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A JORNADA DO HERÓI: O CAMINHO DA NOBREZA NA

ESPIRITUALIDADE CÉLTICA
Por Ávillys d’Avalon (Dartagnan Abdias)

Apresento aqui uma versão escrita da palestra por mim proferida no IX Encontro
Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Céltico no Rio de Janeiro / RJ, em 2018.
Inicialmente, a proposta visava fazer um estudo aprofundado de passagens da
jornada do herói irlandês Fionn Mac Cumhaill1, contudo, às vésperas do Encontro, um
súbito espiritual me deu e toda a palestra preparada foi alterada. Como religioso que sou,
não deixo de ouvir esses presságios intuitivos e, muitas vezes, me guio profundamente
por ele.
Não obstante, os Deuses justificariam essa mudança no exato dia do evento. Essa
palestra foi a última da sexta-feira, precedeu uma longa conversa acalorada e emocionada
entre a diretoria do Conselho Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Céltico e sua
comunidade presente. Conversa essa carregada de cobranças, mágoas, medos, choros,
mas que reviveu e reuniu uma comunidade quando o Conselho, a meu ver e aos olhos dos
membros presentes do evento, optou pelo caminho da Honra junto a sua comunidade. E,
bem, em parte é sobre isso que essa palestra tratava...
Não vou entrar nos pormenores desse assunto, e acho, por bem, focarmos na razão
de estarmos aqui: o Caminho do Herói...

1. A Clássica Jornada do Herói:

A Jornada do Herói é uma descrição literária dos passos que os protagonistas


assumem na maioria dos romances e filmes de sucesso, indicando as passagens da
construção de uma história e da jornada de vida desse herói.
Ela é composta por doze passos e divididos entre a zona do conforte e a saída da
zona de conforto do herói em questão... Ela basicamente diz: (1) o herói encontra-se em
seu status quo, em sua vida cotidiana, possivelmente alienado ou disperso da realidade
que terá que enfrentar, ou minimamente distante dela. (2) Alguma coisa, alguém, algum
evento desperta desse herói para a aventura que ele deve seguir e encarar, ele recebe seu
chamado, se torna de alguma forma o escolhido para aquela missão ou tarefa importante
ou heroica. (3) Nesse momento há a recusa ou a procrastinação, ele não se reconhece
merecedor, digno ou não se vê interessado em entrar nessa aventura, por medo, apego, ou
outros vínculos que ainda o mantém ligado a sua vida simples e distante do problema em
questão. (4) É aí que aparece o mentor, um sábio, mago ou mestre que incita o herói a sair
de sua zona de conforto e entrar na aventura, mostrando seu verdadeiro potencial e
geralmente revelando a ele algum poder ou descendência desconhecida. (5) É aqui que o
herói faz sua primeira travessia, ele vai a um mundo até então desconhecido, misterioso,
enfrentando uma realidade que ele desconhecia, deixando de ser a pessoa simples de
outrora. (6) Nessa travessia, o herói passa por testes, encontra aliados e conhece seus
inimigos... É um período marcante que em geral dá ao enredo a chave de sua aventura.
(7) Após os testes, o nosso herói entra em uma “caverna oculta”, ele passa por uma
transformação muitas vezes radical, tornando-se mais forte e despertando seus dons,
poderes e talentos mais profundos, tornando-se pronto para seu grande desafio. (8) E é o
que se segue... Aqui o herói enfrenta seu maior inimigo, sua maior provação. (9) A vitória

1
O título original da palestra é “A Jornada do Herói através da saga de Fionn Mac Cumhaill”, mas me
permiti alterar o título para esse artigo por motivos de coerência com o tema nele trabalhado.
do herói dá a ele recompensas generosas como títulos, honrarias, poderes, nobreza, mas
o principal é seu reconhecimento pelas demais personagens da trama. (10) Mas o herói
em geral rejeita ou foge dessas recompensas por tempo prolongado e inicia um caminho
de volta, um retorno a sua vida, (11) tornando-se novamente – ou buscando se tornar –
aquela pessoa simples de sua vida inicial. (12) Contudo, o herói jamais será o mesmo de
antes, ele retorna a seu mundo trazendo o “elixir”, a salvação, garantindo a paz.

Imagem 1: Os 12 passos da jornada do Herói. Por Terapia de Bolso 2

O que essa jornada não mostra, exatamente pelas histórias terminarem nesse
ponto, é que a vida do herói jamais será simples, a nobreza adquirida precisa ser mantida...
O retorno a alienação de maneira profunda é sempre a destruição do herói. Essa jornada
é eternamente cíclica, e o herói terá de estar sempre em provação, sempre em movimento.
Talvez por essa razão sequências literárias e cinematográficas dando continuidade e
novas sagas aos heróis de referência façam tanto sucesso...
Contudo, o que nos interessa aqui não é falar do sucesso ou comparar tramas
baseadas nessa Jornada do Herói, mas constatar, inicialmente, que esse herói somos todos
nós! Seja em nosso dia-a-dia, seja em jornadas especiais para alcançar sonhos e desejos
mais específicos, sejam os desafios que se colocam diante de nós. Estamos sempre sendo
chamados à aventura e, muitas vezes, estamos procrastinando nossa entrada nessa
jornada: por medo, apego e, principalmente, por não darmos aos nossos desafios e
jornadas sua real dimensão e com isso não acreditamos em nosso real potencial.
Entender que estamos sempre em uma jornada heroica, por mais simples ou
complicada que ela pareça, nos dá um lembrete básico: será preciso manter nossa nobreza

2
Imagem original em TERAPIA de Bolso. “Os 12 passos da jornada do herói: e a representação psicológica
da sua jornada de vida” in Terapia de Bolso [S. I.]. Disponível em <http://blog.terapiadebolso.com.br/os-
12-passos-da-jornada-do-heroi-representacao-psicologica/>.
durante e depois de cada jornada, ou isso será nosso fim. E é aqui que entraremos no
ponto... O caminho da nobreza.

2. Nove Virtudes fazem o caminho da nobreza:

Antes de mais nada, é preciso explicar que nobreza aqui não está vinculada a ideia
de sangue nobre, ou dinheiro, ou qualquer classe aristocrática em qualquer sociedade.
Nobreza é usada nesse texto como integridade de alma, no sentido que creio ser o real
desse termo, apesar de vilipendiado pelo tempo.
Uma alma nobre é honrosa e virtuosa, é heroica. O verdadeiro nobre não o é por
título, mas por ações e pensamentos, baseando-se na conduta virtuosa (religiosa ou não)
de sua vida. Sim, certamente manter-se nobre é difícil, mas é exatamente sobre isso que
se trata a jornada do herói a meu ver.
Para adentrarmos mais, e evidenciando que olhamos as virtudes e a nobreza com
a ótica celta-irlandesa, precisamos especificar de quais virtudes estamos falando:

 Verdade: ter ou ser verdadeiro. A verdade aqui não única ou universal, mas oposta
a mentira, a falsidade. Significa ser fiel e coerente com seu eu interior, com seu
eu real, com a essência em você e nas coisas.
 Honra: a honra é sempre oposta ao orgulho. O orgulho se refere ao que você tem
e não pode perder, a honra ao que você é e que se perder, perderá a si mesmo. O
orgulho fala sempre do e para o ego, ele quer se auto preservar, a honra fala da
comunidade: o todo vale mais que a unidade. O orgulho é destrutivo a longo prazo,
a honra é construtiva, sempre.
 Justiça: que também podemos pensar como coerência. É basicamente agir em
prol do que é justo e correto, não importa o custo. Uma pessoa honra sempre será
justa, uma pessoa orgulhosa será, corriqueiramente, injusta.
 Lealdade: essa virtude é bastante literal, significa ser leal a seus princípios, às
verdades contidas em você, nas coisas e naquilo que você se colocou a seguir, não
importa o rumo que as coisas levem.
 Coragem: é o impulso para fazer o que é certo desprovido de egoísmo. A coragem
é a base para seguir esses passos, um a um. Não tem a ver essencialmente com
enfrentar ou encarar pessoas ou situações amedrontadoras, mas tem a ver com se
manter no caminho das virtudes, fazendo o que é certo, sem se omitir ou se
corromper.
 Generosidade: ser gentil, respeitoso e caridoso sempre é uma virtude, pois é a
generosidade que cria elos duradouros que firmarão nossos aliados, nossos amigos
de vida. Ninguém pode caminhar sozinho, e a generosidade praticada hoje te será
devolvida quando você mais precisar dela.
 Hospitalidade: sagrada virtude entre os celtas praticada até entre inimigos. Não
se nega hospitalidade a ninguém, assim como não se corrompe ou macula a
hospitalidade que te foi ofertada. A hospitalidade fala que o todo é mais
importante que a unidade, por mais que os caminhos sejam diferentes, por mais
rivais que pessoas sejam, respeitar o tempo de descanso, o abrigo, a comida, o
bem estar emocional é criar uma convivência pacífica em sociedade. É “deixar as
guerras para os campos de batalha” e não para nossas casas, cidades e
comunidades.
 Força: é preciso de força, não necessariamente física, mas principalmente de
espírito, para vencer os desafios, para cumprir nossa jornada heroica
cotidianamente.
 Perseverança: manter-se sempre caminhando, não importa o quão difícil e
impossível pareça, pois o caminho é uma eterna jornada cíclica que não pode ser
interrompida. É a perseverança que garante o sucesso em todas as jornadas.

Em palavras curtas poderíamos dizer:

É preciso ter verdade, pois é nela que se encontra a honra.


É a honra que te permite ser justo ao priorizar o que é certo em
detrimento de seu próprio interesse.
Para fazer o que é certo é preciso ser leal a seus princípios e a todas as
variações que deles se estendem.
Mas é preciso coragem para fazer o que se deve.
É preciso generosidade para não exceder seu real poder, pois é nela que
jaz a justiça.
É preciso hospitalidade para entender que nenhum propósito é unitário.
É preciso força para alcançar a vitória.
E é preciso perseverança para trilhar o caminho do herói, pois não se
pode desviar das virtudes.
(Trecho retirado na íntegra dos slides da palestra, autoria própria)

2.1.A honra que mantém o caminho:

Antes de prosseguirmos é preciso dar uma pausa na segunda virtude: a honra. Mais
do que uma virtude, a honra é a responsável por manter o caminho das virtudes sempre
vivo, pois ela é incapaz de existir desconectada com o cumprimento das demais virtudes.
Em nossas práticas clânicas junto ao Leanaí an Ghealach Clann e através de nosso
trabalho devocional com a Deusa Morrigan, senhora da guerra, da morte, da profecia e da
magia, em um de seus momentos canalizada3, a deusa descreveu que a honra tem quatro
lados: pudor, valor, respeito pelas tradições e sabedoria da idade, o que nos levou
diretamente a um trecho da segunda profecia atribuída a essa deusa, proferida após a
vitória da Segunda Batalha de Magh Tuireadh, onde se lê:

“[...]
Mulheres sem pudor,
Homens sem valor,
Jovens sem o respeito pelas tradições,
Velhos sem a sabedoria da idade.
[...]”
(Trecho da Segunda Profecia de Morrigan, livre tradução minha)

3
No Leanaí an Ghealach Clann trabalhamos com algumas deidades, principalmente com Morrigan, de
forma incorporativa (possessão) mais voltado para o lado da canalização. A canalização é uma incorporação
mais branda que permite a energia da deidade se misturar com a do médium, não há uma “tomada total de
corpo”, mas uma partilha mental que permite o médium, muitas vezes inconsciente, dar passagem a falaz e
trejeitos divinos que agem através do arcabouço mental do médium a fim de se fazer compreender na
realidade em que se insere. Essa prática é feita com muita seriedade e estudo pelo clã e entendemos como
perfeitamente legítima dentro do escopo da espiritualidade céltica, como Erynn Rowan Laurie (uma das
fundadoras do Reconstrucionismo Céltico) bem pontuou essa possibilidade em suas falas no IX EBDRC.
Nessa profecia a deusa descreve o fim da Era dos Deuses e o início de uma Era
difícil, desonrosa, a Era dos Homens.
O Clã compreende que nossa função consciente e espiritual é retornar ou reativar
os princípios da honra perdido na Era dos Homens, razão pela qual compreendemos tantas
desgraças vistas e presenciadas pela humanidade no curso da história que se perpetuam
ou intensificam hoje na “Era do Self”. Assim, sendo, buscamos entender o que significa
esses quatro lados da honra.

 Pudor: a palavra pudor aqui não é entendida como saber se vestir, ou não se
permitir como é geralmente usada para mulheres, num sentido mais cristão é
machista do termo. É entendida como “mulheres sem empoderamento”, no
sentido que pudor não é se negar, mas se permitir. Mulheres sem pudor são
submissas, passivas das vontades de sua sociedade, maridos e familiares, pois o
pudor é exatamente “saber como, quando e onde”, ou seja, é sim saber se portar,
mas de acordo com sua verdade, sua essência em respeito e consonância com o
como, quando e onde. Em outras palavras, isso significa se empoderar para poder
ser você mesmo, sem se impor ou ser subjugado, em consonância com o todo
social.
 Valor: também interpretado como coragem e força. Se há mulheres sem pudor há
homens sem valor. Homens que não sabem respeitar ou valorizar a si, a suas
mulheres e a sociedade. Homens que por falta de valor, coragem e força se omitem
na conivência da opressão, do ego, do orgulho. O valor está em fazer o que é certo,
em manter a honra, em ser mais do que ter ou estar. Nesse caso, tem a ver com o
real empoderamento masculino, ao invés do homem falsamente empoderado em
uma sociedade machista, falocêntrica.
 Tradição: mais especificamente respeito pelas tradições. O respeito pelas
tradições é a base da honra, pois as tradições – coerentes, valorativas e ricas em
real pudor – nos dão o caminho para fazer o que é certo quando não sabemos como
agir, as tradições nos conectam a sabedoria dos ancestrais e ao respeito ao que foi
construído até aqui. Isso não significa ver as tradições como imutáveis, mas
inclusive respeitá-las para que sejam alteradas quando não mais representam a
necessidade daquele povo ou comunidade. Respeitar é simplesmente oposto a
menosprezar as tradições, os mais velhos e a sabedoria contida neles.
 Sabedoria: aqui especificada como aquela que se adquiri na idade. Há que se
diferenciar experiência de sabedoria... Todos os velhos certamente são experientes
e suas experiência deve ser respeitada e considerada, sim. Mas nem todos os
velhos são necessariamente sábios. Seguir um caminho de pudor, valor, respeito
pelas tradições, certamente levará a uma velhice sábia, rica em aprendizados e
experiências válidas a serem repassadas a grande comunidade. Em um panorama
geral, podemos dizer que esse lado se refere a ser sábio (ou escutar a sabedoria)
ao tomar as decisões e, principalmente, ao agir, mas sabedoria essa que se adquire
muitas vezes com tentativa e erro, erro que deve ser corrigido na base da
humildade e da honra e não renegado ou camuflado na base da soberba, do ego e
do orgulho.

Assim, para manter e viver a honra precisamos ter pudor para agir no momento
certo, valor/coragem/força para agir e não se omitir, respeito pelas tradições para saber
como agir, e sabedoria para ponderar nossa ação ou, caso necessário, reparar nosso erro.
Viver com a honra nesses quatro lados viabiliza a vivência das Nove Virtudes
descritas acima. Se a honra como mantenedora desse caminho, nos deixando levar pelo
ego e o orgulho certamente as Nove Virtudes nos parecerá uma tarefa quase impossível
de ser desempenhada.

2.2.A Janela de Fionn no caminho da nobreza:

A Janela de Fionn é um importante diagrama encontrado no Livro de Ballymote


(escrito em 1390 ou 1391 na Irlanda) onde encontramos registros do alfabeto Ogham,
cujas letras possui inúmeras referências naturais, a mais famosa delas é com as árvores
sagradas da Irlanda.
Miticamente, o Ogham é atribuído a criação do Deus Oghma, deus da eloquência,
da arte da fala, da nobreza, da escrita. Esse alfabeto carregaria conhecimentos ocultos que
se revelariam aos “letrados”, ou seja, aos estudiosos de sua grafia e complexidade.
Atualmente o Ogham é popularmente usado por druidistas e reconstrucionistas célticos
como oráculo, fazendo possível referência ao oráculo das árvores que segundo os relatos
antigos os druidas usariam. Também se tornou mais ou menos popular o uso do Ogham
em sigilos, encantos e feitiços entre os praticantes da espiritualidade céltica em geral.
O fato que nos importa é que esse alfabeto possui inúmeros e profundos
conhecimentos a serem conhecidos, vivenciados. Utilizando apenas suas associação mais
comum (com as árvores) é possível adentrar num mundo profundo que carrega as
sabedorias dessas árvores e sua força energética capaz não só de auxiliar em jogos
oraculares como desenvolver a espiritualidade4.
A clássica Janela de Fionn (Fionn’s Wheel em inglês) é um diagrama
aparentemente simples, mas bastante profundo em ensinamentos e simbolismos feito a
partir da reunião de todas as 20 letras antigas e as 5 letras adicionais do clássico Ogham
das Árvores em sua grafia mais popular. Recebe esse nome, em referência ao herói Fionn
do mito irlandês, que em uma versão de seu mito teria entalhado esse diagrama em seu
escudo após provar acidentalmente do Salmão da Sabedoria, passando a possuir toda a
sabedoria do mundo. Assim, esse diagrama teria inscrito em si, todo o conhecimento
apreendido por Fionn e seria uma chave de estudo para
que possamos também acessar esse conhecimento. A
atribuição do nome Janela, possivelmente, vem da
utilização desse diagrama como oráculo, fazendo
referência a janela na qual Fionn observava
oracularmente as coisas para saber de tudo sobre
passado, presente e futuro. Como as janelas celtas
antigas em geral eram uma abertura central no telhado
da casa (uma espécie de chaminé), acredita-se que o
diagrama também seja um mapa estelar cujo
significado se perdera no tempo.
Imagem 2: Janela de Fionn. Desenho por Etiennie Pimenta

Reunindo as modernas 25 letras ou árvores oghâmicas, a Janela de Fionn possui


uma divisão muito clássica que é onde nos ateremos aqui: 5 círculos, representando 5
aspectos do mundo; e 5 quadrantes, representando 5 aspectos da vida. Para elucidar
melhor farei uso das tabelas a seguir.

4
Trabalho o sentido de “desenvolver a espiritualidade” como correlato ao desenvolver o espírito, o caminho
místico, espiritual como forma de elevar nosso espírito a sua própria essência.
Imagem 3: Janela de Fionn: divisão em quadrantes

TABELA I:
Os pontos cardinais da Janela de Fionn5
Ponto Província Fortaleza Festival
Letra Significado associado
cardinal Irlandesa real associado
Batalha (Cath) e
Determinação: Batalhas,
disputas, audácia, locais
Norte Ulster incultos, lutas, arrogância,
A Tailtiu Lughnasadh
(Tuadus) (Ulaid) inutilidade, orgulho,
capturas, ataques,
severidade, guerras,
conflitos.
Prosperidade (Bláth) e
Mudança: Prosperidade,
suprimentos, colmeias,
torneios, feitos de armas,
chefes de família, nobres,
prodígios, bom costume,
Leste Leinster Festim de boas maneiras, esplendor,
B Tara
(Airthis) (Laighin) Tara abundância, dignidade,
força, riqueza,
administração da casa,
muitas artes, muitos
tesouros, cetim, sarja, seda,
trajes, hospitalidade.

5
Retirado na íntegra de Isarnos, Bellouesus, Interpretando o Diagrama de Fionn In Bellodunonn [S. I.].
Disponível em: <http://bellodunon.com/2013/05/20/interpretando-o-diagrama-de-fionn%E2%80%8F/>.
Ponto Província Fortaleza Festival
Letra Significado associado
cardinal Irlandesa real associado
Música (Séiss) e Poesia:
Cachoeiras, feiras, nobres,
saqueadores,
conhecimento, sutileza,
ofício dos músicos, melodia,
ofício dos menestréis,
Munster
C Sul (Dess) Tlachtgha Samhain sabedoria, honra, música,
(Mumhan)
aprendizagem, ensino,
ofício dos guerreiros, jogo
de fidchell, veemência,
ferocidade, arte poética,
advocacia, modéstia, código,
séquito, fertilidade.
Conhecimento (Fis) e
Druidismo: Sabedoria,
alicerce, ensinamento,
pacto, julgamento, crônicas,
Oeste
D Connacht Uisnech Beltane conselhos, relatos, histórias,
(Íaruss)
ciência, decoro, eloqüência,
beleza, modéstia,
generosidade, abundância,
riqueza.
Soberania (Flaith): Fírinne
(justiça, verdade,
integridade) [não está no
Centro Mide
E texto, mas fírinne é a
(Mide) (Meath)
qualidade primordial
associada a flaith, como
mostra o Audacht Morainn]

TABELA II:
Os Círculos da Janela de Fionn
Coiri Filidechta
Círculo Aspecto Místico6 Aspecto Religioso7
(Caldeirões da Poesia)
Natureza
(domínio do que Molad (louvor), Coíre Goiriath (Caldeirão do
1 nos cerca, poesia sacra. Arte Aquecimento): aspecto
qualidade natural dos bardos físico do mundo.
das coisas)

6
Por Uberti, João Eduardo Schleich. Elementos Místicos do Druidismo e sua interconexão e uso prático
[palestra] In VI EBDRC. Circulação interna. Curitiba, 2015.
7
Isarnos, Bellouesus, Interpretando o Diagrama de Fionn In Bellodunonn [S. I.]. Disponível em:
<http://bellodunon.com/2013/05/20/interpretando-o-diagrama-de-fionn%E2%80%8F/>
Coiri Filidechta
Círculo Aspecto Místico8 Aspecto Religioso9
(Caldeirões da Poesia)
Poesia (inspiração Aichetal (poesia),
Coíre Goiriath (Caldeirão do
e arte, outros gêneros
2 Aquecimento): aspecto
aprendizados e literários e artes.
físico do mundo.
talentos) Arte dos bardos
Coíre Goiriath (Caldeirão do
Filosofia Aquecimento): aspecto
Iress (religião),
(conhecimento físico do mundo.
administração e
profundo das &
3 supervisão dos
coisas e do Coíre Érmai (Caldeirão do
elementos de culto.
mundo, ou sua Movimento): aspecto
Arte dos vates
busca) emocional e espiritual do
mundo.
Divinação Inne (natureza),
(relacionamento estudo amplo da Coíre Érmai (Caldeirão do
divino e natureza. Arte dos Movimento): aspecto
4
compreensão dos vates e dos druidas emocional e espiritual do
presságios dos (em seu campo mundo.
Deuses) geral)
Druidismo Aicned (essência),
Coíre Sois (Caldeirão da
(atuação no filosofia moral,
Sabedoria): aspecto
5 mundo como aprofundamento
profundo e divino do
intercessor do essencial. Arte dos
mundo.
sagrado) druidas

Infelizmente adentrar mais profundamente nos estudos da Janela de Fionn


desviaria do propósito do presente artigo, creio que o tema mereça um estudo puramente
seu. Dessa forma, o que pretendo fazer é indicar possíveis correções da Janela de Fionn
com o Caminho da Nobreza e assim possibilitar que praticantes e interessados iniciem
seus próprios estudos e aplicações práticas usando a Janela de Fionn como guia nessa
jornada pela nobreza e em sua constante manutenção.
Assim o sendo, podemos chegar à seguinte correção nos guiando pelos círculos
desse diagrama. O Caminho proposto, de maneira espiralada, visa trabalhar e atribuir a
energias das árvores que compõem cada círculo como forma de desenvolver as
respectivas virtudes do caminho da nobreza. Ou seja, ao trilhar o estudo pela Janela de
Fionn como forma de desenvolver nossa nobreza, devemos usar a sabedoria, a energia, a
vibração e influência das árvores para nos auxiliar e desenvolver nossa nobreza interior.
Árvore por árvore, círculo por círculo, em um caminho espiral sempre iniciado pelo
quadrante norte, pela Família da Bétula.

 1º círculo: Natureza, Verdade, chamado a aventura


 2º círculo: Poesia, destino, talentos, encontro com o mentor, Honra
 3º círculo: concepção de mundo, travessia e testes, Justiça, Lealdade
 4º círculo: ação no mundo, desafio máximo, Coragem, Generosidade,
Hospitalidade

8
Idem nota 5.
9
Idem nota 6.
 5º círculo: conquista da jornada, ressureição e retorno Força, Perseverança

Saliento apenas que, de acordo com meus estudos, os forfeda (as letras adicionais
que destoam da grafia padrão presentes no segundo círculo) devem ser considerados nesse
caminho.
A Janela de Fionn possui e abre portas para desenvolvimento de muitos lados de
nossa espiritualidade, vivência pessoal e sacerdotal. É um ponto que merece um estudo
aprofundado que possivelmente jamais será finalizado. Em minha experiência, e até esse
momento específico, ela de fato responde a todas as questões e desenvolvimentos
levantados em minha espiritualidade e na espiritualidade de meu clã. Sabendo que pouco
nos chegou dos celtas antigos, e que reconstruir sua fé, sua cultura, seu culto é uma tarefa
realmente heroica muito pautada em buscar peças desconhecidas de um quebra-cabeças
enorme e incompleto, creio que a Janela de Fionn tenha muito a oferecer como base para
solidificação de possíveis reconstruções e até criação de “peças novas”.

2.3.Os Três Caldeirões da Poesia:

Já na descrição da Janela de Fionn citamos esse importante conhecimento a


espiritualidade celta-irlandesa. Vamos destrinchar um pouco mais a respeito desse
conhecimento e sua aplicação no Caminho da Nobreza.
Para os celtas, os Coiri Filidechta (Caldeirões da Poesia) são parte componentes
de todas as pessoas, e representam nossa missão terrena e espiritual nesse mundo.
Três são os Caldeirões que nos compõem: Coire Goiriath (o Caldeirão do
Aquecimento), Coire Érmai (o Caldeirão do Movimento) e Coire Sois (o Caldeirão da
Sabedoria).
Coire Goiriath fica localizado no ventre, ou na barriga, é o caldeirão que serve de
receptáculo de Dán (nosso dom, destino, nossa canção ou poesia interior é o Dán que
confere Brí ao indivíduo). Graças a esse caldeirão estamos vivos e atuantes. Ele nasce em
todos os indivíduos virado para cima e cheio. Mantê-lo cheio e virado é o que nos mantém
vivos, por isso está vinculado ao mundo físico e a nossa saúde.
Coire Érmai fica localizado no peito, é o caldeirão que serve de receptáculo para
o Brí (nossa essência, nosso vigor, nossa energia). Esse caldeirão está ligado a nossa
missão terrena, aos nossos sentimentos, nossas sensações. É aquilo que devemos lidar e
aprimorar. Afinal, Brí é um poder inerente que pode ser aprimorado ou atrofiado. Essa
caldeirão nasce lateralmente, parcialmente preenchido por Brí. É nossa missão desvirá-lo
para a posição correta e enchê-lo totalmente.
Coire Sois fica localizado sobre a cabeça, é o receptáculo de Bua (nossa vitória,
mérito, honra, dignidade e sabedoria). Esse caldeirão está ligado a evolução ou
aprimoramento que devemos buscar alcançar. Ele representa nossa elevação humana e
espiritual, nossa sabedoria muito mais que conhecimento. Bua pode ser ganhado ou
perdido de acordo com nossas ações. Esse caldeirão nasce totalmente de cabeça para
baixo e vazio, é nossa função desvirá-lo totalmente e enchê-lo.
Entendendo os caldeirões e o que eles comportam: Coire Goiriath – receptáculo
de Dán e produz Brí; Coire Érmai – receptáculo de Brí (e produz Bua – essa é uma
interpretação minha, uma sugestão...); Coire Sois – receptáculo de Bua. Agora precisamos
entender mais sobre a mística celta, relacionando os Elementos, os Reinos e os Dúile
(nove elementos ou partes indispensáveis a vida humana).
Há Três Reinos no nosso mundo material. Esses Reinos são o Céu, acima de nós;
a Terra sob os nosso pés; e o Mar (as águas), abaixo e ao nosso redor. Cada um dos
Reinos está relacionada as forças que nos moldam e motivam. O Céu é o Ar, a inspiração,
a condução das coisas, está relacionado aos Deuses. A Terra é a terra, a solidez e a
centralidade, o tangível, o local onde se opera, está relacionada com os sidhe (fadas). O
Mar é as águas, a fluidez, as emoções e o meio pelo qual se opera, é o meio termo entre
Céu e Terra, está relacionado aos Ancestrais.
Cada um desses reinos se articulam diretamente com os Três Elementos.
Céu/Ar/Sopro (aqui como elemento, não como Reino), representa nossa força vital e
nossa consciência. Mar/Águas, representa nossa mudança, nosso movimento. E Terra,
representa nossa forma e estabilidade.
Os Dúile são, de acordo com Rowena A. Seneween, “nove elementos ou virtudes
essenciais ao homem”. Em seu artigo sobre os Dúile10, Rowena estabelece a seguinte
comparação entre os Dúile e seus correspondentes mágicos11:

1°- Cnaimh (Os ossos): estrutura que sustenta o corpo. Para os celtas os ossos continham
a magia de uma pessoa. Correspondem à Cloch (pedra).

2°- Colaind (A carne): estrutura que nos dá forma e possibilita a nossa locomoção.
Corresponde à Talamh (Terra).

3°- Gruaigh (A pele / cabelo): são como "antenas", sensores corporais sensíveis ao toque,
calor, dor, frio e prazer. Indicadores de saúde e bem-estar. Correspondem às Uaine
(árvores e plantas verdes).

4°- Fuil (O sangue): fluido que dá vida ao corpo, é o rio que flui dentro de nós, que nos
aquece e reflete nosso estado emocional. Corresponde ao Muir (Mar).

5°- Anal (A respiração / sopro): é a renovação da vida, elemento que promove a limpeza
dos sentimentos e o alívio das tensões. Os celtas viam a respiração como o ar que circula
no céu. Corresponde ao Gaeth (vento).

6°- Imradud (A mente): é a responsável pela sabedoria do homem, são como as ondas
alfas da mente que controlam a natureza ondulatória do pensamento. Corresponde à
Ghealach (Lua), que controla os ciclos das marés.

7°- Drech (A face / rosto): responsável por expressar a personalidade e como o mundo as
percebe. A coragem, a reputação, a palavra e a honra eram demonstradas visualmente
pelos bardos, através da poesia. Corresponde ao Grian (Sol).

8°- Menma (O cérebro): funciona como um computador, responsável por armazenar


pensamentos e memórias, o organizador da nossa capacidade mental. Corresponde à Nel
(nuvem).

9°- Ceann (A cabeça): era venerada pelos celtas, que acreditavam ser o lugar onde residia
toda a essência da personalidade e o poder pessoal de cada um, geralmente, eram trazidas
como troféus de guerra ou conservadas em um local nobre. Corresponde ao Neamh (Céu).

10
Seneween. Rowena Arnehoy, 5º dia: Elementos in Templo de Avalon. Disponível em
<http://www.templodeavalon.com/modules/smartsection/item.php?itemid=56>.
11
Idem.
Compreendendo sobre os Caldeirões, os Reinos, os Elementos e os Dúile,
podemos seguir a proposta de João Eduardo Schleichuberti e juntar esses elementos numa
só mística, como Rowena também já indica em seu já enunciado artigo.
Desse modo, podemos elencar a seguinte relação:

 Coire Goiriath (Caldeirão do Aquecimento) – Reino da Terra, Terra:


 Cnaimh – Cloch (Ossos – Pedra)
 Colaind – Talamh (Carne – Terra)
 Gruaigh – Uaine (Cabelo – Plantas)

 Coire Érmai (Caldeirão do Movimento) – Reino do Mar, Águas:


 Fuil – Muir (Sangue – Mar)
 Anal – Gaeth (Sopro – Vento)
 Imradud – Ghealach (Mente – Lua)

 Coire Sois (Caldeirão da Sabedoria) – Reino do Céu, Ar/Sopro:


 Drech – Grian (Rosto – Sol)
 Menma – Nel (Cérebro – Nuvem)
 Cean – Neamh (Cabeça – Céu)

Ao fazermos essas relações, podemos entender melhor a natureza dos caldeirões.


E ao fazê-lo, podemos aprender a trabalha-los.
Coire Goiriath está, portanto, relacionado ao nosso físico primordial, o que nos
forma como seres viventes desse mundo. Trabalhamos ele ao mantermos nossos ossos
firmes, nossa carne sadia e forte e nosso cabelo e pele saudáveis e atuantes como antenas,
como sensores. Ele nos confere nosso dom inicial, nosso poder pessoal, nossa força vital,
nosso Dán; e fabrica nosso Brí, nossa energia. Esse caldeirão precisa ser mantido
corretamente virado e cheio.
Coire Érmai está relacionado ao nosso lado fluído, mas essencial a vida. Por isso
é regido pelas nossas emoções e fala de nossa tarefa nesse mundo. Nos ensina que
precisamos nos aprofundar em nossa sensação, em nosso eu interior, nas nossas emoções.
Sua indicação como movimento é a ideia da fluidez das coisas. Precisamos manter nossa
mente sã, nossas emoções compreendidas e não omitidas, e ter cuidado com o que
absorvemos e enviamos. Esse caldeirão precisa ser colocado na posição certa e
completado.
Coire Sois está relacionado a nossa meta, nosso objetivo, nossa iluminação, por
assim dizer. É a aquisição de sabedoria. Está relacionado com nossas decisões, nossa
personalidade, nosso foco. É preciso entendermos mais sobre nós mesmos e desenvolver
mais da capacidade que temos em todo o conjunto que chamamos de cabeça. Esse
caldeirão precisa ser totalmente desvirado e enchido.
Se Coire Goiriath está relacionado a Terra, nos indica que sua manutenção
também está relacionada a habilidades desse reino e elemento: solidez, estabilidade. E já
nos fala daqueles que podem nos ajudar nisso: os sidhe (as fadas). Aprender com os sidhe
que conhecem melhor essa existência do que nós mesmos, é ajudar-nos a manter o
Caldeirão do Aquecimento, sempre cheio, pois disso depende o trabalho dos demais
caldeirões. Esse caldeirão é repleto de Dán, que é nosso dom, nosso destino e força vital.
Aceitar quem somos e nossa missão é parte indispensável para manter Dán produzindo
Brí, que encherá o próximo caldeirão.
Já Coire Érmai está relacionado ao Mar, nos fala que sua manutenção está
relacionada ao reino e elemento Mar: fluidez, movimento, emoções. E quem poderia nos
ajudar nesse processo são os Ancestrais. Nossos antepassados que deixam conosco uma
carga enorme de experiência e aprendizado em vida, que devemos aprender e recorrer a
eles para lidar com nossas emoções. Dar voz a experiência e busca-la sempre e também
buscar o afeto, o carinho que nos liga com os que já se foram. Contudo, precisamos que
Coire Goiriath esteja cheio, e corretamente posicionado para que, com nosso trabalho e
desenvolvimento, do Caldeirão do Movimento possa acontecer. É nosso dever desvirar
esse caldeirão e preenche-lo com Brí. Enchido com Brí, começar-se-á a produzir Bua,
nossa honra, sabedoria e dignidade. Que será indispensável ao próximo caldeirão.
O Coire Sois, por sua vez, está relacionado ao Céu, e sua manutenção está
relacionado a esse reino e elemento: através da inspiração e condução. Nossos ajudantes
nesse processo são os Deuses, que são nossos grandes mestres e mentores, nos inspirando
e conduzindo pela vida. Entretanto, para começarmos a trabalhar esse caldeirão, é preciso
manter os dois outros alinhados, e totalmente preenchidos por Dán e Brí, para que Bua
comece a ser produzido. Mas não adianta apenas produzir Bua, é nossa função ainda antes
desvirar totalmente esse caldeirão para que ele possa ser um receptáculo de Bua. A
mensagem que nos fica é simples e direta: De que nos adianta honra e sabedoria se não
aceitamos quem somos, se não usamos nosso movimento (emoções) em prol de nosso
destino e personalidade. Onde colocaremos a honra sem autocontrole e auto aceitação?
Por fim, quando os três caldeirões estiverem totalmente desvirados e preenchidos,
teremos alcançado nossa evolução e iluminação. Entendido de fato quem somos e
compreendido o mundo a que vivemos.
Entendendo o significado e a complexidade básica desses caldeirões que nos
regem, é possível também entendê-los no caminho da nobreza a partir do seguinte
esquema:

 Coire Goiriath (Caldeirão do Aquecimento): Representa a zona de conforto, o


que já foi dado, a Verdade, a Honra
 Coire Érmai (Caldeirão do Movimento): Representa a necessidade de enfrentar
nosso destino, é a transformação, a Justiça, a Lealdade, a Coragem, a
Generosidade e a Hospitalidade.
 Coire Sois (Caldeirão da Sabedoria): Representa o agir no mundo e o “fim” da
busca, é a Força que impulsiona, a soberania, e a constatação de que o caminho
não é trilhado uma só vez, e, portanto, demanda Perseverança.

Ou seja, ao trabalhar nossa nobreza também trabalhamos nossos caldeirões. O


trabalho espiritual se faz de forma completa e vinculado a manutenção das Nove Virtudes.

3. A jorna de Fionn Mac Cumhaill e as virtudes do herói:

Para não dizer que não falamos da jornada de Fionn como inicialmente estava
programado, mostrarei alguns atributos de sua jornada a partir dos mitos que completam
sua total saga (da ascensão ao declínio) e mostrando como isso se encaixa na clássica
jornada do herói e na aquisição das Nove Virtudes. Viso mostrar como que a prática das
Nove Virtudes integra a concepção da jornada heroica ou caminho da nobreza, bem como
sua manutenção é necessária para se manter enquanto herói ou nobre.
Fionn foi o escolhido por ser o herói de referência de meu clã e estudos. Dentro
da concepção que podemos aprender nos mitos celtas, os heróis não são apenas pessoas
que cometem atos heroicos mas são realmente reverenciados entre os celtas antigos, em
muitos mitos sendo quase impossível distingui-los dos próprios deuses. Dessa forma, a
vida ou a jornada de um herói passa a ser entendida como vida ou jornada exemplar a ser
seguida ou referenciada e, os possíveis erros do herói, corrigidos.
Tendo em mente tudo o que já discutimos anteriormente, me permitirei utilizar
tópicos para essa comparação, recomendo aos interessados que procurem os mitos, lendas
ou estudem o Ciclo Feninano (Ciclo de Fionn) como forma de entenderem e se
aprofundarem mais nos mitos e relações aqui citadas. Particularmente, posso dizer que é
uma saga bastante interessante.

 (Chamado para a aventura) Afastado de sua verdade e natureza. O chamado a


aventura vem através da revelação de sua essência enquanto filho e herdeiro de
Cumhaill.
 (O mentor) A reconquista de sua honra conduz Fionn a Fingoll. Fingoll buscava
a sabedoria no salmão, mas é a jornada de reconquista da Honra que leva Fionn a
pesca-lo.
 (Primeira travessia) O clamor de justiça dá a Fionn o acaso da aquisição da
sabedoria do Salmão. Pois sua vingança era também o desejo de reunir e liderar
os Fianna. A mudança de nome de Denme para Fionn.
 (Aproximação da caverna) É sua lealdade para com seu propósito, sua verdade
que garante a ele o retorno capacitado junto a seu povo.
 (Provação máxima e a recompensa) A luta contra Aillen no Samhain garante a
Fionn seu reconhecimento enquanto legítimo rei dos Fianna (coragem e
generosidade).
 (O retorno e a ressurreição) O regresso a seu real povo, com sua legitimidade
reconhecida (hospitalidade)
 A soberania (força) é reconhecida entre os Fianna durante o reinado de Fionn.
 Contudo, o tempo e o retorno a zona de conforto afastaram Fionn do caminho de
herói e das virtudes. O fim do reinado se dá pela quebra da perseverança nesse
caminho que leva Fionn a uma batalha contra Diarmid pelo amor de Grainne,
selando o destino do casal apaixonado, e levando Fionn ao declínio de seu tempo
áureo.

4. Conclusão: a jornada do herói como metáfora para nossa vida física e


espiritual

Depois dessa longa e complexa explanação que não espero que o leitor
compreenda de uma só vez, mas que o faça como uso para um estudo longo e aprofundado
visando a manutenção de sua nobreza e virtude. Ou que sirva como estudo básico para
críticas, montagem de novos direcionamentos para um caminho mais ético e nobre de
nossa espiritualidade (que não deve ser vivida separada do mundo cotidiano, mas
integrada a ele, o que faz nossa ética, virtude e nobreza espiritual ser igualmente aplicada
em nossas ações mundanas).
Contudo, para isso, preciso retomar meu projeto inicial: apontar a jornada do herói
que descrevo nesse artigo como uma guia para desenvolver nosso caminho da nobreza.
Assim, essa jornada ou caminho que tento construir aqui é uma indicação do caminho de
bravura, valor que buscam melhor conexão com as máximas da honra, um retorno às
sacras condutas dos antigos. Para tanto, é preciso que vejamos o herói não como um
personagem mítico, mas como alguém que reestabelece e zela pela ordem, pela tradição,
pela honra, aplicando em sua jornada e no mundo que é tocada por ela, as Nove Virtudes.
Mas como isso é possível? Após desenvolver várias pistas iniciais para que
trabalhemos e estudemos esse desenvolvimento, posso deixar apenas mais essa tentativa
simples de juntar todo esse conhecimento... Um passo a passo que, talvez12 resuma e
oriente leitores que chegaram aqui mas ainda se sentem perdidos nessa teia de conexões
da espiritualidade céltica que teci ao longo dessas páginas.

I. Buscar nosso propósito e encontrar nossa verdade. Talvez esse seja o caminho
mais difícil a que trilhemos: responder – ainda que não em palavras mas em
sentimentos que sejam só nossos – quem somos? O que quero? Sim, não é uma
resposta fácil e possivelmente não será uma só resposta, mas se observarmos com
atenção, será possível encontrar uma essência inominável que conecta todo resto
dentro de nós.
II. Manter-nos honrados em nossos objetivos e ações. Uma vez que tenhamos
encontrado nossa essência nos sentiremos parte de um projeto, de um lugar, de
um grupo. Esse projeto, grupo e lugar nos darão as tradições que devemos
respeitar e junto com elas nosso código de honra e ética. É impossível trilhar o
caminho da nobreza sem nos mantermos honrados, honra essa que parte do todo
a que fazemos parte e se encontra abrigada em nossa essência.
III. Sair de nossa zona de conforto para adquirir o que nos é justo, mas para isso é
preciso ajuda para nos entendermos e situarmos sobre nós e o mundo. Entender
que não estamos nem caminhamos sós. Mesmo que os caminhos dos que nos
acompanham possuam suas diferenças, há sempre estradas comuns que
trilharemos juntos. Mas o comum demanda que saiamos de nossa zona de
conforto, de nosso ego.
IV. Sair de nossa zona de conforto requer lealdade e coragem para enfrentar as
tentações e as provações do mundo. Uma vez que partilhamos uma estrada
comum, será preciso ser leal aos companheiros de viagem e a estrada que
percorremos, caso contrário essa estrada não nos levará a outro lugar que a perda
de nós mesmos.
V. É a generosidade e a hospitalidade que garantirão nossa vitória ao preservarmos
as tradições. Ser generoso e hospitaleiro nos permite ter e compartilhar um pouco
de conforto nessa jornada difícil. É a garantia de um pouso para reestabelecer a
força quando ela falhar.
VI. É a força que empenhamos nesse caminho que nos conduz ao sucesso. Força
também no sentido de vontade... É nosso desejo, nosso foco, nosso
direcionamento que nos conduzirá a vitória.
VII. Mas é a perseverança que nos fará girar nessa eterna espiral de aprendizados. Sem
a perseverança jamais sairemos do item um. Um passo por vez, um dia após o
outro... Mas jamais um dia sem caminhar.

E assim, creio poder auxiliar ou criar novas reflexões na formação de uma conduta
ética, nobre na espiritualidade céltica, conduzindo nossas vidas mundanas ou físicas em
harmonia com a espiritual, construindo o que chamei de nosso caminho da nobreza.
Caminho que precisa ser vivenciado e mantido todos os dias.

12
e muito talvez pois creio ser difícil resumir todo esse estudo e correlações feitas sem que a maneira
simplória fosse falha em abarcar tamanha profundidade. Mas não se assuste, caro leitor, a execução prática
desse caminho se mostra muito mais fácil do que transcreve-lo nas palavras que aqui ensaio.
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