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PADDISON, Ronan. Handbook of Urban Studies. Londo: Sage Publication, 2001, p. 11 – 33.

IDENTIFICANDO A CIDADE
Ronan Paddison

A questão do que é uma cidade tem ocupado a atenção de muitos pesquisadores urbanos. De
fato, um dos paradoxos de estudar as cidades é que o modo como a cidade está a ser delineada
mostrou ser tão (se não mais) problemático, tendo como questão o fato de como elas devem ser
estudadas. Como foi argumentado no capítulo introdutório, a cidade é uma organização social
multifacetada e complexa. É então de se admitir que as formas como a cidade são estudada reflete
diferentes perspectivas teóricas e disciplinares. Uma conclusão semelhante pode ser tirada da
pergunta sobre o que constitui uma cidade.
As cidades podem ter diferentes 'facetas'. Devido ao fato de que a cidade possui seu
significado e sua individualidade frente a outros tipos de organização sócio-espacial, foi lhe dada
diferentes ênfases. Considerando duas visões sobre a cidade, uma de Raymond Williams (1973) em
seu livro clássico 'O País e a Cidade 1', e outro de Lewis Mumford (1938) em 'A Cultura das
Cidades2'. Para Mumford:

A cidade, como um fim da história, é o ponto de máxima concentração para o


poder e a cultura de uma comunidade. É o lugar onde os raios difusos de muitos
feixes separados da vida que entram em foco, ganham eficácia e significado social.
A cidade é a forma e o símbolo de relações sociais integradas; é a sede do templo,
do mercado, da sala da justiça, da academia do aprendizado. Na cidade os bens da
civilização são multiplicados e distribuídos; é na cidade onde a experiência humana
é transformada em signos viáveis, símbolos de conduta, sistemas de ordens.
(1938/1995, p. 104)

As características definidoras da cidade estão ligadas ao seu funcionamento estratégico para


toda a comunidade, sua importância como uma força civilizadora, além do seu papel como um
facilitador de mercado. Essa representação de como a cidade deve ser entendida contrasta com a
descrição oferecida por Raymond Williams:

Os grandes edifícios da civilização, os locais de encontro, bibliotecas, teatros e


cúpulas; e muitas vezes mais emocionante do que estas, as casas das ruas, a
imprensa e a emoção de tanta gente com tantos efeitos. Eu já estive em muitas
cidades e sentimos um impulso: nas diferenças físicas de Estocolmo, e Florença,
Paris e Milão (1973, p. 14).

Ambos estão preocupados em identificar a cidade como um símbolo da civilização e da

1 The Country and the City.


2 The Culture of Cities.
cultura. Todavia, enquanto Mumford expressa a importância da cidade em termos funcionais, a
ênfase dada por Williams é mais experiencial. As cidades apresentam muitas diferentes faces, sendo
que nenhuma delas deve ser privilegiada como o(s) elemento(s) definidor(es) do que ela é.
Paradoxalmente, na linguagem cotidiana, há um sentido em que, embora de forma negativa,
exista pouca dúvida quanto ao que constitui a cidade. O discurso popular desenha fronteiras nítidas
entre o urbano e o rural. Em outras palavras, o urbano é definível em termos daquilo que não é, ou
seja, o rural. É claro que tal definição é pouco esclarecedora quanto ao o que é que define o urbano,
exceto que, mais uma vez no discurso popular, é através da utilização de antônimos que a imagem
do rural e, portanto, por implicação, o urbano, é interpretado. O movimento ex-urbano3 em
economias avançadas é estimulado por imagens do que são lidos como os benefícios de viver em
ambientes rurais a pequenas distâncias da cidade, com ambientes mais limpos, mais seguros e com
melhor escolaridade. Na verdade, estes representam atributos imaginados das áreas rurais / locais
menores (ou como oposição a cidade grande), ao invés de características definidoras do que é a
cidade. Realizando um exame minucioso, podemos identificá-los mais como míticos do que reais.
Não devemos rejeitar uma distinção que, na linguagem cotidiana, não tem significado real.
Pelo contrário, tal como outros discursos populares, são os estereótipos, através dos quais o sujeito
se faz representar, mais do que o próprio sujeito, o que é problemático. Ambientes urbanos e rurais
são fundamentalmente diferentes justamente pelo fato de que suas espacialidades são diferentes4.
É a densidade da cidade que a marca como uma forma diferente dos ambientes rurais, densidades
não só de pessoas mas também das atividades econômicas, culturais e de lazer. Não é só a
densidade, ou dito de outra forma, a proximidade, que demarca o urbano do rural. As cidades
também são caracterizadas pela diferença, pela sua mistura de cultura e raça. Combinadas, é a
densidade e a diferença, que tanto contribuem para a excitação da cidade, claramente sentida por
Williams.
Sempre que intuitivamente o urbano e o rural são distinguíveis, e onde inicialmente estes
podem ser conceitualizados em termos de espacialidades diferentes, não é de estranhar que as
definições espaciais da cidade são um método frequentemente utilizado de delimitação. Na era pré-
industrial, bem como no início de instalações industriais, a distinção entre o que era urbano e o que
não era, foi muitas vezes acentuado, pelo menos no sentido físico, não mais do que na cidade
murada. Mas mesmo na cidade de baixa densidade contemporânea, com uma extensão
relativamente descontrolada na paisagem circundante (entre muitos casos, a área metropolitana de
Perth na Austrália Ocidental, por exemplo), o limite da área urbana é facilmente perceptível,
precisamente por causa das mudanças de densidade populacional.

3 Exurban - A região situada além da periferia de uma cidade, especialmente uma habitada principalmente por pessoas
ricas. (Fonte: www.thefreedictionary.com)
4 Grifo de leitura.
No entanto, tal limite raramente marca o limite do espaço urbano, especialmente nas
economias mais desenvolvidas, onde uma maior mobilidade das populações urbanas as permite
viver a uma distância da cidade. As definições dos Censos frequentemente reconhecem o fato de
que o crescimento da população urbana ocorre fora da área continuamente construída. Nas
economias mais avançadas, altamente urbanizadas, da Holanda e Grã-Bretanha, por exemplo - a
difusão da região funcional urbana fez com que apenas as áreas geograficamente mais afastadas se
encontrassem fora da influência de uma cidade.
Efetivamente, a experiência de desenvolvimento urbano nas economias avançadas fez com
que a descentralização fizesse com que o urbano e o rural estivessem cada mais interligados
fisicamente e funcionalmente. Mas não é só nas economias mais desenvolvidas que o urbano e o
rural se tornaram mais emaranhados. Em muitas cidades sub-saariana africanas, analistas recentes
comentam como a urbanização se propagou para a zona rural circundante, dentro da chamada zona
peri-urbana, mas também que tem havido uma 'ruralização' progressiva dos urbanos (STREN,
1994). Assim, onde há potencial para isso, a agricultura urbana em cidades Africanas tornou-se
comum para atender às necessidades básicas dos agregados familiares, e até mesmo, para alguns,
gerar um pequeno superávit. No Sudeste Asiático, McGee (1991) definiu um padrão distinto de
crescimento urbano, em desakora, em que a urbanização se propagou sucessivamente (e, muitas
vezes rapidamente) para a zona rural circundante.
O entrelaçamento da cidade e do país tem problematizado, não só a definição espacial do
urbano e rural, mas também seja em termos sociais a distinção real continua. Para alguns, e em
particular na sociedade altamente urbanizada, a distinção tem pouco significado, pelo menos no
sentido da existência de uma sociedade urbana distinta de um rural. Como Pahl (1970, p. 202)
memoravelmente disse, “Em uma sociedade urbanizada, o urbano está em toda parte e em nenhum
lugar: a cidade não pode ser definida, da mesma forma que a Sociologia Urbana”.
No entanto, essa recusa é confrontado pelas compreensões populares das diferenças entre as
áreas urbanas e rurais, naquelas sociedades que Pahl estava descrevendo. Na hora de escrever esta
introdução existia um conflito, e não politicamente insignificante, em uma centralização da Grã-
Bretanha, de acabar com a caça das raposas. Sua interpretação da mídia e dos defensores do
'esporte' é como uma disputa entre habitantes das zonas rurais e urbanas. A realização de
manifestações em massa em Londres, lideradas pela Aliança do Campo, um conglomerado de
grupos que representam os interesses rurais (especialmente os pró-caça), politizaram a questão de
uma forma que reacendeu a divisão entre o urbano – rural, divisão esta mais característica da Grã-
Bretanha pré e pós industrial. A sociedade urbana tem sido postulada como tendo valores diferentes
da sociedade rural. Tais diferenças são fabricadas por conveniência política ou não, ajudando o
conflito a solidificar a impressão de que existem diferenças sociais entre os dois tipos de ambiente.
Embora muito criticado, o artigo frequentemente citado de Wirth (1938), ' Urbanism as a
way of life' ainda fornece indicações importantes para a especificidade deste tipo de ambiente
urbano. Em essência, Wirth defendeu a marca de três fatores principais, cada um dos que ajudou a
caracterizar a cidade, ou seja, o tamanho, a densidade e a heterogeneidade5. O tamanho das
cidades aumenta a probabilidade de contatos impessoais e transitórios; entretanto, a densidade de
comunicação propiciada pelos contatos físicos estão distantes de relações sociais; sua
heterogeneidade foi um produto da pluralidade étnica e cultural, característica das populações
urbanas. A análise de Wirth exemplifica uma segunda maneira de definir e interpretar a cidade, em
termos sociais. Não é divorciada do primeiro, o espacial – de fato, o tamanho, a densidade relativa e
a heterogeneidade casam poderosamente com o caráter espacial da cidade.
Um terceiro caminho pioneiro na análise da cidade é baseada no poder da narrativa que
norteia a ação social, informando os conceitos e a experiência da cidade. Contando histórias, como
demonstra Finnegan (1998), usando o exemplo de Milton Keynes, uma nova cidade ao norte de
Londres. Esta tem muito a nos dizer sobre a cidade, não apenas na forma em que foi planejada, mas
também na forma como ela é diferentemente vivida pelos seus cidadãos, nas múltiplas leituras da
cidade como texto. O poder da narrativa deriva em parte da sua onipresença. Claramente, uma rica
fonte de narrativa surge a partir da análise do romance, elucidando, e muitas vezes particularisado,
os relatos delimitados da natureza do que é ser citadino.
Estes três tipos são representativos das diferentes formas de análise que as cidades têm sido
entendidas. Metodologicamente, eles são distintos. Métodos espacialmente embasados da definição
da cidade dependem de análise quantitativa - as cidades são mensuráveis, seus limites são
definíveis, com maior ou menor precisão. Outras formas de análise são mais qualitativas, utilizando
da análise textual ou da realização de entrevistas com fontes de narrativas, que ajudam a definir a
natureza, experiência e interpretação da cidade.

DEFININDO A CIDADE
William H. Frey e Zachary Zimmer

O conceito de urbano e do fenômeno da urbanização são algo novo para as populações


humanas. De fato, em comparação com toda a história da evolução humana, só foi muito
recentemente que as pessoas começaram a viver em aglomerações urbanas relativamente densas.
No entanto, a velocidade com que as sociedades têm se urbanizado é impressionante. Não existem
precedentes em relação ao tamanho das aglomerações e a forma em que as sociedades de hoje estão
se urbanizando. Davis (1969) observa que antes de 1850, nenhuma sociedade poderia ser descrita

5 Grifo de leitura.
como sendo fundamentalmente urbana por natureza. Hoje, todas as nações industriais, e muitos dos
países menos desenvolvidos, poderiam ser descritos como sendo sociedades urbanas. Além disso, o
mundo global é cada vez mais urbano com a passar do tempo. Como aqueles que vivem em
sociedades menos desenvolvidas, pelos menos por alguns instantes, eles têm vivido nos moldes da
vida urbana, que tem sido comum nas sociedades mais avançadas. Apesar dessa rápida
transformação das sociedades de essencialmente rurais em essencialmente urbanas, e a importância
desta evolução no estudo de populações humanas, a noção de urbano continua fugaz, mudando de
tempos em tempos, diferentes através das fronteiras políticas, e que está sendo modificado,
dependendo da finalidade que a definição de urbano serve. As vezes, as populações urbanas são
definidas em termos de limites administrativos, às vezes em termos de limites funcionais, as vezes
eles são definidos em termos de fatores ecológicos, tais como densidade e tamanho populacional.
Embora muitos dos problemas sociais de hoje envolvam viver em grandes aglomerações urbanas,
estas divergências na definição do conceito de urbano tornou difícil a realização de estudos
comparativos sobre as populações urbanas ao longo do tempo e através das fronteiras. Então. em
um sentido, as dificuldades encontradas na definição do 'urbano' criam obstáculos para a
compreensão do fenômeno, busca soluções para uma série de problemas sociais que envolvem a
população urbana.
Contextualizando a cidade de hoje, o capítulo seguinte é dividido em duas discussões.
Primeiro, vamos examinar as tendências do passado, presente e futuro do crescimento urbano. Para
fazer isso, começamos com uma breve revisão da história da formação urbana. Depois disso, vamos
examinar a evolução do crescimento urbano, e em determinadas cidades, no passado recente e no
futuro próximo, com projeções de população. Na segunda parte do capítulo, discutimos sobre uma
série de conceitos sobre o significado do termo 'urbano'. Começamos por definir a cidade de hoje
em termos de vários critérios, tais como função e o espaço. Em seguida, nos concentramos em um
único exemplo, nos Estados Unidos, a fim de esclarecer a evolução da definição da cidade.
Concluímos, sugerindo uma nova definição da cidade que melhor define aglomerações de hoje, a
'Área Comunitária Funcional'.

CRESCIMENTO URBANO, PASSADO PRESENTE E FUTURO


Uma Breve História do Crescimento Urbano

Há evidências de que as cidades surgiram no mundo a mais de 5.500 anos atrás, as primeiras
das quais na Mesopotâmia, no Vale do Nilo, o vale do Indo e do Vale do Hoang-ho. Havia diversos
fatores organizacionais que podem ter precipitado a formação dessas primeiras cidades, incluindo
factores comerciais e o comércio, políticos e religiosos. Chandler e Fox (1974) documentam
relativamente grandes aglomerações existentes em Babilônia (250.000 habitantes), Patna (350.000
habitantes) e Roma (650.000 habitantes) entre cerca de 400 aC e 100 dC. O número de cidades
aumentou durante a época medieval, embora, de acordo a Davis (1969), tenha permanecido
pequeno. As populações, em geral, mantiveram-se predominantemente rurais e estavam envolvidas
na produção agrícola. De fato, a proporção de pessoas vivendo em áreas urbanas oscilou entre 4% e
7% ao longo da história, até cerca de 1850 (LOWRY, 1991).
A verdadeira mudança na distribuição populacional e os padrões de vida urbana ocorreu com
a revolução industrial no século XIX, que tornou possível, para um grande número de pessoas,
viverem em centros urbanos. Uma série de fatores são frequentemente citados para criar um
ambiente favorável para o crescimento urbano. Eles incluem, em primeiro lugar, a mecanização nas
áreas rurais, que aumentou a produção agrícola e os rendimentos por hectare, gerando o excedente
necessário para sustentar grandes populações urbanas, que não estavam envolvidos na produção
agrícola; em segundo lugar, o desenvolvimento da produção em massa na manufatura
transformadora e indústria tornou obsoleta o artesanato pré-industrial; e em terceiro lugar, a
sofisticação dos sistemas de transporte e comunicação, provocada em parte pela máquina a vapor e
o sistema ferroviário, que liberou o comércio entre os lugares, feito entre os centros urbanos locais
do mercantilismo. Por sua vez, as indústrias não estavam mais ligadas a locais próximos de fontes
de energia e poderiam estabelecer-se em locais centralizados (MCVEY e KALBACH, 1995).
Centralizada, as economias diversificadas, possibilitadas pela produção em massa, geraram
empregos para aqueles que já não eram capazes de encontrar emprego na agricultura. No final,
embora a cidade fosse dependente de zonas rurais para a produção de alimentos, a maior capacidade
de produção e diversificação da produção permitiu que as cidades contribuíssem para a economia,
enquanto que a melhoria do transporte e de comunicação criassem rotas de comércio internacional.
Novas formas de organização na indústria permitiram a absorção de um número significativo de
indivíduos.
A revolução industrial foi acompanhada por mais do que apenas mudanças na indústria. De
fato, as revoluções ocorreram em áreas tão diversas como na filosofia, ciência, governo, tecnologia,
educação, administração, política e militar. Isso criou a necessidade de interdependência. As áreas
urbanas começaram a prosperar em especializações. As múltiplas funções necessárias a serem
realizada nas proximidades criaram altas densidades populacionais. Na verdade, ainda hoje, é a
diversidade de funções que, muitas vezes, demarca o que são zonas urbanas e rurais6.
As implicações do desenvolvimento urbano foram de grande envergadura, com impacto não
apenas sobre a economia, mas na ordem social e ecológico dentro da cidade (MCVEY e
KALBACH, 1995). As mudanças na cidade incluíram o aparecimento de uma classe média, uma

6 Grifo de leitura.
ênfase na reforma social, o desenvolvimento do comércio mundial, a fundação de instituições
financeiras e a centralização do setor, a descentralização da classe alta, e o afastamento da família –
operários de industria artesanal de fábricas urbanas. A transformação industrial também foi
creditada com a nucleação e mobilização da família, duas mudanças que caminham lado a lado.
Muitas áreas da Europa precipitaram o centro urbano moderno. A Europa era geralmente
uma sociedade agrária até a transformação industrial. Apenas 1.6% do total da população vivia em
áreas urbanas no ano de 1600, que aumentou apenas 2.2% no início do século XIX. Os percentuais
dos que viviam em áreas urbanas começaram a dobrar rapidamente, no entanto, a partir desse ponto.
Na Inglaterra e País de Gales, por exemplo, a proporção de pessoas que viviam nas cidades dobrou
duas vezes entre 1800 e 1900. Davis (1969) aponta também que depois que se tornou um país
industrializado, mais rápido foi o ritmo da urbanização. A mudança de 10% para 30% de pessoas
vivendo em uma área urbana com população de 100.000 ou mais ocorreram em 79 anos na
Inglaterra e País de Gales, um dos primeiros países a se industrializar. Todavia, exigiu apenas 36
anos no Japão, um dos últimos da atual sociedade moderna.
É importante notar como ocorreu o crescimento da população da cidade durante este
período. Nas fases iniciais da industrialização, as áreas urbanas foram caracterizadas por condições
insalubres de vida, tendo excesso de mortalidade. De fato, as condições adversas enfrentadas pela
classe operária em Londres levaram a uma série de escritos tanto de Friedrich Engels quanto de
Karl Marx, tornando-se entre as obras das ciências sociais as mais influentes. As taxas de natalidade
nas áreas urbanas também tenderam a ser menores do que no campo. Assim, o crescimento da
população urbana só pôde ter ocorrido através migrações em massa do rural ao urbano.
Considerando as condições adversas de vida enfrentadas pelos migrantes, a área urbana cresceu,
oferecendo vantagens ao morador rural, na forma da procura de emprego e de aumentos nos salários
dos encontrados nas áreas rurais.
Padrões de desenvolvimento urbano moderno no mundo mais industrializado assumiram
novas formas, como consequência das melhorias no transporte, da revolução das comunicações e da
ligação cada vez maior de locais em uma economia mundial (CASTELLS, 1985; CHAMPION,
1989; FREY, 1993; FREY e SPEARE, 1988; SASSEN, 1991). Áreas urbanas individuais são mais
polarizadas em suas tendências de crescimento, na justaposição de extremos: a matriz corporativa
centralizando 'cidades mundiais', contrastando com áreas de baixo nível de produção especializadas
em indústrias menos competitivas. Novas áreas urbanas estão agora a ser desenvolvias em um modo
de 'baixa densidade', seguindo um modelo diferente do que o oferecido pelas experiências de
desenvolvimento centro-único/ hinterlandia7 em torno de cidades antigas. Desde a Segunda Guerra

7 NOTA: hinterlandia significa a área subordinada economicamente a um centro urbano. Emprega-se a palavra
referindo-se à áreas de influência de uma cidade como Belo Horizonte, Montes Claros ou Januária, e também no
sentido de um amplo território colonial sobre o domínio de uma metrópole ultramarinha (CORRÊA, 2007, p. 86)
Mundial, houve uma suburbanização extensiva e, mais recentemente, uma 'exurbanization', que
traz ainda uma menor distinção entre rural e urbano, especialmente pelo fato que estes dependem
menos em atividades agrícolas e extrativistas e mais em nova produção, ou seja, serviços e
indústrias de lazer. Finalmente, a migração internacional se tornou uma fonte importante de
crescimento da população em determinadas áreas urbanas em países desenvolvidos, em muitos
casos, superando os fluxos mais tradicional entre rural e o urbano (CHAMPION, 1994; FREY,
1996). Como resultado, a urbanização no mundo desenvolvido está ocorrendo em um ritmo bem
menos acelerado do que no passado; e é muito mais dependente da criação de novas cidades do que
do crescimento das antigas.
Até agora, a discussão tem se concentrado sobre o desenvolvimento da cidade no contexto
ocidental industrializado. Historicamente, o desenvolvimento da cidade moderna ocorreu muito
mais tarde e em circunstâncias diferentes nos países menos desenvolvidos (CHANDLER, 1987;
GILBERT e GUGLER, 1982; GUGLER, 1988; HARRIS, 1992; KASARDA e PARNELL, 1993;
MCGEE e ROBINSON, 1995; CENTRO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA OS ASSENTAMENTOS
HUMANOS, 1996). Em comparação com as regiões mais desenvolvidas e industrializadas, o
crescimento urbano nessas regiões ocorreu muito mais rapidamente. Em questão de 20 ou 30 anos,
essas áreas tiveram o crescimento urbano que ocorreu ao longo de séculos na Europa. Estas altas
taxas de crescimento urbano, são resultado de vários fatores, incluindo: a falta de oportunidade de
emprego nas áreas rurais, por si só, devido às rápidas mudanças na estrutura agrícola dessas áreas; a
oportunidade de emprego em áreas urbanas; redes sociais que serão criadas em áreas urbanas
tornando mais acessíveis às transições para a vida urbana; e facilidade de comunicação e transporte
para áreas urbanas.
Um problema particular em áreas menos desenvolvidas é que a população urbana, embora
seja uma proporção menor da população total do que nos países industrializados, está mais
concentrada em cidades menores. Muitas vezes existe apenas uma cidade primaz atraindo todos os
migrantes rurais, um fenômeno conhecido como macrocefalia. Tal situação tende a gerar uma série
de problemas associados com a incapacidade de uma única cidade em absorver a massa de
migrantes rurais. O crescimento urbano que ultrapassa as oportunidades de emprego é denominado
de overurbanization. Também se observou que cidades como Cairo, Calcutá, Jacarta, Lagos, de
Seul se tornaram overurbanized. Os migrantes que vão para essas cidades são frequentemente
caracterizados como sendo não qualificados e analfabetos. Eles tendem a viver com amigos e
parentes em condições já lotadas. Eles colocam uma pressão sobre os recursos hídricos disponíveis.
Os novos habitantes que vão para estas cidades tendem a viver em cortiços e favelas na periferia das
cidades. Além disso, o crescimento urbano desta natureza coloca problemas para o governo,
drenando a economia de recursos, que são utilizados para o transporte de encargos crescentes,
abastecimento de água e outras infraestruturas. Os países que enfrentam limitações de recursos têm
dificuldade em distribuir a riqueza para as áreas rurais e centros urbanos menores. Alguns poderiam
argumentar em seguida, que a migração urbana deste tipo é, portanto, um método eficaz de
redistribuição de recursos, contribuindo para o desenvolvimento econômico (GUGLER, 1983).
Portanto, há algum debate quanto ao fato de se o rápido crescimento urbano cria uma situação de
overurbanization. Além disso, alguns argumentam que o processo de rápido crescimento urbano nos
países menos desenvolvidos começou a abrandar (GILBERT, 1993). No entanto, nas páginas a
seguir, que descrevem as tendências recentes do crescimento urbano, o papel dos países menos
desenvolvidos (less developed countries - LDCs), e como que a região dominante nesse processo de
crescimento vai se tornar aparente.

Tendências Recentes na Urbanização

Passamos agora para analisar o crescimento urbano recente e tendências que são observadas
em escala mundial com base nas estatísticas compiladas pelas Nações Unidas. O crescimento
urbano vem ocorrendo rapidamente nos últimos anos, e continuará no futuro próximo. Estas
tendências estão em destaque na Figura 2.1, que exibe a população urbana em LDCs (less
developed countries - países menos desenvolvidos) e MDCs (more developed countries - países
mais desenvolvidos) a partir de 1950 e projetando para o futuro próximo, justapondo duas medidas.
Em primeiro lugar, as barras indicam a porcentagem do total da população urbana mundial em
ambos os LDCs ou MDCs. Em segundo lugar, as linhas traçadas indicam a porcentagem da
população em MDCs ou LDCs que vivem em áreas urbanas.
Olhando primeiro para a parte da população urbana mundial em diversas áreas, percebe-se
que em 1950 cerca de 60% viviam em Países Desenvolvidos e 40% nos países menos
desenvolvidos. Desde então, a população que vivia em países menos desenvolvidos aumentou
rapidamente, enquanto os percentuais dos que vivem em MDCs declinou. Em 1975, mais da metade
da população do mundo vivia em países menos desenvolvidos (LDCs). A mudança vai continuar no
futuro, de modo que até o ano 2025, prevê-se que 80% da população urbana mundial viverá nos
países menos desenvolvidos.

Urbanização e Crescimento Urbano

Os níveis de urbanização, medidos pela percentagem da população vivendo em áreas


urbanas, está aumentando tando em LDCs como em MDCs, e o aumento é claramente mais
dramático no primeiro (ver as linhas traçadas na Figura 2.1). Em 1950, menos de 30% do total da
população mundial vivia em áreas urbanas. Havia, entretanto, grande variação entre MDCs e LDCs,
com níveis tipicamente muito maiores no primeiro. Em 1950, menos de 20% de habitantes LDCs
viviam em áreas urbanas, em comparação com quase 55% do seu homólogo MDC. Para dar
exemplos usando alguns dos países mais populosos do mundo, em 1950, cerca de 11% da
população na China, 17% na Índia, 12% na Indonésia, e 36% no Brasil viviam em áreas urbanas.
Isso se compara aos 64% nos Estados Unidos, 50% no Japão, 72% na Alemanha e 84% no Reino
Unido.

Mas, o crescimento da população urbana vem ocorrendo, e continuará a ocorrer, muito mais
rápido em LDCs que em MDCs. O resultado é que embora uma maior proporção da população
MDC viverá em áreas urbanas em comparação com o total de população LDC, a diferença tem
diminuído e continuará a se estreitar no futuro. Até o ano 2025, espera-se que cerca de 84% das
pessoas em MDCs estarão vivendo em áreas urbanas, assim como 57% das pessoas em LDCs.
existirá a variação entre as nações em LDCs, como é de esperar, que a proporção dos que vivem em
áreas urbanas serão, por exemplo, cerca de 55% na China, 45% na Índia, 61% na Indonésia e 89%
no Brasil. Haverá menos variação em MDCs, como exemplo, 85% nos EUA e no Japão, 86% na
Alemanha e 93% no Reino Unido, vivendo em áreas urbanas.
Há também grandes diferenças entre as tendências de urbanização entre as principais regiões
geográficas do mundo. A figura 2.2 apresenta esta informação, desta vez comparando as regiões
mundiais (Oceania não incluídas). O gráfico da esquerda mostra a percentagem da população,
dentro de cada região, que vivem em áreas urbanas. Parece haver dois grupos de regiões. Primeiro,
existe a África e a Ásia. Essas regiões foram cerca de 15% urbanizada em 1950, mas aumentos
drásticos nos percentuais das pessoas que vivem em áreas urbanas estão ocorrendo nessas duas
regiões. Em 2000, mais de 35% estão vivendo em áreas urbanas na África e Ásia, enquanto que em
2025, mais da metade da população viverão em áreas urbanizadas.
Em segundo lugar, existe a América do Norte, Europa e América Latina. Em 1950, houve
grande variação no percentual de pessoas vivendo nas áreas urbanas entre as regiões: cerca de 40%
das pessoas na América Latina, 50% das pessoas na Europa e cerca de 65% das pessoas na América
do Norte. Estas três regiões estão, no entanto, passando por algumas tendências de convergência na
sua urbanização. Em 2025, entre 80% e 85% da população em cada uma dessas três áreas estarão
em áreas urbanizadas. Isto significa, naturalmente, que o crescimento da urbanização tem ocorrido
mais rapidamente na América Latina do que nas outras duas regiões, mas o futuro crescimento será
muito semelhante.
O lado direito do gráfico mostra a percentual da população total do mundo urbano que
vivem nestas cinco regiões, e as tendências aqui imitam aqueles mostrados na Figura 2.1. Isto é,
embora a urbanização esteja ocorrendo em todo o mundo, a grande mudança está ocorrendo na
parte da população urbana em várias regiões. Em 1950, a maior parte da população urbana do
mundo (cerca de 40%) viviam na Europa. Naquela época, apenas cerca de 5% da população urbana
mundial vive na África. Cerca de 10% viviam na América Latina, 15% viviam na América do
Norte, e um pouco mais de 30% por cento viviam na Ásia. Em 2025, a proporção da população
urbana do mundo, na Europa cairá para menos de 15%. Nesta mesma época, bem mais de metade
da população urbana mundial viverá em Ásia. Cerca de 15% viverá na África e América Latina, e
apenas cerca de 7% vai viver na América do Norte.

Tendências de Crescimento Urbano e Rural

No restante desta seção, vamos apresentar as tendências introduzidas no contexto acima,


apresentando uma série de dados complementares que comparam o crescimento urbano em relação
a evolução do crescimento rural, LDCs versus MDCs, entre regiões do mundo, no passado recente
e projetada para o futuro próximo.
A figura 2.3 apresenta as taxas de variação média anual, ou taxas de crescimento, para as
populações urbanas e rurais, para MDCs e LDCs, apresentados entre 1950 para 2025. Olhando para
as figuras de áreas urbanas, as taxas de crescimento começaram entre os 4% e 5% em LDCs por
volta de 1950, e estão a diminuir lentamente. Hoje, as taxas de crescimento em LDCs ou áreas
urbanas são cerca de 3%, e espera-se que diminua para cerca de 2% em um futuro próximo. Em
MDCs, taxas de crescimento urbano caíram de pouco mais de 2% ao ano para pouco menos de 1%,
mas eles permanecem relativamente estáveis no futuro próximo.

As taxas de crescimento rural tem sido um pouco menores em LDCs desde 1950, e na
verdade, são negativos em MDCs. Em outras palavras, a população rural está apenas aumentando
ligeiramente em LDCs e declinando em MDCs. Espera-se que as taxas de variação sejam negativas
em LDCs em um futuro próximo. Especificamente, as taxas de crescimento rural em LDCs foram
entre cerca de 1% e 2% nos últimos anos, estando a diminuir progressivamente a quase 0%,
figurando-se como negativos nos próximos 20 anos. Em MDCs, as populações rurais têm vindo a
diminuir desde 1950, quando as taxas de crescimento rural foram cerca de -0,25%. No entanto, o
ritmo de queda reduziu a velocidade durante a década de 1970, seguindo uma tendência mundial
(CHAMPION, 1989; FIELDING, 1992; VINING e KONTULY, 1978). Até o ano de 2025, em áreas
rurais em MDCs espera-se estar a perder cerca de 1,5% da sua base de população por ano.
Estas taxas de crescimento rural e urbano também pode ser visto no contexto do crescimento
total da população mundial. Ou seja, o crescimento total da população mundial pode ser dividido
em quatro partes crescimento: crescimento urbano em MDCs, crescimento urbano em LDCs,
crescimento rural em MDCs e crescimento rural em LDCs. A adição destas quatro taxas é de 100%
do crescimento total da população mundial. Quando o crescimento da população mundial é
considerada desta forma, a quase totalidade do aumento da população explica-se pelo aumento da
população urbana em LDCs. Por exemplo, em 1995, o crescimento urbano em LDCs foi
responsável por cerca de dois terços do crescimento da população mundial. O crescimento rural
LDC representava 20%, e o crescimento rural e urbano MDC responsável por uma quantidade
insignificante. Mas, o crescimento da população urbana LDCs está a aumentar tão rapidamente, que
até o ano 2010 o crescimento urbano LDC será responsável por 100 por cento do crescimento
mundial. As áreas rurais não estarão crescendo, ou estarão em declínio de população, enquanto o
crescimento urbanos MDC vai se estabilizar em menos de 10% do crescimento mundial.
As taxas médias anuais de crescimento são mostradas por cinco regiões do mundo na Figura
2.4. As taxas de crescimento da população urbana são mais elevadas para a África, seguida pela
Ásia. Na América Latina as taxas de crescimento urbano tem vindo a decrescer rapidamente, de
cerca de 4,5% no período 1950-1955, para menos de 2% hoje. Na Europa e na América do Norte as
taxas têm vindo a diminuir em mais de 2% em 1950-1955 para valores entre 0% e 1% hoje e no
futuro próximo. O crescimento da população rural está em declínio em todas as regiões do mundo
muito rapidamente. Ele ainda é positivo em África e na Ásia, está perto de zero na América Latina e
América do Norte, e está bem abaixo de zero na Europa. Até o ano 2025, só a África estará
experimentando um crescimento positivo em sua população rural.

Estas taxas de crescimento se traduzem em mudanças no tamanho da população atual entre e


dentro das regiões do mundo. Na Figura 2.5, os totais da população vivendo em áreas urbanas e
rurais são desenhados, para MDCs e LDCs, desde 1950 e se projetando para o futuro. Olhando
primeiro para a população urbana, entre 1950 e 1970, o número de pessoas vivendo em áreas
urbanas, em todo o mundo,era praticamente igual tanto em MDCs quanto em LDCs. Após este
ponto, a população urbana LDC superou a população urbana MDC várias vezes. Em 2025, haverá
quatro vezes mais população urbana nos países menos desenvolvidos do que haverá nos países mais
desenvolvidos. Em 1950, havia cerca de 450 milhões vivendo em áreas urbanas nos países mais
desenvolvidos e cerca de 300 milhões em áreas urbanas em países menos desenvolvidos. A
população urbana de países mais desenvolvidos vai passar a 1 bilhão aproximadamente em 2020, e
será um pouco mais de 1 bilhão no ano de 2025. Ao mesmo tempo, a população urbana dos países
menos desenvolvidos passou da marca de 1 bilhão aproximadamente no ano de 1985 e serão mais
de 4 bilhões até 2025. A população rural apresenta uma tendência diferente.

A população rural de países menos desenvolvidos tem desvantagem em relação a população


rural de países mais desenvolvidos desde 1950. O diferencial tem aumentado ligeiramente entre
1950 e 1995, mas a mudança não é tão dramática como é visto na população urbana.
Especificamente, a população rural de países menos desenvolvidos, menos de 1,5 bilhões em 1950,
vai crescer para mais de 3 bilhões até o ano de 2005, mas irá estabilizar-se e permanecer em cerca
de 3 bilhões até o ano de 2025. Nos países mais desenvolvidos, a população rural era de cerca de
350 milhões em 1950, e diminuiu progressivamente ao longo dos anos. Em 2025, espera-se que
haverá menos de 200 milhões vivendo em áreas rurais nos países mais desenvolvidos.
O tamanho das populações urbanas e rurais são mostrados na Figura 2.6 para cinco regiões
do mundo. A influência da Ásia sobre a mudança no tamanho da população mundial, tanto em áreas
urbanas quanto rurais, mas sobretudo no primeiro caso, pode ser visto claramente. A população
urbana da Ásia era um pouco mais de 200 milhões em 1950. Até o ano 2020, esse número deverá
ser quase de 2,5 bilhões. Ao mesmo tempo, outras áreas estão experimentando um aumento na
população urbana, embora isso seja dramático apenas na África. População urbana africana foi um
pouco mais de 30 milhões em 1950. O total deve ser bem mais de 600 milhões em 2020.
O tamanho da população rural têm aumentado na Ásia desde 1950, mas espera que se
estabilize, talvez entrando em queda no futuro. A população rural africana também está
aumentando, embora a população na outras regiões do mundo esteja em queda ou esteja
aumentando a uma taxa insignificante.
Para resumir, é claro que o crescimento urbano recente pode ser explicado principalmente
pelo crescimento nas áreas dos países menos desenvolvidos, embora continue a haver algum
crescimento urbano nos países mais desenvolvidos. Em termos de regiões do mundo, a Ásia domina
o crescimento da população urbana nos últimos anos e continuará a fazê-lo em um futuro próximo.
Por outro lado, as populações rurais estão a diminuir em países mais desenvolvidos e nos países
menos desenvolvidos estão se estabilizando.
No futuro, a quase totalidade do crescimento da população mundial será devido ao aumento
da população urbana nos países menos desenvolvidos. Isto, em grande parte, significa aumento no
tamanho da população urbana na Ásia e na África.

Tendências em Aglomerações Urbanas

Grandes Aglomerações

As mudanças na estrutura da população urbana mundial, discutida na seção anterior,


significa que as mudanças estão ocorrendo também na estrutura e distribuição das maiores
aglomerações urbanas do mundo. A Tabela 2.1 apresenta dados sobre as dez maiores aglomerações
urbanas no passado recente, no presente e projetados para o ano de 2015. Fornecemos tanto
tamanhos populacionais como taxas de crescimento médio anual a partir dos dados de 1955,
incluindo taxas médias de crescimento anual entre os anos de 1950 a 1955.

Em 1955, uma aglomeração com uma população de 10 milhões de habitantes, como New
York, passou a ter 13 milhões. Das dez maiores aglomerações, apenas duas, Buenos Aires e Xangai,
poderiam ser consideradas como localizadas em países menos desenvolvidos. O número das dez
que estão nestas áreas ao longo dos anos destaca o crescimento das aglomerações urbanas em
LDCs. Em 1975, Xangai, Cidade do México, São Paulo, Buenos Aires e Pequim se tornam uma das
dez maiores aglomerações urbanas. Em 1995, o número de aglomerações MDC nos dez maiores é
limitada a três. Em 2015, apenas Tóquio permanecerá como uma das dez cidades em um dos países
de mais desenvolvidos. New York, que era a maior aglomeração urbana do mundo em 1955, não
será uma das dez maiores cidades, a menor população entre as dez maiores em 2015, com quase 19
milhões. Sete aglomerações urbanas em 2015 terão uma população de mais de 20 milhões, com seis
dessas cidades sendo localizadas em países menos desenvolvidos.
As taxas de crescimento das aglomerações determinam como uma população da cidade vai
mudar. As aglomerações de grande porte com altas taxas de crescimento (por exemplo 3% ou mais),
irá acumular população muito rapidamente. Por exemplo, uma área urbana com uma população de 1
milhão e uma taxa de crescimento de 4%, terá uma população de mais de 2,2 milhão em 20 anos, e
uma taxa de crescimento constante ao longo desse período. Lagos, Nigéria, com uma população de
mais de 24 milhões em 2015 e uma taxa de crescimento de 3,27%, seria de esperar para ter uma
população de 47 milhões em 2035, uma taxa constante de crescimento. Estas figuras dramáticas
indicam que as cidades com altas taxas de crescimento tornam-se mega-cidades com bastante
rapidez. A maioria das aglomerações listadas entre as 10 maiores tiveram altas taxas de crescimento
no passado. Por exemplo, embora a taxa de crescimento de Jacarta seja de 1,98% em 2015, sua
população é alta, devido a uma taxa de crescimento de 4,35% no ano de 1995. A taxa de
crescimento da Cidade do México foi superior a 5%, e a taxa de crescimento de São Paulo foi
próxima de 7% no momento em que estas cidades foram crescendo rapidamente. Estes números
sugerem que pode haver um problema de overurbanization ou crescimento urbano, que é tão grande
quanto pode tornar-se problemática em ser capaz de absorver os recém-chegados. O que parece
fazer algum sentido ecológico, as aglomerações urbanas com taxas extraordinariamente altas de
crescimento mostram uma desaceleração no crescimento quando eles se tornam muito grandes. As
vantagens de uma grande aglomeração, em termos de oportunidades de emprego, pode ser
ofuscadas pelas desvantagens em termos de poluição, super-lotação, e outras preocupações
ambientais. No entanto, nem sempre é o caso. Mumbai (antiga Bombaim) na Índia, por exemplo,
com uma população de mais de 15 milhões em 1995, ainda mantém uma taxa de crescimento de
mais de 4%. Sua população chegará a 27 milhões até o ano 2015. A tabela 2.2 apresenta o número
de grandes aglomerações urbanas em diferentes regiões do mundo com altas taxas de crescimento 8.
A tabela mostra que a maioria dessas áreas de crescimento muito elevadas estão localizadas na Ásia.
Por exemplo, das 127 cidades do mundo com grandes taxas de crescimento de 3% ou mais, 92 estão
localizadas na Ásia. Trinta e oito dessas cidades asiáticas estão localizadas na China, mas ignorando
estas, o resto da Ásia ainda é responsável por 54 das cidades com mais rápido crescimento do
mundo entre as grandes aglomerações urbanas. Existem 13 cidades com 5% (ou maiores) de taxas
de crescimento. Mais da metade destes estão localizados na África e os restantes estão da Ásia.
Claramente, há uma série de aglomerações urbanas africanas que em breve possuirão uma taxa
entre os mais populosos do mundo. A Europa não contém nenhuma das aglomerações urbanas com
altas taxas de crescimento, enquanto a América do Norte contém apenas um (Norfolk). A América
Latina contém 11 destas, e todos têm taxas de crescimento entre 3% e 4%.
8 O apêndice 2.1(texto original) fornece os nomes de todas essas cidades, a sua localização, as taxas de crescimento e
o tamanho da sua população.
Como mencionado acima, a combinação entre uma grande população e uma elevada taxa de
crescimento pode ser a receita para se criar uma overurbanization. Existem 13 cidades do mundo
que têm uma população de 2 milhões ou mais, com taxas de crescimento de mais de 4%. estas
cidades não só têm uma grande população, mas o aumento ao longo das duas próximas décadas será
dramático e potencialmente problemático. Sete destas cidades estão localizados na África (Lagos,
Nigéria; Abidjan, Côte d'Ivoire; Khartoum, Sudão; Maputo, Moçambique; Addis Abeba, Etiópia;
Luanda, Angola; Nairobi, Quênia), enquanto as outras seis estão localizados na Ásia (Karachi,
Paquistão; Dacca, Bangladesh; Hyderabad, na Índia; Riyadh, Arábia Saudita; Cabul, Afeganistão;
Lucknow, Índia). Algumas delas já têm os tamanhos das populações que os colocam na lista atual
das maiores aglomerações urbanas do mundo, mas os outros tem crescimento rápido e estarão na
categoria de grandes cidades nas próximas décadas. A tabela 2.3 apresenta o tamanho da população
para estas aglomerações urbanas em rápido crescimento de intervalos de 10 anos com início em
1975 e projetados até 2015. Vários exemplos vão demonstrar o caráter dramático do crescimento da
população que atualmente ocorrem nesses locais. Lagos, Nigéria tinha uma população de 3,3
milhões em 1975 e aumentou de tamanho para cerca de 7 milhões nos últimos 20 anos. Hiderabad
na Índia tinha uma população de cerca de 2 milhões em 1975 e sua população alcançará 10,6
milhões até 2015, um aumento de mais de 8 milhões de pessoas em 40 anos. Maputo, Moçambique
era uma cidade de cerca de meio milhão de pessoas em 1975. Hoje, a cidade tem cerca de 2,25
milhões, e em 2015 terá cerca de 6 milhões de habitantes.
Fica claro a partir desta discussão que as mudanças mais espetaculares em relação a
população estão ocorrendo nas cidades Asiáticas e na Africanas. Não só essas regiões têm diversas
aglomerações urbanas selecionadas que estão crescendo rapidamente, mas, como ilustra o quadro
2.4, o número real de cidades com 1 milhão ou mais de população cresceu mais rapidamente na
Ásia, em comparação com outras regiões. Em 1950, haviam poucas grandes cidades localizadas na
Europa que na Ásia. Em 1965, a Europa contava com 39 cidades de 1 milhão ou mais, comparado a
50 localizadas na Ásia. O número destas cidades aumentou ligeiramente na Europa ao longo dos
anos, enquanto o número praticamente explodiu na Ásia. Em 1995, o número de cidades asiáticas
de 1 milhão ou mais existiam em número muito maior que na Europa. Como pode ser visto na
Tabela 2.4, a América Latina, América do Norte e África têm menor número dessas grandes
cidades, mas todos os três parecem estar a aproximar-se com a Europa. O número de cidades
africanas de 1 milhão ou mais cresceu de apenas 1 em 1950 para 31 em 1995. As cidades latino-
americanas com mais de 1 milhão de população agora são em número de 44, enquanto que há 39
cidades norte-americanas deste tamanho, a maioria localizada nos Estados Unidos.
Distribuição por Tamanho da Cidade

Finalmente voltamos para a distribuição da população urbana mundial pelo tamanho da


cidade. Embora tenhamos até agora analisado as grandes aglomerações urbanas do mundo, a
maioria das populações urbanas vivem em lugares com menos de 1 milhão de população. No
entanto, isso também vem mudando, à medida que mais e mais a população urbana é contabilizada
em grandes aglomerações. A figura 2.7 mostra a distribuição da população urbana, pelo tamanho de
aglomeração, para anos selecionados entre 1950 e 1995. Em 1950, 74% da população mundial vivia
em cidades urbanas com menos de 1 milhões de habitantes. Em comparação, apenas 2% viviam em
grandes aglomerações extremas de 10 milhões ou mais. Os restantes viviam em cidades entre 1 e 10
milhões em tamanho, com 8% sendo nas cidades de entre 1 e 2 milhões, 10% nas cidades entre 2 e
5 milhões e 6% em cidades entre 5 e 10 milhões. Ao longo dos anos, o percentual dos que vivem
em aglomerações urbanas com menos de 1 milhão de população caiu, e foi de 65% em 1995. As
proporções dos que vivem em cidades de vários tamanhos entre 1 e 10 milhões aumentou, mas de
forma pequena. Por exemplo, o percentual que vivem nas cidades de 1-2 milhões aumentou para
11% do total da população urbana. O maior aumento aconteceu nos percentuais em aglomerações
muito grandes, com população de 10 milhões ou mais. Essa proporção quadruplicou desde 1950, e
dobrou desde 1980, para 8% da população total do mundo urbano. Isto significa que em termos de
população, que atualmente mais e mais pessoas estão vivendo em centros urbanos cada vez maiores.
Em 1950, cerca de 547 milhões dos 737 milhões que viviam em áreas urbanas, residiam em
municípios com população inferior a um milhão, enquanto 12 milhões de pessoas viviam nas
maiores aglomerações urbanas, lugares com população de 10 milhões ou mais. Em 1995, o número
de pessoas vivendo em cidades de menos de um milhão foi de cerca de 1,6 bilhões, um aumento de
cerca de três vezes maior do que 1950. No entanto, a população que vive em cidades entre 1 e 2
milhões, 2 e 5 milhões e 5 e 10 milhões aumentou cerca de quatro vezes. A população que vive em
cidades de 10 milhões ou mais aumentou para mais de 17 vezes o que era em 1950, para 211
milhões.
O crescimento urbano em geral, está ocorrendo mais rapidamente em países menos
desenvolvidos do que nos países mais desenvolvidos, mais na Ásia e na África do que em outras
regiões do mundo9. As grandes aglomerações urbanas, que até tempos recentes estavam
concentradas em nações mais industrializadas, como a Alemanha , os Estados Unidos e a Inglaterra,
começaram a caracterizar a distribuição urbana em países menos desenvolvidos. Ainda continua a
haver um número significativo de cidades com grandes populações em países desenvolvidos, mas as
grandes aglomerações LDC estão começando a superam estes. Além disso, olhando para a

9 Grifo de leitura.
distribuição da população urbana, pelo tamanho da cidade, observamos que cada vez mais essa
população tem habitado em mega cidades, que têm uma população de mais de 10 milhões. Estas
mega cidades estão se tornando comuns em países menos desenvolvidos. A julgar pelas taxas atuais
de crescimento das cidades, o futuro verá uma expansão ainda maior do número maior dessas
aglomerações na Ásia e na África.

DEFININDO A CIDADE

Até agora, em relação a discussão dos centros urbanos e como as fronteiras da cidade são
determinadas, o crescimento urbano tem ocorrido sem qualquer denotação específica sobre o que
queremos dizer com o termo 'urbano' ou 'urbanização', ou como uma cidade é definida. Vamos
agora avançar para este tópico.

Critérios para Definir uma Área Urbana

A cidade e o conceito de urbano estão interligados, e no intuito de definir uma cidade, é


preciso primeiro estabelecer o que se entende por urbano. Podemos considerar a cidade, de fato,
como uma delimitação administrativa, que coloca um limite em uma área contígua urbana 10.
Problemas em termos de análise surgem quando o urbano é definido de forma diferente através das
fronteiras administrativas e nacionais. Gerar uma definição específica é difícil. A dificuldade surge
do fato de que o conceito de urbano, a partir do qual são determinados os limites da cidade, é uma
abstração que envolve uma série de fatores inter-relacionados, alguns dos quais são: tamanho da
população, densidade populacional, espaço, organização econômica e social, função econômica,
a demanda e oferta de trabalho e administração11. No entanto, para fins práticos de coleta de dados
estatísticos e definições estatísticas nacionais, muitas vezes identificam-se lugares urbanos em
termos de critérios, tais como as fronteiras administrativas ou em termos de tamanho da população
que vive em uma determinada área. Assim, as definições oficiais são frequentemente simplificações
do conjunto mais amplo de conceitos, o que implica que quando, por exemplo, o tamanho da
população é grande o suficiente, as funções econômicas, organização social e outros fatores tendam
a se assemelhar ao que normalmente é pensado para representar outros elementos urbanos
(GOLDSTEIN e SLY, 1975). Além disso, os países diferem amplamente em suas definições
urbanas, fazendo com que as análises comparativas sejam difíceis. Embora a definição do urbano
possa ser fixa, os limites da cidade tendem a ser fluidos, mudando frequentemente com alterações
para um ambiente urbano local, como a adição de população para áreas periféricas que poderiam
ampliar os limites da cidade. Como tal, o crescimento urbano pode ocorrer devido a reclassificação,
em vez de crescimento da população num determinado espaço.

Três Elementos do Conceito de Urbano

Em sua essência, qualquer definição de urbano, necessita de uma diferenciação entre ele e a
parte não urbana do sistema de povoamento. É possível designar três elementos que melhor
distinguem os caracteres rurais e urbanos. Primeiro, há um elemento ecológico. As considerações
espaciais das populações urbanas normalmente giram em torno de fatores como tamanho e
densidade populacional. É aqui que existem grandes diferenças entre as nações. Nos Estados
Unidos, por exemplo, áreas com populações de 2.500 ou mais são consideradas urbanas. No caso da
Dinamarca, uma população de 250 ou maior é considerada urbana, enquanto na Índia é 5.000 ou
mais. Um exemplo de densidade definidora de área urbana são os Distritos Densamente Habitados
do Japão, o que considera os distritos contíguos com uma população de pelo menos 5.000 e uma
densidade populacional. Tais definições ignoram quaisquer limites administrativos ou funções
econômicas que ocorrem dentro da área densamente habitada.
10 Grifo de leitura.
11 Idem.
Em segundo lugar, há um elemento econômico, que considera a função da área urbana e as
atividades que ocorrem dentro da área. Em comparação a uma área rural, a maioria da atividade
econômica em um centro urbano estão organizadas em torno da produção não-agrícola. A definição
de urbano com base no funcionamento não-agrícola capta uma dimensão diferente do que aquelas
baseadas na densidade e tamanho populacional. Por exemplo, Davis (1969), examinando as
diferenças nas definições nacionais urbanas, observou que a simples razão de trabalhadores
agrícolas da população rural nos países menos desenvolvidos pode ser elevada, em parte porque um
número elevado dos quem vivem em áreas urbanas estão envolvidos na produção agrícola. Portanto,
é aconselhável considerar, além de atividades não-agrícolas, os indicadores de uma diversidade de
funções, bem como uma medida que mostre a sua concentração na área (urbana). A variedade de
funções econômicas que ocorrem em um centro urbano inclui vários tipos de produção, mas
também educativas, políticas, atividades administrativa e econômicas relacionadas, com as quais
tendem a empregar uma força de trabalho diversamente orientada.
Um conceito importante relacionado é o de 'economias de aglomeração', que são uma
concentração de funções econômicas que operam externamente a uma empresa particular, mas
tornam-se vantajosas para a localização de uma empresa. Por exemplo, outras empresas, bancos,
crédito, transporte e instalações de armazenamento tendem a existir em torno de centros urbanos.
Todos estes são essenciais para o crescimento de uma empresa particular. Economias aglomerativas
tendem a atrair a população, e aumentar a densidade de uma determinada área. As atividades
econômicas, por sua vez, concentram-se em áreas com economias de aglomeração.
Com o aumento da diversidade de funções e aglomeração de economias, tende-se o maior
movimento em torno da área urbana com as pessoas deslocando-se para o trabalho. Padrões
pendulares são frequentemente usados como critério para a definição de um espaço urbano. Cidades
em um número de regiões desenvolvidas têm se expandido em tamanho, devido a uma
desconcentração da população, devido ao fato de que os indivíduos escolhem para viver mais e mais
longe de um núcleo central em áreas suburbanas. Isso resulta tanto em um território urbano
expandido em termos de tamanho quanto em uma densidade maior nas áreas ao redor dos núcleos
urbanos. Estas tendências exigem frequentes estruturas transfronteiriças para a definição de um
perímetro urbano, muitas vezes resultando em uma reclassificação dos limites.
A necessidade de flexibilidade resultou no desenvolvimento do conceito de área
metropolitana. Em muitos países desenvolvidos, a área metropolitana tem se assumido como a
noção mais importante que determina onde termina um aglomerado urbano e outro começa. As
áreas metropolitanas são geralmente consideradas como as áreas contíguas que estão sob a
influência de um núcleo urbano principal. As áreas metropolitanas, em seguida, abrangem tanto as
áreas densamente povoadas e seu entorno menos denso, que estão claramente sob o domínio do
núcleo urbano em termos de funções econômicas. Complexificando a discussão, em algumas
grandes áreas metropolitanas, pode haver subáreas que são mais de natureza rural, ou seja, pequenas
áreas dentro uma área de metropolitana que são escassamente povoadas, têm poucas amenidades,
têm alguma produção agrícola, e assim por diante. Além disso, algumas áreas rurais têm
características urbanas, tais como bancos, hospitais ou atividades econômicas não-agrícolas.
Em última análise, pode ser a natureza das pessoas que define o urbano e, portanto, o
terceiro elemento de distinção entre rural e urbana é o caráter social da área. É comum considerar
as diferenças, por exemplo, na forma como a população rural e urbana vive, as suas características
comportamentais, seus valores, a forma como veem o mundo e a maneira como eles se relacionam.
O elemento social pode ser referido como o grau de 'urbanismo', que é um termo que se refere ao
modo de vida que está associada à áreas urbanas. Relacionada a isso são as diferenças ambientais
que moldam o caráter social do centro urbano. Estas podem ser características do local, como água
encanada, iluminação, ou instalações de entretenimento, que tendem a ser localizadas em algumas
áreas urbanas. Estas características são muitas vezes referidas, num sentido positivo. Elas também
podem ter características negativas, como congestionamentos, crime e poluição.
Existem duas dificuldades em distinguir áreas urbanas com base no caráter social. Em
primeiro lugar, especialmente nos países menos desenvolvidos, as tradições rurais, muitas vezes
permanecem fortes entre aqueles que migram para áreas urbanas, fazendo com que tais
demarcações sejam difíceis de estabelecer. Em segundo lugar, especialmente nos países mais
avançados, muitas zonas rurais começam a assumir as características de um núcleo urbano, apesar
de uma menor densidade populacional. Por exemplo, entretenimento, serviços, estilos de expressão
e valores tendem a ser relativamente semelhantes. Isto sugere que não há uma demarcação real
ou uma simples divisão entre uma área urbana de uma área rural 12. Os dois existem em um
continuum, com algumas áreas que estão sendo mais urbanas do que outras. Isso exigiria um índice
do grau de caráter urbano exibido por um determinado centro ou zona. No entanto, para os fins da
política, para tabulação estatística e pesquisa, muitas vezes é necessário dicotomizar áreas rurais e
urbanas, criando definições que diferenciam claramente um do outro.
A pergunta que fica é como esses elementos têm influenciado as definições de áreas urbanas
que são comumente usadas? Aqui podemos notar que os governos e os demógrafos tendem a definir
as cidades em termos de uma combinação dos elementos acima indicados, ou seja, tamanho e
densidade, função e grau de urbanismo. No entanto, é importante notar que a maioria destas
definições tendem a servir a vários propósitos, tais como aquelas que são importantes para a
administração versus pesquisa e políticas. Os tipos de definições necessárias podem, então, diferir
de acordo com a finalidade aplicada. Analistas políticos que trabalham com o ambiente, por

12 Grifo de leitura.
exemplo, podem estar interessados em definições que se aproveitam de elementos espaciais. Outros
podem achar mais vantajoso aceitar as definições dos limites administrativos. Demógrafos e tipos
de analistas econômicas podem ser melhor servidos com as definições que consideram a função da
área urbana e o grau de interação que ocorre dentro de uma determinada área. Para a maior parte, os
pesquisadores tendem a aceitar os limites administrativos, devido à dificuldade na obtenção de
dados suficientes para definir as áreas urbanas. Por conseguinte, é necessário considerar se as
definições de áreas urbanas são fixas ou fluidas. Se forem fixas, as mudanças na população urbana
deve ocorrer só por processos demográficos: nascimentos, mortes e migração. Se eles são fluidos, a
reclassificação se torna um elemento importante na mudança da população urbana. As definições
fluídas tornar as comparações ao longo do tempo difíceis, mas tendem a caracterizar melhor as
alterações que identificam padrões de assentamento urbano. Onde as fronteiras são mais fixas, o
crescimento urbano não pode ser totalmente refletido nas estatísticas. Onde eles são fluidos, a
população pode ser mostrada para aumentar, apesar das quedas para o núcleo. Aqui, é necessário
reconhecer que os limites de uma área urbana são sub-delimitados e super-delimitados. No primeiro
caso, existem outras áreas contíguas construída em torno de um núcleo administrativo definido que
poderiam ser considerados parte do centro urbano, dadas as definições alternativas. Neste último
caso, o centro urbano inclui áreas de baixa densidade que mais se assemelham a zonas de caráter
rural.
Ajustes para o perímetro urbano são feitos com mais frequência quando as definições fluidas
são utilizadas. Problemas de adaptação ocorrem quando os parâmetros de definição mudam. Na
verdade, a flexibilidade na definição da cidade irá determinar, em certa medida, o grau de super ou
sub-delimitação de um centro e a velocidade da mudança. Cidades sub-delimitadas tendem a surgir
em lugares que utilizam definições mais rígidas, enquanto as alterações a esses limites tendem a
ocorrer de forma mais rápida. Em suma, apresentamos três elementos que melhor distinguir áreas
urbanas: o ecológico, o econômico e o social. No entanto, estes três elementos, por si só são difíceis
de medir e definir. Por isso, muitas vezes somos deixados com as definições que se relacionam a
fins particulares ou pré-definidos pela administração.

(…)13

Para uma Nova Definição da Cidade

O exemplo dos EUA revela várias limitações com o conceito atual da área metropolitana.
Primeiro, a definição da área metropolitana parece ser muito apegada ao conceito central de core-

13 Trecho entre as página 27 (segunda coluna) e 29 não traduzido – The USA as an Example
hinterland da área de assentamento. A necessidade de altas densidades centrais já não existe, e não
há nenhuma razão para que uma solução moderna pós-industrial não poderia ser desenvolvido em
torno de um conjunto de áreas dispersas no mercado de trabalho que poderiam ser completamente
'suburbanos', fornecendo empregos e proporcionando recreação para seus habitantes. Em segundo
lugar, as definições SMA (Standard Metropolitan Area) estão vinculadas a blocos de construção
municipais, o que pode ser muito grande para definir adequadamente o espaço funcional ou
atividade. Em terceiro lugar, como o sistema metropolitano se apresenta de forma estatística, grande
parte do país pode ficar de fora. O vasto território atualmente classificado como 'não-metropolitano'
tornou-se mais integrado tanto com a economia metropolitana, e internamente, com base em áreas
de mercado de trabalho local. Além disso, na medida em que agências do governo e analistas do
setor privado encontrar áreas metropolitanas úteis em seu planejamento, elas podem ignorar a
população que vive em território não metropolitano, simplesmente porque um esquema de
classificação gerenciável não está disponível. Está além do escopo deste capítulo desenvolver uma
nova definição da cidade. No entanto, como um 'alimento para o pensamento', nós somos capazes
de passar adiante algumas sugestões que podem ser úteis no desenvolvimento de um tal
conceituação. Após Frey e Speare (1995), sugerimos que as novas definições da cidade devem ser
baseada em uma noção de Área de Comunidade Funcional (Functional Community Area – FCA)
que representa, na medida do possível, um mercado de trabalho local independente dentro de uma
área caracterizada por alta frequência de interação diária. Em outras palavras, a cidade pode ser
melhor definida em termos de uma comunidade metropolitana funcional. Esta noção está de acordo
com a concepção de Hawley (1971) de uma área ampliada de vida local:

O conceito de região metropolitana se empresta a várias definições...Você pode


aplicar a uma área ampliada de vida local, isto é, com um raio de 25-30 km, ou
pode referir a uma área mais ampla em que as atividades dispersas têm estado sob a
supervisão administrativa de uma metrópole. O primeiro é indicado quando o
termo metropolitano ou comunidade metropolitana é usado; a região metropolitana
é normalmente reservada para o último.

O princípio da comunidade metropolitana, bem como a região metropolitana, é


definido pela frequência com que os residentes de zonas periféricas e instituições
efetuam os seus negócios na metrópole, seja através da visitação direta ou através
de meios indiretos de comunicação. Estas frequências... declinam de forma
gradiente com a distância do centro. Assim, figurativamente falando, pode-se rodar
um gradiente em seu centro e varrer para fora de uma zona, em que os moradores
costumam praticar uma determinada frequência de comunicação com o centro.
(HAWLEY, 1971, p. l49 – l50).

Como tal, a FCA (Functional Community Area) não está vinculada a qualquer configuração
física, tais como tamanho da população e critérios de densidade, ou localização em áreas
urbanizadas. Eles podem ser especificados apenas em função das medidas de interação, porque o
mesmo tipo de procedimentos de interação é usados para designar FCAs na área rural, bem como
nas partes urbanas do país, onde eles não são formalmente distinguidos com base no status
'metropolitano' e 'não-metropolitano'. Como tal, eles abrangem uma porção maior do território
nacional do que o sistema atual.
As medidas de integração que podem ser usadas para designar FCAs são aquelas
tradicionalmente usadas para definir os mercados de trabalhos locais. Um mercado de trabalho é
uma área dentro da qual um trabalhador pode ir ao trabalho. Nós assumimos que é possível
identificar os mercados de trabalho espacialmente distintos com base em dados de movimentos
pendulares. O conceito de FCA não pretende identificar áreas homogêneas sobre as características
físicas. Também não pretende identificar áreas homogêneas sobre atributos de população ou de
habitação. Os principais critérios de identificação dessas áreas são os altos níveis de interação.
Um procedimento baseado em movimentos pendulares para identificar FCAs foi realizado
por Killian e Tolbert (1991). Seu procedimento começa a partir da matriz de município em
município, do lugar de trabalho ao lugar de residência. Ao contrário do procedimento para a
definição SMA (Standard Metropolitan Area) atuais, o seu procedimento utiliza fluxos em ambas as
direções entre pares de municípios. Não há nenhuma tentativa de definir um município como
'central'. Eles usaram um processo de duas etapas em que um algoritmo de computador foi usado
pela primeira vez aos grupos de municípios em clusters pendulares e estes grupos foram, então,
agregados em áreas de mercado de trabalho. Reconhecendo a necessidade de um tamanho mínimo
para as áreas do mercado de trabalho, quer para fornecer estimativas confiáveis para algumas
medidas com base em amostras, ou para proteger a confidencialidade de amostras de uso público de
dados individuais, eles agregaram clusters pendulares adjacentes para fornecer às áreas do mercado
de trabalho com pelo menos 100.000 habitantes. Esta agregação foi baseada principalmente em
fluxos pendulares entre clusters e, secundariamente, sobre a pura proximidade, quando os fluxos
eram muito fracos para ligar clusters com menos de 100.000 habitantes. Dessa forma, eles
dividiram os EUA em 382 áreas de mercado de trabalho.
Como deve ser então um pequeno mercado local de trabalho? Se uma área tinha uma forma
quadrada, residências e locais de trabalho, e distribuídos aleatoriamente através da área, a distância
média viajada seria de cerca de 0,6 vezes o comprimento de um lado do quadrado. Suponhamos
uma distância média de 6 km pendulares, uma área de 10 km por 10 km, ou 100 quilômetros
quadrados, seria grande o suficiente para conter uma área de mercado de trabalho. No entanto,
também deve haver um tamanho mínimo para quadras de construção, com base no tamanho da
população.
O quadro acima descrito designando FCA tem uma base puramente funcional. O objetivo
final é a obtenção de áreas no mercado de trabalho que refletem áreas pendulares atuais. Os dados
necessários para tais formulações são os dados pendulares e populacionais, que podem ser
fornecidos por um censo nacional. Isso de deve ao fato de que esses dados precisam ser confiáveis,
não defendendo a atualização do sistema, entre as contagens de censos menos confiáveis de dados
pendulares, podendo ser obtidos em outros lugares. No final, vemos a designação FCA como mais
aplicável para os padrões atuais de crescimento urbano.
Esta proposta para os EUA é baseada em uma generalização do conceito funcional que já é
utilizado com a atual definição da área metropolitana nos Estados Unidos e os empregados em
muitos outros países desenvolvidos (por exemplo, ver COOMBES et al., 1982). No entanto, o
Departamento Oficial do Governo Federal Norte Americano de Administração e Orçamento,
juntamente com o Census Bureau, tem analisado diversas formulações diferentes para um conceito
de novas áreas metropolitanas, que pretendem estabelecer na próxima década (ver DAHMANN e
FITZSIMMONS, 1995). A proposta acima representa uma dessas propostas, mas outras sugestões
estão incorporando tanto fundamentos ecológicos (isto é, morfológicos) e funcionais (ADAMS,
1995; BERRY, 1995; MORRILL, 1995). Propostas adicionais para novos sistemas vão continuar a
ser solicitadas. Algumas tentativas semelhantes para harmonizar e redefinir as áreas urbanas dos
países da União Europeia estão em curso, quando estas especificações estão sendo atraídas para os
conceitos morfológicos e funcionais da área urbana (BYFUGLIEN, 1995; PUMAIN et al, 1992).
Claramente, a maior divulgação e conectividade inter-urbana de assentamento em regiões mais
desenvolvidas do mundo, promovida pela ascensão da economia de serviços e da revolução das
comunicações, exigem uma reavaliação do que representa uma cidade nessas regiões. O novo
conceito deve ser mais flexível, enfatizando as interações e relações funcionais ao invés de formas
especificamente ecológicas ou morfológicas.

CONCLUSÃO

Com o objetivo de conceituar a situação atual do mundo urbano, com a noção corrente do
desenvolvimento urbano, concentramos a discussão do capítulo em duas questões. Em primeiro
lugar, analisamos as tendências do crescimento urbano na sua relação com o passado, presente e
futuro. Ao fazer isso, destacamos o papel das regiões menos desenvolvidas - Ásia e África, em
particular - como sendo as mais influentes nas transformações do mundo urbano atual. Em segundo
lugar, discutimos a noção da cidade, definindo o que se entende pela expressão urbana, analisando
um exemplo específico da definição de uma cidade, e sugerindo um novo conceito, a da Área
Comunitária Funcional. Existe uma ligação a ser feita entre estas duas discussões. A noção de
região metropolitana permite uma definição mais comparável em cidades nos Países Menos
Desenvolvidos. No entanto, o crescimento urbano está ocorrendo com mais rapidez em países
menos desenvolvidos. Nessas regiões, a cidade tem sido mais frequentemente definida estritamente
em termos de características espaciais, tais como tamanho da população. Com o crescimento da área
urbana nestas regiões, é evidente que algumas das noções da área metropolitana precisem ser
empregadas na definição de cidades dos países menos desenvolvidos.
Existem variações na definição do resultado das cidades em diferentes níveis de sub-
delimitação e super-delimitação. Por exemplo, em países mais avançados, o termo área
metropolitana inclui zonas com características urbanas, como funções econômicas, mais os padrões
pendulares que fluem para o núcleo. Todavia, a ocupação em torno do núcleo pode ser escassa, o
que sugere que as áreas metropolitanas podem ser frequentemente super-delimitadas. Embora
menos áreas de cidades avançadas sejam mais frequentemente definidas em termos de tamanho da
população, o perímetro urbano é muitas vezes cercado por favelas. Os limites urbanos que ignoram
tais assentamentos podem ser sub-delimitados. Os limites da cidade que incluem tais assentamentos
ignoram o fato de que essas pessoas geralmente tendem a ser socialmente bastante rurais. Aqueles
que vivem nessas áreas do arco periférico, porém, muitas vezes estar empregados na área central,
embora muitas vezes em ocupações terciárias e ocupações marginais.
Estas questões sugerem que as definições da cidade podem necessitar se afastar dos níveis
de desenvolvimento e função da cidade. Apesar das dificuldades envolvidas na coleta de dados, é
óbvio que uma definição mais universal do que é a cidade iria subsidiar futuros estudos,
comparações, desenvolvimento ou a política na área dos estudos urbanos. Sugerimos a noção da
FCA, que poderia ser analisada em termos de sua validade em uma variedade de países, em vários
estágios de desenvolvimento. É só depois de uma interação enfática e o desenvolvimento dos laços
funcionais de determinação universal da cidade, que podemos continuar a estudar a cidade de uma
forma comparativa entre as sociedades.