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22 a 24 de março de 2017 – CECULT/UFRB Santo Amaro, BA A influência da

22 a 24 de março de 2017 CECULT/UFRB Santo Amaro, BA

A influência da ética hacker para o ensino da música eletrônica em Salvador: reflexão oito anos após o simpósio ISCL no IHAC-UFBA 1

La influencia de la ética hacker para la enseñanza de la música electrónica en Salvador: reflexión ocho años después del simposio ISCL en IHAN- UFBA

Guilherme Rafael Soares (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia)

Cristano Severo Figueiró (Universidade Federal da Bahia)

Resumo O Simpósio Interatividade em Sistemas em Sistemas Computacionais Livres (ISCL - 2009 2 e 2011 3 ) inaugurou na virada da década a prática da cooperação e ensino de atividades artísticas, performáticas e musicais com bases na cultura colaborativa dos hacklabs e hackerspaces dentro do ambiente universitário do IHAC-UFBA. Neste artigo analisamos o contexto em que aconteceu esse Simpósio e o legado de metodologias para criação de música eletrônica e crítica à tecnologia que ainda ecoam.

Palavras-chave: música e mediação tecnológica; hacklabs; ética hacker; software livre; hardware livre

Palabras claves: música y mediación tecnológica; hacklabs; ética hacker; software libre; hardware libre

Introdução

Construímos esta reflexão que inicia aqui com um balanço de década, em torno dessa

maturação de um processo pedagógico que derivou do que aqui ancoramos em torno da

definição de uma ―ética hacker‖ (HIMANEN, 2001; PRETTO, 2010) e seu espírito de época.

Com um intervalo também de 10 anos entre o acerto de contas com o termo ―hacker‖

proposto por Himanen (2001) e a contextualização local pontuada por Pretto (2010),

encontramos o ponto de onde partimos:

1 Trabalho apresentado no GT 7 - Diálogos interdisciplinares: música e comunicação.

2 Disponível em: < www.iscl2009.wordpress.com>. Acesso em 10 de abril de 2017.

3 Disponível em: < www.iscl2011.wordpress.com>. Acesso em 10 de abril de 2017.

22 a 24 de março de 2017 – CECULT/UFRB Santo Amaro, BA Essas redes distribuídas,

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Essas redes distribuídas, não-hierárquicas e descentralizadas, nas quais cada usuário, ou seja, cada computador na rede pode, ao mesmo tempo, exercer a função de cliente e servidor e, o mais importante, sem um gerenciamento central, faz com que a informação trafegue velozmente, possibilitando múltiplas conexões simultâneas.

Esses movimentos para o desenvolvimento dos softwares livres catalisaram um conjunto de outros movimentos, que aqui não vamos focalizar, ligados

aos licenciamentos de produtos científicos, acadêmicos e culturais, gerando

as licenças abertas, como a General Public License (GPL), o Copyleft e o

Creative Commons. Esse conjunto de ações concomitantes foi fortalecendo

uma cultura de partilhamento, cultura essa básica e fundamental para a educação. (PRETTO, 2010)

Ou seja, partimos de um eixo que se alimentou da curiosidade pelos processos abertos do software livre 4 e as redes colaborativas mediadas pela popularização do acesso a internet, levando também em conta as bases para novas discussões legais sobre compartilhamento de arquivos e autoria. Nesta comunicação queremos pensar a influência das rotinas destas práticas artísticas, com foco na experiência de ensino da música e artes sonoras dentro de um ciclo que consideramos aqui ter tido uma de suas faíscas primordiais no IHAC-UFBA, e tomando como ponto de partida a primeira edição do evento ISCL 5 - Interatividade em Sistemas Computacionais Livres. Citamos aqui o resumo do evento disponível no site, destacando alguns pontos de articulação que queremos resgatar a partir deste contexto original:

O Simpósio Interatividade em Sistemas Computacionais Livres (ISCL2009)

em Salvador, Bahia, é uma reunião de artistas e principais desenvolvedores de software voltados para experimentações artísticas e inovações tecnológicas. Este tipo de evento é de grande importância para a continuidade de desenvolvimento de software, pois é um espaço onde se concentram diversos profissionais para, em poucos dias, exporem suas pesquisas, questões e trabalhos artísticos contribuindo para o desenvolvimento do software livre em geral e principalmente dos programas para criação de arte interativa. Esse simpósio aproveita a presença de diversos desenvolvedores e artistas estrangeiros envolvidos na realização da 3ª Convenção internacional de PD em São Paulo, na terceira

4 Uma breve definição de software livre: <https://www.gnu.org/philosophy/free-sw.pt-br.html>. Acesso em 10 de abril de 2017.

5 Disponível em: <https://iscl2009.wordpress.com/>. Acesso em 10 de abril de 2017.

22 a 24 de março de 2017 – CECULT/UFRB Santo Amaro, BA semana de julho,

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semana de julho, para fazer uma extensão do trabalho lá produzido e incentivar a produção no nordeste do Brasil. (grifos nossos)

Primeiro é preciso destacar o fato de que o envolvimento de alguns dos organizadores e participantes do ISCL na organização também da 3ª Convenção Internacional de Puredata, em São Paulo, possibilitou estender a presença de uma boa parte deles em um clima de residência artística em Salvador, com longos dias para discutir de uma maneira bastante solta questões que até então estavam sendo discutidas de forma assíncrona em lista de correio eletrônico. Segundo, que estas interações conseguidas em um tempo de mais intimidade e profundidade geraram colaborações efetivas e convergência de artistas e desenvolvedores das mais diversas localizações geográficas como, por exemplo, a possibilidade de colaboração entre alguns artistas que ali se conheceram no pioneiro festival de arte e software livre Piksel na Noruega alguns meses depois em 2009, mas também diversas parcerias que sustentaram por anos uma rede de intercâmbios sobre estes assuntos no Brasil. Sobretudo este momento fixou as bases para aquilo que aqui destacamos: a influência da pedagogia usada nas oficinas que aconteceram no ISCL em uma maneira de se ensinar interatividade e sua música e arte sonora relacionada, que leva em conta todo esse modo de produção da cultura hacker. O que destacamos aqui é que estas rotinas organizadas e celebradas durante o evento derivaram em um tipo de trabalho com pedagogia musical que encontrou o ambiente fértil na interdisciplinaridade do IHAC-UFBA e que agora pode apontar alguns caminhos e questões para o ensino das artes sonoras em diálogo com a crítica das tecnologias.

Computação musical e Sonologia no contexto do ensino interdisciplinar de artes

Não é por acaso que o evento que auxiliou a precipitação de uma massa crítica de artistas e programadores disponíveis para a residência artística e oficinas durante o ISCL de 2009 no IHAC-UFBA estava ligado ao congresso internacional da linguagem Puredata. A linguagem Puredata (PD) surge dentro de uma genealogia muito próxima das primeiras tentativas de implementação de frameworks para pesquisa sonora, dentro daquilo que seu criador define como ―paradigma Max‖ (PUCKETTE, 2002) em homenagem a Max

22 a 24 de março de 2017 – CECULT/UFRB Santo Amaro, BA Mathews, o precursor

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Mathews, o precursor da família de linguagens MUSIC, consideradas as primeiras linguagens de programação musicais, desenvolvidas nos laboratórios Bell. PD funda-se em procedimentos que foram essenciais para o início da disseminação das práticas de música computacional que puderam aos poucos serem assimiladas para o universo dos computadores pessoais. Uma das características peculiares da história desta linguagem é que ela representa uma espécie de emancipação do código, utilizando um licenciamento que permite distribuição, modificação e cópia 6 . Esta aproximação do modelo de desenvolvimento colaborativo proposto com ainda mais firmeza pelo software livre influencia todo um fazer artístico derivado. Cabe aqui dizer, também, que este e outros softwares desenvolvidos sob as mesmas condições que o PD - como Csound, OpenMusic e toda esta genealogia de uma música computacional de origem laboratorial, nos ajuda pensar a partir daquilo que hoje define-se como Sonologia 7 - termo que aos poucos cristaliza-se como agregador de pesquisa no ambiente universitário sobre fenômenos da escuta, onde o processo tecnológico da captação e transformação acústica é analisado como parte do processo de pensamento sobre materiais sonoros - sem abdicar de uma profundidade no trato com a tecnologias que permitiram estas manipulação, mas também sem a transformação do percurso em pura solução ou louvação de tecnicidades. Para um exemplo atualizado desta definição, vejamos o que diz o website do NuSom, Núcleo de Pesquisa em Sonologia da USP (grifos nossos):

A Sonologia, no âmbito deste projeto, abarca a pesquisa reflexiva acerca dos processos interativos de produção musical e deve concentrar os trabalhos de fundamentação teórica e conceitual do projeto. Está ligada à produção de caráter musicológico, buscando sempre a conexão com os trabalhos de criação e de desenvolvimento tecnológico do projeto. Serão privilegiados

6 O PD utiliza uma licença (http://puredata.info/about/pdlicense/) que é ainda mais permissiva que software livre, pois não se preocupa com a continuidade das mesmas condições nestas derivações - requisito para uma linguagem ser considerada ―software livre‖, segundo as atribuições definidas por Richard Stallman.

7 Anteriormente, Palombini (2010) parecia querer começar a utilizar o termo como uma - ―tentativa de subtrair- me [o musicólogo] a uma concepção limitada do musical, sem sucumbir à etnomusicologia‖ - buscando defender a especificidade do termo como um lugar onde a musicologia não precisaria estar restrita ao que resgata de um comentário de Schaeffer (1966) como os ―três becos sem saída da musicologia‖: noções musicais, fontes instrumentais e comentário estético‖ (SCHAEFFER, 1966) , pressupostos que costumam amarrar o método musicológico a bases do repertório ocidental ou tratam o diferente pela exoticidade.

22 a 24 de março de 2017 – CECULT/UFRB Santo Amaro, BA os seguintes enfoques:

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os seguintes enfoques:

1. processos interativos: reflexão acerca dos problemas que envolvem a interação musical, levando-se em conta aspectos descritivos, históricos, estéticos e analíticos.

2. gestualidade: envolve o estudo do gesto aplicado à performance musical, abordando questões como mapeamento gestual, tipologia de gestos, comunicação gestual entre homens e máquinas.

3. processos analíticos: análise de repertórios específicos a serem estudados pelos pesquisadores.

4. produção sonora: esta linha de atuação, de maneira mais ampla que as anteriores, abarca os trabalhos voltados à exploração de questões conceituais e teóricas relacionadas à produção musical contemporânea. Sempre em conexão com a ideia de interação, são abordados aqui problemas de conceituação e estética, bem como de confluência entre meios e linguagens diversos.

Nosso argumento aqui parte também do princípio de que esta cultura de desenvolvimento de softwares indissociada do fazer musical especializa uma escuta musical atenta ao uso crítico e não-fetichista da tecnologia. Trabalhar o ensino da música numa perspectiva de construção de um debate atualizado com questões pós-industriais ou mesmo a problematização de uma cultura pós-digital - a superação do deslumbre pelo acesso popular a cibernética e uma filosofia da arte engajada nesta superação.

Metodologias de ensino de computação musical trabalhadas no ISCL

Durante o ISCL pudemos vivenciar um ambiente de ensino de arte interativa com uma didática baseada no modus operandi das comunidades de desenvolvimento de software livre. Metodologias como hacklab 8 , desenvolvimento colaborativo por meio de sistemas de controle

8 Um hackerspace ou hackspace (junção de hacker e espaço), também conhecido como hacklab, makerspace ou creative space é um local real (em oposição ao virtual) com o formato de um laboratório comunitário que segue a ética hacker, tendo espírito agregador, convergente e inspirador. Nele, pessoas com interesses em comum, normalmente em ciência, tecnologia, arte digital ou eletrônica podem se encontrar, socializar e colaborar. Um hackerspace pode ser visto como um laboratório comunitário, uma oficina ou um estúdio onde pessoas de diversas áreas podem trocar conhecimento e experiência para construir algo juntos. (<https://pt.wikipedia.org/wiki/Hackerspace>. Acesso em 13/03/2017).

22 a 24 de março de 2017 – CECULT/UFRB Santo Amaro, BA de versão 9

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de versão 9 e sessões de improvisação audiovisual aconteceram em quase todas as oficinas.

As oficinas mais voltadas para criação musical partiram da concepção expandida de que música é realizada no formato do áudio digital e que a obra está tanto na programação do algoritmo quanto no gesto de programar a interface e manipular áudio de diversas maneiras. Um entendimento de que o código é parte fundamental da criação sonora. Nas ementas descritas abaixo foram trabalhados composição algorítmica, processamento sonoro e técnicas de programação com um grau elevado de ―estetização‖ das técnicas envolvidas. Com um objetivo claro de trabalhar a composição musical em um ambiente expandido onde o som é a unidade fundamental da obra. Mesmo para uma tradição musical tão recente quanto o ensino de computação musical, as oficinas desenvolvidas no ISCL tiveram uma caraterística de disruptura com a educação musical tradicional e complexificação dos processos computacionais em função de uma radicalidade estética dos objetos sonoros pretendidos. Tomando como exemplo as ementas originais de algumas oficinas oferecidas durante o ISCL:

GenerativeAudioNomadLab: the art of patching (Xavi Manzanares e Oscar Martin), Teacher: Oscar Martin Caedes and Xavi Manzanares Duration: 3 + 3 h Abstract: Horizontal and practise Lab for joint(colaborative) construccion of abstraciones-plugins, focused on realtime audio performance. For it at the start of the LaB we will do a graph of collective desires on the workshop , giving form to the different parts and modules (abstractions) for the assembly of a final patch-instrument that we will use in a collective jam- ssesion at the end of the lab. These plugins were working as modules that going to be available in the web or wiki of the event and in the dynamic web GenerativeAuDIYoLab, and that in future editions being developed, recycled, for others participants allowing also a continuity and connection with the LAB. The idea is to built a collection of pure data experimental audio abstractions.

9 Um sistema de controle de versões (ou versionamento), VCS (do inglês version control system) ou ainda SCM (do inglês source code management) na função prática da Ciência da Computação e da Engenharia de Software, é um software com a finalidade de gerenciar diferentes versões no desenvolvimento de um documento qualquer. Esses sistemas são comumente utilizados no desenvolvimento de software para controlar as diferentes versões histórico e desenvolvimento dos códigos-fontes e também da documentação. Esse tipo de sistema é muito presente em empresas e instituições de tecnologia e desenvolvimento de software. É também muito comum no desenvolvimento de software livre. É útil, em diversos aspectos, tanto para projetos pessoais pequenos e simples como também para grandes projetos comerciais. (<https://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_de_controle_de_vers%C3%B5es>. Acesso em 13/02/2017.)

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areas of work mutants FXs asimetric and no linear sequencers no conventional sintetizers granulators poliritmia generative process (caos teory, fractals) sonic deconstructions transcoding Links: http://noconventions.mobi/bang!!!http://www.hangar.org/wikis/lab/doku.php?id=start:audiyolab

HacktheDj! (HTDj!) Teacher: Xavi Manzanares Duration: 3h. Abstract: HTDj! ::HackTheDj! :: its a tool programmed with the visual programming language pure-data, designed for the audio performances at real time….Basically is a dual sequencer with 5 samples and 3 shynths and 1 audio-external-looper. You’ll build rythm sequences with particular durations, that you’ll articulate with closed cycling patterns, as well as with other no-conventional cycling patterns. You can alternate those cycles between percussive patterns, or continuous fluxes patterns The instrument includes:

-a glitchy synth (Fm synthesis) based on asincronic patterns (code borrowed by an emmanuelle mazza’s patch reprogrammed from an autechre’s max/msp patch) -a granular synth for re-synthesis the rest of the audio buses -a bassline with 10 voices based on a translation graph 2 frequencies. -a rythm box with a hypertextual sequencer (linear, looper, reverse and shuttle evolution of the sequence) -a polyrythm patterns based on breakcore-idm style of a quick rythm pattern over a slow ryhtm pattern. -Fx, sidechain emulator, panning with 3 physical modelling patterns -GISStreamer : an audio streamer on Giss network -multitrack recorder http://hackthedj.wordpress.com

I_LoVe_NOiSe.Pd patch originalmente criado por Aymeric Mansoux, foi modificado por Ricardo Palmieri e se transformou no mais novo instrumento generativo do projeto LiveNoiseTupi. I_LoVe_NOiSe.Pd utiliza um impulso imagético e converte unidades pixel em unidades som. ao criar/tocar este áudio glitches, um sistema de analise de frequências sonoras impulsiona flexões e torções na imagem, produzindo um novo impulso imagético e tornando o patch ―generativo‖. workshop de 4 horas explicando passo-a-passo o patch, e um concerto/performance colaborativo de 20 a 30 minutos.

Analisando as ementas das 3 oficinas citadas acima, notamos uma tendência estética voltada à radicalidade da criação sonora. Como elemento dessa estética sonora podemos

22 a 24 de março de 2017 – CECULT/UFRB Santo Amaro, BA destacar: - o

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destacar:

- o ensino de stream de fluxos de áudios como elemento criativo da poética sonora;

- a busca por uma sinestesia entre som e imagem a partir do fluxo ininterrupto de dados no ambiente Pure Data;

-

sintetizadores);

técnicas

de

construção

de

estruturas

sonoras

(sequenciadores,

- técnicas de destruição de estruturas sonoras (distorções, granuladores, ―mutant FX‖);

- Estratégias de criação generativa com composição algorítmica.

Normalmente, nos cursos de composição, componentes de computação musical são oferecidos no final do curso. Assim também como tópicos de história da música contemporânea são relegados aos últimos semestres desse componente. O radicalismo estético proposto nas oficinas do ISCL vai na contramão dessa lógica. Alunos leigos ou iniciantes foram expostos a esses tópicos sem uma preparação ou treinamento musical anterior mesmo que num primeiro momento isso tenha gerado estranhamento. Podemos pensar nessa prática como uma tábula rasa para uma nova musicalidade que demanda uma nova educação musical. Ainda que se possa argumentar que tais técnicas se aproximam dos campos do design sonoro e do design de interação, percebemos na prática a presença de um foco na expressividade criativa de uma arte sonora de invenção, com uma herança inegável das práticas comuns da música de vanguarda. Tais características afastam essas práticas do campo do design, que se aproxima mais do mercado de consumo de bens estéticos. Talvez possamos classificar as oficinas do ISCL como uma abertura pedagógica ao campo da sonologia e também da software art. Uma característica de todas oficinas do ISCL foi de que durante as aulas alunos e professores compuseram peças de software para uso criativo. Essa aproximação entre programação e criação talvez tenha sido o maior legado desse simpósio.

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Ressonâncias e aproximações

O ISCL 2009 aconteceu em um momento de criação de um curso novo. Um

Bacharelado Interdisciplinar em Artes com ênfase em Artes e Tecnologias Contemporâneas. Podemos afirmar que a presença desses artistas e a realização dessas oficinas criaram um

contágio nas metodologias desse curso novo além de uma demanda pelo perfil de docentes relacionados. Ao longo desses primeiros anos do IHAC percebemos um desenvolvimento latente do potencial de um ensino musical derivado de práticas de laboratório de interatividade e rotinas de envolvimento com novos projetos de software e hardware livre, tutoriais DIY (―faça-você- mesmo‖) e dinâmicas colaborativas. Tais práticas se encontravam concentradas nas oficinas do ISCL. Podemos ver como algumas ementas de prática artística do IHAC ministradas na área de Arte e Tecnologia estão construindo uma aproximação com o ensino musical na graduação partindo de uma abordagem combinando elementos da sonologia com criação de software livre. Podemos também pensar este percurso onde práticas colaborativas de arte digital foram influenciando assuntos de ementas do IHAC analisando a rede paralela de eventos que foi bastante influenciada pela potência dos encontros que aconteceram a partir do ISCL.

Já mencionamos a possibilidade de colaboração entre artistas do Brasil, Espanha e

Itália em um festival de software livre na Noruega (Piksel 09 10 ) como algo diretamente proporcionado pelo evento, mas podemos também pensar o quanto o evento influenciou o circuito de arte digital e artes sonoras no âmbito universitário e para além dela partir de atividades de extensão e oficinas abertas ao público geral tanto dentro dos muros da Universidade quanto em periferias de Salvador. Durante as edições de 2012 e 2013 e do festival ―Hipergânicos‖ 11 organizado pelo ―Núcleo de Arte e Novos Organismo da Escola de Belas Artes‖ (NANO Lab) da UFRJ o grupo de professores e colaboradores que deram continuidade a estes processos no IHAC promoveram debates, performances, artigos, oficinas e produziram código em colaboração e

10 Disponível em: <https://www.flickr.com/photos/rbrz/albums/72157637511525064/with/10768352474/>. Acesso em: 10 abr. 2017.

11 FRAGOSO, Maria Luiza Pinheiro Guimarães; N BREGA, Carlos Augusto da. Ressonâncias, Arte, Hibridação e Biotelemática. Rio de Janeiro: Rio Books, 2016.

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perspectiva da construção de uma rede telemática de performances e interações remotas utilizando softwares customizados para distribuição de parâmetros de gestual musical e performático que ainda continua em desenvolvimento e desdobramentos a cada novo evento. Os encontros possibilitaram um intercâmbio destas situações entre o ambiente das duas universidades 12 , encurtando distâncias geográficas e abrindo o caminho para a criação de um contexto específico de valorização dos processos onde a produção de código e poéticas está aproximada. Em Salvador o ciclo que se seguiu aos primeiros encontros promovidos pelo ISCL gerou uma dinâmica de parcerias e imersões que culminaram em alguns processos bastante produtivos. A ocupação Escape, processo imersivo dentro da galeria da Escola de Belas Artes da UFBA, gerou uma rotina de improvisações musicais e audiovisuais onde produção de código

e interfaces conseguiu ser valorizada dentro da naturalidade e espontaneidade dos processos

performáticos e compositivos. O processo também foi uma oportunidade de parceria em residência artística com músicos experimentais da cena local. Complementando e aprofundando o trabalho com código e maturidade que algumas bibliotecas de linguagem de programação usadas em aula já apresentavam na época, houve a proposta de desenvolvimento colaborativo de aplicativos musicais para dispositivos móveis. ―Musica Móvel‖ 13 possibilitou-se a documentação extensa de métodos didáticos a partir da problematização de interfaces gráficas customizadas para a usabilidade de tela e

sensores de dispositivos móveis e questões sonoras a derivadas de técnicas aprimoradas durante os últimos anos utilizando o PureData em aulas.

Na continuidade do processo, parte do grupo que esteve presente no ISCL organizou em 2014 e 2016 o ―Curso Tecnologias livres para criação artística‖ (CTLCA 14 ) trouxe uma perspectiva que começou como uma prática de extensão ainda bem ancorada na Universidade

e conseguiu em um segundo momento trabalhar com uma independência maior da estrutura,

trabalhando com laboratórios móveis e softwares livres, instalações de software como parte do processo.

12 Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=QvFRavAlMFI >. Acesso em: 10 abr. 2017.

13 Disponível em: <https://musicamovelbahia.wordpress.com/>. Acesso em: 10 abr. 2017.

14 Disponível em: <https://ctlca.wordpress.com/>. Acesso em: 10 abr. 2017.

22 a 24 de março de 2017 – CECULT/UFRB Santo Amaro, BA Em 2017 o

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Em 2017 o grupo funda o grupo de pesquisa OGAM (Orquestra Gambiarra 15 ) em um esforço para documentar histórico, técnicas e contextos dentro da rotina de pesquisa acadêmica. O presente artigo cumpre, portanto, aqui o papel de registro desse processo e inaugura uma nova fase de diálogo entre estas práticas iniciadas na UFBA agora em contato e em convergência com práticas similares trabalhadas na UFRB por parceiros desta rede.

Considerações finais

Atualmente no IHAC-UFBA encontramos como derivação desse processo algo bastante interessante sobre o ponto de vista de uma interdisciplinaridade alcançada para além do próprio Bacharelado em Artes. Em primeiro lugar as atividades e ementas que derivaram das práticas que observamos como seminais durante o espírito da época influenciaram fortemente o ensino da música para artistas que tomam o computador como um primeiro instrumento musical de composição e performance. Isto cria uma brecha onde artistas das mais diversas bases podem superar algumas barreiras anacrônicas do ensino superior música que estão amarrados no formalismo do contexto estrito das práticas partituradas ou das formações instrumentais clássicas. Também funciona como um produtivo laboratório de definição para pedagogias de uma música eletrônica para além de gêneros específicos onde ela é predominante. Outro avanço proporcionado pelas práticas foi tornar-se uma interface de aproximação entre o Bacharelado em Artes e o Bacharelado em Ciência e Tecnologia da UFBA. Nos últimos anos o interesse de estudantes de C&T por componentes que envolvem a construção de instrumentos musicais digitais, aplicativos para dispositivos móveis e interatividade em instalações artísticas trouxeram um fluxo considerável para esta ênfase, permitindo maior encontro entre grupos mistos de estudantes com os perfis de ―exatas‖ e ―humanas‖, fazendo com que tenham trocas de maior profundidade em questões científicas e técnicas que dizem respeito aos conteúdos. Por outro lado, a aproximação dos estudantes de C&T traz também a necessidade de atenção para a visão positivista da engenharia desenvolvimentista, que apesar de bastante

15 Disponível em: <http://dgp.cnpq.br/dgp/espelhogrupo/2992572806789893>. Acesso em: 10 abr. 2017.

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pragmática estimula um utilitarismo que pode ser um tanto ansioso a ponto de não se

interessar por problematizações sobre os males da tecnocracia, trazendo um risco de produção

extremamente eficaz, porém alienando processos e a ecologia de ritmos ao seu redor. Algo

ainda a se encontrar uma estratégia nem pela tecnofobia, mas também não pela tecnofilia.

Uma aproximação das técnicas de educação musical abordadas no ISCL com a cultura

popular da música eletrônica pode potencializar o desenvolvimento de comunidades de

criação e distribuição de música. Alguns caminhos que tem parecido viáveis são o das

publicações em esquema de cooperativas em netlabels - selos que lançam coletâneas e álbuns

em pacotes com capas e músicas em alta definição e coletânea aproximando artistas por meio

de temas e novas possibilidades de distribuição de música mediada por aplicativos de

dispositivos móveis. 16

Estratégias de continuidade

Como pensar ementas de graduação que contemplem a prática com técnicas de música

mediada por computadores e eletrônica sem ver esta apenas como uma ferramenta para algo

dado a priori? Como pensar o ensino da música de maneira que integre instrumentistas,

programadores e musicólogos?

Como buscar uma pedagogia da arte-tecnologia que crie uma consciência criativa e

crítica frente ao mercado e as capacidades expressivas das tecnologias futuras?

São perguntas que deixamos para serem respondidas em novos desdobramentos do

movimento que aqui descrevemos.

Referências

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16 Conferir a iniciativa Música Móvel, que também derivada das práticas aqui narradas e já citada mais acima. (<https://musicamovelbahia.wordpress.com/> ). Acesso em 10 de abril de 2017.

22 a 24 de março de 2017 – CECULT/UFRB Santo Amaro, BA CAESAR, Rodolfo. Produção

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interessar ainda possa

aí (a

da) é mú

a!”:

a

u

h

d

XI ENCUN

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