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Apontamentos de

Filosofia Antiga I

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As Origens da Filosofia

Do Mito á Filosofia
a) Conceito do mito

No limiar da Filosofia grega há algo em si de não-filosófico, o mito. É a


fé da comunidade nas grandes questões do mundo e da vida, dos
deuses e homens, que dá ao povo a matéria do seu pensamento e do
seu agir. Recebem-na da tradição popular, irreflectida, crente e
cegamente. Consoante o nota Aristóteles, o amigo do mito é, apesar
disso e a certa luz, também filósofo; por isso que, no mito, preocupa-se
ele com problemas que vão ser, por sua vez, objecto da Filosofia. Donde
vem o mencionar Aristóteles, de bom grado, quando refere os
pressupostos de uma questão filosófica e a busca da sua solução,
também as opiniões dos "primitivos", que foram os primeiros a
"teologizar" (οι πρωτοι νεολογηαντεζ).

b) Mitologia de Homero e de Hesíodo

Vêm aqui logo à tona Homero e Hesíodo, com os seus ensinamentos


sobre a origem dos deuses (teogonias) e a produção do mundo
(cosmogonias). Assim, conforme a mitologia de Homero, devemos
procurar a causa primeira de todo devir nas divindades do mar, Oceano
e Tetis, e também na água, pela qual os deuses costumam jurar, e que
o poeta denomina Estígío. Em Hesíodo aparecem o Caos, o Éter e o Eros
como os princípios primeiros de tudo. Mas, ainda outros problemas são
abordados: a transitoriedade da vida, a origem do mal, a questão da
responsabilidade e da culpa, do destino e da‘ necessidade, da vida e da
morte, e semelhantes. Sempre se manifesta aí um pensamento total e
completamente imaginoso, visionado pelos claros olhos do poeta, em
caso particular e concreto, intuitivamente, para depois universalizar a
intuição, e transportá-la para a vida e o mundo em geral, explicando
assim a totalidade do ser e do devir.

c) Orfismo

O Orfismo era uma religião de mistérios no antigo mundo grego, difundido a partir dos
séculos VII e VI a.C. Seu fundador teria sido o poeta Orfeu, que desceu ao Hades e
retornou. Os órficos também reverenciam Perséfone (que descia ao Hades a cada
inverno e voltava a cada primavera) e Dionísio ou Baco (que também desceu e voltou
do Hades). Como os mistérios de Elêusis, os mistérios órficos prometiam vantagens no
além-vida. Esses cultos de mistérios, que prometiam uma vida melhor após a morte,
parecem ter influenciado o início do cristianismo.

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Peculiaridades

O Orfismo diferia da religião grega popular das seguintes maneiras:

Caracterizava as almas humanas como divinas e imortais, mas


condenadas a viver (por um período) em um círculo penoso de
sucessivas encarnações através da metempsicose ou
transmigração de almas;
Prescrevia uma forma ascética de vida, ou vida órfica, a qual,
junto com ritos iniciáticos secretos, deveria garantir não apenas o
desprendimento do tal círculo penoso mas também uma
comunhão com deus(es);
Advertia sobre uma punição pós-morte por certas transgressões
cometidas durante a vida;
Era fundamentada sobre escritos sagrados com relação à origem
dos deuses e seres humanos.

Evidências

As visões e práticas órficas foram testemunhadas por Heródoto,


Eurípides e Platão. A maioria das fontes de ensinamentos e
práticas órficas é atrasada e ambígua, e alguns estudiosos
afirmam que o Orfismo tenha sido na verdade uma construção de
uma data mais recente do que se acredita. Porém, os papiros
Derveni, descobertos há poucos anos, permitem datar a mitologia
órfica em quatro séculos AEC ou até uma data mais antiga que
essa. Outras inscrições encontradas testificam a antiga existência
de um movimento com as mesmas crenças centrais que foi mais
tarde associado com o nome do Orfismo.

Mitologia

As teogonias órficas são trabalhos genealógicos como a Teogonia


de Hesíodo, mas os detalhes são diferentes. O relato principal é:
Dionísio (na sua encarnação de Zagreus) é o filho de Zeus e
Perséfone; ele foi assassinado e fervido pelos Titãs. Zeus lançou
um raio nestes e Hermes salvou o coração de Zagreu. As cinzas
resultantes geraram a humanidade pecaminosa, composta dos
corpos dos Titãs e de Dionísio. A alma do homem (factor
dionisíaco) é portanto divina, enquanto o corpo (factor titânico)
aprisiona a alma. Declarava-se que a alma retornaria
repetidamente à vida, atada à roda do renascimento. O coração
de Dionísio é implantado na coxa de Zeus, e este então engravida
a mortal Semele com o renascido Dionísio. A Teogonia

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Protogonos, perdida, composta cerca de 500 AEC, só é conhecida
através de comentários encontrados em papiros e de referências
nos autores clássicos, como Empédocles e Píndaro. A "Teogonia
Eudemiana ", também perdida, foi composta no século V AEC, e
teria sido o produto de um culto sincrético Baco-Curético. A
Teogonia Rapsódica, também perdida, composta na idade
helenística, incorporava os trabalhos anteriores, e ficou conhecida
através de sumários nos escritos de autores neo-platonistas. Já
os Hinos Órficos, 87 poemas hexamétricos de extensão mais
curta, foram compostos no final da era helenística ou início da
era imperial romana.

Mito de Orfeu

Orfeu, o mais conhecido dos músicos lendários da Grécia Antiga, é


objecto de grande número de mitos um tanto divergentes. Filho da
musa Calíope e de Eagros, rei da Trácia, vivia perto do Monte Olimpo,
na Tessália, e aprendeu a arte com o próprio Apolo.

Tornou-se um cantor maravilhoso e tocava divinamente a lira e a cítara,


instrumento este cuja invenção lhe é atribuída. Ao ouvi-lo cantar as
feras o seguiam, as árvores se inclinavam em sua direcção e até os
homens mais irascíveis se acalmavam.

Orfeu participou da famosa expedição dos Argonautas. Durante a


viagem, apaziguava as ondas com sua música e, com ela, conseguiu até
anular o efeito do hipnótico canto das sereias e salvar o navio.

A mais famosa lenda de que participa é a da descida ao Hades à


procura de sua esposa Eurídice, que havia morrido acidentalmente,
picada por uma serpente. Com sua arte, Orfeu encantou monstros, as
sombras dos mortos, o barqueiro Caronte e até os deuses infernais,
Hades e Perséfone. Eles aceitaram devolver Eurídice aos vivos desde que

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o poeta deixasse o Hades, seguido por ela, sem olhar para trás uma
única vez. Atormentado pela dúvida, porém, Orfeu não resistiu e pouco
antes de sair olhou para trás. Eurídice teve que retornar e o desolado
músico, por sua vez, voltou ao mundo dos vivos.

Algum tempo depois, por razões mal esclarecidas pelas diversas lendas,
morreu esquartejado por um grupo de mulheres enfurecidas, as
mênades. A cabeça de Orfeu caiu no mar e chegou até a ilha de Lesbos,
onde os habitantes ergueram-lhe um túmulo de onde, dizia-se, era
possível ouvir com frequência o som de uma lira...

Orfeu foi levado aos Campos Elísiose lá entretinham os bem-


aventurados com sua música. Sua lira foi transformada pelos deuses
em constelação

Iconografia e culto de Orfeu

Durante o século -VI, Orfeu foi associado a um culto de mistérios muito


popular que preconizava a origem divina da alma e a reincarnação,
conceito mencionado igualmente pelos pitagóricos e, mais tarde, por
Platão. Segundo a tradição, foi ele quem fez as revelações místicas
fundamentais aos iniciados, que aprendera durante sua descida ao
Hades.

Uma literatura esotérica, baseada nos preceitos órficos, floresceu


durante o Período Helenístico. Na iconografia grega antiga, Orfeu era
mostrado cantando com uma lira ou uma cítara, em geral no momento
de sua morte às mãos das bacantes (vasos de figuras vermelhas
posteriores a -500). Os mosaicos romanos mostravam-no com
frequência ao lado de animais selvagens, embevecidos com sua música.

α) Fuga do mundo — A dogmática dos órficos era contudo coisa


totalmente diferente de uma afirmação vital. Devemos, antes, considerá-
la como uma vaga miscelânea de ascese e mística, culto das almas e
esperanças no além, coisas todas muito estranhas ao povo homérico.
Agora, já a alma não é sangue, mas espírito; oriunda de um outro
mundo; exilada nesta terra, como castigo por uma culpa original;
encadeada ao corpo, deve passar por uma larga peregrinação até
libertar-se dos sentidos. Via para a colimada purificação do sensível era
uma série de proibições de alimentos, como a carne e as favas.
Laminazinhas de ouro, enterradas com os mortos, testemunhavam que
a sua alma provinha "pura de puros" e "libertou-se do penoso ciclo das
reencarnações". A doutrina dos órficos sobre o destino das almas,
depois da morte, espelha-se nos grandes mitos escatológicos, nos
diálogos platónicos Górgias, Fédon e República. A dogmática órfica já
possuía, também, uma bem elaborada teologia e cosmogonia.

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β) Cosmogonia — Ensinava que no princípio existiu o Caos e a Noite.
O ―Chãos‖ deve compreendê-lo literalmente como o vácuo abissal ou o
precipício. A Noite gerou um ovo, o ovo cósmico, donde nasceu o amor
(Eros) alado. "E este, consorciado com o abismo hiante, alado e
nocturno, no vasto Tártaro, deu origem ao nosso género e o trouxe fora,
para a luz. Não havia o género dos mortais, antes de ser reduzido à
unidade pelo amor; quando, porém, ele uniu uma parte com outra,
surgiu o Céu, e o Oceano, e a Terra, e o género imortal de todos os
deuses". Segundo uma fonte mais recente, a origem primitiva do
Cosmos foi um dragão com cabeça de touro e de leão: no meio, porém,
tinha o rosto de um deus, e nos ombros, asas. 3Ê conhecido como o
deus do Tempo eternamente jovem. O dragão produziu uma tríplice
seminação: o Éter húmido, o Abismo ilimitado e hiante e a nebulosa
Escuridão; e além disso, de novo, um ovo cósmico.

Tudo isto é intuição de todo fantasiosa e poética. Tem-se visto na


mitologia órfica uma "palmar" tradição oriental. Em particular o
dualismo de corpo e alma, do aquém e do além, e, em geral, uma forma
de vida em fuga do terreno, "uma gota de sangue estrangeiro" na
Grécia. A terra original destas corrupções pode, na realidade, ter sido a
índia, onde tais ideias apareceram cerca de 800 a.C., nos Upanishads,
escritos teológicos exige ticos dos Vedas. Também se encontram na
religião de Zoroastro, no planalto do Irã, como resulta dos antigos
Gâthas do Zendavesta. Estas ideias teriam sido, então, sempre um
património espiritual ariano.

d) O mito e o Logos

Muito mais importante, porém, que a questão da origem é a


sobrevivência dessas concepções. Aristóteles disse, com razão, (Met. B.
4), a propósito do mito, que ele não constituía ciência, porquê esses
"teólogos" arcaicos apenas reproduziam as doutrinas tradicionais sem
apresentarem nenhumas provas. Opõe-lhes aqueles "que falam
aduzindo provas (οι διαποδειξεΩζ λεγοντεζ), dos quais, por isso, podemos
esperar uma verdadeira "convicção". Com isso quer referir-se aos
filósofos. Por estes metódicos momentos da dúvida, da prova e da
fundamentação, distingue ele o mito, da Filosofia, embora há pouco
tivesse concedido que o amigo do mito, a certa luz, também era filósofo.
A Filosofia é, ao lado do mito, realmente algo de novo. Já não se vive
numa crença cega, do património espiritual do vulgo, mas o indivíduo
volta-se todo para si mesmo e deve agora, livre e sem tutela, elaborar
por si, examinando e provando, o que pensa e quer considerar
verdadeiro. Ê uma posição espiritual diferente da do mito. Contudo, não
devemos perder de vista que as questões formuladas pelo mito, como
suas intuições conceptuais, elaboradas nos obscuros e não-críticos
tempos anteriores, ainda sobreviveram na linguagem conceptual
filosófica. À crítica do conhecimento filosófico impõe-se aqui a tarefa de

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examinar se os presumidos instrumentos racionais‘ ‗de pensamento
filosófico também estão, na realidade, todos racionalmente fundados.
Talvez não o sejam. E isto não somente por uma recusa, mas porque o
espírito ultrapassa o "saber" e abrange o mito, num sentido positivo,
como um caminho apropriado para a sabedoria. De maneira que
somente o crente na ciência iluminada é que pretende libertar-se do
mito, ao passo que Aristóteles diz, com razão, que também o mito, a seu
modo, filosofa.

As Origens da Filosofia
Quadro Político da Grécia Antiga até ao século VII

A questão das origens da Filosofia é hoje uma questão clássica mas


ainda controvertida. Para a tentarmos compreender vamos recuar até
ao momento no qual surgiram os primeiros Gregos.

Aproximadamente no ano 2000 a.C. estabeleceram-se na Grécia povos


indo-europeus que nela se fixaram, os quais já falavam o grego.

Quanto à origem e características dos indo-europeus ainda hoje


subsistem dúvidas. Poder-se-á dizer que são povos continentais, ligados
à pastorícia e com uma religião ligada aos fenómenos atmosféricos.

Detecta-se no século XVI uma civilização que vai ser brilhante, a


civilização dos Aqueus. Vários são os problemas que se colocam ao seu
estudo e para uma parte dos quais só há conjecturas.

O que podemos dizer, com alguma segurança, é o seguinte:

Os Aqueus são essencialmente guerreiros e encetam uma


expansão pelo Mediterrâneo Oriental;
Constituem uma série de estados entre os quais existe, ao que
parece, a hegemonia de Micenas;
o estado aqueu é fortemente burocratizado;
O linear B é a escrita dos Aqueus, a qual é silábica e não se
adapta à palavra oral.

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Não se conhece bem a organização política e social dos Aqueus. Sob o
ponto de vista político o poder está concentrado nas mãos do soberano;
é muito provável que haja traços orientalizantes no estado aqueu.

O soberano vive num palácio que é uma autêntica cidadela que se


ergue na parte alta da cidade. Ele governa auxiliado por altos
funcionários e uma burocracia controla tudo o que se passa no estado.

Sob o ponto de vista social deve existir uma hierarquia rígida na qual a
classe dos guerreiros é a mais importante.

Vejamos, agora, outros aspectos.

Os Aqueus entraram em contacto com outros povos e entre estes, deve


destacar-se o cretense.

Um povo rude como o aqueu, pouco a pouco, em contacto com outras


civilizações, vai-se interessando pelos aspectos artísticos; é provável que
artistas cretenses tivessem trabalhado nalguns estados Aqueus.

A civilização aqueia mostrou uma abertura ao exterior que é notável e


neste aspecto prefigura a Grécia a partir dos finais do século IX. É estas
aberturas que encontramos em relação à religião.

As religiões que vamos encontrar na Grécia arcaica, em boa parte,


estão formadas no tempo dos Aqueus. Os principais deuses encontram-
se já na civilização aqueia e há divindades que vêm de outras regiões,
em especial de Creta.

É interessante notar-se que a religião dos Aqueus, nos tempos mais


recuados, privilegiava as divindades masculinas mas, sobretudo, em
contacto com Creta o panteão vai ser enriquecido com divindades
femininas. Os contornos da religião grega são nítidos, portanto, antes
dos poemas homéricos.

Para terminarmos a parte referente aos Aqueus façamos referência a


dois problemas:

O primeiro diz respeito à Guerra de Tróia. Como é sabido a Guerra


de Tróia foi encarada, na Antiguidade, como um conflito de

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grandes proporções. Todavia, para alguns historiadores, entre os
quais citemos Finley e Claude Mossé, a importância da expedição a
Tróia foi diminuta.
O segundo problema refere-se ao fim da civilização dos Aqueus.
Não deve ter sido um final rápido: é possível que a destruição
durasse cerca de um século (do século XII ao século XI). Apontam-
se hoje várias hipóteses parecendo que se está longe de uma
certeza.

Só podemos dizer que a destruição foi brutal. No século XI um monte


de ruínas era o que restaria do mundo aqueu.

Pouco se sabe da Grécia entre os séculos XI e IX, o linear B


desapareceu e a arqueologia não tem trazido muitas informações sobre
este período.

O que se poderá dizer é o seguinte:

A Grécia fecha-se sobre si própria. Se os contactos com o exterior


não terminam, são todavia menos frequentes;
A actividade económica é diminuta;
As concentrações urbanas praticamente não existem;
A escrita, que agora é alfabética, deve ter surgido nos meados do
século X.

A introdução da escrita é um momento alto da civilização grega. A base


da escrita é o alfabeto fenício. É clara portanto a influência deste povo.
Mas o que é interessante notar-se é o facto dos Gregos não se terem
limitado a importar o alfabeto fenício: para que a escrita correspondesse
à linguagem oral os Gregos fizeram as adaptações necessárias.

A escrita antecede o aparecimento da polis. Esta, segundo Lévêque,


teria surgido cerca de 800.

As poleis espalharam-se por todo esse vasto território que constitui a


Hélade. Mas vejamos o que é a polis.

Devido à escassez de informações não conhecemos as raízes, ou seja,


as razões do aparecimento da cidade-estado. O que sabemos é que de

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uma forma geral a polis, tem um pequeno território o que a leva a
possuir, igualmente, quase sempre, uma pequena população.

Há diferenças entre o estado aqueu e a polis no tocante ao desenho


urbanístico: enquanto no primeiro a cidadela, que é a residência do rei,
é o lugar central, na polis surge a àgora que, nos seus primeiros
tempos, é uma praça pública.

Na ágora os habitantes podiam encontrar-se, conviver e trocar ideias.


Há, assim, uma maior abertura, o sinal de uma mentalidade na qual a
curiosidade sobre as concepções e a vida pública devem ter, já, um
lugar de destaque.

O que vai acontecer ao longo dos tempos é o que se tem chamado a


fragmentação do poder político. A tendência é para o poder político se
dividir por vários magistrados, colégios e assembleias. E também vários
são os regimes políticos que os Gregos vão conhecer, entre os quais o
democrático que atinge a sua forma mais avançada na Atenas do século
V.

Ora, entre o aparecimento da polis e o final do século VII podemos


encontrar, entre outros, os seguintes aspectos:

A Grécia está francamente aberta ao exterior;


A actividade económica é intensa;
Há grupos sociais em ascensão: comerciantes, navegadores,
proprietários de oficinas;
Surge a moeda, cujo significado inicial, ainda hoje não é
consensual;
Aparecem os códigos escritos, com grande repercussão na
mentalidade grega.

No final do século VII encontramos a Hélade estendendo-se da


extremidade do Mar Negro ao extremo ocidental do Mediterrâneo. A
Hélade é, assim, um espaço descontínuo onde a unidade é constituída
por laços espirituais: a língua, a religião, os festivais pan-helénicos,
entre outros. Mas a Hélade é o espaço das poleis e no período que
estamos a considerar mencionemos duas faixas de colonização

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extremamente importantes: o litoral da Ásia Menor e aquela constituída
pelo Sul de Itália e a Sicília.

Quadro cultural da Grécia Antiga até ao século VII

É frequente ao descrever-se as origens da filosofia falar-se de


passagem do mito ao logos.

Tentaremos mostrar que a expressão passagem do mito ao logos é


ambígua e pode deturpar o que historicamente se teria passado.

Comecemos pela questão do mito. O mito é uma história real, ou seja,


o que para nós é uma fábula, uma história maravilhosa, era nas
sociedades arcaicas uma narrativa verdadeira. Mas digamos, ainda, que
o mito pode ter como personagens não só os deuses como os próprios
homens (Cfr. M.H.R. Pereira).

A importância do mito é praticamente indesmentível. Funciona como


algo exemplar: o acto de semear ou de erguer uma casa é imitações de
gestos contidos nos mitos. Um dos mais importantes é o cosmogónico,
ou seja, aquele que trata das origens.

Este mito narra a forma como o mundo veio à existência e qual o papel
que os deuses desempenharam nesse acto. A origem do homem era
contemplada nesta exposição que era transmitida de geração em
geração: o mundo assim como o homem era obra dos deuses.

Para além da dimensão do mito como modelo devemos falar da


sabedoria que a ele está ligado.

O mais antigo corpo de saber que encontramos na Grécia está ligado


aos sacerdotes e aos homens divinos.

Os homens divinos constituem uma expressão usada pelos gregos.


Com ela queriam significar aquelas personalidades que continuando a
ser humanas possuíam um dom dado pelos deuses, o que fazia que
estivessem mais perto da divindade.

Estes homens tinham poderes extraordinários como por exemplo:


conhecer o passado e o futuro; separar o espírito do corpo e viajar, por

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vezes por longos anos, com o espírito deixando de lado o corpo; descida
ao Hades; poderes para deter cataclismos naturais.

Para se compreender um pouco melhor uma questão tão delicada


convirá mencionar a posição de E. Morin (O Método, III?). O filósofo
francês considera que na época em que o mito é relevante as técnicas já
existiam, isto é, há uma coexistência de actividades bem diferenciadas.
Tal significa que é próprio do espírito humano este duplo enfoque, o que
leva o homem a viver não só com a razão mas também com o mito.

No caso da Grécia Antiga podemos ver a força do mito mas também


manifestações culturais, ligadas essencialmente à literatura, que
ampliam e diversificam o campo do Homem.

Façamos assim uma referência à cultura Grega desde os poemas


homéricos até aos finais do séc. VII.

Em primeiro lugar acentuemos a importância da Ilíada e da Odisseia.


Nestes poemas viram os Gregos os seus antepassados: os Gregos são os
descendentes dos heróis da Guerra de Tróia. Há assim uma dimensão
histórica, sempre considerada ao longo dos séculos na Grécia Antiga.

Nos poemas homéricos o aspecto religioso é relevante: os episódios


relativos aos deuses são numerosos e assim não é para admirar que a
sua influência seja grande neste campo.

As qualidades ostentadas pelos heróis irão servir de modelo aos


Gregos. Assim não é para admirar que Homero fosse considerado o
educador da Grécia e os poemas constituíssem a base da paidéia grega.
Convirá reflectir um pouco sobre este ponto.

Homero será acusado por vários pensadores de contar histórias


vergonhosas acerca dos deuses.

O ataque de Xenófanes a Homero inicia a querela entre os defensores


da paidéia tradicional e os filósofos. Mais tarde, vemos Platão, na
República, criticar longamente a paideia tradicional.

Se os poemas homéricos são fundamentais todavia não fazem esquecer


a Teogonia e os Trabalhos e os Dias de Hesíodo (meados do século VIII).

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Os poemas de Hesíodo constituem um marco na História da Cultura
Grega – vejamos alguns aspectos.

Será interessante ver que o poeta fala de si próprio na sua obra (o


poeta ou poetas dos poemas homéricos não têm uma atitude pessoal).

As obras de Hesíodo apresentam outra inovação: o aspecto ético é


frisado e assim a justiça é algo de agradável aos deuses.

A Teogonia é importante não só porque é um tratado sobre a religião


grega mas também pela questão cosmogónica.

Há um esforço por parte de Hesíodo em colocar uma certa ordem na


religião grega: ao que nos parece tudo indica que o quadro religioso
grego era confuso, que as contradições eram abundantes nas biografias
dos deuses.

Surge, assim, um traço de um novo espírito: há a preocupação em


arrumar a matéria religiosa, há uma certa racionalização na tarefa
levada a cabo por Hesíodo. Com isto não queremos dizer que se perca o
sentido religioso mas sim, que começa a surgir um novo estilo.

A narrativa cosmogónica na Teogonia segue o estilo a que fizemos


referência. A génese do Universo é relativamente simples e há uma certa
aproximação à noção de Natureza sem implicar a perda do estatuto de
importância que as divindades possuíam.

Mencionemos outro acontecimento da História da Cultura Grega: o


aparecimento, nos princípios do século VII, da poesia lírica.

O poeta lírico fala de si, descreve os seus sentimentos, torna - - os


públicos. É este, sem dúvida, um fenómeno relevante na Cultura Grega.

Os quadros que traçamos não nos mostram toda a riqueza da Cultura


Grega desde os fins do século IX até aos finais do século VII. Mas
parece-nos suficiente para compreender a passagem do século VII para
o VI.

Relembremos que a parte oriental do mundo grego estava em contacto


com algumas civilizações brilhantes (Egipto, Mesopotâmia). A polis, por

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sua vez, implicava uma mobilidade espiritual que a diferenciava do
estado oriental.

Sob o ponto de vista cultural, a trajectória seguida, implicava uma


discussão sobre temas cada vez mais amplos e complexos.

Segundo os Gregos nos finais do século VII e primeiras décadas do VI


surgiu uma plêiade de personalidades a quem chamaram os sete sábios
e cujos nomes variavam de lista para lista. Tales é um dos nomes
presentes em todas elas.

Os sete sábios, envolvidos em parte pela lenda, são figuras


diferenciadas: ao lado de legisladores e governantes surgem, também,
aqueles que têm poderes extraordinários.

Vejamos algumas das suas características:

Os sete sábios estão ligados à defesa da polis ou escrevendo os


códigos ou salvando-a de catástrofes por meios extraordinários;
O seu saber é condensado em máximas, os apotegmas;
Esse saber é público e algumas máximas são gravadas na pedra.

Quando chegamos a Tales de Mileto há na Grécia uma longa tradição


cultural. Encontramos a inovação que não corta abruptamente essa
mesma tradição. Não deve ser por acaso que Tales é um dos sete sábios
e o primeiro filósofo.

O filósofo surge como o herdeiro do chamane, do sacerdote, do poeta.


É detentor do saber como o eram os seus antepassados. Mas agora o
saber é oferecido a quem o quiser fruir. É um saber aberto que
contrasta, agora, com o círculo fechado do antigo corpo de saber.

Há uma dessacralização do saber? A resposta não é fácil. Há mitos e


narrativas que perdem velocidade, que se vão tornando mais
abstractos, ao longo dos tempos. Mas a religião não perde o seu
prestígio e acompanhara sempre o homem grego.

Pelo que dissemos, já anteriormente, a expressão passagem do mito ao


logos não é muito correcta.

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O mito não desaparece com a filosofia, umas vezes enfrenta-a, outra
cruza-se com ela. Na longa caminhada não há cortes bruscos, há
transformações mais ou menos lentas. Nos finais do século VII havia
condições para o aparecimento da filosofia. Um quadro político aberto é
uma delas. Mas há também um conjunto de experiências culturais que
preparam o terreno para a "aurora da filosofia".

Conclusão

Nos finais do século VII e princípio do século VI, Existia um quadro


politico social e favorável ao aparecimento de um novo tipo de
concepção que se afastasse, pelo menos em parte da mítica e que tenta-
se abarcar todo o real e cujo instrumento predominante fosse a razão.

Das exposições que fizemos atem agora é importante salientar o


seguinte:

Não há um corte brusco com o passado; há uma determinada evolução


constituída por uma série de transformações e um condicionalismo
propício ao aparecimento da filosofia.

O filósofo vai surgir em determinadas condições históricas: abertura da


Grécia a outras civilizações, lugar proeminente de novas forças sociais:
determinada concepção de estado; e mudança de mentalidade que se
produziu ao longo dos séculos. A explicação mítica e substituída
pela explicação filosófica. Os primeiros pensadores debruçam -se
sobre as origens do universo e do homem, questões já albergadas
nos grandes mitos cosmológicos. Convém assinalar que a filosofia
surgida na Jónia no século VII E VI não irá constituir um corpo de
saber que aniquila-se por completo aquele que tinha vigorado mas
devido as transformações económicas, sociais e politicas permitem o
aparecimento de novas teorias, estas durante mais ou menos tempo
terão coexistido com as antigas, e por vezes surgir concepções híbridas.

O aparecimento da filosofia, que devemos saudar como um


acontecimento cultural de grande importância, não rompe totalmente
com as concepções do mundo e da vida que tinham atravessado muitos
e muitos séculos.

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O Filósofos Pré – Socráticos

A passagem da consciência mítica e religiosa para a consciência


racional e filosófica não foi feita de um salto. Esses dois tipos de
consciência coexistiram na sociedade grega.
De acordo com a tradição histórica, a fase inaugural da filosofia
grega é conhecida como período pré-socrático. Esse período abrange o
conjunto das reflexões filosóficas desenvolvidas desde Tales de Mileto
(623-546 a.C.) até Sócrates (468-399 a.C.).
Os primeiros filósofos buscam a arché, o princípio absoluto (primeiro
e último) de tudo o que existe. A arché é o que vem e está antes de tudo,
no começo e no fim de tudo, o fundamento, o fundo imortal e imutável,
incorruptível de todas as coisas, que as faz surgir e as governa. É a
origem, mas não como algo que ficou no passado e sim como aquilo
que, aqui e agora, dá origem a tudo, perene e permanentemente.

No vasto mundo Grego, a filosofia teve como berço a cidade de


Mileto, situada na Jónia, litoral ocidental da Ásia Menor. Caracterizada
por múltiplas influências culturais e por um rico comércio, a cidade de
Mileto abrigou os três primeiros pensadores da história ocidental a
quem atribuímos a denominação de filósofos. São eles: Tales,
Anaximandro e Anaxímenes.

O objectivo dos primeiros filósofos era construir uma cosmologia


(explicação racional e sistemática das características do universo).

Em outras palavras, os primeiros filósofos queriam descobrir,


com base na razão e não na mitologia, o princípio substancial (a arché)
existente em todos os seres materiais.

Os pré-socráticos ocuparam-se em explicar o universo e


examinavam a procedência e o retorno das coisas. Os primeiros filósofos
gregos tentaram responder à pergunta: Como é possível que todas as

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coisas mudem e desapareçam e a Natureza, apesar disto, continua
sempre a mesma?

Para tanto, procuraram um princípio a partir do qual se pudesse


extrair explicações para os fenómenos da natureza. Um princípio único
e fundamental que permanecesse estável junto ao sucessivo vir-a-ser.
Tales vai dizer que o princípio de tudo é a água; Anaximandro, o infinito
indeterminado, Anaxímenes, o ar; Heraclito, o fogo; Pitágoras, o
número; Empédocles, os quatro elementos: terra, água, ar, fogo, em vez
de uma substância única.

Os Milésios

Escola de Mileto ou Milesiana, é chamada a escola de pensamento


iniciada no Século VI a.C. na vila jónia de Mileto, na costa da Anatólia,
e representada, principalmente, pelos filósofos:

Tales de Mileto, Anaximandro e Anaxímenes. Convém distingui-la


da Escola Jónica, que inclui estes e outros jónios como Heraclito ( de
Éfeso), ou Diógenes de Apolônia (que viveu em Creta).

A escola de Mileto e situada na cidade de Mileto, na Jónia, litoral


ocidental da Ásia Menor. Os filósofos que fundaram a escola foram:
Tales de Mileto, Anaximandro e Anaxímenes. Tales era considerado "o
pai da filosofia" por ser o primeiro pensador grego. Tales queria
descobrir um elemento tísico que fosse constante em todas as coisas.
Algo que fosse o princípio unificador de todos os seres. Tales concluiu
que a água é a substância primordial, a origem única de todas as
coisas, para ele somente a água permanece basicamente a mesma, em
todas as transformações dos corpos, apesar de assumir diferentes
estados como: sólido, líquido e gasoso. O princípio primordial de todas

17
as coisas segundo Anaximandro era o "abeiro". Já para Anaxímenes era
o "ar".

Tales de Mileto

As 3 afirmações de Tales:

1- A água é a origem de todas as coisas.


2- A terra flutua na água.
3- Tudo está cheio de Deuses.

Thalès (grego θαλες Thalễs), chamado Tales de Mileto, é o primeiro


filósofo ocidental de que se tem notícia. Ele é o marco inicial da filosofia
ocidental. De ascendência fenícia, nasceu em Mileto, antiga colónia
grega, na Ásia menor, actual Turquia, por volta de 625 a.C. e faleceu
aproximadamente em 547 a.C. - segundo o historiador grego Diógenes
Laércio, morreu com 78 anos durante a 58ª Olimpíada.

Tales é apontado com um dos sete sábios da Grécia Antiga. Além disso,
foi o fundador da Escola Jónica. Considerado, também, o primeiro
filósofo da "physis" (natureza), porque outros, depois dele, seguiram seu
caminho buscando o princípio natural das coisas.
Tales considerava a água como sendo a origem de todas as coisas. E
seus seguidores, embora discordassem quanto à “substância primordial”

18
(que constituía a essência do universo), concordavam com ele no que
dizia respeito à existência de um ―princípio único" para essa natureza
primordial.
Entre os principais discípulos de Tales de Mileto, merecem destaque:
Anaxímenes que dizia ser o "ar" a substância primária; e
Anaximandro, para quem os mundos eram infinitos em sua
perpétua inter-relação.

Teorema de Tales - "Quando duas


rectas se cortam, são iguais os ângulos"

Tales observou que, num mesmo


instante, a razão entre a altura de um
objecto e o comprimento da sombra que
esse objecto projectava no chão era
sempre a mesma para quaisquer
objectos

"Este teorema certamente mostra, que de duas linhas rectas, que se


cortam, os ângulos contrários pelo vértice são iguais. Contudo a
questão se apresenta pouco clara, porque o teorema supõe também
outros conhecimentos mais simples, os quais possivelmente Tales não
tivesse. Por isso, melhor é supor que Tales se tenha valido de sua
experiência adquirida em cálculos práticos.

A Cosmologia de Tales

Na época de Tales, os gregos – através de sua mitologia – consideravam


os elementos da Natureza (o Sol, a Terra, o Céu, o Oceano, as
Montanhas, etc.) como forças autónomas, honrando-os como deuses,
elevados pela fantasia a seres activos, móveis, conscientes e dotados de
sentimentos, vontades e desejos. Estes deuses constituíam-se na fonte e
na essência de todas as coisas do universo.
Tales foi um dos primeiros pensadores a discordar dessa religião
vigente, cujos princípios eram ditados pela percepção que os
homens captavam através de seus sentidos.
O ponto de partida da teoria especulativa de Tales – como

19
também de todos os demais filósofos da escola Jónica – foi a
verificação da permanente transformação das coisas umas nas
outras e sua intuição básica é de que todas as coisas são uma só
coisa fundamental, ou um só princípio (arché).
Dos escritos de Tales, nenhum deles sobreviveu até nossos dias. Suas
ideias filosóficas são conhecidas graças aos trabalhos de Diógenes
Laércio, Simplício e principalmente Aristóteles.
Em sua obra - Metafísica, Aristóteles nos conta: ―Tales diz que o
princípio de todas as coisas é a água, sendo talvez levado a
formar essa opinião, por ter observado que o alimento de todas as
coisas é húmido e que o próprio calor é gerado e alimentado pela
humidade. Ora, aquilo de que se originam todas as coisas é o
princípio delas. Daí lhe veio essa opinião, e também a de que as
sementes de todas as coisas são naturalmente húmidas e de ter
origem na água a natureza das coisas húmidas”.
Em seu livro – Da Alma, Aristóteles escreve: ―E afirmam alguns que ela
(a alma) está misturada com o todo. É por isso que, talvez, Tales
pensou que todas as coisas estão cheias de deuses. Parece
também que Tales, pelo que se conta, supôs que a alma é algo que
se move, se é que disse que a pedra (imã) tem alma, porque move o
ferro‖.
Esse esforço de investigação de Tales no sentido de descobrir uma
unidade, que seria a causa de todas as coisas, representa uma
mudança de comportamento na atitude do homem perante o cosmos,
pois abandona as explicações religiosas até então vigentes e busca,
através da razão e da observação, um novo sentido para o universo.
Quando Tales disse que todas as coisas estão cheias de deuses, ou
que o magnetismo se deve à existência de “almas” dentro de
certos minerais, ele não estava invocando as palavras deus e
alma, no sentido religioso como as conhecemos actualmente, mas
sim adivinhando intuitivamente a presença de fenómenos
naturais inerentes à própria matéria.
Embora suas conclusões cosmológicas estivessem erradas podemos

20
dizer que a Filosofia começou então com Tales, que ao estabelecer a
proposição de que a água é o absoluto, provoca como consequência o
primeiro distanciamento entre o pensamento racional e as percepções
sensíveis.

Contos

Plutarco disse que Tales certa vez olhando para o céu, tropeçou e
caiu, sendo repreendido por alguém como lunático: analisava o
tempo para descobrir que haveria uma seca, com a qual ganhou
dinheiro.
Usando seu conhecimento astronómico e meteorológico
(provavelmente herdado dos babilónios), Tales previu uma
excelente colheita de azeitonas com um ano de antecedência.
Sendo um homem prático, conseguiu dinheiro para alugar todas
as prensas de azeite de oliva da região e, quando chegou o verão,
os produtores de azeite tiveram que pagar a ele pelo uso das
prensas, o que levou-o a ganhar uma grande fortuna com esse
negócio.
Quando perguntaram a Tales o que era difícil, ele respondeu:
―Conhecer a si próprio‖. Quando lhe perguntaram o que era fácil,
ele respondeu: ―Dar conselhos‖.
Terramotos - Foram explicados por Tales como flutuação pouco
firme da terra sobre a água que a sustenta nos fundamentos. Diz
um texto, cujo informe deriva da tradição de Teofrasto, através da
escola estóica de Possidónio: "Porque diz Tales, que o mundo está
apoiado sobre a água, e que ela viaja como navega ao modo de
navio, e que ela flutua movente". O terrífico fenómeno do
terramoto, que as narrativas míticas apresentavam como punição
divina, passa, a partir de Tales, a ter uma explicação racional,
ainda que com falta de acerto. A explicação de Tales significa ao
menos um bom começo. Estimulado certamente por esta teoria,
Anaximandro tentará outra melhor.

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Principais Fragmentos

―... A água é o princípio de todas as coisas...‖. - ―... Todas as coisas estão cheias de
Deuses...‖. - ―... A pedra magnética possui uma alma porque move o ferro...". - “... A
alma é uma natureza sempre em movimento, ou que se move por si mesma...". - ―...
Deus é o mais antigo dos entes, porque ele é por si mesmo...‖. - ―...O mundo é isto,
que de mais belo existe, porque ele é a obra de Deus...‖. - ―... O espaço é aquilo, que de
maior existe, porque ele contém tudo...‖. - ―... A mente é isto, que de mais rápido
existe, porque ela corre através de tudo...‖. - ―... A necessidade é o que há de mais
forte, porque ela tudo rege...‖. - "... O mais sábio é o tempo, porque ele descobre
tudo...".

Conclusão:

Tales, natural de Mileto, nascido no século VII mas cuja actividade se


deve processar essencialmente no século VI, não deve ter deixado qualquer
obra escrita.

Assim não é para estranhar que pouco conheçamos da sua vida e


pensamento.

O tema da filosofia de Tales é a physis. A physis é a substância


primordial, a génese das coisas existentes.

O problema colocado por Tales não é novo: é a questão das origens. O


filósofo quer saber qual é a substância que vai originar o universo.

Tales vai responder que a origem das coisas é a água. Com isto quer
dizer que é a partir da água que o universo, com tudo o que ele encerra, se
vai formar.

É de presumir que Tales tivesse traçado a evolução do universo:


simplesmente não temos informação que a documente.

O que sabemos, ainda, é que Tales afirmou que a Terra é um disco


achatado que está a boiar na água.

Podemos destacar os seguintes pontos:

Tales preocupa-se com a forma da Terra;


A Terra tem um suporte, o que lembra as raízes que prendem a Terra
ao fundo, que podemos ver nas cosmogonias;

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Quando a água, suporte da Terra, entra em agitação a Terra
estremece – é o terramoto.

O que podemos descortinar é que Tales se interessa com a forma da Terra


e pretende dar uma explicação de fenómenos que são importantes para a
Humanidade.

Outra tese de Tales diz que tudo está cheio de deuses. É uma
afirmação um pouco misteriosa para nós.

Sabemos que Tales fez pequenas experiências com o âmbar e o imane; viu
assim que havia corpos que atraíam outros corpos (é possível que estas
experiências sejam anteriores ao filósofo).

É provável que com estes dados Tales chegasse à seguinte conclusão: há


forças nos objectos e essas forças são deuses. Se assim é podemos concluir
o seguinte:

Os deuses estão à nossa volta, ou seja, estão em todo o lado;


Esta concepção insere-se no quadro do politeísmo grego mas há
inovação na medida em que os deuses estão mais próximos do
Homem.

Tales ficou famoso por outras actividades. Interessou-se pela matemática


mas não se conhecem os seus progressos.

Faz a previsão de um eclipse em 585 mas hoje pensa-se que Tales podia
prever a data mas não o lugar onde ele era visível. É muito provável que
Tales tivesse tido acesso às tábuas astronómicas dos babilónios, o que
demonstra a sua grande curiosidade.

Terminamos com a interessante explicação das cheias do Nilo. Tales


afirmou que os ventos etésios, em determinada altura do ano, sopram em
direcção à embocadura do Nilo dificultando a entrada das águas do rio no
Mediterrâneo: sendo assim o rio transbordaria para as suas margens,
provocando as inundações.

Hoje sabemos que a explicação de Tales não é exacta; o que é exacto é o


espírito da explicação dada pelo filósofo.

23
Anaximandro de Mileto

O Apeiron

Anaximandro ,segundo filosofo da escola jónica, natural de Mileto. Foi


geógrafo, matemático, astrónomo e político. Escreveu um livro, Sobre
a natureza, que se perdeu. Autor do primeiro mapa da história e
iniciador da astronomia. Afirmou que a origem de todas as coisas
seria o Apeiron, o infinito. O mundo se dissolveria nele também. É
apenas um mundo dentre muitos. Ao contrário de Tales não deu à
gênese um carácter material. O Apeiron é eterno e indivisível,
infinito e indestrutível. O princípio é o fundamento da geração de
todas as coisas, a ordem do mundo evoluiu do caos em virtude deste
princípio.

Supôs a geração espontânea dos seres vivos e a transformação dos


peixes em homens. Anaximandro imaginava a terra como um disco
suspenso no ar. Diz-se também, que preveniu o povo de Esparta de um
terramoto.

Vida - Filho de Praxíades e discípulo de


Tales, 14 ou 24 anos mais jovem que o
mestre, mas ambos morreram mais ou
menos no mesmo ano. Nasceu na Cidade
de Mileto em 610 a. c.. Segundo Diógenes
Laércio, Anaximandro tinha 64 anos por
ocasião da 58ª olimpíada (547 a..c.) e logo
depois morreu, é possível fixar, que
efectivamente faleceu cerca de 545 a..c.
Esta informação coincide com a de

24
Hipólito sobre o nascimento no terceiro ano da 42ª olimpíada (610
a.e.c.).

Diodoro de Éfeso, ao escrever a respeito de Anaximandro, diz que


[Empédocles] o imitava no gesto e no uso de vestes solenes"

1. Como se sabe, Empédocles de Agrigento, da escola jónica nova, fora


um filósofo festejado ao mesmo tempo como atleta olímpico. Sendo-lhe
uma geração posterior, a comparação deve ser apenas de fundo
histórico, por conta de quem a fez. Além disto, Anaximandro foi político,
professor, administrador e construtor de relógios solares, há que diga
que ele foi o inventor dos Gnômons (Relógios Solares), mas é uma teoria
bastante discutível uma vez que os gregos adoptaram essa tecnologia
além das doze horas do dia dos babilónicos. Mas de qualquer forma, foi
Anaximandro quem introduziu os Gnômons na Grécia.

Previsão de um Terramoto Fez a previsão de um terramoto.


Anaximandro foi até Lacedemonia e aconselhou o exército espartano a
abandonar a cidade, segundo
testemunho de Cícero a
cidade inteira foi destruída. A
previsão do terramoto de
Anaximandro deve ter
acontecido pela experiência a
respeito uma vez que Mileto
estava dentro de uma zona
sísmica.

Diógenes Laércio afirma que


Anaximandro foi o primeiro a
definir um perímetro da terra e
do mar. Além de construir um
mapa da terra habitada, que foi
aperfeiçoada posteriormente
por Hecateo de Mileto. Seu
mapa-múndi foi um desenho circular, em que as regiões conhecidas
(Ásia e Europa) formavam segmentos aproximadamente iguais e todo ele
rodeado pelo oceano.. Os conhecimentos geográficos de Anaximandro se
baseavam nas notícias de navegantes que seriam abundantes e
variadas em Mileto, centro comercial e de colonização.

A Tradição considera Anaximandro, antes de tudo, um filósofo,


sucessor e discípulo de Tales, cuja filosofia devemos interpretar
como um desenvolvimento interno do racionalismo de seu mestre.
Anaximandro desenvolveu, como crítica a filosofia de Tales, as ideias
filosóficas seguintes:

25
a) O Apeiron. Segundo as fontes procedentes de Teofrasto,
Anaximandro havia afirmado que o principio de todas as coisas
existentes não é nenhum de os denominados elementos (água, ar,
terra, fogo), se não alguma outra natureza Apeiron [indefinido o
infinito];

b) O cosmos. Do centro do Apeiron eterno se agrega espécies de


elementos, sem determinações, principalmente sem qualidades
contrárias Este cosmos é dinâmico e temporal que tem sua origem e
seu fim no Apeiron.

c) A diversidade de mundos. Todas as fontes procedentes de


Teofrasto (Simplício, Hipólito e Ps. Plutarco) atribuem a
Anaximandro ideia de mundos infinitos (simultâneos e
sucessivos).

Em Anaximandro encontramos um problema semelhante ao de Tales de


Mileto, pois em ambos pensadores as actividades científicas e filosóficas
recaem na mesma pessoa subjectiva. Anaximandro poderia ser
interpretado do ponto de vista científico como uma espécie de
cosmólogo, do mesmo modo que Tales poderia ser interpretado como
um fisiólogo ou biólogo. Mas a cosmologia de Anaximandro, é igual a
physis de Tales e está coberta por ideias filosóficas. As ideias de
Anaximandro (o Apeiron, o cosmos, a dinâmica e temporalidade do
mundo) só adquirem uma escala adequada ao compará-las como um
desenvolvimento interno dos problemas presentes no racionalismo de
Tales, de tal modo que se poderia afirmar que muitos de suas ideias
científicas estão cumprindo funções ontológicas, só podem ser
entendidas por meio de suas ideias filosóficas.

O Apeiron

O cosmos

A Multiplicidade dos mundos

O Apeiron - Segundo fontes de Teofrasto e os textos de Aécio e D.


Laércio, o Apeiron é o conteúdo da arché (origem de toda a
matéria). A ideia de Apeiron é crítica-negativa, que não pode ser
definida positivamente. Esta negação está contida em seu significado
etimológico. O termo Apeiron está composto da partícula privativa a e o
término péla (limite, borda). Etimologicamente Apeiron significa sem
limites.

A ideia de Apeiron
pode adquirir

26
diferentes sentidos negativos segundo os diferentes parâmetros que
fizermos para o limitado. Assim, se tomamos como parâmetros o
limitado dos objectos concretos do mundo das formas (exemplo, uma
lâmina metálica, uma cinta), Apeiron será o que não tem bordas ou
extremos, porque se uniu a um anel. Aristóteles e Aristófanes
apontaram a associação do Apeiron com algo circular ou esférico,
círculo pode ser tomado, por sua vez, como referencia do limitado
(exemplo: cosmos esférico limitado por uma superfície imersa em um
espaço vazio), e, então o Apeiron seria uma esfera de raio infinito, sem
limites. o Apeiron seria, pois, o circulo, o infinito em extensão espacial.

Se tomarmos como modelo de limitado a água de Tales em quanto


determinação do arché, então o Apeiron de Anaximandro será a
negação que, em seu uso filosófico, se exerce sobre a metafísica
de Tales. A água de Tales sim é algo determinado não pode ser
arché. O Apeiron aparece assim como uma alternativa ao
monismo da substância e, por onde, não pode ser nem água nem
nenhum dos denominados elementos (ar, terra, fogo).

No racionalismo de Tales o arché aparece sempre determinado nas


formas do mundo. A unidade destas formas é a unidade das
transformações mutuas unidade por identidade. O racionalismo de
Tales unido a redutibilidade de algumas formas a outras (o mesmo que
o bem e o mal, os gregos e bárbaros, os amos e os escravos, etc.). Agora
o projecto de Tales começaria a perder-se quando as formas do mundo
começam a mostrarem-se como irredutíveis: os opostos estão separados
por fronteiras intransponíveis, ao menos de um modo directo. Contudo,
Anaximandro conservaria o grupo de transformações de Tales, mas não
de um modo directo, porém imediato.

A transformação de coisas em outras está mediada pelo Apeiron.


O Apeiron nos apresenta assim como a fonte inesgotável de
energia que garante a transformação da unidade do cosmos. São
duas as características do Apeiron de Anaximandro: Infinito e
Indeterminado. Em quanto infinito o Apeiron é fonte de energia e
movimento para que no mundo não cesse a geração e declínio; Mas,
além disso, o Apeiron não é nenhum dos denominados elementos
(água, ar, fogo, terra), porém algo indeterminado. Esta
indeterminação é relativa ao mundo gerado em seu ventre como um
embrião na placenta. Anaxímenes, o discípulo de Anaximandro,
conservará de seu mestre a concepção do arché, mas já não será
indeterminado como em Anaximandro e sim algo determinado: o ar.

É de suma importância determinar as razões que levaram Anaximandro


a opor-se ao projecto racionalista de Tales, em termos de discussão
interna, própria da Escola. Quais são as razões que levaram
Anaximandro a estabelecer a tese de que o arché infinito não pode
ser algo determinado, não pode ser nenhum dos denominados
elementos? Segundo Gomperz, o grupo de transformações não pode

27
servir para explicar a transformação de algumas coisas em outras.
Assim, por exemplo, o ar para converter-se em fogo por rarefação
(aumento de volume), necessita esquentar-se; As nuvens ao condensar-
se se convertem em água, mas para elas necessitam esfriar-se, etc.

Mas o argumento decisivo é que a condensação e rarefação implicam na


limitação do mundo. E se o mundo é finito então nenhuma de suas
partes, nenhuma determinação, pode ser elevada a categoria de arché
infinito. Mas porque a condensação e rarefação implicam no limite do
mundo? Se partirmos da hipótese de que o mundo é infinito, e dizer,
que o mundo é composto de infinitas partes [A, B, C,........], então
cabem duas possibilidades:

1. Cada parte é algo determinado e finito; mas


neste caso a parte se desintegraria na
infinidade de transformações;
2. A parte ou determinação é algo infinito, mas
então nunca se transformaria em outra
parte, pois por mais que condensemos o fogo,
sempre obteremos fogo, etc.

Por reductio ad impossibilem se estabelece a tese de que o mundo das


formas é um mundo finito. Logo se é possível a transformação em
mundo das formas, Tanto que elas se absorvem em um Apeiron
indeterminado. A crítica directa a Tales leva a estabelecer como
primeiro principio o arché algo indeterminado.
A interpretação do arché como infinito e indeterminado, do Apeiron
como aquele em que todas as formas do mundo, e em particular os
opostos, se reabsorvem, como fonte inesgotável de energia que garante
a transformação e unidade do cosmos, indica o caminho feito pela
ontologia geral.

E, sem embargo, também é possível a interpretação do Apeiron nos


limites da ontologia especial. As fontes de Simplício, Ps. Plutarco,
Hipólito, Aécio, etc. Nos informam que o Apeiron não é nenhum dos
denominados elementos, mas ao mesmo tempo nos dizem que o Apeiron
é o princípio de todas as cosais existentes. Neste caso o Apeiron não é
nenhum elemento determinado mas indeterminado, em que as
determinações se apagam e desaparecem. Alguns textos de Aristóteles
nos apresentam o Apeiron como uma substancia intermediária, entre
todos os elementos, Uma mescla indiferenciada de todas as matérias
empíricas.

28
O Cosmos - A segunda ideia de Anaximandro, que chega aos nossos
dias é a ideia de cosmos. o termo kósmo se traduz geralmente por
―mundo‖ e por ‖natureza‖ (no contexto de ―mundo natural‖). Na
evolução semântica do termo kósmo pode-se distinguir os seguintes
estados:

a) Seu significado etimológico é ―ordem ou disposição‖ de certa coisa


(por exemplo, uma tropa de cavalos) e no de ―ornamento‖ (por exemplo,
o ornamento feminino, de onde provém cosmética). Segundo Heidegger,
este segundo significado deve interpretar-se como beleza, noção ligada
transcendentalmente a ideia de ser.
b) Ordem do mundo;
c) O Mundo como uma ordem;
d) O Mundo em geral sem especial referencia à estrutura ordenada 12.

Anaximandro havia efectuado o passo de (a) a (b) ou (c). Este passo só é


possível através da experiência ou representação de uma ordem
concreta no primeiro sentido de (a). Mas o que é ordenação concreta?
Este se refere ao problema dos modelos (sociais, políticos, militares, ou
tecnológicos) da ideia de cosmos. Para Paul Vernant, o cosmos de
Anaximandro seria o emblema da nova polis democrática em que o
príncipe o monarca havia sido substituído pelo equilíbrio de forças
democráticas que se contrapesam em torno a um centro: o àgora.

Mas, além dos modelos sociopolíticos de este tipo, existem também os


modelos tecnológicos que parecem gozar de una maior potência
explicativa. Esta interpretação foi sugerida por Gomperz. A experiência
tecnológica da roda seria a corrente de transmissão para construção da
ideia de cosmos. Assim, por exemplo, Anaximandro assina trajectórias
circulares aos astros, enquanto corpos isolados, mas enquanto
fragmentos de rodas de fogo envoltas em uma espécie de câmara de ar.
A roda nos apresenta assim como esquema inteligível de continuidade
ou conservação dos astros. Em todo caso o ágora pode ser considerado
como um reforço do conceito de roda.

Na geração deste cosmos, o gérmen do quente e frio foi segregado do


eterno . A geração do cosmos a partir do Apeiron se produz não por
alteração do elemento, mas ao separar os opostos: quente/frio,
seco/húmido. O essencial do Apeiron de Anaximandro não é que se
determine nos elementos e sim em uma ordem de elementos, formando
um cosmos, mas um cosmos enantiológico, um sistema de oposições. O
cosmos de Anaximandro é a unidade metafísica do mundo das formas,
mas esta unidade se realiza de um modo diferente como ocorria no
mundo de Tales. O monismo da substancia de Tales unidade do mundo
é a unidade própria das formas que desaparecem umas em outras. Em
troca, o monismo da ordem de Anaximandro, a unidade do cosmos é a
unidade das formas que aparecem: não de outras, mas do Apeiron. O
cosmos é, pois, a unidade que as formas devem manter para subsistir

29
como tais formas. Esta unidade é já um conceito M3, que no se absorve
em nenhum corpo (M1), nem em nenhuma mente (M2).

O cosmos enantiológico forma um sistema de relações, uma estrutura,


que se realiza em todos os campos, sobre todo o elo astronómico. Neste
sentido Anaximandro, antecipando-se aos pitagóricos, é o primeiro em
iniciar a análise matemática da natureza, estabelecendo relações
numéricas entre os corpos celestes e o raio da Terra tomado como
unidade:

 Relaciones do raio da Terra com sua altura (a


altura é igual a um terço do diâmetro);
 Relações da distância entre anéis com o raio
terrestre (o anel das estrelas e dos planetas
em 9 raios, da lua 18 raios, e o anel do sol
em 27 raios).

O cosmos de Anaximandro é um sistema de relação temporal, pois a


partir de onde há geração para as coisas, há ali também a produção da
destruição, segundo a necessidade de acordo com a disposição do
tempo. A dinâmica do cosmos se desenvolve conforme duas fases: a
primeira é a formação do cosmos a partir do Apeiron, a segunda fase é a
do retorno de todas as coisas ao Apeiron. O cosmos é um sistema de
relação temporal, pois seus términos não procedem de si mesmos (da
transformação de uns em outros), e sim do Apeiron. Anaximandro
explica a formação do cosmos a partir do Apeiron em duas etapas: Na
primeira etapa se explica a formação da Terra. Na segunda serão a da
formação das Esferas os anéis.

Do ventre do Apeiron eterno se segrega um gerador do calor e do frio.


Frio e calor são o primeiro par de opostos. O calor dá lugar ao fogo a
massa ígnea que rodeia totalmente o frio como casca e fruta. Esta
esfera ígnea tem um movimento circular. O frio por sua vez se
determina em outro par de opostos: o sólido e o húmido. O sólido dá
lugar a Terra. O húmido se determina em líquido (água) e gasoso (ar).
Os quatro elementos (fogo, terra, água e ar) que formam nosso cosmos
foram gerados — segundo a disposição do tempo — a partir das
qualidade opostas.

Formação da Terra. o movimento circular da esfera ígnea dá lugar a


um redemoinho que origina a Terra a partir do frio. A terra tem forma
cilíndrica, como uma coluna de pedra e o homem habita uma de suas
superfícies planas. A altura da Terra é um terço de seu diâmetro no
princípio, a Terra está rodeada de água (de humidade) por todas as
partes, mas o calor do fogo transforma parte da água em ar, e o resto se
converte em mar, caindo livre parte da terra que, sem embargo,
propende a secar-se completamente: o mar é um resíduo da humidade
primitiva. Depois uma parte da humidade se evaporou por causa do sol
e se converteu em ventos; enquanto a parte que cai nos lugares ocos da

30
terra, é mar. Que por ser secado pelo sol, diminui e acaba secando. A
Terra está no centro do universo, suspendida livremente, sem estar
sustentada por nada, movimentando-se em um espaço infinito, este
movimento acaba neutralizado, pois, por estar no centro, as forças de
atracão que actuam desde os distintos lugares da abóbada se
compensam entre si. Assim, pois, a Terra tem que permanecer em seu
lugar. Anaximandro parte da ideia de movimento e deduz dela o
repouso da Terra.

Formação das esferas. A cobertura ígnea rodeia e tudo mais se


desgarra para formar anéis separados. Este rompimento se produz por
causa do movimento da própria esfera ígnea ou, também, porque a
massa gasosa ao aquecer penetra na esfera ígnea. Estes anéis estão
envoltos por uma massa atmosférica opaca e obscura; mas apresentam
orifícios ou aberturas através dos quais brilha o fogo que aprisionam. O
que nós denominamos corpos celestes não são outra coisa que o fogo
que nós percebemos através destes orifícios. A obstrução destes orifícios
produziria segundo Anaximandro, os eclipses e as fases da lua. Existem
três classes de anéis: o do sol, o da lua, e dos planetas e estrelas fixas.
O sol é o maior (distante da Terra 27 raios), depois o da lua (18 raios)
seguido das estrelas fixas e dos planetas (9 raios).

Origem dos animais e do homem. Anaximandro enuncia uma tese


evolucionista, mediante generatio aequivoca, sobre a origem dos
animais. Os primeiros animais surgem da lama que se vai secando
mediante o calor do sol e estavam recobertos de uma pele ouriçada e
espinhosa para proteger-se do mundo circundante Com ele enuncia
uma tese lamarquista-darwinista da defesa das espécies frente a seu
meio ambiente e da troca da forma das espécies em virtude das
mudanças produzidas nesse meio. As mudanças das condições de vida
(a mudança fazia o elemento seco) ocasionam o desaparecimento da
casca que rodeava estes seres.

Por outra parte, os homens e mulheres primitivos nasceram já adultos.


Na lama esquentada pelo sol se originaram uns poucos peixes ou
animais semelhantes aos peixes em cujo interior se haviam
desenvolvido os homens que permaneceram ali até o amadurecimento.
Anaximandro fundamenta esta tese no seguinte: se o homem houvesse
chegado ao mundo na forma que chega actualmente, não haveria
sobrevivido. A argumentação de Anaximandro deveria ser a seguinte:

1) Todos os seres podem valer-se por si mesmos ao nascerem, excepto o


homem que necessita, ao crescimento, de um grande período de
cuidados maternos.

2) Os primeiros homens necessitariam de uma protecção especial


(biológica) que substituiria os cuidados maternos actuais.

31
3) Se houvessem tido essa protecção, a espécie humana não teria
resistido.

4) Mas a espécie humana resistiu.

5) Logo os homens primitivos não chegaram ao mundo na forma que


chegam actualmente.

A dinâmica do cosmos em sua segunda fase consiste no retorno de


todas as coisas ao Apeiron. O próprio sistema conduz a sua destruição e
absorção no
Apeiron.

Os anéis de
fogo, e do sol
particularmente
, enquanto gira
vão
determinando
uma evaporação
da água
terrestre, que
terminará por
secar a terra (sufocando a vida que há nela) e assim acabará com o
próprio ar que envolve os anéis. Produzir-se-ia assim uma espécie de
morte térmica do universo. Em termos mais modernos, se poderia dizer
que o cosmos de Anaximandro leva em seu ventre a morte entrópica,
seu desaparecimento pela conversão de todo o calor, em fogo.

O cosmos de Anaximandro é um equilíbrio — uma ordem, uma entropia


mínima, mas um equilíbrio instável, porque não há perfeita e constante
retribuição (segundo o critério do racionalismo de grupo) de uns
términos a outros. Por ele diz Anaximandro que o mundo é injusto e por
ele (segundo o texto de Simplício) as coisas voltam de novo ao Apeiron
segundo a ordem do tempo

A Multiplicidade dos Mundos - A dinâmica do cosmos de


Anaximandro nos mostra que este tem um começo e um fim. O Apeiron
apresenta dialecticamente no princípio e no fim do cosmos. Mas o
principio é diferente da ideia do Nada e de criação, e no fim significa
aniquilação. Por ele o Apeiron nos apresenta como a conjunção de duas
impossibilidades:

1. A impossibilidade de um cosmos eterno;


2. A impossibilidade da criação e aniquilação.

32
Se o cosmos não é eterno e a aniquilação desse cosmos não é possível,
então o fim do cosmos tem que dar origem a novos mundos.
Anaximandro concebe o Apeiron fora do tempo, mas integramente
orientado no cosmos. O cosmos em que estamos começa e acaba, e o
Apeiron dá lugar a novos mundos que começam e acabam. Mas a
multiplicidade dos mundos pode ser entendida como simultânea ou
como sucessiva. Defendem a pluralidade simultânea Santo Agostinho,
Burnet, W. Capelle, e outros, sobre tudo Kirk e Raven ao manifestar
que, em caso de atribuir a multiplicidade de mundos a Anaximandro,
observação de nosso mundo sugere mais a pluralidade simultânea (a
multiplicidade dos astros) que a sucessiva. Defendem a multiplicidade
sucessiva de mundos Zeller e Cornford (Principium Sapientiae) quem
demonstraram a falácia de muitos dos argumentos de Burnet e
conseguiram que a interpretação de Zeller desfrutasse do favor geral.

O principal problema que questiona a pluralidade dos mundos é sua


compatibilidade com o monismo, e Santo Agostinho não deixou de
contrapor o pluralismo de Anaximandro e o monismo de Tales, pois
acreditava (Anaximandro) que o princípio das coisas singulares era
infinito e dava origem a mundos inumeráveis. Efectivamente, se o
Apeiron dá origem a infinitos mundos coexistentes no tempo
(simultâneos), então não é possível incluir Anaximandro no monismo
milesiano. A unidade do Apeiron implica na unidade do cosmos, mas
esta unidade chocar-se-ia com a multiplicidade simultânea de mundos
singulares. Para tanto a pluralidade de mundos coexistentes romperia a
unidade do Apeiron em quanto esta se funda por referencia al cosmos.
Sem embargo a multiplicidade sucessiva de mundos se parece
compatível com o monismo, pois a unidade do Apeiron se mantém por
referência a singularidade de cada mundo. A sucessão infinita de
mundos pode ser entendida de duas maneiras:

1. Como continuidade cósmica. A sucessão


entre dois mundos é uma continuidade
cósmica. Mas se a sucessão entre dois
mundos se mantém no plano cósmico então
existe uma continuidade de cosmos. Isso
conduz à tese de que, em realidade, não
existe propriamente uma pluralidade nem
sucessiva nem simultânea de mundos (ideia
de continuo que havíamos atribuído a Tales
de Mileto).
2. Como hiatos acósmicos (metakósmia).
Entre mundo e mundo existiriam hiatos
extracósmicos (Apeiron). A ideia de inter-
mundia (metakósmia) é uma ideia limite de
cosmos, que não podemos conhecer em si e
por isso nos apresenta como indeterminado.

33
Mas a Ideia de metakósmia tampouco é incompatível com a de
simultaneidade, no caso de que a multiplicidade de mundos isolados
constitui um cosmos que tem como limite a ideia de meta cosmos.

O Fragmento de Anaximandro

"O ilimitado é a origem dos seres. E a fonte da geração das coisas existentes é
aquela na qual a destruição também acontece [segundo a necessidade
porquanto pagam castigo e retribuição uns aos outros, pela sua injustiça,
de acordo com o decreto do tempo] como ele se exprime, nestes termos um
tanto poéticos." (Trad. M. H. Rocha Pereira)

Conclusão:

Anaximandro, natural de Mileto, ficou famoso na Antiguidade por ter


desenhado um mapa. Foi um companheiro de Tales, mais jovem do que este.

Anaximandro escreveu um livro, em prosa e cujo título é Acerca da


Natureza. Tudo isto merece algumas considerações.

O título não é de completa confiança: é possível que o título original se


perdesse e mais tarde se atribuísse esta designação genérica às obras dos pré-
socráticos. Mas é interessante notar-se que, mesmo que o título seja
posterior, ele corresponde ao domínio tratado pelo filósofo.

É relevante o facto de Anaximandro ter escrito um livro em prosa.

Em primeiro lugar o pensamento de Anaximandro torna-se público, isto é,


pode ser abordado por quem tenha curiosidade para tal. É uma atitude que
acompanha, quase sempre, a Filosofia.

Em segundo o facto de o livro ser em prosa mostra uma audácia da parte de


Anaximandro. O universo cultural é dominado pela poesia no tempo do
filósofo.

Escrever em prosa era abandonar os padrões mais elevados e, em


contrapartida, Anaximandro conferia à prosa a dignidade de poder constituir o
veículo do saber.

34
Vejamos agora a doutrina de Anaximandro.

O filósofo debruçou-se sobre o mesmo problema do seu antecessor: o que é a


physis? E Anaximandro dá a resposta: a substância primordial é o apeiron.

O termo Apeiron aparece na linguagem vulgar grega: nela significa algo sem
limites, inacabado e por isso não é perfeito ou belo. Porém, para
Anaximandro o termo embora conserve o sentido de qualquer coisa sem
limites tem uma dignidade que não possui na linguagem vulgar.

A substância primordial para Anaximandro é algo sem limites e


indeterminada. Esta última característica é fundamental para se
compreender o que é o Apeiron. Este não é uma substância determinada
como a água, por exemplo, mas também não é uma mistura de substâncias. Se
fosse uma substância determinada destruiria todas as outras, na medida em
que a physis é infinita.

É importante assinalar que a substância primordial é increpada e


imperecível: temos aqui patente a importância e a dignidade do Apeiron que
existe desde sempre e existirá para sempre.

Indiquemos igualmente a identificação da Divindade com a substância


primordial; a este respeito façamos as seguintes observações:

As características do Apeiron são tão importantes que são dignas para


aplicar à Divindade;
Se a Divindade é a substância primordial não é antropomórfica o que
mostra a inovação introduzida por Anaximandro.

O filósofo está interessado na génese do Universo e sobre este tema temos


alguma documentação, embora escassa.

Para Anaximandro, em determinada altura, separou-se do apeiron uma


massa capaz de produzir o quente e o frio; em seguida a parte fria ocupa o
centro e a quente vai envolvê-la.

Ora, é esta situação que vai provocando a secagem, progressiva, da parte


fria e a evaporação vai ter como resultado a fragmentação da esfera de fogo.

A arquitectura do universo de Anaximandro é a seguinte:

35
A Terra tem uma forma cilíndrica;
A Terra está imóvel, no centro, sem necessitar de qualquer suporte
porque está equidistante de todos os outros pontos;
os astros são constituídos por rodas ou anéis (das estrelas, da Lua e do
Sol) cheias de fogo, envoltas por uma película opaca e com aberturas
pelas quais sai a luz.

A maior ou menor obstrução dos orifícios explica os eclipses e as fases da


Lua. Esta explicação é relevante pois mostra que Anaximandro dá resposta a
fenómenos particulares inserindo-os numa teoria geral.

No que diz respeito ao tema das origens façamos, ainda referência à dos
seres vivos. Segundo Anaximandro os seres vivos nasceram da lama e nos
primeiros tempos, devido à escassez de terra firme, eram peixes ou
semelhantes aos peixes.

O homem foi idêntico aos outros seres e em determinada altura veio para
terra firme e perdeu a sua carapaça espinhosa. Podemos fazer as seguintes
observações:

Os seres vivos não tiveram sempre o mesmo aspecto, atravessaram


uma certa evolução;
Há uma adequação entre os seres vivos e o ambiente.

Deixemos para o fim o fragmento de Anaximandro, as primeiras palavras de


um filósofo que chegaram até nós. Vamos transcrevê-lo no contexto do
comentador (Simplício) que o conservou:

"O ilimitado é a origem dos seres. E a fonte da geração das coisas


existentes é aquela na qual a destruição também acontece [segundo a
necessidade porquanto pagam castigo e retribuição uns aos
outros, pela sua injustiça, de acordo com o decreto do tempo]
como ele se exprime, nestes termos um tanto poéticos." (Trad. M. H.
Rocha Pereira).

36
As palavras de Anaximandro estão entre parênteses rectas.

Numa primeira leitura e seguindo a letra do fragmento podemos concluir que


se trata de um quadro ético-jurídico: termos tais como castigo, injustiça,
decreto do tempo parecem indiciar esta interpretação.

Todavia, podemos perguntar se fará sentido que coisas inanimadas, por


exemplo, cometam qualquer injustiça e por isso tenham de ser castigadas. É
provável que Anaximandro utilizasse termos poéticos, como diz Simplício,
para descrever um determinado quadro. O filósofo poderia querer dizer que a
noite para surgir necessitava que o dia desaparecesse assim como a uma
estação sucedia outra.

O que queremos afirmar é que as coisas actuais não permitem o


aparecimento de outras e é necessário que essas desapareçam para que
outras venham à existência. E é também muito possível que este universo,
segundo Anaximandro, um dia seja destruído para outro se formar.

Assinalemos, por fim, que para o milésio o universo é regido por normas (os
decretos do tempo); é um universo regido pela necessidade e não pelo acaso.

37
Anaxímenes de Mileto

O Ar

Anaxímenes de Mileto é o terceiro e último importante filósofo da escola


jónica antiga, no quadro ainda da fase Milesiana.

Embora pouco se saiba de sua vida, ele é contudo citado com


frequência para dizer que foi sua a proposição do ar como elemento
básico na formação de tudo.
Dedicou-se à meteorologia, foi o primeiro a considerar que a lua recebe
a luz do sol. Era companheiro de Anaximandro. Hegel diz que
Anaxímenes ensina que nossa alma é ar, e ele nos mantém unidos,
assim um espírito e o ar mantém unido o mundo inteiro. Espírito e ar
são a mesma coisa.

A substância Primordial volta a ser uma coisa determinada como em


Tales. Anaxímenes identificou o ar talvez porque tenha visto seu
movimento incessante, e que a vida e o ar andam juntos, na
maioria dos casos. A respiração é um processo vivificante,
dependemos dela durante toda a nossa vida. Ele via que no céu
existem nuvens, e que a matéria possui diferentes graus de
solidez.

Vida - Anaxímenes de Mileto, filho de Eurístrato, foi discípulo de


Anaximandro. Nasceu quando Anaximandro tinha 25 anos,
possivelmente no ano 585 a.C., no mesmo ano do eclipse predito por
Tales. Anaxímenes nasceu, quando Mileto ainda era florescente cidade
independente e liderava as cidades da confederação jónica. Sardes,
capital do reino Lídio, fora conquistada mais cedo pelos persas em 546
a.C. e também mais cedo foi destruída. Mileto, ainda por algum tempo,
continuou próspera, mesmo quando reduzida à parte da satrapia persa
instalada com domínio sobre toda a Jónia.

38
O verdadeiro significado de Anaxímenes está em haver dado
continuidade à ciência e à filosofia em curso. Por Anaxímenes se
constata que a ciência e a filosofia, já nascidas, prosperam
definitivamente por fora das tradições dogmáticas mitológicas.
A influência de Anaxímenes ocorreu sobre os mais diversos filósofos,
como por exemplo Pitágoras, Melisso, Anaxágoras, Demócrito, Diógenes
de Apolónia.

Nada mais se sabe sobre sua vida e profissão. Supõe-se que escreveu
um livro pois segundo as informações de Diógenes Laércio ―escreveu em
dialecto jónico em um estilo simples e conciso‖. Vale lembrar que
naquela época os autores se utilizavam de papiros, uma vez que não
existiam livros de facto.

Restam somente três reduzidos fragmentos dos escritos de Anaxímenes


de Mileto. Estes se devem às citações feitas por Plutarco e Aécio.
"Escreveu em língua jónica, com simplicidade e sobriedade". O idioma
grego se falava em 4 dialectos básicos, o acádico, de Atenas, se tornou o
principal, sendo que o jónico, muito próximo do acádico, foi também a
língua de importantes obras. Se Diógenes Laércio avaliou o estilo de
Anaxímenes, isto pode significar que o livro do filósofo Anaxímenes de
Mileto ainda se conservava ao seu tempo. Mais provável, entretanto, é
que a informação tenha vindo através de Teofrasto, que, por sua vez,
poderia ter conhecido a obra.

De outra parte, a observação sobre a simplicidade e sobriedade do estilo


de Anaxímenes pode indicar diferença com aquele de Anaximandro, ao
qual tinha como poético.

O ar como elemento

Cosmologia

Ar como primeiro elemento na composição da matéria - O ar como


primeiro e infinito elemento. Divergindo de Tales, proponente da água e
de Anaximandro do infinito, agora Anaxímenes propõe o ar como
elemento fundamental da natureza, a partir de cuja complexificação se
formam todas as coisas, e no qual elas todas se decompõem. A ideia
fundamental continua a mesma, de que tudo se forma a partir de um
elemento primeiro, o qual subsiste por si só e é consequentemente divino.

Anaxímenes propõe como arché o ar que é um principio infinito, como o


Apeiron de Anaximandro; mas determinado, como a água de Tales. Por
isso podemos interpretar a filosofia de Anaxímenes como uma espécie
de síntese entre Tales e Anaximandro. o racionalismo de Anaximandro é
um racionalismo aberto pois a transformação de umas coisas em outras
só é possível por meio do Apeiron. Em Anaxímenes assistimos
novamente o racionalismo cercado do grupo de transformações. O ar

39
como arché substitui a água de Tales, mas por sua vez incorpora
algumas das propriedades do Apeiron de Anaximandro.

Em Anaximandro o arché é infinito e indeterminado. Para Anaxímenes


o ar, como arché, é um Apeiron (infinito), mas determinado.

Anaxímenes encontrou no ar empírico uma série de propriedades que


desempenhariam melhor que os outros elementos as funções de arché.
Por esse motivo ele não escolheu o fogo, a terra ou a água. Em primeiro
lugar l invisibilidade do ar. Segundo Hipólito 4 o ar ―quando é perfeito é
imperceptível à visão‖. O ar é infinito, mas determinado. Mas a
determinação do ar é mais abstracta a os sentidos que a água: é
invisível como o Apeiron.

O ar é infinito e “envolve todo o cosmos” pois o ar empírico parece


não ter limites, ocupa uma vasta região do mundo já desenvolvido
e penetra todas as coisas: A omnipresença extensiva do ar
empírico é maior que a da água. O ar é, além disso, um princípio
activo e em movimento (empurra os barcos, movimenta as ondas,
etc.).

Em segundo lugar o ar tem carácter divino ―Anaxímenes diz que o ar


é Deus‖ e se compara com a alma. Melhor que a água o ar constitui a
matéria adequada para o racionalismo do grupo de transformações. A
condensação e a rarefação são atribuídas por Simplício tanto a Tales
como a Anaxímenes. Além disso, segundo informações de Hipólito o ar
se manifesta distintamente ao condensar-se, se fazendo mais subtil‖. O
ar ao rarefazer-se aumenta o volume e se converte em fogo.

Ao condensar-se diminui o volume e se transforma em água e em terra.


São por tanto as mudanças quantitativas (aumento o diminuição de
volume) que produzem as diferenças qualitativas. Anaxímenes introduz
um princípio gradualista ao passo da quantidade à qualidade: natura
non facit saltus. Além do mais os dois opostos (quente e frio) que
Anaximandro extraía do ápeiron, Anaxímenes os constroem por meio da
condensação e da rarefação: comprimido e condensado é frio e rarefeito
é quente.

A partir das notícias de Simplício (as demais coisas se produzem a


partir destas substâncias) e de Cícero (Anaxímenes disse que o ar é
infinito, mas as coisas dele nascem finitas: a terra, a água, o fogo e, a
partir destas, todas as demais), Anaxímenes para explicar a formação
dos corpos compostos não necessita remontar-se ao ar como princípio,
bastando fazê-lo a partir de substâncias básicas ou elementos simples
(fogo, ar, vento, nuvens, água, terra) que compõem os demais corpos. Se
isto for verdade, Anaxímenes seria o pioneiro da ideia de elemento, já

40
que esta ideia não foi anunciada formalmente até Empédocles: conhecer
racionalmente os fenómenos não significa explicar as coisas por seus
últimos princípios (por exemplo, a partir do ar) mas a partir dos
elementos.

Cosmologia

As informações que temos da cosmologia de Anaxímenes são escassas


e, por geral, manifestam opiniões bastante ingénuas. Assim, a terra, o
sol, a lua e os demais astros ígneos cavalgam sobre o ar e são planos.
Os astros não se movem de baixo da terra, mas ao redor dela ―como gira
um chapéu ao redor de nossa cabeça‖. O sol gira ao redor da terra em
um plano horizontal e se oculta porque o cobrem as partes mais
elevadas da terra e porque aumenta a distância em relação a nós.

Em outras ocasiões suas opiniões se acercam mais da verdade que as


de seu mestre Anaximandro. Assim mantém a tese de que a lua reflectia
a luz do sol, que os eclipses do sol e de lua acontecem quando estes
corpos são ocultados por outros corpos celestes.

41
Fragmentos
I ―...O sol é largo como uma folha...".

II ―... Do ar nascem todas as coisas existentes, as que foram e as que serão, os deuses e as
coisas divinas...‖.

III ―... O Ar é Deus...‖.

IV ―... O ar contraído e condensado da matéria é frio, e o ralo e frouxo é quente. Como nossa
alma, que é ar, soberanamente nos mantém unidos, assim também todo o Cosmo, sopro e ar
mantém...''.

Conclusão:

O terceiro milésio, Anaxímenes, escreveu um livro em prosa, Acerca da


Natureza, num estilo simples, segundo testemunho que chegou até nós.

O tema principal para este pensador é o mesmo dos seus antecessores:


a physis. A substância primordial é a bruma para Anaxímenes.

O que se pode perguntar agora é o seguinte: conhecendo Anaxímenes


as críticas do seu antecessor às substâncias determinadas porque é que
o terceiro milésio escolheu a bruma? É aqui que entra uma explicação
francamente engenhosa.

Segundo Anaxímenes a substância primordial transforma-se nas


várias substâncias que vão formar as coisas através do processo de
rarefacção e de condensação. Assim, por exemplo, a bruma rarefazendo-
se ao máximo transforma-se em fogo e na condensação máxima dá
origem as pedras.

Estamos perante uma resposta subtil a um problema difícil, ou seja, a


passagem da substância primordial (neste caso determinada) às outras
substâncias.

Anotemos, ainda, que a bruma para Anaxímenes é infinita e é a


divindade suprema. São dois aspectos que vêm de Anaximandro;
acentuemos que a noção de infinito pertence ao património filosófico
milésio.

42
Segundo Anaxímenes o universo deve a sua génese ao processo de
rarefacção e condensação. Assim, surgiu a Terra, achatada, assente na
bruma, e os astros que circulam em redor da Terra são corpos ígneos.

O fragmento que chegou até nós, atribuído a Anaxímenes não merece


grande confiança devido às interpolações que sofreu. Desta forma será
mais prudente procurar o sentido geral da passagem preservada por
Écio:

A bruma é o lugar do nascimento e da destruição das coisas


existentes.

Quanto ao fragmento parece que alma de que nos fala o filosofo é vital
e sensitiva ou seja o que nós hoje chamamos vida. Desta forma parece
que a alma que o fragmento fala não é intelectual.

A bruma cerca e sustenta todo o universo, mas segundo pensamos,


Anaxímenes desejava reafirmar também o principio que a bruma é
estrutura de tudo quanto existe, é por assim dizer que a estrutura do
corpo e é ela que nos faz mover com que a actividade humana seja
possível.

A afirmação de que a alma é a bruma não nos deve espantar pois tal
ideia que nos parece constituir o sentido de todo o fragmento, é
coerente com a doutrina de Anaxímenes. De facto a substancia
primordial não é só a origem como a estrutura das coisas existentes, é
perfeitamente admissível que o milésio considerasse que a alma fosse
constituída por bruma já que o homem também sendo uma coisa
existente, deveria estar integrado na mesma substancia primordial. A
alma embora esta seja vital ou sensitiva, é algo extremamente
importante e tal como possui a dignidade de ser composta pela
substancia primordial.

Diremos apenas que há uma analogia entre a alma humana, que é


bruma, e a bruma que cerca (sustenta) o mundo. Não é para espantar
que a alma seja constituída por bruma (possivelmente no seu estado
puro) já que esta está presente em todas as coisas. A alma dá o
movimento ao corpo humano e a bruma sustenta o universo.

43
Xenófanes de Cólofon

Filósofo grego, que emigrou da Jónia para o Ocidente. Fixando-se


finalmente em Eleia, passou a ser considerado o fundador da escola do
mesmo nome. Esta se fez famosa por defender a unidade e
imutabilidade do ser, e pela reduzindo a diversidade e o
movimento às impressões subjectivas dos sentidos.

A curta biografia legada por Diógenes Laércio sobre Xenófanes é


praticamente só o que sabe a seu respeito. A partir de uma análise se
determinam mais alguns esclarecimentos.

"Xenófanes, filho de Déxio, ou de acordo com Apolodoro, de Ortomenes,


era de Colófon. Foi elogiado por Timon assim: Xenófanes, não altivo,
castigador com homéricos embustes.

Foi banido de sua cidade natal. Viveu em Zancle, e em Catânia.


Segundo alguns, não foi discípulo de ninguém; segundo outros foi
discípulo de Boton de Atenas, ou como dizem alguns, de Arquelao.
Socion o fez contemporâneo de Anaximandro. Seus escritos são em
metro épico, como elegias e Jambos, contra Hesíodo e Homero,
denunciando o que eles diziam sobre os deuses. Ele mesmo cantava
seus versos.

Diz-se ainda que se opôs às opiniões de Tales e Pitágoras, e atacou


também a Epimênides. Atingiu uma longa idade, como testemunhou
por suas próprias palavras: Sessenta e sete são agora os anos em que
me agito em cuidados pela terra grega; antes já eram passados outros
vinte e cinco anos, se ainda sei dizer a verdade a cerca disto" (D. L., IX,
18-19).

Depois de se referir às suas doutrinas, retoma Diógenes Laércio as


informações biográficas: "Xenófanes escreveu dois mil versos sobre a
fundação de Altabosco [Colófon] e a colonização de Elea na Itália.

44
Floresceu na sexagésima olimpíada 540-537 a.e.c. Lê-se também em
Demétrio de Falera, no Tratado da velhice, e em Panécio o Estóico, Da
tranquilidade, que enterrou os filhos com as próprias mãos. Acredita-se
houvesse sido vendido como escravo e posto em liberdade pelos
pitagóricos Parmenisco e Orestades" (D., L., IX, 20). Pouquíssimo mais
se encontra em outros doxógrafos, que citaremos oportunamente.

Vida

Vida acidentada no Oriente - Infere-se dos dados conhecidos que


Xenófanes tenha nascido pela volta de 570 a.c Teria deixado a Ásia
Menor aos 25 anos quando já não era considerada terra grega, pois em
548 a.C. a conquistara o rei Ciro da Pérsia. Para ter sido discípulo de
Anaximandro, falecido por volta de 545 a.C., deveria também ter
nascido cerca do ano 470 a.C.

Creso, rei da Lídia [Ásia Menor], que sucedeu a Aliates em 571


conquistou a vizinha Éfeso, principal cidade a cujo grupo pertence
Colófon. A esta nova situação parece estar coerente uma referência de
uma elegia de Xenófanes aos seus compatriotas colofônios, quando diz
que: "Com os lídios aprenderam os modos relaxados, nocivos; e, antes
de experimentarem a odiosa tirania, dirigiam-se ao agorá, não menos de
mil cada vez, revestidos de púrpura, cheios de orgulho, envaidecidos de
seus bem amaneirados cabelos, gotejantes de artificiosos bálsamos"
(Frag. 3) (Atheneu XII, 526 A).

Uma longa vida no Ocidente - Depois de sua fase jovem de até 25


anos (e o poeta se revela sobretudo nesta idade), teria vivido mais 67
anos perambulando por terras gregas, como deixa calcular pelos seus
versos. Resulta ter alcançado 92 anos, e, por conseguinte o ano de 475
a.C. O clima em que tudo isto se dá, admite dizer que tenha sido
compelido a sair de sua pátria, por ocasião da conquista persa, quando,
em 548 a.C. o rei Ciro derrota a Creso da Lídia (capital Sardes), à qual
até ali estavam submetidos os efésios.

Xenófanes de Colófon, o cantor afoito, não teria sido bem visto pelos
novos senhores da Ásia Menor, os persas. Expulso, terá sido mandado
andar e cantar por outras terras. Agora o artista empobrecido, se
aprimora como pensador e crítico, radicando-se finalmente em Elea,
depois de passar por Zancle e Catânia cidades da Sicília.

O fato de haver enterrado seus próprios filhos outra vez confirma sua
longa idade, ao ponto de ter sobrevivido a estes. Os versos para Colófon
significa haver actuado em sua terra pelo tempo suficiente para formar
vivências, que teria depois transformado em poema de saudade. Por sua
vez os versos sobre Elea confirmam sua estadia significativa nesta.

Não tendo sido um homem rico e nem mestre de uma escola, o colofônio
exilado foi um pregador de civismo e de pensamentos filosóficos, morais

45
e religiosos, através de um importante instrumento de comunicação, o
do canto e da recitação. Desta sorte influenciou aos de sua época.
Receptivo, por causa de sua arte, ensinou um pensamento novo,
reagindo contra os aspectos mais ingénuos da religiosidade mítica.

Anterior a Parménides - Não é clara a posição de Xenófanes 570 - 475


a.C. como fundador da escola de Eleia, sendo todavia muito plausível,
que o tenha sido. Dado como mais antigo em relação a Parménides, a
atribuição de fundador da escola, se faz sem contradição. Apoia-se na
afirmativa de Aristóteles, feita século e meio depois: "Xenófanes, o mais
antigo partidário da unidade, pois Parménides foi, se diz, seu
discípulo…" (Metafísica 986 b 21-22).

As poucas informações colocam portanto a Xenófanes antes de


Parménides, e ainda como o mais antigo unicista, mas não o declara
directamente fundador da escola. Em Platão o texto também é fugidio:
"Lá a nossa gente de Elea, que vem de Xenófanes, e de mais além…
(Sofista, 242 d).

Diógenes Laércio, que se limitou a dizer que Parménides fora discípulo


de Xenófanes, não se refere a este como fundador da Escola de Elea. As
informações vagas se repetem nos doxógrafos, vindo finalmente a ser
expressamente afirmada a posição de Xenófanes como fundador da
escola de Elea: "Xenófanes, o fundador da escola eleata…" (Teodoreto
IV, 5, in Aécio).

Obras

Restaram apenas fragmentariamente, nas citações de outros autores,


representadas por meia dúzia de páginas de versos, com predominância
de elegias e sátiras.

Mas é sobretudo em informações doxográficas que encontramos suas


doutrinas tipicamente eleáticas; elas vêm de Platão, Aristóteles,
Simplício, Sexto, Hipólito, Aécio. Mas os versos fragmentários se
prestam para estabelecer o clima religioso e moral em que se situava.
Perderam-se, todavia, os versos referentes à fundação mesma de
Colófon e Elea.

46
Doutrinas:

A terra como elemento | Metafísica é a Glória de Xenófanes | Unidade


do Ser | Subjectivismo e Relativismo | Ser Uno | Antropomorfismo |
Entidades Divinas Secundárias | Ética | Entidades Divinas
Secundárias | Cosmogonia | Meteorologia

A terra como elemento - Tal como os primeiros jónicos, a investigação


de Xenófanes foi primeiramente à busca de uma natureza elementar a
partir da qual se formariam todas as coisas. Tales propusera como
primeiro elemento a água, Anaximandro o infinito, Anaxímenes o ar,
Heráclito o fogo. Xenófanes propõe a terra. "Pois tudo vem da terra e na
terra tudo finda" [Frag. 27] (Aécio IV, 5). Todavia, não há rigidez na
proposição de Xenófanes.

Também diz: "Terra e água é tudo quanto vem a ser e cresce" [Frag. 29]
(Simplício, Física 188, 32).

"Pois todos nascemos da terra e da água" [Frag. 33] (Sexto, Contra os


matemáticos X, 314).

"Porfírio afirma que Xenófanes considera princípios o seco e o húmido;


eu digo que ele considera a terra e a água" (Filopono, Física 125, 27).

A metafísica é a glória de Xenófanes - Partindo para uma nova


interpretação da diversidade múltipla da natureza, dizendo que esta
multiplicidade é apenas o efeito aparente dos sentidos, estabeleceu a
unidade em si mesma da coisa que existe. O ser é uno e imutável, não
se dividindo e não se multiplicando, nem se transformando e nem se
movendo. A base desta afirmação a estabeleceu Xenófanes mediante
considerações metafísicas. Seus sucessores avançarão as especulações,
mas é com o velho rapsodo que tiveram início. As relações entre o uno e
o múltiplo são diferentes das que se supunham até então: "Opõe-se às
opiniões de Tales e Pitágoras, e também de Epimênides" (D. Laércio, IX,
18), – eis como se pode entender o texto já citado anteriormente.

Unidade do ser - Percebendo a unidade da natureza – à que chama


terra, a intuiu já não somente como sendo esta matéria sensível, mas
simplesmente como um todo entitativo, assim apreendido pela
inteligência. As coisas são simplesmente ser, instituído como resultado
de uma especulação abstracta, alteado este ser acima do meramente
sensível. O ser é indicado por qualificativos como uno, eterno, imutável,
infinito, divino.

Num diálogo de Platão se exprime pitorescamente o Estrangeiro de


Eleia: "Cada qual parece que nos conta um conto, como se fossemos
crianças. Diz um que são três os seres que ora se combatem, ora se

47
convertem em amigos, dos quais assistimos as bodas, os partos e a
criação dos filhos. Outro, dizendo que são apenas dois, o húmido e o
seco, ou quente e o frio, junta-se e os casa. Mas, lá a nossa gente de
Eleia, que vem de Xenófanes, e de mais além, admite em suas doutrinas
que um único é o ser, designando tudo" (Platão, Sofista 242 c-d).

Adverte Aristóteles contudo que Xenófanes não aprofundou a doutrina


da unidade do ente. Concluída a exposição das doutrinas pluralistas do
ente, continua o Mestre do Liceu, comentando as da unidade. "O
pensamento dos velhos filósofos, que admitiram a pluralidade dos
elementos da natureza, está suficientemente conhecida pelo que
precedeu. Há ainda outros que professaram que o todo é uma só
realidade, mas a excelência da exposição não alcança o mesmo nível
junto de todos, nem a conformidade com os fatos" (Aristóteles,
Metafísica, 986, b, 10).

Esclarece que não se trata de um princípio primordial, a partir do qual


as coisas derivam. "A discussão de suas doutrinas não entra no quadro
do presente exame de causas. Eles não procedem à maneira de certos
fisiólogos; estabelecendo o ser como um, não engendra todas as coisas a
partir do Uno considerado como matéria. Suas doutrinas são outras.
Enquanto os fisiólogos admitem o movimento no todo, os filósofos de
que falamos pretendem, pelo contrário, que o todo é imóvel" (Metafísica,
986b 13).

Prossegue Aristóteles distinguindo entre unidade material (aquela


adquirida por um elemento de determinada espécie, por exemplo, a
água) e a unidade formal (por definição), adquirida pela unidade
simplesmente do ente. Pretende, então, dizer que Parménides alcança a
unidade formal do ser, ao passo que não Melisso. Quanto a Xenófanes
não teria alcançado precisão de conceitos sobre o assunto. Na verdade,
Xenófanes tem a visão da unidade, através da unidade da natureza, de
suas leis, de suas transformações cíclicas. Transcende à unidade
material, sem maiores esclarecimentos, sobre monismo fundamental.

"Parménides concebeu a unidade quanto à definição e Melisso a


unidade material; ela é finita, para o primeiro, infinita, para o segundo.

Quanto a Xenófanes, o mais antigo adepto da unidade (pois se diz que


Parménides foi seu discípulo), não há nada claro, visto que não parece
ter entendido a natureza de uma e de outra destas causas. Mas,
observando o universo material em conjunto, asseverou que o Uno é
Deus. Estes filósofos, como dissemos, deverão ser postos à margem da
presente investigação, e completamente dois deles, cujas concepções
são, em verdade, muito grosseiras, a saber, Xenófanes e Melisso. Pelo
contrário, Parménides parece raciocinar aqui com mais penetração"
(Metafísica, 986b 20-25).

48
Subjectivismo e relativismo - O unicíssimo de Xenófanes, - qualquer
seja a avaliação de sua profundidade, - tem implicações gnosiológicas, -
o carácter subjectivo e relativo do conhecimento. Conscientizou-se
Xenófanes sobre a dificuldade do problema levantado. E isto é
importante anotar. Parece haver estado próximo do vago cepticismo
depois praticado por outros: "Não há homem algum que claramente
visse, e nenhum haverá jamais que claramente tivesse visto, e saiba dos
deuses e de tudo quanto eu falo; pois ainda que alguém viesse a
pronunciar o melhor possível a lavra definitiva, nem esse saberia: sobre
tudo recai a opinião" (Sexto, Contra os matemáticos, VII 49, 110; Plut.
Aud. Poet. 2 p.17 E).

Sobre a relatividade advertiu Xenófanes que: "Se Deus não tivesse


feito o dourado mel, muito mais doces diriam [os homens] são os
figos" (Frag. 38, em Herodiano Gramático, Sobre particularidades da
linguagem, 41,5).

Diante da diversidade oferecida pelos sentidos, os eleatas advertem que


é preciso ficar com a razão, que oferece a unidade e a imobilidade do
ser. Sobre esta ponderação dos eleatas informou genericamente
Aristóteles: " Achavam, com efeito, alguns dos antigos, que o ser é um e
imóvel. Alegando, que o vazio é um não -, não podendo haver nele
movimento, porquanto não há vazio separado" (Da geração e corrupção,
I, 8. 825a 2).

O ser uno é caracterizado como divino – a tudo superior - Repete


aqui Xenófanes o pensamento dos Milésios, que faziam do elemento
primordial um ser divino. Trata-se, pois um panteísmo monista, ou
simplesmente de um monismo materialista.

"Teofrasto assevera que Xenófanes admite um só princípio,


considerando o ser como um e tudo (nem finito, nem infinito, nem
móvel, nem imóvel). Concorda, Teofrasto, que a menção desta doutrina
mais convém a outro domínio, que ao da história natural. Porque, na
verdade, no dizer de Xenófanes, este um e tudo é Deus.

Declara que é um, por ser o mais poderoso de todos; se vários entes
houvesse, estaria repartido em igualdade o poder entre todos; ora Deus
é o que há de mais sublime e a tudo superior quanto ao poder. É
ingénito; o que nasce, haveria de nascer, ou do semelhante, ou do
dissemelhante. Ora, o semelhante, diz ele, não pode exercer este efeito
(de gerador) sobre o semelhante, porquanto não convém mais a um que
a outro o gerar e o ser gerado. De outra parte, se nascesse do
dissemelhante, nasceria do que não é. Assim demonstra a
ingenerabilidade e a eternidade.

Não é infinito; porque o infinito é o não ser, pois não tem início, nem
meio, nem fim e porque (só) os múltiplos seres se limitam
reciprocamente. Do mesmo modo elimina o movimento e o repouso;

49
porque o imóvel é o não ser, que em outro não se torna, nem outro nele
se torna; o movimento convém mais ao múltiplo, que o uno, pois neste
caso podem um em outro se transmutar. Por conseguinte, quando se
diz – E sempre se mantém no mesmo lugar, sem mover-se, nem convém
à sua natureza que se mova para cá e para lá [Frag. 24], entenda-se não
a imobilidade que se opõe à mobilidade, mas sim a estabilidade sem
movimento e sem repouso.

Nicolau Damasceno, em seu tratado A cerca de Deus, atribui a ele


[Xenófanes] a declaração de que o princípio é infinito e imóvel.

Conforme Alexandre (de Afrodísio), seria limitado e esférico. Claramente


sua doutrina é a que ele é infinito e ilimitado; demonstra a limitação e a
forma esférica dizendo que semelhante é o ente por todos os lados.
Também afirma que ele pensa todas as coisas, dizendo – e sem custo
tudo move por força do próprio pensamento (Simplício, Física, 22,22ss).

A mais antiga advertência contra o antropomorfismo teológico -


Destacou-se Xenófanes pelo seu combate aos conceitos antropomórficos
da divindade, ocorridas sobretudo na religião tradicional. Ainda que se
pudesse pôr restrições a tudo o que houvera o mesmo Xenófanes dito
sobre a natureza divina, encontrava-se no recto caminho, o de uma
análise ontológica a partir do ser. Até seu tempo, foi Xenófanes o
melhor dos profetas, no sentido de haver melhor falado sobre Deus.
Nenhuma teologia é boa, sem uma correcta noção filosófica de
divindade.

Aqui importa relembrar o texto de Platão em que o Estrangeiro


ridiculariza o que se diz dos deuses e adverte para a doutrina do ser:
"Mas lá a nossa gente de Eleia, que vem de Xenófanes, e de mais além,
admite em suas doutrinas que um único ser é o que designa tudo"
(Sofista 242 d).

O mérito teológico de Xenófanes também foi reconhecido por Aristóteles:


"Os poetas representam a opinião dos homens, como as histórias
que se contam dos deuses. Essas narrativas talvez não sejam
verdadeiras, nem melhores; talvez as coisas sejam como pareciam a
Xenófanes; no entretanto, assim as dizem os homens" (Poética, 25
p.1460 b 35).

Em outro passo: "… dizia Xenófanes que tantos são ímpios os que
afirmam que os deuses nasceram, como os que asseveram que eles
morreram. De ambos os modos se diz que em determinado tempo
não existiram" (Retórica, II, 23 p. 1399 b 5).

"Perguntaram os cidadãos de Eleia a Xenófanes se deviam, ou não,


oferecer sacrifícios a Leucotéia, e lamentá-la como uma defunta.
Aconselhou-os a que não lamentassem, se como deusa a veneravam;
mas se a consideravam como um ser humano, não lhe deveriam

50
sacrificar" (Ibidem, II, 26 p. 1400 b 5). Fragmentos dos Silos apresentam
a mesma linguagem satírica de Xenófanes contra as imaginações
antropomórficas.

"Homero e Hesíodo imputaram aos deuses tudo quanto entre os


homens e indecoroso e censurável: roubos, adultérios, enganos
recíprocos" [Frag. 11] (Sexto, Contra os matemáticos, IX, 193). "Muitos
actos ilícitos eles contam dos deuses: roubos, adultérios, enganos
recíprocos" [Frag. 12] (Ibidem, I, 289).

"Mas crêem os mortais que os deuses nasceram, e que, tal como


eles, têm figura, vestes e voz" (Clemente de Alexandria, Strômata, V,
109).

"Os etíopes se afiguram os deuses, com pele negra e nariz achatado;


os trácios, com olhos azuis e cabelos loiros" [Frag. 16] (Ibidem, VII,
22).

Entidades divinas secundárias. A noção de um deus supremo e


único nesta condição, ainda não exclui a admissão de deuses como
entidades secundárias e criaturas como os anjos, desde que não sejam
aventados como uma necessidade ontológica. Por esta outra via os
deuses foram admitidos por Xenófanes, ao que parece. De futuro,
também Heráclito, Platão, Aristóteles não sacrificarão totalmente a
ideias das deidades individuais e subalternas.

Seria demais, que um homem, como Xenófanes, em tão remota época se


despojasse inteiramente do lastro cultural da religiosidade helénica de
seu povo. Xenófanes não foi um monoteísta em sentido pleno. Ou
melhor, não foi um monista em sua totalidade. Não há conflito entre
combater o antropomorfismo religioso e a admissão de divindades
secundárias. Combateu Xenófanes, a figuração humana dos deuses,
mas não os deuses simplesmente em si mesmos.

A conceituação politeísta de Xenófanes está bem clara neste fragmento:


"Um só Deus, o maior entre os deuses e os homens, diferente na
forma e no pensamento dos mortais" [frag.23] (Clemente de
Alexandria, Strômata V, 109).

O mesmo contexto politeísta se reencontra nos versos, como este: "Ter


sempre veneração pelos deuses, isto é bom" (Final do Frag. 1, em
Atebeo X, 462 C).

Por isso se tem contestado a afirmação de outros tempos de que


Xenófanes fosse o primeiro monoteísta.

"Xenófanes havia sido considerado antigamente como o primeiro


monoteísta grego. Os argumentos contra esta opinião foram expostos e
defendidos com êxito por Freudenthal em sua obra Ueber die Theologie

51
des Xenophanes, Breslau, 1866, trabalho a que nós devemos muito. O
argumento decisivo contra o pretendido monoteísmo de Xenófanes está
contido no único verso: um só deus, entre os deuses..." (Th. Gompers,
Pensadores gregos, nota ao item Xenófanes).

Não obstante, importa não desatender ao fato de que Xenófanes foi


também um poeta, e neste sentido poderia ter usado por vezes a
linguagem poética, a qual certamente é favorecida pela imaginação
politeísta. Sobre a alma "Xenófanes foi o primeiro a declarar, que tudo
está destinado a perecer, e que a alma é um sopro" (D. Laércio, IX, 19).

A Ética - de Xenófanes se mantém ainda nas frases sentenciosas,


peculiares às religiões tradicionais, envolvidas em considerações
episódicas. Depois de se referir ao fato de ser apreciado como mais
ilustre aquele que vence nos jogos, adverte:

"A sabedoria de certo é mais nobre que o vigor dos homens e dos
cavalos. Insensato costume, e injusto, este, de mais prezar a força que a
sabedoria. Mesmo que haja entre o povo um pugilista hábil, ou quem
vença no pentatlo e na luta, ou até na corrida (que mais estimada é a
rapidez que a força), quem quer que vitorioso saia das másculas
competições, - nem por isso o povo andará mais bem governado. Pouco
proveito adviria à cidade, se algum cidadão vencesse as margens do
Pisa. Não é isso que lhe aumenta tesouros da cidade" [Frag.2] (em
Ateneo X, 413 F).

Um sentir geral de tolerância - Se observa no pensamento religioso e


moral de Xenófanes, não sendo nem fanático e nem contrário ao culto
popular dos deuses, tudo dentro de uma ética aberta. Este é o clima de
um longo fragmento elegíaco, em que participa, e ao mesmo tempo que
recomenda moderações:

"Agora o chão da casa está limpo, as mãos de todos e as taças; um


cinge as cabeças com grinaldas de flores, outro oferece odorante mirra
numa salva; plena de alegria ergue-se uma cratera, à mão está outro
vinho, que promete jamais faltar, vinho doce, nas jarras cheirando flor;
pelo meio perpassa sagrado aroma de incenso, fresca é a água,
agradável e pura; ao lado estão pães tostados e sumptuosa mesa
carregada de queijo a espesso mel; no centro está um altar todo
recoberto de flores, canto e graça envolvem a casa. É preciso que
alegres os homens primeiro cantem os deuses com mitos piedosos e
palavras puras. Depois de verter libações e pedir forças para realizar o
que é justo – isto é que vem em primeiro lugar -, não é excesso beber
quanto te permita chegar à casa sem guia, se não fores muito idoso. É
louvar-se o homem que, bebendo, revela actos nobres como a memória
que tem e o desejo de virtude sem nada falar de titãs, nem de gigantes,
nem de centauros, ficções criadas pelos antigos, ou de lutas civis
violentas, nas quais nada há de útil. Ter sempre veneração pelos
deuses, isto é bom" [Frag. 1] (em Ateneo X, 462 C).

52
Cosmogonia e cosmologia Não obstante sua nova maneira de
interpretar a variedade dos entes como sendo fundamentalmente um
unicíssimo, Xenófanes apresentou uma filosofia da natureza não menos
curiosa. Não deve todavia condenar a Xenófanes de contradição com
sua tese da unidade do ente ao estabelecer una interpretação
cosmológica à natureza, como já o quis invectivar de incoerência, na
antiguidade, Teodoreto: "Xenófanes, o fundador da seita eleática,
assevera que o todo é um, esférico e limitado; ingénito, mas eterno e
absolutamente imóvel; mas depois, olvidado destas doutrinas, diz que
da Terra tudo nasce" (Teodoreto, IV, 5 em Aécio).

Não temos informações sobre a evolução cronológica do pensamento de


Xenófanes. Mas não é impossível que seu unicíssimo fosse uma
evolução ulterior, e que de início pensasse apenas como os jónicos,
sobre um ser material. Nesta condição inicial terá desenvolvido uma
cosmologia em que os elementos seriam a terra e a água. Depois com a
teoria do ser uno, esta cosmologia somente se manteria como aparência
sensível. No futuro, também o idealista Emanuel Kant, apresentará
uma teoria do céu astronómico. E assim já na antiguidade os eleatas
desenvolveram a doutrina da aparente variedade e movimento do ser.

"Nasce o sol por via de aglomeração de partículas inflamadas, que vai


aumentando dia a dia; a terra é ilimitada, e nem o ar, nem o céu a
cingem, infinito O mar é salgado porque nele convergem muitas
matérias amálgamas. Xenófanes crê que a terra se mistura com o mar.
Com o tempo nele se dissolvera" (Hipólito, Refutação, I, 14).

"Todos os dias os astros se apagam e todas as noites se reacendem


como carvões; nascimentos e ocasos, são inflamações e extinções"
(Aécio II, 13,14). Por mais hipotéticas que sejam as teorias de Xenófanes
sobre os astros, elas representam algo muito mais evoluído que a
interpretação mítica e mitológica então dominante.

"Muitos afirmam que a parte inferior da terra se prolonga


indefinidamente, asseverando que ela radica no infinito, assim o
diz Xenófanes de Colófon" (Aristóteles, Do céu, 2,13. 294a 21).

Um conceito adiantado da meteorologia - Já se encontra formulado


em Xenófanes. Um círculo de acções ocorreria a começar da água
salgada, continuando pela água doce, pela evaporação, finalmente pela
formação das nuvens, das chuvas, dos rios e de novo do mar. Ocorre ali
a visão da natureza como um sistema de leis, sem mitos.

"Supurada a água do mar, a doce separa-se pela subtileza própria, e


depois, condensando-se em névoa, forma as nuvens; e prosseguindo a
condensação, cai a chuva e sopram os ventos" (Aécio, III, 4,4).

53
Diz então Xenófanes: "Fonte da água é o mar, e fonte dos ventos; pois
nem existiriam as nuvens sem o vasto mar, nem o curso dos rios, nem a
chuva dos céus. Mas é ele, o vasto mar, que gera as nuvens, os ventos e
os rios" [Frag. 30] (Aécio, III, 4,4).

A terra e a água são as fontes sempre presentes nas explicações de


Xenófanes. Não importa a qual dê prioridade. O importante é que
formula o sistema de uma explicação.

Fragmentos

I "...Deus é uma substância esférica sob nenhum aspecto parecido com o homem. O
todo vê, o todo ouve, porém não respira. Ele é ao mesmo tempo todas as coisas,
inteligência, pensamento, eternidade" (D. Laércio, IX, 19).

II "...Todo inteiro vê, todo inteiro pensa, todo inteiro ouve" [Frag. 24] (em Sexto, Contra
os matemáticos, IX 144).

III "...Se a divindade é a mais forte de todas as coisas, só pode ser uma única (...), pois
se houvesse dois ou mais deuses, não poderia ser o mais forte e o melhor de tudo.
Portanto, só pode haver uma divindade (Pseudo-Aristóteles, De Meliso, Xenophonte,
Górgias 3,3)

IV "...Se mãos tivessem os bois, os cavalos e os leões, e se pudessem com as mãos


pintar ou produzir obras de arte, como se fossem homens, pintariam as figuras dos
deuses, os cavalos semelhantes aos cavalos, os bois semelhantes aos bois; esculpiriam
os corpos deles, respectivamente, de acordo com o próprio aspecto" [Frag. 15] (Ibidem,
V, 110).

V "...Um só Deus, o maior entre os deuses e os homens, diferente na forma e no


pensamento dos mortais" [frag.23] (Clemente de Alexandria, Strômata V, 109).

VI "...O sol apaga-se, e outro sol renasce no Oriente" (Aécio, II, 24,2).

VII "...O sol provém de nuvens inflamadas... provenientes de exalações húmidas"

Conclusão:

Xenófanes compôs poesias satíricas, os siloi, os quais contêm o seu pensamento


filosófico. Isto mostra que os filósofos, sob o ponto de vista formal, tanto
empregam a prosa como a poesia.

Xenófanes ficou famoso pelas críticas à religião tradicional e pela sua concepção
de Divindade.

O filósofo atacou duramente os grandes poetas da Grécia, Homero e Hesíodo,


como responsáveis pela imagem degradada dos deuses: ladrões, adúlteros e
mentirosos (cfr. frag. B11).

54
O antropomorfismo dos deuses já criticado no frag. B11 é reforçado em B14
(roupagem e corpo, por exemplo, idênticos aos homens).

Os frags. B16 e B15 ampliam e inovam em relação aos frags. citados


anteriormente.

O frag. B 16 chama a atenção para o facto de os Etíopes e os Trácios fazerem os


deuses à sua imagem.

O que é importante anotar é que para Xenófanes os deuses antropomórficos não


são universais. Teremos, ainda de falar, um pouco mais à frente, da noção de
universal.

Vamos, agora, transcrever o frag. B15:

"Mas se os bois [os cavalo] ou os leões tivessem mãos ou pudessem pintar ou esculpir
como os homens,
os cavalos desenhariam imagens equinas dos deuses,
e os bois, bovinas,
e pintariam a forma e o corpo dos deuses como
eles o têm
de modo que cada [espécie] teria o seu aspecto físico."

(trad. M. H. Rocha Pereira)

Este fragmento é para nós importante por duas razões:

É a nova crítica, através do ridículo, ao antropomorfismo;


Mostra uma preocupação metodológica, na medida em que estamos
perante uma argumentação por absurdo.

A filosofia, não obstante a sua pequena tradição, travava, com Xenófanes, uma
das suas grandes batalhas: a apresentação de uma nova paidéia, que se
contrapunha à tradicional, cujos pilares eram Homero e Hesíodo.

55
Xenófanes não ficou pela crítica ao antropomorfismo: apresentou, também, a
sua concepção de divindade.

Assim, fala de um deus com o máximo poder e que não possui traços
antropomórficos (frag. B23). Este deus está imóvel e não necessita de fazer
qualquer esforço para dominar todas as coisas (frag. B 26+25). O último
aspecto é reforçado pelo frag. B24: vê tudo, ouve tudo, pensa tudo.

Encontramos aqui uma preocupação pela teologia natural (aspecto da filosofia


pré-socrática posto em relevo por W. Jaeger) que já estava presente em Tales de
Mileto.

Façamos ainda duas observações:

O deus de Xenófanes tem um carácter universal, isto é, pode ser encarado


sob o mesmo aspecto por quaisquer homens (pertençam ou não a
sociedades diferentes).
Há uma questão ainda em aberto acerca da possível posição monoteísta de
Xenófanes, embora, eu pense que o filósofo se mova, ainda, num quadro
politeísta.

O tema do conhecimento é extremamente importante para Xenófanes. Para ele


o homem não pode atingir a verdade, só tem acesso à opinião. E com grande
subtileza afirma que se alguém dissesse a verdade não saberia que a tinha dito: o
filósofo, defenderia, possivelmente, que tal sucedia porque não existe um
critério da verdade (para estes aspectos veja-se o frag. B34).

No frag. B18 Xenófanes afirma que os deuses não deram a conhecer todas as
coisas nos primeiros tempos da Humanidade; o homem ao longo dos tempos
através da indagação descobre o que é melhor.

A teoria do conhecimento de Xenófanes apresenta uma série de aspectos que


deveremos por em relevo:

o filósofo coloca a dicotomia verdade-opinião considerando que o homem


só alcança a última. È um ponto importante porque abre um debate na
filosofia grega que terá de levar em linha de conta este problema;

56
Xenófanes defende o progresso da Humanidade opondo-se assim ao mito
da Idade de Ouro, o qual afirmava que a primeira sociedade tinha vivido
numa autêntica beatitude. Em contrapartida o filósofo considera que o
esforço consegue obter o progresso. Isto significa que o homem não está
em regressão mas sim em marcha para aquilo que é melhor. Trata-se de
outro tema que será debatido por filósofos posteriores.

O que disse, segundo espero, mostra a grande envergadura de Xenófanes, o qual


não ignorou a cosmologia, tema que não tratei nestas linhas.

Nota Adicional

No capítulo dedicado a Xenófanes surge uma numeração atribuída aos


fragmentos do filósofo. Esta numeração foi estabelecida por Diels na sua grande
obra onde compilou as passagens referentes aos pré-socráticos, obra esta revista
por Kranz.

Os fragmentos atribuídos aos filósofos podem ser apresentados da seguinte


maneira:

Pela simples numeração, por exemplo, Xenófanes, frag. 34;


Pela numeração e secção, por exemplo, Xenófanes, frag. B34;
Pela numeração e iniciais de Diels – Kranz, por exemplo, Xenófanes, frag.
34 D-K.

Creio que o mais simples é numerar os fragmentos ou indicar também a secção.


Parte-se do princípio de que a numeração é a estabelecida por Diels – Kranz.

Segundo a obra de Diels-Kranz são apresentadas três secções: A- passagens


relativas ao filósofo; B- fragmentos da sua obra; C- passagens duvidosas.

A numeração que utilizamos (Diels-Kranz) permite ao leitor, com facilidade,


verificar os fragmentos assim como as traduções das quais são passíveis.

57
Pitágoras de Samos

As coisas são números

Pitágoras de Samos (do grego Πυθαγόρας) foi um filósofo e matemático


grego que nasceu em Samos entre cerca de 570 a.C. e 571 a.C. e
morreu em Meta ponto entre cerca de 496 a.C. ou 497 a.C.

A sua biografia está envolta em lendas. Diz-se que o nome significa altar
da Pítia ou o que foi anunciado pela Pítia, pois mãe ao consultar a
pitonisa soube que a criança seria um ser excepcional.

Pitágoras foi o fundador de uma escola de pensamento grega Biografia

Da vida de Pitágoras quase nada pode ser afirmado com certeza, já que
ele foi objecto de uma série de relatos tardios e fantasiosos, como
referentes às viagens e aos contactos com as culturas orientais. Parece
certo, contudo, que o Filósofo e matemático grego nasceu no ano de 496
a.C. na cidade de Samos, fundou uma escola mística e filosófica em
Crotona (colónia grega na península itálica), cujos princípios foram
determinantes para evolução geral da matemática e da filosofia
ocidental cujo principais enfoques eram: harmonia matemática,
doutrina dos números e dualismo cósmico essencial. Aliás, Pitágoras foi
o criador da palavra "filósofo". Acredita-se que tenha sido casado com a
física e matemática grega Theano, que foi sua aluna. Supõe-se que ela e
as duas filhas tenham assumido a escola pitagórica após a morte do
marido.

58
Pitágoras cunhado em moeda

Os pitagóricos interessavam-se pelo estudo das propriedades dos


números - para eles o número (sinónimo de harmonia) era
considerado como essência das coisas - é constituído então da soma
de pares e ímpares, noções opostas (limitado e ilimitado)
respectivamente números pares e ímpares expressando as relações que
se encontram em permanente processo de mutação, criando a teoria da
harmonia das esferas (o cosmos é regido por relações matemáticas).

A observação dos astros sugeriu-lhes a ideia de que uma ordem domina


o universo. Evidências disso estariam no dia e noite, no alterar-se das
estações e no movimento circular e perfeito das estrelas, por isso o
mundo poderia ser chamado de cosmos, termo que contem as ideias de
ordem, de correspondência e de beleza. Nessa cosmo visão também
concluíram que a terra é esférica, estrela entre as estrelas que se
movem ao redor de um fogo central. Alguns pitagóricos chegaram até a
falar da rotação da Terra sobre o eixo, mas a maior descoberta de
Pitágoras ou dos discípulos (já que há obscuridades que cerca o
pitagorismo devido ao carácter esotérico e secreto da escola) deu-se no
domínio da geometria e se refere às relações entre os lados do triângulo
rectângulo. A descoberta foi enunciada no teorema de Pitágoras.

Foi expulso de Crotona e passou a morar em Metaponto, onde morreu


provavelmente em 496 a.C. ou 497 a.C..

A escola de Pitágoras

Segundo o pitagorismo, a essência, que é o princípio fundamental


que forma todas as coisas é o número. Os pitagóricos não distinguem
forma, lei, e substância, considerando o número o elo entre estes
elementos. Para esta escola existiam quatro elementos: terra, água, ar e
fogo.

Assim, Pitágoras e os pitagóricos investigaram as relações matemáticas


e descobriram vários fundamentos da física e da matemática.

59
O pentagrama era o símbolo da Escola Pitagórica

O símbolo utilizado pela escola era o pentagrama, que, como descobriu


Pitágoras, possui algumas propriedades interessantes. Um pentagrama
é obtido traçando-se as diagonais de um pentágono regular; pelas
intersecções dos segmentos desta diagonal, é obtido um novo pentágono
regular, que é proporcional ao original exactamente pela razão áurea.

Pitágoras descobriu em que proporções uma corda deve ser dividida


para a obtenção das notas musicais no início, sem altura definida,
sendo uma tomada como fundamental (pensemos numa longa corda
presa a duas extremidades que, quando tangida, nos dará o som mais
grave - e a partir dela, gerar-se-á a quinta e terça através da
reverberação harmónica. Os sons harmónicos. Prendendo-se a metade
da corda, depois a terça parte e depois a quinta parte conseguiremos os
intervalos de quinta e terça em relação à fundamental. A chamada
SÉRIE HARMÔNICA. À medida que subdividimos a corda obtemos sons
mais altos e os intervalos serão diferentes. E assim sucessivamente.
Descobriu ainda que fracções simples das notas, tocadas juntamente
com a nota original, produzem sons agradáveis. Já as fracções mais
complicadas, tocadas com a nota original, produzem sons
desagradáveis.

O nome está ligado principalmente ao importante teorema que afirma:


Em todo triângulo rectângulo, a soma dos quadrados dos catetos é
igual ao quadrado da hipotenusa.

Além disto, os pitagóricos acreditavam na esfericidade da Terra e dos


corpos celestes, e na rotação da Terra, com o que explicavam a
alternância de dias e noites. A filosofia baseou uma doutrina chamada
Filosofia explanatória Cristo-Pitagorica.

A escola pitagórica era conectada com concepções esotéricas e a moral


pitagórica enfatizava o conceito de harmonia, práticas ascéticas e
defendia a metempsicose.

Durante o século IV a.C., verificou-se, no mundo grego, uma


revivescência da vida religiosa. Segundo alguns historiadores, um dos

60
factores que concorreram para esse fenómeno foi a linha política
adoptada pelos tiranos: para garantir o papel de líderes populares e
para enfraquecer a antiga aristocracia, os tiranos estimulavam a
expansão de cultos populares ou estrangeiros.

Dentre estes cultos, um teve enorme difusão: o Orfismo (de Orfeu),


originário da Trácia, e que era uma religião essencialmente esotérica.
Os seguidores desta doutrina acreditavam na imortalidade da alma, ou
seja, enquanto o corpo se degenerava, a alma migrava para outro corpo,
por várias vezes, a fim de efectivar a purificação. Dioniso guiaria este
ciclo de reencarnações, podendo ajudar o homem a libertar-se dele.

Pitágoras seguia uma doutrina diferente. Teria chegado à concepção de


que todas as coisas são números e o processo de libertação da alma
seria resultante de um esforço basicamente intelectual. A purificação
resultaria de um trabalho intelectual, que descobre a estrutura
numérica das coisas e torna, assim, a alma como uma unidade
harmónica. Os números não seriam, neste caso, os símbolos, mas os
valores das grandezas, ou seja, o mundo não seria composto dos
números 0, 1, 2, etc., mas dos valores que eles exprimem. Assim,
portanto, uma coisa manifestaria externamente a estrutura numérica,
sendo esta coisa o que é por causa deste valor.

Principais descobertas

Além de grandes místicos, os pitagóricos eram grandes matemáticos.


Eles descobriram propriedades interessantes e curiosas sobre os
números.

Números figurados

Os pitagóricos estudaram e demonstraram várias propriedades dos


números figurados. Entre estes o mais importante era o número
triangular 10, chamado pelos pitagóricos de tetraktys, tétrada em
português. Este número era visto como um número místico uma vez
que continha os quatro elementos fogo, água, ar e terra: 10=1 + 2 + 3 +
4, e servia de representação para a completude do todo.

α
αα
ααα
αααα

A tétrada, que os pitagóricos desenhavam com um α em cima, dois


abaixo deste, depois três e por fim quatro na base, era um dos símbolos
principais do seu conhecimento avançado das realidades teóricas.
Representação toda perfeita em si de qualquer um dos lados que se
observe.

61
Números perfeitos

A soma dos divisores de determinado número com excepção dele


mesmo, é o próprio número. Exemplos:

1. Os divisores de 6 são: 1,2,3 e 6. Então, 1 + 2 + 3 = 6.


2. Os divisores de 28 são: 1,2,4,7,14 e 28. Então, 1 + 2 + 4 + 7 + 14
= 28.

Teorema de Pitágoras

Uma das formas de demonstrar o Teorema de Pitágoras.

Um problema não solucionado na época de Pitágoras era determinar as


relações entre os lados de um triângulo rectângulo. Pitágoras provou
que a soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da
hipotenusa.

O primeiro número irracional a ser descoberto foi a raiz quadrada do


número 2, que surgiu exatamente da aplicação do teorema de Pitágoras
em um triângulo de catetos valendo 1:

Os gregos não conheciam o símbolo da raiz quadrada e diziam


simplesmente: "o número que multiplicado por si mesmo é 2".

A partir da descoberta da raiz de 2 foram descobertos muitos outros


números irracionais.

Pitágoras percorreu por 30 anos o Egipto, Babilónia, Síria, Fenícia e


talvez a Índia e a Pérsia, onde acumulou ecléticos conhecimentos:
astronomia, matemática, ciência, filosofia, misticismo e religião.

62
Quando retornou à sua cidade natal, Samos, indispôs-se com o tirano
Polícrates e emigrou para o sul da Itália, na ilha de Crotona, de
dominação grega. Aí fundou a Escola Pitagórica, a quem se concede a
glória de ser a "primeira Universidade do mundo".

A Escola Pitagórica e as actividades se viram desde então envoltas por


um véu de lendas. Foi uma entidade parcialmente secreta com centenas
de alunos que compunham uma irmandade religiosa e intelectual.
Entre os conceitos que defendiam, destacam-se:

Prática de rituais de purificação e crença na doutrina da


metempsicose, isto é, na transmigração da alma após a morte, de
um corpo para outro. Portanto, advogavam a reencarnação e a
imortalidade da alma;
Lealdade entre os membros e distribuição comunitária dos bens
materiais;
Austeridade, ascetismo e obediência à hierarquia da Escola;
Proibição de beber vinho e comer carne (portanto é falsa a
informação que os discípulos tivessem mandado matar 100 bois
quando da demonstração do denominado Teorema de Pitágoras);
Purificação da mente pelo estudo de Geometria, Aritmética,
Música e Astronomia;
Classificação aritmética dos números em pares, ímpares, primos
e facturáveis;
"Criação de um modelo de definições, axiomas, teoremas e
provas, segundo o qual a estrutura intrincada da Geometria é
obtida de um pequeno número de afirmações explicitamente
feitas e da acção de um raciocínio dedutivo rigoroso" (George
Simmons);
Grande celeuma instalou-se entre os discípulos de Pitágoras a
respeito da irracionalidade do 'raiz de 2'. Utilizando notação
algébrica, os pitagóricos não aceitavam qualquer solução
numérica para x² = 2, pois só admitiam números racionais. Dada
a conotação mística atribuída aos números, comenta-se que,
quando o infeliz Hipasus de Metapontum propôs uma solução
para o impasse, os outros discípulos o expulsaram da Escola e o
afogaram no mar;
Na Astronomia, ideias inovadoras, embora nem sempre
verdadeiras: a Terra é esférica, os planetas movem-se em
diferentes velocidades nas várias órbitas ao redor da Terra. Pela
cuidadosa observação dos astros, cristalizou-se a ideia de que há
uma ordem que domina o Universo;
Aos pitagóricos deve-se provavelmente a construção do cubo,
tetraedro, octaedro, dodecaedro e a bem conhecida "secção";
Na Música, uma descoberta notável de que os intervalos musicais
se colocam de modo que admitem expressões através de
proporções aritméticas.

63
Pitágoras é o primeiro matemático puro. Entretanto é difícil separar
o histórico do lendário, uma vez que deve ser considerado uma figura
imprecisa historicamente, já que tudo o que dele sabemos deve-se à
tradição oral. Nada deixou escrito, e os primeiros trabalhos sobre o
mesmo deve-se a Filolau, quase 100 anos após a morte de Pitágoras.
Mas não é fácil negar aos pitagóricos - assevera Carl Boyer - "o papel
primordial para o estabelecimento da Matemática como disciplina
racional". A despeito de algum exagero, há séculos cunhou-se uma
frase: "Se não houvesse o 'teorema Pitágoras', não existiria a
Geometria".

Ao biografar Pitágoras, Jâmblico (c. 300 d.C.) registra que o mestre vivia
repetindo aos discípulos: ―todas as coisas se assemelham aos números‖.

A Escola Pitagórica ensejou forte influência na poderosa verba de


Euclides, Arquimedes e Platão, na antiga era cristã, na Idade Média, na
Renascença e até em nossos dias com o Neopitagorismo.

Pensamentos de Pitágoras

1. Educai as crianças e não será preciso punir os homens.


2. Não é livre quem não obteve domínio sobre si.
3. Pensem o que quiserem de ti; faz aquilo que te parece justo.
4. O que fala semeia; o que escuta recolhe.
5. Ajuda teus semelhantes a levantar a carga, mas não a carregues.
6. Com ordem e com tempo encontra-se o segredo de fazer tudo e
tudo fazer bem.
7. Todas as coisas são números.
8. A melhor maneira que o homem dispõe para se aperfeiçoar, é
aproximar-se de Deus.
9. A Evolução é a Lei da Vida, o Número é a Lei do Universo, a
Unidade é a Lei de Deus.
10. A vida é como uma sala de espectáculos: entra-se, vê-se e
sai-se.
11. A sabedoria plena e completa pertence aos deuses, mas os
homens podem desejá-la ou amá-la tornando-se filósofos

64
Pitágoras de Samos

Com Pitágoras de Samos a filosofia muda de quadrante geográfico.


Este emigrante instala-se em Crotona, na Grande Grécia, onde funda
uma escola.

A escola pitagórica é a primeira a ser fundada na Grécia. Vários


testemunhos indicam que se tratava de uma escola relativamente
fechada.

A índole da escola pitagórica é religiosa e de investigação. A


purificação da alma e o seu destino são preocupações fundamentais
mas a sua contribuição filosófica é relevante e os pitagóricos ficarão
célebres pelos seus estudos de matemática.

A escola desenvolve-se, nestas vertentes mas há dois aspectos que


ainda devemos mencionar:

Pitágoras, não obstante ter sido uma figura histórica,


aparece, cedo, rodeado pelo maravilhoso.
Este pensador aparece com traços xamanísticos o que
mostra claramente a presença do antigo corpo de saber no
campo filosófico;
Há uma ligação entre o pitagorismo e os mistérios órficos.
Durante bastante tempo afirmou-se que o Orfismo
influenciou o pitagorismo mas hoje coloca-se a hipótese de
ter sido o pitagorismo a influenciar o Orfismo.

A escola pitagórica chegou a dominar, sob o ponto de vista político, a


cidade de Crotona. Em determinada altura a facção democrática da
Cidade revoltou-se e massacrou os pitagóricos.

Foram poucos os que escaparam; Pitágoras foi um deles e refugiou-se


em Metaponto, onde veio a falecer.

Conhecer o que pertenceu a Pitágoras e às várias gerações dos seus


discípulos é tarefa muito difícil.

Essencialmente duas razões concorrem para tal facto:

65
Por uma questão de respeito os pitagóricos atribuíram
teorias posteriores ao próprio fundador;
Uma literatura abundante sobre a Escola é muito posterior a
Pitágoras e aos seus primeiros discípulos.

A Doutrina de Pitágoras:

Pelo que acabamos de ver torna-se difícil fazer a reconstituição do


pensamento de Pitágoras a nossa exposição irá incidir em
primeiro lugar sobre o problema da alma e em segundo sobre as
suas actividades no campo da matemática

A Pitágoras poder-se-á atribuir três teses que estão ligadas entre si:

(a) Imortalidade da alma

(b) transmigração da alma

(c) o parentesco dos seres animais.

A afirmação da imortalidade da alma é importante. A tradição


religiosa não tinha sido muito clara quanto a este ponto: a alma
sobrevivia à morte do corpo mas não se podia garantir a sua
imortalidade.

A transmigração das almas constitui uma inovação a salientar.


Para Pitágoras se a alma não fosse pura durante a vida terrena, após a
morte do corpo, ela teria de reencarnar noutros corpos ou humanos ou
de outros animais, até atingir a purificação. Isto é a transmigração
pressupõe a imortalidade já que a alma passando por corpos
diversos (humanos ou de outros animais) vai sobrevivendo a esses
mesmos a corpos. É importante referir que a transmigração esta
ligada a uma concepção ética a alma impura por castigo tem de
penetrar noutro corpo.

Compreende-se agora o sentido da terceira tese de Pitágoras. Se a


alma humana pode estar presente nos corpos de vários animais isso faz
com que eles sejam parentes do homem.

66
Se o tema da imortalidade da alma e a transmigração da alma estão
ligados como já vimos o parentesco dos seres animais decorre em 2
aspectos. E Porque? Uma vez que a alma humana pode habitar corpos
de outros animais (o homem incluído) Então existe um parentesco entre
os animais não é pois de admirar que a morte de qualquer animal
provocada por qualquer homem, seja considerada um pecado. A escola
pitagórica tinha um conjunto de regras que deviam ser observadas
entre as quais avultavam a que diziam respeito aos animais.

E assim não é para espantar a proibição de matar e consumir a carne


dos animais e também surge um vegetal como tabu – a fava hoje
parece-nos ridículo tal prescrição mas segundo os pitagóricos enquanto
os animais poderiam albergar uma alma humana, as facas eram o
veiculo para a alma sair do Hades para o mundo exterior.

Como já dissemos, é difícil discernir o que pertence às várias gerações


dos pitagóricos. A partir de agora, a nossa exposição abarca um período
que vai, praticamente, até aos finais do século V.

Segundo Kirk e Raven as duas doutrinas cientificas mais


fundamentais e universais

O dualismo essencial entre o limite e limitado

E o segundo a equação de coisas e números.

Pitágoras descobriu provadamente ao medir num monocórdio os


comprimentos da corda correspondentes aos sons que os principais
intervalos musicais se podem exprimir em proporções numéricas
simples entre os 4 primeiros números inteiros. A descoberta levada por
Pitágoras teve uma grande ressonância não só dentro da escola como
também fora dela assim também os pitagóricos consideravam que a a
soma dos quatro primeiros números a década tinha uma importância
decisiva no ponto de vista científico e foi tão considerada que os
pitagóricos juravam sobre ela. A década de uma forma geral era
representada por 10 pontos dispostos de tal forma que tinham a
composição de um triângulo equilátero.

67
x
xx
xxx
xxxx

Como veremos é provável que Pitágoras e os seus primeiros discípulos


que os números são corpúsculos ou átomos da matéria os quais
constituíam as coisas.

Os Primeiros Pitagóricos

Tratar da escola pitagórica e das suas origens até meados do século V


constitui uma das tarefas mais difíceis do historiador de filosofia grega.
Já tivemos a ocasião que e muito difícil destrinçar o que pertenceu as
diferentes gerações de pitagóricos. Todavia é importante é importante
realizar uma tentativa através da escola ate aproximadamente meados
do século v e que pertenceu a escola do tempo de Filolau e de Eurito. É
de salientar que o texto mais importante para a reconstituição da
doutrina pitagórica é constituído por uma longa passagem da metafísica
de Aristóteles. Mas é difícil na posição aristotélica que abarca cerca de
um século de actividades, ver o que pertenceu aos diferentes períodos
do pitagorismo.

Alcméon de Crotona

Vamos fazer uma referência a Alcmeon de Crotona que ficou célebre


como medico e cultor da investigação filosófica. Este sendo mais jovem
que Pitágoras não pode ser considerado seguramente um discípulo
deste filosofo. O próprio Aristóteles não tem a certeza se foram os
pitagóricos que influenciaram o médico de Crotona ou se deu o
contrario. Seja como for o que é importante é o facto das concepções de
alcméon se encontrarem em consonância com a escola pitagórica.

Vamos mostrar 3 aspectos que mostram uma envergadura filosófica de


ser sublinhada:

68
Em primeiro lugar a sua teoria sobre a saúde teve uma larga voga.
Para ele a saúde é o equilíbrio ente os opostos como põe exemplo o
amargo e doce. Quando este equilíbrio se rompe ou seja um dos
elementos fica em supremacia surge então a doença.

Em segundo o aspecto que vamos referir é a imortalidade da alma.

A alma é imortal devido a semelhança que ela possui com as coisas


imortais. O que é divino está em movimento como o sol, a lua e as
estrelas por exemplo. Ora como a alma está em movimento ela é
imortal como são os corpos que a mencionamos. Que saibamos esta
é a primeira tentativa de demonstração da imortalidade da alma,
baseadas não já numa simples crença mas de razões de ordem
filosófica.

O ultimo aspecto diz respeito ao conhecimento divino e ao


conhecimento humano.

Enquanto no primeiro aparece a certeza e a clareza, no segundo


apenas surgem as conjunturas. È uma oposição que vai ser sustentada
por vários pré-socráticos ou seja aquela entre a altheia ( verdade
suprema ) e a doxa (crença comum ou opinião)

A Tábua dos opostos

Um dos pontos fulcrais do pensamento pitagórico esta contido na


celebre tábua dos opostos.

Os pitagóricos defendem a existência de dois princípios ou substâncias


opostas o limite e o ilimitado a partir dos quais o universo virá à
existência.

A tábua dos opostos é ainda hoje tema de discussão. Vejamos primeiro


os seus elementos:

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LIMITE ILIMITADO

Impar Par

Uno Múltiplo

Direito Esquerdo

Macho Fêmea

Imóvel Móvel

Recto Curvo

Luz Trevas

Bom Mau

Quadrado Rectangular

Façamos algumas considerações. Em primeiro lugar trata-se de uma


tábua com dez pares de opostos e em segundo o primeiro par é
constituído pelos dois princípios ou substâncias fundamentais para os
pitagóricos (Limite e Ilimitado).

Qual o sentido desta tábua? Esta é a questão mais difícil. Em cada


coluna o termo fundamental é o primeiro sendo os nove restantes
variações do primeiro. A coluna do Limite é positiva, a do Ilimitado,
negativa.

É muito possível que os pitagóricos pretendessem descrever a


realidade e mostrar os seus diferentes aspectos que, todavia, serão
modalidades do primeiro par de opostos.

70
As Coisas são números

Um dos temas mais importantes do pitagorismo é sem dúvida a tese


que ficou famosa "as coisas são números".

Assim pretendeu-se ver uma matematização do universo , mas para


que tal acontecesse ser necessária a concepção abstracta dos números.

Ora com o próprio Pitágoras e as primeiras gerações de pitagóricos, a


matemática, como a aritmética e a geometria fizeram sem dúvida
progressos assinaláveis no mundo grego. Todavia o numero para os
pitagóricos eram algo de material um corpúsculo ou átomo de matéria.
Mas ainda o que vai provocar grande polémica a escola considerou
indistintamente, os números, os pontos geométricos e os corpúsculos
materiais. Os Pitagóricos não introduziram distinção entre átomos,
números e pontos da geometria. Os Números como corpúsculos são
assinalados de forma bem explicita pelo próprio Aristóteles bem
informado sobre as teorias pitagóricas. Aristóteles vai afirmar que esses
números são partes constituintes das coisas. Assim podemos dizer que
as coisas existentes são formadas por aglomerados de números. Por
outras palavras significam as coisas são conjuntos de corpúsculos
(átomos).

A cosmologia

Os pitagóricos da primeira metade do século v apresentaram como era


lógico a sua concepção cosmológica.

Podemos dizer que o princípio gerador do universo é duplo pois será o


par de opostos limite e ilimitado que estará na sua génese

O limite desenvolveu-se como uma semente que se desenvolve e, ao


crescer foi penetrado pelo ilimitado o qual estava no seu exterior e que
o fragmentou em corpúsculos.

O universo é constituído por um fogo central (que ilumina o Sol e a


Lua) e por nove astros visíveis aos quais os pitagóricos juntaram a anti-
terra (astro invisível) para perfazer o número dez que para eles era o
número perfeito.

71
É possível que esta cosmologia remonte ao tempo de Filolau. Aspecto
curioso é a chamada harmonia das esferas que consistia na música
provocada pelo movimento dos astros. A base desta teoria era a
seguinte: se um corpo é lançado provoca um ruído e se não ouvimos a
música dos astros é porque estamos, desde crianças, habituados a ela.

È subtil esta teoria porque os pitagóricos argumentavam que o facto


de não se ouvir essa harmonia era devido a habituação a que desde o
nascimento dos homens estavam submetidos.

A questão da alma

Como já dissemos o tema da alma ocupou um lugar de destaque nas


preocupações dos pitagóricos. Não é para admirar que se debruçassem
sobre a natureza da alma. Uma teoria considerava que a alma era um
conjunto de partículas de pó que estão em suspensão e que depois
entrariam no corpo humano ; possivelmente é a primeira concepção
defendida pela Escola.

Vamos encontrar outra teoria, mais elaborada, a qual deve ser


posterior. A alma surge como o princípio da harmonia do corpo.

A força e o prestígio da Escola pitagórica ultrapassaram o século V


devido às suas concepções filosóficas. A matemática, da qual foram
grandes cultores trouxe-lhes, todavia, grandes problemas atestados na
polémica entre eleatas e pitagóricos.

72
Heraclito de Éfeso

O devir

Nasceu em Éfeso, cidade da Jônia, descendente do fundador da cidade.


Desprezava a plebe, não participou da política e desprezou a religião, os
antigos poetas e os filósofos de seu tempo. É o primeiro pré-socrático
com um número razoável de pensamentos, que são um tanto confusos,
e por isso tem o nome de Heráclito, o obscuro. Foi muito crítico.
Chama a atenção, além da pluralidade, para os opostos. Tanto o bem
como o mal são necessários ao todo. Deus se manifesta na natureza,
abrange o todo e é crivado de opostos. O logos é o princípio cósmico,
elemento primordial, e a razão do real, a inteligência. A verdade se
encontra no devir , não no ser.

Afirmava que todas as coisas estão em movimento como um fluxo


perpétuo. O escoamento contínuo dos seres em mudança perpétua, e
que esse se processa através de contrários. A lei fundamental do
Universo é o devir, que significa contínuas transformações. Tudo flui e
nada fica como é. Coisa alguma é estável. Tudo segue seu curso. Para
Heráclito o princípio das coisas é o fogo. O fogo transforma-se em água,
sendo que uma metade retorna ao céu como vapor e a outra metade
transforma-se em terra. Sucessivamente, a terra transforma-se em água
e a água, em fogo. Todas as coisas mudam sem cessar, e o que temos
diante de nós em dado momento é diferente do que foi há pouco e do
que será depois.

Grande representante do pensamento dialético. Concebia a realidade do


mundo como algo dinâmico, em permanente transformação. Daí sua
escola filosófica ser chamada de mobilista (=movimento). Para ele, a
vida era um fluxo constante, impulsionado pela luta de forças
contrárias. Assim, afirmava que ―a luta é a mãe, rainha e princípio de
todas as coisas‖. É pela luta das forças opostas que o mundo se
modifica e evolui. Heráclito imaginava a realidade dinâmica do mundo

73
sob a forma de fogo, com chamas vivas e eternas, governando o
constante movimento dos seres.

Vida - Foi um melancólico que tinha aversão à sociedade, e evitava a


sua convivência preferindo a solidão, esta condição pessoal contribuiu
para que se criassem ficções biográficas, que não podemos hoje tomar
como precisas; nem mesmo o mobilismo de que falou, o teria defendido
de maneira tão radical quanto lhe foi atribuído.

Timeo de Fliunte, foi o primeiro a chamá-lo de "Heráclito o obscuro, ou


o tenebroso", tornado esse apelido comum. Heráclito foi um sábio, que
tinha consciência da acessibilidade do homem ao saber, ainda que não
atingido por toda a massa. A fonte principal das notícias biográficas de
Heráclito se encontra em Diógenes Laércio, além das menções dispersas
em Aristóteles e outros antigos. Não restam elementos para determinar
o ano de nascimento de Heráclito, nem o de sua morte. Mas se sabe
onde nasceu e quando floresceu: "Heráclito, filho de Bloson, ou, de
acordo com outra tradição, de Heronte , nasceu em Éfeso. Floresceu na
69ª olimpíada" 4. Esta ligação com a 69ª olimpíada, acontecida nos
anos 504 - 500 a.e.c., permite calcular vagamente o restante da
cronologia de sua vida.

Poderá ter nascido por volta de 540 a.e.c. e vivido até pelo ano 480
a.e.c. Trata-se, pois de um tempo em que as cidades da Jônia grega já
se encontravam integradas no império persa, desde 546 a.e.c., quando
Ciro houvera conquistado Sardes, aos lídios, e logo também as cidades
da Jônia. Mileto, que se rebelara, foi destruída em 494 a.e.c., portanto
ao tempo de Heráclito. Já agora o grande rei da Pérsia se chamava
Dario 486 a.e.c.

Heráclito pertenceu à nobreza de Éfeso. Em seu tempo o partido


aristocrático fora aliado do poder. Este fato poderia ter sensibilizado sua
aversão à massa popular, então exercendo democraticamente o poder,
certamente com alguns desmandos, que o deixaram pessimista. Tinha
em si mesmo alto apreço frente aos demais, sobretudo no que se referia
ao saber. Formou um alto conceito de si mesmo em seu livro onde diz: a
erudição não ensina a sabedoria; assim fosse a teria ensinado a Hesíodo
e a Pitágoras, e por sua vez a Xenófanes e Hecateo 5. Porque "nisto só
consiste a sabedoria, conhecer a mente que governa todas as coisas
através de tudo e que Homero devia ter sido excluído das competições e
açoitado e igualmente Arquíloco" .

Descendendo da nobreza, que o liga à família de Codros, rei de Atenas e


chefe da emigração jônica e fundador de Éfeso, gozava Heráclito do
direito de posição de destaque, por ocasião de atos públicos, como por
exemplo por ocasião das festas de Deméter. Talvez desiludido dos
homens e de outra parte como sábio desprendido dos formalismos,
renunciou Heráclito suas prerrogativas em favor de seu irmão 7.

74
Pronunciando-se sobre assuntos políticos, declarou muito
positivamente: "É necessário que o povo lute em defesa da lei como por
sua muralha". Tudo o mais que disse da política e seus episódios tem a
forma agressiva e contestatória. Reprovava amargamente aos efesinos a
expulsão de seu amigo Hermodoro, dizendo: ―Todos os efesinos adultos
deviam ser condenados à morte, e os adolescentes postos para fora da
cidade, porque expulsaram a Hermodoro, seu benfeitor. Que ninguém
aqui se destaca pela sua virtude; caso haja alguém deveria ir viver em
outro lugar e com outros".

Retirando-se do templo de Ártemis, e jogando os dados com as crianças,


e quando os efesinos se reuniram em torno e o observavam, disse:
Porque estais atónitos? Perversos. Acaso não é melhor fazer isto, do que
ter parte em vossa vida civil?" .Heráclito também persuadiu o tirano
Melancome a deixar o poder. Negou-se ao rei Dário quando o convidou a
ir para entre os persas. Ao que parece, notoriamente inteligente,
Heráclito muito desenvolveu a partir de própria pesquisa. Mas não terá
deixado de aproveitar os conhecimentos de outros.

"Foi excepcional desde sua infância. Quando jovem usava dizer que nada
sabia. Quando adulto declarava tudo saber.
De ninguém foi discípulo, mas dizia que indagava a si próprio e
aprendera tudo por si mesmo. Alguns, entretanto, como Sócion,
asseveram que ele foi discípulo de Xenófanes".

Sabe-se que Xenófanes era de Colófon, outra cidade jónica, e que


desenvolveu um racionalismo, em que se criticava o antropomorfismo
dos conceitos sobre Deus, e que se dirigindo para o Ocidente, fundou a
escola de Elea. Ora, Heráclito, se ocupou com uma espécie de
panteísmo hilozoista. Quanto ao pitagórico Hípaso, que é de Metaponte
(Itália) cultivou uma doutrina que contém elementos tanto pitagóricos
como jônicos, tendo o fogo como elemento principal. Ora, Heráclito
possui afinidades com este pensamento. O mais provável é que
Heráclito influenciasse sobre Hípaso, e que por isso ambos tenham
pensamento afim.

Heráclito não se deu a viagens, como outros sábios do seu tempo.


Convidado por Dário, escreveu-lhe em resposta:

“Todos os homens sobre a terra se afastam da verdade e da justiça,


entregues por falta de juízo à avareza e à sede de popularidade. Eu, que
ignoro todas as fraquezas e não desejo outra coisa senão horror ao
esplendor, não posso seguir para a Pérsia. Contento-me com pouco,
quando este pouco é para a minha mente"

Heráclito aos 60 anos vitimado pela hidropisia, foi enterrado como os


nobres em lugar público, isto é, na àgora, ou Fórum. A luta dramática
do filósofo contra a doença foi descrita de maneira muito realista, e

75
poderá não ser verdadeira em todos os detalhes:
Por fim passou a odiar os homens e se retirou para as montanhas.
Como ali só se alimentasse de ervas, adoeceu de hidropisia, sendo
obrigado a retornar à cidade. Fez aos médicos a enigmática pergunta, se
podiam mudar a chuva em secura. E como não o entendessem, meteu-
se sob o calor do esterco num estábulo, esperando que evaporasse a
água que o atormentava. Como o remédio não trouxesse resultado, logo
morreu, na idade de sessenta anos.

Hermipo conta o facto de outro modo. Teria ele perguntado aos


médicos, se era possível, comprimindo-lhe os intestinos, extrair a água.
E como o negassem, estendeu-se ao sol e ordenou aos seus
empregados, que o cobrissem com esterco de boi. Assim deitado, no
segundo dia faleceu, e foi sepultado na praça pública. Neantes de Císico
alega que, não tendo podido retirar-se de sob o esterco, lá ficou; e,
irreconhecível, por deformado, o devoraram os cães.

Obras :

Heráclito escreveu um livro Sobre a natureza. Mas não se pode afirmar


directamente que foi este o título, porquanto foi um hábito posterior
atribuir a filósofos antigos um livro com semelhante denominação. O
texto certamente existiu como provam os poucos fragmentos que dele
restaram. A circunstância de o haver depositado no famoso templo de
Ártemis (ou Diana) de Éfeso permite supor houvesse tratado de coisas
transcendentais. Ou teria ali depositado simplesmente, houvesse uma
pequena biblioteca junto ao templo.

Mas havendo-se criado em torno do livro a seita dos heraclíteos, este


fato prova que Heráclito formou discípulos e que o livro continha
elementos religiosos, que o tornavam como que um escrito sagrado.
Diógenes Laércio, depois de informar sobre o escrito de Heráclito, logo
lhe fez também a resenha doutrinária:

"O livro que lhe atribuem se estende sobre a natureza, dividido em


três exposições: sobre o todo, a política, a teologia. Este livro o
depositou no templo de Ártemis, e, de acordo com alguns, o tornou
mais obscuro intencionalmente, para que senão os adeptos se
acercassem dele, e não fosse desestimado pelo vulgo”.

Houve muitos comentários de sua obra, inclusive Antístenes e


Heráclides do Ponto, Cleantes e Esfero o Estóico, e ainda Pausânias
denominado o Heraclitista, Nicomedes, Dionísio, e entre os gramáticos
Diódoto. Este último afirma que o tratado de Heráclito não é sobre a
natureza, mas sobre o governo e que a parte física serve como
ilustração. Existem vários epigramas 16 acerca de Heráclito, entre
outros os seguintes: Eu sou Heráclito; porque me torturais ignorantes?
Não é para vós que eu trabalhei, mas para os que me podem
compreender. Para mim, um homem vale trinta minas; uma multidão

76
não vale nem uma só. Eis o que vos digo, desde o fundo do palácio de
Proserpina.

Outro epigrama: Não vos precipiteis em adquirir o livro de Heráclito de


Éfeso; o caminho é difícil; trevas e impenetrável obscuridade o rodeiam;
mas se um iniciado vos guia, o caminho brilhará mais que a luz solar
17. Heráclito ficou famoso também pela dificuldade de entendimento.
Diz Seleuco o gramático que, segundo um tal Croton, em O
mergulhador, o livro havia sido levado pela vez primeira à Grécia por um
certo Crates, o qual dizia que era preciso ser um mergulhador de Delos
para não afogar-se nesta obra.

Mesmo Sócrates ficara perplexo, conta Diógenes Laércio que como


Eurípides desse uma obra de Heráclito a Sócrates e lhe pedindo a
opinião a respeito ele contestou:

- O que compreendi é excelente; o resto suponho igual, mas para


entendê-lo é necessário um mergulhador de Delos.

Ainda sobre a obra de Heráclito, que a primeira informação parece


sugerir haver sido Sobre a natureza, sabe-se que era mencionada
também com outros títulos. O título dado para ela, por alguns é As
Musas; por outros Sobre a natureza; mas Diódoto a chama Um leme
para governar a vida; outros, Ciência dos costumes, e Complemento e
ornato de uma certa medida para todas as coisas.

Didacticamente consegue-se expor em separado o pensamento


cosmológico de Heráclito, a seguir seu monismo, conceitos psicológicos,
finalmente, conceitos éticos, sociais

Fogo como 1º Elemento | O Devir Universal | Causa e Lei


| O Monismo Heraclito | A Alma e Suas Funções |
Doutrinas Morais de Heráclito

Fogo como primeiro elemento na composição da matéria - Heráclito


afirmava que o princípio constitutivo de todas as coisas é o fogo, e a
partir dele tudo se explica por transformações, além disso o fogo é
sempre móvel, de onde decorre sua dinâmica.

Heráclito costumava afirmar que havia uma lei natural ordenadora para
todo o universo, ora ele denominava essa lei como Deus, obviamente
não como um Deus da mitologia, mas algo que fosse o organizador de
toda a existência do universo. Costumava chamar essa lei natural
também de Logos. A ordenação se dá dialecticamente, em direcções
contrárias, de concórdia e discórdia. Nesta visão complexa da
realidade total do universo de Heráclito se distinguem aspectos, que

77
importa abordar sucessivamente, começando pelo princípio
constitutivo cosmológico, o fogo.

É o fogo de Heráclito concebido com as feições do indefinido ou


infinito. Este infinito tem as mesmas feições do Apeiron de
Anaximandro de Mileto. Curiosamente Anaximandro não está incluído
entre aqueles aos quais Heráclito criticou. Mas Anaximandro
permaneceu na concepção mais abstracta do infinito, enquanto
Heráclito preferiu um elemento mais caracterizado na natureza, como o
fogo. Anaxímenes e Diógenes colocarão o ar como anterior à água, e,
entre os corpos simples, lhe dão a preferência como princípio, ao passo
que, para Hípaso de Metaponte e Heráclito de Éfeso, o primeiro
elemento é o fogo.

Heráclito e Hípaso de Metaponte vêem no fogo o princípio de todos os


seres. Tudo nasce do fogo e no fogo tudo finda. Da extinção deste,
todas as coisas são geradas; porque, contraindo-se em si mesma a
parte mais espessa (do fogo), nasce a terra; depois, dilatando-se a
terra, por virtude do fogo, nasce a água. Da evaporação desta se dá
origem ao ar. E, ao invés, o cosmo e todos os corpos pelo fogo parecem
na conflagração.

“Este mundo, o mesmo para todos, nenhum dos deuses e nem dos
homens o fez, é e será fogo sempre vivo, que se acende e com medida se
apaga".

"Aqui está um sumário de suas doutrinas. Todas as coisas são


compostas de fogo e no fogo se resolvem. As coisas todas se produzem
segundo o destino. Entram em harmonia através de um movimento de
opostos. E tudo está cheio de almas e divindades.

Parte por parte, estas são as suas doutrinas: o fogo é o princípio, ou


elemento e todos os seres são uma transformação do fogo, vindo a se
produzir por rarefação e condensação. Mas não dá explicação clara.
Todas as coisas se produzem pelo conflito de opostos e o seu conjunto
flui como um rio. Tudo o que se realiza é limitado e forma um só
universo. E ele é gerado alternativamente do fogo, e de novo reduzido ao
fogo em cada ciclo de tempo, por toda a eternidade, e isto é determinado
pelo destino.

Dentre os opostos, um deles se chama guerra e discórdia e o


outro, a tendência à destruição pelo fogo, se chama concórdia e
paz.

A transformação é um caminho para cima e para baixo, e isto


determina, o nascimento do mundo. Pela contracção o fogo se
humedece, e se converte em água. E a água ao contrair-se se converte
em terra. Este é o caminho para baixo. Mas depois novamente o fogo faz

78
expandir-se a terra, que volta a produzir a água, e da água o restante
da série, cuja maior parte resulta da exalação do mar. Este é o caminho
para cima

O Devir Universal - O devir universal das coisas era a principal


preocupação de Heráclito. Por causa da constatação da universal
transformação de tudo, induziu que fosse o fogo o elemento principal.
Porquanto se apresenta eminentemente móvel. Afirmando
enfaticamente que tudo flui e nada permanece. Qualquer fosse o
componente básico, a partir dele derivariam todas as coisas, através de
uma geral mobilidade. Não insiste Heráclito no mesmo fogo, e
concordaria fosse outro este elemento básico, desde que melhor
explicasse a hipótese da geral mobilidade.

O mobilismo incorre em várias perguntas, dentre as quais importa


começar pela forma desta alteração contínua. Dar-se-ia a alteração
mais fundamentalmente na mesma estrutura do elemento em mudança
ao modo do hilemorfismo (por substituição das determinações)? Ou se
daria ao modo do atomismo (por disposição das partes, quer por
complexificação, quer por simples condensação e rarefação)?

É difícil de decidir qual fora a precisa maneira de pensar de Heráclito.


Ou seguiu inteiramente a Anaximandro, com quem já se assemelha por
ter substituído o Apeiron indeterminado, por um elemento semelhante
pela mobilidade, o fogo, e então o fogo se transformaria ao modo
hilemorfista, pela substituição substancial das formas. Ou seguiu a
Anaxímenes, nesta outra parte, referente às mudanças, que o terceiro e
último filósofo de Mileto concebia como simples rarefação e
condensação das partículas, sem que elas mesmas individualmente se
alterassem. A aparência exterior do fogo parece conduzir à interpretação
hilemorfista: então Heráclito à mesma maneira como Anaximandro,
teria prenunciado o hilemorfismo aristotélico. Uma passagem de Platão
sugere exactamente isto:

"Não declarou Heráclito que tudo está em movimento? E que nada


permanece parado? Comparando a realidade ao curso de um rio, ele
disse: duas vezes no mesmo rio não colocarás teu pé"

O "tudo flui, ou tudo está em movimento" contém o sentido hilemórfico


da mudança da forma. De outra parte, porém, "condensação" e
"rarefação", usadas com referência à Heráclito, são tipicamente
atomistas, estas expressões não deixam clara a tese do mobilismo,
senão pelo contexto.

“Hipaso de Metaponte e Heráclito de Éfeso também admitem um só


(princípio) movente e limitado (finito), que seria o fogo. Tudo nasce do fogo
por condensação e rarefação, e tudo se resolve no fogo, sendo ele a única
natureza substancial. Pois diz Heráclito, tudo se troca por fogo, e fogo por

79
tudo. A ordem do cosmos e sua transformação em tempo limitado
obedece a uma necessidade prefixada".

"Heráclito suprimiu o repouso e a estabilidade no todo, pois isto é próprio


dos mortos. Atribui o movimento a todas as coisas: Eterno às eternas;
transitório às transitórias .

"Não é possível descer duas vezes ao mesmo rio, segundo Heráclito, nem
tocar duas vezes uma substância transitória no mesmo estado: por via
da impetuosidade e da velocidade da transmutação, aflui e reflui, avança
e retrocede, ou melhor, nem de novo, nem mais tarde, mas no mesmo
instante, se congrega e se desagrega, se junta e se disjunta" .

Mas que Heráclito também ensinava a geração e a corrupção do cosmo,


provam-no estas palavras suas:

“Transmutações de fogo: primeiro o mar; e do mar, metade terra e metade


turbilhão ígneo, o que significa que é o fogo, mediante o qual o Logos ou
Deus rege o todo, que, transmudado em ar, se volve em humor, o qual é,
por assim dizer, o sémen da ordenação cósmica, o que ele denomina:
Mar.

Do mar renasce a terra e o que entre a terra e o céu se encontra. Mas de


que maneira o cosmo regressa à ordem primordial e como se dá a
deflagração, isso claramente o exprime assim: (a terra) derrama-se qual
mar, a medida da mesma lei que prevalecia antes que este se
transmutasse em terra".

Clemente de Alexandria com suas palavras fez a seguinte afirmação:


Heráclito de Éfeso, quando ensina que um cosmo é eterno e outro
transitório, sabendo ele, todavia, que este (o transitório), no que
respeita à organização, não é diverso daquele (o eterno) que possui certa
estrutura.

Mas que ele tenha considerado como eterno o cosmo, aquele que
consiste de toda a substância, estruturado como quer que seja, isto
claramente o revela, dizendo: - Este cosmo, que é o mesmo para todos,
nem Deus nem homem algum o fez; sempre foi, é e será um fogo
eternamente vivo, que se alumia por medida e por medida se apaga"

Lê-se em Aristóteles:

"Todos os físicos admitem que o céu foi gerado, uns o proclamam eterno,
outros, corruptível, como qualquer outra natureza composta. Há também
os que sustentam que a corrupção é alternada, ora num sentido, ou
noutro, e que este processo é infinito. Tal é a doutrina de Empédocles de
Agrigento e de Heráclito de Éfeso"

80
Causa e Lei - A ideia de causa e de lei natural para as transformações
é um aspecto novo desenvolvido pela filosofia de Heráclito. Ela marcará
a diferença entre os jónicos antigos e os novos. Os antigos cuidavam da
estrutura, e muito pouco da dinâmica das mesmas. Os novos
apresentam hipóteses sobre as causas da mudança ou da
transformação. Qualquer fosse o princípio primordial, importava saber
como se dinamizava. Heráclito ainda se preocupa com uma certa ordem
racional, portanto de uma lei, e que denominava logos (inteligência ou
razão). Não aconteceriam casos, por efeito de poderes gratuitos ou
fortuitos, fatais, absurdos, míticos.

As causas do devir, além disto, mostravam outras características a


serem examinadas, como por exemplo, suas direcções para cima e para
baixo, num sentido de diversificação do fogo primordial e num de
retorno a ele, - de guerra e paz, de explosão e de apagamento. Em
outras palavras, é a lei natural a reger as coisas. Tais doutrinas sobre
as leis da dinâmica das coisas apenas se encontram em embrião nos
anteriores filósofos Milésios. Admitiam estes a transformações a partir
de causas dinâmicas; não lhes emprestaram, todavia o carácter racional
da lei, ou seja, de um logos inserido naturalmente.

Heráclito conduz à frente a interpretação dinâmica do ente. Não se


preocupando apenas com o componente estático primordial, levou sua
preocupação para a causa do comportamento dinâmico do mesmo.
Orientou desta sorte as especulações filosóficas e cientificas para um
campo que lhes é mais peculiar. O pensamento mítico também se ocupa
de causas, todavia só das causas mágicas, como da vontade que se
expressa em palavras e cria o mundo em um momento ou em poucos
dias.

Para Heráclito o logos é a lei natural racionalmente entendida


operando a partir de dentro do mundo. Se algumas versões anteriores
comentam Heráclito entendendo a lei na forma de destino, lhe
deformam o pensamento, ou emprestam a estas palavras um sentido de
lei racional, deu oportunidade a equívocos, como se ele admitisse
deuses ou almas à maneira órfica ou ao modo do estoicismo eclético
ulterior.

Encontramos no velho Platão, sem mencionar os autores, uma


referência à doutrina da geração e corrupção alternada:

"Certas musas da Jónia e da Sicília (Heráclito e Empédocles) deliberaram


que o mais seguro é combinar as duas teses e dizer que o ser é uno e
múltiplo, mantendo sua coesão pelo ódio e a amizade. Efectivamente,
discordando sempre concordam; assim dizem as musas mais decididas;
porém as mais moderadas, embora asseverando que assim é sempre,

81
também afirmam que alternadamente, ora o todo é um amigo, por virtude
de Afrodite, ora múltiplo e inimigo por obra de não sei que discórdia".

O monismo Heraclito - O monismo materialista é essencial à filosofia


de Heráclito, e foi o seu lado mais profundo entre Deus e o mundo, ou
seja, entre o logos e o fogo; também não há esta distinção entre o corpo
e alma. O fogo contém a propriedade eminente da racionalidade, a qual
denominou logos. Assim também o corpo não contém dualisticamente
uma vida, que nele resida como substância autónoma. O mesmo corpo
é vivo.

Mas como o logos é espiritual, o monismo materialista de Heráclito


é um materialismo espiritual, isto é uma substância material com
funções espirituais, por exemplo a de pensar. Em Do ar, como em
Anaxímenes, agora Heráclito simplesmente passa a denominar de outro
modo o princípio universal de tudo, o fogo. Deus, ou os deuses,
somente podem ser concebidos como integrantes deste elemento de
base. Assim se entende o episódio narrado por Aristóteles:

"Heráclito, ao aquecer-se à lareira e vendo que uns forasteiros se


detiveram, procurando-o, mandou que entrassem sem receio, pois
também ali havia deuses".

Se tudo é um ser e se Deus se confunde com o ser, devia também estar


ali. Não há verdadeiramente ser morto. Se tudo se move, isto
exactamente confere com a vida. O movimento inferior não é senão um
apaziguamento da vitalidade do fogo universal. Também o logos, em
tudo existente como propriedade essencial, diminui as suas
manifestações nos movimentos para baixo e cresce naqueles para cima.
A alma plena não é senão o instante alto do logos em acção; a morte é o
instante em que o logos já não se manifesta, sem haver todavia
desaparecido.

A vida é rítmica, pois, cresce e dominou no macrocosmo do corpo


humano, até que um dia não mais se manifesta, em virtude da
dominância do movimento para baixo, quando se comporta como água,
terra e outros materiais. Os astros, sobretudo o sol, enquanto facho de
fogo, devem ter pensamento. A presença do logos se faz sobretudo no
espaço etéreo. Dali como que se dilata para o homem sobre a terra.
Neste contexto se interpreta a afirmação:

"Heráclito diz que o sol é um facho inteligente".

Os textos referentes ao monismo panteísta, combinado com o logos


universal e a alma, se encontram com relativa profusão. Mas são
inteligíveis apenas se levarmos em conta o contexto geral em que se
situa o autor.

82
"Heráclito declara que a alma é o princípio primordial, uma vez que ela é
(idêntica à) exalação, da qual tudo o mais provém. Ele acrescenta que
este princípio é o que há de mais incorporal, e que ele está em fluxo
perpétuo"
.
"Heráclito diz que a alma do Cosmo é a exalação das coisas húmidas que
nele há, mas a dos seres viventes deriva da exalação tanto de fora como
de dentro deles mesmos, a qual em ambos os casos é homogénea"

"... Uma vez separada do corpo, regressa à alma do Cosmo, que é da


mesma natureza".

Compõem Heráclito a sua sentença, escrevendo aproximadamente isto:

"Morte das almas, o tornarem-se água, e morte da água, o volver-se em


terra; mas da terra renasce a água, e da água a alma".

Não tem sentido para Heráclito o conceito mítico da divindade separada,


nem da doutrina órfica da alma separada. Verdadeiramente nada
morre, mas apenas cessam funções, que em outras circunstâncias
poderão retomar-se. a respiração e a nutrição reacendem
constantemente o fogo da vida. É como que o contacto com o fogo
universal, o logos, que contudo não está separado, como se de fora
viesse.

Repudiando a religião mítica, Heráclito indaga:

"Se há deuses, porque os chorais? Mas se os chorais, não os venerais


como deuses".

A Alma e Suas Funções -Alma é o fogo em fluxo perpétuo,


quando em manifestações especiais. A respiração e a nutrição
reacendem constantemente o fogo da vida. É como que o contacto como
o fogo universal, o logos. Ainda que a água seja o fogo em instante
decrescente, dali pode reacender-se. Desta sorte, a água pode ser
alimento da alma. Coerentemente, diz Heráclito que a alma humana,
após a morte, retorna ao logos universal. Nada mais diz, senão, que a
vida cessa de se manifestar, sem todavia desaparecer a condição
substancial do fogo elementar de algum dia explodir na ekpyrosis.

A ressurreição de que fala Heráclito deve ser entendida dentro de seu


conceito monista de funções que sobem e descem, num emergir e
regredir das manifestações da vida. O pensamento como um emergir da
razão divina contida em todos nós, - segundo Heráclito, - foi descrito
um tanto imaginosamente, por Sexto Empírico, ao mesmo tempo que
retransmitia suas ideias sobre o antigo autor: Esta razão divina penetra
em nós pela respiração, e assim nos tornamos inteligentes, no sono,
inconscientemente, na vigília, conscientemente.

83
Pois enquanto dormimos e cerrados permanecem os poros dos nossos
sentidos, a inteligência que está em nós, aparta-se do que a rodeia, e só
como que por uma espécie de raiz, a respiração mantém o liame. Em
consequência desta separação perde a capacidade de memória que
antes possuía. Na vigília, pelo contrário, olhando através dos poros dos
sentidos, ela retoma o contacto com o circundante e readquire as
faculdades racionais. Tal como os carvões que junto ao fogo se
transformam e ardem, e, pelo contrário, se extinguem uma vez
apartados dele, assim também, a parte que do circundante em nosso
corpo reside, dele separada, quase irracional se torna; ao passo que,
reunida pelo maior número de poros (dos nossos sentidos) torna-se
semelhante ao todo (do universo penetrado pelo logos).

Este logos comum e divino, por participações do qual nós somos lógicos,
- eis a faculdade da verdade segundo Heráclito. Por conseguinte tudo
quanto a todos comumente pareça (claro), crível, será; mas, pelo motivo
oposto, quanto a um só ocorra, incrível será. Eis porque logo no
princípio do seu livro Da natureza, aludindo de certo modo ao
circundante, diz:

Este logos, ainda que exista sempre, os homens são incapazes de


entendê-lo, quer antes de o haverem escutado, quer após o terem ouvido.
Pois ainda que tudo aconteça segundo este logos, parecem não ter
experiência alguma dele, - eles que experimentaram palavras e obras,
tais como eu as exponho, distinguindo a natureza de cada uma delas , e
explicando-a tal qual é. Os demais homens, porém, tão pouco sabem o
que fazem despertos, quão pouco se lembram do que fizeram dormindo.

Por estas palavras expressamente afirma que nós tudo fazemos e


pensamos, enquanto participe do logos divino; e pouco depois
acrescenta:

Distingue Heráclito entre sentidos e inteligência. Acto contínuo, aprecia


o valor gnosiológico de ambas as formas de conhecimento.

Acontece em Heráclito aquele vago cepticismo que perpassa toda a


filosofia pré-socrática e que alcança principalmente as faculdades
sensíveis. A escola eleática (de Xenófanes e Parménides, Senão e
Melisso) adverte para a imobilidade e unidade do ente, o que provaria o
engano dos sentidos ao apresentarem como móvel e múltiplo. Agora, em
Heráclito, afirma-se a mobilidade geral e o ente, outra vez porém
advertindo para o engano dos sentidos; o devir generalizado do ente
impediria o conhecimento preciso das coisas.

Pois que lhe parecia ser o homem dotado de duas faculdades para o
conhecimento da verdade, - sensibilidade e razão (ou logos), também
para Heráclito, como para os mencionados físicos (Parménides e
Empédocles) a sensibilidade era suspeita. A razão (logos), pelo contrário,
ele a considera como faculdade (da verdade). A experiência sensível

84
reprova-a dizendo textualmente: más testemunhas os olhos e os
ouvidos para os homens com almas de bárbaros. A relatividade do ente,
do conhecimento, da moral decorre da doutrina da mobilidade
intrínseca do ente. Em virtude do movimento em direcções opostas,
para cima e para baixo, para a excitação e para o apaziguamento,
ocorrem no mesmo ente, os contrários em busca de equilíbrio.

"Heráclito diz que os contrários conferem, e dos diferentes nasce a mais


bela harmonia".

"Heráclito, o obscuro diz, que as conexões são completo e incompleto, o


que é concordante e o que é discordante; o que produz a consonância e o
que produz a dissonância, - de tudo é composto o um; de um, tudo".

Aqui está directamente indicada a moral natural, mas sempre com uma
certa relatividade, por causa da mobilidade do todo.

"Aqueles que falam com inteligência, devem apoiar-se no que é comum a


todos, como uma cidade em sua lei, ainda com muito mais firmeza. Pois
todas as leis humanas se alimentam em uma só lei divina, já que esta
domina quanto quer e é suficientemente para todos e ainda tem de sobra"
.

Os valores são apreciados diversamente. A felicidade não é buscada nas


mesmas coisas.

"O cavalo, o cão e o burro têm prazeres diversos e, como diz Heráclito,
os burros prefeririam a palha ao ouro. Com efeito, mais grato aos
burros é o pasto que o ouro" .

"Bem e mal são uma e a mesma coisa. Diz Heráclito: os médicos,


cortando, torturando, queimando, os doentes de toda a maneira, ainda
exigem deles uma recompensa que não merecem, pois só um e o mesmo
efeito conseguiram: bens e males".

Sobre classes sociais:

"Que o pai entre todos os seres gerados, é ingénito e gerado, criatura e


criador, sabemo-lo, dizendo ele: Prélio é o pai de todas as coisas, de todo
o rei; de alguns fez deuses, de outros fez homens; destes, escravos, e
daqueles, homens livres" .

"Dizem que é próprio dos deuses o regozijarem-se com o espectáculo das


batalhas. Mas não é impróprio, pois todas as acções generosas são
próprias para regozijar. Batalhas e combates parecem-nos horríveis, mas
para a divindade nada disso é horrendo... como diz Heráclito: para Deus
todas as coisas são belas, boas e justas; os homens porém, umas
consideram injustiça, outras justas”.

85
"Pois justamente também o nobre Heráclito vitupera a turba, como
destituída de inteligência e raciocínio: que senso e intelecto é o deles?
Deixam-se guiar por poetas errantes e amestrar pela multidão; não
sabem que muitos são os maus, poucos os bons” .

Teria negado o princípio de contradição? Ao dizer que o contrários se


unem, parece não ter pensado no alcance total dos termos, ao ponto de
opor o ser e o nada. Por isso o mesmo Aristóteles ressalva a Heráclito de
haver negado o princípio de contradição:

"Não é possível conceber jamais que a mesma coisa é e não é, como


certos acreditam que Heráclito o tenha dito: porque o que se diz, não se é
obrigado pensar" .

Doutrinas Morais de Heraclito - Conceitos éticos, sociais e


políticos se encontram nos fragmentos de Heráclito e em informações
doxográficas, estando influenciada pelo seu geral mobilismo e
relativismo. A divisão do seu livro em três partes, - o todo, a política, a
teologia, - prevê mesmo tais questões.

O estudo dos temas humanos, apesar de menos cuidado pelos pré-


socráticos, que são antes de tudo filósofos da natureza física, tem um
primeiro importante sinal em Heráclito ao declarar:

"Eu me busquei a mim mesmo".

É similar à advertência do templo de Delfos "conhece-te a ti mesmo"


assumida com efectividade por Sócrates.

Entretanto, o pouco, que se conservou dos ensinamentos morais de


Heráclito, mal deixa a entrever um sistema, não havendo ultrapassado
muito além dos dizeres sentenciosos da moral popular religiosa
tradicional. Entretanto, de outra parte, a filosofia de Heráclito contém o
princípio racional, que comanda o todo, ao qual tudo o mais obedece.

"Lei também é obedecer ao plano do uno".

"Um vale mais para mim, do que dez mil, se for melhor".

"Saber pensar é a mais alta virtude; e a sabedoria consiste em dizer a


verdade e agir em conformidade com a natureza, obedecendo-lhe".

"Quem queira falar com inteligência, deve tornar-se forte com o (logos)
comum a todos, como uma cidade com a lei, e ainda mais forte; porque
todas as leis humanas se nutrem de uma só, divina, que tudo governa,
podendo quanto ser, sem tudo bastando, tudo excedendo".

"O homem infantil ouve a Deus falar, como um menino a um homem".

86
Governo aristocrático. Ligado à nobreza de Éfeso, teve Heráclito
oportunidades de abordar e definir temas políticos, e nem lhe faltava
coragem para isto, nem mesmo inteligência.

A circunstância de haver sido alijado do poder o partido dos nobres,


atingindo portanto a ele mesmo, proporcionou mais uma vez a
discussão e a necessidade de defesa, inclusive a revisão dos conceitos.
Do aceso das refregas resultam alguns dos pensamentos de Heráclito e
que chegaram até nós apenas fragmentariamente. Com ironia falou:

"Que não vos falte a riqueza, ó efésios, para que fique demonstrada
vossa má conduta".

Fundando-se na diferença entre os homens, Heráclito defendeu a


aristocracia como forma do poder. O povo se atém ao sensível, quando
uns poucos se elevam ao poder raciocinativo do logos. Poucos são os
que alcançam a virtude. O povo que não a atinge, expulsa os virtuosos,
como sucedeu em Éfeso. O conceito de sociedade como resultante de
um pacto social e a partir de onde se julgaria sua forma de governo,
conforme a capacidade do próprio povo, - é coisa que não passa pela
cabeça de Heráclito, e nem passará mais tarde pela de Platão, também
defensor do absolutismo ilustrado.

A cosmogonia e astronomia é similar aos dos primeiros jónicos, todavia


ajustada ao princípio primordial do fogo e ao seu devir.

"O sol tem o tamanho de um pé humano".

"O sol, como diz Heráclito, não somente é novo cada dia, senão que é
novo continuamente". Esta afirmação se deve entender no contexto do
mobilismo Heraclito.

"As transformações do fogo são: em primeiro lugar o mar, e do mar a


metade se transformou em terra e a outra metade em torvelinho ígneo. A
terra se torna mar líquido e é medida com o mesmo logos que existia
antes de se tornar terra".

"O mais belo universo é somente um montão de desperdícios reunidos ao


azar.

Principais fragmentos:
I "Os homens são deuses mortais e os deuses, homens imortais; viver é-lhes
morte e morrer é-lhes vida".

II "Nos mesmos rios entramos e não entramos, somos e não somos".

III ―... O movimento se processa através de contrários."

87
IV ―... Tudo se faz por contraste; da luta dos contrários nasce a mais bela
harmonia...‖

V ―... Não podemos entrar duas vezes no mesmo rio, pois da segunda vez,
tanto rio, como nós estaremos mudados...‖.

VI "... Mais vale apagar o orgulho que um incêndio...".

VII ―... Para mim, um homem vale trinta minas; uma multidão não vale nem
uma só...‖.

VIII "...Se há deuses, porque os chorais? Mas se os chorais, não os venerais


como deuses...".

IX "...Bem dizia Heráclito: homens são deuses e deuses são homens, porque o
logos é um só...‖.

X "...Pois justamente também o nobre Heráclito vitupera a turba, como


destituída de inteligência e raciocínio: que senso e intelecto é o deles? Deixam-
se guiar por poetas errantes e amestrar pela multidão; não sabem que muitos
são os maus, poucos os bons...‖.

XI "O mais belo dos macacos é feio se compara com a raça dos homens. O
mais sábio dos homens, comparado com Deus parece um macaco em
sabedoria, beleza e tudo o mais.

Conclusão:

Com Heraclito e Parménides a filosofia pré-socrática atinge o seu auge. Ambos


os pensadores têm a sua actividade em pleno século V e a sua influência vai ser
nítida.

Heraclito, autor de um Acerca da Natureza, volta à prosa mas esta é oracular,


próxima dos apotegmas, o que torna a filosofia heracliteana de difícil
compreensão.

Quanto à posição de Heraclito gostaríamos de focar três pontos preliminares:

Há um ataque aos grandes poetas e a alguns pensadores (Pitágoras e


Xenófanes). Se a crítica a Homero e a Hesíodo não surpreende porque já
tinha sido feita por Xenófanes o ataque a filósofos merece uma rápida
consideração. A filosofia já tem os contornos do que vai ser a sua
natureza: é uma reflexão independente, os seus cultores são solitários em
embates com os seus colegas, nunca formando propriamente uma
comunidade;

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O interesse e a defesa por uma religião depurada é patente em Heraclito
(cfr. frag. B5). O filósofo inscreve-se numa linha do pensamento grego
cuja preocupação é a moralidade, portanto a dignidade da religião;
Tema caro a Heraclito é a diferença entre o homem e os deuses. O
filósofo reata aqui um tema contido no antigo corpo de saber. Para
Heraclito há um abismo entre a sabedoria do deus e a do homem: é a
concepção do saber humano como algo que pouco vale. É, no fundo, a
consciência de que a razão tem limites estreitos e que para além dela se
abre a imensidão do desconhecido.

A filosofia de Heraclito já era difícil de interpretar na Antiguidade quando o seu


livro ainda estava completo; os fragmentos que chegaram até nós tornam a tarefa
mais árdua. O nosso ponto de partida vai ser a noção de Logos (frags. B 1,B2 e
B50).

É conhecida a dificuldade em traduzir a palavra grega logos. Por isso vamos


tentar apresentar os traços mais relevantes desta noção em Heraclito:

O homem vulgar desconhece o Logos; existe, assim, uma clivagem entre os


homens comuns e o filósofo;
Todas as coisas acontecem segundo o Logos: este orienta e dirige tudo
quanto existe;
O Logos é algo de comum;
Por um lado o Logos é o que é comum a todas as coisas, por outro todas as
coisas formam uma unidade;
O Logos não é a palavra do filósofo mas algo que lhe é independente e
exterior.

Segundo penso para Heraclito o Logos é a estrutura das coisas existentes e o que
permite explicitá-las, fazendo, igualmente a sua unidade.

É minha opinião que o Logos se identifica com a Divindade e o Fogo, outras duas
noções fundamentais no pensamento heracliteano.

A Divindade é o uno, a sabedoria única (cfr. frag. B32); ora, a ênfase posta na
unidade liga-se, ao que nos parece, ao Logos que, como vimos, é algo de comum.

Quanto ao Fogo aparece como algo de eterno, que se acende e se extingue com
medida, sendo ele que constitui a ordem do mundo (cfr. frag. B30).

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Como podemos ver este Fogo tem uma norma interna, é inteligente, passe a
expressão, o que permite, segundo penso, identificar Logos, Divindade e Fogo.

O que há de inovador nesta perspectiva?

A substância primordial dos Milésios torna-se mais complexa em Heraclito; neste


pensador o Fogo surge com a função tradicional da physis e a sua identificação
com a Divindade não é nova.

A novidade constitui no facto de Heraclito analisar mais profundamente esta


noção, mostrando que ela possui várias facetas o que a torna mais complexa,
como já dissemos.

Até este momento acentuei a tónica da unidade numa filosofia mais conhecida
pela noção de fluir constante.

Heraclito ficou célebre pela luta dos contrários, pela mudança que se vai
operando, sem cessar.

Ora, ao que me parece, o chamado fluir constante não se opõe à concepção de


unidade que apresentei anteriormente.

O que quero dizer é que esta luta de contrários, este fluir, é superficial, ou
seja, o substrato das coisas não é afectada.

Heraclito conjuga a unidade com o movimento: o que é importante é verificar


que o essencial é a unidade, a qual não é posta em causa.

Embora Heraclito seja mais conhecido pelo filósofo do Logos ou do fluir


constante todas as suas reflexões se fazem no âmbito da cosmologia. Ao que me
parece é a origem e a estrutura do Universo assim como a forma de que se
reveste que constitui a base da sua filosofia (embora no campo estritamente
cosmológico Heraclito não seja muito original).

Por fim façamos uma referência ao tema da alma. O Efésio considera que a
alma é fogo, devendo estar ligada ao Fogo universal. As almas, e isso deve ser o
mais comum, podem transformar-se em água, o que constitui a sua morte. Por
seu lado as almas virtuosas (porque são secas) sobrevivem à morte do corpo
(veja-se os frags. B25, B36, B118).

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O facto de Heraclito se ter debruçado sobre a questão da alma mostra-nos o
seguinte:

É um tema importante a partir de Pitágoras;


Heraclito ao defender que nem todas as almas são imortais mostra
claramente as divergências e a ambiguidade deste tema desde os poemas
homéricos.

A exposição que fizemos teve de deixar de lado alguns aspectos da filosofia de


Heraclito em que ele mostra toda a sua pujança e que nos ajuda a compreender a
influência que vai ter ao longo da Filosofia Grega.

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Parmenides de Eleia

Parménides de (cerca de 530 a.C. - 460 a.C.) nasceu em Eléia, hoje


Vélia, Itália. Foi o fundador da escola eleática. Há uma tradição que
afirma ter sido Parménides o discípulo de Xenófanes de Cólofon mas
não há certeza sobre o facto, já que uma tradição distinta afirma ter
sido o filósofo pitagórico Amínias (ou Ameinias) quem despertou a
vocação filosófica de Parménides.

Os outros representantes da escola eleática são Zenão de Eleia e


Melisso de Samos.

O Pensamento de Parménides

Seu pensamento está exposto num poema filosófico intitulado Sobre a


Natureza, dividido em duas partes distintas: uma que trata do caminho
da verdade (alétheia) e outra que trata do caminho da opinião (dóxa), ou
seja, daquilo onde não há nenhuma certeza. De modo simplificado, a
doutrina de Parménides sustenta o seguinte:

Unidade e a imobilidade do Ser;


O mundo sensível é uma ilusão;
O Ser é Uno, Eterno, Não-Gerado e Imutável.

Devido a essas características, alguns vêem no poema de Parménides o


próprio surgimento da ontologia. Ao mesmo tempo, o pensamento de
Parménides é tradicionalmente visto como o oposto ao de Heráclito de
Éfeso mas verifica-se que essa oposição é relativa aos pitagóricos e não
a Heraclito de Éfeso , para alguns estudiosos: Parménides fundou a

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metafísica ocidental com sua distinção entre o Ser e o Não- Ser.
Enquanto Heráclito ensinava que tudo está em perpétua mutação,
Parménides desenvolvia um pensamento completamente antagônico:
“Toda a mutação é ilusória”. Parménides vai então afirmar toda a
unidade e imobilidade do Ser.

Fixando sua investigação na pergunta: ―o que é‖, ele tenta vislumbrar


aquilo que está por detrás das aparências e das transformações. Assim,
ele dizia: ―Vamos e dir-te-ei – e tu escutas e levas as minhas palavras.
Os únicos caminhos da investigação em que se pode pensar:

um, o caminho que é e não pode não ser, é a via da Persuasão,


pois acompanha a Verdade; o outro, que não é e é forçoso que não
seja, esse digo-te, é um caminho totalmente impensável. Pois não
poderás conhecer o que não é, nem declará-lo.”

Numa interpretação mais aprofundada dos fragmentos de Heráclito e


Parménides, podemos achar um mesmo todo para os dois e esta
oposição entre suas visões do todo passa a ser cada vez menor.

Parménides comparava as qualidades umas com as outras e as


ordenava em duas classes distintas. Por exemplo, comparou a luz e a
escuridão, e para ele essa segunda qualidade nada mais era do que a
negação da primeira. Diferenciava qualidades positivas e negativas e,
esforçava-se em encontrar essa oposição fundamental em toda a
Natureza. Tomava outros opostos: leve-pesado, activo-passivo, quente-
frio, masculino-feminino, fogo-terra, vida-morte, e aplicava a mesma
comparação do modelo luz-escuridão; o que corresponde à luz era a
qualidade positiva e o que corresponde à escuridão, a qualidade
negativa. O pesado era apenas uma negação do leve. O frio era uma
negação do quente. O passivo uma negação ao activo, o feminino uma
negação do masculino e, cada um apenas como negação do outro. Por
fim, nosso mundo dividia-se em duas esferas: aquela das qualidades
positivas (luz, quente, activo, masculino, fogo, vida) e aquela das
qualidade negativas (escuridão, frio, passivo, feminino, terra, morte). A
esfera negativa era apenas uma negação da esfera positiva, isto é, a
esfera negativa não continha as propriedades que existiam na esfera
positiva. Ao invés das expressões ―positiva‖ e ―negativa‖, Parménides
usa os termos metafísicos de ―ser‖ e ―não-ser‖. O não-ser era apenas
uma negação do ser. Mas ser e não-ser são imutáveis e imóveis. No seu
livro: Metafísica, Aristóteles expõe esse pensamento de Parménides:

“Julgando que fora do ser o não-ser é nada, forçosamente admite


que só uma coisa é, a saber, o ser, e nenhuma outra... Mas,
constrangido a seguir o real, admitindo ao mesmo tempo a unidade
formal e a pluralidade sensível, estabelece duas causas e dois
princípios: quente e frio, vale dizer, Fogo e Terra. Destes (dois
princípios) ele ordena um (o quente) ao ser, o outro ao não-ser.”

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Parménides de Eleia

Nota Introdutória

Na exposição do pensamento de Parménides de Eleia seguimos a


tradução de M. H. Rocha Pereira (Hélade). Tal significa que as
passagens traduzidas do Poema de Parménides se devem à Autora
citada.

Aproveito esta Nota para chamar a atenção do leitor para a diversidade


de traduções do texto de Parménides. A dificuldade de uma tradução,
relativamente consensual, pode levar-nos a interpretações diversificadas
da doutrina do Eleata.

Com Parménides voltamos de novo ao quadrante ocidental da Hélade.


O filósofo é natural da Eleia, situada nesse vasto espaço que é a Grande
Grécia.

Na sua juventude foi discípulo de um pitagórico e perto da sua


maturidade escreveu um poema que contém a sua doutrina filosófica.

O poema pode ser dividido em três partes: prelúdio, via da verdade e


via da opinião. Façamos algumas considerações sobre a forma como se
exprime Parménides:

A forma pela qual os pré-socráticos se exprimem é diferenciada:


uns escrevem em prosa, outros em verso. O facto de Parménides
escrever em verso mostra o prestígio de que gozava a poesia;
Parménides coloca as suas palavras na boca de uma deusa. A
interpretação deste facto é difícil e controvertida.
Penso que o filósofo quis dar o máximo de dignidade à sua
doutrina: assim, surge o discurso proferido pela deusa, para
mostrar que a sua filosofia podia ser expressa por uma divindade.
É um sentimento de grande religiosidade que anima uma parte dos
pré-socráticos.

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Vejamos, agora, alguns aspectos do Poema de Parménides.

O prelúdio tem um interesse que não é meramente formal. Ele


apresenta uma viagem, a viagem espiritual de Parménides que tendo
como guias as filhas do Sol passa por uma encruzilhada onde se
encontram os portões do caminho da Noite e do Dia (frag. 1 v. 11).
O final da viagem é a mansão da Divindade que em determinada altura
lhe diz o seguinte:

"...Força é pois que saibas tudo:


O ânimo inabalável da rotunda Verdade
e a opinião dos mortais, em que não há
confiança verdadeira
No entanto aprenderás isso também, como
as aparências
deviam ser de um modo aceitável, tudo passando
através de todas as coisas."

(frag. B 1, vv. 28-32)

Tentemos aclarar alguns pontos:

A viagem descrita no prelúdio faz-nos lembrar as deambulações da


alma de um xamane;
O prelúdio mostra claramente a ligação com o mais antigo corpo de
saber;
Na passagem transcrita podemos ver que o filósofo deve possuir
não só o conhecimento da verdade mas também a opinião dos
mortais. Teremos de ver mais tarde porque é que Parménides não
se pode contentar só com o conhecimento da verdade;
Os vv. 28-32 do frag. B1 constituem, na nossa opinião uma das
chaves para a interpretação global do Poema, como tentaremos
mostrar.

Ainda no prelúdio são indicadas as duas vias que vão ser objecto dos
dois discursos da Deusa. Uma via afirma a existência de o que é e a não
existência de o que não é (cfr. frag. B2).

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Podemos, desde já, fazer duas observações:

Os termos o que é e o que não é podem ser traduzidos,


respectivamente, por ser e não-ser. São estas duas traduções que
vamos utilizar;
Parménides, pela boca da Deusa, irá afirmar que a primeira via é a
verdadeira e a segunda deverá ser afastada porque o não-ser não
pode ser conhecido nem declarado.

A via da verdade ocupa o frag. B4 ao v.49 do frag. B8. O frag. B6


coloca um problema de interpretação, ainda hoje, largamente
controvertido. Depois de ter falado dos dois caminhos Parménides
pretende afastar o seu leitor

"...daquele também, no qual vagueiam os mortais que nada


sabem, homens de duas faces. Pois a incapacidade lhes dirige
no peito a mente errante. E eles são levados, surdos e cegos a
um tempo, estupefactos, multidão sem discernimento que
julgam que ser e não ser ora valem o mesmo, ora não valem..."
(frag. B6, vv. 4-9).

Tem-se pretendido ver nestes versos um terceiro caminho sendo


Heraclito o alvo do filósofo de Eleia.

Todavia as expressões homens de duas faces, surdos e cegos, multidão


não parecem dirigir-se a um filósofo, relativamente solitário, como
Heraclito. É mais provável que seja uma escola ou circulo o alvo de
Parménides. A expressão homens de duas faces pode aplicar-se aos
pitagóricos defensores do par Limite -Ilimitado.

O poema de Parménides marca a ruptura com a escola pitagórica à


qual tinha pertencido. Segundo pensamos o Eleata desejaria mostrar a
distância que agora o separa da sua antiga escola.

Uma última consideração sobre os versos transcritos. Segundo penso


não há uma terceira via mas sim uma variante da via da opinião. A

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digressão de Parménides teria como objectivo por em relevo aqueles que
seriam os seus grandes adversários.

O frag. B8 (vv.1-49) vai indicar as características do ser.

Em primeiro lugar o ser é incriado e imperecível porque "é completo,


inabalável e sem fim" (frag. B8, v.4). Desta forma os termos geração e
destruição não têm qualquer sentido (frag. B8, v. 21).

O ser é também homogéneo, contínuo e imóvel (frag. B8, vv. 22-28). E


como nada falta ao ser, isto é, ele é completo segundo Parménides, tem
de ser finito (frag. B8, v.32).

Não nos é possível dar uma ideia da argumentação cerrada de


Parménides nem do seu espírito que me parece dogmático. Porém,
algumas considerações são indispensáveis:

a argumentação de Parménides a favor da existência do ser e da


não existência do não-ser é brilhante. O não-ser não tem razão
para existir. Se o não-ser existisse no princípio, seria contraditório
que dele nascesse o ser; é contraditório porque admite que o ser
vem do não-ser seria considerar que o não-ser possuía o ser. Da
mesma forma o ser não pode perecer porque então o não-ser viria à
existência o que é um absurdo porque tinha de se admitir que o ser
possuía o não-ser;
ao considerar erróneos os termos geração e destruição Parménides
vai considerar o movimento como ilusório; o chamado mundo
sensível não têm sentido e não tem realidade;
convirá levar em linha de conta a continuidade do ser. Este aspecto
vai contra a descontinuidade defendida pelos pitagóricos. Veremos
mais tarde as consequências desta oposição;
por seu lado a finitude está em oposição à infinitude defendida
pelos milésios. Sob o ponto de vista etimológico infinito, em grego,
significava também imperfeição porque era algo de não acabado.
Ora, Parménides ao considerar o ser como completo, isto é, como
perfeito, concebeu-o, portanto, como finito.

Vejamos, agora, uma das passagens mais controvertidas do Poema:

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"O que pode ser pensado e o pensar são o mesmo" (frag. 8,
v.34)

Frequentes vezes esta passagem tem sido interpretada como a


identificação do ser com o pensar. Mas segundo penso não é a melhor
interpretação.

O que está aqui em causa é a natureza do pensar. Possivelmente


Parménides considerava que o pensar não é algo que se defina com
facilidade.

O pensar tem um determinado objecto que é o ser. Ou seja, se o real é


o ser e se não existe mais nada para além dele só poderá chamar-se
pensamento o acto que incide sobre o ser. Em contrapartida, em nossa
opinião, quando não há a incidência sobre o ser, rigorosamente não há
o pensar.

O discurso sobre a opinião vai desde o frag. B8, v.50 ao frag. B19.

É com estas palavras que se vai iniciar o discurso da deusa sobre o


caminho da opinião:

"Com isto cesso o meu discurso digno de fé e o meu


pensar]
acerca da verdade. Sobre a humana opinião aprende,
a partir de agora, escutando a ordem ilusória das
minhas palavras.]" (frag. B8, vv. 50-52)

Esta passagem vai auxiliar-nos a compreender o sentido geral do


Poema de Parménides. Neste momento o que nos vai interessar é a
ordem ilusória que a deusa seguirá na última parte do Poema, parte
esta que nos chegou muito fragmentada.

O que vamos encontrar no caminho da opinião é uma cosmologia de


tipo tradicional. Os dois princípios (as substâncias primordiais) que vão

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dar origem às coisas são a luz e a escuridão (cfr. frag. B8, vv. 55-59). As
coisas têm um nascimento e uma morte (frag. B19) e sabemos,
igualmente, que a Terra está presa através de raízes aquáticas (frag.
B15a).

Vamos transcrever, para uma breve análise, um frag. da última parte


do Poema:

"Assim, segundo a aparência, as coisas se criaram e


ora existem,]
e depois disto crescerão e chegarão ao seu termo.
A cada uma delas os homens puseram um nome distintivo"
(frag. B19).

Embora esta passagem pertença ao caminho da opinião ela é


extremamente importante pois tem por objectivo a natureza da
linguagem.

O frag. B19 mostra como nos inícios do séc. V o problema da


linguagem já se punha, problema este de grande relevo a partir da
segunda metade do mesmo século.

Para Parménides, segundo a via da opinião, os nomes correspondem


às coisas, isto é, distinguem-se pelas diferentes denominações. A
natureza da linguagem é permitir a compreensão das coisas por nomes
distintos.

A compreensão global da filosofia parmenidiana é difícil e estamos


muito longe de um consenso. O grande problema reside na articulação
entre o caminho da verdade e o da opinião.

Segundo nos parece para Parménides os dois caminhos são


incompatíveis: os frags. B1, vv. 28-32 e B8, vv. 50-52, que já citámos,
apontam nessa direcção. Mas, se assim é qual a função do discurso da
opinião?

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Penso que a última parte do Poema é um exercício, um jogo, realizado
por Parménides.

O filósofo quereria mostrar que a opinião pode dar azo a discursos


enganosos, que podem passar por verdadeiros. Assim, por vezes, a
opinião é difícil de refutar porque dá a sensação de verdadeira.

A posição de Parménides é importante na História da Filosofia. É


inovador em relação aos seus antecessores e levanta uma série de
problemas relevantes: a questão do ser, a desvalorização do mundo
sensível, a ilusão do movimento.

Como veremos, ou defendendo-o ou atacando-o os filósofos posteriores


não o poderão ignorar.

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