado às
nações industriais ricas não somente em termos de seus níveis de renda, mas também de suas
instituições sociais, culturais e políticas, cujas formas de vida são tomadas como pontos finais
lógicos do progresso (JASANOFF, 2002). Para a autora, projetos de desenvolvimento nestas
concepções, em geral, carregam uma hiper racionalidade (uniformidade de interpretação do
mundo) que parte de contrapontos desiguais, com elevados riscos às chamadas consequências
imprevistas pelas transferências de tecnologias "inapropriadas".
Deste modo, como alertava Salomon (1995), se, por um lado, a C&T pode exercer
uma atribuição relevante em processos de desenvolvimento, por outro lado, suas
consequências não podem ser consideradas enquanto garantias de benefícios, mas precisam
ser avaliadas por uma constelação de mudanças políticas, econômicas, sociais, culturais e
ambientais em constante interação. A incerteza e a ambiguidade têm se tornado
reconhecidamente presentes na sociedade globalizada na transição do milênio (2000), como
98

na concepção de sociedade de risco, na qual a CT&I se incluem, pois, ao mesmo tempo em


que são portadoras de soluções à miséria ou doenças, também podem ter impactos
devastadores (SALOMON, 1995; JASANOFF, 2002).
Porém, como lembra Jasanoff (2002), a vulnerabilidade aos erros, acidentes e
impactos negativos da CT&I tem sido desigualmente distribuída. Nos grandes realinhamentos
sociotécnicos, nem todas as sociedades e atores conseguem exercer a mesma voz e capacidade
de agência (JASANOFF, 2002). Se os estudos sociais de C&T concluem que não há
mudanças técnicas, nem ritmos e direções, predeterminadas às sociedades, também não se
pode subestimar o poder de alguns setores econômicos, corporações e nações de impor seus
processos industriais, produtos e serviços (SALOMON, 1995). Neste sentido, Jasanoff (2002)
identifica um crescente consenso que exercícios de implementação tecnológica em larga
escala (material, econômica e social) devem ser concebidos com humildade em relação a
múltiplas contingências do que entendemos saber sobre o mundo em qualquer momento.
Estas críticas ao atributo de convergência e o reconhecimento de processo de
confrontação de modelos de desenvolvimento também são observados por Vasen (2016) que
se refere ao movimento como uma agenda pós-desenvolvimentista. Nesta perspectiva, Velho
(2011) compreende que as pressões relacionadas ao recrudescimento de processos de
globalização e de diretrizes de organizações internacionais como FMI e OMC conduziram a
uma maior reflexão sobre os processos de difusão e emulação de políticas públicas
internacionalmente e suas consequências específicas em cada país. O que impulsionou um
efeito de retomada de enfoques nacionais, e mesmo subnacionais, no sentido de voltar-se para
uma construção endógena, ao considerar suas especificidades históricas, econômicas,
ambientais, sociais e culturais, guiados por um projeto de desenvolvimento e sociedade.
No horizonte deste discurso propositivo encontramos um cenário cuja conformação da
agenda e formulação de política de CT&I seja direcionada finalisticamente a objetivos sociais,
a partir de processos de participação social, e que sua implementação proporcione uma
conexão de saberes voltada a construção endógena de identificação de problemas e
proposição de soluções em uma sociedade. Tal desenho de processo de política exigiria uma
renovação no conjunto de instrumentos e práticas sociais da política de CT&I convencional,
ou seja, requer que os atores políticos constituam e incorporem o discurso e desenvolvam
processos de aprendizado que permitam a elaboração de novas práticas legitimadas para
seleção, fomento, execução e avaliação de atividades de CT&I na sociedade.
99

Do ponto de vista dos enfoques de desigualdade, a proposição contextualizada e de


ampliação dos grupos sociais a fazerem parte na construção científica e tecnológica favorece a
percepção de diferentes dimensões de desigualdades sociais. A perspectiva apresenta uma
ênfase a um problema de natureza qualitativa do fazer conhecimento científico e tecnológico,
ou seja, não seria suficiente a garantia de instalação de uma capacidade científica e
tecnológica em termos quantitativos (número de cientistas, equipamentos, instituições, etc.),
mas fundamentalmente que esta capacidade opere agendas de pesquisa vinculada às
necessidades de uma pluralidade de grupos sociais locais, priorizando aqueles mais
vulneráveis a desvantagens cumulativas.
Neste sentido, o enfoque proporciona uma ênfase mais distributiva em uma lógica
bottom-up, de modo que a apropriação de benefícios da C&T se daria de forma mais direta e
tangível pelos grupos sociais a que os projetos e atividades fossem direcionados.
Indiretamente, o transbordamento de benefícios à sociedade mais ampla também ocorre, seja
pela possibilidade de reaplicação de metodologias e tecnologias desenvolvidas, seja,
principalmente, pela redução de parcelas desta sociedade sujeitas a problemas de privação
(grupos beneficiados diretos), que se associa a uma melhoria do desenvolvimento humano ou
social. Assim, se estabelece uma relação mais direta entre o avanço da C&T e a promoção de
desenvolvimento, concebido a partir de processos participativos com variados grupos sociais
situados.
A partir de tal enfoque distributivo, em vez de agregativo, da política de CT&I, há
possibilidade de diálogos com orientações de justiça social contratualistas, comunitarianistas
ou igualitaristas. Cozzens (2007) distingue que a ampliação de espaços de discussão e ação
nas políticas de CT&I sobre dinâmicas de desigualdades têm gerado três (3) principais formas
intervenção: (1) medidas que visem reduzir a desvantagens históricas na CT&I de grupos
específicos como questões relacionadas a gênero e grupos étnicos; (2) investimentos de CT&I
focados em resolver em problemas ligados à pobreza, denominadas de políticas pro-poor
(doenças negligenciadas, tecnologias para residências de baixo custo, etc.); e, (3) ações de
CT&I para construção de capacidades em grupos ou comunidades vulneráveis de produzir e
absorver conhecimentos e inovações, adotando abordagens participativas para definição e
resolução de problemas focados nestes.
Ao estarem as concepções de definição de agendas, formulações e implementações de
ações de CT&I orientadas para a sociedade comprometidas com práticas participativas e de
bottom-up, o mesmo se reflete na instância de avaliação. Velho (2011) salienta que políticas
sistêmicas e contextualizadas tem que ser avaliadas de acordo com essas características
100

norteadoras, cabendo o desenvolvimento de métodos e abordagens compatíveis, em


substituição a indicadores convencionais, estes padronizados e difundidos em uma escala
internacional, principalmente sob enfoque de países centrais. Assim, o controle na qualidade
de pesquisa deve ser realizado durante diferentes fases de seu processo em contexto de
aplicação, para incorporar os diferentes atores afetados e ponderar interesses econômicos,
políticos e sociais.
Neste sentido, o sistema de avaliação, além da revisão por pares ampliada (mediante
participação de outros atores com saberes relevantes além dos acadêmicos), deve contemplar
instrumentos de participação pública para análise de impactos sociais das políticas, e estar
comprometido com a ampla disseminação de resultados (VELHO, 2011). Para deste modo,
segundo a autora, prover condições de construir uma combinação entre relevância social
(entendida com foco em contextos específicos) e excelência acadêmica (normas éticas e
cognitivas que orientam o avanço da ciência).
Consideramos que tais concepções discutidas situam a política de CT&I em
perspectiva de três pontos chaves essenciais: (1) orientação à consecução direta de objetivos
de bem-estar social, e não somente ao crescimento econômico e competitividade, cujos
valores básicos que não tem conseguido alcançar resultados em termos de redução de
desigualdades, pobreza e exclusão social; (2) enfoque endógeno da interação entre CT&I e
desenvolvimento e; (3) ampliação da participação de múltiplos atores sociais em desenhos e
implementação de tecnologias em modelos com maior tendência a movimentos bottom-up.
Está subjacente a estes três pontos chaves a compreensão que há múltiplas dimensões
de desigualdades inter-relacionadas no processo de política. Cozzens et al. (2008) ao analisar
dinâmicas de desigualdades na política de CT&I propõem três (3) macrodimensões de
desigualdades sobrepostas. A primeira, as desigualdades distribucionais, que se relacionam à
forma como custos e benefícios do desenvolvimento científico e das mudanças tecnológicas
são desigualmente distribuídos na sociedade, diz respeito, assim, aos efeitos distribucionais de
CT&I entre variados indivíduos e grupos sociais. A segunda, as desigualdades estruturais, que
se referem às desigualdades no modo como capacidades em CT&I, sejam estas institucionais,
organizacionais ou individuais, estão atribuídas na sociedade, em termos territoriais, de classe
social, de grupos étnicos, de gênero etc. Esta dimensão de desigualdade está na base dos
processos distribucionais desiguais. O conceito combina a noção de ativos de CT&I (recursos
físicos, humanos, financeiros, sociais, entre outros) com os fluxos pelos quais estes ativos
vêm a ser aumentados ou diminuídos de forma desigual. Por fim, as desigualdades
representacionais, que correspondem às desigualdades na participação política, social,
101

econômica e em atividades culturais que implicam em distintos graus de poder de


representação de interesses e visões de mundo perante a CT&I e diferentes formas e alcances
de práticas de accountability, expressando diferenças de permeabilidade nos processos
decisórios dos vários grupos sociais.
Com base nestas três (3) dimensões de desigualdades inter-relacionadas, Cozzens et
al. (2008) formularam a noção de ciclo de interação entre estas desigualdades, por meio do
qual pode haver processos cumulativos em que estas se reforçam mutuamente. Por exemplo, a
manutenção ou ampliação de desigualdades estruturais reforçam as assimetrias de
representação, o que, por sua vez, conserva dinâmicas distributivas desiguais. Portanto, os
autores sugerem que o enfrentamento de desigualdades existentes no âmbito da política de
CT&I deve ser vista em termos interacionais destas três dimensões. Deste modo, o
enfrentamento efetivo de dinâmicas de desigualdades distribucionais na política de CT&I
envolveria ações concomitantes nas dimensões estruturais e de representação, para combater
os efeitos cumulativos existentes.
No entanto, até este momento nosso panorama seguiu uma construção discursiva em
um tom mais propositivo, e, assim também, de concepção ideal. Os princípios apresentados
são aqueles que entendemos constituírem um discurso de política de CT&I orientada para a
sociedade, porém de caracterização mais normativa. Como indicamos anteriormente, Vasen
(2016) e Thomas, Juarez e Picabea (2015) analisaram algumas concepções de atividades de
CT&I identificadas a estes esforços que denominamos de socialmente orientados, contudo,
em uma perspectiva que combina o exame de suas ideias com suas práticas, de modo a
discernir limitações e distinções em suas abordagens. No quadro 4, apresentamos uma síntese
destas abordagens em termos de construções conceituações chaves, descontinuidades e
continuidades à concepção convencional e limitações a concepção socialmente orientada, do
ponto de vista normativo que vimos até o momento.
102

Quadro 4 – Concepções e limites de abordagens de CT&I para um enfoque socialmente orientado


Continuidades a concepção convencional
Descontinuidades a concepção convencional da
Abordagens Concepções chaves ou limitações ao enfoque socialmente
política
orientado
Embora reconheça o entrelaçamento entre objetivos A abordagem mantém uma centralidade na
Direcionadas a solucionar problemas de grande
econômicos e sociais, estes figuram como finalísticos, atividade de inovação do enfoque de
envergadura (elevado comprometimento de
seja pela vinculação entre inovação tecnológica, sistemas de inovação. A implementação via
recursos humanos e investimentos) e impactos
Grandes inovação social e mudança cultural; seja pelo grandes projetos e elevados investimentos
de longo prazo em sociedades sob enfoque
desafios1 entendimento que o foco nas demandas das empresas em países centrais, é pouco viável aos países
global, que requer abordagem colaborativa e
não consegue tratar falhas de mercado. Também periféricos e também não tem direcionado
ênfase à sua natureza social, por exemplo, a
compreende que grandes desafios requerem modelos atenção a problemas mais comuns neste,
questão da mudança climática.
de ação colaborativa, em vez de ênfase competitiva. como a pobreza ou o desemprego.

Enfoque no modo de geração de inovações ao


Mantém um viés pró-industrial e à inovação,
incorporar práticas participativas durante o
Amplia as três categorias focais (empresas, ao institucionalizar processos top-down de
transcurso do processo de pesquisa e
pesquisadores, governo) dos sistemas de inovação, participação, com a finalidade mais de
desenvolvimento que moldam seu resultado.
reconhecendo a relevância de melhor representação reduzir a oposição e movimentos radicais
Pesquisa e Busca criar espaços para deliberação
dos diferentes grupos sociais. contra novas tecnologias do que promover
inovação participativa que envolvam vários atores
Desenvolvimento de mecanismos e práticas uma reflexão e deliberação democrática.
responsáveis1 (governo, academia, indústria e sociedade civil),
participativas no processo da política e das atividades Focado para análise de tecnologias
incluindo assim o público afetado (leigos e
de CT&I, incluindo a institucionalização de métodos emergentes, como nanotecnologia, foi
usuários), de forma a refletir mais
de avaliação por múltiplas perspectivas de usuários. preponderantemente desenvolvida nos EUA
adequadamente os valores dos distintos grupos
e em países na União Europeia.
sociais.
Formula um processo participativo e
Esta proposição faz uma crítica epistemológica ao Examinada a partir das experiências da Rede
democrático de co-construção de novos sistemas
conceito tradicional de tecnologia e sua vinculação a de Tecnologia Social do Brasil, os limites
sociotécnicos entre diferentes atores sociais, cujo
processos de dominação no sistema capitalista. Por identificados foram uma ênfase a soluções
protagonismo está sobre organizações da
isso, direciona suas experiências principalmente a pontuais de problemas de grupos sociais
sociedade civil. Seu foco está em questões
coletivos organizados por associações ou vulneráveis, em vez de soluções sistêmicas
relacionadas a problemas no âmbito da pobreza,
Tecnologias cooperativas, rejeitando a centralidade da empresa e a que respondessem às dinâmicas locais de
vulnerabilidades e exclusão social. Preconiza um
sociais1,2 ênfase na competitividade de mercado. Fundamenta-se produção, aprendizado e mudança
formato de desenvolvimento tecnológico bottom-
em leitura críticas da concepção de tecnologias tecnológica. A concepção de implementação
up, que parte das necessidades dos grupos e
apropriadas, buscando-se afastar de sua lógica ainda tende a ser ofertista pelo banco de
movimentos sociais, que podem ser auxiliados
hierárquica e determinista, para propor um processo tecnologias sociais e centrada em
por organizações governamentais, de instituições
de produção de conhecimento e tecnologia interativo e organizações estatais, embora pretende-se
de C&T ou outras organizações da sociedade
em um modelo de implementação bottom-up. empoderar a organização da sociedade civil.
civil.
103

Continuidades a concepção convencional


Descontinuidades a concepção convencional da
Abordagens Concepções chaves ou limitações ao enfoque socialmente
política
orientado
Aborda a produção de inovações orientadas à
Foco da agenda de problemas voltado diretamente a Permanece com ênfase à inovação, mas
inclusão social, a partir do conhecimento
questão de desigualdades e inclusão social, procura adaptada a contextos periféricos, de escassez
acadêmico. Propõe estabelecer vínculos entre a
Inovação para priorizar a vinculação entre política de CTI e política e desigualdades. Bem como, ainda preserva
política de CT&I e organizações acadêmicas
desenvolvimento social, em vez da política industrial ou do enfoque de uma concepção mais top-down nas relações
com as políticas sociais, pelas quais o Estado
inclusivo1 competitividade. Nisso, também estimula parcerias e entre a comunidade acadêmica e demais
atua como demandante de inovações de baixo
fluxos relacionais e informacionais da comunidade atores sociais na produção de conhecimento
custo em situações que o acesso a tecnologias
acadêmica com movimentos sociais de base. e tecnologia na sociedade.
seja um fator de exclusão social.
Voltada a resgatar conhecimentos tecnológicos Examinada a partir da implementação da
Focada principalmente em grupos vulneráveis e
de grupos sociais vulneráveis (principalmente os Rede Honey Bee, registra poucas
conhecimentos locais, em vez dos atores
Inovações de conhecimentos tradicionais), de forma a experiências e uma restrição de alcance
convencionais, tem como pontos principais de
base recuperar e promover capacidades de inovação social, devido ao conceito circunscrito a
implementação a cooperação entre atores sociais
(grassroots)2 de pessoas marginalizadas para gerar soluções artefatos de baixo conteúdo tecnológico, e a
(associativismo) em oposição a competitividade e a
tecnológicas alternativas (baixo custo, eficientes difusão mantendo uma lógica de ênfase no
valorização do conhecimento tácito e tradicional.
e ambientalmente sustentáveis). mercado via microempreendedores.
Termo que apresenta maior gama de propostas Além do direcionamento a objetivos sociais, duas As aplicações de inovações sociais tendem a
conceituais. Três realçadas são: Experiências de características comuns às abordagens de inovação pressupor uma convergência de interesses
desenvolvimento e disseminação de tecnologias social a distanciam da abordagem convencional: a entre a sociedade civil e o mercado,
organizacionais para promover a transformação ênfase na promoção de mudanças de base social, relacionados a regimes de responsabilidade
social em grupos desfavorecidos; ressignificação cultural ou organizacional (não focada social, com ênfase a possibilidades de
Inovação social2
de tecnologias para gestão ou coordenação de necessariamente na mudança técnica); e pela consenso, e não de conflito. Neste sentido,
novos processos produtivos; e, novas formas de articulação de conhecimentos científicos e sua proposta configura-se mais enquanto
organização ou combinação de conhecimentos tecnológicos combinados com outras formas de uma complementação ou acréscimo ao
(científicos e tácitos) para alcance de objetivos conhecimentos, principalmente o tácito de usuários e modelo de desenvolvimento tecnológico
sociais, culturais ou políticos. cidadãos envolvidos nas mudanças sociais propostas. existente, do que uma crítica substituta deste.
Abordagem mais associada a concepção
Indica um gap de desenvolvimento inovativo em convencional, cuja solução social às
Desenvolvimento de inovações tecnológicas para produtos e processos de baixo custo que atendam a necessidades de grupos marginalizados
Inovação para
o mercado de baixa renda, com produtos e população pobre. Propõe este segmento como uma (entendidos como consumidores não
base da
processos focados no atendimento de oportunidade de criação de um novo mercado, cuja atendidos) segue lógica de mercado, centrada
pirâmide2
necessidades de pessoas pobres. lucratividade estaria no grande volume de vendas de em empresas. Omite-se quanto a necessidade
baixo preço. de participação dos usuários nos processos
inovativos, mantendo um modelo top-down.
1
Abordagens discutidas em Vasen (2016). 2Abordagens discutidas em Thomas, Juarez e Picabea (2015).
Fonte: Adaptado pela autora a partir de Vasen (2016) e Thomas, Juarez e Picabea (2015).
104

São sete (7) as construções discursivas e práticas destacadas, entre estas o ponto
comum é estarem orientadas a diretamente resolver problemas de cunho social, questionando,
em alguma medida, as formulações convencionais ainda predominantes na política de CT&I.
No entanto, como podemos ver, as abordagens assumem múltiplas concepções da interação da
C&T e sociedade, de enfoque de problemas priorizados (e consequentemente soluções), de
categorias de atores sociais postos como protagonistas, de desenho de políticas e mecanismos
de intervenção social, e de níveis e formatos de participação nestes. Por um lado, entendemos
que o próprio direcionamento de atenção às especificidades contextuais (de regiões, públicos
alvos e seus problemas e culturas distintos) mencionado na construção discursiva que
apresentamos conduz a uma certa multiplicidade de formatos de aplicações de políticas e
programas. Por outro lado, embora sejam abordagens mais sensíveis aos problemas sociais e
voltadas a propor soluções via atividades diretas de CT&I, o nível de aderência ou
compromisso destas às concepções normativas acima discutidas também variam.
Vasen (2016) defende que a maioria das abordagens adota uma tendência mais
reformista aos pressupostos convencionais, com exceção à proposta exposta de tecnologia
social que implica em maior mudança substantiva (maior ruptura discursiva) no processo de
política. Thomas, Juarez e Picabea (2015) também ressaltam que algumas abordagens que
examinam, como a grassroots e a inovação para a base da pirâmide, mantêm uma concepção
de interação entre C&T e sociedade quase que exclusivamente restrita às relações via
mercado. Bem como, não exploram as possibilidades de conexões entre conhecimentos tácitos
e tradicionais (enfatizados na grassroots) e conhecimentos científicos e tecnológicos
(fundamento da inovação tecnológica para base da pirâmide).
Compreendemos que as contestações em prol da necessidade da política de CT&I se
tornar orientada a objetivos sociais neste período causou uma desestabilização no discurso
dominante de promoção de competitividade e enfoque no desenvolvimento econômico, com
abertura a construções discursivas alternativas. Tal desestabilização faz com que os atores
políticos busquem construir concepções, desenhos e instrumentos de políticas que respondam
às contestações (ou a uma parte selecionada destas), mas estes o fazem a partir de seus
próprios sistemas de crenças (discursos de pertencimento). Ou seja, ao ter que responder às
contestações (diferenciadamente percebidas ou enfatizadas de acordo com o contexto do
processo de política), atores políticos ajustam (em menor ou maior grau) seus discursos para
incorporar soluções ou alternativas aos problemas apontados, no âmbito de um processo de
politics ou disputa discursiva.
105

Assim, aqueles atores vinculados ao discurso dominante tendem a responder as


contestações, alterando o mínimo possível as crenças nucleares, e buscando alternativa que
leve a nova estabilização dele. Aqueles atores vinculados a discursos minoritários ou contra
hegemônicos no processo de política buscam aproveitar a oportunidade de desestabilização do
discurso dominante para ampliar ou consolidar suas próprias elaborações discursivas, gerando
alternativas mais distanciadas das crenças essenciais daquele. Assim, entendemos a
diversidade de propostas conceituais de orientação a problemas sociais em desenvolvimento
na política de CT&I, com maior ou menor comprometimento (continuidade) aos pressupostos
dominantes.
Entretanto, também cabe indicarmos que, apesar de Vasen (2016) e Thomas, Juarez e
Picabea (2015) buscarem sintetizar a variabilidade de concepções de CT&I socialmente
orientadas em torno de alguns termos ou denominações específicas, pode haver considerável
pluralidade de proposições no âmbito de uma mesma denominação. Thomas, Juarez e Picabea
(2015) chamam a atenção para isso ao tratarem do termo de "inovação social", o qual
contemplaria a maior variedade de proposições conceituais. Deste modo, as disputas
discursivas38 se dão não somente em termos de construções de significados de soluções
alternativas ao direcionamento de objetivos sociais, mas também em termos de significantes,
ou seja, de quais significações devem ser atribuídas a determinadas denominações, em
particular aquelas denominações que ganham destaque no processo de política pública.
Esta trajetória de evolução de concepções da política de CT&I exposta nesta seção foi
representa uma leitura elaborada de forma a permitirmos distinguir diferentes discursos. Esta
opção de análise das elaborações discursivas a partir da síntese de concepções
instrumentalizadas no processo de política, por um lado, reconhecemos que, em certa medida,
realçou os discursos dominantes (principalmente nos períodos de estabilização) que, ao serem
"vitoriosos" no processo de politics, tenderam, assim, a serem prevalecentes na descrição de
desenhos, instrumentos e valores presentes nas políticas públicas. Por outro lado, buscamos
dar visibilidade a discursos alternativos (especialmente nos períodos que identificamos como
de desestabilização), em relação às críticas dos discursos prevalecentes, e suas conceituações
e abordagens analíticas de problemas-soluções propostas.
Concordamos que há uma pluralidade de concepções nesses discursos alternativos que
deveria ser mais especificamente examinada, o que é, em parte, objetivo desta pesquisa ao

38
Como mencionamos anteriormente, Dagnino (2004) expõe este tipo de disputa discursiva em torno do
significado e implicações da participação social nas políticas públicas, enquanto um confronto entre dois projetos
políticos distintos (um neoliberal e outro de ampliação de direitos sociais) no contexto brasileiro.
106

procurar compreender a abrangência conceitual de discursos de enfrentamento de


desigualdades na política de CT&I. Embora reconhecemos isso, mas também considerando
que exploraremos este aspecto em termos da análise de casos empíricos posteriormente, para
efeito de elaboração de nossa matriz de discursos de referência na terceira seção deste
capítulo, representaremos um discurso alternativo de uma política de CT&I orientada para a
sociedade com pressupostos propositivos com uma concepção mais idealista, como a
apresentada anteriormente.
De forma geral, nesta seção vimos a dinâmica de articulações e rearticulações de
discursos de atores no processo da política, que passou por ciclos de estabilidades e
mudanças. E, apesar da noção de discursos ter sido apresentada por períodos temporais,
seguindo fases de ascensão, predomínio e contestações, não devemos pensar em uma ampla
homogeneização de discurso ou irrestrita substituição nos momentos de contestação.
Compreendemos que os distintos discursos assinalados (preferências ideológicas,
pressupostos sobre C&T, foco, formas de gestão e instrumentos) mantêm-se existentes, porém
com maior ou menor grau de capacidade de influência e orientação da racionalidade dos
atores na política, de acordo com os resultados das interações (cooperativas ou competitivas)
entre os atores que os adotam no processo de política.
Na próxima seção, faremos a aproximação desta perspectiva sobre concepções da
política de CT&I ao contexto brasileiro, com vistas a identificar tanto as convergências e
singularidades nos discursos, quanto fazer uma descrição da conjuntura deste processo de
política no país.

2.2 CONCEPÇÕES DA POLÍTICA DE CT&I NO BRASIL: CONVERGÊNCIAS &


ESPECIFICIDADES

Nesta seção, de forma similar à anterior, buscamos compreender as concepções sobre


a política de CT&I, porém, agora, aplicadas ao contexto específico do Brasil. Assim,
apresentamos uma revisão de literatura mais distintiva da trajetória da política no país, em
uma posição periférica das relações econômicas e políticas internacionais. Partimos da noção
que, embora a visão de convergências internacionais da política de CT&I seja reveladora de
concepções da relação entre C&T e sociedade e da política de CT&I difundidas em termos
globais, sob forte influência de países centrais e agências multilaterais, estas concepções
também são moldadas de modo distinto pelas interações sociais, econômicas e políticas
características de cada contexto, principalmente quando situados em condições periféricas,
107

por não encontrarem correspondências às conjunturas e estruturas dos países centrais, onde
algumas das concepções revistas foram originalmente elaboradas.
Portanto, examinaremos o percurso de institucionalização e desenvolvimento da
política de CT&I nacional com foco em suas formações discursivas e, ao mesmo tempo,
perpassando suas principais características e eventos, de modo que também proporcione uma
base de contextualização para posteriormente (no capítulo 3) abordarmos o caso do processo
da política de CT&I no estado do Pará.

2.2.1 Institucionalização da política de C&T no Brasil e o discurso do desenvolvimento


via crescimento

A institucionalização de política públicas de C&T se desenvolveu a partir da década


de 1950, com a constituição de uma estrutura legal e institucional à área e mediante iniciativas
predominantemente centralizadoras pelo governo federal, principalmente no decorrer da
ditatura militar (DIAS, 2009). Representativo das primeiras ações estruturantes deste período
no nível federal foi a criação em 1951 de agências de fomento chaves da política: os, à época,
Conselho Nacional de Pesquisa39 (CNPq) e da Campanha de Aperfeiçoamento do Pessoal de
Nível Superior40 (CAPES). Segundo Dias (2009), a comunidade de pesquisa41 em coalizão
organizada na Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) teve forte influência
na orientação deste processo. O governo federal também promoveu uma ampliação de bases
institucionais científicas nos territórios subnacionais, principalmente por meio da
incorporação, implantação e expansão de universidades e institutos de pesquisas federais
(CGEE, 2010).
O intervalo de tempo entre a institucionalização da política de C&T, enquanto
domínio explícito, no Brasil não foi muito distanciado da institucionalização em países
centrais, que ocorreu, em geral, no pós-II Guerra Mundial. No entanto, devemos reconhecer
uma grande deficiência no país em termos de formação e consolidação das instituições de
C&T e das condições estruturais e industriais típicas do desenvolvimento destas nos países
centrais, quando da institucionalização do domínio da política. Assim, Suzigan e Albuquerque
(2008) ressaltaram que o Brasil apresentou três (3) atributos críticos em seu processo histórico

39
Atualmente Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico.
40
Atualmente Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior.
41
Dagnino (2007) define comunidade de pesquisa como o conjunto de profissionais que se dedicam ao ensino e
à pesquisa em universidades públicas, e aqueles que, ao terem sido ali socializados na cultura institucional das
práticas de pesquisa, atuam em institutos de pesquisa e agências de fomento.
108

de formação de instituições de C&T, foi: (1) tardio em relação a países de industrialização


avançada e mesmo a outros países da América Latina, por seu impedimento de
desenvolvimento no período colonial por Portugal; (2) limitado, pela separação entre
atividades de ciência e de ensino quando da constituição das primeiras instituições de C&T e;
(3) problemático por ser marcado por substanciais desigualdades sociais e territoriais.
Deste modo, a institucionalização da política de C&T no país, embora compartilhasse
crenças essenciais desse período em termos de convergência internacional de concepções de
C&T (neutralidade científica, determinismo tecnológico e modelo linear de inovação), teve
prioridades e desenhos próprios pelas lacunas na estrutura de C&T, características do
processo de indução industrial nacional, bem como da implantação do regime militar
autoritário na década de 1960.
Para Viotti (2008), este período da política de C&T caracterizasse como uma fase
estruturante e mantém uma identidade conceitual até o final dos anos de 1970 associada a uma
estratégia de busca do desenvolvimento pelo crescimento econômico e industrialização
extensiva, sob uma orientação nacional-desenvolvimentista. Cabe destacarmos que,
diferentemente da descrição de convergência internacional em que as décadas de 1960 e 1970
foram marcadas por processos de contestações aos pressupostos dominantes e em que a
comunidade de pesquisa sofre uma relativa perda de poder (restrição de autonomia) no
processo da política, a tendência de politização do domínio da política de C&T no país é
bloqueada pelo regime autoritário em vigor.
Conforme Dias (2009), embora membros da comunidade de pesquisa tenham, como
outros segmentos da sociedade brasileira, sofrido censura e repressão do Regime Militar, dois
fatores foram decisivos para a pouca alteração na política de C&T deste período: (1) a
percepção predominante de neutralidade da C&T compartilhada pelos militares; e (2) o
projeto desenvolvimentista destes que colocava o avanço da C&T como uma das estratégias
relevantes. Esse contexto permitiu que a comunidade de pesquisa permanecesse com elevado
grau de autonomia na política, em uma ênfase à política científica, mais do que a tecnológica,
com investimentos diferenciados a algumas áreas de particular interesse dos militares (e
condizentes com a agenda de pesquisa internacional), como física nuclear, petroquímica,
aeronáutica e engenharia de materiais.
Portanto, a política de C&T deste amplo período foi evidenciada por uma concepção,
por um lado, ofertista (própria do modelo linear de inovação) e, por outro lado,
vinculacionista (pela tentativa de supostamente responder a lacunas no processo de indução
de industrialização), pela qual se acreditava que o conhecimento científico e tecnológico
109

gerado pelas universidades e institutos de pesquisa brasileiros seria progressivamente


absorvido pela nascente indústria nacional (CGEE, 2010; VIOTTI, 2008). Contudo, Viotti
(2008) observa que, dada a condição periférica do país no capitalismo mundial e a estratégia
de industrialização baseada em substituições de importações, a maioria das atividades de P&D
no período no país foi realizada por universidades, institutos e empresas públicas, com
participação reduzida de empresas privadas. Pois, como a base da indústria instalada era de
corporações multinacionais, estas mantiveram sua estrutura de desenvolvimento tecnológico
de produtos e processos em seus países de origem (VIOTTI, 2008).
Apesar de não alcançar influência nas políticas nacionais entre as décadas de 1960 e
1970, uma oposição a esta concepção dominante de política de C&T foi desenvolvida como
alternativa pelo chamado Pensamento Latino Americano em Ciência, Tecnologia e Sociedade
(PLACTS) (DAGNINO; THOMAS; DAVYT, 1996). De acordo com Dagnino, Thomas e
Davyt (1996), o PLACTS, influenciado pela teoria da dependência, buscava construir um
diagnóstico crítico ao modelo de C&T adotado e suas implicações no contexto latino-
americano com o objetivo de promover transformações sociais.
Para Dagnino, Thomas e Davyt (1996), uma contribuição importante do PLACTS foi a
análise contextualizada das condições latino-americanas, pela qual, embora não tenha se
contraposto propriamente à noção de ofertismo (considerado condição necessária para
desencadear processos de inovação orientados às necessidades latino-americanas), o percebia
como não suficiente para alcance de tal objetivo. Assim, havia questionamentos em relação ao
padrão de transferência de pacotes tecnológicos de países centrais para a industrialização
baseada na substituição de importações em países periféricos, o qual ficava a cargo dos
agentes microeconômicos, em particular das empresas, em grande parte de corporações
multinacionais. O PLACTS defendia um processo de seleção de mix tecnológico mais
centralizado e de construção estratégica no Estado, pela qual a transferência de tecnologia
seria dirigida para subsidiar um desenvolvimento tecnológico local com foco nas condições
específicas de produção nacionais e no atendimento das necessidades das sociedades latino-
americanas (DAGNINO; THOMAS; DAVYT, 1996).
Entre os conceitos desenvolvidos no âmbito do PLACTS para explicar a política
científica neste contexto, estavam os de política explícita e implícita de Herrera (1995). Para o
autor, política explícita refere-se àquela exposta em documentos oficiais, leis, regulamentos,
planos de C&T e de desenvolvimento, e declarações governamentais. Enquanto a política
implícita, que efetivamente determina o papel da ciência na sociedade, embora mais difícil de
se identificar por não ter elementos de estruturação formal, expressa a demanda de C&T
110

advinda do projeto nacional42 de desenvolvimento, ou do projeto político de sociedade vigente


(HERRERA, 1995).
Herrera (1995) articulava estas duas facetas distintas de política da C&T para tratar de
contradições desta nos projetos nacionais desenvolvimentistas latino americanos, ao tentar
emular políticas explícitas de C&T de países industrializados, sem que se efetivassem as
consequentes mudanças na estrutura social, econômica e política correspondentes (como
maior distribuição de rendas, reforma na agricultura, ruptura com setores que reforçam
dependências externas, reforma do Estado). Tal contradição implicava na constituição de uma
política implícita de desenvolvimento limitado de estruturas de P&D (visto que a manutenção
dos projetos nacionais vigentes nestes países prescindia de um intenso avanço interno), que
atendessem uma demanda restrita do sistema nacional, em particular aquela para a qual não
houvesse oferta adequada de C&T externa.
Dagnino, Thomas e Davyt (1996) em uma revisão das contribuições do PLACTS
ressaltaram seu aporte ao campo ao compreender a dinâmica de desenvolvimento da C&T
como processos sociais contextualizados. No entanto, os autores advertem que uma das
limitações do movimento quanto a proposições de políticas a C&T para transformação social,
em virtude de sua vinculação à teoria da dependência, foi a subordinação de mudanças nas
atividades de C&T a prévias transformações mais substanciais nos contextos políticos,
econômicos e sociais na América Latina.

2.2.3 A Crise da Política de C&T no Brasil e o Período de Transição

Na virada das décadas de 1970 a 1980, em um contexto marcado pela crise econômica
e problemas fiscais no país, bem como da ascensão do pensamento neoliberal, ocorre
concomitante crise na política de C&T e, assim, a desestabilização do discurso até então
dominante. O período no Brasil foi caracterizado em termos econômicos pela hiperinflação e
pelas tentativas de seu controle, que somente se estabilizará a partir dos meados de 1990; e,
em termos políticos, pelo movimento de redemocratização que coexiste com a crise da dívida
e da reforma do Estado, orientada pelo consenso de Washington43, resultando no desmonte do
aparato institucional do Estado desenvolvimentista anterior.

42
Segundo Herrera (1995, p. 126) projeto nacional corresponderia ao “conjunto de objetivos, ao modelo de país,
a que aspiram os setores sociais que têm, direta ou indiretamente, o controle econômico e político da
comunidade” (tradução nossa).
43
Conjunto de recomendações direcionadas a partir da década de 1980 por organizações financeiras
internacionais como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial para os países em
111

Do ponto de vista da orientação neoliberal, esperava-se que a abertura do mercado


interno provocaria pressões competitivas que estimulariam as empresas nacionais a buscar a
modernização industrial, pela capacitação tecnológica, assim como atrairia novos
investimentos estrangeiros diretos para o setor produtivo, o que contribuiria para a absorção
tecnológica via transferência de tecnologias externas (VIOTTI, 2008). Porém, Dias (2009)
ressaltou que a forma abrupta com que esta abertura foi conduzida no Brasil implicou em
pesadas falências de empresas nacionais em variados setores (como, por exemplo, na indústria
têxtil paulista).
Neste mesmo contexto, Viotti (2008) salienta que a produtividade média do
trabalhador permaneceu estagnada nas décadas de 1980 e 1990, e os setores que tiveram
aumento de produtividade, este foi associado a maior concentração em empresas líderes
crescentemente sob controle de capital estrangeiro, com processos de renovação tecnológica
por meio da importação de máquinas e equipamentos, e redução do número de empregos
industriais na economia. Portanto, a abertura de mercado e o enrijecimento da legislação de
propriedade intelectual44 ocorridas no período não resultaram em um estímulo significativo a
maior capacitação e desenvolvimento tecnológico do país (VIOTTI, 2008).
Para Viotti (2008) este período representou uma segunda fase de orientação da política
de C&T nacional, que estaria vinculada a uma estratégia de desenvolvimento pela busca da
eficiência competitiva, como política explícita. Da perspectiva de disputas discursivas,
entendemos este período como uma transição, pelo reconhecimento da necessidade de
mudança do discurso dominante, desestabilizado pela crise na orientação nacional-
desenvolvimentista que o mantinha, com a busca de posicionamentos alternativos,
considerando inclusive os próprios movimentos de convergência internacional tanto de
ascensão dos preceitos liberais no cenário macro, como de já ascensão do discurso pró-
inovação tecnológica de orientação competitiva nas concepções específicas de políticas de
CT&I.
No núcleo da política de C&T, houve grande flutuação nos gastos federais de C&T,
com momentos de fortes reduções, de modo que a comunidade de pesquisa que permaneceu
como ator dominante no processo desta política, manteve prioritariamente foco em políticas

desenvolvimento com foco na realização de reformas de orientação neoliberal, que visavam o controle fiscal e
redução da intervenção do Estado na economia, e a abertura de mercados (VIOTTI, 2008).
44
Na década de 1990, o estabelecimento e adesão do Brasil ao Acordo Comercial Relativo aos Aspectos dos
Direitos de Propriedade Intelectual (TRIPS), e a posterior consolidação da Organização Mundial do Comércio
(OMC), sucedeu o endurecimento de mecanismos de propriedade intelectual, até então difusos e de baixa
complexidade, e necessidade de adequação da legislação brasileira a tais normas internacionais, contempladas
nas seguintes leis nacionais: Propriedade Industrial (Lei n° 9.279/1996); Cultivares (Lei nº 9.456/97); Programas
de Computador (Lei n° 9.609/98); e Direitos Autorais (Lei n° 9.610/98) (VIOTTI, 2008).
112

científicas, especificamente de fomento à pesquisa e à formação de mestres e doutores,


característico da concepção do modelo linear. Mas, como observou Dias (2009), a partir desse
período de crise de financiamento estatal, a comunidade de pesquisa passou a assumir uma
postura mais agressiva em busca de fontes de recursos alternativas, adotando um modelo
denominado de neovinculacionista.
Segundo Serafim (2008), o padrão neovinculacionista relaciona-se a reconfiguração da
universidade enquanto espaço central na relação pesquisa-produção, e que começa a ser
defendido por iniciativa da própria comunidade de pesquisa. Neste contexto, surge como
novidade na política de C&T explícita e implícita a promoção do empreendedorismo,
principalmente pela criação de incubadoras de empresas de base tecnológica e de parques
tecnológicos, que representa uma introdução da inovação como um objetivo da política, mas,
embora esta estive crescentemente no discurso da política, ainda apresentava pouca
efetividade em sua prática (VIOTTI, 2008).
Em termos da organização político e institucional da política de C&T no período,
ressaltamos dois aspectos, o primeiro foi o estabelecimento de uma pasta ministerial à
temática, com criação do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) em 1985 (Decreto nº
91.146/85), que se torna um lócus de formulação e coordenação da política. O segundo
aspecto foi a indução pela esfera federal de um processo de descentralização de políticas de
C&T em direção aos governos estaduais, principalmente liderado pelo papel difusor do CNPq
com a promoção dos chamados sistemas estaduais de C&T, fortalecido no contexto da
redemocratização e de processos mais amplos de descentralização política no país (CGEE,
2010).
Cabe notarmos que a defesa do processo de descentralização no Brasil neste período
envolvia projetos políticos distintos, tanto associada a um ideário neoliberal que a prescrevia
como condição necessária à eficiência e controle democrático em um contexto de Estado
mínimo; quanto a movimentos democráticos progressistas, para os quais a descentralização
estimularia uma democracia participativa de base territorial (ARRETCHE, 1996; NUNES,
1996). Entendemos que esta confluência também estava presente nos discursos de
descentralização de C&T, que contemplava tanto dirigir a política para “especificidades
regionais” (conforme CGEE, 2010, p. 23), o que traz uma noção de incluir novos atores
regionais e estaduais em processos decisórios não-centralizados; como também um sentido de
melhorar a eficiência dos gastos à adequação contextual e descentralizar o fomento, então,
bastante centralizado na estrutura federal.
113

Embora a iniciativa de descentralização da política de C&T neste período também


tenha sido restringida pela redução de gastos estatais, a indução do governo federal estimulou
a criação ou consolidação45 de bases institucionais estaduais da política de C&T, com
substancial emulação das instituições federais (secretarias de governo, fundos e fundações de
fomento estaduais de C&T). Além disso, este processo de indução, ressoava e tinha apoio nas
comunidades de pesquisa existentes nestes estados, em grande parte constituída durante a
ampliação e desconcentração de atividades de C&T federais (universidades e institutos de
pesquisa) do período anterior, e para quem o fomento estadual geraria complementariedade ao
do governo federal.

2.2.4 Consubstanciação da política de CT&I no Brasil e o discurso do desenvolvimento


via inovação tecnológica

No final da década de 1990, em um cenário de recuperação econômica e com a criação


dos Fundos Setoriais como nova fonte orçamentária ao Fundo Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico (FNDCT), ocorre a ascensão da agenda de inovação tecnológica
como atributo nuclear da elaboração discursiva da política explícita de C&T no Brasil
(VIOTTI, 2008, CARLOTTO, 2013), refletindo certa convergência ao discurso de ênfase em
competitividade difundido internacionalmente.
Os argumentos básicos que colocaram o foco do processo da política sobre a inovação
basearam-se fortemente na importância da promoção da competitividade das empresas, por
meio da inovação tecnológica, para alcançar um crescimento e desenvolvimento econômico
sustentado, conforme construído desde a década de 1980 nos países centrais, e com
substancial emulação dos instrumentos e programas destes mesmos países (CARLOTTO,
2013).
Deste modo, o discurso construído por esta orientação da política indica que, embora o
Brasil tenha alcançado uma considerável capacidade científica, para esta se efetivar em fonte
de desenvolvimento ao país, seria necessário materializá-la em inovações tecnológicas de
produtos e serviços à sociedade (CARLOTTO, 2013). Neste sentido, há um esforço para criar
um novo aparato jurídico e institucional, de modo que novos instrumentos de fomento nesta
direção sejam estabelecidos; bem como, desenvolve-se um conjunto de diretrizes e planos que

45
Segundo Silva (2000), até 1985, somente quatro (4) estados brasileiros possuíam fundações de fomento à
C&T: São Paulo, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Atualmente, conforme o Conselho Nacional
das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (CONFAP, 2018), todos os estados brasileiros possuem
fundações de fomento, com exceção de Roraima.
114

orientem a nova matriz cognitiva, com incisiva influência dos modelos internacionalmente
difundidos, em particular do Sistema Nacional de Inovação.
Na função regulatória da política, uma série de novas legislações emergiram
vinculadas à agenda, entre estas destaca-se a lei de incentivo à inovação (10.973/2004), a Lei
do Bem referente a concessões de incentivos fiscais (11.196/2005). A lei de incentivo à
inovação buscou estimular a relação entre instituições públicas de C&T e empresas,
assegurando um rol de formatos e conteúdos para estas parcerias, além de, como ressalta
Carlotto (2013) estabelecer que essas envolvam-se diretamente no processo de
comercialização de conhecimento, sobretudo por meio do patenteamento e do licenciamento
de novas tecnologias. Também procurou constituir mecanismos de estímulos à inovação
diretamente para as empresas, por meio destas legislações, como programas de renúncias
fiscais e de subvenção econômica do governo em projetos de P&D e inovação empresariais.
Em 2016, houve novo movimento regulatório de aprofundamento desta agenda, com as
aprovações da emenda constitucional n° 85 e da Lei nº 13.243/2016, denominada de novo
marco legal da CT&I.
Além das modificações legais, ainda no final do segundo (2º) governo de Fernando
Henrique Cardoso, havia se iniciado uma séria de discussões sobre o avanço de instrumentos
e medidas para promoção da inovação no âmbito da política científica e tecnológica, como
registrado no Livro Verde da CT&I (MCT, 2001) e no Livro Branco da CT&I (MCT, 2002),
respectivamente o documento concebido como base para debates da segunda (2ª) Conferência
Nacional de CT&I, e o outro sendo a expressão de seus resultados. Com o governo de Luís
Inácio Lula da Silva, há uma continuidade na concepção da política de CT&I, contudo esta
torna-se articulada de forma mais estruturada por meio da Política Industrial, Tecnológica e
de Comércio Exterior (PITCE) e do Plano de Ação do MCT 2004-2007.
A PITCE baseia-se na seleção de setores como opções estratégicas (semicondutores,
software, bens de capital e fármacos e medicamentos) e atividades portadoras de futuro
(biotecnologia, nanotecnologia, biomassa e energias renováveis). Ao analisar os setores
priorizados, Dias (2009) ressalva que estes têm uma relevância pequena na participação no
Produto Interno Bruto (PIB) e na geração de emprego do país (exceção ao setor de bens de
capital), e que não são necessariamente dinâmicos em termos de difusão de conhecimento em
um contexto periférico. Estes pontos levantam questionamentos sobre a eficácia da promoção
de desenvolvimento econômico e social nacional a partir das áreas estratégicas da PITCE,
associados também a negligência quanto a avaliação de seus resultados (diretos e indiretos)
em termos de estratégias de desenvolvimento mais amplas.
115

Cabe mencionarmos, que esta concepção de setores estratégicos da PITCE está


associada a ideia de economia do conhecimento, que valoriza setores baseados em avanços
científicos. Assim, apesar de realçar o propósito finalístico do desempenho inovativo, permite
considerável subordinação deste à necessidade de implementação de uma substancial
estrutura de desenvolvimento científico e tecnológico no ambiente do sistema, enquanto peças
institucionais chaves. Isso favorece a instrumentalização de políticas de expansão de
capacidades científicas (criação ou ampliação de novas universidades, institutos de pesquisa e
organizações similares e de formação e fixação de recursos humanos), concebidas como
condições prévias e necessárias ao catching up.
Em relação ao enfoque específico da promoção da competitividade empresarial na
PITCE e, de forma geral, trazido no bojo da política, Carlotto (2013) assinala que enquanto
objetivo de política afasta-se do âmbito de ação setorial do MCT, uma vez que estaria mais
essencialmente vinculado a outras pastas, como o próprio Ministério do Desenvolvimento,
Indústria e Comércio Exterior. Logo, para tal objetivo se concretize, minimamente, a autora
destaca a necessidade que os atores “no e por meio” do MCT empenhassem-se para que a
inovação dirigida ao aumento da competitividade das empresas se torne pauta priorizada de
outros setores do governo, já que ultrapassa sua pasta específica. Bem como,
comprometessem-se em uma reforma estrutural do sistema nacional de C&T para que este
efetivamente atue com foco em aumentar tal competitividade.
Contudo, Viotti (2008) observa que a política econômica do período continuou
alicerçada em extremamente elevadas taxas básicas de juros, câmbio flutuante, e superávit
primário. É um cenário o que inibe investimentos de risco, com retorno de longo prazo, como
P&D e inovação tecnológica, enquanto favorece setores voltados para exportação, intensivos
em recursos naturais, como produtores de commodities, cuja estratégia competitiva prescinde
de investimentos substanciais em P&D e inovação, ou mesmo de mão-de-obra
significativamente qualificada (VIOTTI, 2008). Neste caso, configura-se um ambiente
macroeconômico que reflete uma política econômica implícita em direção distinta daquela
traçada na PITCE e de foco no estímulo à inovação.
Carlotto (2013) acrescenta outros aspectos que corroboram com o entendimento que
não se conseguiu constituir demandas consistentes de P&D pelas empresas que conformasse a
ciência como componente dinâmico da economia no padrão atual de desenvolvimento
brasileiro, em um contexto de capitalismo periférico. Entre os elementos evidenciados pela
autora estão: (1) a preservação de um baixo investimento em P&D por parte das empresas,
apesar dos incentivos aportados; (2) o aumento do número de patentes sob controle de
116

cidadãos e instituições estrangeiras no Brasil, que aponta para um aumento da “taxa de


dependência tecnológica” a partir de 1990, ao mesmo tempo que tem-se uma forte presença
de instituições públicas de C&T entre os maiores titulares nacionais de pedidos de patentes no
Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) e; (3) a contínua adoção por parte dos
empresários no Brasil, como principal estratégia associada a P&D, da aquisição de máquinas
e equipamentos, conforme resultados recorrentes da Pesquisa de Inovação (PINTEC).
Diante do exposto, Carlotto (2013) e Dias (2009) defendem que o discurso da
promoção da inovação tecnológica no Brasil advém antes de parte da comunidade de pesquisa
do que do setor empresarial do país. Conforme Carlotto (2013), o fato do conhecimento
científico não ser reconhecido como fator decisivo e necessário à dinâmica econômica
prevalente no Brasil, propicia que a comunidade de pesquisa aqui mantenha forte autonomia
relativa no domínio da política de CT&I, e torna pouco factíveis explicações do processo
político que atribuam às necessidades econômicas suas transformações internas. O que
corrobora com Dagnino (2007) que a comunidade de pesquisa, não somente é o ator central
que domina os processos decisórios na política de CT&I, mas também é quem apresenta
maior interesse no conteúdo e resultados dessas políticas.
Em sentido similar, Dias (2009) examina que, embora as empresas privadas tenham
sido contempladas pelo foco da política em inovação, em termos, por exemplo, de incentivos
financeiros (renúncias fiscais e subvenções), os atores empresariais nacionais pouco
influenciam decisivamente no processo da política, de forma que o atendimento de demandas
expressas dos empresários ainda é marginal frente ao conjunto de atividades e montante de
investimentos realizados em C&T. Como exemplo, conforme dados do MCTIC (2018b), no
ano de 201346, do total de dispêndios públicos com P&D no país 8,25% corresponderam a
atividades de desenvolvimento tecnológico industrial, enquanto 62,05% foram destinadas a
instituições de ensino superior e 9,76% a pesquisas não-orientadas.
Carlotto (2013) também demonstra que no período de 2000 a 2010, houve crescimento
contínuo do número de pesquisadores atuando em tempo integral nas organizações de ensino
superior do país (aumento percentual de 142,7%), ao mesmo tempo que ocorreu uma redução
no número de pesquisadores em empresas (diminuição de 6,5%).
Assim, as interpretações centradas no processo político ou sociológico da
consolidação de um foco explícito na política de inovação no âmbito do processo da política
científica e tecnológica a compreendem como uma estratégia de cientistas e demais membros

46
De acordo com a série de dados denominada de "Dispêndios públicos em pesquisa e desenvolvimento (P&D),
por objetivo socioeconômico", disponibilizada pelo MCTIC somente até 2013.
117

da comunidade de pesquisa em legitimar a institucionalização e o investimento público em


políticas de C&T no contexto pós-ditadura e de influência neoliberal (CARLOTTO, 2013;
DIAS, 2009). Paradoxalmente, a defesa da subordinação da ciência às necessidades
empresariais, por meio do discurso da CT&I orientada para o mercado, fortaleceu a
institucionalização do regime disciplinar e estatal de C&T, baseado amplamente no
financiamento de pesquisa em universidades e institutos públicos (CARLOTTO, 2013). Dias
(2009) conclui que ao filiar-se ao discurso de inovação, com foco na empresa privada, o ator
dominante da política de C&T (comunidade de pesquisa) garantiu o controle sobre variados
canais de recursos financeiros que foram criados sob a racionalidade gerencialista
(principalmente o FNDCT).
Neste sentido, embora aparentemente contraditório, a ascensão da agenda de inovação
empresarial na política de C&T (criando o amálgama da política de CT&I) tendeu a fortalecer
a posição privilegiada de cientistas e pesquisadores em sua direção no Brasil. Esse movimento
foi possível a partir da combinação de duas dinâmicas desta política realçadas por Dagnino
(2016), enquanto sua anomalia e atipicidade.
A primeira dinâmica refere-se a anomalia da política pelas crenças ainda persistentes
de neutralidade científica e determinismo tecnológico, tanto entre os membros da comunidade
de pesquisa, quanto aos outros atores sociais, que implica em aceitar que a C&T esteja
direcionada "em busca da verdade e da eficiência", atendendo indiferentemente a distintos
projetos políticos de sociedade (DAGNINO, 2016). Conforme Dagnino (2016), esta
concepção conduz a uma despolitização da política de CT&I, no âmbito de uma orientação
tecnocrática, que dirige o processo decisório de avanço da C&T e de sua política a emular
agendas de grupos de pesquisa ou de países líderes em cada área de conhecimento, mantendo
a postura autocentrada da comunidade de pesquisa, em detrimento de uma discussão mais
ampla das direções e implicações sociais, econômicas e políticas destas agendas e escolhas.
A segunda dinâmica é a atipicidade da política no país corresponde a sua condição
periférica no sistema capitalista, de forma que, o comportamento empresarial em nosso
ambiente de industrialização tardia e limitada, torna-se divergente daquele em países e
ambientes de industrialização avançada, onde foram modelados para o sistema nacional de
inovação, particularmente no que tange a propensão à inovação e ao investimento em P&D no
ritmo e intensidade propostos (DAGNINO, 2016). Deste modo, as condições
macroeconômicas e periféricas (elevadas taxas de juros, economia baseada em commodities
para exportação, dependência tecnológica e cultural) provocam baixa propensão a inovar no
empresariado local, o qual, quando inova, o faz majoritariamente pela aquisição de máquinas
118

e equipamentos (pacotes tecnológicos já maduros) importados de países centrais. Portanto, a


emulação de políticas de CT&I de modelos importados de países centrais falha por não
conseguir modelar adequadamente o comportamento empresarial local (aparentemente
irracional frente ao modelo, mas adaptado a condição econômica periférica) e mantém uma
orientação ofertista e neovinculacionista na política.
No que depreendemos que no país, a ascensão do discurso de promoção da inovação
empresarial na política explícita de CT&I reforça concepções ofertistas típicas do modelo
linear de inovação, que mantém um direcionamento implícito com ênfase à política científica
(fomento à pesquisa e formação de recursos humanos), centrada na comunidade de pesquisa,
amparado nas concepções de neutralidade científica e determinismo tecnológico.
Dias (2009) adverte que esta estratégia tem consequências relevantes ao processo e
identidade da política científica e tecnológica. O autor crítica o tratamento conjunto, sem
adequada distinção conceitual, da política científica e tecnológica e da política industrial e de
inovação, uma vez que resulta em subestimar a abrangência de escopo da política de C&T,
que ficaria concentrada no ambiente e racionalidade das empresas, em detrimento de outros
atores e racionalidades sociais (movimentos e grupos sociais, organizações não-
governamentais, universidades e institutos de pesquisa), e, mesmo, de outros setores de
políticas públicas fins que a política de C&T, enquanto política meio, potencialmente poderia
auxiliar (saúde, agricultura familiar, desenvolvimento social, ...). À medida que a promoção
de inovações tecnológicas empresariais progressivamente é articulada como a finalidade
máxima da política de C&T, altera-se a própria identidade da política científica e tecnológica,
e a afasta de sua configuração socialmente mais ampla de política-meio (DIAS, 2009).
Este viés da agenda de inovação tecnológica empresarial, amparado em lógicas e
objetivos essencialmente de promoção de competitividade e em relações de mercado, implica
em uma crescente importância destes elementos no processo da política de CT&I no contexto
brasileiro, o que limita seus objetivos e focos, assim como a distância de questões mais
abrangentes, de conteúdo político e social, fundamentais para discussão de um projeto de
sociedade que tenha como enfoque o desenvolvimento social.

2.2.5 A construção de alternativas conceituais na política de CT&I no Brasil e a


emergência de uma política de C&T para desenvolvimento social

Como vimos nos movimentos de convergência internacional da política de CT&I,


diversas são as contestações à restrição do enfoque de ênfase à competitividade baseado no
119

modelo do sistema nacional de inovação, bem como, de forma mais ampla, à constituição de
uma orientação que dirija atenção a grandes problemas sociais do país, principalmente
relacionado ao combate à pobreza, redução de desigualdades e das dinâmicas de exclusão
social. O esforço de articulação de política de CT&I voltado para a inclusão social que tenha
alcançado a agenda do processo de política no país (embora em posição marginal) com algum
destaque, principalmente na primeira década de 2000, refere-se ao movimento de elaboração
de uma política de C&T para desenvolvimento social, apoiado em proposições conceituais
sobre tecnologia social.
O tema da inclusão social entrou na agenda governamental da CT&I no início do
primeiro governo de Luís Inácio Lula da Silva (2003-2006), em que, entre as sinalizações
desta inserção no processo de política, podemos observar, conforme realçado por Fonseca
(2009) a criação, em 2003, no âmbito do MCT de uma Secretaria de C&T para Inclusão
Social (SECIS); em 2004, com o estabelecimento da Área de Tecnologia para
Desenvolvimento Social na agência de fomento federal Financiadora de Estudos e Projetos
(FINEP); e a institucionalização da Rede de Tecnologias Sociais (RTS), em 2005. Como
comentamos, apesar do tema ter se mantido marginal no processo de política (DIAS, 2009;
FONSECA, 2009), consideramos que a breve revisão de algumas das características na
trajetória da política seja útil para nossa compreensão de como discursos alternativos da
política tem conseguido se articular e quais suas dificuldades de materialização.
A novidade do tema de inclusão e desenvolvimento social na política explícita de
C&T, como apontado por Fonseca (2009), não se refere somente a temática em si, mas, ao
fato desta não ter emergido apenas no âmbito da própria política de C&T, mas em
movimentos de desenvolvimento de tecnologias com participação de setores da sociedade
civil, como organizações não-governamentais (ONG), por exemplo, Instituto de Tecnologia
Social (ITS), criado em 2000, e da Fundação do Banco do Brasil (FBB), que em 2001
instituiu o Prêmio “Tecnologias Sociais”. A busca de construção conjunta entre ONG e
organizações públicas de um entendimento comum de tecnologias sociais e da articulação de
uma política para sua promoção, resultou na criação da RTS, em 2005.
Fonseca (2009) ressaltou que a RTS, em 2008, estava composta por 640 organizações
de múltiplos setores, caracterizando um perfil de atores políticos diferenciado das categorias
tradicionais de C&T, e, assim, conferindo um caráter de inovação institucional no processo da
política. Contudo, Dias (2009) observa que a complexidade e diversidade das demandas de
ONG e movimentos sociais junto a SECIS se, por um lado, reflete em um caráter plural de
ações, por outro lado, cria um desequilíbrio entre os atores interessados em incidir sobre a
120

agenda social da C&T e o escasso espaço e orçamento destinados a esta no processo de


política global da CT&I, implicando em uma significativa diluição de esforços.
Exemplo desta diversidade pode ser vista no Plano de CT&I 2007-2010, em que no
âmbito da chamada “Prioridade Estratégica IV” de CT&I para desenvolvimento social haviam
duas linhas principais, de Popularização da CT&I e Melhoria do Ensino de Ciências e de
Tecnologias para Desenvolvimento Social, com diversos programas conforme o quadro 5. No
Plano Plurianual (PPA) 2012-2015, essas duas linhas de ação são praticamente mantidas em
termos de conteúdo, identificadas nos objetivos “promover a popularização da ciência,
tecnologia e inovação e a melhoria da educação científica” e “promover a ciência, tecnologia
e inovação para a inclusão produtiva e o desenvolvimento social”, sendo que suas previsões
orçamentárias somadas para os quatro (4) anos do plano equivalem a 1,7% (362.160.286,00)
do total do orçamento destinado à CT&I (20.870.536.022,00). A limitação em termos de
recursos orçamentários dirigidos a C&T para desenvolvimento social no contexto do processo
de política de CT&I é uma das razões que conduzem a considerá-la em posição marginal.

Quadro 5 – Programas por linha de ação da CT&I para desenvolvimento social no plano de Ação de
CT&I 2007-2010
Linha de Ação Programas
Apoio a Projetos e Eventos de Divulgação e de Educação Científica, Tecnológica e de
Inovação
Popularização da Apoio à Criação e ao Desenvolvimento de Centros e Museus de Ciência, Tecnologia e
CT&I e Melhoria Inovação
do Ensino de
Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas – OBMEP
Ciências
Conteúdos Digitais Multimídia para Educação Científica e Popularização da C,T&I na
Internet
Implementação e Modernização de Centros Vocacionais Tecnológicos
Programa Nacional de Inclusão Digital
Apoio à Pesquisa, Inovação e Extensão Tecnológica para o Desenvolvimento Social
Programa Comunitário de Tecnologia e Cidadania
Tecnologias para
Ciência e Tecnologia para o Desenvolvimento Regional com Enfoque em
Desenvolvimento
Desenvolvimento Local e Arranjos Produtivos Locais
Social
Apoio à Pesquisa e Desenvolvimento Aplicados à Segurança Alimentar e Nutricional
Pesquisa e Desenvolvimento Agropecuário e Agroindustrial para Inserção Social
Capacitação em CT&I para o Desenvolvimento Social (esta última não tinha previsão
orçamentário no plano).
Fonte: Adaptado pela autora a partir de MCT (2010b).

Neste sentido, Fonseca (2009) também defendeu que, embora o tema da inclusão
social tenha conseguido ser inserido no processo de política de CT&I, não causou um
desequilíbrio no balanço de forças entre os atores políticos existente. Por um lado, isso
possibilitou um nível de conflito ou rejeição menor à sua entrada na pauta, por outro lado, a
manteve em uma posição marginal no processo da política. O autor ressalta que, além da
121

restrição de recursos, o perfil dos dirigentes da SECIS era associado ao exercício de funções
político-eleitoral, sem vinculação prévia à comunidade de pesquisa (perfil profissional
tradicionalmente presente nos quadros do MCT), e a maior parte do orçamento executado pela
SECIS advinha de emendas parlamentares, e não da fonte do MCT (em 2008, 88% do
orçamento da SECIS teve origem em emendas parlamentares de bancadas, individuais e de
comissões). Esses aspectos levam Fonseca (2009) a argumentar que majoritariamente a
comunidade de pesquisa não expressava interesse significativo ao tema em pauta,
principalmente por estarem comprometidos com outras concepções e discursos da política de
CT&I.
Relacionada a esta articulação de concepções alternativas, um conceito chave de
construção no processo de política está sobre "tecnologia social". A definição assumida pela
RTS de tecnologia social foi que “compreende produtos, técnicas ou metodologias,
reaplicáveis, desenvolvidas na interação com a comunidade e que representam efetivas
soluções de transformação social” (RTS, 2005). Dias (2009) indica que na RTS, ao
contemplar um conjunto heterogêneo de atores, há uma diversificada percepção sobre o
próprio tema da Tecnologia Social. Fonseca (2009), por exemplo, exemplifica um ponto de
tensão entre diferentes atores sobre escala de alcance das experiências de tecnologias sociais e
as escalas dos problemas sociais brasileiros, em contexto de debate sobre as possibilidades e
condições de reaplicação das tecnologias. Mas, ao considerar valores e interesses comuns dos
atores da rede, estes havido se empenhado por atingir uma convergência mínima para a ação
no sentido de viabilizar a geração e a reaplicação de tecnologias.
Fonseca (2009) e Dias (2009) defendem que o enfoque tecnológico dirigido à inclusão
e desenvolvimento social precisava partir de uma compreensão de não-neutralidade científica
e não-determinismo tecnológico, assim, sendo fundamental que o desenvolvimento
tecnológico ocorra com a participação inclusiva dos usuários locais, de modo a incorporar
seus valores e condições locais do contexto de aplicação. Pontos conceituais convergentes aos
princípios associados a construção de discurso socialmente orientado de política de CT&I,
como vimos anteriormente. Desta forma, a tecnologia social se distinguiria das tecnologias
convencionais, caracterizadas pela desassociação entre espaço e momento de
desenvolvimento da solução, e as dimensões espaciais e temporais de sua difusão e utilização.
Neste caso, a própria reaplicação depende de um processo de avaliação e apropriação local da
solução proposta ao novo contexto local.
Mas, Dias (2009) adverte que a priorização de ações da política voltada à inclusão e
desenvolvimento social da SECIS tende a adotar uma postura mais conservadora em termos
122

de concepção de C&T, o que inibe a noção de produção de conhecimentos e tecnologias com


a participação ativa dos atores socialmente excluídos, com o objetivo de emancipação destes.
Para Fonseca (2009), a política de C&T para inclusão e desenvolvimento social não logrou
materializar seu potencial de transformação social, que a tornasse uma política meio para
efetiva produção de conhecimento e tecnologias para as áreas fins das políticas sociais e da
agenda de inclusão e desenvolvimento social governamental (combate à pobreza e fome,
segurança alimentar e hídrica, saneamento e habitação para baixa renda, entre outros). No
caminho para um ponto de inflexão no processo de política, o autor destaca a necessidade de
avançar em uma mudança das concepções de C&T, em particular do ator principal do
processo política, a comunidade de pesquisa.
Entretanto, nos últimos anos, enquanto em termos institucionais o foco predominante
na política de inovação tem continuamente avançado, a área de C&T para desenvolvimento
social tem tido enfraquecida sua posição. Em 2016, com a fusão dos, então, Ministério da
Ciência, Tecnologia e Inovação e Ministério das Comunicações, entre as reformas na
estrutura administrativa realizadas houve o rebaixamento da SECIS para o nível de Diretoria,
Diretoria de Políticas e Programas para inclusão Social (DEPIS), subordinada à Secretaria de
Políticas e Programas de P&D (SEPED) e a desarticulação da RTS.

2.3 COMPOSIÇÃO DE UMA MATRIZ DE REFERÊNCIA DOS DISCURSOS DA


POLÍTICA DE CT&I

Como inicialmente proposto, esta pesquisa visa compreender como se desenvolvem


ações de enfrentamento das desigualdades no processo da política de CT&I, seja em termos
de abrangência e direções conceituais, seja de ações e resultados alcançados. Neste capítulo,
discutimos as diferentes concepções de ciência, tecnologia e sociedade que orientam as
políticas de CT&I, e como tais concepções, entendidas enquanto discursos, expressam
abordagens conceituais e analíticas distintas sobre questões que envolvem projetos de
desenvolvimento e enfrentamento das desigualdades, com implicações de enfoques
prioritários de identificação de problemas, formulação de soluções, e desenhos e instrumentos
preferenciais no processo da política.
Neste sentido, buscamos sintetizar um quadro referencial dos discursos da política
para auxiliar-nos na evidenciação de sistemas de crenças na análise do caso empírico e na
compreensão de pontos de disputas relevantes a serem desenvolvidas nos próximos capítulos
desta tese. Lembramos que estes discursos, propostos a partir da revisão de literatura,
123

representam uma moldagem síntese e simplificadora de uma ampla diversidade de estruturas


de crenças possíveis dos atores políticos, em uma aproximação ao conceito de sistema de
crenças de Sabatier e Jenkins-Smith (1993).
Decidimos sintetizar três (3) discursos para compor um referencial para a análise da
política em uma perspectiva mais abrangente e de tipo ideal, a partir da abordagem de
convergência internacional, conforme apresentado no quadro 6, denominados de modo
sintético em:
- discurso da política da C&T auto orientada, em função da centralidade da política
estar direcionada aos próprios cientistas em contexto similar da noção de discurso da ciência
como motor do progresso, proposto por Velho (2011);
- discurso da CT&I orientada para o mercado, em função da centralidade da política
estar direcionada ao lócus da inovação empresarial, em contexto similar da noção de discurso
da inovação como fonte de estratégia competitiva e;
- discurso da CT&I orientada para a sociedade, em função da busca de uma política
com foco finalístico no voltado a uma pluralidade de direções para atendimento dos diferentes
grupos sociais. Este discurso pretende ser representativo de concepções voltadas a orientação
de ênfase social e distributiva em emergência no processo da política de CT&I.
Posteriormente, discutimos as singularidades dos discursos na política no Brasil,
particularmente nos moldes da conformação dos discursos da C&T auto orientada e da CT&I
orientada para o mercado.
124

Quadro 6 – Matriz de referência de discursos da política de CT&I a partir de uma visão de convergência internacional
Discurso da CT&I orientada para o Discurso da CT&I orientada para a
Componentes Discurso da C&T auto orientada
mercado sociedade

Ciência socialmente neutra de valores e Ciência socialmente construída, considerada Ciência socialmente construída, que valoriza
Concepção de ciência
interesses, sob orientação positivista uma forma de conhecimento superior conexões de diferentes formas de saberes

Concepção de tecnologia Determinismo tecnológico Constructo sociotécnico Constructo sociotécnico


Quem produz Cientistas e engenheiros por meio de redes Cientistas e diferentes atores sociais por
conhecimento e Cientistas complexas de interações com outros atores meio de redes interacionais e conexões de
tecnologia sociais saberes
Membros da comunidade científica, empresas Membros da comunidade científica,
Protagonistas da política Membros da comunidade científica
e governo sociedade civil, empresas e governo
Modelo de inovação Modelo linear Modelo interativo focado na empresa Modelo interativo em múltiplos loci

C&T propiciam industrialização e produção Inovação tecnológica gera desenvolvimento Contestação ao atributo da convergência em
Interação da ciência e em massa como fonte de crescimento econômico (via competitividade e agregação concepções de desenvolvimento e à ênfase
tecnologia e projeto de econômico necessário a estágios de de valor) que transborda benefícios sociais por econômica. Orientação ao desenvolvimento
desenvolvimento desenvolvimento em uma sequência linear e melhorias de emprego, qualificação social (múltiplas dimensões) a partir de uma
universal. profissional e novos produtos. construção endógena.

Prioridade de enfoque Crescimento econômico como solução ao Enfoques distributivos sensíveis a múltiplas
Orientação agregativa a partir da combinação
problema-solução sobre combate à pobreza nas etapas iniciais da clivagens sociais e efeitos cumulativos das
de concepções liberais e utilitaristas.
desigualdades sequência linear de desenvolvimento. dinâmicas de desigualdades existentes.

Escopo priorizado Foco na política científica Foco na política de inovação Foco finalístico no bem-estar social

Concepção de definição Agenda centrada na comunidade científica, Orientada pelo aporte do sistema nacional de Agenda localmente situada e abordagens
de agenda e formulação estratégias desenhadas no modelo big science inovação à agenda e estratégias industriais. participativas de formulação de alternativas

Concepção de
Top-down Top-down Bottom-up
implementação

Avaliação por pares para ciência,


Análise micro orientada, baseada em Abordagens participativas e
Concepção de avaliação metodologias de impacto tecnológico,
avaliação ad hoc por pares de projetos. contextualizadas.
indicadores econômicos e de inovação
Fonte: Elaborado pela autora (2019).
125

Pelo que revisamos na trajetória da política de CT&I no Brasil, a ênfase para a


inovação tecnológica, no âmbito do discurso da CT&I orientada para o mercado, emerge
como política explícita por uma estratégia de legitimação frente tanto à orientação neoliberal e
gerencialista, quanto à forte difusão internacional do modelo de sistemas nacionais de
inovação, enquanto política de sucesso de países centrais. Porém, nesse contexto, algumas
condições estruturais e conjunturais estão ausentes para a efetividade desta concepção como
política implícita, uma vez que: não se configura uma demanda relevante sobre a C&T
nacional ou na constituição P&D próprio pelos principais setores econômicos do país
(atipicidade periférica); bem como, não houve mudanças substanciais no período em políticas
industrias e econômicas correlatas que procurassem alterar cenário que tem favorecido setores
voltados para exportação e intensivos em recursos naturais, e tolhe a propensão a
investimentos de risco e de retornos de longo prazo, como são os caso de atividades de P&D e
inovação tecnológica.
Assim, cientistas e pesquisadores permanecem como os atores mais interessados e de
maior poder no processo da política de CT&I, mantendo-se esta majoritariamente como uma
política para ciência (policy for science) e pouco sensível a sua função de política meio
(science for policy). Portanto, embora a política de CT&I explícita crescentemente expresse o
discurso em prol da inovação tecnológica, sua política implícita ainda preserva espaço e
fomento consideráveis a concepção de uma C&T auto orientada.
No que compreendemos que, apesar da ocorrência de desestabilização do discurso da
C&T auto orientada com o fim do modelo nacional-desenvolvimentista na década de 1980 e
1990, seus atores políticos dominantes conseguiram estabelecer uma nova estabilização
discursiva sem a necessidade de uma mudança disruptiva na política. Por um lado,
entendemos que atores políticos afiliados àquele discurso dominante promoveram de certa
forma uma "atualização" em alguns aspectos do seu sistema de crenças preponderante, que é
inclusive compatível (e funcional) para integração com uma agenda científica internacional, a
qual seus pares em grupos pesquisas e centros de excelência em países centrais tendem a
estarem vinculados. Distinguimos como aspectos mais propensos a alterações aqueles
associados principalmente a uma busca de aproximação ao setor empresarial
(neovinculacionismo) e adoção de mecanismos privados de gestão e de comercialização da
pesquisa (modelo gerencialista).
Por outro lado, não houve significativa perda de poder da comunidade científica no
processo de política, nem ruptura na direção principal de fomento (políticas de pesquisa e de
formação de pesquisadores no complexo público de ensino superior e de pesquisa), ao
126

contrário durante a primeira década de 2000 houve aumento de investimentos nesta direção.
Neste sentido, também consideramos que existiu espaço suficiente no processo da política
para que estes atores mantivessem outros aspectos de seu sistema de crenças menos alterado,
ou mesmo para que outros atores não alterassem seu sistema de crenças. Concebemos que
aspectos menos propícios a mudanças foram a concepção dos cientistas como protagonistas
tanto da produção de conhecimento e tecnologia na sociedade, quanto do processo da política,
em que permaneceram dominantes, por isso conservando a agenda científica e da política
CT&I autocentrada nas dinâmicas próprias desta categoria de ator político.
De outro modo, também observamos no país a existência e articulação de atores
políticos comprometidos com a construção de uma política de CT&I que direcione esforços
diretamente a soluções dos problemas sociais no país, filiando-se ao discurso da CT&I
orientada para a sociedade. Uma mobilização destes atores pode ser constatada em torno da
política da C&T para inclusão, especificamente relacionada a proposição de políticas de
tecnologia social.
Diante do exposto, a partir da revisão de literatura sobre concepções de políticas de
CT&I e da síntese que elaboramos, consideramos possível encontrar na análise de casos
empíricos de processos da política de CT&I no Brasil atores políticos mobilizados em
coalizões filiadas aos três (3) discursos descritos no quadro 6. Além desses, também
examinamos factível identificar atores políticos cuja orientação discursiva seja um amálgama
dos discursos da C&T auto orientada e da CT&I orientada para o mercado, dada a
incompletude das mudanças realizadas no processo da política para aderência mais integral a
este último discurso mencionado.
A partir desta matriz referencial de discursos, nos próximos capítulos adentraremos o
objeto empírico a ser analisado quanto as ações para enfrentamento das desigualdades no
âmbito do processo da política de CT&I no estado do Pará. Portanto, no capítulo três (3) a
seguir, faremos uma contextualização e caracterização do subsistema de política estadual de
CT&I do Pará, de forma a identificar concepções e ações relacionadas ao enfrentamento das
desigualdades, bem como compreender a abrangência e possíveis inter-relações destas ações
com as demais desenvolvidas no processo desta política pública.
127

3 A POLÍTICA ESTADUAL DE CT&I NO PARÁ: CONTEXTO E ENFOQUES


RECENTES

Após revisarmos, no capítulo anterior, a trajetória da política de CT&I tanto no


contexto de uma visão mais ampla de convergência internacional, quanto no contexto
nacional brasileiro, neste capítulo, buscamos olhar especificamente para o processo da política
estadual de CT&I no Pará para buscar entender seus principais enfoques recentes e identificar
as ações para enfrentamento das desigualdades encontradas neste contexto.
Assim, fazemos nossa primeira aproximação ao processo da política com um
delineamento inicial de um subsistema de política de CT&I no âmbito do governo estadual do
Pará. O objetivo é alcançar uma visão global deste subsistema e situar as ações para o
enfrentamento de desigualdades nele, discernindo a abrangência em termos de diversidade de
dimensões de enfrentamento existentes e de sua extensão nos investimentos realizados.
Para o delineamento desse subsistema de política estadual de CT&I, procuramos
seguir as duas dimensões norteadoras, territorial e a substantiva, conforme por Sabatier (1993)
e Sabatier e Weible (2007): (i) para delimitação territorial, nosso foco está no processo da
política no âmbito do governo estadual do Pará, abrangendo assim suas estruturas
institucionais e ações governamentais específicas, embora reconhecendo estas enquanto
permeáveis a influências e relações intergovernamentais; (ii) para delimitação substantiva ao
tema da CT&I, enfocamos a identificação e análise dos programas dedicados a esta temática
nos últimos três (3) planos plurianuais (PPA), e as principais organizações governamentais
neles envolvidas.
Neste sentido, o capítulo está dividido em seis (6) seções. A primeira se refere a uma
breve introdução a conformação institucional da CT&I no Pará e da política estadual de
CT&I, seguida de uma seção para apresentação de indicadores atuais de CT&I do estado. As
três (3) seções seguintes são dedicadas para cada período de PPA em foco: 2008-2011, 2012-
2015, e 2016-2019. Em cada um desses períodos, buscamos analisar os principais programas
nas temáticas associadas a CT&I, as principais organizações envolvidas e seus documentos
norteadores de políticas complementares. Na sexta seção, direcionamos a visão deste
panorama da política para uma leitura específica das ações para enfrentamento das
desigualdades.
Compreendemos que esta contextualização e caracterização inicial do processo de
política estadual de CT&I pode iluminar atributos básicos deste (agenda, formas de ações e
instrumentos preferenciais, e organizações chaves), bem como nos proporcionar uma visão da
128

abrangência das ações para enfrentamento das desigualdades no conjunto das ações e política
públicas, inclusive possibilitando a distinção de temáticas de ações para aprofundamento da
pesquisa nos capítulos seguintes.

3.1 APONTAMENTOS DA INSTITUCIONALIZAÇÃO DA CT&I NO PARÁ E DE UMA


POLÍTICA ESTADUAL DE CT&I

Como indicamos, o enfoque neste capítulo está sobre a política de CT&I mais recente
no governo do Pará, a partir do PPA elaborado em 2008. Mas, a conformação de instituições
para C&T no estado tem uma trajetória anterior, que embora não seja nosso foco, entendemos
que precise ser, ao menos, brevemente contextualizada.
Conforme Nonato e Pereira (2013), o processo de construção social das atividades de
desenvolvimento científico na Amazônia Brasileira poderia ser dividido em quatro (4)
períodos47: o primeiro referente "expedições filosóficas e demarcatórias" realizadas na região
durante os séculos XVI, XVII e XVIII, composta seja por missionários, seja por cientistas,
principalmente naturalistas; o segundo correspondente as iniciativas inaugurais de
institucionalização por meio de museus e jardins botânicos na região no século XIX; o
terceiro concernente a criação das primeiras escolas técnicas, faculdades e institutos de
pesquisa de 1900 a 1950 e; o quarto pelo desenvolvimento de relativo alicerçamento
institucional, com a diversificação e descentralização das agendas de pesquisa, das ações
inter-relacionadas e de fontes de financiamento.

3.1.1 Primeiras iniciativas: Jardim Botânico do Grão-Pará e Museu Paraense

No Pará registrou-se, em 1798, a implantação do Jardim Botânico do Grão-Pará, dois


anos após sua ordenação pela Coroa Portuguesa, no contexto da organização de redes de
jardins botânicos entre nações europeias e suas coloniais (NONATO; PEREIRA, 2013;

47
O CGEE (2010) ao analisar o processo de construção de políticas de fomento de CT&I no contexto
subnacional brasileiro também propõe uma periodização com uma divisão em cinco (5) fases, sendo que a
primeira que corresponde às iniciativas até a década de 1950, que é sintetizada enquanto uma fase de
desconcentração ou descentralização difusa. Apesar de concordarmos com o sentido amplo da noção de ações
difusas, consideramos a periodização proposta por Nonato e Pereira (2013) particularmente interessante por (1)
detalharem melhor as diferentes concepções e ações nos governos locais acerca do desenvolvimento científico
em um abrangente espaço de tempo (XVI ao XX), que não está em foco no estudo do CGEE; (2) partirem de
uma perspectiva do governo local para tratar iniciativas de C&T, ainda que influenciadas por governos centrais,
divergente de uma perspectiva mais centrada na coordenação do governo federal do estudo do CGEE; (3)
desenvolvem um resgate histórico de iniciativas específicas da região amazônica.
129

SANJAD, 2001). Deste modo, o jardim botânico paraense tornava-se o primeiro espaço
institucional dedicado à pesquisa científica e experimentação agrícola na região, funcionando
tanto para aclimatação de espécies exógenas, quanto para cultivo e envio de espécies
endógenas (SANJAD, 2001). Contudo, como identificado por Sanjad (2001), com o processo
de independência do Brasil, a concepção do projeto de jardins botânicos perde importância no
contexto que o desenvolvimento de projeto científico precisava ser vinculado a construção de
uma identidade nacional. Assim, embora mantido por mais algumas décadas por meio de
articulações locais no âmbito do governo provincial do Pará, a partir de 1840 o jardim
botânico paraense perdeu seu caráter experimental. A partir de então, uma perspectiva de
atuação mais abrangente, conformando-o como jardim público ao que este autor se referiu
enquanto a transformação de um “jardim do império” para se tornar um “jardim da cidade”,
sendo extinto definitivamente em 1873.
No entanto, em torno do jardim se reuniram vários intelectuais, auxiliando a constituir
o que Sanjad (2001) caracterizou como uma emergente “comunidade científica” que, por
meio do exercício de cargos políticos, avançaram em um processo de profissionalização
científica na província com o estabelecimento de um Liceu Paraense, em 1841, com a
proposta de criação de um museu de história natural e de uma biblioteca pública. Neste
sentido, em 1866, um grupo de intelectuais (várias destes professores no Liceu, naturalistas,
profissionais liberais e políticos) reuniram para formar a Associação Philomática do Pará,
com o objetivo de implantar um museu paraense nos moldes das organizações de história
natural europeias (NONATO; PEREIRA, 2013; SANJAD, 2001). Em 1871, a Biblioteca
Pública e o Museu Paraense foram instalados oficialmente com apoio do governo provincial,
funcionando no prédio do Liceu (NONATO; PEREIRA, 2013; SANJAD, 2001).
Na década de 1890, já no regime republicano, o primeiro governador do Pará (Lauro
Sodré) convidou o zoólogo suíço Emílio Augusto Goeldi para dirigir o Museu Paraense e o
reestruturou estabelecendo-o como Museu Paraense de História Natural e Etnografia
(NONATO; PEREIRA, 2013; SANJAD, 2006). Posteriormente, seu nome foi novamente
alterado para “Museu Paraense Emílio Goeldi” (MPEG) em 1900, por decisão do governador
Paes de Carvalho, em homenagem ao zoólogo que permaneceu no cargo de diretor até 1907.
Enquanto o período em que fluía grande volume de riqueza proporcionado pela economia da
borracha, o Museu teve sua "belle époque" para naturalistas e colecionadores. Entretanto, a
crise financeira no estado do Pará nas décadas seguintes colocou seu funcionamento em risco,
de modo que, em 1955, foi incorporado ao governo federal, vinculando-se ao recém-criado
CNPq, sob a tutela do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), sediado em
130

Manaus (NONATO; PEREIRA, 2013). Somente na década de 1980, o MPEG retomou sua
autonomia organizacional em relação ao INPA, vinculando-se diretamente ao CNPq, e na
década de 1990, integrando o MCT, como unidade de pesquisa (NONATO; PEREIRA, 2013;
FAULHABER, 2005).

3.1.2 Expansão difusa na primeira metade do século XX

Com a decadência da economia da borracha48, o projeto de desenvolvimento científico


passou vincular-se a outros esforços do governo, principalmente na formação de uma rede
instrucional e na diversificação e ordenamento da produção agrícola regional, com a criação
de as escolas técnicas e faculdades (NONATO; PEREIRA, 2013). Nonato e Pereira (2013)
destacam, neste período, a criação de várias organizações como a Escola de Farmácia do Pará,
em 1904; Faculdades de Odontologia e de Medicina e Cirurgia do Pará, em 1912; a Escola de
Engenharia do Pará, em 1931, o Instituto de Patologia Experimental do Norte (atual Instituto
Evandro Chagas), em 1936 e; vinculado ao Ministério da Agricultura, o Instituto Agronômico
do Norte (IAN), em 1939, e sua decorrente atividade de ensino por meio da implementação da
Escola de Agronomia da Amazônia, em 1945.
Costa (2012) salienta a atuação do IAN, atual Centro de Pesquisa Agroflorestal do
Trópico Úmido (CPATU), unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
(EMBRAPA) da Amazônia Oriental. O autor relata que o instituto foi instalado entre os anos
de 1941 e 1942 com um programa de pesquisa parcialmente herdado do extinto Departamento
Científico de Estudos da Borracha da Companhia Ford Industrial em sua tentativa de operação
em Fordlândia, voltado à aplicação de conhecimentos científicos nas áreas de agropecuária e
silvicultura. Em 1962, as áreas de ensino e pesquisa do IAN se cindiram resultando na
Faculdade de Ciências Agrárias do Pará (FCAP, atualmente Universidade Federal Rural da
Amazônia) e no Instituto de Pesquisa e Experimentação Agropecuária do Norte (IPEAN), que
foi incorporado como CPATU à EMBRAPA no período da ditadura militar (COSTA, 2012).

48
A efetiva aproximação entre as atividades de pesquisa do MPEG e a problemática da borracha no Pará
apresenta algumas controvérsias, para Costa (2012) tal aproximação foi fortuita e tardia, Nonato e Pereira (2013)
corroboram que tal aproximação ocorreu já no início da queda do preço da borracha, por solicitação do governo,
mas ressaltam produções importantes do diretor à época, Jacques Huber, sobre a qualidade do látex e o cultivo
de seringueiras. Costa (2012) entende que esta falta de proximidade se relaciona a própria condição de
dominação mercantil em que se baseava o comércio de borracha na região amazônica: centralizada nas mãos de
aviadores que monopolizavam as operações comerciais e submetiam os atores da exploração extrativista, de
modo que, a disseminação de um cultivo ordenado da seringueira alteraria ou destruiria as relações sociais em
que se baseava seu processo de dominação econômica e política, desestimulando iniciativas de transformação
produtiva.
131

3.1.3 Desenvolvimento e conformações à institucionalização da política científica e


tecnológica nacional

Na década de 1950, como vimos no capítulo 2, ocorreu a institucionalização de um


domínio de política pública específico para a C&T no Brasil, caracterizado entre outras ações
pela criação do CNPq e da CAPES. Esta institucionalização se desenvolveu por meio de
processo de centralização da política de pesquisa científica e tecnológica e de formação de
quadros científicos nestes órgãos no governo federal49. Concomitante a um processo de
federalização de universidades, a maioria destas criadas a partir da aglutinação de faculdades
pré-existentes (OLIVEN, 2002). Como ressalta Oliven (2002), no período da nova república,
foram criadas 22 universidades federais, cuja concepção era de que em cada estado da
federação estivesse instalada, ao menos, uma universidade federal.
Este movimento de expansão da educação superior e sua estruturação em torno de um
modelo de universidade federal também ocorreu na Região Norte, concretizando-se no Pará
com a criação da Universidade Federal do Pará (UFPA) em 1957, a partir da congregação de
sete (7) faculdades (entre federais, estaduais e privadas) existentes em Belém de Medicina,
Direito, Farmácia, Engenharia, Odontologia, Filosofia, Ciências e Letras e Ciências
Econômicas, Contábeis e Atuariais (UFPA, 2019).
Conforme Costa (2012), a partir da década de 1970, a UFPA se constituiu enquanto
organização voltada à pesquisa conjuntamente com sua função de ensino superior. O
movimento que pode ser associado a Lei da Reforma Universitária (Lei n° 5540/68) e
favorecido com maiores incentivos a pós-graduação no país por meio da CAPES (OLIVEN,
2002). A UFPA, até hoje, se destaca no cenário regional e estadual. Devido a nosso enfoque
estadual à CT&I, cabe indicarmos que esta universidade mantém o maior número de grupos
de pesquisa (534 no censo de 2016 do CNPq50) e pesquisadores doutores associados a estes
no estado (2.047 mesmo censo de 2016 do CNPq). Bem como o maior número de programas
de pós-graduação em funcionamento atuando em todas as áreas de conhecimento (71 cursos
entre mestrado, doutorado e programas de mestrado e doutorado em 2016 conforme

49
O estudo anteriormente citado do CGEE (2010) sobre o processo de construção de políticas de fomento de
CT&I no contexto subnacional brasileiro caracterizou as décadas de 1960 e 1970, enquanto um período de
centralização.
50
Consulta no Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq (2019b).
132

CAPES51), tendo papel relevante na formação de quadros de pesquisa das demais que se
constituíram no estado.
Neste período, ao discutir a constituição de organizações e de agendas de pesquisa na
Amazônia, Faulhaber (2005) observou a construção da região enquanto “fronteira científica”,
entendida como unidade socioterritorial passível de ser incorporada a partir de diferentes
perspectivas. Desta maneira, a noção de fronteira assumia tanto caráter de “fronteira
internacional”, pelo interesse de pesquisa de diversas nações sobre a região e, principalmente,
a partir da década de 1970, com o acirramento das preocupações e debates ambientais
(FAULHABER, 2005; NONATO; PEREIRA, 2013). Quanto um caráter de “fronteira
econômica e social” ser incorporada dentro de projetos de expansão e integração nacionais,
particularmente marcada pelo desenvolvimentismo (FAULHABER, 2005).
Faulhaber (2005) ressaltava um fio condutor entre a significações de tais fronteiras
sobrepostas sobre a região, o projeto de Estado nacional e, a estratégia de intervenção por
meio da política científica e tecnológica em vigor. Ou seja, quais desafios de construção de
conhecimento e de representações sobre a natureza e ocupação humana eram direcionados.
Nonato e Pereira (2013) também observaram os movimentos políticos, econômicos e sociais
na constituição de agendas científicas na região, evidenciando duas direções principais. Por
um lado, a conformação de projetos de desenvolvimento por agroindústrias, madeireiras e
mineradoras que demandaram ordenamentos territoriais e competências científicas e
tecnológicas específicas e; por outro lado, relacionada também às consequências destes
projetos, a demanda pelo desenvolvimento de estudos e competências científicas sobre
impactos econômicos, sociais e ambientais destes empreendimentos, influenciados por foros
internacionais em que a problemática ambiental e o desenvolvimento econômico eram
debatidos como conferências das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano.
Tanto Nonato e Pereira (2013), como Costa (2012), salientam temáticas de referência
no desenvolvimento científico no estado em relação a agropecuária e manejo florestal, tendo
como um dos expoentes o CPATU/EMBRAPA e a geologia, geoquímica e geofísica, com
desenvolvimento significativo na Universidade Federal do Pará. Principalmente nas décadas
finais do século XX e início do XXI, o fortalecimento de agendas socioambiental e
biotecnológica enquanto estratégicas para gerar modelos de desenvolvimento fundamentados
em concepções de aproveitamento sustentável da biodiversidade e inclusão social de
populações tradicionais como amplamente discutido na 4ª Conferência Nacional de CT&I

51
Consulta ao Geocapes da CAPES (2019).
133

(BECKER, 2010; MCT; CGEE, 2010). Na próxima seção, tais temáticas também aparecem
evidenciadas no cenário de indicadores de CT&I no estado.

3.1.4 Institucionalização de processos de descentralização na política de CT&I

Desde o início da década de 1980, já havia articulação dirigida pelo CNPq para
descentralização de política de C&T no país pelo estímulo à constituição dos chamados
sistemas estaduais de C&T (SECT), conforme previsto no III Plano Básico de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico (PBDCT). Ainda em 1980, haviam sido realizados
dois encontros (um na região norte e outro na região nordeste) e diagnósticos preliminares da
função de C&T de nove (9) estados no Nordeste, norteando tais articulações no III PBDCT
(MARCELINO, 1985; CGEE, 2010). Conforme o CGEE (2010), dois anos após as ações
iniciais do CNPq era identificada a existência de 23 Secretarias Estaduais de C&T (SECT) e
de 18 planos estaduais de C&T.
A previsão de criação de órgãos, programas ou fundações estaduais voltadas à
promoção do desenvolvimento da C&T também era uma das linhas de articulação no III
PBDCT. Com a Constituição Federal (CF) de 1988, esse movimento foi fortalecido com a
introdução no artigo 218 (§5) da possibilidade dos estados criarem fundos de fomento à C&T,
pela vinculação de parcela das suas receitas orçamentárias às entidades públicas de fomento
ao ensino e à pesquisa científica e tecnológica. Silva (2000) identificou 23 fundos estaduais
criados nestes moldes até 2000. Além disso, foi incluída no rol das competências comuns
entre União, estados, distrito federal e municípios, conforme art. 23 da CF, a de "proporcionar
os meios de acesso à cultura, à educação, à ciência"52.
Faulhaber (2005) ressalta que tal movimento de regionalização era personalizado na
figura de Lynaldo Cavalcante de Albuquerque, presidente do CNPq à época, que havia sido
reitor da Universidade de Campina Grande. Os argumentos mobilizados para defesa da
regionalização abrangiam (ALBUQUERQUE, 2004; CGEE, 2010; MARCELINO, 1985) dois
pontos. O primeiro de dotar o Sistema Nacional de Desenvolvimento C&T (SNDCT) de
coordenação efetiva ao melhorar a geração de informações sobre as realidades regionais,
reconhecidamente desiguais no país, evitar duplicidade e pulverização de ações ao articular
atividades nacionais e estaduais e, obter apoio à execução da política nacional por ações
desdobradas no âmbito estadual, particularmente em estados que tais organizações e

52
Com a Emenda Constitucional nº 85 de 2015 esta competência foi ampliada para "proporcionar os meios de
acesso à cultura, à educação, à ciência, à tecnologia, à pesquisa e à inovação".
134

estruturas não existiam. O segundo ponto relacionado à concepção de atender a linhas de


pesquisa voltadas às “especificidades regionais”, com a consolidação de uma capacidade
regional de pesquisa que desenvolva soluções e alternativas tecnológicas adequadas a
realidades sociais e econômicas locais. Sendo, assim, dada ênfase ao alinhamento de agendas
de pesquisa às necessidades de desenvolvimento econômicos regionais.
Apesar da forte adesão da previsão nas constituições estaduais da criação de fundos e
de incentivar a criação de bases institucionais de C&T descentralizadas, esta indução foi
restrita pelo próprio cenário de crise econômica da década de 1980 que, no caso da política de
C&T, somente se reestabilização novamente no âmbito federal no final da década de 1990
com a criação dos fundos setoriais. Contudo, ainda que a descentralização tenha sido
efetivamente constrangida em sua operacionalidade pela crise econômica, este cenário de falta
de recursos federais e ascensão dos preceitos neoliberais, impulsionou articulação discursiva
em torno deste movimento, também, na direção de constituir alternativas de fontes de fomento
a C&T junto aos governos estaduais e entidades privadas. Esse constrangimento,
principalmente econômico de indução do governo federal à descentralização na década de
1980, fez com que o CGEE (2010) caracteriza-se o período como de descentralização
restringida.
Na década de 1990, houve a busca por iniciativas de descentralização público-privada
por parte do governo federal, particularmente relacionadas ao Programa Brasileiro da
Qualidade e Produtividade (PBQP) e do Programa Nacional de Software para Exportação
(SOFTEX) e os rebatimentos de criação dos fundos estaduais e de Fundações de Amparo à
Pesquisa (FAP) estaduais, resultantes das previsões constitucionais do final da década anterior
(CGEE, 2010).
No entanto, indução mais forte a estruturação institucional do processo de
descentralização e maior desconcentração de entidades federais somente ocorreu a partir da
2000, com a estabilização de fontes de fomento na política federal, que até hoje representa a
maior participação no financiamento a CT&I em todos os estados da federação, exceto o de
São Paulo (CGEE, 2010).
Na tabela 1, podemos verificar a expansão do volume de investimentos no domínio de
CT&I em termos de gastos federais, estaduais e empresariais. Observamos que houve
crescimento acentuado dos investimentos tanto dos dispêndios estaduais (571% em C&T no
período), quanto do dispêndio federal (522% em C&T), sendo este predominante.
135

Tabela 1 - Dispêndios em C&T e P&D no Brasil, de 2002 a 2016 (em milhão de reais)

Dispêndios 2002 2004 2006 2008 2010 2012 2014 2016


Federais em C&T 6.522 8.688 11.476 15.974 22.577 26.394 33.336 34.022
Federais em P&D 4.828 6.418 8.483 12.069 16.039 20.020 26.102 26.592
Estaduais em C&T 3.473 3.900 4.282 7.138 10.201 13.650 17.266 19.842
Estaduais em P&D 2.932 2.916 3.427 5.611 6.999 9.782 12.842 14.907
2003 2005 2008 2011 2014
Empresariais em P&D1
5.098 7.112 10.708 15.156 18.171
1
Dados da PINTEC, como esta pesquisa inclui empresas governamentais que realizam inovação, como o
exemplo da PETROBRAS, os valores registrados estão, em alguma medida, parcialmente em duplicidade com
os dispêndios governamentais acima. A periodicidade da PINTEC é diferenciada, por isso anos de referência são
indicados separadamente.
Fonte: MCTIC (2018b) e IBGE (2017).

O ponto relevante para entendermos o processo de descentralização em CT&I é


analisarmos a distribuição dos profissionais deste campo. Na tabela 2, examinamos o
crescimento de recursos humanos em categorias relacionadas ao exercício de atividades de
CT&I, com destaque para o número de pesquisadores doutores, cujo aumento no período foi
de 316% total para o país.

Tabela 2 - Quantidade de recursos humanos em CT&I no Brasil, de 2002 a 2016

Recursos humanos em
2002 2004 2006 2008 2010 2012 2014 2016
CT&I
Docentes em PPG stricto
79.113 40.725 47.571 53.706 60.038 71.507 85.449 95.182
sensu
Pesquisadores doutores
37.625 53.900 65.515 76.936 96.641 - 140.272 156.580
(DGP)
Pessoas ocupadas em P&D 2003 2005 2008 2011 2014
empresarial1 38.523 47.628 48.082 71.351 76.243
1
A periodicidade da PINTEC no decorrer do intervalo de tempo em pesquisa foi: 2003, 2005, 2008, 2011 e 2014,
por isso indicação de ano para os dados advindos desta pesquisa é diferenciada.
Fonte: Capes (2017), CNPq (2017) e IBGE (2017).

No gráfico 1, aplicamos um indicador de desigualdade (índice de Theil) para analisar a


distribuição do crescimento destes recursos humanos por unidade federativa (UF)53.
Encontramos que, principalmente para as categorias relacionadas a membros da comunidade
de pesquisa (pesquisadores com doutora e docentes da pós-graduação), houve redução das

53
O índice de Theil é um método de medição de nível de desigualdade, reconhecido por responder com forte
sensibilidade aos princípios de transferência entre unidades em análise e permitir decomposição da medição de
desigualdade em termos inter e intragrupos (RODRIGUES; VASCONCELLOS SOBRINHO; FERREIRA,
2017). Quanto maior o índice, maior a desigualdade na distribuição do recurso em medição entre as unidades em
análise. Maior detalhamento sobre o método e resultados aplicados a outras categoriais de análise podem ser
consultados em Rodrigues, Vasconcellos Sobrinho e Ferreira (2017).
136

desigualdades, indicando que a expansão destes profissionais tendeu a ocorrer em maior


proporção nos estados periféricos do que nos centrais. Portanto, podemos compreender que
houve certa desconcentração de atividades de CT&I e uma ampliação da comunidade de
pesquisa em estados periféricos.
Cabe considerarmos que processos de descentralização foram movimentos presentes
nos diversos domínios de políticas públicas no país a partir da década de 1980. Entretanto,
estes processos se desenvolveram de forma distintas em termos de coordenação federativa nos
diferentes domínios, seja na função financiamento, seja na de execução, seja na de regulação,
como exposta por Arretche (2010). Esta autora ressalta que soluções regulatórias mais
abrangentes e estruturadas foram desenvolvidas em políticas como de saúde, educação e
assistência social, em que o governo federal construiu instâncias de coordenação federativa
para controle e gestão de programas em âmbito intergovernamental. Exemplos são as
estruturas institucionais relacionadas ao Sistema Único da Saúde (SUS), ao Fundo Nacional
de Desenvolvimento da Educação Básica (FUNDEB) e do Bolsa Família.

Gráfico 1 – Índice de desigualdade em variáveis relacionadas a recursos humanos em CT&I entre


Unidades Federativas (UF) do Brasil, no período de 2002 a 2016

*Dados extraídos de Capes (2017), CNPq (2017) e IBGE (2017).


Fonte: Elaborado pela autora (2019).

No que tange a política de CT&I, compreendemos que a coordenação federativa se


baseou principalmente na função de financiamento, mais expressiva no governo federal, de
modo a induzir a execução de fomento e cofinanciamento estadual dentro de determinados
137

modelos de instrumentos e concepção de programas de pesquisa, como são os casos dos


chamados programas institucionais do CNPq54. Exemplos, PRONEX, INCT, Fixação de
Doutores e Iniciação Científica, executados de modo descentralizado por adesão dos governos
estaduais, geralmente via FAP. Auxiliar a isso, há forte processo de emulação dos modelos
institucionais e agendas nacionais ou dos estados centrais na construção de políticas
subnacionais, direcionados principalmente pelo compartilhamento de crenças acessórias da
política entre membros da comunidade de pesquisa.
Uma vez que a política de CT&I nacional é dominada por atores da comunidade de
pesquisa e tendo considerado grau de insulamento frente a outros atores sociais, como vimos
no capítulo anterior, entendemos que a articulação de mecanismos de coordenação federativa
mais abrangentes que operassem obrigações compulsórias fiscais ou administrativas aos
governos subnacionais seria de difícil articulação política. Portanto, em termos regulatórios,
os governos subnacionais gozam de amplas prerrogativas legais para tomar decisões
autônomas sobre o conteúdo e o formato dos programas governamentais neste domínio de
política, com substancial espaço às divergências de prioridades e focos de políticas. Além
disso, reconhecemos que apresentam capacidades orçamentárias e administrativas, bem como,
mecanismos institucionais e de controle no domínio muito desiguais.
Neste cenário, entendemos que o principal motor do avanço subnacional desta política
tende a ser a expansão e fixação de membros da comunidade de pesquisa nos territórios. Pois,
em geral, estes são formados em ambientes de C&T de territórios mais centrais (sejam
nacionais, sejam internacionais) e, ao retornarem ou se instalarem em territórios periféricos,
tornam-se a principal força de demanda pela institucionalização e ampliação desta política nos
governos subnacionais. Este movimento, embora resulte em um encontro de forças e
articulação de interesses locais bastante distinto na agenda geral do governo (levando a um
maior ou menor espaço e prioridade da CT&I no orçamento governamental estadual),
internamente no domínio da política, conduz a uma forte convergência de modelos
institucionais e agendas de fomento compartilhados no âmbito da comunidade de pesquisa
nacional.
Em relação à regulação federal sobre a política de CT&I, as principais iniciativas
foram voltadas à normatização das condições de financiamento e de conteúdos da política
CT&I, principalmente a partir da década de 2000, com aprovação de variadas legislações.

54
O CNPq atualmente mantém em sua estrutura organizacional uma coordenação-geral de cooperação nacional,
tendo uma coordenação específica para tratar dos programas em parcerias com os estados, a Coordenação de
Parcerias Estaduais (COPES).
138

Entre estas podemos citar a criação da chamada lei de incentivo à inovação (10.973/2004), a
Lei do Bem referente a concessões de incentivos fiscais (11.196/2005) e, mais recentemente,
a emenda constitucional n° 85, com o denominado novo marco legal da CT&I, Lei
13.243/2016. Tais legislações apresentam ênfases na introdução da agenda de políticas de
inovação tecnológica no domínio da política, movimento relacionado ao discurso em prol da
CT&I orientada para o mercado. Tais legislações federais tendem a ressoar em iniciativas
similares das legislações no âmbito estadual, uma vez que estados e municípios também
gozam de prerrogativas legais concorrentes sobre o sistema de ciência, tecnologia e inovação.

3.1.5 Institucionalização da política científica e tecnológica estadual no Pará

Como apontamos até o momento, houve diversas iniciativas de desenvolvimento de


pesquisas científicas e tecnológicas e sua institucionalização em organizações específicas no
Pará, sejam operadas a partir de atores locais endogenamente orientados, sejam operadas pela
junção de atores locais, nacionais ou internacionais, gestadas na confluência de projetos
científicos e de desenvolvimento endógenos e exógenos. Contudo, no início da década de
1980, as principais organizações de C&T instaladas no estado estavam sob a administração e
financiamento do governo federal (UFPA, CPATU, MPEG, entre outras). De modo que, o
processo de institucionalização de um domínio de política estadual específico a C&T (e
posteriormente de CT&I acompanhando o movimento nacional da comunidade de pesquisa)
foi moldado com forte influência da indução federal a descentralização.
Em 1989, a Constituição Estadual incorporou um capítulo dedicado a C&T (capítulo
IV)55 e atendeu a premissa do artigo 218 da CF ao prever no art. 291 a vinculação de, no
mínimo, três décimos por cento da receita orçamentária estadual ao fomento ao ensino e à
pesquisa científica e tecnológica, cuja aplicação seria exercida por instituição específica de
amparo ao desenvolvimento da pesquisa, ciência e tecnologia, nos termos da lei.
Além disso, no art. 290, neste mesmo capítulo, previu a criação de um Conselho
Estadual específico para C&T (art. 290), o qual entre suas atribuições estavam "I-opinar,
obrigatoriamente, sobre a política estadual de ciência e tecnologia", bem como opinar sobre
propostas orçamentárias e avaliar resultados neste âmbito. Tal conselho seria formado por

55
Em 2016, o capítulo IV e seus artigos foram alterados pela Emenda Constitucional estadual nº 69, que os
moldes da EC federal nº 85, que explicitou o termo inovação na identidade do campo da política, e operou
mudanças equivalentes da EC federal nos artigos da Constituição Estadual, assim como explicitou a Fundação
Amazônia de Amparo a Estudos de Ciência, Tecnologia e Inovação do Pará (que assume o papel de FAP
estadual) como responsável pela gestão dos recursos vinculado ao fomento a CT&I.
139

representantes do poder executivo, legislativo, representantes de associações de municípios,


iniciativa privada e, majoritariamente, de instituições de pesquisas e de associações
científicas, expressando a legitimação do predomínio da comunidade de pesquisa neste campo
da política. Outro marco desta construção de um domínio específico a política de C&T
estadual no Pará foi a criação, em 1993, da Universidade do Estado do Pará (UEPA) pela Lei
nº 5.747.
Cabe esclarecermos que o fundo de fomento previsto em 1989 foi regulamentado pela
Lei Complementar Estadual nº 29 somente em 1995, instituindo o chamado Fundo Estadual
de Ciência e Tecnologia do Pará (FUNTEC) e o Conselho Estadual de Ciência e Tecnologia
(CONTEC), regulamentado pelo Decreto nº 1.166 de 1996. Tanto o FUNTEC, quanto o
CONTEC, foram associados a Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente
(SECTAM), secretaria estadual responsável por “planejar, coordenar, supervisionar, executar
e controlar as atividades setoriais, a cargo do Governo do Estado, que visem ao
desenvolvimento científico e tecnológico e à proteção, conservação e melhoria do meio-
ambiente”, conforme lei nº 5.752 de 1993.
No entanto, apesar dos avanços em termos de previsões legais e organização formal, a
temática de C&T ficou distante de ser priorizada na agenda governamental. No âmbito da
Secretaria estadual, a atenção política com a temática de meio ambiente, principalmente no
contexto econômico e social do Pará, cujas demandas e complexidades relacionadas aos
processos vinculados a questão ambiental são realçadas. Algumas críticas da comunidade de
pesquisa em relação a efetividade da política de C&T deste período são compiladas em Cruz
(2007) e Silva (2007), que abrangem tanto o não cumprimento dos patamares de
investimentos conforme previsão legal, quanto a falta de estrutura institucional e
administrativa para efetivo acompanhamento e avaliação dos fomentos. Na tabela 3,
apresentamos levantamento de projetos de P&D financiados por meio do FUNTEC no
período de 1997 (primeiro edital de fomento lançado) a 2006.
Na tabela 4, um levantamento geral por tipos de projetos apoiados por recursos
financeiros do FUNTEC aplicados no fomento ao desenvolvimento científico e tecnológico
no estado do Pará, baseado em Silva (2007), por períodos de governos 1995 a 2006. Embora
cada tabela apresente recorte distinto de classificação e abrangência de projetos, é possível
observarmos que os valores anuais de investimentos via FUNTEC eram relativamente baixos
e com ampla variação entre os anos. Além disso, também verificamos que, em geral, sua
aplicação ocorria por meio de editais de chamadas públicas voltados a comunidade a
pesquisa.
140

Tabela 3 - Projetos de P&D financiados por meio do FUNTEC do governo do estado do Pará, de 1997
a 2006

Valor Instituições Contempladas


Nº de Valor Total Médio por (% de projetos aprovados por instituição)
Ano
projetos (R$ 1,00) projeto
(R$ 1,00) UFPA UFRA UEPA MPEG Embrapa IEC Outras
1997 0 - 0 0 0 0 0 0 0 0
1998 45 1.986.840,00 44.152 51,11 6,67 15,56 4,44 11,11 6,67 4,44
1999 0 - 0 0 0 0 0 0 0 0
2000 45 1.729.890,00 38.442 60 15,56 8,89 0 8,89 4,44 2,22
2001 69 1.381.794,00 20.026 55,07 7,25 7,25 1,45 14,49 7,25 7,24
2002 2 70.052,00 35.026 50 0 0 0 50 0 0
2003 84 2.519.916,00 29.999 58,33 7,14 3,58 3,57 16,67 5,95 4,76
2004 90 3.997.350,00 44.415 63,33 6,67 7,78 6,67 5,56 3,33 6,66
2005 2 45.064,00 22.532 50 0 50 0 0 0 0
2006 1 36.000,00 36.000 100 0 0 0 0 0 0
TOTAL 338 11.766.906,00 34.813,33 - - - - - - -
*Inclusos projetos de P&D voltados para o setor produtivo; pesquisa básica e aproveitamento econômico da
biodiversidade; pesquisa na área de saúde; e, projetos em convênio com o CNPq (PRONEX, DCR, Jovens
Pesquisadores), excluídos projetos institucionais de bolsas de estudo e cursos de pós-graduação, eventos
científicos, publicações científicas e similares. Fonte: Adaptada pela autora a partir de Cruz (2007).

Tabela 4 - Modalidades de Projetos de CT&I financiados por meio do FUNTEC do governo do estado
do Pará, de 1995 a 2006 (em R$ 1,00)

Projetos Projetos Projetos


Modalidade de contratados contratados contratados Total
projetos (1995-1998) (1999-2002) (2003-2006)
Quant. Valor total Quant. Valor total Quant. Valor total Quant. Valor total
Desenvolvimento do
12 560.051 38 1.276.380 66 1.622.814 116 3.459.245
setor produtivo1
Pesquisas básicas e
sobre a 18 843.554 45 1.636.292 86 3.129.649 149 5.609.495
biodiversidade2
Pesquisas voltadas
15 583.222 32 875.883 57 2.224.076 104 3.683.181
para a área de saúde2
Cursos de Pós-
13 457.704 21 615.069 7 180.037 41 1.252.810
Graduação
Bolsas de Estudo e
0 - 0 - 90 2.213.802 90 2.213.802
Difusão Tecnológica
Eventos Científicos 26 367.331 47 695.424 57 573.813 130 1.636.568
Publicações 32 48.290 16 102.360 5 68.400 53 219.050
3
Outros 0 - 5 323.350 5 901.410 10 1.224.760
Total 116 2.860.152 204 5.524.758 373 10.914.001 693 19.298.911
1
Inclusos projetos do Programa Inovar Pará 2005; PRONEX, DCR, Jovens Pesquisadores e Editais anuais
voltados para cadeias produtivas estratégicas do Estado; 2Inclui projetos dos Programas PRONEX, DCR e
Jovens Pesquisadores, em convênio com o CNPq e dos editais anuais para projetos dessas temáticas; 3Inclui
despesas com recursos do FUNTEC não relacionadas com o financiamento de projetos e atividades finalísticas
voltadas para o desenvolvimento científico e tecnológico do Pará.
Fonte: Adaptada pela autora a partir de Silva (2007).
141

Esta conformação institucional prevaleceu na política de C&T no estado Pará até o


ano de 2007, quando identificamos mudanças institucionais de reconfiguração. Em 2007,
inicia-se novo mandato de governo, o qual reestruturou em termos institucionais o domínio da
política de CT&I, ao criar dois espaços novos significativos, uma secretaria com ampla
dedicação à CT&I e uma FAP estadual aos moldes institucionais de organizações congêneres
estaduais no país.
Portanto, em 2007, a temática de CT&I é desvinculada da SECTAM, sendo criada a
Secretaria de Estado de Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia (SEDECT)56, a qual ainda
que não fosse secretaria exclusiva à CT&I, nesta a temática alcançará maior centralidade. E,
no mesmo ano, houve implantação da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Pará
(FAPESPA)57. É fundamentada nestas duas organizações que serão construídos os programas
de governos nas temáticas relacionadas a CT&I nos PPA seguintes e, delas, partiram suas
principais diretrizes e ações como examinaremos na próxima seção.

3.2 POLÍTICA ESTADUAL DE CT&I EM PERSPECTIVA NO PPA 2008-2011

As orientações estratégicas do PPA do governo do estado do Pará de 2008-2011


(intitulado de “Construindo o Pará de Todas e Todos”) ressaltaram sua construção por meio
de planejamento territorial participativo58, que propunha como diretriz principal a construção
de “Novo Modelo de Desenvolvimento”, em que a temática de CT&I era realçada, conforme
trecho do documento:

A grande meta do PPA 2008–2011 foi definida como a construção de um ‘Novo


Modelo de Desenvolvimento’, ou seja, pensar desenvolvimento em sua dimensão e
diversidade territorial, estimulando a mudança da matriz produtiva do Estado de forma a
permitir uma maior difusão social dos impactos do aumento do Produto Interno Bruto
(PIB) em termos de distribuição de renda e da melhoria das condições de vida da
população, bem como estimular políticas de desenvolvimento de Ciência, Tecnologia &
Inovação, compatibilizando o aumento de produtividade e o aproveitamento sustentável
dos potenciais social, energético e capital natural locais. (PARÁ, s/d, p. 7-8, grifo
nosso).

Este PPA foi organizado em três (3) tipologias de programas: Programa Apoio
Administrativo, Apoio às Políticas Públicas e Serviços ao Estado e os Finalísticos. E foi
56
Lei nº 7.017/2007.
57
Lei complementar 061/2007, a qual revoga Lei Complementar nº 29/1995, que instituía o FUNTEC.
58
Em termos de organização territorial do estado, foi adotada a divisão do mesmo em 12 regiões de integração:
Araguaia, Baixo Amazonas, Carajás, Guamá, Lago de Tucuruí, Marajó, Metropolitana, Rio Caeté, Rio Capim,
Tapajós, Tocantins e Xingu.
142

expresso por três (3) macros objetivos de governo: "Qualidade de vida para todas e todos"
(abrangendo 83,16% dos programas); "Inovação para o desenvolvimento" (8,06% dos
programas) e; "Gestão participativa, descentralizada, de valorização e respeito aos servidores
públicos" (8,78% dos programas).
Apesar de certa centralidade discursiva em torno da temática de CT&I nas orientações
estratégicas do PPA e do potencial da política de CT&I enquanto política meio (science for
policy), ao examinarmos o PPA observamos que a temática ficou preponderantemente
concentrada em único programa denominado de "Ciência, Tecnologia e Inovação para o
Desenvolvimento" na modalidade de programas finalísticos, classificado no eixo de "Políticas
de Desenvolvimento Econômico", posteriormente renomeado para "Políticas de
Desenvolvimento Econômico e Meio Ambiente".
Cabe indicarmos ainda que, o único programa que explicitamente indicou buscar
integração com o programa de "CT&I para o desenvolvimento" ou o "Desenvolve Pará", que
tinha como objetivo "incrementar a competitividade sistêmica da economia, gerando emprego
e renda", do qual a SEDECT também era responsável no que tange a sua vertente de atuação
voltada ao desenvolvimento econômico, uma vez que havia herdado a maior parte das
competências da antiga Secretaria de Estado da Indústria, Comércio e Mineração. Estes dois
programas foram os únicos em que a SEDECT foi indicada entre seus órgãos executores.
Enquanto a FAPESPA, foi citada como órgão executor em três programas (CT&I para o
Desenvolvimento, Universidade Pública com Qualidade59, e Pará, Território da Juventude)
onde novamente verificamos a justaposição destes órgãos somente no programa CT&I para o
Desenvolvimento, reforçando a ponderá-lo como principal representativo da agenda de CT&I
estadual.

59
Este programa tem como objeto geral a ampliação e fortalecimento da UEPA e possui a elaboração de ações
bastante vinculada ao tema da educação superior. Embora consideramos que este tema tem claras interseções
com o da CT&I, o programa teve a finalidade específica de atender a uma instituição de educação superior em
particular, no que resultou em um desenho mais restrito das demandas desta universidade, inclusive para sua
equiparação frente às demais principais universidades e institutos de pesquisa no estado. Deste modo, além de ter
parte significativa de suas ações voltadas mais a agenda da educação, este programa não se configurou em um
espaço efetivo de representação ampla da comunidade de pesquisa no estado, nem de seus anseios gerais da
relação CTS. Cabe mencionarmos que em suas ações não são citados nenhum dos termos ciência, tecnologia ou
inovação, somente o de pesquisa, em sua integração com ensino e extensão. Assim, entendemos que o espaço
para uma agenda de CT&I estadual foi efetivamente representado no programa de Ciência, Tecnologia e
Inovação para o Desenvolvimento.
143

3.2.1 Programa Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento

O programa CT&I para o Desenvolvimento tinha como objetivo "produzir e aplicar


conhecimento articulado com as necessidades de desenvolvimento econômico e social do
Estado". Teve como público-alvo inicialmente indicado "Instituições de Ensino, Pesquisa e
Unidades Produtivas", sendo este alterado em revisão do PPA no final de 2008 para
"Sociedade", embora não tenha havido mudanças significativas nos produtos e ações
propostas, exceto pela ação "Implementação de Tecnologia de Informação e Comunicação
para o Desenvolvimento do Estado (NavegaPará)".
Originalmente, este programa tinha 21 ações abrangendo o valor total de R$
176.058.349 (2,3% do orçamento geral do poder executivo). Em 31 de dezembro de 2008, foi
realizada uma revisão no PPA 2008-2011, na qual vários ajustes em termos de descrição de
ação, objetivo e produto, bem como em RI e valores aprovados, foram realizados. O programa
passou a ter 19 ações com o valor aprovado R$ 342.103.242 (4,9%).
As duas maiores alterações em termos de valores, e, assim, entendemos também
quanto a abrangência e centralidade de seus direcionamentos para política estadual de CT&I,
foram na ação já citada do NavegaPará e na ação de Implementação do Sistema Paraense de
Inovação (SIPI), que passam a ser as ações com maior investimento programado, conforme
quadro 7.
A ação relacionada ao NavegaPará, inicialmente programada em R$ 3.783.944, foi
recomposta para R$ 133.988.392 (aumento de mais de 3.500%) e prevista a ser implementada
em 11 (Baixo Amazonas, Carajás, Guamá, Lago de Tucuruí, Marajó, Metropolitana, Rio
Caeté, Rio Capim, Tapajós, Tocantins, Xingu) das 12 RI no estado, ação com maior
amplitude de regiões previstas no programa de CT&I para o Desenvolvimento. Esta ação
passou a representar quase 40% do orçamento do programa e tornou-se de grande difusão e
divulgação do âmbito do governo estadual.
144

Quadro 7 – Ações do Programa Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento do PPA 2008-2011 do Governo do Estado do Pará
Valor
Ação Objetivo Produto Região de Integração %
previsto
Criar ambiente favorável à incorporação de tecnologia e inovação em
Implementação de Tecnologia de Baixo Amazonas, Carajás, Guamá,
processos e produtos, aumentando/proporcionando a criação de
Informação e Comunicação para o Usuário Atendido Lago de Tucuruí, Marajó,
vantagens competitivas nos planos regional, nacional e internacional e 133.988.392 39,2%
Desenvolvimento do Estado - (Un) Metropolitana, Rio Caeté, Rio
proporcionando uma ampla inclusão digital dos diversos setores
NAVEGAPARÁ Capim, Tapajós, Tocantins, Xingu
produtivos.
Implementação do Sistema Paraense de Sistema Baixo Amazonas, Carajás, Guamá,
Articular redes e instrumentos de inovação no âmbito estadual. 53.084.877 15,5%
Inovação – SIPI Implementado (Un) Metropolitana, Rio Caeté, Xingu
Criar instrumentos indutores de inovação voltados ao desenvolvimento Parque Tecnológico Baixo Amazonas, Carajás,
Implementação de Parques Tecnológicos 38.962.532 11,4%
regional integrado e sustentável Implementado (Un) Metropolitana
Fomento à Pesquisa Científica, Tecnológica
Baixo Amazonas, Carajás, Guamá,
e de Inovação em Áreas de Conhecimento Induzir a geração de conhecimento específico e de excelência para Projeto Apoiado
Marajó, Metropolitana, Rio Caeté, 35.799.249 10,5%
Estratégicas para o Desenvolvimento do aplicação no ambiente produtivo. (Un)
Tocantins, Xingu
Estado
Formação de Redes de Pesquisa em Ciência Apoiar a constituição de redes de pesquisa em torno de temas Rede de Pesquisa Baixo Amazonas, Carajás, Guamá,
25.329.292 7,4%
e Tecnologia prioritários para o desenvolvimento científico e tecnológico regional. Formada (Un) Metropolitana, Rio Caeté
Produzir conhecimento de excelência sobre a realidade regional,
Recurso Humano Baixo Amazonas, Carajás, Lago de
Formação e Fixação de Recursos Humanos possibilitando a formulação de soluções efetivas para os problemas 21.531.355 6,3%
Formado (Un) Tucuruí, Metropolitana, Rio Caeté
econômico-sociais.
Araguaia, Baixo Amazonas,
Apoio ao Desenvolvimento da Ciência,
Disseminar o conhecimento científico e tecnológico, identificando e Estudante Carajás, Guamá, Lago de Tucuruí,
Tecnologia e Inovação no Ensino 7.544.878 2,2%
formando novos talentos e criando estruturas para estimular a pesquisa. Beneficiado (Un) Metropolitana, Rio Caeté, Rio
Fundamental, Médio e Tecnológico
Capim, Tocantins
Fomento à Difusão da Ciência, Tecnologia e Socializar o conhecimento científico e tecnológico, criando e Evento Apoiado Baixo Amazonas, Carajás, Guamá,
6.950.639 2,0%
Inovação consolidando mecanismos de divulgação. (Un) Metropolitana, Rio Caeté
Possibilitar a mudança do perfil competitivo da base econômica
Indução à Inovação de Processos e Produtos Empresa Apoiada Baixo Amazonas, Carajás,
industrial, aperfeiçoando processos e produtos da indústria, através de 4.503.577 1,3%
em Empresas que atuam no Pará (Un) Metropolitana, Tocantins
especialistas que atuem diretamente ou em cooperação com empresas
Apoio à Implantação do Sistema Estadual de Sistema de
Aumentar densidade tecnológica e competitividade de produtos, Baixo Amazonas, Carajás,
Avaliação de Qualidade e Certificação de Certificação 2.680.590 0,8%
qualificando o consumo e gerando impacto positivo na economia. Metropolitana
Produtos Implantado (Un)
145

Valor
Ação Objetivo Produto Região de Integração %
previsto
Sistema de Gestão
Implantação do Sistema de Gestão de Criar instrumento de aprovação, gerenciamento e avaliação dos
de Projetos Metropolitana 2.150.797 0,6%
Projetos em Ciência, Tecnologia e Inovação projetos e bolsas apoiados pela Fundação
Implantado (Un)
Implementação de Mecanismos de
Induzir a integração da ciência, tecnologia e inovação potencializando Sistema Implantado Baixo Amazonas, Carajás,
Promoção da Ciência, Tecnologia e 2.112.460 0,6%
sua aplicação. (Un) Metropolitana
Inovação - CT&I
Implementação de Ações do Uso de Gás Gás Natural
Viabilizar o uso de gás natural no Estado do Pará Metropolitana 2.011.866 0,6%
Natural Distribuído (M3)
Viabilizar o funcionamento e às operações indispensáveis as Unidade
Implementação de Ações da GASPARÁ Metropolitana 1.609.495 0,5%
atividades. Implementada (Un)
Instrumento de Baixo Amazonas, Carajás, Guamá,
Divulgação de Informações sobre Ciência, Difundir a Produção em Ciência, Tecnologia e Inovação, reforçando a
Divulgação Lago de Tucuruí, Metropolitana, 1.258.869 0,4%
Tecnologia e Inovação cultura nessa temática.
Apoiado (Un) Rio Caeté, Tocantins, Xingu
Induzir a criação e fortalecimento de ambientes de inovação para Empresa Apoiada Baixo Amazonas, Carajás,
Apoio à Incubação de Empresas 1.129.755 0,3%
viabilizar empreendimentos competitivos. (Un) Metropolitana
Promover Intercâmbio de conhecimento com organismos
Cooperação Internacional em Ciência, Cooperação
internacionais, aperfeiçoando recursos humanos e Instituições de Metropolitana 702.298 0,2%
Tecnologia e Inovação Efetivada (Un)
ensino e pesquisa.
Baixo Amazonas, Carajás, Guamá,
Indução à Tecnologia Industrial Básica a Difundir a Tecnologia Industrial Básica (TIB) nas instituições de Instituição Atendida Lago de Tucuruí, Metropolitana,
532.603 0,2%
Processos Produtivos ensino e pesquisa, empresas e para os empreendedores em geral. (Un) Rio Caeté, Rio Capim, Tocantins,
Xingu
Fortalecer a economia a partir da atração de plantas industriais e do
Atração para o Estado de Empresas desenvolvimento de produtos inovadores em ambientes como: distritos Empresa Araguaia, Baixo Amazonas,
219.718 0,1%
Detentoras de Capacidade Inovativa e áreas industriais, parques de ciência e tecnologia e incubadoras de Implantada (Un) Carajás, Metropolitana, Tocantins
empresas.
Legenda: Un = Unidade.
Fonte: Adaptado pela autora a partir de PARÁ (2007a).
146

Segundo Daher e Cardoso (2012) a primeira etapa de implantação do NavegaPará


abrangeu convênio entre o Governo do Estado do Pará (GEP) e a Rede Nacional de Pesquisa
(RNP) para utilização da rede de fibras óticas existentes na região metropolitana da capital do
estado (Belém) para interligação dos órgãos governamentais estaduais, anterior
interconectados via serviços privados de menor qualidade de conexão e maior custo,
compondo a se denominou de RedeMetrobel. Ainda em 2007, um convênio entre o GEP e a
Centrais Elétricas do Norte do Brasil S.A. (Eletronorte), subsidiária da Centrais Elétricas
Brasileiras S.A. (Eletrobrás), para utilização da rede de fibra ótica existente no cabo para-
raios das linhas de transmissão da Eletronorte para fins de oferta de serviços de
telecomunicação (DAHER; CARDOSO, 2012; GONÇALVES, 2011).
Por este convênio com a Eletronorte, foram realizados investimentos para iluminar a
rede das fibras óticas para transporte de dados, de modo que a Eletronorte poderia
comercializar esse transporte de dados junto a prestadores de serviços, enquanto o GEP
poderia utilizar a infraestrutura para fins de inclusão digital, que envolvia a conexão de órgãos
governamentais estaduais, pontos de acesso às prefeituras municipais e, ao menos, um ponto
de acesso livre à população.
Gonçalves (2011) ressalta que esta solução tecnológica, somente foi possibilitada por
acordo político-econômico entre Eletronorte e GEP. Ou seja, envolveu tanto alinhamento dos
interesses políticos, uma vez que pela primeira vez havia no GEP e no governo federal o
mesmo partido no poder (Partido dos Trabalhadores). Quanto a conformação de interesses
econômicos, considerando que: a Eletronorte tinha interesse em aumentar seu faturamento no
setor de serviços de telecomunicações (o que efetivamente ocorreu) e que os equipamentos
adquiridos pelo GEP para iluminar a rede deverão ser incorporados ao contrato de concessão
pública da Eletronorte, ao final do convênio e; o GEP pretendia constituir alternativa de
acesso aos serviços de telecomunicações, seja em pontos do estado onde anteriormente não
dispunha destes, seja em locais que já dispunha, mas, por meio dos contratos considerados de
elevado custo com operadores privados (GONÇALVES, 2011).
Outra ação estruturante posterior, foi a construção das chamadas infovias de rádios
para municípios que não estavam nas regiões perpassadas por linhas de transmissão,
principalmente no nordeste paraense (DAHER; CARDOSO, 2012). Por fim, estas ações
estruturantes de oferta de acesso foram acompanhadas pela implementação da rede de
infocentros que atuariam como espaços para inclusão digital à população (DAHER;
CARDOSO, 2012; GONÇALVES, 2011). Gonçalves (2011) considerou que o NavegaPará
teve significativo impacto na oferta de acesso via internet em municípios do Pará, uma vez
147

que, em 2006, somente 4 municípios no estado tinham conexão via fibra ótica, e, em 2010,
eram 52 municípios com acesso, 23 destes tendo como única opção de conectividade de banda
larga a oferecida pelo NavegaPará.
Contudo, embora tenha sido considerada bem-sucedida em termos de fornecer
alternativa tecnológica para acesso à internet, a implementação em termos de sustentabilidade
econômica e política das ações de inclusão social, via infocentros, e dos pontos vinculados a
prefeituras, será objeto de questionamento e nova conformação no próximo PPA.
A ação referente a implementação do SIPI foi a segunda maior em comprometimento
individual de valor. Compreendemos ser a mais significativa da concepção discursiva
empregada na política estadual CT&I, estando estreitamente integrada a diversas outras ações
do programa. Entre estas integrações, cita-se: a implementação dos parques tecnológicos;
indução à inovação em processos e produtos em empresas que atuam no Pará; apoio à
implantação do Sistema Estadual de Avaliação de Qualidade e Certificação de Produtos;
apoio à incubação de empresas; indução à tecnologia industrial básica (TIB) em processos
produtivo e; atração para o estado de empresas detentoras de capacidade inovativa. Assim,
esta ação é entendida como o nó central da formulação discursiva proposta na política
estadual de CT&I do período, inclusive enquanto teor da principal diretriz institucional com a
publicação do decreto nº 729, de 19 de dezembro de 2007, que dispunha sobre a instituição do
SIPI.
Esta concepção discursiva está vinculada ao discurso da CT&I orientada para o
mercado, tendo como inspiração a noção de sistema nacional de inovação, como vimos no
capítulo 2. Tal concepção pode ser exposta na finalidade do SIPI pelo decreto nº 729 em
"promover convergência de ações governamentais, empresariais, acadêmicas, de pesquisa
científica e tecnológica para, de forma cooperada, desenvolver a inovação no Estado do Pará",
com vistas a alcançar os seguintes objetivos:

I - promover a integração e a articulação entre órgãos, entidades, empresas de direito


público e privado, organizações da sociedade civil de interesse público - OSCIP,
universidades, institutos de pesquisa, visando acolher ideias, subsídios e indicadores
para a formulação e implementação de políticas e práticas que impulsionem o
desenvolvimento tecnológico no Estado;
II - indicar propostas para a formulação da política estadual de inovação tecnológica,
de forma compatível com a política nacional adotada;
III - promover a cooperação entre o Estado, organismos nacionais e internacionais,
agências multilaterais, organizações não-governamentais nacionais e estrangeiras, que
atuam na área da inovação tecnológica;
IV - identificar e divulgar linhas de financiamento e fomento no âmbito nacional,
estrangeiro ou internacional para aplicação em programas, projetos, ações e atividades
relacionadas com a inovação tecnológica no Estado;
148

VI - praticar outras ações e atividades compatíveis com a finalidade do SIPI." (Pará,


2007b, p. 1, grifo nosso).

Como vimos, a base desta orientação discursiva centra-se no papel da inovação


tecnológica com lócus na empresa em, a partir da incorporação de conhecimentos científicos e
desenvolvimentos tecnológicos, gerar benefícios econômicos pela oferta de novos
(melhorados) produtos, processos e serviços, aumentando a competitividade de empresas
locais, e consequentemente gerando desenvolvimento econômico, o qual, por sua vez, cria
transbordamentos de benefícios sociais (por meio de empregos, maior arrecadação de
impostos aos governos, maior atração de infraestrutura etc.). Consideramos que esta
orientação está exposta nos diversos objetivos programados das ações acima mencionadas:

Aumentar densidade tecnológica e competitividade de produtos, qualificando o


consumo e gerando impacto positivo na economia. (PARÁ, 2007a, p. 89).

Induzir a criação e fortalecimento de ambientes de inovação para viabilizar


empreendimentos competitivos. (PARÁ, 2007a, p. 89).

Fortalecer a economia a partir da atração de plantas industriais e do desenvolvimento de


produtos inovadores em ambientes como: distritos e áreas industriais, parques de
ciência e tecnologia e incubadoras de empresas. (PARÁ, 2007a, p. 90).

Criar instrumentos indutores de inovação voltados ao desenvolvimento regional


integrado e sustentável. (PARÁ, 2007a, p. 93).

Possibilitar a mudança do perfil competitivo da base econômica industrial,


aperfeiçoando processos e produtos da indústria, através de especialistas que atuem
diretamente ou em cooperação com empresas. (PARÁ, 2007a, p. 94).

Cabe mencionarmos que, em termos de governança, conforme o Decreto nº 729/2007,


o SIPI foi previsto ter sua estrutura organizacional baseada no Fórum Paraense de Inovação,
cuja representação era disposta por representante do "poder executivo" do estado (dirigentes
da SEDECT, SEGOV60, UEPA, IDESP61, FAPESPA, PRODEPA62), do "setor empresarial do
estado" (FIEPA63, FECOMERCIO64, FAEPA65, SEBRAE/PA66, e mais seis empresas que
desenvolvam atividades de inovação); e, do "setor de ensino superior e tecnológico e
institutos de pesquisas" no estado (3 representantes de universidades federais, 2 universidade
ou instituição particular de ensino de nível superior, 4 membros de instituições de ensino
tecnológico ou profissionalizante, e 3 representantes de institutos de pesquisa). Este desenho

60
Secretaria de Estado de Governo.
61
Instituto de Desenvolvimento Econômico, Social e Ambiental do Pará.
62
Empresa de Tecnologia da Informação e Comunicação do Estado do Pará.
63
Federação das Indústrias do Estado do Pará.
64
Federação do Comércio do Estado do Pará.
65
Federação da Agricultura e Pecuária do Pará.
66
Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Estado do Pará.
149

de representação claramente reflete os três atores âncoras da abordagem de sistemas de


inovação: governo, empresas, e instituições de pesquisa.
No entanto, apesar da maior parte das ações serem desenhadas nesta orientação
discursiva, na definição dos indicadores do programa, observamos configuração bem distinta.
Afora o indicador "incremento da taxa de inclusão digital no estado do Pará" vinculado
especificamente a ação relacionada ao NavegaPará, os três (3) demais indicadores são
relacionados à concepção de modelo linear de inovação: "Taxa do aumento de produção
científica", "Taxa de aumento de bolsas para ciência e tecnologia" e "Incremento do número
de pedidos de patentes e afins". Chama nossa atenção que nenhum indicador tenha sido
definido diretamente relacionado a medição de inovação ou estivesse direcionado ao lócus
principal desta no discurso, as empresas. Ao contrário, os indicadores permanecem vinculados
a conformação tradicional de pressuposição da inovação enquanto consequência necessária da
produção científica e da produção tecnológica na forma de patente, diretamente relacionados a
interesses da comunidade de pesquisa (fomento à produção científica e a bolsas para C&T).
Embora soe contraditório, essa distinção de concepção, entre ações e indicadores
programados, tende a refletir o amálgama no Brasil das orientações discursivas da C&T auto
orientada e da CT&I orientada para o mercado. Em que na política explícita de CT&I ascende
o discurso pró-inovação tecnológica empresarial, cuja racionalidade é legitimada em contexto
de ascensão do neoliberalismo e gerencialismo. Enquanto, na política implícita, mantém-se a
orientação centrada aos atores da comunidade de pesquisa, uma vez que estes permanecem no
domínio da política, e, portanto, resultando por predominar nesta política os valores próprios
do campo científico, como indicadores de prestígio e mérito acadêmico.
Se retomarmos Dagnino (2016), essa configuração está associada, por um lado, a
atipicidade periférica, em que os atores empresariais e industriais locais não estão interessados
em exercer seu poder político e econômico no campo da política de CT&I, visto que suas
estratégias de lucratividade estão baseadas sobre outras bases que não a de desenvolvimento
interno de P&D. Por outro lado, a persistência das crenças anômalas de neutralidade científica
e determinismo tecnológico, entre boa parte dos membros da comunidade de pesquisa
(mesmo aqueles explicitamente defensores da CT&I orientada para o mercado), e dos demais
atores sociais, que legitima o domínio da comunidade de pesquisa no processo decisório no
campo da política sob tendências tecnocráticas.
Para compreender melhor a política implícita, averiguaremos na próxima subseção o
fomento à CT&I realizado no âmbito da FAPESPA, organização responsável pela aplicação
dos recursos estaduais dedicados ao tema. Para encerrarmos o exame do PPA, cabe
150

assinalarmos seus alcances registrados em dois relatórios localizados. Um que sintetiza sua
execução no período de 2008-2010 no governo de Ana Júlia Carepa do Partido dos
Trabalhadores (PT) data de março de 2011; outro referente ao ano somente de 2011, já no
governo de Simão Jatene do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB).
Em termos de execução financeira, no período de 2008 a 2010, foram aplicados 51%
do total dos valores programados, perfazendo R$ 163,8 milhões nos três (3) anos, e em 2011
foi executado 29,6% do previsto naquele ano, correspondendo a R$ 30,5 milhões, totalizando,
assim, R$ 194,3 milhões.
Em relação a ação referente ao NavegaPará e o indicador de incremento da taxa de
inclusão digital no estado do Pará, tanto no relatório referente a avaliação de 2008 a 2010,
quanto ao de 2011, foram considerados como tendo superado as metas e parâmetros previstos.
Em relação a ação de Implementação do SIPI, esta é realçada no relatório de 2008-
2010, enquanto tendo sua meta física alcançada, com a implementação de sete (7) sistemas,
embora não sejam indicadas maiores informações neste relatório ou no seguinte de 2011.
Ação ressaltada nos dois relatórios foi a de Implementação de Parques Tecnológicos, com o
Parque de Ciência e Tecnologia (PCT) Guamá, sendo caracterizado em fase de consolidação e
operação.
Além dessas ações, que consideramos como as que tiverem maior expressão em
termos de política explícita, outras ações de fomento a C&T foram destacas diferentemente
nos relatórios. No relatório sobre 2008-2010, as ações de "Fomento à Pesquisa Científica,
Tecnológica e de Inovação em Áreas de Conhecimento Estratégicas para o Desenvolvimento
do Estado" e de "Formação de Redes de Pesquisa em Ciência e Tecnologia" foram realçadas
como tendo alcançado margens substanciais de execução nos dois primeiros anos, mas
perdido desempenho em 2010. No relatório sobre 2011, a ação de "Formação e Fixação de
Recursos Humanos" foi realçada como importante eixo de atuação via concessão de bolsas
pela FAPESPA.
Os três (3) demais indicadores previstos67 tiveram comportamentos distintos. (i) O
incremento do número de pedidos de patentes e afins teve medições negativas nos primeiros
anos (-71% e -30,8% respectivamente), não havendo registro de sua medição em 2010, e com
recuperação no último ano (16,7%). (ii) A taxa de aumento de bolsas para ciência e tecnologia
cresceu nos dois primeiros anos (394% e 30,35% respectivamente), não tendo registro em

67
Cabe indicarmos que os dois relatórios são gerais do PPA 2008-2011, e com informações bastante sucintas por
programa. No caso do programa de CT&I para o Desenvolvimento, este apresenta teor de ênfase descritiva das
ações e não são informados em relação aos indicadores registrados nenhuma indicação quanto a fonte de dados
ou métodos aplicados.
151

2010, caiu no último ano (-32,9%). (iii) A taxa do aumento de produção científica teria caído
em 2008 (-18,8%), crescido em 2009 (5,1%) e não houve registro de medição em 2010 e 2011.
Cabe lembrarmos que, a política de CT&I no âmbito do governo estadual teve sua
institucionalização prevista a partir do final da CE de 1989, sendo iniciada a partir da década
de 1990, porém em contextos não priorizados. Mesmo a criação da SEDECT e da FAPESPA
era recente em termos governamentais, de forma que não haviam sido constituídos
adequadamente quadros burocráticos com aprendizados da dinâmica da temática de CT&I que
subsidiassem a institucionalização de processos de avaliação internos, principalmente em
relação a indicadores de desempenho típicos da CT&I, atípicos para as demais políticas
públicas. Assim, entendemos que parte das dificuldades da falta de registro de avaliações e
medições de indicadores nos relatórios do PPA relacionam-se a essa situação em processo de
institucionalização da política estadual.

3.2.2 Editais e Execução do Fomento Estadual na FAPESPA

A FAPESPA, criada em julho de 2007, foi entidade governamental que passou a ser
responsável pela aplicação das "dotações e recursos consignados no orçamento do Estado, nos
termos do art. 291 da Constituição Estadual, equivalentes a 1% (um por cento) das receitas
correntes líquidas do Estado" (PARÁ, 2007c), substituindo, assim, o FUNTEC. Conforme seu
estatuto (decreto estadual nº 2.133/2010), a FAPESPA tem "por finalidade promover
atividades de fomento, apoio e incentivo à pesquisa científica, tecnológica e de inovação no
Estado do Pará". Ao seguir o padrão do CNPq e várias outras FAP no país, a FAPESPA tem
utilizado o formato de lançamento dos editais de chamadas públicas para selecionar projetos
para fomento, com a seleção e avaliação do mérito científico e técnico realizada por câmaras
de assessoramento científico, formadas por pesquisadores doutores.
Ainda em 2007, quatro (4) editais de fomento a CT&I foram lançados, alguns ainda
sob a nomenclatura do FUNTEC/SECTAM, mas executados pela FAPESPA posteriormente a
partir de sua estruturação. Esses editais foram típicos do fomento tradicional da política de
C&T, voltados ao apoio de formação de recursos humanos na área (ampliação da comunidade
de pesquisa estadual) e à pesquisa científica e tecnológica, sendo dois (2) editais de bolsas
(PIBIC Jr, e de mestrado e doutorado); e dois editais em parceria com o CNPq (“Jovens
Pesquisadores” e “Núcleos de Excelência/PRONEX"), referente a modelos de programas
institucionais induzidos por esta agência de fomento federal.
152

No período de vigência do PPA 2008-2011, conforme registros no website da


FAPESPA, levantamos 70 editais em que a Fundação participou como financiadora,
cofinanciadora ou gestora dos recursos aplicados no âmbito da CT&I, tendo sido 20 editais
em 2008, 21 em 2009, 21 em 2010, e 8 em 2011. Destes, detivemo-nos a examinar aqueles
lançados diretamente pela FAPESPA no âmbito do fomento estadual, com ou sem parcerias
de terceiros, resultando em 6068 editais de fomento a CT&I (quadro detalhado dos editais no
Apêndice A).
Em um primeiro recorte, procuramos classificar os editais pela configuração principal
do fomento (bolsas ou projetos) e categorias de aplicação. Conforme tabela 5, apresentamos
os editais caracterizados pela concessão de fomento no formato de bolsa. Cabe observarmos
que, em relação à categoria de bolsas a programas institucionais, principalmente relacionados
ao Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia ( CENSIPAM), Comissão
Executiva de Planejamento da Lavoura Cacaueira (CEPLAC) e Instituto Evandro Chagas
(IEC), a FAPESPA atuou predominantemente como gestora dos programas, cujos orçamentos
eram totalmente ou majoritariamente destinados às próprias organizações financiadoras.
Afora esta categoria, o maior quantitativo dos editais de bolsas lançados se referiu a pós-
graduação stricto sensu e de iniciação científica, editais de formatos tradicionais na política de
CT&I nacional, voltados preponderantemente à formação de cientistas e realização de
pesquisa científica e tecnológica, considerando que a pós-graduação stricto sensu é o principal
espaço institucionalizado de produção científica no país.
Outra categoria de destaque foi a de bolsas para programa inclusão digital, cujos
editais estavam relacionados a atuação em infocentros vinculados ao NavegaPará, no que
podemos verificar sua relação direta com a ação correspondente do PPA. Não localizamos
editais de bolsas voltados a recursos humanos nas empresas, como RHAE69 do CNPq. Mas,
identificamos que a VALE S.A. financiou integralmente 2 editais no âmbito da pós-graduação
stricto sensu, com temáticas direcionadas às áreas estratégicas de atuação desta empresa, bem
como o SEBRAE/PA foi o financiador dos editais de bolsas voltados a pós-graduação lato
sensu, ambos direcionados para a temática de design, com ênfase na área de madeira e
móveis.

68
Dos 70 editais identificados no período no site da FAPESPA, excluímos do exame a ser discutido: 5 editais
lançados pelo CNPq/MCT, 2 editais lançados pela UEPA, 1 edital lançado pela VALE S.A., e 2 editais de
prêmios que, embora tenham registro de lançamento pela FAPESPA, no site desta fundação não localizamos
informações seja sobre o edital em si, seja sobre o resultado. Assim, resultando nos 60 editais a serem
examinados.
69
Programa de Formação de Recursos Humanos em Áreas Estratégicas (RHAE).
153

Tabela 5 – Editais lançados pela FAPESPA com modalidade de fomento no formato de bolsa ou
auxílio, por categorias, no período de 2008 a 2011

Bolsas
Bolsas para Bolsas para Bolsas de Bolsas para Bolsas Auxílio a
para pós-
programas programas programas programa de para pós- participação
Ano Bolsas graduação
de iniciação de iniciação institucio- inclusão graduação em eventos
stricto
científica científica Jr nais digital lato sensu C&T
sensu
2008 6 3 1 1 0 0 0 1
2009 7 0 1 1 2 2 1 0
2010 10 2 1 1 5 1 0 0
2011 6 1 1 0 2 1 1 0
Total 29 6 4 3 9 4 2 1
*Dados extraídos de FAPESPA (2018).
Fonte: Elaborada pela autora (2019).

Na tabela 6, apresentamos o mesmo recorte para os editais caracterizados pela


concessão de fomento no formato de projetos. A categoria com maior quantitativo foi a de
projetos relacionados a pesquisa científica e tecnológica, modalidade mais tradicional na
política de CT&I, e de atendimento direto da comunidade de pesquisa. Nesta categoria
estavam editais voltados às ações de pesquisa científica e tecnológica no PPA, como a
formação de redes de pesquisa em C&T e a fixação de recursos humanos. No entanto,
somente localizamos 5 editais voltados ao apoio de atividades de P&D e inovação em
empresas, sendo todos estes lançados em parcerias com outras entidades (FINEP ou
SEBRAE/PA), destes 3 sem aporte de recursos da FAPESPA.

Tabela 6 – Editais lançados pela FAPESPA com modalidade de fomento no formato de projeto, por
categorias, no período de 2008 a 2011

Projetos Projetos
Projetos Projetos Projetos Projeto de
de P&D e Projetos para de
Nº de de de de publicações
Ano inovação popularização programas
editais pesquisa eventos inclusão tecno-
em de C&T de pós-
C&T C&T digital científica
empresas graduação
2008 13 4 2 1 2 1 2 1
2009 11 8 2 1 0 0 0 0
2010 5 2 0 1 1 1 0 0
2011 2 0 1 1 0 0 0 0
Total 31 14 5 4 3 2 2 1
*Dados extraídos de FAPESPA (2018).
Fonte: Elaborada pela autora (2019).
154

Assim, embora a política explícita estivesse focada no desenho de sistemas de


inovação, como vimos, em que a centralidade do processo inovativo e tecnológico é conferida
as empresas, corroboramos que os editais de fomento lançados pela FAPESPA no período de
2008 a 2011 (política implícita) conferem maior centralidade a formatos e espaços
tradicionais da política de CT&I no país (formação de mestres e doutores e fomento à
pesquisa científica e tecnológica em universidades e institutos de pesquisa).
Outro recorte que buscamos estabelecer no exame dos editais correspondeu às
temáticas prioritárias nos editais da FAPESPA deste período. Desde 2007, houve definição
dos temas prioritários de pesquisa em editais lançados em parceria com o CNPq (editais nº
002/2007 "PRONEX" e 003/2007 "Jovens Pesquisadores"). Esta prática se repetiu com alguns
editais do período, conforme demonstramos no quadro 8.
Pelas linhas temáticas observadas no quadro 8, verificamos que cinco (5) temas estão
presentes em todos os recortes, embora por vezes não usados os mesmos descritores, que são:
Agricultura, Pecuária e Agroindústria (incluindo temas de tecnologia da madeira,
recurso/biomassa florestal, silvicultura); Energia; TIC; Biotecnologia (incluindo
aproveitamento econômico da biodiversidade/recursos naturais, engenharia biológica) e;
Pesca e Aquicultura. Seguido destes, somente não citado no edital de Redes Colaborativas
(014/2008) está o tema em torno da mineração, incluindo linhas como tecnologia mineral e
novos materiais, geologia, pesquisa mineral e verticalização mineral.
Além da previsão das áreas e linhas temáticas nestes editais, alguns destes temas
prioritários foram fomentados por meio de editais específicos, a realçar no período o de
agricultura familiar (018/2008 e 006/2010), o de biotecnologia (015/2009 voltado a
biocosméticos), ambos com financiamento público, e de mineração (021/2008, 018/2009 e
007/2010), com financiamento da VALE S.A, reforçando os temas identificados
anteriormente.
155

Quadro 8 – Linhas temáticas ou áreas de aplicação indicados como prioritários ou estratégicos em editais selecionados da Fapespa no período de 2007 a 2011
Editais nº 002/2007 Edital nº 014/2008 Edital nº 002/2011
"PRONEX" e nº 003/2007 "Redes Cooperativas de Edital nº 012/2009 "PRONEX" "PD&I em microempresas e
Editais
"Jovens Pesquisadores" Pesquisa em CT&I" (parceria com o CNPq) empresas de pequeno porte"
(parceria com o CNPq) (financiamento total próprio) (parceria com a FINEP)
– Agricultura e Agroindústria – Pesca e Aquicultura Linhas de apoio: Foco: – Agrobioindústria
– Biotecnologia – Tecnologia da Informação e – Agricultura, Pecuária e – Biotecnologia – Aproveitamento Econômico
– Energia Comunicação Agroindústria – Energia de Recursos Naturais;
– Pesca e Aquicultura – Engenharia Biológica – Biodiversidade e – Tecnologia da Informação e – Energia
– Tecnologia da Informação e – Energias Renováveis e Biotecnologia Comunicação – Tecnologia da Informação e
Comunicação Eficiência Energética – Energia – Pesca e Aquicultura Comunicação;
– Tecnologia Mineral e novos – Biomassa Florestal – Pesca e Aquicultura – Agricultura Tropical e – Tecnologia de Alimentos
materiais – Tecnologia da Informação e Produtos da Floresta. – Tecnologia Aplicada à Saúde
– Agropecuária Comunicação – Geologia e Pesquisa Mineral. – Turismo
Temas – Tecnologia da Madeira – Tecnologia Mineral e novos – Recursos Minerais e Novos – Verticalização Mineral
Priorizados – Transporte e Infraestrutura materiais materiais – Pesca e Aquicultura.
– Saneamento – Tecnologia da Madeira – Pesquisa Agropecuária
– Saúde – Transporte e Infraestrutura – Silvicultura
– Segurança Pública – Saneamento – Tecnologia de Redes de
– Educação – Saúde Comunicação
– Segurança Pública – Sistemas Embarcados
– Educação – Certificação e Qualidade de
– Recursos Florestais Software.
– Economia da Inovação
– Tecnologia do Alumínio
*
Para cada ano, identificamos os editais com definição de áreas ou linhas temáticas com maior destinação de recursos financeiros. No ano de 2010, prevaleceram editais
denominados de horizontais, ou seja, que não direcionam linhas temáticas específicas, houve somente dois editais com definição de linhas temáticas, mas ambos os editais
correspondiam ao atendimento integral de temas exclusivos, o de agricultura familiar (006/2010) e o de novas tecnologias aplicação a mineração (007/2010), de modo que
todas as suas linhas se referiam ao único tema principal. Por atender um único tema, optamos por não os incluir, fazendo menção sobre editais de temas exclusivos no texto
corrido do capítulo.
Fonte: Adaptado pela autora a partir de FAPESPA (2018).
156

O último recorte que buscamos identificar foi a menção explícita em editais de


objetivos ou temáticas relacionados à redução de desigualdades, inclusão social ou ao
atendimento a grupos vulneráveis na sociedade. Desde já, realçamos que nosso levantamento
foi limitado aos temas direcionados explicitamente nos editais, como forma de verificar
aqueles que chegaram a certa priorização na agenda na política de CT&I estadual. Assim,
estes não representam a totalidade das temáticas de enfoque distributivo articuladas na
comunidade de pesquisa, ou mesmo as temáticas que tenham alcançado a aprovação de
fomento em editais direcionados ou não, ou seja, aqueles de concorrência geral. De acordo
com o quadro 9, encontramos 14 editais associados a estas temáticas, identificando 7 enfoques
(inclusão digital, redução de desigualdades territoriais, atendimento a agricultura familiar e a
populações tradicional, feminina, criança, adolescente e idosa).

Quadro 9 – Seleção de editais lançados pela FAPESPA identificados com menções explícitas a
temáticas voltadas a redução desigualdades, inclusão social ou atendimento específico de grupos
sociais vulneráveis, no período de 2008 a 2011
Nº Temáticas
total Redução de
Ano Agricultura Crianças e População Populações Inclusão
de desigualdade Idosos
editais familiar adolescentes feminina tradicionais digital
territorial
013/2008
2008 4 018/2008 004/2008 - - - -
022/2008
001/2009
013/2009 013/2009 008/2009
2009 5 013/2009 013/2009 013/2009
023/2019 023/2019 024/2009
023/2009
012/2010
2010 4 006/2010 004/2010 - - - -
008/2010
2011 1 - - - - - - 004/2011
Total 14 2 5 2 2 1 1 7
*Dados extraídos de FAPESPA (2018)
Fonte: Elaborado pela autora (2019).

Todos os editais referentes à temática de inclusão digital abrangem atividades do


NavegaPará e atuações no âmbito de infocentros e, majoritariamente, fomento por orçamento
estadual, 3 com apoio do Banco da Amazônia (BASA), refletindo arranjos locais as ações. Os
demais correspondem a editais de pesquisa científica e tecnológica, realçada a questão das
desigualdades territoriais, as quais foram mencionadas em 5 editais, os quatro primeiros em
parceria com o CNPq, no âmbito do programa de fixação de doutores (Desenvolvimento
Científico Regional) e do programa de Pesquisa para o SUS (PPSUS), dois destes com
destinação a regiões específicas do estado (Santarém e Marajó).
157

Ressaltamos também editais do PPSUS em parceria com o CNPq e o Departamento de


C&T (DECIT) da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos (SCTIE) do
Ministério da Saúde que definiram linhas temáticas específicas para atenção a populações
tradicionais vulneráveis, população feminina, crianças e adolescentes e idosos. Temáticas que
apareceram somente nesta configuração de edital, de modo que verificamos que emergem em
confluência seja de relações intergovernamentais e seja intersetoriais.
Por fim, houve 2 editais específicos dedicados a agricultura familiar lançados pela
FAPESPA, com recursos próprios. Este tema figura entre os prioritários na agenda estadual
de CT&I e, como vimos em seção conformação institucional da C&T no Pará, firmou-se
como objeto de pesquisa primado de algumas importantes organizações historicamente
situadas (como o CPATU/EMBRAPA e UFRA, na mesma origem do IAN), com objetivos de
atendimento finalístico à região (COSTA, 2012).

3.3 POLÍTICA ESTADUAL DE CT&I EM PERSPECTIVA NO PPA 2012-2015

Durante o mandato de governo de Simão Jatene (2011-2014), houve mudanças na


organização da secretaria estadual responsável pela pasta de CT&I e na FAPESPA. A pasta
referente ao desenvolvimento econômico antes vinculada a SEDECT retorna a ser secretaria
independente70 (Secretaria de Estado de Indústria, Comércio e Mineração) e a temática de
CT&I torna-se o tema exclusivo da agora denominada Secretaria de Estado de Ciência,
Tecnologia e Inovação (SECTI), subordinada à Secretaria Especial de Estado de
Infraestrutura e Logística para o Desenvolvimento Sustentável (SEINFRA). A FAPESPA
deixou de ser subordinada a SECTI (como era anteriormente com a SEDECT), e passou a ser
vinculada diretamente a SEINFRA71.
No documento de estratégias do PPA 2012-2015 (intitulado “Pacto pelo Pará”),
também foi realçado um processo de planejamento estratégico por meio da participação da
sociedade civil, com a realização de audiências públicas nas 12 regiões de integração e
disponibilização no site da SEPOF de um portal dedicado ao PPA para envio de sugestões via
internet de cidadãos. Este PPA foi concebido com três eixos ("transformação pelo
conhecimento", "transformação pela produção" e "transformação pela gestão e governança"),
e cinco diretrizes: "Promover a Produção Sustentável"; "Promover a Inclusão Social";

70
Lei ordinária do estado do Pará nº 7.570, de 22 de novembro de 2011.
71
Lei complementar do estado do Pará nº 82, de 9 de maio de 2012. Cabe mencionarmos que a fundação mudou
também de denominação para Fundação Amazônia Paraense de Amparo à Pesquisa, mantendo a sigla
FAPESPA.
158

"Agregar Valor à Produção por meio do Conhecimento"; "Fortalecer a Gestão e Governança


com Transparência" e; "Promover a Articulação Político-Institucional e Desconcentração do
Governo". Embora a CT&I não assume papel explícito central de concatenação do plano
como no anterior, é situada em conjunto com a educação enquanto conhecimento, novamente
atribuída à função de promover agregação de valor à produção, como no trecho seguintes:

Diretriz 3 – AGREGAÇÃO DE VALOR À PRODUÇÃO POR MEIO DO


CONHECIMENTO
A valorização da produção e a difusão do conhecimento têm a perspectiva de pensar e
incentivar a ciência, a tecnologia, a inovação e a educação como bens imateriais da
população paraense e como suportes estratégicos de consolidação do desenvolvimento
estadual.
Nesse sentido, a prioridade de governo nesse campo está atrelada ao desenvolvimento
com sustentabilidade, tendo como objetivo primeiro criar e aplicar conhecimento de
modo integrado às necessidades da sociedade paraense, fomentando a
incorporação de novas tecnologias ao sistema produtivo local (PARÁ, 2011, p. 14,
grifo nosso).

O PPA 2012-2015 foi organizado em dois (2) tipos de programas: "Programa de


Manutenção da Gestão", referente a ações de natureza administrativas e; "Programa
Finalístico", correspondendo a bens ou serviços ofertados à sociedade. Inicialmente, foram
previstos três (3) programas que identificamos como concernentes à política de CT&I:
"Ciência e Tecnologia para o Desenvolvimento Sustentável" (R$205.953.643,00);
"Disseminação de Ciência, Tecnologia e Inovação" (R$16.274.792,00) e; "Sistema Paraense
de Inovação" (R$121.861.324,00). Todos pertinentes a área de Infraestrutura e Logística para
o Desenvolvimento Sustentável. Contudo, este PPA sofreu 3 revisões, e na de 2013 72, estes
três programas foram unificados no programa "Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) para o
Desenvolvimento Sustentável", sob a responsabilidade de execução da SECTI e FAPESPA.
Este programa será nosso objeto de exame na próxima subseção.

3.3.1 Programa Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento Sustentável

O programa CT&I para o Desenvolvimento Sustentável tinha como objetivo


"promover a produção, difusão e aplicação do conhecimento científico, tecnológico e
inovador" e o público-alvo definido foi "pesquisadores, estudantes, atores das cadeias
produtivas estratégicas, instituições de ciência tecnologia e inovação, empresas e órgãos
governamentais", envolvendo, assim, os três atores chaves dos sistemas de inovação.

72
Lei do estado do Pará nº 7.763/2013.
159

No quadro 10, apresentamos as 16 ações previstas no programa ordenadas pelo valor


programado. As três ações com valores significativamente maiores que as demais eram
"Incentivo a Projetos de Pesquisa em Ciência e Tecnologia" e "Concessão de Bolsas para
Pesquisa em Ciência e Tecnologia", ambas ações típicas de fomento a C&T de interesse geral
da comunidade de pesquisa, e "Consolidação do Parque de Ciência e Tecnologia Guamá", que
havia sido foco no PPA anterior, no âmbito do enfoque de sistemas de inovação, estando
neste PPA novamente priorizado, inclusive sinalizado como agenda mínima no plano.
Cabe indicarmos que o NavegaPará, anteriormente ação do programa de CT&I para o
Desenvolvimento (PPA 2008-2011), tornou-se programa próprio neste PPA, com execução
compartilhada com pela PRODEPA, SECTI e FAPESPA. O programa passou a situar-se em
duas diretrizes de atuação, tanto de "Promoção da inclusão social" no que tange as ações de
inclusão digital a população em geral, quanto de "Promoção à articulação político-
institucional e desconcentração do Governo", em relação a implementação dos mecanismos
de integração dos municípios do estado por meio de ações de descentralização e
desconcentração da estrutura administrativa do governo estadual, neste caso particularmente
contribuindo com soluções de TIC para esta.
Daher e Cardoso (2012) indicam que, em 2011, com a entrada do novo mandato
governamental houve realinhamento do NavegaPará, com o que seria uma terceira fase de
execução. Por um lado, o convênio com a Eletronorte foi renegociado e estendido. Por outro
lado, também foram renegociados todos os convênios do governo estadual com as prefeituras
municipais atendidas, que passaram a ratear os custos de implementação do programa, bem
como serem responsáveis pela segurança e manutenção dos seus pontos de acesso, inclusive
infocentros. Além disso, houve continuidade das ações estruturantes de construção de
infovias, com vistas a ampliar o acesso via banda larga do programa para outros municípios
ainda não atendidos.
160

Quadro 10 – Ações do Programa Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento Sustentável do PPA 2012-2015 do Governo do Estado do Pará
Valor
Nº Ação Objetivo Produto Região de Integração %
previsto1
Araguaia, Baixo Amazonas,
Carajás, Guamá, Lago de
Incentivo a Projetos de Pesquisa em Ciência e Fomentar o desenvolvimento de projetos de pesquisa Projeto de Pesquisa
1 Tucuruí, Marajó, 118.197.251 69,8%
Tecnologia em ciência, tecnologia e inovação Apoiado (Un)
Metropolitana, Rio Caeté, Rio
Capim, Tocantins, Xingu
Araguaia, Baixo Amazonas,
Possibilitar a geração de conhecimento significativo
Concessão de Bolsas para Pesquisa em Bolsa Concedida Carajás, Guamá, Marajó,
2 para o desenvolvimento da ciência tecnológica na 24.177.224 14,3%
Ciência e Tecnologia (Un) Metropolitana, Rio Caeté, Rio
região amazônica
Capim, Tocantins, Xingu
Expandir ambiente indutor e viabilizador de inovação Parque de Ciência e
Consolidação do Parque de Ciência e
3 voltado ao desenvolvimento sustentado da região Tecnologia Guamá Metropolitana 11.193.000 6,6%
Tecnologia Guamá
metropolitana de Belém. Consolidado (Prc)
Fomentar a criação de redes de pesquisa em áreas
Apoio ao Desenvolvimento de Redes de produtivas estratégicas que promovam o Rede de Pesquisa
4 Metropolitana 3.081.394 1,8%
Pesquisa em Áreas Produtivas Estratégicas desenvolvimento tecnológico e a verticalização das Apoiada (Un)
cadeias produtivas
Criar ambiente indutor e viabilizador de inovação para Parque de Ciência e
Implantação do Parque de Ciência e
5 o desenvolvimento sustentado da região oeste do Tecnologia Baixo Amazonas 2.970.000 1,8%
Tecnologia Tapajós
Estado Implantado (Prc)
Manutenção do Contrato de Gestão do Parque Assegurar o funcionamento do Parque de Ciência e Repasse Realizado
6 Metropolitana 2.820.000 1,7%
de Ciência e Tecnologia Guamá Tecnologia Guamá. (Un)
Araguaia, Baixo Amazonas,
Disseminação de Ciência, Tecnologia e Promover a divulgação, difusão e disseminação da Pesquisador Apoiado Carajás, Guamá, Lago de
7 2.086.600 1,2%
Inovação ciência, tecnologia e inovação. (Un) Tucuruí, Metropolitana, Rio
Caeté, Rio Capim, Xingu
Promover o fortalecimento de incubadoras de Baixo Amazonas, Carajás,
Apoio à Incubação de Empresas de Base Incubadora Apoiada
8 empresas voltadas ao desenvolvimento de Lago de Tucuruí, 1.403.104 0,8%
Tecnológica (Un)
empreendimentos inovadores de base tecnológica. Metropolitana, Rio Caeté
Criar ambiente indutor e viabilizador de inovação para Parque de Ciência e
Implantação do Parque de Ciência e
9 o desenvolvimento sustentado da região sudeste do Tecnologia Carajás 970.500 0,6%
Tecnologia Tocantins
Estado. Implantado (Prc)
161

Valor
Nº Ação Objetivo Produto Região de Integração %
previsto1
Implantação do Museu Interativo de Ciência e Elaboração do Plano Museológico para fins de Plano Museológico
10 Metropolitana 829.000 0,5%
Tecnologia implantação do Museu de Ciência e Tecnologia. Elaborado (Prc)
Incentivar a realização de serviços de propriedade
Indução à Aplicação da Tecnologia Industrial intelectual, metrologia, avaliação da conformidade, Serviço Realizado Marajó, Metropolitana, Rio
11 469.000 0,3%
Básica –TIB normalização e gestão tecnológica para agregação de (Un) Caeté, Tocantins, Xingu
valor a bens, serviços e processos.
Baixo Amazonas, Carajás,
Aplicação da Gestão do Conhecimento para Estimular a adoção de práticas de gestão do
12 Prática Adotada (Un) Lago de Tucuruí, 452.000 0,3%
Inovação conhecimento para viabilização da inovação
Metropolitana, Rio Caeté
Baixo Amazonas, Carajás,
Realização de atividades massificadoras, fixas e
Realização de Eventos para Popularização de Evento Realizado Guamá, Lago de Tucuruí,
13 itinerantes de popularização do conhecimento 392.500 0,2%
Ciência, Tecnologia e Inovação (Un) Metropolitana, Rio Caeté, Rio
científico e tecnológico, em âmbito estadual
Capim, Tocantins, Xingu
Sistema de Araguaia, Carajás, Guamá,
Identificação e Mapeamento de Competências Desenvolver o observatório estadual de Ciência,
14 Informação Metropolitana, Rio Caeté, 192.000 0,1%
em Ciência, Tecnologia e Inovação Tecnologia e Inovação
Implantado (Prc) Tocantins
Disseminar as tecnologias sociais identificadas junto
as comunidades, instituições de ensino, pesquisa e
Transferência de Tecnologias Sociais para o extensão, ONGs e empresas, garantindo sua Tecnologia Social Baixo Amazonas, Guamá, Rio
15 180.000 0,1%
Desenvolvimento reaplicação em benefício da melhoria da qualidade de Disseminada (Un) Capim
vida da população local/regional e indução da
capacidade de governança das comunidades.
Implantação de Centros de Estudos e Polo de
16 Desenvolvimento de Pesquisas Científicas e Incentivar a iniciação científica na educação básica Conhecimento Metropolitana 21.000 0,01%
Tecnológicas - Polos do Conhecimento Implantado (Un)
1
Em virtude do desenho de ações neste programa ter sido resultado de revisão do PPA em 2013 para os anos de 2014 e 2015, o valor previsto informado se refere ao
orçamento para estes dois anos somente.
Legenda: Un = Unidade; Prc = Percentual.
Fonte: Adaptado pela autora a partir de Pará (2013).
162

Ao examinar as ações deste PPA com a do anterior, apesar da mudança partidária no


governo (do PT para o PSDB), observamos certa continuidade das ações na agenda do
programa de CT&I, em dinâmica representativa do incrementalismo. A orientação explícita
da política continua referenciada na noção de sistemas de inovação, com aumento do enfoque
sobre a implementação de parques tecnológicos, e mantendo ações relacionadas a incubação
de empresas e TIB. Ações de fomento tradicionais para pesquisa científica e tecnológica
(incluindo o fomento a redes de pesquisa) em áreas estratégicas, formação de recursos
humanos (concessão de bolsas) e disseminação também são reconhecidas em ambos os
programas dos dois PPA.
Uma distinção, embora em posição marginal em termos de programação de aplicação
de recursos, foi a inclusão no programa atual de múltiplas ações explícitas relacionadas a
popularização de C&T e a tecnologia social. Esses dois temas já faziam parte, em conjunto
com a inclusão digital, de uma agenda da C&T para inclusão social no governo federal,
particularmente pela atuação da SECIS/MCT, nos mandatos anteriores de governos do PT.
Ações de popularização de C&T tinham recorte atendido na ação "apoio ao desenvolvimento
da CT&I no ensino fundamental, médio e tecnológico" do PPA anterior, pela concessão de
bolsas e projetos em parceria com a Secretaria do Estado de Educação (SEDUC). Neste PPA,
outros desenhos de estratégias de ação haviam sido planejados (museu interativo e eventos).
Contudo, a questão da tecnologia social não havia ainda que simbolicamente ou
marginalmente entrado na agenda do programa de CT&I no PPA anterior73, sob mandato do
PT, emergindo explicitamente no planejamento no PPA atual sob governo do PSDB.
Para o período deste PPA, ainda em 2011, houve a publicação de outro documento
com diretrizes norteadoras ao domínio estadual da política de CT&I, o Plano Diretor de
Ciência, Tecnologia e Inovação (2011-2015)74. O plano diretor de CT&I 2011-2015 foi
elaborado no âmbito da SECTI com o objetivo de expressar “o posicionamento estratégico da
SECTI / Governo do Pará quanto à concepção e delineamento de políticas públicas em
Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I)” (SECTI, 2011, p. 8). Assim, o documento foi
estruturado em seis (6) seções principais: Os Dilemas do Desenvolvimento sustentável da
Amazônia; Desenvolvimento Industrial no Pará: tendências atuais; Biotecnologia e
Bionegócios: os desafios de uma “economia verde”; SECTI: Organização e propósitos;

73
A menção que localizamos a ações de tecnologia social durante o período do PPA 2008-2011 se referiu a
registros sobre o início de execução em 2011 pela SECTI e FAPESPA em parceria com a UFPA, UFRA e
EMATER do projeto Ações de Tecnologia Social para Consolidação do Sistema Paraense de Inovação (SIPITS),
financiado pela FINEP no estado, conforme relatório institucional da FAPESPA 2011.
74
Decreto estadual nº 264/2011.
163

SECTI: Objetivos estratégicos, ações e metas; Gestão Estratégica: o Sistema Paraense de


Inovação.
Entendemos que o mesmo apresenta uma primeira parte (envolvendo as três seções
inicias) referente a discussão de uma concepção do contexto e de cenários estratégicos para
CT&I no estado para duas áreas entendidas como prioritárias na economia (indústria de forma
geral, biotecnologia e bioindústria, de forma específica75) para aplicação do conhecimento,
com vistas a "gerar maiores oportunidades de emprego, melhor distribuição de riquezas e
aumento da competitividade de empresas e demais organizações da sociedade civil, com
melhoria da qualidade de vida da população" (SECTI, 2011).
Posteriormente, uma segunda parte (abrangendo a 4ª e 5ª seção) com a proposta de
organização institucional e planejamento da secretária para o período. E, por fim, as bases
conceituais e instrumentais da política explícita do Sistema Paraense de Inovação (SIP),
enquanto a "estratégia mais eficiente para o desenvolvimento das sociedades contemporâneas,
principalmente se alicerçados em relações de confiança e colaboração entre os agentes"
(SECTI, 2011). Tais agentes são definidos explicitamente no documento a partir da "teoria da
hélice tríplice", nas três categorias já comentadas da abordagem de sistema de inovação:
"instituições geradoras de conhecimento - ICT", "setor empresarial" e "entidades
governamentais" (SECTI, 2011).
Portanto, observamos continuidade da orientação discursiva na política explícita em
relação ao período anterior. E que, embora a CT&I seja configurada nos objetivos gerais da
política como estratégia para melhoria da qualidade de vida da população, este alcance último
se dá prioritariamente mediado pela geração de emprego, pelo aumento da competitividade de
empresas e, por meio destes, melhor distribuição de riqueza, conforme discurso da CT&I
orientada para o mercado. Bem como, apesar das organizações da sociedade civil serem
nomeadas enquanto ator na sociedade a ser beneficiado pela política de CT&I, na
instrumentalização da governança desta política não estavam legitimados enquanto atores
políticos pela abordagem conceitual elaborada/articulada.
A estrutura de governança regulamentada neste período estava sobre o Conselho
Estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação (CONCITI)76, o qual visava "garantir a
representatividade do Poder Público, das Instituições de Ciência e Tecnologia (ICT) sediadas
no Estado e das empresas que, em território paraense, desenvolvem bens e serviços baseados

75
Neste plano diretor já foi mencionada a concepção de um Programa Paraense de Incentivo ao Uso Sustentável
da Biodiversidade (BIOPARÁ).
76
Decreto estadual nº 488/2012.
164

em ciência, tecnologia e inovação" (SECTI, 2011). A representação foi definida pelo decreto
estadual do CONCITI como composta: pelo poder público estadual por: SECTI, Assembleia
Legislativa do Pará (ALEPA), FAPESPA, Secretaria de Estado de Indústria, Comércio e
Mineração (SEICOM), Federação das Associações de Municípios do Pará (FAMEP),
Secretaria de Estado de Meio Ambiente (SEMA), Secretaria de Estado da Agricultura
(SAGRI); pelas ICT no estado por: UEPA, UFPA, Universidade Federal Rural da Amazônia
(UFRA), Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará (IFPA), Universidade
Federal do Oeste do Pará (UFOPA), EMBRAPA, MPEG, IEC, CEPLAC, Sistema de
Proteção da Amazônia (SIPAM), uma associação científica, uma instituição privada de ensino
e pesquisa, e um instituto ou centro de pesquisa privado e; pelo setor empresarial por: FIEPA,
FAEPA, SEBRAE/PA, um representante de Parque de Ciência e Tecnologia 77 (PCT)
localizado no Estado do Pará, e uma empresa que investe em ciência, tecnologia e inovação.
No que tange ao poder pública estadual, verificamos que houve expansão da
representação anterior prevista ao Fórum Paraense de Inovação. Mas, esta seguiu direção para
aquelas secretarias associadas aos denominados setores produtivos (SEICOM, SAGRI), em
acordo a orientação discursiva predominante. Assim, não foi legitimada pela inclusão outras
secretarias cuja temática de atuação mantém intersetorialidade reconhecida e havia operado
parcerias no governo anterior (inclusive com cofinanciamento de ações/editais), como as
temáticas de educação e saúde (SEDUC e SESPA). A representação das ICT também
aumentou em um representante, mantendo-se, assim, como maioria no conselho, enquanto a
representação do setor empresarial teve seu quantitativo reduzido.
De forma similar ao PPA anterior, apesar da orientação discursiva da política explícita
está preponderantemente ancorada na CT&I orientada para o mercado, o desenho de seus
indicadores apresentou divergências. O indicador "grau de implantação e desempenho do
Sistema Paraense de Inovação" foi o único diretamente associado ao tema, apesar de
operacionalmente envolver medições de natureza distinta (implantação e desempenho). Os
três demais estão voltados à medição do atendimento finalístico da comunidade de pesquisa,
em particular o de "pesquisadores atendidos em ações de ciência, tecnologia e inovação" e
"pesquisadores atendidos em ações de disseminação de conhecimentos científicos". O
indicador referente ao "número de laboratórios cadastrados no sistema de informações em

77
O decreto nº 488/2012 estabelece que o representante do PCT estivesse caracterizado enquanto setor
empresarial, contudo entendemos que pertença a comunidade de pesquisa, visto que seu representante,
geralmente é seu diretor presidente, e que este cargo tem sido exercido por pesquisadores doutores, professores
licenciados da UFPA, portanto, membros da comunidade de pesquisa. Além disso, a própria concepção e
trajetória do PCT vincula-se a elaboração discursiva típica do neovinculacionismo na política de CT&I.
165

CT&I do estado do Pará" relacionava-se ao mapeamento da infraestrutura dos laboratórios de


pesquisa existentes principalmente em universidade e institutos de pesquisa. Embora tivesse
como um dos objetivos disseminação de informações de possíveis serviços a serem ofertados
a setores empresariais, o indicador sobre o número de laboratórios cadastrados mantinha o
enfoque sobre o mapeamento junto à comunidade de pesquisa, e não em possíveis
desdobramentos deste.
Conforme relatórios de avaliação anuais do PPA disponíveis referente aos anos 2013 e
78
2015 , a execução financeira dos programas corresponderam aos percentuais da tabela 7. Ao
ter como parâmetro os valores liquidados nestes anos, ainda considerando os valores
informados para o programa do NavegaPará nos mesmos anos (R$ 18.626,32 milhões),
entendemos que a inversão de aplicação em programas de CT&I tendeu a ser menor neste
período que no PPA anterior.

Tabela 7 – Previsão orçamentária e recursos financeiros aplicados em programas no âmbito da CT&I


do PPA 2012-2015 (em R$ 1.000,00).

Dotação
Valor Atualizada no %
Ano Programa Liquidado
programado orçamento geral Execução
do estado
Ciência e tecnologia para o
2013 77.044,00 71.749,11 22.191,48 31
desenvolvimento sustentável
Disseminação de ciência, tecnologia
2013 2.732,15 1.306,29 734,24 56
e inovação
2013 Sistema paraense de inovação 18.476,15 22.887,06 7.672,44 34
Ciência, tecnologia e inovação para
2015 68.596 62.898 23.628 38
o desenvolvimento sustentável
Fonte: Adaptada pela autora a partir de Pará (2014; 2016).

Coerente com as previsões orçamentárias, as três (3) ações com maior nível de
investimentos executados em 2015, e que neste sentido, podem ser consideradas as ações
prioritárias, foram a de "incentivo a projetos de pesquisa em ciência e tecnologia" (R$ 8,578
milhões), "consolidação do PCT Guamá" (R$ 7,463 milhões) e "concessão de bolsas para
pesquisa em ciência e tecnologia" (R$ 5,633 milhões). Por outro lado, quatro ações foram
indicadas como não executadas durante o período do PPA, com atividades somente
preliminares realizadas, de modo que deveriam ser reprogramadas em próximo período:
implantação do PCT Tapajós (Santarém); implantação do PCT Tocantins (Marabá);

78
Relatórios disponíveis em SEPLAN (2019). Para o ano de 2012, somente o programa de disseminação de
CT&I constava nos volumes dos relatórios, por este ter uma representação parcial, correspondendo a menor parte
da previsão orçamentária, do que compôs o programa de CT&I para o Desenvolvimento Sustentável, optamos
por não apresentar este dado somente parcial de 2012. Os relatórios referentes a 2014 não estavam disponíveis.
166

implantação do Museu Interativo de Ciência e Tecnologia e; implantação de Centros de


Estudos e Desenvolvimento de Pesquisas Científicas e Tecnológicas - Polos do Conhecimento
(agenda mínima).
Nos modelos de relatório de avaliação aplicados, havia um relato síntese para todas as
ações programadas, incluindo a indicação de execução das ações nos municípios do estado, no
que tange ao atendimento de regiões de integração. No quadro 11, apresentamos um resumo
da listagem dos municípios relatados por ação, pelo qual observamos que houve considerável
concentração das atividades no município de Belém. Em geral, o alcance em termos de
amplitude de municípios era restrito, sendo que a ação com maior alcance registrado foi de 21
municípios frente 144 no total do estado (14,6%).
Por fim, no relatório de avaliação do ano de 2015, também foi desenvolvido para o
programa um tópico com as principais realizações, no qual foram realçadas as seguintes:

- Conclusão das obras do Espaço Inovação e do Laboratório de Qualidade do Leite,


localizados no Parque de Ciência e Tecnologia Guamá (PCT Guamá);
- Apoiadas 50 redes de projetos voltados a redes de pesquisas em plantas medicinais e
fitoterápicos, fruticultura tropical (açaí e cacau) e software;
- Concessões de 65 bolsas de doutorado;
- Concessões de 150 bolsas de mestrado;
- Concessões de 200 bolsas de iniciação científica;
- Contratação de 20 projetos ligados a realização de eventos regionais, nacionais e
internacionais;
- Apoio a 31 pesquisadores para participação em eventos nacionais e internacionais”
(PARÁ, 2016).

Observamos que as realizações ressaltadas são, em geral, relacionadas aos indicadores


de investimentos (input) em CT&I, como quantidade de bolsas e projetos apoiados de
interesse direto da comunidade de pesquisa, sem maiores informações sobre possíveis
impactos destes, com vistas a compará-los com os objetivos definidos no Plano Diretor CT&I.
167

Quadro 11 – Ações do programa CT&I para o Desenvolvimento Sustentável do PPA 2012-


2015, por municípios com execução relatada em 2015
Ações do programa CT&I para o Desenvolvimento Sustentável do PPA 2012-2015, por
municípios com execução relatada em 2015
Ação Municípios com execução em 2015
Aplicação da Gestão do
-
Conhecimento para Inovação
Apoio à Incubação de Empresas de
1 (Belém)
Base Tecnológica
Apoio ao Desenvolvimento de Redes
de Pesquisa em Áreas Produtivas 1 (Belém)
Estratégicas
18 (Altamira, Ananindeua, Barcarena, Belém, Bragança,
Concessão de Bolsas para Pesquisa Breves, Cametá, Capanema, Castanhal, Conceição do
em Ciência e Tecnologia Araguaia, Eldorado dos Carajás, Marabá, Óbidos, Oriximiná,
Paragominas, Parauapebas, Santarém, Soure)
Consolidação do Parque de Ciência e
1 (Belém)
Tecnologia (PCT) Guamá
12 (Abaetetuba, Altamira, Ananindeua, Belém, Bragança,
Disseminação de Ciência, Tecnologia
Cametá, Capitão Poço, Marabá, Paragominas, Parauapebas,
e Inovação
Santarém e Tucuruí).
Identificação e Mapeamento de
Competências em Ciência, 1 (Belém)
Tecnologia e Inovação
Implantação de Centros de Estudos e
Desenvolvimento de Pesquisas
1 (Belém) ações preliminares somente
Científicas e Tecnológicas - Polos do
Conhecimento
Implantação do Museu Interativo de
1 (Belém) ações preliminares somente
Ciência e Tecnologia
Implantação do PCT Tapajós 1 (Santarém) ações preliminares somente
Implantação do PCT Tocantins 1 (Marabá) ações preliminares somente
21 (Altamira, Ananindeua, Barcarena, Belém, Benevides,
Bragança, Brasil Novo, Cametá, Castanhal, Itaituba, Igarapé-
Incentivo a Projetos de Pesquisa em
Açu Magalhães Barata, Marabá, Marituba, Paragominas,
Ciência e Tecnologia
Redenção, Santa Bárbara do Pará, Santa Izabel do Pará, Santa
Maria do Pará, Soure e São Miguel do Guamá)
Indução à Aplicação da Tecnologia 4 (Bragança, Belém, Santarém, e um município na RI do
Industrial Básica –TIB Marajó)
Manutenção do Contrato de Gestão
1 (Belém)
do PCT Guamá
Realização de Eventos para
1 (Belém)
Popularização de CT&I
Transferência de Tecnologias Sociais
1 (Belém)
(TS) para o Desenvolvimento
Fonte: Adaptado pela autora a partir de Pará (2016).
168

3.3.2 Editais e Execução do Fomento Estadual na FAPESPA

No período de vigência do PPA 2012-2015, conforme registros no website da


FAPESPA, identificamos 48 editais lançados pela Fundação. Destes, 6 editais em 2012, 12
em 2013, 23 em 2014 e 7 em 2011 (quadro detalhado no Apêndice B). Como no período do
PPA anterior, fizemos um primeiro recorte de exame ao classificar os editais pela
configuração principal do fomento (bolsas ou projetos) e categorias de aplicação.
Na tabela 8, observamos uma redução em editais de bolsas relacionados a inclusão
digital (NavegaPará) e dos programas institucionais (em que a FAPESPA atuava como
gestora). E não houve fomento a bolsas para iniciação científica júnior, voltada aos estudantes
do ensino médio ou fundamental de escolas públicas. De outra parte, houve aumento dos
editais de bolsas para apoio a programas de pós-graduação stricto sensu, continuando a ser o
maior quantitativo de editais lançados, inaugurando inclusive editais em parceria com a
CAPES, que não ocorreu anteriormente.

Tabela 8 – Editais lançados pela FAPESPA com modalidade de fomento no formato de bolsa ou
auxílio, por categorias, no período de 2012 a 2015

Bolsas para Bolsas


Bolsas para Bolsas para Bolsas para Auxílio a
pós- Bolsas de para
programas programas pós- participação
Ano Bolsas graduação programas programa
de iniciação de iniciação graduação em eventos
stricto institucionais de inclusão
científica científica Jr lato sensu C&T
sensu digital
2012 2 0 1 0 1 0 0 0
2013 3 1 1 0 0 1 0 0
2014 7 5 1 0 1 0 0 0
2015 5 3 1 0 0 0 0 1
Total 17 9 4 0 2 1 0 1
*Dados extraídos de FAPESPA (2018)
Fonte: Elaborada pela autora (2019).

Na tabela 9, os editais para fomento de projetos de pesquisa científica e tecnológica


permanecem prevalecendo. Contudo, houve redução dos editais voltados a P&D e inovação
em empresas (somente 1). Portanto, apesar da política explícita reforçar o discurso da CT&I
orientada para o mercado, houve menos fomento voltado para empresas via FAPESPA no
período. Houve, ao contrário, maior concentração de fomento em editais direcionados a
comunidade de pesquisa diretamente, seja no fomento de projetos, seja no de bolsas
(centrados mais proporcionalmente a pós-graduação stricto sensu). E, similar ao que
169

aconteceu na modalidade de bolsas, não houve editais para fomento a projetos de inclusão
digital (NavegaPará) e de popularização de C&T nas escolas públicas.

Tabela 9 – Editais lançados pela FAPESPA com modalidade de fomento no formato de projeto, por
categorias, no período de 2012 a 2015

Projetos
Projetos Projetos de Projetos de Projeto de
Projetos Projetos de para Premiação de
Nº de de P&D e programas de publicações
Ano de eventos inclusão populari- destaque
editais pesquisa inovação em pós- tecno-
C&T digital zação de científico
C&T empresas graduação científica
C&T
2012 4 2 0 1 0 0 0 0 1
2013 9 8 0 1 0 0 0 0 0
2014 16 11 1 1 0 0 3 0 0
2015 2 1 0 1 0 0 0 0 0
Total 31 22 1 4 0 0 3 0 1
*Dados extraídos de FAPESPA (2018)
Fonte: Elaborada pela autora (2019).

Ao examinar o recorte em relação ao direcionamento às temáticas prioritárias,


observamos que, por um lado, em 2012 e 2015, todos os editais foram horizontais, não
havendo direcionado a temáticas específicas, exceto o edital do PPSUS (003/2012) voltado a
temas da saúde, conforme parceria estabelecida com o DECIT/MS. Por outro lado, nos anos
de 2013 e 2014, houve vários editais verticais, com temáticas direcionadas, segundo o quadro
12.
Se considerarmos os seis (6) temas direcionados no período anterior, o de agricultura,
pecuária e agroindústria permanece sendo priorizado nos 4 recortes de editais deste período.
O tema de biotecnologia e aproveitamento econômico da biodiversidade, pois é transversal às
linhas de pesquisa de três editais de 2013 (Saúde e Fruticultura Tropical – Açaí e Cacau) e
linhas de pesquisa de dois projetos temáticos de 2014 (Agricultura e Pecuária Familiar, e
Bioenergia), além de constar no edital nº 003/2014. Deste modo, entendemos que
biotecnologia continua priorizada, mas houve uma busca de direcionar esforços para cadeias
produtivas vistas como estratégicas pelo governo estadual.
170

Quadro 12 - Linhas temáticas ou áreas de aplicação direcionados em editais selecionados da FAPESPA no período de 2012 a 2015
Programa de Incentivo à Inovação
Programa de Apoio a Núcleos Conjunto de editais "Programa de
Conjunto de editais "Apoio ao em Microempresas e Empresas de
Emergentes - Auxílio à Pesquisa - Projetos
Editais Desenvolvimento de Rede de Pequeno Porte –
PRONEM/FAPESPA/CNPQ Temáticos"
Pesquisa" (2013) InovaPará/Tecnova
(edital 008/2013)1 (2014)
(edital 003/2014)

– Agricultura, Pecuária e Pesca


– Ambiente e Desenvolvimento
– Saúde - Plantas Medicinais e – Agricultura e Pecuária Familiar – Petróleo e gás
Sustentável
Fitoterápicos (edital 001/2013) (edital 004/2014) – Energias alternativas
– Assistência Social e Direitos
– Fruticultura Tropical: – Sociedade e Sustentabilidade – Tecnologia da Informação e
humanos
Melhoramento da Cadeia Do Açaí Urbana/Rural (edital 005/2014) Comunicação
Temas – Ciências Biológicas, Biomédicas
(edital 002/2013) – Saúde (edital 006/2014) – Mineração
Direcionados (saúde) e Biotecnológicas
– Software (edital 003/2013) – Mineração (edital 007/2014) – Agricultura e pecuária
– Ciências Exatas e Naturais
– Fruticultura Tropical: – Violência e Segurança Pública – Pesca e aquicultura
– Educação, Trabalho e Renda
Melhoramento da Cadeia do (edital 008/2014) – Bionegócios
– Engenharias
Cacau (edital 004/2013) – Bioenergia (edital 009/2014) – Sustentabilidade ambiental.
– Direito e Reforma do Estado
– Música e Cultura
1
Incluímos o edital nº 008/2013, por este explicitar uma discriminação de linhas temáticas preferenciais, mas consideramos que a amplitude de áreas de conhecimento nele
estabelecida tão abrangente, inclusive por mencionar grandes área inteiras como engenharias, ciências exatas e naturais, e ciências biológicas e biomédicas (saúde), que não
alcance ser propriamente um direcionamento de temáticas específicas.
Fonte: Adaptado pela autora a partir de FAPESPA (2018).
171

A TIC foi outro tema que se manteve em prioridade, com recortes no edital nº
003/2013 e nº 003/2014, contemplada em linhas de pesquisa no edital nº 008/2014 de
violência e segurança pública. Os temas de energia (particularmente no recorte de energias
alternativas e bioenergia) e mineração não foram contemplados nos editais de rede de
pesquisa em 2013, mas foram nos editais de 2014. Somente a temática de pesca e aquicultura
que teve seu espaço reduzido, principalmente no fomento voltado a pesquisa de C&T, estando
explicitado somente no edital nº 003/2014. Por fim, temas de saúde e segurança pública
mantiveram-se na agenda, com certa proeminência, e a questão da sustentabilidade foi tornada
mais explícita.
Em relação a identificação das temáticas especificamente relacionadas a questão de
desigualdades, inclusão social ou grupos sociais vulneráveis, conforme quadro 13,
encontramos 8 editais associados a estas temáticas, identificando 7 enfoques (inclusão digital,
redução de desigualdades territoriais, doenças negligenciadas, atendimento a agricultura
familiar, a população feminina, idosos e pessoas com deficiência). Assim, houve redução da
quantidade de editais em relação ao período anterior. No entanto, cabe indicarmos que, neste
período, foi lançado um edital PPSUS (011/2013), programa em que diversos recortes
populacionais específicos foram contemplados no período anterior, mas o texto deste edital
não estava disponível no site, de modo que não pudemos considerá-lo.

Quadro 13 – Seleção de editais lançados pela FAPESPA identificados com menções explícitas a
temáticas voltadas a redução desigualdades, inclusão social ou atendimento específico de grupos
sociais vulneráveis, no período de 2012 a 2015
Temáticas
Nº total Populaçõ Pessoas
de Agricul Redução de Crianças e Populaçã Doenças
Ano es Inclusão com
editais tura desigualdade adolescente o Idosos negligenc
tradicion digital deficiên
familiar territorial s feminina iadas
ais cias
2012 0 - - - - - - - - -
010/201
2013 2 - - - - 010/2013 - 009/2013 -
3
004/20 005/201
14 005/2014 4
2014 6 022/2014 - 008/2014 - - 006/2014
007/20 006/2014 006/201
14 4
2015 0 - - - - - - - - -
Total 8 2 1 0 1 3 0 1 3 1
*Dados extraídos de FAPESPA (2018)
Fonte: Elaborada pela autora (2019).

Os enfoques mais mencionados se referiram às temáticas de agricultura familiar, que


já vinha sendo contemplada no período anterior, e de tecnologia assistiva voltado ao
172

atendimento de pessoas com deficiência, mobilidade reduzida e idosos, que emergiu na


agenda neste período. Observamos também que, embora a temática de tecnologia social tenha
emergido com ação específica no programa de CT&I para Desenvolvimento Sustentável no
PPA, não houve direcionamento específico da mesma via editais pela FAPESPA.

3.4 POLÍTICA ESTADUAL DE CT&I EM PERSPECTIVA PARCIAL NO PPA 2016-2019

Em 2015, houve o início de novo mandato no governo estadual, tendo se reelegido o


governador Simão Jatene pelo PSDB. Neste mandato, houve novas mudanças nos contornos
das duas principais organizações de gestão da política de CT&I no estado, devido a
reestrutura administrativa. A Secretaria de Estado responsável pela pasta de CT&I passou a
agregar, também, a temática da educação profissional e tecnológica79, denominando-se de
Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Educação Profissional e Tecnológica
(SECTET).
A FAPESPA teve sua denominação alterada para Fundação Amazônia de Amparo a
Estudos e Pesquisas (manteve a mesma sigla), e recebeu a agregação de áreas e funções de
pesquisa econômica e social do extinto Instituto de Desenvolvimento Econômico, Social e
Ambiental do Pará (IDESP)80. A fundação também voltou a estar vinculada diretamente a
SECTET.
O PPA81 do período 2016-2019 (intitulado "Governo Regionalizado, Desenvolvimento
Integrado") teve a construção dos desdobramentos de objetivos, metas e ações estruturada a
partir de 12 RI, sendo esta divisão territorial a base de organização dos programas. Os
programas foram organizados em duas modalidades: os programas temáticos, correspondentes
a temas estruturantes de políticas públicas (entre os quais havia o de "Ciência, Tecnologia e
Inovação") e; o programa de gestão, manutenção e serviços à administração pública estadual.
Novamente foi relatado a realização de audiências nas RI durante a elaboração do PPA.
O macro-objetivo deste PPA era "reduzir a pobreza e a desigualdade social e regional
por meio do desenvolvimento sustentável" (PARÁ, 2015) e apresentava cinco (5) diretrizes e
quatro (4) dimensões estratégicas:

79
Inicialmente expressa enquanto educação técnica e tecnológica pela Lei estadual nº 8.096/2015,
posteriormente denominada de educação profissional e tecnológica pela Lei estadual nº 8.404/2016,
permanecendo esta até o final do referido mandato.
80
Lei complementar do estado do Pará nº 098/2015.
81
Lei estadual n° 8.335/2015.
173

I - promover a produção sustentável;


II - promover a inclusão social;
III - agregar valor à produção por meio do conhecimento;
IV - fortalecer a gestão e governança com transparência;
V - promover a articulação político-institucional e desconcentração de governo."
(PARÁ, 2015, p. 1 - diretrizes).

I - governança territorial e político-institucional;


II - economia sustentável;
III - inclusão social;
IV - infraestrutura social. (PARÁ, 2015, p. 1 – dimensões estratégicas).

O PPA ainda está em execução, tendo sofrido uma revisão em 2017 para o período de
2018 e 2019. Nosso exame, então, contemplará seu desenho geral e relatórios de avaliação
para os dois primeiros (2016 e 2017).

3.4.1 Programa temática de Ciência, Tecnologia e Inovação

O programa temático de CT&I foi relacionado explicitamente na dimensão estratégica


da "economia sustentável" e associado às diretrizes de "agregar valor à produção por meio do
conhecimento" e " promover a produção sustentável". Assim, podemos corroborar que há
contínua vinculação de programas de CT&I às diretrizes e dimensões econômicas dos PPA, e
fraco ou nenhum direcionamento elaborado destes às diretrizes e aos objetivos relacionados às
políticas sociais (exemplo, a de "promover inclusão social"). Única exceção houve na
ação/programa específicos relacionados ao NavegaPará nos PPA anteriores, no entanto, o qual
sofreu um processo de distanciamento da CT&I.
No PPA anterior, o programa referente ao NavegaPará foi separado do programa
principal da CT&I, embora ainda tivesse como coexecutores a SECTI e a FAPESPA e, como
vimos na execução do fomento pela FAPESPA, o programa havia sofrido substancial redução
de inversão financeira pela FAPESPA. No PPA atual não há mais menção a "NavegaPará" ou
a ações relacionadas a "infocentros" e "inclusão digital", termos provavelmente ainda bastante
vinculados ao mandato de governo exercido pelo PT. Ações relacionadas a esta temática
identificamos no PPA atual no objetivo "Ampliar a conectividade e acessibilidade digital" do
programa "Infraestrutura e Logística", em que havia previsão de implantação de zonas de
acesso livre de internet e de pontos comunitários de acesso à internet. Mas, já sob a
174

responsabilidade exclusiva da PRODEPA (atual Empresa de Tecnologia da Informação e


Comunicação do Estado do Pará)82.
Diante do exposto, entendemos que o tema da inclusão digital, embora mantido, em
alguma medida como pauta na agenda do governo estadual geral, não conseguiu se
estabelecer na agenda específica de CT&I. A execução das ações de inclusão digital do
NavegaPará nos mandatos de governo anteriores havia sido focada nos infocentros, em geral,
geridos por prefeituras ou por organizações da sociedade civil, assim, distantes do ator
político principal da CT&I. Ao considerar as características da política de CT&I,
compreendemos que a sustentação do tema na agenda pressupunha o estabelecimento e
fortalecimento deste também enquanto campo de pesquisa, com grupos de pesquisadores que
atuassem politicamente, o que não identificamos.
O programa de CT&I tinha três objetivos: (i) promover a produção, difusão e
aplicação do conhecimento científico, tecnológico e inovador, aplicado a todas as RI, sob a
responsabilidade da SECTET e FAPESPA; (ii) apoiar a infraestrutura para o desenvolvimento
do conhecimento e da inovação", contemplado em 4 RI, sob a responsabilidade da SECTET e;
(iii) produzir informações socioeconômicas e ambientais para subsidiar a elaboração,
monitoramento e avaliação de estudos e pesquisa, sob a responsabilidade da FAPESPA.
Cabe indicarmos que este último objetivo está estreitamente vinculado as funções do
antigo IDESP, incorporado para funcionamento no âmbito da FAPESPA, relacionado a
elaboração de estudos e estatísticas de interesse do governo estadual. Uma vez que estas
atividades são realizadas em duas diretorias na FAPESPA originadas do IDESP, e que no
curto espaço de tempo decorrido não houve suficiente interação entre as distintas diretorias na
FAPESPA para integração de agendas, não contemplaremos ações 83 e metas deste objetivo
em nosso exame.
Na tabela 10, apresentamos as metas previstas para os dois primeiros objetivos citados
no programa, considerando que indicador do processo proposto era a "taxa de cobertura de

82
Reconhecemos que a PRODEPA está subordinada a SECTET na estrutura administrativa estadual, mas
entendemos que sua associação esteja estabelecida pela prestação de serviços na área de TIC, construída pela
implementação dos projetos estruturantes do Programa NavegaPará, enquanto que as ações de inclusão digital
ficavam a cargo da Secretaria responsável pela pasta de CT&I (SEDECT/SECTI). Por isso que compreendemos
que a responsabilidade das ações mencionadas estarem somente com a PRODEPA indica um afastamento da
agenda nuclear da CT&I, lembrando que, embora subordinada a SECTET, a PRODEPA não consta como
executora de nenhuma ação do programa temático de CT&I.
83
Somente duas ações foram previstas neste objetivo: Realização de Estudos, Formulação e Geração de
Informações Sociais, Econômicas e Ambientais (informado execução de 85 estudos em 2016 e 291 em 2017); e
Consolidação do Portal Paraense de Inovação, essa ação embora associada ao teor da política de CT&I foi
informada como não executada nos dois anos cobertos e não relacionada a metas do objetivo (elaborar e divulgar
939 estudos e pesquisas; consolidar o Sistema de Informação do Estado).
175

ações em Ciência e Tecnologia" entre as RI. Observamos que foi especificado quantitativos a
serem alcançados em cada RI, na busca de implementar a gestão regionalizada das políticas
no bojo do desenho elaborado para o PPA. Contudo, nos relatórios de avaliação anual
emitidos referentes ao período 2016 e 2017 (PARÁ, 2017; PARÁ, 2018) não houve indicação
de alcances quantitativos por RI para programa temático de CT&I, sendo feito somente um
relato de ações em andamento e editais de fomento lançados, não se atingindo um
monitoramento, ao menos em termos de informações públicas, efetivamente regionalizado do
planejamento.

Tabela 10 – Metas por objetivo do programa temático de Ciência, Tecnologia e Inovação do PPA
2016-2019 do estado do Pará

Promover a produção, difusão e


Apoiar a infraestrutura para o desenvolvimento do
Objetivos aplicação do conhecimento
conhecimento e da inovação
científico, tecnológico e inovador
Metas Metas
Conceder Implantar
Implantar
bolsas de Implantar o Parque Consolidar Apoiar a
o Parque
Região de Fomentar formação Apoiar o museu de Ciência o Parque implantação
de Ciência
Integração projetos cientifica, eventos de e de Ciência do Parque
e
de atração e de Ciência Tecnologia e de Ciência e
Tecnologia
pesquisa fixação de C,T&I de do Tecnologia Tecnologia
do Tapajós
doutores e/ou Belterra Tocantins do Guamá de Tucuruí
(Santarém)
profissionais (Marabá)
Araguaia 14 136 50 0 0 0 0 0
Baixo Amazonas 160 458 134 1 1 0 0 0
Carajás 86 286 62 0 0 1 0 0
Guajará 360 2382 144 0 0 0 1
Guamá 62 138 58 0 0 0 0 0
Lago de Tucuruí 16 114 16 0 0 0 0 1
Marajó 20 98 60 0 0 0 0 0
Rio Caeté 48 140 46 0 0 0 0 0
Rio Capim 16 86 18 0 0 0 0 0
Tapajós 8 44 8 0 0 0 0 0
Tocantins 50 152 40 0 0 0 0 0
Xingu 44 102 42 0 0 0 0 0
*Dados extraídos de FAPESPA (2018)
Fonte: Elaborada pela autora (2019).

A programação de aplicação de recursos financeiros também foi definida por RI,


conforme a tabela 11. Havia substancial concentração dos recursos programados na região
denominada de Guajará, onde está localizada a região metropolitana de Belém, capital do
176

estado, em que também estão situadas as sedes das principais universidades e institutos de
pesquisa do estado. Ao examinarmos a execução financeira em 2016 e 2017, esta
concentração de acentuou ainda mais, ficando nesta região, na média, com 90% dos recursos
aplicados no programa. Cabe indicarmos que, a execução financeira total do programa em
2016 foi de R$ 24,237 milhões, representando 37,66% do valor anual orçado; e em 2017 de
R$ 29,326 milhões, representando 29,01% do valor orçado naquele ano.

Tabela 11 – Recursos financeiros programados totais e aplicados nos anos de 2016 e 2017 por região
de integração no programa de Ciência, Tecnologia e Inovação do Pará (em R$ 1,00)

Percentual do Percentual do
Valor total Percentual do
Região de integração valor aplicado em valor aplicado
programado valor total
20161 em 20172
Araguaia 2.026.361,00 0,9% - -

Baixo Amazonas 17.227.184 8,1% 2,6% 2,4%

Carajás 9.227.882 4,3% 1,0% 0,5%


Guajará 161.889.414 75,8% 90,5% 89,6%
Guamá 4.933.546 2,3% - -
Lago de Tucuruí 2.086.385 1,0% - -
Marajó 1.851.623 0,9% 0,5% -
Rio Caeté 4.282.265 2,0% 4,4% 6,7%
Rio Capim 1.653.339 0,8% - -
Tapajós 647.979 0,3% - -
Tocantins 4.015.375 1,9% 0,7% -
Xingu 3.669.837 1,7% - -
Total 213.511.190 100,0% 99,7% 99,2%
1
Detalhamento por RI individual disponível para 99,7% no relatório de avaliação anual de 2016, uma vez
que 0,3% residuais dos recursos aplicados foram categorizados como outras RI.
2
Detalhamento por RI individual disponível para 99,7% no relatório de avaliação anual de 2017, uma vez
que 0,7% residuais dos recursos aplicados foram categorizados como outras RI.
Fonte: Adaptada pela autora a partir de Pará (2015; 2017; 2018).

Em relação ao conteúdo das ações propostas, conforme quadro 14, ressaltamos o


sentido de continuidade do planejamento da política explícita. Das 13 ações programadas
entre as 12 diferentes RI, 11 ações estão diretamente relacionadas às ações previstas nos PPA
anteriores, em particular o de 2012-2015. As duas outras ações que, embora novas em termos
de descrição de ação ("Fortalecimento de Núcleos de Inovação Tecnológica" e a "Implantação
do ParaFarma"), relacionam-se ao escopo de promoção de um sistema estadual de inovação e,
principalmente, a última no bojo da indução de bioindústrias e do Programa Paraense de
Incentivo ao Uso Sustentável da Biodiversidade (BIOPARÁ), elaborados no planejamento do
ciclo anterior.
177

Entre as ações do ciclo anterior, três passaram a não estar mais explícitas no
planejamento atual, são as de "Identificação e Mapeamento de Competências em Ciência,
Tecnologia e Inovação", de "Realização de Eventos para Popularização de Ciência,
Tecnologia e Inovação" e de "Transferência de Tecnologias Sociais para o Desenvolvimento".
Especialmente no que tange a inexistência de menção explícita ou a ações dedicadas
exclusivamente a temas de popularização da CT&I, de tecnologia social ou de inclusão
digital, compreendemos que este programa apresentou um desenho de política explícita de
CT&I menos plural frente aos dois anteriores, sem que temáticas usualmente relacionadas à
inclusão social na C&T estivessem espaço de destaque.
Assim, apesar deste planejamento ter como mote em seu macro-objetivo a redução da
pobreza e da desigualdade social e regional, em termos de justiça social, a visão que
prevaleceu no programa de CT&I foi de concepção de natureza agregativa de geração de
benefícios a sociedade. Portanto, de efeitos sociais indiretos da CT&I por meio de
pressupostos processos de desenvolvimento econômico. Bem como, ainda que o modelo de
planejamento geral adotado tenha sido direcionado a regionalização e descentralização,
permaneceu uma acentuada concentração de execução de CT&I na região metropolitana da
capital nos dois anos averiguados.
De forma similar ao mandato de governo anterior, em 2015 houve a elaboração de
novo plano diretor para a área de CT&I. Com contornos de dar continuidade e fortalecer à
concepção estratégica do plano diretor anterior, este plano aborda, de forma geral, a
contribuição da CT&I a vocações econômicas do estado (citadas: agronegócio, logística,
agricultura familiar, energia, mineração, biodiversidade, florestal, turismo e gastronomia,
serviços ambientais/recursos hídricos, e pesca e aquicultura), dando certo destaque à
verticalização mineral, enquanto "permanente demanda da sociedade local", mas, mantém a
visão de ênfase estratégica à bioindústria, pois:

os grandes eixos estratégicos do desenvolvimento amazônico dependem de um vigoroso


impulso nos processos de agregação de valor à biodiversidade regional – o principal
ativo disponível –, convocando-se à tarefa todo o saber disponível, em nível nacional e
internacional, e trabalhando-se em rede. (SECTET, 2015, p. 14).

Dito em outras palavras: inéditas cadeias de produção bioindustriais (fármacos, fito-


medicamentos, cosméticos, alimentos, bebidas, nutrientes, óleos, etc.), alimentadas por
redes de pesquisa associadas à biodiversidade, com articulação das estruturas regionais
(produtivas, científicas e culturais) aos circuitos nacionais e internacionais
intensificação dos fluxos comerciais e financeiros, em igual escala – com
aproveitamento das “janelas de oportunidades” abertas pelo atual cenário tecno-
econômico mundial. (SECTET, 2015, p. 15).
178

Quadro 14 – Ações do Programa Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento do PPA 2016-2019 do Pará
Nº Ação Região de Integração Produto/Unidade de Medida
1 Apoio à Implantação do Museu de Ciência de Belterra Baixo Amazonas Museu Implantado
Baixo Amazonas
Apoio à Implantação e Consolidação de Incubadora de Base Tecnológica e Carajás
2 Incubadora Criada
Gerencial Guajará
Lago de Tucuruí
Baixo Amazonas
Apoio ao Desenvolvimento de Rede e Projeto de Pesquisa em Cadeia
3 Carajás Projeto Apoiado
Produtiva Estratégica
Guajará
Apoio ao Processo de Acreditação de Laboratório Prestador de Serviço Carajás
4 Laboratório Acreditado
Tecnológico Guajará
Araguaia
Baixo Amazonas
Carajás
Guajará
Guamá
Lago de Tucuruí
5 Concessão de Bolsa de Pesquisa em Ciência e Tecnologia Bolsa Concedida
Marajó
Rio Caeté
Rio Capim
Tapajós
Tocantins
Xingu
6 Consolidação do Parque de Ciência e Tecnologia Guajará Parque de Ciência e Tecnologia Consolidado
Araguaia
Baixo Amazonas
Carajás
Guajará
Guamá
Lago de Tucuruí
7 Disseminação de Ciência, Tecnologia e Inovação Evento Apoiado
Marajó
Rio Caeté
Rio Capim
Tapajós
Tocantins
Xingu
179

Nº Ação Região de Integração Produto/Unidade de Medida


Baixo Amazonas
8 Fortalecimento de Núcleos de Inovação Tecnológica Carajás Modelo de Fiscalização Implantado
Guajará
9 Gestão do Parque de Ciência e Tecnologia do Guamá Guajará Repasse Realizado
10 Implantação de Polo de Conhecimento em Áreas Estratégicas Guajará Polo de Conhecimento Implantado
11 Implantação do ParaFarma Guajará Parafarma Implantado
Baixo Amazonas
12 Implantação do Parque de Ciências e Tecnologia Carajás Parque de Ciência e Tecnologia Implantado
Lago de Tucuruí
Araguaia
Baixo Amazonas
Carajás
Guajará
Guamá
Lago de Tucuruí
13 Incentivo a Projeto de Pesquisa em Ciência e Tecnologia Projeto de Pesquisa Apoiado
Marajó
Rio Caeté
Rio Capim
Tapajós
Tocantins
Xingu
Baixo Amazonas
Carajás
Guajará
14 Indução à Aplicação da Tecnologia Industrial Básica – TIB Serviço Realizado
Marajó
Rio Caeté
Xingu
Fonte: Adaptado pela autora a partir de Pará (2015).
180

A resposta concebida no plano diretor para alcançar o desenvolvimento desta


bioindústria está na implementação de um sistema de inovação alicerçado na economia do
conhecimento (SECTET, 2015). O reconhecimento de lacunas para o estabelecimento de tal
sistema de inovação no estado, é visto enquanto reforçando a necessidade de ações públicas
para sua consolidação:

O fato de não haver, ainda, no Estado do Pará, um sistema de inovação consolidado,


estabelece um descompasso entre suas possibilidades potenciais e as oportunidades
oferecidas por políticas transversais alocadas para CT&I, sobretudo em nível nacional,
destinadas a investimentos em pesquisa e desenvolvimento. (SECTET, 2015, p. 24).

Ilustra bem esse quadro o fato de o Estado do Pará ter aprovado junto à FINEP, em
2012, tão somente 4 projetos, dentre os 565 aprovados em todo o país. No ano anterior,
o Pará teve 7 projetos aprovados de um total de 413. Dos projetos contratados, apenas 4
estiveram voltados, direta ou indiretamente, para empresas. A quase nula participação
de empresas do Pará no Plano Inova Empresa, executado pelo BNDES e pela FINEP – e
que prevê recursos da ordem de R$ 32,9 bilhões para atividades intensivas em CT&I –,
é outro indicador alarmante das dificuldades estruturais presentes.
Tal constatação alerta à necessidade de o Sistema Paraense de Inovação ser fortalecido,
organizado e, ao mesmo tempo, direcionado para processos produtivos mais baseados
em conhecimento, em consonância com o potencial de geração de riquezas em âmbito
regional. (SECTET, 2015, p. 24).

Para alcance desta consolidação de um sistema de inovação no estado são indicados os


seguintes pontos:

(...) a conjugação de inúmeros fatores: educação de qualidade em todos os níveis;


densidade e qualidade da produção científica; empresas interessadas em inovação
tecnológica (investimento em P&D); aperfeiçoamento dos mecanismos de propriedade
intelectual e de transferência de tecnologia para inovação; infraestrutura científico-
tecnológica adequada (com consolidação de um sistema de parques tecnológicos,
incubadoras de empresas e laboratórios); tecnologias sociais de disseminação do
conhecimento; melhoria da ambiência normativo-legal e interlocução orgânica e
sistemática entre os diversos atores institucionais do processo (Estado e sociedade
civil). (SECTET, 2015, p. 24).

Diante destes pontos, entendidos enquanto desafios para a política de CT&I, foram
propostas as duas diretrizes do plano diretor:

a) Fomento à ciência, à inovação e à promoção, transferência e disseminação de


tecnologias sociais para fins de desenvolvimento econômico e social
e
b) Implantação de uma nova política de educação profissional e tecnológica, em vista da
formação de capital humano, com particular atenção às necessidades do setor produtivo
e dos programas estratégicos de desenvolvimento regional/local. (SECTET, 2015, p.
30).

No que tange a política específica de CT&I, correspondente a primeira diretriz (a


segunda associa-se a temática de educação), percebemos que muitos dos pontos acima
realçados vieram a se tornar ações previstas no programa temático do PPA. Exceção ao tema
de tecnologia social, que apesar de seu termo ser mencionado na diretriz, entre os desafios e
181

objetivos, não foi contemplado explicitamente no programa do PPA. Em termos do plano


diretor o tema de tecnologia social foi incorporado no eixo estratégico de "apoio à pesquisa e
ao empreendedorismo para o desenvolvimento sustentável".
Uma ação a ser ressaltada, que constou no plano diretor e que nestes dois anos de
execução do PPA recebeu atenção na atuação da SECTET, refere-se aos esforços para
construção de "ambiência normativo-legal". Esta busca de institucionalização legal envolveu
tanto o estabelecimento da política explícita voltada ao fomento da inovação tecnológica, com
a aprovação da lei estadual nº 8.426/2016, chamada lei de inovação do Pará, e da emenda à
CE nº 69, aos moldes da emenda nº 85 à CF. Quanto a institucionalização de mecanismos de
governança da política, seja no reforço das funções do Conselho Estadual, que neste período
torna-se Conselho Estadual de Ciência, Tecnologia e Educação Técnica e Tecnológica
(CONSECTET), cujo regimento foi aprovado pelo decreto estadual nº 1.311/2015; seja na
coordenação da política pela instituição formal do denominado Comitê Gestor de Políticas
Estaduais de Ciência, Tecnologia e Inovação (decreto estadual nº 1.429/2015), presidido pela
SECTET, com a participação da FAPESPA, PRODEPA e UEPA.
Em relação ao CONSECTET, houve nova conformação de seus integrantes, mas sem
alterações relevantes no desenho de representação. As entidades de C&T continuam sendo a
categoria com maior representação (UEPA, UFPA, UFRA, IFPA, UFOPA, UNIFESSPA84,
EMBRAPA, MPEG, IEC, uma associação científica, uma instituição privada de ensino e
pesquisa, e um instituto ou centro de pesquisa privado, um representante de Parque de Ciência
e Tecnologia localizado no Estado do Pará). No poder público estadual ocorreu atualização
das denominações de secretarias e a inclusão da pasta do turismo (SECTET, FAPESPA,
PRODEPA, ALEPA, SEDEME85, SEDAP86, SETUR87, FAMEP), permanecendo, portanto,
com visão de interação intersetorial focada nas pastas de enfoque econômico. Em termos de
representação empresarial, houve a inclusão de mais uma entidade (além das anteriormente
existentes FIEPA, FAEPA, SEBRAE/PA e FECOMERCIO, foi incluída uma entidade da
iniciativa privada ligada ao financiamento e desenvolvimento de programas de pesquisas
científicas ou tecnológicas).
Além desta estrutura governamental, também cabe mencionarmos que, no âmbito da
política estadual de CT&I, duas Organizações Sociais (OS) estão em funcionamento: a

84
Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará.
85
Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Mineração e Energia.
86
Secretaria Estadual de Desenvolvimento Agropecuário e de Pesca.
87
Secretaria de Estado de Turismo.
182

Fundação Guamá, responsável pelo contrato de gestão do PCT Guamá88 e; a Biotec-


Amazônia, responsável pela gestão do chamado programa BioPará89. Ambas as organizações
são lideradas por membros da comunidade de pesquisa, e tem suas missões alinhadas aos
objetivos explícitos da política de CT&I, no que tange a ideia de constituição de uma base
científico-tecnológica capaz de interagir com negócios associados ao conceito de economia do
conhecimento.

3.4.2 Editais e Execução financeira FAPESPA

Nos dois primeiros anos deste período de PPA que estamos examinando (2016 e 2017)
identificamos 24 editais no website da FAPESPA em que esta participou como financiadora,
cofinanciadora ou gestora de recursos aplicados no âmbito da CT&I, tendo sido 11 em 2016 e
13 em 2017, conforme Apêndice C. Em termos do recorte de editais por modalidade de
fomento (bolsas na tabela 12 e projetos na tabela 13), observamos que houve menor
pluralidade dos tipos de bolsas e projetos financiados. Na modalidade de bolsas, prevaleceram
as de apoio a pós-graduação, e na modalidade de projetos predominou os de pesquisa
científica e tecnológica, categorias mais tradicionais de atendimento a comunidade de
pesquisa.

Tabela 12 – Editais lançados pela FAPESPA com modalidade de fomento no formato de bolsa ou
auxílio, por categorias, no período de 2016 a 2017

Modalidade de fomento no formato de bolsas 2016 2017 Nº de editais


Bolsas para pós-graduação stricto sensu 2 2 4
Bolsas para programas de iniciação científica 1 2 3
Bolsas para programas de iniciação científica Jr 0 0 0
Bolsas de programas institucionais 0 0 0
Bolsas para programa de inclusão digital 0 0 0
Bolsas para pós-graduação lato sensu 0 0 0
Auxílio a participação em eventos C&T 0 0 0
Bolsa para pesquisador visitante 1 0 1
Total 4 4 8
*Dados extraídos de FAPESPA (2018)
Fonte: Elaborada pela autora (2019).

Por um lado, neste período não houve editais lançados em parcerias com as agências
de fomento nacionais (CNPq e CAPES). Esses editais em parcerias foram comuns nos
88
Primeiro contrato de gestão assinado em 2009.
89
Primeiro contrato de gestão assinado em 2017.
183

períodos anteriores, mas, nestes dois anos em análise, estas agências nacionais já contavam
com menor capacidade financeira, devido os cortes no orçamento de CT&I no governo
federal. Conforme relato de dirigente da política estadual de CT&I, houve dificuldades dessas
agências neste período em cumprir com os repasses de convênios firmados anteriormente90.
Por outro lado, os cinco (5) editais lançados em parceria de cofinanciamento no período foram
com agências internacionais, 4 com o Fundo Newton do Conselho Britânico, e um com
determinado conjunto de agências francesas. Os editais em conjunto com estas agências,
principalmente com o Fundo Newton (com formatos específicos) trouxeram maior
diversidade de modalidades de fomento no período, e foram estes, como trataremos a seguir,
que terão maior variedade de recorte a temáticas relacionadas a desigualdades sociais.
Apesar da política explícita, seja no PPA, seja no Plano Diretor, ter tido um
movimento de reafirmação na direção de um discurso CT&I orientada para o mercado, na
execução da política implícita de fomento da FAPESPA não houve editais efetivados para
P&D e inovação em empresas. Cabe lembrarmos que os editais deste tipo de fomento
lançados nos períodos anteriores haviam sido financiados por parceiros (FINEP e
SEBRAE/PA).

Tabela 13 – Editais lançados pela FAPESPA com modalidade de fomento no formato de projeto, por
categorias, no período de 2016 a 2017

Modalidade de fomento no formato de projetos 2016 2017 Nº de editais


Projetos de pesquisa C&T 4 8 12
Projetos de P&D e inovação em empresas 0 0 0
Projetos de eventos C&T 2 1 3
Projetos de inclusão digital 0 0 0
Projetos para popularização de C&T 0 0 0
Projetos de programas de pós-graduação 0 0 0
Projeto de publicações tecnocientíficas 0 0 0
Premiação de destaque científico 0 0 0
Cursos e treinamentos de curta duração 1 0 1
Total 7 9 16
*Dados extraídos de FAPESPA (2018)
Fonte: Elaborada pela autora (2019).

Outro recorte que averiguamos corresponde as temáticas priorizadas nos editais.


Houve três principais recortes no período, de acordo com o quadro 15, que corresponde ao

90
Conforme entrevistada concedida por um dos dirigentes da política de CT&I: "Naquele momento também nós
nos deparamos com uma série de entraves (...) falta de repasse de recursos CNPq, CAPES, FINEP e aquilo ali
nos gerou diversos transtornos administrativos porque nós não conseguíamos pagar as pesquisas".
184

desenho dos editais InterPará 2016 e 2017 e as áreas priorizadas nos editais de bolsa de pós-
graduação. Cabe mencionarmos que, considerando a abordagem de planejamento aplicada no
PPA de estruturação a partir das RI, a FAPESPA lançou, neste período, editais que buscassem
seguir uma orientação a partir de vínculos territoriais, os denominados editais InterPará.
Assim, lançou editais voltados a projetos de redes de pesquisa cujas organizações líderes do
complexo de C&T tivessem que ser sediadas ou com unidades permanentes em cada região.

Quadro 15 – Linhas temáticas ou áreas de aplicação direcionados em editais selecionados da


FAPESPA no período de 2012 a 2015
Conjunto de editais
Conjunto de editais InterPará Concessão de quotas InterPará "Apoio ao
"Apoio ao Desenvolvimento de Redes institucionais de bolsas de Desenvolvimento de
Editais de Pesquisa na Região de Integração" doutorado e mestrado Redes de Pesquisa na
acadêmico Região de Integração "
(001/2016, 002/2016,
003/2016, e 004/2016) (001/2017 e 002/2017) (007/2017, 008/2017,
009/2-17 e 010/2017)
– Mercado, produto e
comercialização;
– Cadeias produtivas locais e/ou
Temas Arranjos produtivos locais;
direcionados – Turismo;
– Estudo, produção e manejo de
espécies vegetais;
– Desenvolvimento regional – Açaí;
– Preservação da biodiversidade;
sustentável; – Agricultura Familiar;
– Saúde;
– Biodiversidade, – Palma de Óleo;
– Mineração;
biotecnologia e – Cacau;
– Produção e conservação de energia;
bioindústria; – Turismo &
Agronegócio;
– Produção, transporte e uso Gastronomia;
– Dinâmicas territoriais, ações
energia – Pesca e Aquicultura
coletivas e desenvolvimento
sustentável;
– Agricultura familiar;
– Educação;
– Violência e segurança pública;
– Desenvolvimento urbano e fluxo
migratório
Fonte: Adaptado pela autora a partir de FAPESPA (2018).

Os editais InterPará lançados em 2016 trouxeram conformação ampla de temas


prioritários, abrangendo tanto enfoques a geração econômica e cadeias produtivas, quanto
enfoques voltados a temáticas de políticas sociais, como saúde, educação, preservação do
meio ambiente e segurança pública. No entanto, os editais de 2017 trouxeram um desenho
mais restrito de temas, todos voltados às cadeias produtivas, portanto, com enfoque de
conhecimento centrado na dimensão econômica de desenvolvimento. Outra observação é que
os temas e exigências foram padronizados em cada ano para todas as regiões contempladas (6
RI em 2016 e 5 RI em 2017). A concepção de planejamento e formulação de propostas de
185

intervenção a partir de territórios entendemos que traga, ao menos implicitamente, a


necessidade de consideração de singularidades (econômicas, sociais, culturais, institucionais
etc.) de cada RI. Entretanto, entendemos que os editais do InterPará não alcançaram refletir ou
expressar tais especificidade por RI, uma vez que resultaram por englobar uma
homogeneidade de temáticas e requisitos pelo agrupamento de RI em cada ano.
Em relação aos temas prioritários mais recorrentes dos ciclos de PPA anteriores
(biotecnologia, TIC, agropecuária, mineração, energia, sustentabilidade), percebemos certa
continuidade destes entre as temáticas priorizadas no quadro 16, com reforço a temas
relacionados a biotecnologia e biodiversidade, agropecuária, energia e sustentabilidade. A
temática do turismo, anteriormente mencionado somente no edital de 002/2011, torna-se mais
realçado neste período.
No que tange a um olhar mais específico às temáticas de enfrentamento das
desigualdades, inclusão social ou grupos sociais vulneráveis, conforme quadro 16,
encontramos 13 editais associados a estas temáticas, identificando 8 enfoques (redução de
desigualdades territoriais, atendimento a agricultura familiar, a população idosa e de pessoas
com deficiência, economia inclusiva, acesso universal/equitativo a água potável, e doenças
negligenciadas).

Quadro 16 – Seleção de editais lançados pela FAPESPA identificados com menções explícitas a
temáticas voltadas a redução desigualdades, inclusão social ou atendimento específico de grupos
sociais vulneráveis, no período de 2016 a 2017
Temáticas
Nº de Redução de Pessoas Acesso
Ano
editais Agricultura desigualdade Crianças e População Idosos Populações Inclusão com
Economia
equitativo
Doenças
familiar adolescentes feminina tradicionais digital inclusiva negligenciadas
territorial deficiências a água
001/2016, 001/2016, Newton
Newton
002/2016, 002/2016, Fund
2016 6 - - - - - - - Fund (Edital
003/2016, 003/2016, (Edital
2016-17)
004/2016 004/2016 2016-17)
007/2017, 007/2017,
008/2017, 008/2017, Confap -
2017 7 - - 012/2017 005/2017 - 012/2017 - -
009/2017, 009/2017, JPI/2017
010/2017 010/2017
Total 13 8 8 0 0 1 1 1 1 1 1
*Dados extraídos de FAPESPA (2018)
Fonte: Elaborado pela autora (2019).

Compreendemos que os editais do InterPará, ao cobrir 11 RI, exceto a região


metropolitana (a qual historicamente vem recebendo maior investimento em CT&I),
buscaram, em alguma medida, atuar sobre desigualdades territoriais de recursos de CT&I;
bem como tinham entre as temáticas priorizadas a agricultura familiar. Além desses, em 2017,
186

a FAPESPA lançou novo edital de fomento a tecnologia assistiva. Neste período, houve
número maior de enfoques, com algumas temáticas que não havia constado antes, as quais
emergiram por editais em cofinanciados por agências internacionais. Como já havíamos
observado anteriormente, em relação a composição de temas mais plurais de atendimento a
grupos vulneráveis por influência intergovernamental (caso do PPSUS), neste período,
novamente encontramos uma diversidade de temas relacionados a desigualdades sociais em
editais com influência de agências de fora do estado, neste caso, internacionais.
Na próxima seção, procuramos voltar nossa atenção especificamente a esses recortes
de fomento a temas relacionados ao enfrentamento de desigualdades na política estadual, com
vistas a discernir temas para aprofundamento da pesquisa.

3.5 PANORAMA DA ORIENTAÇÃO DE JUSTIÇA SOCIAL E DAS AÇÕES PARA


ENFRENTAMENTO DAS DESIGUALDADES NA POLÍTICA ESTADUAL DE CT&I NO
PARÁ

Ao ter em perspectiva os três últimos programas de CT&I nos PPA do estado do Pará,
de modo geral, constatamos que a orientação explícita principal da política tem recebido um
sentido de continuidade em torno da concepção de sistema inovação, com orientação de
justiça social utilitarista-agregativa, com ênfase à dimensão econômica de intervenção da
CT&I para o desenvolvimento. Em termos da política implícita, a maior regularidade e
montante de fomento na agenda esteve associado às modalidades de reprodução, ampliação e
fortalecimento da comunidade de pesquisa, principalmente relacionadas concessão de bolsas e
apoio à pós-graduação stricto sensu e à pesquisa científica e tecnológica.
Em termos de escopo da política, enquanto explicitamente realça o papel da inovação
tecnológica (o que conduziria em si a políticas de ênfase à inovação), o faz vinculando esta à
noção de economia do conhecimento, ou seja, a ideia de processos inovativos que demandam
elevada intensidade de C&T. Desta forma, estabelecendo-se um discurso que, embora ressalte
a inovação, mantém esta atrelada ou necessariamente conexa (e, assim, de certa maneira
dependente) a processos de pesquisa científica e tecnológica91, própria do métier e interesse

91
Viotti (2015) destaca nos casos da Coreia do Sul e Taiwan como a produção de tecnologias ou inovações
seguiram trajetórias direcionadas ao aprendizado tecnológico ativo na indústria, a partir de uma apropriação
inicial de conhecimento por difusão tecnológica, construindo capacidades tecnológicas no nível das empresas.
Tal capacidade tecnológica na empresa é considerado elemento essencial ao processo de catching up, de modo
que o autor propõe que países retardatários ou periféricos no desenvolvimento industrial deveriam enfocar sua
política tecnológica primeiro no desenvolvimento de sistemas de aprendizagem ativa, e não de sistemas de
187

do ator principal da política, a comunidade de pesquisa. De modo que não identificamos pleno
abandono do modelo linear de inovação na política de CT&I, uma vez que a concepção de
inovação tecnológica estimulada é gerada majoritariamente (ou, por vezes, integralmente) por
atores da comunidade de pesquisa, reforçando na política implícita um escopo de política
científica, particularmente voltado a temas próprios da economia do conhecimento com
ressonância na comunidade de pesquisa local (como biotecnologia e TIC).
Para esclarecer esse contexto, entendemos que dois contornos precisam ser elucidados
no estado no que corresponde a assimetria, ou descolamento, entre o desenvolvimento
científico e os processos inovativos locais, retomando a origem do que Dagnino (2016) se
referiu como atipicidade periférica. O estado do Pará, ainda que não esteja entre os estados
com melhores indicadores científicos nacionais, em geral, apresenta indicadores próximos da
mediana do país e melhores entre os estados da região norte, conforme tabela 14.

Tabela 14 – Indicadores de C&T para Brasil, Região Norte e Pará, em 2014


Média Região Média Posição Posição
Variáveis Brasil Pará
Nacional Norte Regional Nacional Regional
Nº de Matrículas em Mestrado
25.326 938 1.630 233 753 9ª 1ª
Profissional
Nº de Matrículas em Mestrado 115.552 4.280 5.223 746 2.652 13ª 1ª
Nº de Matrículas em
95.383 3.533 2.584 369 1.605 13ª 1ª
Doutorado
Nº de Docentes em Pós-
85.449 3.165 4.081 583 1.885 12ª 1ª
Graduação
Nº de Pesquisadores Doutores 140.272 5.195 6.863 980 2.653 14ª 1ª
Nº de Bolsistas de Produtiv.
14.073 521 251 36 157 15ª 1ª
em Pesquisa
Dispêndios realizados pela
2.822.740 104.546 94.944 13.563 49.178 14ª 1ª
CAPES1
Dispêndios realizados pelo
2.634.764 97.584 83.953 11.993 42.115 13ª 1ª
CNPq1
Dispêndios Estaduais em
17.266.863 639.513 632.134 90.305 211.880 10ª 1ª
C&T1
Dispêndios Estaduais em
12.842.533 475.649 170.974 24.425 56.878 14ª 2ª
P&D1
*Dados extraídos de Capes (2017), CNPq (2017) e MCTIC (2017).
1
Valores em R$ 1.000,00.
Fonte: Elaborada pela autora (2019).

inovação, uma vez que estes espelhados em países avançados industrialmente refletem um processo complexo de
ambientes institucionais e de capacidades inovativas já maduros.
188

No entanto, indicadores de inovação da PINTEC (IBGE, 2017) demonstraram que, em


2014, somente 67392 empresas implementaram inovação de processo ou produto no estado do
Pará. Entre estas, 412 (61,2%) declararam que o grau de novidade do principal produto em
que houve inovação se caracterizava como "novo para a empresa, mas já existente no
mercado nacional". E quanto ao grau de novidade para o principal processo em que houve
inovação, 646 (95,9%) empresas declararam esta mesma opção (IBGE, 2017). Isso revela que
a ampla maioria das inovações implementadas no estado referiam-se efetivamente aos
processos de difusão tecnológica de inovações anteriormente desenvolvidas em outros lugares
Ainda, entre as empresas que implementaram inovação de produto ou processo, 645 (95,8%)
indicaram ter baixa ou nenhuma atividade interna de P&D e 495 (73,5%) assinalaram a
aquisição de máquinas e equipamentos como mais alto grau de importância das atividades
inovativas desenvolvidas. E, somente 84 pessoas estavam ocupadas em P&D no total destas
673 empresas (IBGE, 2017).
De acordo com este cenário, consideramos que fica realçada a baixa propensão ao
desenvolvimento de atividades de P&D e inovação tecnológica pelas empresas do Pará, ainda
mais em setores de alta intensidade tecnológica, ou aqueles comumente relacionados a
economia do conhecimento, uma vez que a economia estadual se caracteriza enquanto
preponderantemente extrativista ou agrária. Assim, embora o estado tenha certa capacidade
científica, inclusive com quatro programas de pós-graduação considerados de excelência pela
CAPES (Geologia e Geoquímica, Genética e Biologia Molecular, Desenvolvimento
Sustentável do Trópico Úmido e Biologia de Agentes Infecciosos e Parasitários) em temas
associados a pautas ressaltadas na agenda da política de CT&I (como biotecnologia,
mineração e sustentabilidade), há claramente um deslocamento entre a caracterização de
capacidade empresarial e de capacidade da comunidade de pesquisa.
Neste contexto, o estímulo à política de inovação ocorre a partir da perspectiva da
política científica e tecnológica, articulada por atores da comunidade de pesquisa, dissociada
da perspectiva de uma política industrial, que fosse articulada por atores empresariais ou
governamentais. Deste modo, como indicado em estudos sobre o domínio na política
brasileira (CARLOTTO, 2013; DIAS, 2009), apesar da política à inovação tecnológica ser
92
Conforme IBGE (2016), a PINTEC é realizada por amostra não aleatória, por considerar que a "inovação é um
fenômeno raro", portanto realiza um cadastro de seleção de "empresas que possuem maior probabilidade de
serem inovadoras e de aumentar a fração amostral para este subconjunto", com base em informações como
empresas que tenham se beneficiado de incentivos fiscais a P&D e inovação; que declararam ter realizado
aquisição de máquinas, equipamentos e instalações; que tenham tido projetos reembolsáveis ou de subvenção
econômica junto a FINEP; que constem como inovadoras em edições anteriores da PINTEC; e que constem em
dados de patentes e de contratos de transferência de tecnologia do Instituto Nacional da Propriedade Industrial
(INPI), por exemplo. O total de empresas no Pará na PINTEC 2014 foi 1.430.
189

realçada enquanto discurso na política explícita, este realce (a partir de um persistente modelo
linear de inovação implícito) tem como efeito legitimar o fomento público em C&T na
política implícita.
Nesse panorama geral, pontos principais da agenda estão no escopo do
desenvolvimento de pesquisas científicas e tecnológicas em temas que gerariam agregação de
valor econômico em cadeias produtivas selecionadas como estratégicas. Cenário que
identificamos enquanto orientação econômica agregativa e de concepção de justiça social
utilitarista (COZZENS, 2007), cujo desenvolvimento social ocorreria por consequências dos
transbordamentos de efeitos positivos na economia (geração de empregos, aumento de
arrecadação governamental para inversão pública, melhoria de infraestrutura etc.). Esta visão
também distinguimos no trecho relatado de um dos dirigentes da política estadual
entrevistado.

Uma sociedade só consegue se desenvolver quando os seus atores sociais, a própria


sociedade, ela consegue se aparelhar intelectualmente do conhecimento. Não é inútil
abrir estradas, ou asfaltar estradas, ou construir pontes, não é inútil porque isso aqui
ajuda as pessoas a transitarem, a produção a circular com mais facilidade, isso gera
oportunidades etc. Mas, se não formos capazes de melhorar a qualidade da produção,
inovar a produção, aplicar conhecimento, agregar valor aquilo que é gerado no estado,
você vai continuar tendo estradas para apenas transitar commodities, matérias-primas
não desenvolvidas, que gera pouco excedente econômico, que gera pouco recurso, que
gera apenas ocupações de baixa qualificação, de baixos salários e vamos continuar
sendo exportadores de matérias-primas e importadores de produtos manufaturados e
industrializados. Vamos continuar a ser pobres, com toda a riqueza que a natureza nos
deu. Vamos continuar a ser desiguais. O estado vai continuar a arrecadar muito pouco,
para poder depois transferir essa arrecadação em serviços públicos de qualidade, em
infraestrutura adequada e assim por diante. Ou mudamos o padrão do modelo produtivo
do estado, isso exige conhecimento, isso exige inovação, ciência e tecnologia, e também
qualificação da base, qualificação e educação, escola de qualidade e formação
profissional, ou não adianta continuarmos a construir as coisas, porque elas não nos
levaram a lugar nenhum. Então, isso que é difícil de entender porque isso aqui é
imaterial, isso não é perceptível a olho nu, precisa ter um plano estratégico de governo,
supõem um projeto de país. (entrevista concedida por dirigente da política estadual de
CT&I).

Compreendemos que enfoques distributivos de justiça social se configuraram como


marginais no processo da política de CT&I estadual. Do ponto de vista de ser expresso nos
instrumentos de diretrizes formais da política, encontramos como temas mencionados: o da
inclusão digital (principalmente nos PPA de 2008-2011 e 2012-2015 e no plano diretor 2011-
2015); da tecnologia social (principalmente no PPA de 2012-2015 e nos dois planos
diretores); da agricultura familiar (enquanto vocação econômica no plano diretor 2016-2019)
e; da desigualdade na distribuição de recursos e capacidade nos territórios (plano diretor e
PPA 2016-2019).
190

No que tange a execução do fomento em CT&I, houve maior emergência de


direcionamentos de temas associados ao enfrentamento das desigualdades e inclusão social.
Identificamos 11 temáticas, conforme os quadros 15, 22 e 29 apresentados93. Parte dessas
temáticas surgiram especificamente em editais em parcerias com agências nacionais e
internacionais (como a de populações tradicionais, de acesso equitativo à água e economia
inclusiva). Cabe acrescentarmos que, a temática de tecnologia social foi direcionada por edital
excepcionalmente lançado pela SECTET em outubro de 2017 (006/2017). Sob esta temática,
foram dirigidos enfoques a saneamento comunitário, cadeias produtivas da biodiversidade,
pesca artesanal, softwares livres e gestão de pequenos empreendimentos, e outras tecnologias
sociais aplicadas ao desenvolvimento socioeconômico.
Frente aos temas que chegaram à agenda, não podemos deixar de mencionar que
vários ficaram opacos, inclusive se consideramos temas recorrentes no âmbito de
desigualdades horizontais (COZZENS; GATCHAIR, THAKUR, 2006). Por exemplo, apesar
da questão de populações tradicionais ter sido direcionado em dois editais (um em parceria
com CNPq e DECIT/MS, outro com consórcio francês), questões étnico-raciais não foram
contempladas fora desse contexto específico. De forma similar, desigualdades de gênero
foram restritamente mencionadas em tópicos específicos de saúde da mulher (em edital em
parceria com CNPq e DECIT/MS) e da população carcerária feminina no edital sobre
violência e segurança pública. Mesmo a questão de desigualdades territoriais, foram
abordadas em termos de meso regiões, mas não se tratou das desigualdades entre zonas
pobres, ou periféricas, de centros urbanos, em que a composição de desigualdades sociais que
conformam o que concebemos enquanto assimetrias territoriais torna-se mais clara.
Também cabe assinalarmos que, somente os editais de enfrentamento das
desigualdades territoriais adotaram o próprio tema enquanto critério de elegibilidade de
fomento (região exclusiva ou prioritária para atendimento). Os demais editais voltados às
questões relacionadas às desigualdades sociais ou inclusão social, em geral, direcionaram as
temáticas enquanto linhas priorizadas de pesquisa ou de inovação, não as refletiram em
critérios de avaliação ou elegibilidade de proponentes ou parceiros participantes
(organizacionais ou individuais) envolvidos em seus próprios processos de seleção. Exceção
foi o edital do Fundo Newton "Researcher Connect", que estabeleceu enfoque distributivo no
que tange a critérios de elegibilidade ao demandar que as propostas demonstrassem

93
Embora reconhecemos que algumas dessas temáticas podem se sobrepor (como a agricultura familiar e a
economia inclusiva), nossa intenção em dispô-las foi de encerrar uma classificação, mas de discernir a
abrangência de temas articulados com uma perspectiva distributiva na agenda estadual.
191

alinhamento em relação a diversidade de participantes "especialmente relativos à gênero,


etnia, classe social, orientação sexual." (BRITISH COUNCIL, 2016). Ressaltamos este
aspecto por entender que há tendência na política de CT&I, sob discurso centrado nos
cientistas, que grupos sociais vulneráveis ou em desvantagem na sociedade sejam vistos mais
enquanto beneficiários de linhas de pesquisa e de intervenção, do que enquanto atores a serem
incorporados e empoderados como exercendo papel ativo no desenvolvimento de
conhecimento e de soluções aos problemas por eles enfrentados.
Deste modo, considerando a marginalidade dos enfoques distributivos na agenda
corrente na política de CT&I, observamos que, mesmo quando alguns destes enfoques
chegam à agenda, tendem a ter sua abrangência limitada, ou somente parcialmente
direcionada em linhas específicas de pesquisa (como exemplificado na questão do gênero ou
étnico-racial). Bem como, estas temáticas e os grupos sociais a estas correspondentes,
principalmente relacionadas a desigualdades sociais, tendem a ser assumidas enquanto objetos
de pesquisa e sujeitos passivos, não enquanto sujeitos a serem incorporados ativamente no
próprio processo de produção do conhecimento científico e tecnológico. Incorporação esta,
seja pelo estímulo de pessoas destes grupos se tornarem cientistas, seja pela participação
destes nas equipes de pesquisa, por meio de uma articulação de saberes científicos, populares
ou tradicionais.

3.5.1 Seleção de temas para aprofundamento da pesquisa

Feitas estas observações sobre a orientação de justiça social predominante na política e


sobre algumas limitações de abrangências de enfoques distributivos marginais na agenda e de
conformações que estes temas abordados tendem a sofrer no modus operante do fazer
científico preponderante, retomamos o recorte de temas, com vistas a seleção de enfoques no
aprofundamento da pesquisa.
Optamos por considerarmos somente os editais lançados exclusivamente com recursos
do tesouro do estado pela FAPESPA e SECTET, de modo a focarmos em enfoques que
tenham emergido internamente no processo da política. Localizamos sete (7) enfoques
distributivos:
- agricultura familiar contemplada em editais específicos e em linha temática de editais
mais gerais;
- desigualdade territorial contemplada por editais específicos por RI ou município;
- inclusão digital contemplada em editais específicos, relacionados ao NavegaPará;
192

- população feminina como linha temática em edital de segurança pública;


- pessoas com deficiências e idosos contemplados pelo desenvolvimento de tecnologia
assistiva em editais específicos e em linha temática de editais mais gerais;
- doenças negligenciadas contempladas como linha temática em edital de saúde e;
- tecnologias sociais contempladas em edital específico.
Entendemos que a análise de qualquer um desses temas seja útil quanto a elucidar
diferentes dinâmicas de enfrentamento das desigualdades na política de CT&I, contudo para
seleção de tema para nossa pesquisa consideramos os seguintes apontamentos:
- alguns temas alcançaram a agenda de fomento estadual via editais de forma mais
pontual, como o das doenças negligenciadas e da população carcerária feminina, ao serem
mencionados como linhas temáticas em somente um edital cada;
- o tema da inclusão digital, como vimos anteriormente, entrou em declínio na agenda
no período do PPA 2012-2015, contemplado somente por meio de um edital de bolsas para
monitores para funcionamento de infocentro, sem, portanto, envolvimento direto de
pesquisadores, e não sendo direcionado na agenda neste último período de PPA examinado.
Deste modo, chegamos a quatro (4) temas que encontramos mais prevalentes na
agenda estadual (agricultura familiar, desigualdades territoriais, tecnologia assistiva e
tecnologia social). Entre esses, selecionamos os temas de tecnologia assistiva e de tecnologia
social para estudo aprofundado em termos da abordagem de coalizões de defesa. Nossa
escolha correspondeu a singularidades no processo estadual destas duas temáticas.
Primeiro, o tema de tecnologia assistiva foi o único destas quatro temáticas que não foi
citado em documentos de diretrizes específicas da política estadual de CT&I (considerando-se
os programas de PPA examinados e os planos diretores). No entanto, foi objeto de dois editais
específicos e linha temática de outros dois editais via FAPESPA, o que pode indicar que seus
atores articuladores tenham buscado caminhos ou estratégias alternativas à política interna do
domínio da CT&I para alcance da agenda.
Em seguida, o tema de tecnologia social esteve presente por menções nos documentos
da política explícita (tanto em programa de PPA 2012-2015, quanto nos dois planos
diretores), e foi o único que teve seu fomento via edital lançado diretamente pela SECTET,
em que havia uma unidade administrativa própria dedicada ao tema. Assim, entendemos ter
sido um tema cujos atores articuladores tenham adotado uma estratégia de busca de
institucionalização no domínio da política estadual de CT&I.
O desenho de pesquisa, a partir dessas duas temáticas, permite compreender como
temas de enfoque distributivos para enfrentamento das desigualdades têm sido articulados no
193

processo da política pública estadual de CT&I. Também, por meio de suas singularidades
inicialmente identificadas, proporciona diversidade analítica, seja em termos organizacionais
(uma vez que o tema de tecnologia assistiva esteve centrada no fomento via FAPESPA, e o de
tecnologia social em processos da SECTET), seja em termos das possíveis estratégias e
alcances da coordenação coletiva de coalizões de defesa.
Os próximos capítulos são dedicados a análise dos subsistemas de política específicos
a tecnologia assistiva (capítulos 4 e 5) e tecnologia social (capítulos 6 e 7). Para cada tema,
abordamos em um capítulo inicial às concepções discursivas e a conjuntura da política
nacional, enquanto uma aproximação e contextualização da temática. Em segundo capítulo, a
análise do subsistema de política estadual, com o mapeamento dos principais atores políticos
e exame de práticas sociais exercidas.
194

4 TECNOLOGIA ASSISTIVA: ORIENTAÇÕES DISCURSIVAS E CONJUNTURA


DA POLÍTICA NACIONAL

O objetivo deste capítulo é contextualizar políticas de fomento à tecnologia assistiva


(TA) para o enfrentamento das condições de desigualdades das pessoas com deficiência e
idosos, com vistas a subsidiar nossa análise da política estadual de fomento a TA no âmbito
da CT&I no Pará. Neste sentido, buscamos entender, por um lado, as construções conceituais
e de modelos analíticos que se desenvolveram no campo da TA para identificar orientações
discursivas para a política pública de seu fomento. Por outro lado, na segunda parte do
capítulo, procuramos conjecturar o desenvolvimento desta política de fomento a TA no
governo federal do Brasil. A compreensão, tanto das orientações discursivas em torno da
política de TA, quanto do contexto nacional de desenvolvimento desta política, serão suportes
para nossa análise da política de fomento a TA pelo governo estadual do Pará, no próximo
capítulo.
Neste horizonte, o capítulo está dividido em três (3) seções. A primeira refere-se a
revisão de literatura sobre aspectos conceituais e analíticos de TA, a partir de perspectiva da
trajetória histórica do campo, além de prover algumas tendências atuais para recomendações
de políticas públicas. A partir desta revisão, visamos entender possíveis diferenças de
orientações discursivas instruídos em práticas de desenvolvimento tecnológico neste campo
de política e pesquisa, auxiliando a conjecturar a política de fomento a TA no Brasil, objeto
da segunda seção.
Na segunda seção, contextualizamos a política para fomento de TA no âmbito do
governo federal do Brasil, procurando identificar seus principais programas e configuração
das ações desta temática no âmbito da política de CT&I. Assim, verificar como a temática de
TA esteve pautada nos planos institucionais da pasta ministerial da CT&I, desde 2004 até
tornar-se tema transversal no Plano Nacional de Direitos da Pessoa com Deficiência "Viver
sem Limites", quando alcança maior espaço na agenda política com a constituição do Centro
de Nacional de Referência em Tecnologia Assistiva. De forma complementar, também
verificamos os principais editais nacionais para fomento a TA e o cenário de desenvolvimento
de TA no país a partir da Pesquisa Nacional de Inovação em Tecnologia Assistiva.
Por fim, na última seção, retomamos a discussão de orientações discursivas para
desenvolvimento e provisão de TA e confrontamos com os discursos gerais da política de
CT&I e as práticas situadas no país. Deste modo, procuramos debater possíveis tensões entre
195

na conformação de posições discursivas no campo no contexto brasileiro, e lançar luz a alguns


aspectos limitadores e potencializadores para políticas públicas de TA.

4.1 A GARANTIA DE DIREITOS HUMANOS ÀS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA E A


TECNOLOGIA ASSISTIVA: ASPECTOS CONCEITUAIS E HISTÓRICOS DE
CONFORMAÇÃO DE POLÍTICAS

Políticas para desenvolvimento de TA emergiram no âmbito de movimentos e


conquistas políticas para assegurar equiparação de direitos e oportunidades às pessoas com
deficiência na sociedade. Neste sentido, antes de entrarmos em aspectos conceituais da
própria TA, consideramos necessário fazer uma introdução e breve histórico dos movimentos
de conformação de garantia dos direitos para estas pessoas, com a revisão de alguns conceitos
e concepções discursivas relevantes.

4.1.1 Breve histórico sobre a conformação de garantia de direitos para pessoas com
deficiência

Para Sassaki (1997), as sociedades em suas várias culturas já apresentaram e, mesmo


atualmente apresentam, diversidade de práticas sociais em relação a pessoas com deficiência,
em virtude de condições atípicas em que estas aparentavam não pertencer à maioria da
população. De um marco cultural da civilização europeia ocidental, este autor indica que,
após vasto período das práticas de exclusão social94 direcionadas as pessoas com deficiência,
a partir do final do século XIX iniciou-se um conjunto de novas práticas sociais, que o autor
propõe dividir em três (3) períodos: de segregação social, de reabilitação e integração social e
de inclusão social.
O primeiro período de atendimento público às pessoas com deficiência caracterizado
pela segregação social, predominante entre o final do século XIX até a década de 1940,
segundo Sassaki (1997), correspondeu às práticas de provisão de abrigo, alimentação e de
assistência médico-social em hospitais e organizações filantrópicas e de caridade, que
mantinham essas pessoas internadas em caráter permanente, segregadas da comunidade. Com

94
Compreendemos a exclusão social, conforme Levitas et al. (2007), como um processo complexo e
multidimensional, que envolve a falta ou a negação de recursos, serviços, bens ou direitos que conduzem a
incapacidade de pessoas em participar de relações e atividades comuns, disponíveis para a maioria das pessoas
em uma sociedade, seja nos âmbitos econômicos, sociais, culturais ou políticos, que afeta tanto a qualidade de
vida da pessoa, individualmente, quanto a equidade e coesão da sociedade como um todo.
196

o passar do tempo, este tipo de organização foi se especializando para atender pessoas por
tipo de deficiência, como por exemplo, organizações especiais para pessoas cegas ou surdas,
de modo que outras formas de segregação institucional foram sendo praticadas (SASSAKI,
1997). Sassaki (2003) ainda menciona que o termo mais comum a designar estas pessoas era
de "inválidos", trazendo um sentido de pessoa socialmente inútil ou sem valor a agregar à
sociedade.
Contudo, Barnes (2012) realçou alguns fatores que motivaram mudança política para
expansão de serviços a este público, relacionado a um aumento da visibilidade e politização
do tema, principalmente nos EUA e em países europeus, perante o grande número de civis e
militares feridos durante a II Guerra que passavam a fazer parte deste grupo alvo da política,
pelas denúncias e mobilização sobre os extermínios das pessoas com deficiência, realizados
no regime nazista e pelo próprio crescimento da expectativa de vida das pessoas com
deficiência e dos idosos, que demandavam melhores condições de vida.
Emergiu, assim, a partir da década de 1950 e perdurando até a de 1980, conforme
Sassaki (1997), um segundo período de atendimento a pessoas com deficiência denominado
de reabilitação e integração social. Para o autor, esta modalidade de atendimento para
reabilitação ainda era realizada em organizações e hospitais especializados em uma
perspectiva assistencialista. A partir da década de 1960, houve grande crescimento destas
instituições especializadas, que passaram a contemplar diferentes espaços de formação e
ocupação para estas pessoas, como escolas especiais, centros de habilitação e reabilitação,
oficinas de trabalho, clubes e associações desportivas especiais (SASSAKI, 1997).
Dois princípios básicos foram desenvolvidos neste período. O primeiro, foi de busca
da "normalização", que procurava tornar disponível às pessoas com deficiência algumas
condições de vida análogas aos modelos construídos e acessíveis de modo geral na sociedade
(SASSAKI, 1997). Sassaki (1997) realça que ainda era evidente um sentido de segregação
neste preceito de normalização, ao se criar ambientes parecidos com aqueles vivenciados pela
população em geral, mas separados destes. Já na década de 1980, o autor indica a ascensão do
termo de "mainstreaming" no âmbito da educação especial, que correspondia a um avanço na
tentativa de integração, ao buscar introduzir alunos com deficiência em alguns serviços
educacionais regulares na comunidade. No entanto, de forma geral, nesta fase a noção de
reabilitação e integração ainda constituíam esforço unilateral da pessoa com deficiência em se
ajustar e se tornar mais aceitável aos moldes da sociedade existente, havendo pouca, ou
nenhuma exigência, para a sociedade quanto às modificações de espaços, objetos, práticas
sociais ou atitudes em favor desta integração (SASSAKI, 1997).
197

Neste período, Sassaki (2003) ainda ressalta grande diversidade e evolução nas
denominações usadas para caracterizar as pessoas com deficiência, desde "incapacitados" ou
"incapazes", preponderante entre 1920 e 1960, que reforçava a ideia do indivíduo como sem
capacidade, ou com capacidade residual enquanto sua principal característica; posteriormente,
torna-se mais comum termos como "deficiente" ou "excepcional", reiterando a noção de
pessoas que não conseguem fazer, ou viver, como a maioria da população; até que, na década
de 1980, surge denominações como de "pessoas deficientes", "pessoas portadoras de
deficiência", "pessoas com (ou portadoras) necessidades especiais", sendo notável nestes
termos a evidenciação de valor à "pessoa", como principal caracterização, e a deficiência
passa a ser um aspecto secundário.
Porém, os significados de "portador" e "especial" vieram a ser questionados pelos
movimentos de pessoas com deficiência. A ideia de "portador" estaria relacionada a algo não
permanente, ou que poderia ser deixado de carregar ou portar, que não reflete a experiência
das pessoas com deficiência para as quais a deficiência faz parte intrínseca de sua condição de
vida (SASSAKI, 2003). A noção de direitos, ou necessidade especiais, tem duplo
questionamento. No que tange a "direitos especiais", contradiz o foco de exigência dos
movimentos das pessoas com deficiência em torno da equiparação dos direitos e
oportunidades com as demais pessoas em sociedade, e não seu tratamento ou direitos
especiais; e em relação a "necessidades especiais", considerou-se que não agrega valor
diferenciado às pessoas com deficiência (SASSAKI, 2003). Assim, o atual termo em uso para
designação é o de "pessoa com deficiência", consagrado na Convenção sobre os Direitos das
Pessoas com Deficiência (CDPcD) da Organização das Nações Unidas (ONU) de 2007.
Apesar das críticas ao período de reabilitação e primeiras tentativas de integração
social, o decorrer das década de 1960, 1970 e 1980, Sassaki (1997) e Garcia (2014)
registraram o surgimento dos movimentos de mobilização das pessoas com deficiência e seus
aliados (parentes, cuidadores, profissionais no campo), com a formação e articulação de
organizações em que as pessoas com deficiência tomaram o protagonismo das ações e
reinvindicações95, ampliando a conscientização e disseminação de informações sobre os
problemas, necessidades e potencialidades das pessoas com deficiência. Estas mobilizações
resultaram na aprovação de legislações específicas para assegurar os direitos destas pessoas,
inclusive em Constituições de países latino-americanos.

95
Bueno (2016) citou o lema “Nada sobre nós, sem nós”, elaborado no movimento social por direitos das
pessoas com deficiência na África do Sul, na década de 1980 no período do apartheid, como representativo da
militância por uma maior visibilidade, inclusão e empoderamento destas pessoas.
198

De forma que, Sassaki (1997) identificou um terceiro, e atual (a partir de 1990),


período de interação da sociedade com as pessoas com deficiência, chamado de inclusão
social. De acordo com o autor, a principal característica desta fase é que o conceito de
inclusão social abrange o processo pelo qual a própria sociedade deve se adaptar e ajustar para
poder incluir às pessoas com deficiência, ao mesmo tempo que estas pessoas se preparam para
assumir papéis nesta sociedade. Portanto, a inclusão social consubstancia-se em um processo
de esforço bilateral pelo qual as pessoas com deficiência, ainda excluídas em múltiplas
dimensões sociais, e a sociedade procuram equacionar problemas e tomar decisões sobre
soluções conjuntamente para a equiparação de oportunidades (SASSAKI, 1997).
Embora seja esperado que essas fases de interações das pessoas com deficiência na
sociedade não ocorram no mesmo tempo e nas mesmas condições (conceituais e materiais)
em todos os países ou segmentos populacionais, visto que até hoje há substancial exclusão
social em relação as pessoas com deficiência, Sassaki (1997) ressalta que a noção de trajetória
dessas interações seja adequada tanto para compreender como diferentes políticas, programas
e ações públicos são moldados em torno dos conceitos e concepções que desenvolvemos
sobre ou com as pessoas com deficiência; quanto para entender algumas concepções e
tendências que passam a ser difundidas e em torno das quais os atores políticos, incluindo
movimentos de pessoas com deficiência, buscam influenciar políticas nos diversos países,
principalmente a partir de convenções internacionais.
Entre estas, destacamos a atual CDPcD da ONU96. De acordo com a Convenção,
pessoas com deficiência são definidas como:

aquelas que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, intelectual
ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua
participação plena e efetiva na sociedade em igualdades de condições com as demais
pessoas" (BRASIL, 2009, p. 2).

E, com o objetivo de promover e assegurar o exercício pleno e equitativo dos direitos


humanos e liberdades fundamentais pelas pessoas com deficiência traz orientações permeadas
pela concepção de inclusão social, estabelecendo oitos (8) princípios norteadores:

a) O respeito pela dignidade inerente, a autonomia 97 individual, inclusive a liberdade de


fazer as próprias escolhas, e a independência das pessoas;

96
O Brasil ratificou esta Convenção, promulgada por meio do decreto nº 6.949/2009.
97
Apesar de poderem ter significados similares, autonomia e independência adquirem sentidos diferenciados nos
movimentos de pessoas com deficiência, conforme apontou Sassaki (1997): autonomia corresponde à condição
de maior ou menor domínio ou controle que a pessoa com deficiência exerce para frequentar diversos ambientes
físicos e sociais, com vistas a alcançar seus objetivos. Enquanto independência se refere à oportunidade e
199

b) A não-discriminação;
c) A plena e efetiva participação e inclusão na sociedade;
d) O respeito pela diferença e pela aceitação das pessoas com deficiência como parte da
diversidade humana e da humanidade;
e) A igualdade de oportunidades;
f) A acessibilidade;
g) A igualdade entre o homem e a mulher;
h) O respeito pelo desenvolvimento das capacidades das crianças com deficiência e pelo
direito das crianças com deficiência de preservar sua identidade. (BRASIL, 2009, p. 2).

A passagem de fases de segregação e de esforço de reabilitação e integração unilateral da


pessoa com deficiência para uma fase de interação, baseada em concepção de inclusão social, cuja
responsabilidade é vista tanto da parte da pessoa com deficiência, quanto das pessoas sem
deficiência, está relacionada a mudança de modelo de concepção médico da deficiência para o
modelo de concepção social, conforme diversos autores (BARNES, 2012; BORG; LARSSON;
ÖSTERGREN, 2011; BRASIL, 2009; GALVÃO FILHO, 2013; GARCIA, 2014; LAYTON,
2015; SASSAKI, 1997).
O modelo médico de deficiência foi o primeiro a ser concebido e se baseia em
considerar a deficiência como atributo individual, anormalidade funcional ou problema
médico intrínseco da própria da pessoa, cuja causas podem estar relacionadas a doenças,
acidentes, violências ou origens genéticas, e que tem como consequência limitações para esta
pessoa realizar e participar de atividades comuns da vida em sociedade (BORG; LARSSON;
ÖSTERGREN, 2011; GARCIA, 2014). Nesta concepção, a relação entre sociedade e a pessoa
com deficiência seria norteada a partir de práticas de assistência médica, cujo objetivo seja o
tratamento individual voltado para cura ou reabilitação de capacidades funcionais, com vistas
a corrigir o problema individual ou adaptar esta pessoa ao contexto ou padrão físico-social
existente (BORG; LARSSON; ÖSTERGREN, 2011; GARCIA, 2014). Nos casos em que se
considerasse não ser possível a cura ou adequada reabilitação, a pessoa, em função de suas
graves restrições, deveria ser segregada em ambientes especiais (GARCIA, 2014).
Em termos de políticas públicas, esta concepção do modelo médico da deficiência traz
enfoque sobre implementação, modificações ou reformas em políticas de saúde, tendendo a
negligenciar intervenções em outras áreas políticas, como social, cultural ou de infraestrutura,
ou mesmo as dimensões de intersetorialidade entre estas diversas políticas (BORG;
LARSSON; ÖSTERGREN, 2011; BUENO, 2016; GALVÃO FILHO, 2013; GARCIA,
2014).

capacidade de tomar decisões que afetam sua própria vida, em termos de aspectos pessoais, sociais ou
econômicos, sem depender de outras pessoas como familiares ou profissionais especializados, ou seja, ter
oportunidade de exercer a autodeterminação.
200

O modelo social de deficiência surgiu a partir de maior politização da temática e


movimentos com participação das pessoas com deficiências, pela qual os problemas
relacionados a deficiência não estão tanto na pessoa com deficiência quanto estão na
sociedade que a exclui, ao estabelecer restrições e desvantagens para esta no exercício de
papéis e de atividade sociais (GARCIA, 2014; SASSAKI, 1997).
Sassaki (1997) exemplifica, entre as desvantagens impostas pela sociedade, a
existência de ambientes restritivos de acesso e objetos e bens inacessíveis em termos físicos;
atitudes e comportamentos preconceituosos, baseados em contestáveis padrões de
normalidade e em experiência histórica de opressão e segregação em relação às pessoas com
deficiência; pré-requisitos para desempenho de funções sociais (entre estas educação e
emprego) alcançáveis somente por uma maioria aparentemente homogênea e; substancial
desinformação sobre as necessidades e os direitos das pessoas com deficiência. Estas barreiras
resultam e perpetuam práticas sociais discriminatórias, de modo que o problema da exclusão
social não estaria nas condições físicas ou intelectuais em si das pessoas com deficiência, mas
decorrente da incapacidade da sociedade em prever e incorporar a diversidade humana
(SASSAKI, 1997).
A partir desta concepção do modelo social de deficiência, Garcia (2014) ressaltou que
a causa do problema de exclusão social e a responsabilidade por sua inclusão social não são
creditadas às próprias pessoas com deficiência, mas comportam problemática de inter-relação
entre a sociedade e as pessoas com deficiência, visto que a deficiência não é mais a doença ou
anormalidade da pessoa, e sim condição de exclusão no sistema social. Neste sentido, o
problema da deficiência não está mais localizado em inadequação da pessoa com deficiência
para convivência na sociedade, mas em inadequação da sociedade, que impõe barreiras físicas
e sociais, excluindo oportunidades de livre convivência das pessoas com deficiência
(GARCIA, 2014).
Assim, enquanto as pessoas com deficiência possam necessitar da provisão de
produtos de apoio, ou de serviços assistenciais que ampliem suas autonomias, devem ser
respeitados e garantidos seus direitos fundamentais, inclusive aqueles relacionados a
autodeterminação e participação social, de forma que quaisquer intervenções devem ser feitas
com elas e não somente para elas (GARCIA, 2014; SASSAKI, 1997). Além de que, cabe à
sociedade eliminar as barreiras físicas, institucionais e comportamentais existentes para que as
pessoas com deficiências possam ter acesso aos locais, informações, produtos e serviços
necessários ao desenvolvimento humano em suas múltiplas dimensões: educacional,
profissional, espiritual, social etc. (SASSAKI, 1997).
201

Nesta perspectiva, o princípio da acessibilidade98 comporta a noção de que a


deficiência ao longo da vida é condição universal, considerando que qualquer pessoa pode,
em algum momento, mesmo que temporariamente, apresentar algum tipo ou severidade de
deficiência e mobilidade reduzida (BUENO, 2016; GARCIA, 2014). Portanto, a existência de
deficiência, ou impedimentos, é percebida como condição humana que se torna inevitável, seja
quando envelhecimento, seja quando sofremos acidentes ou adoecemos. Assim, ações públicas
para acessibilidade contemplam, por um lado, o atendimento não somente dos segmentos
específicos das pessoas com deficiência, mas também, diferentes grupos com mobilidade
reduzida em caráter permanente ou temporário, como idosos, gestantes e lactantes, e pessoas
acidentadas; e, por outro lado, a redução de causas sociais que produzem impedimentos, ou
deficiências, como acidentes de trabalho e de trânsito, atuando na esfera da prevenção (BUENO,
2016; GARCIA, 2014).
Outro aspecto relevante do modelo social da deficiência, que está reconhecido na
própria CDPcD da ONU, corresponde a percepção de interseccionalidades das condições de
desigualdades sociais. Isto é, o discernimento que outras características que levam a formas de
discriminação social (gênero, cor, pobreza, idade etc.) se sobrepõe às barreiras impostas à
deficiência, podendo afetar o acesso a oportunidades e garantia de direitos entre as pessoas
com deficiência, em distintas condições.
Como consequência desta visão mais ampla socialmente das causas e implicações da
deficiência, o modelo social traz rebatimentos em relação as políticas públicas voltadas ao
atendimento deste público, principalmente ao expandir sua abrangência entre diferentes
domínios políticos, estendendo-se da política de saúde para outros âmbitos, como a educação,
assistência social, direitos humanos, infraestrutura, e ciência e tecnologia, reconhecendo sua
intersetorialidade (GARCIA, 2014). Bem como, o papel da pessoa com deficiência torna-se
ativo e central na tomada de decisão sobre políticas, produtos e serviços, e nas práticas sociais
a estes relacionados. Sassaki (1997) e Goldman e Tachau (1996) reforçam a importância do
empoderamento e da self-advocacy das pessoas com deficiência nos processos de políticas
públicas, exercendo de forma crítica suas vozes e conhecimentos de seus lugares de fala.
A ascensão do modelo social da deficiência influenciou mudanças na caracterização
da deficiência pela Organização Mundial da Saúde (OMS) que, em 2001, substitui a

98
Conforme a CDPcD (decreto nº 6.949/2009), com vistas a proporcionar acessibilidade, os Estados devem
"assegurar às pessoas com deficiência o acesso, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas, ao meio
físico, ao transporte, à informação e comunicação, inclusive aos sistemas e tecnologias da informação e
comunicação, bem como a outros serviços e instalações abertos ao público ou de uso público, tanto na zona
urbana como na rural. Essas medidas, que incluirão a identificação e a eliminação de obstáculos e barreiras à
acessibilidade".
202

Classificação Internacional das Deficiências, Incapacidades e Desvantagens (CIDID), cujo


enfoque não considerava os aspectos sociais e ambientais, entre outras fragilidades, pela
Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF). A perspectiva
aplicada na CIF buscou integrar os modelos médico e social de deficiência ao propor modelo
"biopsicossocial”, no intuito de proporcionar síntese por visão multidimensional da
deficiência, considerando seus aspectos biológicos, psicológicos e sociais (BARNES, 2012;
BORG; LARSSON; ÖSTERGREN, 2011; GARCIA, 2014). De modo que, são previstas três
instâncias para minimizar o impacto das deficiências na autonomia e capacidade de
participação a provisão de TA, as intervenções ambientais para acessibilidade e cuidados ou
apoios pessoais (LAYTON, 2015). Borg, Larsson e Östergren (2011) ressaltam ainda que na
CIF a falta de provisão de TA à pessoa com deficiência é uma barreira ocasionada pela
sociedade, e, portanto, a noção de funcionalidade é uma interação dinâmica entre a domínios
individuais (biológicos e psicológicos) e sociais.
Embora reconheçam os avanços relevante na orientação da CIF e as interações entre
os diferentes aspectos na dinâmica de vida das pessoas com deficiência, Barnes (2012) e
Garcia (2014) realçam uma persistência das práticas e dos discursos típicos do modelo
médico, mesmo em ambientes e públicos que supostamente adotam o modelo biopsicossocial.
Para estes autores, permanece uma primazia do "bio" a frente dos demais aspectos, ou seja, há
manutenção de ênfase em intervenções focadas a partir de aspectos biológicos individuais,
acompanhada por uma negligência em intervenções sociais inclusivas. Segundo Garcia (2014,
p. 75) é necessário "transitar do biopsicossocio para o sociopsicobio" para que ocorra
comprometimento com processos epistemológicos efetivamente interdisciplinares sobre a
deficiência entre os profissionais, pesquisadores e atores políticos envolvidos.
Ao examinar os modelos discutidos sobre deficiência99 fica expresso as construções e
disputas discursivas existentes no campo e as tensões nos conceitos e práticas sociais no âmbito
das políticas, uma vez que atores buscaram influenciar os processos de políticas públicas e moldar
práticas em determinadas direções, de acordo com suas concepções sobre deficiência. Na próxima
subseção, entraremos especificamente no tópico sobre política de TA, no qual estas influências
discursivas compõe um dos aspectos relevantes de sua constituição e prática.

99
Garcia (2014) ainda ressalta um novo modelo em desenvolvimento denominado de "modelo da diversidade",
que a partir do modelo social estaria sendo elaborado no Movimento de Vida Independente da Espanha, o qual
recomenda que pessoas com deficiência não sejam mais percebidas como pessoas com incapacidades, mas
enquanto “pessoas com diversidade funcional”.
203

4.1.2 Políticas para tecnologia assistiva: Conceitos e perspectivas

Como comenta Galvão Filho (2009), TA é uma expressão relativamente nova e sua
conceituação encontra-se em um processo de construção e sistematização, mas a utilização de
recursos a que nos referimos como de TA remonta aos primórdios da história, exemplificada
no uso de um pedaço de pau como uma bengala improvisada. Deste mesmo exemplo,
compreendemos que recursos de tecnologia podem incorporar substancial intensidade
tecnológica em seu desenvolvimento ou podem se constituir em objetos e práticas simples.
A primeira citação do termo de TA no âmbito de documentos de política oficial é
reconhecido à peça legislativa norte-americana American with Disabilities Act (ADA) de
1988100 (BERSCH, 2017; ITS, 2018). A motivação principal em torno da provisão de TA
enquanto política pública pode ser sintetizada na conhecida citação de Mary Pat Radabaugh
de que "Para americanos sem deficiências, a tecnologia torna as coisas mais fáceis. Para
americanos com deficiências, a tecnologia torna as coisas possíveis"101 (RADABAUGH, 1988
apud NATIONAL COUNCIL ON DISABILITY, 1993). Assim, a utilização de TA por
pessoas com deficiência foi reconhecida como uma necessidade essencial à realização de uma
vida digna dessas pessoas, inclusive em suas atividades cotidianas, sendo um meio de buscar
equiparar oportunidades e direitos fundamentais para estas na sociedade. Desta maneira, a
temática de TA surge na trajetória das políticas pelos direitos da pessoa com deficiência
enquanto um elemento necessário para sua qualidade de vida, autonomia e independência.
No ADA, TA é prevista e conceituada em termos de recurso de TA ("item, peça de
equipamento ou sistema de produto, independentemente se adquirido comercialmente de
fabricação padronizada, ou se modificado, ou se produzido de forma personalizada, usado
para aumentar, manter ou melhorar as capacidades funcionais de pessoas com deficiência") e
serviço de TA ("qualquer serviço que auxilie diretamente um indivíduo com deficiência na
seleção, aquisição ou uso de um dispositivo de TA").
Atualmente, a CDPcD da ONU estabelece como obrigação de todos os Estados Partes
realizar e promover a pesquisa, desenvolvimento, disponibilidade e emprego de TA
adequados a pessoas com deficiência para auxiliar nas diversas atividades, como na
mobilidade, habilitação e reabilitação, liberdade de expressão e acesso à informação,
participação na vida política e pública.

100
Registrado pela Public Law 100-407 de 19/08/1988 do Congresso dos EUA, cujo objetivo era estabelecer um
programa de provisão de tecnologia assistiva para pessoas com deficiência, entre outros propósitos.
101
Tradução livre da autora de For Americans without disabilities, technology makes things easier. For
Americans with disabilities, technology makes things possible.
204

Bersch (2017) e Galvão Filho (2009) ao revisar conceitos relacionados à temática


também encontraram com frequência outras denominações como ajuda técnica e tecnologia
de apoio, principalmente a partir de um referencial europeu. Galvão Filho (2009) ressalta que
em documentos europeus, diferentes traduções são usadas, sendo que embora o termo
“assistive technology” seja o oficialmente utilizado nos documento em inglês, prevalecia até
então o uso de "tecnologia de apoio" em Portugal, e de "tecnología de la rehabilitación" na
Espanha, mas que conceitualmente o Consórcio EUSTAT (Empowering Users Through
Assistive Technology) no âmbito da União Europeia mantinha o mesmo conceito que
englobava "produtos e serviços capazes de compensar limitações funcionais, facilitando a
independência e aumentando a qualidade de vida das pessoas com deficiência e pessoas
idosas" (EUSTAT, 1999, p. 2).
Assim, apesar do uso de diferentes terminologias e algumas distinções conceituais em
relação a sua amplitude (produtos, serviços, métodos, práticas, área de conhecimento), a
finalidade ("para quê") da TA é proposta como característica base que define sua
singularidade conceitual (GALVÃO FILHO, 2013; GARCIA, 2014). Neste sentido, a TA é
recurso de uso individual da pessoa com deficiência para auxiliar a superar alguma barreira
para exercício de suas atividades em equiparação de oportunidades com as demais pessoas.
Como propõem MacLachlan et al. (2018), a finalidade principal é manter ou melhorar o
funcionamento e independência da pessoa com deficiência para, assim, promover seu bem-
estar.
Desta maneira, duas características devem ser observadas. A primeira é que a pessoa
com deficiência é seu usuário direto, e diferenciando a TA de outros recursos médicos e de
reabilitação (mesmo que informacionais ou educacionais) exercidos por profissionais
(GALVÃO FILHO, 2013; BERSCH, 2017). Esta preocupação de diferenciação tinha um
propósito claro quando da instituição dos primeiros programas de incentivo ao
desenvolvimento e financiamento de TA, de forma que estes fossem adequadamente
direcionados a atender às pessoas com deficiência, e não fosse capturados para financiamento
de tecnologias de saúde em geral, utilizadas por hospitais ou profissionais de saúde, que,
embora pudesse incluir as pessoas com deficiência, era de prestação de serviço comum e já
tinham canais de políticas próprios. A segunda é que a TA deve servir à pessoa com
deficiência para superação de barreiras e condições específicas para exercício de sua
autonomia e inclusão social, distinguindo de recursos de uso pessoal usados para finalidades
gerais por pessoas com ou sem deficiência.
205

Outra concepção associada a TA corresponde a classificação e terminologias de


produtos assistivos para pessoas com deficiência padronizados pela norma internacional ISO
9999:2016102. Esta norma segue a conceituação de produto assistivo alicerçada na CIF,
definindo produto assistivo como "recursos, equipamentos, instrumentos e softwares,
especialmente produzidos ou geralmente disponíveis, usados por pessoas com deficiência para
participação; para proteger, apoiar, treinar, medir ou substituir funções, estruturas ou
atividades corporais; para prevenir impedimentos, limitações de atividades ou restrições de
participação"103 (ISO 9999:2016). Esta concepção baseada em produto é mais restrita que o
conceito geral de TA que, em geral, envolve outras atividades, como os serviços. Mas, seu
objetivo aponta para um esforço de normalização da classificação e terminologias usadas para
desenvolver e ofertar produtos assistivos, com vistas a melhor a informação e segurança na
tomada de decisão sobre estes para usuários e profissionais.
Bersch (2017) ressalta que formatos de classificação de TA são relevantes por
organizar a utilização, prescrição e pesquisa de recursos e serviços relacionados, bem como
oferecer ao mercado orientações específicas ao desenvolvimento e oferta de produtos e
serviços, em nível de especialização adequado. Dada a restrição da norma ISO 9999 a
concentrar-se em produtos104, Garcia e Galvão Filho (2012), ao revisarem diferentes
classificações de TA no âmbito dos estudos para a Pesquisa Nacional de Tecnologia Assistiva
2012, destacam a classificação proposta no modelo Horizontal European Activities in
Rehabilitation Technology (HEART).
Este modelo organiza a classificação de TA em três (3) componentes: (1)
Componentes Técnicos (comunicação, mobilidade, manipulação e orientação); (2)
Componentes Humanos (tópicos sobre deficiência, aceitação da ajuda técnica, seleção da
ajuda técnica, aconselhamento, assistência pessoal) e; (3) Componentes Socioeconômicos
(noções básicas de ajuda técnica, noções básicas de desenho universal, emprego, prestação de
serviços, normalização/qualidade, legislação/economia, recursos de informação) (GARCIA;

102
Até a norma ISO 9999:2002 o termo utilizado era de “Ajudas Técnicas”, sendo que a partir da revisão da
norma publicada em 2007 passou-se a usar a expressão “Produto Assistivo”.
103
Livre tradução pela autora.
104
Na norma ISO 9999:2016, os produtos assistivos são classificados em 12 classes: Produtos assistivo para
medir, apoiar, treinar ou substituir funções do corpo; para educação e treinamento em habilidades; ligados ao
corpo para apoiar funções neuromusculoesqueléticas ou relacionadas ao movimento (órteses) e substituir
estruturas anatômicas (próteses); para atividades de autocuidado e participação no autocuidado; para atividades e
participação relacionadas com mobilidade pessoal e transporte; para atividades domésticas e participação na vida
doméstica; Móveis, acessórios e outros produtos de apoio para atividades de apoio em ambientes internos e
externos feitos pelo homem; para gestão de comunicação e informação; para o controle, transporte,
movimentação e manuseio de objetos e dispositivos; para controle, adaptação ou medição de elementos de
ambientes físicos; para atividades de trabalho e participação no emprego; para recreação e lazer.
206

GALVÃO FILHO, 2012). Para os autores, os componentes e seus tópicos internos


orientadores no modelo HEART, oferecem concepção ampla de TA (sendo passível de incluir
produtos, serviços ou práticas metodológicas de participação, por exemplo), além de
responderem de forma mais completa aos processos formativos e de desenvolvimento
aplicados a TA.
No Brasil, o Comitê de Ajuda Técnica (CAT), previsto pelo Decreto nº 5.296/2004 no
âmbito do Programa Nacional de Acessibilidade, estabeleceu em 2007 que o termo TA era o
mais adequado para uso em documentação legal e técnica no exercício de suas
competências105. Embora o termo anteriormente utilizado fosse o de ajuda técnica, previsto no
decreto 3.298/1999 que regula a política nacional para a integração da pessoa portadora de
deficiência no país, o CAT (BRASIL, 2009) optou por sua atualização e adequação ao termo
de TA por entender que este traz maior amplitude conceitual no que se refere a compreensão
de tecnologia enquanto aplicação de conhecimento, não se restringindo, assim, a um artefato
ou produto que auxilia uma função, mas contemplando serviços, estratégias e práticas
destinados a promover a participação das pessoas com deficiência na sociedade.
Galvão Filho (2009) ainda contextualiza que o termo TA já vinha sendo o mais
frequentemente utilizado no meio acadêmico nacional tanto em documentos e pesquisas,
como em disciplinas e cursos ofertados; e, sendo o objetivo do CAT estruturar diretrizes para
uma área de conhecimento, a expressão "tecnologia" tendia a melhor se adequar ao intuito.
Por fim, o autor relata que foi considerada uma vantagem da especificidade da expressão TA,
contrapondo-se a termos mais genéricos como tecnologia de apoio e ajuda técnica.
O conceito de TA106 desenvolvido pelo CAT é "uma área do conhecimento, de
característica interdisciplinar, que engloba produtos, recursos, metodologias, estratégias,
práticas e serviços que objetivam promover a funcionalidade, relacionada à atividade e
participação, de pessoas com deficiência, incapacidades ou mobilidade reduzida, visando sua
autonomia, independência, qualidade de vida e inclusão social" (BRASIL, 2009).
A comissão de conceituação e estudo de normas do CAT também realizou pesquisas
sobre classificação de TA em seu âmbito de política pública, tendo registrado referências a
ISO 9999, ao HEART, e a classificação Nacional de TA do Departamento de Educação dos

105
De acordo com o decreto nº 5.296/2004, o CAT é responsável por: "I - estruturação das diretrizes da área de
conhecimento; II - estabelecimento das competências desta área; III - realização de estudos no intuito de
subsidiar a elaboração de normas a respeito de ajudas técnicas; IV - levantamento dos recursos humanos que
atualmente trabalham com o tema; e V - detecção dos centros regionais de referência em ajudas técnicas,
objetivando a formação de rede nacional integrada".
106
Ao ser conceituada enquanto uma área de conhecimento, o CAT (BRASIL, 2009) recomenda o uso da
expressão tecnologia assistiva no singular.
207

EUA, contudo não concluía pela padronização de determinada metodologia, uma vez
considerava que esta dependeria dos objetivos para as quais a classificação seria aplicada
(BRASIL, 2009). Em 2012, no âmbito do Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com
Deficiência (Plano Viver sem Limite), de forma a regulamentar a concessão de subvenção a
instituições financeiras para concessão de créditos para aquisição de bens e serviços de TA a
pessoas com deficiência, foi publicada a portaria interministerial MF/MCTI/SEDH nº
362/2012, a qual estabelece classificação para bens e serviços de TA no país em doze (12)
áreas macro107:
1. auxílios para a vida diária e a vida prática;
2. comunicação aumentativa e/ou alternativa (CAA);
3. recursos de acessibilidade ao computador;
4. sistemas de controle de ambiente;
5. projetos arquitetônicos para acessibilidade;
6. órteses e próteses;
7. adequação postural;
8. auxílios de mobilidade;
9. auxílios para qualificação da habilidade visual e recursos que ampliam a
informação a pessoas com baixa visão ou cegas;
10. auxílios para ampliação da habilidade auditiva e para autonomia na comunicação
de pessoas com déficit auditivo, surdez e surdo-cegueira;
11. adaptações em veículos e em ambientes de acesso ao veículo;
12. esporte e lazer.
Ainda no âmbito do CAT (BRASIL, 2009), são realçados dois princípios associados a
garantia de direitos das pessoas com deficiência e à TA, vinculados a acepção do modelo
social de deficiência, o do desenho universal e o da tecnologia social. O desenho universal é
um conceito que se relaciona a perspectiva da acessibilidade e da deficiência ao longo da vida
como uma condição universal, e prevê-se a incorporação de uma nova cultura de concepção
de produtos, ambientes, serviços e atividades que possam ser usados por todas as pessoas, ou
seja, que considere desde seu projeto a diversidade de condições humanas de modo a
promover a participação, utilização e acesso de toda a comunidade (GALVÃO FILHO, 2013).

107
Segundo Bersch (2017), a classificação utilizada na portaria interministerial nº 362/2012 foi desenvolvida
originalmente em 1998 por ela e José Tonolli com base no Programa de Certificação em Aplicações da
Tecnologia Assistiva da California State University Northridge.
208

O conceito de desenho universal está previsto na lei nº 13.146/2015 (lei brasileira de


inclusão da pessoa com deficiência - estatuto da pessoa com deficiência) como uma regra de
caráter geral para promoção da acessibilidade, incluindo a concepção de recursos de TA.
Bersch (2017) ressalta que o entendimento de desenho universal não se aplica somente à
concepção e desenvolvimento de espaços ou artefatos, mas enquadra-se a metodologias e
ações sociais, inclusive à ação educacional. Orientada pelo desenho universal, a ação
educacional é pesquisada e exercida considerando a diversidade de aprendizagem existente
entre os alunos na escola e o seu valor na qualificação da educação para todos (BERSCH,
2017).
Neste sentido, Galvão Filho (2013) menciona a correspondente abordagem de desenho
universal na aprendizagem, cuja aplicação efetiva requer a construção de um novo paradigma
educacional aberto, flexível e inclusivo, o qual tenha a capacidade de responder
individualmente às necessidades e potencialidades de cada aluno, respeitando o ritmo e o
modo de aprendizagem, independentemente deste aluno ser uma pessoa com ou sem
deficiência. Contudo, este autor entende que há uma necessidade de discernir o
desenvolvimento de novas tecnologias educacionais pela orientação do desenho universal de
aprendizagem, o qual atenderia as necessidades cognitivas de todos (inclusive dos alunos com
deficiência), do desenvolvimento de TA para uso no ambiente educacional, que auxilie o
aluno com deficiência a superar barreiras ou impedimentos próprios de sua condição (como o
uso de instrumentos de comunicação aumentativa e alternativa).
Nesta perspectiva, entendemos a defesa que a equiparação de oportunidades às pessoas
com deficiência deve contemplar tanto mudanças e implantação de novos paradigmas no
âmbito social, guiadas pela concepção do design universal, quanto o atendimento via recursos
ou práticas de TA específicos a condições de diversidades de pessoas com deficiência. O que
compreende a síntese proposta do modelo sociopsicobio, na expressão de Garcia (2014), em
que a mudança social propicia a visibilidade e entendimento das condições de deficiência com
e para as pessoas com deficiência que fortaleçam modelos inclusivos de ambientes e práticas
sociais, ao mesmo tempo que incentivam o desenvolvimento e ampliação de recursos e
serviços que atenda de forma específica às condições diversas destas pessoas.
Nesta questão do design de tecnologia, Bueno (2016) ressalta o conceito de
usabilidade, enquanto relevante no contexto de TA de forma a assegurar o atendimento das
necessidades dos usuários e redução do risco de abandono. A noção de usabilidade refere-se a
atributos de uso do produto, ou seja, não está relacionada ao produto em si, mas a análise da
qualidade da interação entre usuário e produto, uma vez que, como indicam Bevan, Carter e
209

Harke (2015), o mesmo produto pode ter níveis de usabilidade substancialmente distintos,
dependendo do usuário que o utilize, de seu objetivo e contexto de uso. Esta concepção foi a
incorporada para construção do conceito de usabilidade na norma ISO 9241:2011 enquanto "a
medida em que um produto pode ser usado por usuários específicos para atingir objetivos
especificados com eficácia, eficiência e satisfação em um contexto especificado de uso"
(BEVAN; CARTER; HARKE, 2015). Estes autores realçam que a usabilidade assume um
conceito abrangente que ao abordar os resultados da interação entre pessoa e produto (incluso
a noção de serviço, sistema e ambiente), vai além da análise do uso regular do produto, para
integrar também atividades relacionadas ao aprendizado de uso, proteção a erros,
acessibilidade e manutenção deste, enfatizando a experiência do usuário e um design centrado
no ser humano.
Esta ênfase na experiência do usuário e de design centrado no ser humano relaciona-se aos
processos interativos de design e, no caso de TA, ao grau de envolvimento e participação de
pessoas com deficiência no processo de design e desenvolvimento tecnológico. Esta concepção de
envolvimento das pessoas com deficiência no desenvolvimento da TA está na base da proposição
do CAT (BRASIL, 2009) de incluir a tecnologia social como princípio para esta área de
conhecimento. A comissão temática de conceituação e estudo de normas do CAT (BRASIL,
2009) explicita o conceito de tecnologia social proposto no âmbito do Instituto de Tecnologia
Social (ITS)108, e sugere que sua orientação conceitual auxilia a estabelecer um modelo de
desenvolvimento de soluções tecnológicas que valorize o conhecimento do usuário, pessoas
com deficiência, bem como suas demandas e seus contextos de uso, de modo a colaborar para
que este usuário efetivamente se aproprie e usufrua de uma TA que atenda sua necessidade e
expectativa.
Para Garcia (2014), a aplicação do conceito de tecnologia social no campo da
tecnologia assistiva implica na adoção de uma matriz epistemológica específica, que tenha
como ponto de partida: (1) a concepção de problemas e necessidades em perspectiva pelas
pessoas com deficiência, mobilidade reduzida e pessoas idosas; que (2) o desenvolvimento de
conhecimentos e aplicações se dê por meio da integração de saberes científicos e populares,
estabelecendo, assim, como modus operandi a participação enquanto orientação à democracia
e aos direitos de cidadania e; (3) que resulte em melhoria da qualidade de vida, via ampliação

108
O conceito de tecnologia social citado pelo CAT (BRASIL, 2009) é “um conjunto de técnicas e metodologias
transformadoras, desenvolvidas e/ou aplicadas na interação com a população e apropriadas por ela e que
representam soluções para inclusão social e melhoria das condições de vida”, o qual é a conceituação proposta e
mantida pelo ITS em suas atividades até hoje, conforme seu website (http://itsbrasil.org.br/conheca/tecnologia-
social/).
210

de autonomia e independência das pessoas com deficiência, e em bem-estar social, via


inclusão social. Portanto, essa matriz epistemológica baseia-se enraizamento de uma conexão
nítida entre relevância científica e relevância social, entre pesquisa e aplicação na sociedade.
Neste sentido, entendemos que a recomendação do enfoque de tecnologia social pelo
CAT (BRASIL, 2009) no desenvolvimento da TA esteja diretamente relacionada a questão da
participação ativa da pessoa com deficiência na coprodução de TA, considerando a
conceituação adotada e a contextualização de benefícios expressa. No entanto, também
compreendemos que algumas aplicações de sentido de tecnologia social ao desenvolvimento
de recursos de TA podem referir-se a outras características, como a preocupação com um
baixo custo ou com soluções de baixa intensidade tecnológica, que, embora particularmente
relevantes em contextos periféricos, não necessariamente estejam comprometidas com a
noção de interação do usuário no desenvolvimento tecnológico. Isso porque o próprio
conceito de tecnologia social é polissêmico e objeto de disputas discursivas no campo da
política de CT&I, conforme discutimos no capítulo 5. Por isso, consideramos importante
distinguir o aspecto destacado do conceito pelo Comitê, neste caso, especificamente a
participação do usuário na coprodução tecnológica.
A partir de estudo de Águas (2012) sobre abordagens participativas em espaços
públicos, Bueno (2016) discute processos interativos no desenvolvimento tecnológico
diferenciando duas formas de envolvimento do usuário: a consulta e a participação ativa. Para o
autor, a consulta refere-se à coleta de informações junto ao público alvo sobre desenhos e opções
tecnológicas já encaminhadas por um grupo de especialistas tecno-burocratas, de modo que há um
distanciamento e capacidade de influência limita dos usuários à concepção e desenvolvimento do
projeto. De outra maneira, a participação ativa associa-se a noção do co-design, uma vez que os
sujeitos-usuários são considerados enquanto uma categoria de especialistas e participam em todas
as fases do processo, com vistas a buscar soluções mais adequadas a toda comunidade e usuários,
bem como criando um sentido de pertencimento aos participantes, que previno o abandono
tecnológico e promove o empoderamento dos usuários (ÁGUAS, 2012; BUENO, 2016).
A participação da pessoa com deficiência é ressaltada enquanto ponto relevante no
desenvolvimento e oferta de TA, como, por exemplo, no relatório final do Consórcio
EUSTAT (1999) em que é diagnosticado o problema que o mercado de recursos de TA na
Europa era substancialmente direcionado por profissionais provedores de serviços, e não
pelos usuários finais, os quais apresentavam pouca liberdade ou influência no processo de
decisão, conduzindo a insatisfação e risco de abandono, um cenário associado a persistência
de um modelo médico na provisão de TA. As organizações de defesa dos direitos das pessoas
211

com deficiência demandam uma perspectiva centrada no usuário, em que os profissionais ou


provedores de serviços sejam reconhecidos enquanto agentes relevantes, mas compondo uma
variedade de opções e alternativas, cuja adoção esteja sob o protagonismo dos usuários finais,
considerado o significativo impacto desta decisão em suas vidas (EUSTAT, 1999).
Apesar dos avanços conceituais e da institucionalização de políticas para promoção de
tecnologias assistivas em diversos países, considerando-se as atividades de indução em torno
da CDPcD da ONU e da CIF no âmbito da OMS, o atendimento das pessoas com deficiência
no mundo ainda é bastante restrito seja em termos de quantidade de pessoas alcançadas, seja
em termos da qualidade de participação conquistada. As pessoas com deficiência ainda têm
cotidianamente negados seus direitos humanos básicos, como oportunidades de educação,
trabalho e assistência médica adequadas, e mesmo de circular livremente e tomar decisões
sobre o que afeta suas vidas (BORG, LARSSON E ÖSTERGREN, 2011). A OMS (WHO,
2018) divulga que, atualmente, em média somente 1 em 10 pessoas que precisam de algum
tipo de TA, conseguem acesso a esta109. As razões dessa omissão são várias, como custos
elevados de aquisição, falta de conscientização e informação sobre soluções existentes,
indisponibilidade destas soluções ao alcance do público, lacunas de pessoal treinado e
formado adequadamente para atendimento e prestação de serviços, ausência de alternativas de
financiamento, dificuldades estas que incidem de alguma forma enquanto problemática e
desafio de políticas públicas (WHO, 2018).
MacLachlan et al. (2018) publicaram um position paper no âmbito da Cúpula Global
sobre Pesquisa, Inovação e Educação sobre TA, ocorrido em agosto de 2017, no que tange a
políticas de TA. A partir das discussões sobre os principais avanços e os problemas
persistentes, temáticas chaves para melhoria de políticas nesta área foram realçadas como a
adoção de uma perspectiva sistêmica, a atuação política das pessoas com deficiência e seus
aliados, os argumentos econômicos na política que podem ser articulados pelos grupos de
advocacy, fatores mediadores no acesso a TA e desigualdades no seu alcance, incluindo a
relevância dos recursos de baixo custo. No encerramento desta seção, apresentamos a seguir
estas perspectivas.
A importância em se adotar uma perspectiva sistêmica nas políticas de tecnologia
assistiva relaciona-se a observação em MacLachlan e Scherer (2018) que uma das
dificuldades em alcançar maiores progressos na provisão de TA resulta da implementação de

109
Exemplos deste atendimento precário relatado pela OMS (2018), refere-se a que a produção de próteses
auditivas atualmente atende a menos de 10% da necessidade global, sendo que menos de 3% das necessidades de
aparelhos auditivos são atendidas em países em desenvolvimento anualmente.
212

iniciativas e atividades desconectadas. Há a necessidade em se reconhecer as conexões entre


os diferentes componentes do que os autores denominaram de sistema de TA, que abrange
desde ações para o desenvolvimento, aplicação e organização de conhecimentos afins até o
fornecimento, uso e avaliação de impacto de produtos, serviços e práticas assistivas
(MACLACHLAN; SCHERER, 2018). Dar a devida visibilidade a estas conexões envolve,
por um lado, articular conhecimentos interdisciplinares e de múltiplas fontes, e, por outro
lado, encadear práticas e políticas de forma a conectar suas características intersetoriais (em
múltiplos domínios de políticas) e intergovernamentais (em múltiplos níveis de governo), bem
como seus aspectos de interseccionalidade em relação a outras condições de desigualdades
(desigualdades territoriais, de renda, de gênero, de cor, de idade etc.) que influenciam sobre o
acesso a TA na sociedade.
Ao considerar as múltiplas conexões no processo de política e de desenvolvimento de
tecnologia assistiva, MacLachlan e Scherer (2018) distinguem dez (10) elementos norteadores
em uma abordagem sistêmica de TA, conforme figura 4.

Figura 4 – Os 10 elementos da abordagem do pensamento sistêmico de tecnologia assistiva

Fonte: MacLachlan e Scherer (2018). Tradução livre da autora.

MacLachlan e Scherer (2018) colocam as pessoas com deficiência no centro da


imagem por entenderem que o enfoque na experiência do usuário seja a resposta necessária
para alcançar uma visão integradora de sistemas de tecnologias assistivas. Os autores
reconhecem as pessoas (usuários de recursos de TA) como altamente diferenciadas, não
somente pelo tipo de deficiência e sua origem (congênitas, doenças, acidentes,
envelhecimento etc.), mas também como tendo experiências pessoais únicas ao longo da vida
em diferentes setores (saúde, educação, emprego, conexão social etc.) e sob distintas
213

condições sociais. Por isso, o usuário (tendo em vista sua condição, necessidades, contexto de
uso e preferências), deve ser o condutor do processo de TA: da formulação de políticas, do
projeto de produtos ou serviço, do fornecimento, do treinamento, da entrega, do
monitoramento até a avaliação (MACLACHLAN; SCHERER, 2018).
Contudo, esta perspectiva sistêmica traz desafios substanciais aos atores políticos, dois
desses correspondem ao enfoque intersetorial e de ações ao longo prazo. MacLachlan e
Scherer (2018) destacam que responder às necessidades de TA das pessoas, particularmente
na perspectiva da deficiência ao longo da vida, não é um processo de etapa única. Tanto o
desenvolvimento em si de novas necessidades tecnológicas, ou de combinações destas,
demanda tempo e diferentes fases para sua provisão; quanto a participação inclusiva das
pessoas com deficiência nos distintos setores de vida pública e privada (inclusas as atividades
do próprio desenvolvimento da TA) requer tempo e mudanças mais amplas seja em termos de
acessibilidade nos variados ambientes físicos na sociedade, seja em termos de reconstrução de
visões e valores na sociedade sobre as condições, potencialidades e dificuldades sobre (e com)
estas pessoas (MACLACHLAN; SCHERER, 2018). Neste sentido, os autores argumentam a
necessidade de ruptura com os processos de discriminação e com os formatos de
institucionalização das pessoas com deficiência que mantêm limitações sociais.
No entanto, há algumas lacunas básicas identificadas no processo de política atual que
emperram processos mais amplos, ou mesmo eficazes, de mudanças. MacLachlan et al.
(2018) realçam três tipos de lacunas com base nos aprendizados da Política Africana sobre
Deficiência e Desenvolvimento: (1) pouco conhecimento dos formuladores e tomadores de
decisão em políticas sobre as concepções e instrumentos de políticas específicas para a
temática da deficiência; (2) pouco conhecimento dos representantes das pessoas com
deficiência sobre alternativas de políticas convencionalmente desenvolvidas em nível
internacional, e mesmo nos casos em que estes representantes foram consultados, raramente
os documentos finais de políticas e programas refletiam suas principais preocupações e; (3)
substancial ausência de monitoramento e avaliação dessas políticas e programas, de forma a
considerar preocupações dos diversos grupos de pessoas com deficiências.
Para MacLachlan et al. (2018) a rota crítica para superação destas dificuldades é a do
empoderamento das pessoas com deficiência para fortalecimento de sua atuação política e de
seus aliados, incluindo o estabelecimento institucional de mecanismos e instrumentos que
interponham sua participação no desenvolvimento, monitoramento e avaliação das políticas,
por meio de organizações da sociedade civil representativas. Para esses autores as
organizações da sociedade civil ao representar as pessoas com deficiência assumem papéis
214

importantes no fornecimento de acesso a informações às pessoas com deficiência e outros


atores sociais, em formatos acessíveis e alternativos, a fim de promover a participação efetiva
aos grupos sociais e indicar canais de comunicação e serviços. Bem como, na articulação de
programas ou espaços de capacitação para defesa de direitos humanos, liderança e
conscientização às pessoas com deficiência e seus aliados para prepará-los ao engajamento
político em prol das tecnologias assistivas.
Este engajamento político pode ser facilitado pela criação de espaços ou canais
específicos para participação significativa de entidades da sociedade civil representantes das
pessoas com deficiência. Mas, uma vez que os formuladores de políticas estão envolvidos
com diferentes demandas ou mesmo distanciados da realidade das pessoas com deficiência, a
persistência deste engajamento é outro fator crítico para manter a interação com os demais
atores políticos de forma a progressivamente aumentar a conscientização dentro dos diferentes
domínios de formulação de políticas (MACLACHLAN et al., 2018). No âmbito da
perspectiva sistêmica, MacLachlan et al. (2018) sugerem que sejam necessários vários
empreendedores políticos nos diversos domínios e níveis do processo de política, que
articulem interações entre áreas relevantes, traduzam conteúdo técnico e boas práticas de
políticas internacionais em argumentos e materiais orientadores para engajar políticos e outros
sociais em prol da TA.
Além das próprias pessoas com deficiência e suas entidades representacionais, Layton
(2015) também ressalta a conscientização do papel político dos profissionais e pesquisadores
de TA, que muitas vezes negligenciam sua atenção e ação à compreensão do processo da
política e seus fatores decisivos. Em nível sistêmico, a atuação de qualquer ator social
permanecerá limitada se desconsiderar os aspectos políticos em suas práticas e atividades,
assim cabe aos profissionais e pesquisadores de TA buscar entender e atuar sobre os fatores
políticos em direção a políticas mais eficazes, seja em termos de influenciar na inserção e
conformação da temática na agenda, orientar a formulação de políticas, propor programas ou
ações de implementação, e participar em processos de avaliação (LAYTON, 2015). A autora
realça que, ademais do direito a qualidade de vida das pessoas com deficiência ser um
imperativo ético por si, o apoio destes pesquisadores e profissionais de diferentes áreas pelo
processo de advocacy pode auxiliar a oferecer aos formuladores de políticas um conjunto de
argumentos em um quadro de referência familiar estes, incluindo estudos e argumentos sobre
economia de custos e eficiência ressaltados em vários cenários governamentais.
Assim, embora os argumentos econômicos não sejam os principais na finalidade de
atendimento da política de TA, tanto Layton (2015) como MacLachlan et al. (2018) assinalam
215

em também haver a formulação destes argumentos para investir em TA e acessibilidade


enquanto parte da estratégia de advocacy para a política. Layton (2015), em consonância com
o modelo social da deficiência, sugere-se uma reformulação de um discurso de custos
individuais no atendimento a patologias para uma direção de custos e benefícios sociais e o
que chamou de "economia da inclusão". MacLachlan et al. (2018) destacam alguns dos
argumentos econômicos mais difundidos de benefícios gerais advindos de investimentos em
acessibilidade e TA. O primeiro, os investimentos para acessibilidade conduzem à prevenção
de acidentes na população em geral, e principalmente em idosos, mantendo-os uma vida
independente e reduzindo custos na política de saúde e assistência social. O segundo, a
provisão de TA pode trazer impactos positivos sobre a força de trabalho existente e futura,
seja na reabilitação ou habilitação de pessoas com deficiência para o trabalho atual, seja
melhoria de sua qualificação para o futuro. Além disso, a indústria de TA tende a crescer pela
ampliação do mercado de produtos assistivos, estimulado pelo crescimento populacional e
pelo aumento da longevidade. Por fim, em termos de oportunidades de inovação tecnológica,
muitas soluções tecnológicas desenvolvidas em produtos assistivos podem gerar aplicações
mais amplas (transbordamentos) para produtos tecnológicos de uso geral.
Outra questão levantada por Layton (2015) quanto a considerações econômicas na
política de TA está na relação entre alocação de recursos e resultados alcançados. A autora
observou dois problemas comuns nesta relação em políticas de TA, por um lado, apesar da
retórica política poder ser expressamente consistentes com os valores éticos de equiparação de
oportunidades e direitos às pessoas com deficiência, os recursos investidos podem ser tão
poucos frente as necessidades, que tais valores não chegam a ser realizados enquanto
resultados, podendo neste caso configurar-se como uma política simbólica (HAM; HILL,
1993). Por outro lado, muitas políticas e ações públicas são enquadradas e avaliadas somente
em termos do valor investido, sem apreender efetivamente quais foram os resultados públicos
deste investimento, em termos de benefícios gerados as pessoas com deficiência e sua
inclusão na sociedade (LAYTON, 2015).
Para além dessas dificuldades gerais, outra questão que MacLachlan et al. (2018)
ressaltaram foi a interseccionalidade entre condições de desigualdades. Particularmente a
partir do reconhecimento da desigualdades de acesso em termos territoriais, os autores
sinalizam para a necessidade de estabelecer mecanismos e desenhos de políticas que
propiciem que os programas e ações se desdobrem e alcancem adequadamente os diferentes
contextos subnacionais, principalmente para os rurais, devendo prever soluções flexíveis em
216

termos de formatos de execução, de modo que as mesmas atividades possam ser feitas por
estratégias e organizações distintas com foco no atendimento dos direitos dos cidadãos.
Além da distribuição desigual territorial de serviços para TA, comumente concentrado
em regiões urbanas e de maior densidade demográfica, Durocher et al. (2017) analisa outras
condições desiguais de acesso a TA no Canadá, mencionando também a condição de
ocupação da pessoa com deficiência (sendo que pessoas com empregos formais e militares
tendem a ter maior acesso) e limitações caso a pessoa já receba outros benefícios
governamentais, comum entre idosos. MacLachlan et al. (2018) ressalta também a maior
dificuldade de meninas e mulheres terem acesso a TA, apontando que a superação de
condições de deficiência ocorre por uma realização progressiva ao longo do tempo e tende a
sofre uma "domesticação" pela presença de outras discriminações existentes na sociedade.
Mas, entre das múltiplas condições que resultam em um acesso desigual a TA por
quem precisa, a desigualdade de renda, por sua transversalidade, tende a ser a mais
direcionada em termos de políticas. Cabe mencionarmos que, mesmo quando há políticas
direcionadas ao estabelecimento de programas de empréstimos para aquisição de TA, em
países de alta renda, como o caso dos EUA, análises desses programas demonstravam que,
embora estejam fazendo a diferença para muitas pessoas na possibilidade de compra de
recursos de TA, aproximadamente metade das pessoas que se candidatam não eram aprovadas
para o empréstimo (WALLACE, 2003). Se, por um lado, diante da quantidade de pessoas não
atendidas pelo programa, Wallace (2003) sugere que o financiamento de empréstimos não
pode ser a única solução para as necessidades de provisão de TA às pessoas com deficiência.
Por outro lado, podemos conjecturar que o acesso universal, com a ampliação substancial de
atendimento à população que precisa utilizar recursos de TA, requer a necessidade de
desenvolvimento de tecnologias de baixo custo, como indicada por MacLachlan et al. (2018).
Isso em razão de que, como argumentam MacLachlan et al. (2018), a maior parte das
lacunas e críticas no âmbito da política de TA acima exposta são semelhantes em contextos de
países de alta, média e baixa renda, contudo nos países com menores rendas, há desafios
adicionais, pois, em geral, a indústria de TA, quando existente, tem uma produção limita; há
poucos profissionais adequadamente habilitados para prestação de serviços; e, os sistemas
para prestação de serviços são mal estruturados. O que resulta que o fornecimento de produtos
assistivos é inadequado em termos de variedade, e aqueles disponíveis, ou são inacessíveis
quanto ao preço para a maioria da população, ou são de baixa qualidade (mal ajustados e
ajustáveis, e inadequadamente explicados) (MACLACHLAN et al., 2018).
217

Neste sentido, MacLachlan et al. (2018) argumentam que o foco de inovações no


desenvolvimento em TA sobre soluções de alta intensidade tecnológica seja pertinente ao
contexto de alcance atual do desenvolvimento tecnológico, mas provavelmente há uma
necessidade muito maior de produtos de TA e soluções de acessibilidade que sejam mais
acessíveis e de baixa intensidade tecnológica para atividades instrumentais básicas da vida
diária. Portanto, recursos de TA de baixo custo e menor intensidade tecnológica tendem a
serem mais eficazes no âmbito da política pública para prover um amplo acesso às pessoas
que deles necessitam, alcançando, assim, maior impacto em termos de população beneficiada.

4.2 TECNOLOGIA ASSISTIVA NO BRASIL: CENÁRIO DE AÇÕES A PARTIR DA


POLÍTICA DE CT&I NO GOVERNO FEDERAL

Conforme dados do censo de 2010 (SDH/PR, 2012), 45,6 milhões de pessoas no Brasil
declararam ter, pelo menos, um tipo de deficiência (visual, auditiva, motora ou
mental/intelectual) em diferentes níveis de severidade, que equivale a 23,9% da população
brasileira. Destes, 8,3% apresentavam, pelo menos, um tipo de deficiência severa, sendo
3,46% com deficiência visual severa; 1,12% com deficiência auditiva severa; 2,33% com
deficiência motora severa; e, 1,4% com deficiência mental ou intelectual (SDH/PR, 2012).
Essa parcela da população está distribuída entre diferentes características de idade,
sexo, região, entre outras. A maioria (25.800.681) são mulheres (26,5% da população
feminina) e 19.805.367 são de homens (21,2% da população masculina), estando 38.473.702
dessas pessoas vivendo em áreas urbanas enquanto 7.132.347 vivem em áreas rurais
(SDH/PR, 2012). Apresentamos alguns desses dados sobre a distribuição da população
brasileira com, pelo menos, uma deficiência investigada no censo de 2010, conforme as
tabelas 15, 16, 17 e 18, respectivamente referentes a proporção por idade e tipo de deficiência,
por região brasileira, por nível de instrução e por nível de ocupação.

Tabela 15 – Distribuição percentual da população com pelo menos uma das deficiências investigadas
por Idade e Tipo de Deficiência no Brasil, censo 2010 (%)
Deficiência Deficiência Mental ou
Faixa etária Deficiência Visual
Auditiva Motora Intelectual
0 a 14 anos 5,3 1,3 1,0 0,9
15 a 64 20,1 4,2 5,7 1,4
Acima de 65 anos 49,8 25,6 38,3 2,9
Fonte: SDH/PR (2012).
218

De forma geral, observamos que são as pessoas idosos que vivenciam a maior
proporção de deficiências, corroborando a noção da deficiência como uma questão enfrentada
no curso da vida. Na tabela 16, verificamos que houve um acréscimo relevante no número da
população com deficiência no país entre os censos de 2000 e 2010 em todas as regiões,
estando distribuído em proporção relativamente similar entre as regiões, mas sendo o
Nordeste a região com maior proporção.

Tabela 16 – Proporção da população com pelo menos uma das deficiências investigadas por
Região no Brasil, censo 2000 e 2010 (%)
Região 2000 2010
Norte 14,7 23,4
Nordeste 16,8 26,63
Sudeste 13,1 23,03
Sul 14,3 22,51
Centro Oeste 13,9 22,50
Total (Brasil) 14,5 23,92
Fonte: SDH/PR (2012).

As tabelas 17 e 18 correspondem a informações sobre oportunidades de educação


(nível de instrução) e trabalho (nível de ocupação), sendo que em termos de nível instrução
(tabela 17), é possível corroborar que as pessoas com deficiência apresentam menor
realização educacional para todos os níveis quando comparadas as pessoas sem nenhuma
deficiência, sendo que a maioria daquelas (61,1%) tende a não conseguir ter qualquer
instrução ou somente alcançar o nível fundamental incompleto.

Tabela 17 – Distribuição percentual da população de 15 anos ou mais de idade sem ou com, pelo
menos, uma deficiência investigada por nível de instrução no Brasil, censo 2010 (%)
Pessoas com ao menos Pessoas sem nenhuma
Nível de instrução
uma deficiência deficiência
Sem instrução e fundamental incompleto 61,1 38,2
Fundamental completo e médio incompleto 14,2 21
Médio completo e superior incompleto 17,7 29,7
Superior completo 6,7 10,4
Não determinado 0,4 0,7
Fonte: SDH/PR (2012).

Em relação a ocupação, em 2010, havia 44,07 milhões de pessoas com pelo menos
uma deficiência em idade ativa, mas somente 20,4 milhões estavam ocupadas, entre estas a
tabela 18 demonstra que os homens tendem a ter maior probabilidade de conseguir uma
219

ocupação em relação a mulheres, e os que apresentam algum tipo de deficiência visual são
aqueles com maior nível de ocupação entre os demais tipos de deficiência. Bueno (2016)
também indicou que o nível médio de renda da população de pessoas com deficiência varia
entre “mais de ½ a 1 salário mínimo” (maioria entre deficiência motora e mental / intelectual)
e “mais de 1 e 2 salários mínimos” (maioria entre deficiência visual e auditiva.

Tabela 18 – Distribuição percentual do nível de ocupação da população de 10 anos ou mais de


idade, por sexo e tipo de deficiência investigada no Brasil, censo 2010 (%)
Tipo de deficiência Homens Mulheres
Deficiência mental ou intelectual 20,2 14,2
Deficiência motora 39,3 25,2
Deficiência visual 60,6 39,8
Deficiência auditiva 49,9 28,3
Fonte: SDH/PR (2012).

Os dados selecionados demonstram que as pessoas com deficiência representam uma


parcela significativa da população brasileira, distribuídas por todo território nacional, em
áreas urbanas e rurais, e cuja condição de deficiência tende a aumentar as dificuldades para
realizações de vida, como no caso do nível de instrução e da taxa de ocupação. Com o
objetivo de buscar assegurar a equiparação de oportunidades e os direitos das pessoas com
deficiência no Brasil, há um conjunto de legislações existentes no país (BRASIL, 2019). A
Constituição Federal de 1988 assegura direitos para as pessoas com deficiência em diversos
pontos110, sendo também importantes avanços o Decreto nº 6.949/2009 que promulgou no
país a CDPcD da UNO, que também se equivalente a norma constitucional e a Lei n°
13.146/2015, que instituiu a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da
Pessoa com Deficiência). Em termos de promoção à pesquisa e ao desenvolvimento de TA
integrada em um plano de ação intersetorial de atendimento as pessoas com deficiências
ressaltamos o Decreto nº 7.612/2011, que institui o Plano Nacional de Direitos da Pessoa com
Deficiência "Viver Sem Limite".

110
Como no art. 23 das competências comuns da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios versa
sobre a garantia do cuidado com a saúde e a proteção social; no art. 7 que trata sobre os direitos sociais há a
prerrogativa da inclusão das pessoas com deficiência no mercado de trabalho, proibindo qualquer discriminação
no tocante a salário e critérios de admissão; no art. 203 em relação à assistência social, há previsão da habilitação
e reabilitação das pessoas com deficiência e a promoção de sua integração à vida comunitária, e a garantia de
benefício mensal àquelas pessoas com deficiência que não possuírem meios de prover à própria manutenção ou
de tê-la provida por sua família; no art. 208 da educação aborda o direito ao atendimento educacional
especializado, preferencialmente na rede regular de ensino; no art. 227 quanto à criação de programas de
prevenção e facilitação do acesso aos bens e serviços coletivos, com a eliminação de preconceitos e obstáculos
arquitetônicos; e no art. 244 quanto à garantia de acessibilidade nos logradouros, edifícios de uso público e
veículos de transporte coletivo.
220

Nesta seção, procuramos fazer uma breve contextualização de como a promoção à TA,
em termos de planejamento de política, programas e configuração de ações particularmente no
âmbito da política de CT&I recente, com vistas a alcançarmos um cenário de conjuntura para
as ações na política de CT&I no governo estadual do Pará.

4.2.1 A tecnologia assistiva nos planos da pasta ministerial da CT&I

As duas principais agências de fomento vinculadas a pasta ministerial responsável pela


política de CT&I, CNPq e FINEP, lançaram chamadas de fomento específicas para
desenvolvimento de TA no país, sendo que a primeira identificada foi no ano de 2005 pela
FINEP, a qual posteriormente lançou outros quatro (4) editais específicos até 2018. Pelo
sistema de busca do CNPq, identificamos dois (2) editais específicos ao fomento de
tecnologia assistiva, seno que esta agência também financiou ações por meio de estudos e
projetos encomendas, como são os casos das três (3) Pesquisas Nacionais sobre Tecnologia
Assistiva desenvolvidas até o momento. Estas ações demonstram que a temática de TA, ainda
que marginalmente frente ao conjunto de programas e ações realizados, foi inserida na agenda
da política de CT&I nacional.
Em termos de documentos oficiais orientadores da política nacional, encontramos
menção específica à TA a partir do Plano de Ação em Ciência, Tecnologia e Inovação
(PACTI) 2007-2010, embora no relatório de gestão do MCT do período de 2003-2006,
houvesse menção de apoio ações de disseminação de TA em conjunto com o MEC em
atividades para melhorias do ensino de ciências nas escolas no âmbito de Popularização da
ciência e da tecnologia no Eixo Ciência e Tecnologia para a Inclusão e o Desenvolvimento
Social.
Neste PACTI 2007-2010, sob o emblema da Ciência, Tecnologia e Inovação para o
Desenvolvimento Nacional, as atividades inscritas à TA foram previstas em dois programas
no eixo estratégico de "promover a popularização e o ensino de ciências, a universalização do
acesso aos bens gerados pela ciência, e a difusão de tecnologias para a melhoria das condições
de vida da população", que correspondia ao escopo da linha de ação "C,T&I para o
Desenvolvimento Social". Um programa referia-se ao Apoio à Criação e ao Desenvolvimento
de Centros e Museus de Ciência, Tecnologia e Inovação, no qual estava a meta de criar um
centro de referência em TA no país, com o objetivo de "estimular que os centros e museus de
ciência de maior porte estejam capacitados, até 2010, para receberem visitantes com
necessidades especiais" (MCT, 2010). Outro programa correspondia ao apoio à Pesquisa,
221

Inovação e Extensão Tecnológica para o Desenvolvimento Social, que visava "contribuir para
a solução de problemas sociais com a utilização de ferramentas de TA, trabalho e renda,
habitação, saneamento ambiental, agricultura familiar, educação, esporte e lazer" (MCT,
2010), em que foi prevista meta relacionada ao apoio a 80 projetos de pesquisa e
desenvolvimento de TA.
No entanto, no relatório do plano elaborado pelo MCT (2010), não há menção ao
centro de referência em TA (cuja criação somente se concretizou em 2012 no âmbito do Plano
Viver Sem Limite). E, no programa de apoio à pesquisa, inovação e extensão tecnológica para
o desenvolvimento social há breve registro exemplificativo de projetos de inclusão social
relacionados a uma fábrica de cadeira de rodas e a um Centro de Terapia Celular para estudo e
tratamento de pacientes com necessidades especiais, mobilidade reduzida e idosos, sem fosse
explicitada a expressão TA. Cabe esclarecermos que no período a FINEP havia lançando um
único edital específico de TA em 2010.
Em relação as Conferencias Nacionais de CT&I, até os registros de síntese das
conclusões e recomendações da 3ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação
em 2005 (MCT; CGEE, 2006) os termos de TA ou ajuda técnica111 não tinham sido
assinalados, foi somente na 4ª Conferencia em 2010 (MCT/CGEE, 2010), que a TA surge
como temática explicitamente citada, novamente pela proposta de criação de um Centro
Nacional em TA, visando a implementação de projetos de acessibilidade em escolas, espaços
públicos e meios de comunicação (por este objetivo se percebe uma clara ampliação da
justificativa anteriormente enquadrada no PACTI) e pela proposição de criação de um fundo
setorial próprio para financiamento de atividades de inovação social, tecnologia social e
assistiva.
Na Estratégia Nacional de CT&I (ENCTI) 2012-2015, no âmbito do setor prioritário
da C,T&I para o Desenvolvimento Social, especificamente na linha das "Tecnologias para
Inclusão Social" há o que consideramos um avanço de agenda na advocacy para TA, uma vez
que se tem a proposição de um programa específico (e não mais ações avulsas) no
planejamento da pasta de CT&I, denominado de "Programa de inovação em tecnologia
assistiva". Este programa é relacionado explicitamente ao esforço intersetorial do Plano
Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência (PNDPD) “Viver sem Limite", em que, por
um lado, a atuação do MCTI teria contribuído para que a temática de TA no âmbito das
garantias de direitos das pessoas com deficiência ganhasse relevância nacional; e, por outro

111
No sentido relacionado à tecnologia assistiva de recurso para apoio às pessoas com deficiência.
222

lado, o próprio fomento e desenvolvimento de TA também se tornava uma prioridade no


âmbito da CT&I para desenvolvimento social (MCTI, 2012). Na próxima subseção, faremos
apresentaremos as principais ações de desenvolvimento de TA no âmbito deste programa.
De forma geral, nesta concepção da ENCTI a temática da tecnologia assistiva está
situada no desafio de "superação da pobreza e redução das desigualdades sociais e regionais"
na vertente "inclusão produtiva e social". O programa de inovação em tecnologia assistiva,
âmbito particularmente vinculado ao MCTI no PNDPD, havia quatro iniciativas principais
(MCTI, 2012):
- fomento à inovação tecnológica empresarial para o desenvolvimento de produtos,
processos e serviços focados a pessoas com deficiência, com mobilidade reduzida e idoso,
com alinhamento com a política de compras governamentais no setor;
- estabelecimento de uma linha de crédito para aquisição de produtos de TA, voltada
prioritariamente às pessoas com deficiência de baixa renda;
- disponibilização de Catálogo Nacional de Produtos de Tecnologia Assistiva via
internet e;,
- criação do Centro Nacional de Referência em Tecnologia Assistiva, na unidade de
pesquisa do MCTI em Campinas (SP), o Centro de Tecnologia da Informação (CTI) Renato
Archer.
Na ENCTI 2016-2022, conforme relatos de avanços ocorridos na CT&I pelo MCTIC
(2016), na parte social, foi realçado o desenvolvimento e difusão de tecnologias assistivas que
resultaram das atividades do Centro Nacional de Referência em Tecnologia Assistiva
(CNRTA), que contava à época com 29 núcleos regionais que compunham a rede de pesquisa
em TA, constituída no âmbito do Plano Viver sem Limites. A temática de tecnologia assistiva
consta como uma estratégia "fomento à P&D na área de Tecnologia Assistiva, voltada para as
pessoas com necessidades especiais", no que foi chamado de tema estratégico "Ciências e
Tecnologias Sociais". Embora tenha sido mantida a menção da participação pelo MCTIC do
PNDPD no texto sobre o tema estratégico, não houve detalhamentos de ações relacionadas a
estratégia de TA.
Cabe observarmos que a temática de TA esteve como um dos temas de articulação da
SECIS, criada em 2003 (em 2004 também houve a implantação de uma Área de Tecnologia
para Desenvolvimento Social na FINEP que tinha a TA como uma de suas atribuições), sendo
que o período de financiamento de TA via editais específicos pelas agências de fomento federais
abrangeu de 2005 (FINEP) a 2016 (CNPq), neste último ano a SECIS sofre rebaixamento para o
223

nível de diretoria na fusão dos ministérios da CT&I e das comunicações, com uma progressiva
desarticulação de várias temáticas sob sua atribuição.
Fonseca (2009) relata que a temática de TA estava na agenda da SECIS, e seu fomento
foi operacionalizado em parceria desta com o CNPq e FINEP, mas até o período de 2009
considerava que os recursos envolvidos apresentavam uma baixa disponibilidade para a
temática, com ações descontinuadas e sem a devida articulação. Para Fonseca (2013), com a
vinculação ao PNDPD e a uma estratégia alinhada a noção de inovação tecnológica
empresarial, a temática de TA passou a assumir um novo papel no âmbito da política CT&I
para desenvolvimento social, com um aumento do volume financeiro dedicado a temática e
um maior destaque a suas ações.
Fonseca (2013) entende que, embora a noção de exclusão social que estava base para
agregação de temáticas de política de CT&I para desenvolvimento social permitisse a
inserção de diferentes temas tecnológicos como de tecnologia social, tecnologia digital (TIC
para inclusão digital) e TA em seu eixo, a trajetória de ações de inclusão digital e da TA
tendiam a uma perpetuação da lógica de desenvolvimento tecnológico existente, focado em
modelos de produção e desenvolvimento de países de capitalismo avançado e com menor
participação da sociedade civil, em comparação com as experiências vigentes de tecnologia
social (FONSECA, 2013). A seguir, olhamos em maior detalhe as ações de fomento a TA no
PNDPD e do Centro de Nacional de Referência em Tecnologia Assistiva (CNRTA).

4.2.2 Plano Nacional de Direitos da Pessoa com Deficiência "Viver sem Limites" e as
ações a partir do Centro de Nacional de Referência em Tecnologia Assistiva

O PNDPD foi instituído em 2011 pelo Decreto nº 7.612 com o objetivo de "promover,
por meio da integração e articulação de políticas, programas e ações, o exercício pleno e
equitativo dos direitos das pessoas com deficiência, nos termos da CDPCD". Assim, o plano
abrange tanto uma concepção intersetorial, via programas e ações envolvendo vários
ministérios do governo federal, quanto sua execução também por meio de descentralização de
atividades, via colaboração com Estados, Distrito Federal, Municípios, e com a sociedade.
O PNDPD foi concebido a partir do modelo social de deficiência com forte
colaboração do Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência (CONADE),
instância superior de deliberação colegiada, no âmbito da pasta ministerial dos Direitos
Humanos (decreto nº 3.298/1999), com constituição paritária de representantes por órgãos da
administração pública federal e da sociedade civil (SDH/PR, 2014). Para buscar dar conta da
224

intersetorialidade, a estrutura de governança governamental do plano contemplava112: um


comitê gestor do plano, coordenado pela SDH/PR, formado também pela Casa Civil,
Secretaria Geral da Presidência da República (PR), Ministério do Planejamento, Orçamento e
Gestão (MPOG), Ministério da Fazendo (MF), Ministério do Desenvolvimento Social (MDS)
e; outro grupo interministerial de articulação e monitoramento, também coordenado pela
SDH/PR e composto por Casa Civil, Secretaria Geral da PR, MPOG, MF, MDS, Ministério
da Saúde (MS), Ministério da Educação (MEC), MCTI, Ministério da Previdência Social,
Ministério das Cidades, Ministério dos Esportes, Ministério da Comunicação, Ministério
Cultura.
Em relação as parcerias intergovernamentais com os entes federados (estados, distrito
federal e municípios), foi estabelecido um formato de formalização via termo de adesão,
inspirado no funcionamento do Sistema Único de Saúde (SUS) no que tange a divisão de
gastos nas ações governamentais. Até 2014, 25 estados e o Distrito Federal haviam aderido ao
plano, sendo formados os respectivos comitês locais, além de que diversos estados criaram
suas versões estaduais do plano, como é o caso do Plano Existir no estado do Pará, de modo
que houve um efeito de indução relevante também.
O PNDPD estabeleceu quatro (4) eixos âncoras de atuação. O primeiro de acesso à
educação, que envolveu diversas políticas e programas para promover a inclusão das pessoas
com deficiência em todos os níveis de ensino, da educação fundamental até a profissional e
superior. Entre as ações ressaltadas neste eixo estão a implantação das salas de recursos
multifuncionais, financiamento para acessibilidade nas escolas públicas e universidades
federais, programa de formação de professores para atendimento educacional especializado
(AEE) (SDH/PR, 2014). O segundo eixo de atenção à saúde, que abrangeu uma reformulação
da agenda de cuidado das pessoas com deficiência, discutida e pactuada com os demais entes
federativos no âmbito do SUS, que inclui a implementação de uma rede de cuidados à pessoa
com deficiência, articulando diversos serviços para prevenção, diagnóstico precoce,
tratamento e reabilitação. Nesse contexto da rede, foram desenvolvidos o programa nacional
de triagem neonatal, elaboradas e disseminadas variadas diretrizes terapêuticas específicas e
criados os centros especializados em reabilitação (CER)113, que podem agregar oficinas
ortopédicas para ampliação da oferta de órteses, próteses e meios auxiliares de locomoção

112
Denominações de ministérios e órgãos conforme 2014.
113
Antes do PNDPD, a maior parte dos centros de reabilitação que existentes no Brasil pertencia à Rede Sarah
de Hospitais de Reabilitação e à Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD). Os CER visam
congregar práticas para reabilitação de tipos de deficiência (física, visual, auditiva e intelectual), sendo há
estipulado três tipos de credenciamento referente à CER II, III e IV, cujos números que indicam a quantidade de
tipos de deficiência tratados.
225

(SDH/PR, 2014). O terceiro eixo de inclusão social, onde as pessoas com deficiência já eram
definidas como público prioritário do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), o eixo no
PNDPD buscou fortalecer as ações compreendendo alterações nas regras do benefício de
prestação continuada (BPC) e criação do BPC Trabalho; a criação de Centros-Dia de
Referência enquanto espaços voltados para o acolhimento de jovens e adultos com deficiência
dependentes de cuidados, durante o dia para permitir que seus familiares trabalhem ou
estudem nesse período; e, a implantação de Residências Inclusivas, enquanto serviço de
acolhimento integral (SDH/PR, 2014). E o quarto eixo de acessibilidade, que contemplou
ações na área habitacional (unidades adaptáveis no programa Minha Casa, Minha Visa) e de
financiamento de produtos de TA, via condições de crédito especiais com juros subsidiados, e
redução de alíquotas do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) incidentes sobre este
tipo de produto utilizado por pessoas com deficiência (SDH/PR, 2014).
Seja amplitude ações, programas e políticas abrangidas no PNDPD, seja pelo volume
de recursos alocados, este plano tem sido considerado como a maior política pública de
atenção às pessoas com deficiência até então desenvolvida no governo federal (BERSH, 2017;
BUENO, 2016). Uma das diretrizes do plano, conforme lei, era a promoção do acesso, do
desenvolvimento e da inovação em TA. O campo de TA desenvolveu uma transversalidade
com os quatro (4) eixos do plano, como no apoio e prescrição às pessoas com deficiência para
as atividades de reabilitação, na provisão de recursos de TA para as salas de recursos
multifuncionais nas escolas ou para os centros-dia de referência, e como objeto de
financiamento para aquisição pessoal. E, no decorrer do PNDPD ganhou tal visibilidade que,
em documento da SDH/PR (2014) sobre o plano, as políticas de estruturação e
desenvolvimento de pesquisa e TA foram configuradas como um dos eixos deste.
Mecanismo de governança intersetorial governamental específico para as políticas de
TA previsto no PNDPD foi o Comitê Interministerial de Tecnologia Assistiva, sob a
coordenação do MCTI, contava com a participação da SDH/PR, do MF, do MPOG, do MEC,
do MS e do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Este comitê tinha
a finalidade de "formular, articular e implementar políticas, programas e ações para o fomento
ao acesso, desenvolvimento e inovação em tecnologia assistiva" (art. 12 da lei 7.612/2011).
Entre as ações no âmbito do TA destacamos a criação do Centro de Nacional de
Referência em Tecnologia Assistiva (CNRTA) no CTI Renato Archer por meio da Portaria do
MCTI nº 139 de 2012. O centro que já havia sido inscrito em planejamento anterior do MCTI,
enquanto demanda do campo de TA, tornou-se o núcleo articulador das principais ações e
226

programas nesta temática. Bueno (2016) realça diversos estudos114 e ações estruturantes
realizados no processo de implantação do CNRTA que incluíam, via método de roadmapping
tecnológico, identificar e alinhar os principais stakeholders em TA no país para elaboração do
Plano de Implantação do CNRTA, considerando-se os alcances transversais da temática no
PNDPD, que contemplava ações junto ao MS, MEC, SDH e MF. Em conjunto com essa
estruturação e alinhamento com foco para atendimento das metas do PNDPD, o CNRTA
também buscou identificar, estimular e institucionalizar núcleos de pesquisa e
desenvolvimento TA no país que pudessem dar suporte as ações nacionalmente de políticas
públicas, e fortalecesse o campo de pesquisa e desenvolvimento em TA, por meio de ações
colaborativas e interativas.
Neste sentido, foi articulada a Rede Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento em
Tecnologia Assistiva (RNPDTA), institucionalizada pela Portaria do MCTI nº 1.230, de
3/12/2013, agregando 54 instituições de pesquisa ou ensino superior. Conforme site da
RNPDTA (CTI, 2019), há 84 núcleos de pesquisa e desenvolvimento de TA compondo a
rede, atuando em distintas áreas de conhecimentos. Muitos destes núcleos foram instaurados
ou apoiados a partir de editais específicos para TA lançados, em particular o edital nº 84/2013
MCTI/CNPq. Contudo, cabe ressaltarmos que a distribuição destas instituições e núcleos no
território nacional é bastante desigual, seja por instituições (tabela 19), seja por núcleos
(figura 5).
De acordo com Bueno (2016), o programa de inovação em TA, com o fomento de
editais específicos, e a atuação do CNRTA ao estruturar o campo e articular a RNPDTA
trouxe um foco maior à temática de TA na agenda de pesquisa, com a disseminação do
conceito e o incentivo à pesquisa, visto que os pesquisadores não concorriam tão fortemente
por financiamento nos editais específicos para desenvolver suas pesquisas. Contudo, o autor
também indicava que nem todos os núcleos já apresentavam produtos de TA desenvolvidos e
disponíveis, o que demonstra que estes possuíam diferentes estágios de maturidade de
pesquisa e desenvolvimento.

114
Conforme Bueno (2016), a partir de informações via entrevistas com pessoas do CTI Renato Archer, vários
estudos no processo de implantação do CNRTA e mesmo outros realizados anteriormente a sua criação sobre os
cenários de desenvolvimento de TA, que incluíram visitas a centros de referência em TA na Alemanha,
Argentina, Espanha, EUA, Canadá, Chile, Itália e Suécia, foram realizados pelo ITS, financiados pelo CNPq.
227

Tabela 19 – Distribuição das instituições que compõem a Rede Nacional de Pesquisa e


Desenvolvimento em Tecnologia Assistiva por região no Brasil
Região Número de instituições
Centro-Oeste 5
Nordeste 7
Norte 8
Sudeste 20
Sul 14
Fonte: Adaptada pela autora a partir de CTI (2019).

Figura 5 – Mapeamento dos núcleos que compõem a Rede Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento
em Tecnologia Assistiva no Brasil

Fonte: CNRTA/CTI apud Bueno (2016).

Outras iniciativas relevantes foram o desenvolvimento do Catálogo Nacional de


Produtos de Tecnologia Assistiva, a elaboração do Livro Branco da Tecnologia Assistiva no
Brasil, e as pesquisas nacionais sobre TA. Na próxima subseção, verificaremos os editais
específicos lançados relacionados ao programa de inovação para TA, e posteriormente um
cenário sobre a pesquisa e desenvolvimento de TA no país, a partir da última Pesquisa
Nacional de Inovação em Tecnologia Assistiva.

4.2.3 Principais editais nacionais para fomento a tecnologia assistiva

Cabe notarmos que, embora o PNDPD tenha expandido políticas e programas por
diversos domínios de política pública (educação, saúde etc.), o processo de formulação,
228

implementação e avaliação em cada domínio de política específica passou a incorporar e ser


moldado pela racionalidade substantiva e instrumental vigente, orientada deste modo pelo
sistema de crenças, diretrizes e instrumentos típicos daquele domínio. Por exemplo, se as
ações do PNDPD na área da saúde foram necessariamente inseridas na lógica e mecanismos
do SUS, na política de CT&I se desenvolveu no âmbito de instituições, práticas sociais e
instrumentos existentes.
Ao todo, a FINEP lançou cinco (5) editais específicos115 para promoção a pesquisa,
desenvolvimento e inovação em TA até 2018, conforme o quadro 17. Embora os dois
primeiros editais (2005 e 2010) fossem voltados a instituições de ensino superior e pesquisa, a
partir da chamada lançada no final de 2011, após lançamento do PNDPD, observamos que
houve um maior incentivo à relação entre instituições de ensino superior e pesquisa e
empresas e uma chamada de subvenção econômica específica para empresas.
Este movimento de busca de aproximações entre as denominadas ICT e empresas está
tanto relacionado a ascensão da agenda pró inovação empresarial, de forma geral, na política
de CT&I; quanto também se refere a um enfoque ou transposição específica deste movimento
geral para o âmbito do campo de TA ao considerar que um dos grandes desafios para acesso a
TA por parte das pessoas que dela necessitam no país corresponde ao cenário do mercado
nacional, alimentado com produtos majoritariamente importados com preços elevados,
estando disponível somente a quem possui poder aquisitivo suficiente (ZULIAN; ZANETTI,
2015), o que legitimaria a necessidade de P&D nacional, voltado a produtos economicamente
viáveis.

115
Almeida (2015) indica que em 2007 e 2008 também foram lançados dois editais de subvenção econômica
voltados para fomento à inovação em empresas brasileiras que, embora contemplassem um objetivo geral que
englobava diversas temáticas, entre estas estava a de tecnologia assistiva referente ao desenvolvimento de
equipamentos ou dispositivos para facilitar a execução de atividades da vida diária e laborais de pessoas com
deficiência, de tecnologia assistiva. Também identificamos que, em 2015, foi lançada chamada pública
MCTI/SECIS/FINEP/FNDCT - Viver Sem Limite - 01/2015 para apoio a projetos de pesquisa, desenvolvimento
tecnológico e inovação para atendimento às diretrizes do Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência
- Viver sem Limite, na qual tecnologia assistiva era um dos temas contemplados.
229

Quadro 17 – Chamadas públicas lançadas pela FINEP específicas a temática de tecnologia assistiva até 2018
Proponente Projetos Valor
Ano Chamada pública & objetivo Linhas temáticas
elegível aprovados aprovado
MCT/FINEP/Ação Transversal – Tecnologias Assistivas – 09/2005: a) Saúde Universidade
Projetos de pesquisa e desenvolvimento de tecnologias que b) Mobilidade ou Instituição
Sem
2005 reduzam ou eliminem as deficiências física, mental, visual e/ou c) Comunicação de Ensino 25
informação
auditiva ou as limitações decorrentes dessas a fim de colaborar para d) Habilitação para o trabalho Superior e/ou
a inclusão social das pessoas portadoras de deficiência e dos idosos. e) Execução de atividades básicas. de Pesquisa
MCT/FINEP - Ação Transversal - Tecnologia Assistiva – 01/2010: Linha Temática 1: Métodos, técnicas e dispositivos Instituição
Projetos de pesquisa e desenvolvimento de tecnologias inovadoras relacionados a Comunicação Alternativa ou Aumentativa Científica e
para inclusão social, melhoria da qualidade de vida e da autonomia (CAA) e uso de Tecnologias de Informação e Tecnológica
2010 de pessoas com deficiências, diagnóstico precoce, tratamento, Comunicação por pessoas com comprometimentos na (ICT) pública 11 9.221.413,82
reabilitação e prevenção de deficiências física, auditiva, visual, comunicação. Linha Temática 2: Equipamentos e ou privada
intelectual e múltipla métodos para teste e diagnóstico precoce de deficiências sem fins
auditiva e visual e para reabilitação. lucrativos
MCTI/SECIS/FINEP/FNDCT – Cooperação Empresa-ICT – a) Deficiências Visuais
ICT, pública
Tecnologia Assistiva – 01/2011: Projetos cooperativos entre b) Deficiências Auditivas
ou privada
Empresas Brasileiras e Instituições Científicas e Tecnológicas - c) Deficiências Físicas
sem fins
ICT para o desenvolvimento tecnológico e a inovação de produtos d) Deficiências Múltiplas
lucrativos
2011 assistivos voltados para pessoas com deficiência, pessoas idosas e 8 12.263.567,81
(empresas
pessoas com mobilidade reduzida, a fim de contribuir para sua
enquadradas
inclusão social, autonomia e independência e também visando
como
melhorar a competitividade das empresas brasileiras que atuam
intervenientes)
neste setor.
MCTI/FINEP/FNDCT - Subvenção Econômica à Inovação - Modalidades definidas a seguir: atletismo; basquetebol
01/2012: Subvenção Econômica a empresas brasileiras para o em cadeira de rodas; bocha; ciclismo; esgrima em
desenvolvimento de produtos inovadores, específicos para o cadeira de rodas; futebol de cinco; futebol de sete;
Empresas
2012 treinamento e/ou a prática de esportes paraolímpicos, que envolvam goalball; halterofilismo; hipismo; judô; natação; remo; 2 3.900.575,14
Brasileiras
risco tecnológico associado a oportunidades de mercado, a fim de rugby em cadeira de rodas; tênis de mesa; tênis em
promover a inclusão social das pessoas com deficiência. cadeiras de rodas; tiro com arco; tiro esportivo; vela; e
voleibol sentado.
MCTI/SECIS/FINEP/FNDCT – Cooperação ICT-Empresa – Temas: Desenvolvimento tecnológico de produtos
TECNOLOGIA ASSISTIVA – 01/2013: Projetos cooperativos assistivos (substituição de importações; e solução
ICT e
entre Instituições de Pesquisa Científicas e Tecnológicas (ICT) e inovadora); Pesquisa e/ou desenvolvimento tecnológico
2013 Empresas 5 6.837.050,26
empresas brasileiras, visando o desenvolvimento de tecnologias de produtos inovadores, incluindo métodos e técnicas
Brasileiras
voltadas para pessoas com deficiência, idosas e com mobilidade (CAA; Sistemas de Controle de Ambiente; Adequação
reduzida. Postural; Adaptações em Veículos; Esporte e Lazer).
Fonte: Adaptado pela autora a partir de FINEP (2018).
230

Contudo, há dificuldade ressaltada pelos pesquisadores de TA em fazer com que os


protótipos e produtos por eles desenvolvidos ganhem escala de produção e cheguem ao
público-alvo (SDH/PR, 2014; BUENO, 2016), o que poderia ser (parcialmente) facilitado por
mecanismos de articulação de conexões entre instituições de pesquisa e empresa, como são os
casos dos editais conjuntos ou específicos para as empresas. Assim, estas iniciativas advindas
da política de CT&I, neste caso especificamente da TA, acabam por transladar estratégias de
neovinculacionismo entre universidade-empresa, como enfoque de solução para a questão do
acesso a TA pelas pessoas com deficiência.
Contudo, Almeida (2015) indicava que pouco se conhecia, mesmo no âmbito da
FINEP, sobre os resultados efetivos dessas chamadas públicas em termos de impacto para o
mercado consumidor de TA no Brasil, ou seja, em medida os projetos financiados resultaram
em produtos e serviços, novos ou melhores, as pessoas com deficiência. A autora, que
também fazia parte do quadro FINEP, buscou analisar projetos de TA referente a três (3)
editais daquela financiadora quanto ao impacto116 no mercado de TA, e concluiu que este foi
pequeno, identificando as seguintes dificuldades.
Primeiro, a etapa após a obtenção do protótipo, ou prova, de conceito do produto era a
maior dificuldade, pois o perfil das empresas brasileiras que submeteram projetos a
financiamento de produtos assistivos era composto majoritariamente de microempresas e de
pequeno porte que, em geral, não tinham capacidade financeira para colocar o produto em
linha de produção sem ter que articular novos financiamentos ou parcerias posteriores para o
escalonamento da linha de produção.
Depois, o desenvolvimento do produto não finalizava em um primeiro projeto de
pesquisa financiado, sendo comumente necessários vários ciclos de projeto para que se tivesse
chegado ao produto e a estrutura adequada da linha de produção.
Por fim, os grupos de pesquisas aprovados ao longo das chamadas mantinham certa
regularidade, de modo que se suponha uma continuidade de pesquisas, mas não havia uma
articulação sistemática entre estes para a troca de informações e experiências, sinergias
tecnológicas e melhoria de processos.
Podemos entender que os perfis das chamadas públicas da FINEP foram afins aos
instrumentos e lógicas gerais adotadas por aquela agência, bem como as chamadas públicas
de financiamento implementadas pelo CNPq. Além do financiamento via encomendas de

116
Para Almeida (2015) impacto no mercado de TA foi caracterizado quando o produto ou serviço desenvolvido
nos projetos financiados estivessem disponíveis para comercialização no mercado ou uso pelas pessoas com
deficiência.
231

estudos específicos de apoio a atividades de TA no âmbito do CNRTA, como foram os casos


do Catálogo Nacional de Produtos de Tecnologia Assistiva, das pesquisas nacionais sobre TA
e do Livro Branco da Tecnologia Assistiva no Brasil, o CNPq lançou dois editais específicos
para TA, voltados para a RNPDTA, conforme quadro 18.

Quadro 18 – Chamadas públicas lançadas pelo CNPq específicas a temática de tecnologia assistiva,
até 2018
Proponente Projetos
Ano Chamada pública & objetivo Linhas temáticas
elegível aprovados

MCTI-SECIS/CNPq Nº 84/2013
– TECNOLOGIA ASSISTIVA
Doutor,
Projetos de pesquisa sobre
vinculado a
tecnologia assistiva, Os projetos deverão
instituição de
notadamente oriundos de estar caracterizados
ensino superior
Núcleos de Tecnologia como pesquisa científica 13 para
ou de pesquisa
Assistiva da Rede Nacional de e tecnológica e Núcleos
pública ou
Núcleos de Pesquisa, relacionar-se com a consolidados
privada sem fins
Desenvolvimento e Inovação em classificação de
lucrativos ou a 18 para
Tecnologia Assistiva, com a tecnologia assistiva
2013 empresa pública, Núcleos
finalidade precípua de estabelecida nas
que execute emergentes
desenvolvimento e entrega de diretrizes da ADA,
atividades de
produtos ou serviços adotado pelo CAT e 31 para
CT&I,
tecnológicos voltados ao aplicado na Portaria Núcleos
obrigatoriamente
atendimento das necessidades de Interministerial nascentes
coordenador de
pessoas com deficiência, MF/MCTI/SDH nº.
um núcleo de
incapacidades ou mobilidade 362/2012.
tecnologia
reduzida, visando sua
assistiva.
autonomia, independência,
qualidade de vida e inclusão
social

CNPq/MCTIC/SECIS Nº
20/2016 - TECNOLOGIA
ASSISTIVA Os projetos deverão
estar caracterizados
Projetos de pesquisa sobre
como pesquisa científica
tecnologia assistiva, oriundos de Doutor,
e tecnológica e
Núcleos de Tecnologia vinculado a
relacionar-se com a
Assistiva já constituídos, com a Instituição
classificação de
finalidade precípua de Científica, 34 projetos
tecnologia assistiva
2016 desenvolvimento e entrega de Tecnológica e de (resultado
estabelecida nas
produtos ou serviços Inovação (ICT) preliminar)
diretrizes da ADA,
tecnológicos voltados ao pública ou
adotado pelo CAT e
atendimento das necessidades de privada sem fins
aplicado na Portaria
pessoas com deficiência, lucrativos.
Interministerial
incapacidades ou mobilidade
MF/MCTI/SDH nº.
reduzida, visando sua
362/2012
autonomia, independência,
qualidade de vida e inclusão
social.
Fonte: Adaptado pela autora a partir de CNPq (2018).
232

O primeiro edital do CNPq de 2013 claramente estava associado ao processo de


fomento à estruturação de núcleos no âmbito da RNPDTA, em que podemos corroborar a
existência de núcleos em diferentes níveis maturidade (o que foi configurado pela categoria de
submissão dos núcleos referente a "em consolidação", "emergentes" e "nascentes"), sendo
aprovados ao todo 62 núcleos, ainda que não contemplando os 84 cadastrados na RNPDTA.
O segundo edital, lançado mais recentemente, já não cita o PNDPD, mas mantém partes das
linhas gerais de enquadramento de TA do primeiro, bem como a explicitação dos núcleos de
TA, demonstrando uma continuidade dos moldes de formulação que, em geral, não
observamos nos editais da FINEP, em que as condições, formas de classificação e
enquadramento dos recursos de TA eram substancialmente alterados a cada edital.
Por fim, além da FINEP e CNPq, cabe explicitarmos que a CAPES, agência do MEC,
também lançou edital específico (n° 59/ 2014) para apoio ao que denominou de Programa de
Apoio a Pós-Graduação e à Pesquisa Científica e Tecnológica em Tecnologia Assistiva no
Brasil (PGPTA), em que 15 projetos foram aprovados, enquanto indução temporária de área
estratégica. O que demonstra que os esforços para estruturação do campo de pesquisa e
desenvolvimento de TA no Brasil também envolveu articular o enraizamento da temática no
sistema de pós-graduação, lembrando que este representa a instância principal de produção de
pesquisa e conhecimento científico no país.

4.2.4 Pesquisa Nacional de Inovação em Tecnologia Assistiva

Foram realizadas três (3) pesquisas nacionais sobre TA117 executadas pelo ITS,
referentes aos períodos de 2005-2006 (1ª), 2007-2008 (2ª) e 2011-2013 (3ª). As pesquisas
tiveram seu levantamento de dados e informações orientados a dois propósitos: (1) identificar
e caracterizar organizações e projetos de pesquisa e inovação desenvolvidos no campo da TA,
para compreender o potencial de contribuição em termos de produção de conhecimentos,
produtos e/ou serviços para a inclusão social de pessoas com deficiência; (2) abrangência e
característica de resultados alcançados apurados, com vistas a avaliar políticas públicas no
campo e oferecer feedback para a formulação e implementação destas (DELGADO GARCIA
et al., 2017).

117
As duas primeiras pesquisas foram realizadas sob a denominação "Pesquisa Nacional sobre Tecnologia
Assistiva" (PNTA), e no livro a terceira passou-se a adotar a denominação de "Pesquisa Nacional de Inovação
em Tecnologia Assistiva" (PNITA-III), renomeando no livro de 2017 correspondente a esta pesquisa (2011-
2013) as pesquisas anteriores para esta nomenclatura.
233

Conforme relatório da terceira pesquisa, foram quatro (4) as perspectivas prioritárias


de análise, conforme segue: estudar as trajetórias e tendências das atividades de CT&I118 em
TA no Brasil, com o objetivo de verificar se tem respondido às diretrizes da política pública
de inclusão social das pessoas com deficiência e TA; averiguar as disparidades regionais
brasileiras na produção de CT&I sobre TA; analisar o alcance da participação das pessoas
com deficiência no processo de CT&I em TA e; entender se os produtos e serviços
desenvolvidos em TA conseguem ou não ser comercializados e/ou disponibilizados para
pessoas com deficiência.
Neste sentido, com vistas a oferecer um breve cenário destes pontos no país, iremos
trazer algumas informações da pesquisa para cada uma destas perspectivas. A 3ª pesquisa
identificou 240 projetos em desenvolvimento no período (2011-2013), 131 a mais que a
pesquisa anterior (2007-2008), demonstrando uma ampliação de atividades no campo. Destes
projetos, a maioria (61%) é desenvolvido em organização acadêmicas ou de pesquisa,
preponderantemente nas públicas federais. Houve uma considerável redução da participação
de organizações do terceiro setor, antes com 24% em 2007-2008, passando a 7%, em 2011-
2013, enquanto a participação das empresas manteve estável em 27% neste último período, e
com 6% relacionados a organizações governamentais outras que não acadêmicas ou de
pesquisa.
Observamos, deste modo, uma ênfase de desenvolvimento no âmbito das organizações
de ensino superior e pesquisa, que se reforça ao verificarmos na tabela 20, que a maior parte
dos projetos em desenvolvimento no período de 2011-2013 se referem a projetos de pesquisa,
mantendo aproximadamente o mesmo da pesquisa anterior. O que entendemos que expressa
uma tendência do campo de TA de se conservar centrado no chamado complexo de C&T,
com uma indicação de redução da participação das organizações da sociedade civil nos
projetos.

118
No livro referente ao relatório desta terceira pesquisa (DELGADO GARCIA et al., 2017) é recorrentemente
explicitado somente o termo "inovação", considerando uma "concepção ampla" que incluiu desde atividades de
pesquisa, desenvolvimento tecnológico de produtos, serviços e processos, até a introdução de resultados destes
no mercado. Porém, entendemos que essa concepção ampla pode conduzir a uma indistinção entre atividades da
política de CT&I que, embora inter-relacionadas, podem ser conceitualmente diferenciadas, como exposto, em
pesquisa (que potencialmente inclui o âmbito científica), desenvolvimento tecnológico (que potencialmente
inclui fase iniciais de design de protótipos e fases avançadas de escalonamento de processos) e inovação (que,
pela orientação do Manual de Oslo da OCDE consistiria na agregação destes avanços para efetiva
implementação ou introdução de produtos, serviços e processos no mercado). Assim, apesar do sentido amplo
aplicado contemplar perspectivas como do Manual de Oslo em que a inovação apresenta etapas científicas,
tecnológicas, organizacionais etc., compreendemos que a diferenciação entre ciência, tecnologia e inovação
sejam relevantes na análise da política de CT&I, uma vez que uma crítica existente nesta política é sua contínua
ênfase sobre o alcance de resultados científicos e acadêmicos, e menor efetividade de resultados em inovação.
Portanto, optamos por usar a expressão "CT&I", em vez de resumir esse universo de distintas atividades no
termo inovação.
234

Tabela 20 – Percentual de projetos de TA por tipo de desenvolvimento


Projeto de TA por tipo de desenvolvimento PNITA 2007-2008 PNITA 2011-2013
Desenvolvimento de pesquisa 52,3 52,5
Desenvolvimento de Produto 22,9 35,8
Desenvolvimento de serviço 24,8 11,7
Fonte: Adaptada pela autora a partir de Delgado Garcia et al. (2017).

Outra perspectiva da PNITA correspondia a questão das disparidades regionais no


desenvolvimento de TA no país. De acordo com a tabela 21, examinamos que a distribuição
de projetos de TA mantém substancialmente assimétrica entre os estados brasileiros, embora
esta distribuição esteja menos assimétrica no período de 2011-2013 do que em relação a
2007-2008, considerando os esforços de ampliação territorial de pesquisas em TA realizados
no âmbito da RNPDTA e dos editais de fomento nacionais. Zulian e Zanetti (2015) também
encontram assimetria regional similar na distribuição de núcleos de TA na RNPDTA.
Chamamos atenção ainda a duas observações, uma que se refere ao número de oito (8)
estados que no período de 2011-2013 não foram identificados com qualquer projeto de TA em
desenvolvimento, sendo que cinco (5) destes localizados na região norte. E outra que, além da
assimetria entre as regiões e os estados, esta assimetria deve se refletir mais intensamente
internamente nestes estados entre seus municípios, considerando a atual concentração na
distribuição de organizações do complexo de C&T.
Uma vez que a pesquisa e desenvolvimento de TA tem se centrado em organizações
do complexo de C&T nacional, que por si são desigualmente distribuídas no país, a tendência
de concentração em pesquisas de TA segue padrão similar de concentração dos indicadores de
C&T gerais (RODRIGUES; VASCONCELLOS SOBRINHO; FERREIRA, 2017). Em
sentido semelhante, conforme relatório da pesquisa 2011-2013, Delgado Garcia et al. (2017)
também relacionam esta assimetria ao "efeito Mateus" de tendência a assimetria na
distribuição de recursos e resultados científicos.
A terceira perspectiva prioritária da PNITA 2011-2013 aborda o tema da participação
do usuário nos projetos de TA desenvolvidos no Brasil, especificamente a participação das
pessoas com deficiência. Duas questões foram direcionadas a esta temática na pesquisa, uma
primeira solicitava a identificação geral se houve ou não participação do público-alvo no
projeto, e uma segunda questão que requeria a qualificação do tipo de participação exercido,
com vistas a proporcionar uma identificação mais específica do que se considerou
participação.
235

Tabela 21 – Distribuição de projetos de TA por estado e Distrito Federal no Brasil


Estados Região PNITA 2007-2008 PNITA 2011-2013
AC Norte 2 0
AM Norte 1 3
AP Norte 0 0
PA Norte 0 11
RO Norte 0 0
RR Norte 0 0
TO Norte 0 0
Subtotal Norte 3 14
AL Nordeste 0 7
BA Nordeste 4 3
CE Nordeste 0 11
MA Nordeste 0 1
PB Nordeste 0 1
PE Nordeste 2 6
PI Nordeste 0 0
RN Nordeste 0 3
SE Nordeste 0 0
Subtotal Nordeste 6 32
DF Centro-Oeste 3 10
GO Centro-Oeste 0 3
MS Centro-Oeste 1 2
MT Centro-Oeste 0 0
Subtotal Centro-Oeste 4 15
ES Sudeste 1 6
MG Sudeste 3 36
RJ Sudeste 17 20
SP Sudeste 31 60
Subtotal Sudeste 52 122
PR Sul 3 19
RS Sul 36 24
SC Sul 6 14
Subtotal Sul 45 57
Total 110 240
Fonte: Adaptada pela autora a partir de Delgado Garcia et al. (2017).

Conforme a questão geral, a maior parte dos projetos de TA teve a participação regular
do público-alvo (50,8%), um percentual menor de projetos teve participação esporádica
(38,8%), e 10,4% dos projetos não contemplou participação. No entanto, ao discriminar as
formas de participação, o resultado da pesquisa (disposto na tabela 22) indica que 15,4% dos
projetos caracterização a participação do público-alvo enquanto unicamente como objeto de
estudo, o que, na realidade, descaracteriza uma participação efetiva deste público ao significar
236

um papel passivo. Portanto, a PNITA conclui que 20,7% dos projetos de TA no país não
contemplaram a participação de pessoas com deficiência em seu escopo.

Tabela 22 – Projetos de tecnologia assistiva por tipo de participação específica do público-alvo


no âmbito da PNITA 2011-2013
Tipos de participação Percentual (%)
Não participou 5,3
Participou unicamente como objeto de estudo 15,4
Participou durante a fase de elaboração 28,2
Participou durante a fase de testes 38,5
Participou da equipe técnica 12,6
Fonte: Adaptada pela autora a partir de Delgado Garcia et al. (2017).

O maior percentual de tipo de participação foi referente a fase de testes (38,5%), o que
representa uma capacidade de influência mais restrita dos usuários ao design, que seria uma
modalidade mais próxima a consulta), visto que as decisões de desenvolvimento foram
tomadas pelos pesquisadores ou especialistas, de modo que ao usuário cabe testar um modelo
já definido de produto, serviços e sistema, dentro de uma proposta cognitiva já modelada, bem
como a propensão a alterações no projeto por parte da equipe técnica tende a ser em menor
extensão, uma vez que o comprometimento cognitivo e pragmático de termos de escolhas
técnicas e de finalidade, de tempo e de dedicação já ser elevado, passando a serem entendidas
como ajustes e correções, dificilmente importando em modificações nucleares no design. Por
fim, a participação ativa, em condições mais horizontais de oportunidades de influência no
processo de decisão, ocorreu em somente 12,6% dos projetos, em que o público-alvo foi parte
da equipe técnica.
Como visto na seção anterior, a recomendação de participação ativa das pessoas com
deficiência de projetos de TA se relaciona tanto ao processo de empoderamento e
engajamento deste público, quanto a melhoria na assertividade das pesquisas e adequação do
design de produtos, serviços e métodos aos seus usuários, reduzindo o risco de abandono do
recurso. Desta maneira, Delgado Garcia et al. (2017) sugerem a necessidade de uma reflexão
sobre a efetividade desta participação nos projetos de TA no país, de modo a potencializar
essa participação seja na governança das políticas, seja no desenvolvimento das pesquisas e
projetos.
Zulian e Zanetti (2015) alertam que a preocupação nacional expressa no PNDPD na
direção de uma mudança no cenário de acesso a TA pelo usuário brasileiro tem como uma das
diretrizes basilar à participação dos usuários nas pesquisas e desenvolvimentos de TA, de
237

modo a assegurar o atendimento das demandas e necessidades desta parcela da população.


Contudo, ainda que a importância da participação dos usuários seja uma recomendação do
CNRTA nas articulações com os núcleos e uma diretriz explícita da RNPDTA, as autoras
ainda realçam que merece maior atenção pelas equipes de pesquisa e desenvolvimento.
Consoante com os resultados da PNITA 2011-2013, elas reportam, conforme mapeamento
realizado pelo CNRTA em 2014, que dos 84 núcleos da RNPDTA 54 não apresentaram
qualquer informação sobre a participação do usuário nas pesquisas, mesmo considerando que
houve diferentes formas de levantamento de dados junto a estes núcleos.
Sobre o aspecto qualitativo das participações registradas neste mapeamento do
CNRTA, Zulian e Zanetti (2015) advertem para uma lacuna no entendimento sobre como
deve ocorrer a participação do usuário no projeto de TA, uma vez que esta participação,
quando registrada como existente, estava ligada predominantemente à fase de teste de
protótipos exclusivamente, resultado novamente similar a PNITA 2011-2013. Para as autoras,
tal prática restrita de participação dos usuários que não se envolve nas fases de concepção e
desenvolvimento pode comprometer a assertividade das pesquisas e usabilidade dos produtos,
levando que os produtos ou recursos desenvolvidos (com alocação de verbas públicas)
venham a ser subutilizados posteriormente pela população alvo. Elas ainda ressalvam que tal
participação dos usuários poderia ter acontecido na maior parte dos projetos da RNPDTA,
visto que existem na rede diversas parcerias com organizações de atendimento às pessoas com
deficiência (ZULIAN; ZANETTI, 2015).
Por fim, a quarta perspectiva privilegiada de análise da 3ª PNITA foi a avaliar a
eficácia dos produtos e serviços desenvolvidos em TA em alcançar uso pelas pessoas com
deficiência. A tabela 23 observamos que a maioria dos projetos (60%) conseguiu introduzir
no mercado ou disponibilizar um produto ou serviço ao público-alvo, contudo também é
elevado o percentual de projetos (40%) que não conseguiram alcançar resultados diretos as
pessoas com deficiência. Por meio do mapeamento da RNPDTA, realizado pelo CNRTA,
Zulian e Zanetti (2015) identificaram que dos 84 núcleos da rede, 29 núcleos haviam
disponibilizado 115 produtos a usuários até 2014, a maior parte destes localizados na região
sudeste, seguida da sul. Neste mapeamento, as autoras verificaram que a maior parte dos
núcleos com produtos disponibilizados (22) tinham mais de 3 anos de funcionamento, e
muitos dos produtos disponibilizados estavam em desenvolvimento antes do edital de
fomento específico a RNPDTA. Estas informações indicam que há uma concentração de
disponibilidade de produtos em 35% dos núcleos da rede, provavelmente aqueles com grau de
238

estruturação e maturidade maior que pode se relacionar ao maior tempo de funcionamento, e


que, em geral, localizados na região sudeste e sul.

Tabela 23 – Resultados gerais de projetos de TA em termos de introdução no mercado e/ou


disponibilidade ao público-alvo
Resultados gerais a introdução de produtos ou serviços Número de Percentual
no mercado e/ou disponibilidade a público-alvo projetos de TA
Não conseguiu introduzir/disponibilizar 95 40%
Sim, conseguiu introduzir/disponibilizar produto 108 45%
Sim, conseguiu introduzir/disponibilizar serviço 37 15%
Fonte: Adaptada pela autora a partir de Delgado Garcia et al. (2017).

Para uma aproximação aos principais desafios para alcançar a comercialização ou


disponibilidade de produtos e serviços às pessoas com deficiência, a PNITA levantou as
dificuldades de desenvolvimento dos projetos de TA (tabela 24). A dificuldade mais relatada
foi de insuficiência de recursos financeiros, o que pode, por um lado, corresponder a análise
de Almeida (2015) quanto a dificuldade de escalonamento do processo produtivo, uma vez
que a maioria das empresas no ramo de TA no país eram micro e pequenas, caracterizando o
mercado enquanto ainda incipiente.

Tabela 24 – Dificuldade(s) para desenvolvimento dos projetos de TA


Respostas sobre dificuldades Nº de respostas Percentual
Não houve dificuldade 51 21,3%
Dificuldade de ausência ou insuficiência de recursos humanos 87 36,3%
Dificuldade de ausência ou insuficiência de recursos financeiros 133 55,4%
Dificuldade de inserção ou penetração no mercado 50 20,8%
Outras dificuldades 42 17,5%
Fonte: Adaptada pela autora a partir de Delgado Garcia et al. (2017).

Bueno (2016) também corroborou via entrevistas dificuldades na relação entre


pesquisadores e empresas, sendo que o principal gargalo seria que as empresas, em geral, não
tinham experiência no desenvolvimento de TA, visto que esse mercado seria bastante pautado
pela comercialização de produtos importados e muito ramificado entre diferentes tipos de
produtos e serviços (saúde, engenharia, softwares etc.).
Cabe lembrarmos, que outra diretriz da PNDPD está no desenvolvimento de produtos
de baixo custo, que seriam economicamente viáveis para a maioria da população que deles
necessita. Porém, não temos informações sobre como esse direcionamento está sendo
contemplado nos projetos da PNITA.
239

4.3 COMPOSIÇÃO DE POSIÇÕES DISCURSIVAS PARA DESENVOLVIMENTO E


PROVISÃO DE TECNOLOGIA ASSISTIVA NO ÂMBITO DA POLÍTICA DE CT&I

Políticas para desenvolvimento de TA tendem a confluir orientações discursivas


advindas de políticas para garantia de direitos para pessoas com deficiência com orientações
discursivos próprias da política de CT&I, cujo desenvolvimento tecnológico envolverá, em
alguma medida, os atores políticos (e suas crenças) típicos da C&T, cientistas e
pesquisadores. Desta maneira, buscamos nesta seção fazer algumas ponderações sobre as
relações entre os discursos119 de orientação da política de CT&I, discernidos no capítulo 2, e
as orientações discursivas associadas aos modelos sobre deficiência abordados na seção
anterior.
Galvão Filho (2013) mencionava como um dos novos desafios do campo da TA que
diante do emergente crescimento deste, principalmente pela ampliação do fomento à pesquisa
e desenvolvimento, aumentaria também os riscos de distorções e imprecisões conceituais.
Deste modo, era necessário um esforço para sustentar uma coerência entre a concepção ampla
(no sentido de transversal e interdisciplinar) da TA, que atravessa diferentes fronteiras entre
áreas do conhecimento; ao mesmo tempo que, se mantivesse um compromisso finalístico
desta concepção direcionada às necessidades das pessoas com deficiência, a partir do modelo
social de deficiência.
Entendemos semelhante a preocupação de Garcia (2014) em reconhecer e refletir
sobre a existência de tensões nos conceitos e nas práticas sociais no âmbito da TA. O autor
propõe exames da relação entre a concepção expressa e a prática exercida pelos atores no que
tange a visão de deficiência, a atuação na política pública e o desenvolvimento da TA, visto
que estes podem tanto revelar situações contraditórias, quanto indicar propostas e estratégias
de superação de impasses.
Na perspectiva desta pesquisa, consideramos que o campo da TA enquanto
relativamente recente e compondo um espaço de confluências entre dois domínios de políticas
que, embora interligados neste tema, possuem trajetórias discursivas específicas.
Consequentemente, compreendemos que, ao menos, parte das tensões conceituais ou
contradições entre estes conceitos e suas práticas sociais advém das buscas dos atores sociais
em acoplar os conteúdos discursivos sobre deficiência e sobre desenvolvimento tecnológico

119
Possíveis relações entre discursos são também denominadas como interdiscursividade na ADC, que
representa uma forma de análise sobre as diferenças relações que um discurso pode estabelecer com outros,
como expressando um sentido de oposição, de superioridade/inferioridade (relações de concorrência), de
colaboração, de busca de legitimidade, entre outras.
240

desta confluência temática, de modo a conformar o processo de política e de pesquisa em TA.


Aqui, retomando a noção que os discursos são constituídos (pelas) e constituem as práticas
sociais dos atores políticos nelas vem a se envolver.
No que tange às políticas para garantia de equiparação de direitos e oportunidades para
pessoas com deficiência, as duas principais orientações discursivas recorrentemente citadas
em diversos trabalhos correspondem aos modelos médico e social de deficiência. No capítulo
referente à Comissão de Temática de Conceituação e Estudo de Normas do CAT (BRASIL,
2009), é anexo um quadro referente a dois paradigmas de prestação de serviços na política de
TA proposto em 2006 no âmbito do Programa de Certificação em Aplicações da Tecnologia
Assistiva da California State University Northridge, conforme quadro 19. Neste quadro,
observamos um paradigma de déficit individual, que corresponde ao modelo médico de
deficiência, e outro paradigma tecnológico-ecológico associado ao modelo social de
deficiência.
Por todos os materiais analisados neste capítulo, o modelo médico se encontra
amplamente em declínio em termos das orientações discursivas dos principais instrumentos
de política se considerarmos tanto as concepções da CIF no âmbito da OMS, quanto da
própria CDPcD na ONU. No entanto, como alertam Barnes (2012) e Garcia (2014) esta
transição para a proposta de um modelo social ou integrado de intervenção que considere
todos aspectos biológicos, psicológicos e sociais equilibradamente ainda se encontra em
disputa com as práticas anteriormente institucionalizadas, e, portanto, enraizadas ao longo do
tempo pelo modelo médico seja nos processos de políticas, seja nas ações de assistência, seja
nas pesquisas científicas e tecnológicas.
Compreendendo este movimento nas concepções dos modelos sobre deficiência, que
por si já apresenta suas próprias disputas discursivas e de práticas sociais, precisamos também
considerar que no âmbito da política de TA vem agregar neste às orientações discursivas das
concepções e representações de crenças, valores e problemas afetos a questão do
desenvolvimento científico e tecnológico, suas práticas e instituições particulares. Por isso,
nesta subseção, de forma propositiva fazemos algumas reflexões tentando entender as
interações entre as orientações discursivas sobre deficiência e sobre CT&I.
Entendemos que a concepção de déficit individual, particularmente no que tange aos
aspectos de autoridade e centralidade que o conhecimento técnico-científico assume frente as
demais formas de conhecimentos e atores sociais, incluso as próprias pessoas com deficiência,
tenderia a ter suas práticas mais propensas confluírem ao discurso da C&T auto orientada.
Provavelmente, durante as três décadas seguintes do pós-Guerra estas orientações discursivas
241

se alinhavam no que tange as pesquisas científicas e tecnológicas no âmbito da questão da


deficiência sem encontrar maiores atritos. Visto que, nesta concepção o papel do
conhecimento científico e técnico, em particular nas especialidades da saúde, assume posição
de autoridade sobre o paciente ou usuário, conduzindo a uma relação top-down na tomada de
decisão sobre implementação de tratamento e/ou de desenvolvimento tecnológico, em que as
decisões ficam centradas nos pesquisadores e as pessoas com deficiência, constituem-se mais
provavelmente enquanto objetos de estudo para intervenção.

Quadro 19 – Paradigmas de Prestação de Serviços na Política de Tecnologia Assistiva


Elementos Paradigma do Déficit Individual Paradigma Tecnológico-Ecológico
Sistemas de recursos de TA: informações,
Foco do O paciente, o cliente, o estudante, o
financiamento, disponibilidade e
Paradigma indivíduo com deficiência
desenvolvimento de TA.
Falha individual na realização das
Natureza do principais atividades de vida tais como: Falta de acesso aos recursos apropriados:
Problema caminhar, ver, trabalhar, aprender, ferramentas informações e treinamento.
autocuidado.
Um desencontro entre os objetivos, as
Origem do Um defeito físico, mental ou emocional capacidades do indivíduo e os recursos do
Problema do indivíduo ambiente, a “medicalização” na busca da
solução de problemas através de recursos
Relatos amplos e consistentes sobre erros ao
A incontestável observação da adquirir a TA apropriada para pessoas com
deficiência do indivíduo e a deficiência; níveis extensos de pobreza,
Evidência que o
confirmação por diagnóstico médico; desemprego e segregação entre pessoas com
Problema Existe
dependência dos serviços de saúde, deficiência; poucos ganhos em amenizar um
suporte médico e outros serviços problema mesmo depois de enormes gastos
com recursos.
Consequências Internalização de um “status” de
Internalização do papel do diferente e
do Problema para consumidor/cliente e externalização da ação
aceitação de um “status” menor.
o Indivíduo de adquirir recursos
Restauração da função quando possível, Acesso a TA que apoia objetivos
Busca de Solução ou adaptação para o déficit. Ex.: utilizar econômicos, sociais, educacionais e
muletas ou membro artificial. comunitários.
Avaliação médica e tratamento de Desenvolvimento de tecnologia e de
reabilitação, educação especial, sistemas de serviços integrados que são
Estratégias
tecnologia de reabilitação, serviços direcionados às expectativas e necessidades
Empregadas
designados para uso exclusivo de do consumidor; sistema guiado pelo
pessoas com deficiência. mercado.
Ganhos em habilidades funcionais A remoção de barreiras sistêmicas e
individuais (ex.: habilidade para estruturais, considerando a si mesmo e
caminhar, habilidades comerciais sendo considerado como uma pessoa capaz;
Consequências
adquiridas) aceitação e confianças nos maior confiança nas ferramentas
das Estratégias
sistemas de serviços, internalização do econômicas, ambientais, legais e sociais
papel e do comportamento de ser um utilizadas e valorizadas pelo “padrão
paciente ou cliente. americano”.
Promover capacidade funcional, retorno
Resultados ao trabalho, promover ajustes Oportunidades iguais, liberdade de escolha,
Pretendidos personalizados, menor suporte de realização de objetivos pessoais.
serviços.
Fonte: Programa de Certificação em Aplicações da Tecnologia Assistiva da California State University
Northridge em Brasil (2009).
242

Em termos de desenvolvimento tecnológico especificamente, a concepção de déficit


individual e da C&T auto orientada tendem a ser auto reforçar quanto a centralidade dos
pesquisadores e especialistas, que baseados em seus conhecimentos científicos, deteriam as
melhores condições de tomar decisões "técnicas" adequadas sobre a concepção e
desenvolvimento de produtos e serviços. Neste sentido, são estes atores sociais que tendem a
dirigir a agenda de desenvolvimento tecnológico, que se daria principalmente por meio de
projetos de pesquisa e desenvolvimento.
Na concepção tecnológica-ecológica, já observamos características desenvolvidas no
modelo social de deficiência que privilegiam a participação e a prevalência da tomada de
decisão da pessoa com deficiência, em um modelo mais interativo de desenvolvimento
tecnológico. A partir desta percepção, concebemos que há o reconhecimento da TA como um
constructo sociotécnico, sendo relevante considerar a participação dos usuários, pessoas com
deficiências, para desenvolvimento adequado de recursos e atividades de TA e acompanhar as
interações daqueles com os produtos assistivos.
Contudo, na perspectiva exposta do quadro 19, também há uma ênfase em considerar
que a pessoa com deficiência assume o papel principal de "consumidor/cliente", indicando
que o desenvolvimento tecnológico é direcionado "às expectativas e necessidades do
consumidor" e por um "sistema guiado pelo mercado". Este posicionamento nos conduz a
compreender que a concepção tecnológica-ecológica esteja alinhado ao discurso da CT&I
orientada para o mercado, cujo desenvolvimento tecnológico e provisão de TA está focado em
processos de inovação centrado em empresas/mercado para atendimento da pessoa com
deficiência enquanto consumidor, ou seja, um enfoque mais voltado a demandas
(necessidades ou interesses somados a capacidade de compra para tal) do que a necessidades
em si. A própria perspectiva sistêmica de TA também apresenta facilidade de diálogo com
abordagens de sistemas de inovação.
Entretanto, averiguamos também nas discussões expostas na seção anterior as
advertência de pesquisadores quanto a insuficiência de atendimento das necessidades de todas
as pessoas com deficiência, principalmente relacionada a problemas relacionados a
precariedade de renda, como, por exemplos, a falta de disponibilidade de produtos e serviços
acessíveis em que contextos de baixa renda e que, mesmo em programas de concessão de
empréstimos subsidiados em países desenvolvidos, substancial parte da população que precisa
de TA não é contemplada.
Essas críticas tem conduzido pesquisadores a reconhecerem falhas de mercado e de
políticas na provisão de TA, e fazerem recomendações diversas no sentido de que seja
243

necessário criar soluções alternativas nas distintas facetas de um sistema de TA para um


amplo atendimento às pessoas com deficiência, como: soluções de financiamento e provisão
públicos ou por arranjos híbridos; reflexões sobre a tendência atual de desenvolvimento de
produtos de alta intensidade tecnológica, que ao implicar em valores mais agregados (preços
mais elevados) tende a excluir a maior parte da população que deles precisam; e a defesa de
uma atribuição mais ativa e abrangente das pessoas com deficiência, para além de sua conduta
como consumidores, que venham a assumir um papel mais integral de cidadãos, fortalecendo
suas atuações sócio-políticas de ações em organizações da sociedade civil e nos processos de
políticas públicas.
Estas observações nos fazem supor que o modelo social de deficiência possa gerar
aproximações tanto ao discurso da CT&I orientada para o mercado quanto ao discurso da
CT&I orientada para a sociedade. O alinhamento do modelo social da deficiência com um
discurso da CT&I orientada para a sociedade comporia distinções não somente ao paradigma
de déficit individual, mas também ao paradigma tecnológico-ecológico de prestação de
serviço de TA.
Como o discurso da CT&I orientada para a sociedade, as atividades de TA mantêm
uma perspectiva sistêmica, mas como o enfoque desse discurso é de ênfase distributiva (e não
somente agregativa), sensíveis as diferentes clivagens sociais, seu foco de atendimento e
desenvolvimento não estaria na intensificação do avanço tecnológico dos sistemas de recursos
de TA guiados por demandas de mercado, e sim em um desenvolvimento tecnológico com
maior pluralidade que se adeque as diferentes condições de vida e experiência das pessoas
com deficiência. Guiados pelo objetivo principal de ampliar a população atendida, o foco
posiciona-se em reduzir os efeitos cumulativos da dinâmica de desigualdades atual no
desenvolvimento de TA, emergindo enfoques para soluções de baixos custos, baixa
intensidade tecnológica e com atenções específicas a questões de acesso e participação de
pessoas com deficiência com diversidade de condições de renda, gênero, cor, idade,
localização territorial etc. Neste caso, a consideração da TA enquanto constructo sociotécnico
(tese forte) conduz a considerar que a concepção e desenvolvimento de recursos de TA deve
não somente incluir um perfil de pessoas com deficiência (implícito em geral neste perfil
alguma capacidade de compra), mas sim abranger uma pluralidade de pessoas com deficiência
em uma diversidade de condições de desigualdades.
Deste modo, o principal problema de falta de acesso a TA está em um desencontro
entre uma relativa restrita demanda percebida (que direciona o desenvolvimento de TA
preponderantemente em países desenvolvidos em trajetórias de intensificação tecnológica) e
244

um amplo conjunto de necessidades não atendidas e não atendíveis via condições de mercado
atual, para qual soluções tecnológicas alternativas e plurais são requeridas. Assim, são
enfatizadas soluções de baixa intensidade tecnológica e de baixo custo, cuja provisão possa
ser realizada de forma flexível por arranjos alternativos, envolvendo possíveis parcerias com
organizações da sociedade civil relacionadas a garantia de direitos das pessoas com
deficiência.
Assim, as pessoas com deficiência e suas organizações são reconhecidas não somente
enquanto suas necessidades ou demandas de consumo, mas enquanto potencialmente
provedoras de conhecimentos, de propostas de soluções e de execução de atendimentos, ao
menos parcialmente, a estas necessidades. Este status confere uma relação mais horizontal da
participação dessas pessoas e suas organizações junto a pesquisadores, formuladores de
políticas ou executivos de empresas para efetiva coprodução de TA, incluindo a conformação
de uma agenda política de desenvolvimento tecnológico e de provisão.
De forma propositiva, partindo do quadro 19 do Programa de Certificação em
Aplicações da Tecnologia Assistiva da California State University Northridge, sugerimos
uma terceira concepção para provisão e desenvolvimento de TA, resultante de um
alinhamento entre o modelo social de deficiência e o discurso da CT&I orientada para a
sociedade constante no quadro 20.

Quadro 20 – Proposição de concepção para desenvolvimento e provisão de tecnologia assistiva, a


partir de um alinhamento entre a orientação discursiva do modelo social de deficiência e da CT&I
socialmente orientada
Elementos Discurso Socialmente Orientado
Desigualdades no acesso a TA por diferentes grupos sociais requer reduzir
Foco do Paradigma
efeitos cumulativos no desenvolvimento e provisão de TA
Natureza do Problema Acesso restrito da população que necessita de recursos TA.
Um desencontro entre uma relativa restrita demanda percebida (com trajetória
Origem do Problema de intensificação tecnológica) e um amplo conjunto de necessidades não
atendidas e não atendíveis via condições de mercado atual
Evidencias diversas de falta de acesso da maior parte da população que precisa
Evidência que o Problema
de recursos de TA, exemplo, 1 a cada 10 pessoas que precisam de algum
Existe
recurso de TA consegue acesso, segundo OMS (2018).
Consequências do Internalização de um “status” de cidadão e externalização da ação de buscar
Problema para o Indivíduo equiparação de direitos a todos
Acesso a TA que apoia objetivos econômicos, sociais, educacionais entre outros
Busca de Solução
a partir dos valores e trajetórias próprios de cada comunidade.
Desenvolvimento de soluções de TA direcionado às diversas necessidades de
Estratégias Empregadas pessoas por meio de variadas formas de arranjos, com papel realçado a parcerias
com organizações da sociedade civil.