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UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA

DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS HUMANAS (DCH I)


TUR107 - FILOSOFIA E ÉTICA PROFISSIONAL

JONATAS DO CARMO SANTOS


RESENHA COMPARATIVA DA ALEGORIA DA CAVERNA E O FILME
MATRIX (1999)

O principal discípulo de Sócrates foi Platão (c. 429-347 a. C.). A passagem mais
conhecida de suas obras, a alegoria da caverna (ou mito da caverna), está no livro A
república. A Alegoria da Caverna, narrada por PLATÃO é, talvez, uma das mais
poderosas metáforas imaginadas pela filosofia, para descrever a situação geral em
que se encontra a humanidade. Para o filósofo, todos nós estamos condenados a ver
sombras à nossa frente e tomá-las como verdadeiras. Essa poderosa crítica à
condição dos homens, escrita há quase 2500 anos atrás, inspirou e ainda inspira
inúmeras reflexões. Presos numa caverna, os homens só veem sombras que são
projetadas na parede. Como nunca conheceram algo diferente, julgam que as
sombras são a realidade. Veem as aparências e pensam ver a verdade. Na alegoria
da caverna, Platão fala do mundo sensível, sujeito a interpretações falsas, e do mundo
inteligível, no qual habitam as Formas puras. Aparência e essência. Irreal e real.

No universo do filme Matrix, a Terra fica devastada como resultado de uma


guerra ocorrida entre humanos e maquinas. A humanidade não consegue vencer a
Inteligencia Artificial, segundo Morpheus, “ uma consciência singular que gerou uma
raça inteira de maquinas”, bloqueando a energia solar da qual dependiam as
maquinas. Os seres humanos derrotados tornam-se baterias de bioeletricidade e
acabam substituindo a função do Sol, sendo usados para fornecer a energia que eles
precisam.
No filme Matrix, a personagem Neo tem uma vida normal até descobrir que o
seu corpo real hiberna inerte numa cápsula, enquanto a sua mente é controlada por
uma máquina virtual, o simulacro. O simulacro é o elo perdido que liga realidade e
ilusão. O corpo que ele pensa ser real é, na verdade, uma simulação criada por um
sofisticado programa que coloca um mundo ilusório criado artificialmente e com pouca
semelhança ao que realmente está acontecendo no mundo real. Morfeu, não por
acaso o mesmo nome do Deus dos sonhos, pergunta: qual a diferença entre o sonho
e o mundo real. Em seguida, oferece a Neo a pílula vermelha que o tirará do sono e o
levará ao deserto do real. Mas Cypher, aquele que trai, e escolhe dar continuidade a
esse sono profundo, faz uma escolha diferente. Para ele, a ignorância é maravilhosa
e a Matrix pode ser mais real do que o mundo real. Sonho e realidade. Virtual e real.

Fazendo uma comparação do filme “Matrix” com a alegoria da caverna, é visível


a semelhança que o filme matrix tem com a alegoria da caverna, que é nada mais que
uma metáfora para a ignorância do homem. Antes de tirar Neo da matrix, Morpheus
acredita que ele seja o escolhido, pois ele, depois de um duro processo de
aprendizagem e de busca, entra no campo da iluminação, isto é, compreende o
conhecimento como uma jornada evolutiva, desde a sua dimensão corpórea, suas
habilidades mentais, até os seus valores, os seus afetos e a sua liberdade de escolha,
ou seja, o processo de busca pela verdade sobre si mesmo envolve o ser humano em
sua totalidade, além de ter demonstrado a capacidade de questionamento, mesmo
quando estava dentro da matrix. É evidente a busca de Neo, igualmente a de um
filosofo, pela busca do saber e do conhecimento da verdadeira realidade, que é sair
da matrix e instruir os demais, tarefa nada fácil, já que as ideias anacrônicas são
predominantes e costumam condenar, de modo prévio, todo o incomum. Isso fica
explícito em certos diálogos do filme, expondo a ideia central do filme, a reflexão da
importância do pensamento crítico filosófico e que através dos pensamentos críticos
(sair da matrix) conseguimos ultrapassar a barreira do senso comum (o senso comum
é a caverna, lugar obscuro, pleno de crenças, aparências e superstições) e da
ideologia que nos aprisiona à uma percepção restrita de uma realidade baseada em
falsos conceitos de verdade. Os indivíduos que a constituem a matrix representam a
maioria das pessoas que não possuem senso crítico e vivem confinados no mundo
irreal e faz disso sua realidade. Morpheus é o personagem que ilustra o papel do
filosofo, aquela seta que aponta caminhos e indica o processo de busca, que é iniciado
dentro de cada ser humano, em sua consciência despertada. Trinity representa o
amor, a via de acesso à plenitude humana, por meio da doação a uma causa suprema,
que também da sentindo a liberdade humana. O oraculo, referente a Grécia Antiga,
tem o papel de indicar novos caminhos, por meio de revelações sobre quem somos,
diante daquilo que julgamos saber sobre nós mesmos. Os agentes, homens vestidos
de preto, comandados pelo agente Smith, ilustram os elementos que lutam contra a
libertação da consciência da Matrix.

Se considerarmos a linguagem metafísica e dualista de Platão (luz/sombra,


ciência/opinião, essência/aparência), podemos afirmar que os prisioneiros são a
humanidade ignorante - no sentido de não saber, não conhecer. Em Matrix, eles são
representados pela humanidade prisioneira das máquinas tiranas.

As correntes que os retém são os hábitos retrógrados e nocivos (os vícios,


opostos da virtude) que, se não impede, ao menos dificulta o acesso ao conhecimento.
Em Matrix, as correntes também são nossos pseudo-prazeres, a rotina e ilusão de
realidade, resultado da "simulação neuro-interativa".

Uma vez que as sombras são as únicas coisas que os prisioneiros veem - não
possuem outros referenciais - é natural que acreditem nelas como sendo a própria
realidade - quando na verdade não são. Em Matrix, se você está sonhando e não
percebe, como pode saber que tudo aquilo não é realidade? "- Acorde, Neo. (...) Siga
o coelho branco".

O fugitivo representa o filósofo, aquele que tem acesso à luz - ao conhecimento.

O percurso até o conhecimento é ascendente e íngreme, assim como a


passagem que une o interior ao exterior da caverna. Da mesma forma que a visão
necessita de tempo para, de forma gradativa, assimilar as mudanças de tons claros e
escuros a que são submetidos os objetos quando passamos das luzes às trevas e
vice-versa; a compreensão e a aprendizagem demandam tempo, requerem um
período para adaptação. Em Matrix recorde o difícil processo de readaptação pela
qual Neo e todos os outros antes dele tiveram de se submeter.

Por fim, a Matrix representa a “caverna”, o mundo sombrio, repleto de


semelhantes aparências, mas que encobre a visão diante do Sol, que permanece fora
da Matrix, imperceptível aos interesses imediatistas do agir sem conhecimento
filosófico. Na alegoria, o homem ao sair da caverna também adquire novas ideias,
descobre o que é a verdade, sai do mundo puramente sensível, onde apenas se utiliza
a capacidade de sentir as coisas, e entra para o mundo das ideias, racional, adquire
a capacidade de pensar sobre as coisas. O filósofo é alguém que se propõe a “sair da
caverna”, alcançar a verdade e o conhecimento; entende o quão difícil para a massa
é sair da caverna, aceitar o novo, sair do comodismo do mundo puramente sensível,
para entrar para o mundo das ideias. Entretanto, ele tenta mobilizar as outras pessoas
a questionarem-se, a buscar a verdade e o conhecimento, tenta despertar nos outros
o desejo de saber mais. Tanto Neo quanto o homem que sai da caverna tornam-se
filósofos, pois são capazes de pensar sobre as coisas, passam a compreender e
buscar a verdade.