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UNIVERSIDADE COMUNITÁRIA DA REGIÃO DE CHAPECÓ

(UNOCHAPECÓ)
Curso de Graduação em Psicologia

Rafael Mezzaroba

INTERVENÇÃO PSICOLÓGICA E EXPERIÊNCIA ESTÉTICA: A FOTOGRAFIA COMO


DISPOSITIVO GRUPAL EM UM CAPSAD III

CHAPECÓ – SC, Maio de 2018.


RAFAEL MEZZAROBA

INTERVENÇÃO PSICOLÓGICA E EXPERIÊNCIA ESTÉTICA: a fotografia como


dispositivo grupal em um CAPSad III

Trabalho de Conclusão de Curso de Graduação


apresentado ao Curso de Psicologia da Universidade
Comunitária da Região de Chapecó (Unochapecó)
como requisito parcial à obtenção do título de
bacharel em Psicologia
Professor orientador: Dr. Murilo Cavagnoli

Chapecó – SC, Maio de 2018.


AGRADECIMENTOS

Acredito que pensar em agradecimentos, para além da sala de aula, é pensar nas pessoas
que fizeram parte da formação e foram importantes nessa trajetória. Algumas dessas pessoas
estiveram comigo desde o começo, algumas foram sendo inseridas durante esse processo,
porém todas têm grande importância, não apenas em minha formação, mas também em minha
vida.
Inicialmente gostaria de agradecer meu pais, Iracema Prestes Mezzaroba e Itacir Roque
Mezzaroba, sem os quais não seria o que sou. Agradeço pelo apoio, paciência e compreensão
nos momentos em que não pude ser presente em nossa família.
Gostaria de agradecer ao meu orientador Murilo Cavagnoli, que durante a graduação se
tornou mais do que professor e orientador, se tornou um grande amigo. Amigo sem o qual esse
trabalho não seria possível.
Agradeço também a todos os Biguás que fizeram parte dessa caminhada: Alisson
Maurício Monteiro; Anderson Leonardo Rohden; Anderson Mascarello; Andrei Petzinger;
Cledimar Mezzomo; Eduardo Fabrin Wildner; Elizeti Pereira Menezes (quem pensou que não
ia aparecer aqui); Fábio Roberto Altreider (olha o que que eu tenho aqui ó, o TCC pronto); Gabi
Alberti; Igor Oliveira; Isis Dettweiler; Marcelo Verno Schabarum; Mateus Luiz Franz Troyack;
Matheus Vieira; Paulo Cesar Cibulski; Rafael de Souza Tavares. Ainda agradeço, em especial,
a Guilherme Marafon pelas conversas, conselhos e, principalmente, pela grande amizade.
Obrigado a todos (as), amo-vos a todos (as).
“O ódio que é inteiramente vencido pelo amor transforma-se em amor;
e, por essa razão, o amor é maior do que se o ódio o não houvesse precedido.”
(Espinoza, Ética, III, prop, XLIV)
RESUMO

O presente trabalho é resultado de uma pesquisa-intervenção que visou compreender as


estratégias terapêuticas dirigidas a usuários da saúde mental, no contexto do Centro de atenção
Psicossocial: álcool e drogas (CAPSad) e constituir um plano de possibilidades de tratamento
ao sofrimento mental decorrente do uso abusivo de substâncias psicoativas, tendo em vistas as
normativas vigentes sobre o cuidado em saúde dirigido a estes sujeitos. Essa pesquisa foi
organizada em diálogo com os fundamentos da pesquisa-intervenção cartográfica, entendendo
que toda a produção de conhecimento é gestada no entre, entre pesquisador e pesquisado, e que
a conexão entre pesquisa e intervenção permite conhecer e transformar a realidade. Para dar
conta dessa metodologia e da proposta terapêutica que durante ela foi ganhando forma, as
perspectivas sobre o trabalho grupal de Benevides e Guattari se interseccionaram ao referencial
teórico da esquizoanálise e da saúde coletiva. O referencial da esquizoanálise nos possibilitaram
a criação de um dispositivo grupal que permitiu a criação de experiências estéticas nesse mesmo
grupo. O grupo foi composto por usuários do Centro de Atenção Psicossocial com ênfase a
sofrimentos relacionados a consumo de álcool e outras drogas, de Chapecó Santa Catarina, e
desenvolveu atividades processuais seguindo a proposta das oficinas estéticas, durante dez
encontros, nos quais puderam aprender sobre a montagem de câmeras fotográficas Pinhole
(máquinas fotográficas artesanais feitas com lata de sardinha), técnicas de fotografia e também
sobre o processo de revelação fotografias em registradas em filme fotográfico. O processo
grupal em questão possibilitou um plano de composição de uma práxis ética coletiva, na qual a
noção de experiência estética, desenvolvida por Jacques Rancière, direcionou o olhar do
pesquisador e dos participantes às possibilidades que o trabalho ficcional da arte oferece a
recomposição dos sentidos e expressões da realidade. Esta pesquisa possibilitou que
pudéssemos construir instrumentos dinâmicos de intervenção psicológica em saúde coletiva,
em busca de validar uma terapêutica mediada pela atividade criadora. A pesquisa-intervenção
possibilitou que os usuários participantes do grupo elaborassem coletivamente conflitivas
prévias, fortalecer uma rede de relações onde sua centralidade não seja o consumo abusivo
dessas substâncias e possibilitar aberturas ao desconhecido, a novas experiências.

Palavras-chave: saúde mental, dispositivo grupal, atividade criadora, movimentos de


subjetivação.
ABSTRACT

The current work is the result of an intervention-research that looked to understant the
therapeutical strategies aimed at users of mental health services, in the context of the
Psychosocial Care Center: alcohol and drugs (CAPSad) and to build a plan possibilities of
treatment of mental suffering due to abuse of psychoactive substances, taking note on the laws
on force about health care aimed at those subjects. This research was planned in dialogue with
the basis of the cartographical research-intervention, taking note that all the knowledge
production is gestated in between, between researcher and researched, and that the connection
amongst research and intervention allows to unterstand and transform reality. For dealing with
this methodology and the therapeutical purpose that took form during the process, the
perspectives about group work on Benevides and Guattari got intertwined to the theorical
referential of schizoanalizis and collective health care. The schizoanalitical referential allowed
us the creation of a group device that allowed the creation of aesthetic experiences within this
same group. The group was composed by users of the Psychosocial Care Center with emphasis
on suffering caused by consumption of alcohol and other drugs, in Chapecó – Santa Catarina,
and developed procedural activities on track of the purpose of aesthetic workshops, through ten
encounters, in which they could learn about building Pinhole câmeras (hand-built câmeras built
from sardine cans), photo techniques and also about the photo revelation process registered in
photographic film. The group process in question allowed a plan of composition of a collective
and ethical praxis, in which the notion of aesthetic experience, developed by Jaques Rancière,
directed the view of the researcher and the participants to the possibilities offered by the
ficctional work of art to the recomposing of the meaning and expressions of reality. This
research allowed us to build dynamic instruments of psychological intervention on collective
health, in search of validating a therapeutics mediated by creative activity. The research-
intervention allowed the users, participants of the group, to ellaborate previous conflicts in a
collective way, strengthening a web of relations where it’s central point isn’t the abusive
consumption of these substances and allowed openings to the unknown, to new experiences.

Key words: mental health, group device, creative activity, subjectivation movements.
LISTA DE IMAGENS

Figura 1 – Montagem das Máquinas Fotográficas ................................................................... 22


Figura 2 – Montagem das Máquinas Fotográficas ................................................................... 22
Figura 3 – Montagem das Máquinas Fotográficas ................................................................... 50
Figura 4 – Montagem das Máquinas Fotográficas ................................................................... 50
Figura 5 – Montagem das Máquinas Fotográficas ................................................................... 51
Figura 6 – Montagem das Máquinas Fotográficas ................................................................... 51
Figura 7– Fotografia no CAPSad III ........................................................................................ 56
Figura 8 – Fotografia Trabalhadores ........................................................................................ 56
Figura 9– Fotografia usuário .................................................................................................... 56
Figura 10– Fotografia usuário .................................................................................................. 56
Figura 11– Fotografia dos usuários .......................................................................................... 57
Figura 12– Fotografia dos usuários .......................................................................................... 57
Figura 13– Fotografia dos usuários .......................................................................................... 57
Figura 14– Fotografia dos usuários .......................................................................................... 57
Figura 15– Fotografia da visita a Unochapecó ......................................................................... 58
Figura 16– Fotografia da visita a Unochapecó ......................................................................... 58
Figura 17 –Fotografia registrada na visita a Unochapecó ........................................................ 58
Figura 18 –Fotografia registrada na visita a Unochapecó ........................................................ 58
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

AM: Apoio Matricial.


CAMERA PINHOLE: câmera fotográfica artesanal feita com lata de sardinha.
CAPS: Centro de Atenção Psicossocial.
CAPSad III: Centro de Atenção Psicossocial com ênfase a sofrimentos relacionados a
consumo de álcool e outras drogas, com atendimento 24h sete dias por semana.
ESF: Estratégia Saúde na Família.
NASF: Núcleo de Apoio à Saúde da Família.
RAPS: Rede de Atenção Psicossocial.
SUS: Sistema Único de Saúde.
UBS: Unidade Básica de Saúde.
UNOCHAPECO: Universidade Comunitária da Região de Chapecó.
USUÁRIO: sujeitos que frequentam a política pública de saúde mental, neste caso,
especificamente os sujeitos frequentadores do CAPSad III.
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................... 10

2 MÉTODO DE PESQUISA .................................................................................................... 17


2.1 Pesquisa-Intervenção .......................................................................................................... 17
2.2 A Cartografia como Perspectiva de Pesquisa-Intervenção ................................................. 18
2.3 Oficinas Estéticas ............................................................................................................... 20
2.4 Participantes da Pesquisa e Procedimentos para Produção de Informações/intervenções . 23
2.4.1 Entrevista ......................................................................................................................... 25
2.5 Cuidados Éticos .................................................................................................................. 26

3 SAÚDE COLETIVA: CAPS, promoção de autonomia e cuidado territorializado ............... 27


3.1 A Psicologia no Contexto da Saúde Coletiva ..................................................................... 37

4 TECNOLOGIAS LEVES, o dispositivo fotográfico e o regime estético das artes na produção


de devires .................................................................................................................................. 44

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................................ 67

REFERÊNCIAS ....................................................................................................................... 71

APÊNDICES ............................................................................................................................ 76
Apêndice 1 –Roteiro de entrevista para Usuários do serviço participantes das oficinas estéticas
.................................................................................................................................................. 76
Apêndice 2 – Roteiro de entrevista com trabalhadores da Política Pública de Saúde ............. 77

ANEXOS .................................................................................................................................. 78
Anexo 1 – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido para usuários da política. ............... 78
Anexo 2 – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido Trabalhadores do CAPSad III ....... 80
Anexo 3 – Termo de Consentimento para uso de Imagem e Voz em Entrevista para usuários da
política. ..................................................................................................................................... 82
Anexo 4 – Termo de Consentimento para uso de Imagem e Voz em entrevista - trabalhadores
.................................................................................................................................................. 83
Anexo 5 – Declaração de ciência e Concordância da Instituição Envolvida. .......................... 84
10

1 INTRODUÇÃO

Devido à grande luta pela autonomização e pelos direitos dos sujeitos em sofrimento
psíquico, considerados portadores de transtornos mentais, foi aprovada em 2001 a lei 10.216
(também conhecida como Lei Paulo Delgado). Essa lei modificou a forma de compreensão e
de trabalho com usuários de saúde mental no Brasil, ao modificar as diretrizes do tratamento,
que até então tinha por base um modelo que enclausurava e excluía esses sujeitos da sociedade,
considerando-os como incapaz de estarem inseridos no contexto social (RINALDI, 2000). Um
dos efeitos da Lei 10.216/2001 é a criação dos conhecidos CAPS (Centro de Atenção
Psicossocial) onde se entende que o convívio familiar e social também pode ser um dispositivo
que auxilie no tratamento e na qualidade de vida daqueles acometidos por algum tipo de
sofrimento psíquico (de origem orgânica/relacional ou decorrente a substâncias psicoativas),
retirando esses sujeitos da lógica manicomial anterior. A mudança de entendimento, de um
sujeito inapto para um sujeito dotado de possibilidade, que necessita estar inseridos em um meio
social acolhedor, fica clara no Artigo 2° alínea II da lei, onde se estabelece que essas pessoas
devam “ser tratada(s) com humanidade e respeito e no interesse exclusivo de beneficiar sua
saúde, visando alcançar sua recuperação pela inserção na família, no trabalho e na
comunidade;” (BRASIL, 2001).
Nesse sentido, buscamos a construção de um instrumento que promovesse intervenções
terapêuticas mediados pela atividade criadora, alternativa essa, que possibilitasse dar
visibilidade e recursos técnico-teóricos em conformidade com as práticas que a legislação
nacional vigente propõem para o contexto dos CAPSs. A perspectiva nela adotada versa sobre
a centralidade dos usuários dessa política pública de saúde, no tratamento e alta dos mesmos.
Com a aprovação da lei 10.216/2001, que prevê a diminuição progressiva dos manicômios, a
constituição do sistema CAPS no país e a necessidade de construção permanente de novas
práticas, pensamos como problema de pesquisa: Que recursos terapêuticos a psicologia pode
oferecer para que alcancemos o protagonismo, a autonomia e a relação com a comunidade
almejada no contexto de tratamento de um CAPS? Como a atividade criadora e a experiência
estética podem contribuir a tais prerrogativas centrais ao tratamento?
Tendo em vista que a dependência química também pode gerar transtornos psicológicos
graves e persistentes, nos voltamos especificamente ao CAPSad III. A dependência química
traz consigo problemáticas especificas ligas ao uso abusivo das diferentes substâncias
psicoativas (como álcool, crack e outras drogas). O CAPSad III (local da pesquisa) é um serviço
específico para o tratamento, cuidado, atenção integral e continuada às pessoas com
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necessidades em decorrência do uso abusivo de álcool, crack e outras drogas. Essa política
pública é de grande importância, e tem como intuito desenvolver autonomia dos diversos
sujeitos que fazem uso da mesma e responsabiliza-los no processo como coautores de seu
tratamento. Nesse sentido, corroborando com a proposta da Portaria 3.088/2011 (que trata da
funcionalidade do CAPSad III), a intenção da pesquisa foi de trabalhar com o grupo, juntamente
com a atividade criadora, como dispositivo para a mudança, para a produção de pensamentos,
encontros e práticas, que auxiliem no tratamento dos mais variados sujeitos que fazem uso desse
espaço, bem como, buscou trabalhar com essa metodologia como um recurso para o tratamento
dos usuários dessa política.
Visando responder as perguntas antes propostas e considerando o contexto do CAPSad
III, foi elaborado um objetivo geral que é o de analisar os efeitos de subjetivação na experiência
estéticas proposta pelo fotografar e suas correlações com o processo terapêutico promovido
pelo CAPSad III, e, para dar conta desse objetivo geral, foram elaborados objetivos específicos,
são eles: compreender as práticas da equipe de saúde do CAPSad III e o processo terapêutico
proposto no contexto; construir possibilidades de ressignificação das relações sociais em
atividades mediadas pelas oficinas estéticas; analisar como as experiências propostas pelas
oficinas estéticas podem permitir mudanças nas relações entre sujeitos e seu contexto de
experiência; e, possibilitar a apropriação de novas experiências criativas no espaço grupal
através do trabalho coletivo.
Vemos que a legislação vigente e diversos autores (LANCETTI, 2015; MERHY, 2013;
MERHY; FRANCO, 2013; SCHNEIDER, 2014) entendem que o fator social é fundamental no
tratamento dos acometidos por sofrimento psíquico, sendo de auxílio ao processo de alta o
convívio familiar e comunitário. Essa perspectiva de que a comunidade auxilia no tratamento
dos sujeitos é de grande importância, pois preserva o sujeito em sua dignidade de convivência
com família e comunidade circunvizinha, criando uma rede de suporte e apoio ao tratamento,
visando assim a diminuição dos sofrimentos relacionados a dependência química.
Para alcançar uma terapêutica que permaneça interseccionada as condições reais de
existência de cada usuário do serviço, afastada de um foco único na patologia e capaz de abraçar
as potencialidades que as relações com o território constituem, faz-se necessário um trabalho,
no contexto do CAPSad III, que constantemente se atualize. Considerar, na prática, os distintos
modos de vida e as variações da demanda que os trabalhadores da saúde mental enfrentam ao
se colocar em relação com a o usuário do serviço, exige um trabalho em transformação
constante, um “trabalho vivo” (MERHY; FRANCO, 2013). O trabalho em saúde é composto
por tecnologias leves e duras, as tecnologias duras são forças instituídas representadas pelas
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máquinas, exames, medicação, etc. Já as tecnologias leves são os instrumentos não materiais e
relacionais utilizados na produção de saúde, na produção do cuidado, implicados com a
produção do cuidado (MERHY; FRANCO, 2013). O trabalho vivo possibilita a integração entre
tecnologias leves e duras, ou seja, a criação da tecnologia leve-dura, pois o trabalho em saúde
deve ter como objetivo o aumento de potência dos sujeitos e suas alegrias (MERHY; FRANCO,
2013).Tendo em vista isso e o cumprimento das normativas sobre os CAPS, o desenvolvimento
das oficinas se constitui uma forma leve de tecnologia, tecnologia que se operacionaliza como
dispositivo que auxilia o tratamento dos usuários, possibilitando a criação de vínculos dentro
do CAPS, na família, bem como com o território circunvizinho do espaço, sem esquecer que
medicações, exames, etc. são importantes, mas não devem ser o único ponto relevante no
tratamento dos usuários.
Considerando as necessidades de uma terapêutica voltada a tal contexto, investimos,
durante a pesquisa que aqui se apresenta, na construção de um dispositivo de intervenção.
Entendemos que o dispositivo, na perspectiva de Foucault (2014) ou de Deleuze
(DELEUZE, 1989 apud HUR, 2012) e Hur (2012) têm funções distintas. A primeira função,
aquela apresentada por Foucault, é a de controle e dominação, justamente por constituir um
conjunto de práticas, discursos e tecnologias sociais capazes de exercer poder sobre os corpos,
que podem apenas afirmar um lugar. Nas palavras de Foucault o dispositivo atua como
“estratégias de relações de força sustentando tipos de saber e sendo sustentadas por eles”
(FOUCAULT, 2014, p. 367), que pode acontecer dentro dos CAPS. Outra função, outro tipo
de montagem de um dispositivo, é percebida em Hur (2012), onde vemos que o dispositivo
também pode ser entendido como uma máquina que possibilita por em jogo forças heterogêneas
de diferentes naturezas, ou seja, o “dispositivo pode ser entendido como uma máquina de
produção de discursos e de ações-relações, em que se faz ‘falar’ e se faz ‘ver’, produzindo
enunciações, visibilidades distintas, acontecimentos e modos de ser” (HUR, 2012, p. 21),
possibilitando processos de subjetivação através dos movimentos de resistência e criação.
É em busca da construção de dispositivos orientados pela segunda lógica que o trabalho
aqui se desenvolve, como “trabalho vivo”, que investe na constituição de encontros entre
corpos, pensamentos e afetos, no contexto da política pública de saúde mental, através da
atividade criadora. Consideramos que a tecnologia de intervenção proposta pode ser
caracterizada como um dispositivo de singularização.
Na construção de tal dispositivo de singularização, atravessado pela atividade criadora
utilizamos a fotografia como suporte estético para a produção de novos sentidos dentro do
espaço dessa política pública de saúde mental, entendendo que seus usuários podem se perceber
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como criativos, como sujeitos capazes de constituir alternativas viáveis a suas problemáticas,
mediados pela capacidade de trasnversalizar suas próprias experiências que um grupo
terapêutico oferece (BENEVIDES de BARROS, 2009) por isso desenvolvemos atividades onde
o foco foi investir na autonomia dos próprios sujeitos ao responsabiliza-los pelo seu tratamento
e potencializa-los em direção ao que as normativas e resoluções preveem como estratégia dos
CAPS.
Especificamente no CAPSad III, o trabalho com o usuário é feito tanto de forma
individual quanto coletiva. São incluídos no grupo de usuários não apenas pacientes, mas
também familiares, entendendo que a construção coletiva de uma rede de apoio é fundamental
ao tratamento e ao não uso abusivo de substâncias psicoativas. Nesse ponto, o trabalho do
profissional da psicologia é entendido como um fazer que possa conciliar os conhecimentos das
práticas psicológicas com o novo entendimento de sujeitos acometidos por sofrimentos mentais
(SCHNEIDER, 2014). O psicólogo visa a possibilitar uma prática humanizada que não esteja
apenas pautada na medicação, mas que realmente possibilite uma rede de relações que possa
atuar como dispositivo para construção de estratégias que ampliem a qualidade de vida e ao não
uso de substâncias psicoativas (MERHY, 2013).
A proposta cartográfica desta pesquisa, indissociável da intervenção no contexto do
CAPS ad III (PASSOS; BARROS, 2009), buscou a produção de experiências inéditas dentro
de um território que já era dado, modificando-o, assim produzindo novos efeitos e sentidos em
contato com outras pessoas, objetos, lugares, através de novos modos de subjetivação
(DELEUZE; GUATTARI, 2014). Nesse sentido, as diversas formas de criação atuam como
constitutivas de um dispositivo que fortaleça laços sociais, físicos e existenciais, possibilitando
expressões outras sobre o mundo e a identidade, que não sejam necessariamente perpassadas
pelo uso de substâncias psicoativas, mas que através do ato criativo possibilitem “objetivações
e práticas artísticas (que) provocam rupturas no universo sensível, desconfigurando lugares e
abrindo outras possibilidades” (MAHEIRIE, 2015, p.364).
Para tanto, optamos pensar o dispositivo fotográfico através da leitura da atuação junto
a grupos que nos oferecem as “oficinas estéticas” (REIS; ZANELLA, 2015). Estas se mostram
como possibilidade de intervenção psicossocial dentro das políticas públicas, aqui inclusa a
rede de saúde mental, pois é uma técnica relacional que tem por finalidade a produção de
subjetividade através do exercício da grupalidade, gestão coletiva e da criatividade, que permite
a promoção de olhares estéticos e a constituição de pensabilidades engendradas coletivamente
e dirigias a gênese de percepções da vida sob outras perspectivas. A proposta, visa a
constituição de um usuário do serviço que se faz ativamente, reconhecendo-se como agentes de
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sua própria história. Nas oficinas estéticas que propomos, principalmente pelo amparo do
método cartográfico, a experiência se construiu em espaço onde ao mesmo tempo em que se
pesquisa se intervém no campo pesquisado, presumindo que toda pesquisa já é uma intervenção
(REIS; ZANELLA, 2015).
Nesse sentido, as oficinas estéticas atuam como eixo grupal central ao dispositivo
proposto para nossa pesquisa, entendendo que a fotografia aqui é tomado como suporte para
trabalho estético, para a gênese de experiências estéticas. Nas palavras de Reis e Zanella as
oficinas “podem ser, portanto, ao mesmo tempo dispositivo de intervenção e pesquisa, sendo
esta compreendida como prática social que envolve relações entre pessoas na busca por
(re)conhecer e/ou formular soluções a uma situação específica” (ZANELLA, 2008 apud REIS;
ZANELLA, 2015, p. 26). A fotografia pode ser trabalhada como possibilidade de produção
discursiva dos próprios sujeitos no “contexto de intervenções psicossociais com grupos-alvo
das políticas públicas, a produção de imagens fotográficas pode ser um dispositivo à expressão
e reflexão das pessoas, dando (trans)visibilidade a diversas temáticas” (REIS; ZANELLA,
2015, p. 28). Por isso mesmo “as oficinas [estéticas] promovem possibilidades outras de
subjetivação, por meio do exercício da grupalidade, de formas de gestão coletiva e da
criatividade” (REIS; ZANELLA, 2015, p. 26). Assim, construímos, juntamente com os
usuários, novos desdobramentos e movimentos de subjetivação nas experiências dos usuários
do CAPSad III, dentro e fora da política pública através de uma perspectiva estética.
A experiência estética acontece no justo momento em que são colocadas em jogo
elementos que possam fazer variam os sentidos (RANCIÈRE, 2011). Rancière propõe a
experiência estética como forma de relação com a realidade perpassada por uma perspectiva
própria ao encontro entre sujeito e obra de arte. Ela pressupõe uma forma de inteligibilidade da
arte na qual sua presença não está associada a uma pedagogia, nem a demarcação de
representações precisas das formas de ser de cada sujeito que compõe o sócius. A experiência
estética, visada no desenvolvimento das oficinas, é aquela do livre jogo entre afetos e
pensamentos, na qual a arte tem por função multiplicar as formas de expressão da realidade,
apresentar regimes de ocupação dos espaços de formas inéditas e temporalidades outras às da
vida cotidiana (CAVAGNOLI, 2018).
Dessa forma acontece o que Schiller (2002) chama de livre jogo entre pensamento e
sensações, onde percebemos não existir superioridade do primeiro sobre o segundo. Essa
composição acontece no exato momento em que acontece o encontro (ESPINOZA, 1992) entre
sujeito e a obra de arte, onde pensamento e sensações afloram juntamente no sujeito, como
forma de individuação, tanto da obra quanto da subjetividade. A experiência estética aqui,
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objetivada através da fotografia, visou auxiliar os sujeitos a tomar parte na construção de um


comum e partilhado, tanto na forma que o usuário entende e se apropria desse espaço como
dispositivo que visa gerar saúde (comum), quanto na forma que entende a política de saúde
mental (partilhado) e sua identidade, marcada pelo discurso biomédico.
Em Rancière a estética deve ser vista “para além das objetivações e práticas artísticas,
apontando para seu caráter sensível e presente em toda a forma de ver, ouvir, sentir, pensar e
agir humanos” (MAHEIRIE, 2015, p. 365). A dimensão estética é entendida aqui como uma
forma de produção de dissensos. A intenção é possibilitar o acesso a outro campo de
experiências, permitindo que os encontros possibilitados pela atividade criadora possam gerar
processos de desidentificação com a condição passiva na qual a maioria dos usuários se
encontra. Assim, promovendo a reflexão sobre as próprias trajetórias de vida, engendrando
então, novos territórios existenciais (DELEUZE; GUATTARI, 2012a), entendendo que essa
oportunidade possibilita a construção de um sensível, enquanto possibilidade à percepção e
pensamento, diferente do anterior.
O suporte usado para tal foi à fotografia, mais especificamente o processo de fotografar.
Essa experiência já havia sido realizada na graduação, na Prática Acompanhada em Psicologia
Social Comunitária, despertando curiosidade sobre a como a experiência estética pode auxiliar
os movimentos com grupos, ao mesmo tempo em que se intervém nesse contexto. Nesse caso
a atividade criadora age no sentido de auxiliar na mudança das subjetividades dos participantes,
visto que a subjetividade não é acabada, mas apenas um devir de algo que está em permanente
mudança. Além do estágio, o suporte da fotografia também já havia sido utilizado em outros
trabalhos de pesquisa, incluindo um Trabalho de Conclusão de Curso de Alana Lazaretti
Solvalagem e de um projeto de pesquisa do PIBIC (Programa de Institucional de Bolsas de
Iniciação Cientifica).
O desenvolver das oficinas visou propiciar uma visão ampla dos processos de
subjetivação dos usuários, no sentido de entender que os mesmo modificam-se segundo os
novos encontros com outros sujeitos (ESPINOZA, 1992) possibilitando novos devires
(DELEUZE; GUATTARI, 2012a), e assim contribuir para que sujeitos pensassem sobre o papel
da política de saúde mental e também atribuindo um novo sentido como coautores de seu
processo de alta (BRASIL, 2001), assim buscando um novo sentido ao ato de ser usuário dela.
As atividades de campo ocorreram durante dez encontros semanais de duas horas, onde
participaram, ao todo, seis participantes. Infelizmente alguns dos participantes deixaram o
grupo, restando apenas três participantes das oficinas.
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Foram realizadas dez intervenções aos moldes da oficina estética (REIS; ZANELLA,
2015) onde foram confeccionadas câmeras fotográficas artesanais em nove encontros. As
atividades contaram com a participação de seis usuários do CAPSad III e com a participação
da pedagoga e psicóloga do local.
O primeiro capitulo descreve a concepção sobre método que embasou nossa prática,
discutindo o referencial teórico que foi utilizado para a realização da pesquisa que culminou no
presente texto e procedimentos metodológicos para a produção de informações. No segundo
capitulo discutimos elementos sobre a relação entre saúde, saúde coletiva e as atividades que
são desenvolvidas nos CAPS e, mais especificamente, no CAPSad III de Chapecó. No terceiro
capitulo descrevermos as análises realizadas a partir das atividades de campo, descrevendo os
movimentos experienciados dentro do grupo que compôs as atividades da oficina estética de
fotografia.
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2 MÉTODO DE PESQUISA

2.1 Pesquisa-Intervenção

A pesquisa qualitativa tem como objetivo a compreensão dos fenômenos sociais,


levando em consideração as diferentes perspectivas dos sujeitos que fazem parte do ambiente a
ser pesquisado e a inserção do pesquisador nesses locais (FILHO, 2002). Segundo essa
metodologia, a compreensão da realidade investigada só é possível através do ato de
experimentar ações e relações que os sujeitos da pesquisa vivenciam, no contexto a ser
pesquisado, atravessando assim, os sentidos do coletivo participante. Entendemos, assim, que
pesquisa e pesquisador se constituem mutuamente (GROFF; MAHEIRIE; ZANELLA, 2010).
O qualitativo “está ligado aos sentidos produzidos nas relações socio-historicamente
determinadas, afirmando a alteridade e as turbulências que nos movem a analisar, a dialogar, a
buscar entender o que vivemos” (ROCHA, 2006, p.171).
Compreendemos que as diferentes formas de ver o mundo estão perpassadas pelas
diferentes interações que os sujeitos mantem com outros sujeitos. Nesse sentido, a
subjetividade, emoções, valores, etc. são consequência das inter-relações possibilitadas no meio
social (FILHO, 2002). O trabalho do pesquisador (principalmente nas ciências humanas e
sociais) também influência na realidade objetiva a ser pesquisada, nesse sentido não há como
se distanciar do objeto a ser pesquisado, não há como a presença de um pesquisador não
modificar a forma de relação estabelecida entre o público alvo de uma pesquisa (FILHO, 2002;
ROCHA; AGUIAR, 2003; ROCHA, 2006; GROFF; MAHEIRIE; ZANELLA, 2010;
FRANCO; MERHY, 2013). Assim, ao desenvolver um trabalho dedicado a pesquisa
qualitativa, devemos levar em consideração à relação entre participantes “procurando romper
com as barreiras entre sujeito que conhece e objeto a ser conhecido. A intervenção evidencia
que pesquisador/ pesquisado, ou seja, sujeito/objeto fazem parte do mesmo processo”
(ROCHA; AGUIAR, 2003, p.72). Assim, a pesquisa qualitativa problematiza a relação entre
pesquisador e sujeito de pesquisa, entendendo que a pesquisa é participativa e que o
conhecimento é decorrente da relação, ou seja, que o conhecimento é produzido de modo
indissociável da prática, de forma colaborativa entre pesquisador e grupo a ser pesquisado.
A proposta da pesquisa intervenção se encontra situada junto a epistemologias de
pesquisas participativas, problematizando a relação tradicional entre pesquisador e sujeitos de
pesquisa, entre teoria e prática e entre objetividade e subjetividade, corroborando com o modelo
qualitativo descrito anteriormente. Seus pressupostos indicam uma produção de conhecimento
18

engendrada de modo indissociável da prática. Essa metodologia, que visa desenvolver a


participação coletiva dentro das instituições, entende ‘pesquisador’ e ‘pesquisados’ como
coautores na construção de alternativas que possam resolver questões ‘problemas’ identificadas
e problematizadas em diálogo com demandas que emergem do próprio contexto pesquisado.
Em suma, a pesquisa intervenção visa, através da integração dos diferentes participantes do
campo de pesquisa, potencializar as relações dentro de uma perspectiva de participação coletiva
(ROCHA; AGUIAR, 2003) através do engajamento dos usuários nessa experiência.
Dentro das normativas vigentes, que entendem o usuário da política pública de saúde
mental como coautor no seu processo de tratamento e de alta (BRASIL, 2011), entendemos que
essa metodologia de pesquisa contribui com o caráter emancipatório dos usuários, os
responsabilizado pelo seu tratamento e potencializando novas formas de relação com a sua
comunidade, transformando o usuário não apenas em um sujeito bem adaptado, mas
contribuindo para a modificação ativa da realidade, promovendo qualidade de vida e autonomia
(BRASIL, 2011), através da ação colaborativa, que integre ensino e serviço, envolvendo
pesquisador, equipe técnica do CAPSad III e usuários da comunidade de saúde.
Através desse entendimento é possível investigar como as experiências estéticas contribuem
para mudança nas relações entre sujeito e contexto ao tencionar as formas de expressão,
facilitando novas formas de subjetivação (ROCHA; AGUIAR, 2003). Os efeitos de
subjetivação são provenientes dos movimentos de territorialização/desterritórialização
possibilitados pelos novos elementos inseridos nas atividades propostas nas Oficinas Estéticas
(FRANCO; MERHY, 2013; DELEUZE; GUATTARI, 2012a); isso possibilita a constituição
de novos planos de existência (DELEUZE; GUATTARI, 2013) que permitem a emergência de
novos sentidos, de novos pensamentos e novas expressões, a partir dos agenciamentos
provenientes dos encontros no grupo das oficinas.

2.2 A Cartografia como Perspectiva de Pesquisa-Intervenção

A cartografia é um método dentro da perspectiva da pesquisa-intervenção, onde o


pesquisador acompanha os efeitos (sobre o objeto, sobre o pesquisador e sobre a produção do
conhecimento) de subjetivação produzidos pelo percurso de pesquisa. Nessa perspectiva se
entende que as análises não são feitas em distanciamento do pesquisador e campo de pesquisa,
visto que o pesquisador está inserido em uma experiência que é coletiva, onde todos os agentes
estão implicados. Assim, o método cartográfico busca descrever, intervir e criar efeitos de
subjetivação (PASSOS; BARROS, 2009), pois “conhecer a realidade é acompanhar seu
19

processo de constituição, o que não pode se realizar sem uma imersão no plano da experiência”
(PASSOS; BARROS, 2009, p.31).
Entendemos que a cartografia não é uma forma pronta de se pesquisar, mas que se
aprende a pesquisar na relação com o campo de pesquisa. A cartografia nos permite entender
que as “configurações subjetivas não apenas resultam de um processo histórico que lhes molda
estratos, mas portam em si mesmas processualidade, guardando a potência do movimento”
(KASTRUP; BARROS, 2009, p.77). Para isso, a cartografia se utiliza de dispositivos, que tem
como característica a

[...] sua capacidade de irrupção naquilo que se encontra bloqueado para a criação, é
seu teor de liberdade em se desfazer dos códigos, que dão a tudo o mesmo sentido. O
dispositivo tensiona, movimenta, desloca para outro lugar, provoca outros
agenciamentos. Ele é feito de conexões e, ao mesmo tempo, produz outras. Tais
conexões não obedecem a nenhum plano predeterminado, elas se fazem num campo
de afecção onde partes podem se juntar a outras sem com isso fazer um todo
(KASTRUP; BARROS, 2009, p.90).

Nesse sentido, a cartografia corrobora com o referencial teórico e com a proposta prática
das oficinas estéticas, ao possibilitar a criação de movimentos que podem produzir efeitos de
produção-transformação da condição dos sujeitos acometidos por sofrimentos mentais, ao
mesmo tempo em que faz investigação através do habitar o território a ser pesquisado
(KASTRUP; BARROS, 2009).
A cartografia sempre está associada ao habitar um território, vivenciando e conhecendo
o espaço a ser pesquisado em uma experiência ‘com’ os sujeitos no seu território, e, não ‘sobre’
os sujeitos em um território. Nesse sentido, o saber é produzido na relação que se estabelece
entre o pesquisador e seu campo de pesquisa, ou melhor, o saber é decorrente do aprendizado
do cartógrafo, o saber é produzido no momento em que se acompanha e se vivencia determinado
território com sujeitos singulares. O pesquisar, aqui, está relacionado com o engajamento do
pesquisador no território a ser pesquisado, no mesmo tempo em que se pesquisa, se intervém,
se vivencia, e, se aprende (ALVAREZ; PASSOS, 2009).
A dupla finalidade da cartografia, a pesquisa e a intervenção, atuam tanto como meio de
entender a forma de produção de sentidos para os sujeitos, quanto como forma de acesso ao
plano de forças no mesmo momento em que o pesquisador o habita, e nesse sentido, “os atos
de cartógrafo, sendo também coletivos de forças participam e intervêm nas mudanças e,
principalmente, nas derivas transformadoras que aí se dão” (ESCÓSSIA; TEDESCO, 2009,
p.92-93).
20

Assim, o modelo metodológico da pesquisa cartográfica nos auxilia a entender a


inserção do pesquisador em uma rotina singular do campo de pesquisa, sem formas estáticas,
sem separar teoria e prática. Vemos que “conhecer, agir e habitar um território não são mais
experiências distantes umas das outras” (ALVAREZ; PASSOS, 2009, p.149).
Sob este enfoque, a compreensão da realidade investigada se faz possível através da gênese de
uma ação transformadora, permeada pelos diferentes sentidos que se atravessam no coletivo
participante durante o desenvolvimento da proposta. Junto aos fundamentos metodológicos e
epistemológicos da pesquisa-intervenção, serão utilizados recursos oferecidos pelas oficinas
estéticas (REIS; ZANELLA, 2015), investindo na produção de discursos e experiências através
da atividade criadora.

2.3 Oficinas Estéticas

As oficinas estéticas (REIS; ZANELLA, 2015) se constituem como um dispositivo de


intervenção que corrobora com essa proposta justamente pelo seu caráter de coautoria entre
pesquisador e pesquisado, por entender como sendo de fundamental importância a participação
dos usuários da política pública no seu processo de alta, por priorizar práticas coletivas, por
valorizar atividades comunitárias. As oficinas estéticas se caracterizam como uma forma de
pesquisar ao mesmo tempo em que se intervém, se intervém gerando novas soluções as
situações especificas que desencadeavam o uso abusivo de substância psicoativa. Por não ser
apenas uma técnica, mas uma postura de compreensão e acolhimentos das mais variadas formas
de ser e existir, e, ao mesmo tempo, meio de produção de novas subjetividades como efeito de
novas relações com o mundo (REIS; ZANELLA, 2015), compreendemos que as oficinas
estéticas constituem dispositivo de intervenção adequado à metodologia cartográfica de
pesquisa.
Definidas como dispositivos de intervenção (REIS; ZANELLA, 2015), as oficinas
estéticas são estratégias para a produção de práticas psicológicas que se constituem através de
trabalhos grupais, mediadas pela atividade criadora. Tais oficinas buscam promover o exercício
da coautoria e uma participação reflexiva, ativa e que responsabilize usuários e familiares
perante o tratamento. A proposta aqui enunciada, visa encontrar caminhos para um trabalho da
psicologia eticamente comprometido com o usuário da saúde mental e suas singularidades, pela
operacionalização de tais oficinas no contexto do CAPSad III.
As oficinas estéticas possibilitam, entre diferentes sujeitos e de forma dialógica, a
reflexão e compreensão para alternativas as problemáticas coletivas já existentes (REIS;
21

ZANELLA, 2015). Assim, a produção de informações com o grupo de usuários do CAPSad


III, possibilita a constituição de um território com elementos novos aos participantes das
oficinas o que pode gerar novos agenciamentos (DELEUZE; GUATTARI, 2014) a fim de
propiciar novas formas de perceber o mundo ao entrelaçar, na experiência, dispositivos que
permitam a emergência de modos de subjetivação através de oficinas estéticas (REIS;
ZANELLA, 2015). Tal proposta permite um movimento de objetivação/subjetivação
(ZANELLA et al, 2005) através da arte, agindo no sentido de estreitar relações e integrar o
usuário com o seu espaço social e familiar, e, posteriormente, possibilitando um espaço de
discussão com o grupo sobre tal experiência. Aqui, a arte é a possibilidade de criação de afectos
e perceptos, ou seja, de blocos de sensações e percepções inéditas e impensáveis até então
(CAVAGNOLI; MAHEIRIE, 2014). A arte, assim, é uma forma de criação de algo que até
então não existia, a arte é como fabulação criadora (DELEUZE; GUATTARI apud
CAVAGNOLI; MAHEIRIE, 2014), isto é, não atua no sentido de recognição ou de
repensar/reconhecer algo que já existia no sujeito, mas inaugura (no sensível) um campo de
existência.
Entendemos que as oficinas estéticas se constituem em um dispositivo (HUR, 2012),
através do suporte fotográfico, visa produzir informações dentro do processo grupal ao mesmo
tempo em que permite a emergência de novos significantes individuais e coletivos na
experiência dos participantes do grupo. Na prática com o grupo de usuários do CAPS ad III,
essa experiência se inicia antes mesmo do processo de produção de imagens, pois foram
confeccionadas câmeras do tipo Pinhole pelos próprios participantes. A construção colaborativa
das câmeras e a apropriação do material em questão, por si só, já constitui a gênese de um
projeto coletivo, portanto, de integração psicossocial e estimulação da sensibilidade e percepção
dos integrantes. Para isso a criação de dispositivos (HUR, 2012) que possam agir no sentido de
engendrar movimentos de desterritorialização (DELEUZE; GUATTARI, 2012a) dos
participantes desse grupo se mostra fundamental.
A câmera Pinhole não possui lente, apenas um minúsculo orifício que funciona como
diafragma fixo e permite a entrada da luz. Portanto, possibilita o registro fotográfico. A luz que
forma a imagem no interior da Pinhole pode ser fixada tanto em papel fotográfico quanto em
filme, dependendo do formato da câmera e da proposta prática da atividade. Nesse caso, foi
utilizado o filme fotográfico por ser viável seu processo de revelação e ampliação. A câmera
artesanal pode ser construída com diferentes materiais, desde uma caixa de fósforos, uma lata
de sardinha até uma caixa de sapatos. A Pinhole é uma alternativa eficaz e de baixo custo e sua
capacidade se assemelha a de uma câmera convencional no registro fotográfico. Os materiais
22

necessários para a confecção da câmera são, basicamente, uma caixa ou lata (material
reciclável), papel alumínio, fita adesiva, papel cartão preto e o filme fotográfico.

Figura 1 – Montagem das Máquinas Fotográficas

Figura 2 – Montagem das Máquinas Fotográficas

O recurso da fotografia como instrumento para produção de informações na pesquisa


qualitativa já vem sendo utilizado em outras pesquisas, como vemos nos trabalhos de Tittoni
(2015) e Maheirie (2015), onde permite, no desenvolvimento da pesquisa de campo, junto aos
participantes, a expressão dos modos de vida, das relações e da compreensão de si e do mundo.
O trabalho estético da fotografia possibilita, ainda, que sejam gerados regimes de visibilidade
distintos daqueles acessíveis por meio da palavra, pela apresentação de temporalidades e
espaços inéditos. A mediação da imagem e a produção de discursos a partir do fazer fotográfico,
23

portanto, não traça apenas uma representação da realidade anterior a pesquisa, mas permite que
o próprio ato de pesquisar transforme o contexto e seus significados compartilhados. A
fotografia, assim, atua como dispositivo de pesquisa e intervenção, permitindo a expressão de
recortes singulares da realidade no diálogo entre pesquisador e sujeitos de pesquisa.

2.4 Participantes da Pesquisa e Procedimentos para Produção de


Informações/intervenções

Os participantes do grupo foram usuários da política de saúde entre vinte e cinco a cinquenta
anos, e, também trabalhadores do CAPSad III, localizado na Rua Lauro Müller, 84 - Centro
- Chapecó, SC - CEP: 89801-600; local onde também foram realizadas as entrevistas da
pesquisa, tanto com os usuários da política de saúde mental, quanto com os trabalhadores da
mesma. Os participantes da pesquisa foram divididos em dois grupos, o primeiro composto
pelos usuários da política pública de saúde mental do CAPSad III, e, o segundo, composto por
integrantes da equipe multiprofissional desse mesmo local que participaram da realização das
oficinas. A produção de dados iniciou após a aprovação pelo CEP, conforme resolução da CNS
n° 466 (BRASIL, 2012).
Na constituição do grupo dos usuários, primeiro grupo, foram aceitos os usuários da
política que desejaram participar da oficina estética (REIS; ZANELLA, 2015), que teve como
disparador a fotografia (MAHEIRIE, 2015) por entendê-la como um dispositivo de intervenção
(HUR, 2012). Esse grupo de fotografia construiu máquinas fotográficas artesanais, do tipo
Pinhole e se envolveu na produção de imagens ao longo de 10 encontros processuais, onde
aprenderam técnicas de fotografia com as máquinas artesanais.
Durante o processo, foram realizadas observações participantes para conhecermos a
dinâmica do grupo, entendendo a observação participante como uma forma de compor o
território existencial, na experiência, ao mesmo tempo em que o pesquisador se engaja nesse
território (ALVAREZ; PASSOS, 2009).
Os encontros tiveram temáticas definidas inicialmente, mas modificadas em função das
expressões emergentes no percurso, elaboradas com vistas a possibilitar um trabalho grupal de
cunho relacional e de base territorial (FRANCO; MERHY, 2013), sempre pensando na
possibilidade de, através do recurso da fotografia, possibilitar momentos de debates e a
constante elaboração de conflitivas preexistentes relacionadas a dependência de substancias
psicoativas.
24

Atividades realizadas Data da Atividade


Debate sobre o cronograma inicial e definir as temáticas para as 02/10/2017
fotografias.
Confecção das máquinas Pinhole, discutir sobre as temáticas 09/10/2017
especificas das primeiras 3 fotografias.
Realizar as 3 primeiras fotografias com os usuário e discutir com o 16/10/2017
grupo sobre o sentido do processo que acontece na oficina e das
imagens a serem capturadas.
Recolher as Pinholes para serem rebobinadas na Unochapecó, 23/10/2017
discutir sobre as imagens realizadas e pensar juntos as novas
imagens que serão realizadas.
Realizar novas fotografias com os usuários caminhando pelo centro 30/10/2017
da cidade de Chapecó, para que eles decidam os pontos mais
significativos para fotografarem.
Discussão sobre fotografia realizadas no centro de Chapecó e 06/11/2017
mostrar o negativo com fotos de um usuário retirado de uma das
máquinas.
Construir a nova máquina Pinhole feita com lata de café e papel 13/11/2017
fotográfico.
Finalizar a nova máquina Pinhole feita com lata de café e papel 20/11/2017
fotográfico, realizar fotografia e combinar sobre a revelação no
laboratório de fotografia da Unochapecó.
Visita com os usuários do CAPSad III ao laboratório de fotografia 27/11/2017
da Unochapecó, revelação das fotografias feitas pelos usuários com
a máquina fotográfica Pinhole e com lata de café.
Entrevista com os usuários o CAPSad III 04/12/2017

As atividades apresentadas no cronograma caracterizam uma intervenção que visa


garantir a processualidade das oficinas, visando sua articulação com o projeto terapêutico
proposto pelo CAPSad III para cada usuário do serviço de saúde mental.
25

2.4.1 Entrevista

A entrevista nessa pesquisa teve como objetivo conhecer os relatos de experiência dos
sujeitos que compõem o campo de pesquisa, conhecer a processualidade do tratamento e o plano
comum que emerge na experiência transversal a todos os usuários dessa política pública a partir
das vivencias com o grupo. Não apenas acompanhar o processo, mas também provocar
mudanças no decorrer dos momentos em que intervimos nesse staff com a própria entrevista
(Apêndice 1 e Apêndice 2); o diálogo entre o entrevistador e o entrevistado, aqui, se constitui
em uma intervenção no sentido de acessar a experiência previa e atual do entrevistado
(TEDESCO; SADE; CALIMAN, 2013). Nesse sentido “dizemos que a entrevista não é um
procedimento para coleta de dados, mas sim para a ‘colheita’ de relatos que ela mesma cultiva”
(TEDESCO; SADE; CALIMAN, 2013, p. 307). A entrevista, então, tem uma função de
modificação da realidade do entrevistado, no próprio processo em que se dá a entrevista. Assim,
a entrevista é entendida como uma atividade que interfere diretamente sobre a realidade do
entrevistado (TEDESCO; SADE; CALIMAN, 2013), e, nessa pesquisa, visamos possibilitar a
emergência de novas possibilidades de enfrentamento ao não uso abusivo de substâncias
psicoativas, ao mesmo tempo em que priorizamos a experiência.
Por entendermos que a entrevista se configura como uma conversa menos formal que
visa à coletivização e o desdobramento discursivo das questões a serem investigadas, sua função
foi de disparador para a criação de novos sentidos e ideias, “ao produzir diferenciações,
traçando novas linhas de conversa, promovendo agenciamentos com outros coletivos”
(TEDESCO; SADE; CALIMAN, 2013, p. 312). Nas entrevistas, não propomos um protocolo
fixo que engessasse o diálogo. Partimos de perguntas norteadoras (Apêndice 1) que serviram
para entendermos os sentidos emergentes a partir das atividades propostas nas oficinas. Essa
opção, de um roteiro não estruturado, se justifica pela não criação de “protocolos fixos que os
generalizam (os colaboradores da pesquisa) e assim os apartem da experiência em curso na
entrevista, transformando-os em dados informacionais” (TEDESCO; SADE; CALIMAN,
2013, p. 307). O roteiro, com perguntas norteadoras, serve para a criação de possibilidades de
ouvir diversas vozes durante o processo, e, com essa possibilidade visamos à criação de um
meio profícuo para a elaboração das problemáticas pré-existentes, pelos próprios usuários.
O grupo de usuários entrevistados foi composto considerando como critério de inclusão
a maioridade dos usuários, e, sua participação nas oficinas estéticas. Foram entrevistados três
participantes da oficina, no espaço do CAPSad III, visto que tivemos alguns usuários que não
permaneceram no grupo até seu encerramento, por isso não foram entrevistados. Para a
26

participação nas entrevistas, forma disponibilizados os termos de consentimento livre e


esclarecido (Anexo 1 e Anexo 2) que foram assinados por todos os participantes da pesquisa
(usuários e trabalhadores), bem como o termo de consentimento para uso de imagem e voz
(Anexo 4 e Anexo 5), não havendo participação de menores de 18 anos entre os pesquisados.
Nossa intenção inicialmente era que entrevistarmos três profissionais trabalhadores do CAPSad
III, mas infelizmente um profissional não quis participar, assim foram entrevistados dois
profissionais com o objetivo de conhecermos a realidade do trabalho dos mesmos, como é a
aplicação das normativas vigentes em seu trabalho e suas percepções sobre a oficina estética de
fotografia como recurso para o tratamento dos usuários do CAPSad III.

2.5 Cuidados Éticos

A pesquisa foi realizada sempre tendo em vista a observância da Resolução 466/2012


(BRASIL, 2012), que orienta sobre as diretrizes e normas para pesquisas envolvendo seres
humanos, e a Resolução 510/2016 (BRASIL, 2016), que orienta as pesquisas das áreas de
Ciências Humanas e Sociais. Em ambas as resoluções, vemos explicita a importância da
pesquisa gerar benefícios para o público do campo a ser pesquisado, bem como a promoção de
benefícios para os sujeitos que fazem parte do campo de pesquisa, prezando sempre pela
confidencialidade das informações dos participantes da pesquisa (BRASIL, 2016).
A participação dos sujeitos antes citados foi condicionada ao esclarecimento e das
especificidades de sua participação. Aos colaboradores da pesquisa participantes das oficinas
foram explicitados a natureza da pesquisa; seus objetivos; método; benefícios previstos
(BRASIL, 2012); visando sempre a promoção de respostas à problemáticas existentes, através
do emprego de método cientifico, conforme a Resolução 466/12 (BRASIL, 2012). Ao
participante da pesquisa que compõe a equipe do caps e o grupo de participantes na oficina, na
situação de entrevista, foi esclarecido a sua participação voluntária, observando sempre sua
privacidade (direito do participante de manter o controle sobre seus dados na pesquisa) e seu
direito de se retirar da pesquisa sem nenhum dano, ou constrangimento conforme Resolução
510/2016 (BRASIL, 2016).
A pesquisa foi realizada mediante esclarecimento de seus objetivos e procedimento
junto aos colaborares do serviço e da Secretaria Municipal de Saúde. O consentimento foi
garantido através da Declaração de Ciência e Concordância da Instituição Envolvida (Anexo
5).
27

3 SAÚDE COLETIVA: CAPS, promoção de autonomia e cuidado territorializado

A saúde coletiva se inicia com a crítica sistemática ao universalismo, muitas vezes


naturalista, do saber médico, onde vemos que a problemática da saúde é mais abrangente e
complexa que a leitura realizada pela medicina que, por vezes, caracteriza a saúde apenas em
seu caráter biológico (BIRMAN, 1991; LANCETTI; AMARANTE, 2012). Grande parte das
críticas, endereçadas ao modelo médico/biologizante, iniciam com as críticas feitas pelas
ciências humanas a partir da década de 1920, introduzindo-se no território da saúde e de modo
cada vez mais enfático problematizando algumas categorias, como a cisão aparentemente
adequada e precisa entre sujeitos capazes e incapazes através da ideia de normalidade,
anormalidade e patológico. Essas críticas demonstram que nessas categorias existiam juízos de
valores (por vezes conflitantes) e, justamente por isso, a centralidade do saber médico produzia
uma serie de consequências no plano social (BIRMAN, 1991; CAMPOS, 2000). O discurso da
saúde coletiva “pretende ser uma leitura crítica desse projeto médico-naturalista, estabelecido
historicamente” (BIRMAN, 1991, p. 9).
Acreditamos que o saber das ciências médicas não deve ser menosprezado ou abolido
das discussões sobre o que é saúde. O que argumentamos é que tomar a saúde apenas no seu
caráter biológico é diminui-la e não levar em conta uma infinidade de fatores que também são
de ordem relacional e social. Assim, os recursos das ciências naturais, entre elas a medicina,
são fundamentais para as diferentes práticas e discussões sobre a saúde, contudo, possuem
alcance específico, solicitando práticas complementares e olhares ampliados em relação a saúde
e qualidade de vida. A partir das problematizações feitas por Birman (1991) e por Campos
(2000), vemos que a problemática da saúde não se restringe ao registro biológico. “Por isso, a
constituição do discurso teórico da Saúde Coletiva, com a introdução das Ciências Humanas no
campo da Saúde, reestrutura as coordenadas desse campo, destacando as dimensões simbólica,
ética e política, de forma a relativizar o discurso biológico” (BIRMAN, 1991, p. 9).
Entendemos que as relações que o sujeito mantém com todas as esferas (relações com o
seu próprio corpo, com outros sujeitos, com objetos, instituições, etc.) são mediadas pela
linguagem e por códigos sociais e culturais, e por isso pensamos que a ideia de uma saúde
focada apenas no modelo naturalista e biológico não dê conta da complexidade do tema
(BIRMAN, 1991; CAMPOS, 2000). Alguns autores ainda ressaltam a importância de que os
diferentes campos do conhecimento (como a clínica, reabilitação, psicanálise, psicologia social,
análise institucional, esquizoanálise, etc.) podem agregar às políticas de saúde, incluso a saúde
coletiva (CAMPOS, 2000; LANCETTI; AMARANTE, 2012), visto que a saúde coletiva
28

também é uma construção sociohistórica dos sujeitos (CAMPOS, 2000). Nesse sentido, é
inevitável a inserção de

[...] considerações acerca dos valores e das relações de força presentes nas relações
sociais. A saúde é marcada num corpo que é simbólico, onde está inscrita uma
regulação cultural sobre o prazer e a dor, bem como ideais estéticos e religiosos.
Destacando assim, nas diversas sociedades, o corpo simbólico, as representações da
vida e da morte, do normal e do anormal, as práticas sanitárias não podem silenciar
sobre o tecido social, marcado pelas diferenças. O reconhecimento do caráter
simbólico do corpo impede sua representação como apenas uma máquina anátomo-
funcional, constituída por mecanismos bioquímicos e imunológicos (BIRMAN, 1991,
p. 9).

Nessa perspectiva, o conceito de saúde coletiva tem efeitos de reestruturar o campo da


saúde pública, justamente pela ênfase que é atribuída a dimensões históricas e sociais,
possibilitando a retirada do monopólio do discurso biológico na área da saúde. A mudança de
perspectiva inicia com a mudança de uma “saúde pública” (como algo que deveria ser
responsabilidade do estado) para uma “saúde coletiva”, ou seja, a saúde como uma preocupação
que deve ser de todas as esferas sociais, com a valorização da diferença na sua possibilidade de
novas leituras, que a saúde deve ser uma preocupação coletiva, tanto nas decisões sobre a saúde,
quanto na sua corresponsabilização pela mesma (BIRMAN, 1991). A lógica de
corresponsabilização sobre a saúde possibilita que o usuário não seja apenas passivo ao ser
‘atendido’ em suas necessidades físicas e emocionais, mas os entende como dotados de
potencialidades para pensar e agir com autonomia em relação ao seu próprio tratamento
(CAMPOS, 2000). Nas palavras de Birman, vemos que “o campo da Saúde Coletiva é, pois,
fundamentalmente multidisciplinar e admite no seu território uma diversidade de objetos e de
discursos teóricos, sem reconhecer em relação a eles qualquer perspectiva hierárquica e
valorativa” (BIRMAN, 1991, p. 11). Mais do que isso, o campo da saúde também é
interdisciplinar e transdisciplinar.
Mas o que é ser multidisciplinar? Transdisciplinar? A multidisciplinaridade é o conjunto
de saberes que atuam de forma simultânea para tratar de determinado problema. Nas palavras
de Almeida Filho, vemos que a interdisciplinaridade é entendida

[...] como estrutural, havendo reciprocidade, enriquecimento mútuo, com uma


tendência à horizontalização das relações de poder entre os campos implicados. Exige
a identificação de uma problemática comum, com levantamento de uma axiomática
teórica e/ou política básica e de uma plataforma de trabalho conjunto, colocando-se
em comum os princípios e os conceitos fundamentais, esforçando-se para uma
decodificação destes conceitos, e desta forma gerando uma fecundação e
aprendizagem mútua, que não se efetua por simples adição ou mistura, mas por uma
recombinação dos elementos internos (ALMEIDA FILHO, 1997, p. 13 grifos nossos).
29

Já a transdisciplinaridade é o efeito da integração entre as diferentes áreas do saber. A


transdisciplinaridade conta com diferentes níveis que possuem objetivos específicos, mas uma
finalidade em comum (ALMEIDA FILHO, 1997). Nesse sentido, vemos que a saúde coletiva
possui seu núcleo justamente na elaboração de políticas e construção de modelos visando o
processo de saúde/enfermidade/intervenção, ou seja, práticas de promoção e prevenção de
doenças (CAMPOS, 2000, p. 225), o que pode (e deve) integrar o eixo da Estratégia Saúde na
Família (ESF) e os CAPS, por exemplo (LANCETTI; AMARANTE, 2012). O SUS (Sistema
Único de Saúde) poderia ser caracterizado dessa forma, visto que por mais que as diferentes
instâncias tenham objetivos específicos, possuem a mesma finalidade, que é a de gerar saúde
aos seus usuários. Segundo Almeida Filho, a “‘nova saúde mental’, enquanto campos oriundos
da ‘verdadeira’ integração de diferentes disciplinas, seriam exemplos desta proposição”
(ALMEIDA FILHO, 1997, p. 13-14). Contudo, gostaria de salientar que não são campos de
saberes que interagem entre si, mas os sujeitos representantes destes campos que possibilitam
essa interação, no momento mesmo em que exercem suas práticas, em função do
reconhecimento de uma objetividade e de problemáticas comuns, que atravessam as diferentes
práticas e saberes.
Vemos assim que existe a necessidade da criação de estratégias de intervenção que
permitam reconhecer problemáticas comuns, que possibilitem uma prática situada no encontro
entre distintos profissionais da saúde e seus saberes e que permita o rearranjo constante das
lógicas de trabalho em função das demandas emergentes. Neste sentido as oficinas, como
pensadas neste trabalho, contribuem tanto para a construção de uma postura ativa dos usuários
quanto para a constituição de relações entre os distintos profissionais da equipe, pois não são
conduzidas especificamente pelo psicólogo. Outra contribuição das oficinas ao trabalho
interdisciplinar que se deseja é a visibilidade que gera a objetividade do material que produzem.
A fotografia, por exemplo, mostrou-se capaz de dar visibilidade a condição de vida e ao
território existencial dos usuários. Seu registro objetivo é material não só ao processo
terapêutico, mas também evidência que permite a equipe, mesmo que não participante
diretamente do processo, compreender o universo psíquico, relacional e social que compõe a
experiência dos usuários do serviço e suas relações com o CAPSad III.
Nesse ponto percebemos a importância e o compromisso ético e político que tem o
trabalhador da saúde, aqui também incluso o profissional psicólogo. Esse compromisso, nas
palavras de Campos (2000), é um compromisso “concreto com a produção de saúde, já que a
produção de saúde é função e finalidade essencial sem a qual não se está autorizado a falar em
trabalho em saúde” (CAMPOS, 2000, p. 220). Assim, vemos que a missão do trabalho, a partir
30

da lógica da saúde coletiva, é a de afetar e transformar saberes e práticas de seus agentes de


forma a contribuir para mudanças de forma geral no modelo de atenção dos serviços em saúde
(CAMPOS, 2000). A construção de práticas que situem a experiência terapêutica da saúde
mental em um plano comum, interdisciplinar, é, portanto, imprescindível para o ordenamento
de lógicas de trabalho capazes de potencializar aquilo que há de saudável e produtivo na vida
dos usuários do serviço, para reorganizar e planejar ações a partir da expressões territorializadas
que emergem do encontro entre usuários e equipe, e para construir saberes gestados no entre,
que tracem linhas de fuga aos especialismos reducionistas.
A política pública de saúde mental, mais especificamente a partir da Lei 10.216/2001
(BRASIL, 2001), prevê o tratamento com humanidade e respeito ao usuário com vistas há
sempre beneficiar sua saúde para sua recuperação pela inserção na família, comunidade e
trabalho. Na Portaria 336/2002 (BRASIL, 2002) vemos que os CAPS devem funcionar com
estrutura independente de qualquer estrutura hospitalar, mesmo quando localizados dentro do
mesmo espaço físico. Essa atitude garante uma equipe independente do CAPS, equipe com
capacidade técnica para desempenhar suas atividades de forma autônoma. As equipes do CAPS
também devem capacitar às equipes das Unidades Básicas de Saúde (UBS) para ampliar o
trabalho com base territorial (sobre isso, discutiremos a seguir o Apoio Matricial, estratégia de
visa ser uma forma de trabalhar essa questão). Tais prerrogativas situam os CAPS como
indissociáveis do território no qual suas equipes atuam, em diálogo com as UBSs e com a rede
de políticas públicas de uma forma mais ampliada. Essa ideia é consonante com a ideia de
RAPS (Rede de Atenção Psicossocial), onde vemos que os serviços de atenção psicossocial
devem ser organizados em uma lógica de rede onde são ofertados determinados serviços de
saúde por meio de uma produção singular descentralizando os atendimentos ao mesmo tempo
em que possibilita o trabalho de forma ampla. Essa rede deve estar ligada com as características
psicossociais dos usuários ao os corresponsabilizar pelo tratamento, ao mesmo tempo em que
não desconsidera as características complexas dos diferentes espaços territoriais (CONSELHO
FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2011).
Os CAPS são divididos em modalidades de acordo com alguns critérios, como público
a ser atendido ou por índice populacional do município. Os Centros de Atenção Psicossocial
estão organizados nas seguintes modalidades:

I - CAPS I: atende pessoas com transtornos mentais graves e persistentes e também com
necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas de todas as faixas etárias;
indicado para Municípios com população acima de vinte mil habitantes;
31

II - CAPS II: atende pessoas com transtornos mentais graves e persistentes, podendo também
atender pessoas com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas, conforme
a organização da rede de saúde local, indicado para Municípios com população acima de setenta
mil habitantes;

III - CAPS III: atende pessoas com transtornos mentais graves e persistentes. Proporciona
serviços de atenção contínua, com funcionamento vinte e quatro horas, incluindo feriados e
finais de semana, ofertando retaguarda clínica e acolhimento noturno a outros serviços de saúde
mental, inclusive CAPS Ad, indicado para Municípios ou regiões com população acima de
duzentos mil habitantes;

IV - CAPS AD: atende adultos ou crianças e adolescentes, considerando as normativas do


Estatuto da Criança e do Adolescente, com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e
outras drogas. Serviço de saúde mental aberto e de caráter comunitário, indicado para
Municípios ou regiões com população acima de setenta mil habitantes;

V - CAPS AD III: atende adultos ou crianças e adolescentes, considerando as Normativas do


Estatuto da Criança e do Adolescente, com necessidades de cuidados clínicos contínuos.
Serviço com no máximo doze leitos para observação e Monitoramento, de funcionamento 24
horas, incluindo feriados e finais de semana; indicado para Municípios ou regiões com
população acima de duzentos mil habitantes;

VI - CAPS i: atende crianças e adolescentes com transtornos mentais graves e persistentes e os


que fazem uso de crack, álcool e outras drogas. Serviço aberto e de caráter comunitário indicado
para municípios ou regiões com população acima de cento e cinquenta mil habitantes (BRASIL,
2011).
Na Portaria 3.088/2011 (BRASIL, 2011), novamente vemos a importância dada aos
trabalhos focados no território e que favoreçam a autonomia do usuário. Além disso, vemos que
é um direito do usuário ser atendido de forma integral, com assistência multiprofissional sob a
lógica multidisciplinar, com o desenvolvimento de estratégias de Redução de Danos. A
Redução de Danos é assegurada no Artigo 4, onde vemos que:
Art. 4º São objetivos específicos da Rede de Atenção Psicossocial:
II - prevenir o consumo e a dependência de crack, álcool e outras drogas;
32

III - reduzir danos provocados pelo consumo de crack, álcool e outras drogas; (BRASIL,
2011).
Para efetivar a prática de redução de danos às atividades dentro dos CAPS devem
priorizar o trabalho coletivo, movimento que possibilita a articulação com outros pontos da rede
de saúde (como as UBS) (BRASIL, 2011). Apesar disso, é “preciso mostrar para a sociedade
que, independentemente da redução do consumo, o importante é a elevação da vida e da
dignidade dessas pessoas. E suas alegrias” (LANCETTI, 2015, p. 108). Assim, os CAPS atuam
com estratégias de desinstitucionalização que visam garantir aos seus usuários o cuidado
integral através de estratégias “substitutivas, na perspectiva da garantia de direitos com a
promoção de autonomia e o exercício de cidadania, buscando sua progressiva inclusão social”
(BRASIL, 2011). Dessa forma é possibilitada a melhoria das condições concretas de vida,
ampliação da autonomia, contratualidade e inclusão social de usuários da rede e seus familiares.
Na construção de um trabalho que possa ser territorial, vemos que a articulação do
CAPS com a RAPS possibilita uma assistência de maior abrangência para com o seu usuário e
o Apoio Matricial é de grande importância na lógica de trabalho territorial da política de saúde
mental. O Apoio Matricial possibilita ampliar a assistência, ao capacitar os profissionais para
garantir o acesso de todos que necessitem de atenção com vistas à saúde mental, além de
possibilitar que a assistência ao usuário seja integrada e descontrói a lógica de encaminhamento
para os CAPS de pacientes que poderiam ser atendidos em suas unidades básicas de saúde
(BEZERRA; DIMENSTEIN, 2008). Vemos que com “a implementação do AM (Apoio
Matricial), a ênfase é dada às discussões, pois os profissionais dos CAPS buscam se reunir com
as equipes das UBS e discutir os casos de saúde mental, colher a história do usuário e tentar
encontrar saídas em conjunto” (BEZERRA; DIMENSTEIN, 2008, p. 636). Dessa forma o
Apoio Matricial pode propiciar espaço de troca de experiências, saberes e alternativas entre os
profissionais dos CAPS e os profissionais da rede básica de saúde, sendo que essa atitude
possibilita “uma construção coletiva que favorece a corresponsabilização e a avaliação contínua
no tratamento do usuário” (BEZERRA; DIMENSTEIN, 2008, p. 637).
Apesar de o Apoio Matricial de constituir como uma possibilidade de integração entre
as diferentes instâncias e gestão do SUS percebemos que existem diversas dificuldades para sua
articulação. Essas dificuldades giram em torno das diferentes demandas de saúde mental (como
casos de violência, casos de maus tratos, abuso de drogas, depressão, etc.), número reduzido de
profissionais, superlotação dos serviços de saúde, demanda excessiva sobre as equipes, etc., o
que geram o encaminhamento para outros serviços. Com a lógica de encaminhamento o CAPS
acaba por centralizar as demandas e, por vezes, não consegue se inserir no território por estar
33

sobrecarregado. Por isso é necessário uma reorganização dos serviços de saúde e o


desenvolvimento “de mecanismos que tenham como objetivo traduzir os princípios e diretrizes
fundamentais para a implantação de um sistema de saúde universal que seja unânime a toda a
população, transformando em práticas institucionais efetivas o direito à saúde” (BEZERRA;
DIMENSTEIN, 2008, p. 640).
A prática do Apoio Matricial é de grande importância, pois possibilita a articulação dos
“serviços de atenção à saúde mental com os da atenção primária, com outros setores de serviços
públicos e, ainda, com quantos forem os recursos do território que possam, de alguma maneira,
constituir-se em um conjunto vivo e concreto de referências” (BEZERRA; DIMENSTEIN,
2008, p. 640) ao tratamento dos acometidos por sofrimentos mentais. Dessa forma o Apoio
Matricial visa à superação da “lógica da especialização e da fragmentação do trabalho da
própria área de saúde mental através da responsabilização compartilhada dos casos, o que
permite regular o fluxo de pacientes nos serviços” (BEZERRA; DIMENSTEIN, 2008, p. 642).
Contudo, o matriciamento solicita a construção de recursos que permitam às equipes de saúde,
como aquelas situadas em um CAPS, acessar o cotidiano de seus usuários. As oficinas baseadas
na experiência estética se mostram interessantes ferramentas neste sentido. O Apoio Matricial
visa à superação do trabalho especializado e fragmentado na saúde, ao propor uma lógica onde
a saúde é entendida de forma ampliada através dos diferentes saberes, ampliando os olhares
sobre a saúde mental “através do conhecimento das equipes nas unidades básicas de saúde em
relação aos usuários, às famílias e ao território, propondo que os casos sejam de
responsabilidade mútua” (BEZERRA; DIMENSTEIN, 2008, p. 643). Assim, corroboramos
com a atenção integral que vemos no SUS, através da troca de saberes e práticas entre os
profissionais efetivando o trabalho multidisciplinar, em rede, dentro dos serviços de saúde e no
território mesmo em que vive o usuário (BEZERRA; DIMENSTEIN, 2008).
O trabalho em saúde tem seu “hábitat privilegiado para o tratamento de pessoas com
sofrimento mental, drogadictos, violentos e pessoas que sofrem de angústias profundas e
intensas ansiedades (no) bairro, (n)as famílias e (n)as comunidades” (LANCETTI;
AMARANTE, 2012, p. 615) e também as unidades de saúde dentro do território onde os
usuários residem e existem. Nessa lógica, o CAPS deve cada dia estar mais próximo das
unidades de saúde, como comentado anteriormente, para efetivar o Apoio Matricial que se
mostra importante pela possibilidade do trabalho em conjunto. Trabalho em conjunto que vem
demonstrando ser mais eficaz e menos danoso aos profissionais da saúde (LANCETTI;
AMARANTE, 2012). O trabalho de base territorial é
34

[...] um trabalho que se desenvolve no cotidiano da vida da cidade, nos bairros, nos
locais onde as pessoas vivem, trabalham e se relacionam. O território não é apenas a
região administrativa, mas a das relações sociais e políticas, afetivas e ideológicas que
existem em uma dada sociedade (LANCETTI; AMARANTE, 2012, p. 624).

O território pode ser entendido como um local de permanente construção (MONKEN;


BARCELLOS, 2005) e aqui os CAPS atuam como “produtores de novos territórios existências”
(LANCETTI, 2015, p. 54). Dessa forma o trabalho de cuidado não é definido pelo “lugar físico
onde se realiza o cuidado, mas o território existencial no qual o trabalhador se inscreve como
sujeito ético-político, e que anda com ele onde ele estiver operando seu processo de trabalho”
(FRANCO; MERHY, 2013, p. 161). Os CAPS integrados ao território do usuário ainda atuam
como um serviço estratégico para a consolidação da Reforma Psiquiátrica brasileira (CAMPOS
et. al. 2009).
No contexto desta pesquisa, vemos que o trabalho dentro do CAPSad III possui um
grande compromisso com a inserção do sujeito em seu território visando a integralidade do
tratamento de seus usuários, devendo sempre ser materializado através do tratamento
humanizado. Durante a realização das atividades da pesquisa foi possível perceber que os
usuários trazem de forma frequente a questão do sofrimento relacionado a exclusão social que
muitas das vezes esses mesmos usuários são alvo.
Durante o processo de pesquisa e nas entrevistas com a equipe, buscamos saber como
os profissionais do CAPSad III de Chapecó compreendem suas práticas, e que perspectivas de
atuação desenvolvem, tendo em vistas essas normativas. Durante as entrevistas ambos
participantes (trabalhador A e trabalhador B) afirmaram que sempre trabalham com vistas às
normativas sobre a funcionalidade dos CAPS. Para isso, a equipe tem reuniões semanais entre
todos os profissionais, visando à capacitação dos profissionais e discussão dos casos a partir
dos saberes das diferentes especialidades dos trabalhadores. Essa característica é de grande
importância para o tratamento dos usuários. Sobre isso o trabalhador comenta que o “trabalho
é feito de forma interdisciplinar, entre todos os profissionais. O trabalho nunca é feito de forma
individual, sempre é um trabalho coletivo, cada profissional dentro de sua especialidade”. O
trabalhador B comenta que apesar de os profissionais possuírem formações diferentes, e por
isso diferentes competências, sempre atuam em “uma mesma lógica buscando sempre atuar
segundo as portarias e resoluções do ministério da saúde”.
Existindo diferentes profissionais e saberes, também existem diferentes procedimentos.
Entre esses existe: os atendimentos individuais (acolhimento, consultas médicas, etc.); em
grupo (oficinas); visitas domiciliares; busca ativa de usuários; etc. Que sempre são previstos no
35

Projeto Terapêutico Singular que é construído juntamente entre equipe do CAPSad III e o
usuário, segundo os trabalhadores A e B, isso possibilita a corresponsabilização do usuário, o
que está de acordo com as normativas vigentes sobre os CAPSad.
Ainda sobre a observância as normativas, ambos os trabalhadores, A e B, dizem que o
trabalho sempre tem como finalidade a política de redução de danos. Sobre isso o trabalhador
B diz que é fundamental, isso porque a “redução de danos é trabalhada e construída juntamente
com os usuários que dizem não querer viver sem usar substâncias psicoativas”, como
possibilidade de auxiliar o uso não abusivo. Segundo o trabalhador B o trabalho de redução de
danos possibilita ao usuário fazer escolhas melhores, mesmo que esse usuário não pretenda uma
abstinência completa, e diminui o número de internações hospitalares que muitas vezes focam
apenas na medicalização. Sobre isso ressalta que por muitas vezes a medicação é uma
ferramenta importante (e auxilia diminuindo as ansiedades, as angústias, as sensações de
impotência e do descontrole dos impulsos), mas que não deve ser a centralidade do tratamento
dos mesmos. Não é a ênfase do trabalho do CAPSad III remediar quimicamente, a ênfase é
“empoderar esses sujeitos para que eles (usuário) caminhem com seus recursos e o remédio, se
necessário, vai entrar como coadjuvante” (fala do trabalhador B).
O Apoio Matricial (BEZERRA; DIMENSTEIN, 2008) também é um ponto chave para
entendermos como a política de saúde é aplicada no CAPSad III de Chapecó e como é articulado
o trabalho de base territorial. Sobre essa questão, o trabalhar A diz que matriciamento é
composto por equipes com psicólogos, enfermeiros e médicos que atual junto as unidades
básicas de saúde, capacitando e qualificando esses profissionais com vistas a entender a
problemática da dependência química e diminuindo a lógica do encaminhamento dos casos que
podem ser tratados nas UBSs dos bairros. Através do relato do trabalhador A vemos que o
CAPSad III de Chapecó auxilia na contenção da superlotação do próprio serviço ao não
centralizar o trabalho com dependência química apenas no CAPSad III, mas ao se inserir no
território e capacitar os profissionais das UBS corrobora com o trabalho intersetorial do SUS,
pois ao trabalhar com as UBS é possível “discutir os casos de saúde mental, colher a história
do usuário e tentar encontrar saídas em conjunto” (BEZERRA; DIMENSTEIN, 2008, p. 636).
O trabalhador B destaca que o matriciamento contribui para que as equipes da atenção
básica tenham suporte especializado nos atendimentos que podem ser assistidos pela atenção
básica, em especial aqueles casos de usuários que não tem tanta perda de inserção social e que
conseguem vínculo empregatício mesmo com o uso. Na fala desse trabalhador vemos que “as
atividades com as equipes das UBS são pensadas para orientar e esclarecer os profissionais de
lá que podem fazer o acompanhamento lá na unidade de atenção básica, diretamente, e os
36

profissionais do NASF. O papel do matriciamento no planejamento do trabalho é de contribuir


para que o trabalho nos CAPS seja aquele que realmente está na portaria, transtornos graves e
persistentes, aqueles transtornos agudos que se amenizam podem retornar para rede para serem
acompanhados no seu território. Isso ajuda bastante porque o usuário atendido a partir de seu
território, perto de sua casa, é mais tranquilo, o acesso é mais fácil e o matriciamento contribui
para isso também (sic) ”. Dessa forma o matriciamento é efetivado por uma equipe que envolve
profissionais dos CAPS de Chapecó com um profissional de cada CAPS que compõe um mini-
grupo com enfermeiro, psicólogo, psiquiatra. Esse mini-grupo matricia a saúde mental, a forma
de cuidado, as possibilidades de tratamento nas UBS, e não apenas a dependência química, e, a
equipe que é mesclado entre profissionais dos três CAPS: CAPSad III, CAPSII e CAPSi.
Segundo o trabalhador B, os usuários do CAPSad III de Chapecó em processo de alta entendem
que essa equipe multiprofissional também vai circular pelo seu bairro e ao serem atendidos na
sua UBS vão estar indiretamente vinculados ao serviço e que se necessário voltarão a serem
atendidos pelo CAPSad III, fato que dá bastante segurança para o usuário.
O matriciamento do CAPSad III de Chapecó ainda contribui para a desmistificação
sobre o que é a saúde mental e o que é a dependência química através do trabalho junto aos
bairros. O trabalhador B relata que a comunidade organizada dos bairros tem chamado o
CAPSad III para falar sobre o trabalho que realiza, sobre a dinâmica e como se dá o tratamento
para a dependência ou para um usuário problemático de substância psicoativa, fato que
desmistifica o lugar do dependente químico e do usuário do CAPS. Ainda existem grupos
formados por familiares dos usuários do CAPSad III, o que auxilia aos familiares a entenderem
que internações prolongadas não é a melhor forma de tratamento, que existem outras
possibilidades que não apensa a abstinência completa, e, dessa forma, desmitifica o tratamento
ao mesmo tempo em que a família se implica nesse processo e os corresponsabiliza. Na fala do
trabalhador B vemos que o “trabalho com as famílias tem a finalidade de desconstruir o
higeinismo”.
Nesse sentido, o trabalho de cunho territorial aproxima os usuários o CAPSad III da
comunidade em que habitam, pois essa é uma necessidade desses sujeitos, ao mesmo tempo em
que a política de saúde mental pode e deve trabalhar com essa demanda, aqui também incluso
o trabalho do profissional da psicologia. Contudo, o matriciamente ainda se demonstra
estratégia difícil de efetivar, pois demanda investimento logístico e de tempo dedicado a
interlocução entre equipes, a construção de estratégias que apresentem questões do território no
processo de tratamento de cada usuário e a consolidação de um plano de saber compartilhado.
Entendemos que a psicologia a partir da lógica de atenção integral ao usuário pode construir
37

estratégias que contribuam para entendermos os modos de subjetivação perpassados pelo


sofrimento como dor socialmente significada (SAWAIA, 2001), ao mesmo tempo em que
propicia a criação de um novo campo de experiências que possibilitam a ressignificação e o
aumento da potência (ESPINOZA, 1992) dos sujeitos.

3.1 A Psicologia no Contexto da Saúde Coletiva

A psicologia, por muitas vezes e por muito tempo, se colocou a margem das discussões
sobre a saúde, separando o cuidado com a saúde do cuidado com a saúde das populações, não
se inserindo nos debates sobre o SUS (BENEVIDES, 2005). Apesar disso, hoje existe maior
mobilização desta categoria profissional e isso se deve a uma mobilização que é e que deve ser
coletiva. Hoje entendemos que os debates sobre modos de intervenção que vão para além dos
enquadres clássicos, geralmente de uma clínica individual e privada ou de uma psicologia que
fizesse separação de entre o individual e o social, é um debate ético e político necessário e que
diz respeito a toda a população, incluso aqui o psicólogo por entendermos que essa discussão
também diz respeito sobre o trabalho do psicólogo, seu compromisso e seu papel dentro das
políticas públicas (o SUS é fundamentalmente política pública, porque é de qualquer um),
inclusas aqui as políticas de saúde (BENEVIDES, 2005).
Apesar de historicamente o psicólogo ser vinculado ao campo da luta pela reforma
psiquiátrica, sendo sempre convocado a atuar no processo de luta (SALES; DIMENSTEIN,
2009), vemos que sua entrada no campo da saúde é recente. Segundo Schneider (et. al. 2014),
se dá a partir da década de 1990. Hoje o trabalho do psicólogo no CAPS visa
desinstitucionalizar o usuário da rede de saúde mental, agindo não na perspectiva de cura de
uma doença ou para uma “boa” adaptação do usuário (visto que por muito tempo os manicômios
exerceram controle, através da psiquiatria, tomando a loucura como seu objeto e transformando
a experiência da desrazão em uma doença), mas na percepção da existência de sofrimento e
com o objetivo de uma real intervenção sobre as condições objetivas de vida, sobre as relações
e os sentidos da experiência de cada usuário (SALES; DIMENSTEIN, 2009).
O CAPSad III, onde foi realizada a pesquisa, é um equipamento da política pública de
saúde mental para atenção integral aos acometidos por sofrimento mental em decorrência do
uso abusivo de substâncias psicoativas. Esse equipamento é inserido na atenção secundária do
SUS, por isso também é gerido pelos mesmos princípios do SUS, e é considerado o principal
mecanismo de operacionalização da reforma psiquiátrica. O CAPSad III tem por “finalidade
oferecer atendimento à população com problemas relacionados ao uso de substância
38

psicoativas, realizando o acompanhamento clínico e a reinserção social” (SCHNEIDER et. al.


2014, p. 101). No trabalho em rede, de base comunitária que busca a emancipação do usuário,
o psicólogo pode desenvolver atividades com o próprio usuário, com a família (SCHNEIDER
et. al. 2014) deste e também com a comunidade através do Apoio Matricial, visando sempre à
reinserção do usuário na sociedade e integrando-o como participante ativo em seu tratamento e
comunidade.
Nos CAPSad a questão, tanto do uso abusivo, quando da dependência de álcool ou
outras drogas, deve ser abordada de forma multidisciplinar, isso se deve ao entendimento de
que devemos considerar o usuário em seus aspectos psiquiátricos, mas também econômicos,
políticos, sociais e psicológicos e que todos esses elementos devem ser olhados com a mesma
importância (SCHNEIDER et. al. 2014). Uma das principais características do CAPSad é a
estratégia de redução de danos, onde se entende que o “tratamento não pode ficar restrito à
lógica da abstinência (mudança do comportamento de uso de substância química) como único
resultado desejável” (SCHNEIDER et. al. 2014, p. 110). A lógica da redução de danos
possibilita que cada usuário possa ser respeitado nas diferentes maneiras “que irá administrar
seu tratamento, seja como abstinente ou colocando em prática a política de redução de danos”
(BRASIL, 2004 apud SCHNEIDER et. al. 2014, p. 107). Assim, vemos que o objetivo da
política é

[...] reduzir os danos causados pelo consumo de drogas, aos indivíduos que, não
podem ou não querem se abster de usá-las. Não tem como objetivo a eliminação total
do consumo, mas a diminuição dos efeitos prejudiciais do mesmo, priorizando, assim,
a saúde dos sujeitos e da comunidade em geral (DIAS et al. 2003 apud SCHNEIDER
et. al. 2014, p. 106).

O trabalho direcionado a redução de danos, percebemos ao longo da pesquisa, solicita


uma intervenção na qual o fluxo cotidiano da vida de cada sujeito usuário do CAPSad III possa
ser ressignificando. A intervenção proposta pelas oficinas estéticas mostrou-se trabalho de
grupo voltado a transversalização das perspectivas que se encontram enlaçadas ao movimento
de objetivação e subjetivação proposto. Para Benevides (2009) o grupo tem essa função e gerar
movimentos processuais e transversais. Por isso, o trabalho em grupos, como aqui proposto,
mostra-se contexto rico para a exploração de possibilidades outras a cada existência, no qual se
criam movimentos de resistência ao uso abusivo de álcool e drogas.
Entendemos que não devemos combater determinados estilos de vida, mesmo que
reconhecidamente esses estilos de vida possam trazer prejuízos aos sujeitos, pois essa atitude
não deixa de ser uma forma moralista, normativa e impositiva (CAMPOS, 2000) de como os
39

diferentes sujeitos devem levar suas vidas, o que contraria o código de ética do profissional
(CFP, 2005); sobre isso, vemos que no artigo 2 linha b, está escrito que é vedado ao psicólogo:
“Induzir a convicções políticas, filosóficas, morais, ideológicas, religiosas, de orientação sexual
ou a qualquer tipo de preconceito, quando do exercício de suas funções profissionais” (CFP,
2005, p. 9).
Esse princípio do código de ética preserva o usuário em sua dignidade, autonomia e
direito de escolha, além de corroborar com a política de redução de danos e de
responsabilizarmos o usuário por seu tratamento. Vemos que escolher entre “longevidade e
prazer é um direito inalienável da pessoa humana. A participação na administração das relações
entre desejos, interesses e necessidades sociais é condição sine qua non para a democracia e
para a construção de sujeitos saudáveis” (CAMPOS, 2000 apud CAMPOS, 2000, p. 229), ou
seja, escolher entre usar e não usar substâncias psicoativas é uma possibilidade circunscrita a
experiência de cada sujeito, e o trabalho do psicólogo não deve ser de julgamento moral (ao
condenar determinada prática), mas de trabalhar com vistas ao ganho de autonomia e
emancipação, o com o menor prejuízo para o sujeito (redução de danos).
Outra característica do trabalho do psicólogo é de não focar suas intervenções somente
no “suporte a dependência de álcool e outras drogas, mas tendo a preocupação com o
fortalecimento da rede de apoio desse usuário” (SCHNEIDER et. al. 2014, p. 110), efetivado
no trabalho com o grupo e também no território onde vivem os usuários da política. Para isso é
importante o trabalho multidisciplinar e transdisciplinar, espaço propicio para a equipe fazer
troca de experiências e de informações sobre as especificidades de seus diferentes
conhecimentos teóricos, oferecendo suporte e abrindo possibilidades a ações dentro do campo
das políticas públicas de saúde, onde há a “necessidade que os modelos teóricos, que embasam
a atuação nesse contexto, sejam flexíveis à mudanças voltadas para a discussão desse novo
contexto desafiador, chamado de saúde coletiva” (SCHNEIDER et. al. 2014, p. 106).
Para que possamos gerar saúde e para que o tratamento seja eficaz, é necessário o
trabalho tanto individual como coletivo, onde vemos o trabalho em grupo como possibilidade
de intervenção. No grupo, os elementos singulares que cada usuário, as características de sua
comunidade, “questões sociais, familiares, econômicas e políticas influenciam a forma como
eles se organizam em sociedade e na função de drogas em suas vidas” (SCHNEIDER et. al.
2014, p. 110), podem através do compartilhamento de experiências e informações importantes,
auxiliar como suporte ao tratamento de todos, ao mesmo tempo em que cria um espaço de
escuta, apoio e solidariedade entre os próprios usuários. Isso é de grande importância, pois
percebemos que geralmente os usuários do CAPSad possuem uma rede de apoio fragilizada,
40

necessitando de maior suporte social (SCHNEIDER et. al. 2014) para construir uma rede de
relações que não seja necessariamente perpassada pelo uso abusivo de álcool ou outras drogas.
Para que isso aconteça “os psicólogos precisam assumir a responsabilidade de aceitar a
demanda, sem enquadrá-la ou transformá-la, evitando práticas alienadas, ou seja, cada demanda
é específica e tem necessidade de refletir e questionar o modo de atuação desta” (SCHNEIDER
et. al. 2014, p. 110). Assim, busca-se intervir com vistas a “gerar o novo, o inusitado, o mais
potente” (SALES; DIMENSTEIN, 2009, p. 818). No decorrer das oficinas foi possível
percebermos que o trabalho com o grupo no CAPSad III possibilitou, através de um movimento
coletivo, produzir novas redes de apoio no momento mesmo em que os usuários construíam as
câmeras pinhole, visto que esses mesmos usuários auxiliavam uns aos outros, discutiam e
inventavam novas formas de se produzir as câmeras, no trabalho do pensamento associado a
construção das temáticas e das fotografias, ao mesmo tempo em que eles mesmo de re-
inventavam nesse processo.
Apesar de toda essa gama de possibilidades que existem, na literatura consultas, vemos
que muitas vezes o trabalho do psicólogo nos CAPS se foca nos atendimentos individuais
tradicionais ou no modelo ambulatorial, fortemente centrado na intervenção individualizada,
com baixa inserção no território, dificultando as trocas entre comunidade e CAPS. Isso dificulta
“a articulação em rede de diversos equipamentos da cidade, e não apenas de equipamentos de
saúde, que pode garantir resolutividade, promoção de autonomia e da cidadania das pessoas
com transtornos mentais” (DIMENSTEIN, 2007 apud SALES; DIMENSTEIN, 2009, p. 820).
Os profissionais que possuem uma posição mais clara sobre sua proposta de trabalho,
seus desafios e entendem a complexidade desse trabalho, conseguem desenvolver um trabalho
com práticas mais voltadas para a efetivação da lógica de atenção psicossocial e atenção
territorializada, ou seja, com os princípios da política pública de saúde mental (SALES;
DIMENSTEIN, 2009). Dessa forma vemos que o

[...] o trabalho com a loucura, nos serviços substitutivos, exige uma mudança nos
modos de agir, de cuidar, de acolher, tarefa extremamente desafiante [...]. Se se busca
a reinserção dos usuários no jogo das relações sociais, para isso, os profissionais
sabem que os serviços precisam funcionar voltados para fora, buscando parcerias com
as mais diversas instâncias – sociedade civil organizada, entidades religiosas, grupos
comunitários diversos, etc. (SALES; DIMENSTEIN, 2009, p. 820).

Essa atitude gera a possibilidade de novas práticas, práticas que estão voltadas a
experimentação de paixões alegres (ESPINOZA, 1992), e quando experimentamos paixões
alegres “a sensação de aumento de potência, de incremento energético favorece a autonomia, a
41

criatividade, a inventividade, a busca de inovações” (SALES; DIMENSTEIN, 2009, p. 823).


Outro efeito da experimentação dessas paixões alegres é o aumento da capacidade de produzir,
em si e nos outros, encontros capazes de continuar alavancando a potência, para instigar a busca
por formas outras de existência. A capacidade de aumentar a potência deveria, segundo Sales e
Dimenstein (2009), orientar todos os trabalhos nos serviços de saúde de tal forma que os
trabalhadores devem favorecer “encontros criadores e geradores de alegria para que cada um
possa construir, a partir das potências que lhes são próprias, formas de existir que impliquem a
diminuição do sofrimento” (SALES; DIMENSTEIN, 2009, p. 823). Dessa forma, uma equipe
onde prenomina paixões alegres tem mais possibilidade de gerar atos de cuidado de forma
criativa, inovadora e reinventar procedimentos, do que uma equipe onde prenominam paixões
tristes (SALES; DIMENSTEIN, 2009).
Outro aspecto que deve ser alvo do trabalho do psicólogo é o esforço empreendido no
sentido de modificar a forma como lidamos com a diferença, com o que não está dentro da
norma, de tal forma que os usuários acometidos por sofrimento psíquico possam transitar com
maior fluidez nos diversos espaços da cidade (SALES; DIMENSTEIN, 2009), pois isso faz
parte do cuidado em saúde.
Nas pesquisas de Sales e Dimenstein (2009) vemos que os profissionais da psicologia
devem atuar “demarcando claramente as diferenças e os efeitos de uma perspectiva de cuidado
que não está ancorada na lógica da segregação e do isolamento” (SALES; DIMENSTEIN,
2009, p. 816), como a lógica do modelo manicomial. Para nós, o cuidado, muitas das vezes,
pode ser exercido com pequenas atitudes, mas que surtem grandes efeitos. Um exemplo disso
é a capacidade de prestarmos atenção, reconhecendo no usuário, alvo de nosso cuidado, o “que
ele tem de próprio e singular, dando disso testemunho e, se possível, levando de volta ao sujeito
sua própria imagem” (FIGUEIREDO, 2007, p. 18), isso possibilita o acolhimento e o
reconhecimento do usuário como sujeito autônomo, gerando emancipação, dotado de
capacidades e de potência.
Estes pontos dizem respeito a uma práxis ética, que vai muito além da deontologia que
sustenta o código de ética profissional. Se no código de ética encontramos as diretrizes para
garantir os direitos humanos e a qualidade da intervenção, precisamos ainda recorrer a uma
ética outra, fundada na possibilidade de ampliar a potência de agir de cada um que se situa como
participante nos encontros que propõe o trabalho coletivo no contexto do CAPSad. A ética, para
Espinoza, diz respeito a uma ação coletiva fundamentada no conceito de potência que é
entendido como direito de todos os sujeitos tem de ser, de se afirmar, de expandir a sua própria
potência, movimento que é condição sem a qual não se pode atingir a liberdade (SAWAIA,
42

2001). Assim, criar encontros perpassados por uma práxis ética é portanto um imperativo, pois
resulta em acontecimentos que ampliam a capacidade de agir e subsidiam o investimento em
uma potência própria a cada sujeito, para que se gerem novos bons encontros nas demais
experiências cotidianas.
Ao psicólogo que desenvolve suas práticas no CAPS, é necessário saber cuidar dos
outros ao mesmo tempo em que se deixa “cuidar pelos outros, pois a mutualidade nos cuidados
é um dos mais fundamentais princípios éticos a ser exercitado e transmitido” (FIGUEIREDO,
2007, p. 21), auxiliando também que o usuário desenvolva em si, capacidades cuidadoras
(FIGUEIREDO, 2007). Nesse sentido vemos que a postura defendida por Schneider (et. al.
2014) é a de que o trabalho, dos profissionais que compõe o staff da rede de saúde mental,
incluindo o profissional da psicologia, assume postura que visa “ter em mente que o objetivo
da ação clínica é cuidar e [...] o profissional deve ter como instrumento de trabalho a rede de
relações do sujeito” (SCHNEIDER et. al. 2014, p. 109).
Nossa pesquisa visou levantar uma possibilidade que conseguisse levar em consideração
esses aspectos mencionados, para isso buscamos dar visibilidade ao trabalho de cunho
relacional (MERHY, 2013) com a centralidade de suas práticas no ganho de autonomia,
gerando emancipação dos usuários da política de saúde mental, por acreditarmos que o resgate
de cidadania e dos direitos humanos dos usuários dessa política contribui em seu tratamento.
Ao contrário de nossa prática era o pensamento dos modelos de enclausuramento, que entendem
o sujeito como fechado em uma funcionalidade psíquica da qual não haveria soluções outras a
não ser o isolamento social, assim não valorizam o sujeito como social, como produto de
agenciamentos que são coletivos (ZANELLA, 2005), como descrito anteriormente.
Durante a realização da pesquisa, verificamos que o tratamento dos usuários envolve
muito mais que apenas o desejo pela abstinência ou mesmo o uso da medicação. Através das
oficinas estéticas e de seu suporte, a fotografia (DIEHL; MARASCHIN; TITTONI, 2009;
MAHEIRIE, 2015; TITTONI, 2015), possibilitamos um espaço onde os usuários pudessem
construir uma rede de relações e de suporte entre os usuários, fato de fundamental importância.
Entendemos que essa rede de relações irá auxiliar na continuidade do tratamento ao criar efeitos
de mudanças em suas vidas. As mudanças decorrentes desse processo se constituem como
facilitadores para a percepção de novas experiências que agem no sentido de dar novos
significados ao tratamento e ao não uso abusivo de álcool e outras drogas, e assim é possível
criar mudanças nas visões de mundo dos sujeitos e consequente mudança de subjetividades.
Isso foi possível pelos agenciamentos gerados no grupo através do ato de fotografar.
43

Entendemos que o sujeito é produto de uma produção que não é concluída, que está a
todo tempo se modificando, se alterando e se reatualizando (BENEVIDES, 2005; BENEVIDES
de BARROS 2009). Aqui se entende que a subjetividade é plural, sem uma instância
determinante e que os movimentos que por vezes se repetem (como padrões de funcionamento)
podem se diferir ao serem produzidos desvios que forcem uma quebra de repetição
(BENEVIDES, 2005). O trabalho na política de saúde tem potência para esse movimento de
gerar diferença na repetição, até mesmo no ato de se tomar uma experiência coletiva, pois gera
processos singulares.
Assim trabalho da saúde no SUS não pode ser desvinculado da produção dos próprios
sujeitos, produção que é resultado do processo que também necessita de autonomia e
corresponsabilização por parte dos usuários das políticas de saúde, através de processo de
subjetivação que se dá no plano coletivo, na experiência coletiva, na multiplicidade que pode,
e deve, ser gerada na política pública (BENEVIDES, 2005). Aqui entendemos, tanto a
autonomia e emancipação, quando a corresponsabilização, como princípios que geram a
produção de sujeitos mais participantes em seus processos de alta, e, nesse sentido “a interface
da Psicologia com o SUS se dá pela certeza de que o processo de inventar-se é imediatamente
invenção de mundo e vice-versa” (BENEVIDES, 2005, p. 23).
Durante as atividades de pesquisa, percebemos que o CAPSad III de Chapecó tem
atuado para aplicar e ampliar o Apoio Matricial. Como descrito anteriormente, vemos que o
AM, além de ser uma estratégia da política de saúde, possui uma importância estratégica para
a continua efetivação da luta pela desinstitucionalização, isso porque atua de modo continuo
para dar visibilidade a esse tema ao mesmo tempo em que desmistifica o lugar de “louco”, que
por muitas vezes é atribuído aos usuários dos CAPS. Assim, vemos que existe potência no
trabalho multidisciplinar e intersetorial, visto que auxilia no tratamento ao mesmo tempo em
que possibilita novas formas de vida dentro do território em que esses sujeitos já habitam
através.
O investimento principal deste trabalho, que se atravessa ao movimento gerado durante a
pesquisa-intervenção, é aquele centrado na produção de modos de vida com mais potência, na
gênese de redes relacionais ressignificadas pela experiência grupal, na construção de co-
responsabilização e autonomia. A construção de dispositivos que permitam intervenções
fundadas nesta lógica, é, portanto, fundamental.
44

4 TECNOLOGIAS LEVES, o dispositivo fotográfico e o regime estético das artes na


produção de devires

Aqui apresentaremos o desenvolvimento da proposta de intervenção propriamente dita,


considerando as prerrogativas e diretrizes a atuação dispostas nos itens anteriores. A demanda
do CAPSad tem especificidades muito particulares, o que solicita a invenção de formas de
trabalho e de formas de relação entre equipe e usuários capazes de permitir uma ressignificação
constante. As noções de “trabalho vivo” e de “tecnologias leves” (FRANCO; MERHY, 2013;
LANCETTI, 2015), propiciaram a montagem de um cenário movente, no qual as oficinas
puderam ser pensadas e repensadas em função das demandas emergentes através do próprio
trabalho de intervenção.
O território aqui é o local onde os movimentos de mudanças, possibilitados pelo
dispositivo das Oficinas Estéticas (REIS; ZANELLA, 2015), geram movimentos de
desterritorialização, de ruptura, forçam a criação de uma nova forma da realidade social, isto é,
de novos territórios existenciais (FRANCO; MERHY, 2013). Segundo os autores

A produção subjetiva do meio em que se vive e trabalha é marcada por uma constante
desconstrução e construção de territórios existenciais, segundo certos critérios que são
dados pelo saber, mas também e fundamentalmente seguindo a dimensão sensível de
percepção da vida, e de si mesmo, em fluxos de intensidades continuas entre sujeitos
que atuam na construção da realidade social (FRANCO; MERHY, 2013, p. 152).

Uma das formas apresentadas pelos autores para que esse movimento seja possibilitado
é o trabalho vivo, que é voltado à construção de tecnologias leves (FRANCO; MERHY, 2013;
LANCETTI, 2015). O trabalho vivo é proposta terapêutica de cunho mais relacional com os
usuários da política pública, sem desconsiderar a história de vida do usuário entendendo que a
mesma se constrói através das relações familiares e sociais (MERHY; FRANCO, 2013), onde
devemos olhar de forma ampla para os diversos aspectos da vida dos sujeitos. Assim, o trabalho
vivo se constitui em uma forma de “adquirir sentido na medida que a sua ‘alma’ seja a produção
de um cuidado em saúde dirigido para ganhos de autonomia e de vida dos seus usuários”
(MERHY, 2013, p. 216).
Já as tecnologias leves se caracterizam como formas não materiais “para o conhecimento
técnico usado na produção da saúde” (MERHY; FRANCO, 2013, p. 140). Ou seja, as
tecnologias leves têm relevância pelo seu objetivo de potencializar as relações entre os sujeitos
envolvidos na política pública de saúde (trabalhadores e usuários), potencializar a existência
dos envolvidos na produção do cuidar (MERHY; FRANCO, 2013). Nesse sentido as
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tecnologias leves contribuem para a redução de danos, finalidade da proposta norteadora do


trabalho na rede CAPS. A redução de danos visa produzir bons encontros que aumentem a
potência vital (LANCETTI, 2015), sabendo que é fundamental “a elevação da vida e da
dignidade dessas pessoas. E suas alegrias” (LANCETTI, 2015, p. 108). Assim, as tecnologias
leves (voltadas ao cuidado) devem ser utilizadas juntamente com as tecnologias duras (exames,
medicamentos, etc.), o que possibilita a articulação entre as tecnologias leves e tecnologias
duras, formando as tecnologias leve-dura (FRANCO; MERHY, 2013).
Merhy (2013) utiliza e pensa na efetivação do cuidado a partir do referencial da filosofia
de Espinoza, onde vemos que é importante pensar a

[...] vida em produção, como lugar de expressão do divino que é, se manifesta de


várias formas. Que a alegria é uma destas manifestações da mais interessantes, porque
um corpo alegre está em plena produção de vida, está em expansão. Por isso, tomo
esse empréstimo, para sugerir que só pode estar implicada com um agir
antimanicomial uma equipe de trabalhadores alegres. Ou seja, só um coletivo que
possa estar em plena produção de vida em si e para si, pode ofertar, com o seu fazer,
a produção de novos viveres não dados, em outros. Ou, pelo menos, instigá-los a isso
(MERHY, 2013, p. 220).

Aqui vemos a importância do conceito de alegria, pois está é entendida como efeito da
relação entre os corpos que se relacionam (FRANCO; MERHY, 2013), o aumento de potência
é entendido como ampliação da própria vida, vida que pode ser gerada no trabalho vivo em ato
materializado através das tecnologias leves ao trabalhar um uma lógica multidisciplinar para
entender as diferenças e singularidades dos sujeitos, e, transdisciplinar, que possibilitasse a
maior eficácia no programa de redução de danos aos sujeitos que buscam tratamento nos CAPS
(LANCETTI, 2015). Franco e Merhy (2013) ressaltam a importância de entendermos o sujeito
em suas particularidades, que cada sujeito se constitui de forma única; assim, o real objetivo
dos CAPS seria a produção de novas formas subjetivas de cuidado, que gerem vida e autonomia
dos usuários (MERHY, 2013) o que corrobora com as normativas vigentes sobre os CAPS.
Pensamos a oficina fotográfica, portanto, como uma tecnologia leve, que possibilita o
trabalho vivo a medida que compõe e recompõe o grupo como um dispositivo nômade. A
perspectiva de trabalho com as oficinas, considerando-as como “dipositivo de intervenção”, é
embasada no referencial teórico da esquizoanálise. Nessa interpretação, vemos que o
dispositivo possui uma potência positiva, expresso através de um processo que sempre é
intensivo (HUR, 2012). Assim, segundo Hur (2012), o dispositivo pode ser entendido como
uma máquina que possibilita forças heterogêneas de diferentes naturezas, ou seja o “dispositivo
pode ser entendido como uma máquina de produção de discursos e de ações-relações, em que
46

se faz ‘falar’ e se faz ‘ver’, produzindo enunciações, visibilidades distintas, acontecimentos e


modos de ser” (HUR, 2012, p. 21). Esse sentido é o que nos utilizamos quando falamos na
construção de um dispositivo.
A pesquisa foi realizada com seis usuários do CAPSad III e três profissionais do
CAPSad III que participaram das oficinas organizados em dez encontros tendo seis diferentes
movimentos nas realizações das oficinas. Os seis movimentos das oficinas estéticas podem ser
observados no fluxograma abaixo.

1 - Constituição do
2 - Montagem das
grupo –
câmeras Pinhole –
apresentação do
investimento no
dispositivo
processo grupal, na
fotográfico e análise
apropriação do
inicial de demandas
material e na relação
entre usuários.

3 - Construção
coletiva de temáticas
e propostas para a 4 - Produção das imagens
produção de
imagens

6 – Recomposição da
5 – A revelação das experiência no grupo a
imagens partir das imagens
objetivadas.

1º Momento – Constituição do Grupo

Durante os primeiros encontros visamos a aproximação e criação de vínculos com os


usuários e entre os próprios usuários. Nesse primeiro movimento apresentamos o dispositivo
fotográfico e iniciamos as discussões sobre fotografia. Nesses momentos foram mobilizados
uma aproximação entre os próprios usuários e os profissionais e pesquisador. Através das
47

discussões, projetos e mesmo da apresentação da câmera pinhole visamos mobilizar os sujeitos


e inseri-los nas discussões sobre o movimento de recomposição, movimento que aconteceu ao
mesmo tempo em que o próprio grupo acontecia. Isso possibilita o trabalho de ficção no
momento em que geramos intervenções no processo de criação, ao criar momentos em que
geram o dissenso através do rearranjo que acontece durante o processo de produção artística,
que ressignifica a realidade ao mesmo momento em que gera uma nova organização do sensível
(CAVAGNOLI, 2018) dos usuários. A ficção é constitutiva do real, a medida em que o real se
caracteriza como ficção consensual. Desta forma, ficcionar o arranjo estético e simbólico da
partilha em direção a expressão de recortes heterogêneos do que se pode perceber e pensar,
contribuir a ressignificação da realidade compartilhada.
Pelo fato de o CAPSad III ser um ambiente de grande circulação, as oficinas de
fotografia iniciaram com a proposta de ser aberto para facilitar a inserção de novos membros,
contando com a participação de pedagoga e psicóloga do local durante a realização das oficinas.
Ainda foram pensados momentos em que os usuários pudessem falar sobre o andamento da
oficina, momentos que tiveram como objetivo dar visibilidade as possibilidades de constituição
de devires aos sujeitos entendidos como criativos e capazes de corroborarem com o seu
tratamento. A intenção era, no momento, mobilizar a produção de novos sentidos a existência,
contribuindo com o enfrentamento da dependência química, corroborando assim com as
normativas vigentes sobre os CAPS (BRASIL, 2001). Os primeiros encontros da oficina
estética de fotografia, juntamente com os usuários da política pública de saúde mental, visaram
à construção de vínculos com e entre os mesmos, isso se deve ao fato de acreditarmos que o
vínculo entre os sujeitos é um fator determinante para o andamento de qualquer proposta de
trabalho em grupo.
O grupo foi composto por seis usuários e vinte e cinco a cinquenta anos. No decorrer
das oficinas alguns usuários deixaram de participar e foram sendo incluídos outros usuários. Os
usuários que foram sendo incluídos no grupo já faziam tratamento a mais de um ano no CAPSad
III. As atividades realizadas no CAPSad III têm diferentes modalidades, como grupos dos
usuários, grupo de familiares dos usuários, oficinas de artesanato, etc., a oficina estética de
fotografia poderia ser enquadrada dentro das oficinas de artesanato. Ainda salientamos que essa
oficina não tem exclusivamente uma proposta pedagógica, mas terapêutica, como será
explicitado no decorrer do trabalho.
Agindo dessa forma acreditamos agir de uma forma ética, ética nas relações nos exatos
momentos em que elas se dão (ESPINOZA, 1992), agindo no sentido de ampliar os direitos dos
usuários, possibilitar o acesso ao comum, possibilitar a ampliação da vida (LANCETTI, 2015),
48

justamente porque os consideramos sujeitos autônomos e potentes. Assim, não visamos dar
sermões, mas olhar as expressões, ouvir o não dito, entender suas histórias na medida em que
elas emergiam nas oficinas, dessa forma, buscamos olhar diferente, “onde os outros veem uma
droga” (LANCETTI, 2015, p. 64) nós buscamos “enxergar uma pessoa” (LANCETTI, 2015, p.
64). Agindo dessa forma acreditamos estar auxiliando na “na recomposição da estrutura interna
e social da pessoa como um todo” (LANCETTI, 2015, p. 52), justamente porque com menor
repressão, a conversa com usuários de drogas ocorre de forma mais fácil e mais fluida, agindo
no sentido de aumentar a potência vital (LANCETTI, 2015) desses usuários.
O dispositivo por nós proposto visa dar possibilidades de, através de um movimento de
grupo, abrir novos campos de existência dos usuários possibilitando devires (DELEUZE;
GUATTARI, 2012a) até então impensados. Nesse sentido, vemos um devir grupo, vemos a
emergir possibilidades inéditas de experimentar novos formas de relação, novas formas de
afecção, novas formas de se relacionar, que possibilitam que os usuários sejam inseridos em
possibilidades outras, que até então não eram conhecidas (BENEVIDES de BARROS 2009).
Sobre isso vemos diversas falas dos usuários, sobre as oficinas de fotografia o usuário C
comenta que “antes eu era sozinho, as outras pessoas me viam como um bêbado, agora eu vejo
que tem sentido o tratamento, que nós (usuários do CAPSad III) temos condições de sair do
vício (sic)”, o usuário B comenta perceber que “a gente pode sair do alcoolismo, a gente pode
ter uma vida nova (sic)” e o usuário A diz que a “oficina contribui no tratamento, porque a gente
aprende coisas novas, se inventa e reinventa” e acreditamos que os próprios usuários se
reinventam nesse processo criativo. Essa é uma potência que o psicólogo possui ao trabalhar
nas políticas de saúde e esse foi o que norteou nossa prática quando propomos as oficinas
estéticas como um dispositivo, amparados nas discussões de Reis e Zanella (2015), justamente
para não cairmos na lógica de controle e tutela da primeira definição de dispositivo (apresentada
anteriormente).
A experiência coletiva se efetiva na e pela grupalidade de um processo que acontece no
próprio grupo, possibilitando gerarmos potência (ESPINOZA, 1992) nos usuários atendidos
pela política. Nesse sentido ao inventarmos modos de dar visibilidade ao trabalho com grupos
podemos contribuir com os eixos de universalidade, equidade e integridades do SUS, ao mesmo
tempo em que se aumenta a transversalidade entre os equipamentos, gera processos
democráticos e possibilita maior participação institucional (BENEVIDES, 2005). Dessa forma
vemos o trabalho “grupal como um importante mecanismo de resistência às políticas
individualizantes presentes no contemporâneo” (BENEVIDES, 2005, p. 24), ou seja,
possibilitamos políticas de autonomia e emancipação social (BENEVIDES, 2005).
49

Esses elementos foram percebidos no processo de pesquisa junto aos usuários do


CAPSad III. O movimento de olharmos o grupo como possibilidade para o aumento da potência
dos usuários possibilitou a inauguração do inédito (BENEVIDES de BARROS, 1996),
possibilitou que os movimento gerados no decorrer da realização das oficinas pudessem ser
tomados como ganhos em nossa intervenção. Dessa forma vemos que “Pensar o dispositivo é
pensar efeitos, é se aliar à ação/criação, é montar situações que articulem elementos
heterogêneos acionando modos de funcionamento que produzirão certos efeitos”
(BENEVIDES de BARROS, 1996, p. 105, grifos no original). Buscamos sempre olhar para o
grupo como uma multidão de histórias que se cruzam, que se influenciam e coabitam no
momento mesmo quem que o grupo se dá, sempre entendendo que não existe determinismo
prévio, mas que os afetos (ESPINOZA, 1992) sempre são consequência da experiência, essas
sempre em ato. Sobre isso Benevides (1996) comenta que sempre são existentes “regimes de
enunciação e visibilidade que o sustentam, o grupo é um dispositivo conectado não mais a
unidades/totalidades, mas a processualidades” (BENEVIDES de BARROS, 1996, p. 100). A
partir das falas dos usuários vemos que os mesmos se identificam e, na medida do possível, se
auxiliam nas problemáticas que são comuns, como na fala do usuário B, que comenta que “as
oficinas ajudam a melhorar, eu venho pra oficina, converso com as pessoas e algumas tem o
mesmo problema que eu, eu posso aconselhar e aprender com os outros também (sic) ”, esse
usuários ainda comenta: “não vejo a hora de chegar aqui, porque eu me sinto bem aqui dentro,
me sinto seguro, me sinto bem com todo mundo (sic)” (fala do usuário A). Nesse sentido
trabalho em grupo é significativo aos usuários, segundo o usuário A, porque “desde o início,
quando eu cheguei aqui no CAPS, daqui não saiu nada de ruim. Eu só to aprendendo a viver
sem drogas. Eu que era viciado em cocaína, crack e álcool, graças a Deus eu não faço mais uso
disso. E eu fico muito grato por vocês estarem me ajudando aqui (sic)” (se referindo aos
participantes do grupo e equipe de trabalhadores do local), e outro usuário complementa
dizendo que “se eu pudesse fazer mais oficinas eu faria” (fala do usuário B). A construção
coletiva das câmeras, assim como o processo de ampliação das formas de relação nesta primeira
etapa da pesquisa, permitiu um movimento de montagem do próprio grupo, que passa pela
potência que o encontro em toro do dispositivo propõe.

2º e 3° Momento – Montagem das Câmeras Pinhole

O segundo e o terceiro momento das oficinas se desdobraram na montagem das câmeras,


escolha dos temas para fotografar e no traçado de relações entre as distintas demandas dos
50

usuários. Nesses primeiros encontros, construímos vínculo com os participantes no momento


mesmo em que confeccionávamos as câmeras pinhole e discutíamos fatos do cotidiano, como
angústias, frustrações e alegrias do tratamento e do processo de alta dos usuários.
No momento da confecção das câmeras cada participante expressou sua singularidade
ao caracterizar sua câmera de forma única, fato que não excluiu a troca de opiniões e sugestões
entre os participantes do grupo. Percebemos que o movimento de caracterização das câmeras,
além de ser individual também é coletivo, visto que os usuários negociam de forma coletiva os
objetos de suas fotografias, pedem opinião (sobre qual material usar, sobre qual cor deve ser
sua câmera, etc.), se ajudam entre si, trocam ideias sobre o que será fotografado, e, muitas vezes
solicitam que outros usuários atuem como modelo fotográfico para suas fotografias.
As imagens a seguir retratam o processo de confecção das máquinas fotográficas.

Figura 3 – Montagem das Máquinas Fotográficas

Figura 4 – Montagem das Máquinas Fotográficas


51

Figura 5 – Montagem das Máquinas Fotográficas

Figura 6 – Montagem das Máquinas Fotográficas

As trocas de experiências com outros usuários são de grande importância, como relatado
na entrevista do usuário C, onde percebemos que através das discussões sobre as fotografias é
possível a construção de novos afectos e perceptos sobre si, sobre o mundo e sobre os seus
tratamentos onde vemos a emergência de novas formas de pensar e sentir ao mesmo tempo em
que resinificam problemáticas sobre o tratamento. O usuário C comenta que “as oficinas de
fotografia possibilitaram que eu refletisse, que eu conseguisse falar no grupo sobre o sentido da
fotografia, do que a fotografia representava pra mim (sic) ”. Sobre a criação de afectos o
usuários A diz que considera “a oficina de fotografia um negócio bacana, porque além de
aprender a fazer a máquina que é bem legal, através de uma imagem tem um sentimento, um
sentimento muito grade, eu tirei foto dos meus animais, das coisas que eu aprendi a fazer aqui,
tirei foto do CAPS, que eu acho importante isso, porque o CAPS que está me ajudando a
arrumar a minha vida (sic)”, ou, nas palavras do usuário C que diz que “foi interessante, porque
eu não sabia que de um negócio tão simples ia sair uma fotografia (sic) ”. A oficina estética
possibilitou experiências, como relatado pelo usuário B que diz: “construir a máquina
fotográfica foi uma experiência nova porque eu nunca tinha visto, eu nem imaginava que
existisse isso. Muitas pessoas não acreditavam que eu pudesse largar da bebida, nem eu
mesmo... eu sabia que sozinha eu não conseguia, dai eu vim aqui (CAPSad III) (sic) ”.
A atividade da oficina estética possibilitou emancipação dos participantes do grupo,
onde vemos que as atividades artísticas têm essa possibilidade, justamente porque possibilita
52

ouvirmos os sujeitos, de agir como ferramenta de emancipação. A forma de trabalho remete a


uma compreensão específica da arte na qual a finalidade do objeto estético que se produz não
é nem a de uma demonstração ética dos modos corretos e morais de ser, nem uma representação
pedagógica da vida boa. A arte produz experiência estética na medida em que a criação se
desvencilha das normas técnicas e da adequação dos temas, suportes e conteúdo formas. A
experiência estética, pressupõe um entendimento da arte na qual o espectador é emancipado da
figura de passividade, podendo compor suas próprias expressões enquanto interage com o
material que ganha expressões heterogêneas, inéditas e sujeitas a recomposição constante.
Entendemos a emancipação quando o “espectador se dispõe ao encontro com o dispositivo
estético e constrói sua própria história, embrenhando as formas e conteúdos” (CAVAGNOLI,
2018, p. 180) expressos através das fotografias que ele mesmo registrou “por entre o fluxo
disperso do cotidiano” (CAVAGNOLI, 2018, p. 180). Assim, as oficinas estéticas de fotografia
emancipam (RANCIÈRE, 1996) esses sujeitos ao mesmo tempo em que possibilitam a
ressignificação de aspectos já dados.
O trabalho da confecção das câmeras ainda cria um território onde é possível a
desnaturalização da condição passiva dos usuários, justamente por coloca-los como ativos,
produtivos, e, principalmente, por possibilitarmos que esses usuários façam suas escolhas,
escolhas que lhes são, por tantas vezes, impedidas pelo estereotipo de “doente” ou de
“drogados”. Ao desnaturalizarmos a condição de sem voz, possibilitamos momentos em que o
usuário possa expressar suas opiniões e sentimentos em relação ao seu próprio tratamento, sua
relação com a família e sua história de vida, investimos na perspectiva de uma prática política
de emancipação. A ressignificação de experiências dos usuários inicia-se justamente no
momento em que os retiramos de um local de passividade e damos ouvidos a eles. No momento
em que os usuários iniciam a confecção de câmera pinhole com latas de sardinha, que em um
primeiro momento não tinha nenhuma função, nem valor, e posteriormente se transforma em
uma máquina na qual é possível registrar imagens (materializando o processo de criação),
possibilitando aos usuários despertarem novos olhares sobre o que já estava dado,
ressignificando, elaborando e se desidêntificando com uma condição anterior; esse fato produz
novos agenciamentos, condição essa, sem a qual nenhuma mudança é possível (DELEUZE;
GUATTARI, 2012a).
O trabalho relacional possibilita que trabalhemos com o sujeito em suas potencialidades
dentro do contexto social que o mesmo já habita. Isso tem importância pois nos relatos dos
usuários, muitas vezes, vemos que o contexto social onde esses sujeitos habitam têm grande
estigmatização e preconceito para com usuários de substâncias psicoativas.
53

Pensar o sofrimento dos usuários vai ao encontro da noção de sujeito da psicologia


social, que se pergunta o porquê determinados indivíduos são classificados, por conceitos
estigmatizantes como patológicos ou como expressão de desordem? Entendemos que devemos
superar o uso moralizante e normatizador de termos científicos que, muitas vezes, culpabilizam
e excluem o sujeito de seu direito de escolha ao percebê-lo, por vezes, como único responsável
por sua situação social e obrigado a superar essa situação, sozinho (SAWAIA, 2001). Assim
vemos que sem o “questionamento do sofrimento que mutila o cotidiano, a capacidade de
autonomia e a subjetividade dos homens, a política [...] torna-se mera abstração e
instrumentalização” (SAWAIA, 2001, p. 99). É no sujeito que podemos observar várias formas
de exclusão, exclusão que também ocorre nos acometidos por sofrimentos mentais, cuja origem
pode ser observada em fatores sociais que reforçam relações de poder e controle sobre esses
mesmos sujeitos (SAWAIA, 2001). É o sujeito “que sofre, porém, esse sofrimento não tem a
gênese nele, e sim em intersubjetividades delineadas socialmente” (SAWAIA, 2001, p. 99).
Dessa forma as emoções, entre elas a de alegria e sofrimento, ganham importância para
a psicologia a partir das discussões de Sawaia (2001) que também se utiliza do referencial de
Espinoza. Aqui podemos perceber que as emoções podem ser entendidas como constitutivas
tanto do pensamento quanto na ação, boas ou ruins, de forma coletiva ou individual, como
processo que acontece na imanência dos encontros o que gera possibilidades subjetivas e
objetivas (SAWAIA, 2001) para o sujeito. Nesse sentido, o dispositivo age não apenas na
produção de discursos, mas também no plano dos afetos, “o dispositivo é uma máquina que
proporciona a operação do trabalho psíquico grupal” (HUR, 2012).
Espinoza buscou entender porque os homens aceitam se submeter e se sacrificar por
ideais que não os seus, contra os seus próprios interesses, e chega à conclusão que “a paixão
constitui caminho à compreensão e ao combate da servidão e da tirania, pela sua positividade,
pois ela é base da ética, da sabedoria e da ação coletiva democrática, tornando-se negativa,
quando associada à ignorância e à superstição” (ESPINOZA, 1988 apud SAWAIA, 2001, p.
100). Espinoza ainda constitui a base sobre a qual Sawaia (2001) pode afirmar que corpo e
ideia (alma) se constituem juntamente, não existindo a soberania de um sobre o outro de tal
forma que não é a razão anterior ou superior que define a experiência da afecção, é apenas no
encontro que é possível se produzir o pensamento e o afeto, concepção que muito se aproxima
com Schiller (2002) onde vemos que existe uma mutua relação entre o pensar e sentir. Assim o
“corpo é matéria biológica, emocional e social, tanto que sua morte não é só biológica, falência
dos órgãos, mas social e ética. Morre-se de vergonha, o que significa morrer por decreto da
comunidade” (SAWAIA, 2001, p. 101).
54

Percebemos que existe uma dialética, chamada por Sawaia (2001) de dialética
exclusão/inclusão, que ao mesmo tempo em que incluem o sujeito em um meio social, o excluí
de possibilidades, o excluí de sua própria emancipação, o disciplina, o controla biologicamente
(muitas vezes através de medicação) e socialmente. Diferente do sofrimento, a dor é um
elemento inevitável da vida humana, resultado das afecções sentidas pelo corpo e diz respeito
à capacidade de sentir (SAWAIA, 2001; ESPINOZA, 1992). Já o sofrimento pode ser
exemplificado como dor decorrente das exclusões sociais, que compõem essa dialética, e que
pode não ser sentido por todos os que sentem dor (SAWAIA, 2001), e assim, vemos que
sofrimento é dor socialmente significado. No trabalho de pesquisa isso ficou mais claro quando
os usuários comentavam e refletiam sobre sua história de vida, comentando que por muitas
vezes os usuários sofriam preconceito, ou, que perdiam contato com algumas pessoas por serem
dependentes químicos. O sofrimento mental pode ser incluído aqui, pois é influenciado pelo
lugar incapacitante onde esse sujeito é colocado, lugar de improdutividade e incapacidade, fato
que gera nos sujeitos vergonha e culpa que se apresentam como “sentimentos morais
generativos e ideologizados com a função de manter a ordem social excludente, de forma que
a vergonha das pessoas e a exploração social constituem as duas faces de uma mesma questão”
(SAWAIA, 2001, p. 102). Isso serializa o sujeito, o incapacita, constrói e reitera o lugar do
sujeito “louco”, paralisando o processo de subjetivação.
Uma possibilidade de enfrentamento ao sofrimento é agir eticamente, é aumentar a
potência de ação dos sujeitos para superar os sofrimentos. Alavancar a potência de agir é o
direito que todos temos de se afirmar, de se expandir, de se libertar, decorrentes de afetos de
alegria que possibilita o ganho de liberdade, e o seu contrário é a “potência de padecer (paixões
tristes e alegrias passivas) gera a servidão, situação em que se colocam nas mãos do outro as
ideias sobre as afecções do próprio corpo” (SAWAIA, 2001, p. 111). A base ética gera a
“conquista da cidadania e da emancipação de si e do outro, e não apenas de bens materiais
circunscritos. A felicidade ético-política é sentida quando se ultrapassa a prática do
individualismo e do corporativismo para abrir-se à humanidade” (SAWAIA, 2001, p. 105). O
trabalho da psicologia aqui é aumentar a potência de ação das pessoas.
Vemos que sofrimento decorrente da exclusão incapacita o sujeito a aberturas, a novas
possibilidades existências justamente por estereotiparem esse sujeito como dependente
químico. As discussões elaboradas por Sawaia (2001) nos demonstram que é necessário que
abramos possibilidades existenciais para os sujeitos. Essas possibilidades vão ao encontro do
referencial esquizoanálitico de Deleuze e Guattari (2012a) justamente pelos autores defenderem
que o sujeito não é estático, mas que nas experiências vividas através de encontros é possível a
55

abertura para o inédito. A abertura é possibilitada através de agenciamentos que podem gerar
um novo devir (DELEUZE; GUATTARI, 2012a), isto é, através de elementos incorporados no
tratamento dos acometidos por sofrimentos mentais possibilitamos novos processos de
singularização que geram formas outras de existência que até então não existiam. O trabalho
em grupo tem essa potência de gerar possibilidades dentro do próprio contexto dos CAPSs,
através de uma rede de apoio e suporte ao tratamento, que atua no sentido de não o centralizar
o tratamento apenas na prescrição de medicamentos e exames (tecnologias duras), mas
incorporar esses procedimentos ao cuidado com o usuário dentro de seu contexto familiar e
comunitário (tecnologias leves) que atua como uma rede de suporte e apoio ao tratamento
(MERHY; FRANCO, 2013). Ao mesmo tempo em que possibilita um novo campo de
experiências, experiências que produzem agenciamentos que geram o devir (DELEUZE;
GUATTARI, 2012a).

4° Momento – A Produção de Imagens

Os momentos das produções de imagens foram realizados dentro e fora do CAPSadd


III, dentro nos momentos onde os usuários iniciavam o manuseio nas câmeras pinhole,
aprendendo sobre o posicionamento das câmeras, tempo de exposição da câmera para a fixação
das imagens no filme fotográfico, como operar o orifício por onde a luz entra na câmera, como
rebobinar o filme fotográfico, entre outros procedimentos técnicos para o manuseio a câmera.
Dentro do CAPSad III foram fotografadas a fachada da instituição, os trabalhadores, artesanatos
confeccionados em outros oficinas e próprios usuários se fotografaram nesse momento de
aprendizagem. As imagens a seguir retratam as primeiras fotografias feitas dentro o CAPSad
III.
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Figura 7– Fotografia no CAPSad III

Figura 8 – Fotografia Trabalhadores

Figura 9– Fotografia usuário

Figura 10– Fotografia usuário

As segundas fotografias foram realizadas no momento em que os usuários saíram do


CAPSad III e fotografaram o entorno, o território circunvizinho do CAPSad III, fotografando
locais que lhes fossem significativos, que contassem um pouco de suas histórias e que tivessem
relação com suas vidas e seus tratamentos.
As imagens a seguir retratam as fotografias feitas fora do CAPSad III.
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Figura 11– Fotografia dos usuários

Figura 12– Fotografia dos usuários

Figura 13– Fotografia dos usuários

Figura 14– Fotografia dos usuários

As últimas fotografias foram realizadas na visita ao laboratório de fotografia, onde


também puderam entrar em contato com diferentes formas de fotografar e também observar
como acontece a revelação das imagens que eles mesmos fotografaram. Os temas das
fotografias foram previamente definidos no grupo juntamente com todos os participantes, temas
que giravam em torno da família, tratamento, religiosidade, territórios em que vivem. Esses
temas foram escolhidos por fazerem sentido e terem significado para os participantes, além de
servirem como disparadores das discussões posteriores aos momentos em que os usuários
fotografaram. Essas discussões possibilitaram que os participantes do grupo se percebessem
como iguais, na voz, na possibilidade de escolha, se percebessem como sujeitos, além de
possibilitar a retomada de sentido nas diferentes experiências.

As imagens a seguir retratam a visita feita pelos usuários do CAPSad III a Unochapecó.
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Figura 15– Fotografia da visita a Unochapecó

Figura 16– Fotografia da visita a Unochapecó

Figura 17 –Fotografia registrada na visita a Unochapecó

Figura 18 –Fotografia registrada na visita a Unochapecó

As fotografias, para o usuário C, simbolizam a mudança de sua forma de estar em


relação com a família e amigos, além de ser um incentivo a continuidade de seu tratamento, e,
como relata o usuário B, as oficinas realizadas dentro do CAPSad III contribuem para o
tratamento como forma de resistência ao uso das substâncias psicoativas, em suas palavras:
“depois que iniciai o tratamento eu consegui me aproximar dos meus filhos e com minha família
de novo, eles estão feliz comigo, estou resgatando minhas amizades, porque eu não queria
receber visita de ninguém, agora aos poucos eu to voltando” (fala do usuário B). Por isso,
acreditamos que a oficina de fotografia atuou como dispositivo (HUR, 2012) que ao ser
59

utilizado no trabalho grupal auxilia o processo de subjetivação (BENEVIDES de BARROS,


1996).
As imagens servem como disparador de discussões e mudanças, produzindo marcas que
possibilitam a análise e correlaciona à intervenção fotográfica compondo analisadores para com
a pesquisa-intervenção (TITTONI, 2015), auxiliando, assim, “uma intervenção (que) busca
alguma transformação, reação ou reflexão que poderá ser em diferentes planos, quais sejam
intelectual, sensorial físico ou político, entre outros” (TITTONI, 2015, p.92). O exercício da
fotografia possibilita a “apropriação da técnica, uma apropriação diferente do espaço do
território e dos objetos que o habitam, conhecendo detalhes e criando ficções na invenção de
imagens” (MAHEIRIE, 2015, p. 370), através da atividade criadora. Isso possibilita novos
agenciamos que funcionam para a elaboração e ressignificação do ato de ser um sujeito usuário
da política pública de saúde mental.
O ato de fotografar possibilitou discussões sobre os motivos de escolher determinado
momento e lugar por parte dos usuários, ao mesmo tempo em que deu a possibilidade dos
mesmos pensarem e refletirem dentro do grupo sobre o que os usuários pretendiam registrar,
que em grande parte das vezes estavam vinculadas a questões das dificuldades do tratamento,
como recaídas, medicação, preconceito social com o dependente químico, etc. Por outro lado,
vemos que o momento para refletir sobre as fotografias, posteriormente, possibilitou que esses
mesmos usuários atribuíssem importância a questões vinculadas a sua comunidade, grupos
religiosos, mas principalmente a família e as relações constituídas dentro do próprio CAPSad
III, com estagiários, trabalhadores da política e com outros usuários. Assim, através do ato de
fotografar e as discussões posteriores, foi possível produzir afecções inéditas, formas novas de
perceberem as relações entre eles, consigo mesmo, com a família e com a comunidade,
modificando assim subjetividades (HUR, 2012) e transformando percepções e atribuindo um
novo sentido ao fato se ser usuário da política pública de saúde mental. A possibilidade de
trabalhar com fotografia possibilitou perceber à “[...] produção discursiva dos próprios sujeitos,
convidados a fotografar” (ZANELLA, 2013 apud REIS; ZANELLA, 2015, p. 28), que foi se
modificando no decorrer da experienciação e vivenciação na realização dos encontros da
oficina.
A intervenção fotográfica é um processo que envolve tanto o ato de fotografar quanto
os agenciamentos resultantes dessas situações mediadas pelos equipamentos e a posições do
fotografo (TITTONI, 2015), assim, a imagem produzida por esse ato gera potência ao mesmo
tempo em que reinventa modos de se estar no mundo (AGUIAR; ROCHA, 2007 apud
TITTONI, 2015), fato decorrente do ato mesmo de uma relação outra que o usuário/fotografo
60

mantém com seu território, como foi relatado em entrevistas pelos usuários participantes do
grupo. Vemos que a fotografia se constituiu como um dispositivo para ampliar os sentidos,
possibilitando recriar a atividade cotidiana (MAHEIRIE, 2015), o que, por consequência,
também gerou a transformação das experiências no âmbito do sensível, a partir da construção
em um coletivo (MAHEIRIE, 2015) objetivado não apenas através das imagens, mas do ato
mesmo da confecção das câmeras e das discussões posteriores dentro do grupo. Isso possibilitou
uma experiência estética, onde vemos emergir blocos de afectos e perceptos (DELEUZE;
GUATTARI, 2012a) que impulsiona uma relação com a realidade outra, justamente por não
privilegiar os sentidos já constituídos na montagem, na interpretação e na relação com as formas
que o fotografar e a fotografia oferecem, mas por inaugurar campos de possibilidades inéditas.
As falas dos usuários no decorrer dos encontros e no momento das entrevistas relatam
que o tratamento para a dependência química é algo continuo e que envolve diversas
tentativas, como foram as tentativas de fotografar, visto que por diversas vezes os usuários se
depararam com dificuldades, onde não foi possível a revelação das imagens, ou, que essas
imagens não expressavam a exatidão da realidade que foi observada. Um participante da oficina
relata que as atividades desenvolvidas dentro da oficina de fotografia possibilitaram que o
mesmo passasse a dar mais valor para aspectos de sua vida que anteriormente não possuíam
importância, sobre isso comenta que “antes eu só pensava em usar, não dava mais bola pra nada,
então eu escolhi fotografar as flores pra representar o que ta virando a minha casa, agora ta tudo
mais florido, mais bonito (sic)” (fala do usuário B). Ou seja, as experiências vivenciadas dentro
do CAPSad III, possibilitam uma nova forma de visualizar aspectos do cotidiano que,
anteriormente, não possuíam valor. Aqui percebo algo que é extremamente simbólico em
ralação ao valor atribuído a lata de sardinha, que anteriormente não possuía valor, mas que
agora é uma máquina que tem potência para a criação de imagens que materializam e refletem
a realidade dos usuários. Assim vemos que durante esses momentos de experimentação e
vivência, proporcionada dentro do CAPSad III, vemos uma mudança de percepção de mundo.
Durante a realização da oficina foram fotografados ambientes internos ao CAPSad III
de Chapecó, mas também foram organizados momentos em que os usuários participantes da
oficina circularam no território circunvizinho ao CAPSad III. A experiência de fotografar
dentro e fora do ambiente do CAPSad III, possibilitou a apropriação dos espaços pelos usuários
através da objetivação de imagens, que retrataram os diversos locais por onde os sujeitos
transitam. Nesse sentido, a fotografia é entendida como uma forma de objetivação artística do
campo visual, visto que “sua potência reside, dentre outras características, na capacidade de
visibilizar formas e modos de existência (TITTONI, 2009), mostrando cenas da vida cotidiana
61

que, fora dela, não teriam espaço de citação (RANCIÈRE, 2010)” (MAHEIRIE, 2015, p. 366).
Assim entendemos que a fotografia trata-se “de artefato técnico de produção de superfícies de
inscrição que pode ser considerado como marco importante na relação entre humanos e a
produção de inscrições” (DIEHL; MARASCHIN; TITTONI, 2009, p. 80).
O trabalho em grupo não deve ser visto apenas como um tratamento alternativo que
atende mais pessoas em menos tempo (BENEVIDES de BARROS 2009), mas sim como
possibilidade de gerar potência e efetivar as oficinas estéticas de fotografia como uma forma de
tecnologia leve. Isso ocorre justamente pelo fato de que o grupo possibilita, em qualquer um de
seus pontos, “falas expressas, afetos experimentados, se abre como conexão para outras
bricolagens" (BENEVIDES de BARROS 2009, p. 292). O grupo assim gera movimentos de
escape ao possibilitar o surgimento de novas passagens, no momento mesmo em que as práticas
grupais acontecem, onde os sujeitos são postos em relação com novos fluxos, que possibilitam
novos agenciamento e novas subjetividades (BENEVIDES de BARROS 2009; DELEUZE;
GUATTARI, 2012a). Assim, o grupo possibilita processos que “operam em multiplicidades
concretas, eles insistem em seu nomadismo, em sua polifonia" (BENEVIDES de BARROS
2009, p. 234). Nesse sentido, através do grupo, podemos afirmar que os "processos de
subjetivação são inevitavelmente coletivos" (BENEVIDES de BARROS 2009, p. 283).
A noção de subjetividade pode se apresentar de formas variadas o que implica uma
multiplicidade de possibilidades, ao mesmo tempo em que não existe tensões entre essa
multiplicidade, e, dessa forma a "subjetividade, múltipla, circulando nos conjuntos sociais,
poderá ser apropriada de forma criativa, produzindo singularizações" (BENEVIDES de
BARROS 2009, p. 285). A singularização é entendida como uma forma de ruptura, de escape
ao já estabelecido que criar novas formas de existência ao mesmo tempo em que é possível a
afirmação da potência do sujeito e dessa forma não existe “qualquer tensão com o coletivo, que
é, ele próprio, multiplicidade de agenciamentos em meio ao qual singularidades se constituirão"
(BENEVIDES de BARROS 2009, p. 285).
No processo de produção das imagens, percebemos que sempre existem conexões, por
vezes se estabelecem conexões entre história de pessoas diferentes. Nesse sentido o grupo

[...] cria um vasto campo de confrontos, de interrogações, que se propagam criando


fossos onde antes estava cimentado. Muitos diriam que isto não é exclusivo de um
grupo e que não há garantias que isso possa aí se dar. É verdade. Mas é verdade
também que as falas portadoras de cristalizações, os afetos congelados em territórios
fechados, quando acionados pelo dispositivo grupal se vêem na adjacência de uma
inquietação podendo, se intensificados, se deslocar do lugar naturalizado a que
estavam remetidas (BENEVIDES de BARROS, 1996, p. 102).
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Nesse sentido, vemos que no grupo é possível desestabilizar elementos que previamente
eram entendidos como dados e posteriormente ao grupo foi possível uma nova percepção sobre
suas condições, ao mesmo tempo em que foi possível criarmos novas percepções sobre o
mundo, os usuários e seus tratamentos.

5° e 6° Momento – Revelação das Imagens e Recomposição das Experiências no Gupo

A visita dos usuários do CAPSad III ao laboratório de fotografia da UNOCHAPECÓ


possibilitou que os usuários acompanhassem o processo de revelação das fotografias feitas por
eles, onde puderam perceber o momento exato onde suas fotografias ganham materialidade ao
observar as imagens ganhando vida em papel fotográfico, esse momento se constituiu mais uma
forma de produzir agenciamentos (DELEUZE; GUATTARI, 2012a), ressignificar aspectos
subjetivos ao dar ainda mais sentido ao processo de fotografar. Esse ato contribuiu para a
atribuição de novos sentidos ao processo fotográfico através da percepção da complexidade de
fatores de contribuem ou impedem a revelação das fotografias. Perceberem que alguns fatores
no processo de fotografar e da revelação escapam ao domínio de quem fotografa com máquinas
pinhole (como é o caso das condições climáticas), permite que os usuários percebam que é
necessária persistência para que possam revelar suas fotografias. Nos momentos em que não
eram registradas suas fotografias os usuários faziam um trabalho que não está no plano da
recognição, de se utilizar de formas prontas (DELEUZE; GUATTARI, 2013), mas realmente
criavam, inventavam e pensavam novas formas na própria experiência, momento em que a
experiência pode ser reorganizada.
As atividades da oficina possibilitaram aos usuários perceberem a dimensão de algo que
parece simples (o processo de confecção de câmeras e o posterior fotografar com as máquinas,
feitas pelo próprio usuário) como responsável pelo processo de reflexão sobre alguns aspectos
de suas vidas, e assim, possibilitando estratégias de enfrentamento ao uso abusivo como
mecanismo de escape as dificuldades dos diversos sujeitos.
No momento que os usuários conseguiram registrar imagens perceberam que através da
experiência do coletivo é possível desestabilizar e resinificar elementos que já eram dados
previamente. Dessa forma, a objetividade das imagens possibilitou materializar o processo
fotográfico de uma forma simbólica, que ao mesmo tempo em que fala das fotografias tiradas
pelos próprios usuários, falam sobre o tratamento dos mesmos na multiplicidade das vozes que
ressoam entre os usuários do grupo de oficinas estéticas. Dessa forma, o trabalho coletivo
contribuiu para que os mesmos percebessem que as fotografias falam sobre os usuários, e, mais
63

especificamente sobre esse grupo especifico, isso porque conta sobre seus tratamentos, suas
próprias vidas, suas angústias, mas também suas alegrias através da criação de uma rede de
suporte e apoio, onde o próprio grupo pode ser essa rede ao não uso abusivo. Aqui vemos a
transversalidade da experiência, a medida em que a objetividade presente na imagem não é
propriedade de um usuário, enquanto individuo, mas sim do grupo, enquanto plano comum da
experiência compartilhada visto que é resultado de um processo que é grupal (BENEVIDES de
BARROS, 2009).
Uma dessas experiências foi relatada pelo usuário A, comentando que certa vez havia
perdido grande parte dos movimentos de uma das mãos devido a um acidente de trabalho e
através das atividades realizadas nas oficinas estava conseguindo recuperar os movimentos de
sua mão. Mesmo que seja uma fala sobre mudanças externas, no corpo, entendemos que aqui
também existe um simbolismo interno, visto que no momento da entrevista o usuário A
comenta: “Eu me sinto muito bem aqui, aprendi bastante coisas, me incentivo a trabalhar. Antes
eu não fazia nada, eu só pensava em beber, cheirar cocaína e hoje mudou a minha vida, mudou
com o que eu aprendi aqui”. Mudou a vida, mudou percepções, mudou a forma de se relacionar,
elementos que nos permitem chamar esse movimento de um novo devir. Devir que aconteceu
através da inserção de um novo elemento em seus tratamentos, as oficinas estéticas de
fotografia.
Nesse sentido o suporte da fotografia possibilita a criação de uma Máquina de Guerra
que não está presa ao aparelho do Estado, mas que possibilita a construção de um novo espaço,
um espaço liso onde não existem predeterminações. A Máquina de Guerra é multiplicidade,
atua por multiplicidades de forças heterogêneas que se expressam na construção de novos
sentidos, novas formas de existência, novos devires, inimagináveis até então. Isso é possível
justamente porque, ao contrário do dispositivo do Aparelho do estado que disciplinam e
serializam, o nosso dispositivo opera por aberturas que dão vistas ao novo através da
composição de novos desejos através de uma linha de fuga criadora, no justo momento em que
se compõe o espaço liso (DELEUZE; GUATTARI, 2012b).
Vemos que esses momentos de experienciação possibilitam novas subjetividades,
através de

[...] certas máquinas (que) se põem em funcionamento, alterando os desenhos até


então configurados, desenhando linhas que passam a circular como matéria de
expressão disponível à montagem de outras subjetividades. A subjetividade, então,
“não se situa no campo individual; seu campo é o de todos os processos de produção
social e material" (BENEVIDES de BARROS 2009, p. 283).
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O grupo então é possibilidade para abertura ao novo e não deve ser visto como uma fuga
da realidade. O grupo é possibilidade de expansão da potência dos próprios corpos que se
afetam no momento em que se colocam em relação com um espaço em que podem exercer sua
criatividade, não apenas através da confecção das máquinas fotográficas e das fotografias, mas
também através de um plano, de um contexto, de um local onde se vive, se compartilha e se
sente as experiências desse processo. Sentidos e experiências que não apenas produzem efeitos
imediatos, mas que ressoam durante a vida dos sujeitos que são afetados e potencializados por
esse momento e que reverberam nos diferentes lugares onde esses sujeitos habitam.
As oficinas estéticas de fotografia contribuem para a criação de momentos onde
podemos impulsionar a coautoria através da experiência estética que ganha forma “na
constituição de espaços e tempos de relação entre um si e um nós, agenciados no percurso de
sua montagem” (CAVAGNOLI, 2018, p. 194), no percurso das oficinas, ao mesmo tempo em
que possibilitamos que os participantes do grupo se coloquem em relação com um novo plano
de possibilidades ao retirarmos os usuários de uma lógica pedagógica ou representativa e os
inserirmos como participantes ativos ao fazer com que a existam diferença no modo de ser no
sensível (RANCIÈRE, 2011).
O livre jogo transforma as formas de querer ao mesmo tempo em que transforma a
realidade, essa é a potência da arte (RANCIÈRE, 2011), de colocar o usuário em uma nova
relação com sigo mesmo e com o seu mundo, retirando o sujeito de sua passividade perante o
que o cerca.
No momento das entrevistas, o usuário A relata que através da materialização das
imagens percebe que existem afetos, sentidos e sentimentos relacionados aqueles elementos
contidos nas fotografias, e que através do aprendizado, de como construir as máquinas
fotografias e o ato de fotografar, foi possível a abertura de olhares para elementos que até então
não eram percebidos, de possibilidades inéditas construídas no momento mesmo em que ocorre
a oficina. Através da objetivação/subjetivação percebemos que se apropria dos “significados
que são coletivos, tornando-os singulares para que possa objetivá-los em forma de ação,
pensamento e emoções” (ZANELLA et al, 2005, p. 192), foi possibilitado aos usuários um
território onde os mesmos podem criar novas formas de responder as dificuldades que
anteriormente poderiam desencadear o consumo de substâncias psicoativas.
A reflexão sobre a oficina de fotografia como um processo, que visava a atribuir novos
sentidos ao fato de ser usuário da política pública de saúde mental, possibilitou a percepção de
que os próprios usuários criaram formas enfrentamento ao uso abusivo de substâncias
psicoativas. Esses momentos tiveram como disparador os momentos para reflexão sobre o
65

porquê fotografar determinada imagem, e, essas imagens serviram como obra que possibilitou
a percepção de um novo mundo discursivo (SOBRAL, 2007) gerando novos afetos. Os afetos
são as formas que usuários se relacionam, onde é possível fazer a “mediação para toda e
qualquer relação que for vivenciar em determinados contextos, [...] necessitando dela para que
possa desencadear um processo de criação” (ZANELLA et al, 2005, p. 192) a percepção de
novos sentidos as experiências.

A Percepção da Equipe do CAPSad III

Sobre as oficinas, o trabalhador A diz que as oficinas conseguem criar momentos


propícios para que os usuários possam perceber, refletir e elaborar diversas conflitivas. Já o
trabalhador B diz que, através da triagem, os profissionais levantam possibilidades de oficinas
que o usuário pode participar naquele momento ou não, dessa forma as atividades de oficinas
sempre são planejadas pela equipe visando atividades dirigidas com a finalidade de serem
ferramentas para sempre contribuir no tratamento do usuário.
Quando falamos especificamente das oficinas estéticas de fotografia no CAPSad III o
trabalhador A comenta que um movimento interessante é o de os usuários, através da fotografia,
conseguirem perceber coisas e trazer suas percepções no grupo, mas que infelizmente o grupo
foi composto por poucos participantes porque acontecia outra oficina no mesmo horário. Já o
trabalhador B diz que a “oficina de fotografia foi uma grande ferramenta onde as pessoas
conseguiram se implicar bastante no processo, conseguiram perceber que existe tentativa e erro
na vida, mas que se a gente tem uma clareza no processo a gente não vai errar sempre, ou errar
dentro de um controle, fica bem mais interessante que uma vida totalmente errante. Acho que
a fotografia trouxe isso, porque teve as questões de lidar com as angustias de não dar certo em
alguns pontos, de ter que refazer, de ter que recombinar, como a vida nos impõe, e, eles puderam
sentir isso e trabalhar na fotografia. Deslocar um pouquinho da vida pessoal para uma vida de
grupo que os permitiu fazer uma coisa diferente. Acho que foi uma grande ferramenta para que
eles pudessem experimentar e se disponibilizar a fazer algo de diferente. Através do lúdico eles
conseguiram elaborar o processo de tentativa e erro que faz parte da vida (sic) ”. Ainda comenta
que a oficina estética de fotografia ampliou a gama de possibilidades dos usuários e que o
usuário, em suas palavras, “perceba que pode escolher, dentro de seu repertório, uma caminhada
diferente da que fazia e isso é um grande passo em seu tratamento (sic) ”.
Através das falas dos trabalhadores no momento das entrevistas vemos que o
movimento do grupo, através da oficina estética de fotografia, auxilia a elaboração de
66

conflitivas ao mesmo tempo em que atua como dispositivo de ressignificação e elaboração de


conflitivas, auxiliando assim no tratamento dos usuários do CAPSad III Chapecó.
67

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Durante o trabalho de pesquisa e de elaboração do presente texto sentimos algumas


dificuldades. Uma dessas dificuldades se refere a complexidade do trabalho dentro da saúde,
onde percebemos que não devemos enxergar esse trabalho de forma simplistas. Outra
dificuldade se refere ao não conseguirmos realmente “acabar” a pesquisa, visto que ainda
existiriam diversos pontos que merecem maiores discussões. Além disso, ainda acreditamos
que deixamos muitos “pontos soltos” nessa escrita, principalmente no que se refere ao trabalho
dentro do CAPSad III de Chapecó e, especialmente, no que se refere as trajetórias de vidas dos
usuários participantes do grupo, aqui incluso os integrantes do grupo que não permaneceram
até o final da pesquisa. Ainda sobre esses usuários, que não permaneceram até o final da
pesquisa, seria importante entender os motivos de sua não permanência no grupo, mas uma hora
a pesquisa tem que acabar e essa pesquisa está acabando assim. Apesar dessas dificuldades, que
estão relacionadas a limitação de tempo para elaborarmos melhor o presente texto, acreditamos
que também tivemos ganhos nesse processo.
Um desses ganhos é o fato de nos colocarmos em relação com uma metodologia de
trabalho e de pesquisa. Entendemos que nosso trabalho de pesquisa e intervenção é cartográfico,
justamente porque na cartografia o que se faz é acompanhar linhas que não param de se traçar,
assim na cartografia o que se faz é acompanhar os processos, acompanhar a possibilidade dessas
diferentes linhas no momento mesmo em que se traçam. Marcamos novos pontos de ruptura ao
já enrijecimento, analisamos os diversos cruzamentos das diferentes linhas de nossa existência.
Acredito que seja isso que devemos fazer ao trabalharmos em saúde.
Entendemos como benéfica a possibilidade de podermos dar visibilidade aos diferentes
elementos que compõem o campo da saúde mental e propormos uma metodologia, amparada
teoricamente por diversos autores e pela legislação vigente, de trabalho da psicologia que foque
na construção de possibilidades de intervenção em grupo no campo da saúde coletiva. As
oficinas estéticas aqui podem atuar como uma possibilidade de trabalho juntamente com o
dispositivo grupal e também possibilitam momentos que geraram as experiências que
construíram novas formas de cuidado, utilizando para isso o suporte da fotografia. Nesse
sentido, vemos que possibilitamos novas experiências, experiências estéticas, que atuam no
jogo livre entre pensamento e emoção, onde não existe a predominância ou determinação no
primeiro sobre o segundo ao mesmo tempo em que a vida não se distribui em esferas de
experiências singulares e particulares.
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O Jogo Livre possibilita a libertação em relação a determinação reflexiva, através dos


encontros singulares entre o sujeito e as diferentes formas e arte, onde o sujeito é afetado por
experiências inéditas, únicas, singulares ao se relacionar com a arte. Encontros que produzam
novos afectos e novos perceptos e a arte possui essa potência, potência de inauguração do novo.
Nesse sentido, vemos a possibilidade da emergência de novas formas de se relacionar, sentir e
viver possíveis através de uma experiência com a arte, de uma experiência estética. A
experiência estética é possibilita a construção de possibilidades de abertura, ou seja, a
experiência estética possibilita momentos de variação dos sentidos, momentos de ruptura da
lógica representativa e construção de novos afetos relacionados especificamente a esse encontro
que contribuirão para a construção coletiva de novos modos de existência, novos devires.
Durante o trabalho de pesquisa vemos que as oficinas estéticas aliados ao movimento
grupal geram momentos que podem gerar movimento, que além de forçarem a repensar fatos
dados, possibilitam aberturas ao desconhecido, a novas experiências, novos modos de
experimentar os diferentes encontros e de um novo contato com o coletivo que somos. Encontro
com outro, e encontro com outrem. O outrem é composição de diferentes linhas que “desenham
movimentos imprevisíveis possibilitando a captação de um mundo das margens, de
perturbação, que arrasta o pensamento do atual ao impensado. Outrem não é nenhum
objeto/sujeito particular. Outrem é multiplicidade, é coletivo” (BENEVIDES de BARROS,
1996, p. 102). Outrem é abertura ao inédito, outrem é abertura ao devir.
Através do trabalho no contexto grupal foi possível a criação de um território onde
desnaturalizamos a condição passiva dos usuários, justamente pela possibilidade de coloca-los
como ativos, produtivos, e, principalmente, por possibilitarmos que esses usuários façam suas
escolhas, escolhas que lhes são, por tantas vezes, impedidas pelo estereotipo de “doente” ou de
“drogados”. Ao desnaturalizarmos condições previas de sem voz investimos na perspectiva de
uma prática política de emancipação, criando juntamente com o grupo momentos em que os
usuários pudessem expressar suas opiniões e sentimentos. Assim, o desenvolvimento da oficina
estética de fotografia possibilitou a ressignificação de experiências dos usuários. Através do
processo de confecção da câmera pilhole, do ato de fotografar e da materialização das imagens
foi possível aos usuários despertarem novos olhares sobre o que já estava dado, resinificando e
elaborando conflitivas prévias e se desidêntificando com condições anteriores, fato que
explicita que mudanças são possíveis.
Assim, vemos que a fotografia ao ser trabalhado com as oficinas estéticas pode atuar
como suporte de subjetivação para o dispositivo grupal. Em suma, o dispositivo é uma
maquinaria que possibilita a criação de momentos em que os sujeitos podem, através de ações
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e relações, produzir discursos inéditos, e, nesse sentido, o dispositivo cria momentos de novas
enunciações. O dispositivo, segundo os moldes da esquizoanálise, pode ser entendido como
uma forma de operacionalização do trabalho psíquico grupal, através do ato de produzir
afecções modificando subjetividades. Visamos criar modos de ver e dizer através das
intervenções que esse sujeito, agora fotografo, agenciado através de novas relações entre os
diferentes equipamentos da fotografia conseguisse se agenciar em relação a novas experiências.
Os momentos de tentativa e erro do ato de fotografar possibilitam que os usuários
percebam que durante o processo de alta existem dificuldades e, às vezes, também recaídas,
mas que esses mesmos usuários podem contar com outros participantes do grupo, profissionais
e também com a família para dar continuidade ao tratamento, visto que a atual legislação não
pressupõe uma abstinência completa, mas a redução de dados em relação à dependência
química. O usuário A relata que sente, nessa rede que perpassa pelo CAPSad III, um local de
apoio, segurança e bem-estar, visto que ao mesmo tempo em que ocorrem trocas de
experiências, encontra incentivo ao não abandono do tratamento nos momentos tão difíceis que
são as recaídas. Essa fala é especialmente significativa, pois percebemos que criamos uma nova
forma de lidar com as frustrações dos usuários ao constituirmos um grupo, que mesmo depois
das recaídas é possível voltar ao tratamento. Vemos que muitas vezes o prazer que advém pelo
alívio do sofrimento e das angústias com o uso de substâncias psicoativas, gradativamente
necessitam que doses maiores para o mesmo efeito, e, dependendo do tipo de substância
consumida e o contexto do uso, pode levar o sujeito até o abuso e a dependência química.
Assim, acreditamos que no processo de lidar com as frustrações de não conseguir fotografar,
possibilitamos momentos em que os usuários pudessem reelaborar formas de lidar com suas
frustrações, buscando novas tentativas, sempre podendo contar com o apoio da rede de relações
dentro do CAPSad III e da família, foto esse elaborado entre os usuários, onde podemos
perceber um novo agenciamento, ou criação de novos afetos, sobre uma experiência que já era
dada.
Entendemos que a fotografia é suporte a uma experiência estética que possibilita aos
usuários ao mesmo tempo intervenção e resistência, além de que essa metodologia já vem sendo
usado na pesquisa-intervenção. Esse tipo de metodologia pode pôr em discussão o que
geralmente é entendido como verdade, pois desafia essa mesma verdade, ao fazer um
contraponto a partir dos afetos, das improvisações e das criações, produzidas a partir da
experiência do fotografar; assim nossas intervenções buscam transformações em diferentes
planos, político, emocional, sensorial, através da reflexão. Todo o processo de confecção de
câmeras artesanais, fotografia, e posteriormente as discussões sobre as experiências, singulares
70

dos sujeitos que compõe esse estaff da política pública, constitui um novo modo de organizar o
viver e os relacionamentos nesse local. A escolha pela fotografia artesanal se deve a sua grande
possibilidade de criar potência através de recursos simples, do cotidiano, ainda que dependa de
alguns recursos técnicos para realizar a revelação das imagens.
Durante esse processo de pesquisa, percebemos que os usuários criaram novas
percepções sobre si, onde se entenderam como responsáveis sobre os movimentos constituintes
de suas vidas, incluindo aqui o seu processo de alta. Isso corrobora com as normativas vigentes
sobre a funcionalidade do CAPSad III, visto que compete a esse local criar formas de cuidado
integral, na perspectiva de garantir seus direitos, promovendo autonomia, cidadania e buscando
de forma continua a sua inclusão (ou reinclusão) social. Acreditamos que o CAPSad III também
deve estar implicado em constituir juntamente com os usuários novas formas de relações com
a cidade, com a comunidade, com o espaço, com os sujeitos que fazem uso do CAPSad III, e
com isso formar uma nova forma de experiência, de reexistência. Isso possibilita constituir um
sujeito rico de possibilidades, com diversas potencialidades de ações e emoções, que se
desenvolve nos bons encontros provenientes da interação com um grupo ou com a comunidade,
que nessa perspectiva teórica, são pré-requisitos para toda atividade humana e possibilitam a
significação e ressignificação das experiências. Nesse sentido, é muito gratificante podermos
colocar esses usuários em relação com novas formas de existir, sentir, pensar e agir. Visto que
acreditamos que o trabalho do psicólogo nesse contexto não deva estar atrelado a uma lógica
que conscientiza os sujeitos, mas que devamos ampliar as possibilidades ao mesmo tempo em
que ampliamos as suas potencialidades existenciais. Independente do contexto, acreditamos que
esse seja o real trabalho da psicologia: aumentar a potência dos sujeitos que se colocam em
relação conosco.
71

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criação artística (p. 191-199). Psico-UFS, vol. 10, n. 2. jul-dez. 2005.
76

APÊNDICES

Apêndice 1 –Roteiro de entrevista para Usuários do serviço participantes das oficinas


estéticas

1) Você se sente bem no CAPSad III?

2) Quais são os principais motivos para a sua participação no CAPSad III?

3) Julga importante sua vivencias no CAPSad III?

4) O que você julga que o CAPSad III contribuiu na sua experiência de vida?

5) Existe uma relação entre a sua família ou comunidade com o ambiente do CAPSad III?

6) Você gosta de participar das oficinas desenvolvidas no CAPSad III?

7) Considera importante as diversas atividades desenvolvidas nas diferentes oficinas do


CAPSad III?

8) Essas oficinas contribuem no seu tratamento?

9) O que mudou na relação com sua família e sua comunidade depois de iniciar seu tratamento
do CAPSad III?

10) Gostaria de comentar algo que não foi perguntado?


77

Apêndice 2 – Roteiro de entrevista com trabalhadores da Política Pública de Saúde

1) Como é a rotina de trabalho dentro do CAPSad III?

2) Como é o trabalho entre as áreas de conhecimento dos profissionais do CAPSad III?

3) Como o corre o trabalho multidisciplinar e interdisciplinar?

4) Os profissionais que aqui trabalham conhecem a legislação sobre saúde mental?

5) Você percebe que a atividade desenvolvida no CAPSad II é condizente com as normativas


em relação aos princípios do SUS?

6) A legislação que dispõe sobre o trabalho em saúde mental preconiza inserção comunitária
dos usuários da política pública. Como isso acontece no CAPSad III?

7) Sobre a pergunta anterior, trabalho nessa lógica tem resultados efetivos no tratamento dos
usuários?

8) Gostaria de comentar algo que não foi perguntado?

9) Como você entende o trabalho mediado pela atividade criadora no CAPSad III?
78

ANEXOS
Anexo 1 – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido para usuários da política.

UNIVERSIDADE COMUNITÁRIA REGIONAL DE CHAPECÓ - UNOCHAPECÓ


COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA ENVOLVENDO SERES HUMANOS
ÁREA DAS CIENCIAS HUMANAS E JUIDICAS
CURSO DE PSICOLOGIA

TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO PARA USUÁRIOS DO CAPSad


III

Você está sendo convidado(a) para participar como voluntário em uma pesquisa. Após a leitura
e esclarecimento sobre as informações a seguir, no caso de aceitar fazer parte do estudo, rubrique todas
as páginas e assine no final deste documento, que está em duas vias. Uma delas é sua e outra é do
pesquisador.

Título da pesquisa: Instrumentos Dinâmicos de Intervenção Psicológica em Saúde Coletiva:


Desenvolvimento Metodológico e Validação de Terapêutica Mediada Pela Atividade Criadora
Pesquisador responsável: Murilo Cavagnoli
Endereço: Avenida Senador Attílio Fontana, 591-E - Efapi, Chapecó.
Telefone para contato: (49) 9 8836-9119

OComitêdeÉticaemPesquisaenvolvendosereshumanos,é um colegiado interdisciplinar e


independente, de relevância pública, de caráter consultivo, deliberativo e educativo, criado para defender
os interesses dos participantes da pesquisa em sua integridade e dignidade e para contribuir no
desenvolvimento da pesquisa dentro de padrões éticos. O CEP/Unochapecó está localizado dentro da
própria Instituição Bloco R3, 3º andar. Horário de funcionamento definido de segunda-feira a sexta-feira
das 13:30 h às 17:30 h e das 18:30 h às 22:30 h, para contato dos pesquisadores e participantes das
pesquisas. Telefone e e-mail para contato, (49) 3321-8142, cep@unochapeco.edu.br.
O Objetivo desta pesquisa é a construção de instrumentos dinâmicos, através da atividade
criadora, que possibilitem auxiliar no processo terapêutico promovido pelo CAPSad III, contribuindo
no processo de alta dos sujeitos usuários da política pública de saúde mental. Para isso, visamos a
construção de recursos sociais, criados dentro do próprio grupo terapêutico, que servirão para o não uso
abusivo de substancias psicoativas.
A sua participação na pesquisa consiste na participação da oficina estética de fotografia,
realizadas em 18 encontros, onde serão confeccionadas máquinas fotográficas artesanais (do tipo
Pinhole) para que os usuários possam fotografar seu cotidiano, sua rede de relações, com vistas a
construção de vínculos que não perpassem, necessariamente, pelo uso de substancias psicoativas, e, na
participação voluntária em entrevistas sobre as oficinas estéticas no final da pesquisa. Nessa pesquisa
79

serão utilizadas gravações de voz, filmagem, ou fotografias dos participantes com vistas a retomar
assuntos pertinentes à pesquisa, nas análises dos dados; para isso, serão disponibilizados a todos os
participantes o Termo de Consentimento para o uso de Imagem e Voz.
A sua participação poderá envolver desconfortos relacionados a exposição de sua experiência
como usuário de substancia psicoativa e inerentes a própria reflexão , em relatos pessoais, ou de outros
participantes da pesquisa. Entretanto, lhe será garantida assistência imediata, e, lhe será garantida
indenização, sem ônus de qualquer espécie a sua pessoa com todos os cuidados necessários a sua
participação de acordo com seus direitos individuais e respeito ao seu bem-estar físico e psicológico.
Os benefícios esperados pela sua participação na pesquisa são o de criação e validação de novas
formas de tratamento para pessoas dependentes de substancias psicoativas, bem como a de construção
de uma rede de relações em que sua centralidade não perpasse pelo uso dessas mesmas substancias.
As informações obtidas através da coleta de dados serão utilizadas para alcançar o objetivo
acima proposto, e para a composição do relatório de pesquisa, resguardando sempre sua identidade
durante todas as fases da pesquisa. Ao término da pesquisa, os resultados obtidos serão retornados a sua
pessoa, em forma de devolutiva individual e/ou do grupo. Você poderá recusar-se a participar ou retirar
seu consentimento, em qualquer fase da pesquisa, sem penalização alguma. Caso não queira mais fazer
parte da pesquisa, favor entrar em contato com o pesquisador responsável.
Após a leitura e esclarecimento de todas as dúvidas pelo pesquisador, o TCLE deverá ser
rubricado por ambos (pesquisador e pesquisado), nas duas vias em todas as folhas e assinado em seu
término.

CONSENTIMENTO DA PESSOA COMO PARTICIPANTE DE PESQUISA


Eu,_______________________________________________,RG_____________________________
___CPF_________________________________, abaixo assinado, concordo em participar do estudo.
Fui devidamente informado e esclarecido pelo pesquisador sobre a pesquisa e, os procedimentos nela
envolvidos, bem como os riscos e benefícios decorrentes da minha participação. Foi me garantido que
posso retirar meu consentimento a qualquer momento e ter acesso ao registro do consentimento sempre
que solicitado.
Local:_________________________________________ Data ____/______/_______.

Assinatura do participante da pesquisa:

Assinatura do pesquisador responsável:


80

Anexo 2 – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido Trabalhadores do CAPSad III

UNIVERSIDADE COMUNITÁRIA REGIONAL DE CHAPECÓ - UNOCHAPECÓ


COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA ENVOLVENDO SERES HUMANOS
ÁREA DAS CIENCIAS HUMANAS E JUIDICAS
CURSO DE PSICOLOGIA

TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDOPARA ENTREVISTA COM OS


TRABALHADORES DO CAPSad III.

Você está sendo convidado(a) para participar como voluntário em uma pesquisa. Após a leitura
e esclarecimento sobre as informações a seguir, no caso de aceitar fazer parte do estudo, rubrique todas
as páginas e assine no final deste documento, que está em duas vias. Uma delas é sua e outra é do
pesquisador.

Título da pesquisa: Instrumentos Dinâmicos de Intervenção Psicológica em Saúde Coletiva:


Desenvolvimento Metodológico e Validação de Terapêutica Mediada Pela Atividade Criadora
Pesquisador responsável: Murilo Cavagnoli
Endereço: Avenida Senador Attílio Fontana, 591-E - Efapi, Chapecó.
Telefone para contato: (49) 9 8836-9119

O Comitê de Ética em Pesquisa envolvendo seres humanos, é um colegiado interdisciplinar e


independente, de relevância pública, de caráter consultivo, deliberativo e educativo, criado para defender
os interesses dos participantes da pesquisa em sua integridade e dignidade e para contribuir no
desenvolvimento da pesquisa dentro de padrões éticos. O CEP/Unochapecó está localizado dentro da
própria Instituição Bloco R3, 3º andar. Horário de funcionamento definido de segunda-feira a sexta-feira
das 13:30 h às 17:30 h e das 18:30 h às 22:30 h, para contato dos pesquisadores e participantes das
pesquisas. Telefone e e-mail para contato, (49) 3321-8142, cep@unochapeco.edu.br.
O Objetivo desta pesquisa é a construção de instrumentos dinâmicos, através da
atividade criadora, que possibilitem auxiliar no processo terapêutico promovido pelo CAPSad
III, contribuindo no processo de alta dos sujeitos usuários da política pública de saúde mental.
Para isso, visamos a construção de recursos sociais, criados dentro do próprio grupo terapêutico,
que servirão para o não uso abusivo de substancias psicoativas.
A sua participação consiste em responder a questões semi-estruturadas durante
realização de entrevistas. A entrevista sera gravada em áudio para posterior transcrição e análise
dos dados; para isso, serão disponibilizados a todos os participantes o Termo de Consentimento
para o uso de Imagem e Voz.
81

A sua participação poderá envolver desconfortos relacionados a sua experiência como


trabalhador dessa política pública de saúde, em relatos pessoais. Entretanto, lhe será garantida
indenização como participante, bem como assistência imediata, sem ônus de qualquer espécie
a sua pessoa com todos os cuidados necessários a sua participação de acordo com seus direitos
individuais e respeito ao seu bem-estar físico e psicológico.
Os benefícios esperados pela sua participação na pesquisa são de possibilitar maior
eficácia das normativas vigentes sobre o trabalho em saúde, possibilitando assim, melhor
qualidade no desempenho de suas atividades laborais.
As informações obtidas através da coleta de dados serão utilizadas para alcançar o
objetivo acima proposto, e para a composição do relatório de pesquisa, resguardando sempre
sua identidade durante todas as fases da pesquisa. Ao término da pesquisa, os resultados obtidos
serão retornados a sua pessoa, em forma de devolutiva individual e/ou do grupo. Você poderá
recusar-se a participar ou retirar seu consentimento, em qualquer fase da pesquisa, sem
penalização alguma. Caso não queira mais fazer parte da pesquisa, favor entrar em contato com
o pesquisador responsável.
Após a leitura e esclarecimento de todas as dúvidas pelo pesquisador, o TCLE deverá
ser rubricado por ambos (pesquisador e pesquisado), nas duas vias em todas as folhas e assinado
em seu término.

CONSENTIMENTO DA PESSOA COMO PARTICIPANTE DE PESQUISA


Eu,_______________________________________________,RG_____________________________
___CPF_________________________________, abaixo assinado, concordo em participar do estudo.
Fui devidamente informado e esclarecido pelo pesquisador sobre a pesquisa e, os procedimentos nela
envolvidos, bem como os riscos e benefícios decorrentes da minha participação. Foi me garantido que
posso retirar meu consentimento a qualquer momento e ter acesso ao registro do consentimento sempre
que solicitado.
Local:_________________________________________ Data ____/______/_______.

Assinatura do participante da pesquisa:

Assinatura do pesquisador responsável:


82

Anexo 3 – Termo de Consentimento para uso de Imagem e Voz em Entrevista para


usuários da política.

UNIVERSIDADE COMUNITÁRIA DA REGIÃO DE CHAPECÓ- UNOCHAPECÓ


COMITÊDEÉTICAEMPESQUISAENVOLVENDOSERESHUMANOS
ÁREA DAS CIENCIAS HUMANAS E JUIDICAS
CURSO DE PSICOLOGIA

TERMO DE CONSENTIMENTO PARA USO DE IMAGEM E VOZ EM


ENTREVISTA PARA USUÁRIOS DO CAPSad III

Título: Instrumentos Dinâmicos de Intervenção Psicológica em Saúde Coletiva:


Desenvolvimento Metodológico e Validação de Terapêutica Mediada Pela Atividade Criadora
Pesquisador Responsável: Murilo Cavagnoli

Eu, __________________________________________________________________permito
que o pesquisador relacionado acima obtenha fotografias, filmagem, e/ ou, gravação de voz de
minha pessoa durante a realização das entrevistas, auxiliando na transcrição das informações
para futuras análises de dados, para fins de pesquisa científica/ educacional.

Concordo que o material e as informações obtidas relacionadas a minha pessoa possam ser
publicados em aulas, congressos, eventos científicos, palestras ou periódicos científicos. Porém,
minha pessoa não deve ser identificada, tanto quanto possível, por nome ou qualquer outra
forma.

As fotografias, filmagem, e/ ou, gravação de voz ficarão sob a propriedade do grupo de


pesquisadores pertinentes ao estudo e sob sua guarda.

_______________________________________________________________
Assinatura do Participante da Pesquisa
83

Anexo 4 – Termo de Consentimento para uso de Imagem e Voz em entrevista -


trabalhadores

UNIVERSIDADE COMUNITÁRIA REGIONAL DE CHAPECÓ - UNOCHAPECÓ


COMITÊDEÉTICAEMPESQUISAENVOLVENDOSERESHUMANOS
ÁREA DAS CIENCIAS HUMANAS E JUIDICAS
CURSO DE PSICOLOGIA

TERMO DE CONSENTIMENTO PARA USO DE IMAGEM E VOZ DOS


TRABALHADORES DO CAPSad III ENVOLVIDOS NA PESQUISA ENTREVISTA.

Título: Instrumentos Dinâmicos de Intervenção Psicológica em Saúde Coletiva:


Desenvolvimento Metodológico e Validação de Terapêutica Mediada Pela Atividade Criadora
Pesquisador Responsável: Murilo Cavagnoli

Eu,_____________________________________________________________permito que o
pesquisador relacionado acima obtenha fotografias, filmagem, e/ ou, gravação de voz de minha
pessoa para fins de pesquisa científica/ educacional.

Concordo que o material e as informações obtidas relacionadas a minha pessoa possam ser
publicados em aulas, congressos, eventos científicos, palestras ou periódicos científicos. Porém,
minha pessoa não deve ser identificada, tanto quanto possível, por nome ou qualquer outra
forma.
As fotografias, filmagem, e/ ou, gravação de voz ficarão sob a propriedade do grupo de
pesquisadores pertinentes ao estudo e sob sua guarda.

_______________________________________________________________
Assinatura do Participante da Pesquisa
84

Anexo 5 – Declaração de ciência e Concordância da Instituição Envolvida.

ESTADO DE SANTA CATARINA


PREFEITURA MUNICIPAL DE CHAPECÓ
SECRETARIA DE SAÚDE

UNIVERSIDADE COMUNITÁRIA DA REGIÃO DE CHAPECÓ- UNOCHAPECÓ


COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA ENVOLVENDO SERES HUMANOS
ÁREA DAS CIENCIAS HUMANAS E JUIDICAS
CURSO DE PSICOLOGIA

DECLARAÇÃO DE CIÊNCIA E CONCORDÂNCIA DAS INSTITUIÇÕES


ENVOLVIDAS
Com o objetivo de atender às exigências para obtenção de parecer do Comitê de Ética
em Pesquisa envolvendo Seres Humanos, a Coordenadora do Setor de Projetos e
Planejamento/Educação na Saúde, da Secretaria Municipal de Saúde de Chapecó Gessiani
Fátima Larentes, representante legal da Instituição *, envolvida no Projeto de Pesquisa
intitulado Instrumentos Dinâmicos de Intervenção Psicológica em Saúde Coletiva:
Desenvolvimento Metodológico e Validação de Terapêutica Mediada pela Atividade Criadora,
declara estar ciente e de acordo com seu desenvolvimento nos termos propostos, salientando
que os pesquisadores deverão cumprir os termos da resolução 466/2012 do Conselho Nacional
de Saúde e as demais legislações vigentes.

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Pesquisador Responsável
Murilo Cavagnoli.

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Responsável Coordenação de Unidade/Serviço
Oneide Souza Figueiredo

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Responsável da Instituição
Gessiani Fátima Larentes
**Apresentar cronograma de inserção dos acadêmicos no centro de saúde/serviço.