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A Terra teria déficit ambiental global mesmo sem os ricos

José Eustáquio Diniz Alves


Doutor em demografia, link do CV Lattes:
http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

A economia é um subsistema da ecologia. Desta forma, a Pegada Ecológica gerada pela


economia não pode ser maior do que a biocapacidade fornecida pela ecologia. Para manter a
sustentabilidade e garantir o adequado padrão de vida da humanidade, sem degradar as
condições ambientais, a Pegada Ecológica, no longo prazo, não pode ser maior do que a
Biocapacidade do Planeta. Assim, é insustentável manter o crescimento da produção e consumo
de bens e serviços acima da capacidade de carga do meio ambiente.

A Terra é um Planeta finito. Isto significa que os seres vivos possuem um espaço comum e
delimitado para a sobrevivência conjunta. O crescimento exponencial de uma espécie provoca
a redução do espaço para a vida de outras espécies, diminuindo a disponibilidade de solos e
água potável.

Segundo a Global Footprint Network, a população mundial em 2016 era de 7,5 bilhões de
habitantes, com uma pegada ecológica total de 20,6 bilhões de hectares globais (gha) e uma
biocapacidade total de 12,2 bilhões de gha. A pegada ecológica per capita estava em 2,75 gha e
uma biocapacidade per capita de 1,63 gha. Assim, a Terra tinha um déficit per capita de 1,12 gha
(ou um déficit total de 8,2 bilhões de gha). Ou seja, para manter o consumo humano de 2016
seria necessário 1,69 planeta. Portanto, o nível das atividades antrópicas é insustentável em
termos ecológicos. O Dia da Sobrecarga ocorreu em 5 de agosto em 2016.

Mas a economia internacional é marcada por grandes desigualdades e, evidentemente, as


pessoas mais ricas consomem mais e degradam mais o meio ambiente, ocorrendo o contrário
com as pessoas mais pobres. A tabela abaixo mostra que a população mundial de baixa renda,
em 2016, era de 927 milhões de pessoas e tinha uma pegada ecológica e um biocapacidade per
capita de 1,04 gha. Portanto, havia equilíbrio entre os dois indicadores e não havia nem déficit
nem superávit ambiental. Neste nível de consumo, a pegada total seria de apenas 0,64 planeta
e haveria sustentabilidade ambiental.

Já a população de renda média-baixa, constituída de 2,8 bilhões de pessoas em 2016, tinha uma
pegada ecológica per capita de 1,36 gha e uma biocapacidade per capita de 0,84 gha. Portanto,
havia um déficit de 0,52 gha per capita ou um déficit de 1,5 bilhão de gha. Porém, o nível de
consumo desta camada da população é baixo e se toda a população tivesse o mesmo nível da
pegada ecológica per capita (1,36 gha) a pegada total seria de 10,1 bilhões de gha, o que daria
somente 0,83 planeta e haveria sustentabilidade ambiental. Ou seja, um nível de consumo que
representasse uma pegada ecológica per capita de até 1,63 gha seria compatível com a
biocapacidade de 1,63 gha de 7,5 bilhões de habitantes.

As populações de baixa renda e de renda média-baixa, num total de 3,7 bilhões de habitantes,
com pegada ecológica per capita abaixo da biocapacidade global per capita (1,63 gha) vivem
dentro da sustentabilidade ambiental. Mas são pessoas que possuem muitas carências materiais
e não possuem vidas sustentáveis em termos sociais.

Já as pessoas de renda média-alta e renda alta possuem sustentabilidade social, mas não
ambiental. A população de renda média-alta, constituída de 3,4 bilhões de pessoas em 2016,
tinha uma pegada ecológica per capita de 3,41 gha e uma biocapacidade per capita de 2,26 gha.
Portanto, havia um déficit de 1,15 gha per capita ou um déficit de 3,1 bilhões de gha. Se toda a
população tivesse o mesmo nível da pegada ecológica per capita (3,41 gha) a pegada total seria
de 25,5 bilhões de gha, o que daria 2,09 planetas e não haveria sustentabilidade ambiental. Com
uma pegada ecológica de 3,41 gha só haveria sustentabilidade na Terra se a população global
fosse de 3,57 bilhões de habitantes em 2016. Isto é, para haver sustentabilidade em um quadro
de consumo per capita mais alto seria preciso haver um volume populacional menor.

Entre a população de alta renda, constituída de 1,13 bilhão de habitantes em 2016, a pegada
ecológica per capita era de 5,97 gha e a biocapacidade per capita era de 2,26 gha. Portanto,
havia um déficit de 3,12 gha per capita ou um déficit de 3,6 bilhões de gha. Se toda a população
tivesse o mesmo nível da pegada ecológica per capita (3,41 gha) a pegada total seria de 44,6
bilhões de gha, o que daria 3,7 planetas e não haveria o mínimo de sustentabilidade ambiental.
Com uma pegada ecológica de 5,97 gha só haveria sustentabilidade na Terra se a população
global fosse de 2 bilhões de habitantes em 2016.

Sem dúvida os ricos consumem muito e possuem alto impacto ambiental. Porém, mesmo se
eliminássemos o 1,13 bilhão de habitantes de alta renda – que possuíam uma pegada ecológica
total de 6,7 bilhões de gha em 2016 – o mundo continuaria com déficit ambiental, pois o restante
dos 6,4 bilhões de habitantes teriam uma pegada ecológica total de 13,9 bilhões de gha, superior
aos 12,2 bilhões de gha da Biocapacidade total do Planeta.

Desta forma, o quadro ambiental do mundo é mais grave do que simplesmente zerar o consumo
dos ricos. Os pouco mais de 6 bilhões de habitantes de renda baixa e renda média já são
suficientes para colocar a Terra no caminho do colapso ecológico. Os cálculos anteriores não
tiram as responsabilidades dos países desenvolvidos como os maiores poluidores do Planeta.
Apenas mostram a real dimensão dos problemas causados pela interação entre consumo e
população.

É compreensível que as populações dos países pobres aspirem níveis mais elevados de
desenvolvimento e consumo. Todavia, reproduzir o modelo dos países ricos e poluidores seria
um desastre total para o meio ambiente. A luta por mais renda, educação, saúde, moradia,
transporte, acesso à informação, lazer, etc., é justa. Porém, o aumento da pegada ecológica per
capita só é viável com a diminuição do volume da população.

Hoje em dia, simplesmente distribuir a riqueza e o consumo humano não resolve os problemas
ambientais globais. O consumo médio da população mundial já ultrapassou os níveis de
sustentabilidade ambiental. Se a pegada ecológica de 2,75 gha de 2016 for completamente bem
distribuída e todos os habitantes da Terra conseguirem um padrão médio e decente de
consumo, mesmo assim haveria déficit ambiental com o atual número de habitantes. Para uma
pegada ecológica per capita de 2,75 gha só haveria sustentabilidade ambiental com 4,4 bilhões
de pessoas. Se a população for de 7,5 bilhões de habitantes então a pegada ecológica per capita
tem que cair para 1,6 gha. Uma alternativa é ter uma população de 6 bilhões com pegada
ecológica per capita de 2 gha.

Ou seja, no momento atual em que a humanidade já ultrapassou os limites da resiliência do


Planeta há três alternativas: 1) diminuir muito o consumo; 2) diminuir muito a população; ou 3)
diminuir um pouco o consumo e um pouco a população. O fato é que o decrescimento
demoeconômico é o único caminho viável para se chegar à sustentabilidade ambiental.