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FOLKCOMUNICAÇÃO E FOLKMÍDIA: POSSIBILIDADES SOCIOLETAIS E

DISCURSIVAS 1

Eduardo Amaral Gurgel 2

RESUMO
Este artigo pretende uma análise que articule as teorias da Análise do Discurso e da
Folkcomunicação em torno das narrativas populares e, também, das mediações
discursivas dos meios de comunicação com fulcro na Folkmídia. Neste caso será utilizada
uma revisão bibliográfica que permita examinar a teoria da Folkcomunicação e a teoria
da análise do discurso, observando a relação entre a cultura popular e a cultura massiva e
os diferentes discursos gerados por ambas. O objetivo aqui é verificar se a
Folkcomunicação e Folkmídia, em sua construção discursiva, geram, consecutivamente,
os discursos acrático e encrático.

PALAVRAS-CHAVE: Comunicação, Cultura, Folkcomunicação, Folkmídia, Análise do


Discurso.

1
Artigo produzido para a disciplina Comunicação e Discurso sob a orientação da Profa. Dra. Elizabeth
Gonçalves para o fechamento do primeiro semestre letivo do ano de 2013 no PosCom da UMESP.
2
Doutorando e Mestre em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo (2012) sob a
orientação do Professor Doutor José Marques de Melo. Especialização em Comunicação Empresarial pela
Unitoledo Araçatuba (2011) e graduação em Comunicação Social - Jornalismo - Faculdades
Adamantinenses Integradas (2007). Pesquisador Assistente da Cátedra da UNESCO/UMESP de
Comunicação para o Desenvolvimento Regional. Tem mais de 17 anos de experiência na área de
Comunicação, com ênfase em Jornalismo - jornal impresso e revistas. Email: xagurgel@yahoo.com.br
INTRODUÇÃO

Continuadores da obra de Luiz Beltrão realizam intensa pesquisa na área de


estudos sobre a Teoria da Folkcomunicação. Há que ressaltar também o esforço de outros
pesquisadores e teóricos de áreas afins que, dentro de pesquisas interdisciplinares, se
interessam pela Folkcomunicação. Assim diversas temáticas relacionadas ao campo da
Folkcomunicação, tanto na produção quanto na emissão e na recepção são
frequentemente abordadas.
Porém, as mudanças culturais observadas desde o advento da Indústria Cultural
alterou sistematicamente os processos de comunicação das camadas populares tornando-
os cada vez mais complexos. Esses processos determinaram também uma “adequação”
dos meios de comunicação de massa que tiveram de ampliar seu relacionamento com a
cultura popular no intuito de engendrar um meio de atingir a população massiva que
necessitava dos produtos culturais populares.
Assim, a Folkmídia também é assunto recorrente de pesquisadores que se
debruçam sobre os problemas da apropriação de elementos da cultura folk pela cultura de
massas. Há divergências quanto aos benefícios e malefícios dessa apropriação e opiniões
divergentes e convergentes entre pesquisadores da comunicação, folcloristas e de áreas
afins ou correlatas. Por conta dessas divergências, uma das saídas é a adoção de pesquisas
interdisciplinares com a adoção de técnicas das ciências humanas e das ciências da
linguagem que, juntas, possam dar conta de dirimir dúvida e apontar caminhos para uma
comunicação eficaz no plano “sociolinguístico”, por assim dizer.
A Análise do Discurso pode ajudar a elucidar algumas lacunas na produção,
emissão e recepção dos discursos folkcomunicacionais e folkmidiáticos, seus sujeitos
sociais, históricos e ideológicos e suas condições de produção. Posto que, os discursos
produzidos em manifestações populares como o Carnaval, o Frevo, o Bumba Meu Boi,
as festas religiosas como a Festa do Divino Espírito Santo, a Folia de Reis etec., são
completamente diferentes dos discursos gerados pela Folkmídia quando se apropria
dessas mesmas manifestações que passam por um processo de homogeneização e
massificação e retornam para nos mass media.
Partindo dessa premissa, segue-se então o resgate bibliográfico que pretende
apresentar alguns conceitos e apontar pressupostos na esperança de contribuir com a
comunicação em torno da temática da Folkcomunicação e da Folkmídia com o suporte da
Análise do Discurso.

A FOLKCOMUNICAÇÃO

Com o aporte teórico e metodológico do Instituto de Ciências da Informação –


ICINFOM- por meio do primeiro número da Revista Comunicações e Problemas, Luiz
Beltrão publica, em março de 1965, um artigo sobre o ex-voto como veículo jornalístico.
Tal publicação é a primeira manifestação em revista científica do que mais tarde se
configuraria como folkcomunicação. Já nesta ocasião, acompanhava o pesquisador a
predição de uma comunicação horizontal que coexistia com a comunicação tradicional,
denominada vertical por privilegiar o ato comunicacional de baixo para cima.

No sistema de folkcomunicação, embora a existência e utilização, em certos


casos, de modalidades e canais indiretos e industrializados (como emissões
desportivas pela TV, canções gravadas em disco ou mensagens impressas em
folhetos ou volantes), as manifestações são sobretudo resultado de uma atividade
artesanal do agente-comunicador, enquanto seu processo de difusão se
desenvolve horizontalmente, tendo-se em conta que os usuários característicos
recebem as mensagens através de um intermediário próprio em um dos múltiplos
estágios de sua difusão. A recepção sem este intermediário só ocorre quando o
destinatário domina seu código e sua técnica, tendo capacidade e possibilidade
de usá-lo, por sua vez, em resposta ou na emissão de mensagens originais
(BELTRÃO, 1980, p. 27).

Em 1967, o pesquisador então defende sua tese de doutorado na Universidade de


Brasília sob o título: Folkcomunicação, um estudo dos agentes e dos meios populares de
informação de fatos e expressão de ideias, publicada em 1971 pela Editora
Melhoramentos. Outra obra paradigmática que compõe o pensamento comunicacional de
Luiz Beltrão é Folkcomunicação: a comunicação dos marginalizados, também
transformada em livro pela editora Cortez no ano de 1980.
O primeiro estudo com base bibliográfica e estudo de campo visa delinear as
diretrizes da folkcomunicação. Na obra seguinte, além de esclarecer os principais pontos
da teoria da folkcomunicação, Beltrão expõe nela as expressões populares manifestadas
pela cultura e o inconformismo dos grupos chamados marginalizados que se revoltam por
meio de canais próprios de comunicação.
Não obstante, o autor relata que desde 1959 vinha se debruçando sobre os
problemas que o levariam à pesquisa e consequente conformação de sua tese de
folkcomunicação.

FOLKMÍDIA

O termo folkmídia (ou folk media) foi cunhado e utilizado primeiramente em


Londres, no ano de 1972, durante um encontro realizado pela Federação Internacional de
Planejamento Familiar, “com a finalidade de discutir o uso integrado de folk media e
mass media em campanhas de planejamento familiar e de folk media nos programas de
educação de formação de extensionistas” (D’ALMEIDA, 2003, p.7). O termo voltaria à
baila em outras oportunidades, porém, utilizado como ferramenta desenvolvimentista no
contexto da UNESCO, a Folkmídia se limitava a retratar somente os canais por onde os
folkcomunicadores transmitiam suas manifestações culturais.
Uma nova perspectiva para o termo Folkmídia foi adotada a partir dos estudos do
Professor Doutor Joseph Maria Luyten e relatada por meio de uma comunicação durante
o V FOLKCOM, Conferência Brasileira de Folkcomunicação, realizada em Santos/SP,
no ano de 2002. Descordando do uso que considerou inadequado do termo folkmídia, o
pesquisador declara:

Como o termo “Folkmídia” nesta acepção é apresentado mais como um sinônimo


de Folkcomunicação”, achamos nós que é melhor usá-lo para uma situação que
se torna cada vez mais freqüente em todo o mundo e que consiste na interação
entre os meios de comunicação de massa e a folkcomunicação, ou seja, o uso
tanto de elementos oriundos do folclore pela mídia como a utilização de
elementos da comunicação massiva pelos comunicadores populares (LUYTEN,
2002, p.2).

Desde então, os pesquisadores que estudam os processos folkmidiáticos resgatam


o princípio dos estudos de Folkcomunicação, precursora da Folkmídia, desenvolvidos por
Luiz Beltrão e trabalham a folkmídia, de acordo com os conceitos de Joseph Maria
Luyten, como o campo da Comunicação que se propõe a investigar a presença de
elementos da cultura popular pela mídia de massa e analisar a maneira como são
utilizados. Ou seja, o pesquisador da folkmídia procura identificar como os sujeitos da
comunicação de massa (re)interpretam e utilizam elementos da comunicação popular.
Para conformar ainda mais seus preceitos, Joseph Luyten destaca uma
nomenclatura para os fenômenos comunicacionais como forma de dirimir dúvidas e
apontar caminhos para os estudos da folkmídia:

A necessidade de se usar de nomenclatura adequada para esses diversos


fenômenos comunicacionais, vale-nos concluir que a utilização de elementos da
folkcomunicação pela mídia vem se tornando objeto de estudo, especialmente nos
meios acadêmicos. Uma vez que a palavra mídia (ou “media) significa meios,
isto é, meios, sistemas de comunicação de massa e folk (com K, como queria
Luiz Beltrão) é abreviação passível de folkcomunicação, julgamos conveniente
destacar o termo folkmídia como significativo de utilização de elementos
folkcomunicacionais pelos sistemas de comunicação de massa. Acreditamos,
desta forma, estarmos colaborando para um entendimento melhor de um
fenômeno que se torna mais e mais evidente em uma época como a nossa em que
o inter-relacionamento das várias formas de comunicação vão se revestindo de
interesse cada vez maior da parte dos estudiosos do fenômeno geral a que
chamamos comunicação social (LUYTEN, 2002, p.2).

Com as explicações de Joseph Luyten fica clara a diferença entre


Folkcomunicação e Folkmídia, sendo mesmo a primeira precursora da segunda.

POSTULADOS BELTRANIANOS PARA O DISCURSO DA


FOLKCOMUNICAÇÃO

Foi Roberto Benjamin, citando o texto O folclore como discurso que anotou a
passagem em que Luiz Beltrão postula conceitos da semiologia e da semiótica nos estudos
da folckcomunicação.

Em conferência proferida em 1977, no II Encontro Cultural de Laranjeiras –


Sergipe, Beltrão discute o Folclore como manifestação de comunicação a partir
de pressupostos da Semiologia. Esta abordagem, porém, somente veio a ser
impressa quando da publicação de Encontro cultural de Laranjeiras XX anos
(Aracaju, Secretaria de Cultura, 1994), já em situação póstuma (BENJAMIN,
1998, p.135).

Para tal, Beltrão se ancorou no mestre argentino Augusto Raul Cortazar para quem
os fenômenos folclóricos são sempre funcionais, identificando-se com a vida material,
social e espiritual, por isso mesmo, engrenado no contexto da cultura do grupo. Cortazar
considera o folclore “não em abstrato ou em uma só das suas espécies, mas na realidade
concreta de suas expressões [...] como um conjunto complexo de manifestações que
refletem quase todos os aspectos da vida tradicional do povo”. (BELTRÃO, 2004, p.68)
Relata Beltrão que, diante de tal constatação, Cortazar propõe um método para
documentar a totalidade dos fenômenos abrangendo todas as expressões da vida do grupo
popular estudado e que respondam às características folclóricas de regionalismo,
funcionalidade e tradição. Assente a similaridades entre o método de Cortazar a
Folkcomunicação.

O método que denomina integral, exige em primeiro bio de mensagem


denominamos Folkcomunicação, congrega significativas camadas da sociedade
seja rural, seja urbana, alienadas do processo desenvolvimentista e que utilizam
os meios folk para a expressão de suas informações, idéias e anseios, como os
folhetos de cordel, as cantorias, os contos, as danças, os autos populares, a talha,
a cerâmica (BELTRÃO, 2004, p.68).

Ao identificar obstáculos para a realização dos estudos de folkcomunicação à luz


de conceitos da semiótica, Beltrão resolve expor sua opinião. Conceitua o entrave como
“um problema que nos surge como uma barreira à realização de pesquisas nos moldes
propostos por Cortazar: o problema da linguagem, ou melhor dizendo, das linguagens do
folclore” (BELTRÃO, 2004, p.68)
Beltrão (2004, p.69) diverge da postura da pesquisadora Susane Langer que
admite “[...] como linguagem unicamente a comunicação linguística considerando
“terminologia frouxa” a sua pluralização, ou seja, extensão às modalidades não verbais
de expressão”. Acorre ao esforço de Jacobo Kogan na criação de uma semântica da arte
e relata.

Partindo destes símbolos como base de todas as atividades próprias do homem,


ela os distingue como discursivos – os da linguagem idiomática – e como
representantivos – “formas significativas visuais e auditivas, como desenhos e
combinações de sons, que, em suas expressões elementares são os instrumentos
mais primitivos da inteligência” (BELTRÃO, 2004, p.69).

Mas, como já havia conceituado em seus Fundamentos Científicos da


Comunicação em 1973, Beltrão explica que tais símbolos, em suas formas artísticas,
adquirem estruturas complexas, constituindo símbolos de profunda significação e
apresentando uma articulação lógica peculiar.
Porém, Beltrão anota que a combinação de elementos vivenciais não artísticos
com elementos estéticos nas manifestações folclóricas, por vezes de formas complexas,
dificultam a apreensão de seu significado profundo por pesquisadores e analistas.

Diante dessa realidade do folclore e da própria cultura é que temos de buscar


aproximação entre a distinção clássica das categorias comunicacionais em lógica
ou discursiva, quando se baseia na palavra ou em repertório dos signos, de
extração conceitual e, portanto, de compreensão racional, e alógica ou
apresentativa, quando se promove por meio de um repertório de sons, gestos,
cores, imagens, movimentos do corpo e outros signos extraconceituais. A
linguagem (linguagens) do folclore se nos apresenta como enigmática, a desafiar,
num estudo de conjunto, a nossa capacidade de descobrir o segmento semântico
codificável, no emaranhado de sons, ritos, movimentos e imagens que encobrem,
constituindo o segmento estético, não decodificável racionalmente (BELTRÃO,
2004, p.69).

A partir dessas considerações, Luiz Beltrão conforma seus postulados


semiológicos nos estudos de folkcomunicação.

Cremos que só por intermédio da semiologia conseguirão os comunicólogos e


pesquisadores alcançar a meta almejada e entender a mensagem contida, por
exemplo, nos bonecos de barro de Caruaru ou nas peças do vestuário dos
personagens da Taieira de Laranjeiras ou, ainda, na coreografia violenta e
espontânea das escolas de samba ou dos clubes de frevo (BELTRÃO, 2004, p.69-
70).

Vai o pesquisador ainda buscar nas definições e conceitos dos fundadores da teoria
o embasamento necessário que fundamente sua defesa. Parte de Ferdinand de Saussure
considerado o pai da nova ciência, que a propunha como o estudo da vida dos signos no
meio da vida social. Já em Peirce encontra a designação de semiótica para expressar a
doutrina formal dos signos.

O cientista norte-americano Charles Sanders Peirce da corpo à “ciência dos


signos”, a SEMIÓTICA, cuja função é classificar e descrever todos os tipos de
signos, inclusive os linguísticos. No caso da semiótica, o que importa é menos o
significado do signo e sim a interpretação que dele é feita, porque o signo precisa,
antes de tudo, ser percebido por alguém que vai interpretá-lo (SANTOS, 1992,
p.34).
Também analisa a definição de Pierce Guiraud que lhe trará subsídio e aporte para
os estudos folkcomunicacionais.

Guiraud a define como ‘a ciência que estuda os sistemas de signos: língua,


códigos, sinalizações, etc’. De acordo com esta definição, a língua seria uma parte
da semiologia. ‘Na realidade – escreve – reconhece-se um status privilegiado e
autônomo à linguagem, que permite definir a semiologia como o ‘estudo dos
sistemas de signos não linguísticos’ (BELTRÃO, 2004, p.70).

Coadunando mais com o pensamento de Roland Barthes, Beltrão vê em sua


definição da semiologia brechas conceituais que lhe permitem novos caminhos

Já Barthes, mais ousadamente encontra uma perspectiva semiológica em qualquer


manifestação da vida social, todas elas impregnadas de linguagem e, portanto, de
significação. Para o teórico francês, “como a semiologia ainda não foi edificada
[...] em razão de seu caráter extensivo [...] será a ciência de todos os sistemas de
signos”, sistemas esses que se encontram até agora “na fase de reconstituição
empírica” (BELTRÃO, 2004, p.70).

E é justamente no pensamento de Pierce, Guiraud e Roland Barthes que Beltrão


sustenta-se para defender uma nova concepção de linguagem.

Tanto essa abertura barthesiana como a síntese de Guiraud, notadamente no que


se refere aos códigos lógicos, estéticos e sociais, todos induzindo a transmissão e
conhecimento da experiência humana e social objetiva-intelectiva e subjetiva
afetiva é que nos animam a deixar de lado o status privilegiado da linguagem
idiomática para considerar: Linguagem – qualquer sistema de signos empregados
pelos seres vivos do reino animal para a expressão e/ou intercâmbio de
informações. Distinguem-se as linguagens puramente animais, pelos signos –
formas típicas cuja função é indicar alguma coisa (objeto, qualidade ou fato-
situação) – que são naturais e unissêmicos, enquanto nas humanas, além da
criação de signos artificiais, os agentes da comunicação dão-lhes significação
diversa (arbitrária/simbólica) reunindo-os sintaticamente, ou seja, de modo a
estabelecer as relações entre o pensamento e sua expressão (BELTRÃO, 2004,
p.70-71)

Justificando sua posição Beltrão (2004) diz que “na comunicação cultural, as
linguagens humanas se traduzem no discurso, ou seja, qualquer configuração de signos
utilizados na emissão de mensagens simbólicas”.
Embora já seja comum em estudos semióticos, onde se fala em discurso fílmico,
discurso imagético, etc, ocorre, neste passo, com o termo discurso a mesma
extensão que conferimos à expressão linguagem: não se limita às semias orais,
mas se classifica de acordo com os mecanismos emissores/receptores do homem
em: idiomático/sonoro, visual, plástico-tátil, olfato-gustativo e audiovisual”
(BELTRÃO, 2004, p.71)

Concluindo seu pensamento, Beltrão (2004, p.72) recorre à pesquisadora Monica


Rector, para quem a semiologia é “uma teoria de códigos e signos [...] de superestruturas”,
todavia “não é uma ciência, mas uma atitude científica de encarar os objetos de outras
ciências [...] Não é uma disciplina unificada, nem uma ciência formalmente constituída,
mas um campo de trabalho”.
Sobre este campo Luiz Beltrão se permite emprestar conceitos e classificações de
caráter apenas instrumental, com o objetivo de penetrar o significado profundo das
manifestações folclóricas de uma região, que, destarte, segundo o pesquisador,
constituem partes integrantes de um único discurso.

O discurso folclórico, em toda a sua complexidade, não abrange apenas a palavra,


mas também meios comportamentais e expressões não-verbais e até mitos e ritos
que, vindos de um passado longínquo, assumem significados novos e atuais,
graças à dinâmica da Folkcomunicação (BELTRÃO, 2004, p.72).

Os postulados de Luiz Beltrão reverberaram na academia e encontraram eco em


Núcleos de Pesquisa e pesquisadores autônomos que estudam a Folkcomunicação pelo
viés da semiótica. Destaca-se a atuação do Núcleo de Pesquisa em Jornalismo, Semiótica
Aplicada e Folkcomunicação da Faculdade metropolitana/IESB de Londrina no Paraná,
sob a coordenação da pesquisadora Jussara Rezende Araújo que desenvolve pesquisas no
campo do Jornalismo e da Folkcomunicação, com métodos e técnicas da Semiótica
aplicada com aportes de Charles Sanders Peirce (o processo da semiose); Jakobson
(funções estéticas dos elementos que compõem o processo da comunicação); e o conceito
de extralinguístico de Mircea Eliade e Joseph Campbell.

Nossos objetos de estudo são por um lado, a produção e recepção (fluxos


regionais/nacionais/globais) no Jornalismo e, por outro lado, temas produzidos
pelas culturas arcaica e popular, como a Festa do Divino Espírito Santo; a Folia
de Reis; o Bumba Meu Boi e tantas outras festas e rituais sagrados onde estão
presentes signos símbolos autênticos e originais da cultura. Vamos investigar
como a Mídia se apropria desses temas e quais perlaborações estão sendo
significativas e reprocessados para o universo da produção midiática. Mas vamos
investigar ainda quais são os arquétipos que estão por trás das imagens
arquetípicas dos rituais arcaicos. Buscamos levantar a natureza semiótica das
manifestações midiáticas e das manifestações folclóricas querendo com isso - ao
mesmo tempo em que buscamos compreender e explicar a produção midiática de
massa - resgatar aquilo que é resistência cultural, aquilo que ainda não foi
triturado no liquidificador midiático e daquilo que foi triturado buscar os
arquétipos que produzem e quais motivações afetivas das massas geraram o
produto final (ARAÚJO, s/d, p.5).

Outro importante centro de pesquisa na área é o Núcleo de Pesquisa em


Folkcomunicação da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). Os estudos
da pesquisara Betania Maciel refletem convergência com o pensamento beltraniano.

Os estudos de folkcomunicação abrangem os postulados psicológicos e


semióticos quando estudamos um ritual de uma cultura específico. Em qualquer
cultura existem práticas de comunicação que procuram dar significação aos seus
usuários e também explicam mudanças sofridas no tempo e no espaço. Através
de várias matrizes teóricas se consegue entender melhor os mitos e rituais, como
também detectar as suas implicações dentro do sistema de crenças compartilhado
pelo povo objeto de estudo. O conhecimento do sistema de crenças levou-nos a
descobrir e entender as bases (razões) culturais da aceitação ou rejeição de novas
informações e ensinamentos (MACIEL, 2002, p.4).

Ante ao exposto do pensamento de Luiz Beltrão, a despeito das concepções


contrárias, os estudos de Folkcomunicação com base na semiologia e na semiótica
avançam. À luz da Análise do Discurso diferentes linguagens da Folkcomunicação foram
analisadas e decifradas sem prejuízo para a ciência.

ENTRE CULTURAS E DISCURSOS, A COMUNICAÇÃO

Na era da globalização, as diversas formas de comunicação com seus diversos


discursos devem ser estudadas e pesquisadas como meio de melhorar os sistemas de
convívio na sociedade. Neste caso, há uma convergência entre os estudos de cultura e de
comunicação que corroboram a harmonia societária.
Mas quais são as inter-relações entre a cultura e a comunicação? Neste aspecto, o
pesquisador Osvaldo Meira Trigueiro (s/d, p.1) faz uma pertinente indagação “[...] o que
a mídia faz com a sociedade e o que a sociedade faz com os bens culturais veiculados
pela mídia?”.
A resposta para a pergunta acima não é tão simples como se pensa. Mas com
certeza, o caminho para se chegar a ela passa pela Teoria da Folkcomunicação e os
conceitos de Folkmídia. Partimos dos conceitos da Teoria da Folkcomunicação que
entende os processos de comunicação presentes nas manifestações de cultura popular e
de Folkmidia que aponta o uso da cultura popular pela comunicação de massa.
Uma das formas mais eficazes de se estudar os processos comunicacionais das
manifestações da cultura popular que envolvem a Folkcomunicação e a Folkmídia é por
meio da Análise do Discurso que, doravante, denomina-se simplesmente AD.
Mas não há como estudar e pesquisar a Folkcomunicação e a Folkmídia sem uma
abordagem conceitual sobre cultura, cultura popular e massiva e folclore. Também aqui,
não há como dissociar a cultura e a comunicação de um enfoque da AD que se preocupa
com as condições de produção do discurso verbal e não-verbal.
Assim, Barthes (1984, p.20) relata que a cultura “aparece-nos cada vez mais como
um sistema geral de símbolos, regido pelas mesmas operações: há uma unidade do campo
simbólico, e a cultura, sob todos os seus aspectos é uma língua”. Também para o autor
(1984, p.88), a cultura “é um campo de dispersão das linguagens, está em toda a parte e
para toda a gente; é uma unidade das linguagens, a coincidência da palavra e da escuta”.

[...] a minha convicção profunda (e está ligada a todo o meu trabalho desde há
vinte anos), é que tudo é linguagem, que nada escapa à linguagem, que toda a
sociedade é atravessada, penetrada pela linguagem. Partindo num certo sentido
tudo é cultura, e é impossível praticar uma não-cultura. A cultura é uma fatalidade
a que estamos condenados. Assim, conduzir uma ação radical contra-cultura, é
simplesmente deslocar a linguagem e, de novo, se não tivermos cuidado, apoiar-
se em estereótipos, portanto em fragmentos que já existem (BARTHES, 1981,
p.150).

Nos Estudos Culturais britânicos, pensadores como Stuart Hall também se


mobilizaram em torno da questão cultura, comunicação e discurso. A visão do
pesquisador permite em primeiro plano verificar a aplicabilidade da cultura na sociedade
contemporânea. Para tanto, acompanhamos o pensamento de Hall, quanto situa que

[...] a cultura é agora um dos elementos mais dinâmicos - e mais imprevisíveis -


da mudança histórica do novo milênio. Não devemos nos surpreender, então, que
as lutas pelo poder deixem de ter uma forma simplesmente física e compulsiva
para serem cada vez mais simbólicas e discursivas, e que o poder em si assuma,
progressivamente, a forma de uma política cultural. (HALL, 1997, p. 20)
Diante do apontamento de que as lutas se darão cada vez mais nas arenas culturais
e que sejam simbólicas e discursivas, Hall salienta

A importância crucial da linguagem e da metáfora lingüística para qualquer


estudo da cultura; a expansão da noção de texto e textualidade, seja como fonte
de significado, seja como aquilo que elide ou adia o significado; o
reconhecimento da heterogeneidade, da multiplicidade dos significados, do
esforço envolvido no fechamento arbitrário da semiose infinita para além do
significado; o reconhecimento da textualidade e do poder cultural, da própria
representação, como sítio de poder e de regulamentação; do simbólico como fonte
de identidade. (Hall, 1996, p. 271)

Já no pensar de Jorge González uma reflexão pode ser tomada como ponto de
partida para relações sociais que envolvem a cultura popular e a cultura massiva que se
relacionam ou se inter-relacionam, ou ainda, são divisadas em múltiplos discursos de seus
protagonistas. De sorte que González assente que:

[...] a cultura é constitutivamente o terreno em que se luta, precisamente por


negociar e impor um princípio ordenador das dimensões abordadas. Lutas que
podem ser intermitentes e intermináveis para expandir ou para comprimir o
espaço global do discurso social comum, no sentido do que necessitamos, de
quem somos e o que é valioso nesta vida. Valores, identidades e necessidades que
giram em torno de formações culturais transclassistas, que antes de ser essências
imutáveis (a raça, o amor, a felicidade, os sexos, a ecologia, a abundância, a
diversão, a pátria e a traição, a nação, a região, a saúde e precisamente a
modernidade, constituem arenas de luta frentes culturais nas quais se jogam -
como nas brigas de galos: como na luta livre - as apostas pelo “verdadeiro”
sentido das coisas (GONZÁLEZ, 1993, p.60).

O espaço global do discurso social comum a que se refere González acima reflete
o campo onde essas “lutas” se dão. Nessa abordagem, a cultura, ou melhor dizendo, as
culturas são esses campos. A Folkcomunicação e a Folkmídia estão aqui representadas
pelas forças da cultura popular e da cultura massiva. E seus diferentes discursos se
enfrentam na arena global sobrepujando limites da modernidade e pós-modernidade.
Esse embate, como atesta González (1993, p.57), “não substitui simplesmente o
velho pelo novo, nem o tradicional pelo moderno [...], mas tem criado formações culturais
complexas, heterogêneas e multitemporais que ofegam simultaneamente em nossas
culturas”. Coadunando com o objeto de estudo da Teoria da Folkcomunicação e os
preceitos de seu criador, Luiz Beltrão, onde a ressignificação das mensagens (discursos)
midiáticas são reelaboradas e retransmitidas pelos agentes Folk que exercem um papel
fundamental na mediação, González defende que o:
[...] popular não se define como uma essência imortal, mas como uma realização
social e historicamente constituída, não se identifica por seus conteúdos ou
substâncias originais e típicos, mas como uma posição relacional, não se ressalta
por sua origem mas pelo uso social que dele fazem as classes sociais exploradas,
dominadas, subalternas ou o “povão” que chamamos genericamente “povo”
(GONZÁLEZ, 1993, p.50).

Em sua obra Cultura de massas no século XX, O sociólogo francês Edgard Morin
(1969, p.47), diz que “a cultura de massa é, portanto, o produto de uma dialética
produção-consumo, no centro de uma dialética global que é a da sociedade em sua
totalidade”. Segundo Morin,

Cultura de massa, isto é, produzida segundo as normas maciças da fabricação


industrial; propagada pelas técnicas de difusão maciça (que um estranho
neologismo anglo-latino chama de mass media); destinando-se a uma massa
social, isto é, um aglomerado gigantesco de indivíduos compreendidos aquém e
além das estruturas internas da sociedade (classes, famílias, etc.) (MORIN, 1969,
p.15).

Morin define “massificação” da sociedade como uma forma de cultura emergente


no mundo moderno. O resultado dessa massificação tende, por um lado, este negativo, à
homogeneização da sociedade e, por outro, à democratização dos bens culturais que, até
então, estavam circunscritos à elite da sociedade. Com a cultura de massa, um maior
número de pessoas passa a ter acesso às manifestações artísticas e culturais.
A cultura de massa é chamada de kitsch nos EUA por ser considerada uma
mercadoria cultural feia e ordinária.
Autores como Nestor Garcia Canclini (1998) e Jesus Martin-Barbero (2001)
abordam o conceito de hibridização cultural que retrata grande parte dos fenômenos
culturais, principalmente da América Latina. Na análise em questão, tal conceito será
considerado no todo das manifestações culturais. A abordagem dos conceitos de cultura
popular e cultura de massa foi elaborada na intenção de demonstrar implicações e
aplicações discursivas que essas culturas carregam em si.

FOLKCOMUNICAÇÃO E FOLKMÍDIA: SINAIS DO DISCURSO ACRÁTICO E


ENCRÁTICO
Matéria prima da Folkcomunicação, a cultura popular, genuína do povo, vem
sobrevivendo ao longo dos tempos. A cultura popular perdeu grande parte de sua força
prejudicada pelo êxodo rural, pela falta de tradição das gerações mais novas e, também,
pela dificuldade de locomoção para que as pessoas possam levar seus conhecimentos para
outras regiões. Teve que se adequar aos novos tempos e às modificações da Industrial
Cultural e dos meios de comunicação massiva.
Uma via de mão dupla marca o relacionamento que a cultura popular tem hoje
com os meios de comunicação. Esses arranjam formas de apropriações de conteúdos da
cultura popular que também se servem dos meios para manter-se, conforme atesta a
pesquisadora Rosangela Marçolla ao relatar que:

Ora é a cultura popular que se utiliza da mídia, por questões de sobrevivência,


ora são os meios de comunicação que reiteram sua legitimação na busca de
conteúdo através da cultura popular. A cultura, antes dividida em elitista e
popular, perde pouco a pouco as suas fronteiras com a consolidação gradativa e
definitiva da cultura de massa, que é determinada pelo advento dos meios de
comunicação (MARÇOLLA, 2003, p.2)

A problemática da comunicação entre as populações de cultura folk e suas


relações com a cultura de massas despertam diversos debates. Entre os mais acalorados
há a defesa de folcloristas sobre a apropriação do folclore pela indústria cultural.
Reclamam que a apropriação é seguida de ressignificações que, muitas vezes,
“distorcem” o real sentido das manifestações culturais. Ressaltam os deslocamentos de
sentido que a tradição sofre nesse processo. E, ainda que os produtos da cultura de massa
sejam baseados na cultura popular, não são produtos de cultura popular. Ao passar pelo
processo de homogeneização e massificação, ganham novos significados.
Neste sentido, também os discursos produzidos pela Folkcomunicação e pela
Folkmídia são transformados, ainda que as matrizes sejam as mesmas: a cultura popular.
Sob o foco das luzes da Análise do Discurso, Barthes (1984, p.91) destaca toda
esta problemática parte do princípio de que “a diferença está em que é apenas o consumo
que é geral na nossa cultura, não a produção: compreendemos todos o que escutamos em
comum, mas não falamos todos aquilo mesmo que escutamos”.
Para o autor, ainda que a cultura pareça “pacífica”, há uma luta constante, há uma
divisão nas linguagens, ou como queira, “da própria linguagem”. Essa divisão daria bem
conta do paradoxo da nossa cultura, unitária pelo seu código de escuta (de consumo),
fragmentada pelos seus códigos de produção, de desejo: a ‘paz cultural’ (nenhum conflito
aparente ao nível da cultura) remete para a divisão (social) das linguagens.
Essa divisão da linguagem é um problema da linguagem social aqui refletida nas
manifestações da Folkcomunicação e nos produtos emanados da Folkmídia com seus
discursos construídos em suportes diferentes em contraposição das classes a que
pertencem e ou a que são destinados. Para Barthes,

É tempo de dar um nome a essa linguagens sociais, recortadas na massa


idiomática e cujo caráter estanque, por existencial que a princípio o tenhamos
sentido, segue, através de todas as correias de transmissão, de todas as gradações
e complicações que é lícito conceber, a divisão e oposição das classes; chamemos
a essas linguagens de grupos sociolectos (por oposição evidente ao idioleto, ou
falar de um único individuo). O caráter principal do campo sociolectal é que
nenhuma linguagem pode ser-lhe exterior, toda fala está fatalmente incluída num
certo sociolecto (BARTHES, 1984, p.96).

Seguindo o modelo da Retórica Aristotélica que distinguia dois grupos de prova:


as provas no interior da techne (entechnoi) e as provas fora da techne (atechnoi), Barthes
(1984, p.97) sugere “que se distingam desde a origem dois grupos de sociolectos: os
discursos no poder (à sombra do poder), e os discursos fora do poder (ou sem poder, ou
ainda na luz do não-poder)”, denominando os primeiros de discursos encráticos e os
segundos de discursos acráticos.

[...] De facto, a linguagem do poder é sempre provida de estruturas de mediação,


de condução, de transformação, de inversão (como acontece com o discurso da
ideologia, cujo caráter invertido em relação ao poder burguês foi indicado por
Marx). Do mesmo modo, o discurso acrático não é sempre declarativamente feito
contra o poder [...] Porque a mediação que intervém entre o poder e a linguagem
não é de ordem política, mas de ordem cultural [...] diremos que é a doxa a
mediação cultural (ou discursiva) através da qual o poder (ou o não-poder) fala:
o discurso encrático é um discurso conforme a doxa, submetido a códigos que são
eles próprios as linhas estruturantes da sua ideologia; e o discurso acrático,
anuncia-se sempre, em graus diversos, contra a doxa (seja ele qual for, é um
discurso para-doxal) (BARTHES, 1984, p.97)

Em uma análise mais acurada, a descrição dos socioletos encrático e acrático


elaborada por Barthes parece espelhar os discursos gerados pela Folkcomunicação e pela
Folkmídia. O campo da Folkcomunicação, por seus atributos constituintes naturais,
quando emana um tipo de discurso acrático em contraposição com o discurso encrático
gerado pelos produtos da Folkmídia.
Verifica-se a conformação de um discurso acrático no processo de comunicação
popular efetivado pela atuação dos agentes folkcomunicacionais que, conforme já
observado por Marques de Melo (2008, p.62), “operam como recodificadores das
mensagens da grande mídia” reciclando sua linguagem e intervindo no conteúdo das
mensagens que são reinterpretadas segundo os padrões de comportamento vigentes nesses
grupos periféricos.
Como nenhum discurso é neutro, há neste ato de ressignificação uma abordagem
sociocultural que demonstra os diferentes modos de expressão (discursos) dos grupos
sociais como estratégias de resistência social e cultural. Ao analisar o discurso como uma
construção social, considerando o contexto popular e as condições de produção
discursiva, nota-se que a Folkcomunicação é enfaticamente contra hegemônica e
paradoxal.
Traçando uma analogia, convém lembrar que a linguagem acrática, segundo
Barthes (1984, p.102), “é separada, cortante, desligada da doxa (é portanto paradoxal); a
sua força de ruptura vem-lhe de ser sistemática, construída sobre um pensamento, não
sobre uma ideologia.”Ciente dessa condição, Luiz Beltrão lança uma provocação aos
estudos da semiologia e, por extensão, aos estudos da Análise do Discurso.

(...) a Folkcomunicação preenche o hiato, quando não o vazio, não só da


informação jornalística como de todas as demais funções da comunicação:
educação, promoção e diversão, refletindo o viver, o querer e o sonhar das massas
populares excluídas por diversas razões e circunstâncias do processo civilizatório,
e exprimindo-se em linguagem e códigos que são um desafio ao novo e já
vigoroso campo de estudo e pesquisa da Semiologia (BELTRÃO, 1980, p.26).

Em contraposição, Barthes (1984, p.102) destaca que “a linguagem encrática é


vaga, difusa, aparentemente “natural” e portanto pouco identificável: é a linguagem da
cultura de massa (imprensa, rádio, televisão) [...], da doxa”.
Também na Folkmídia, por seu próprio conceito, nota-se a construção de um
discurso encrático, de cunho hegemônico. Posto que a Folkmídia é a apropriação da
cultura popular pelos meios de comunicação massivos que, após um processo de
ressignificação, projetam o folclore nos mass media e depois devolvem à grande massa
da população um produto da Industria Cultural.
Nos conceitos de Mediação de Jesús Martin-Barbero, a cultura adquire novas
dinâmicas sociais que atestam o caráter hegemônico do discurso encrático contido nos
produtos folkmidiáticos. Desta forma:
[...] ao se transformarem as massas em classe, a cultura mudou de profissão, e se
converteu em espaço estratégico de hegemonia, passando a mediar, isto é,
encobrir as diferenças e reconciliar os gostos. Os dispositivos de mediação de
massa acham-se assim ligados estruturalmente aos movimentos no âmbito da
legitimidade que articula a cultura: uma sociabilidade que realiza a abstração da
forma mercantil na materialidade tecnológica da fábrica e do jornal, e uma
mediação que encobre o conflito entre as classes produzindo sua resolução no
imaginário, assegurando assim o consentimento ativo dos dominados. Essa
mediação e esse consentimento, no entanto, só foram historicamente possíveis na
medida em que a cultura de massa foi constituída acionando e deformando ao
mesmo tempo sinais de identidade da antiga cultura popular e integrando ao
mercado as novas demandas das massas. (MARTIN-BARBERO, 2009, p.175)

A pesquisadora Rosângela Marçola (2003, p.1) defende o processo de feedback


ou retro-alimentação das cultuas argumentando que “ora é a cultura popular que se utiliza
da mídia, por questões de sobrevivência, ora são os meios de comunicação que reiteram
sua legitimação na busca de conteúdo através da cultura popular”.
Um olhar um pouco mais desconfiado vem do pesquisador Carlo Ginzburg que,
inspirando-se na obra “A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto
de François Rabelais”, de Mikhail Bakhtin, enxerga na influência entre as culturas
popular e massiva convergências nas trocas simbólicas e divergências nos conflitos
sociais, relatando assim que

É bem mais frutífera a hipótese formulada por Bakhtin de uma influência


recíproca entre a cultura das classes subalternas e a cultura dominante. Mas
precisar os modos e os tempos dessa influência [...] significa enfrentar o problema
posto pela documentação, que no caso da cultura popular é, como já dissemos,
quase sempre indireta. Até que ponto os eventuais elementos da cultura
hegemônica, encontráveis na cultura popular, são frutos de uma aculturação mais
ou menos deliberada ou de uma convergência mais ou menos espontânea e não,
ao contrário, de uma inconsciente deformação da fonte, obviamente tendendo a
conduzir o desconhecido ao conhecido, ao familiar? (GINZBURG, 1998, p.24-
25).

Após as colocações sobre os discursos construídos pela Folkcomunicação e pela


Folkmídia, coadunamos com o pensamento de Ferreira (2001, p.15) quando diz que “a
heterogeneidade discursiva destaca que todo discurso é atravessado pelo discurso do
outro ou por outros discursos”. Estes diferentes discursos mantêm entre si relações de
contradição, de dominação, de confronto, de aliança e/ou de contemplação.
Os exemplos acima pretendem tornarem-se pressupostos sobre a caracterização
do discurso acrático na Folkcomunicação e do discurso encrático na Folkmídia.
CONSIDERAÇÕES FINAIS

É inegável a proliferação de estudos voltados para a temática da


Folkcomunicação. Em menor escala, pesquisadores se debruçam sobre a problemática da
Folkmídia. Ainda assim, as mudanças culturais e a dinamicidade dos processos
comunicacionais requerem a expansão da área de abrangência dos estudos.
Muitos estudos relatam que a Folkmídia ajuda na manutenção e proliferação da
cultura popular. Outros ainda reclamam que a Folkmídia prejudica o sentido “real” ou a
“aura” da cultura popular. Para além dessas questões, há que se ver os embates, as lutas
travadas por discursos antagônicos de hegemonia e contra hegemonia que sobrevivem à
modernidade e/ou pós modernidade.
As construções discursivas na Folkmídia e na Folkcomunicação retratam,
consecutivamente, o discurso encrático e acrático.
Hibridez ou intercâmbio cultural são conceitos vigentes na sociedade atual e
devem ser estudos buscando-se melhorar tanto a cultura de massa quanto a cultura
popular. Contudo, uma não pode prevalecer em detrimento da outra. O campo da
Comunicação deve ficar atendo à manipulação dos discursos que atravessam a linha entre
a Folkcomunicação e a Folkmídia.
Acreditamos que o suporte conceitual da Teoria da Análise do Discurso da Escola
Francesa por meio da análise dos discursos na Folkcomunicação e na Folkmídia possa
ajudar nessa tarefa.

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