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Padre João Monteiro de Freitas

“Quando vieres, vem preparado para me administrares a Santa Unção”.


Mais ou menos estas as palavras do último telefonema, que já no Hospital do
Marco de Canaveses, o Padre João me fez, estava já eu como pároco de
Paranhos, aqui na cidade.
Tive nele um grande amigo, posso dizer, o meu grande mestre nos primeiros
anos de sacerdócio. As suas palavras e muitas vezes o silêncio eram
suficientemente interpelantes para obrigar a pensar de novo e em certos casos
a arrepiar caminhos não totalmente esclarecidos. Se as palavras obrigavam a
pensar, o silêncio, acompanhado do olhar ou até do fechar de olhos incomodava
e fazia sentir o desacordo.
A diferença de idades (23 anos) não foi impedimento para uma amizade
recíproca, apesar de uma primeira reacção de distância e até, posso dizê-lo de
alguma desconfiança, da minha parte, em virtude daquele olhar profundo de
quem habituado a querer conhecer as pessoas, as olhava com uma profundidade
que parecia trespassar, mas que tinha a intenção de conhecer: olhar onde se
percebia uma profunda simpatia.
Breve tempo foi necessário para começar a conhecer o homem e o sacer-
dote que aquele corpo franzino transportava.
Homem íntegro, de princípios: daqueles que se vergam diante de Deus
mas que sempre sabem estar de pé diante dos homens, sobretudo daqueles
que se têm por poderosos. Alguns o tentaram bajular: o Padre João, com
elegância e determinação colocava-se fora do alcance de tal gente.
Um homem bem disposto capaz de, no meio de uma conversa exibir a sua
carta de podador e dizer: “não sou como vós. Vós só sois padres! Eu sou podador
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encartado”! E sublinhava com sorriso o “encartado”. Era um prazer que não


dispensava, sair para o quintal, fazer intervalo no trabalho, ocupando-se a podar
umas árvores. Alguém que amava a natureza e se deleitava a ver crescer as
plantas.
Bem disposto, mesmo quando as coisas não corriam tão bem como
desejado. Sabia manter a serenidade mesmo nas “derrotas”. No fim de um
daqueles tempos para preparamos a homilia e diante daquilo que nos pareceu
um fracasso, comentou “ a fazer homilias, como nós, só nós”.
Um homem muito sensível mas capaz de um autodomínio tal que parecia
pessoa de poucas emoções (e era vê-lo triste a desabafar, em privado, em virtude
de incompreensão ou ingratidão).
Sensível diante de uma delicadeza para com ele havida: lembro da alegria
que lhe proporcionou a visita de um bispo, aquando do seu segundo, ou terceiro,
internamento hospitalar.
Sensível perante as dificuldades da “sua gente” cuja vida conhecia e para
quem tinha sempre uma palavra orientadora e esclarecedora.
Sensível aos acontecimentos da Igreja e do mundo que acompanhava
cuidadosamente através da leitura de vários jornais e da escuta interessada dos
“telejornais” como então se dizia. Nada escapava à sua curiosidade interessada
mas muito reflectida.
Sensível e extremamente capaz de uma piada fina e acutilante, sempre
respeitadora, mas também capaz de deixar sem resposta quando se tratava
de algo que gostasse de corrigir. Tendo o hábito e a preocupação de permanecer
disponível para quem o procurasse ele saía muito pouco. Um colega lhe disse,
um dia, em tom ligeiramente provocatório: “ninguém te vê pelo Marco!” (Esse
colega passava por lá muito tempo pelos cafés, como era hábito na altura, para
alguns). Ao que o Padre João respondeu com aquele sorriso maroto: “tu
substituis-me e muito largamente”.
Sensível (sofredor) viveu quase toda a sua vida triste porque não teve nas
suas paróquias vocações para o Sacerdócio. (Algumas para a vida religiosa,
o que muito o alegrava). Costumava, num misto de brincadeira e tristeza,
comentar: “Parece que vou morrer estéril”. Teve, entretanto, a alegria de ver
chegar quase ao fim do percurso um dos seus paroquianos (P. Benjamim
Mesquita).
Uma pessoa com apurado sentido de justiça que se revela no testamento
quando, reconhecendo o lugar da família, mas também da Diocese, lega aquilo
que por razão de justiça pensa pertencer a cada qual.
Mas comecei também a conhecer e a admirar o sacerdote – vigário da vara.
Profunda, diria, totalmente sacerdote! Escrevia na carta explicativa do
seu testamento “Queria professar a minha Fé e agradecer a Deus o Dom da
Vida, da Fé da Graça Sacerdotal.”
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Homem-sacerdote fiel ao ofício e oração mariana.


Homem-sacerdote da Eucaristia celebrada e adorada. (Quantas vezes,
ao procurá-lo sem que ele o soubesse, ia encontrá-lo na igreja em adoração
solitária).
Homem-sacerdote com total disponibilidade para o sacramento da reconci-
liação. Os seus paroquianos, bem como os das paróquias vizinhas, sabiam
sempre em que confessionário ele se sentava e a fila mais longa era sempre
a dele.
Homem-sacerdote, mestre-irmão dos seus colegas de vigararia. Nunca
faltava e tinha uma palavra a dizer, algo a acrescentar sempre que o tema se
esgotava. Deixando que todos falassem e discutissem, ele assistia, parecia que
às vezes desinteressado, de olhos fechados, parecendo dormitar, mas terminava
com uma palavra, uma sugestão que, incluindo tudo o que se dissera, era o
melhor resumo e a melhor saída pastoral.
Homem-sacerdote, formador e condutor de pessoas. Em muitas circunstân-
cias e referindo-nos a alguém saía-nos da boca “tem a escola do Padre João”. E
sempre pelos melhores motivos. Eram pessoas com princípios sólidos, determi-
nadas, firmes, empenhadas mas libertas – nada dependentes do “mestre”.
Homem-sacerdote sempre aberto ao novo. A novidade de um movimento
eclesial, desde a Acção católica, CPM, Escola de Pais, Catequese ou outros
sempre o encontraram como o mais entusiasta incentivador. Dos primeiros a
construir um Centro Pastoral, que se abriu ao enriquecimento cultural das gentes
de Sande e arredores, pela então Tele-Escola.
Homem-sacerdote de estudo. Nos tempos em que com ele convivi, não se
passava mais de 15 dias sem que viéssemos ao Porto, sobretudo para frequentar
as livrarias.
Homem-sacerdote em comunhão com o presbitério e por tal era impensável
vir ao Porto sem que, no princípio da tarde, se passasse pelo Paço para ter a
oportunidade de contactar com os colegas que àquela hora por lá passavam
(bons tempos esses em que os padres gostavam de passar pelo Paço ainda que
só pala levar um processo de casamento e cumprimentar os colegas que
passavam).
Homem-sacerdote muito humilde para se deixar aconselhar e ouvir outras
opiniões. Habituou-me a que, sempre que fosse necessário, dizer algo mais
importante, se deveria escrever e depois se levar à aprovação de outrem. Recordo
que, tendo eu já saído havia ano e meio do Marco de Canaveses, me apareceu
em Paranhos a perguntar se deveria dizer “aquilo” em S. Lourenço do Douro.
Humilde para reconhecer os seus “pecadilhos”. Creio que não faltarei à
discreção se lhes disser quanto se manifestou pesaroso pois estando já doente,
disse à irmã “parece que agora já não cozinhas bem. Vê lá o que eu fui dizer
a quem tão dedicada sempre foi”.
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E a consciência que tinha das suas faltas sobretudo de omissão? Podemos


ler na sua carta explicativa, a que já me referi: “pesa-me o mal que terei feito,
mas talvez ainda mais as minhas omissões e desinteresse”.

Este sacerdote foi para mim e creio que para muitos outros sacerdotes e
leigos alguém muito especial.
Não porque se impusesse a não ser pela amabilidade (de tantos que foram
seus alunos no Seminário de Vilar recebi testemunho de como era diferente
do então considerado normal e habitual), pela inteligência acutilante, pela
discreção mas também pela firmeza do seu carácter, pelo amor à Igreja e ao
Sacerdócio, pelo saber receber com fidalguia discreta.
No último encontro no Hospital, depois de uma longa conversa em que
falamos do percurso da doença que o minava, ele recordou-me brincando ao
seu estilo “ prometeste, quando foi operado pela primeira vez, que me dirias
tudo e não disseste nada.” – “Tu não me perguntaste”! Olhou-me, sorriu e calou.
Acho que desde o primeiro dia ele soube da doença que o minava. Doença que
não lhe tolheu a fé e a esperança pois, quando já a debilidade dele se apossara,
pedia que rezassem o hino de completas de 5ª feira: “Luz terna, suave, leva-me
mais longe. Não tenho aqui morada permanente…”
Ao despedir-me, olhei-o e de mão apertada, em atitude de despedida
perguntei (ambos sentíamos que nos víamos pela última vez):
– Como estás, João?
– Do corpo como vês: no fim. Da alma, acho que estou bem. Obrigado!
Se o Padre João, que comigo comentava “como nós, só nós”, estivesse aqui
certamente me diria “só tu. Vês o lindo serviço que fizeste? Valha-te Deus”.

Breve biografia do Padre João

João Monteiro de Freitas, nasceu a 27 de Maio de 1925. Natural de


Canaveses, Marco de Canaveses. Ordenado Presbítero a 10 de Outubro de
1948. Prefeito e professor do Seminário de Vilar – Porto, até 1952, ano em que
é nomeado Pároco de Sande – Marco de Canaveses e de S. Lourenço do Douro
desde 1974. Faleceu em 19 de Julho de 1990.

P. José Alberto Vieira de Magalhães